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Category Archives: edicao_0018

lista de artigos da edição 18, ano 4 – março & abril de 2009

É uma pena que a velocidade de geração de conhecimento e propagação da informação seja infinitamente superior à viabilização das mudanças que deveriam causar. A sociedade tende a inércia, uma frase clichê, infelizmente. De que outra maneira explicar que dez anos depois do Napster abalar a estrutura da indústria fonográfica, ainda não há um mercado consolidado de mp3s no Brasil? Enquanto o iTunes se torna um grande império, impulsionando inclusive a venda de audiobooks, aqui no Brasil os sites de vendas de música online geralmente não funcionam com outro navegador que não seja o Internet Explorer. E digo música online porque alguns não vendem mp3, e sim wma em qualidade de 160kbps, metade do que seria comparável à qualidade do cd. A tentativa das gravadoras de estancar o sangramento inevitável ainda deve perdurar. Nesse meio tempo, desperdiça-se o potencial das rádios digitais como canais de venda, e quiosques de mp3 parecem elementos de ficção-científica. Isso sem falarmos em e-books, por exemplo. Uma movimentação grande lá fora, e por aqui nenhum interesse em entender o formato, o que dirá comercializá-lo.

Além de uma inevitável migração do mundo físico para o virtual, e-books e mp3s sinalizam claramente que existe uma demanda não atendida pela indústria. O consumidor quer agora, quer escolher de dentro de casa, ouvir primeiro, levar música e livro no celular. O consumidor quer ver seus seriados no horário que decidir e não no horário estipulado pela operadora de TV a cabo. Uma palavra que talvez capture não o mecanismo mas a essência é interatividade.

Depois de estratégias diferenciadas de Beck, Radiohead e Prince, o nome da vez a arriscar é o Smashing Pumpkins. Ao invés de mirar no canal de venda, o grupo pretende atualizar o conceito de fã-clube e oferecer música e mídias para os fãs durante o processo de composição do novo álbum. A idéia é que os interessados paguem uma assinatura e durante doze semanas possam acompanhar as gravações e acessar fotos e entrevistas em vídeo, sabendo de antemão como será o novo som da banda.
Segundo Bill Coargan, o objetivo é criar um modelo de trabalho não lucrativo motivado por acesso e informação. A experiência de imersão virtual no estúdio servirá de inspiração para as músicas, influenciando diretamente no trabalho final.

O mais curioso é que o projeto só dará certo se os fãs tiverem interesse nos bastidores, por isso o grupo criará um mailing para analisar o potencial de procura. Se a demanda animar o vocalista, o preço cobrado será de $40 pelas doze semanas, com a promessa de pelo menos cinco atualizações por semana, de modo que o preço cubra por baixo 60 atualizações. O conceito de “tempo real” ainda não é certo, e o material deve entrar no ar até vinte e quatro horas depois de gravado, o que deve desagradar a alguns. A duração mínima de cada vídeo será de cinco minutos, o que levanta um aspecto relevante: interatividade não é sinônimo de espontaneidade. Se você vai cobrar pelo produto, é bom especificar tudo nos mínimos detalhes.

Apesar de não acompanhar de perto o trabalho do Smashing Pumpkins, espero que dê certo e siga a tendência de criação de conteúdo mais do que reality show. Acompanhar bastidores de gravação é uma ótima forma de minimizar a ansiedade entre um trabalho e outro, qualquer fã sabe disso, e se interatividade ainda é um conceito muito flexível dependendo do pacote, a sede por novidade parece não ter fim.

01. Mesmo com boa vendagem na edição anterior de Alma e Sangue – O despertar do vampiro, você passou por dificuldades e precisou mudar de editora. Geralmente, o escritor iniciante acha que um bom resultado é garantia de estabilidade dentro do mercado. Qual a sua visão do mercado editorial atualmente?

Publicar é só o começo, o escritor precisa ir além para entrar no mercado editorial. Para vender, aparecer diante do público conta bastante. Eu vejo o M.E. em crescimento constante. Quando lancei Alma e Sangue em 2001, não tinha idéia do mercado nem das editoras, eu queria lançar meu livro e lancei. Já em 2005 quando Alma e Sangue foi relançado, comecei incentivada por um fã a navegar pelo Orkut e outros sites, compreendi a dimensão do mundo editorial.

Desde 2001 tenho visto o surgimento de novas editoras, como é o caso da Tarja. Temos vários escritores se reunindo em edições independentes. Contamos também com o Fantasticon que reuni e divulga escritores novos e os já consagrados. Não chamo de onda, mas de um desenvolvimento natural da literatura nacional. Não vou reclamar, pois a edição depende exclusivamente do autor, da qualidade do texto e da persistência, por vezes de sorte, ouso dizer. Vejo jovens buscando uma carreira de escritor e sempre me pergunto se eles fazem idéia do quão persistentes eles precisam ser para continuar e se estabelecer.

Editei duas vezes o mesmo livro, e estou indo para a terceira, dessa vez com um projeto consolidado, apoio e estrutura. Alma e Sangue – O despertar do Vampiro será relançado em junho pela Editora Aleph, para preparar o caminho para a chegada de sua continuação, Alma e Sangue – O império dos vampiros ainda esse ano. Percebo o grau de persistência e paciência que precisei esse tempo todo para compreender e me adequar ao mercado editorial. Não existe caminho fácil.

02. A série Southern Vampires de Charlaine Harris, que foi adaptada para a TV no seriado True Blood, aproveitou a temática para tratar de preconceito racional, fanatismo religioso e outros temas pertinentes. Você faz algo similar em sua literatura?

Não planejei nada, foi tudo muito instintivo e necessário. Estava num momento difícil, deprimida. Havia acabado a escola e fiz vestibular para direito. Não passei, tentei um curso técnico e também não passei. Estava ociosa e frustrada com o rumo da minha vida, pois as coisas que dominava eram todas artísticas, balé, música e pintura. Foi assim que veio a fase que chamo de dominó. Ganhei a máquina de escrever, tinha tempo, a idéia do livro surgiu, mas não evoluía. Até que tive um sonho e ele mudou minha vida. Tinha uma boa historia para contar, o amor entre um vampiro e uma mortal. Foi o que contei.

O que veio atrelado à trama foram às diferenças entre ambos, as conseqüências trazidas por esse envolvimento. Ao invadir o mundo da mortal, o vampiro trouxe seus hábitos e inimigos. E Kara ao entrar na imortalidade foi tocada por eles. Ela se choca ao ser beijada nos lábios por uma vampira, por exemplo, pois é desse modo que eles gostam de se cumprimentar, mas logo se acostuma. Também trato de temas sérios como estupro e a violência contra a mulher, mas dentro do contexto da história. Quando terminei o livro I, acreditei estar contando a história de Kara, a personagem mortal, mas ao finalizar o livro II e mergulhar no III, compreendi que ela é parte de uma trama maior.

03. No livro você aponta uma relação entre a festa do boi bumba e o mito dos vampiros que é um dos grandes momentos do livro. Poderia comentar esse trecho?

Lembro-me de quando era pequena acordar de madrugada com o som dos tambores do bumba meu boi, do Tambor de Criola e do Carimbó, e até mesmo com o som dos terreiros de candomblé mais próximos. Em dias como esses as rosas dos jardins próximos desaparecem. São Luiz, aliás, o Brasil é muito rico em lendas e personagens. Nascer e crescer aqui traz sua parcela de culpa criativa. Claro, sabemos que temos a mistura das lendas dos nossos colonizadores e a dos índios, as trazidas pelos negros. Tudo isso junto fez nosso folclore e nos foi passado oralmente através das gerações mais velhas. Eu sempre vi a festa do Bumba Meu Boi como algo misterioso e belo. Eu não resisti e incorporei a tradição da festa no livro, conscientemente. O som durante a apresentação de um boi é eletrizante, matracas, tambores, as vozes, a magia por trás das cantorias. A lenda é cômica e trágica. A mulher de um vaqueiro esta grávida e desejando comer língua de boi. O animal pertence ao fazendeiro rico, mas para satisfazer a esposa ele mata o boi. Durante a morte do animal eles bebem vinho que é a representação de seu sangue. O Boi é ressuscitado com reza e pajelança e agora é imortal. Está tudo ali o desejo, a morte, o sangue e a ressurreição do animal. É praticamente o ritual de transformação dos vampiros. Foi irresistível colocar no livro.

04. Você acha que esse é um caminho para a criação de uma identidade nacional dentro da fantasia nacional? Pretende explorar outros mitos?

Sim, nos temos um folclore riquíssimo. Do mesmo modo que na Europa há lendas sobre vampiros e monstros, aqui temos lendas incríveis. Eu cresci ouvindo sobre elas. A mula sem cabeça, o saci, o Capelobo, Iara. Histórias estranhas de fantasmas e de mulheres que viravam gatos e peixes, homens virando boto. E mesmo com elementos de macumba e pajelança. Um mundo de únicas, todas nossas e à disposição da imaginação. Certamente dão um toque nacional a narrativa de qualquer livro.
E sim. Na continuação do livro Alma e Sangue, que vai sair por volta de setembro de 2009, trago uma passagem sobre A serpente Encantada, que segundo a lenda vive embaixo da ilha de São Luiz. Quero levar o leitor para as galerias subterrâneas, na Fonte do Ribeirão. Acho que eles vão gostar muito.

05. O sucesso de Crepúsculo fez até Anne Rice voltar a ser editada. É curioso pensar que essa geração que curte Bella Swan e Edward Cullen talvez não conheça Lestat, Louis ou Akasha. Que tipo de vampiro atrai o público hoje em dia? Você trabalha seus personagens pensando na aceitação do público?

Deixar de conhecer Lestat é a mesma coisa que deixar de conhecer Drácula. Ambos são ícones da mitologia vampiresca. É importante que os fãs de novas séries como Crepúsculo e outras que venham a seguir tenham curiosidade, há muitas histórias fabulosas por aí. Muito do que hoje se entende por romance de vampiro hoje em dia devemos à Anne Rice, por exemplo. Se gostar do tema, então tem de experimentar as várias vertentes dessa fonte rubra que é o vampirismo.

O vampiro tem um charme natural. Seja bonito ou careca como Nosferatu. A idéia da imortalidade sempre vai nos atrair como mariposas para a luz. E a adaptação desses seres ao nosso mundo é o mais admirável. É nela que o leitor encontra onde se agarrar. Eles não dormem mais em caixas cheias de areia, não temem cruz nem água benta, tomam banho, vão à escola e se apaixonam, sempre. Na verdade, a imortalidade de um vampiro depende de sua adaptabilidade. Cada vez mais eles andam de jeans e preferem sangue de animais ou mesmo sintético, como explorado em True Blood.

Os meus personagens já surgem prontos, sejam bons ou ruins. Vêm num pacote completo com nome, características, personalidade e caráter. Aparecem para preencher a trama do livro e felizmente o publico os aprova. Posso dizer que tenho muita sorte. Mas também recebo reclamações extensas como cada um deles. Meus leitores são exigentes, por isso me exijo também.
O importante é que, sejam cruéis e lindos como o Lestat, interpretado no cinema por Tom Cruise, ou eternamente adolescentes como Edward Cullen, os vampiros demonstram sua força nos seduzindo há séculos e outros séculos virão na companhia desses seres maravilhosos.

06. Como a Internet influencia a produção de um escritor e sua relação com os fãs? Os escritores de hoje sabem aproveitar o potencial da Web?

Os blogs são uma ponte única entre o fã e o escritor. Deixo quase sempre posts no meu e a resposta ao texto é imediata. A web aproxima, faz as notícias chegarem mais depressa. Gosto de receber os e-mails e recados dos fãs, mas meu texto não está submetido aos seus desejos. A história segue seu curso natural, as alterações só seriam realizadas se o desenrolar da trama exigisse. Tenho um leitor que sempre me pede para que Kara fique grávida. É pena não poder atender sua reivindicação. Na minha mitologia os vampiros não se reproduzem, pelo menos não através de sexo e sim por contaminação sanguínea.
Acredito que o escritor tem conhecimento da Web, mas alguns talvez não saibam como usá-la adequadamente. A Web é um espaço gratuito de divulgação, que se bem direcionada atingirá e ampliará o publico de seu livro. É um espaço democrático.

07. Você pode adiantar alguma coisa sobre Alma e Sangue – O Império dos Vampiros?

Em Alma e Sangue – O Império dos Vampiros, o leitor vai finalmente descobrir o que realmente aconteceu com Kara no final do livro I e mergulhar de cabeça na mitologia que criei para tratar de suas regras e organização. Eles estarão presentes em maior quantidade, mostrando suas leis e conflitos, os interesses que os movem, como nos observam e se mantêm escondidos. Haverá momentos de muita tensão e perigo tanto para a vida de Kara como para de Jan Kmam. O rei Ariel Simon estará bastante presente nesse volume, e o amor entre Kara e Jan vai ser posto a prova várias vezes. Enquanto ele não chega, acho que os fãs vão gostar de reler o primeiro livro também. Ele passou por uma ótima revisão, está mais leve, ganhou cenas novas, novos pontos de vista e algumas pequeninas alterações que, já adianto, não mudaram o rumo da historia. Quem já leu só terá a gostar.

