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Category Archives: edicao_0020

lista de artigos da edição 20, ano 4 – julho & agosto de 2009

Seguindo a linha dos escritores africanos que procuram de alguma forma semear reflexões sobre as guerras coloniais e seus efeitos nas sociedades contemporêneas, Mia Couto, moçambicano cuja produção ficcional contempla sete romances até o momento, vem afinando sua escrita e sua criatividade ao publicar, com uma periodicidade incrível, novas produções, entre poesias, romances, crônicas e contos.

Antes de Nascer o Mundo, de Mia CoutoSeu último romance, Antes de Nascer o Mundo (2009), publicado pela Companhia das Letras, mantém algumas das características que acompanham sua escrita há algum tempo como, por exemplo, a sugestividade dos nomes dos personagens, que nunca são apenas nomes, mas sim parte da personalidade, da história passada e do futuro dos mesmos (p.e. Dulcineusa, de Um Rio chamado tempo, uma casa chamada terra, Bartolomeu Sozinho, de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, e Dordalma, de Antes de Nascer o Mundo).

Por outro lado, outros elementos, que oferecem novos ares a escrita de Mia Couto, podem ser ressaltados nesse novo romance. A densidade poética conquistada pelo autor, bem como o aprofundamento do tema abordado, conferem ao texto mais que um simples encontro da atualidade com o passado histórico. Num tom suave, como quem recita uma poesia, o autor abrange assuntos tais como a violência contra as mulheres, as quais dedica um capítulo inteiro (“Os papéis da mulher”), e o impacto sofrido com a chegada da globalização num país desestruturado como Moçambique. Num tom crítico, mas poético e carregado de ironia (“Quem sabe os estrangeiros privados são os novos deuses?”), suas palavras oferecem às questões mais sérias e violentas a suavidade e a harmonia necessárias para denunciar uma série de situações intensas sem, no entanto, ter como resultado algo como um texto jornalístico, documental, objetivo e seco. É interessante destacar que cada capítulo é iniciado com um poema-epígrafe, na grande maioria das vezes de autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen e Hilda Hilst, que funcionam como uma introdução ao que está por vir, como uma espécie de mote, a que se seguem as estrofes.

Em Antes de Nascer o Mundo, passado e presente – tempos indissociáveis – se refletem nas feridas ainda abertas deixadas pelo passado colonial e nos inúmeros problemas sociais enfrentados pelo país. O futuro é um tempo ausente, uma vez que as elucubrações voltam-se para a dissolução de uma série de conflitos internos que caracterizam o passado dos personagens, todos fechados em si mesmos, isolados do mundo e da vida, e assim definidos: “Neste mundo existem os vivos e os mortos. E existimos nós, os que não temos viagem.” (p.54)

De acordo com as diretrizes curriculares para os cursos de artes visuais, uma das competências que se espera do aluno licenciado nestes cursos é a de ser capaz de desenvolver Projetos Pedagógicos em Artes Visuais. Ou seja, o aluno deve estar apto a desenvolver propostas para projetos pedagógicos de cursos e conteúdos curriculares contemplando as especificidades da área de artes visuais (área em que ele é formado), nos moldes do que é apresentado como necessidades mínimas nas diretrizes para sua própria formação.

Há diversas formas de se desenvolver Projetos Pedagógicos nas diversas áreas de conhecimento. As Diretrizes Curriculares de Artes Visuais, sistematizadas pela Comissão de Especialistas de Ensino de Artes Visuais da SESu/MEC são, em linhas gerais, as orientações para o desenvolvimento de projetos pedagógicos consistentes e coerentes com a própria formação do profissional de artes visuais, procurando atender uma visão de formação contemplando as especificidades da área. Assim, o planejamento de um curso ou unidade de conteúdo, em Artes Visuais, é um arranjo de ações/atitudes/proposições para atender a uma proposição mínima de formação que, com suas peculiaridades, seu currículo pleno e sua operacionalização, abranjam os elementos estruturais e possa ajudar a construir um percurso.

I – Objetivos.

Nas diretrizes curriculares de artes visuais é chamado de “Objetivos gerais do curso, contextualizados em relação às suas inserções: institucional, política, geográfica e social”.

Em linhas gerais, uma proposta consistente de projeto pedagógico parte que uma questão clara: o que se pretende ter sido alcançado ao fim do curso (unidade)? Tendo claro de onde se partiu no início do processo, onde, ao fim do percurso, terá o aluno chegado, em termos de resultados?

Já os objetivos específicos são mais detalhados, mais delimitados quanto que se pretende ou que se espera que tenha se modificado, no aluno, após ter percorrido este percurso proposto. Ou seja: O que será alterado, no aluno, após terminar este curso planejado?

II – Justificativa.

A justificativa é, necessariamente, uma contextualização dos motivos que “explicam” a necessidade de se desenvolver uma proposta de projeto pedagógico daquela forma que está sendo feita. Diferente dos objetivos, que são o “aonde” se quer chegar, na justificativa deve estar claro o “por que” é importante chegar neste “lugar”. O que explica que seja necessário desenvolver esta proposta?

Nela se encaixam, também, o que, nas diretrizes, é chamado de “condições objetivas de oferta e a vocação do curso” e o contexto de apresentação da proposta do projeto que pode, também, ser um item em separado, ai chamado de “introdução” ou “contextualização”. Uma justificativa bem escrita já é, em si, a introdução de um trabalho de projeto pedagógico, porém a separação dos itens pode ser necessária para um maior entendimento de algumas propostas.

Justificativas consistentes têm bases teóricas que dão suporte à argumentação utilizada para defesa de uma proposta de projeto pedagógico. Nada, numa proposta pedagógica séria, é “porque sim”. A presença, ou não, de uma visão, idéia, teoria, método etc. deve estar diretamente relacionada e embasada em argumentações consistentes, apoiadas por teoria adequada que valide a proposição.

III – Cronograma.

Nas Diretrizes Curriculares dos Cursos de Artes Visuais, vemos um item que se chama “Cargas horárias das atividades didáticas e da integralização do curso”. Este item, que também poderia ser chamado de “cronograma”, mais do que um calendário, com datas inflexíveis, o cronograma detalha justamente essas informações. Carga horária das atividades, descrição do modo como serão desenvolvidas, seqüenciamento das etapas/conteúdos, se são, ou não, pré-requisitos para etapas seguintes e se é necessário haver, ou não, conhecimentos anteriores para seu desenvolvimento.

Em muitas propostas há, por exemplo, a necessidade de haver conhecimentos específicos anteriores. Por exemplo, se é a elaboração de uma proposta a ser desenvolvida em ensino médio, é necessário haver, previamente presentes, os conhecimentos do ensino fundamental. Pode ser interessante proporcionar um nivelamento de conhecimentos mínimos essenciais para o desenvolvimento da proposta que está sendo elaborada. Enfim, cronograma é o detalhamento mesmo, da previsão do processo. Pode (E deve!) ser flexível e trabalhar com valores percentuais e não absolutos, porém deve ser claro o suficiente para servir base para o estabelecimento dos critérios de avaliação, a serem desenvolvidos como auxiliares do processo pedagógico.

IV – Metodologia.

Neste campo deve ser descrita, detalhada e embasadamente, a forma como se pretendem trabalhar os conteúdos, dentro deste projeto pedagógico, a fim de atender os objetivos, reflexos da justificativa. Ou seja, a metodologia é a forma escolhida para processarem-se as ações que vão levar ao atendimento do que se espera ser atingido ao fim do processo.

A escolha do método de trabalho a ser utilizado é importante, nos projetos pedagógicos, no sentido de que é pela aplicação correta do método que se alcançam os objetivos. Há uma série de métodos possíveis, a serem usados como base de trabalho em propostas pedagógicas consistentes, é importante refletir, antecipadamente, sobre o(s) mais adequado(s) ao que está sendo proposto pelo projeto pedagógico que está sendo desenvolvido.

Algumas metodologias privilegiam um determinado aspecto. Em outras, outro, ou outros aspecto(s) é o mais evidenciado. Por isso, antes de escolher uma metodologia, é necessário conhecer, e bem, as possibilidades, objetivos, bases teóricas e, principalmente, características de pontos, fortes e/ou fracos, das propostas existentes e conhecidas.

A presença da interdisciplinaridade nas propostas pedagógicas atuais tem sido notada como uma constante. O mesmo se repete nas diretrizes curriculares de artes visuais. Uma proposta de projeto pedagógico pode não ser feita com esta visão, e mesmo pode não pretender contemplar a interdisciplinaridade, porém as propostas em consonância com as diretrizes curriculares que, como já dito, orientam os projetos pedagógicos dos cursos de formação em artes visuais, têm se mostrado mais coerentes e efetivas no atendimento das necessidades contemporâneas de processos educativos mais efetivamente consistentes.

Trabalhar com interdisciplinaridade é bem mais amplo que “trabalhar com várias disciplinas” e entende que a mesma só se processa de houver, além do trabalho, uma real interação entre as áreas de conhecimento, no sentido de atendimento dos objetivos. Nas diretrizes Curriculares o item “Formas de realização da interdisciplinaridade” pede que sejam esclarecidas as proposições para que a interdisciplinaridade possa efetivamente ser contemplada.

V – Modos de integração entre teoria e prática.

Os projetos pedagógicos bem desenvolvidos devem apresentar bem definidas as separações e especificidades dos aspectos teóricos e práticos de um curso ou unidade de conhecimento, que esteja sendo tratado na proposta, assim como as formas de proporcionar a integração de ambas as áreas garantindo o atendimento dos objetivos da proposta.

Não é necessário haver, num projeto pedagógico, um item específico para este fim, se a proposta de trabalho contemplar uma temática em uma das áreas somente, mas é interessante, mesmo nestas ocasiões, ter ciência da necessária integração entre teoria e prática, mesmo que esta seja esperada como conseqüência do aprendizado.

Por exemplo, um curso/proposta de aprendizagem de uma técnica em especial, como uma técnica de pintura, pode não proporcionar, naquele momento, a integração com a teoria da pintura, mas é certo que deve refletir, como proposta, uma base teórica que sustenta o aprendizado e prática daquela técnica. O mesmo em sentido contrário. Uma teoria aprendida deve, em essência, proporcionar reflexos na prática á partir deste aprendizado.

VI – Avaliação.

As “Formas de avaliação do ensino e da aprendizagem”, faladas nas diretrizes curriculares é o item que costumamos chamar, de forma mais simplificada, de avaliação.

A avaliação, com seus critérios que devem ser bem claros, é o que permite, ao fim da aplicação do projeto pedagógico, dimensionar se os objetivos foram, ou não, atendidos ao longo da proposta. Apresentadas num projeto pedagógico, as formas de avaliação são variáveis e tantas quantas forem possíveis de acordo com os objetivos.

No entanto avaliação não é, nem deve ser “prêmio” ou “punição”. Cumprir uma etapa de uma proposta só deve merecer atribuição de valores se isto o cumprimento da etapa for condição para atendimento dos objetivos traçados originalmente.

Avaliar tem sido ao longo do tempo uma das principais dificuldades dos profissionais de educação. De arte/educação inclusive. Tanto que existem vários e vários volumes escritos sobre o tema. Independente do tipo que seja escolhido para avaliar uma proposta é importante ter em mente que a clareza de critérios de avaliação é fator preponderante de sucesso de uma proposta pedagógica. Qualquer uma. Para avaliar é preciso saber o que avaliar!

VII – Bibliografia

A bibliografia é uma listagem dos documentos utilizados como referência na construção da proposta de projeto pedagógico. É pela bibliografia selecionada que se constroem as bases de sustentação teórica com que a proposta dialoga para efetiva construção de conhecimento depois de realizado o percurso.

Há normas para a citação bibliográfica para os diversos tipos de materiais que podem ser vir de base de uma proposta. Livros, revistas, sites, discos e demais suportes e dispositivos multimídia, enfim, qualquer material utilizado como referenciação em uma proposta deve ser listado na bibliografia na forma como regulamente a ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas.

VIII – Esquema simplificado

Cada uma das áreas de um projeto pedagógico deve, em essência, atender e responder a uma questão específica:

  1. “onde estou?” – introdução.
  2. “onde quero chegar?” – objetivos.
  3. “por que fazer?” – justificativa.
  4. “o quê fazer?” – cronograma.
  5. “como fazer?” – metodologia.
  6. “deu certo?” – avaliação.
  7. “quem me ajuda?” – bibliografia

Um bom projeto pedagógico elabora e procura responder a estas perguntas como forma de roteiro ao percurso a ser percorrido na aplicação do projeto.

Existe vida inteligente na Transilvânia após Crepúsculo? É só saber procurar.

A coletânea Território V (Editora Terracota) foi organizada pelo escritor Kizzy Ysatis, autor de Diário de Sibila Rubra e Clube dos Imortais, que ganhou o prêmio Rachel de Queiróz. Um autor de literatura fantástica premiado pela UBE – União Brasileira dos Escritores – pode espantar os que ainda julgam a relevância do texto pelo tema e não pelo talento do escritor. Como diz Javier Marías, é mais fácil ser respeitado pelo drama do que pelo humor. O fato é que as fronteiras entre gêneros estão sumindo, e aquela tendência natural da literatura brasileira de se alimentar do realismo, do pó de barro do nordeste e da miséria das cidades, está encontrando um ponto de equilíbrio com magos, zumbis e vampiros de sotaque brasileiro.

Território VDe acordo com a orelha, a proposta de Território V era justificar a solidão dos vampiros, brincar com a idéia de que um vampiro não se dá bem nem com ele mesmo (“alcatéia é para os lobos”), o que foi usado de maneira bem diversa pelos participantes. Geralmente em coletâneas você sempre se pergunta se alguns contos foram realmente lidos, de tão ruins. Não é o caso aqui. Os textos estão bem nivelados, sem nenhum ponto gritante fora da curva. Claro que há altos e baixos, isso acontece em coletâneas de um só autor o que dirá de vários. Mas mesmo quando a história não conseguiu me envolver ou descambou para o óbvio, o texto se mostrou bem estruturado, com um trabalho real de edição.

Ao todo são vinte contos, mais o prefácio de Giulia Moon. Resolvi falar de dez deles, os que mais me chamaram atenção e os que quase chegaram lá.

Antes do final, de Octavio Cariello, é fácil um dos meus preferidos. Captou o clima de diversão e reinvenção da proposta e, de quebra, se alimentou de uma atmosfera pós-apocalíptica que me lembrou Laranja Mecânica do Burgess. Uma distopia vampiresca, ó, meus irmãozinhos. Não tem um Alex espancando velhinhas, mas tem um cara que pisa em gatinhos e é, de certo modo, o mocinho da história. A premissa é simples: vampiros se alimentam de humanos. Em pouco tempo, há mais vampiros do que humanos. O alimento passa a ser escasso e humanos são criados como gado, levando a uma guerra por sangue. O ponto central são os vampiros, mas há breves momentos que falam da apatia humana, aquele ar bovino do ser encarcerado. Texto bem escrito, do que tipo que se lê de uma vez só. Merecia ter o dobro do tamanho. O Cariello também é o responsável pela capa.

“Eu falei pros caras que os humanos tavam precisando de sol e ar fresco, mas ninguém levou a sério. Como é que um bando de vampiros poderia arranjar banho de sol praqueles prisioneiros?”

Torniquete, de Douglas MCT, tem como atrativo a fluência da fantasia. Um algo mais que não vem das palavras, mas do jeito que a história é contada. Tinha lido antes de ser selecionado e desde então curtido a proposta. O Douglas não se prende a nenhum estereótipo de vampiro e também não faz um esforço descomunal para confrontá-lo, o que é bom. A história se passa em um orfanato, e o protagonista é um menino albino que sempre ouve um barulho estranho de noite e um dia resolve investigá-lo, dando de cara com uma situação inusitada entre uma menininha vampiresca e o padre que dirige o orfanato. Não, não é abuso e pedofilia. Só senti falta de um pouco mais de mistério sobre o padre, que ficou explicado demais. Mas é, sem dúvida, um trio interessante de personagens. Fica a sugestão para o autor apostar mais em histórias curtas nesse estilo.

“Como podia vê-la tão bem no escuro? A pele dela, tão branca quanto a sua, refletia a luz. Ele se espantou com aquilo. A curiosa pessoinha do pátio era extremamente parecida consigo. Então se reconfortou brevemente”.

O Amor é uma Necrópsia, de Fábio Fabrício Fabretti, é um texto biliar, especialidade do autor. É do tipo que revira o estômago e joga qualquer aura de charme vampiresco no valão. É fácil aqui identificar um estilo, um trabalho mais cuidadoso com as frases para que elas funcionem sozinhas, destacadas. Não é um texto de terror, porque não tem compromisso com o medo, mas tem a atmosfera pesada do gênero. O vampiro protagonista mora em uma gaveta do necrotério e, quando está sozinho, desenvolve uma relação de amor necrofágico com os cadáveres, um sentimento sublime que deixaria a Stephenie Meyer sem comer durante uma semana. Me lembrei dos meus tempos de farmacêutico, não pela necrofagia, mas pelo cheiro de formaldeído no ar. A única ressalva fica por conta dos antepostos adjetivos que o Fábio gosta de usar e que me incomodam durante a leitura.

“A princípio pouco sabia deles, conservados com uma substância rotulada de formaldeído líquido, um poderoso carcinogênico letal aos vivos, mas balsâmico aos mortos. Cada corpo trazia em si uma história velada. (…) Bocas em forma de fendas mudas”.

Cajita de Cigarrillos, de Kizzy Ysatis, é outro bom momento. Nunca tinha lido nada do autor e a curiosidade sempre eleva a expectativa. Ele tem um texto que flui naturalmente, que encontra ritmo na sonoridade das palavras de um jeito inconsciente. Se pensarmos no tema do livro, esse é o conto mais diferentão. É um conto metafísico no modo de expor sentimentos e o efeito das escolhas do autor e dos personagens. Como foi o Kizzy que pensou na proposta do “ser solitário” para a coletânea, natural que a cumprisse ao pé da letra. O conto se alimenta de uma relação de desejo e desprezo entre dois garotos, moleques, um o fodão da turma, o outro um gordinho louco para fazer parte dela. Numa festa, depois de um briga, sentam em roda para contar histórias de terror, os dois no centro em uma disputa, e o que acontece leva a uma situação sangrenta de doação, a resolução física da metafísica. Ponto forte: saber que o leitor é capaz de completar lacunas e trabalhar com isso.

“Eu sou o Victor e sou um saco de pancadas. (…) Queria estar lá brincando com a turma. Sinto inveja. Queria ser como eles; queria ter eles pra mim. Me desprezam mas eu amo eles. Não me conhecem e nem querem me conhecer. Queria mostrar que posso fazer parte da turma”.

Irresistível, de Flávia Muniz, traz uma mistura delicada de lirismo e drama. É um texto que lida com a memória, com os fragmentos que sobrevivem na mente de um vampiro depois de séculos de existência. Explora a capacidade de palavras simples, pequenas agulhadas, despertarem um turbilhão de significados. A protagonista, mais que imagem, é pele, é cheiro. Como dito no próprio texto, ela é volúpia. E graças a manha de flexibilizar o dramático para incorporar o lírico, a Flávia construiu um conto extremamente sensorial, com uma vampira de sentimentos borbulhantes. A história fala que, depois de muito viver, ela encontrou e perdeu o amor. Um amor que vem do outro e também de si. Foi um dos poucos contos a me passar a sensação de atemporalidade. Impecável nesse aspecto.

