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Category Archives: edicao_0019

lista de artigos da edição 19, ano 4 – maio & junho de 2009

A Livraria Cultura convida você para comemorar o Dia Mundial do Rock

dia mundial do rockNeste sábado, a Livraria Cultura, em parceria com a Produtora Tudoteca, antecipa o dia mundial do rock, que iniciará com a exibição do show ‘Rainbow: Live in Munich 1977′, da ST2, com uma breve explicação sobre a banda, seu componentes e as biografias de Ritchie Blackmore e Ronnie James Dio, às 15h haverá uma palestra sobre a história das capas mais famosas do rock, às 16h uma projeção do vídeo sincronizado de ‘O Mágico de Oz’ com o álbum ‘The Dark Side of the Moon’, do Pink Floyd, e às 17h acontecerá uma palestra sobre os mitos e as lendas do rock, ministrada pelo jornalista Sérgio Pereira Couto.

11 de julho, a partir das 14h.

Livraria Cultura Bourbon Shopping Pompéia – Rua Turiassu, 2100 – São Paulo/SP

Se eu fosse o Dr. Hannibal Lecter, pedaços do trombonista da Orquestra Petrobrás Sinfônica seriam servidos em um banquete, acompanhado de boas garrafas de Pétrus.

O programa foi um pouco estranho. Ravel, Bartók, Stravinsky, Ripper. Um contemporâneo, um impressionista, um moderno e um moderníssimo. O que esperávamos ouvir? Música moderna, é claro!

Todo o programa foi constituído de pequenas suítes: “Le Tombeau de Couperin“, “Danças Romenas”, “Suíte Pulcinella” e “O Rio São Francisco – Imagem Sinfônica”. Só que nada aqui é realmente “moderno”.

O Ravel é uma suíte delicada, com timbres sutilmente construídos e sistematicamente assassinados pelo péssimo naipe de metais da OPES. O Tombeau de Couperin é uma obra originalmente pra piano, composta entre 1914 e 1917 e orquestrada em 1919. São seis peças menores, cada uma dedicada a um amigo falecido de Ravel (por isso “Le Tombeau“) e brincando com o estilo barroco francês (por isso “de Couperin“). A orquestração é para pequena orquestra e exclui duas peças do original, a Fuga e a Toccata. Foram feitas orquestrações posteriores (não de Ravel) para a Fuga e a Toccata, mas exigem uma orquestra maior. A execução foi competente, a menos dos metais assassinos. Passável – os esforços do excelente solista Carlos Prazeres para salvar a obra não foram totalmente em vão.

O Bartók é uma obra mais romântica do que qualquer outra coisa, salvo a última dança, marcadamente modal. Não há muito a se dizer, foi bem tocada, foi bonita, e pronto. Nada de menos, nada de mais.

O Stravinsky foi uma tragédia total. A Suíte Pulcinella é da fase neoclássica de Stravinsky, e é necessária uma grande competência artística e técnica para que ela seja o que de fato é: uma obra maravilhosa. Não sei se foi incompetência do maestro ou do naipe de metais, mas aquilo me pareceu antes um Handel alcoolizado do que um Stravinsky de respeito. Aqui deveríamos ter percebido todo o conhecimento que Stravinsky tinha da música do passado, aliado a uma técnica de composição primorosa, com sutis, sutilíssimos, toques modernos: uma terminação que se repete, um timbre percutido, uma intenção exótica. Sugiro aos metais da OPES que estudem escalas. Não vou falar da afinação nem de precisão rítmica porque isso é higiene pessoal, e teoricamente uma orquestra que tem a cara de se apresentar e cobrar ingresso por isso tem que ser, no mínimo, afinada e saber, no mínimo, contar os tempos. Que Stravinsky é difícil eu sei, mas se alguém se aventura a tocá-lo, não pode fazê-lo pela metade.

O Ripper é uma bela obra, afinal. Foi a única obra dignamente moderna da noite, o que não pode ter sido por acaso, mas um programa bem escolhido e posto na ordem certa é metade da graça de um concerto. O declínio do hábito de ouvir música ao vivo, em salas de concerto, não se deve somente à técnica de gravação que já é quase satisfatória, com seu som cristalino, seus engenheiros de som geniais e a possibilidade de apagar qualquer erro. Parte desse hábito se perdeu devido à incompetência de quem escolhe os programas e a ordem em que são executados. Mas desse problema esse concerto passou longe.

“O Rio São Francisco” é um belo poema sinfônico, moderno e brasileiro, de constituição rítmica robusta e sofisticada. Tem belas melodias e é realmente envolvente e profundo. Gostaria que fosse uma obra mais tocada. Gostaria ainda mais que fosse incluída a música contemporânea nos programas de concerto com maior freqüência. Ano passado eu assisti QUATRO VEZES o Concerto Nº1 de Tchaikovsky, no mesmo lugar. Nada contra esse concerto, que é uma obra maravilhosa, mas porque não tocar coisas diferentes, de vez em quando? Eu tenho a nítida impressão de que as pessoas não tem a mínima idéia da quantidade de obras maravilhosas, tão maravilhosas quanto as obras mais ‘populares’, que são pouquíssimo tocadas.

Falta que as pessoas percam o ‘medo’ de música moderna e contemporânea e apreciem sem preconceito.

Existe, sim, música contemporânea audível e digerível, e, melhor ainda, brasileira, como Ripper, Krieger, Ronaldo Miranda.

Agradeço ao Ripper pela experiência.




Para ver no youtube: Ravel – Le Tombeau de Couperin – Pamela Ross, piano (parte 1 e parte 2)

Desejo e Perigo não é exatamente o título mais atraente de um filme de Ang Lee. Nisso podemos entrar na velha discussão sobre julgar um livro pela capa e outros clichês. Pois foi pensando num clichê resenhístico, permitam-me, que comecei a escrever esse texto: a velha máxima de que “mesmo um filme ruim do Ang Lee é um filme acima da média”. Infelizmente, mesmo estreitando os olhos com força, não encontrei entrelinha filosófica que fizesse valer a pena.

Desejo e Perigo se passa em Xangai, na época da Segunda Guerra, quando a China foi ocupada pelo Japão. Conta a história de uma espiã que se apaixona pelo espionado, sem grandes mudanças na dinâmica tradicional do estilo e com um final típico do diretor. Escolhida para se infiltrar na casa de Mr. Yee, um dos colaboradores do Japão na invasão, Mak Tai se passa por Mrs. Mak, mulher sofisticada que se destaca graças às práticas de contrabando do marido (lembre-se de que mercadorias faltam em época de guerra). A história é falsa, logicamente, mas serve para atrair a atenção da esposa de Mr. Yee. Com isso, Mak Tai passa a freqüentar a casa deles para jogar Mahjong, aparentemente o único passatempo das mulheres durante a guerra. Não demora muito para que a beleza de Mrs. Mak chame a atenção de Yee, começando o jogo de sedução.

Ang Lee transforma as cenas de sexo em peças importantes para o entendimento da trama e da evolução psicológica dos personagens. De primeira, o sexo beira quase o estupro, já que Yee faz questão de mostrar quem está no comando. Um homem responsável por torturas e mortes não deve ser lá muito gentil, não? Mak deixa escapar um sorriso dúbio, já que o “estar no comando” é uma prova de que Yee caiu em sua armação. O quanto cada um avança no jogo de espionagem e no envolvimento sentimental é simbolizado na cama, culminando com uma posição para Kama Sutra nenhum colocar defeito.

Entretanto, essa brincadeira não é suficiente para sustentar o restante da história. Há personagens sobrando, cenas despropositadas e mesmo o posicionamento de câmera parece se dever mais à falta de espaço do que à linguagem em si. A câmera estagnada reforça a lentidão narrativa, indo na contramão do turbilhão de sentimentos dos personagens. Outro artifício desnecessário são as idas e vindas no tempo. Teoricamente, funcionam como uma brincadeira de roteiro para aumentar o suspense de uma cena específica. Como no cinema uma cena não possui valor absoluto, já que o contexto se constrói no somatório do antes e do depois, o espectador vê a cena deslocada e fica com ela na cabeça, ainda livre de interpretações. Lá pelas tantas, já com informações narrativas, a cena se encaixa na trama geral e o espectador entende tudo, aquele “aaaah…” que pode criar um grande momento dentro de um filme. Por exemplo: você vê um personagem apanhando muito. Ele é jogado no mar e parece morrer. Você acompanha o sofrimento dele, mas ainda não tem nenhum vínculo, nenhuma empatia. Lá no final do filme, você já descobriu que ele é o mocinho, o cara por quem você torce, e a cena já saiu da sua cabeça. De repente, quando ele está indo encontrar o grande amor de sua vida, naquele famoso momento em que tudo que deu errado passará a dar certo, aparece a tal cena. E você, que tinha se esquecido dela, tem aquele choque, perde o fôlego. Você já sabe que ele vai apanhar, antecipa a frustração, e o sofrimento ganha novo peso. Simples assim.

De vez em quando, esse recurso é usado de forma invertida. Quando a cena dentro de contexto fica sem a força almejada, é possível antecipá-la na montagem, em busca do toque extra de suspense. Curiosamente, a cena que Ang Lee escolhe para essa brincadeira não possui nenhuma carga dramática, o que tira todo o sentido, e os avanços e recuos na linha temporal, desprovidos desse jogo de remontagem, só servem para confundir o espectador.

Resta agora esperar por Taking Woodstock, quem sabe um novo bom momento da carreira do diretor.

Em tempo: Desejo e Perigo ganhou 15 prêmios (melhor filme no festival de Veneza), e foi indicado a 23, incluindo o Globo de Ouro.

Dois tradicionais sucessos de bilheteria da ficção-científica voltaram esse ano com nova roupagem. Star Trek zerou a série com uma superprodução que supera qualquer filme anterior. Exterminador do Futuro – a Salvação avança para a época em que a guerra homem x máquina já começou e John Connor não é só uma promessa de esperança. Um deles foi certeiro e ganhou elogios de crítica e de fãs exigentes, o outro foi um fracasso de crítica, mas está agradando ao público mais adolescente.

Exterminador do FuturoSe você está chegando agora ao universo de Exterminador do Futuro (Terminator), a premissa é mais ou menos essa: uma empresa privada começa a desenvolver um sistema de defesa global controlado por inteligência artificial. Mais tarde, a força aérea americana compra o projeto e continua o seu desenvolvimento. Esse sistema, chamado Skynet, tem acesso a todos os computadores militares do país, incluindo os que controlam armas nucleares. O que ninguém esperava é que a Skynet fosse realmente inteligente e começasse a operar sozinha. Os desenvolvedores do sistema não sabem o que fazer e, por medidas de segurança, tentam desligá-lo. A partir desse momento, a Skynet define a humanidade como seu inimigo e dispara as armas nucleares em seu controle. Se os Estados Unidos ficassem loucos e atirassem mísseis nucleares em países como Rússia ou Irã, o que eles fariam? Retribuiriam o ataque. E assim, antes que se esclareça que a ameaça é uma rede de inteligência artificial, metade da humanidade vai para o buraco. No futuro, Skynet evoluiu e já constrói seus próprios solados, os Exterminadores ou Terminators, para enfrentar as forças de resistência humanas. Lá pelas tantas, quando a viagem no tempo passa a ser controlada, a Skynet percebe que é uma ótima idéia mandar um Exterminador para o passado e matar o líder da resistência antes de seu nascimento (mirando sua mãe, obviamente). É isso o que move os três filmes estrelados por Arnold Schwarzenegger. O primeiro deles, lançado em 1984, é considerado um clássico da ficção-científica e o segundo também tem seus fãs.

Como o novo filme se passa no futuro, vemos a Skynet em todo o seu potencial, com grandes robôs e máquinas varrendo as cidades em busca de humanos. John Connor, o líder da resistência, luta ao lado do que sobrou do exército para tentar derrotar o super computador. Com potencial para uma boa história e um show de efeitos especiais, o filme acaba sendo uma coleção de erros. O primeiro deles a escolha do diretor. Se o primeiro filme contava com ninguém menos que James Cameron, A Salvação tem no comando McG. Quem? O diretor de As Panteras e As Panteras: Detonando.

A escolha dos roteiristas também explica bastante os resultados. A Salvação foi roteirizado por John Brancato, o mesmo que escreveu Terminator 3 (considerado o pior da série) e Mulher Gato, considerado um dos piores filmes da história do cinema.
Toda a força de Terminator reside na diferença filosófica entre homem e máquina, assunto explorado com maestria da série televisiva Sarah Connor Chronicles. Os responsáveis pela série enxergaram nos sentimentos e no valor dado à vida material inesgotável para os episódios. Nela, Skynet não quer simplesmente aniquilar os humanos. O grande sistema, com certa curiosidade mórbida, queria aprender sobre seus criadores. Além disso, os limites da capacidade de aprendizado acrescentavam novas camadas à história.

Os roteiristas de A Salvação não entenderam bem a idéia e transformaram o conceitual em simbólico. O símbolo? O coração. O homem tem coração, literalmente, a máquina não. Isso é explorado de forma quase didática através de um ciborgue, transplantes de coração, Terminators usando raio-x para ver coração e o que mais você imaginar. Para piorar, a Skynet é burra. Imagine uma Skynet com a cara da Helena Bonham Carter. Agora troque o conceito de Inteligência Artificial por Burrice Artificial. Pronto, é esse o novo inimigo da série. Sorte dela que John Connor e o Governo também não parecem lá muito inteligentes. Se você chegar a ver Terminator – A Salvação, depois de conhecer o plano do Skynet entenderá o que quero dizer.

A parte visual também tem sérios problemas. Apostaram em uma fotografia mais cinzenta, como se só isso já garantisse a atmosfera apocalíptica. As referências para os novos robôs foram descaradamente aproveitadas de filmes de ficção recentes. Há um parente próximo dos robôs de A Guerra dos Mundos e há uma coleção de Transformers para ninguém botar defeito. Juro que um dos Terminators usa uma faixa estilo Rambo na cabeça. Outra coisa irritante: para legitimar o filme, espalharam referências aos anteriores em tudo quanto é canto, mesmo que elas não façam o menor sentido. Tem o famoso “I’ll be back”, tem trilha sonora do Guns’n’Roses, tem Terminator sendo derretido, Terminator congelando, gravação de voz de Sarah Connor e por aí vai.

Para não ficar só nas negativas, duas atuações contam a favor. Sam Worthington no papel do ciborgue Marcus rouba todas as cenas em que aparece. Esperem por ele no filme Avatar, o retorno de James Cameron aos cinemas num projeto todo pensado em 3D. A atriz Moon Bloodgood aparece pouco com sua personagem Blair Williams, mas também dá mostras de que tem talento. Se o roteiro não se sustentasse tanto em cenas de ação, esses dois poderiam ter rendido muitos bons momentos.
Terminator Salvation custou US$200 milhões e rendeu mundialmente em 15 dias US$ 125.300.670 milhões. É importante que vá bem de bilheteria, pois é a primeira parte de uma trilogia.

