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Category Archives: edicao_0027

lista de artigos da edição 27, ano 5 – setembro & outubro de 2010

É comum observamos pessoas com uma idade mais avançada reclamar: “Não se fazem mais coisas como antigamente”. Neste caso, “coisas” referem-se ao cinema. Não se faz mais cinema como antigamente? Luis Buñuel, Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman e outros dinossauros estariam se revirando em seus túmulos ao observarem o que é produzido atualmente?

Várias discussões geram em torno do período atual, a pós-modernidade. Entre elas, está a desvalorização da arte e a venda desta. Há a criação de uma indústria cultural que tem como objetivo aprisionar o público.

Este período teve início no final dos anos de 1950 e representou mudanças socioculturais para a população. A pós-modernidade “revelou um novo estágio do capitalismo no qual a cultura e a informação se transformaram em setores estratégicos para a luta” (STAM, 2006, p. 328).

As obras de arte viraram mercadorias de fácil acesso aos seus consumidores. Está em qualquer prateleira, qualquer interessado pode pegar. O cinema foi um alvo certeiro do pós-modernismo. Nessa linha são produzidos filmes bobos, heterogêneos, sem importância histórica e carregados em emoção.

Então não existem mais exemplares de Bergman, Buñuel e afins? Estariam certos nossos avós e bisavós?

Quentin

A insanidade de Quentin Taratino é inquestionável. Cria da pós-modernidade, o cineasta ganhou destaque durante os anos de 1990 após lançar “Cães de Aluguel”, porém ele ganhou uma notoriedade maior através de “Pulp Fiction”, que lhe rendeu vários prêmios entre eles estão o Oscar, o BAFTA e o Globo de Ouro.

Diálogos longos, narrativas não lineares e a presença da carnificina são algumas características de seus trabalhos. “Death Proof” encaixa-se perfeitamente neste exemplo. Neste longa, Tarantino é uma aula da estética do mau gosto. Na verdade, o cineasta está mergulhado no kitsch.

“Death Proof” foi lançado antes de “Inglourious Basterds”, porém na maioria dos cinemas brasileiros o filme foi exibido após o longa encenado por Brad Pitt e sua trupe. O filme é a parte 2 de Grindhouse, a primeira parte foi “Planet Terror” de Robert Rodriguez, amigo e colaborador de Tarantino.

Mulheres bonitas, carros, álcool e um serial killer são alguns elementos de “Death Proof”. Com sequência cronológica, o filme narra a estória do matador em série Stuntman Mike e seu carro “à prova de morte”. Para isso, Tarantino insere-se profundamente na estética do kitsch.

Para este trabalho em especial o cineasta cria propositalmente um ar retrô. Pequenas falhas são vistas ao longo da narrativa, mas nada que atrapalhe a mensagem ao receptor. Nele, é facilmente detectado objetos que fazem alusão ao passado, como um imenso jukebox utilizado na primeira parte do filme. Retorno ao passado é uma marca pós-moderna.

O troco: o efeito do kitsch

Um abrupto corte. Leiam a pergunta abaixo e logo após a resposta:

O que tem comum George Minafer (interpretado por Tim Holt em “Soberba” de Orson Welles) e Stuntman Mike (interpretado por Kurt Russell em “Death Proof”)? Mesmo em circunstâncias diferentes, os personagens citados levaram um “troco”.

“Dar o troco” segundo o Michaelis significa resposta, a tempo, a uma ofensa.

Quentin Tarantino e os personagens dos seus filmes nos ensinaram a arte magistral da vingança e que, geralmente, é encabeçado por mulheres – um machismo às avessas. A sensação, já trabalhada em Kill Bill, faz com que a plateia em “Death Proof” chegue ao delírio ao ver que uma espécie de justiça fora feita. Em Apocalípticos e Integrados “O kitsch põe em evidência as reações que a obra deve provocar, e elege para finalidade da sua operação a reação emotiva do fruidor” (ECO, op. cit, p. 77).

São incontáveis os cineastas que fazem uso da vingança como tema. Personagens como George Minafer e Stuntman Mike foram os primeiros que vieram à minha mente. Sei que ambos passaram por situações divergentes, mesmo assim valem como exemplificação.

Recentemente, vi “Scarlet Street” do Fritz Lang e resolvi incluir neste texto. Confesso que no início fiquei entediada (podem falar mal por eu dizer isso de uma obra de Lang), contudo o diretor conseguiu reverter esse estado.

Uma sequencia que chamou minha atenção foi quando alguns homens – creio que sejam jornalistas, e Christian Cross, um homem de meia idade interpretado por Edward G. Robinson, estavam em um trem. Lá, eles conversam sobre punição e um dos jornalistas afirma para Cross que a principal punição é aquela que parte de si. E assim, Cross viveu sendo perseguido por esta ideia e pelos fantasmas de Johnny Prince e Katharine March após se vingar de ambos.

Voltando a falar sobre Tarantino… Mesmo ao utilizar da estilística do kitsch para se aproximar do público, Quentin Tarantino sabe extrair das suas imitações e seus jogos apelativos argumentos necessários para se fazer arte.  Ele sabe fazer da violência, ou melhor, da vingança o público atingir o estado da catarse.

Tarantino não é clássico, mas sabe fazer um novo cinema.

Referências:

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. 2. ed. São Paulo: Papirus, 2006.

ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

Uma coisa meio escola e inteiramente preocupante. Porque já vivi isso antes, e na literatura. Quando “descobriram” que criança estava lá, esperando. Aí literatura primeiro virou principalmente literatura infantil, pois era a que mais vendia. Não mais literatura ponto. Mas com o adjetivo. E, logo depois, a literatura infantil virou algo que se ensina.

Revivi esse terror, que foi parte da minha vida e da do país, no chamado boom da literatura infantil. Sendo que boom da é uma aliteração que não evito, pois significante. Revivi. Na Bienal.

Era como uma escola. E, desculpem, meninos, sei que não é de vosso tempo. Mas escola com aula de Moral e Cívica.

Abundavam – sou persistente – projetos.

Exemplos:

- o CADA. Colectivo Acciones de Arte, do Chile (dissolvido em 1985!), com vídeo-depoimento dos “habitantes mais desfavorecidos” e tomando uma produção rural (de leite) como fio condutor;

- o Centro de Pesquisa sobre a Normalidade Brasileira, que estuda curiosidades antropológicas de São Paulo pois “como todos os regimes americanos colonizados, o Brasil vive numa área que não corresponde exatamente ao mundo real em que se situa” (ahn?, mundo real?);

- o Instituto de Mecânica, que toma o nome de um esforço educacional do século XIX para, desta vez de forma mais “democrática, auto-organizada e dispersa”, ensinar o que os ingleses tentaram ensinar às massas ignaras destinadas a suas fábricas do início do capitalismo;

- o do nigeriano Otobong Nkanga, que filmou a decadência de um conjunto habitacional, o Dolphin State (Dolphin State?!), de 1990 (!!);

- o documentário Extracción, de Gabriel Acevedo Velarde, com depoimentos de mais uma carrada de  ”habitantes desfavorecidos”.