“Também houvera calor do fogo das lareiras. Ah, que atrevidos! Taças borbulhantes, vinhos cor de sangue, peles nuas, águas perfumadas, bocas ardentes e incontáveis beijos apaixonados sob a lua de mil faces”.

As Vampiras de Kenshin, de Giulia Moon, é um conto divertidíssimo. Conheço a Giulia pessoalmente então cheguei a ouvir sua voz durante a leitura, um audioconto imaginado, o que fala muito da identidade de um autor. A protagonista é Negra Luiza, que de escrava virou uma agente vampiresca, dessas que trabalham em serviços sujos que os humanos não são capazes de lidar (sem ferrar com tudo). Sua missão é resgatar Kenshin, um astro de rock japonês que veio para o Brasil se apresentar no Morumbi e foi sequestrado, possivelmente por fãs histéricas. Mesmo no tempo curto do conto, Giulia consegue fazer a ambientação e apresentar detalhes de sua mitologia pop e underground. Ela lida com elementos contemporâneos como redes sociais e fãs que desmaiam diante dos ídolos (eu sei, desde Elvis e Beatles, mas você entendeu) e lutas para Tarantino nenhum botar defeito. A virada de trama no final vale o texto inteiro. Humor, seja bem-vindo.

“Continuando a minha busca, fui parar numa pequena comunidade do Orkut chamada As Vampiras de Kenshin. Notei que a palavra ‘marbrekots’ constava na descrição do grupo, um código que nós,
vampiros, usamos para nos identificarmos uns aos outros”.

Zugzwang, de Claudio Brites, é um conto que me surpreendeu, me pegou pelo pé. No início eu não dava nada pelo texto. Se soubesse o que significa o título antes de começá-lo, leria com outras expectativas. Mas não sabia. Então lá estavam vampiros jogando xadrez, envoltos em fumaça de cigarro. Enxerguei aí dois símbolos que são armadilhas, desgastados de todas as maneiras possíveis no cinema e na literatura. Mas logo em seguida, o Claudio começa a flertar com a suspensão do tempo, e nisso, o texto escapa de ter o xadrez como mera metáfora do confronto. Interessa mais a espera infinita por um movimento que o jogador não quer fazer. E nesse tempo elástico, na infinitude das decisões, surgem diversas brincadeirinhas com o ambiente literário, deliciosas pra quem é do meio. Na história, um dos vampiros, escritor, saca seu original para mostrar ao fumante. O escritor demorou anos para concluí-lo, o fumante, agora crítico, demorará anos para dar sua opinião. É uma tortura, um jogo de impasses, com direito a alfinetada na vaidade de quem cria. Um dos melhores finais do livro. De sugestão, lembrar que é preciso escolher uma um norte ao brincar com o lirismo das frases, um recorte imaginário que defina de onde virão as palavras.

“A sala vazia fica viva com um morto a menos. Mesmo permanecendo na sala o fumante mergulha no livro o pouco que existe de sua presença. (…) O cigarro volta a iluminar todo o ambiente. O som do livro caindo no colo do escritor o faz entender o despertar do fumante”.

Esplendor, de Juliano Sasseron, entra na lista por flertar com miséria e religião, com breve menção à Faixa de Gaza. O autor, mineiro, não deve saber, mas há uma região do Rio de Janeiro que recebeu esse apelido carinhoso também. O parágrafo introdutório é explicadinho demais ao apresentar o personagem. Depois, o texto evolui para a crítica social e ganha ao incorporar metáforas. Há o garoto temeroso pedindo dinheiro no sinal, a banheira cheia de ratos (quase um Cazuza) e um par de insetos espalhados. Há baratas que resistem a bombas biológicas, gafanhotos destruindo plantações e uma vespa zumbindo no ouvido como a voz da consciência, a que mais funcionou a meu ver. Políticos e religiosos vampiros? Parece ser esse o clima. Boa escolha de tema, só faltou burilar um pouco mais as palavras e lembrar que as metáforas ganham um sabor extra quando se brinca com as entrelinhas.

“Estas duas seitas sempre foram inimigas, guerreiam pelos motivos mais banais. Assim, os gafanhotos voltam a existir. Ninguém se lembraria deles se não fosse a guerra, pois, com tantos agrotóxicos no mercado, esse mal não conseguiria mais causar dano em uma lavoura”.

Anjo da Guarda, de Camilo Vannuchi, é um exemplo de texto direto, com boa fluência. O autor teve a idéia inusitada de levar os vampiros para um sertão romântico, terra de comadres, imerso naquela rotina do ninguém chega ninguém passa. O conto é narrado pela dona de um armazém. Sozinha, recebe toda noite a visita de um homem bonito, que a faz sentir especial de um modo que não entende direito, talvez por não conseguir decifrar seu objeto de platonismo. Um dia, seu pedaço de homem enfrenta um inimigo ali na sua frente, deixando-a aterrorizada. É um texto que vejo fácil adaptado para o teatro infantil (sem demérito nisso), tanto pelo cenário e figurino, quanto pelos personagens e gestual. O ponto positivo foi ser comedido, não colocar a mão onde, talvez, não alcançaria. Só ficou faltando um momento de “uau”, uma cena que marcasse com mais força o clímax.

“Não sou mulher de puxar prosa com cliente, você sabe. Aprendi que dar trela pra freguês é abrir caminho para falatório. Ainda mais neste fim de mundo, nesta vila avexada de uma rua só, encruada na margem esquerda do Velho Chico”.

A cor da lágrima, de Lizy Tequila, fecha a lista por ser um texto redondinho. A narrativa é simples, mas de frases bem trabalhadas. É um texto fácil de se ler, em que os parágrafos rendem na medida. A crítica é o tema da história: o vampiro arrependido. Além de não gostar de sua condição de vampiro, Thiago é um nômade solitário que passeia de velório em velório para esquecer sua própria dor existencial. Não bastasse isso, precisa lidar com o velho dilema de ver os entes queridos morrendo enquanto ele perdura. Lembra um pouco o problema de filmes gays em geral. Não basta ser gay, tem que sofrer preconceito, ter um amigo com AIDS, não ser aceito pela família, brigar com o melhor amigo e, se possível, lutar para adotar uma criança. Tudo em uma hora e meia. Se a Lizy tivesse mirado num drama só, o que é realmente relevante para o final da história, e tivesse aliviado a consciência do Thiago nos demais, o conto teria crescido em densidade psicológica. Ainda assim, é alguém que tenho curiosidade de ler mais textos no futuro.
“Ajoelhado, Thiago chorou angustiado. Um choro de desespero e súplica. A culpa o punia uma vez mais por ser o que era, e a culpa lhe era muito pesada. A aflição por ainda possuir parte da memória humana o impedia de ser como os outros, que caçavam (…)”.

Também participam Raphael Draccon, Cid Vale Ferreira, Luis Eduardo Matta, Marcelo Maluf, Isabella Lemgruber, Solone de Arruda, Isaac Moraes, Sidemar de Castro, Israel Teles e Chris Sevla.

Território V
Editoria Terracota
155 páginas

A Internet qualquer dia vira peça de museu e tem gente que ainda não sabe usar. A situação se complica quando gente é substituído por empresas da área cultural e de entretenimento. É possível sobreviver sem evoluir? A teoria de Darwin também vale para o mercado? A resposta é tão óbvia que me assusto por o país que mais passa tempo conectado não explorar as mídias da Web de maneira decente (procure os portais de seus canais de televisão prediletos e pense sobre o assunto).

A primeira grande mudança, hoje em dia, já é assunto de aula de história. Quando a mp3 derrubou o CD e as gravadoras, havia a desculpa de ser pego desprevenido pela novidade que não veio de cima da pirâmide, mas da base de consumo. A resistência das gravadoras foi de uma estupidez sem tamanho e os resultados não foram dos melhores. Correr atrás do prejuízo ao invés de correr na frente das tendências ainda parece o modelo vigente. No Brasil, não existem bons sites de venda de mp3. A maioria vende wma que vem em qualidade mediana (160kbps, quando deveria vir em 320kbps) e com proteção irritante que acaba com a mobilidade. Nosso país de ares ciberpunks tem como maior canal de vendas o celular.

Aí veio a segunda onda com os vídeos. Diferente dos primos da área de áudio, os distribuidores de vídeo parecem estar se mexendo. Há a proposta de pagar uma mensalidade equivalente à TV por assinatura e baixar o conteúdo on demand, episódios liberados primeiro na Internet e depois na TV, um esforço tímido para munir de novos artifícios os portais dos canais que deve ganhar força nos próximos anos. Também temos locadoras que permitem streaming, evoluções do Youtube e outras ferramentas mais que ajudam na renovação. Sem falar no Blu-ray e no cinema 3D, do lado físico, mas que valem outro texto.

Um movimento natural é que o mesmo processo de virtualização ocorra com os livros, e o papel ceda lugar ao e-book. Sempre achei que o mercado literário tenderia a agir com flexibilidade, aprendendo com os erros dos antecessores, mas alguns pensamentos congelados no tempo e no espaço mostram que editoras podem tomar uma rasteira muito parecida com a que vitimou as gravadoras, munindo-se de mitos ao invés de dados práticos.
Antes de qualquer coisa, é preciso definir o e-book, mesmo que usando um conceito que já nasceu ultrapassado. O e-book, ou livro eletrônico, é uma versão em arquivo do texto lido em papel. Um dos arquivos mais usados é o pdf. Você baixa para o seu computador ou aparelho e lê o texto. Tem quem use até mesmo o celular, sem muitos traumas.
O mercado de e-books ainda é inexpressivo no mundo inteiro, o que não está impedindo as editoras internacionais de pensarem no assunto e começarem seus testes, diferentemente das editoras nacionais, que preferem ignorá-lo.

Por que fazem isso? Também gostaria de saber. Dois argumentos que tenho escutado:

O argumento número 1: ler na tela é incômodo e nada substitui o papel.
A pergunta é: até quando? Não podemos esquecer que nascemos lendo no papel e migramos para a tela. As gerações seguintes já têm o mesmo contato com a tela e com o papel desde cedo, alguns passando mais tempo em frente ao computador do que com um livro ou mesmo vendo televisão. Outra: de que tela estamos falando? O monitor quadradão cede espaço para notebooks e monitores LCD cada vez mais confortáveis aos olhos. O conforto de leitura tem sido a essência da pesquisa de aparelhos portáteis. Serão esses dois argumentos suficientes para frear a demanda?

O argumento número 2: o público que baixa livros eletrônicos (de graça, livros piratas) não é o mesmo público que compra. Quem gosta do livro, compra de qualquer jeito. Quem baixa é porque não teria dinheiro para comprar.
Se no argumento 1 há um saudosismo sinestésico antecipado (que as novas gerações não sentirão), no 2 há a estagnação e a vontade de repetir o que aconteceu com os CDs. Nem sei quantas vezes li e ouvi exatamente esses mesmos argumentos quando pouca gente sabia o que era Napster. Quem gosta mesmo do cantor vai comprar o cd. Quem gosta mesmo de música não aguentará a baixa qualidade da mp3. Você baixa para conhecer e depois vai até a loja e compra. Claro que a indústria fonográfica cometeu outros erros que se somaram ao vendaval eletrônico. A mp3 por si só poderia ter sido a via de transição e acabou abalando estruturas porque não souberam lidar com ela.

É provável que muita gente que baixe livros eletrônicos não os leia e os deixe guardados no HD como mais uma de suas coleções. Por outro lado, é inocência pensar que leitores tradicionais não lêem no computador. Pessoas antenadas com o mercado global, consomem e-books com gosto para se atualizar. O estigma do e-book como veículo de autor fracassado é conversa de dinossauro. Alguém tem prestado atenção no que está acontecendo com os jornais do mundo inteiro (o Brasil sendo a exceção, curiosamente)? Quem gosta de ler jornal está lendo na Internet ou está comprando o papel nas bancas? As novas gerações efetivamente lêem jornais ou só blogs e portais como Terra e UOL? O maior público potencial de um e-book é aquele que lê o livro em papel (e vice-versa). Haverá quem só leia um e outro, mas esses grupos não são necessariamente excludentes.

Outra limitação, real e transitória, é a portabilidade. Ler no computador nos deixa parados em frente à tela, preso a um único local. Mas o livro precisa sair de lá, precisa ir até a cama, enfrentar o metrô lotado, nos acompanhar nos congestionamentos, na cadeira da sala e na mesa de reuniões. Para isso, são necessários aparelhos portáteis que leiam os e-books e tenham um mínimo de atratividade (um algo mais, além da praticidade) para o consumidor. Os fabricantes dos leitores também são os distribuidores, verdadeiros atravessadores de mercadoria, ficando com percentagem das vendas. Para quem não sabe, boa parte do preço de um livro fica com a distribuidora e com a livraria, a menor percentagem indo para a editora e para o autor. Na Wikipédia é possível obter uma lista de leitores de e-book disponíveis no mercado, ficando evidente o destaque para os aparelhos da Sony e da Amazon (o famosinho Kindle). Por enquanto, são poucos os produtos no mercado, o que não ajuda com o preço, ainda salgado, por mais que a economia no longo prazo se justifique.

A promessa é que a Apple lançará em breve um concorrente, e ele não sacudirá o mercado somente pelo preço ou por ter o apelo característico de produtos Apple, mas por entender todo o potencial que o e-book tem a oferecer.
Eu disse anteriormente que o e-book em pdf (ou texto puro) é um conceito ultrapassado. Vejo-o como uma versão preguiçosa do livro, uma visão que reduz ao invés de ampliar. Uma das armas com maior poder de fogo em um livro exposto em livraria é a capa. Quem nunca se aproximou de um livro pela capa que atire a primeira pedra. Os leitores de e-book atuais só possuem visualização em preto e branco, no muito com tons de cinza de bônus, o que acaba com o apelo.

A Apple, aparentemente, entende que o público do futuro curte vídeos online, música on demand e jogos visualmente arrebatadores com narrativas que competem de igual para igual com as demais mídias. Seu leitor de e-book, apelidado de iBook, na verdade seria um aparelho multifuncional, capaz de exibir vídeos e tocar música, abrindo diversas possibilidades para a próxima geração de livros eletrônicos, a que efetivamente fará sucesso.

Eu explico.

As capas:
Imagine o livro Senhor dos Anéis. Vamos dizer que ao invés de pegar seu livro na estante ou abrir um arquivo de texto, você clique em um executável. A primeira diferença seria a capa. Nada de imagem estática ou um rabisco em preto e branco. A capa seria uma animação, imagem em movimento. Você, colecionador, poderia escolher diferentes capas, a animação que mais te atrai, na hora de comprar.

Fluidez:
Sem cair na poluição visual que dominou a primeira leva de Web sites (se lembra daquela gif animada horrível? pois é), as páginas de texto também poderiam ter um algo mais. Pequenos floreios que contam pontos no acabamento e que no e-book poderiam ser animados ou simplesmente variados de um conto para outro, complementando a ambientação. O autor de sucesso seria aquele que visse além de sua história. Um exemplo que me vem em mente seria o de um livro infantil: um dos personagens ajuda o leitor a virar a página ou pula de uma página para outra enquanto segue a história, em vez de simplesmente estar lá.

Entreatos:
Voltando ao Senhor dos Anéis. Quem tem algum contato com jogos conhece bem as animações entre uma fase e outra, com pequenas narrativas que envolvem até atores reais (elemento do clássico Command and conquer). O mesmo poderia ocorrem em momentos importantes de um livro, na virada de um capítulo para outro que valha o simbolismo. O personagem teria voz? Por que não?

Cenas especiais integradas ao texto:
O leitor poderia visitar a cena do crime de um livro policial, ver o registro policial, a ficha de um criminoso, ter acesso ao laudo do legista, ver o corpo estendido no meio da estrada e outras brincadeiras. Cabem aqui fotos, ilustrações, montagens 3D, etc.

Preço da impressão:
Não ter que se desesperar ao incluir ilustrações em um livro, pensando em quanto o preço ficará depois da gráfica. Você pode dizer que preparar esse material todo também custa caro, e eu concordo. JK Rowling e eu não teríamos recursos equivalentes disponíveis, mas saiba que papel e gráficas também não custam barato, pode ter certeza. Cada produto com seu público.

Revisão:
Saiu a primeira versão. Passou pelo escritor, revisor e editor, mas ainda assim há um “Inesplicável” enorme no título do primeiro capítulo e um erro de diagramação no segundo. Basta distribuir uma correção, um patch, da mesma forma que é feito para softwares e sistemas operacionais atualmente. Eletronicamente, o livro passa a ser dinâmico e não mais se aprisiona ao que está impresso.

Dados adicionais:
Quer saber quantas versões o livro já teve? Em que países já foi publicado? Em qual deles fez mais sucesso? Quem adaptou a história para o cinema? As editoras ou distribuidores podem montar seus bancos de dados, numa espécie de Wikipedia, alimentando o leitor com informações.

Materiais extras:
Seu livro pode vir com entrevistas em vídeo do autor, exclusivas da editora ou de determinado distribuidor. O autor ganha um rosto, passa um pouco de seu processo criativo ao trabalhar no texto, aumenta o contato com o seu leitor. Uma editora poderia, por exemplo, através do aparelho, pedir que leitores enviassem perguntas para serem respondidas em breve pelo autor. Poderiam enviar somente para aqueles que tivessem comprado títulos do fulano de tal.

Trilha sonora:
Campanhas conjuntas poderiam vincular música ao texto. Nada que tocasse durante a leitura, atrapalhando. Mas imagine se o personagem é vidrado em uma música do The Doors e a cantarola em uma das cenas. No final, você teria a faixa disponível. Num momento seguinte, faixas e livros poderiam ser distribuídos juntos, de modo que complementassem sua identidade. Um livro pro público jovem que viesse com músicas da banda do momento. E até mesmo uma trilha sonora feita especialmente para o livro? Espere e ouvirá.

Edição comemorativa:
O bom é que tudo pode mudar de uma edição para outra. Os materiais podem ser disponibilizados em um pacote completo, e novos materiais adicionados mais tarde para aquecer as vendas ou comemorar uma nova tiragem. Com o material sendo baixado diretamente no aparelho ou visualizado no site da editora. Já pensou, no aniversário do autor ou de publicação de um livro, receber um conto inédito?

Opções personalizáveis:
O leitor teria a possibilidade de ativar ou desativar qualquer um dos materiais bônus. Cansou das animações entre capítulos? É só desligar. As folhas caindo da árvore no canto da página estão desconcentrando. É só desativar. Quer ver as animações em sequência depois da leitura? Basta clicar no menu.

Importação:
Nada mais de pagar frete caríssimo para conseguir um livro que não saiu no seu país. O acesso a livros em outros idiomas se tornaria muito mais fácil.