Com Star Trek encontramos o outro extremo do capricho de uma produção, coisa de equipe dedicada em cada detalhe. Imagine a responsabilidade de zerar uma série cultuadíssima, explorada no cinema e na televisão à exaustão? A cobrança viria na mesma proporção que a ansiedade e os produtores sabiam disso.

Star Trek se passa num futuro distante, 2233, e acompanha a saga do capitão Kirk e de seus companheiros da nave USS Enterprise. A humanidade aqui não foi destruída por máquinas e a tecnologia conta a favor da evolução. Os aliados e inimigos são povos alienígenas, o que gera um universo riquíssimo que os trekkers sabem de cabeça e que os novos roteiristas souberam explorar de modo diferenciado (lembrando Star Wars em algumas partes).

A retomada da franquia ficou por conta de JJ Abrams. Apesar de não simpatizar muito com o trabalho dele, reconheço o toque de Midas e a genialidade por trás de seus projetos. Para quem não está ligando o nome à pessoa, ele é o criador das séries LOST, Felicity, Alias e Fringe. Para o cinema dirigiu Missão Impossível III (quase US$400 milhões de bilheteria). Mesmo quem nunca viu um único episódio sabe do sucesso de Lost e deve entender a força de JJ Abrams na indústria de entretenimento.
Não achei um dado concreto de orçamento, mas estima-se algo perto de US$160 milhões. Em um mês, fez de bilheteria mundial US$318 milhões, com grande força nos Estados Unidos.

A idéia de Abrams foi contar a história dos personagens ainda jovens, passando inclusive pela infância conturbada de Kirk e Spock. Abrams arrumou um jeito de permitir um novo desenrolar da série que respeitasse a essência do original sem ter que se prender aos inúmeros fatos e detalhes criados ao longo dos anos.

Abrams divide os méritos com os dois roteiristas de Missão Impossível III, Roberto Orci e Alex Kurtzman. No currículo, também trazem A Lenda de Zorro e Transformers, direcionados a públicos muito parecidos e estruturados em cima da mistura de aventura pseudo-rebelde e humor.

Em Star Trek, o pai de Kirk está em uma missão quando uma nave alienígena gigantesca começa a atacar. O único jeito de salvar a tripulação, incluindo sua esposa grávida, é se sacrificar num ataque Kamikaze. O jovem Kirk, traumatizado, cresce cheio de rebeldia, mas lá pelas tantas acaba entrando para a Academia da Frota Estelar. O roteiro acrescentou diversos elementos interessantes na relação entre os personagens. Spock, por exemplo, não é tão frio e lógico desde o início e acaba brigando diversas vezes com Kirk, que faz a linha herói apatetado, mostrando que o ambiente da Academia lembra muito o das universidades americanas (com o bônus de poder flertar com alienígenas). Uhura tem um affair por um dos tripulantes e desfila charme, enquanto Sulu luta muito bem esgrima e não fica preso à nave. Mesmo mostrando um visual arrebatador, Abrams aposta no relacionamento dos personagens como força motriz. Tiro certeiro.

Star TrekO ponto fraco da trama fica por conta do vilão Nero. Apesar do nome sugestivo e da nave gigantesca que comanda, ele é fraco em sua essência, sem uma boa história por trás. Não ajuda muito o fato de ser interpretado por Eric Bana, que é esforçado mas não consegue arrancar aquele algo mais de seu personagem que poderia fazer toda a diferença. Fora ele, o elenco foi bem escolhido para sua proposta de atrair um público mais jovem. Zachary Quinto (Spock) já é conhecido por seu papel no seriado Heroes. Chris Pine segue o estilo bonitão e esse é seu primeiro papel interessante. Zoe Saldana deu vida a uma lindíssima Uhura, soube se destacar dentro das limitações da personagem e chamará ainda mais atenção na estréia de Avatar, de James Cameron. John Cho e Simon Pegg também devem conseguir um aumento de salário por suas participações como Sulu e Scott.

Abrams e sua dupla de diretores acertam onde Terminator – A Salvação erra completamente. Efeitos especiais são tentadores, mas uma boa trama ainda é fundamental.

O próximo Star Trek sai em 2011. Depois Abrams mergulha na adaptação da série A Torre Negra de Stephen King.

Estreou no Rio, neste dia 5 de junho, a peça “Por que você não disse que me amava?”, texto de Vera Karam, com atuações de Cristina Pereira e Rafael Ponzi e direção de Paulo Betti.

Uma mesa, duas cadeiras, um pôster com a imagem dos noivos no casamento, galhos e troncos secos, assim como o relacionamento do casal que terá sua história contada – ou será a falta de história? – é o cenário que ambienta a peça.

Vemos as frustrações de um casal isolado do mundo num apartamento – a única coisa que eles têm na vida e que parece ter custado toda a vida deles. Eles não têm amigos, não têm filhos, e nessa altura da vida parece que até mesmo nem uma vida eles têm. O diálogo entre o casal nos remete, muitas vezes, às coisas corriqueiras do cotidiano – “A água está fervendo” (fala de Gabriela), “Tô indo” (fala de Fernando José) – e assistimos como um casamento seca assim como a água da chaleira.

São encenadas as lembranças do passado. A carência de amigos. A ausência dos filhos que não tiveram, que, ao menos, os manteriam ocupados e assim não notariam os fracassos um do outro. A recordação da filha que nasceu morta e depois a falta de vontade do marido em ter filhos, preocupado com os gastos que isto traria, já que tinham que pagar o apartamento. Agora pagaram o imóvel e já é tarde para viverem. Nem ao menos podem se separar, porque deste modo só teriam metade de um apartamento, ou seja, metade de suas vidas e também, assim, não teriam mais um ao outro – “Eles não têm um ao outro, mas eles só têm um ao outro.”, explicação do folheto sobre a peça. Conclusão: nada teriam, apesar de nada terem.

Em um dado momento começam a falar sobre um jantar que marcaram, por intermédio do porteiro do prédio, com um casal de desconhecidos do 4º andar. Gabriela há 6 anos, desde que largou o emprego na biblioteca, não conversa com mais ninguém, fala apenas com o marido, e nem tem certeza se são conversas mesmo. Ela não sabe mais sobre o que as pessoas falam hoje em dia. Isso a aflige. Aliás, muitas coisas a afligem e a fazem desistir do jantar.

O casal de vizinhos solitários é uma boa metáfora, pois não passa de um reflexo deles mesmos. Ao falarem do casal, falam sobre si, confessam que têm medo de verem a própria infelicidade na infelicidade do outro casal. Talvez seja essa uma das explicações da escolha pelo isolamento.

Trata-se de um texto leve, nem cômico, nem trágico e acredito que seja difícil chegar nesse tom. Enfim, o texto retrata bem a vida de um casal em que tudo tende ao tédio e esse mesmo texto, às vezes, absorve tanto esse tédio que fica entediante. É como um romance depois do fim.



Elenco: Cristina Pereira e Rafael Ponzi

Texto: Vera Karam

Direção: Paulo Betti

Temporada: 06 à 28 de junho

De quinta à sábado: 20h

Domingo: 19h

CAIXA Cultural RJ – Teatro Nelson Rodrigues


Li Lordes de Thargor – O Vale de Eldor faz um par de semanas e precisei digeri-lo por esse tempo para achar o viés da resenha. Gosto de literatura fantástica como um todo, tenho um apreço maior por fantasia urbana e sou um implicante de longa data com o que é chamado de alta fantasia, cuja referência mais óbvia é o consagrado universo de Tolkien. Acho enfadonho o processo de descrição minucioso de novos mundos e me irrito com as batalhas entre anões e elfos que o velho escritor desencadeou na literatura e em jogos de RPG. A alta fantasia também costuma ter um número maior de personagens, num vai e vem que me distrai. Se o autor opta pela criação de um idioma próprio (você sabe falar élfico?), a confusão se eleva um pouco mais. Isso, deixo claro, é uma limitação minha. Os fãs de alta fantasia mergulham de cabeça nessa infinidade de personagens e alguns chegam a estudar os idiomas fictícios. Conversar com fãs de Senhor dos Anéis é um jeito prático de entender o que quero dizer.

Acredito que pelo desgaste natural que a Terra Média sofreu ao longo dos anos e das cópias, Rober Pinheiro tenha tentado fugir ao máximo do bê-á-bá tolkieniano e da regra imaginária de que todo novo autor de fantasia precisa começar com reis e elfos salvando o mundo da devastação. Ponto positivo. Houve um esforço louvável direcionado à criação de um universo repleto de raças e criaturas que não se inspirasse (ou aspirasse, como é o caso mais comum) na mitologia anglo-saxônica. Essa decisão, independentemente de autor ou livro, sempre traz dois aspectos à tona: o primeiro é o valor do inédito, o frescor na busca de uma identidade própria. O segundo é o fato de que o autor não poderá contar com o imaginário coletivo no desenvolvimento da ambiência, tendo que trabalhar do zero a diegese. Quando um dos personagens conta a história da criação de Thargor para o protagonista, precisei de releituras e piscadas para absorver o que estava acontecendo, porque a quantidade de informação é muito grande. É uma parte que daria facilmente um livro (fica a dica de uma prequela) e que enche os olhos. Mas a conexão efetiva como leitor, essa estabeleci com os eventos do tempo presente, e aí a leitura fluiu com facilidade. O desfile de seres fantásticos é quase ininterrupto, com pequenas pausas para recuperar o fôlego, e todos mantém o nível de interesse. Exemplos marcantes são um gorilão de asas coriáceas que é o inimigo central da trama, um guerreiro de pele azul e armadura prateada chamado Háriel Ehltor e o povo felino Ilmory, que considero a cereja do bolo.

“No entanto, mal teve tempo de pôr os pés no chão quando sentiu um forte tremor agitar tudo à sua volta. De repente, uma parte do teto do quarto foi arrancada como se fosse papel molhado e ele viu algo estarrecedor passar pela abertura irregular. Uma enorme criatura de asas negras estava parada embaixo do buraco, resfolegante e envolta numa nuvem de poeira. (…) Era enorme, de mais de dois metros, e tinha a aparência simiesca de um grande gorila, com olhos vermelhos como faróis e dois grandes dentes incisivos inferiores saltando ameaçadoramente para fora da boca. As orelhas caídas dos lados da cabeça, parecidas com orelhas de cachorro, subiam e desciam conforme ele respirava”.

Estão lá influências como o Caipora e até uma versão do mito do boto, numa rápida aparição. Os leitores mais tradicionais gostarão de saber que também há centauros e dragões, já para o final do livro. Cheguei a ficar de pé atrás quando vi dragões em contraponto ao autoral, mas terminou por ser uma das minhas partes prediletas da história, provavelmente por adotar um ritmo mais tradicional de aventura que me remeteu a História sem Fim.

“Olhou ao redor para as pessoas que estavam reunidas ali e viu que eram em sua maioria mulheres, com alguns poucos homens e quase nenhuma criança. Àquela hora, provavelmente todas as crianças que vira quando chegou à vila já estavam dormindo. Continuou a observar com certa curiosidade o círculo em volta do fogo e as pessoas subitamente tingidas de vermelho que o formavam, com seu falatório intermitente e seus gestos largos e teatrais (…)”.

Lordes de ThargorOutro aspecto digno de nota é a inversão da lógica do “herói viaja para um mundo mágico”. Ao invés do protagonista Deivison Martins (nada de nomezinho Zona Sul) passar por um portal ou cair num buraco, é o mundo mágico que vem atrás dele, já que muitas das criaturas de Thargor vivem por aqui. Isso permite explorar cenários como o centro de São Paulo, Fernando de Noronha e a Amazônia, todos remodelados dentro da fantasia. Esse descortinamento se dá quando Deiv encontra uma pedra mágica que projeta a sereia azul da capa do livro, e sua vida de pernas para o ar. Encontrar artefatos é um recurso comum em fantasia e a pedra de Zhar tem uma grande importância para o destino de Thargor, entretanto, Rober Pinheiro teve a manha de não colocá-la como uma arma milagrosa que poderia desequilibrar a história ou a jornada do herói.

Um atrativo extra para alguns leitores será o choque da descoberta, trabalhado quase em tempo integral. O protagonista desconfia do que ouve sobre a origem de Thargor e das razões de estar metido na confusão fantástica, cedendo somente quando a magia tomar dimensões irrefutáveis que arrefecem seu questionamento. Como todo herói adolescente, também desconfia da própria capacidade de lidar com o problema que tem pela frente, e é aí que surge a ponte entre a dimensão épica da história e o valor da conquista pessoal, o verdadeiro legado deixado por Tolkien, muito além dos paetês e purpurinas.

Apesar de Lordes de Thargor – O vale de Eldor ter uma história fechada, o espaço para continuações é amplo, podendo nascer aí uma bela saga de fantasia nacional… uma que passe longe da maldição das trilogias, por favor.

Em tempo: fãs de Tolkien, não me odeiem.

A leitura do livro de Emmanuel Carrère, Um romance russo, editado pela Objetiva, coleção Alfaguara, dá o que pensar acerca das narrativas contemporâneas. O romance inicia-se em um trem, que viaja aos confins da Rússia, atrás de um interno que, dos hospitais psiquiátricos da Sibéria, é levado de volta à Hungria, que havia abandonado, quando feito prisioneiro na Segunda Guerra. Um clima onírico se instala no vagão em que viaja. A Sra. Fujimori aparece para um rápido ménage, com o narrador e sua namorada. O clima se mantém durante a estada do narrador na cidade siberiana e no relato sobre o húngaro repatriado. O mundo parece feito de equívocos.

O narrador, cineasta e intelectual respeitado, descende de família russa, expatriada na França. Aos poucos apresenta as personagens que, tanto em Kotelnitch quanto em Paris, vivem a desdita, a marca da tragicidade. Como deuses decaídos, como tiranos que perderam o poder, Édipos redivivos, se deixam levar pela recusa do que são, pela incapacidade de reconhecerem as mudanças sofridas pelas sociedades. Pela perda irreparável do que possuíam, seja o amor do outro, seja da supremacia social que o intelectual francês e a polícia russa possuíram um dia.

Em torno destas perdas, erige-se um monumento ao vazio, representante anódino do mundo contemporâneo. A ausência de padrões comportamentais fixos e perenes faz com que as personagens representem um mundo outro, onde as referências, que se fizeram presentes no último século, deixaram de ser válidas ou validadas por um discurso envelhecido. O que a narrativa busca compreender é essa lacuna entre o passado e o presente, que não mais se codifica em uma linguagem unívoca.