Tripalium

Esculturas e objetos de Miguel Simão

Espaço Cultural 508 Sul
Galeria Parangolé
Brasília-DF

Tripalium

Espelhos Irreais é o primeiro projeto em papel do coletivo de autores Fábrica dos Sonhos. Lançado pela Multifoco, reúne contos de cinco autores, indo da fantasia à ficção. Como toda coletânea, tem seus pontos fortes e fracos, mas no geral o resultado é positivo. Não sou um leitor típico de fantasia clássica. Ao mesmo tempo em que me permito fechar os olhos para as fórmulas de humor da fantasia urbana e gêneros que exploram a ambiência contemporânea, acabo sendo mais exigente com mundos populados por elfos, anões e criaturas similares. Por não ter uma identificação imediata com os personagens, preciso ser convencido pela história, buscando a empatia com a escrita e o escritor e voltando no tempo, quando a fantasia era mais do que uma guerra de anões e tratava de uma batalha interiorizada, mesmo que calcada nas alegorias e contornos épicos que marcaram as grandes obras do gênero.

Espelhos IrreaisLogo no primeiro conto, Aguinaldo Peres foi contra todo esse espírito de grandiosidade que eu estava procurando e mesmo assim me arrebatou dede a primeira página, uma surpresa e tanto. Qualidades da história à parte, o ponto que merece o elogio é a qualidade da escrita. Os Três Trílios é um texto de frases bem trabalhadas, sem carregação de adjetivos, o tipo de conto que é eficiente sem arriscar manobras e pendurar enfeite onde não precisa. Como dizem, escrever fácil é difícil e foi o que o Aguinaldo conseguiu. É um resgate de fábula, com direito a homens comuns se tornando reis e combatendo preconceitos ancestrais em nome da felicidade. É dividido em duas partes. A primeira com os acontecimentos bonzinhos que conduzem à prosperidade do reino, e a segunda com o filho do rei enfrentando alguns revezes por se apaixonar por uma bruxa. Outro elogio válido, os personagens fogem do preto no branco. Nem tudo que a fada pensa é correto, nem tudo que a bruxa faz é errado.
A crítica fica por conta da distribuição das partes. O começo é muito longo, o que roubou um espaço precioso do final. Mesmo acabando no susto, é um dos que merece atenção especial.

“Diferente do tempo humano que é o mesmo para todos os seres, no Reino das Fadas o tempo é individual, cada criatura vive dentro da sua própria bolha de tempo e tem o seu próprio ritmo. Mas mesmo nesse caos existem regras: a velocidade do tempo é inversamente proporcional ao estado de espírito do indivíduo”.

De mesma força, mas explorando estrutura e narrativa distintas, Ana Cristina Rodrigues nos leva para 1488, numa conversa entre Felipe, que é neto de Carlos da Borgonha, e Olivier de La Marche. Felipe está chateado com o que anda ouvindo sobre a morte do avô, abandonado pelos soldados no campo de batalha, e quer saber se o que dizem é verdade. Exatamente pela autora ter um doutorado em História Medieval, havia me preparado para uma seleta de referências e datas que podia ou não dar certo, mas depois que passa a fase de ambientação, o conto dá uma excelente guinada, consistindo em outra boa surpresa de Espelhos Irreais. A carta na manga, como não poderia deixar de ser, ó tolo resenhista, é a fantasia. Para salvar o sorriso de Felipe, La Marche transforma a morte de Carlos da Borgonha numa história repleta de seres fantásticos, uma busca pela fênix. O duelo fantasia versus realidade de A Morte do Temerário trabalha com ingredientes similares aos de O Labirinto do Fauno, mas enquanto no filme o duelo é utilizado como autodefesa, ou seja, vem de dentro para fora, aqui ele flui de fora para dentro, nas palavras gentis de La Marche, que infelizmente não pode atenuar as próprias lembranças. Outro ponto alto.

“Saiba, meu jovem senhor, que das armas da guerra a mais desonrosa é a calúnia. E dentre as injúrias infundadas, o pior tipo é o que ofende os que já faleceram. Mas a verdade deve sempre aparecer, e irei contá-la a você. (…) Carlos estava a muitos dias de viagem de Nancy, em peregrinação, na busca por um tesouro que o transformaria de direito no maior dos príncipes, o que ele já era de fato”.

Bothu e o Elfo Negro, de Roderico Reis, cai no ponto que comentei no início. Não gostei nem desgostei. Pelo título fica evidente que um elfo terá papel central e provavelmente será o inimigo a ser derrotado. A trama em si é bem construída, mas nem história nem personagens fisgaram a minha atenção, provavelmente por o autor depositar suas fichas em uma virada de trama mais para o final, quando poderia ter distribuído mais surpresas pelo texto. Não é preciso colocar o mundo em jogo (péssimo hábito do seriado Heroes, por exemplo), mas o caminho do herói precisa ter uma relevância que transcenda o drama do próprio personagem, e não tenho certeza se Bothu terminou o conto diferente de como começou. Só para não passar em branco, Bothu encontra tempos depois o responsável pela morte de seus pais e tem a chance de fazer algo para compensar a sua suposta covardia na infância. Sobre o texto em si, fica o conselho de tomar cuidado com repetições de palavras. Pode ser que leitores mais afeitos a esse tipo de mitologia aproveitem melhor do que eu.

“Uma grande luz brilhava. Uma luz amarela, forte como uma estrela. Estava a uns cinco metros dele e o fitava. Tinha a forma de um homem, um homem feito de luz”.

Prelúdio, de Daniel Gomes, é o conto mais fraco do livro, por pura falta de fluência, o que só vem com a prática. Faltou trabalhar a construção de frases e pensar melhor as formas de passar imagens para o leitor sem rubricar tanto o texto com detalhes e movimentação de personagem. Esse trecho fala por si só:

“Antes que pudesse chegar mais perto, uma espécie de parede invisível ficou entre ele e o andarilho, cortando o chão com uma profundidade de 10 cm. Quando a poeira se dissipou, lá estava Germano empunhando sua espada com a lâmina voltada para o chão. Com um movimento rápido, colocou a espada em horizontal…”

Fechando o livro, A Gênese de um Novo Mundo traz uma ficção-científica. A história é mais ou menos a seguinte: nosso planeja já era. O pouco que restou dividimos sem critérios de igualdade. Quem é rico leva a melhor parte e o resto você já sabe. Porém, a potencialização da miséria e a situação limite de sobrevivência não nos impediram de continuar procurando um futuro lar. Quando um planeta supostamente habitável é encontrado, é hora de decidir quem serão os escolhidos para populá-lo. E aí entram os protagonistas. Alissa tem na ascendência filósofos, pesquisadores, uma árvore genealógica de alto intelecto. Ela é tratada como uma espécie de Virgem Maria. A mulher que dará o primeiro fruto. O pai da criança será o homem do dinheiro, que patrocinou boa parte das pesquisas que levaram à descoberta do planeta. Um vilão típico. Fechando o triângulo, um jovem órfão apaixonado que quer salvar Alissa de seu destino cruel, mas não é visto de jeito nenhum como um possível progenitor. O ponto forte do conto é a voz de Ana Carolina Ramos. Passado os primeiros parágrafos que são tortuosos até para autores experientes, ela encontra seu estilo narrativo e consegue jogar com a apresentação de personagens e ambientação sem cansar o leitor. É interessante a percepção de que o drama deve vir na frente da maquinaria, do futurismo e da purpurina, fugindo assim de uma armadilha comum na literatura fantástica. A ressalva fica para a construção de personagens, que se encaixam muito rápido nos arquétipos de herói, mocinha, vilão e bom velhinho. Pensar nas tonalidades cinzentas é sempre uma boa pedida.

“A possibilidade de colonização de Alfa-Neo-Gaia foi amplamente divulgada, gerando uma comoção mundial. Alguns não gostariam de deixar a Terra, mas outros desejavam fervorosamente a chance de recomeço. Inicialmente, apenas 250 pessoas seriam escolhidas para a colonização. Quanto a esses pioneiros, todos os favores políticos e influências foram utilizados para que seus lugares fossem garantidos”.

Espelhos Irreais
Organizadora: Ana Cristina Rodrigues
Editora Multifoco.

A exposição coletiva de grafismos, na Monica Filgueiras, complementa o que eu disse no último artigo, sobre a maneira de Marcelo Zocchio (em exposição na Vermelho) ser realista.

Aqui também os artistas representam a representação, e aqui também essa representação representada traz um afastamento, um mal estar em relação ao que seria um referente real – se é que dá para usar, ainda, tais termos.

Na Monica Filgueiras são números, letras, linhas escritas de um texto que não existe de fato, que apenas dá a impressão de ser um texto. Cinco artistas e 23 obras.

Se ainda estivéssemos no modernismo, receberíamos essas obras com a assumpção de que seu significado nos é ocultado por alguma espécie de código, uma simbologia que nos exclui mas que, sim, existe. Em termos formais, seria uma reação à superfície da tela, à perda da narrativa e da profundidade que a arte da época experimentou. Descrevendo a situação o ponto de vista do receptor: Sim, isso daqui (a obra) é tinta sobre tela (ou seja lá o que for sobre o suporte que for) mas esse número/letra recupera um mistério, uma profundidade e uma história que não mais são possíveis no momento em que que sou obrigado a me manter na concretude e superficialidade da tela. Em termos não mais formais mas diagéticos, seria ainda um resto de esperança de transcendência. Assim: Esse número/letra que não entendo não me assusta pois acredito que está tudo certo no mundo, e que há uma ordem superior açambarcando tudo que vejo e vivo. Esse número/letra faz o maior sentido, mesmo que esse sentido  me escape porque, ser inferior que sou, não estou apto a participar dessa epifania.

Os códigos da vinci correm na verdade lá atrás. Fazem parte de um momento histórico já sedimentado, e anterior, ao dos que cavocam, arduamente, o caminho.

Em uma possibilidade ainda não tão difundida de um “hoje”, você não veria números e letras como parte de uma organização existente – e excludente.

Você vê como sem sentido mesmo.

Mas essa recepção, ao mesmo tempo que nega um significado, oferece outro, a partir mesmo dessa negação.

O significado é a ausência de significado. O significado é a ausência de um significado de um mundo que perdeu não só a transcendência, como também a imanência. Obsoleto no momento mesmo do presente. É esse o realismo desses grafismos. É essa a representação realista que eles não dão, do mundo como ele pode ser hoje apreendido.

Os artistas:

Gilberto Guimarães Bastos - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Gilberto Guimarães Bastos nos convida a um joguinho. Tentamos acompanhar, como nos clássicos testes de raciocínio matemático, as leis que regem suas sequências de números. Mas é irrelevante se há ou não tais leis por trás da organização numérica de seus quadrinhos. O olhar do fruidor não se mantém pelo tempo necessário para descobrir isso. Traz para a galeria a perplexidade de quem olha cenas da rua, igualmente incompreensíveis. Ou não importantes, de quem passa e esquece.

O olhar para a obra do Ozi repete esse estar na rua, até porquê ele usa materiais de artistas de rua.

Mira Schendel - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Mira Schendel ainda  tem uma formação mais tradicional de símbolos, como o do número 1.

León Ferrari - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

León Ferrari traz uma escrita em que nada está de fato escrito, mas que se escreve mesmo assim, inculcando sua fragilidade de linhas tortas e finas, sua inutilidade que insiste, que sobrevive. Um estar no mundo feminino ou marginal – os grupos não vistos, os que sobrevivem.

Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Raquel Kogan tem uns videozinhos em que palavras como “rever” e “reter” passam da esquerda para a direita ou vice-versa (em um “tanto faz” muito bom). Passam no total silêncio da galeria, para um nada/ninguém que nos inclui. E é dela também uns livrinhos de que gostei muito. Em evanescente tinta branca sobre fundo preto, as letras que não são letras somem. Ou, ao contrário e igualmente, estão inscritas a fogo, em uma permanência que vira o fio, pois no buraco aberto na página, elas na verdade não existem, são exatamente isso, um buraco. A artista usa um pirógrafo que fere, fura o papel pequenininho e irregular que, nos diz a assessoria, é feito a mão a partir de uma planta do Nepal. Mais fragilidades, inutilidades, efemérides em seu sentido etimológico e vernacular de acontecimentos efêmeros – ao mesmo tempo.