O lado negro da força:
Esse canal direto de comunicação pode crescer os olhos na hora de pingar um marketing aqui e ali. A Internet já deixou claro que marketing invasivo não é bem aceito e os novos modelos de propaganda devem estar mais desenvolvidos até o e-book se disseminar, ainda assim fica a observação. O outro lado, positivo, é a chance de concursos e empresas patrocinarem não a publicação, mas a distribuição, com o autor (e a editora, no doubt about it) ganhando um bônus em cima dos direitos autorais pelo uso da marca da empresa x ou y na página dos créditos, aquela que fala a edição, o nome do editor, do revisor, do ilustrador, etc.

Esse é um resumo de idéias que mostra a abertura permitida pelo novo modelo de e-book. As possibilidades são infinitas. Basta pensar no impacto do e-book nas escolas e metodologia de ensino para a lista triplicar de tamanho. A potencialidade existe, só falta a ação. Se o iBook se confirmar como uma ferramenta mais completa do que seus concorrentes capengas, a mudança tardará menos do que imaginamos. Ou alguém dúvida que o iPhone e o iTunes tiveram papel essencial na disseminação da mp3?

Como um último argumento, alguém pode dizer que a ilusão esvazia a imaginação. Nisso, peço que comparem o cinema mudo ao cinema contemporâneo. A resposta esta aí, basta olhar com carinho.

Para não dizer que as editoras daqui não se mexem, algumas já estão repensando seus portais para abrigar material multimídia. Pode ser um primeiro passo. Outro bom puxão no mercado será o novo livro do Dan Brown , que sairá com tiragem prevista de 6,5 milhões de exemplares, e também aposta no formato e-book, podendo agitar esse mercado que ainda responde por uma percentagem pequena das vendas. Mas a mp3 também começou assim, não foi? E veja aonde chegamos.

Ligar mulher e água é lugar-comum que encontra desculpas abundantes. Por exemplo na frase: a nossa atual percepção fluida de identidades faz parte de uma grande feminilização do mundo. Em geral concordo. Mas costumo dizer de outro modo. Não é atual. Não para nós. Estávamos, como sempre estivemos, léguas lá na frente, esperando que o resto do povo descobrisse a pólvora. É. Somos fluidos mesmos. Bidu. Nós, mulheres, já sabíamos disso e exercitávamos tal fluidez há muito tempo, desde que começamos a existir, e, justamente, porque não há começo em mecânica dos fluidos, isso quer dizer há muuuito tempo – tanto que vira futuro. Lembre da ameba na sopa de estrelas, lembre de estrelas.

O bom na exposição Onde a água encontra a terra, do MASP, é que a curadoria foi além do lugar comum. O curador da mostra brasileira é Paulo Herkenhoff, que pegou o bonde andando a partir das escolhas feitas por um dos fotógrafos participantes, Carol Armstrong. Um ou outra botou uma pitada de política de gêneros na história e, com isso, escapou dos binarismos prevalentes em discursos quejandos.

Corpos d'água - Carol Armstrong – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASP  Mar e areia - Carol Armstrong – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASP  A barragem - Carol Armstrong – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASP

Carol Armstrong sai do confronto água x terra de três maneiras. Na série A barragem há a rigidez masculina – com as engrenagens de ferro de uma pequena represa em primeiro plano – a impedir o movimento da água que é apenas uma citação de fundo. É um masculino cansado, esse aqui. A parte dura do tema está esburacada, enferrujada e, principalmente, tem formato circular e é furada. É um masculino que desistiu de ser masculino, e que fica vendo a água passar a seu lado, mansa, é verdade, mas sem parar. O segundo não-confronto – ou confronto já resolvido, posto no passado -  é o da série Mar e areia. Não é um mar e uma areia. É tudo embolado, em um coito empapado, de terras que deveriam ter formas nítidas mas que se amoleceram e moles ficaram desde a última maré. Por fim há a série Corpos d’água, que são várias ofélias semi-afogadas a olhar direto para a câmera, irônicas. Zeca Pagodinho, recém-chegado ao bloco da fluidez, acha que é so deixar a vida levar. Shakespeare, mais sábio – ou mais feminino – sabia do que fluidos são capazes.

E aí vem em mais um aspecto dessa mostra, que é a verticalidade aquosa. Explico: água, sim, mulheres de uma certa maneira somos todos, que remédio. Mas pelo menos exigimos a verticalidade.

Entramos nos dois outros fotógrafos da exposição. Os homens Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy.

Union Square - Fernando Azevedo – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASPFernando Azevedo, na série Union Square, faz com que suas águas reflitam os sólidos. As manchas sem forma definida de poças passam a incluir os perfis verticais de quem passa perto. Em outras séries há garrafas. Copos. Em pé. No meio da foto. E na série Montauk, o horizonte estável – e horizontal – de céu em cima e mar embaixo tem seu movimento – uma ondinha embaixo e uma nuvem em cima – controlado por outro movimento, o do fotógrafo. Trata-se de um tríptico. Em diagese, é a presença do fotógrafo – estática, rígida e duradoura – na frente da paisagem o verdadeiro motivo da série.

Randazzo - Leonardo Kossoy – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASPKossoy, por sua vez, põe muros em frente ao mar, falésias ou, antológico, o bico de um peixe espada, cabeça cortada, mirando o alto, junto a bitucas de cigarro jogadas do mesmo alto para onde seus olhos mortos se dirigem por toda a eternidade. Masculino e morto.

Vi a exposição de Vera Chaves Barcellos junto com um grupo organizado pelo departamento de educação do MASP e guiado pela própria artista. Tive uma mesma impressão a respeito dela e de sua exposição. Algo a respeito de como ela lida com o tempo – o dela e o de suas imagens. A exposição, aliás, se chama Imagens em migração e é um título perfeito. Pois Vera pega fotogramas de filmes antigos, fotos dela mesma ou que ela recortou de revistas e, depois de muito tempo, trabalha nessas imagens para fazer suas instalações. E Vera, ela mesma, parece se ver da mesma maneira, em migração permanente.

Vera nasceu em 1938. Esse é um assunto que me interessa pessoalmente. Nasci nove anos depois, o que, na nossa idade, não faz mais diferença alguma. Costumo notar que as pessoas que fogem da velhice o fazem de duas maneiras que é uma só, a da representação, interna ou externa, da juventude. Exibem essa representação de juventude através de tintas de cores vivas – nos cabelos ou bochechas – jogadas em profusão em cima de uma tela que precisa ser esticada sem parar, e que é o rosto, peito ou bunda. Ou atuam – em palavras ou gestos – a mesma representação, dessa vez de um “interior”, de uma “cabeça jovem”.

A artista é uma mulher bonita de cabelos grisalhos e que não se preocupa em atuar ou representar absolutamente nada. Ela não representa, assim como suas imagens também não representam, pois são atualizadas e parecem sê-lo sem cessar. As datas das obras, aliás, indicam isso, com seu largo espaço de tempo entre o que foi considerado o início – e uma temporária conclusão.

Na palestra, Vera especificou o que entende por atualização, ao falar da sua preferência pela fotografia como material de base. É que a fotografia não pode ser corrigida – só atualizada. Permanece, embora diferente. O interesse está no processo, na fatura.

As instalações de que mais gostei:

Epidermic Scapes (1977-1982). Falei do tempo. Pois a migração também se dá no espaço. Nessa instalação, que ocupa boa parte do chão no subsolo do MASP, há imagens ampliadas de epiderme, obtidas por monotipia. Ampliados, fora de sua relação habitual com o espaço, esses pedaços de pele com pelos já são outra coisa.

The birds. Os fotogramas do filme de 1963 de Alfred Hitchcock foram atualizados por Vera em 2001. Aqui, eu quis ver um comentário irônico da artista sobre o conceito platônico, de uma verdade imutável a ser representada ou buscada. É que os fotogramas escolhidos mostram imagens que o olho humano não vê. Passagens muito rápidas, movimentos não perceptíveis. É como se dissesse que o passado tão avidamente perseguido para que fique lá, cristalizado, não é de fato o passado real. A juventude não é essa, nem era aquela.

A série Retratos, em que mulheres são vistas de costas, me passou a mesma ironia sobre a vacuidade dessa busca.

O curador-coordenador do MASP Teixeira Coelho e a artista Vera Chaves BarcellosA instalação de que mais gostei foi Dones de la Vida. Nomes de mulheres em placas na parede. No chão, retângulos/túmulos com imagens de flores em backlight. Ao lado, penteadeiras com luvas femininas cheias de pó. E com livros ilegíveis, pois feitos de mármore. E um hexágono na forma de uma antiga dobradura infantil em que as faces da figura geométrica escondiam palavras-chaves para a vida particular da participante do jogo. O hexágono é grande, não operacional. É tudo morto, um ideario feminino antigo – e morto.

Essa instalação me traz para minha última impressão da exposição. Na palestra, Vera havia falado da arte política. Pelo que disse, parece não ver muito sentido na expressão. Se o procedimento é bom, ou seja, se for arte, é arte. E política. Gostei da colocação. Concordo com ela. E a arte de Vera é política. Nem precisa ser o Memória de Barcelona, em que fotos mostram muros pichados com frases como “El capital es el unico delinquente“. Ou o vídeo “No a la guerra” (2003 – 2007) em que bofetadas virtuais no rosto da artista se alternam com imagens da Guerra do Iraque. Pode ser a muito simples Keep Smiling. São só pessoas sorrindo de frente para a câmera. As caras duras, imóveis, com seus sorrisos, nos dão um enorme mal-estar.

Quando um sapato social de óculos escuros é o chefe de seção do seu trabalho, quando um pincel de gravata borboleta é um criado, quando cinco garrafas plásticas enfiadas numa caixa de sapatos é um cachorro que, além de escrever cartas, é um político notável, quando um regador de plantas coberto por uma estopa é um judeu, e quando você consegue manter um diálogo com todas essas pessoas, você só pode estar louco.

Claudio Tovar encena Diário de um louco, conto de Nikolai Gogol, em curta temporada no Teatro do Leblon, no Rio de Janeiro.

A narrativa que se inicia no dia 3 de outubro, se perde no dia 86 de martubro e termina num dia sem data e sem ano conta a história do funcionário público que foi nomeado rei da Espanha secretamente, uma vez que apenas ele mesmo sabia que havia sido nomeado. A crescente loucura do funcionário público, que inicialmente se revela sob forma de tara pela filha do diretor, é seguida pela obsessão por uma cachorrinha que troca cartas com sua amada, e termina (não termina!) com a secreta nomeação régia.

Ao longo do espetáculo, a metamorfose do personagem, de levemente louco à insanamente fora de si, é sutil, mas agressiva. Alternando temperamentos, o funcionário público – ora delicado, ora hostil – transtornado com a sociedade a sua volta, principalmente no que diz respeito à política, poder e discriminação social, é dominado por um estado de loucura que, aos poucos, o afasta da sociedade.

Trajes sujos e esfarrapados, cenário em tons de bege e de dourado, móveis maltratados, muitas tralhas e personagens coadjuvantes artesanais montados pouco a pouco pelo próprio louco ao longo da narrativa compõem o ambiente que acomoda os pensamentos, os movimentos e as falas confusas e dramáticas do enlouquecido funcionário público.

Com uma incrível naturalidade, o que me faz pensar que todos somos um pouco loucos, Claudio Tovar traz à cena seriedade e drama, conseguindo extrair da trágica vida do personagem, uma essência cômica, mas embalada pela tristeza e pela fragilidade do louco que, incompreendido, sofre, ainda que não tenha consciência do sofrimento pelo qual passa e nem dos motivos pelos quais é rechaçado pelas pessoas a seu redor.

Exemplo da instabilidade de temperamento, da inconsciência e da loucura generalizada que se instaura no homem, é o fechamento da narrativa. Já no hospício, debruçado sobre seu próprio corpo, o louco chora pela mãe, pela condição de órfão, pelo solitário homem que foi e que é. Ao que se segue um abrupto salto, um nariz de palhaço e a alegre exclamação: “O rei da Argélia tem uma verruga no nariz!”.

Com direção de Alexandre Bordallo, o Diário de um louco fica em cartaz até 06 de setembro de 2009, em reapresentação, às quartas e quintas, às 21h. Imperdível!

Teatro do Leblon
Sala Tônia Carrero
Rua Conde Bernadotte, 26. Leblon / RJ
Tel: (21) 25297700

Quem espera encontrar em Moscou um parentesco com Jogo de Cena, pode tomar um susto. Coutinho, de fato, avança o estudo da percepção do real e da ficção, mas faz isso usando nada menos que As Três Irmãs como base de apoio e quem não conhecer um pouco de Tchékhov vai perder parte da brincadeira.

Em Jogo de Cena havia o conforto. Rostos conhecidos. Dramas individuais contados em uma cadeira. O diálogo se dava entre o espectador e os atores, e o cinema funcionava como limiar da realidade. Uma hora vinha a pergunta “Mesmas histórias, pessoas diferentes. Quem é ator e quem não é?” Havia o clique. Moscou acrescenta um terceiro elemento: o teatro. A fronteira não é mais a tela, é uma imensa área cinzenta disfarçada de bastidores, ora de bastidor do próprio filme, ora de bastidor da peça ensaiada com apoio do Grupo Galpão. Esse espaço de bordas indefinidas funciona como o palco, e aí não tem clique, não tem zona de conforto.

Antes de prosseguir, vale um retorno a Tchékhov. As Três Irmãs conta a história de Olga, Macha e Irina. Presas em uma vida provinciana enfadonha, seu único sonho é voltar para Moscou. Tudo que vem de Moscou lhes interessa como passagem para o passado. Tudo acontecerá ao voltarem para lá, sendo esse lá um ponto qualquer que não o que elas se encontram. É um jogo de futuro e passado e esvaziamento do presente. A busca de um significado para a vida.

Dito isso, a saga de frustração de As Três Irmãs é calcada mais em pensamentos e situações fragmentadas do que numa narrativa lógica. Os diálogos não amarram nem apontam direção, só delineiam um traço geral, o que cairia como uma luva para Eduardo Coutinho.

Há a ilusão de que Moscou é um filme sobre o processo, como Santiago de João Moreira Salles. Não é. Moscou é resultado tanto quanto Império dos Sonhos de David Lynch. Bastidores reais permitem que o espectador perceba a transformação, entenda quem é o ator e o que ele ganha e perde para transformar-se em personagem. Em Moscou, não há contraponto, não há um antes e um depois que componham o significado da cena do meio. É como se a montagem se desse de forma vertical, abandonando a horizontalidade dos quadros. E sem o somatório e a comparação será que há algum significado?

Um filme que se finge de teatro filmado é um aposta arriscada. O silêncio no cinema após a sessão, a cara da platéia e o moço dormindo ao meu lado são evidências disso. Mas não se cresce sem arriscar. E isso vale tanto para o diretor quanto para o espectador.

Quando Coutinho disse em entrevista que depois de ver horas de material gravado não tinha certeza de ter um eixo para o filme. Talvez tivesse razão.

Diretor de Nina e O Cheiro do Ralo, Heitor Dhalia foge da ambiência urbana em À Deriva e vai para a praia contar a história de uma família que se despedaça. Na desconstrução do que se estipula uma estrutura confiável e propícia ao crescimento dos filhos, aflora a sexualidade da personagem principal, Filipa (Laura Neiva). Ela é a filha mais velha e sua relação edipiana com o pai (Vincent Cassel) se rompe no momento em que descobre que ele tem uma amante e estaria se separando de sua mãe por isso. Conforme reconhece e assimila a sexualidade do pai fora de um idealismo, Filipa experimenta padrões de comportamento com seus colegas, decidindo a quem ter como modelo, com quem ocupar a vaga de herói e definindo sua própria personalidade.
Resolvi dividir a resenha em três tópicos que poderiam ser quaisquer outros para falar do filme sem entregar a história. Não sei se terei sucesso na missão, então talvez seja melhor ler o texto depois de vê-lo, ou antes se você não se incomoda com possíveis surpresas.

À derivaO mar: eu que aproveitei boa parte das minhas férias na região dos lagos, gostei que o mar não fosse tratado como mera paisagem de ponto turístico. A escolha de locação e a fotografia belíssima não se sobrepõem aos personagens e possibilitam um diálogo crível, que não de atores que acabaram de chegar à praia, mas de personagens já integrados ao cotidiano praiano (em medidas diferentes), à atmosfera de falsa liberdade que ronda os balneários e de algum modo alimenta na diegese a possibilidade de traições, funcionando para ajudar a compreensão em um ponto que foge da lógica pura e simples. Perdeu-se um pouco do sol escaldante, do ambiente que é paradisíaco para quem vem de fora, mas pode ser exaustivo para quem o vive cotidianamente, uma agressão proposta em Casa de Areia. Mesmo que tenha sido uma escolha pessoal para refletir parte da vida do diretor, o cenário cumpre bem seu papel, lembrando o filme italiano Respiro, que usava o mediterrâneo para contar uma tragédia de ares lúdicos. Senti falta do elemento desagregador do mar – que faria uma ótima rima com a família que se desfaz – mas gostei da idéia de corpos boiando, de onde leio a decisão de ser levado pela maré, não ser capaz de escolher a própria direção. A cena em que o pai leva os filhos e amigos destes para um passeio de lancha e o combustível acaba em alto-mar talvez tenha explicitado demais a idéia do título e ganharia mais força nas entrelinhas. Ainda assim, é interessante mostrar que quando se está à deriva, há os que se divertem, os que se preocupam e os que esperam de pernas para o ar.

A maquiagem: quando vi Débora Bloch sem maquiagem no papel da mãe, sabia que tinha um motivo. Você pode dizer que em uma casa de praia ninguém fica de maquiagem para lá e para cá, pode ser. Pensei que fosse para realçar o ar de cansaço, mostrar as olheiras de alguém infeliz com sua vida. Aquela brancura mostrava que a praia não era o lugar de Clarice. Entre minhas especulações apareceu a amante americana, interpretada pela jovem atriz Camilla Belle. Sua personagem, Ângela, vivia maquiada, arrumadinha, com grandes brincos e cordões dourados. Com um batom nos lábios o que estava se fazendo era definir dois padrões distintos, dois caminhos para Filipa. Lá pelas tantas, quando Filipa descobre que Ângela é amante de seu pai, surge o instinto de defender a mãe ou simplesmente afastá-la de seu pai, já que é forte a idéia de que Ângela está roubando o pai da família, não interessa que personagem simbolize a perda. Por outro lado, alguém que seduz seu herói torna-se automaticamente sedutor para você, o que leva a uma cena curiosa, onde após jogar uísque em Ângela, Filipa a acompanha para limpar o vestido e acaba seduzida pela idéia de passar um batom. Alguém capaz de derrotar sua mãe e seduzir seu pai parece forte, não? Serviria como modelo de comportamento? Filipa logo tira suas conclusões.

Os diálogos: o filme brinca com signos em diversas ocasiões. Fora um animal morto aqui, uma mancha de sangue ali, acerta no que faz. Filipa trata mal um garoto de quem parece gostar, obviamente simulando o comportamento da mãe, que em sua cabeça está maltratando o pai sem motivos (e depois com razão). Mas o gostoso da brincadeira simbólica é o artifício do silêncio. E faltou ser econômico nos diálogos. Quando o diálogo replica a informação da imagem ele esvazia a cena, tira os vazios que o espectador poderia preencher de maneira inteligente. Curiosamente, todos os casos que me vem em mente envolvem Clarice, a mãe, personagem que senti sobrando durante o filme inteiro e que, não por acaso, tem seu drama resolvido à parte da trama principal, numa saída estratégia pela esquerda que ignora a relação com os filhos. Pena logo Débora Bloch, uma atriz com talento o suficiente para conduzir cenas no olhar, ter ficado com as falas equivocadas. Para não dizer que sobra totalmente, a personagem tem o mérito de mostrar que em um relacionamento, a entrada de um elemento externo pode ter efeitos distintos, dependendo da pessoa. O elemento externo de Clarice, por exemplo, afeta muito mais a sua vida do que a amante de Matias, seu marido.