E mais:

- instalações reproduzindo as gavetas-dormitórios das cidades-idem japonesas;

- o Manifesto pela volta dos judeus poloneses à Polônia (manifesto mesmo, uma pilha de cartazes, que alguém sugeriu que pegássemos para levar para casa);

- o documentário filmado em uma sweat shop de produção de roupas asiática, a Chen Chieh-jen Factory;

- uma foto do Rio da Prata com um texto lembrando que era lá que jogavam os prisioneiros políticos da Argentina. A foto sendo uma concessão aos alunos burros, uma ilustração por assim dizer, do texto educativo.

E dá-lhe mais mulheres chorando debaixo do shador, chinês sem dente, índio também sem dente, mais mulher, mais pobre. Mendigos assujeitados a câmeras invasoras. E desse jeito até mesmo o documentário que eu já havia visto e gostado, do Miguel Rio Branco, com suas putas miseráveis, ficou ruim de repente.

Projetos antropológicos, educacionais. Sem arte.

Ou, aliás, com arte.

Involuntária.

Por exemplo:

- as fotos do conjunto habitacional nigeriano, muito grandes, tinham seu papel abaulado por baixo do vidro. A curva do papel tornava os edifícios também curvos, desequilibrados, em um acréscimo muito eficaz ao conceito original. Que recebeu, enquanto eu e Roberto fotografávamos sem sucesso o abaulado, mais um acréscimo: o do monitor que explicava a um grupo de basbaques que as pessoas na Nigéria (e, deixou ele entrever, em outras partes do mundo igualmente desfavorecidas) “eram muito criativas”. E punham em suas casas acréscimos não previstos na planta original.

- mais uma arte involuntária, o vídeo dos pobres de Acevedo Velarde. Falavam, estes pobres, em seus vários espanhóis de colonizados. O vídeo, feito para mostras internacionais, chiques, de primeiro mundo, tinha legendas. E as legendas eram em inglês. Perfeito. Uma maravilha de síntese semiótica.

- mais uma arte involuntária: o projeto de estudo da normalidade brasileira é de Jimmie Durham. Durham é um americano que vive atualmente na Europa. Isso não é dito, claro. Vi na Wikipedia. Mas vale todo um compêndio sobre a relação entre o sintagma normalidade e seu uso pela estrutura de poder. Já que estamos na escola.

E mais.

Documentos de performances, o que é toda outra discussão. Pois se é necessário haver registro, o registro é uma contradição inescapável de uma arte que se define como acontecimento, como eclosão não durável, sequer repetível.

E mais.

Documentos do que não é performance por mais que se queira que seja, como a luta livre de um artista do ringue, o autodenominado Minerador-Lutador-Artista Adrian Street.

E mais a Marilá Dardot. Que continua com sua fé inquebrantável no valor simbólico da palavra. Simbólico, não. Mítico. Ocupando o terreiro Longe daqui, Aqui mesmo, a referência a poetas parece ser considerada o suficiente para que a poiesis individual de cada um dos citados ocupe, ocupe o quê? Um espaço? Ali? Parado? Sem a possibilidade de ressignificação que todo processo de comunicação supõe e que todo processo educacional-mitificador mata?

Saí para o recreio.

Porque também tinha recreio, nessa Bienal que descrevo como a mais equivocada que já visitei, aí incluída a do vazio.

E no recreio, ufa, encontrei gente de quem gosto:

Tatiana Blass – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA começar pelo piano da Tatiana Blass, que tenta e tenta produzir arte à medida que vai sendo engessado pela cera da burrice. O nome, aliás, é Metade da fala no chão. Adorei.

Rosângela Rennó parece ser sempre capaz de me comover em meio a essa arte tão pouco comovente. Ela e suas máquinas velhas, fotos antigas, porta-retratos fora de moda, tudo que não presta do nosso passado e que é, de repente, o que nos forma. Nome: Menos-valia.

Efraim Almeida põe ele mesmo pequenininho e nu. Feiinho, barrigudo e adorável. O artista ali existindo, em bonequinhos dele mesmo, preocupado decerto em não ser pisado por quem passa, ou ser esmagado por alguma certeza absoluta.

Jonathas de Andrade dá uma resposta a tudo que eu disse no começo deste artigo. Sua obra se chama Educação para adultos. Uma série de fotos e seus títulos. Me lembrou a tirada célebre do Milan Kundera a respeito da frase “o futuro é das crianças”. Sim. acrescenta o escritor. Porque no futuro (que já chegou, justamente), todos seremos exatamente isso, crianças. Jonathas de Andrade faz com que a gente tenha vergonha de estar ali, neste papel que nos é imposto. Ou que me é imposto. Sei lá se posso falar por outrem. Pareciam gostar, as pessoas que riam e fotografavam tudo.

Cinthia Marcelle trouxe um quadro-negro. Sim, desses de escola. Percebe-se que lá escreveram, apagaram, reescreveram. No chão, o pó do giz usado. Nome: Sobre este mesmo mundo. Assunto: a repetição pedagógica (antipedagógica) do velho, e o que sobra dessa repetição. O pó branco do giz faz referência à segunda obra da artista, localizada perto. É um vídeo sobre cocaína, o pó branco em close. Que vai sumindo à medida que é aspirado. A mesma rua sem saída da repetição, agora radicalizada.

Tatiana Trouvé pôs pesinhos ao fim de fios, no que seria o prumo perfeito da verticalidade exigida pela geometria e pela gravidade (todas as gravidades, incluindo a do politicamente correto). Só que o fio é duro, rígido. Os pesinhos estão como que em balanço, meio inclinados, com seu movimento imobilizado. Não só os pesinhos, Tatiana, não só os pesinhos.

Eduardo Coimbra, claustrofóbico tanto quanto eu, pôs umas luzes imitando a luz natural (nome da obra) na parte de cima das colunas do pavilhão. Foi muito bom ficar olhando para aquilo.

O que mais gostei foi um vídeo de um belga. David Claerboult filmou uma mulher que chega em uma casa. Toca a campainha. Um homem abre. Ela entra. Começa a limpar. A casa é geométrica, simétrica, não há nada fora do lugar ou dos blocos de cor branca ou negra. Ela faz o café. A mesa é milimetricamente perfeita. E aí vai embora. Vai de bicicleta. O sol está nascendo. Tem um vento suave na sua cara. Ela sorri sozinha na estrada. Às suas costas, ficam a casa e o homem. Ele, preso na racionalidade, previsibilidade, que ele exige que ela mantenha e provenha para ele. Ela faz, o prende, e vai embora, livre. Só excelente.