Tal compreensão, como se disse, se dá pelo tom trágico em que mergulham as personagens. O coro, que ronda o filme a ser filmado, é, entretanto, inútil. As referências da tragédia grega se perdem na mesma prefiguração do vazio que ronda a existência de ambos. O coro dos cidadãos que, em torno dos tiranos destronados, busca identidade própria também não a encontra. Não mais a voz da polis se faz ouvir através dele. Ouve-se o silêncio povoado de vozes sem retorno.

Como nos quadros de Lucien Freud, as personagens se tornam corpos que vagam entre os espaços definidos por um mundo que não mais reconhecem; mundo familiar e estranho e, ao mesmo tempo, o templo-mundo que permite que se olhe em torno e ainda se veja, mesmo que apenas, a desconstrução metódica de si mesmo.

O livro, construído em pequenas narrativas – bolsões unificados pela constante presença do narrador que conduz todas as tramas – dá a medida da diversidade das possibilidades e a inevitável impossibilidade de, seja o narrador, antes entronizado em seu posto inquestionável, seja as personagens por ele escritas, encontrar mesmo qualquer sombra que possa apaziguar a finitude material a que se está preso. Tudo se perde, tudo termina e não resta sequer o consolo de sentir-se vivo.

A partir desta finitude – sem metafísicas – Um romance russo analisa as angústias com que a sociedade contemporânea convive; tal presença, entretanto, não traz a marca do queixume ou do saudosismo, apenas percebe que desde sempre a finitude se instaurou nos objetos que os homens são.

Artigo originalmente escrito como
trabalho de conclusão do módulo 1
do curso de História da Arte do MASP,
ministrado pelo professor Prof. Renato Brolezzi

Análise de uma obra de arte: Athena Parthenos, por Carolina Vigna-Marú - www.aguarras.com.br

O quê

Escultura em mármore de uma mulher vestida, com um elmo, um escudo e com uma serpente a seus pés (na face interior do escudo). Em sua mão direita pousa uma figura feminina alada.

Quando

A escultura é uma miniatura romana do original grego em madeira, couro e marfim, de Fídias, entre 447 e 432 a.C.

A obra original pertence ao período clássico grego. Nota-se uma grande virtuose, tanto de técnica quanto de anatomia e o equilíbrio dinâmico característico da época, onde as partes estão em movimento, mas sempre obedecendo à harmonia grega. Ainda que sutilmente por razão da vestimenta, podemos perceber a perna estrutural (razão masculina) e a perna decorativa ligeiramente dobrada (sensibilidade e graça feminina). O belo composto ainda não denota emoção na fisionomia, característica que só acontecerá mais tarde no período Helenístico.

Quem

A escultura representa Pallas Athena.

Por quê

O elmo indica se tratar de uma guerreira. Ela segura ainda um daimon, Nike, que representa a vitória. A presença da serpente, em referência à medicina de Asclépio, indica a habilidade e esperteza. A figura representada é, sem sombra de dúvidas, a deusa Pallas Athena, filha de Zeus e Metis.

Onde

A escultura original recebeu seu nome por ter sido parte do complexo arquitetônico do Partenon. A miniatura romana atualmente encontra-se no Museu Arqueológico Nacional de Atenas.

O escultor oficial de Atenas, Fídias, usava materiais preciosos (ouro, marfim, pedras preciosas, etc). Todas as esculturas foram destruídas por colonizadores, para aproveitar a matéria-prima. Fídias fez também os relevos dos templos de Zeus, em Olímpia e do Partenon.

O Partenon era inicialmente um prédio público, e comportava o arsenal  e a reserva do tesouro. O que conhecemos é a ruína da reconstrução. O original foi explodido quando os turcos invadiram e armazenaram pólvora no Partenon (que foi pelos ares). Gregos e turcos brigam até hoje. Péricles reconstruiu Atenas, com o saldo da guerra. Depois da reconstrução, o Partenon passou a homenagear a padroeira da cidade, Pallas Athena (Minerva).

Ilustração do interior do Partenon mostrando a estátua colossal de Athena, de Candace Smith, 1990, in "Análise de uma obra de arte: Athena Parthenos", por Carolina Vigna-Marú - www.aguarras.com.br

Logo na entrada, no interior do Partenon encontrava-se uma colossal estátua de Pallas Athena, com 11 metros de altura, feita em madeira, coberta com materiais preciosos (armadura e a roupa em ouro, pele de marfim, olhos – tanto de Athena quanto da serpente – de pedras preciosas) e cravejada com todo tipo de riquezas.

Mitologia

Pallas Athena é filha de Zeus com a Titã Metis. Gaia profetizou que Zeus, assim como seu pai, seria destronado pelo filho. Contou ainda que Metis daria à luz primeiramente uma filha e depois um filho, o próximo rei dos deuses e dos homens.

Zeus resolveu então, assim como seu pai Cronos havia feito com os filhos, engolir Metis grávida. A filha de Metis cresce dentro do corpo do pai até que Zeus começou a ter dores de cabeça insuportáveis. Ordenou a Hefesto que abrisse seu cérebro com um machado, de onde saiu (já vestida e equipada) a sua filha, Athena.

Athena, a filha favorita de Zeus, sempre lhe foi leal. É a deusa da habilidade, da astúcia, da inteligência, da indústria, da guerra e da justiça.

Elementos iconográficos

Roupa

Análise de uma obra de arte: Athena Parthenos, por Carolina Vigna-Marú - www.aguarras.com.br

A figura feminina na cultura Greco-romana pertence ao núcleo privativo e íntimo e jamais pode ser vista nua em público. O universo público, da pólis, pertence à política e aos homens.

Por cima de sua roupa podemos ver um aegis que, de acordo com a mitologia, foi emprestado por Zeus. O aegis é um tipo de armadura que protege os seios e as costas e é – desde a tradição egípcia – um símbolo de proteção e/ou patrocínio. É muito mais um signo do que uma proteção efetiva contra lanças ou golpes. No caso de Athena, o seu aegis mostra a todos que ela é protegida de Zeus. Athena é sempre representada com o aegis mas a sua forma pode variar bastante, indo desde uma cobertura relativamente simples até armaduras ricas em detalhes e símbolos.

Em Athena Parthenos, o aegis repousa abaixo de cachos de cabelo de Athena e mostra também pequenas serpentes espalhadas em sua superfície.

Serpente

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Athena é a deusa da habilidade, da inteligência e é muitas vezes associada a Asclépio e à medicina.

A serpente é o animal-símbolo de Asclépio, da medicina.

Higéia, outra deusa, filha de Asclépio, é a deusa da saúde, limpeza, higiene e saneamento. “Higéia” pode ser entendido como um conceito maior, entretanto, o de auxiliares de saúde (atuais enfermeiras), que trabalhavam diretamente com Asclépio. Athena Higéia é um dos títulos dados à Athena, segundo Plutarco: “One of its artificers, the most active and zealous of them all, lost his footing and fell from a great height, and lay in a sorry plight, despaired of by the physicians. Pericles was much cast down at this, but the goddess appeared to him in a dream and prescribed a course of treatment for him to use, so that he speedily and easily healed the man. It was in commemoration of this that he set up the bronze statue of Athena Hygieia on the acropolis near the altar of that goddess, which was there before, as they say.” [PLUTARCO, Life of Pericles. A wikipédia possui uma tradução razoável deste trecho em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hígia]

A imagem de Athena é associada tanto às guerras (e estratégias de guerra) quanto ao saber e à medicina. Por este motivo é representada com serpente(s).

É importante lembrar que, para a cultura Greco-romana, a serpente não transmitia temor ou perigo. Seu veneno era usado como anestesia e era considerada como um animal útil para deuses e humanos.

Elmo

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O elmo é um dos elementos representativos de guerra, indicando a deusa guerreira.

O elmo possui três (número sagrado dos gregos) sub-elementos, sendo dois cavalos alados (laterais; o animal-símbolo de Athena é a coruja e portanto faz sentido que os elementos do elmo sejam alados) e uma esfinge (central). Todos possuem elmos individuais, formando o complexo iconográfico do elmo de Athena.

O mito egípcio da Esfinge foi reinterpretado na tradição grega e era uma demonstração de poder (leão, asas de águia).

Gombrich refere-se aos cavalos alados como grifos mas o corpo claramente é de cavalo, não de leão. Pensei na possibilidade de um hipogrifo mas não encontrei referências a respeito.

Nike

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O daimon da vitória, Nike, pousa sobre sua mão direita, garantindo o sucesso tanto em guerra quanto em tempos de paz. Sabemos tratar-se de Nike por causa das asas, da vestimenta feminina e do contexto.

Escudo

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O escudo protege não apenas Athena e Nike mas também a serpente. Ou seja, protege a guerra (e suas conquistas vitoriosas) e o conhecimento (a medicina). O escudo está apoiado na base, em uma posição de paz, ou seja, a imagem representa uma vitória, uma guerra passada e vencida. Trata-se de um momento pós-guerra, portanto.

Acredito que a vitória a que se refere este contexto seja a contra a Pérsia, marcando o início do Século de Péricles e da democracia grega, mas não encontrei nenhuma referência a este respeito.

Bibliografia

CHEERS, Gordon. Mitologia – Mitos e lendas de todo o mundo, trad. Maria Isaura Morais. Lisboa: Lisma, 2006.

GOMBRICH, Ernst Hans.  A História da Arte, trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 2008.

HAUSER, Arnold. História Social da Literatura e da Arte. São Paulo: Mestre Jou, 1982.

OSTROWER, Fayga. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

OSTROWER, Fayga. A sensibilidade do intelecto: visões paralelas de espaço e tempo na arte e na ciência. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

WALDSTEIN, Charles, Sir. Greek sculpture and modern art, two lectures delivered to the students of the Royal Academy of London. Londres: Cambridge University Press, 1914. disponível para download na íntegra, em inglês: http://www.archive.org/details/greeksculpturemo00waldrich

WALDSTEIN, Charles, Sir. Essays on the art of Pheidias. Londres: Cambridge University Press, 1885. disponível para download na íntegra, em inglês: http://www.archive.org/details/essaysonartofphe00walduoft

Web-sites de apoio (acessados em 1º de maio de 2009)

INTERNET ARCHIVE: http://www.archive.org/

PLUTARCO, Life of Pericles, p.45:  http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Plutarch/Lives/Pericles*.html

PHEIDIAS, SCULPTOR TO THE GODS, artigo de Colin Delaney: http://www.perseus.tufts.edu/cl135/Students/Colin_Delaney/fathena.html

WIKI COMMONS (imagens): http://commons.wikimedia.org/

A Fagundes Produções Culturais apresentou nessa quarta-feira, 3 de junho de 2009, a peça De corpo presente, com texto e direção de Mara Carvallio e atuações de Cristina Prochaska, Blota Filho, Carlos Martin, Patricia Batitucci, Alexandra Martins, Murilo Salles e Mariana Bassoul (stand in) e da própria diretora. O espetáculo fica em cartaz até o dia 30 de agosto, no Teatro Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Na ocasião da estréia, Cristina Prochaska foi substituída por Mara Carvallio, que por sua vez teve seu papel entregue a Mariana Bassoul… que, diga-se de passagem, foi o ponto alto da peça.

Propondo uma discussão sobre relacionamentos familiares em vida, e também após a morte, a peça, permeada pela crença espírita, cumpre seu papel. Uma série de conflitos, como uma paternidade precoce, uma filha que se revela lésbica, um casamento infeliz, a existência de uma amante e uma filha problemática são revelados no decorrer da trama, sem prometer grandes novidades.

A profusão de conflitos oferecidos ao espectador poderia gerar outras 600 peças. Cada uma delas, então, se concentraria em um ou dois desses conflitos. Se assim fosse, poderíamos encontrar o foco do texto, que no caso de De corpo presente ficou bem perdido. Quero dizer que todos os episódios apresentados recebem muita atenção, de modo que todos se tornam igualmente importantes e acabam permanecendo no mesmo nível, o que faz com que seja uma tarefa difícil encontrar o porquê do texto, a motivação principal da peça.

Para evitar reflexões exaustivas a esse respeito, elejo a personagem argentina judia como o grande tema da peça. Em vez de tentar achar e ser tocada pela dramaticidade do texto, se coubesse a mim classificar o espetáculo, este seria comédia. E das boas! A argentina é bem humorada, engraçada mesmo, cínica, irônica… Só essa personagem já renderia uma peça. Atuação impecável de Mariana Bassoul. As risadas estão garantidíssimas! Difícil imaginar outra atriz desempenhando esse papel. Escrevo isso sem querer desmerecer as outras atuações, que foram ótimas. O que faltou mesmo foi só o estabelecimento de prioridades, talvez uma dica do propósito da peça, um foco.

Não posso deixar de mencionar o cenário de Antônio Marmo e Igor Santos, bem bolado e sombrio (refiro-me às “portas” de entrada e saída dos atores, meio plásticas, diria orgânicas até), e a iluminação de Maneco Quinderé, que em harmonia com o esfumaçado do ar, compõe o clima da peça, que se desenrola em sua maior parte num funeral.

De Corpo Presente
Teatro Solar de Botafogo
Rua General Polidoro, 180 – Tel: (21) 25435411

De 03/06 a 28/07 – Terças e Quartas 21h
De 07/08 a 30/08 – Sextas e Sábados 21:30 e Domingos 20:30h.

Gostaria de poder aprofundar-me mais nesses conceitos e demonstrar os sentindo intrínsecos dos mesmos, colocados sobre a mesma luz que anteriormente, mas ao continuar a ler, viver e a criar, estamos sempre percebendo novas formas de se produzir, ver e sentir a arte, posto que cada indivíduo possui sua própria maneira de ver, sentir, tocar (etc…) a arte, estou apenas reescrevendo uma página superficial sobre o comportamento artístico, dependente de minhas observações e vivências.

Vivendo em um meio dito “intelectual” estou mais propenso a discernir comportamentos artísticos, mas estou também mais calejado das cegueiras coletivas da nossa visão de vanguarda, dos clichês nos quais caímos, nos comportamentos adquiridos de outros, do imenso ego da sensibilidade artística. Percebi que existe um mecanismo de “status intelectual”, motivado pela ideia-olhar-vazio.

É um comportamento que da indícios dos mais simples, mas se mostra em todos os artistas contemporâneos com uma ou outra tendência mais acentuada, um padrão não só de aparências, mas de atitudes ridículas, motivada por um comportamento adquirido.