Considerações finais: Nos pontos positivos, À deriva é um filme de fotografia excelente, com direção que sabe arrancar o melhor de seus planos e oferece imagens belíssimas ao espectador. É ótimo ver que depois de lidar com o cinismo de O Cheiro do Ralo, o diretor soube explorar o território dramático. Nos pontos negativos, o roteiro poderia ter passado por uma boa enxugada, concentrando a história na relação entre Filipa e seu pai. O elo mais fraco fica mesmo por conta dos diálogos sobrando, que prejudicam cenas que tinham tudo para ter maior impacto.

Retomando as resenhas musicais, resolvi começar por um nome que tem marcado presença constante no meu twitter. Vira e mexe vejo um fã elogiando Tiago Iorc, com a movimentação mais recente motivada pelo lançamento do clipe de No one there no youtube. Curioso incorrigível, é claro que fui conhecer o trabalho dele. Irmã mais nova também serve para isso. Pelo que senti, seu público principal é a galera mais jovem – mostrando que o cenário musical não anda estagnado como alardeiam de vez em quando – mas com potencial para audiências mais amplas.

Tiago IorcTodo em inglês, Let yourself in chama a atenção pela boa produção e pelo som já direcionado, apontando para horizontes definidos. Parece que funcionou bem o susto de gravar tudo em uma semana pós-sucesso repentino. Uma rápida pesquisa revela que Tiago Iorc já foi trilha de três novelas (inclusive Malhação) e do filme Se eu fosse você 2, tendo uma visibilidade considerável para quem está no primeiro cd.

No mercado americano é muito comum um novo artista se ver atado às fórmulas dos produtores, conseguindo aos poucos a liberdade para arriscar, de acordo com o ritmo do sucesso. Não sei como é a pressão no mercado nacional, mas acredito que haja um processo parecido em grandes gravadoras. Mesmo considerando essas possíveis amarras imaginárias, Let yourself in se sai bem e soa como um cd autoral, apostando em letras mais intimistas e correndo riscos pontuais muito bem-vindos para temperá-lo.

Em uma primeira audição, fica claro o diálogo com o soft rock. Como o estilo é atualmente associado ao clima corta os pulsos de James Blunt, vale dizer que Tiago Iorc vai na direção inversa e explora uma atmosfera mais otimista, mesmo nas baladas, o que é um acerto. Confesso que curti mais a pegada rock de Blame, um dos singles lançados, mas é fácil apontar outros pontos altos. Ticket to ride, releitura dos Beatles, poderia estar facilmente no cd do Peter Cincotti, um dos grandes destaques do jazz contemporâneo americano. No one there também soa redonda, com uma melodia tocante e uma das letras mais bacanas do CD. Uma música que visualizo tranquilamente no mercado do Reino Unido. Outra que tem se repetido no player é It’s not time. No início parece que vai cair na monotonia, mas acha seu caminho entre solinhos climáticos e jogos de segunda voz que devem se potencializar ao vivo.

É claro que Let yourself in não é um cd perfeito (eu já falei que tem uma versão de My Girl?), mas exigir perfeição de um primeiro trabalho eu deixo para os chatos de plantão. O importante é que o cd coleciona mais pontos altos do que baixos e traz embriões de idéias que devem dar bons frutos mais adiante. Certamente um nome para se prestar atenção, tenha você a idade que for.

“They’ll try to fix you up, try to fit you in
Try to make you proud, of what you’ve been
Who’s to say what’s good enough
Or when it’s safe to try?
When truth lies inside
When truth lies inside” – No one there.

Em tempo: além de ter composto todas as músicas originais do cd, Iorc também se arrisca na roteirização e produção de seus videoclipes.

O PERÍODO

Estamos agora no Norte da Europa, em Flandres, durante o século XV, onde acontece o Renascimento flamengo. Não é Renascimento florentino, é algo com uma identidade toda própria. Esta região foi absurdamente rica do século XIII até o XVI, por causa do comércio marítimo, e tinha uma marinha mercante muito poderosa. Suas principais cidades eram Bruxelas, Antuérpia, Gent e Brugge.

São católicos mas no século XVI convertem-se protestantes. É um tipo de catolicismo muito diferente do italiano e é ligado aos nórdicos, aos bárbaros. A religião é mais mística, mais contida. Trata-se de uma cultura radicalmente baseada no mundo burguês.

Em Flandres acontece o gótico tardio, o gótico flamboyant, internacional.

A arte era a mais analítica possível (o Renascimento florentino é o mais sintético possível). Na Itália a realidade está na alegoria, na interpretação mais filosófica. Em Flandres há uma imersão do aqui e agora, a arte é antropológica.

JAN VAN EYCK

Karel van Mander escreveu o livro dos artistas nórdicos (Het schilder-boeck, 1603), inspirando-se no estilo de biografia de Vasari (1550). Neste livro, Jan Van Eyck é retratado como um grande alquimista, aquele que transmutou a matéria, por causa de sua técnica. Os artistas até bem pouco tempo atrás preparavam suas tintas e materiais, não os compravam em tubos ou em papelarias. Era necessário conhecimento em química além da técnica artística em si. Antes dos irmãos Van Eyck, o meio de solução era o ovo (têmpera) , que secava muito depressa. Ao dissolver seus pigmentos em óleo, os Van Eyck conseguiram manipulá-los por mais tempo e com maior precisão.

“Aqui  na verdade não há paralelo com os mestres do início da Renascença na Itália, que nunca abandonaram as tradições da arte grega e romana. Lembramos que os antigos ‘idealizaram’ a figura humana em obras como a Vênus de Milo ou o Apolo de Belvedere. Jan van Eyck não teria nada disso. Ele deve ter posto modelos nus à sua frente e pintou-os tão fielmente, que gerações mais tardias ficaram um tanto chocadas com tanta honestidade. Não que o artista não tenha olhos para a beleza.” – GOMBRICH, E. H.; História da Arte; tradução Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: LTC, 2008.

A OBRA

Os esposos Arnolfini, Jan Van Eyck, 1434, London National Gallery, óleo sobre madeira (carvalho)

Os esposos Arnolfini, Jan Van Eyck, 1434, London National Gallery, óleo sobre madeira (carvalho).

A obra retrata um rico casal italiano, Giovanni Arnolfini e sua esposa Giovanna Cenami. Arnolfini já era um rico comerciante de tecidos, da cidade de Lucca (perto de Florença), antes de mudar-se para Brugge com o propósito de expandir os negócios da família. A mudança foi um sucesso e o casal incorporou os valores nórdicos.

Os esposos Arnolfini é um retrato encomendado. A obra mostra diversos elementos de afirmação de riqueza e importância econômico-social, além do fato de que encomendar um quadro ao grande Van Eyck por si só já era um importante símbolo de prestígio.

A riqueza de detalhes na obra é lendária e deve-se muito à formação de Van Eyck, que, além de pintor, era miniaturista e iluminador de manuscritos . Os pintores holandeses usavam lentes de aumento em seu ofício e Van Eyck era famoso por seu pincel de cerda única, o que só faz aumentar o seu mérito. Não por acaso o microscópio nasce na Holanda.

A obra retrata um quarto de dormir, o mundo privado. De acordo com a ética do catolicismo nórdico é pecado mortal ostentar riqueza em público (base para Lutero, por exemplo). O universo da riqueza e do luxo era restrito ao mundo privado.

ELEMENTOS ICONOGRÁFICOS

Os esposos Arnolfini - detalhe: espelho

Citações encrustadas da Paixão de Cristo na borda do espelho. A imagem do espelho inclui Van Eyck pintando o casal. “Pela primeira vez na história, o artista tornou-se a testemunha ocular perfeita, na mais verdadeira acepção da palavra.” [GOMBRICH, E. H.]

Espelho/vidro era caríssimo e é um importante símbolo de riqueza.

Os esposos Arnolfini - detalhe: assinatura

Assinatura: “Johannes de eyck fuit hic” (Jan van Eyck esteve aqui). Segundo Gombrich, a assinatura pode ter tido uma função de testemunho de um ato solene.

Os esposos Arnolfini - detalhe: azul

O azul era de lápis lazuli, outro símbolo de ostentação da riqueza do casal.

Os esposos Arnolfini - detalhe: penteado

O penteado de Giovanna Cenami era típico da Borgogna e tinha uma armação por dentro para impedir o véu de cair nos olhos. Assim como os tamancos, mostra a adoção dos valores nórdicos pelo casal.

Os esposos Arnolfini - detalhe: vermelho

Vermelho era símbolo de nobreza. O pigmento vermelho custava mais que ouro. Os flamengos são os primeiros piratas do Brasil (pau-brasil), justamente em busca deste pigmento.

O professor Adelino José da Silva d’Azevedo  afirma que é do cinabre que se origina a palavra brasil. Kínnabar era uma palavra celta que, no comércio com os fenícios, designava o tom vermelho de qualquer material. Forma-se da raiz kínn – que traduz a idéia de metálico e de rubro; e da partícula bar – sobre, em cima de, superior. Uma característica do celta era a próclise das partículas, em oposição à ênclise grega. Ou seja, o celta punha as partículas no fim da palavra, ao contrário dos gregos, que a preferiam no meio. Assim, kínnabar corresponde ao barcino, brakino, breazail. Portanto, o cinabre dá nome ao pau-brasil que, por sua vez, dá nome ao país.

Os esposos Arnolfini - detalhe: mão/anel

O fino anel e o gesto de Giovanni Arnolfini querem passar a mensagem “não sou grosseiro” (não era mesmo). Os Arnolfini eram aristocratas burgueses, ganharam dinheiro com o comércio. Justamente por não serem nobres, precisavam afirmar-se como não sendo rudes e sim detentores de refino e cultura.

Os esposos Arnolfini - detalhe: frutas

A maçã tem um significado religioso. De acordo com a mitologia católica, os homens eram desagregados, filhos de Eva, expulsa do paraíso por morder a maçã do pecado. A maçã traz, portanto, a lembrança: “lembra-te que és mortal, que és pecado”.

Não havia laranjas em Flandres, típicas da Sicília e da Espanha. Aqui as limas eram hindus, importadas da Índia (fruta exótica). As frutas eram para ser vistas, não para ser comidas. As laranjas eram importadas e envernizadas e deixadas pela casa como símbolo de riqueza.

Os esposos Arnolfini - detalhe: tamancos

Os tamancos, bem como suas vestimentas de uma forma geral, mostram claramente a adaptação do casal italiano emigrante aos costumes flamengos.

Os esposos Arnolfini - detalhe: tecido

Os Arnolfini eram comerciantes de tecido e portanto suas roupas não apenas ostentam riqueza como também narram sua história.

Os esposos Arnolfini - detalhe: mãos

Mãos alongadas, típicas do estilo gótico.

Os esposos Arnolfini - detalhe: cachorrinho

Até o cachorrinho ostenta riqueza (não é um cão de caça).

CONCLUSÃO

O Renascimento flamengo não é subserviente a significados simbólicos e/ou sobrenaturais. Há uma busca pelo retrato, pelo naturalismo. O mundo retratado é real e inclui objetos cotidianos, como mobiliário, roupas e animais domésticos, ainda que providos de significado e propósito. Ao mesmo tempo em que podemos perceber a influência direta do Helenismo em Flandres, é Flandres que influenciará o mundo das artes com seus retratos quase antropológicos e sua técnica revolucionária.

 

BIBLIOGRAFIA

BECKETT, Wendy; História da Pintura. São Paulo: Ática, 1997.

CANTARINO, Geraldo; Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.

CAROL, STRICKLAND e BOSWELL, John. Arte Comentada – Da Pré-História ao Pós-Moderno. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 1999.

GOMBRICH, E. H.; História da Arte; tradução Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: LTC, 2008.

O outro foi publicado na cola do sucesso de O Leitor, livro de Berhnard Schlink adaptado para os cinemas com Kate Winslet oscarizada no papel principal. Em um texto curtinho que a diagramação faz render 95 páginas, Schlink conta em O outro a história de um homem que perdeu a esposa e precisa aprender a lidar com o vazio que ela deixou. Foi uma boa coincidência pegá-lo logo depois de Enquanto ele estava morto, de Estevão Ribeiro, já que os dois partem do mesmo ponto e seguem caminhos completamente diferentes. Ao tratar do sumiço de um irmão, Estevão repassa a própria vida a limpo. Já Schlink não está muito interessado na revisão de valores de seu protagonista, mas no modo pouco convencional, quase impessoal, que ele arruma para lidar com acontecimentos.

“Envergonhado, percebeu que tinha menos lembranças ainda de seu casamento e de sua família no ano de sua aposentadoria temporária. Sentira-se injustiçado, magoado, lambera suas feridas e esperara que o mundo, o Estado (…) vissem a injustiça cometida contra ele. (…) Lembrou-se de sua luta contra o barulho das crianças e de seus amigos. Aquela alegria ruidosa, para ele, era pouco-caso com a sua necessidade de tranquilidade”.

O outroEm um primeiro instante, Bengt tenta ocupar o espaço deixado pela esposa com pequenos afazeres tais como arrumar a casa e sair para caminhar. No entanto, a rotina da solidão vai se transformando em insatisfação auto-imposta, obrigando-o a inventar metas para seus prazeres. O passeio no parque vira uma caminhada até a árvore tal antes de voltar para casa.
Lisa, a mulher de Bengt, morreu de câncer. Cuidar dela era a sua rotina, sua certeza. Ele sabia que a qualquer momento ela estaria no quarto, deitada na cama. Agora, sem um olho no futuro, só resta o conforto do passado. E é aí que chega uma carta. A princípio ele pensa que é de algum amigo que não foi avisado da morte da esposa, mas não demora para Bengt descobrir que a carta é de um antigo amante de Lisa. Schlink foge do velho esquema de certezas que desmoronam de repente e trata o assunto de modo inusitado. Seu protagonista vê na carta um jeito de ocupar a vida e, como quem não quer nada, começa a responder no lugar da esposa, tentando arrancar informações sobre o caso. Ele não sabe o que é pior: pensar em Lisa sendo outra com o amante ou sendo ela mesma. Bengt vê o amante como alguém que veio tirar o pouco que lhe resta e é preciso derrotá-lo no presente para que seja derrotado também no passado, de modo a promover o retorno do conforto.
Depois de algumas trocas de correspondência, a tentação aumenta e fica claro que o único jeito de levar o plano adiante é se encontrar cara a cara com o oponente, momento em que o autor não resiste e explicita a disputa como um jogo de xadrez, partindo para um xeque-mate coerente com sua fuga de clichês e comodismo de Bengt.

“Quando se lembrava da intimidade entre ambos, sua culpa emudecia, dando lugar a um mal-estar. Teria ele se iludido? Teriam mesmo sido tão íntimos assim? O que faltara? A vida a dois não era boa? Afinal, haviam dormido juntos até ela cair gravemente doente, haviam conversado até ela morrer”.

O Outro é quase um conto. História para se ler em menos de uma hora. A adaptação para os cinemas traz Liam Neeson, Laura Linney e Antônio Banderas, um trio tão inusitado quanto.

Assisti ontem, dia 23 de julho, no Teatro SESC Ginástico, a estréia no Rio de Janeiro de “Por um fio”, peça baseada no livro, com o mesmo título, do médico Drauzio Varella. Os atores Rodolfo Vaz e Regina Braga, esposa de Drauzio, narraram, como é explicado previamente na sinopse, onze das histórias contadas no livro pelo médico, com a direção de Moacir Chaves.

Realmente não precisava mais do que uma boa leitura. As histórias, em que o médico relata-nos como seus pacientes compreendem a morte e a vida, são ótimas. Já li três de seus livros – Carandiru, Por um fio e Borboletas da alma – e todos me encantaram. Gosto muito do jeito como ele escreve e gostei da forma como levaram seu texto para o palco.

No cenário de J.C. Serroni, composto por troncos de árvores sem folhas, bancos de praça e um painel com árvores de folhas amareladas, são contadas as histórias dos pacientes terminais, que acabam se entrelaçando com episódios da carreira do médico. As personagens são descritas de forma muito eficiente e vemos que “nada transforma tanto o homem quanto a constatação de que seu fim pode estar perto”.

Os atores dividem a voz do médico e as vozes das personagens. As ironias da vida, que algumas vezes são cômicas, as posturas diante da morte, o amor pelo próximo e pela vida, o contato com os pacientes, uma experiência mais pessoal, são expostas de maneira graciosa.

A melhor impressão da peça é a de que souberam aproveitar bem o texto. Os recortes, que conseguem revelar exatamente as emoções que se encontram no livro, somados às boas atuações, indicam claramente o motivo do seu sucesso.

Baseado no livro de Drauzio Varella

Direção: Moacir Chaves

Elenco: Regina Braga e Rodolfo Vaz

Cenografia: J C Serroni

Duração: 70 min

Temporada: até 13 de setembro

Local: Teatro SESC Ginástico – Av. Graça Aranha, 187 – tel: 2279-4027

Horários: 5ª a domingo, às 19h

Ingressos: 5ª e domingo, R$30,00, R$15,00 (meia) e R$7,50 (comerciários)

6ª e sábado, R$40,00, R$20,00 (meia) e R$10,00 (comerciários)

Apresentado sob forma de item através de livros didáticos do ensino médio, Bento Teixeira passa despercebido quando o assunto é literatura. Apontado por alguns estudiosos como o poeta que tentou copiar Os Lusíadas, sua obra, geralmente reduzida à poesia Prosopopéia, costuma ser desvalorizada sendo, portanto, apenas citada superficialmente nos livros escolares.

Sem querer culpar os formuladores desses livros pelo meu desconhecimento sobre a vida e a obra do poeta, mas me questionando até que ponto as pessoas que escrevem esses manuais escolares pesquisaram e investigaram o processo criador e a história de Bento Teixeira, penso que, simplesmente pelo fato de ter sido o primeiro poeta do Brasil, ele já merece algum crédito. Afinal, é querer demais que em 1601, data da publicação da mencionada poesia, um poeta brasileiro, além de ser o primeiro, ainda revolucione a escrita do país que, diga-se de passagem, ainda era colônia! Se Mário de Andrade tivesse vivido no século XVII, ele certamente não pensaria em nada parecido com o que foi o Modernismo.

Tudo é um processo e, mesmo sem ainda conhecer a obra de Bento Teixeira, acredito que sua importância possa ser direcionada para o fato de ter sido o marco inicial de um longo e árduo processo que, finalmente, culminaria no que é a literatura brasileira hoje. Nada nasce pronto.