Uma sugestão. Que o vídeo do belga seja visto antes ou depois da obra de Anna Maria Maiolino. Também no ambiente tradicionalmente provido por mulheres, uma mesa posta, arrumadíssima, para um refeição. Os pratos vêem nascer de dentro deles os brotos do arroz e feijão, em uma imprevisibilidade e não-controle comum em tudo que é vivo.

Efraim Almeida – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Marilá Darbot – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Gabriel Acevedo Velarde – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Eduardo Coimbra – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Tatiana Trouvé – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Anna Maria Maiolino – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Jonathas de Andrade – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Em tempo: deixei para ver a Bienal depois de assentados os sonhos pequenos-burgueses de ascenção social dos pichadores; e alçados os vôos de urubus surpreendentemente desestabilizadores de outros pequenos-burgueses similares. Surpreendentemente porque logo ali, no grande lago do Ibirapuera, abundam (sim, e não é minha culpa) imperturbados.

Não vi o show no Rio de Janeiro, apenas li sobre e vi as fotos. Descobri que os cariocas tiveram meia hora a mais que os paulistas. O local também não favoreceu São Paulo, e nem foi porque choveu, trazendo o frio e a lama, mas porque era um espaço grande demais, com um público diverso demais, para um som minucioso demais.  A iluminação também não ajudou, os vídeos que ficavam ao fundo eram lindos, mas as luzes foram posicionadas de tal forma que não se via a banda, só a silhueta dos músicos. Ainda assim, eles encantaram!

[Duas ressalvas importantes: não posso esconder que sou um admirador exaltado dos caras; outra, eu estive no show deles na Chácara do Jóquei, no entanto, vocês não podem confiar na minha visão turva e extremamente comprometida sobre os fatos, afinal, só estar lá já foi tão incrível, que a maioria dos comentários é de fã perante o ídolo].

Trata-se do Air, uma grande banda de dois caras (Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin), que só agora em outubro, com quinze anos de estrada e nove discos, vieram ao Brasil pela primeira vez. Não que não se houvesse tentado antes, segundo matéria publicada no Estadão: “Por mais de 10 anos, uma dezena de festivais nacionais tentou trazer o grupo ao Brasil”.

Se você ainda não sabe de quem se trata, vai a melhor dica: nos anos noventa, eles apareceram com o aclamado Moon Safari – disco clássico, que sempre figura na lista de álbuns essenciais –, cujo maior sucesso, sem dúvida, foi uma música que repetia , num tom robótico e, ainda assim, sensual, a frase: “Sexyyyyy Boyyyyyyyyyyyyy”.

Inicialmente, eles fariam três shows, dia 14 no Circo Voador, no Rio; dia 15, no Chevrolet Hall, em Belo Horizonte; e, por fim, dia 16, no Festival Natura Nós, na Chácara do Jóquei, em São Paulo. Os mineiros acabaram não vendo, na internet, diz-se que foi por conta da baixa venda de ingressos.

Certo, mas voltemos para parte que eu sei: São Paulo. Eles estavam programados para as 19 horas. Assim, vieram antes: o Marcelo Jeneci com a Tulipa Ruiz; o Cidadão Instigado; a Karina Buhr (a qual não conhecia, mas fez um show muito interessante. Gostaria de vê-la de novo); e a Vanessa da Mata.

Quando a “musa da floresta” entrou, havia pouca gente, menos, inclusive, que a quantidade de nuvens negras no céu. Dito e feito. No meio do show, veio a água. Muita água. Capas de chuva pra que te quero – lucrou quem as estava vendendo por dez reais. Vanessa não resistiu, alterou o set e cantou Joãozinho, seguida de Ai, Ai, Ai, ambas que tudo têm a ver com chuva. Ela rodava com o vestido molhado, batia os pés nas poças formadas no palco, o cabelo murchava e ela não estava nem ligando. Nem o público, que já estava encharcado e prestes a ficar todo sujo de lama, arredou o pé.

Vanessa saiu e no outro palco veio Céu. Sensual como sempre, trouxe canções do disco novo, cantou Mora na Filosofia e se dizia encantada pelo público ensopado que não parava de cantar seus sucessos. Bem, só na metade da apresentação dela, parou de chover. Quando já sinalizava que ia encerrar o show, em algum lugar entre Cangote e Nascente, veio a dica: hora de se posicionar para ver o Air!

Em ponto, começaram com Do The Joy, do disco de 2009, Love 2. Em seguida, as cálidas Love, Remember e Venus. Estava bem na frente, na verdade, no limite colocado entre quem comprou os ingressos mais baratos (eu, por exemplo) e quem estava na área VIP (o elenco de Passione, que tinha ido gravar umas cenas durante o show da Vanessa da Mata, por exemplo), e, ainda assim, não tinha visto os caras direito, só no telão. Tudo isso, por causa das luzes que falei lá no início.

Então, veio Tropical Disease, música que, segundo li numa entrevista que o duo concedeu pro G1, foi inspirada no Brasil. Essa, seguida pela incrível versão de Don’t Be Light, deu outro ritmo ao show, saindo do intimismo das primeiras melodias e indo para o lisérgico, reforçado pelas luzes e cores utilizadas nos vídeos de fundo.

Depois, momento de se emocionar com Cherry Blossom Girl, uma das poucas músicas apresentadas que possuíam letra. As outras, em sua maioria, encantavam pelos barulhinhos e repetições de palavras.

Vieram: a agitada (em clima de espionagem) Be a Bee; o hit (meio balada) How Does It Make You Feel?; e a assobiante Alpha, Beta, Gaga. Pronto, foi aí que tocaram o que todos, ou quase todos, estavam esperando: Kelly Watch The Stars e Sexy Boy.

Nessas duas, gregos, troianos, fãs de Gaga ou AC/DC, mesmo que com um discreto movimento nos pés ou nos ombros, acompanhavam o ritmo onírico-hipnótico. Certo, eu confesso, viajei muito quando, em Kelly Watch The Stars, colocaram o vídeo de um céu totalmente estrelado.

Nessa hora, a última música já se anunciava, La femme d’argent. Foi aí que caiu do céu, ou melhor, do pescoço de minha amiga, uma credencial de imprensa que me levou diretamente para perto do palco. Olhos grudados, consegui ver bem o estilo da banda – os dois vestidos de branco, com camisas e calças sociais. Mas nessa hora, já estava tão extasiado, que já não reparava em nada específico, além do que, a versão de La femme d’argent ficou tão boa, numa levada tão psicodélica (e pesada), que o lance era embarcar.