Ideia

Todo artista, bom ou ruim, tem aquela coisa da qual ele não tem discernimento, todo artista (incluindo-me nessa lista), acha que tem por intervenção divina, mesmo não acreditando nela, o direito e a obrigação de ser melhor que o outro, mais original e acima de tudo mais artista que o outro. A ideia do artista é a motivação intelectual, o leite que faz crescer. Ninguém é aberto a novas conversas, cada artista tem uma forma de pensar que supera a dos demais, sua ideia é a mais centrada, embora seja alicerçada em “sensos comuns” tão arraigados, que ele não tem mais noção de quão idiota e banal esta sendo (nós artistas) devemos ser mais humildes, não estou aqui imaginando que o artista deve ser aquele santo de séculos passados, que se eximia de ter comportamentos que não fossem justificados por atos divinos, estou apenas reiterando que nossas ideias não são mais originais, podem moldar-se para que se tornem novas, mas toda ideia de alguma forma parte do mesmo ponto que atinge a mesma parte do receptáculo – artista – porque então temos que conviver com certos comportamentos que só podem ser justificados por um ego inflado? Não precisamos conviver com isso, o verdadeiro artista – e aprendi isso a duras penas – é aquele que sabe que ao abrirem-se comportamentos diversos a sua estabilidade criativa, pode não apenas aprender, mas cultivar sua ideia para que se torne cada dia mais sua, sem interferência externa, contanto que ele a leve a um nível que antes nunca havia alcançado, ou poderia ter tentado, que é o discernimento por conclusões; pense se o que esta fazendo se justifica como uma arte apenas sua, ou se a inspiração é tão absurdamente “chupada” que pode atingir ao mais imbecil dos seres. Sejamos humildes para sermos artistas melhores. E não glorifiquemos a santidade em que estão transformando os artistas de hoje. Um bom artista é independente do comportamento do mesmo fora da arte.

Olhar

A duplicidade de sentimentos, tocar-sentir, também diz respeito ao olhar e também está intimamente preso nos nossos vícios, somos tão centrados em nossos trabalhos que queremos atingir, demasiadamente fácil o olhar do outro, sem tocar em nós mesmos, não é porque fazemos arte que estamos no caminho certo. As facilidades de pesquisas irrestritas, o contato que a vida contemporânea fornece, podem não só facilitar, como atrasar nosso desenvolvimento, precisamos tocar-nos para perceber que nosso desenho pode ser assim por motivos de influência direta (existem casos de plágio direto). Releituras, pesquisas, observações acentuadas e conclusões definidas pelo que sou, são não só imensamente válidas como fazem parte do desenvolvimento de um profissional que nunca para. Agora pesquisas centradas em um único meio, que dão vazão a um gosto pessoal devem ser repudiadas. Afirmo que se é devido ao gosto, é falho, pois nosso gosto deve ser independente de nosso ser artístico. O gosto não define se somos bons ou maus artistas, ele define individualmente aquela sensação estética que sentimos ao “ver”. O olhar deve ser treinado para separar o gosto pessoal, do gosto artístico e assim desenvolvermos o que é um estilo pessoal. Sei que inovação é impossível, pois parte do campo das ideias, mas porque temos que fazer novamente? Apenas porque a lógica do pensamento já esta pronta? Retirar da ideia é olhar de forma diferente, retirar da forma diferente da ideia é ser uma ideia gasta. Sei que não podemos fugir de determinados pontos, mas podemos tentar extrair de nossas ideias, não das já estabelecidas.

Vazio

Sentimo-nos, como artistas, saltando sobre o vazio, desconstruindo nossa própria existência em um círculo de sensações divinas. Somos mestres de nossas criações, temos todo o direito sobre ela, mas não percebemos como somos vazios a nós mesmos, saltamos sempre em determinado ponto, mudando de assunto, tema, suporte. O vazio nunca será o nada em arte, somos vazios por termos uma ausência. Que se inicia em um sentimento primitivo de transpor a ideia pelo olhar; a arte é essencialmente visual? Sim a história da arte nos mostra isso, mas de forma contemporânea temos levado nossas ideias, diretamente para o vazio, pulando conceitos, vendemos apenas a ideia, ou apenas o olhar, ou os dois. Ausência de vida, de forma, de cor, de sinceridade. Não precisamos pular continuamente nesse vazio, ao contrário. Pois se você ainda acredita que arte é algo que vem de uma musa, que surge de uma inspiração, então você salta continuamente sobre a sua ausência, arte é trabalho. Arte é viver arte. Arte é uma disciplina ferrenha, dura e que cobra constantemente, como uma vida sua dose diária de sustento. Se você é escultor, esculpir é seu lema, e assim por diante, se você espera aquela inspiração, acho mais fácil você esperar pela sua musa, pelo menos o gatilho da paixão pode te impulsionar ao trabalho. Não seja ausente em você mesmo.

Precisamos nos entender como artistas, como pessoas que são comuns e diferentes, sensíveis ou duros. Ao desconstruir, pude perceber meus maiores defeitos, no campo das ideias, do olhar e do meu vazio(no caso ausência), desconstruir-me tem sido difícil, mas tento constantemente. Volto-me ao comportamento do ser-artista.

As invenções do homem, grandes ou pequenas, sempre nascem de um desejo ou de uma necessidade. Não é diferente com a informática e tudo que gira em torno dela.

Santos-Dumont inventou o avião porque acreditava que se as pessoas pudessem viajar e conhecer outras culturas com mais facilidade, veriam que não somos tão diferentes assim e não haveria mais guerras.

A internet foi inventada por um comodismo, para facilitar a transferência de arquivos entre dois pontos. Curiosamente, é exatamente esta característica que as grandes corporações lutam para combater.

A web não tem um berço nobre como o avião mas teve uma boa criação e tem um bom coração. É esta quebra de fronteiras, tão sonhada por Santos-Dumont, que torna a web este local tão atraente para muitos.

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace
John Lennon
Imagine (trecho).

A web retira automaticamente o pré judice, onde a cor da pele, a marca da roupa, a localização geográfica e às vezes até mesmo o idioma não importam mais. Isso faz da web o ambiente mais humano que nós já conseguimos criar.

Não é a tecnologia, é este aspecto humano que tanto fascina os seus alunos.

Qualquer ferramenta online tem relacionamento como pedra fundamental. O email serve para uma comunicação pessoal. Os sites, mesmo os de empresa, expõem opiniões e sonhos da mesma forma que as meninas de nosso tempo faziam em diários. Os blogs se diferenciam justamente pela possibilidade de interação com o visitante. As ferramentas de relacionamento, como o Orkut ou o Twitter se colocam, obviamente, como um instrumental relevante.

Não há possibilidade de compreensão da web e seus ambientes sem colocar o ser humano no centro. A web é antropocêntrica por natureza.

A web é rica e heterogênea, portanto. Nada é feito por humanos sem ser um reflexo de nós mesmos. Nossas criações são imagem e semelhança de nós mesmos.

É comum ouvirmos “na web encontra-se de tudo”. Sim, na humanidade também.

O ser humano constrói máquinas incríveis e depois precisa domá-las. Não sei se alguém aqui já tentou, mas dirigir um trator é dificílimo e tem poucos controles a mais que um carro comum. É natural que quanto mais variáveis, mais difícil é o aprendizado da tecnologia/máquina.

Vocês passaram a vida estudando as suas matérias. São especialistas e professores de áreas muito mais complexas do que a internet. As ferramentas online são mais fáceis e intuitivas do que coisas estranhas como oração subordinada ou física quântica.

Nós somos mais inteligentes do que a máquina.

Acredito que todos os leitores, mesmo que não usem muito, tenham um endereço de email. Email é fácil de usar, é como uma carta, nossa velha conhecida, mas e quando o recurso começa a gastar mais neurônios do que estamos dispostos a ceder?

O erro, na maioria das vezes, é do desenvolvedor. As ferramentas deveriam ser simples e fáceis de usar.

As ferramentas que começam a se mostrar muito complexas são fadadas a sobreviver apenas dentro de um seleto grupo de nerds/geeks e não se tornará popular. Até mesmo aquelas que são “fenômenos” (de acordo com a imprensa, pelo menos) de audiência seguem esta simples regra. O fiasco que se tornou o Second Life ou a WebTV são bons exemplos disso; ou ainda o domínio do Google onde antes reinavam Yahoo, Altavista e Cadê?; ou, por último, a simplicidade do i-pod.

O simples sempre vence.

Então, se o seu aluno fala sobre algo muito complexo, difícil de usar, inacessível, não se preocupe: a moda passará rapidamente ou não se tornará consolidada até que melhore sua interface. O inverso também é verdadeiro: se o seu aluno falar sobre algo com uma interface simples, a poucos cliques de distância, pode ter a certeza de que mesmo que você não entenda a utilidade ou a função da ferramenta, esta vai ser bem sucedida.

Existem, naturalmente, ferramentas óbvias como VOIP (voice over ip, ex: Skype) que fazem exatamente aquilo que você imagina.

O seu aluno é capaz de aprender coisas estranhas como equação de segundo grau. Algo como o Twitter é mais simples para ele do que abrir a geladeira.

Assim como qualquer coisa online, a chave é como nós nos relacionamos com a ferramenta e seus usuários. Qual botão apertar qualquer um aprende. Entender o signo e o significado é sempre mais complexo, não importa se na web ou não.

Talvez o melhor norte que se possa fornecer neste assunto seja a quebra do pré judice. Na web não apenas o pré julgamento (roupa, aparência, cor, etc) se quebra mas também rui a relação de poder: você e seu aluno estão no mesmo nível hierárquico e ele espera ser tratado como igual.

Você precisa falar a linguagem dele. Dois ótimos exemplos disso são o blog Física na veia e o portal Lablogatórios que unem o conteúdo com uma linguagem (tanto em termos de ambiente e interface quanto no que diz respeito à linguagem escrita) a que o aluno/jovem está acostumado, tratando-o com respeito e de igual para igual.

No que diz respeito à tecnologia, hoje temos uma entidade sem fins lucrativos chamada w3C (World Wide Web Consortium), que orienta como construir sites e aplicativos de forma acessível por todos. A acessibilidade hoje é uma das maiores preocupações dos desenvolvedores. Uma das grandes mudanças foi a separação da informação do conteúdo.

A informação ou o conteúdo não existem mais localizados, centralizados. Nós somos múltiplos e estamos em muitos lugares.

O que muda, essencialmente, é o tom. Não apenas uma questão de linguagem, onde a escrita é tratada como oral, mas também (e principalmente) a quebra absoluta da relação de poder. O leitor não é mais apenas um receptor e o discurso pode ser complementado a qualquer momento, por qualquer um.

O modelo da Wikipedia, por exemplo, pode ser usado com milhares de outros fins, inclusive o pedagógico. Um professor pode, por exemplo, criar um site no modelo Wiki sobre a sua matéria e com isso montar de uma forma muito dinâmica e participativa um modelo inovador de gestão de conteúdo, junto com seus alunos.

O sistema da Wikipedia é de código aberto, gratuito e pode ser baixado no endereço http://www.mediawiki.org/wiki/MediaWiki

A maioria dos provedores de hospedagem trabalha com um gerenciador chamado Cpanel (painel de controle) e possui o Fantastico, um instalador automático de diversos sistemas, entre eles alguns modelos diferentes de Wikis, ao alcance de um clique.

O miguxês e outros códigos

O designer Mario Amaya falou com muita propriedade sobre o assunto em seu blog e merece a sua visita.

O miguxês, ou seja, aquele dialeto de internet que a gente não entende, não é um empobrecimento do idioma, é outro idioma. A comunicação em miguxês é uma opção do jovem, e não falta de.

Este aspecto, o de não ser uma limitação e sim uma opção é crucial para entendermos esta comunicação.

Redes sociais

Acho hilário o termo “rede social”. Existe alguma rede de pessoas que não seja social? A internet toda é humana, formada por pessoas que se comunicam entre si e portanto é toda uma grande rede social.

O termo na verdade se refere a sistemas que facilitam esta comunicação interpessoal, como o Twitter, Orkut, Facebook e muitos outros. Assim como em qualquer festa, é mais importante saber se comportar no ambiente do que saber a receita do bolo.

Tanto nas ditas redes sociais como na tal da “blogosfera”, o crédito é importantíssimo. Apesar de abrir mão da privacidade, o jovem não abre – e nem deveria – mão da individualidade. A internet toda funciona muito por mérito e crédito, ou seja, se você viu um link interessante no Twitter de alguém, ao invés de copiar e colar para repassar para o seu grupo, faça um “retwitt”, ou seja, assuma que você está repassando algo feito/descoberto por outra pessoa, citando a fonte. O mesmo vale para blogs. Os blogs mais respeitados são aqueles que criam conteúdo próprio e que quando reproduzem algo de outra pessoa, dão os devidos créditos. Esta é uma regra que não pode ser quebrada online, sob o risco de perder completamente a credibilidade. E, como sabemos em qualquer ambiente (online ou offline), credibilidade é tudo nessa vida.

Outra regra importante para a sobrevivência online é a periodicidade. É melhor não ter um blog/twitter/etc do que ter um bissexto. A presença online exige alguma manutenção.

O contato direto com o aluno e no ambiente dele pode trazer bons frutos. Muitos problemas como a falta de tempo, a timidez ou mesmo a pressão de grupo caem por terra quando o jovem está online. Muitas vezes ele consegue se expressar com mais desenvoltura, rapidez e facilidade na internet do que na sala de aula.

A semelhança com audiovisuais e seus blocos pequenos de texto

O quadro-negro não passa vídeo, não permite o copy-and-paste, não tem hiperlink, não toca mp3, não reproduz podcast e não aceita comentários, mas na verdade a estrutura lingüística é muito similar à internet. São tópicos com pouco texto que dão suporte ao que é dito verbalmente.

Apesar de o texto ser o seu suporte fundamental, a linguagem é verbal e conta com todo e qualquer recurso audiovisual disponível naquele momento.

Essa capacidade de síntese que o professor tem para dar e vender é extremamente valorizada online.

Assim como na sala de aula, na internet o aluno que se interessar por determinado assunto irá procurar textos e subsídios mais aprofundados. A grande diferença é que o processo não é passivo: o aluno assume o papel de responsável e ator da busca por aquela informação.

O professor tem à sua disposição diversas mídias e formatos diferentes. Aqueles que se sentem mais confortáveis falando do que escrevendo podem, por exemplo, criar um podcast.

Escrever em um blog, por exemplo, não exclui outras possibilidades. O blog pode inclusive conter um podcast, vídeos, um fórum e conteúdos de redes sociais.

A questão da atenção dividida

Paradoxalmente, quanto mais o professor espalhar as suas informações online, mais o aluno vai focar no assunto. Esta pulverização que pode enlouquecer alguém ainda não habituado com a tecnologia é, na verdade, percebida como um símbolo de importância. Quase que uma reprodução das medidas de um clipping, onde o volume de notícias é contabilizado como uma vitória. O internauta presta mais atenção àquilo que chegou a ele de várias fontes diferentes porque entende como sendo de uma relevância maior.

Qualquer informação online que venha de forma intrusiva ou impositiva é imediatamente descartada, mesmo que de interesse do aluno. Ele precisa se sentir e se perceber como agente daquela informação. Aqui entram, com grande importância, as redes sociais e os blogs, onde o professor pode, além de interagir com outras pessoas, colocar o seu conteúdo online de uma forma em que o aluno vá até ele sem se sentir em uma posição submissa ou passiva.

