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Category Archives: edicao_0021

lista de artigos da edição 21, ano 4 – setembro & outubro de 2009

Me lembro até hoje de ver o clipe de A Miragem na MTV quando lá ainda passavam videoclipes e não programas de humor de baixo orçamento e me perguntar quem era esse cara. Eu ainda moleque, devia ter por volta de 20 anos, pensava cá comigo se ainda veria mais algum trabalho dele pela frente. É engraçado olhar para trás e perceber que não era tão simples ter as informações na mão, com uma clicada no Google (ou era fácil e o problema era meu?), e por esse vácuo informativo, Jay Vaquer foi por muito tempo o cara que cantava A Miragem e Aponta de um iceberg e só, imortalizado em mp3s que consegui nos primórdios da era dos downloads, depois de muito procurar.

Queria ter datas mais precisas na cabeça, mas raciocino de modo atemporal e meus marcadores são outros, pequenas lembranças e contextos. Foi numa dessas que o nome Jay Vaquer voltou aos meus ouvidos. Uma pessoa muito querida virou para mim, jornal na mão, e falou “olha, não é aquele cantor que você curte?” E eu pensando, claro que não, depois de tantos anos, só pode ser outra pessoa. Mas era ele. Dei uma volta rápida pelo shopping para comprar o Vendo a Mim Mesmo, seu segundo cd, com porcos de headfone e o Jay cheio de fios vermelhos na capa. Achei de quebra o Nem Tão São e aquele cara do clipe e da mp3 passou a ser um artista contextualizado na minha estante de CDs. Meu micro system estava quebrado, eu sem grana para pensar no conserto, então colocava para tocar num discman ligado às caixas de som. E foi assim que curti o recomeço, o clipe louco de Pode Agradecer rolando na MTV para lembrar que ele ainda estava na área, anunciado pelo alterego Applewhite. Talvez seja o cd dele que mais tenha escutado. Sou péssimo para decorar letras, mas sou bom de improviso, e era no improviso que cantarolava Assim de repente, Abismo e Aquela música, essa última na minha lista de clássicos particulares.

Foi nessa época também que minha irmã passou a ouvir Jay Vaquer para valer. Sempre tive a música como um intercâmbio. Não digo só da energia que se sente em shows, mas do prazer de apresentar a alguém o que se gosta e se permitir gostar de novidades que cheguem até você. Quando isso se dá com alguém próximo o prazer é dobrado. Pela diferença de idade entre nós dois, tínhamos gostos distintos e, ao mesmo tempo, cheios de pontos em comum. Eu apresentando The Smiths, The Cure, The Police, Depeche Mode, um vínculo com o passado ainda presente, e ela me mantendo em contato com o boom da música pop adolescente, com sons de pegada mais rock como o Garbage, e hoje com toda uma nova geração da música brasileira.

Como o Jay se tornou um dos pontos de convergência, era agora ela quem me mantinha informado. E foi por ela que soube que ele tinha assinado contrato com a EMI e que iria lançar o terceiro CD: Você não me conhece. Cotidiano de um casal feliz gerou um clipe, tocou nas rádios. Mais uma música de letra bem sacada e outra recordação. Depois veio A falta que a falta faz, que a galerinha costuma acompanhar do início ao fim nos shows. Como o mundo gira rápido, nessa época eu já tinha uma vida bem diferente daquela lá de trás, tinha lançado dois livros, me formado na escola de cinema e me distanciava de vez da vida de farmacêutico bioquímico. O Aguarrás estava começando e, além de escrever sobre cinema e literatura, resolvi me arriscar nos textos de música, só precisava escolher as cobaias. Escolhi meus cantores italianos preferidos, uns pingados do momento e o Você não me conhece. O texto ficou ruim, mas tão ruim que foi vetado. Repensei o modelo e escrevi um texto curto, dez linhas de Word com um trecho de letra e só, e foi assim que falei de música por um tempo. Me lembro também dele comentar as resenhas que saíam com um “só falam das letras, mas e as melodias?” E era verdade. Eu fui um desses. Talvez por ser escritor, me divertia com elas sem pudor, mesmo que na música o todo sempre fale mais alto que as partes.

Mais um pouco e finalmente vi o cara ao vivo, com a Cássia (minha irmã) e o David (a pessoa querida mencionada lá em cima), fechando um ciclo e começando outro. Foi um show no Teatro Odisséia, uma casa na Lapa, no Rio de Janeiro, num palco apertado que contrariava as leis da física e me deixava angustiado pelos grupos que ali se apresentavam. Mas valeu a pena. Minha irmã voltou no seguinte e eu no seguinte com ela. É interessante comparar a identidade de um artista ao vivo com o som produzido no CD. Tem gente que ganha, tem gente que perde. Tem gente que esbanja, tem gente que minimaliza. Foi naquele show bem intimista que me toquei de como esse cara cantava para valer.

Um ano depois, veio o Formidável Mundo Cão. Minha irmã havia assumido o posto de fã oficial e eu ficava ali orbitando, aproveitando a música dos CDS e as histórias que ela me contava. Infelizmente, dessa vez não teve videoclipe. O mundo que gira rápido gira assim para todo mundo. Mas teve ótimas canções como Longe Aqui, Estrela de um Céu Nublado e Preciso Poder, com as letras bem sacadas, às vezes irônicas, que então já eram marca registrada. Foi esse cd que originou o primeiro DVD ao vivo, Alive in Brazil, contribuindo com um terço do set list.

E aquele cara do show do Odisséia agora voa em correntes, canta em plataformas móveis (não os saltos, por favor) e usa projeções no telão, sendo a última delas impagável, dialogando com a letra e brincando com os músicos que acompanham o cantor. Não é que os elementos cênicos falem mais alto do que a música, eles se complementam de forma harmoniosa, como deve ser. No mercado internacional, mau gosto à parte, todo mundo sabe disso, aqui dentro uma meia dúzia. Olhando de fora, dimensionando por meus próprios sufocos, só posso imaginar o trabalho ($) que é erguer um show assim. Mas não vou cair no debate financeiro. O que quero observar aqui é a existência de um artista que sabe que concepção é mais do que escolher o set list e pôde, enfim, mostrar isso para valer na prática, com direito ao registro em DVD. Eu que não vi a gravação fiquei surpreso com a edição, com os novos arranjos e com esse visual bem pensado.

Se você já curte Jay Vaquer, o DVD é diversão garantida. Se não conhece, esse é um bom lugar para começar. Pela alegria dos rostos na platéia, acho que a maioria concorda comigo.

Na entrevista ao Aguarrás, a professora de dança Sumaya Sarran fala sobre a cultura e a dança cigana.

Sumaya Sarran from Aguarrás on Vimeo.

A peça A Geração Trianon estreou no dia 22 de outubro de 2009, no Teatro Laura Alvim, em Ipanema (RJ). Com direção de Luiz Antonio Pilar e Cristina Bethencourt, a produção é uma remontagem do texto de Anamaria Nunes, premiado em 1988, ano de sua primeira montagem, dirigida por Eduardo Wotzik e representada pelo Grupo Tapa.

A remontagem atual conta com 14 atores – Licurgo, Marília Medina, Marta Paret, Marcio Vito, Rogério Barros, Rubens Camelo, Tracy Segal, Marcos Damigo, Rodolfo Mesquita, Rael Barja, Julia Deccache, Antonio Alves, Alex Reis, André Rocha e o pianista Christian Bizotto – que dão vida às histórias dos bastidores de uma companhia teatral da década de 20, no tradicional Teatro Trianon, no Rio de Janeiro.

Por ser patrocinada pela Eletrobrás, a peça foi apresentada na Casa de Cultura Laura Alvim, imóvel doado (por Laura Alvim) ao Governo do Estado em meados de 1980. Como grande parte dos bens públicos é precária, gostaria de ressaltar o desconforto do balcão do teatro, cujos assentos são tão altos que deixam a pessoa mais saudável do mundo com gangrena nas pernas. Além disso, um dos ilustres espectadores da estréia era um morcego. (Isso mesmo, o mamífero voador). Outro ponto desagradável foi o atraso de 40 minutos para a abertura das portas do teatro. Sendo assim, só pude me encontrar com o morcego às 21:40, e não às 21h, como combinado. Espero que ele não tenha se chateado.

Voltando à peça… Foi boa. Uma peça que aborda a produção de uma peça, e a peça em si (para quem curte nomenclaturas, metateatro), é sempre interessante, ainda mais quando se trata de um texto já premiado. Horrível não poderia ser. Contudo, não passa de uma peça boa. Como pontos altos, o jingle da sapataria Mota (e todas as partes que o dono da sapataria Mota aparece), que merece boas risadas; e o vôo do morcego que, já impaciente, resolveu dar uma voltinha quase no final do espetáculo… Momento de muita tensão!

Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim
Av. Vieira Souto, 176, Ipanema/RJ
Tel: 21 2332-2015
Horários: 5ª, 6ª e sábado às 21h; domingo às 20h
Temporada: até 20 de dezembro

01. Com 150.000 exemplares vendidos, quase 30 livros publicados, você joga pelo ralo a noção geral de que autores nacionais não vendem bem. Qual a sua opinião sobre o nosso mercado editorial? Ter um currículo desses facilita na hora de negociar a próxima publicação?

Bem, vamos por partes. Os autores nacionais não vendem bem porque insistem em explorar áreas que não são de interesse do público em geral. Meus livros de pesquisa histórica, por exemplo, são todos calcados em assuntos que são atraentes ao público, que não possuem similares em português que sirvam de introdução ao assunto e, ao mesmo tempo, mostrem um lado simpático da História. Por exemplo, quem nunca quis ler um pouco sobre Piratas, Lendas Chinesas ou entender de maneira não acadêmica a história da civilização romana? História é muito mais do que uma enorme lista de nomes e datas, é também uma fonte inesgotável de tramas que, mais tarde, podem ser aproveitadas num romance de cunho histórico. Pessoas do mercado editorial já me falaram que cerca de sete em cada dez romances publicados tem um pé em algum fato ou lenda retirados da história da civilização humana. Então por que não fazer com que o público tenha acesso a esses assuntos de uma forma divertida? O nosso mercado editorial, infelizmente, ainda é regido por uma regra, que é a da “onda da vez”, ou seja, quando um assunto faz sucesso, exploram até que não venda mais. O que você, como autor, pode fazer é tentar sempre dar um ângulo novo para o assunto e aguardar que o editor caia na real e veja que aquilo não dá mais. OU arriscar, com uma boa lábia de vendedor, convencer sua editora a investir X mil reais num assunto que pode vender muito ou pouco, mas quando não corresponde às vendas, a culpa pela insistência na publicação cai invariavelmente no autor. E por fim afirmo: ter um currículo desses facilita sua aproximação com as editoras, mas não garante que você seja um best seller a ponto de vender qualquer coisa para o editor. Você passa pela avaliação normal que os demais passa. A vantagem é que veem sua proposta com mais atenção do que a dos demais, mas o processo de seleção é o mesmo, seja para livros de pesquisa ou para romances.

02. Está havendo um movimento discreto das nossas editoras para encontrar autores com capacidade de escrever Best-sellers, literatura de entretenimento de qualidade. Por que agora e por que só agora?

Há vários motivos para isso e a maioria deles envolve certos parâmetros de vendagem que apenas aqueles que mais estão centrados no mercado compreendem. O que posso afirmar, baseado no que observo nas listagens de mais vendidos, é que há muito da “onda da vez” envolvido nisso. Por exemplo, até o advento das obras de André Vianco, não havia muito interesse em vampiros, que era um assunto restrito apenas aos adoradores do gênero. Depois do Vianco e com o advento da série Crepúsculo, o assunto deixou as esferas dos adoradores e se tornou assunto até mesmo de yuppies. O que nos leva a crer que a “onda da vez” não é um fenômeno só de livros, pois envolve adaptações para outras mídias, principalmente quando se tornam filmes. Antigamente o livro dava origem ao filmes e era, depois disso, até ignorado e esquecido. Hoje é o filme que dá origem a novos leitores, que procuram o livro para ver como é a história original. Por isso as editoras, ao sentirem o potencial da tal série, investem em continuações e trilogias. E isso fascina o leitor, que gosta sempre de voltar aos cenários e personagens conhecidos, e até mesmo a esperar desfechos de tramas à lá novela das oito, como aconteceu com o final da série Harry Potter. Há fãs que simplesmente odiaram e outros que adoraram, mas ninguém deixou de fazer fila para comprar o último livro, o que deverá acontecer de novo quando chegar o filme. Ligados nessa tendência, as editoras nacionais querem encontrar um André Vianco que esteja fora da “sociedade vampírica”, por assim dizer, e ver outros segmentos, como policial, aventura e suspense, entre outros, encontrarem suas contrapartes. Quem sabe, quando sair o primeiro filme baseado numa obra do Vianco, vejamos esse movimento se intensificar ainda mais.

03. Sociedades Secretas está indo para a terceira edição. A trama envolve Maçonaria, Priorado de Sião, DeMolay, Rosacruz. Dá para dizer que há um parentesco com os livros de Dan Brown em questão de tema e estrutura?

Na verdade não. Dan Brown segue uma mesma estrutura de história e possui poucas variações em suas tramas. Meu livro começou como um livro de entrevistas, ou seja, foi baseado em entrevistas reais com representantes das sociedades mais “pop” e era originalmente um guia para orientar as pessoas interessadas em entrar nesse mundo. Foi escrito pelo menos dois anos antes de estrear O Código da Vinci. Foi ideia do editor romancear o livro para ser mais fácil de ser entendido pelas pessoas. A primeira edição saiu poucas semanas depois do livro de Brown e fez sucesso a ponto da editora pedir uma segunda edição com capítulos extras. Assim o leitor pode ter nada menos que 12 capítulos a mais, com sociedades secretas que só existem no exterior. Esta nova edição, a terceira, traz um novo visual e um novo projeto gráfico, mais a ver com o tema do que as anteriores. O tema é bem simples: dois interessados em conhecer as sociedades secretas se envolvem no mundo de conspirações que, invariavelmente, é evocado pelo próprio assunto. Porém, ao contrário dos livros de Brown, eles não procuram iluminação ou algo do gênero, mas sim esclarecimento e informação. Afinal, informação e poder nos dias de hoje e conhecer onde se põe o pé pode ser a diferença entre a vida e a morte. O livro não se passa num período de 24 horas como os de Brown, o que já facilita um pouco a compreensão. Mesmo assim é uma aventura que agradou ao público, principalmente por evocar as paisagens e cenários europeus tão característicos da história der maçons, templários e rosacruzes, afinal foi lá que a maioria dessas sociedades secretas nasceu.