Tudo acabou em muito aplauso. Ouvi pessoas dizerem que tinha valido muito a pena; que tinha sido incrível; que eles arrasaram; que eram muito bons; na área VIP, alguns berravam para Jean-Benoît e Nicolas toda a felicidade por presenciar àquele espetáculo.

Não tocaram Talisman; Surfing On A Rocket; nem Le Soleil Est Près de Moi; músicas que eu realmente queria ouvir.  A platéia, em sua maioria e, na maior parte do tempo, ficou blasé. Não teve bis. Mesmo assim, o show acabou e eu ainda estava eufórico. E, pelo visto, os jornalistas também. Findos a chuva, o frio e a ressaca, mas ainda em São Paulo, corri às notícias para saber como tinha sido a passagem do Air pelo Brasil, avaliavam bem.

Resumo da Ópera: ao todo, o Air tocou, nesses quinze anos de banda, apenas duas horas e meia em solo brasileiro. Trouxe uma apresentação que misturou canções de diversos discos, felizmente (ia ser um tiro no pé apresentar canções só do Love 2, disco que é apenas interessante). Encantou, com a beleza e cuidado no som, com suas vozes robóticas e seu estilo peculiar, um retrô-futurista. No mais, desculpe aos que detestaram, eu amei a noite de amor, imaginação e sonho, mesmo reconhecendo que o Jamiroquai, que encerrou o primeiro dia do festival, literalmente arrasou!

1. O que um leitor acostumado com o world building de Senhor dos Anéis e The Long Price Quartet pode esperar da série O Pêndulo? Até agora, Pilgrims me parece uma leitura leve (me diga se eu estiver errado), com um forte toque de humor quando você brinca com os arquétipos de fantasia.

Para mim, O Pêndulo é uma fantasia convencional em termos de estética. Uma dinâmica interessante da história é que a verdadeira natureza do mundo de fantasia Levaal não é imediatamente aparente para o leitor nem para os personagens dentro da história. Tem mais coisas acontecendo em relação ao conflito dos dragões com os deuses do que os humanos da história percebem, pois eles são marionetes em um jogo mais amplo. A guerra entre o castelo e as Cidades Livres, por exemplo, parece de crítica importância para os seus participantes, mas ela é apenas a primeira dimensão de algo muito maior. (São ondulações na superfície, se você prefere, enquanto coisas muito maiores se movem nas profundezas). É isso o que pode distinguir O Pêndulo de uma história como Senhor dos Anéis, que eu usei como um modelo para a estética e o estilo de narrativa. Em Senhor dos Anéis, a natureza básica da Terra Média é imediatamente aparente para todos os personagens, e a missão de Frodo está clara desde o início. Meus protagonistas não têm uma missão. Eles são peças de um quebra-cabeça, e a jornada deles será revelada aos poucos, à medida que as peças se encaixam. Essa falta de uma missão, eu acho, é a principal diferença entre o meu trabalho e as fantasias mais familiares.

2. Por que você decidiu migrar da experiência de thriller psicológico do Pilo Family Circus para a fantasia de Pilgrims?

A fantasia foi a primeira ficção séria que eu tive contato, então, eu sentia que enquanto escrever terror / thriller era a excursão, a fantasia era a minha casa. Meu romance à parte, Nightfall, que veio depois do Pilo Family Circus, é provavelmente a ponte entre o terror e a fantasia. Quando Nightfall for publicado, o salto de Pilo para O Pêndulo não parecerá mais tão radical.

3. Pesquisando na Internet eu li que você tem um livro não publicado chamado Nightfall. Você pode me falar mais sobre ele?

Nightfall fala de um jovem chamado Aden que acorda em uma banheira em algum lugar, sabendo apenas que está morto. Ele sente como se tivesse acordado em um porta-retratos – de fato, ele é uma pintura que ganhou vida. O mundo em que ele se encontra é habitado por todo tipo de pessoas grotescas e bizarras. E, de alguma forma, tudo isso parece familiar a Aden. O mais curioso é que as pessoas desse mundo parecem considerar o avô de Aden como seu deus. O que, posteriormente, causa problemas para a Igreja do Criador do Mundo, quando Aden diz ser o neto do Criador.

Nightfall é um mundo à beira da extinção, pois uma força chamada “O Esquecimento” está fechando o cerco, destruindo tudo. Na noite em que Aden encarna em Nightfall, o Esquecimento destrói a maior parte do que restava desse mundo. Assim como em O Pêndulo, o protagonista precisa descobrir como ele se adéqua ao seu mundo.

4. Em Strange Places você compartilha sua jornada lidando com a esquizofrenia. Como isso afetou você como autor? Ou seja, você traz algo dessa experiência para o seu processo de escrita?

Eu mudei meu ponto de vista significativamente sobre o que eles chamam de esquizofrenia. Eu não acredito que estava mentalmente doente, somente perdido em alguns pontos, e assustado, porque ninguém mais sabia a verdadeira natureza de nossa realidade, e ninguém estava qualificado para me dizer a verdade sobre ela. E os menos qualificados eram os inquisidores do sistema que se autodenominam médicos. A “doença” foi, na verdade, um processo evolutivo que me deu uma tremenda energia. Nosso sistema é projetado para nos oprimir, e qualquer pessoa que pareça dar um salto evolutivo é derrubada com força. Foi o que aconteceu comigo, e o que acontece com muitos outros. Desde o “diagnóstico”, o medicamento sufocou minha criatividade, minhas emoções e tudo mais a meu respeito. Eu era ingênuo de acreditar naquele papo furado sobre o assunto. Aquilo contaminou a minha criatividade. Por um longo tempo, eu não sabia que estava sendo usado como uma cobaia do sistema médico e do sistema de modo geral. Agora eu sei, e nego tudo que eu disse sobre a experiência de estar doente. Como muitos outros, eu fui deliberadamente um alvo por me mostrar consciente do fato de que vivemos em uma realidade estilo Matrix, construída artificialmente.
Meus primeiros trabalhos possuem uma vitalidade que os posteriores não têm, e o motivo é o medicamento. Eu reduzirei consideravelmente o medicamento, talvez cortando de todo (embora, de uma forma muito gradual e com enorme cuidado). Aí verei se os meus trabalhos ganharão com isso. Eu acredito que sim.

5. O livro The Pilo Family Circus venceu cinco prêmios literários e ganhou várias críticas positivas. Pensando em sua carreira, eles tornaram as coisas mais fáceis ou cada novo projeto é um novo desafio?

Prêmios são um tremendo estímulo, e eles certamente ajudam a destacar o perfil de um autor. Eu não acho que eles afetem minha atitude ao começar novos projetos.

6. No Brasil, temos uma tradição de literatura realista, e a ficção especulativa é considerada um nicho pequeno. Essa situação está mudando gradativamente, mas o fato é que fantasia e ficção-científica ainda não ocupam os holofotes dos jornais. Você lida com uma situação similar na Austrália?