A passividade no recebimento da informação é sempre entendida como spam. Nada online é unilateral, mesmo que a bilateralidade seja apenas a de clicar em um endereço para chegar ao blog.

Dicas de ferramentas

Colocar uma matéria online no Google Docs, onde o aluno pode copiar e colar o que interessa, interagir deixando comentários e/ou dúvidas ou mesmo acrescentar algo.

Publicar slides, imagens, ilustrações e apresentações nas ferramentas gráficas (Flickr, Picasa, etc), de forma que o aluno tenha acesso a estas informações com maior clareza do que uma reprodução xerox ou cópias feitas em cadernos.

Publicar textos em domínio público no Scribd, de forma não apenas a compartilhá-los com toda a web mas também facilitando o acesso e busca deste material.

Indicar a leitura de trechos ou livros na íntegra no Google Books, dependendo se em domínio público ou não.

Abrir um canal de comunicação direta com alunos e colegas através do Skype, msn ou similares.

Tocar/mostrar músicas no Blip.fm, como demonstrativas de uma figura de linguagem ou de uma época.

Estimular a leitura através de hipertexto e a assimilação de conteúdo de qualidade em palestras online e vídeos educativos.

Criar coleções (listas) no Youtube ou no Vimeo de vídeos interessantes e recomendados para os seus alunos.

Criar versões WAP de seus blogs para que os alunos possam ler no celular. A maioria dos sistemas de blog possui versão WAP ou algum plugin gratuito para esta finalidade.

Usar o Google Earth ou Maps para mostrar locais ou o History do Google Earth para representações em 3D históricas (Roma Antiga, por exemplo), ou ainda o céu ou a Lua ou Marte.

Reproduzir experiências bem sucedidas como o Mil Casmurros, por exemplo.

Centralizar bookmarks de forma pública e acessível no Delicious.

Ampliar o repertório dos alunos com palestras do Teachertube, do MIT ou do TED.

O senso de comunidade

O ser humano é engraçado: basta ver a casa de um que já quer construir a sua do lado. Nós temos o senso de comunidade muito enraizado em nossa formação. Desde o homem primata que formamos comunidades. Os princípios de auto-preservação e proteção seguem em nossas vidas o tempo todo.

Os alunos formam grupos, tanto em sala de aula quanto em intervalos. O ser humano se relaciona em bandos, mesmo que este bando seja composto por apenas duas pessoas. É natural portanto que na web este senso de comunidade se reproduza também.

Um dos pecados mortais é ir contra ou trair grupos estabelecidos (exemplo: a propaganda do Estadão contra os blogs), mas às vezes é difícil detectar os grupos que são por natureza voláteis, orgânicos e flexíveis, ainda mais online.

Uma boa forma de se medir a relevância daquele grupo ou pessoa online é uma simples busca no Google. Coloco aqui alguns truques práticos de uso do Google para este fim:

Para limitar a busca naquele termo específico e não em todas as palavras que o compõe, use aspas. Ex: “gato siamês” irá retornar um resultado muito mais relevante do que apenas procurar por gato e siamês.

Para descobrir quem ou quantos sites têm links para alguém, use o “link:”. Exemplo: “link:aguarras.com.br”. Não é necessário usar o www.

Para buscar algo apenas dentro de um determinado site, comece a busca com “site:URL busca”. Exemplo: “site:aguarras.com.br arte-educação”.

Para buscar um conteúdo apenas em um determinado tipo de arquivo, use o filetype:TIPO. Exemplo: “hauser filetype:pdf”

Existem outras dicas no próprio Google.

Muitas vezes a própria internet fornece informações sobre quem é o seu visitante, o que ele pensa, como age e o que a comunidade pensa dele.

O potencial disseminador do internauta

As técnicas de divulgação mudam de nome e formato com o tempo. O que antigamente era o RP (relações públicas) hoje é o especialista em rede social. As ferramentas mudam mas o princípio é o mesmo (nós somos os mesmos).

“Aquilo que é bom não precisa de propaganda”. Esse é um dos mitos mais conhecidos na publicidade e é apenas isso: um mito. O professor faz propaganda de sua matéria. A mãe faz propaganda de suas opções de vida ao filho. O padre faz propaganda de sua religião. Os formatos e os objetivos mudam, naturalmente, de acordo com o caso, mas a disseminação de idéias e ideais faz parte de nosso instinto de preservação, a preservação de nossa memória.

Na Grécia Antiga, era considerado “clássico” aquilo digno de ser copiado. A expectativa de vida então era de 35 anos e a noção da finitude da condição humana era claríssima. Assim como na internet, a nacionalidade era uma essência, um pertencimento espiritual e cultural e não algo limitado por fronteiras: se você fala grego, segue a religião grega, pensa como um grego, você é grego, não importa onde viva ou tenha nascido. As artes eram consideradas de suma importância porque perpetuavam o registro da cultura. As conquistas eram não apenas militares mas também culturais.

Estes mesmos conceitos são reproduzidos na internet que, assim como a Grécia Antiga, não tem a noção do Estado-nação. O modo de vida do internauta o qualifica. Aqueles que não são internautas (“não falam grego”) são considerados pelo grupo como inferiores culturalmente (bárbaros). O conceito de clássico é aquilo que é reproduzido, independente se um vídeo tosco no Youtube ou uma palestra no TED.

Surge então o conceito de uma informação viral, ou seja, que se reproduz além de uma intenção ou controle, que se reproduz de forma autônoma, espontânea. Um bom viral é aquele que move alguma emoção, que toca em algum ponto da formação do ser, mesmo que seja o de considerar o diferente como um bárbaro.

O fenômeno de dissipação destes conteúdos é às vezes batizado de “meme”, uma analogia ao conceito criado pelo zoólogo Richard Dawkins para explicar a disseminação de pensamentos, idéias e produtos culturais. Segundo Dawkins, algumas informações são transmitidas da mesma forma que os genes, replicando-se automaticamente e tornando-se parte da cultura universal.

A internet é o veículo ideal para a transmissão desses “memes”. E, com o advento de sites que permitem a criação e a divulgação de conteúdo produzido pelos próprios internautas, os memes ganharam um novo aspecto: a possibilidade de estas unidades de informação não apenas serem retransmitidas, mas ganharem novas leituras.

E tudo isso ao alcance de um clique. Não precisamos mais esculpir em pedra a nossa visão de mundo. E com a facilidade vem também o alcance exponencial.

O professor pode se colocar como receptor e requisitar aos seus alunos, por exemplo, que indiquem conteúdo relativo a um tema. A pesquisa estimulada na web movimentará a comunidade de alunos e, conseqüentemente seu interesse. Ou, ainda, analisar algum conteúdo online junto a seus alunos, estimulando desta forma a busca por similares.

Conteúdo é a chave do negócio, sempre foi e sempre vai ser.

O que você tem a dizer é muito mais importante do que a forma.




Nota importante: este artigo foi originalmente escrito como uma linha geral de uma palestra para professores e não tem a pretensão de ser nada além de um apanhado de dicas sobre alguns dos usos possíveis da internet como instrumento didático. Este não é um whitepaper e a autora é especializada em internet e não em pedagogia.

Na década de 30 (e por reflexo, na de 40 também), o mundo estava de cabeça para baixo. Sangue para todo lado, Hitler, Segunda Guerra, crise de 1929, enfim, aquele bom e velho caos que todos conhecemos. Não por acaso as pin-ups surgem no país com maiores problemas financeiros naquele momento, os Estados Unidos. As pin-ups tentavam resgatar algum tipo de identidade a um povo massacrado, através da sexualidade e do humor. Naquele contexto já era uma objetificação, já era ruim. Hoje é apenas ridículo.

Existe uma corrente errr.. cof, cof filosófica de endeusamento da mulher que nada mais é que uma objetificação. Explico. Ao retirar aquele determinado grupo de indivíduos (mulher, gay, negro, astigmático, não importa) do ambiente humano, ou seja, ao desumanizar alguém, você o objetifica, mesmo quando sob o pretexto da divinização. Acontece que este tipo de ação, em pleno 2009, não apenas perdeu o sentido como perdeu também qualquer possibilidade de justificativa ou embasamento. Não é mais aceito fora do universo pornô assim tão facilmente.

Diz um amigo meu que as pin-ups não vão além do alcance da mão, referindo-se, justamente, às tentativas de parecer fazer mais do que esta mera objetificação de que falei anteriormente.

O cenário fotográfico geral da SP-Arte é que as pin-ups voltaram. E voltaram em preto e branco, em uma tentativa de posicionar o estilo em um tempo cronológico em que isso era possível, usando a técnica como uma bengala, como uma pseudo-justificativa artística. Além de ridículo fica datado.

Alguns se salvam.

Só na galeria Babel gostei de três:

Thomas Hoepker Iatã Cannabrava gUi Mohallem

Thomas Hoepker com uma print de 1936. Hoepker foi historiador da arte e arqueólogo mas acabou sendo mais conhecido como repórter fotográfico. Hoepker sempre tem um olhar poético, tanto na composição quanto no assunto sem aquele distanciamento estereotipado que se espera de um arqueólogo alemão. É um fotógrafo sem clichês.

Iatã Cannabrava, com uma color de 2008 intitulada Capão. A figura dialoga dentro de si, com o quadro dentro do quadro e com o fruidor que entra no cenário e na biografia da imagem. Elvira imediatamente apontou a estrutura de Velásquez, onde uma parte da estória anterior permanece dentro da contada, como um roteiro que cria passados não-vistos das personagens.

E, ainda na Babel, gUi Mohallem, com o seu Ensaio para loucura, pinholes de 1979. Ele se/nos aproxima em camadas, em etapas, devagarzinho para ficar mais gostoso. A primeira é a própria técnica, que retira a lente entre o fotógrafo e o fotografado. Outra aproximação é a da interação, onde o visitante é convidado a usar carimbos. A idéia do carimbo é gostosa, funciona como uma lembrança. E mais uma, as pessoas fotografadas estão em movimento, são reais, fazem parte do seu-nosso cotidiano. Poderia ser você, daí a loucura, uma loucura não ensaiada mas de todos nós, você, eu, fotógrafo e fotografados. E aí tem os carimbos em si, que trazem textos íntimos dos fotografados. São seis, selecionei um: Eu sou tão normal, tudo que eu faço é normal, eu penso tanto antes de fazer as coisas… mesmo quando eu me drogo ou trepo com um desconhecido é muito normal, sabe, dentro dos limites da normalidade.

Fernando Arias Fernando Arias

A galeria Eduardo H Fernandes mostra o Tríptico umbilical do colombiano Fernando Arias. É um mesmo homem, nu, em posição fetal, visto em três planos diferentes e sim, são três fotos. Fazem parte de uma exposição intitulada Humanos Derechos, uma antiga bandeira do artista.

Miguel Rio Branco

Na Silvia Cintra encontrei um tríptico de Miguel Rio Branco, de quem eu sempre gosto. Ele retrata a tragédia urbana e cotidiana sem recorrer a excessos de texturas ou outros modismos.

Helena Almeida

A galeria Mário Sequeira trouxe duas fotos de Helena Almeida que brincam com o tempo e com a seqüência narrativa. Estão em um corredor e portanto você pode vê-las sem uma intenção de ordem, de sentido. As fotos são da mesma cena em dois momentos e em um destes o retratado olha para você. É sempre bom encontrar novas linguagens em velhas técnicas.

Vaqueiros, de Andreas Heiniger Vaqueiros, de Andreas Heiniger

A Amarelonegro Bei mostra Vaqueiros, de Andreas Heiniger. Vaqueiros merece um duplo elogio. Obviamente pela qualidade fotográfica e narrativa mas também pela montagem. A Amarelonegro Bei colocou as fotos, portraits dos nossos peões, em colunas enviesadas em relação ao visitante, fazendo com que o olhar fosse imediatamente impactado pela força das pessoas retratadas mas ao mesmo tempo permitindo uma aproximação gentil.

Claudia Jaguaribe

Na H.A.P. encontrei outra sempre ótima, a Claudia Jaguaribe. Ela é artista plástica e historiadora da arte mas poderia perfeitamente ser designer também. As suas duas fotos fazem uma brincadeira cromática, em que ela pega o tom dominante/emocional da fotografia e o (re)aplica sobre a foto em uma faixa, uma foto se contrapondo à outra inclusive em termos de diagramação e com esta delicada interferência ela mostra (e educa) um olhar.

Odires Mlaszho

E na Vermelho, vi Odires Mlaszho, com seus seis portraits mixados entre estátuas/figuras notórias e fragmentos de pessoas, em um encaixe perfeito entre as duas imagens. Ao humanizar a estátua, mostrando o carne-e-osso, ele desumaniza a noção de realidade. Odires, aliás, não é nome próprio, é um acrônimo de Objetos Derivados Intrínsecos Restos Emulsionados ou Saqueados.

absurdo!

A SP-Arte sempre vale uma visita. Só fique longe do café, que além de custar inacreditáveis R$4,50 é ruim e veio frio. E ainda vem acompanhado do olhar de desprezo do atendente que está naquele fantástico lugar superior e é o guardião da única fonte de cafeína da feira. Na próxima eu levo uma garrafa térmica. Juro que levo.

ERRATA – Tatiane Lopes escreveu: Apenas uma correção: as fotos da exposição “Vaqueiros” é do estande da Bei Editora, no qual ele está lançando um livro.

Leandro Erlich desestabiliza por três vezes a idéia que eu e você temos de casa, na sua exposição na Luciana Brito Galeria.

Você pode pensar. Se pensar vai perder uma parte da arte dele.

Primeiro perdendo, então, para depois largarmos pensamento de lado e permitir a modificação nos atingir, simplesmente.

A mais óbvia das três instalações é a que mereceu mais destaque. Você sobe (ou será que desce?) uma escada apoiada em uma janela pendurada no vácuo, com seu pedacinho de parede falsa.  A janela é do tipo antigo, com vários panos de vidro, a parede também é, com tijolinhos. A escada é de alumínio, bem moderna.

A segunda é uma porta de madeira grossa, antiga, que levou um golpe de uma bola de ferro e se quebrou. Só para mostrar que atrás dela tem outra porta – comum, atual.

E a terceira é uma falsa clarabóia em backlight, por onde passam nuvens em céu azul. Por onde passa o tempo em um varejo visível que se contrapõe à passagem do tempo por atacado, não visível, das duas primeiras.

Brunelleschi, na sua Santa Maria del Fiore, faz um jogo de espelhos para que as nuvens do céu sejam vistas no lugar destinado ao céu em uma pintura sua. Era a Renascença e era a invasão da representação do real na, até então, arte fortemente ideológica/religiosa anterior. Erlich faz justo o contrário. Sua clarabóia, no meio da galeria de dois andares, é necessariamente vista como artificial. O fascínio é porque é artificial. Um céu possível em algum momento em que céus não são mais possíveis.