04. Escrever livros de pesquisa mudou em alguma coisa o seu processo de escrita de romances?

Sem dúvida nenhuma que sim. Para a maioria dos escritores iniciantes é sentar e pensar numa história sem prestar atenção a detalhes da trama. A maioria se esquece que quanto mais sua trama mostrar detalhes que possam ser acessados por uma simples consulta no Google, mais interessado o leitor ficará. Principalmente quando se mexe com fatos históricos. Até mesmo ao contar lendas e mitos devemos ter esse cuidado. Ou teremos uma polêmica desnecessária como a de Brown quando afirmou sobre a existência do Priorado de Sião como sendo da época dos templários. Eu tive oportunidade de estar na Biblioteca Nacional de Paris e vi os tais documentos do tal Dossiê Secreto. Uma criança de sete anos num microcomputador faz algo mais crível do que os papéis que lá estão que, claramente, não são históricos, apenas estão depositados por lá. Sua credibilidade como autor depende do fato de que sua trama , caso se baseie em coisas reais, seja de fato bem pesquisada. Se você quer mesmo fazer uma ficção, então pelo menos mude o nome das coisas, assim sua criatividade pode ir longe. Ninguém jamais disse que Brown não podia ter trocado o Priorado de Sião por, digamos, o Priorado de Nazaré, que teria sido fundado por um grupo de monges que eram na verdade alienígenas do tipo grey. A partir do momento em que você se propõe a trabalhar coma realidade, você tem a obrigação de fazer uma pesquisa séria para enriquecer sua trama. É isso que procuro fazer o tempo todo. Meus livros de pesquisa já me deram muitas ideias para romances, alguns já escritos e que aguardam publicação, outros ainda por escrever.

05. Seu Investigação Criminal recebeu elogios de profissionais da área. Acha que programas como CSI abriram um novo campo para a literatura policial?

Sem dúvida que sim. Programas sobre investigação forense são sempre muito bem-vindos porque, ao contrários de histórias que mostram o “mundo cão”, elas possuem um glamour que desperta o interesse das pessoas e acoberta um pouco o aspecto criminoso e violento das ocorrências. Enquanto fazia minha pesquisa para esse esse livro, por exemplo, passei uma semana com os profissionais de vários setores da Polícia Técnico-Científica de São Paulo, que me contaram muitos casos e deram muitos exemplos práticos. Um deles falava sobre um estudante que era fissurado em todos os aspectos de CSI e que chegou lá louco para participar de uma autópsia. Chegou a recusar passar pomada tipo Vicky Vaporub no nariz para disfarçar o cheiro porque nunca tinha visto isso no seriado. Quando entrou na sala do IML não aguentou cinco minutos: teve que sair correndo para vomitar no corredor. Mais tarde ele comentou com os investigadores que era mais difícil do que aparentava na TV. O trabalho desses profissionais é admirável até mesmo pela falta de recursos. Quando escrevi o livro muitos chegaram a comentar comigo sobre esse aspecto. Afinal, o laboratório dos CSIs é tão cheio de tecnologia de ponta que nem dá para imaginar que, enquanto em laboratórios como o de Little Rock, no Arkansas (onde se passa minha história) eles usam lasers para determinar a trajetória de uma bala, aqui fazem a mesma cosia com barbantes. E com resultados tão bons quanto os dos norte-americanos. Eles aqui fazem milagres para resolver os crimes. Se voltarmos um pouco no tempo veremos que muto do que foi apresentado em histórias de Edgar Allan Poe, Sir Arthur Connan Doyle e até mesmo em Agatha Christie tem coisas que são aprendidas quando se estuda ciência forense. E esta, à parte os insetos e pedaços de cadáver e outras coisas nojentas, é um campo formidável e promissor.

06. E o próximo passo? Sérgio Pereira Couto encontrou seu nicho ou tudo é possível?

Sim, creio que a ficção policial é mais interessante e cheia de promessas do que o mistério das sociedades secretas. Mas trabalho com literatura de mistério, acima de tudo, e essa área permite que você explore tudo, do romance policial científico ao noir, do mistério histórico às sociedades secretas. Se for algo que renda uma boa história que possa até mesmo ser lida num dia só, estarei satisfeito, pois o leitor interessado gosta de ler sem parar. E isso é extremamente gratificante.

A exposição se chama Janelas e é de Lucia Laguna. Nem é preciso mais nada para se saber como dar o primeiro olhar.

No meio, na junção, na fratura. No meio.

Os dez quadros se dividem entre os que se chamam Paisagem e os que se chamam Estúdio. O dentro e o fora. O meio. Na janela.

Lucia Laguna mora entre a Mangueira e o asfalto. Viu a construção do viaduto a ligar, dividir, a ficar no meio. A palavra Estúdio aí amplia seu campo semântico. É o local onde se faz e se vive, onde se estuda e se pensa. O local da visão.

Acho reducionismo falar, no caso dela (e em geral, é verdade), de autonomia estética da arte. Não separo o ordinário, o popular, o mundano, enfim, o entorno. Mas mantenho a ontologia. É uma questão de estruturação, de consolidação, desfamiliarização, iconicidade. Tem sim, é claro. Mas tem também o resto todo.

Aqui, por exemplo. As pinturas de Lucia trazem sempre o que a define mesmo fora da pintura: uma divisão/junção. No entanto estão bem longe de representar exatamente o que se vê das janelas de seu ateliê, no último andar da casa, com a mangueira (árvore) bem antes da Mangueira (morro). A Mangueira, lá, imóvel aparentemente, geometrizada, dir-se-ia, mas com tanta vida que chega-se a se escutar, ou achar que se escuta, o som surdo que de lá vem, como um motor a diesel que não para.

paisagem 25 – Lucia Laguna   paisagem 26 – Lucia Laguna   paisagem 17 (detalhe) – Lucia Laguna   estúdio 27 – Lucia Laguna    paisagem 27 – Lucia Laguna  

Nas obras, há a construção em cuidadosa fita crepe, e a tinta posterior, gestual. Uma ontologia de obra de arte. Mas não uma totalidade fechada em si mesma. A(s) Mangueira(s), aliás, não deixaria(m). Não esquecer: o fato de que sua obra pode ser despregada de seu contexto original e atualizada sem parar pelo fruidor marca seu relacionamento com a arte e não com o anedotário de uma cidade. Eu, por exemplo, gosto de ver coisas reais em suas pinturas. Em Paisagem 25 penso na escada do vizinho. Na 26, nas paredes das casas que ficam por perto. A 27 tem a representação da própria janela, de basculante, presente. Mas também gosto de ver o processo. Onde se liga, em que ponto se dá, essa divisão/junção. É na pintura. Na tinta. No detalhe da Paisagem 17, vê-se o pingo, lá. É tudo. É o mais importante, esse pingo. É a solução. E está não fora, mas dentro da obra.

Pode-se dizer que Lucia Laguna apresenta um schema – a palavra bakhtiniana. Seu schema é o do ‘ateliê do artista’, usado por tantos outros. Schema é uma superestrutura, um motivo que serve de núcleo geracional, ponto de origem que vai determinar os fenômenos específicos de cada obra feita. O schema é ‘o ateliê do artista’ e os cronotropos são, justamente, ‘as janelas’ – local espacial em que se registra uma passagem de tempo. Ou, para usar o vocabulário mais apropriado ao campo da estética, uma luminosidade. Em ‘ateliê do artista’ está o começo das pinturas, os grandes espaços construídos, cujos contornos são cuidadosamente demarcados. Nas ‘janelas’ está o resto todo. Ou seja, o tempo – marcado pela ação temporal, sequencial, da artista – e o que esse tempo faz e traz.

Está na Galeria Virgílio.

Inês Pedrosa, escritora portuguesa, lançou no Brasil A eternidade e o desejo. O livro fez algum sucesso e autora participou da última FLIP. A capa do livro o denuncia. Envolta nas fitas do Senhor do Bonfim, que anunciam seu conteúdo, apresenta como pano de fundo um dos altares barrocos das igrejas baianas. A cor de Exu predomina. Todos os elementos presentes na capa aponta para a necessidade de identificação realista do conteúdo que se desenvolverá.

Em certa medida, a narrativa, emoldurada pelas palavras do Padre Antônio Vieira, vai se cumprindo a partir da formulação que os autores, que intentam fazer falar a cidade, buscam. O livro de Ana Miranda – Boca do Inferno – cai na mesmíssima tentação, como o baino, por profissão, já havia caído. Em Jorge Amado, a cidade – presa da magia – se mostra na sua mitificação plena. Em Ana Miranda e Inês Pedrosa, a mistificação é apenas corruptela.

Se o narrador histórico-biográfico em Ana Miranda desvela um Gregório anacrônico, que, entre mulateiro e pervertido, constrói uma cidade idealizada, em Inês Pedrosa, a narradora, cega, passa da auto ironia a auto comiseração e aceitação, a partir de um amor idealizado; de sua condição e da perda da causticidade privilegiada que a cegueira jogara-lhe no colo. Ao fazer-se portadora da boa nova – a gravidez do final do livro – apaga literalmente o diálogo com Vieira e com a condição de excluído que o Padre alcançara na Bahia.

Os elementos estão todos dispostos na narrativa. A primeira viagem que empreende à Bahia se dá a partir de um amor arrebatador por Antônio, que lhe causará a cegueira quando tenta proteger o amante de um tiro. A confluência de um Ântônio por outro não chega a constituir um elemento narrativo de realce posto que o contraste se indetermina em uma causa óbvia.

Na segunda viagem apreendida à Bahia, Clara desce na cidade acompanhada de Sebastião, amigo por quem tem amizade e que lhe devota uma paixão tão arrebatadora quanto idealizada. A escolha do nome Sebastião está intrinsecamente ligado ao Rei menino que morre em Alcácer-Quibir e me parece que Inês Pedrosa busca realçar este fato, tanto na esterilidade deste amor quanto no anacronismo que o amor idealizado representa. A partir desta condenação amorosa esperava-se que A eternidade e o desejo buscasse definir o amor em termos libertários.

Clara, a partir do contato com uma mãe-de-santo, se envolve com um cineasta local que vai revelar a ela os segredos do amor. A reveleção, entretanto, mais causa pavor do que arrebatamento. Explica-se: Ao resolver romper com seu passado português, a narradora cai nas armadilhas do amor satisfeito, bem arumado e consolador, através do estancamento da aventura, isto é, da gravidez que denuncia a auto complacência da narradora e o nosso pavor.

Vítimas da mistificação, as narrativas sobre a cidade da Bahia, a de Ana Miranda, a de Inês Pedrosa ou a de seu Grão Senhor, desde logo colocam um problema para a formulação do literário – quando se querem realistas não dão contam do que é o fictício, pois afirmam-se sobretudo por uma visada sociológica e não ficcional; quando se querem fantasiosas, ou fantásticas, não dão conta do ficcional por estarem presas à mitificação da geografia narrativa, que é uma outra forma de dar conta da realidade ou mesmo de provocar no leitor o gosto pela mesmice.

Estreou no Teatro do Leblon, sala Fernanda Montenegro, Rio de Janeiro, neste último dia 15, o musical “O Bem do Mar”, com direção de Antonio De Bonis. São 14 atores em cena e 7 músicos interpretando 68 músicas de Dorival Caymmi.

Em “O Bem do Mar”, procura-se levar ao palco elementos das letras de Caymmi, compondo cenas tipicamente baianas e mostrando com competência a cultura brasileira cantada por Dorival, em que o cotidiano servia de inspiração para as suas composições, retratando tudo com simplicidade e talento bem peculiares.

São 120 minutos de espetáculo, com 10 minutos de intervalo. Ao que deram a denominação de Bloco I – Lembranças, se comparado aos demais blocos, não é muito convidativo. Porém, nas outras partes (Bloco II – Copacabana By Night, Anos 50 e Bloco III – Histórias de Pescadores), o espetáculo melhora consideravelmente.

As músicas, muitas vezes compondo um pout-pourri, são bem interpretadas, a movimentação no palco também é interessante e, tranqüilamente, nos transportam para a Bahia de Dorival Caymmi. Destaco o bom jogo de luzes e os probleminhas no áudio, que, provavelmente, serão corrigidos para as próximas apresentações.

Os atores cantam e dançam bem. Algumas vozes, inclusive, são graciosas e há partes muito boas do musical que, com certeza, se destacam. De modo geral, não é um espetáculo impecável, mas realiza bem a proposta.  

Bom. Um bom espetáculo. Tudo dentro do esperado, mas nada de surpreendente.



Músicas: Dorival Caymmi                                 

Concepção e Direção: Antonio De Bonis

Roteiro: Antonio De Bonis e Douglas Dwight

Direção Musical e Arranjos Vocais: Ricardo Rente 

Elenco: Ana Velloso; Dandara Mariana; Daúde; Dério Chagas; Fábio Ventura; Fael Mondego; Flavia Santana; Gabriel Tavares; Izabella Bicalho; Lilian Valeska; Marcelo Capobiango; Marcelo Vianna; Patrícia Costa e Thiago Thomé. 

Músicos: Alfredo Machado, violão; Rodrigo Villa, contrabaixo; Fernando Pereira, bateria; Firmino, percussão; Flávia Chagas, violoncelo; Luiz Flavio Alcofra, violão e Ricardo Rente, sopros.

Temporada: até 20 de dezembro.

Você dá um pio sobre uma obra de arte e danou-se. Ela vira ilustração da tua tese. Comentário. Exemplo. Testemunha e confirmação da tua genialidade. É um inferno. Mas como sei que você nem pensa em entrar em uma galeria, e porque sei que você está perdendo paca com isso, lá vai.

O Aquila.

E, bem, caso você entre, é na Valu Oria Galeria de Arte, Alameda Casa Branca 1130, São Paulo.

Luiz Aquila fala, ahn, não fala justamente. Você deve conhecer identidade fluida, plasticidade & presentificação. Se não conhece, tudo bem. Eu explico: é assim mais ou menos como você se sente, em uma adaptabilidade tão rápida que nem mesmo dá para saber, ao final do dia, quem mesmo você é. Explicando melhor ainda, com a ajuda do Zeca Pagodinho: você deixa a vida te levar.

Aquila deixa a cor se levar. Mas não é tão simples (nunca é). Para dar uma ideia, você é o azul do detalhe de A Pintura, o vermelho, e suas linhas.

Acho que vou por partes. De repente fica mais fácil, mesmo sabendo que ir por partes é justamente o que Aquila não faz, justamente essa sua posição, ou o ponto que coloca em discussão: uma identidade atual, de fluidez, mas integrada. Não sou tão boa quanto ele. E vou por partes. Ou por obras.

A Pintura e o círculo     A Pintura e o quadro azul

Em algumas delas há linhas feitas com uma ponta seca por cima dos campos de cor. É um caminho feito, portanto, a posteriori da caminhada, é a racionalidade como algo aposto à vida que corre. Uma significação de ‘depois’. É o que estou fazendo aqui: pondo linhas mentais sobre a unicidade intangível da obra dele.

A Pintura,o vermelho, e suas linhas (detalhe)Outra coisa. Em algumas das obras, o que vem por cima, o último campo a ser pintado, é o campo do branco. Ele então, depois de falar-sem-falar as suas cores, cria o vazio, o silêncio, que ele descobre como necessário para que eu o entenda. Porque as obras, com suas palavras mudas, só pode ser escutada através desse silêncio. Uma delas, então, A Pintura, o vermelho e suas linhas, é a mais impressionante. As cores vem rolando, rolando, existindo, e acabam no branco, que é o que fica mais perto de mim, que é o que permite que eu, agora um pouco distante, as veja. A Pintura e suas voltas também tem disso. Um branco posterior, para que o resto signifique. Então, em um pedaço dentro da obra está um índice do que toda ela faz. Porque ela nos fala mudamente, sem palavras. Um lance à la Merleau-Ponty: nosso contato com as obras de arte se dão quando as coisas ainda não são coisas ditas, ainda sem as palavras.