Kogan faz eco a Zocchio, que também fere seu suporte nos seus baixos relevos de estilete.

E Zocchio faz eco a esse grafismo todo, ao apresentar em tamanho grande os títulos tão sem sentido de suas obras (o nome, sempre um composto absurdo de números e letras, que é o nome dos objetos teconológicos que ele representa em suas obras). Os números e letras na sala da Vermelho são bem maiores do que as obras a que se referem. A dizer que quem lê, sem ler, CK3UX é quem de fato apreende o sentido dessa arte.

Há livros que leio e filmes que vejo que não tenho vontade de resenhar. Alguns pelo pouco a se dizer, outros por um egoísmo que me toma de não quere dividir as impressões que a obra me deixou, como se ao resenhar e racionalizar parte do encanto pudesse se perder. Fiz isso com Labirinto do Fauno e pouco me lembro da história, mas preservo ainda um pacote complexo de sensações importante para analisar outros livros e filmes. Por mais apoio teórico que tenha um crítico, e aviso desde então que o considero fundamental, opiniões se formam com as marcas na retina, em algum ponto perdido das sinapses.

Valsa com BashirO escuro do cinema não serve apenas para engrandecer o filme (já que por maior que seja a tela ela perderia em plenitude para o conjunto da obra), ele oculta os elementos dispersivos e, principalmente, propicia o ambiente ideal para a transição. É ali, quando a luz se apaga, que começa o abandono do mundo externo, e o espectador passa a se despir de suas próprias histórias para absorver as de terceiros. Concordo que os eternos comerciais não ajudam muito. Funcionam quase como o tratamento de Alex em Laranja Mecânica, os olhos presos com grampos para que não possamos desviar da imagem. Mas passada a obrigação e com sorte uns bons trailers, cabe ao diretor e sua equipe dar os primeiros passos a caminho do total desligamento. A abertura não é só o momento de mostrar os patrocinadores e o nome dos atores. Há ali pequenos truques de som e imagem, uma tela preta ou colorida, a transformação do logotipo da empresa, que anunciam ao espectador a entrada na nova realidade.

Pergunto-me ali na escuridão o papel dos bastonetes. São eles que funcionam no escuro. Que ajudam o atrasado a chegar ao seu lugar quando o filme já começou. Precisam de muito pouca luz para captar a imagem. Mas essa vantagem felina os aprisiona em mundo sem cor. Os bastonetes vêem tudo cinza, repleto de tonalidades, é verdade, mas nos trazem informações desprovidas do colorido e por isso obrigam o cérebro a decodificar as emoções de outras maneiras, através de outros códigos, pois não tenho como pensar que uma maçã assim seria sem o seu vermelho. Essa profusão de cores que tanto simboliza é responsabilidade dos cones, células totalmente dependentes da luz para possibilitar o aproveitamento e posterior interpretação do que nos marca a retina, estando o entendimento perdido em algum ponto entre o instinto e a razão.

Valsa com Bashir começa com cães raivosos e cinzentos de várias espécies correndo pela rua. Eles vêm cegos de ódio, sem um alvo definido, como se o próprio ódio lhes bastasse. Os dentes, obviamente, estão arreganhados. Há o som, os ruídos, a integração dos sentidos para alertar que a segurança da cidade será revolvida pela matilha. Os cães passam por diversas pessoas sem nome. Ainda não há um chão para o espectador, apenas latidos e há necessidade de decidir em que se agarrar, para quem torcer, saber do que fugir. Toda vez que cruzam os bares ou pedestres, nasce a espera do ataque. O perigo é iminente mesmo quando o inimigo não está visível seja aos olhos ou à lógica. É evidente que não é seguro, aqueles cães tudo podem, as vítimas não teriam como se defender. Algumas correm para dentro dos bares e casas e sem as pessoas os cães derrubam mesas e cadeiras. Não vêem nada à sua frente. Fica a vontade de gritar, de saber afinal qual é o destino da matilha, pois ao conhecer o alvo saberíamos que o resto é caminho. Mas um homem cai, um cão pára, existe a tensão. Sem o ataque, é fato, mas com a clareza da possibilidade, de que a qualquer momento, sem qualquer razão aparente, os cães podem parar de ladrar e de fato morder, que a qualquer momento as ameaças de uma guerra podem se tornar reais e esse é um antes e um depois muito distantes entre si, que não se separa por segundos, mas pela evidência da morte. E nessa corrida rápida que mescla um tanto de percepções e esvaziamentos, mais e mais cachorros se unem a matilha até chegarem a um total de vinte e seis, pararem na portaria de um prédio e começarem a latir. Enfim, um homem, lá no alto, aparece na janela, olha rapidamente para os cães e some. É o primeiro personagem a estar de fato protegido, olhando-os de cima para baixo, com o distanciamento amenizando o fato de ser o alvo, ele e mais ninguém.

É um sonho que tem todas as noites. Os cães vêm, correm, derrubam e param embaixo de sua janela. Vinte anos depois da guerra e da profusão de imagens captadas por cones e bastonetes o cérebro deu seu jeitinho de dizer que aquelas lembranças continuariam lá e que não se pode simplesmente enterrar eventos da dimensão de uma guerra como se não tivesse ocorrido.

Mas não é ele o personagem principal, é apenas o estopim, o começo de tudo. É ele que chama um amigo no meio da noite para conversar sobre o pesadelo. E esse amigo, que também é personagem, diretor e ator, se dá conta de que não se lembra de quase nada de sua participação na guerra. Lembra-se dos momentos de folga, mas o perigo em si, ele apagou. Ficou apenas uma memória, uma cena-chave, lindíssima, que amplia o encanto do filme. O protagonista está nu com três amigos na praia, é noite. Sinalizadores amarelos iluminam o céu da cidade destruída. Se há sinalizadores, há soldados, haverá invasão e morte. Eles vestem suas roupas na areia. O protagonista entra na cidade e dezenas de mulheres vestidas de preto correm em sua direção. É difícil não sofrer o impacto da imagem, a quebra do negro e dourado da noite, contrastando com o branco pálido do dia, é difícil não captar o medo das mulheres correndo quase sem movimento graças a captação em Flash, suas expressões beirando o bidimensionalismo, mas profundas no sofrimento que trazem no peito, que no documentário-desenho é mudo, no documentário-verdade, ensurdecedor. E o mais mágico de tudo, se é que há algo de mágico na guerra, é que essa lembrança bela como uma pintura e que move todo o filme é falsa, uma memória construída.

Valsa com Bashir é um documentário israelense sobre a participação do país contra o Líbano, que lá pelas tantas culminou com o massacre vergonhoso de palestinos refugiados, lembrando deveras as práticas nazistas. Seu ator, protagonista e diretor, Ari Folman, ao perceber que não se lembrava do que havia vivido no período, começou a entrevistar conhecidos que também participaram da guerra, além de um médico ou dois. Levou anos para captar o dinheiro, captou pouco, mas suficiente para ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro, ganhar o Globo de Ouro, 6 Ophirs em Israel, e conquistar mais um par de prêmios no percurso. A beleza de Valsa com Bashir está na desconstrução da história através da reconstrução da memória. A fragmentação da farsa pela recuperação do fato. A farsa, não necessariamente histórica, mas a que criou para si mesmo. Faz isso com uma linguagem lenta e agoniante que protege nos jogos de cores, terminando explícita, nua e crua, quando o quebra-cabeça se completa.

A racionalização do quebra-cabeça e os meandros da trama, se me permitem, eu vou pular. Mas o Google está aí cheio de detalhes para quem quiser saber. Pessoalmente, aconselho uma ida ao cinema.

Marcelo Zocchio expõe muita coisa na Vermelho, mas eu fico com as 12 representações de objetos tecnológicos, sanduichados em acrílico e montados com folhas de papel escavadas.

Esses objetos representados são objetos que produzem representações – de sons, dados, texto. Impressoras, dvds, hds etc.

Marcelo Zocchio - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br Marcelo Zocchio - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Portanto, objetos que representam objetos que representam representações da cultura. O acrílico – que os separa do seu entorno – estabelece mais um eco desse jogo de representações, uma vez que sua transparência é modificada pela sua espessura, tornando-se quase um espelho duplo: de quem está na frente e do que está atrás.

E fico pensando nessa sinuca de bico que a arte enfrenta desde que o mundo é mundo – o realismo.

Há mais um detalhe nessa sala de Zocchio. É que, como os papéis são escavados, feridos assim em uma espécie de baixo relevo, o artista também insere, nesse seu pensamento sobre a representação – e sua obsolescência imediata – um viés perverso, de violência.

Mas vamos à obsolescência. E à imanência.

E a Gerhard Richter.

Esse artista do século XX pintava, como se sabe, fotos. Ele pegava fotos – portanto, objetos que continham uma representação – e representava esses objetos em pinturas hiperrealistas. Mas eram fotos fora de foco.

Aqui, são impressoras fora de uso.

Então, o que ambos os artistas nos dizem é de uma excelência artística – é perfeitamente possível haver realismo em arte – que se exerce a partir de um mundo não excelente: fora de foco, se você preferir o registro espacial (o de um referente que está sempre um pouco mais, ou menos, distante do ponto para onde você dirige o seu olhar), ou fora de uso, se você preferir o registro temporal (o de um referente em perene mutação, que só consegue ser apreendido quando já morreu).

Então, há um conceito, que é o da representação realista, aplicado sobre significantes cuja existência real nos foge. Com isso, seu valor de símbolo se torna necessariamente denunciado. E, por causa disso, seu valor de transcendência também vai para o ralo. Então, qual a imanência a que me referi antes?

A da violência. Ao representar um representante de um representado falho, Zocchio ainda mais do que Richter, nos diz que o que fica, o que se mantém para além da vida útil de uma impressora e dos textos que porventura ela reproduziu, é o papel escavado de sua obra. O que fica é a dor inculcada pela inutilidade da passagem. O que fica, como sempre, desse caminho de ida frustrado do conceito para o objeto ideal para o referente real, é o caminho de volta, que é a arte.

Ah! Nas paredes dessa sala de Zocchio estão inscritas as letras e números dos nomes crípticos desses aparelhos obsoletos que ele representa. As letras e números, pelo tamanho e posição, são, por si, uma obra artística também.

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Mas de letras e números falo na parte II dessa reflexão sobre os caminhos do realismo em tempos de cólera.

A OPELF, Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica, começou dia quatro de abril sua maratona de palestras e eventos que ajudam a movimentar o cenário de fantasia e ficção-científica no eixo Rio-São Paulo. Depois de uma palestra de Janaína Azevedo sobre literatura fantástica (que não tive a oportunidade de acompanhar), o clima esquentou com uma mesa-redonda reunindo Ana Cristina Rodrigues (AnaCrônicas), Fábio Fernandes (Interface com o Vampiro e A Construção do Imaginário Cyber), Cristina Lasaitis (Fábulas do Tempo e da Eternidade), Roberto de Sousa Causo (A Corrida do Rinoceronte e Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil) e Gerson Lodi-Ribeiro (Outros Brasis e Crônicas – Taikodom). A OPELF trouxe algumas novidades tecnológicas como entrevistas em vídeo, trailers de livros de novos autores e depoimentos gravados para uma homenagem surpresa a Gerson Lodi-Ribeiro. Segundo Horácio Corral, organizador ao lado de Janaína, a parte tecnológica saiu ligeiramente Steampunk, mas tende a melhorar nas próximas edições. Notebooks só perdem para Datashows na hora de deixar seus donos na mão, o que me lembra de uma das definições de ficção-científica: gênero onde os equipamentos nunca dão defeito nem travam no momento mais importante.

Sobre os temas, houve um frescor nas respostas, mas talvez seja hora de pensar novos questionamentos. Gostei muito de não terem levantado a bandeira do preconceito contra a literatura fantástica (chega disso) ou da simplificação do mercado deficitário brasileiro. Existe um público leitor, senão 1808 não superaria 300 mil cópias vendias, O Filho Eterno do Tezza não chegaria em 10.000 cópias e os livros de André Vianco não sairiam com tiragem de 25.000 exemplares. A pergunta essencial é como chegar até ele e despertar seu interesse por esse nicho específico (fugindo dos arquétipos do nicho, quem sabe), o que de certo modo foi abordado de pontos de vista diversos.

Roberto Causo lembrou que a ficção-científica teve seu momento no país com Sputnik e as armas nucleares servindo de combustível para o interesse, mas que a interrupção da produção por alguns anos minou a oportunidade de se gerar um mercado ou mesmo dados estatísticos suficientes para entender as singularidades desse mercado. Um editor na platéia comentou que não há uma fórmula mágica e é impossível dizer que todo clássico venderá ou que todo livro de ficção-científica tende a ser um fiasco de vendas. É preciso gerar números e criar ferramentas de análises. Como bem colocado por Horacio Corral e Ana Cristina Rodrigues, o fato é que nosso mercado não funciona como o dos Estados Unidos, e isso vale tanto para a dinâmica de consumo quanto para a formação de público leitor, que não contou com as revistinhas pulp responsáveis em grande parte pela disseminação do gênero.