Da mesma forma, aquela porta quebrada criou outra, por trás, fez brotar outra, depois do trauma. E a escada é uma entrada (prefiro subir) para outro tempo.

A sua desestabilização é tempo-espacial. Forte paca.

Ou você pode só ficar lá, olhando para cima as nuvens de mentira passar, até ficar com o pescoço duro. Ou se permitir a sensação de usar a escada. Só isso. E sair de lá diferente de quando entrou – também aceitando o tempo, como o artista o aceita.

Na mesma galeria há outra instalação, essa de Fabiana de Barros e Michel Favre. Também desestabiliza o ambiente. Aqui, 240 ms de fio elétrico formam uma teia de aranha. Essa teia te prende – quer dizer, prende a tua imagem – assim que você se aproxima. Se você para, você é “comida” pela instalação. É um bom jogo com a arte de Erlich. Em um, o tempo presentíssimo. Em outra, o tempo paradíssimo.

Alicia de Larrocha [img] é uma das últimas representantes da Arte pura, com A maiúsculo. Dona de uma gama de timbres impressionante, de uma dynamic range gigantesca e de uma personalidade artística inebriante, Alicia é um dos ícones de nosso tempo. Seu discurso nunca tende ao hipersentimental, pelo contrário. Seu ataque é preciso e quase ‘seco’. Mas não é seco, claro.

Intérprete celebrada dos românticos como Chopin, Liszt e Schumann, é também conhecida por suas interpretações dos barrocos e dos clássicos. Gravou todas as sonatas, rondós e fantasias de Mozart. E, claro, gravou tudo de música espanhola que se possa imaginar.

Mas esse artigo é sobre três gravações em específico: as sonatas K.283, K.331(a da Alla Turca) e K.284 de Mozart.

A clareza do discurso e a noção orquestral são evidentes. Noção orquestral não no sentido polifônico do barroco – embora Mozart tenha, sim, sua polifonia simples – mas no melhor do período clássico. Como não pensar em colunas de mármore, simples, retas, brancas e estonteantemente belas? Como não pensar numa escultura grega, em que cada mínimo detalhe é carregado de significado?

O discurso de Mozart não é nada pobre. E é absolutamente errado dizer que Mozart, pelo período estético, é ‘preso’ à forma. Preso nada! Mozart se utiliza da forma como recurso expressivo, e exige algozmente do intérprete que cada repetição, com exatamente as mesmas notas, seja carregada de um significado diferente. Aí vocês pensam: “Fácil! Temos a agógica! Rubatos! Dinâmica”.

Nada disso. O tempo é estrito, as dinâmicas estão TODAS marcadas. E agora, o que sobrou?

Sobrou a intenção.

O Barenboim conta, das longínquas memórias de sua infância, que foi fazer um masterclass com o Horowitz. Ou então foi simplesmente tocar pro Horowitz na casa dele. Mas pouco importa a platéia, ninguém na platéia é o Horowitz mesmo. Ele não estava muito feliz, porque era um grande fã do Rubinstein, que além de seguir uma corrente interpretativa diferente, tinha lá suas rixa com o Horowitz. Depois de desfeito o gelo inicial e a conexão ter sido estabelecida, o Barenboim se lembrou de perguntar uma coisa, que sempre o tinha intrigado no toque do Horowitz: Como ele conseguia fazer aqueles crescendos? Como ele conseguia dar o efeito de crescendo, mesmo que fosse uma só nota? Como fazer o som de uma só nota crescer, num instrumento percussivo, onde fisicamente o som decai com a exponencial do tempo?

E o Horowitz respondeu: “Você tem que querer.”

E isso, em parte, justifica a primeira frase desse texto. Rubinstein diz que “você toca o que você é”, e isso é tão inexorável quanto as leis da natureza, não se pode escapar jamais. Para tocar piano, e além disso, para fazer música, de verdade, no sentido mais profundo e puro que isso pode ter, é preciso se desfazer de tudo, se despir de todas as máscaras e encarar a própria alma, nua, diante do espelho da música e da performance. É preciso, além disso, querer. É mais, muito mais, do que “essa passagem está marcada “piano”, então eu devo diminuir a intensidade sonora”. Não. Se a passagem está marcada “piano”, você deve querer diminuir a intensidade sonora.

A música é a única arte que se utiliza de um único meio físico para atingir a platéia. Ela nem existe, materialmente. A música é a única arte que não existe! Se utiliza de um único sentido também. E o que separa, então, a Arte absoluta de ondas sonoras ordenadamente distrubuídas segundo propriedades físicas bem conhecidas que provocam sensação agradável no ouvinte?

A vontade, acima de tudo. Como na sonata de Mozart, o que faz toda a diferença entre duas passagens que seriam idênticas, se analisadas do ponto de vista meramente maquinal, é a vontade.

O intérprete deve querer que elas soem diferentes.

No caso da Alicia, isso acontece. E como.

De todos os climas diferentes utilizados em cada uma das variações do primeiro movimento da K.331, de toda a veemência do discurso das oitavas da Marcha Turca, de toda a intrincada superposição de detalhes da K.284(que poderia ser orquestrada por um semileigo sem o mínimo esforço, de tão bem acabada), de tudo isso emana, mais forte do que quaisquer dificuldades físicas, anatômicas(sua mão alcança pouco mais de uma oitava, o que não a impediu de tocar e gravar o Concerto Nº3 de Rachmaninov ou qualquer outra coisa que desejasse), mecânicas, musicais ou de qualquer natureza, a vontade, a vontade de fazer música e fazer viver a música.

Alicia é uma das grandes lendas do piano, que têm a capacidade de estabelecer um canal direto com o âmago do ouvinte nas primeiras notas, e através dele fazer correr o seu discurso. Raros artistas, como ela, conseguiram ser tão originais, no sentido de ter uma personalidade artística inconfundível, mas ainda absolutamente fiéis ao estilo, a estética e ás ‘restrições’ de cada período. Alicia, como Mozart, sabe usar as regras a seu favor.

recomendado: La Campanella, no youtube.

A arte marginal brasileira sofre de uma síndrome infindável de esvaziamento. A marginalidade virou estética e nisso se diluí onde deveria ser forte, na espinha dorsal dos personagens. Seja cinema, grafite ou literatura, todos querem retratar o marginal em uma disputa que estica as bordas para os lados em busca de novos recordes. Há muitos que o fazem no conforto do lar, pois retratar a vida marginal mergulhando em seu universo cansa demais. Imagine ser marginal sem passadeira toda quarta-feira engomando o terninho? Há outros que perdem de vez as estribeiras alegando que seus personagens são mais marginais que os marginais, e não digo pelo jogo de palavras, digo pelo que já ouvi. Um marginal mais do que os demais é aquele que ninguém representa, aquele que eu vi primeiro e ninguém tasca, agora é meu, ajudante de encanador de banheiro de usina hidrelétrica, sabe como é que é. Não é que você precise andar pelos labirintos da usina para escrever sobre eles. Assim fosse, não teríamos os clássicos de Tolkien e Bradbury no cânone literário. O fato é que é preciso identificação do autor com a obra. Seja lá em que ponto obscuro de sua alma, ele precisa buscar a matéria-prima que alimentará sua mentira e a transformará numa história verossímil, com personagens palpáveis. Por isso, me dá calafrios quando pego livros com orelhas marginais, ainda mais quando sim, já andei pelos labirintos e passei pelo encanador, num drible rápido no corredor da usina, com direito a roçadinha de braço.

Vapor BaratoJosé Valdemar de Oliveira, felizmente, soube para onde direcionar sua escrita nos contos de Vapor Barato. Há a tal marginalidade, mas não uma imposta pelo bico da pena, e sim pelos jogos naturais da sociedade. De modo geral, todos os contos esbarram em questões da sexualidade humana, naquilo que deveria ser pura fonte de prazer e é transformado em arsenal para agressões diversas. Como Valdemar não tem medo dos assuntos que aborda, vai direto ao ponto, sem floreios. Há as gírias do mundo gay, travestis deslocados no dia que se realizam à noite, há beijos e transas heterossexuais e homossexuais. Há os estupros das cadeias, a aceitação do que acontece no mundo cão sem dó nem piedade, e que é visto enviesado do lado de fora quando acompanhado de afeto. Estão lá também as boas e velhas prostituas sem síndrome de salto alto ou de a vida me enganou.

Uma jogada interessante para evitar os clichês foi abordar os temas de dentro para fora e não com olhares externos guiando a narrativa. Claro que, como toda coletânea, há contos mais fortes que outros, histórias que funcionam melhor ou pior, seja pela aposta na diversidade (e amplitude da identificação do leitor) ou simplesmente porque nem sempre o quebra-cabeça se encaixa da melhor forma.

Dos que mais chamaram minha atenção, a cereja do bolo é Vapor Barato, que dá nome ao livro. Num parágrafo aqui outro ali juro que ouvi Gal Costa se esgoelando no meu ouvido e me distraí rapidamente,ó minha honey baby, mas o conto em si é bem elaborado na forma e no conteúdo. Conta a vida de um grupo de amigos, personagem a personagem, de modo que a individualidade de um complemente a história do outro até o grande clímax, com um final sacana para um conto que de certo modo trabalha a amizade. São todos livres ao seu modo, dentro do que se permitem, seja fumar maconha, transar com homens (mesmo não sendo gay) ou fazer um strip-tease louco em cima da mesa a ponto de soltar faíscas entre os demais e incendiar a casa. Enquanto se descobrem, o grupo encontra afinidades que os permitem, apesar de tão diferentes, se descobrirem parecidos e romperem juntos fronteiras morais e sexuais. É uma grande festa. Os que estão fora da piscina sempre acham a água sem graça. Ser feliz incomoda, descaradamente ainda mais, e todo mundo sabe que a festa um dia termina. Aqui com violência visualmente física, mas psicológica nas entrelinhas. Ponto ganho.

“Adolescentes encabeçavam a lista de seu cardápio sexual. Escolhia o alvo, fazia amizade, atraía pro bar, dava cerveja. Levemente embriagado é melhor, ela dizia. Falava que tava a fim, era direta sem receios, sem pudores. Transava oral, anal, nem aí, tá ligado? Raramente o bis com o mesmo carinha. Não dizia: transei com ele. Dizia: fiz com ele. Gíria gay que adorava. Aliás, alguns babacas juravam que se tratava de algum travesti aposentado que resolvera passar os restos dos seus dias à beira da praia, contaminando-o com suas doenças. Muita coisa ruim se falou a seu respeito”.

Noiva em Pânico é um conto curtinho e eficiente. Como o título dá a entender, brinca com o desespero de uma noiva que de repente se vê sem o noivo no meio da igreja, diante dos convidados constrangidos. Tem um ar de psicose que sustenta até o fim. Anjos de Preto é o típico conto rock star despido de glamour. Vem com drogas, valium com uísque e uma overdose que vira necrofilia. Foi o conto que me fisgou efetivamente a atenção para o livro. Não pretende ser uma pancada no estômago estilo Réquiem para um sonho, mas sabe aproveitar o clima de delírio para narrar os breves momentos de um casal. Sabe aquela máxima de “o que os vizinhos vão pensar?” Valdemar de Oliveira leva às últimas conseqüências.

“Morreu trepando. Gozou urrando, movida a ácido, e fechou os olhos para sempre. Só saí dela quando também gozei, e olha que demorou, não sei por que, demorou. Aí cheirei mais uma fileira de pó e caí ao seu lado”.

Fragmentos de uma Discussão Amorosa Outrora Subversiva faz graça desde o título. Nele, um casal tem uma discussão de momentos filosóficos alternados com “cale essa maldita boca” e “vá se foder”, na maior integração. O fato é que o homem da relação tem um tesão inabalável que a mulher aproveita até a última gota, mas que lhe dói saber que só existe ali pulsando porque ele tem uma paixão enrustida por um amigo que curiosamente alimenta o mesmo sentimento, sem se privar de suas namoradas passageiras. Apesar de levar a poesia a sério demais numa linha ou duas, dá conta da proposta inicial, sendo um bom exemplo da alternância de aridez e leveza que permeia Vapor Barato. Nada de querer ser mais marginal que a marginalidade. No rádio, o que toca é Bjork e Cássia Eller. Ainda bem.

Vapor Barato
José Valdemar de Oliveira
7 Letras
139 páginas.

01. Para começar, queria que você falasse um pouco do Pó de Parede e como você foi parar na Não Editora.

Eu estava com o Pó de parede quase pronto quando recebi uma bolsa da Funarte para escrever o Sinuca embaixo d’água. E eu queria muito que o Pó de parede fosse meu primeiro livro. Não faria sentido publicá-lo depois do romance, eu acho. Entrei em contato com a Não Editora porque já conhecia o Antônio Xerxenesky, um dos sócios. Os livros eram bonitos, eu poderia me envolver no processo (escolha da capa, essas coisas) e lançá-lo em pouco tempo. Enfim. Pareceu um bom jeito de começar.
Mesmo tendo sido lançado por uma editora pequena do sul do país, o livro teve uma ótima repercussão: resenhas bem positivas em jornais e revistas, mas também gente comentando em seus blogs, e outros me mandando e-mails elogiando, ou então querendo saber como comprá-lo.

02. Na época em que resenhei o Pó de Parede, uma característica marcante foi o seu cuidado com a estrutura narrativa. Nada está lá por acaso. Como você chegou nesse ‘formato’ de escrita? Foi instintivo ou você decidiu que era um caminho a seguir, foi lá e fez?

Acredito que um livro não pode ter acasos. É claro que, durante o processo de escrita, o autor pode sim ir descobrindo coisas e, enfim, ver que detalhes surgem do processo, ou que caminhos antes descartados, ou simplesmente não percebidos, podem ser interessantes. Quanto ao produto final, esse tem que ser um todo coerente.
Geralmente, faço muitas anotações antes de começar a escrever. Sobre os personagens, os lugares, a trama. Tenho uma crença, talvez boba, de que não posso começar a escrever se eu não estiver já muito segura em relação ao que quero contar, e por que quero contar. Sempre acho que vou arruinar toda a ideia se eu correr para o computador. E, bom, o resultado disso é que eu não descarto muita coisa do que escrevo. O que acontece é eu reescrever o texto muitas e muitas vezes, mudando palavras, ordem de frases, pontuação, ou mesmo adicionando elementos. Mas sei de gente que escreve dez páginas para aproveitar uma. É um outro método.

03. Já dá para saber como a vivência na França influenciará seu trabalho e que tipo de ecos trará?

Ainda não está bem claro. O que eu sei é que muitas coisas estão mudando em mim, não há dúvida, e que então isso deve respingar de alguma maneira no meu trabalho. Ah, posso adiantar também que meu terceiro livro vai se passar em Paris. A história não está totalmente definida, mas já tenho alguns contornos dos protagonistas, e sobretudo a atmosfera que quero dar ao romance.