Nós. A grega e o vermelhoHá uma obra diferente das outras. É a Nós – a grega e o vermelho. Foi começada em 1989 e retomada agora, em 2009. Vai ver é por isso. Tem uma colagem num cantinho, que era uma expansão de campo usual nas obras anteriores do artista. Mas não é nem isso que faz com que seja única. Aqui está presente a guerra modernista com as leis, regras, limites e outras rigidezas. O retângulo do quadro é repetido dentro dele. A velha estratégia do século que findou de se apropriar do que lhe parece invencível. Um dizer: a racionalidade, ou lei, é minha. Não me submeto a ela na medida que a imponho É também o único quadro de cores sombrias. O resto todo uma explosão de amarelos, laranjas e vermelhos. O engraçado é que essa margem repetida do lado de dentro é reconhecida como margem, como limite necessário, a duras penas. E mais uma vez a posteriori. Pois o pincel preto que a forma cobre uma pintura anterior, cujos acúmulos de tinta ainda se vêem por baixo dessa camisa de força.

O título das obras sempre traz a palavra Pintura em caixa alta. Está certo. É isso mesmo. Pois aqui, a Pintura é o nome próprio de um sujeito. A obra é sujeito, ela conversa com você. E ao fazer isso, te transforma também em outro sujeito. Como são poucas as oportunidades atuais de você se sentir sujeito, o diálogo é precioso.

Há outra obra em que a margem quase aparece. Recortada, problematizada, a franja de A Pintura com acontecimentos recentes está quase toda coberta por formas orgânicas (sexuais femininas?).

Esse pintar por cima, essa temporalidade quase narrativa, só é possível em algo que se reconhece como sujeito porque acolhe sua historicidade, sua diacronia. A Pintura e a neve vermelha são duas. Há uma pintura anterior, coberta por uma textura irregular de pingos vermelhos, e há uma segunda pintura. Um ‘depois’. Na verdade são mais do que duas, são muitas. Elas vão chegando perto de você. Uma das últimas é, outra vez, um campo branco. O silêncio. Necessário.

A Pintura e os novos devaneiosEm A Pintura e o quadro ali – e em A Pintura e os novos devaneios – há uma mesma forma geracional, como um núcleo que se expande. Na primeira delas, essa expansão da pintura, a apresentação da pintura como algo fluido que não para, inclui a presença de um esboço feito a carvão ou linha escura de tinta, por cima de tudo. Como se não fosse possível terminar nada. E não é mesmo.

Não de graça tem um poema do João Cabral de Mello Neto na parede. Chama-se Lição de Pintura:

Quadro nenhum está acabado,

disse certo pintor;

se pode sem fim continuá-lo,

primeiro, ao além de outro quadro

que, feito a partir de tal forma,

tem na tela, oculta, uma porta

que dá a um corredor

que leva a outra e muitas outras.

Goya tinha uma nostalgia da racionalidade. Seus monstros são sua visão apavorada do que seria o mundo fora da razão. Aquila não tem essa nostalgia nem abandona a razão. Apenas arranjou outro caminho.

A diretora Lucia Coelho comemora 40 anos dedicados ao teatro infantil com a estreia do premiado texto “O Milagre do Santinho Desconfiado” de Marília Gama Monteiro.

ESTREIA: dia 24 de outubro (sábado), às 16h30

LOCAL: CENTRO DE REFERÊNCIA CULTURA INFÂNCIA/TEATRO MUNICIPAL DO JOCKEY

Rua Mário Ribeiro, 410 / Gávea – entrada de automóveis (estacionamento gratuito)

Rua Bartolomeu Mitre, 1110 / Gávea – entrada de pedestres

Tel: 21 2540.9853

HORÁRIOS: sábado e domingo, às 16h30

DURAÇÃO: 55 min

INGRESSOS: R$ 30,00 inteira e R$ 15,00 (meia entrada)

CAPACIDADE: 150 espectadores

CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: livre, indicada para a partir de 05 anos

TEMPORADA: até 29 de novembro

O Milagre do Santinho Desconfiado, espetáculo infantil com texto de Marília Gama Monteiro, estréia dia 24 de outubro próximo no Teatro Municipal do Jockey. A direção é da “mestra” Lucia Coelho (comemorando 40 anos dedicados ao teatro infantil), que estará também em cena, ao lado de Marcelo Dias (Prêmio Zilka Salaberry de Melhor Ator de teatro para crianças em 2007 com O Ovo de Colombo, encenado também por Lúcia Coelho), Severa de Brito, André Costa e Pedro Maia.

Este texto foi vencedor do Concurso Nacional de Dramaturgia do então Serviço Nacional de Teatro / SNT (atual Funarte) em 1970. Com uma dramaturgia construída em versos, O Milagre do Santinho Desconfiado revive um momento marcante da história do Brasil: a abolição da escravatura.

SINOPSE

A peça fala da escravidão e dos anseios abolicionistas através do encontro de dois personagens: um menino negro, escravo, e um menino branco, o abolicionista Euzébio de Queiroz quando criança.

Quem conta a história é Pai João, preto velho, narrador/testemunha do período da escravidão no Brasil. Ele é uma alegoria do negro sofredor e humilde, o “escravo que não é gente, mas que espera a sua redenção como se fosse um milagre do seu santo de fé”.

A história é contada em flashback, com texto enxuto e narração rítmica – sua dramaturgia é construída em versos. A história é contada através de esquetes, como uma história em quadrinhos. O quadro final, com a presença da princesa Isabel, que decreta a lei Áurea, representa o milagre maior de pai João: a princesa, como um rei medieval, o nomeia “gente”.

A MONTAGEM – ENCONTRO DE LINGUAGENS

A peça começa com uma brincadeira proposta às crianças da platéia, quando todas são convidados a confeccionar barquinhos de papel – estes barquinhos serão direcionados para um agitado mar azul de pano, representando as centenas de navios negreiros que traziam os escravos para o Brasil.

Além do trabalho dos atores e da música especialmente composta por Marcelo Alonso Neves, a diretora lança mão de diferentes linguagens para contar esta história – o teatro de sombras, o teatro de bonecos e o teatro de brinquedo. O primeiro entra em cena mostrando os mistérios da floresta e seus animais, e os navios em travessia pelo mar. O teatro de brinquedo, montado diante do público, é formado por personagens de papel que, manipulados pelos atores, tomam o seu lugar durante parte da narrativa.

E a peça segue envolvendo a plateia numa onírica viagem de luzes, cores e muita música. Os quadros de Debret foram inspiração para a escolha das cores e criação das cenas da peça.

A preparação vocal dos atores é de Jorge Maia, os bonecos são de Michel Sousa e Juliana Werneck, a luz é de Jorginho de Carvalho, e cenário e figurino são de Carlos Alberto Nunes.

FICHA TÉCNICA

TEXTO: Marília Gama Monteiro

DIREÇAO: Lucia Coelho

ELENCO: GRUPO NAVEGANDO

Lúcia Coelho (Mãe preta)

Marcelo Dias (Pai João – o ator foi eleito o Melhor Ator e ganhou o Prêmio Zilka Salaberry de teatro para crianças em 2007 com O Ovo de Colombo, encenado por

Lúcia Coelho)

Severa de Brito (Mãe Branca)

André Costa (Zezé)

apresentando Pedro Maia (João/Tição)

CENÁRIO E FIGURINO: Carlos Alberto Nunes

ADEREÇOS E PINTURA DE ARTE: Nilton Katayama e Thieny Katayama

ASSESSORIA TEATRO DE SOMBRAS: Magda Modesto

MÚSICA: Marcelo Alonso Neves

BONECOS: Michel Sousa e Juliana Werneck

ILUMINAÇÃO: Jorginho de Carvalho

ASSESSORIA DE BONECOS: Magda Modesto

PREPARAÇÃO DE VOZ: Jorge Maia

PREPARAÇÃO DE CORPO: Marcelo Dias

FOTOGRAFIA: Mário Grisolli

PRODUÇÃO: Lucia Coelho, Marcelo Dias e Heloiza Quaresma

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Lena Brasil

ASSESSORIA DE IMPRENSA: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Baudelaire andava por aí no final de um século dos mais passados e dizia que a vida era isso. E por “isso” ele entendia Paris no iluminismo – e não é à toa que iluminismo se chama iluminismo. Com suas novas ruas tão retas, e iluminadas, em que se misturavam gente de todas as espécies, é fácil entender que esse bebum, filho da alta burguesia, lá se sentisse muito bem. Junto com sua Jeanne Duval. Mulata, no less.

Em que pese seu Flores do Mal ser o que é e foi, Baudelaire não deixava de ser um exultante em relação ao meio ambiente. Paris, enfim, lhe parecia ótimo.

Não é o caso de Marco Paulo Rolla.

Já vi, na própria Vermelho, mais coisas dele e sempre gosto. É dele uma mesa de piquenique das mais decadentes, mas cuidadosamente feita, inteira, de cerâmica. E era dele uma geladeira de vomitar, exposta outra vez na sua individual atual.

Rolla flana pelo urbano e o que o atrai não é o novo. É o velho.

Não falo só do tema, ao qual volto em um instante. Falo também da técnica. Pois Rolla faz óleos enormes, pincelada por pincelada. Figurativos. Sombreamento. Profundidade.

Detalhinhos.

Mas vamos ao tema.

“Ces êtres (Baudelaire está falando, aqui, no seu Le Peintre de la vie moderne, da figura do dândi) n’ont pas d’autre état que de cultiver l’idée du beau dans leur personne, de satisfaire leurs passions, de sentir et de penser”.

O que é mais ou menos o que todos nós, até hoje, queremos da vida, principalmente se formos artistas. Na ideia de beleza é onde nos separamos.

Marco Paulo Rolla – A noite – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás  Marco Paulo Rolla – Bagagem – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás    Marco Paulo Rolla – Cansei da Philips – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás   

O tema – e a beleza – dessa exposição fica em ruas nem um pouco retas, nem um pouco iluminadas. Trata-se do acúmulo de objetos sempre renovados, sempre em vias da obsolescência ou não-funcionamento, aí incluídos, nessa lista de objetos, as pessoas. Em Bagagem, uma mulher cheia de dentes, predadora, tenta fechar uma mala abarrotada. A noite são duas mulheres e um cara, e as duas mulheres, sendo duas, já apontam para o excesso, a repetição. Em Cansei da Philips destruimos uma televisão, revolta das mais inúteis.

Há humor sem parar. Problemas de memória, com todos em volta de um computador, em um ambiente de ciber café, deixa no ar a dúvida de que memória se trata. Essa pintura faz eco com outras obras. Ao lado está uma máquina antiga, Remington, com um papel em que foi datilografada a frase “aqui atônito” várias vezes, cheia de erros. Quem datilografa são duas mãos feitas em pedra sabão. Mal feitas. Não terminadas. Em Memória afetiva, cabeças de plástico transparente deixam ver o que tem dentro: desenhinhos de objetos, só de objetos. A instalação sonora Enganos é a sequência de ruídos que marca ligações mal sucedidas com seus “alôs”, seus ruídos de fundo e o clique de desligar do aparelho. Eu Desejo dá até aflição, porque a tela do vídeo vai se enchendo de relógios, de celulares, uns por cima dos outros, cada vez mais rápido.

Rolla tem sua estratégia para impedir o sufocamento do indivíduo por objetos, todos eles novos, todos brilhantes, iluminados. Na parede está escrita uma de suas frases: “Tudo me é lícito mas nem tudo me convence.” Nessa sua não entrega, na desconfiança do último lançamento, ele vence Baudelaire que, inclusive, renegou a própria obra e tentou entrar na Academia Francesa (sem conseguir).

No encontro de significado, não na satisfação das paixões – como disse Baudelaire – mas, ao contrário, na saturação delas, Rolla se aproxima de outro poeta. De André Breton, que também gostava de flanar por Paris, só que alguns anos depois. Baudelaire pegou um final de século, Breton um começo. Em Nadja, Breton diz: “Tout récemment encore, comme un dimanche, avec un ami, je m’étais rendu au marché aux puces de Saint-Ouen. J’y suis souvent, en quête des ces objets qu’on ne trouve nulle part ailleurs, démodés, fragmentés, inutilisables, presque incompréhensibles, pervers enfin au sens où je l’aime.”

É mais por aí. Talvez seja mesmo uma questão de fim de século e começo de século. Ou, dito de forma mais elegante: de perceber a energia revolucionária que só aparece no que está estragado ou velho, como em ambientes de muito uso, imagens antigas, ou em objetos que já começam a parecer extintos. Não é minha a frase, é de Walter Benjamin.

Do dia 18 de Outubro de 2009 a 20 de Fevereiro de 2010, a CasaQuattro Comunicação, de Maria Baldan, vai reunir artistas plásticos, urbanistas, arquitetos, críticos, historiadores de arte e estética para a realização de quatro residências artísticas, grupos de estudos e mesa de debates no Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, mais conhecido como Pedregulho, projetado pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy. Todas as ações serão direcionadas a comunidade local e sem custo. Entre os principais envolvidos estão Jarbas Lopes, Marisa Flórido César e a Associação Chiq da Silva. Dessa experiência sairá um livro com um conteúdo significativo sobre questões atuais na relação entre a arte e a comunidade e será distribuído para todo o Brasil.

Pedregulho

O projeto de residência artística Pedregulho consiste na realização de quatro residências artísticas com promoção de atividades junto à comunidade do Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Moraes (mais conhecido como Pedregulho) acompanhadas de profissionais das áreas de arquitetura, urbanismo, pesquisadores e/ou críticos de arte, história da arte e estética, e a elaboração de um livro com registros de todo o processo de vivência artística no complexo e seus desdobramentos.

Como instrumento de aproximação com o complexo e seus habitantes, a primeira fase do projeto será a realização de um Grupo de estudos aberto à comunidade, cujo objeto de observação será o projeto do Complexo, estudando-o a fundo em suas proposições ousadas, sua história e sua situação atual. O Grupo de estudos se reunirá ao longo de 2 dias consecutivos com carga horária estimada de 16 horas ao total, e deverão fazer parte todos os integrantes da Equipe do projeto (detalhada mais abaixo). Poderão ser chamados profissionais de arquitetura, urbanismo e áreas afins para integrarem o Grupo de estudos.

O que se pretende principalmente com a realização do projeto é lançar foco para a recuperação simbólica e estrutural deste edifício, símbolo de um período fundamental para a história política e cultural do país, a partir do qual traçamos vetores de problematização de questões culturais, sociais e econômicas, intrínsecas à utopia modernista.