Apesar de ainda não conhecer todo o trabalho poético de Bento Teixeira, graças ao texto de Miriam Halfim, produto de vasta pesquisa, pude conhecer a vida do poeta, que foi também professor (mestre-escola), dada a sua erudição, fruto da educação recebida dos jesuítas, em Pernambuco. A história de sua vida, as desavenças das quais foi fundador e também vítima, sua tagarelice e suas críticas à Inquisição, seus crimes cometidos, sua relação com a igreja, enfim, sua biografia é apresentada ao público com muita destreza por Isaac Bernat que, além de Bento Teixeira, é também sua esposa Filipa, entre outros.

Dirigida por Xando Graça, a peça O Língua Solta, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) até 10 de setembro de 2009, é mesmo imperdível. Divertida, informativa e muito bem produzida, é possível perceber a dedicação oferecida à realização do trabalho. A iluminação e o cenário revelam a sobriedade dos ambientes e situações que integram a narrativa, como uma igreja, uma taberna, um espaço de escrita e reflexão, um assassinato, uma discussão, um julgamento. A trilha sonora remete à época dos acontecimentos, século XVI, e a atuação de Isaac Bernat reflete o talento e o empenho do ator.

Teatro do Centro Cultural Justiça Federal

Av. Rio Banco, 241 / Cinelândia – RJ tel: 21 3212 2550

Horários: 4ªs e 5ªs, às 19h

De 22 de julho até 30 de setembro de 2009

Falar de morte é sempre complicado. Digo no trato da vida real e também na literatura. A morte literária não é um mero descarte de personagens como acontece em novelas, é preciso extrair dela um sentido que transcenda o próprio acontecimento. Beira o óbvio dizer que a morte valoriza os que estão vivos. Sabe aquela história de que só damos valor ao sentir falta? Quando alguém se esvai das páginas, os personagens sobreviventes ganham carga dramática instantaneamente. Sua existência passa a ter um algo mais, num truque de cartas e cartola narrativo.

Enquanto ele estava mortoEm Enquanto ele estava morto…, livro de Estevão Ribeiro, a morte está logo na primeira página, mostrando-se como fato real e força-motriz. Mas ela é também uma metáfora do vazio, do que realmente levamos adiante na bagagem emocional que pesa em nossos ombros. A carga da metáfora é potencializada por esse ser um relato autobiográfico, história de família, com as devidas liberdades poéticas. O autor narra do ponto presente parte de sua infância e adolescência, movido pelo drama de saber da morte de um irmão. É um telefonema sem muita explicação. Só se sabe que ele morreu em um garimpo na Bahia. Quer dizer, nem isso se sabe direito. A dúvida (vazio da certeza?) é fonte de angústia, prova da impotência diante do que não podemos controlar. E o que fazer quando não se pode fazer nada parece ser o x da questão para o personagem-autor. Estevão precisa descobrir onde está o corpo. Precisa porque assim determinou diante das contestações dos demais. Quer encontrar o irmão que nunca foi lá essas coisas, mas que com a morte assumiu a aura mítica de herói, e heróis não merecem ser enterrados como indigentes.

“Mas o maior ato de heroísmo de Daniel com o caçula foi livrar-me da morte certa. Uma infeliz coincidência me colocou numa situação onde vivi uma semana como se cada dia fosse o último. Garanto que não foi igual aos filmes hollywoodianos onde a pessoa começa a valorizar as pequenas coisas, vai à praia contemplar o Sol se pondo, acerta-se com a família, repara seus erros. Foi uma tensa espera pela hora da morte”.

Estevão RibeiroAssim, durante 108 páginas que misturam textos e ilustrações do próprio autor, Estevão compartilha suas memórias, indo do drama ao humor e de volta ao drama. Fala dos muitos irmãos, da infância dormindo em barracos, da vida que por pouco não se perde em um corte no joelho ou num mal-entendido. As questões familiares estão presentes desde o primeiro instante, somando-se sinergicamente ao drama do irmão perdido. É curioso ver como algumas pessoas não acreditam na morte de Daniel. Há os que entram em negação porque gostavam do irmão e há os que não acreditam simplesmente porque vaso ruim não quebra. As dores são maiores quando não compartilhadas, e o único a trabalhar em busca da resposta é o narrador, mesmo que, nesse caso, o fim do vazio seja aceitar que um irmão morreu.

“Vivi uma infância de preconceito, não por causa de pele, e sim pela minha condição social e minha criação. Pobre e sem pai, eu era visto como um ser menor entre os amigos que tinham pais e padrastos. Faltaram-me valores e costas quentes. Numa família fragmentada, com quem se reclama de um menino que te bate na escola? Mamãe mandava pedir a Deus que parassem. Não adiantou muito”.

Ilustração_01
Descontado o impacto inicial do tema, Enquanto ele estava morto… é um livro leve, desses que se lê numa piscada. Um trabalho honesto de remembrança.

Estevão Ribeiro é o criador do personagem Tristão e autor de Contos Tristes, livro que mistura ilustrações, contos, quadrinhos e poesia. Atualmente escreve a tirinha Os Pássaros.

Tente se imaginar na seguinte situação: em uma galeria, são apresentados, lado a lado, dois quadros que têm como características principais um traço inocente e formas simples, desapegadas à realidade. A figura humana é modelada apenas com um círculo e um punhado de retas, e as cores, as mais básicas possíveis. A composição não é muito bem arranjada, sem nenhuma noção de perspectiva, e o motivo, o mais simplório possível: uma família num dia de sol, com direito a arco-íris e tudo mais.

Para o leigo, a primeira (e talvez única) reação possível é a repudia, que o leva a acreditar que não existem mais bons artistas no mundo, pois seu filho de 10 anos é capaz de fazer algo muito melhor que aquilo.  Já para aquele que é ligado às artes, pode se tratar de um quadro expressionista, onde a intenção é mostrar a tenra infância, da maneira mais realista possível, ou seja, tentando ressaltar o espírito da juventude através dos traços próprios daquela idade.

Não há informações sobre esses dois quadros. Não sabemos os títulos nem os autores; se foram feitos pela mesma pessoa ou se são peças distintas. Apenas estão lá, dispostos lado a lado em uma galeria. Diante desta situação, somos interrogados a respeito do valor artístico desses quadros: afinal, eles são Arte (1)?

Certamente, tudo seria mais fácil se pudéssemos recorrer a dados semióticos dos trabalhos. O título poderia nos abrir uma infinidade de possibilidades e cogitações a respeito da intenção do artista ao produzir aquele quadro.  Por outro lado, ao recorrer ao nome do autor, poderia se identificar o estilo ao qual ele pertence e tudo seria mais lógico.  Mas será que realmente isso é necessário?  Se uma peça de arte não é capaz de se sustentar sozinha, de que serve a busca por uma linguagem própria mais conectada com o espírito do artista? Se realmente existe uma distinção do que é Arte, quem ditou estas regras?

Na verdade, quem dita essas regras é o próprio espectador, que desde criança é educado em um sistema textual, onde o trabalho com formas e cores é substituído totalmente (ou quase) por ditados e tabuadas.  Nosso espírito é habituado a tentar compreender o visual, o que dificulta a nossa fruição estético-visual.  Uma obra plástica é – ou deveria ser –  feita para ser desfrutada em seu real campo de atuação, ou seja, o visual. O conceito pode vir acompanhado, mas como um adendo, uma forma complementar de assimilação, mas a carga emocional deve estar concentrada no próprio objeto.

Ao contemplarmos um objeto estético, nosso inconsciente automaticamente busca alguma assimilação com o próprio ser, causando empatia ou o desprezo. Ou seja, aquele objeto que mais se associar com a personalidade do espectador receberá uma maior empatia por parte deste.  Um indivíduo pode estar diante de vários quadros com o mesmo tema e com os mesmos elementos, porém, fatalmente ele gostará mais de um determinado.  Isto porque a disposição dos elementos, cores e formas de representação remetem a toda sua criação intelectual e emocional, criando-se um vínculo afetivo.  Portanto, se somos capazes de apreciar um quadro unicamente pela sua beleza (2), significa que o seu conceito não é um dado fundamental. Todos somos capazes de gostar de uma bela obra sem conceito.

Quando deslocamos o conceito para diante do estético, estamos impondo valores diferentes a um mesmo objeto, variando de acordo com o referencial adotado. Vejamos, por exemplo, as possibilidades de nosso exemplo citado no início deste artigo: se os dois quadros foram feitos por uma criança de cinco anos, eles poderiam não ser considerados Arte, pois não há conceito por trás da obra.  Se fossem feitos por um artista, a situação mudaria de plano. Mas, se um deles fosse feito por uma criança e o outro por um artista, embora as soluções apresentadas sejam as mesmas, um seria Arte e o outro não?

Ora, se o valor artístico de uma obra não se mede por sua beleza, se a intenção se sobrepõe ao estético, de que vale a busca pelo aperfeiçoamento plástico?  Será que um mesmo objeto muda para melhor ou pior dependendo do ponto de vista ao qual é observado?  Com certeza não, assim como amar alguém não torna a pessoa amada mais bela. Pelo menos não na realidade.

Não seria possível aceitar a hipótese de que a única forma de arte que não possui autonomia seja a plástica, pois se aceitamos músicas sem letras, livros sem figuras ou até mesmo dança sem música, somos quase incapazes de apreciar um quadro sem auxílio teórico.  Isso se deve à tênue linha que divide o plano artístico do real.  É muito mais fácil aceitar a pluralidade da palavra ou a total abstração da música, pois elas em nada podem representar a imagem do real. Não é a toa que uma mesma pessoa pode não se importar com um personagem de desenho animado, mas dispara críticas contra a anatomia de um quadro menos real (3), ou ser capaz de apreciar a composição de cores em uma roupa, mas dizer que os quadros abstratos são “apenas garranchos”.

Não existe uma forma clara, ampla e distintiva de classificar o que é ou não Arte, pois seja qual for este método, fatalmente será injusto e excluirá algum tipo de trabalho que outros aceitarão como tal.  O pensamento de que “Arte se predispõe a alguma intenção” já é falho em sua própria origem, pois todo ato artístico é movido por alguma intenção.  O fator que leva uma criança a desenhar uma feliz pessoa em um dia ensolarado é a mesma que leva, e sempre levará, um artista a pintar um quadro: a necessidade artística.  Por isto, este conceito acaba contradizendo sua própria finalidade.

Nunca houve na história da humanidade uma só civilização que não necessitasse de arte.  Por isso tende-se a crer que a estética é um fator biológico, traço nato do ser humano, ao qual não podemos nos desassociar, talvez pelo fato de que ela seja uma das únicas alternativas de interferir no curso da natureza. Sendo assim, fazemos da forma como podemos e entendemos, para, quem sabe, perpetuar nossa existência na humanidade. (4)

Uma obra de Arte é independente e não possui vínculos com o seu autor.  Qualquer dado que não pertença à própria obra cai na questão subjetiva, criando uma série de especulação que, na maioria das vezes, nada têm a ver com a proposta original.  Adotar questões extrínsecas ao trabalho para poder qualificá-lo como Arte é dizer em alto e bom tom que a própria obra é o menos importante.  Não podemos mensurar o quanto ela foi planejada, qual foi o motivo pelo qual foi feita, se atendeu a certas expectativas ou se simplesmente foi feita na impulsividade de um momento de inspiração.  Isso porque uma obra de Arte é autônoma, não carrega consigo a descrição detalhada, nem seu autor a tiracolo, porque ela fala por si mesma.  De certa forma, é como as relações interpessoais: não é nem o nome, nem os pais, nem o histórico que vão fazer você tirar suas conclusões a respeito de alguém, mas, como esta pessoa interage com você e se ela atende às suas expectativas.  Por melhores referências que uma pessoa tenha, nada substitui a relação que você terá com ela, seja boa ou catastrófica.  Assim é com a arte: se não houver um desfrute estético desinteressado, de nada adianta saber sobre ela.

Por estes motivos, a Arte não deve ser considerada propriedade do objeto, mas do indivíduo, por se ligar diretamente com o deleite estético (5). Ou você gosta ou não.  Toda diferença está no desenvolvimento contemplativo do espectador.  Isso não quer dizer que haja um tipo de Arte melhor que outra, apenas são divididas por um rio de cultura e personalidade inerente a cada pessoa. Por mais que os gostos se pareçam, o verdadeiro sentir estético (6) é diferente para cada um.  Não é a vida nem o autor que a arte representa, pois ela só pode refletir o espectador.  Ela é como um espelho, e vai refletir de uma forma diferente cada pessoa e cada momento daquele que o contemplar.

Nosso gosto, assim como nosso senso artístico, não melhora nem evolui.  Eles apenas se transformam e se adeqüam a uma determinada formação intelectual. Quando somos crianças, temos gostos próprios à nossa idade, assim como ao longo de nossa vida.  Quanto mais vivemos, mais aprendemos e mais mudamos de gostos. Assim é com comida, amigos, amores e, enfim, na arte.  Um espectador vai ter diferentes pontos de vista sobre uma mesma obra em momentos diferentes da vida.  Isso não faz com que ela seja mais ou menos bela, pois é imutável. Sua personalidade contempladora que irá ditar as regras dessa relação.  O que antes era desprezível, pode ser considerado belo ou vice-versa. Isso nos vem provar de uma forma integral que a Arte não pode ser determinada pelo objeto, mas por quem a desfruta.

Diante desses fatos, não temos autonomia para ditar uma regra geral que diga o que é ou não Arte.  Admiramos aquilo que nos espelha e não podemos exigir a mesma compreensão estética de duas pessoas com históricos de vida completamente diferentes, pois transparecemos aquilo que somos.

Não é intenção, porém, colocar em pé de igualdade o desenho de uma criança aos trabalhos de artistas profissionais.  Entretanto, não há como dizer, de uma forma universal, que este tipo de obra não seja Arte, pois, dentro de seu campo de conhecimento, a criança também cumpre o seu papel. Se não for desta forma, então estaremos hierarquizando a Arte como “melhor” ou “pior”, já que um bom desenho infantil seria “pior” do que um péssimo desenho rico em conceitos.  Ou seja, aquele que tem mais significado é o mais artístico.

Para se desfrutar a Arte, basta apenas sentir.  É apenas deixar que o inconsciente trabalhe, para que se desfrute, em todas as instâncias, o que o real prazer estético pode oferecer. Ela é aquilo que toca, nada mais.


Segundas intenções – onde está a experiência estética?

Katherine Watson: Há 25 anos alguém achou isto genial

Betty Warren: Quem?

Katherine Watson: Minha mãe, eu pintei para dar em seu aniversário.  Próximo slide. Esta é minha mãe Isto é arte?

Susan Delacorte: É um retrato.

Katherine Watson: Se eu dissesse que foi Ansel Adams que tirou, faria diferença?

Betty Warren: Arte não é arte até que alguém o diga.

Katherine Watson: é arte!

Betty Warren: As pessoas certas.

Katherine Watson: E quem são?

(do filme O sorriso de Mona Lisa)


***

(1) Considero neste artigo a palavra Arte com inicial maiúscula para designar o tipo de classificação valorativa, e o termo arte com inicial minúscula como valor classificativo. Explico esta designação no artigo  ”a eterna novela: arte e design em três atos“.

(2) O termo beleza é aqui usado como representação do juízo de gosto, diferente do “belo” greco-romano.  È tudo aquilo que o indivíduo acha bonito.

(3) nas palavras de E. H. Gombrich: “O camundongo Mickey não se parece muito com um camundongo verdadeiro; no entanto, as pessoas não escrevem cartas indignadas aos jornais criticando o apêndice caudal do Mickey. (…) Mas se um artista moderno desenha alguma coisa à sua maneira, está sujeito a que o considerem um trapalhão, incapaz de fazer coisa melhor.” (Gombrich, E.H. A história da Arte, (trad. Álvaro Cabral), Guanabara Koogan S.A, 1993, p. 8 )

(4) A famosa frase “todo homem deve, ao menos, ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro” é um retrato fiel desta hipótese.  Conhecida em todo mundo, ela sugere que todo ser humano se perpetue perante os séculos através da interferência na natureza. O termo “escrever um livro” é uma referência ao fazer artístico, próprio do ser humano e que a natureza não prevê.

(5) “Immanuel Kant, com efeito, propõe primeiramente uma teoria do juízo estético: com que direito posso julgar que uma coisa é bela? O critério é o prazer que ela desperta em mim: prazer desinteressado, ligado só à forma do objeto e não, como no assentimento, ao seu conteúdo. O belo é, portanto, aquilo que agrada. Mas Kant acrescenta: universalmente sem conceito. “Sem conceito” quer dizer que não há idéia do belo, isto é, um modelo que possa orientar meu juízo e servir de padrão.  O belo só se encontra em objetos sensíveis e só a sensibilidade é o juiz”

“Procurar um princípio do gosto que dê através de conceitos determinados, um conceito universal do gosto, é um trabalho estéril, visto que aquilo que se procura é impossível e contraditório em si” (Kant, Immanuel -  Critique du Jugement, § 17)

(6) “A experiência estética, pelo contrário, é essencialmente “final“, isto é, o seu fim reside em considerar a situação de pertença de modo mais amplo, mais rico e intenso, fora dos mecanismos de rotina e sem se recair numa nova habitudinariedade mecânica. O seu objetivo seria introduzir na terra um estado paradisíaco onde se possam viver os vários aspectos do mundo, exatamente, com a máxima intensidade, sem a preocupação de economizar energias. Poderia ser também a descoberta do Paraíso Terrestre, vivido na primeira infância, quando o impulso para o prazer dos sentidos não encontra repressões e censuras pela obrigação de prestar contas com as exigências práticas sociais”. (Barilli, Renato. Curso de Estética (trad. Isabel Teresa Santos), Lisboa, Estampa, 1989, p.33-34)

“Um belo dia ele acordou com as calças na mão, correu até a janela e gritou bem alto para os vizinhos: crítica para quê? Com um sorriso no rosto e já completamente nu, esperou em vão pela resposta. Seu corpo nunca pareceu tão magro no reflexo da vidraça. A pilha de contas para pagar também não ajudava a auto-estima, isso sem falar da réplica da tréplica da tétrica crítica que tinha escrito sobre a peça na semana anterior. Sem encontrar sentido para o trabalho de toda uma vida, tacou-se de braços abertos no meio da rua, levando consigo uma transeunte. Os jornais não deixaram passar a feliz coincidência de o crítico ter caído justo em cima da diretora que deflagrara seu surto depressivo. Pelo menos os dois estavam juntos em uma matéria de capa, pela primeira vez”.

Com menos humor negro, costumo dizer por aí que crítico inteligente é aquele que tem a mesma opinião que a gente. Se de repente surge um ponto de discordância, ninguém é perfeito, pobrezinho, fica a torcida para que ele acerte novamente da próxima vez. Quando ele começa a discordar demais, entra para a nossa lista negra. Ser crítico, leitor e autor, tudo junto, me põe no meio desse processo esquizofrênico nada freudiano. Então cada pedrada que eu levo como autor, cada bote ofídico que recebo como crítico e cada momento “hein?” que vivo como público-consumidor me faz bater na mesma questão: a crítica perdeu seu papel?