04. É comum que se diga que o mercado de literatura contemporânea brasileira não existe ou está estagnado. Como você vê essa situação?

Não concordo com isso. Há coisas acontecendo e autores surgindo, dentro das possibilidades de um país que, bem, é pobre, e que portanto tem índices vergonhosos de leitura. Ainda assim, há pessoas que podem ler e que querem ler. É claro que a maioria delas não vai optar por autores contemporâneos, porque certamente é mais seguro ler os consagrados. De qualquer forma, os consagrados passaram pela mesma situação: já foram novos autores. E a literatura é lenta, muito lenta.
Por último, digo que eu, pessoalmente, não posso reclamar muito. Vou publicar meu segundo livro por uma grande editora, a Companhia das Letras, o que significa que fui, de certa maneira, absorvida pelo mercado.

05. Você tem uma boa presença na rede, com site e blog. Acha que em algum momento a Internet mudará a literatura como a mp3 mudou a indústria musical?

Acho que já está mudando, porque é a porta de entrada para muitos novos autores. O consumo da literatura também muda, uma vez que você pode comprar livros de qualquer parte do mundo e etc. Mas você disse bem: o mp3 não mudou a música em si, mas a indústria musical. Com a literatura, deve ser parecido, mas mais lento (repito que a literatura é lenta) e mais discreto (condizente com a importância que ela tem na vida da maioria das pessoas).

06. Poderia antecipar algo sobre o próximo livro? Será o Sinuca embaixo d’água?

Sim, será. Sai em setembro desse ano. Vou estar no Brasil para lançá-lo.
Sinuca embaixo d’água é um romance, meu primeiro romance. É uma história na qual se alternam três narradores principais, e mais alguns que fazem rápidas aparições. No centro de tudo, está a morte de uma menina de vinte e poucos anos, Antônia, num acidente de carro. Todos os personagens foram afetados por esse episódio, em maior ou menor grau, e agora precisam lidar com isso. Há o melhor amigo dela, Bernardo, que tenta entender a noite do acidente. O irmão de Antônia, Camilo, que é um cara cuja grande diversão é fazer farra e mexer em carros velhos. E Polaco, dono de um bar, que, através da morte da Antônia, vai ter que reviver algumas questões do seu passado.

A Cia do Giro apresenta até o próximo domingo, 10 de maio, no Teatro Nelson Rodrigues da Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, o espetáculo O sonho de uma noite de verão, montagem do clássico de Shakespeare, que conta as histórias que antecedem o casamento de Hipólita e Teseu, numa floresta de fadas e elfos.

Prometendo manter 90% do texto original, a Cia do Giro se supera.

O sonho de uma noite de verão - fotografia de Alex Ramirez gentilmente cedida pela divulgação do espetáculo para publicação no Aguarrás - www.aguarras.com.brCom um cenário composto por panos fluidos, redes de folhas secas e vegetações acastanhadas penduradas do alto de uma pedra, que funciona como o leito de Titânia, rainha das fadas, a atmosfera onírica é evocada de forma sublime. Com simplicidade e leveza, a expressividade do cenário traz à tona o tom feérico relativo ao mundo mágico dos seres mitológicos que habitam a floresta.

A leveza se dá também no movimento corporal das fadas, que se penduram em panos e balanços suspensos, e com movimentos ágeis, mas lentos, fazem acrobacias que oferecem a sensação de liberdade, numa atmosfera lírica e encantadora, que embala as paixões de casais que se formam na onírica noite de verão.

O figurino colabora com tudo isso à medida que se compõe por tons pastéis, cores acastanhadas, com leves toques de brilho nos trajes de Titânia, rainha das fadas, e de Hérmia, prometida de Demétrio, mas apaixonada por Lisandro, com quem foge para a floresta. Os rudes artesãos, com seus trapos, também em tons de marrom, ensaiam, na floresta, a peça que apresentarão no casamento de Teseu e Hipólita. Desse modo, o figurino faz com que todos os personagens dialoguem com a floresta, camuflando-se nela como se dela fizessem parte.

A composição musical completa o espetáculo, alternando o cantarolar das fadas, com canções instrumentais reais que introduzem o grande herói grego, Teseu, além de silvos e grunhidos comuns aos bosques e florestas.

Com atuações magníficas de Adriano Basegio, Álvaro Rosacosta, Arlete Cunha, Daniela Carmona, Fernanda Nascimento, Franscisco de los Santos, João Pedro Madureira, Larissa Sanguiné, Laura Leão, Leo Maciel, Luiza Ollé, Rafael Kerber, Tássia Pfeifer, Tatiana Vinhais, Ticiana Bernardon, a Cia do Giro não deixa a desejar ao trazer aos palcos um clássico de Shakespeare. Mais do que isso, apresenta com perfeição todas as nuances do texto e consegue captar e transmitir sensações muito difíceis de serem transpostas da escrita para os palcos.



Caixa Cultural Rio de Janeiro

Teatro Nelson Rodrigues – Av. Chile, 230.

De 7 a 10 de maio (quinta a domingo), às 19:30.

Direção e Roteiro: Adriano Basegio e Daniela Carmona

Texto: William Shakespeare

Composição Musical: Adriano Basegio e Álvaro Rosacosta

Wolverine (Fox) foi muito bem de bilheteria, obrigado. Em uma semana arrecadou US$175 milhões, passando do custo estimado de US$150 milhões, e até o fim de sua vida útil deve pagar com folga os gastos de marketing. Foi um alívio para todo mundo. Os estúdios estavam de pé atrás com o desempenho de Watchmen (Warner) do superestimado Zack Snyder, que arrecadou só US$185 milhões e colocou os super-heróis na berlinda, mesmo sendo singular dentro do gênero. Para piorar a situação, a cópia de Wolverine vazou na rede e em 24 horas todo mundo sabia que o filme era ruim.

Mas então veio a boa surpresa. Mesmo com uma história pífia, Wolverine conseguiu arrastar os fãs para o cinema, talvez pela curiosidade de vê-lo pós-inserção de efeitos especiais. O filme conta a história de Logan e de seu irmão Victor. Logo no começo, quando conhecemos a infância dos dois, a impressão é de que o filme será ótimo, caprichado na direção e na fotografia e calcado na faceta psicológica dos personagens. Infelizmente, é só uma introdução com direito a esticada na abertura e logo a mistura desanda. Para quem não sabe, Victor é o Dentes de Sabre que vira e mexe enfrenta Wolverine nos HQs. Os irmãos se protegem até que o lado sádico de Victor começa a desagradar Logan e cada um vai para o seu canto. Os dois já são adultos, enfrentaram muitas guerras juntos e participaram da equipe do general Stryker, outra figurinha batida para quem acompanha X-Men. Logan resolve ter uma vida pacata nas montanhas com sua mulher e Victor prefere continuar matando para Stryker. Mutante que é mutante não consegue fugir do próprio passado, por isso mais tarde, adivinhem, todos se reencontram e Wolverine precisa enfrentar sua verdadeira natureza.

Os problemas do filme são muitos, mas comecemos pelas qualidades. Os efeitos especiais foram muito bem produzidos, conseguindo ir de tonalidades mais sombrias até o colorido típico de quadrinhos sem perder a unidade. Tem até lugar para um final apocalíptico, com uma versão zumbi de um dos personagens que deve ter desagradado 100% dos fãs. A atuação de Liev Schreiber é excelente, fazendo o Dentes de Sabre roubar as cenas. Os melhores momentos do filme são os que Wolverine e o irmão estão em cena, tanto pelos atores quando pela obviedade de representarem o único conflito com densidade dramática dentro do roteiro.

O resto é problema. A atuação de Danny Huston como Stryker é vergonhosa, quase um Bush depois do donuts. Quem se lembra de X-Men 2 vai sentir imediatamente falta de Brian Cox, uma encarnação bem melhor do ódio contra os mutantes. Os outros atores também não são lá essas coisas, um desfile de rostos bonitos ou nem tanto, com maquiagem pesada para que o espectador possa dizer “ó, ficou igualzinho ao HQ”, a exceção sendo Dominic Monaghan (Senhor dos Anéis, Lost), no papel de Bolt. Pelo pouco tempo que aparece, mostra que sabe atuar e ainda participa da cena do parque de diversões, uma das poucas pensadas para que o visual corresponda ao contexto psicológico.

Para entender o motivo dos tiros n’água, vale voltar até X-Men 3. Foi nele que a Fox desistiu levar para a série diretores participativos e passou a fazer o que se chama filmes de estúdio. Basta colocar um diretor que não imprime personalidade e ritmo próprio e que segue o script, literalmente, recheando a história com cenas de ação e efeitos especiais.

Tudo que Bryan Singer construiu nos dois primeiros segue se diluindo, mas fica a esperança de que pelo menos roteiristas melhores sejam envolvidos no próximo projeto. Os fãs de X-Men agradecem.

Em tempo: estima-se que em pouco mais de uma semana tenham sido feitos 4 milhões de downloads da cópia que vazou.

Descobri Santiago Roncagliolo em uma entrevista no El País. Roteirista de novela, chamou a atenção da crítica literária com Pudor, livro de histórias entremeadas que falam da intimidade de personagens muito diferentes na voz, mas com algo em comum em seus medos e desejos. Logo depois, ganhou o prêmio Alfaguarra com Abril Vermelho, lançado no Brasil pela Objetiva. Em Pudor, Santiago faz questão de trabalhar o aspecto inconfessável das histórias e deixa que aos poucos escapem ao controle, preparando o grande clímax.

PudorOs protagonistas são membros de uma mesma família. O pai é um empresário que descobre ter uma doença terminal e começa a assumir certos riscos na vida, apesar de ser do tipo quieto que jamais os viveria em plenitude. Sua grande rebeldia é esvaziar garrafas de uísque que não tem dinheiro para bancar na nova velocidade de consumo. De fato, não é só a constatação da morte que muda seus hábitos, mas a noção de que não pode compartilhar a informação com ninguém, sem se decidir se pela proximidade demasiada ou se pelo desinteresse demonstrado, já que o casamento está numa fase automática de modus operandi.

Sua esposa também parece uma dona de casa típica. Cuida dos dois filhos, de um pai com Parkinson, resolve as traquinagens de seu gato, faz o jantar para o marido e só. Sexo entre os dois não é mais um costume, mesmo nos carinhos já não se completam. As coisas começam a mudar quando um bilhete misterioso aparece em sua bolsa. Um pedido de encontro no meio do mercado, sem nome, só hora e local. A possibilidade de trair o marido a inquieta, mas a curiosidade é maior. Desde que não vá para a cama, pensa, não há mal algum em conhecer seu admirador secreto. A situação por si só já a excita. Quem será ele afinal? O admirador parece alimentar um vouyerismo de desencontros, e quem colhe os frutos dessa relação platônica é o marido, num fogo que ressurge de repente.

“No le habría importado tener una enfermedad que le permitiese una baja con goce de haber, aunque lo obligase a quedarse encerrado en su cuarto, sin moverse. Le parecía que no mover un músculo durante una larga temporada sería perfecto y fácil, sería lo mejor. Pero le faltaban dos años para terminar de pagar la hipoteca. Quería vivir hasta entonces, para ver que su casa se convirtiese en su casa de verdad”.

Numa idade em que o fogo é só lembrança, o avô parece desconfortável com o presente. O velho acaba de perder a esposa, mas não consegue se dar conta disso, pois o Parkinson consome a lucidez. Só sabe que agora nada mais faz sentido, porque antes eram dois e agora ela se foi, seja lá para onde tenha ido. Há uma familiaridade nos atos que simplesmente o torna real, mesmo quando o livro passa a brincar com o absurdo (e o fato de a vida ser cheia deles). É curioso acompanhar o raciocínio de alguém que se afasta da realidade para reviver suas memórias e se reaproxima para constatar que o peso do tempo não traz nenhum glamour, tudo na maior naturalidade.

“Por la tarde, cuando Doris abrió la puerta de su casa para recibir a Papapa, lo encontró con el pelo como un mapamundi con manchas negras, que representaban los continentes, y blancas, que representaban los océanos. Sus dientes eran blancos pero con el blanco de la pintura de pared, no de limpieza”.

No extremo oposto, está o pequeno que vê fantasmas. Santiago trabalha os contatos imediatos de Sergio sempre na fronteira do inexplicável. É com imaginação que a criança processa o que não consegue entender, como a morte da avó, por exemplo. É no hospital, sentado na maca com o cadáver, brincando de nave espacial com tantos aparelhos e tubos pendurados, que ele vê o seu primeiro fantasma, uma mulher que passa no corredor e pergunta se aquele corpo é o dela, recebendo a explicação gentil de que não, é o corpo da avó. A família parece não dar trela para essa história de fantasmas, já que vivem centrados em seus próprios problemas e tentações. Como a irmã mais velha é chata e implicante, é na amiga Jasmine que ele encontra algum conforto e justo ela o desafiará a ver não um fantasma, mas um morto de verdade.

Mariana, a tal irmã, não é mesmo alguém muito feliz. Sem se entrosar na escola, sente total desconforto por ter não ter peitos nem pêlo, enquanto todas as meninas da turma já se parecem mulheres adultas e atraentes. Ela é alvo constante de deboches e tem uma só amiga com que pode contar. É a amiga que a acompanha nos banhos, a amiga de quem observa atentamente o corpo, num misto de inveja e atração. Essa adoração de limites tênues, reverte-se em ódio profundo no dia em que saem juntas e a amiga fica com o pegador do colégio, o cara que tem carro na porta, entregando-se a longos beijos. É um desenrolar semitrágico muito bem pensado, misturando tramas adolescentes com a proposta de família em que os membros não compartilham nada além do jantar.
Para fechar a família, o gato. Quem tem gato em casa vai se identificar com várias situações. Quieto em alguns momentos, ele sai totalmente do controle quando sente um cheiro que não consegue explicar, um cheiro que desperta uma vontade enorme de fazer o que não deve e de agir sem nenhum pudor. É ele que fecha a trama quando todos os desejos se realizam, lembrando aos protagonistas que trazem juntos uma lista interminável de conseqüências.

Não bastasse o desenrolar da história, só a facilidade com que Santiago passa de uma voz para outra já vale a leitura.

Santiago Roncagliolo
Pudor
Editora Punto de lectura.
184 páginas.

Foto tem sempre aquela questão da ubiqüidade. Você está lá, na frente da foto, e também está no lugar que a foto representa. No lugar e no tempo. Você está lá, tempo presente, e também em um passado – mesmo se recentíssimo. E se a foto for declaradamente antiga, então serão três os tempos: o tempo da imagem representada, o da foto quando ela foi tirada, e o teu momento, o presente.