Bem, os jornais e a mídia tradicional estão perdendo relevância diariamente, então eu não sei por que a literatura de gênero precisa da aprovação dela. Os críticos literários dos nossos jornais tratam fantasia como uma piada, e em alguns pontos eu concordo com eles. Eu já deixei de lado muitos livros de fantasia porque eles não retratam o suficiente a nossa realidade e o nosso mundo. Porém, quando isso acontece, a fantasia é um dos gêneros mais poderosos. Eu realmente acredito que existem realidades e histórias escondidas, e alguns autores de fantasia parecem ter a chave para esses lugares, saibam disso ou não. Eu encontrei um simbolismo nos meus trabalhos, que pesquisas depois conectaram com nossas histórias secretas, e no momento em que eu escrevia, eu não tinha ideia de que estava transmitindo esse tipo de coisa. Tanto Pilo quanto O Pêndulo são cheios dessas pequenas pistas e indicadores, e tudo o que eu achava que estava fazendo era contar uma história. A boa fantasia transmite nossa verdadeira história secreta. A mídia mainstream cria e gerencia a Matriz artificial. Então, é claro que eles não seriam muito amáveis com materiais que subvertem sua falsa realidade.

English version:

1. What a reader used to “world building” fantasy such as Lord of the Rings and The Long Price Quartet can expect from Pendulum series? So far, Pilgrims seems like light reading to me (tell me if I’m wrong), with a strong touch of humor when you tinker with archetypes of fantasy.

To me Pendulum is a conventionally formatted fantasy, as far as aesthetics go. One interesting dynamic of the tale is that the true nature of the fantasy world, Levaal, is not immediately apparent to the reader, or even to the characters within the story. There is more going on regarding the dragons’ conflict with the gods than the humans of the story realise, for they are unwitting pawns in a greater game. The war between the castle and the Free Cities, for instance, seems of critical importance to its participants, but it is just the first dimension of something far grander. (Ripples on the surface, if you like, while huge things move in the depths.) That is what may distinguish Pendulum from a tale such as Lord of the Rings (which I used as a model for the narrative style and aesthetics.) In LOTR, the basic nature of Middle Earth is immediately apparent to all characters, and Frodo’s quest is clear from the outset. My protagonists do not have a quest, as such… they are pieces of a puzzle, and their journey will slowly reveal where they fit into the puzzle. This lack of quest I suppose is the key distinction between my work and more familiar fantasies.

2. Why did you decide to move from the psychological thriller experience of The Pilo family Circus to the world building of Pilgrims?

Fantasy was the first serious fiction I was exposed to, so I felt if anything that writing horror / thriller was the excursion, and fantasy was always home. My standalone novel Nightfall, which followed Pilo Family Circus, is probably the bridge between horror / thriller and fantasy. When Nightfall is published, the leap from Pilo to Pendulum will not seem quite so drastic.

3. Digging on Internet I read that you have an unpublished book called Nightfall. Could you tell me something about it?

Nightfall is about a young man named Aden, who wakes up in a bath tub somewhere, knowing only that he is dead. He appears to have woken in a picture frame – in fact, he is a painting come to life. The world he finds himself in is inhabited by all manner of grotesque, bizzarre people. And somehow, all of it is oddly familiar to Aden. What is most peculiar is that the people of this world seem to regard Aden’s grandfather as their god. Which later causes problems for the Worldmaker Church, when Aden claims to be the Worldmaker’s grandson.

Nightfall is a world on the brink of extinction, as a force called “The Forgetting” closes in, destroying everything. On the evening Aden incarnates in Nightfall, the Forgetting destroys most of the remaining world. As with Pendulum, the protagonist must discover how he fits in with his world.

4. In Strange Places you share your journey dealing with schizophrenia. How did it affect you as a writer? I mean, do you bring something from this experience for your writing process?

I have come to change my view drastically about what they called “schizophrenia”. I do not believe I was ever mentally ill, only misguided on some points, and afraid, because no one else knew the true nature of our reality, and no one was qualified to tell me the truth of it. Least of all the system’s witch-hunters who call themselves doctors. The “illness” was in fact an evolutive process, one which gave me tremendous energy. Our system is designed to keep us down, and anyone showing signs of that evolutive leap is clamped down on hard. That is what happened to me, and what happens to many others. Medication has since “diagnosis” stifled my creativity, my emotions, and everything else about me. I was gullible to believe their claptrap about it. It has poisoned my creativity. I did not know for a long time that I was being used as a pawn of the medical establishment and the establishment in general. Now I know, and I renounce everything I ever said about the experience being an illness. I like many others was deliberately targetted for displaying too much awareness of the fact that we are in an artificially constructed Matrix reality. My early works possess a vitality which later works lack, and medication is the reason. I am going to drastically reduce medication, perhaps cutting it altogether (although very gradually and with great care). We’ll see if my works improve. I suspect they shall.

5. The Pilo Family Circus won five literary awards and received lots of positive reviews. From a career point of view, did they make things easier or is every new project a new challenge?

Awards are a tremendous encouragement, and they certainly help with raising an author’s profile. I don’t think they effect my mindset when commencing new projects.

6. In Brazil we have a tradition of realism in literature, and speculative fiction is considered a small niche. This situation is changing gradually, but the fact is that fantasy and science fiction don’t have the spotlight on newspapers yet. Do you deal with a similar situation in Australia?

Well, newspapers and the mainstream media are losing relevance on a daily basis, so I don’t know why the genre needs their approval. Our newspaper literary reviews and such treat fantasy as a joke, and on some points I agree with them – I have set aside many a fantasy book because it does not act as enough of a mirror to our reality and our world. When it does, however, it is one of the most powerful genres. I believe there truly are hidden realities and hidden histories, and some writers of fantasy seem to have the key to those places, whether they know it or not. I have found symbolism in my works which later research linked to our hidden histories, and at the time of writing, I had no idea I was communicating this stuff. Pilo and Pendulum are full of these little clues and pointers, and all I thought I was doing was telling a story. Good fantasy conveys our true hidden history. Mainstream media are creators and maintainers of the artificial Matrix. So of course they would not be too fond of material which subverts their fake reality.

Daniel Senise - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásPensei em ver o Daniel Senise. Me disseram que eram apenas umas poucas obras. Que as individuais eram de outras pessoas. Quase desisti. Mas fui assim mesmo. E com vontade de ver aquele lance do rastro, do vestígio do vivido que, para mim, marca (marcava) o Senise.

Mas há caminhos, coerências, buscas a serem trilhadas. E o caminho do Senise, vi, o afastava do rastro, do ‘imperfeito’, o aproximava do rigor da construção que, para tantos e para mim também, seria o que estava para trás e não lá na frente. Um passado e não algo a ser (ainda) obtido.