Do novo livro de Dora Ribeiro, A teoria do jardim, extraem-se flores raras. O topus a que remonta o título é antigo na poesia universal. Desde a Priapeia, o jardim, como lugar poético, vem sendo tematizado. Se nele, afigura-se a poesia como espaço do utilitarismo, ao longo das construções dos jardins poéticos, a poesia utilitária cede lugar para outra forma de poesia que se escreve distanciada desta dicção. No século de ouro espanhol, fala-se de um jardim das delícias.

capa de A teoria do jardim, de Dora RibeiroSe nestes jardins o poema afigura como apêndice de uma vontade ou de uma tópica; nos jardins de Dora, o poema se constrói como forma de reflexão sobre a linguagem, aliás, de uma teoria sobre e sob o jardim. Uma teoria que se define e é definida pelo pensar do jardim. A teoria só é válida quando interroga seu objeto e dele extrai não formulações específicas que possam ser aplicadas, mas é instrumento de pensamento no qual se debruçam os que vêem validade na percepção do ainda inconcebível, do ainda imperceptível, dos que permitem que se vislumbrem estruturas para dizer do mundo. Não seria demais afirmar que a formulação de uma teoria é a de um universo centrado tal qual como no poema.

Dora alia o poema e o pensar ingente sobre o mundo. Teoriza flores de jabuticaba, na bela dedicatória para Camila, que nos faz, com a ligeireza de quem não quer nada, adentrar nos portais da poesia e nos surpreender com as flores, outras flores, antes inexistentes, ali colhidas. Como sombra pesam as flores baudelaireanas. Como sombra, as maravilhas de Alice. As referências das sombras se cumprem para serem despedaçadas. Se, como em Baudelaire, se, como em Carrol, o pensar literário propõe lógicas obliteradas pelo senso comum, em Dora, este pensar determina um mergulho distanciado na concepção do poético contemporâneo.

Não é que ao fazer-se contemporânea, ao tomar a poesia como forma da sensibilidade do sujeito, a poeta o faça distanciando o sujeito das observações da sensibilidade imediata, que derivam do próprio sujeito. Esclareço. O sujeito que pensa a poesia de Dora Ribeiro é sempre um sujeito que se sujeita ao ritmo do fazer deslocado da ficção, isto é, é um não-sujeito sem deixar de autocentrar-se no eu. As marcas da pessoalidade se apagam, se desfazem ante a percepção de que aquele sujeito é um sujeito aquele e não este. Leia-se:

os caminhos perseguem ideias

naturalmente falsas

arranjos do tempo

obliqüidades e temperamentos

A obliqüidade, esse maravilhoso quase paradoxo, que se situa na “ideia naturalmente falsa” sob a perseguição de um caminho, permite que se perceba a força que o poema tornado ficção detona. Se são as idéias arranjos e temperamentos num ambiente – o da escrita – que se torna naturalmente falso – o lugar da descoberta da palavra é fabricado como uma inexistência existente, assim como o do sujeito que pensa nas relações entre o objeto e seu significado – é um lugar que, antes de existir, só existe na linguagem.

Neste sentido, o Jardim de Dora é antes de tudo uma teoria, isto é, existe para que exista essa possibilidade de jardim e não o jardim prévio no qual os poetas do passado plantaram suas flores referenciadas tanto para negá-las quanto para delas criarem as possibilidades de localizar sua geografia e envolvimento religioso, ou o jardim dos poetas mais próximos que o tomaram como lugar das delícias ou das tensões provocadas pelo mal-estar da civilização, que perde seu jardim e propõe flores negativas, usurpadas.

Sejam uns, sejam outros, o jardim sempre foi o espaço que derivou de uma geografia privada e pública. O que Dora, com sua teoria, busca alertar ao leitor é que os jardins pertencem à linguagem e como linguagem são lugares para que se ensaiem existências prováveis, possíveis ou ainda carentes da percepção na qual o olhar desta inexistente existência se fixa como um real que, entretanto, ainda não se fez – senão que como livro – como real.

01. Para começar, gostaria que me ajudasse a definir a ficção especulativa gay. É a ficção especulativa com personagens gays ou são histórias gays com um toque de literatura fantástica?

Pode-se argumentar que sejam ambas. A pergunta mais fácil é o que faz uma boa história de ficção especulativa gay. Os elementos fantásticos devem complementar os temas e personagens gays. É como na culinária – você não quer que um único ingrediente domine os outros. Ser gay é como ser o “forasteiro” – um papel que se encaixa em muitos protagonistas da literatura fantástica.

02. Como é o mercado para esse tipo de literatura no seu país? No Brasil, os personagens e amores gays existem, mas não chega a haver volume que marque o surgimento de um gênero, como me parece ser o caso em outros mercados.

Nos Estados Unidos, títulos com orientação gay ainda são um tanto quanto incomuns. Mais mulheres do que homens americanos lêem livros, então você pode observar um número crescente de livros que podem ter apelo além do público gay tradicional. Isso dito, acredito que um ótimo livro cria “ondas de público leitor” no mercado. Os círculos internos são o público-alvo do autor, mas os círculos externos são aqueles que ele nunca esperava. Vintage foi originalmente escrito para leitores adolescentes gays, mas eu sei que muitos adultos gays ou mulheres heterossexuais gostaram do livro.

03. Eu vejo em filmes gays um problema da repetição dos dilemas. Tem sempre alguém que briga com o melhor amigo ao descobrir a própria sexualidade, sofre preconceito da família, se apaixona pelo cara heterossexual da faculdade, tem dificuldade de adotar um filho, tem um amigo com AIDS. Às vezes, tudo isso no mesmo filme, em 1h30 de duração. Na literatura, você acha que a vida gay é tratada de forma mais ampla?

Eu acho que tem um movimento crescente nos livros para mostrar que ser gay não é sempre tão simples ou estereotipado quanto a grande mídia apresenta. Em Wilde Stories 2009, que eu editei, tem caras que estão saindo do armário aos 40 e se sentem perdidos em uma cultura tipicamente gay, detetives de homicídio que lidam com homofobia, e até personagens muçulmanos em um ambiente tipo mil e uma noites.

04. Em Vintage, seu protagonista é um jovem gay que tentou se suicidar. Foi difícil trabalhar a faceta psicológica do personagem? O terror ajuda nessas horas?

A parte mais triste de trabalhar no Vintage envolveu a morte de um dos meus leitores beta – ele tinha apenas 14 anos e se enforcou no seu armário devido à depressão e a homofobia que enfrentava na escola. 14 anos de idade… foi uma tragédia que me afetou muito. Parte do narrador do livro é baseado nesse garoto.
Acho que todos nós temos nossos períodos de pensamentos mais sombrios, de impulsos autodestrutivos, e eu tentei incorporar isso tudo e mostrar que desistir em face da depressão não é a resposta.

05. Fale um pouco da Ícarus Magazine.

Bem, eu realmente adoro ler boa ficção especulativa gay. Parecia ser o próximo passo para minha editora (Lethe Press / lethepressbooks.com) começar a publicar uma revista trimestral dedicada a essas histórias. O objetivo é ter alguma coisa especial, colorida e divertida para homens gays – e introduzi-los a um mundo com histórias que tem um toque do estranho e da fantasia. A edição mais recente, especial para Halloween, acabou de ser lançada. Onde mais você encontraria desenhos animados, histórias eróticas de vampiros, fofocas e um conto sobre a San Francisco do futuro?

Adoraria ver alguns autores brasileiros enviando trabalhos – no momento tem um foco mais americano, mas gostaria de ler um conto fantástico ambientado no Carnaval.

06. Para quem quer conhecer a atual produção de Fantasia Urbana Gay ou mesmo Fantasia Urbana, quais nomes você indica?

Alguns dos meus autores favoritos são Holly Black, Cassandra Clare, Ellen Kushner, e Lee Thomas. Todos têm conteúdo gay, em proporções variadas, e suas histórias são cativantes e cheias de vida.

English version:

01. For starters, I’d like you to help me define gay speculative fiction. Is it speculative fiction with gay characters or are they gay stories with a touch of fantasy literature?

SB: Arguably, both. The easier question is what makes a good gay spec fic story. The fantastical elements should compliment the gay themes and characters. It’s much like creating cuisine – you don’t want any single ingredient to overpower the others. Being gay is akin to being the “outsider” – a role that befalls many protagonists in fantastic literature.

02. In Brazil, gay characters and Love stories exist, but there is not enough volume to mark the appearance of a subgenre, like it seems to be the case for other markets. What is the market for this ‘genre’ of literature in your country?

SB: In the United States, gay-oriented titles are still rather uncommon. More American women than men read books, so you are seeing a growing number of titles that can appeal beyond the usual gay readership. That said, I think a great book creates “ripples of readership” within the marketplace; the inner circles are an author’s intended readers, but the outer rings are ones he never expected. Vintage originally written for gay teenage readers, but I know many gay adult or straight females who have enjoyed the book.

03. I see in gay films a problem of repetition of dilemmas. There is always somebody who fights with their best friend when discovering their own sexuality, suffers from prejudice in the family, falls for the straight guy in collage, has a friend who is HIV positive. Sometimes all the problems in the same package, in 1 hour and a half. In literature, do you think gay life is handled more broadly?

SB: I think there is a growing movement in books to portray being gay is not always as simple or stereotyped as mass media presents. In Wilde Stories 2009, which I edited, there are guys who are coming out at age 40 and feel lost in typical gay culture, homicide detectives who deal with homophobia, and even Muslim characters in an Arabian Nights milieu.

04. In Vintage, your main character is a gay youngster who attempted suicide. Was it hard to work on the psychological aspect of the character? Does the horror element help you?

SB: The saddest part of working on Vintage involved the death of one of my draft readers—he was only 14 years old and hung himself in his closet due to depression and experiencing homophobia at school. 14 years old… it was a tragedy that affected me greatly. Some of the book’s narrator is based on this boy.
I think we all have periods of dark thoughts, of self-destructive impulses, and I tried to incorporate these and show that giving in to depression is not the answer.

05. Talk a little about Icarus your new magazine.

SB: Well, I do love reading good gay speculative fiction. It just seemed like the next evolution for my press (Lethe Press / lethepressbooks.com) to start publishing a quarterly magazine devoted to such tales. The goal is to have something special, colorful, and fun for gay men—and introduce them to stories that feature a bit of weirdness and whimsy. The newest issue, special for Halloween, just released. Where else will you find cartoons, vampire erotica, gossip, and a tale about San Francisco in the future.

I would love to see some Brazilian authors submit their work—right now it’s about American-centric, but I’d love to read a fantastic tale set during Carnivale.

06. For those who want to learn more about what is currently produced in Urban Gay Fantasy or even Urban Fantasy, which names would you recommend to get started?

SB: Some of my favorite authors are Holly Black, Cassandra Clare, Ellen Kushner, and Lee Thomas. They all have gay content, of differing amounts, and their stories are captivating and vivid.

Faleceu dia 26/09/2009 uma das maiores artistas de todos os tempos, Alicia de Larrocha, sobre quem já escrevi aqui.

Alicia foi uma das maiores artistas do século XX e começo do século XXI, seu repertório se entendia desde Scarlatti até Rachmaninov, embora sua mãozinha não se estendesse por mais do que uma oitava. Dona de um timbre único e inconfundível, agudos brilhantes e baixos poderosos, Alicia tinha pleno domínio do instrumento e uma personalidade musical que, embora fosse inventiva e rica, nunca perdia o senso de estilo ou a diferenciação das escolas estéticas. Scarlatti é Scarlatti, Mozart é Mozart, Chopin é Chopin e Rachmaninov é Rachmaninov.

Arrau, Horowitz & de Larrocha
Arrau, Horowitz & de Larrocha

Ao mesmo tempo era uma pessoa humilde, discreta e amável. Em uma entrevista de 1995, o repórter do New York Times conta que ela abafou o piano para não incomodar os vizinhos:

“Several thick rolls have been hidden beneath the sounding board of her Steinway grand — out of sight, but they do the job. I do not want to disturb the neighbors,” she said midway through a recent interview. Inspecting the old-fashioned coarse-hair material, she added: “I didn’t want them to complain. The very first day, a friend of mine put the stuff under the piano. I can practice very comfortably.”

Não há palavras para expressar essa perda. Tudo o que podemos é ouvir e nos maravilhar com o imenso legado que a Alicia nos deixou.

Vejo arte contemporânea como uma oportunidade de discussão, de pensamento. A única oportunidade. Não há mais fóruns públicos que se lhe assemelhem. Uma galeria aberta, ou museu, e você pensa o mundo. Houve épocas mais propagandísticas. Épocas em que a arte seguia mais de perto uma finalidade. A apelação emocional da contrarreforma, no barroco. O canto do cisne da afirmação masculina, no modernismo. Hoje não. Todas as outras imagens, hoje, seguem um roteiro rígido. Existem para que o capitalismo as venda, no lugar de objetos a cada dia mais transitórios. Você compra então vários objetos em busca da materialização de apenas uma imagem. A que você quer “ser”. Todas elas têm essa função. As da arte contemporânea não. Estão lá para te fazer pensar. Não são necessariamente bonitas, não necessariamente te seduzem. Ou sequer duram.

O convite trazia a imagem de um pedaço de madeira velha e um encaixe de metal a ela acoplado. O título da exposição era Uniões e engates. O artista eu não conhecia: Gavira (Admir Belmonte Gavira). Nem a galeria: Joh Mabe.

E eu estava mesmo pensando que fim havia levado a nostalgia.

Na parede estava escrito uma frase do artista: “… mergulhei com certa determinação nas vãs regiões dos sonhos, voltavam as imagens dos engates de trens e do maquinista…”

Estamos em época de transição. Isso na melhor das hipóteses, pois pode ser de fim mesmo. Ou de mutação, a se acreditar na enxurrada de seres híbridos com que uma novíssima literatura tentaria nos acostumar ao que há de vir. E nostalgia é, historicamente, uma das estratégias para lidar com épocas assim.

Você desloca e concentra alguns ícones – inventados ou históricos, tanto faz. E o faz de modo a ressaltar isso ou aquilo, o que for preciso, contanto que sirva a uma reconciliação de polaridades com o presente. Um presente igualmente icônico, mal entendido e apavorante, como em geral os presentes e pior ainda quando se trata de presente de transição/mutação/fim.

Gavira investe na nostalgia em suas peças híbridas. E reconcilia a polaridade a que me refiro pondo ambas “metades” igualmente em um passado, embora um sendo mais passado do que outro.

Casal: Enlace -  Gavira @ Joh Mabe – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás   Engate -  Gavira @ Joh Mabe – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás    Casal: Resina -  Gavira @ Joh Mabe – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A madeira velha, carcomida e “natural” se contrapõe à elaboração industrial, moderna e brilhante dos engates de trem. Mas trem também é passado, embora menos passado que a imemorialidade de um pedaço velho de madeira. É essa a estratégia apresentada para aguentar um presente feito de passados diversos, um deles sempre ocorrido apenas um nanossegundo atrás. Os objetos têm um verbo, uma ação, que vem do passado. Um gerúndio do tipo estão fazendo, estão sendo, estão agindo. Desde há muito tempo. A nostalgia aqui tem três movimentos claros. As obras 1) vêm do passado (ferragens de trens e madeiras velhas), no entanto; 2) são novas (o metal brilha, a madeira foi limpa e há um pedestal para estabelecer a entrada nobre, voluntária, proposital, desse passado no ambiente presente) e; 3) se chamam Engate de um trem imaginário. O engate é real. O trem é que é imaginário e que pode ser qualquer um, de qualquer época e nome.