Acho que ninguém duvida de que finalmente mergulhamos na famosa era da informação. O Brasil é incrivelmente ciberpunk. Não faz muito tempo quem tinha o poder era quem sabia antes. Era o jornal com o furo de reportagem, o crítico convidado para a pré-estréia em Los Angeles, o colunista que ouvia o CD no coquetel de lançamento. Mas, de repente, está tudo aí disponível na rede. O twitter propaga links e informações numa velocidade absurda e filmes e CDs vazam para download antes de chegarem ao mercado. Ainda está fresco na memória o frenesi do vazamento de Tropa de Elite. Todos comentaram o filme antes de sua chegada ao cinema. Vender DVD pirata é crime, comprar idem, mas foi o que aconteceu. E não foi o Zezinho do blog, foram colunistas dos maiores jornais impressos do país.

Então o furo de reportagem, a opinião fresquinha, agora é de quem estiver online no momento certo. Assimilar e processar a informação já entra em outro departamento. Se você acha que o simples acesso a conteúdo basta como diferencial, vale dar uma volta nos maiores jornais online e espiar os comentários dos leitores. Algo está fora da ordem mundial. O esquema flash news atende à dinâmica das páginas que precisam fingir uma renovação constante, mas falha na qualidade do conteúdo. Ainda é preciso pesquisar para encontrar material informativo que preste e de caráter opinativo embasado, independentemente das inclinações políticas, sociais e culturais de quem o escreva. A sociedade da informação ainda não conseguiu promover a popularização desse tipo de texto, com alguns estudiosos de mídia dizendo que o conteúdo opinativo deve em breve voltar a ser exclusivo de assinantes, tornando a etapa de transição um longo período de amostras grátis (já tentaram isso antes, eu sei).

Se ao subir um degrau fomos da sociedade da manipulação para a da informação, me parece que agora estamos em plena era da desorganização, e aí o crítico encontra um papel fundamental. Uma obra intelectual merece cumprir um ciclo que não termine no desconhecimento (uma parte merece é o limbo, mas vamos ser politicamente corretos um instante). Ela deve ser idealizada, realizada, consumida e analisada. Parte, com sorte, servirá de influência para os que virão adiante. Como não acredito em bola de cristal, me atenho ao presente. Vale lembrar que um crítico é um pacote de vivências e gostos pessoais, o que sempre se refletirá em suas análises. Fingir a imparcialidade como prova de superioridade é deveras ridículo. Os vendedores de verdades, ainda bem, estão desaparecendo.

O grande X da questão é que a bancada da vitrine encurtou. Há muito mais gente produzindo muito mais coisa. As estantes das livrarias estão lotadas, e as lojas virtuais fingem ter um espaço infinito que é irreal e equivale aos cantos empoeirados das lojas tradicionais. É uma metáfora de improviso, confesso, mas se aplica a vários exemplos, inclusive os de críticas em revistas e jornais.

Quando escolhe o material que vai analisar, o crítico é um garimpeiro desse mundo de novidades. Pode ter certeza de que há muita gente boa aqui dentro e lá fora que não tem a visibilidade merecida (opa, opinião) e que sabe o valor que uma resenha possui dentro desse ciclo. Ao apresentar um artista para o público, o crítico pincela informações aqui e ali ou indica os sites onde estão essas informações, depois diz sua opinião sobre ele, de preferência apontando os argumentos de maneira organizada. É o leitor quem decide o que vai aproveitar daí. Outro papel importante do crítico é contextualizar. Quando se pensa numa instalação de arte ou num quadro, a necessidade da contextualização é mais óbvia, mas ela também é válida para músicas, filmes e livros, por exemplo. Um cd pode ser contextualizado dentro da carreira do cantor, dentro do contexto histórico, dentro do atual cenário de produtores badalados, etc. O importante é que no final, o leitor entenda o texto e assuma suas funções no garimpo. O crítico pode direcionar esse texto para públicos diferentes, mas prefiro não entrar nesse mérito e ir direto para a questão final: eu tenho então que concordar com o que leio só porque foi escrito por um crítico?

Claro que não. Não há nada errado na discordância. Não seja grosseiro com um crítico se discordar dele, seja você o criticado ou o leitor. Uma obra de qualidade traz em si a pluralidade da interpretação. Não há um modo absoluto de se relacionar com a arte. Um artista que impõe um único significado ao seu trabalho está equivocado desde a concepção. Lembre-se daquele papo de que cada um tem uma bagagem diferente que escrevi acima. As críticas não são dogmáticas. Elas servem para ajudar a formar uma opinião mais ampla sobre determinado assunto. Infelizmente, gravadoras, relações públicas, editoras, ainda não captaram a essência da fragmentação da Web, nem entenderam o poder do boca a boca virtual. Se Hollywood acaba de descobrir que um filme ruim tem sua bilheteria prejudicada quase em tempo real pelo twitter e já se prepara para aproveitar a ferramenta a seu favor, aqui ainda há grandes estúdios mandando CDs de pop para críticos de rock só porque são de um jornal famoso qualquer. O curioso é que ninguém deveria saber melhor do que a indústria musical o que o engessamento faz com a margem de lucro.

Mas voltando ao leitor, quero deixar um conselho: escolha três ou quatro veículos de sua preferência. Inclua na lista um que costume discordar. Leia o que falam do blockbuster do momento, por exemplo, e compare com o que você percebeu ao assistir. Seus argumentos batem com os do texto? Em que ponto são diferentes? Se você ainda não tiver visto o filme, a crítica não terá esse caráter comparativo, é lógico, mas cairá no exemplo da apresentação, sendo proveitosa da mesma maneira. No mínimo, foi mais uma janela abordando uma novidade. Saiba aproveitar a oportunidade e vá atrás. Um texto crítico pode ser uma ótima ponte entre o artista e seu público-alvo. E ninguém precisa se jogar da janela no meio do caminho.

Vi a exposição da Sophie Calle e li um de seus livros. Esse texto é sobre ambos. E é sobre o que me parece ser uma violência epistemológica.

Douleur exquise, de Sophie Calle, Éditions Actes Sud, 2003A exposição é Cuide de você/Prenez soin de vous, no Sesc-Pompéia.

O livro é Douleur exquise, Éditions Actes Sud, 2003.

Na exposição, ela apresenta 107 reações de outras pessoas a um e-mail de rompimento de seu amante.

No livro, ela apresenta 99 relatos de dor de outras pessoas, que se contrapõem à dor de um telefonema de rompimento de seu amante (outro amante).

Na exposição, a voz do outro é só de mulheres – identificadas e com suas profissões indicadas. O amante também foi identificado. É o escritor Grégoire Bouillier.

No livro, o amante não está identificado e a voz do outro é de homens e mulheres igualmente. Eles também não estão identificados, embora haja fotos de alguns, além de detalhes de suas vidas pessoais. Os relatos “assinados” por Calle, sobre o telefonema de rompimento de seu amante, vêm acompanhados de uma foto do telefone vermelho em que tal telefonema se deu.

Esse livro, sobre esse outro amante, (“M.”), é dedicado ao primeiro amante, Bouillier. Me pareceu um agradecimento e uma homenagem por ele ter-lhe indicado, mesmo contra sua vontade, um caminho artístico, uma receita de sucesso. Esse livro, de todos que ela escreveu, e essa exposição, de todas que fez, estão ligados. São frutos de um mesmo processo.

Esse processo é o de impôr um registro poético autoral sobre a voz do outro. Calle se apropria de um “eu” alheio, oferecendo-o coberto por sua própria estética, sua própria ficcionalização do real. Mas o apresenta como sendo o real. No entanto, como não podia deixar de ser, ela faz uma ressignificação. Pega uma cosmologia alheia e a insere em seu próprio sistema de significação. O problema não está em ela fazer isso. Todos nós, criadores, fazemos igual. O problema é a apresentação dessa voz do outro como sendo real. O que ela nos dá – e essa é a única coisa que ela pode nos dar – é uma verdade sua pessoal. Não é a verdade factual. Ela mente ao dizer que aquele telefone vermelho é o telefone vermelho real em que se deu um telefonema de rompimento (mesmo que seja); ela mente ao dizer que a fulaninha de tal falou tal coisa a respeito do e-mail de rompimento de seu amante (mesmo que tenha falado); ela mente ao dizer que a reprodução fotográfica do e-mail é o e-mail real (embora seja).

Falta sempre o entorno, o contexto, o resto todo do real – inconcebível, inapreensível e incompreensível. Em toda representação artística do real, o real estará ausente. E é por isso mesmo que o representamos e o representamos outra vez. Para dar a ele sentidos. No plural. A obra de arte, para sê-lo, terá de ser polissêmica. E aqui vai mais uma restrição ao trabalho de Calle. Polifonia – ainda mais falsa – não é a mesma coisa que polissemia. Desculpe ser tão banal. É que o engano também é banal.

Agora a questão do poder.

Ao se apropriar da voz do outro – seja esse outro uma das testemunhas de acusação arroladas no livro/exposição/tribunal, sejam os amantes tornados objetos – ela submete a dor do outro à sua própria. Eles vêm em segundo plano.

E essa é exatamente a acusação que Calle faz a seus amantes. Que eles puseram suas dores em primeiro plano, esquecendo a dela. Ela faz o que a eles imputa.


P.S. Na exposição, das 107 mulheres convidadas a dar sua opinião, duas criticaram Calle sobre o uso que ela fez do e-mail.

Sem ser convidada, me ponho como terceira dessa fila.

Há algum tempo, desde o ano passado pelo menos, venho observando que, tanto nos jornais e revistas quanto na televisão, muitas notícias sobre a África vêm sendo veiculadas. São artigos e reportagens que procuram ressaltar os laços que unem o Brasil ao continente africano, especificamente aos países africanos de língua portuguesa, e especialmente a Angola e Moçambique. E isso é ótimo porque contribui para a dissolução daquela terrível e antiga idéia de que a África é feita de elefantes, leões e tribos primitivas.

Do ponto de vista cultural, o intercâmbio entre o Brasil e a África torna possível, e cada vez mais freqüente, o encontro entre nós, brasileiros, e africanos como Mia Couto e Ondjaki, dois escritores conceituados que certamente têm muito a compartilhar. Eventos como a FLIP, que nesse ano (2009) pôde contar também com a presença de Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas brasileiros em assuntos africanos, têm demonstrado preocupação em estreitar as relações entre o Brasil e o continente africano. Outro exemplo é o FESTLIP, festival de teatro de países de língua portuguesa que, em sua segunda edição (2009), trouxe ao Rio de Janeiro 80 profissionais de teatro de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal para onze dias de espetáculo. Do outro lado do oceano, a Casa de Cultura Brasil-Angola, em Luanda, desenvolveu esse ano o projeto “Sopa de Letrinhas”, que teve como objetivo apresentar a literatura infantil brasileira ao público angolano.

Não é tão difícil perceber um certo empenho de ambas as partes em restabelecer o contato enfraquecido passado o período da escravidão. Agora num contexto positivo, em que nenhum país planeja devastar o outro para se estabelecer, o momento é de cooperação. Que Angola e Moçambique são países em fase de desenvolvimento econômico e de reestruturação social, sabemos (o Brasil não é muito diferente). Como resultado de décadas de devastação por conta da colonização portuguesa, esses países enfrentam hoje um complexo processo que visa à reconstrução da nação. Desde o início do século XIX, quando ainda se encontravam sob o domínio português, observa-se, contudo, um crescente desejo de desvelamento daquele substrato africano perdido devido à imposição da cultura do colonizador. Nesse sentido, a literatura, tanto em Angola como em Moçambique, ocupou papel central como impulsionador dos movimentos pró-independência e como responsável pelo resgate das tradições culturais desses países.

Muitos autores que hoje têm suas obras circulando pelas livrarias brasileiras, como Mia Couto, Pepetela e Luandino Vieira, por exemplo, fazem parte de uma geração cheia de ideais, que lutou, através das palavras, pela independência de seus países. No entanto, depois de conquistada, a independência evidenciou muitos contrastes, criou novos problemas e revelou que o processo de reconstrução do país seria mais difícil do que se imaginava. Em sua ficção, esses autores procurar compartilhar essas dificuldades e as utopias que nortearam seus países durante muitos anos.

Menos conhecida por aqui, mas tão essencial quanto, é a obra de Boaventura Cardoso. Conterrâneo de Pepetela e nascido na mesma década deste, em 1944, o escritor participou dos movimentos pela libertação de Angola, além de ter sido membro-fundador da União dos Escritores Angolanos (UEA), responsável pela publicação de textos de escritores angolanos após a independência, em 1975. Desde então, teve seis livros publicados: Dizanga dia Muenhu (1977), O Fogo da Fala (1978), A Morte do Velho Kipacaça (1987), O Signo do Fogo (1992), Maio, Mês de Maria (1997), Mãe, Materno Mar (2001).

Autor de contos e romances de peso, Boaventura Cardoso, que também ocupou o cargo Ministro da Cultura de Angola de 2002 a 2008, inscreve-se no hall dos mais representativos escritores daquele país. Tem muitas passagens pelo Rio de Janeiro, onde costuma contribuir como palestrante em encontros sobre as literaturas africanas de língua portuguesa promovidos por universidades e casas de cultura.

Seu último romance, Mãe, Materno Mar, revela-se um mergulho profundo na temática angolana, em todos os níveis. Através de seus personagens, da linguagem adotada e da forma como desenvolve suas narrativas conhecemos histórias de lutas, de silenciamento e de violência que marcaram o passado recente de Angola; conhecemos situações e personagens que representam as tradições, as religiosidades e as práticas políticas da atual sociedade angolana. O imaginário do país e todas as implicações que uma longa e turbulenta colonização pode suscitar são trabalhados de forma sensacional nesse romance que, mais que entretenimento, é uma aula sobre a sociedade e a cultura angolanas.

O Brasil foi muito bem representado no FESTLIP 2009 pela Cia de Teatro Luna Lunera (Brasil – Belo Horizonte). O espetáculo “Cortiços”, baseado na obra O Cortiço de Aluísio Azevedo, é uma ótima leitura feita pela Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro, com a direção do mesmo Tuca Pinheiro, responsável também pela maravilhosa trilha sonora.

A sinopse diz o seguinte: “Estalagem São Romão: naquele chão encharcado, naquela umidade quente e lodosa, um aglomerado pulsante de gente. O espetáculo recorta a obra O Cortiço, de Aluísio Azevedo, para dela extrair corpos, garrafas e líquidos que atravessam os inúmeros cômodos da alma do homem em seu estado bruto.” Porém, a peça foi muito mais do que isso.

É um espetáculo bem popular, com referências bem brasileiras. As letras das músicas se encaixam perfeitamente no texto. O cenário é composto por um tablado de madeira em cima do palco, um pouco acima do chão, cercado por garrafas pets, cheias de líquido, ou de sabão, por todos os lados, uma escada, um quadro negro e uma tina com água corrente. Este cenário, somado ao barulho da água, à ótima iluminação e à música, formaram o ambiente perfeito para que os atores começassem o show. O texto um pouco desconexo diz mais do que um texto perfeitamente coeso. Há também cenas lindíssimas, como, por exemplo, do ato amoroso entre Bertoleza e João Romão, que foi brilhantemente representada.

São cinco atores: duas mulheres (Débora Vieira e Júlia Guimarães) e três homens (Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva e Rômulo Braga), que fazem interpretações majestosas e apresentam uma ótima expressão corporal. Eles são várias personagens de destaque e são também as lavadeiras. Esses cinco atores parecem uma multidão em cena, estão sempre presentes no palco e ocupados, a maior parte do tempo trocando as garrafas de lugar, o que da uma movimentação impressionante à peça, ou em conversas paralelas que não atrapalham em nada a atuação principal, pelo contrário, dão justamente o clima confuso apropriado. Destaco o ator que interpretou Bertoleza e Rita Baiana. Todos são ótimos, mas ele foi incrível. Destaco também o ator que interpretou Jerônimo, também muito bom.

Iluminação boa, interpretações ótimas, trilha sonora perfeita. Só tenho elogios. Eu estava um pouco ansiosa para saber quem estava nos representando. Não assisti a outra companhia brasileira, mas fiquei tranqüila depois que assisti a esse espetáculo. Tenho certeza que nossos irmãos de língua foram embora com uma ótima impressão.


Texto original: Aluísio Azevedo

Concepção: Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro

Direção: Tuca Pinheiro

Cia. Luna Lunera (Brasil – Belo Horizonte) é composta por atores formados pelo Curso de Teatro do CEFAR – Centro de Formação Artística do Palácio das Artes. Constitui-se oficialmente em 2001 e já recebeu vários prêmios.

Elenco: Cláudio Dias, Débora Vieira, Júlia Guimarães, Marcelo Souza e Silva e Rômulo Braga.

Assistência Dramatúrgica: Zé Walter Albinati, Odilon Esteves e Marcelo Souza e Silva.

Treinamento Corporal: Tuca Pinheiro

Preparação Vocal: Helena Mauro

Oficina de Samba: Juliana Macedo

Cenografia: OSLA Arquitetura – Ed Andrade

Cenário: Artes Cênicas Produções – Joaquim Pereira

Figurino: Juliana Macedo

Iluminação: Felipe Cosse e Juliano Coelho

Trilha Sonora: Tuca Pinheiro

Não entendi.

Percorri a orla do Rio e, de tantos em tantos passos, lá estavam as estruturas de ferro com painéis enormes (10 metros de altura, quatro de largura, com quatro lados cada uma) mostrando, mostrando o quê? Pois é. Índios, negros, garotos de rua, imitação de pixação, ícones pop, tudo num clima assim, politicamente correto, assuntos da atualidade, sabe como é?

fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA praia do Rio tem estrutura visual de linhas verticais e horizontais. Você olha e vê vários retângulos (os edifícios) em pé. E tem o mar, deitado. Os painéis repetem essa estrutura. Aí você pensa: ah sim, integração. Mas não. As figuras são enormes, te afrontam em seu tamanho sobre-humano. E me incomodou a tipificação. Imitação de pixação?! Índio?!

Me passou haver uma necessidade de classificar, explicar. Ó deus, alguém avisa que já tentaram antes e não deu certo?

Depois eu pensei: não, sua idiota, é que a curadoria quis levar para a orla, zona nobre da cidade, imagens de sua população mais pobre. Mas só se o curador Jéremy Planchon não conhecer nada da cidade. O Rio tem essa enorme – e talvez única- vantagem: morros e bairros ricos não são separados por quilômetros de distância. Pelo contrário.

Mas Planchon conhece a cidade. É francês radicado no Rio, onde tem uma agência de fotos para fins publicitários. E, bingo, lá está a explicação. As imagens tem aquele acabamento perfeito da imagem publicitária. Repito: imitação de pixação!!! Perfeitinha!!!!

Trata-se pois de publicidade. Vendendo o quê? O racionalismo francês, ora.

Bem, boa sorte.

fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásOs artistas: Blek le Rat faz pixação em Paris e se inspira em personagens dos escritores Françoise Sagan e Paul Eluard (!!!! – e vou parar com os pontos de exclamação para não quebrar a tecla do meu note). Willy Bihoreau é ecochato francês (desculpe o pleonasmo) e faz denúncias. Jerk 45 sonha com um mundo melhor. Ned também. Stéphane Carricondo gosta de analisar seu “outro” que, no caso, somos nós, os brasileiros. Vincent Rosenblatt também gosta. O “outro” dele preferido é o frequentador de baile funk. Ele acha fascinante. Mambo é designer e, para quem me conhece, não preciso dizer mais nada.

São 20 painéis. Um dia eles somem.