Mas que bom que fui.

Porque encontrei, na Vermelho onde sempre vou, mais uma vez do que gostar. Só que minha cabeça às vezes fica, espichada, quase saindo de sua forma arredondada, por não querer largar um pensamento. E o pensamento era o do rastro, o do vestígio. E, a bem dizer, o da origem – essa palavra que a filosofia nos ensinou a prudentemente evitar, por complicada demais.

Cinthia Marcelle é quem, na minha cabeça torta, grudada em pensamentos prévios, me deu o que Senise me negaria. Seu trabalho são 25 caixas em que há um molde em baixo relevo de facas que de lá foram retiradas. É simples. Seria. As ‘facas’ vão ficando mais e mais elaboradas. Firulas de cabos, adivinhamos. Lâminas em curvas que não julgaríamos existir. E mais e mais os moldes vão ficando menos indício de ausência ou perda, e mais e mais uma ferida no feltro, um cavar existente em si, distante de uma curácia aliás dispensável.

Há um desenvolvimento, aqui, pouco inocente, de quem quebra deste modo a relação representado-representante. E duplamente, quando o primeiro tem (teria) a representação não de sua materialidade, mas de sua imaterialidade.

E é um desenvolvimento quase político na sua negativa em assumir a autoridade inerente a quem se apropria, molda e apresenta um outro como sendo algo seu, de seu controle e autoria.

Conheci Cinthia Marcelle, salvo engano, em maio de 2007. Ela ocupava um espaçozinho, o Box 4, filiado a uma grande galeria carioca. Já me pareceu, então, dos que lutam contra.

Confirmei.

Cia de Foto – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cia de Foto – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Marcelo Zocchio – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Nicolas Robbio – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

O “meditação da ferida”, título do trabalho atual, implica a própria recusa ao conceito de origem, início. E por conseguinte, religião. O que é uma benção (desculpe) nos dias que correm. O significado do trabalho deriva de um deslocamento, não de uma fonte única. O trabalho, que parecia tão simples, complica-se a cada segundo.

Ela traz outro trabalho. Uma espécie de bomba-relógio feita com bananas de dinamite. Em vez de dinamite, tubos de luz fosforescente. Está num canto pouco iluminado de um corredor da galeria. A bomba atrai. Chama teu olho. Você chega perto. Um pequeno aviso, e engraçado, de que arte pode ser perigoso para você, pode explodir com tuas hierarquias já estabelecidas de poderes e valores.

Passei pelos outros e alguns me pegaram. Marcelo Zocchio fez uma escada com um corrimão (real) pregado em cima de sua pintura. A madeira do corrimão, gasta, imperfeita, é a mesma da moldura. Outro – que neste meu dia pelo menos – questionou os limites da representação. Nicolas Robbio armou um sistema de pesos que depende de um fragilíssimo graveto. Também já o conheço de outras obras/exposições e sempre gosto de sua maneira de apresentar o efêmero, de não acreditar em autoridades.

Dora Longo Bahia me encantou com seu back-light dúbio, borrado, pouco visível. O coletivo Cia. de fotos tinha três closes em vídeos de pouco ou nenhum movimento. Mas com o suficiente indício de real – que fotos/vídeos trazem – para mesmerizar quem na sala entrava. Você olhava. E eles te olhavam. De igual para igual.

A abertura principal era de Odires Mlászho. A Vermelho tem essa linha. Um pensamento sobre a relação imagem-texto. São vários os artistas por ela representados que seguem tal pesquisa. Tenho uma posição sobre o assunto. Acho que a imagem contemporânea tem a ganhar quando entende que há uma nova necessidade de linhas temporais (não necessariamente narrativas) na recepção imagética. Hoje. Digo agorinha. Até ontem não era assim. Então, quando o artista se abre para isso, eu gosto. Quando, ao contrário, ele estetiza palavras, eu não gosto. A diferença às vezes é muito pequena. Mas eu noto. Ou acho que noto. Mlászho, por exemplo, estratifica, imobiliza, espacializa, estetiza o texto. Então, eu não gostei.

Sintomas do sujeito pós-moderno (parte 2 de 2).

O filósofo e ensaísta brasileiro Sérgio Paulo Rouanet aponta em seu estudo As Razões do Iluminismo (1987), que o prefixo pós tem muito mais o sentido de exorcizar o velho (neste contexto, a modernidade) do que de articular o novo, o vindouro (o pós-moderno). Ou seja, o que há de fato é uma “consciência de ruptura”, que o autor não considera uma “ruptura real”.

Segundo ele, “depois da experiência de duas guerras mundiais, depois de Auschwitz e Hiroshima, vivendo num mundo ameaçado pela aniquilação atômica, pela ressurreição dos velhos fanatismos políticos e religiosos e pela degradação dos ecossistemas, o homem contemporâneo se cansou da modernidade” (ROUANET, 1987). Todos esses males, ainda segundo o filósofo, são atribuídos ao mundo moderno e a sua avassaladora necessidade de reinvenção. Essa atitude de rejeição se traduz na convicção de que o mundo está transitando para um novo paradigma. O desejo de ruptura leva à convicção de que essa ruptura efetivamente já ocorreu, ou está em vias de ocorrer. O pós-moderno, assim, se afigura muito mais como o cansaço tardio de uma época que pareceu extinguir-se sem ter alcançado seu apogeu do que o despontar de um novo começo que prima pela inclinação ao ineditismo. A consciência pós-moderna não corresponde, portanto, a uma realidade pós-moderna. Nesse sentido, ela é caracterizada como um simples mal-estar da modernidade, um sonho da modernidade.

Ao analisar os sintomas desta pós-modernidade imperfeita, Rouanet se arrisca em fazer uma psicopatologização ao considerar, em primeiro lugar, o moderno como essencialmente contraditório. Em segundo lugar, ao apontar que a sociedade contemporânea, em seu cerne, favorece o surgimento de um hedonismo característico, (todos passam a buscar o prazer pelo prazer, num incessante círculo de repetições, pois tudo o que conta é a satisfação pessoal) socializado pela mídia e, de certa forma, respondido por esta mesma coletividade como sintoma da chamada “sociedade do espetáculo”.

Nesta sociedade de valores massificados, especialmente no que respeita à cultura ocidental, a visibilidade dos aspectos particulares assumiu um caráter obsceno quando passou a excluir quase que completamente a dimensão da subjetividade e da privacidade das pessoas. Ou seja, com o alastramento dos meios de comunicação, anulou-se a dimensão do privado, tornando “tudo e todos” público, desde o cotidiano dos ansiosos por fama e ex-anônimos de programas midiáticos similares ao Big Brother, aos já famosos que figuram em revistas de frivolidades, como a Caras. Também se incluiu nesta categorização os rituais histéricos e cada vez mais midiáticos de evangélicos, carismáticos católicos e islâmicos, que se vendem para a televisão usando como desculpa a pregação de “causas justas” aos miseráveis, igualmente noticiados e fotografados por decorrência de algum fato merecedor da atenção jornalística.