Todos os participantes parecem concordar que é necessário manter a qualidade acima de tudo e acreditar no que se escreve, fugindo das fórmulas do mercado de massa. Como disse Cristina Lasaitis, um bom livro não é sinônimo de vendas, e por mais que tenhamos grandes nomes nacionais pavimentando o caminho até os dias de hoje, eles não foram suficientes para despertar o gosto pelo gênero na geração que os acompanhou. Um pensamento geral parece ser não pensar no público leitor enquanto se escreve, sem se privar, porém, de oferecer o melhor de si. É o paradoxo do egoísmo levantado por Bjork: quanto mais egoísta for o artista na hora de criar sua obra, mais o público agradecerá.

Ainda nesse tema de formação de público, foi importante a participação de Gerson Lodi-Ribeiro. Uma das mentes por trás do RPG Online Taikodom para múltiplos jogadores, lançou no mesmo dia o segundo livro da coleção Taikodom, que explora o cenário do jogo na literatura. Ninguém espera que todos os jogadores venham a comprar o material extra da série (também serão lançados HQs), mas a existência de um público potencial vindo de outras mídias certamente trará bons dados para o debate. É muito comum no mercado estrangeiro que jogos e RPGs originem séries literárias de sucesso, Warcraft e Warhammer estão aí e não me deixam mentir.

No mais, vale ressaltar a importância de eventos desse tipo para o desenvolvimento da literatura fantástica no país. Logo no começo, houve comentários gerais de que os rostos são sempre os mesmos. Que sejam. Pelo que venho acompanhando nos últimos anos, parece que há uma tendência a apreciar mais os eventos com a presença de outsiders do meio. Valorizo pela oportunidade da pluralização de olhares, o Nelson de Oliveira no Invisibilidades 2008 é um ótimo exemplo, mas que não se perca o foco na hora de analisar a relevância. O mainstream sabe fazer de cada uma dessas datas uma grande reunião de conhecidos sem deixar de enxergar o lado profissional. Se os autores de literatura fantástica não souberem fazer o mesmo, a estagnação permanecerá.

Sou fã assumido de Mike Leigh. Fiz meu trabalho final de linguagem cinematográfica em cima de Segredos e Mentiras e desde então presto uma atenção especial no que ele produz. Foi nos extras do DVD que descobri o processo criativo peculiar desse roteirista e diretor de cinema e teatro. Mike Leigh primeiro escolhe seus atores e depois senta decide e desenvolve os personagens junto com eles. A partir daí, constrói o já tradicional passado que funciona como base para a atuação e aproveita para desenvolver o presente e dar uma esticada no futuro. Um panorama completo. Feito isso, determina que recorte desse presente aproveitará para escreve o roteiro. É hora então de reunir os atores e pensar nos pontos de encontro e nos diálogos.

Não me arriscaria a dizer que é um laboratório, mas certamente o improviso é peça importante da criação e consegue dar frescor às obras de Leigh. Seja em dramas ou comédias, é muito fácil se identificar com os personagens e encontrar semelhanças entre seus dilemas e os nossos. Se há uma assinatura do diretor, me arrisco a dizer que é essa, o trabalho para manter a atmosfera de veracidade e utilizar a linguagem tornando-a imperceptível.

Em Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky) , a protagonista é Poppy, uma professora de jardim de infância extremamente feliz disposta a colocar um sorriso no rosto de todos. O modo como conhecemos Poppy é essencial para entendermos sua personalidade. A personagem desce a rua andando de bicicleta, sorriso no rosto, acenando para todos, até chegar ao seu destino. Prende a bicicleta em uma grade com o cadeado e entra numa livraria que ainda não conhecia. O primeiro livro que puxa tem um título como “o caminho para a realidade”. Poppy sorri e avisa: “nunca vou querer ler esse aqui”. Passeia pelos corredores, espia um da seção infantil e tenta estabelecer contato com o vendedor, mas o sujeito é sério demais. Quando vai embora, sua bicicleta foi roubada. “E nem pude me despedir”, diz, voltando para a casa a pé.

Se você tem um humor mais ácido, é cínico e gosta de ironias, deve estar pensando que Polyanna basta uma na vida. Pois não se preocupe, Poppy é bem mais estruturada do que parece. Boa parte do sucesso da personagem se deve à total dedicação da atriz Sally Hawkins, que também trabalhou com o diretor em Agora ou Nunca e em Vera Drake. Hawkins consegue entregar ao espectador alguém factível, que no desenrolar do filme vai recebendo finas camadas de complexidade, indo da ingenuidade que a expõe ao perigo potencial à força interna que permite a reação diante do inusitado. Talvez seja essa pseudo-abertura o elemento de suspense do filme, pois uma personagem frágil pode ser atacada a qualquer momento. Não são poucas as pessoas a invejar e tentar destruir a felicidade alheia, e o roteiro trabalha isso de maneiras diversas. Como as cenas abrem espaço tanto para a alegria quanto para os desamores, sabemos que os problemas virão de alguma forma. Além disso, é necessário um contraponto para mover a história e fazer os personagens evoluírem. É parte da equação do apresentar, confrontar e resolver.

Fica então a pergunta: qual seria um desafio a altura de alguém de humor inabalável? Simples: um professor de direção (ou você achou que a bicicleta tinha sido roubada à toa lá no começo?). Poucas situações são mais enervantes do que tirar carteira de motorista. O caso de Poppy é um pouco pior. Para se ter uma idéia, na metodologia de memorização o instrutor apelida os três espelhos do carro pelo nome dos três anjos caídos (que eu não lembro, mas Lúcifer é referência suficiente). Um pequeno inferno com o sorriso de Poppy do lado. Para complementar a paleta de cores, Poppy também precisará lidar com o comportamento arredio de um de seus alunos. As crianças do filme, muito bem utilizadas como ponto de trama, servirão para alimentar a discussão em torno do aspecto da ingenuidade e do que realmente significa ser adulto.

Como dito, sou suspeito para falar do diretor, mas as risadas dos demais espectadores foram consideráveis.

Em tempo 1: sobre os elementos de linguagem imperceptíveis, faço aqui papel de advogado do diabo. Simplesmente Feliz trabalha um código de cores que salta os olhos e a trilha sonora também é peça fundamental.

Em tempo 2: O filme ganhou 20 prêmios e foi nomeado a mais quatorze, incluindo Oscar de melhor roteiro. Sally Hawkins ganhou o prêmio de melhor atriz no festival de Berlim.

Em tempo 3: Em Segredos e Mentiras havia uma particularidade bônus: Mike Leigh não deixou que as protagonistas se conhecessem até a cena em que as personagens se encontram. O resultado é impagável e a cara que as atrizes fazem vale o filme inteiro.

O Centro LABAN-Rio e a Casa da Glória apresentaram nos dias 03 e 04 de abril de 2009 o Ateliê Coreográfico no espetáculo Cidades Furtivas, uma idealização de Regina Miranda, que conta com a direção da mesma e com a colaboração de Adriana Bonfatti, Ana Bevilaqua, Camila Fersi, Elisabete Reis, Lourival Prudêncio e Marina Salomon para a realização do projeto.

Através da construção de um diálogo entre a obra Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, e O Jardim das Delícias, de Bosch, a proposta de Regina Miranda é muito bem sucedida à medida que consegue criar um ambiente que integra o movimento, o caos, a desordem e a fragmentação próprios das grandes cidades, aos sentimentos humanos mais complexos e profundos, como a loucura, a volúpia e o desconcerto instaurados pelo ritmo acelerado da vida moderna.

O grande diferencial fica por conta da forma como essa associação de idéias é oferecida ao público. Espalhados estrategicamente pelo espaço da Casa da Glória, bailarinos/atores compõem cenas, por vezes solitários, por vezes em conjunto, que vão sendo observadas pelo público conforme sua caminhada. Ou seja, pelos cantos do jardim, pela área da piscina, num quintal mais reservado ou numa escadaria, os artistas são posicionados e cada um, solitariamente, ou cada grupo, independentemente do outro, representa seu papel. Bem como acontece na nossa vida. O individualismo crescente num mundo em que as pessoas cada vez mais se isolam é explorado de forma perturbadora. E não é só isso. O público, enquanto caminha, pode observar os gestos, as falas, os movimentos corporais e assim vai percebendo as angústias e os desejos de cada personagem, que afinal de contas, se complementam e se dissociam num piscar de olhos, fazendo dessas “miradas nômades”, como define Regina Miranda, uma estratégia de observação que propõe reflexões sobre situações corriqueiras e efêmeras, mas de grande intensidade. São como fragmentos complementares que aos poucos se unem no imaginário do público, formando infinitas possibilidades de interpretação, suscitando uma série de indagações sobre a vida, a sociedade e o mundo. Além disso, há ainda a possibilidade de poder eleger o ângulo sob o qual se vai observar uma cena, já que da janela do piso superior, do jardim ou das escadarias, é possível ver o que acontece na piscina, por exemplo. Essa possibilidade de não só observar o comportamento e os sofrimentos dos bailarinos/atores, mas também de escolher o ponto de vista, aponta claramente para a vigilância contínua a que estamos submetidos atualmente, para a falsa sensação de liberdade da qual desfrutamos.

Numa espécie de voyeurismo, acompanhamos a loucura desses personagens que exalam sensações arrepiantes, como é o caso de uma mulher, totalmente fora de si, que discute loucamente consigo mesmo sobre acontecimentos de sua vida. Entre falas e movimentos corporais perturbadores, essa personagem representa o que percebo como o último estágio da loucura e do descentramento que a sociedade moderna pode provocar numa pessoa. Apesar da distância física que separa os bailarinos, seus movimentos e falas se encontram no espaço, causando uma caótica polifonia que destaca a desordem que nos rodeia diariamente.

Uma experiência muito inspiradora e reflexiva, ainda mais quando embalada por composições musicais que se integram harmonicamente ao que é oferecido, numa sintonia sem igual, que faz da trilha sonora não só um complemento, mas uma peça essencial do trabalho.

Como o folder do espetáculo omite a informação, perguntei sobre a origem das músicas que ouvia, de modo que vale a pena informar que a trilha sonora é constituída por composições de outros projetos de Regina Miranda, que foram compiladas e incorporadas perfeitamente ao espetáculo.

Uma peça que trata do relacionamento entre uma mãe divorciada e seu filho, que aborda a influência da figura materna no processo de transição da adolescência para a fase adulta, pode enveredar por vários caminhos, isto é certo. Mas se o gênero eleito para a representação for a comédia, o cuidado deve ser redobrado.

Em cartaz até o dia 31 de maio de 2009, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, estará a peça O filho da mãe, com direção do estreante João Camargo, texto e interpretação de Regina Antonini e Pedro Nercessian.

O que pode ser rapidamente notado é que a peça, que promete “radiografar a universalidade da relação entre mãe e filho, desde seus aspectos cômicos aos mais poéticos”, se desvia num piscar de olhos desse objetivo e dá início a outro projeto que poderia ser identificado como um quadro do Zorra Total.

O lugar-comum é o grande astro da peça. Onipresente, se encaixa em todas as falas, em todos os momentos. Do relacionamento entre mãe e filho são destacados todos os episódios mais clichês que poderiam existir, como a preocupação da mãe com a sexualidade do garoto, a insatisfação com o recente casamento do ex-marido com uma mulher mais jovem, o zelo excessivo com o filho adolescente e a preocupação com a solidão e com a velhice que inevitavelmente cruzará o caminho da mãe divorciada.

O pior, no entanto, não é nem é o lugar-comum, mas o tratamento que este recebe. Humor fino, comédia inteligente, sacadas geniais com referências que enriquecem o texto: infelizmente, não é isso o que acontece! O oposto disso tudo é o que recebemos. Em quase duas horas de peça, uma comédia super ordinária tomou conta de um tema que poderia render um espetáculo. Piadas baratas e batidas, como aquela desgastada comparação entre uma saia curta e um cinto, além de piadas prontas, das mais óbvias, como uma avó, referida como “Vó Gina”, tentaram impor à peça o tal tom cômico, que para mim nunca chegou.