A exposição À procura de um olhar, na Pinacoteca, dá mais uma volta nesse parafuso. Por misturar um olhar estrangeiro (nem sempre dos estrangeiros) com um olhar identificatório e próximo (nem sempre dos brasileiros). Quer dizer, por fazer explicitadamente um zoom de aproximação/afastamento com seu assunto – o Brasil.

São umas 200 imagens, algumas pagando o tributo à história da influência francesa no Brasil (noblesse oblige, quem pagou foi, parcialmente, o governo francês por conta do Ano da França). Mas o que interessa mesmo são os contemporâneos Bruno Barbey, Olívia Gay, Antoine D’Agata, Mauro Restiffe, Tiago Santana e Luiz Braga – os três últimos brasileiros.

Mauro Restiffe - registro de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.brMauro Restiffe granula – portanto afasta – uma paisagem que está logo ali do lado, a Praça Roosevelt. Foi clicada no tempo presentíssimo, 2009. Portanto, perto de nós no tempo e no espaço. Mas é Restiffe talvez, de todos os fotógrafos da mostra, quem mais representa o conceito pretendido pela curadoria, o da problematização do perto/longe entre câmera e assunto da câmera, entre franceses e brasileiros. Restiffe apresenta na sua imagem em PB o que o olho humano não vê. Os seus tons de cinza são bem mais numerosos do que o olhar de um passante pela Praça Roosevelt pode se aperceber. O granulado da ampliação dá uma profundidade – que também não veríamos a olho nu. Só que esses tons de cinza e essa profundidade são os de um olho ideal, mais potente do que o humano. Mais humano do que o humano. É, assim, uma paisagem que fica distante de um conhecido, de um déjà vu (tenho de parar de fazer citação em francês). Mas que, por sua riqueza de tons e sua diluição ao longe, reafirma o perto. Reafirma, potentemente, sua presença e sua proximidade total.

Tiago Santana - registro de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Tiago Santana, com um Dia de Finados clicado em Juazeiro do Norte, também afasta suas imagens – o que é engraçado, pois ele usa uma ampliação em tamanho maior que o humano. Quer dizer, pelo tamanho dos personagens, a imagem deveria ser recebida como muito próxima, até invasiva, do espaço do visitante.

Luiz Braga - registro de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Luiz Braga apresenta massas de cores contrastantes, quentes, ricas, em sua noite em uma feira de Estrada Nova (RJ). Chega a ser um contraste interessante com as condições de recepção: diurna e no ar-condicionado perfeito da Pinacoteca.

Quanto aos franceses, Bruno Barbey tem um olhar que busca o “diferente”, ao clicar travestis maranhenses com a mesma centralização cuidadosa de besouros espetados em uma mesa de entomologia. É o olhar estrangeiro, distante por excelência. Quase colonialista.

Antoine D'Agata - registro de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.brAntoine D’Agata, expressionista, tem uma aproximação fácil, através do emocional, que passa a idéia de uma estratégia de linguagem, mais do que de uma sinceridade.

E chegamos ao que eu gostei mais. Olivia Gay clica mulheres. Estão na distância do “plano americano”, nem zoom total, nem corpo inteiro. Essas mulheres não olham para a câmera. Poderia ser indício de um posicionamento distante. Mas é só respeitoso. Suas imagens são de um dia-a-dia já vivido por mim e por você – e, só pode, pela fotógrafa também. O referente somos nós. As imagens de Olivia Gay estão próximas pelo seu “conteúdo” e por muito mais. Oferecem uma leitura tátil, com a pele dos corpos clicados muito, muito detalhada. Se fosse pintura, seria a técnica da frottage. Em português, esfregação.

É quem faz mais jus à herança do padrinho de todos, presente à exposição: Pierre Verger. Outro estrangeiro que não o era.

A peça “Rock’n'roll”, do premiado Tom Stoppard, começou uma nova temporada no Teatro Villa Lobos, no Rio de Janeiro, até 26 de julho. A montagem é dirigida por Felipe Vidal e Tato Consorti e no elenco estão Otávio Augusto, Thiago Fragoso, Gisele Fróes e Bianca Comparato, entre outros.

Nesse espetáculo temos o recurso do vídeo, apropriado e muito utilizado ultimamente, a combinação de sombras e a sobreposição de imagens. O cenário, de Sergio Marimba, é muito prático, mas não muito atraente.  As cenas são intercaladas pelos vídeos e ganham muito com a iluminação de Tomás Ribas.

Ao som dos Rolling Stones, Beatles, Bob Dylan, Pink Floyd etc, a peça retrata o período que vai de 1968 a 1990 e aborda, entre outros assuntos, a queda do comunismo. É ambientada em Cambridge, na Inglaterra, e em Praga, durante a ocupação soviética na Tchecoslováquia, onde uma banda de rock, “The Plastic People of the Universe”, simboliza a resistência.

O texto gira em torno de um professor marxista de Cambridge, sua esposa, sua filha e depois sua neta, e seu aluno, de Praga. As personagens vivenciam os problemas políticos da época e percebemos como o discurso comunista estava presente no cotidiano desse professor e desse aluno, as angústias, as decepções políticas e a repressão. Os acontecimentos políticos, acompanhados pelas músicas, são recriados por meio dessas personagens, melhor, vemos como esses acontecimentos constroem-nas. Está presente também, por exemplo, a poesia de Safo e um pouco da história de Syd Barret, do Pink Floyd.

O espetáculo tem duração de 180 minutos, com um intervalo de 10 minutos. O que requer atenção e disposição por parte do espectador. Assisti, além da peça, a desistência de uns 20% do público, que não voltou após o intervalo. Talvez sejam os mesmos que não tinham muita paciência para as aulas de história. Aliás, platéia (ainda com acento, porque só pretendo me reformar ortograficamente num futuro distante) que, independente do tom do texto, apresentou uma necessidade de rir que muitas vezes não fazia sentido. Não creio que seja um espetáculo para todos os gostos e para ajudar na seleção existem as informações e as resenhas sobre as peças, possibilitando que o público tenha ciência antes de se aventurar num espetáculo denso.

Texto: Tom Stoppard
Tradução: Felipe Vidal
Direção: Felipe Vidal e Tato Consorti
Elenco: Otávio Augusto, Thiago Fragoso, Gisele Froes, Bianca Comparato, Adriano Saboya, Carol Condé, Christian Landi, Mariana Vaz, Lucas Gouvêa, Luciana Borghi
Cenário: Sergio Marimba
Figurinos: Nello Marrese
Iluminação: Tomás Ribas

“Clownssicos”, em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues até 3 de maio, é um espetáculo da Cia do Giro e tem a direção e roteiro de Daniela Carmona. São seis atores em cena, num cenário simples, mas funcional, composto basicamente por três cortinas e dois painéis. Várias peças de roupas, uma sobre as outras, compõem o figurino e, claro, narizes de palhaço.

ClownssicosO texto trata de uma Cia. de Clowns que aceita o desafio de encenar grandes clássicos ocidentais: Édipo e Jocasta, Romeu e Julieta, Hamlet e Ofélia, Medéia, Masha e Medvedenko, entre outros. Interpretam Tragédia Grega, Shakespeare, Melodrama e Realismo, à sua maneira “Clown”. O destaque fica para a atriz Larissa Sanguiné, que constrói, a partir de excessos, suas personagens. Dentro desse exagero, a atriz é impecável e rouba as cenas.

No roteiro de Daniela, além dos fragmentos desses clássicos, há espaço para a simulação de que nem mesmo os atores, ou as personagens, sabem o que está acontecendo, que não se entendem com o iluminador, que não se entendem entre si, que não sabem a hora de entrar em cena, que esquecem o texto etc. Uma coisa é certa: eles se bastam e parecem se divertir muito. São nas pequenas coisas que a graça vem à tona, e muito por conta dos atores. Atores corajosos que não têm vergonha de expor seus corpos rechonchudos.

Nessa falta de lógica, que parece ser a proposta, misturam tudo, e, justamente por não haver lógica, tudo é válido. Difícil julgar, eu não me atrevi, não me senti motivada, a olhar mais do que o superficial e, nessa superfície, o espetáculo é… interessante.


Direção e Roteiro: Daniela Carmona
Assistência de Direção e Composição Musical: Adriano Basegio
Elenco: Adriano Basegio, Daniela Carmona, João Pedro Madureira, Larissa Sanguiné, Laura Leão, Leo Maciel

CAIXA Cultural Rio de Janeiro
Teatro Nelson Rodrigues

Av. Chile – Anexo – Centro
Tel: 2265-5483
De 30 de abril a 03 de maio de 2009.
Quinta a domingo, às 19:30h.

Cada vez que vou ao teatro me dou conta do infinito número de atores e atrizes que procura mostrar seu talento pelos palcos da cidade. São milhares de peças simultaneamente em cartaz no Rio de Janeiro, compostas por artistas que, na maior parte das vezes, ainda não conheço. Quero dizer que poucas vezes conheço o trabalho anterior desses artistas. O que não é mau… Para tudo há uma primeira vez, e o bom da primeira vez é que as comparações perdem espaço para a neutralidade, para a imparcialidade.

Sempre Vale a PenaEm cartaz até o dia 21 de maio de 2009, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, a peça Sempre Vale a Pena, dirigida por Márcio Vieira, produzida e escrita por Maria Fernanda Gurgel, conta com as atuações de Flávio Carriço, Carla Pompilio, Ângela Britto e Windemberg Melo, atores que ilustram muito bem o quadro que esbocei, do grande número de artistas de teatro que, por não contarem com um veículo de comunicação tão poderoso como a TV, têm menos facilidade em tornar seus nomes conhecidos. Mas com talento tudo se consegue, e hoje tive a agradável surpresa de conhecer quatro talentosos atores com um grande potencial, que souberam muito bem como trabalhar o texto a seu favor.

A peça é composta por cinco quadros independentes, ligados apenas pela temática, que diz respeito às relações humanas, sejam elas amorosas, sejam elas familiares, etc. Um desses quadros, que certamente merece destaque, relata os distúrbios da vida a dois, a difícil convivência de um casal perturbado por… roncos! Pode parecer bobo, mas a comicidade do esquete está justamente na simplicidade do tema. É como a série de filmes Pantera cor-de-rosa ou até mesmo Chaves, que consegue arrancar risadas das coisas mais ingênuas. Os atores se saem muito bem e colaboram com o texto, que pede atuações mais caricatas e divertidas, beirando o infantil, mas muito, muito longe do ridículo! Tão longe que nem sei o porquê de eu ter citado essa palavra.

Sempre Vale a PenaEvidenciando o que tem de melhor no texto de Maria Fernando Gurgel e neles mesmos, é fácil perceber que a veia cômica desses atores está pulsante, em pleno vapor. O destaque do segundo quadro fica também por conta do equilíbrio no tempo de duração. Nem curta e superficial, nem longa e cansativa. Simplesmente na conta. Tomando-o como modelo, os outros esquetes poderiam ser mais enxutos, o que não comprometeria o desenvolvimento das histórias e diminuiria a sensação de “não acaba nunca!!”, que por vezes invade nossos pensamentos.

O encarte da peça aponta quatro atores no elenco, mas, durante o espetáculo, surge um personagem, que interpreta um porteiro em um dos esquetes. Por algum motivo, o nome deste rapaz não aparece no folheto, provavelmente por erro de digitação, porque se ele é alguma espécie de auxiliar de palco ou um contra-regra que fez uma ponta, já está contratado para os próximos espetáculos!


Sempre vale a pena!

Texto e produção: Maria Fernanda Gurgel

Direção: Márcio Vieira

Cenografia: Derô Martins

Figurino: Jerry Fernando

Iluminação: Jorge Raibot

Teatro Ipanema

Rua Prudente de Morais, 824 CEP 22420-040

Telefone (021) 2523-9794

Em duas semanas, quinhentos mil espectadores. Se nenhum blockbuster wolveriniano varrer as salas de cinema, deve passar logo de um milhão de pagantes, número que escolheram como marca de sucesso comercial no país. Dizem que é efeito da propaganda boca a boca, o que só ocorre quando o filme é bom. Divã, sem dúvida, dá conta do recado. Foi feito para se comunicar com um público diverso sem precisar apelar para um roteiro raso e sem ofender a inteligência de ninguém. Atores da Globo e nomes populares da TV já mostraram que não são garantia de sucesso no cinema. Bom então que o filme aposte em talento, coisa que Lilia Cabral tem de sobra. Não por acaso, a atriz esteve em cartaz com a peça Divã, adaptação bem sucedida do livro de Martha Medeiros. Os dois serviram de material para o roteiro de Marcelo Saback.

DivãQuando ouvi que Divã não era uma comédia, mas fazia rir, que não era um drama, mas fazia chorar, fiquei de pé atrás achando que fosse estratégia de marketing tentando fugir dos rótulos. Filme visto, lembrei de Melhor é Impossível, com Jack Nicholson e Helen Hunt, que também mantém um pé de cada lado, apostando nos atores para equilibrar as duas facetas. Como o filme é uma crônica do cotidiano e ninguém ri ou chora o tempo inteiro, ao menos não deveria, é fácil entender essa escolha. Dito isso, Divã é um filme preciso. Os diálogos são engraçados e eficientes em sua maioria, e existem até gags de humor pastelão, no melhor estilo do diretor José Alvarenga Jr. Diretor e atores também acharam o tom certo para os momentos mais dramáticos, sem exagerar na dose, cabendo aí um elogio para Lilia Cabral e José Mayer nas cenas da separação.

A história é simples. Lilia Cabral vive Mercedes, na faixa dos 40 anos, moderninha, que enfrenta alguns dilemas no relacionamento com Gustavo, o maridão. Ao constatar que o casamento talvez não esteja lá essas coisas, Mercedes passa a freqüentar o analista. Ela suspeita que Gustavo esteja tendo um caso (ótima cena) e decide ter o seu também, tudo na maior tranqüilidade. As cenas no analista são resquícios do monólogo teatral, às vezes explicadas demais, mas com o mérito de permitir que Lilia Cabral brilhe sozinha na tela. Intercalado com esses momentos solo, o espectador conhece as transformações da vida de Mercedes e entra em contato com os demais personagens que avançam a trama. Tanto humor quanto drama aproveitam a questão de idade e a imersão em diferentes nichos sociais como matéria-prima, valendo-se da variedade para evitar o esgotamento.

José Alvarenga Jr. já dirigiu Os Normais, Minha nada mole vida, Os Aspones e A Diarista, todos exemplos de humor inteligente e que devem ajudar a compor o quadro geral do que esperar do filme. Em matéria de linguagem, Divã tem seus momentos teatrais e televisivos, inclusive fade ins desnecessários e uma desfilada típica de fim de novela, mas de modo geral consegue se firmar como cinema de qualidade e afasta o fantasma das celebridades, extraindo o melhor dos atores.

Além do casal principal, ainda participam Reynaldo Gianechinni, Cauã Raymond, Alexandra Richter e Eduardo Lago, entre outros.