O espetáculo “O Homem Ideal” trazido ao FESTLIP 2009 pelo Grupo M’Bêu (Moçambique – Maputo), tem texto e direção de Evaristo Abreu e as atuações de Yolanda Fumo, Isabel Jorge e Eliot Alex.

O cenário simula um bar e contém alguns bustos que representam os homens que passaram pela vida de Deolinda. O complemento é feito pelas imagens projetadas na tela atrás do balcão. São imagens urbanas, imagens de Deolinda na cidade, que intercalam as cenas e nos transportam para um ambiente urbano. Foi um recurso simples, hoje bem comum, mas muito bem utilizado, muito apropriado à montagem.

O texto trata da história de uma mulher camponesa que vai para a cidade por causa de um homem, que se separa da família por amor. Perdida num lugar em que não conhece, procura emprego e acaba sendo aceita neste bar por piedade do Barman e vira uma espécie de dançarina e cobaia dos novos pratos feitos pelo cozinheiro recém contratado.

Sua consciência surge como uma mulher comum, como uma cliente do bar que se senta a sua mesa. Diante do seu questionamento, a consciência responde: “Então, a senhora não me conhece? Então, como pode reconhecer a si própria?”. Deolinda responde que está à procura do homem ideal e entram no assunto. Relata os defeitos e os problemas que teve com cada um dos homens com quem já se relacionou e refletem sobre o que aconteceu.

É a história de uma mulher que conversa com sua consciência, mas tem também questões mais profundas do que a discussão sobre o homem ideal. Dentro desse tema, acabam sendo inseridos outros com um apelo mais social e sua consciência pergunta: “Você está à procura de um homem ideal. Não seria melhor procurar um mundo melhor?”. Sua consciência a faz refletir sobre certos pontos, a faz pensar sobre o mundo em que vive.

È um espetáculo leve, bem executado, com boas atuações, que incluem até mesmo um lado cômico bem agradável e dá conta do que se propõe na sinopse.


Direção e Texto: Evaristo Abreu

O Grupo M’bêu foi fundado em Janeiro de 1989 em Maputo e hoje é uma associação cultural constituída com dez membros. Suas produções focam na juventude, tentando sempre dar realce aos costumes e valores tradicionais; também satiriza alguns fenômenos da vida corrente, tal como a corrupção, o tráfico, etc. O Grupo produz a maior parte das peças por si apresentadas, parte delas baseadas em mitos e histórias tradicionais.

Elenco: Yolanda Fumo, Isabel Jorge e Eliot Alex

Música: Fran Perez e Paulo Macamo

Vídeo: Evaristo Abreu e Moises

Som, luz e cenografia: Alfredo Semo

Figurinos: Adelia Tique & Sheila Alexandre

Fotografia: Chico Carneiro

Não vi toda a edição da Verbo. Não deu.

Como em 2008, agora também o festival anual de performances, organizado pela Galeria Vermelho, contou com uma discussão teórica. Um dos palestrantes a que assisti foi Renato Cymbalista, arquiteto e urbanista da USP. Em outro dia, a convidada foi Cristiane Paoli Quito, coreógrafa do grupo Nova Dança.

Falaram sobre as margens da performance, seus limites – ou melhor, sua permeabilidade.

Os dois passaram batido pela definição de performance. Não vou me dar a esse luxo. Mesmo com seus cem aninhos de existência, acho que ainda tem de explicar. Já vi muita gente olhar aquilo com cara perplexa.

Performance transforma um espaço através de uma ação corporal. Pode ser espaço privado ou público. Físico ou apenas simbólico. Você constrói sua relação com o espaço de uma determinada maneira e vem uma performance para obrigar você a mudar tudo. Como moramos em cidade, que é coisa que muda todos os dias, a performance acaba servindo de exercício para que se possa aguentar um cotidiano que não permite enrijecimentos, sob pena de te expulsar da vida. Ou de casa.

Mais algumas coisas. Performance pode ser ‘site specific’ – quando a modificação é dirigida a um espaço determinado. Performance transforma fato em acontecimento. Performance exibe a ficcionalização que existe em qualquer construção do ‘real’. Performance colabora com o tensionamento inerente à construção ininterrupta do urbano.

A partir daí, Renato Cymbalista divertiu-se muito ao demonstrar que, ao lado de artistas performáticos, outras performances aconteciam no tecido urbano. Começou falando que as cidades medievais se formavam em volta das igrejas – local em que se enterravam os mortos. E que, aos poucos, os mortos foram sendo expulsos para a periferia. Hoje só mortos especiais podem ‘morar’ dentro das cidades. E, qual artistas performáticos, modificam o espaço em seu entorno para aqueles que os cultuam. Deu como exemplo o túmulo do Frei Galvão. Foi divertido ouvir os performáticos da mesa (Lynn Harris do Unreleased Project; Cristiana Ceschi e Beatrice Carvalho, do As routes) se depararem com essa concorrência vinda do além.

Cristiane Paoli Quito mostrou um vídeo de seu grupo. Falou sobre a improvisação teatral e suas falácias. O improvisador (uma das margens da performance) improvisa sempre pouco, pois já carrega em si um acervo de proto-narrativas. Falou mais: que improvisar é primeiro construir um código, para depois rompê-lo. Disse que o que faz são espetáculo abertos em tempo real. E que o que almeja é palco e mentes vazios para que o espaço fale. E falou uma frase que eu tomei nota: a narrativa é um aprisionamento dentro de um fato.

O fato é amplo e amorfo. E você escolhe se fechar em uma das linhas possíveis. Gostei. Me fez pensar que as possibilidades trazidas à tona por uma performance já estavam por lá. E o artista apenas pescou aquela, em vez de alguma outra.

Agora a prática.

Paraphernalia, de Nancy Mauro-Flude - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A apresentação Paraphernalia de Nancy Mauro-Flude é chatíssima e excelente. A artista passa um tempo enorme mexendo em osciladores de frequência. Isso gera aquele ruído exasperante de estática. Há vários no palco. Depois de muuiiiito tempo, ela vai para o microfone e interpreta a música The machines (de Jesse Darlin). Enquanto ela lida com os osciladores é uma pessoa. Quando ela canta, é robô. No palco, além dos osciladores, só a bolsinha de paetê vermelho da artista. É a única coisa que não emite som. Muda, a bolsinha grita sua automatização de um feminino estereotipado.

Body hit,de Anno Dijkstra - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Em Body hit, o holandês Anno Dijkstra fica nu no palco e, ao apertar um botãozinho, leva um ‘tiro’ de tinta dourada. Os pentelhos que já eram louros ficam cobertos de tinta dourada. Uma idéia para lá de estrangeira da nossa cotidiana e tropical violência urbana.

El dinero, de Los torreznos - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Los Torreznos são a dupla espanhola Rafael Lamata e Jaime Vallaure. O que eles fazem é falar. As palavras são as mais banais. O jeito com que falam, não. Na apresentação El dinero, citam nomes de multinacionais e seu patrimônio declarado. Tudo está no jeito como dizem ‘millones de dólares’. Em outra, da qual vi apenas o vídeo, falam o nome dos cargos públicos: deputado, prefeito, governador. Falam devagar, com um tom de profunda reverência. Só que vão subindo de posto até chegar a imperador e, depois, faraó. Você rola de rir. O conceito é profundamente político. Mas não são panfletários. Como disseram: o problema de fazer arte política é a polissemia da arte. Se você fecha em um só significado, adeus arte. Eles não fecham. Se fechassem, seriam comediantes. Como não fecham, são performáticos: fica no ar a demonstração de que uma mesma palavra pode significar coisas bem diferentes, a partir do jeito como é dita.

A maldição de Ford, de Daniel Fagundes - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Na saída, a mesma coisa só que diferente. Depois da porta, A Maldição de Ford, de Daniel Fagundes. Regente de uma orquestra de carros, ele comanda uma harmonia (?) de buzinas. Há uma ‘percussão’ feita de ronco dos motores. E há o solo de uma soprano que, na direção de seu carro, vai cantando ópera até apenas berrar, histérica, presa no ‘engarrafamento’.

Como sempre, muito bom. Que pena que não vi tudo.

A Cia Teatral Primeiros Sintomas (Portugal – Lisboa) trouxe para a segunda edição do FESTLIP, sob a direção de Bruno Bravo, “Lindos Dias” (Happy Days), um texto de Samuel Beckett reconhecido pela dificuldade de leitura teatral e foi isso mesmo que aconteceu: vimos a dificuldade da montagem desse texto. Aparentemente a Companhia caiu na própria armadilha. Uma pena.

A história de Winnie e Willie baseia-se praticamente no tédio e na falta de diálogo do casal, que acaba construindo quase um monólogo por parte da personagem feminina. Winnie encontra-se enterrada até a cintura e depois até o pescoço num monte, que talvez represente a realidade que a suga, que a imobiliza.

Enquanto ela está enterrada na sua vida entediante, no seu monótono casamento, Willie, o marido, na maior parte do tempo, encontra-se atrás do monte, provavelmente dentro de um buraco, fora do nosso campo de visão e mal pronuncia algumas palavras.

O cenário, de Stephane Alberto, é composto por um painel, representando o céu azul e o tal monte, em que Winnie se encontra enterrada, é coberto por grama verde e algumas flores. Nesse cenário, se passam os dias de tédio, que a personagem atravessa evocando memórias, se ocupando de atos corriqueiros e procurando utensílios diversos em sua bolsa.

Willie, pode até ser uma figura secundária, pode até ser um marido que não a escuta, mas ela precisa da presença dele porque não se agüenta sozinha. Ela sabe que ele está ali, e, por mais que ele não a ouça ou dialogue, isto lhe basta. Tudo parece estranho, sem mudanças e cada vez mais estranho, segundo ela, que fica falando sozinha, às vezes, refletindo em voz alta, às vezes, dissertando sobre coisas do dia a dia, como pentear o cabelo, e comemora quando o marido lhe dirige algumas míseras palavras. Fica esperando a hora de dormir, sem nada a fazer: “Mais um dia, nem melhor nem pior, sem dor quase nenhuma”, é a sua frase marcante.

Nessa montagem, os símbolos não são bem explorados. Trata-se de um espetáculo lento, com um texto difícil. Praticamente uma leitura. Complicado dizer isso: a peça cura a insônia de qualquer um. A única coisa que se destaca é a interpretação da atriz, que se baseou praticamente na expressão facial e executou bem a tarefa do quase-monólogo. Foi uma das poucas vezes que senti vontade de ir embora durante o espetáculo. Mas, por respeito, fiquei por lá, assistindo alguns espectadores irem, arrependida de ter feito uma má escolha.


Ficha técnica

Texto: Samuel Beckett

Tradução texto: João Paulo Esteves da Silva

Direção: Bruno Bravo

O Grupo Primeiros Sintomas (Portugal – Lisboa) é uma associação cultural que funciona segundo princípios semelhantes a uma companhia de teatro pela recorrência da equipe que constitui a maior parte dos trabalhos e espetáculos realizados. A produção sustenta os motivos artísticos a impulsionarem um trabalho continuado com os mesmos atores, cenógrafo, figurinista e músico, no sentido não só da solidificação de uma linguagem, mas da partilha de experiências num crescimento coletivo, de maneira a que cada área seja ambiciosa no seu território.

Elenco: Raquel Dias e Gonçalo Amorim

Apoio à Dramaturgia: Miguel Castro Caldas

Cenário: Stephane Alberto

Figurinos: Ana Teresa Castelo

Assistente de direção: Ricardo Neves-Neves

 

Adriano Casanova, curador da Galeria Baró Cruz, apresentou mais do que uma exposição de vídeos/fotos. Redefiniu o que é uma galeria de arte em época de artes não vendáveis. E disponíveis – ainda mais no caso de vídeos e fotos – na internet para quem quiser.

Casanova, na Vídeo in foco / Foto in foco apresenta um pensamento, convida para uma discussão. A galeria de arte, ao contrário da internet, passa a ser um local de pensamento. Aqui, discute-se a divisão entre os que pensam a imagem a partir de outra imagem, uma “cena primitiva” por assim dizer, e os que tentam inseri-la em algum sistema.

Ao misturar vídeos e fotos, ambos com temas e processos parecidos, a exposição põe na mesa o processo de construção individual do que é visto. Não se trata da velha teoria freudiana de que você só consegue ver a partir de um acervo individual, a partir de um desejo, e dentro de suas limitações culturais. O que está em jogo é o depois. Uma vez apreendida a imagem – com todos os limites e liberdades de cada um, como você a classifica, em qual ponto da tensão entre “leis gerais” e “singularidades” você tentará arquivá-la? Aquela imagem é representante de alguma “cena primitiva” que foi presentificada pelo artista ou por você? Ou seu movimento se encaixa em alguma sistematização?

Seja com cenas (a imagem parada, mais propícia a produzir “essências”) ou movimentos (mais propícios a produzir sistemas de construção), você estará imerso no esporte preferido dos da nossa espécie, o de achar significado. Não qualquer significado. Mas um que ultrapasse os componentes da imagem; que se mantenha, uma vez repetidas suas condições de produção; e que possa ter uma “história”, ou seja, um significado que tenha já se iniciado em um “antes”.

Ou, terceira possibilidade. Você entende o mundo como uma sopa. Tensões que explodem em borbulhas – que são eu e você e mais eus e vocês. Tensões. Só tensões.

Cristiano Lenhardt – imagem: divulgaçãoCristiano Lenhardt (Brasil), logo perto da entrada, chega nisso de cara. Seu vídeo, com dois personagens, foi feito com stop motion. Na verdade são imagens paradas que dão a impressão de movimento. O título Retratante e retratado também mostra sua desconfiança em relação a definições, pois os dois papéis se alternam entre um e outro. E, o que mais gosto, a tentativa de comunicação dos personagens se dá por flashes, obturadores, disparadores, lentes. Quer dizer, para inventar cenas ou sistemas só temos, como matéria prima, a imagem da imagem. Quer dizer, estamos mal.

Toby Christian (Inglaterra) e Roberto Bellini (Brasil) – um o contrário do outro – são mais dois que vão direto ao ponto. O Throwing/Catching é de uma simpleza de dar gosto. Tela em branco. E, muito rápido, tão rápido que nem dá para ver, passa algo. Acho que uma pedra. Pedradas que você nem vê de onde veio. E a troco de nada, sem explicação. O Dark/Escuro é o igual-contrário. Tela escura. De vez em quando um flash de luz e uma cena que você não consegue ver. Detalhe: você escuta sons indistintos e, entre eles, o clic do flash. O que te faz ficar muito próximo. Se você chega para trás com a pedra, agora você tem vontade de chegar para trás porque tem alguém com poder de acender uma luz, sem explicação, e esse alguém não é você.

Monica Espinosa – imagem: divulgaçãoMônica Espinosa (México) ocupa toda a parede dos fundos da galeria. Seu vídeo, Six minutes, é ela sentada em um banco pensando em seus amigos, por seis minutos. Ela não se mexe quase. O que se mexe é o que não interessa: alguém passa de bicicleta, o vento balança folhas. O movimento sem finalidade narrativa.

Enrique Radigales (Espanha) tem o vídeo mais longo da mostra e o mais explícito, na discussão sobre imagens paradas, em movimento, imagens de imagens e o que vemos de tudo isso. Filmou seu ateliê. A luz entra pela janela e vai mudando a imagem dos objetos. A mesma coisa com os desenhos dos objetos.

Flamínio Jallageas (Brasil) mostra uma sala de jantar que não é uma sala de jantar. É uma projeção. Durante essa projeção, começam a sumir móveis, objetos, sem que você perceba o momento exato do sumiço. Lá pelas tantas, passa uma pessoa que não está na projeção. Está na frente da projeção, interrompe a projeção. Ela fecha uma porta da sala de jantar. E eu, na frente dessa pessoa, construo então uma narrativa a respeito de imagens que, no entanto, sumiram na minha frente sem eu perceber.

Daniel Athayde – imagem: divulgação

No andar de cima da galeria estavam as fotos. Ou quase-fotos.

Michael Wesely – imagem: divulgaçãoAna Teixeira (Brasil) faz uma sequência. Um corredor de hospital que vai ficando vazio à medida que a noite chega. Lina Kim (Brasil) mostra cenas tropicais. Verdade? Não. É uma praia artificial, vegetação em estufa. Você não vê o que você vê. A manteiga de Jorge Menna Barreto é uma realidade que derrete na sua frente. A Série Pantone de Erica Bohm (Argentina) uma paisagem que mal se vê. Daniel Athayde (Brasil) traz naturezas para lá de mortas: legumes murchos, nuggets velhos, balas frutella desembrulhadas. E Michael Wesely (Alemanha) fotografa uma paisagem em movimento. O resultado é que você só vê, das coisas que passaram, linhas horizontais. As coisas foram embora, só deixaram um rastro – inventado por você.

Lista completa dos artistas:

Camila Esposati, Cristiano Lenhardt, Flaminio Jallageas, Roberto Bellini, Raquel Kogan & Lea Van Steen, Ana Teixeira, Claudia Jaguaribe, Daniel Athayde, Gui Mohallem, Jorge Menna Barreto, Lina Kim, Laura Erber (Brasil),  Cristian Segura, Roberto Jacoby, Alejandro Chaskielberg, Erica Bohm, Nicola Costantino (Argentina), Wilfredo Prieto (Cuba), Michael Wesely (Alemanha), Toby Christian (Inglaterra), Titouan Lamazou (França) Enrique Radigales (Espanha) e Monica Espinosa (México).

O Anima Mundi, agora completando 17 anos bem vividos, continua sendo o momento de rever amigos. Nem todos são de carne e osso. Alguns têm até mesmo uma banda na floresta.

A grande novidade é o AnimaBusiness, um fórum onde se encontram animadores, distribuidores, produtores e demais profissionais do meio. Este é talvez o acontecimento mais esperado da edição deste ano.

Anima Mundi 2009 RJ - fotografia de Carolina Vigna-Marú para o AguarrásO festival tem faz tempo o Papo Animado, onde podemos conversar com animadores consagrados. Este ano os convidados são Amid Amidi, Irmãos Latini (Anélio Latini Filho e Mário Latini), Michel Ocelot e, Priit Pärn. Estes encontros acabam sendo de maior interesse de profissionais de animação. Estive em alguns, nestes anos todos, e raramente encontrei pessoas que não trabalhavam com isso. A oportunidade de conversar com um biólogo animador da Estônia não acontece todo dia, por exemplo.

O Estúdio Aberto, como sempre, tem muitas oficinas e monitores pacientíssimos para explicar como funciona aquela técnica e orientar aqueles que querem colocar um pouco a mão na massa. Se forem levar os pequenos futuros animadores, prestem atenção nas idades mínimas necessárias para cada atividade antes de entrar na fila. A mesma atenção, aliás, vale para as sessões de filme/vídeo: muitas são impróprias.