Em alguns momentos, interrompendo bruscamente essa seqüência de piadas rasteiras, vem a tentativa de nos empurrar goela abaixo uma seriedade e um tom sentimental embalados por música suave, luz baixa e a intragável metamorfose da mãe, de Lady Kate a Ernst Fischer, iniciando uma frase com algo do tipo “a função da arte…”. Pausa para o café!!! Preciso de alguns segundos para processar a cena… Mas não tenho tempo, porque o clima supostamente sentimental e sério da cena é interrompido pelo resgate da voz esganiçada da personagem da mãe e seu empenho contínuo em transformar absolutamente tudo em piada barata. A superficialidade e a inconsistência, que são o ponto de partida e de chegada do texto, são perseguidas arduamente e alcançadas sempre com sucesso.

O saldo é que a peça não consegue se enquadrar nem no cômico, nem no poético. Muito menos nos dois. Mas consegue um lugar muito privilegiado no limbo, ao lado de outras “comédias” do tipo que, convenhamos, existem e se proliferam às pencas! E que têm seu público, disso ninguém duvida.

Meus aplausos, ao final da peça, são integralmente direcionados a Paulo Severo, responsável pela direção musical, que agraciou meus ouvidos com uma trilha muito boa, principalmente por conta daquela espécie de surf music tocada nos intervalos entre uma cena e outra.

Luiz Costa Lima lança
O controle do imaginário & a afirmação do romance

O controle do imaginário & a afirmação do romance

Quarta-feira, 15 de abril de 2009, 19h
Livraria da Travessa
R. Visconde de Pirajá, 572
Ipanema / Rio de Janeiro – RJ
Tel (21) 3205-9002

A ficção científica normalmente não me atrai muito. Existe um problema intrínseco, para mim, que é a da suspensão da realidade na escrita pretensamente calcada em parâmetros científicos. Este é um problema que nasceu com a FC (como carinhosamente é chamada a ficção científica). Existem raríssimos autores que conseguem o fazer acreditar dentro deste contexto, de um irreal científico.

Eric Novello é um desses raros e preciosos autores.

Paradigmas 1

Eric é um dos autores do livro Paradigmas 1, lançado recentemente pela Tarja Editorial.

Por motivos óbvios, comecei o livro pelo conto dele.

Fogo de Artifício na verdade não é FC, é fantasia urbana, e isso por si só talvez já explique eu ter gostado. O conto se baseia no universo ficcional de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, ou seja, espere encontrar um gato sorridente e um chapeleiro maluco mas não leia para seus filhos. É um conto adulto. Adulto como em assassinatos brutais e sexo selvagem. Adorei.

“Eu havia pedido o encontro. Perdido o controle. As mortes precisavam parar. As mortes, só por elas eu transpirava prazer.”

Pelos mesmos motivos, gostei de Um Forte Desejo, de M. D. Amado, um tipo de “fantasia pulp erótica”, se é que existe esta classificação.

Gostei também de Aqui Há Monstros, de Camila Fernandes, que, assim como Eric, se baseia em um universo ficcional pré-existente, o da mitologia grega.

Não li os outros contos ainda, mas tenho certeza de que a editoria do organizador/autor Richard Diegues fará justiça aos bons autores que assinam o livro.

Ana Vitória Mussi
Mergulho na imagem
abertura: 31 de março de 2009, de 19 às 22h.
Galeria Tempo
Av. Atlântica 1782 – loja E – Copacabana (RJ/RJ)
Tel (21) 2266-4588

Ana Vitória Mussi @ Galeria Tempo

A quarta edição do Rumos, do Itaú Cultural, veio com 45 artistas ou grupos de todo o Brasil. Fui lá ver e, como sempre, vou falar mais daquilo que gostei do que não gostei.

Elieni Tenório, de Belém do Pará, trouxe uns corpetes femininos, bem velhos, meio manchados de uso. Pôs na parede. Ficou uma composição geométrica, mas com o rastro do vivido. Achei bem bom e me lembrou outro artista, este consagrado, de que gosto bastante, o Daniel Senise. Ele também faz construções geometrizadas com carradas do vivido, do humano.

Julia Amaral, de Florianópolis, fez umas jóias muito bonitas, pequenas, preciosas. Mas representando insetos peçonhentos, pequenos animais mortos. Ela me fez lembrar Nazareth Pacheco, que também, com sua arte sedutora e perigosa, nos põe de frente com a questão da sedução do olhar. Um aviso sobre para que serve mesmo o ‘bonito’.

Felipe Cohen, de São Paulo, pôs umas caixas de papelão no meio do chão brilhoso do Itaú. Pôs também uns tijolos de basalto. Você fica lá, de pé, ‘conversando’ com as quadriláteros/embalagens. Eles trazem para esse encontro sua vida passada de utilitários. Você traz para o encontro o que você acha de forma geométricas puras. E aí ficam vocês lá, frente a frente, e, bem, não é que eu tenha gostado do papo, mas com certeza saí meio diferente do que entrei. E acho que é para isso que serve a arte – esse outro ‘utilitário’.

Amanda Mei, São Paulo, fez algo de que sempre senti falta. Falo de Farnese de Andrade. Sempre me espanto de não haver mais fios, na arte contemporânea, desse artista que explicitou tão profundamente um estar-no-mundo mineiro-brasileiro, um pathos que você reconhece como sendo seu, de alguma casa de tia velha, de alguma casa qualquer, mas você tem essa casa, esses objetos na sua memória. Todos temos. Amanda pega esse clima, em uma instalação escura, fechada. E o que eu simplesmente adorei: a única poltrona do ambiente não tem pés. Suspensa por fios pretos, que mal se veem no ambiente escuro, ela flutua em um não-espaço/não-tempo que é exatamente o lugar em que está a memória que você tem daquilo.

Kilian Glasner, do Recife, modificou umas fotos de árvores em sua Rua do futuro. Você vê de relance e sente que tem alguma coisa esquisita. Ele mal modifica. Algo geométrico que não pode ser da paisagem. Um ondular em lugar que você espera uma perspectiva plana. Enfim. Uma ‘natureza’ safadamente rindo de você, que esperava um ‘ó, que bucólico’. É uma tendência que tenho visto com frequência na arte de hoje, essa de misturar os dois campos tradicionais. Acho legal. E, no próprio Rumos, perto de Glasner, um outro com a mesma temática: Marcelo Moscheta, de Campinas, enclausurou ‘nuvens’ de algodão dentro de tijolos de vidro. A recepção é a mesma: você lá, vendo uma possibilidade de refúgio ‘natural’ rir de você.

Luciano Zanette, São Paulo, fará com que você nunca mais veja um Amílcar de Castro da mesma maneira. No seu Hábitos insuficientes (o título também é ótimo) ele tomba mesas, bancadas. O resultado é um Amílcar vagabundo, em que toda a potência do ferro é substituída pela madeira fina, pintadinha. É também um riso, este contra outro dos pensamentos sagrados do modernismo, a fé na industrialização, no poder da ordem e do progresso.

Gabriel Netto, de Porto Alegre, dá ao desenho um dia de glória em 3D. Ele põe na parede suas tiras de rabiscos longos, linhas de grafite. E no chão, em frente, a ‘projeção’ dessas linhas em mais linhas, essas alongadas, enviesadas. Bem bom.

Tiago Romagnani, de Florianópolis, trouxe um vídeo de grande teor afetivo. Uma planta cujo vaso é tombado. Ela se vira para a luz, aos poucos. Na instalação A saudade, mais afeto. Um fio de água corre entre dois fios de metal quase juntos. É um fio de água, espremido. Você pode passar horas lá, vendo.

Alice Shintani, São Paulo, espalhou sua tinta por paredes, chão e teto de um espaço do Itaú. Faz lembrar a pintura de protesto feminista, da década de 60 do século passado. Amorfa, abrangente, líquida, essa pintura diz mais sobre uma maneira de ser contemporânea, frágil,  não-limitante nem limitada, do que qualquer traço enérgico e bem definido, da esfera ‘masculina’. E, sim, a cor escolhida para as manchas é cor-de-rosa.

De Laerte Ramos e sua cerâmica de acabamento perfeito eu já falei em outros sobrearte, e mal. Não gosto. Como também não gosto do que o artista, Diego Belda, chama de sinuca. Composições geométricas coloridas. Então não vou falar mais aqui deles. São ambos de São Paulo. Bárbara Wagner, do Recife, traz uma fotos do ‘outro’ que, no caso, são personagens da Zona da Mata. Mas são ‘outros’ bem conscientes desse seu papel, no posar para as fotos. Acho que essa diferença entre o ‘eu’ e o ‘outro’, hoje, não está mais tão nítida e lidamos com as diferenças mais na base do fluxo – e não gostei das fotos. E, provavelmente sendo injusta, também não tive vontade de ficar vendo o registro de performance do Grupo Empreza, de Goiânia. Vai ver até que foi boa. Mas a cada dia estou menos disponível para ver o resgistro de performances. Acho que esse tipo de arte, tão vigorosa e tão importante no que ela tem de ataque ao mercado de arte, devia assumir seu caráter efêmero, fenomenológico, de momento – e pronto.

Ato I – O que é arte

Todas as palavras podem assumir várias significações, independente do real sentido que elas exprimem. Podemos usar a palavra filme, por exemplo, tanto para exprimir aquilo que vemos no cinema ou na televisão quanto para enaltecê-lo, como na frase “isso sim é um filme”. Ao usarmos a palavra em seu sentido original, tomamos seu sentido classificativo, ou seja, a palavra exprime exatamente o que ela propõe. Se, ao contrário, a usamos para exaltar uma qualidade, estamos usando o seu sentido valorativo. Se cada palavra pode assumir um sentido, dependendo do contexto em que é empregada, com a arte não seria diferente.

A palavra arte vem do latim ars, equivalente ao techné grego, ambos relacionados ao conjunto de regras para dizer ou fazer com acerto alguma coisa – ou seja, técnica, capacidade, habilidade. Se tomarmos este como seu sentido classificativo, entendemos que qualquer pessoa que siga um método está se utilizando de arte: um médico ao fazer uma incisão, um professor elaborando seu plano de aula, um servente limpando o chão. Todos estão usando arte em seus ofícios. Neste ponto fica impossível distinguir a produção artística como entendemos de qualquer outro tipo de técnica.

Quando se pergunta o que é arte, na verdade está se indagando sobre o sentido valorativo do termo. Mais especificamente, a pergunta trata do que nos referimos às obras de arte, ou, como dita por muitos, “Arte com A maiúsculo”, ou até mesmo “boa arte”. Daqui por diante, para simples efeito de distinção, passarei a adotar a palavra arte, com minúscula, para me referir ao sentido original da palavra, e Arte, com maiúscula, para abordar os aspectos valorativos do termo.

Mas então, afinal, o que é Arte? Muitas teorias se propuseram a responder essa questão buscando propriedades que as definissem em totalidade, buscando a essência comum entre todas as obras de Arte. São as chamadas teorias essencialistas, como a teoria da arte como expressão (só existe arte quando exprime a emoção do artista) e a da imitação (uma obra de Arte só acontece quando imita algo natural). Porém, as teorias essencialistas sempre falharam na tentativa de universalizar o conceito. Tratando-se das teorias citadas, a Arte não pode ser só uma imitação, pois abrange o abstracionismo, como também não depende da expressão do artista, pois vários foram os que não buscavam uma expressão pessoal

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Dentre todas as teorias, a que mais pode fazer sentido é o conceito de “forma significante”, ou seja, classifica a arte como algo que gera um sentimento estético no espectador. Esse pensamento tira a autoridade do objeto e passa a figurar no espectador, assim como entendemos a idéia de beleza como “aquilo que apraz sem conceito”, defendida Immanuel Kant. Quando fruímos o verdadeiro deleite estético não precisamos de uma significação, apenas sentimos.

É importante, nesse ponto, que mudemos a abordagem da questão. Definir o que é Arte é uma tarefa tão complexa e subjetiva quanto definir o que é algo bonito ou gostoso, pois tudo faz parte de um sem número de fatores que influenciam nosso juízo estético. Se eu não gosto de peixe, isso não quer dizer que o peixe seja uma comida ruim. Se isto parece obvio, por que tanta gente generaliza o conceito de Arte usando unicamente valores pessoais? O que parece mais justo é que a questão seja revista para algo como “o que eu aprecio ou entendo como arte”, pois assim colocamos o foco na subjetividade de cada um, assumindo que Arte é um conceito individual e intransferível. Afinal, como diz o dito popular: o gosto pessoal não se discute, se lamenta.

Ato II – A arte e o design

De acordo com Charles Eames, “o design é um plano para dispor elementos de maneira a melhor atender a determinada intenção”. Essa definição pode ser vista de uma forma divertidíssima em um esquete do grupo inglês Monty Python, onde Michelangelo, supostamente contratado para pintar a última ceia, refuta com seu cliente – no caso o Papa – a importância da liberdade artística numa obra de arte, mesmo que se utilizem elementos sem a menor coerência, como gelatinas, cangurus e malabaristas para contar uma história bíblica. Vemos aqui que o trabalho de design não é uma criação subjetiva, ele está sempre focado a resolver as necessidades do cliente.