Na escolha dos material não-representativos de nada, mas eles próprios, lá, concretos, Gavira faz uma arte auto-referenciada. Mais do que trens e madeiras, é a arte e sua função de pensar mudanças através de materiais não modificados (ou pouco modificados), eis o assunto dessa discussão-exposição. Mais do que uma ligação com o passado, a nostalgia aqui é uma explicitação do nada para engatar, do não-espaço em que estamos. No presente.

Na frase do artista que citei acima, ele fala de sua volta ao tema. As datas das peças confirmam. Há Engates mais antigos, de 2003, e há os novos, de 2009.

Entre uns e outros há outras peças, de bronze ou resina vermelha, que representam casais. Dessas gostei menos. Achei boa, portanto, essa volta a engates não amorosos, não óbvios. Na frase que citei, o artista fala também de um maquinista. Um personagem, portanto, que conduz o trem, uma individualidade determinada, não problematizada. E, no entanto, ausente na materialização das obras. Aí eu já entraria em outro assunto – o da autoria. Fica para outra vez.

Acabo de descobrir que Miguel Sousa Tavares, o escritor e jornalista português, é filho de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma surpresa e tanto para mim, admiradora de sua obra poética, uma vez que ia justamente comentar que, após ter lido uma seqüência de romances de autores africanos de língua portuguesa, senti uma enorme diferença entre os textos destes e o de Sousa Tavares – No teu deserto – lançado em setembro de 2009, pela Companhia das Letras. Estava já habituada àquela escrita bem poética e reflexiva dos africanos, por isso senti um certo impacto com a leitura do Sousa Tavares.

Não quero comparar os africanos com o português, muito menos dar a entender que, por ser filho de poetisa, Miguel Sousa Tavares deva ser poeta. Aliás, seu nome é Miguel Andresen de Sousa Tavares. Se não tivesse preterido o sobrenome “Andresen”, talvez tivesse imaginado sua filiação muito antes!

Mas isso não importa, o que interessa é que, filho ou não de Sophia (a mesma que teve seus versos introduzindo alguns capítulos de Antes de Nascer o Mundo, do Mia Couto), seu último romance, que dá conta de uma travessia do deserto do Saara e das implicações dessa aventura na vida do protagonista, um jornalista português, e de seu relacionamento com a companheira de viagem, uma garota bem mais jovem que ele, não é uma viagem perdida.

O que há de curioso para se observar é a diferença de comportamentos entre os dois, tendo em vista os significativos quinze anos de idade que os separam, o modo como um enxerga e interpreta as ações do outro, os objetivos profissionais e pessoais do jornalista, a falta de objetivos da jovem garota e o aprendizado da mesma durante esses dias de aventura. Na realidade, é curioso até o momento em que nos damos conta de que já conhecemos essa história, e percebemos que a narrativa não pretende nem nos surpreender nem nos encantar com a simplicidade de uma história banal, como muitas vezes acontece, de uma história ser bonita por ser simples.

Assim, sem muitos rodeios nem grandes descobertas, guiados por uma linguagem simples e objetiva, atravessamos o deserto e entramos na África. Percebemos a existência de um possível romance entre o jornalista e a garota, refletimos rapidamente sobre o silêncio do deserto e a impossibilidade, na atualidade, com todos os avanços tecnológicos relacionados à comunicação, de lidarmos com o silêncio. A era das comunicações, da tecnologia e da popularidade teria nos tornado incapazes de suportar a solidão e o silêncio. O deserto seria, portanto, o último destino procurado pelos viajantes dos dias de hoje. Não posso deixar de ressaltar que essa parte do texto, que começa na página 116 e, tão rapidamente, termina na página 117, é realmente fascinante. É o que oferece sentido à travessia do romance. Discussões sobre o silêncio e a solidão sempre rendem muitas reflexões e, em No Teu Deserto, a naturalidade e a fluidez que caracterizam essas divagações as afastam de qualquer possibilidade de serem apenas tentativas desesperadas de filosofar.

Outro ponto positivo é o fato de o romance ser curto, o que o poupa de ser cansativo.

No teu deserto
Miguel Sousa Tavares
Companhia das Letras
1ª Edição – 2009
(128 pgs.)

Companhia do Gesto realiza ciclo sobre a Gestualidade na Cena Contemporânea

Em sua passagem por São Paulo, após 15 anos, a Companhia do Gesto – em temporada com o espetáculo A MARGEM – realiza, de 5 a 26 de setembro, na UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA um Ciclo gratuito de quatro encontros sobre a Gestualidade na Cena Contemporânea.

O primeiro encontro, realizado dia 5 de setembro, contou com a presença de Álvaro Assad, diretor do espetáculo A Noite dos Palhaços Mudos, que falou sobre a tríade Teatro-Mímica-Humor ao lado de Luís Igreja, diretor da Companhia do Gesto. O bate-papo abordou os meios de pesquisa de cada diretor com foco no gesto em cena e as opções de usar ou não a palavra. Já Luís Igreja defendeu a ideia de que teatro gestual é teatro do ator vivo, com presença plena em cena, todo em alerta, pronto para o jogo do presente e para a resposta da plateia.

Dia 12 de setembro aconteceu o segundo encontro com a presença de Tiche Vianna e Ésio Magalhães, do Barracão de Teatro, de Campinas (SP). A atriz e diretora falou um pouco da história dela e de como chegou às máscaras (comédia dell’arte) e do processo como diretora e de criação do Barracão Teatro. Tiche também abordou de como um tema é suficiente para a constituição de uma dramaturgia que parte do encontro do corpo com o espaço e como a ação pode ser composta pelo diálogo entre movimento e pausa, som e silêncio. Para ela, o gesto na cena contemporânea tem seu lugar no espaço de encontro com o público.

Ésio, palhaço e ator, complementou falando que a máscara – e entenda-se também o nariz do palhaço como a menor de todas as máscaras – traz como técnica e ferramenta a cumplicidade com o público, puxa ele para dentro da cena, exige sua participação para comunicar. E falou da cena que se constrói a partir dessa relação, que exige do ator agir e reagir no presente, no instante em que a cena se faz.

Os próximos encontros acontecem nos dias 19 e 26 de setembro, sempre aos sábados, às 19 horas, na UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA. Antônio Januzelli e Henrique Schafer, da Universidade de São Paulo (USP) são os convidados do dia 19 de setembro e Ana Achcar, do Rio de Janeiro e Kil Abreu, de São Paulo falam com o público no dia 26.

PROGRAMAÇÃO

19 de setembro, sábado, às 19 horas

Antônio Januzelli e Henrique Schafer – Universidade de São Paulo/ SP

Como tocar aquele que vê? Com esse mote o diretor Antônio Januzelli e o ator Henrique Schafer falam sobre o trabalho para atingir a presença cênica através de uma escuta delicada e contínua da respiração, dos poros, dos músculos e dos órgãos.

Antonio Januzelli é ator, diretor, professor e pesquisador. Doutor em Teatro pela Universidade de São Paulo e coordenador do Lince – Laboratório do Ator do Departamento de Artes Cênicas, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e representante do Depto. de Artes Cênicas da ECA na AIEST – Asociación Iberoamericana de Escuelas Superiores de Teatro.

Henrique Schafer é graduado em Licenciatura em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo. Em São Paulo, há mais de 15 anos, coordena projetos pedagógicos de teatro em instituições diversas, inclusive como professor e diretor. Foi indicado em 2005 para o Prêmio Shell, como ator, por sua atuação no monólogo O Porco.

26 de setembro, sábado, às 19 horas

Ana Achcar – Rio de Janeiro/ RJ e Kil Abreu – São Paulo/ SP

Doutora em Teatro com tese que trata da formação do palhaço de hospital e professora de Interpretação da Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, onde ministra cursos de jogo da máscara e jogo do palhaço, Ana Achcar é também coordenadora do Programa Enfermaria do Riso, que forma estudantes de Teatro para atuarem como palhaços em hospitais.

No encontro, Ana aborda o exercício da relação entre riso e corpo na formação do ator/palhaço hoje. A ação, espaço e tempo, o objeto, a palavra, e como se constroem na perspectiva do jogo da máscara do palhaço e do lugar que o corpo do ator assume na experiência do risível e no deslocamento de limites da cena contemporânea.

Jornalista e crítico, Kil Abreu é pesquisador de teatro e pós-graduado em Artes pela Universidade de São Paulo (USP). Foi curador do Festival de Teatro de Curitiba, crítico do jornal Folha de São Paulo e Diretor do Departamento de Teatros da Secretaria Municipal de Cultura/SP. Atualmente compõe o júri do Prêmio Shell de São Paulo. No Ciclo , Kil aborda a especialização da mão de obra e os redimensionamentos que a criação artística está passando pautados no rigor dos meios expressivos.

Para Roteiro:

GESTUALIDADE NA CENA CONTEMPORÂNEA – Dias 5, 12, 19 e 26 de setembro, sábados, às 19 horas, no Espaço Décimo Primeiro andar da UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA. Direção Geral – Luís Igreja. Direção de Produção e Coordenação do Ciclo– Ana Carina. Convidados – Álvaro Assad, Tiche Vianna, Ésio Magalhães, Antonio Januzelli, Henrique Schafer, Ana Achcar e Kil Abreu. Duração – 90 minutos. Recomendável para maiores de 14 anos. GRÁTIS. Retirada de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria.

UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA – Avenida Paulista, 119 – Estação Brigadeiro – Fone: (11) 3179-3700. Acesso para deficientes físicos. Bilheteria – De terça a sexta das 9 às 22 horas e sábados, domingos e feriados das 10 às 19 horas (ingressos à venda em todas as unidades do SESC). Capacidade do Espaço Décimo Primeiro Andar – 50 lugares. www.sescsp.org.br

Volto ao desenho. Dessa vez com Dibujo español, a exposição atual da Emma Thomas. Na verdade, ao entrar mais uma vez no patiozinho interno da galeria da Rua Augusta fiquei com vontade de falar sobre o patiozinho. Mas, sentada em uma beirada de muro e olhando em volta, percebi que o que eu queria dizer sobre o patiozinho, só o conseguiria se em suas paredes estivessem, como estavam, desenhos.

geral – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásJá disse isso aqui, acho. Essa galeria ocupa um sobrado e tem várias camadas. A da época dos sobrados antes de a rua Augusta virar rua elegante, depois que virou e seus sobrados se transformaram em pontos comerciais, depois que decaiu, e depois que virou moda – outra moda – de novo.

O patiozinho, hoje, é pintado de branco – em uma referência ao cubo branco e impessoal próprio de uma galeria de arte. Mas não vai ser cubo nunca pois mantém seus significados consolidados, quase míticos, todos lá. E faz mais.

Supondo, e suponho, que Levi-Strauss tivesse razão e que ‘os conjuntos míticos são construídos com o único intuito de serem despedaçados e reconstruídos a partir de seus fragmentos’, a galeria aponta para um processo.

E é aí que entram os desenhos. Para que o patiozinho mantivesse seus palimpsestos, teria de ter traços – mais do que massas de cor – a recobri-lo. É o desenho, com sua proximidade absurda da mão que traça e do olho que acompanha esse traço; é o desenho, com sua abdicação em seduzir, com sua distância cerebral do referente, e com a exposição de seu processo, o único ato criativo a poder apontar para o que ainda está em curso, nunca pronto.

geral – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásE não se trata de camadas apenas, intercambiáveis, igualadas. O que está atrás não vem com igual valor. É um prólogo. É necessário para o entendimento do que está sendo feito. Forma ou dirige esse entendimento. Não é o entendimento. Provê os dados para que os desenhos tentem suplantar as contradições entre o velho sobrado e quem entra nele, embora seu sucesso seja sempre tão rápido que, mais do que um sucesso, é um dedo apontado para novas tentativas.

Assim, quem lá entra, não entra para se atualizar. Entra para se lembrar, ao ver os desenhos expostos, que é preciso renovar sem cessar significados apostos.

Os artistas da mostra em questão ajudam nessa tarefa.

Luz Santos – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás    Maria Calzadilla – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Juan Pablo Villalpando consolida formas de tal modo que elas perdem sua especificidade individual, viram formas míticas, tipos de seres novos ou muito velhos. Luz Santos deixa seus bonequinhos de fios caírem pelas paredes em uma queda lenta, que não se acaba e que, por serem formados de fios, sabemos, estarão, ao chegar ao chão, prontos a subir novamente. Maria Calzadilla faz galhos e folhas que nascem e sobem e que não têm fim, além do fim do seu suporte.

E o suporte é outro indício desse recobrir sem cobrir. Não têm molduras, nada há que os separe, brancos que são, dos muros também brancos.

Quando visitei a galeria, motos estacionavam perto dos desenhos. Tudo a ver.

(Além dos artistas citados, vieram também Raul Diaz Reyes e Pedro Luiz Cembranos, cujos desenhos acompanham, em seu próprio modo – um propositalmente usando uma já velha linguagem pop, o outro, mais simbólico, com sua ausência de cabeças – o que digo aqui.)

O eixo Rio-São Paulo recebe a maior parte das mostras internacionais de artes plásticas, cinematográficas, entre outras, e também grande parte das exposições dos grandes artistas nacionais. Só para ilustrar, as obras de Vik Muniz ficaram no MASP, em São Paulo, por um bom tempo, e depois vieram para o MAM, no Rio de Janeiro, onde permaneceram por cerca de três meses. Outro exemplo foi a Virada Russa, exposição de 123 obras do movimento artístico da 1ª fase da Revolução Russa, que passou pelo CCBB do Rio, e que certamente passou ou passará pelas outras capitais em que há um Centro Cultural do Banco do Brasil (São Paulo e Brasília, apenas).

A visibilidade cultural lançada sobre Rio e São Paulo é uma herança histórica que se manteve graças às políticas culturais desses estados que nunca se dispuseram a abrir mão da notoriedade que outrora conquistaram, e graças, também, à sorte, no caso da capital fluminense. No que diz respeito a São Paulo, o estado continua sendo o centro financeiro do Brasil. Por outro lado, o Rio, outrora capital do país, pouquíssimo conserva, em termos político-econômicos, dessa época. Se não fosse pela arquitetura do centro da cidade, mantida a duras penas, e pelo fato de a família real ter se instalado por aqui durante um tempo, hoje o Rio de Janeiro não passaria de um balneário para turistas que curtem sol, praia e turismo sexual.

Muitos estados nordestinos, como o Rio Grande do Norte, por exemplo, que não teve oportunidade de ser capital e nem foi objeto de interesses políticos para tornar-se centro financeiro, vão aos poucos tentando desvencilhar-se do paradigma que os caracterizam: exploração sexual infantil, turismo sexual, ou qualquer outra forma de lazer ilegal relacionada ao sexo.

Há alguns anos, vêm se observando o crescente interesse pelo desenvolvimento no âmbito da gestão cultural em Natal. O número de casas de cultura da cidade é notável e os artistas que surgem na capital começam a ganhar destaque nos principais meios de comunicação da cidade, o que certamente aumenta a motivação dos artistas e, também, a satisfação dos moradores da cidade, que recebem mais alternativas de lazer cultural.