Dada esta extrapolação da privacidade e de sua utilização como moeda de troca, os sintomas do hedonismo na sociedade pós-moderna passaram a operar através de mecanismos de promoção da visibilidade do que era privado, como se decretando o fim do segredo ou o fim da intimidade.

Durante a era moderna a “doença do século” era a histeria. Uma vez incapaz de suportar tanta repressão, o sujeito moderno teatralizava-se, representava-se enquanto ser contextualizado para escapar do embate endopsíquico. Graças a este sintoma, Sigmund Freud fundamentou sua psicanálise. Na era pós-moderna, entretanto, este mal-estar se apresenta de forma mais complexa, uma vez que os anseios individuais se diluem no caldo do disfarce coletivo, criando uma falsa sensação de que “tudo está bem”. O mal-estar pós-moderno é, portanto, visível e banal, expressado através da linguagem do cotidiano e do trabalho compulsivo, excessivo, quase sempre vendido como se fosse “lazer” ou “ócio criativo”. E, uma vez incorporado, este processo leva a uma série de problemas que acaba se tornando inerente ao sujeito pós-moderno, como o estresse, a perversão, a depressão, o sedentarismo e o tédio.

Colocando a questão em termos de patologia social, a pós-modernidade fez surgir, com seu neoliberalismo desenfreado, coisas contraditórias, como as indústrias e a crise de empregabilidade ou a abertura econômica e a escassez monetária; se por um lado temos a ciência mercadológica e a alta tecnologia, por outro, temos a multiplicação da população pobre e as guerras racionais. Na contemporaneidade, a perversão ganha ares de grandeza e se vê livre para manifestar-se em diversas formas, seja travestida de violência urbana, seja no terrorismo, nas guerras ideologicamente consideradas “justas” e “limpas” ou nas guerras “cirúrgicas”. A razão cínica é cada vez mais instrumentalizada. Não basta ser transgressivo, ou perverso ou mesmo imoral; é preciso se construir uma justificativa “moral” e, portanto, passível de aceitação, para atos de imoralidade e perversão.

Assim, na contemporaneidade pós-moderna, a perversão e o estresse tornaram-se sintomas resultantes da falta de lei, da falta de tempo e da falta de perspectiva de futuro, contraditoriamente refletido no sistemático abandono do passado.

Citando novamente Jameson, “a sociedade contemporânea é regida, mais do que tudo, pela ânsia e necessidade de “espetáculo”; ela exige o prazer imediato a qualquer preço, mesmo que para isso tenha que se valer de praticamente tudo, até mesmo abdicar de sua individualidade” (JAMESON, 1991). Enquanto inseridos socialmente, todos se sentem na obrigação de se divertir, de aproveitar cada momento e de trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social, não importando os limites de si próprio ou dos outros.

Para Jameson, a lógica cultural do capitalismo tardio frente à sociedade do consumo está organizada sobre a tríade “pastiche — nostalgia — morte do sujeito”, que permite ao homem pós-moderno “sentir a especificidade da experiência pós-modernista do espaço e do tempo”. Neste contexto, o “pastiche” (mescla que vários gêneros artísticos para a criação de um novo conceito, cujas características são distintas dos originais) assume-se como a representação alegórica da pós-modernidade, uma vez que adota as qualidades de uma máscara estilística de reiteração – como reprodução e sobreposição de estilos, mas esvaziada de conteúdo – condizente com o segundo pilar da tríade, a “nostalgia”, essa tomada como resgate de um passado nada ameaçador, embora instigante, que ofusca a relação humana com o seu presente histórico. Dessa forma, o homem contemporâneo se vê mutilado de sua autonomia, liberdade criativa e potência revolucionária, passando a mover-se no mundo sem procurar extrair dele a mais ínfima mudança sequer. Este último sintoma pós-modernista Jameson denomina como a “morte do sujeito”.

A arte pós-moderna.

De modo geral, a arte contemporânea se apresenta como um produto de concepção multifacetada e abrangente, representação do homem moderno e de sua dissolubilidade em meio aos múltiplos canais de comunicação de massa. Numa sociedade em que o impulso e a espontaneidade superam a razão e a necessidade de sociabilização é direcionada para o consumo, os objetos de mercado se revelam personalizados e estetizados, convertendo numa espécie de simulacro o mundo real, mundo este que agora se encontra desmaterializado. O comportamento dos grupos sociais, em consequência, passou a ser orientado pelos mecanismos de comunicação de massa, que vieram substituir em grande medida os contatos sociais. Mesmo entre o grupo familial ou de convívio próximo, a massificação da comunicação já se faz enormemente presente — quem nunca se utilizou de programas de mensagens, como o MSN, torpedos ou fez uso do celular para falar com um vizinho, amigo ou com um parente que se encontra no cômodo contíguo?

A partir dessa homogeneização dos sentimentos individuais, foram criados fatos, valores e necessidades que serviram de alimento para a estrutura econômica de uma sociedade agora globalizada. O desenvolvimento tecnológico e seus tentáculos que a tudo alcança e enlaça só acrescentou novos elementos à transformação do homem e de sua convivência em sociedade.

Como característica desta arte pós-moderna, tem-se a reificação ou coisificação (conceito marxista que prega a transformação do homem ou da arte em mercadoria, em simples objeto de consumo) da condição criativa, a apresentação da arte descontinuada, alusiva à negação da historicidade, a quebra da sequência estrutural, uma vez que ela não se fia mais na linearidade, nem busca no passado sua base de sustentação, e sua pasteurização, ao se utilizar de todas as formas de linguagens, incorporando num mesmo contexto fragmentos de diversos artistas, estilos e épocas. Neste aspecto, a literatura passou a utilizar o que se convencionou chamar de intertextualidade, ou seja, num mesmo texto há a simultaneidade de cenas, desde a imitação de procedimentos próprios do cinema moderno inseridos na leitura à introdução, na prosa, de técnicas de construção de poemas e a inclusão de posicionamentos autocríticos na composição do texto. Enfim, pastiche!

Um traço tipicamente pós-moderno presente em todas as modalidades artísticas contemporâneas é a tendência a eliminar as fronteiras entre a arte erudita e a arte popular como forma de valorização desta última e seu direcionamento para o consumo da cultura de massa. Diluem-se também os critérios tradicionais de definição da estética.