Anima Mundi 2009 RJ - fotografia de Carolina Vigna-Marú para o AguarrásTodo ano eu saio da sessão de abertura do Anima Mundi com a mesma sensação de estranhamento a respeito da seleção. A sessão de abertura é, teoricamente, o que os organizadores do festival consideram o melhor daquele ano. Colocar ali o chatíssimo L.E.R. e não dar espaço ao igualmente brasileiro Um Lugar Comum é realmente incompreensível. Assim como o Jam, um grafismo bobo e demodè japonês, poderia ceder espaço a filmes mais interessantes (e bons) que encontramos espalhados na grade de programação. É muito difícil até mesmo para quem é do meio selecionar o joio do trigo a partir do título, autor e um still. Supomos sempre que, para isso, existe o crivo da seleção e frequentemente nos surpreendemos. Não falo aqui de um gosto pessoal ou de escolhas absolutamente particulares mas sim de critérios claros que incluem roteiro. Saí de lá com a nítida sensação de que falta um bom roteirista/escritor na produção do festival. Os filmes são muitas vezes selecionados apenas pela técnica, sem levar em conta qualquer outro aspecto. O texto vem primeiro, sempre. Roteiro ruim é sinônimo de filme ruim, não importa quão inovadora, perfeita ou maravilhosa seja a técnica. Outra estranheza minha antiga é que filmes live action usando um ou outro efeito na pós-produção entrem em um evento que se propõe de animação.

Falando de coisas boas, foi um prazer ver Her Morning Elegance na telona. O videoclipe rodou a internet e não devia ser novidade para muita gente, mas vê-lo na tela grande foi uma felicidade. O French roast e o Les pieds sur terre são imperdíveis. Não percam os brasileiros Um Lugar Comum, do Jonas Brandão; O Divino, De Repente, do Fábio Yamaji; e o Sinfonia Amazônica, o primeiro longa-metragem de animação brasileiro, de 1953, feito pelos irmãos Latini (presentes no Papo Animado).

Para ver online:

- Animania, programa do Canal Brasil, com uma matéria especial dedicada à Sinfonia Amazônica
- Bendito Machine
- French roast (trailer)
- Her Morning Elegance
- Log jam
– Um Lugar Comum

A Cia TIJAC (Moçambique, Maputo / Ilha da Reunião), está se apresentando no FESTLIP 2ª Edição com um texto do Mia Couto. O espetáculo chama-se “Mar me quer” e conta com a direção Mickael Fontaine e as ótimas interpretações de Branquinho Adelino, Graça Silva, Leonardo Nhavoto e Zango Candido Salomão.

Zeca Perpétua tem uma peculiar relação com a vizinha, Dona Luarmina, que despetá-la uma flor invisível, boa parte do tempo, fazendo um trocadilho com o título da peça – “Bem me quer, mar me quer”. Dona Luarmina pede a Zeca que compartilhe as lembranças de seu passado, passado este que ele só quer esquecer. Luarmina quer saber as lembranças de Zeca, pois seu passado começa onde acaba e se dissolve em tristeza e o pede docemente para desfiar uma memória, fio que conduz brilhantemente essa adaptação impecável.

São estas histórias, contados por Zeca ou pelo narrador – um contador de histórias muito interessante que dá um tom onírico à peça e possui uma ótima integração com as personagens – que dão forma ao texto, pois são contadas de uma maneira encantadora. Aos poucos, alguns segredos das personagens são revelados: como, por exemplo, o significado para Zeca da dolorosa “piação” das gaivotas ou o motivo do não cumprimento da profecia de seu pai sobre sua morte.

O cenário possui um tecido branco que ao mesmo tempo permite que imagens sejam nele projetadas e também permite a visibilidade dos objetos ou pessoas encontradas antes dele. As imagens projetadas são diversas: uma janela, um corredor, um elevador, praia, ondas, um quintal, um banheiro, enfim, elementos que criam o ambiente do espetáculo, complementado pelo belíssimo jogo de luzes, melhor, de sombras e luzes.

Trata-se de uma montagem impecável de um lindo texto. Impecável e imperdível.


Texto: Mia Couto

Adaptação e Direção: Mickael Fontaine

Cia TIJAC: este grupo é um dos frutos de encontros de Oceano Índico de 2006. Mickael Fontaine, diretor de TIJAC da Ilha da Reunião, vai pela primeira vez a Moçambique para fazer uma peça teatral “Réquiem para as viúvas do amor” escrito por Alain Kamal, em francês e traduzido por Mia Couto. Esta produção aconteceu no Teatro Avenida e Mickael, que esteve pela primeira vez em um país lusófono, se viu diante de um grande desafio: performar em uma língua estrangeira que ele não sabia. Portanto, para o bem do jogo, ele teve que aprender o seu papel com a ajuda dos atores moçambicanos.

Elenco: Branquinho Adelino, Graça Silva, Leonardo Nhavoto e Zango Candido Salomão

Música: Matchume

Técnico: Hassan Aboudakar

O espetáculo “Psycho“, em cartaz no FESTLIP 2009, é interpretado pelas atrizes Lucilene Mota e Milanka Vera Cruz, da Companhia de Teatro Solaris (Cabo Verde – Cidade de Mindelo).

“Psycho” é um texto de Valódia Monteiro, tem a direção de Herlandson Lima Duarte e, como está na sinopse, trata-se de uma peça que “vive de expressão corporal e da aquilo que o corpo juntamente com a voz pode transmitir”. Tive a oportunidade de assistir outra peça de Cabo Verde, ano passado, no mesmo FESTLIP, e notei que a expressão corporal também era bem marcante. Porém, isto pode ter sido apenas coincidência.

O cenário de “Psycho“, que simula o espaço de um quintal, é composto basicamente por uma escada, dois portais, um cubo vazado, uma bacia e uma corda, e o figuro é composto por malhas que permitem a expressão corporal proposta na sinopse.

Aparentemente uma personagem é o complemento da outra, pelo menos, suas falas são complementares. A interpretação é graciosa e as atrizes se entrelaçam, se misturam, dando a entender que podem ser também o desdobramento uma da outra. Interagem com a platéia e nessa interação parecem querer despertar certa maldade nos espectadores, mostrando que talvez as pessoas ali presentes tenham algum lado obscuro. No fundo, querem compartilhar conosco essa fobia que sentem em relação aos outros seres humanos. Uma delas diz que conhece as pessoas, sabe quem é quem e, justamente esse excesso de conhecimento, gera essa repugnância. Se soubessem menos, talvez conseguissem conviver em sociedade.

As personagens demonstram ojeriza por outros homens, representada principalmente pela aversão ao sexo. Outro momento marcante é quando dizem que o que as angustia são as pessoas sentadas, vendo outras sofrerem, não fazerem nada, e quando dizem que um louco é um ser julgado diferente por ver a mais, por ver além.

São personagens prenhas de sofrimento que dão voz a um texto aflito. De forma geral, é uma montagem interessante que ganhou muito com a interpretação das atrizes. O texto, que trata de fobias, é bom e tem uma sonoridade especial graças ao sotaque caboverdiano, o que o transforma numa bela melodia. Essa leitura aflita, bem de acordo com o tom do texto, é ótima e a expressão corporal é habilmente conseguida.


Texto e Concepção: Valódia Monteiro

Direção e Encenação: Herlandson Lima Duarte

Companhia de Teatro Solaris: fundada em agosto de 2004, por iniciativa de um grupo de jovens recém formados no IX Curso de Iniciação Teatral no Centro Cultural Português do Mindelo / ICA. È dirigida pelo jovem encenador Herlandson Lima Duarte.

Elenco: Lucilene Mota e Milanka Vera Cruz

Cenografia: Herlandson Lima Duarte e Nuno Costa

Figurino: Lucilene Costa e Milanka Vera Cruz

Iluminação: Edson Fortes

Este ano, o Grupo de Teatro Horizonte Nzinga Bandi (Angola- Luanda), participa do FESTLIP com a peça “Sobreviver em Tarrafal“. Um texto de Antônio Jacinto, com direção de David Enoque Caracol e Adelino Caracol.

A peça trata basicamente da história de quatro homens envolvidos com o processo político que incentivou a independência de Angola e a conseqüência disso nas suas vidas e das famílias.

O cenário é dividido: em primeiro plano, temos a prisão no Tarrafal de Santiago, em segundo, o que seria o espaço domiciliar de uma das famílias que tem seu integrante levado preso por ser julgado um terrorista.

A primeira cena, composta apenas por vozes, simula o momento da prisão e o desespero dessa família. Depois, as cenas, da prisão e da casa, são alternadas. A forma como escolheram dramatizar a violência e a angústia das personagens não foi um exemplo de boa interpretação. Faltou, talvez, um pouco de emoção, o que acabou por transformar o espetáculo em algo um pouco monótono.

O drama vivido na prisão é corriqueiro. Os presos não entram em desespero porque ainda tem a esperança de viver em busca dos ideais – “Ainda que seja o mito dos nossos ideais” – e, ao mesmo tempo, sabem que não há saída. Quem chega de fora traz as últimas notícias. Os prisioneiros ficam numa espécie de exílio, privados de tudo. São homens que tem seus sonhos comprometidos, num lugar onde tudo lhes é negado, onde apenas têm o direito de não terem direito.

Num dado momento uma das personagens pergunta “Será que as pessoas sabem por que estamos aqui?” e eu fiquei me perguntando “Será que eles disseram por que estão ali?”

Não é um espetáculo atraente, não nos convida a nos envolvermos com os problemas vividos pelas personagens. Trata-se de uma leitura lenta, distante do público. Devido a essa abordagem, acredito que quem não tenha algum tipo de contato com a cultura e a história de Angola tenha ficado um pouco perdido.


Texto: Antônio Jacinto

Direção: David Enoque Caracol e Adelino Caracol

Grupo de Teatro Horizonte Nzinga Bandi: Angola – Luanda. Fundado há 22 anos por Adelino dos Santos Caracol e Ezequiel Issenguele o grupo faz parte da Escola de Artes e Teatro Njinga Mbande de Luanda. O grupo ao longo da sua existência participou de inúmeros eventos nacionais e internacionais e foi vencedor de diversos prêmios de teatro.

Elenco: José Gaspar Galiano da Rocha, Madaleno Francisco da Fonseca, Julia Francisco Capemba, Jeremias dos Santos Caracol, Neusa Marlene dos Santos, Francisco Pinto Quissama e Edusa Francisco Simba Chindecasse.

Cenografia, iluminação e sonoplastia: Nário Sá Pinto

Figurino: Madaleno da Fonseca

Tenho prazeres secretos. Um deles é quando vou a coletivas de qualquer tipo – bienais, festivais e outros ais. Fico descobrindo elos a ligar os artistas. Inventando, aliás. Porque eu não precisaria descobrir nada, elos em geral me são berrados na cara. Aqueles artistas estão juntos porque têm mais ou menos a mesma idade (“novíssima geração”), se debruçaram sobre um mesmo tema (“arte erótica”) ou são os colegas de FAAP do curador.

No caso do 18o Encontro de Artes de Atibaia, os 35 artistas – de 281 inscritos – foram selecionados por um júri (Maria de Fátima Couto, Renata Maia Zago e Sylvia Furegatti).

Marta Masiero - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Eu pensava em Pina Bausch, morta havia poucos dias. Pensava em como ela, formada em balé clássico, havia mostrado a impossibilidade expressiva do balé clássico. Em seus movimentos truncados bruscamente, em suas repetições maníacas de detalhes de posicionamentos tradicionais, ela dizia: não dá mais. E fazia isso tão bem que entrava em contradição: o não dá mais (para exprimir algo com o corpo humano a partir de uma técnica tradicional) era expressivíssimo.

Daí entrei no Centro de Convenções de Atibaia procurando corpos humanos que fossem mais ou menos realistas, que estivessem lá para exprimir algo que não é mais expressível. E, como sempre que você procura algo que quer encontrar, acaba achando.

Bárbara Schall (de Nova Lima) fotografa ela mesma submersa, e o líquido a desfaz. O título também é bom: “Sobre o peso do meu corpo“. Poderia completar: como me representar a partir do peso da representação? Só me desmanchando.

Gilio Mialichi - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Gilio Mialichi (Limeira) faz bonequinhos em uma linha frágil, hesitante, usando os cantos de uns papéis que já viram dias melhores. É um tipo de desenho que já foi considerado “feminino” no século passado e que hoje é considerado apenas muito bom. Ou porque o mundo se tornou todo ele mais frágil, ou porque “feminino” não quer dizer mais nada, ou ambos.

Nessa mesma categoria de desenho frágil-forte estão muitos artistas da mostra. Paula Ordonhes (São Paulo) com seu “Paliativos“, também um bom nome; Raquel Lima (Porto Alegre), que costura – com linha de sutura cirúrgica – suas representações em estado terminal; Flavia Tonelli (Campinas), em quadrinhos de composição impecável mostrando cantos de paredes, fins de corredor. E Bia Bittencourt, Carla Chaim e Marlene Stam (todas de São Paulo). Stam faz com que paredes se tornem vivas apenas através de pregos. Uma vida descoberta pelo negativo, pelo ferimento.

Vitor Mizael - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E, parecido mas diferente, Vitor Mizael (São Paulo). Eu já havia encontrado, e gostado, desse artista no XII Salão Paulista de Arte, ano passado. Faz roupas, em geral camisas sociais masculinas, sem ninguém dentro. Adoro. E ainda escreve umas coisas que ninguém lê. Então, não só não tem ninguém, como esse ninguém escreve coisas que ninguém lê. É muito bom.

Ivana Soares (Niterói) apresenta documentos de identidade velhos ao lado de fotos velhas. Nem vou explicar a força de uma apresentação que parece só ser possível em um passado longínquo.

Jaqueline de Jesus - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Jaqueline de Jesus (Atibaia) fala sobre estar viva e sobre uma “calma que não condiz com a nossa pressa”. E prova. Sua instalação de parede é feita de forma lenta, letra por letra.

Leandro Figueiredo (Sete Lagoas) não faz pessoas. Não chega lá. Faz os instrumentos que fariam ou desfariam pessoas. Sua água forte representa um esmeril, uma máquina de triturar, uma anunciação.

Marcela Tiboni (São Paulo) como que desiste da representação contemporânea e representa a representação da época em que isso era possível. Em “Meus mitos” há fotos de fotos, de pinturas famosas, antigas.

Maringelli - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A figura humana na xilogravura de Maringelli (São Paulo) reencena uma dramaticidade suja, antiga, de textura pesada. Uma indignação puxada da memória, atuada mais do que vivida. Quase uma saudade da época em que vivíamos.

Matias Picón - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Matias Picón – que já fez ponte em exposições com artistas uruguaios – faz colagens imensas, com letras, formas de bichos, cores, tudo misturado, ei, aquilo lá é uma silhueta humana? Não.

Nilson Sato (São Paulo) apresentou um trítico: nos dois primeiros painéis, pingos de tinta; no terceiro, uma velhinha olhando. Parecia meu retrato. Eu (ok, um pouco mais velhinha), olhando um festival de arte e vendo corpos humanos em pingos de tinta.

Angella Conte - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Pois os vi mesmo nas bacias boiando no lago do parque da cidade. Angella Conte (São Paulo) fez uma intervenção em que domestica (no sentido de trazer para a esfera doméstica) a fantasia de “natureza” do parque. Bem bom. O homem não tem uma existência que seja representável claramente. Ok. Mas a natureza também não. Precisa de aspas.

Jô Barban - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E também vi o preto de Jô Barban. Pois o preto não é bem preto. Olhei bem. Cheguei bem perto. No tato dá para perceber. Uma textura aqui, outra ali. E quando a luz bate, e se for a luz certa, dá para ver que há vida lá, no preto.

Bebaprafrente (um nome bossudo de dois artistas paulistas, Bruno Baptistelli e Gustavo Rossini) traz o cenário como impedimento. No salão da exposição apenas o registro de suas intervenções. Uma escada interrompida; restos de construção colocados em pé, cortantes; fios elétricos no meio do caminho. Um não-ir prafrente, bebendo ou não.

Evandro Prado foi muito admirado. Pessoas faziam oh! frente às suas obras. Já eu, vi lá uma ironia. São imagens em grandes dimensões do barroco brasileiro (um cristo, umas sancas). As imagens são feitas por oxidação. O barroco usou ouro, metal incorruptível (daí dentes e alquimia, igualmente). Evandro Prado faz suas cópias barrocas através de uma corrupção, a ferrugem. Ataca, assim, a noção do sagrado, do perene. Fala de um fim.

Das outras obras expostas no Festival, não gostei. Seja porque mostram uma sedução por jogos geométricos de um formalismo em que não acredito, seja porque me pareceram apenas brincadeiras divertidas. Ou foi porque ao vê-los não os vi, distraída com a Pina Bausch.

No release, disseram que a pintura de Alejandra Icaza (Galeria Fortes Vilaça), continha referência a Matisse. Fui lá ver.

Meu interesse não era exatamente Matisse, mas o que ele fazia quando havia guerra. Viveu muito. Pegou as duas guerras mundiais. Assim que a coisa estourava, ele ia para a costa mediterrânea e lá ficava, desenhando florzinha. Eu já soube quantos desenhos de florzinha ele fez, não sei mais. Centenas. Todos iguais. Durante as guerras ele pintava também. A vista da janela, o piano, a mulher dele nua, e mais florzinhas.

Acho meio fascinante isso, um cara ficar fazendo florzinha com a carnificina comendo solta, ao lado.

E como acho que também estamos em uma espécie de guerra, quis ver as florzinhas de Icaza.

Tomates de mar, de Alejandra Icaza - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásDe cara, vi uma diferença. Icaza usa um processo de chegar na cor, que foi o processo tradicional, empregado durante séculos pela arte representativa européia. Você parte de um valor médio qualquer e vai “puxando” para cima e para baixo, quer dizer, para a luz e para a sombra, até chegar no maior valor possível de cor – e de contraste – para aquela composição. Raramente você chega ao branco puro ou ao negro puro, considerados “becos sem saída” do jogo de cor. Icaza também não chega. Quer dizer, chega, mas tem um truque para conseguir uma sobrevida a esse fim de caminho. Para estender o ápice de luz, ela emprega espelhinhos. Para estender o ápice da sombra, ela arranha a superfície da tela com uma ponta seca. Ou seja, para a luz, ela diz: tem mais luz, muito mais, fora da tela. Para a sombra, ela diz: tem mais camadas, muito mais, atrás do fundo absoluto.

Vegetalia, de Alejandra Icaza - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMatisse não partia dos valores neutros. Pelo contrário, usava alegremente vermelhos e verdes como ponto de partida, com pretos e brancos tão achatados quanto todo o resto, em suas superfícies coloridas.

Em Icaza as camadas são mais aparentes. As que se acumulam, de tinta ou colagem, e as que vão para trás, com o furo do estilete ou ponta seca. As camadas não formam uma profundidade espacial. Formam um registro temporal. Comecei aqui, segui, pus mais isso, furei.

Japanese flowers, de Alejandra Icaza - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMas florzinhas todas elas são. E Icaza, tanto quanto Matisse, não está preocupada com elas. É a feitura o que parece atrair ambos. É a ação de formar sinuosidades sobrepostas. A alegria de passar o pincel (ou, nas obras em papel, o grafismo preto do nanquim ou do lápis), ir esfregando-o contra a tela. Florzinhas são. Só mais um tapa na cara das guerras. Poderiam não ser. Em algumas das obras, a artista parece parar antes dessa caracterização, com telas sem título.

As que fotografei tinham título: Vegetalia, Japanese flowers e Tomates de mar. Todas feitas nesse ano de 2009, pós-crise, pré sabe-se lá o quê, e na guerra perene que é a nossa na contemporaneidade.