Um exemplo é a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte) que, sob a gestão da prefeitura de Natal, foi restaurada e hoje funciona como um centro de cultura que abriga lojas de artesanato, espaço para exposições e palco para apresentações artísticas.

No momento, a Funcarte apresenta, até 25 de outubro de 2009, a exposição Animais Literários, da artista plástica Sofia Porto, uma carioca-potiguar, que uniu sua paixão pelos animais ao amor pela literatura em obras que exaltam a natureza e o lirismo que ela evoca nos seres humanos. Com uma idéia simples, mas criativa, Sofia inova ao transpor sua imaginação para o papel, partindo de fotografias de insetos, animais e outros vestígios de natureza que ainda encontra numa capital em crescimento.

Assim como a cidade em que vive, Sofia Porto é uma promessa, e o que se espera é que a cidade de Natal acompanhe o ritmo de crescimento da artista. E que não seja imprescindível deixar Natal rumo ao Rio ou a São Paulo para ganhar o mundo.

Animais Literários, por Sofia Porto
Fundação Capitania das Artes
Av. Câmara Cascudo, 434.
Tel: (84) 3232-4956 / 3232-4946
Natal – RN

Até outubro de 2009 fica em cartaz no Oi Futuro do Rio de Janeiro a peça Sutura, texto do escocês Anthony Neilson, dirigido por Felipe Vidal e interpretado por Cristina Flores e Lucas Gouvêa.

Em princípio, a peça aborda o transtornado relacionamento de um casal jovem, com dificuldades de comunicação, problemas com o passado e dúvidas em relação ao futuro. Num teatro diferente, em que são duas as platéias, e que ficam uma de frente para a outra, podendo o palco ser um mero obstáculo para a comunicação entre os espectadores, os primeiros momentos são de expectativa, uma vez que o tema e o ambiente são incompatíveis: uma história batida num espaço novo.

No decorrer da peça, contudo, o tema ganha novos contornos, a começar pelo jogo temporal, que requer muita atenção e certa familiaridade com esse tipo de recurso, já que o vaivém abrange não só presente e passado, mas também um possível futuro.

A partir daí, o texto torna-se surpreendente e o palco (que na verdade são dois, já que uma cortina semitransparente o divide em duas metades) transfigura-se em parte essencial da peça. Tudo vai bem, então, rumo ao ponto alto do texto, que em muito se assemelha aos Contos de terror, mistério e morte, de Edgar Allan Poe.

Em determinado ponto, para mim o auge, momento em que há uma tensa discussão entre o casal, que culmina numa cena grotesca (que não é possível descrever!), um misto de choque, terror e contentamento tomam conta do teatro. Eis a hora mais indicada para o encerramento do texto. Como ficar melhor que isso, ou como manter tal nível de euforia perturbada que domina a platéia? Impossível! Se fosse um dos contos de terror, mistério e morte teria terminado por aí, com uma platéia de espectadores muito surpresos.

Mas… A peça continua e acaba voltando para a calmaria inicial, para a discussão do relacionamento amoroso e toda aquela história. De todo modo, quem gosta dos contos de Poe vai, seguramente, aproveitar a experiência, ainda que os enfraquecidos minutos finais causem certo desânimo.

Sutura
Texto: Anthony Neilson
Direção: Felipe Vidal
Elenco: Cristina Flores e Lucas Gouvea
Até outubro de 2009.
Teatro do OI Futuro
(Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo/RJ)

01. Para quem ainda não conhece Tiago Iorc, por qual música(s) você sugeriria começar? Que música(s) do Let Yourself In passa(m) melhor o recado?

‘No One There’ e ‘When All Hope is Gone’ são minhas favoritas do disco. Ambas representam bem o que eu queria expressar com a minha música.

02. O pontapé inicial do seu trabalho veio com uma mp3. Qual é a sua relação com novas mídias tais como myspace, youtube e twitter? Dá para fazer uma boa divulgação só com elas?

A internet ajuda bastante e procuro aproveitar as facilidades que ela possibilita, sempre de forma coerente com o restante do trabalho. A utilização dessas novas mídias é essencial, sem dúvida, e contribui bastante com todo o trabalho que acontece paralelamente, fora do mundo virtual.

03. É comum no mundo da música ouvir a frase “para esse álbum tivemos tempo de…” como algo que influencia na qualidade do resultado final. Você gostaria de ter tido mais tempo para gravar o Let Yourself In ou a pressão de ter um prazo acabou ajudando no resultado?

Quando recebi o convite para assinar o contrato com a gravadora tive que fazer uma escolha. Aproveitar a oportunidade de gravar o disco era aceitar trabalhar com um prazo curto. Optei em abraçar a oportunidade, extrair o máximo possível daquela experiência e me esforçar para gravar um bom disco. Acho que trabalhar sob a pressão do prazo de entrega foi bom para aquele momento. Aprendi bastante. Algumas coisas boas, inesperadas, podem surgir quando trabalho sob pressão, mas prefiro trabalhar com calma. Ter tempo para compor, para absorver, para testar, para mudar. Gosto de ter esse cuidado com a minha música.

04. Como é regravar um clássico dos Beatles e arriscar uma roupagem 100% nova? Não dá um frio na barriga fazer algo assim?

Na época da gravação não senti essa pressão. Eu estava tão envolvido com tudo o que estava acontecendo que fiquei “anestesiado”, apenas mantendo o foco em terminar o trabalho. Mas, sem dúvida, é uma responsabilidade enorme regravar uma música dos Beatles. Me deu frio na barriga agora, só de pensar.

05. Geralmente pergunto o papel do circuito underground de shows na divulgação de novas bandas. Com contrato em gravadora, música em trilha de novela e filme, qual a importância dos shows como seu cartão de visitas? Você parece ter uma relação bem próxima com os fãs.

Eu gosto muito de tocar ao vivo, de trocar energia com o público. Para mim, é a melhor recompensa por todo o trabalho que vem sendo feito. O show é um momento muito especial. Acredito que todas as pessoas, assim como eu, continuam sendo muito carentes de experiências que possam saciar seus sentidos. Ouvir, ver, tocar, cheirar… O show é o momento onde tudo isso acontece, onde as pessoas podem interagir fisicamente entre si e com a música, e ter uma noção concreta de quem é o artista.

06. Talvez seja cedo para perguntar, mas, já faz idéias de que caminhos musicais pretende explorar mais adiante? Manter-se firme no soft rock, explorar uma pegada mais pesada, trabalhar os flertes com jazz…

O primeiro CD foi uma grande bagunça na minha cabeça. A composição ainda era uma coisa muito nova pra mim e acabei passeando por todas essas influências por falta de experiência mesmo. O que não acho ruim. O disco tem uma inocência, uma honestidade daquele momento, que valorizo bastante. Me preocupo em estar constantemente aprendendo e evoluindo como músico e como artista, e ‘Let Yourself In’ foi um importante primeiro passo. Hoje já me sinto mais seguro. Minhas letras e minha musicalidade já estão começando a ter uma coerência maior com o que busco na música. O próximo disco será menos soft.

O Prédio, o Tédio e o Menino CegoUm romance existencialista bizarro. Definição perfeita. Esta lá no meio do texto, nem fui eu quem disse, foi ele, ou ela, assim, prontinho para ser usado na resenha, numa dessas de preguiçoso que mata o livro numa tacada só e fica livre para não falar nada com nada no restante do texto. Mas aí eu lembro que hoje em dia um autor não é só seu livro. Nada disso. A voz do autor está também no blog, esse famigerado veículo de opiniões. E lá no Jardim Bizarro, que um dia foi vermelho de Amor e Hemácias, o Santiago Nazarian disse que ninguém mete o dedo na sua orelha. É uma coisa que não me esqueço, não sei a razão, e já devo ter citado em outras resenhas daqui. E a orelha de O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é didática, pragmática como cabe ser a uma orelha. Lá no final diz que é o tipo de literatura que desperta zumbis, e eu ri. Eu ri porque achei que era uma brincadeira com o atual debate de limite de gêneros, mas o Tédio, o Menino Cego e o Prédio dão seu jeito de se desprender da realidade com maestria, espalhando zumbis metafóricos e metalingüísticos, mas nem por isso menos ávidos por neurônios, nem por isso menos animadinhos do que o Otto. Sim, tem zumbis. Mas nisso eu fugi da definição, do existencialismo bizarro, que era de onde queria partir e onde queria chegar.

Sabendo da história da orelha, olhei para aquela frase prontinha, embrulhada para presente, e pensei, hum, aí tem. Você pode argumentar sobre a minha total paranóia, que um autor não lança iscas no seu próprio oceano para pegar o crítico pela boca, de beiço espetado. Em minha defesa digo que O Menino Cego, o Tédio e o Prédio é um redemoinho de paranóia, feito para te arrastar para dentro, para o fundo, para que você tente nadar até a superfície e chegue a qualquer outro lugar. É um livro que desorienta. E num dos momentos mais explícitos de metalinguagem há um escritor, uma máquina de lavar roupa, os críticos e O Crítico, oras. E a piada é mais ou menos assim. Não, deixa a piada de lado, o que importa é O Crítico que fala mal dos críticos, que joga na cara o quanto eles falam besteira ao destrinchar teorias igual estou fazendo aqui. E eu nem li Almoço Nu, o Burroughs que me desculpe. Melhor me prevenir.

Mas há um modo didático que nem orelha intocada para se falar do livro, deixar explicadinho o que não quer ser explicado, quer é despistar, embaralhar as cartas do jogo para que não seja bem literatura do cotidiano nem literatura fantástica, que seja, de fato, existencialista, que tenha doses e overdoses de alucinógenos e humor negro, um gordo histérico e uma professora psicopata, num clima de pastiche policial. Isso servido em camadas, nos andares de O Cego, o Prédio e o Menino Tédio. Meninos, aliás, que são a nossa porta de entrada.

Os meninos.
São sete os meninos que acompanhamos na primeira unidade do livro. Há o Cego do título, o Gordo, o Atleta, o Negro, o Narciso, o Andrógino e o Junkie. Eles moram em um prédio inclinado, na beira da praia. São arquétipos propositais, reconhecíveis nos meandros da adolescência, na época de virada para a vida adulta quando a relação consigo mesmo é tão delicada quanto a relação com os colegas. Ser quem você é depende de sua própria opinião ou de como você se situa na hierarquia social do prédio, da rua, da escola? Há uma escala de poder, uma jornada de auto-aceitação descrita com doses de estranhamento. O Nazarian dedica parte do texto à face interna desses meninos, isola-os do todo, raramente estão juntos os sete, ele os trabalha em duplas, trios, vendo no grupo de amigos os subgrupos que se formam momentaneamente, por conveniência. É um dos pontos mais interessante dos meninos, dos sete e também dos personagens periféricos, a incerteza sobre suas amizades, a certeza de uma solidão que não se rompe nos pequenos diálogos ou na busca por afinidades. Dessa parte, entretanto, gosto bastante de um capítulo em que os sete estão reunidos, sobem uma ladeira indo rumo a um objetivo que não existe. No caminho eles pensam em seus porquês, pensam que poderiam estar lá ou em qualquer outro lugar, pensam no momento certo de sair de cena antes que não possam controlar o que se pensa deles. Mas, acima de tudo, é um capítulo simbólico do livro, é um capítulo que não se importa com o ponto de partida nem com o ponto de chegada, e diz que o que vale é o percurso, o processo, e vejo O Prédio, o Tédio e o Menino Cego como um livro que curte seu processo, que declara com a metalinguagem que a escrita é o melhor da história. O próprio autor compete de igual para igual com os personagens, avisa nas entrelinhas que ele também se metamorfoseia, se não da adolescência para a vida adulta, em outros casulos e crisálidas, em uma narradora capaz de migrar pelas páginas do livro de modo voyeurístico até a participação derradeira.

Não sei se essa parte fez bem ao meu niilismo. Talvez tenha feito bem demais, por isso a torcida para a chegada da Professora, a outra personagem-chave, a que mata menininhos. Se ficar pensando muito sobre o assunto, a resenha só termina ano que vem. Então vamos a ela:

A professora.
Um dos motivos do Tédio é uma greve de professores. As aulas são representadas pela sua ausência. Sem as aulas, não há tempo livre, pois o dia inteiro se torna uniforme, homogêneo em sua falta de função. Os professores entram no livro como um componente fantástico, um sopro de terror. Chegam para uma assembléia que supostamente decidirá o futuro da greve, mas chegam em vários ônibus de turismo, uma revoada, migratórios, loucos para aproveitar a praia que há em frente ao Prédio inclinado. São uma massa, um coletivo que planta a semente para a futura chegada de Regina, a professora que nos interessa.

E Regina chega pelo oceano, quando o mar congela, surgindo de um lugar que ninguém sabe bem. Ela deixa os meninos curiosos com a novidade, tudo que é diferente, que é mudança, é uma arma contra o Tédio. Mas Regina é mais do que isso, ela traz em si muitos papéis para sacudir a história e os hormônios. Regina marca a entrada em outro universo, em que os meninos deixam de ser meninos e passam a tentar impressionar a nova moradora. Não é que Regina seja do tipo agradável, pelo contrário, parece medir as palavras para ser incômoda, e faz isso com uma naturalidade paradoxal própria dos seres irritantes. Mas Regina é inacessível, é a grama mais verde. Num primeiro instante todos querem estar com ela, ser como ela. Adiante, as opiniões vão divergindo, os meninos conquistam uma individualidade além dos rótulos. Uma das grandes sacadas de Regina (e do autor) é exatamente sumir com os rótulos. Quando o Gordo deixa de ser o Gordo, o Andrógino deixa de ser o Andrógino, …, e o autor apresenta seus nomes não só para o leitor mas para os próprios personagens, eles precisam encontrar novos papéis na hierarquia, na história, o que desestrutura a relação e os joga para outras faces de seus arquétipos, onde o Junkie é ainda mais junkie e menos iluminado, o Gordo que apanha vira o gordo que bate, o Narciso não é mais o centro das atenções e encara suas inseguranças.

Regina é também a professora e eleva à enésima potência a máxima de que sobreviver ao colégio é para poucos. Não porque seja exigente dentro da sala de aula, mas porque é uma louca psicopata que mata criancinhas. Uma mistura de Bruxa Má e Branca de Neve no meio dos seus sete anões. Os momentos em que o Nazarian enfia o pé na jaca com gosto e explora as sandices da personagem dão um fôlego extra para o final da história, pelo menos para os que curtem humor negro. É uma delícia. Passei o livro inteiro esperando por ela, e confesso que foi com ela que me diverti, mesmo tendo pena dos meninos, já que também não sou assim sem coração só porque escrevo resenhas.

Fazendo um apanhado de clássicos do policial e do terror, Regina desfila um cabedal de técnicas de assassinato, sumindo com cada um dos meninos de um jeito diefrente. Há o machado que destrói a porta repentinamente, auto-referências reptilianas e um chá envenenado que é meu assassinato predileto. Com uma professora assim, diretora carrancuda parece brincadeira de criança.