Passando do falso Michelangelo para o verdadeiro, o seu trabalho para o teto da capela Sistina, embora considerada uma das maiores obras de arte do mundo, também é um exemplo de design. Cercado por várias limitações criativas, refeito várias vezes, com orçamento apertado e em condições precárias de trabalho, nem de longe encontramos em Michelangelo a figura mítica do artista que trabalha pela pura licença artística, como se pensa por aí. Isso mostra que, o ato de se fazer design é bem anterior à própria invenção da profissão de designer.

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Artistas não são apenas loucos que expõem coisas sem-pé-nem-cabeça em galerias. Artistas têm tanta técnica a aprender quanto os designers. Se você não acredita, procure entender como se faz um talho-doce ou a marca d’água de uma cédula, e por que esse tipo de arte ainda é usada por todas as casas da moeda do mundo inteiro como o método mais eficiente de segurança de papel moeda. Os processos de reprodução mecânicos como conhecemos hoje eram feitos artesanalmente por mestres em oficinas de gravura. Por isso, dizer que artistas não têm compromisso com a utilidade ou com a técnica, apenas com a expressão é uma generalização tão absurda quanto dizer que designers são pessoas que fazem coisas bonitinhas.

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Grande parte do que conhecemos como obras de Arte, em sua origem foram trabalhos feitos por encomenda, exatamente como qualquer projeto feito hoje. Não é difícil encontrar na história da arte versões reprovadas de grandes obras, como as duas versões de “a virgem das rochas“, de Leonardo da Vinci. A arte sempre esteve ligada a funções comerciais: as pinturas rupestres estavam ligadas a crenças religiosas, as cerâmicas gregas eram utilitários domésticos, Tolouse-Lautrec teve grande expressão com seus cartazes publicitários, a arte nouveau trouxe aplicações artísticas para objetos do dia-a-dia, como saleiros e espelhos, até chegarmos à Bauhaus e ao que hoje conhecemos como design.

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Design e Arte não são objetos diferentes, a problemática e a extensão deles é que os separam. A função vai definir a forma seja em um ou em outro, porém as aplicações são diferentes. Um cartaz de Mucha é uma peça tão comunicativa como uma capa da Moema Cavalcanti. Uma ilustração de Marcos Garuti poderia ser facilmente exposta em uma galeria. Algumas pinturas são feitas com uma paleta específica para melhor atender a decoração de uma casa e nem por isso são chamadas de ilustração. Sem falar dos trabalhos de David Carson, que desrespeitam a maioria dos cânones do design e mesmo assim atendem com perfeição o público que os consome. Arte e design são respostas, as perguntas é que são diferentes.

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Ato III – Finale – Design é arte?

A palavra “arte plástica” vem do princípio de plasmar, ou seja, transformar em algo concreto uma idéia. Antigamente, as artes, de um modo geral, eram classificadas em dois grupos: as plásticas, que constituem todo tipo de manifestação de cunho estético-visual, como a escultura, pintura, gravura, arquitetura e o desenho, e as rítmicas, que possuíam a influência do tempo, som e movimento, como a dança, o teatro e a literatura.

Com o tempo, esses grupos foram se desdobrando graças o surgimento de novas tecnologias, algumas híbridas como o cinema e a televisão. Porém algumas ainda são facilmente enquadráveis na idéia de arte plástica, como a fotografia e, claro, o design. Sim, porque design é uma arte, pois requer técnica, e é plástica porque é visual. Isso nos prova o primeiro fato: design é uma arte, no sentido classificativo do termo. Uma arte plástica por natureza, assim como a arquitetura.

Partindo para o campo subjetivo, nos resta saber: afinal, design é Arte, assim, com A maiúsculo? A resposta é simples: quem sabe é você. O conceito valorativo de arte parte da sua referência intelectual e nada pode ser dito para mudar isso. Não importa se ela é aplicada, comercial, pura, expressiva ou o que seja. O único crítico dessas obras é o seu juízo de gosto.

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Alguns podem pensar que este tipo de visão acaba caindo na máxima “se tudo é arte, nada é arte”. Não é bem por aí. Há de se pensar que tudo que é feito pelo ser humano, dependendo do contexto em que está inserido, pode ser visto como Arte, mas isso não quer dizer que seja realmente. Ser é bem diferente de entender como. É lógico que no meio de tanto embuste nas artes, fica difícil saber o que é realmente bom ou ruim, porém generalizar não resolve essa discussão.

Como disse Ernst Gombrich, “não existe Arte com A maiúsculo. Existem somente artistas. (…) Aquilo que chamamos ‘obras de arte’ não é fruto de uma atividade misteriosa, mas são objetos feitos por seres humanos para seres humanos”. De certa forma somos todos artistas e sempre há um pouco de arte e de Arte no que fazemos. Por isso, tentar colocar arte e design como problemas distintos é apenas tapar o sol com a peneira.

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Derrida tem uma teoria sobre hospitalidade. Segundo ele, trata-se de uma aporia – essa impossibilidade que, no entanto, tenta existir e tenta outra vez, sem cessar.

Tenho outro bom exemplo, ou vai ver é o mesmo: a arte digitalizada e seu convite insistente para que, como hóspedes, nos sentemos à mesa da ‘criatividade’.

Fui ver o F.I.L.E. (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) do Rio, no Oi Futuro, e lá também – como em qualquer outra casa – o impasse de um convite que se proclama aberto, mas que é fechado.

É uma questão ética.

“Vamos dizer sim para qualquer um que chegue, antes de qualquer definição, antes de qualquer antecipação ou identificação”, diz Derrida, para acrescentar: “dá-se a quem chega tudo o que há na casa e em si mesmo, dá-se de si, sem pedir por compensação ou pelo cumprimento de qualquer condição, por menor que seja.”

E essa oferta é aporética, pois marcada por um paradoxo. Se não há limites, se não há nada entre dois lados, esses dois lados se tornam interpermeáveis, indeterminados, não produtivos.

Ou seja, para que exista quem convide e quem seja convidado – e que algo seja feito em conjunto – é necessária a existência de uma barreira. E a barreira destrói a hospitalidade, cuja definição é a da acolhida sem barreiras. Aporia, pois.

Menos que das outras vezes.

Acompanho os F.I.L.E. desde o primeiro. Esse estava particularmente minguado de instalações interativas.

Sheldon Brown - 'the scalable city' - fotografia de Elvira Vigna

Sheldon Brown trouxe The scalable city que tinha, mais do que a interação, o apelo de uma estética de fim (ou começo) de mundo, muito atraente e muito apropriada aos tempos de hoje.

A de Daan Brickman é sonora, desagradavelmente sonora.

Julio Obelleiro e Alberto García - 'the magic torch' - fotografia de Elvira Vigna

Julio Obelleiro trouxe duas, uma delas, com Alberto García (The magic torch), permitindo que o fruidor desenhe em uma tela com uma lanterna de luz (ó deus, mais um desenhinho de luz).

Se você falar bem alto em um microfone consegue que sua imagem entre na tela de TV de Jarbas Jacome, em Crepúsculo dos ídolos; e eis um título muito bom, que remete à idolatria instantânea e sem valor das famas de 15 minutos. Uma das poucas obras que produzem uma reflexão, uma modificação, em quem a vê.

Troquei de rosto com a monitora da exposição, na bobagem televisiva de Clara Boj e Diego Diaz (mas só funciona se você por a cara bem para cima).

Hugues Bruyère - 'presence' - fotografia de Elvira Vigna

Hugues Bruyère cria uma aura mutante e luminosa em volta da silhueta de quem passa em frente, sempre diferente.

Tinha muita gente mexendo no celular perto de Roaming, de Soraya Braz e Fabio Fon, pois celulares acionam luzes em um painel. Idem, mas com som, na instalação de Giselle Beiguelman e Mauricio Fleury.

Enfim. Você vai, você faz o que mandam, recebe a sua sardinha, e a obra e o artista recebem o resto todo. Qual é esse resto?

O artista que assina a obra abre uma brecha na sua autoridade estabelecida para convidar o fruidor a contribuir com sua atuação na realização da obra. Sem tal atuação, a obra não se realiza. Sem tal atuação, sem a entrada desse falso outro, o artista não se realiza. Sua identidade conta com a presença de um diferente dele, assim como a identidade de quem hospeda só é possível se há a possibilidade de um hóspede – ainda que falso já que limitado por condições ou regras prévias.

Aliás, pode-se dizer que o hóspede, na verdade, é o artista. O artista é hóspede de uma aquiescência, essa sim ilimitada, propiciada pelo fruidor que aceita agir para que o artista exista. Mas, anulado em seu impulso de existência autônoma, o contrário não se dá. O fruidor não alcança a identidade de sujeito – e, muito menos, de sujeito criador da obra. Ao excluí-lo de fato de uma co-autoria, o artista falha na obtenção de significado, pois todas as participações são iguais e já previstas. Não há diferenças a serem negociadas, aqui. Nem mudanças. Sem diferenças ou mudanças não há significado a se extrair da interatividade – que, em princípio, é o que define, o que dá significado à obra.

Derrida, em seu texto, deixa claro que o local verdadeiro, a casa em que tal hospitalidade (não) ocorre é a linguagem: “temos que considerar se a hospitalidade incondicional não consiste em suspender a linguagem e mesmo a comunicação”. Pois qualquer pergunta ou ordem ou declaração será já um impedimento para a acolhida incondicional.

E eis a maior aporia: uma linguagem pode não estabelecer diálogos e, nesse caso, não pode ser chamada de linguagem embora tenha a intenção repetida de sê-lo. A arte de Jarbas Jacome – a meu ver, a melhor instalação – se apóia em um texto (o título de sua obra) mais do que no programa que, afinal, foi o que permitiu que tal obra pudesse ser inscrita em um festival de linguagem eletrônica. É o texto, irônico, antigo e nem um pouco perfeito ou sequer eficaz (exige um pensamento e um acervo cultural prévios) quem conversa realmente com você.

Texto de Friedrich Schiller, tradução de Manuel Bandeira e direção de Antonio Gilberto, a peça Maria Stuart fica em cartaz no teatro do CCBB do Rio de Janeiro até 17 de maio de 2009. Com Clarice Niskier como Rainha Elizabeth I e Julia Lemmertz como Maria Stuart, a montagem inspirada no drama de Schiller, explora o embate dramático entre as duas rainhas, denuncia a corrupção moral e ressalta os valores de uma época. Finalizada em 1800, a peça, que tem como substrato a rivalidade entre a igreja católica e o protestantismo, traz à tona a forte ligação entre Estado e Igreja, as relações de poder aí inseridas e os conflitos provocados pela sede de poder.

Durante os 15 minutos de intervalo (o espetáculo tem 3 horas de duração), inevitavelmente, pude ouvir muitas opiniões ao meu redor. Houve quem questionasse o figurino. Houve quem dissesse “xii, tá tudo errado”. Houve ainda quem pensasse que o texto perdia muito com a linguagem rebuscada.

Partindo dessas opiniões, com as quais discordo, gostaria de dizer que, em primeiro lugar, é fundamental estar ciente de que o texto de Schiller é a criação de um drama baseado na relação conflituosa entre duas rainhas regentes. A tradução para o português por Manuel Bandeira, apesar de se tratar de uma tradução, já modifica o texto original: alguma marca, mínima que seja, do tradutor fica impressa no texto, principalmente em relação à escolha das palavras, uma ação muito pessoal, que certamente insere a tradução no estatuto da semelhança e não do idêntico.

Quaisquer montagens feitas a partir da tradução de Manuel Bandeira são, portanto, a interpretação da tradução da criação de Schiller, que, aliás, não deve fidelidade nenhuma à história verdadeira de Elizabeth I e Maria Stuart.

Pergunto-me, portanto, o que poderia estar errado. Existe certo ou errado na arte?

Em segundo lugar, a proposta da montagem deve ser observada. A produção propunha uma releitura diferente, inovadora, pós-moderna ou uma montagem nos moldes clássicos, considerando-se, portanto, os trajes, a linguagem e os valores da época? A Maria Stuart que pude assistir optou pelo clássico. Contudo, há de se convir que uma interpretação abra brechas para algumas modificações, que não necessariamente afastarão a peça de sua proposta inicial.

Refiro-me, aqui, ao figurino. Elizabeth I, de calças e sobretudo vermelhos de veludo, vestindo botas de couro. Como um homem, tanto no vestuário quanto nas ações e movimentos, a rainha da Inglaterra, austera e insensível, busca afirmar sua força evidenciando sua face masculina a fim de se impor num ambiente preenchido por homens. Bem colocado. O veludo utilizado ressalta a distinção social da corte de Elizabeth I, a que se destinava o consumo luxuoso.