Os zumbis.
Para fechar, vale falar do estranhamento. Tenho ficado de olho no modo como os autores se aproximam ou se descolam da realidade, e o Prédio, o Tédio e o Menino Cego é cheio de artifícios. O mais direto deles é o prédio inclinado, sempre a um passo de desabar. Está lá para deixar tudo fora do lugar, para tirar do eixo. O elevador não funciona, as pessoas se desequilibram, o Negro é ejetado, o Gordo rola pelo chão. Nazarian brinca também com as mudanças climáticas. Há um sol de rachar que lota as praias, o mar congela na chegada do inverno, vira uma imensa pista de gelo. É por ele que vem Regina. Quando o calor volta, um imenso deserto, o mar desaparece, insetos tomam conta.

Alguns são elementos de ambientação, outros interferem diretamente nos ânimos e na trama. E aí chegam os zumbis.
O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é Coraline with lasers. Ou Coraline ouvindo Suede de franjinha. Não por acaso o único sobrevivente desse massacre chamado adolescência é…

O Prédio, o Tédio e o Menino Cego
Santiago Nazarian
Ed. Record
343 páginas
Com ilustrações muito bem sacadas de Alexandre Matos. Gostei especialmente do pingüim.

Portal StalkerNão é de hoje que vejo ecos de Alice nos quatro cantos das artes, foi assim desde sempre. Muito se fala de Alice pelos delírios lisérgicos, pela garota que diminui e aumenta de tamanho, que pede conselhos a uma Lagarta amarradona no narguilé, que fala com um gato que pisca. É um jogo de percepções, é a explicitação narrativa da inconstância da realidade, é um monte de palavras bonitinhas que nos fazem esquecer o principal sobre Alice no País das Maravilhas – ele foi um marco na literatura infantil por dispensar a moral. Nada de órfão que perdeu a avó católica, nada de meninos que congelam os pés na neve por não terem o que calçar, nada de garotas que se perdem na floresta e são comidas por um lobisomem que curte coroas. Lewis Carroll queria, acima de tudo, contar uma boa história, e há certa ironia que seja um livro nonsense a nos lembrar disso, do valor da boa história.

Sem entrar no mérito dos livros que sobrevivem da pregação de valores, eu me concentro aqui na ficção-científica brasileira, na parcela que acompanho hoje. Se não há ninguém que, amém, pregue valores cristãos em cada confronto alienígena, há outra moral sorrateira e rastejante que se impõe como quem não quer nada. A moral do “veja só como escrevo bem”, “meu livro encalhou menos do que o seu”, “quem, cof cof, você pensa que é”. É a moral do cara que não agüenta ser sapinho no brejão e decide ser o sapão do brejinho, sábias palavras de Glauco Mattoso que cito sempre. Talvez pela ficção-científica ainda estar vencendo as barreiras do nicho, e não duvido de seu grande potencial de vendas – cegas são as editoras, às vezes me pergunto se os autores não conversam entre si ao invés de se comunicarem diretamente com o público.

Insisto nisso porque a ficção-científica é só uma roupa. É um jeans com camiseta como outro qualquer. Um autor pode vestir seu drama como bem entender. Alguns preferem vesti-lo com magia, outros com andróides perturbados. A literatura dita mainstream, que chamo de literatura do cotidiano para ver se um dia o termo cola, pode até fingir que é um corpo nu, mas também tem lá suas vestimentas e maquiagens. Ficam na porta ao lado, é verdade, mas com um armário cheio do mesmo jeito. Sai a nave espacial e entra o pó de barro, o sofrimento do imigrante. Sai a arma de prótons e entra a família de classe média cheia de podres. Sai o dragão tirânico e entra a favela, a periferia, o marginalizado, o cara que trabalha consertando os canos dos esgotos. E nisso, sinto muito, não há nenhuma nudez. Não existe literatura nua. Não importa a fantasia que se escolha, o que conta no final, veja só, é ter por baixo uma boa história.

Mas o que isso tem a ver com a Portal Stalker? Muita coisa. E com essa resenha também. Vamos num passo de cada vez.
Mente por trás do projeto Portal, Nelson de Oliveira é um cara bastante presente na literatura brasileira. Está sempre escrevendo alguma coisa, organizando coletâneas, dando palestras aqui e ali. Assim, por conhecer muitos autores e agitadores é capaz de fazer pontes sobre o muro imaginário que separa os gêneros. Digo isso porque é dessa forma que vejo o projeto Portal, uma revista-livro que abre as portas do armário e mostra para as roupas de um lado as que ficam guardadas no outro. Que joga o batom no chão e diz “não me venha dizer que não usa maquiagem”.

Mas que metáfora bisonha foi essa, Eric? Bem, eu comecei a resenha falando de um livro de nonsense, o que mais você esperava?
Dito isso, escolhi comentar da Stalker os contos que me passaram essa sensação do ‘contar histórias’, do autor que se diverte junto com o leitor. Nada contra o experimentalismo ou as abordagens líricas. Acho que temos mesmo que reinventar a roda ao máximo, acrescentar e subtrair ingredientes na poção para testar seus sabores. Mas hoje, não garanto amanhã, o que busco como leitor é um autor que tenha compromisso de bardo.
Novo protótipo. Geralmente o que me atrai nos contos do Roberto Souza Causo são os artifícios que ele usa para fazer a imersão na ficção-científica. Por pura curiosidade, tenho cada vez prestado mais atenção em como os autores se descolam da realidade e o Causo brinca bastante com isso. O conto Novo protótipo se passa no bairro da Liberdade. Começa com “Bairro da Liberdade. Séculos atrás…”, o que já quebra a idéia de tempo, e narra então episódios futuros, jogando a história para um futuro posterior ao que ainda desconhecemos.

O desconhecido também aparece nas palavras criadas. Um passeio na rua nos oferece centenas de imagens que já nos habituamos. Você sabe o que é um shopping, o que é um cinema, sabe o que é carro, metrô. Um jeito de quebrar essa conexão e utilizar palavras novas (ou menos comuns) como se fossem elementos habituais. Então há dutos fibróticos, metrômaglev, pirâmides arcológicas, holodisplay, ultrepoxi e por aí vai. Com isso, mesmo em poucas páginas, o Causo consegue criar uma mitologia que dê base ao texto, cumprindo parte da missão da literatura fantástica.

A história é simples: Bella é uma assassina que, após cumprir sua missão, tentará fugir de seus contratantes. Detalhes podem funcionar como spoiler, então não os darei. Mas vale dizer que a ambientação é um dos grandes atrativos. Senti certa dificuldade de me conectar com o drama de Bella, mas também é uma protagonista interessante por tudo que tem a oferecer. Viraria fácil um episódio do Animax.

“Empurro a bicicleta junto ao meio-fio. Milhares de paulistanos se aglomeravam nas calçadas. Uma procissão de carros arrastava-se pela Avenida da Liberdade. Era véspera do Hanamatsuri e havia um modesto jubilo budista no ar”.

Luiz Bras, por si só uma ficção, participa com o conto Singularidade Nua. Foi um dos que mais me entreteve. O autor pinga as informações em blocos de texto, mantendo o mistério até o fim, apesar do mistério não ser a base para a história. O primeiro bloco passa a idéia de que algo deu errado, sabe-se lá onde, e que o protagonista, o doutor, irá lá para entender e não necessariamente consertar.

Os blocos seguintes revelam que esse lá são três naves rumo ao desconhecido, cada uma com um irmão. O doutor precisa convencê-los a ativar a autodestruição das naves, e usa com cada um deles um jogo distinto. O deslocamento da realidade se dá pelo modo como o doutor atravessa as distâncias para chegar às naves e com o ambiente onírico que se apresenta dentro delas. Tomadas as devidas proporções, me lembrou da ambiência do primeiro conto de Ray Bradbury em O Homem Ilustrado, em que as crianças arrumam um jeitinho nada convencional de usar seu quarto holográfico para vencer uma disputa com os pais.
Há também uma beleza visual, uma poesia que não afoga a narrativa. Um cuidado com as palavras que me agrada bastante no uso de sombras, cubos de gás verdes e bolhas de sabão.

“Pegou o objeto da mão do visitante. Era um cubo pequeno e pesado, feito de vapor verde. O gás estava todo contido no interior, mas não havia seis paredes sólidas impedindo que vazasse. Huno percebeu isso ao enfiar o dedo em uma das faces, por mera curiosidade. O dedo atravessou sem resistência alguma”.

Ivan Hegenberg participa com Esquizóide, conto excelente que anuncia nas primeiras linhas sua proposta “Já não sei dizer. Se sou real. Ou um personagem de ficção”. É um conto que brinca com a estrutura narrativa sem derrubar o leitor no meio da viagem. Um conto que fala do turbilhão de informações que nos atropela, de como nossa relação com a memória se reflete na formação de identidade.

O narrador não sabe quem é. Para descobrir, começa a revisitar o turbilhão de imagens e sensações que lhe vêm em mente. Borges, Beatles, Bart Simpson, burca, traficantes. Conforme repassa seu arquivo de lembranças, o personagem passa a duvidar de si mesmo, a achar que aquilo não pode ser representativo da realidade tamanho o seu grau de fantasia. Sem decodificar essa realidade fantástica, assume-se como um personagem criado, mas sendo um personagem metalingüístico, ciente de sua condição de personagem, continua sem se entender levantando hipóteses até o fim. Muito bem escrito. Bom encerramento da revista.

“Muitos dados, muitas informações, e não sei de onde vêm. Como se eu estivesse cego, por mais que as imagens cheguem nítidas. Síndrome de Charles Bennett? É uma das possibilidades. Os olhos estão mortos, mas o cérebro ainda sabe ver. E alucina”.

Marco Antônio de Araújo participa com quatro contos. Seu descolamento do cotidiano se dá com o estranhamento. Ao contrário de Causo, a brincadeira aqui se dá com o uso de palavras costumeiras em situações nem tanto. O que mais gostei foi Tempo Virtual, mate real por enfiar elementos de religião na ficção-científica, com direito a terroristas e estanques de fluxo temporal, e também pela nossa postura cada vez mais artificial em encontros sociais. Lá pelas tantas, me peguei numa viagem particular adaptando os santos de hoje, as estátuas que chamamos de imagens, para hologramas, imagens na essência da palavra. Uma fé futurista ainda menos palpável.

“Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção, disparou a tomar providências. Tratavam-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos de etiqueta, protocolos de natureza diplomática”.

Brontops participa com três textos muito bons. Os três tratam de um futuro presente e são muito bem escritos, sem tropeços de ritmo. Em matéria de humor, é o destaque da Stalker com Buraco no céu, que comento aqui. O conto narra um contato com um alienígena que chegou por nossas terras. A questão inevitável é “quem será eleito como representante do planeta para tratar da rendição?”, no melhor estilo Marte Ataca. E aí, nesse choque, na hora de ver quem é quem, o narrador repensa Chuck Norris, Carla Perez, Bono Vox, Bush e outros nomes e situações que entregam nosso atual estágio de evolução, digamos assim. A piadinha do final é a cereja do bolo, no melhor esquema “seria cômico se não fosse trágico”.

“Dessa forma, há uma breve confusão para saber quem irá se render em nome da humanidade. Uns sugerem o papa, outros o Nobel da Paz, e aqueles que ainda se lembram ventilam o nome de Bono Vox”.

Para fechar, um conto que não decidi se gostei ou não no fim das contas. O conto Gigantes, de Mayrant Gallo, narra a história de um casal que encontrou uma pessoinha no jardim e a engaiolou. Um ser humano em miniatura. A história se desenvolve expondo as reações e decisões do casal diante daquele ser. É claro que humanos não prestam e não o tratam bem. Gosto do tom de fábula moderna, mas me incomoda a questão da moral, como comentei no começo dessa resenha. Além disso, o homenzinho demora a aparecer, deixando a primeira parte um tanto centrada na questão “a mulher manda, o homem enlouquece”.

“Davi voltou a percorrer toda a casa em direção aos fundos. Se o vento castigava ali na frente, não iria enfrentá-lo. Sairia por trás e, contornando a casa, alcançaria o jardim. Não só evitaria o vento, como chegaria bem mais rápido”.

Tenho voltado meus olhos para a literatura dita infantil e infanto-juvenil para entender melhor o mercado, estudar as diferenças de linguagem, indo de Goosebumps e Lygia Bojunga ao onipresente Harry Potter. Quem lê as resenhas aqui do Aguarrás deve conhecer a minha posição quanto aos ensinamentos e à moral dentro de uma história infanto-juvenil. Enalteço Alice por ser um texto que vira para o lado oposto e minimiza as pregações do que é bom ou ruim ao utilizar o nonsense. Me vem em mente a cena do julgamento de Alice, em que o Rei muda de opinião a cada linha e nunca sabe bem o que quer dizer. Não se trata de anular o herói. Não há dúvidas de que Alice seja uma heroína, ela resgata bebês, mesmo que esses virem porquinhos na cena seguinte. Mas é preciso brincar com as coisas, relaxar o arcabouço dos arquétipos. A Fantástica Fábrica de Chocolate dá o tom do que quero dizer. Antes do início da história, Roald Dahl apresenta os personagens da seguinte forma:

“Nesse livro aparecem cinco crianças: Augusto Glupe, o menino guloso; Veroca Sal, a menina mimada; Violeta Chataclete, a menina que masca chiclete o tempo todo; Miguel Tevel, o menino que só vê televisão; e Charlie Bucket, o herói”.

Charlie não precisa de coração puro ou alma caridosa. Ao ser anunciado como o herói, a descrição de seus adversários passa a ser vista como brincadeira. Não me interessa mais nada em Violeta, ela masca chiclete o tempo inteiro e você conhece bem esse tipo de pessoa, hum?

Fiz essa repescagem de idéias para deixar clara a minha leitura de Farei Meu Destino, de Miguel Carqueija. O que guiou minha opinião.

Farei meu destinoPrimeiro o que gostei:
Já na dedicatória, Carqueija comenta quem serviu de inspiração: Walt Disney, Naoko Takeushi e Charles Sheffield. Assumir referências e o diálogo com o entorno é coisa que falta a muitos autores de literatura fantástica, todos fazendo clássicos definitivos e reinventando a roda. Então, ponto positivo. De Walt Disney, por exemplo, vem uma entidade que aparece no espelho (que não é espelho meu). Elementos rearranjados dentro da mitologia dinâmica que o autor criou. Saber as referências até torna a leitura mais interessante, num jogo para decifrá-las.

A fluência do texto também é boa, e o autor demonstra conhecer a idade de seu público. Quanto à estrutura narrativa, Farei meu destino é livro de se ler rapidinho, com cenas de ação e pitadas de humor bem distribuídas. Fala o suficiente para apresentar a cena ao leitor e não sobrecarrega de informações ou descrições visuais, deixando espaço para a imaginação, o que é típico de um livro infanto-juvenil.

A heroína começa bem, corajosa. Queima quem tem que queimar, mata quem tem que matar, vira a mesa quando precisa. Faz isso contra vilões declarados, é claro, um bando de tarados, uma freira demoníaca e um suposto estuprador, mas não anula o fato de não ter medo das soluções que envolvem violência (não gratuita). Seu melhor momento é a piadinha sobre óleo de rícino no final.