Do outro lado, Maria Stuart, rainha da escócia. Mais jovem e movida por emoções, a rainha católica exala os encantos da mocidade através de seus discursos carregados de ideais ligados à liberdade e ao amor, e de seus gestos, mais exaltados e expansivos. Seus trajes, também masculinizados, mas simples e em tonalidades de cinza, simbolizam a condição de prisioneira a que está sujeita e a tristeza que invade seu espírito.

O figurino do restante dos personagens, bem como o das rainhas, dispensou pedrarias, ouros e outros materiais preciosos. São trajes simples, cujo tipo de tecido e sua cor foram os únicos responsáveis pela sistematização da hierarquia monárquica e do poder atribuído a cada personagem. Simples como o figurino, é o cenário. Uma cortina preta ao fundo faz contraste com os objetos de cena: uma caixa de madeira, que é um baú real; uma cadeira de traços retos, que é um trono; e uma bancada, que é ora uma mesa, ora uma montanha, ora um patamar. Os adornos ficam por conta da nossa imaginação. Pode ser bom, pode ser ruim. Depende do ponto de vista. Na minha opinião, funcionou, uma vez que a simplicidade que imperou no cenário e no figurino procurou destacar as atuações, as falas, o texto.

Quanto à linguagem rebuscada, bem, trata-se de um texto clássico, traduzido por alguém comprometido em manter a linguagem clássica, levado à cena por alguém que propõe a montagem clássica da peça. Não vejo de que forma a substituição de palavras, de tempos verbais e de pronomes de tratamento por uma linguagem mais “fácil” poderia contribuir em alguma coisa, senão para transformar o texto em algo parecido com Os Lusíadas em prosa para crianças. Que, aliás, existe.

Das atuações, é preciso destacar Mario Borges como Barão de Burleigh, que tem uma das melhores vozes que já ouvi para o teatro; as rainhas, Julia e Clarice, pela gestualidade expansiva da primeira e pela dureza inglesa da outra, características opostas que sinalizam a morte física de uma e a morte emocional da outra; e a dupla Ednei Giovenazzi e Amelia Bittencourt, o mordomo e a ama de Maria Stuart, que oferecem consolo e serenidade à rainha católica frente à inevitável morte.

Maria Stuart
Direção de Antonio Gilberto
CCBB – Rua Primeiro de Março, 66.
Em cartaz de quarta a domingo, até 17 de maio.

Muitas vezes, um texto insosso vira um espetáculo quando encenado. Outras vezes, o contrário acontece.

Quem não conhece a história do Rei Édipo, por exemplo? Não digo que seja popular, mas uma vez ou outra na vida alguém já fez referência ao complexo de Édipo, seja na faculdade, seja na mesa do bar. Afinal, trata-se de uma história intrigante, que inspira reflexões sobre a natureza e as relações humanas. Dentre as sensações despertadas por esse texto figuram a ojeriza, decorrente da possibilidade de relacionamento sexual entre pai e filho; a identificação por parte de alguns, nunca se sabe; mas, principalmente, a sensação de que não se pode controlar tudo nessa vida. Basta o menor dos imprevistos para que o controle que o homem pensa ter sobre si vá por água abaixo.

Quais as chances de um texto como esse, Édipo Rei, de Sófocles, se transformar em algo aquém do esperado quando encenado? Recriado como Óidipous, filho de Laios, em cartaz no SESC Copacabana (RJ) até 05 de abril de 2009, o que pude sentir foi um grande vazio de sensações.

A releitura de Édipo Rei proposta por Antonio Quinet, responsável também pela direção da peça, tropeçou em algumas montanhas. Que a história estava lá, ninguém pode negar. Entre um clichê proferido sem emoção – “você é a causa de seus próprios males” – e um provérbio digno do Rei Leão – “uma vez desvelada, a verdade não pode ser negada”-, percebemos um jogo corporal bonito até, como uma dança dramática, numa atmosfera enigmática, mas que, sinceramente, nada contribuiu para o andamento da peça. Faltou, principalmente, harmonia. Não só entre os atores, mas também entre as cenas. Os cortes eram abruptos demais. Como se tocasse uma sineta que anunciasse a hora do recreio, os corpos se contorciam, dançavam, rastejavam. De repente, nova sineta! Surge um telão ao fundo do palco, super iluminado… Adeus, mistério! Agora vemos uma mãe amamentando um bebê. Entendo a idéia que se quis passar: a amamentação é uma intimidade entre mãe e filho, que gera uma ligação forte entre os dois. Tem a ver, mas além de não acrescentar nem informações e nem um diferencial à peça, cortou totalmente o clima criado anteriormente. Em muitos casos, uma idéia é ótima como idéia apenas.

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Talvez se quisesse criar uma releitura modernizada, como uma instalação transposta ao teatro, e o Édipo tenha sido apenas um pretexto para isso. Entendo que a atualidade de uma peça não está na época a que ela se refere, e sim na forma como é contada, mas acredito que a forma utilizada não contribuiu muito para esse fim, se é que houve essa intenção. O que me faz pensar se a peça tinha, de modo geral, alguma intenção. Entreter, inovar, emocionar…?

Os atores despiram-se de todas as emoções em casa. Chegaram ao palco inexpressivos, sem conseguir transmitir as angústias, o sofrimento, a dor que diziam sentir. O texto, muitas vezes floreado, tornava difícil a atribuição de sentido ao que estava sendo dito. Isso pode ter colaborado para a falta de emoção. Talvez nem os próprios atores tenham compreendido o que diziam, apenas decoraram a fala.

Enfim, uns batuques daqui, umas falas de lá, uma Jocasta ao chão tentando se lamuriar.

Fazer rimas não é difícil. O desafio é transformá-las em poesia.

Óidipous, filho de Laios – A história de Édipo Rei pelo avesso.
Transcriação do texto e direção de Antonio Quinet.
Realização da Cia. Inconsciente em Cena .
Espaço Sesc – R. Domingos Ferreira, 160 – Mezanino.
De 13 de março a 05 de abril de 2009.

Que a cultura brasileira é bastante diversificada, todos sabemos. São costumes da região sul que diferem dos da região nordeste. Tradições nortistas pouco conhecidas no sudeste. E por aí vai… Mas o que há de comum a todas essas regiões culturais do Brasil é a língua. Todos falamos português e conseguimos nos entender muito bem!

Aí entra, então, a aplicação dessa língua. São vários os tipos de linguagem e inúmeros os meios de comunicação. Assim, o norte se aproxima do sul, o sudeste do nordeste e do centro-oeste. Mesmo sem nunca ter estado no sertão nordestino, conheço o clima, as dificuldades, as pessoas, os costumes. Graças aos jornais, à literatura, ao teatro, ao cinema, já estive lá sem nunca ter saído de casa.

O Santo e a PorcaOntem mesmo estive no sertão. Conheci pessoas muito espirituosas, um senhor avarento e um rapaz tortinho que me fez rir demais! Contaram-me uma história que eu já conhecia, mas só no papel. Pois a tiraram do papel e encenaram tudo, deram vida ao que eu já tinha lido e o fizeram de forma primorosa!

Quem quiser ver ou rever essa história não precisa ir até o nordeste. Bastar virar a esquina e entrar no Teatro Villa-Lobos, em Copacabana (RJ). Lá estarão Élcio Romar, Gláucia Rodrigues, Armando Babaioff, Marcio Ricciardi, Nilvan Santos, Duaia Assumpção e Janaína Prado, todos prontos para recebê-los com O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna, dirigido por João Fonseca.

Ahhhh… Mas o texto já estava pronto! E um texto do Suassuna não tem como ficar ruim. Ahhhh, tem sim! Tem gente que consegue estragar até pizza!

Mas não foi o caso. A peça foi um espetáculo! Não sou de dar risadas gratuitamente. Acho que as pessoas (eu!!!) têm o péssimo hábito de associar o gênero comédia a peças que discutem relações conjugais e outros assuntos cotidianos usando gírias e expressões moderninhas, fazendo apelos sexuais excessivos, essas coisas. Deve ser por causa do grande número de peças que usa esses recursos, achando que assim ficarão engraçadas. Fiquei traumatizada. Mas a peça As centenárias veio amenizar meus problemas. Peça que, vale lembrar, também aborda essas tradições nordestinas. E agora, com O Santo e a Porca, sinto estar curada.

O jeito de falar dos personagens, o clima nordestino no cenário, na música, no figurino, tudo isso partindo de um texto bem escrito por um dos maiores dramaturgos brasileiros, tudo bem pensado, dirigido e encenado. Isso faz a gente pensar que a cultura popular nordestina, quando bem trabalhada, dá muito pano pra manga. E não é qualquer pano, não… É tafetá, linho, seda!

O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna.
Direção de João Fonseca.
Realização Limite 151 Cia. Artística.
Reestréia no Teatro Villa-Lobos – Av. Princesa Isabel, 440.

A exposição de Gisela Motta e Leandro Lima, Sob controle, na Vermelho, incomoda. Os dois artistas já trabalharam o tema antes. Em uma coletiva, na mesma Vermelho, em outubro de 2008, um vídeo mostrava ela jogando facas nele, que se encolhia. O fascínio era aguardar o descontrole repentino da mão – e o assassinato.

Bons tempos. Agora, não há possibilidade de descontrole. Claro, o valor político, de denúncia etc. Mas me perguntei até que ponto essa denúncia, como tantas outras, faria parte, ocultamente, do denunciado.

Bingo.

As obras são feitas com total controle. Não denunciam, mas ampliam o problema, agora não mais sociopsicopoliticoantropologicamente falando, mas incluindo o diálogo (diálogo?) estético.

Começa na primeira mesmo. A que abre a mostra, perto da porta. Precisei perguntar. Luzinhas vermelhas que saem de furinhos da parede da entrada. Ah, é a Bala perdida, e os furinhos representam balas de revolver. Os furinhos são perfeitamente redondos. Do mesmo tamanho. Em espaços regulares.

Segue para os mapas feitos com chips de computador. Sim, eu sei, há a computação randômica, o cálculo probabilístico, algoritmos genéticos e redes neurais. Nenhum deles incluído no campo semântico desse ícone da mensuração precisa, do 0 e do 1, do sim e do não.

A instalação Do not é feita de fotos de pessoas não querem ser fotografadas. A imposição da imagem vai além do tema e atinge mais do que a pessoa lá, com a mão na frente da cara. As fotos são em baixa resolução, ampliadas. Oba. Possibilidade de um campo dúbio, não preciso, em que uma troca possa se dar? Nope. Cada pixel das imagens foi refeito, com retícula, e em cada um foi aplicado, em backlight, um led. É uma construção. Precisa. Lembra uma abstração geométrica do modernismo.

A videoinstalação que dá nome à exposição, Sob controle, tem uma câmera que capta o movimento do visitante frente a ela. Os bonecos uniformizados do vídeo então se virarão para onde for o visitante, perseguindo-o com o olhar. São bonecos. Antes de você ser controlado por eles, eles são controlados, em sua feitura, cenário, pelos artistas.

Gisela Motta e Leandro Lima @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna Gisela Motta e Leandro Lima @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna Gisela Motta e Leandro Lima @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna

Amoahiki é exibido em grande formato, em uma tela de pano rasgado sobre a qual um ventilador provoca um movimento contínuo. São imagens sobrepostas da Amazônia. Aqui, as imagens originais, que poderiam oferecer uma presença do sem controle, são anuladas pela sua sobreposição, que é controlada. Sim, o vento é uniforme.

Tem um laser que forma a palavra Exit. Fica em um quarto pequeno da galeria. Uma fumacinha de vez em quando tenta auxiliar a visão do laser. Mas o que você vê mesmo são os mecanismos de feitura: fios, projetores.

Há, na linguística, basicamente, três tipos de discurso: o autoritário, o polêmico e o polissêmico. O autoritário é o do poder, seja ele de um mestre em sala de aula ou de um ditador em seu púlpito. O polêmico é dicotômico, divide o mundo em dois aspectos inconciliáveis e, no mais das vezes, trata-se de um discurso autoritário que quer se disfarçar de bonzinho. Posso dizer que a instalação anterior dos artistas, o vídeo das facas, representava um discurso polêmico.

E o polissêmico é o poético: você passa a vida frente a um deles, descobrindo coisas, acrescentando coisas tuas, modificando-se e modificando-o. É um barato.

Faltou polissemia nas obras do Sob controle. Faltou, justamente, uma brecha para o diálogo. Uma imperfeição que fosse, uma hesitação, um não-saber. As obras são impositivas, autoritárias. Um discurso claro, de quem sabe – e ensina. Você está sob controle. Até mesmo ali, em uma galeria de arte. A exposição incomoda não porque haja um pensamento difícil a ser elaborado e descoberto – essa descoberta que obras de artes provocam na gente. Incomoda porque o pensamento já vem pronto. Não há diálogo. Você não é chamado a colaborar.