“Quando recordo aqueles dias, reflito muito nas circunstâncias que convergiram aquelas meninas para junto de mim, uma a uma, até formar aquele grupo sólido e de total lealdade mútua”.

“Embora elas não o pegassem à força, rodeavam-no de tal maneira que ele se sentia prisioneiro. Sandy tinha quinze anos, não poderia lutar contra seis garotas adolescentes. Também nunca se vira rodeada por tantas, e tão charmosas (…)”.

O que não gostei:
Esse é quase um detalhe, mas vale o comentário. Diana, a protagonista, tem um amor durante a história. Mas é um amor muito rápido, um amor que já estava lá e um amor que estará lá, ele não é um amor de tempo presente, então o leitor não consegue torcer por ele, apesar da simpatia dos personagens envolvidos.

Agora o ponto-chave: a religião.
Não é de hoje que religião e literatura fantástica se misturam. Lilith Saintcrow faz isso na série de Jill Kismet, uma caçadora de demônios. Lilith tira a mitologia do preto no branco com sutilezas. A igreja não apoiar os caçadores e dizer que eles irão todos para o inferno junto com os demônios é um dos artifícios. Thomas E. Sniegoski vai bem mais fundo na brincadeira e usa e abusa da mitologia católica. O detetive é um anjo com um cachorro labrador que trabalha de freelancer. Num conto, ele é contratado por anjos caídos para desvendar o assassinato de Noé, numa plataforma de petróleo.

Carqueija também faz sua mistura. Há um toque mágico de pedras da luz, um papel importante da Lua, tobogã voador, bastões mágicos, mundo dos sonhos, dirigível capaz de sair da atmosfera terrestre, coisas que curti consideravelmente, mas tudo isso sucumbe diante da religião. A mitologia funciona direito, é divertida, mas quando a religião entra em cena ela se destaca demais. Não sei a religião do autor, mas me pareceu uma escolha consciente. O livro abre, inclusive, citando um salmo: “Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pomba”. E com isso vem toda uma distribuição de peças: a do bem associado a estar ao lado de deus e a do mal dos ricos, o mal demoníaco que anula a força do mal humano. Insisto que me parece uma cartada narrativa consciente, que não passou da medida por acidente. Foi planejada para ser assim. O problema é que nisso se perde um público, pois a história passa a ser direcionada a quem curte princípios cristãos como eixo moral, que não é o meu caso.

“A Rainha da Serenidade preferiu zelar por todas, do Céu; mas vocês ainda devem permanecer no universo material, protegê-lo contra o Mal”.

“Neste sistema, a revelação de Jesus Cristo forneceu à humanidade as armas espirituais para barrar o caminho do inimigo íntimo, secreto, que vence pela tentação, pela perversão dos espíritos”.

Fui pego de surpresa, pois o livro começa com um tobogã voador, um castelo que abriga antigos segredos e poderes, e de repente a religião vai tomando conta. Faltou à capa, orelha ou contracapa dar uma dica do conteúdo do livro. Elas citam uma aventura fantástica e falam de mangás e animes como referências de trabalho recente do autor, sem dar pista do tom religioso que, ao meu ver, faz a diferença.

Não anula o fato de ser um livro bem escrito, mas isso poderia ficar mais claro.

Matisse e uns contemporâneos franceses na Pinacoteca. Todo mundo baba o Matisse e picha os contemporâneos. E essa é a maior prova de que maluco baba um e picha outros porque um é famoso e os outros não (pelo menos entre nós).

E são iguaizinhos, a curadoria está certíssima em pô-los juntos.

Não gosto de nenhum. E se tiver de, pincel apontado no peito, escolher algum, escolheria os contemporâneos.

Não vou falar do Matisse porque não tenho saco. Está bem, vou. A superfície, a sinuosidade, o imobilismo das figuras e da, em falta de melhor palavra, composição – aqui entendida como sinônimo de repetição decorativa. Imobilismo necessário porque qualquer outra coisa, como tensão no desenho, e lá se ia aguarrás abaixo a frágil alegria que fez sua fortuna e fama. As cores. A facilidade, a serialização. O alvorecer do consumismo desenfreado. Ok. Chega.

Às obras.

Matisse – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – www.aguarras.com.br  Philippe Richard – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – www.aguarras.com.br

Philippe Richard – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – www.aguarras.com.brMatisse faz colagens. Isto é, acrescenta camadas, acumula. Philippe Richard fura o suporte, isto é, retira camadas, suprime. Avançar ou recuar da superfície do suporte às vezes tem um elemento de tempo, de antes e depois. Não aqui. Como isso é feito em cadência e não em ritmo, fica só bonitinho. Richard, em uma de suas séries – os grandes painéis verticais com a incisão feita só na parte de cima -, apresenta um ritmo. É melhor que Matisse, portanto. Diferença entra ritmo e cadência, para quem não sabe: ritmo é sempre individual, mutável, e cadência é institucionalizada, estabilizada. Em mais uma das suas séries, Richard problematiza a superfície, coisa que Matisse jamais fez. São setas que se colocam, impotentes em sua agressividade colorida, perpendiculares à superfície toda-poderosa. Não que Matisse precisasse problematizar a superfície. Imagine. Logo ele, que não problematizou nada. É que, para nossa vida de hoje, a problematização, seja lá do que for, é melhor companheira.

Cécile Bart – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – www.aguarras.com.brCécile Bart é outra que problematiza a superfície da cor, e de forma até mais radical que Richard. Ela estende fios. Não chega a ser um penetrável. Ou pelo menos o olhar duro da guardinha me impediu de por lá caminhar. Mas o olhar entrou. E os fios, de cores diversas, formam outras. Você sabe. Você já viu coisa parecida com vários modernistas. Ela também explicita o que em Matisse some, escondido que está na representação de seus temas. Em seu Oblique, Bart sobrepõe quadrados de cor. Como a cor é translúcida, mais uma vez aqui a sobreposição não indica temporalidade. Só exercício de colorista mesmo, pois as cores sobrepostas formam outras. Mas, pelo menos, mostra o processo.

Mais um a olhar a superfície. E esse foi o que eu mais gostei de todos. Pierre Mabille. Fez um grafite. Escreveu o que devia pintar: “un lac”; “un épis de maïs”. Tudo muito bucólico. E muito sacana, pois ao escrever e não pintar, ao escolher uma linguagem de representação – a escrita – que é muito mais distante de seu referente do que a imagem, ele critica o figurativo Matisse. E faz mais. Entre lagos, nenúfares e espigas de milho, acrescentou, rindo, um “um caroço de manga’. Assim mesmo em português. Adorei.

Matisse detestava ângulo reto e punha tudo em sinuosidades. Frédérique Lucien também. São sinuosidades repetitivas, as de um e outro. E, porque se repetem sobre toda a extensão, são imóveis.

E voltamos a Matisse. Há poucas obras significativas. A presença de suas maiores obras, porém, não mudaria em nada a junção vaca sagrada x contemporâneos desconhecidos. Mas dá raiva ver a economia que está por trás das escolhas. Obras francamente medíocres, não fora a assinatura famosa, de seu começo de carreira, como a Paisagem de Bretanha, de 1887. E toma esboço em lápis e papel, ou em lito. E, sim, odaliscas retorcidas e passivas. E seus nus parados. E também as enormes cortinas de chuveiro, mais conhecidas por serigrafias da série Océanie. Com peixinho, conchinha, plantinha.

“(…) o desenho está intimamente relacionado à experiência. Mais do que qualquer outra mídia, o desenho representa uma relação direta com o artista, testemunho do entorno que o afeta, criando uma narrativa acerca do cotidiano materializada de forma abstrata ou realista.”

Esse é um trecho do release que a Vermelho distribuiu para acompanhar sua exposição Asimetrías y convergencias. São jovens artistas colombianos reunidos pela curadoria de Maria Iovino e que usam o desenho como técnica, mesmo quando constroem ou filmam.

Fiquei com as palavras “de forma abstrata ou realista”.

Lembrei de Borges.

Ele dizia que há três tipos de realismo:

- a narrativa de fatos significativos (a representação histórica, por exemplo);

- a utilização de linguagens tipificadas (o primitivismo, por exemplo);

- a descrição de detalhes insignificantes (o bordadinho de uma toalha na pintura holandesa, por exemplo).

Ele detestava os três.

Já eu, que gosto do terceiro, acho que em desenho só há a possibilidade de realismo. Ou você desenha alguma coisa ou desenha o processo de desenhar. Isso porque não há outra técnica tão próxima da fenomenologia do instante de sua fatura como o desenho. Então não há escape. Nem chega ao símbolo, à substituição. Fica no indicial, no vestígio. Falho, frágil e imperfeito, o desenho chega perto do seu contrário, a “perfeita” representação de uma foto que também, do mesmo modo mas ao contrário, retém nela algo além – ou aquém – de seu assunto registrado.

Mas o desenho ganha. Menos que eventuais figuras, identificáveis ou não, o que está lá é um campo de forças, com seus nós processuais. São processos contínuos de identificação. Nós – agora no outro sentido da palavra, o pronome pessoal. O desenho é nós: eu e você. O desenho é sempre um devir, um inacabado. Existimos, tanto quanto os desenhos, pelo que não está lá.

Tem mais uma coisa a me atrair nessa, ok, técnica (eu podia falar nessa vida). É o espaço em volta. Desenho fica sempre meio solto, incapaz que é de ocupar totalidades. E nessa soltura desarvorada há o tempo desistido, ou melhor, sonhado, do caminhar até a borda. Um dia.

E é aqui que eu volto para a Vermelho. Essa galeria, grande, com várias salas, deu um ritmo aos desenhos.

Por exemplo, os que foram feitos nas paredes, escorrendo para o chão, e com amplo caminho de aproximação.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - Carlos Bonil – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

Carlos Bonil usou um fio elétrico para fazer sua lâmpada antiga, grudada na parede. O fio termina como termina o objeto desenhado: em uma tomada. O que faz da parede uma parede. O que faz do mundo um suporte de desenhos a serem feitos e refeitos, mesmo quando já estão lá, como os fios elétricos que entram nas paredes.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - Ícaro Zorbar Sánchez – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br   exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - María Isabel Arango – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br   

Ícaro Zorbar desenha uma pilha de aparelhos elétricos na parede em frente. Seu fio, esse de tinta, se enrola pelo chão como se de tinta não fosse. Na sala perto, María Isabel Arango mostra sua A personal geography – cubos cuja tridimensionalidade inclui o chão e o ângulo de aproximação do fruidor. Em outra vertente, mas parecida, está Luis Hernandez Mellizo. Ele cavouca o suporte. Sua linha pode ser desenhada ou pode ser a linha real dos limites de uma superfície mais profunda.  Diana Menestrey Schwieger , no Dist-ansiando, faz um vídeo de animação. O fio, vivo, determina ele mesmo sua relação com o entorno.

São exemplos de quem não vê lá muita diferença entre um desenho e os indícios de mundo nele contidos.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 -  Andrés Ramírez Gaviria – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

Também em vídeo, Andrés Ramirez Gaviria, explode uma janela de vidro. O desenho, aqui, dura os segundos que os cacos levam para cair, dentro da moldura de madeira da ex-janela. Só uns segundos, e são tudo.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 -  Pedro Gómez-Egaña – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

Pedro Gomez-Egaña me fez rir com a relação entre seus papeizinhos recortados e montados em arame e a arte cinética dos modernistas, com todo seu aparato tecnológico da época. A simplicidade rindo de quem não a conheceu.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - Teresa Berlinck – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

A instalação de Teresa Berlinck assume a não completude inerente à técnica do desenho. Chama-se Hortus Conclusus e não tem nada de concluída.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - Natalia Castañeda – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br   exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 -  Mónica Naranjo – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

Natalia Castañeda fez um livro que se desdobra, o Hilando Vientos . É a mais tradicional – ou romântica – deles todos. E Mônica Naranjo, com sua Berlin half-stories, escapa do tradicionalismo de uma seqüência em quadrinhos ao quebrar a obviedade da junção de suas imagens e frases. Gostei muito de uma: “waiting to happen“. Achei que era uma boa maneira de ver a obra dela, uma polissemia que espera pela eclosão de sentido, a cada recepção.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 -  Angélica Teuta – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

E por falar em retardo de conclusão. A obra de que eu mais gostei é a de Angélica Teuta, Decoración para espacios claustrofóbicos. Eu já havia visto algo parecido. Na Paralela da Bienal de São Paulo, ano passado, Nicolás Robbio – um argentino que mora no Brasil – usou o mesmo processo. Trata-se de um retroprojetor que joga em uma parede cega alguma cena. Angélica Teuta fez um desenho em estilete em cima de uma folha de acetato. Pôs um recortado de papel que imita árvore por perto. E pendurou um lacinho de linha que, ao se balançar, fica parecendo um aviãozinho. Na parede, essas coisas formam a vista de uma janela que não está lá. A claustrofobia, portanto, se apresenta como algo que uma ilusão pode resolver. Mas a claustrofobia também pode ser resolvida com a quebra de uma ilusão, outra ilusão: a de origem, começo. A janela de Teuta não tem origem. Não há um “original”, sequer um referente. Há coisas que por acaso se juntam e se separam, ventos a balançar aquilo tudo. Sabendo-se fluido, o claustrofóbico pode olhar por horas uma parede cega, sem problemas.

Acredite em mim, sei do que estou falando.

Cariello Roteiro
Curso de Roteiro para Histórias em Quadrinhos no Espaço Cultural Terracota

Octavio Cariello já atuou nas grandes editoras de quadrinhos do mundo e neste curso ele apresentará a estrutura do roteiro para HQs segundo os padrões das maiores, permitindo que os interessados, desenhistas ou não, possam dominar este gênero que vem ganhando cada vez mais mercado no Brasil. Entre os assuntos abrodados estão: criação de personagens, elaboração de universos, elementos das narrativas gráficas, elaboração de projetos, entre outros.
O curso tem início em 16 de Setembro de 2009 e é certificado pela Universidade Cruzeiro do Sul
Dia e horário: quartas, das 19h30 às 22h30.

Matrículas e dúvidas no email contato@terracotaeditora.com.br
ou pelo telefone 11-2645-0549

http://www.terracotaeditora.com.br

Espaço Cultural Terracota – Av. Lins de Vasconcelos, 1886 – Vila Mariana – São Paulo/SP

É com grande prazer que anuncio a criação do podcast do Aguarrás.

Podcast é um arquivo de áudio. Está sendo chamado de “rádio na web” mas este me parece um conceito estranho, já que o rádio pressupõe uma programação cheia e linear. Independente de questões filosóficas sobre o podcast, podemos resumir como “áudio”.

O podcast do Aguarrás entra no ar ainda em setembro e o primeiro convidado é o artista plástico, fotógrafo e designer Danilo Salvego. A periodicidade é quinzenal e o arquivo de áudio pode ser reproduzido livremente desde que sem qualquer alteração ou edição e com um link para o podcast.

Desde já agradecemos a divulgação!