E assim começo essa resenha, Ó, meus irmãozinhos, ainda sob influência das gírias dos druguis de Laranja Mecânica. Fico muito tentado a escrever um há há há e fazer lá meus trocadilhos, abusar das jogadas de fonética-ética que Anthony Burgess usa quando o personagem não quer saber da escolacola e só se liga, tipo assim, em enfiar uma britva numa babushka qualquer, num lance muito horrorshow. Mas me apiedo de vossos neurônios e como a resenha não terá um glossário como há no final do livro, prometo me comportar e arrastá-los para o cerne dessa distopia escrita em 1962 apenas em citações.

Laranja MecânicaDe modo simples, podemos dizer que a distopia é o inverso da utopia. É aquilo que deu errado. Sim, mais errado do que o mundo em que vivemos. Pelo menos era essa a idéia. O curioso da ficção-científica é que ela pode se tornar literatura mainstream com o tempo. Vide 1984 de George Orwell e seu “Big Brother is watching you” e o universo ciberpunk de William Gibson que parece desatualizado diante dos apetrechos que usamos hoje em dia.

Laranja Mecânica trabalha uma distopia onde a violência saiu do controle. Ela é chamada de ultraviolência. As ruas estão tomadas por gangues e os cidadãos apanham o tempo inteiro, mulheres são estupradas e idosos são as vítimas perfeitas. A violência gratuita promovida pelos adolescentes não é gratuita para o escritor. Não está lá simplesmente buscando o choque. Burgess a utiliza para manipular sentimentos do leitor e debater dilemas morais. Sabe essa conversa de vítimas da sociedade, criação do sistema e todas as teorias que utilizamos para justificar a geração da violência e as metodologias de combate? Será que manteríamos nossas opiniões sobre o assunto em um cenário extremo? Será que continuaríamos a defender a tese de que a tendência à violência é fruto do ambiente e não é intrínseca ao indivíduo que a comete?

“A música sempre me deixava afiado, Ó, meus irmãos, e me fazia sentir como o velho Bog em pessoa, pronto para provocar raios e trovões e fazer com que veks e ptitsas rastejem em meu poder, buahahaha!”

O livro é narrado em primeira pessoa por Alex. Ele é um dos garotos ultraviolentos, o chefe de uma gangue que aterroriza a região porque dinheiro é algo que se consegue sem esforço. Basta bater, roubar e gastar. E é claro, Alex gosta do que faz. Sente um prazer orgástico quando o sangue jorra de suas vítimas. Orgasmos múltiplos quando ouve música clássica e se imagina chutando rostos e barrigas. Mesmo seus druguis, seus amigos, ele controla na base da violência: um soco no nariz, uma canivetada no pulso, e assim segue a relação de suposta amizade. A naturalidade dos gestos o torna um personagem curioso, difícil de lagar de mão. Uma decisão inteligente de Burgess foi colocar o leitor como confidente do personagem. Alex fala diretamente com quem lê. Quando todos o traem, é o leitor que se mantém ao seu lado, testemunhando seus dias na prisão e o tratamento alternativo antiviolência que é o grande charme do livro e que foi tão bem explorado por Kubrick na adaptação para o cinema.

“O mesto estava quase vazio, pois ainda era de manhã. Também parecia estranho, porque tinha sido pintado com vaquinhas vermelhas mugindo, e atrás do balcão não havia nenhum vek que eu conhecesse. Mas quando eu disse: – Leite-com, grande -, o vek com um litso muito magro e recém-barbeado sabia o que eu queria. (…) Então eu pude sentir a visão se chocando com aquela prata toda, e em seguida havia cores do tipo que ninguém jamais videara antes, e depois eu videei tipo assim um grupo de estátuas muito, muito distantes, que estavam sendo trazidas cada vez mais perto, todas iluminadas por uma luz muito brilhante que vinha ao mesmo tempo de cima e de baixo, Ó, meus irmãos”.

Talvez a pergunta que reste seja essa: se o personagem é tão desumano, o que faz o leitor virar as páginas? Há outras formas de empatia. A raiva é uma delas. O que me moveu foi a curiosidade. Eu não via a hora de ver o Alex se ferrar, apanhar muito, receber de volta tudo o que faz durante a primeira parte do livro. Mas Anthony Burgess é experiente manipulador de sentimentos. Será que o leitor conseguirá apoiar na polícia o que condenava no protagonista? Laranja Mecânica é um livro que voa. Não consegui absorver a violência com facilidade, precisei de pausas, mas assim que a história foi para a segunda parte, a velocidade aumentou consideravelmente.

Laranja Mecânica é um dos clássicos da ficção-científica mundial. O turbilhão de sensações, indecisões e sentimentos que gera no leitor ultrapassam qualquer fronteira de gêneros.

Em tempo: o livro conta com um excelente trabalho de tradução, com um capítulo que explica a origem das gírias criadas por Anthony Burgess e as escolhas feitas para os termos em português. No final, reuniram glossários já publicados, o que ajuda o leitor a não se perder nas gírias de Alex e seu grupo. Diga-se de passagem, “perder-se” nesse universo distópico era a idéia original do autor.

Paradigmas

A Tarja Editorial convida para o lançamento de

Paradigmas – volume 1
Sexta-feira, 20 de março de 2009, 18:30h
Bardo Batata – gastronomia e cultura
Rua Bela Cintra, 1333 – Jardins
São Paulo / SP – (11) 3068-9852

Autores: Ana Cristina Rodrigues, Bruno Cobbi, Camila Fernandes, Cristina Lasaitis, Eric Novello, Jacques Barcia, Leonardo Pezzella Vieira, M. D. Amado, Maria Helena Bandeira, Osíris Reis, Richard Diegues, Roberta Nunes, Romeu Martins.

Os amigos e colaboradores do Aguarrás Alexandre Faria e Oswaldo Martins vão lecionar uma oficina de criação literária no Rio de Janeiro.

Shopping Nova América, na Livraria Nobel. Tem metrô do lado.

Sábados, de 10 às 13h, a partir de 21 de março.

(21) 8823.4513 / 8143.8622

Oficina de criação literária

Não perca!

Não gosto de exposições temáticas. Quem me lê já sabe disso então não vou repetir aqui os motivos.

Fui, no entanto, na coletiva Nus, da Fortes Vilaça porque andava pensando que, mais ainda do que em outros temas – como paisagens ou retratos – os nus impõem ao processo artístico uma finalidade a ele estrangeira. E uma trajetória, similar à da arte sacra, que é inversa à da apreensão artística, seja por representação ou deslocamento concreto, dos objetos do mundo.

Fui para acabar de pensar.

Há considerações paralelas. Por exemplo, a presença majoritária dos nus femininos, nessa e em qualquer outra exposição sobre o tema. O poder, que é masculino, que é o do artista, curador e fruidor/comprador/colecionador, sempre mais protegido, menos exposto. Na exposição, os homens estão nus ou na presença de mulheres ou de costas, em um oferecimento homossexual – o que faz deles não exatamente presenças masculinas, mas dessa outra classe que o politicamente correto de nossos dias finge aceitar como sendo um outro-igual mas que, nessa e em outras horas, se prova uma categoria à parte – e diminuída – do masculino.

Mas não é o principal.

O que pensava antes, e terminei de pensar depois, é a respeito dos readymade do modernismo do século passado, época que a exposição pretende resgatar e comparar com uma produção contemporânea sobre o mesmo tema.

Que, claro, começou na colagem cubista, começou no cubismo. Algo do mundo, algo concreto do mundo, que, deslocado, desliza ou acorda para o diálogo sensível, para o toma lá dá cá de percepções, entre dois sujeitos (o objeto que agora não é mais objeto, posto que falante, e o fruidor, lá não tão fruidor assim, mas partícipe, co-autor). E que é, esse diálogo, o que se chama de arte.

Pois, pensava eu, no nu o que acontece é justo o contrário.

Há a produção desse objeto ou situação (no caso de performances e outras modalidades efêmeras desse encontro entre dois sujeitos) em um contexto de arte: feita por alguém que se autodenomina artista, apresentada em um local considerado adequado ao ritual artístico, e com um valor inconsútil determinado por leis que valorizam produções artísticas. Mas aqui, em vez de algo do mundo ser representado, narrado a partir de seu ícone mais significante, ou apreendido tal qual, no seu concreto, para dentro do âmbito artístico, é algo do mundo da arte que é deslocado, que desliza para a fenomenologia da situação erótica.

Como a arte sacra desliza para a possibilidade de outro tipo de êxtase, em nossos dias mais raro que o erótico (ao menos no Ocidente), e que é o êxtase religioso.

Digo que da mesma forma que o readymade de Duchamp continha na sua significação o conhecimento compartilhado, prévio, de um caminho, aquele que um urinol faria de um banheiro público a uma galeria, o nu também contém a premissa do conhecimento compartilhado, prévio, de um caminho que vai da tinta ou do bronze ao repertório erótico, feito e refeito por esta e qualquer cultura.

Daí mais mulheres do que homens.

Costumo, a não ser em vernissages, que evito, visitar sozinha galerias. É raro haver outro visitante nas horas mortas de início da tarde a observar o que observo por prazer e dever profissional.

Não foi o caso aqui.

Edgard de Souza Luiz Zerbini Maria Martins Dan McCarthy

Mal cheguei, vem um grupo de jovens – rapazes, moças. Olham, cochichos, comentários, risadinhas. Saem um pouco antes do que eu. Lá fora os encontro entrando em um carro. Não passavam pela rua e resolveram dar uma olhada. Foram ver a exposição. Era um programa. Estabelecer relações entre Maria Martins e Edgard de Souza? Rir junto com a ironia do carteado de Luiz Zerbini? Admirar o pinto murcho do casal no óleo de Dan McCarthy? Não creio. Vieram sentir a estranheza de um deslocamento. Vieram experimentar, viver o roça-roça de dois mundos.

Não como fica a sensação erótica humana na organização espaço-temporal dessa outra racionalidade, a da estética, mas como fica o quadrinho (ou a escultura) quando incluída no universo erótico da vida cotidiana, comum, lá deles.

Sob o Chile ocupado pelas forças militares muito já se escreveu. Durante os anos de ocupação militar, surgiram diversas novelas que tomavam o fantástico como modo de expressão e denúncia. A novela de Hernán Rivera LetelierO Fantasista - trai essa influência. Nela reencontramos alguns dos tipos criados pela percepção do fantástico, entretanto, já é outra coisa que a novela apresenta. Os acontecimentos espetaculares são aqui tomados em tom menor.

A novela narra um pequeno lugarejo irá desaparecer. Contra este lugarejo se dispõe outro, mais desenvolvido, maior. Ambientado neste local, na exploração do salitre, na pequena Coya Sur, empoeirada, ardente e abandonada, o escritor faz chegar um alguém, acompanhado de uma mulher. O personagem recém-chegado passará a depositar, contra a sua vontade, os anseios da cidadezinha perto fim.

Os desejos pueris da cidadezinha são ganhar um jogo de futebol – o último – contra a arquiinimiga cidade de Maria Elena, que sempre a derrotara em outras partidas. O alguém que chega se revelará não só um exímio controlador da bola, como um conhecedor da história do futebol. Desde logo, a cidade inicia a cooptação do que chega para que ele defenda a derrotada Coya Sur.

Os episódios que se seguem vão descortinando um cenário de abandono e paixão. Os personagens se apresentam aos poucos até que se toma conhecimento do cerne fabuloso da novela. A cidade, o jogo, o Fantasista – nome que se dá a quem chegou – não importam tanto quanto a própria narração. Em o fantasista a narrativa se desdobra em duas narrações. A do narrador, habitante de Coya Sur e a do narrador das espetaculares partidas que acontecem no campo da cidade e na cidade.

Estrangeiro, este narrador revelará para a cidade, não para o leitor, o que acontece. Como um membro de um coro grego, estabelecerá os limites da dor do desaparecimento e o júbilo da vitória sobre a cidade vizinha. Morrendo a cidade morrerá o narrador. Esse amálgama entre o narrador da cidade e a cidade permitirá que o leitor perceba a dupla intenção da novela. Se por um lado, relata as mazelas das populações sobrepujadas por ordens incompreensíveis e autoritárias, por outro, mostra como essas ordens derivaram uma forma narrativa que se esgotou.

O esgotamento de uma forma narrativa longe de tratá-la como algo que não se deve mais empregar – pode ter seu fim decretado por dentro, isto é, é com ironia narrativa que se desconstrói um modo arraigado e determinante de uma interpretação. O mundo que salta das páginas de O Fantasista já não é o que produziu Macondo, mas que com ele dialoga e mantém a mesma percepção de terra arrasada.