Na obra Pós-Modernismo e literatura, de 1988, Domício Proença Filho aponta algumas daquelas que considera como as características mais significativas das literaturas pós-modernistas, entre as quais figuram a intensificação do lúdico, do experimentalismo e do pastiche; a utilização deliberada da intertextualidade; a mistura de estilos; o exercício da metalinguagem (a linguagem falando de si mesma); o alegórico, o hiper-real e o metonímico; o texto fragmentado; o centramento na linguagem; a exaltação do prazer e a presença do humor. Assim, a pós-modernidade literária tem seu arcabouço centrado na visão cética do mundo, da arte, da vida, do sentimento e da própria ciência teórica, que foi levada a cabo pelo advento das ciências experimentais objetivas. Torna-se, portanto, uma espécie de anti-ideologia por encarar o fim do processo histórico, o fim das lutas de classe, o fim de um ponto em si mesma. É, em suma, a ausência de motivos. Ela buscou no advento da comunicação de massa novas formas de mídia e veiculação, aproximando-se da arte de cunho mais popular. Neste momento, existe uma adequação aos padrões da “Indústria Cultural”, onde a literatura essencialmente deixa de possuir alteridade; neste cruzamento de intencionalidades, a literatura no Brasil passou a ser vinculada ao mercado editorial, deixando de lado a premissa do estado como mentor e provedor.

A proximidade com outros meios de comunicação social criou no mundo midiático a possibilidade de os gêneros mesclarem-se e darem vazão a um novo produto-arte, porém descaracterizados da sua conceitualização antiga. A palavra passa a dialogar com a imagem, com o som, com o movimento e este com conceitos de outras naturezas, como a Internet, a televisão e a revista cultural. Todas estas variações formam uma única e grande colcha de retalhos, representativa do mass media globalizado. Ao analisar esta rede global massificada, Frederic Jamesom argumenta que o homem contemporâneo “vive em um período de fetichismo visual”.

Essa necessidade de observação-contemplação criou no sujeito moderno uma nova gama de sentimentos, como a valorização da subjetividade pessoal e o não comprometimento com o item universal ou com a causa estética. O prazer passou a ter significado através do ato de se expor, na função expressionista do indivíduo enquanto objeto passível de observação, extremamente autobiográfico, particular e egocêntrico. Agora comprometido com a identidade e com a satisfação do seu próprio eu, o artista pós-moderno fez com que todo um universo de significados sofresse uma inversão de valores, mudasse de lado: antes habitante do texto, tais significações passaram a se incorporar ao autor. A obra literária, então, ganhou ares de portal para a possibilidade de o autor travar contato com o leitor, criar um diálogo bidirecional, uma proximidade.

Para tanto, a literatura pós-moderna abdicou de todos os conceitos das correntes que a precederam, tornando-se desfragmentada quanto ao gênero narrativo. Também aboliu o núcleo do enredo e da estrutura clássica romanesca, distanciando-se do cânone clássico e passando a se utilizar do narrador multifocal. Da concepção romantizada (da estética romântica) ou idealista (oriunda do modernismo), a personagem pós-moderna tornou-se intrusa e ausente, desprovida de passado e história, situada unicamente no presente que lhe condiciona o tema. Falta, ainda, a definição do código e da mensagem da obra e a criação literária passou a celebrar a prática da “bricolagem” (trabalho de colagem de textos ou extratextos dentro do processo criativo, algo que se aproxima, em certa medida, da ideia de hipertexto. Na prática pós-modernista, é a transformação ou estilização de materiais preexistentes em novos trabalhos (não necessariamente originais)) e do diário como forma de realocação do ser dentro do amplo espaço da cultura global de massa.

As faces da pós-modernidade literária no Brasil.

O Pós-Modernismo no Brasil assumiu várias facetas dentro da produção literária, notadamente em relação à prosa.  Enquanto o Concretismo (movimento vanguardista surgido nos idos de 1950, inicialmente na música e depois na poesia e nas artes plásticas, que defendia a racionalidade e rejeitava o expressionismo, o acaso, a abstração lírica e aleatória do fazer artístico) consolidava suas características na poesia, a prosa pós-modernista seguia por diferentes estilos, marcada por tendências diversas, como a regionalista, a urbana, a intimista, a política e realista-fantástica, além de crônicas e contos.

Na poesia, o maior destaque brasileiro deste movimento é o pernambucano João Cabral de Melo Neto. O autor, sempre perseguindo o viés da razão em suas obras, acabou inaugurando um novo jeito de fazer poesia. A essência de sua criação literária mostra uma tentativa de desvendar os elementos concretos da realidade, que se afiguram desafiadores para o poeta. Sempre guiado pelo raciocínio lógico, seus poemas evitam o subjetivismo poético e se voltam para a realidade do mundo, para a verificação dos objetos, das paisagens, dos fatos sociais e suas consequências, sem jamais cair na senda do sentimentalismo.

Já na prosa, o Brasil produziu uma quantidade considerável de grandes obras, abordando estilos e temas os mais diferentes. A literatura regionalista pós-modernista, uma das correntes mais notórias, deu ênfase ao âmbito rural, trazendo para a ficção a exposição de costumes locais e a crítica político-social. Autores como Mário Palmério, Ariano Suassuna, José Cândido de Carvalho e Josué Montello apresentaram ao Brasil urbano o homem do campo, aprofundando-se na psicologia da roça, na riqueza cultural sertaneja e na sua multiplicidade de crenças. Como mais destacado representante desta corrente, tem-se o escritor João Guimarães Rosa. Embora de caráter regionalista, a obra rosiana supera o chamado regionalismo tradicional, uma vez que ora idealiza o sertanejo, ora se compraz com seus aspectos meramente pitorescos, com o realismo documental ou com a transcrição da linguagem popular e coloquial. A obra rosiana apresenta-se dona de uma riqueza de linguagem que a tornam única, além de seu caráter universal no que respeita às questões morais e metafísicas. Criador de uma prosa única, Guimarães Rosa estilizou o linguajar do sertanejo, recriou ou inventou novos vocábulos, mesclou arcaísmos com a fala erudita, conceitualizou o popular e o moderno tecendo, a partir daí, uma nova linguagem na qual estão inseridas as indagações universais do homem: o sentido de vida e morte, a existência-inexistência do bem e do mal, o significado do amor, do ódio e de muitas outras dúvidas que afligem tanto o homem cosmopolita quanto o sertanejo.

Na prosa intimista, outra vertente da ficção pós-modernista nacional, os autores se voltaram para a exploração psicológica das personagens, e, dentre os maiores destaques, tem-se nomes como Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Nélida Piñon, Ivan Ângelo e Raduan Nassar.

A prosa urbana traz em sua denominação muito do que ela representa, ou seja, é uma narrativa direcionada à denúncia dos problemas das grandes cidades, notadamente nos aspectos social e político. Retrata a chegada do progresso e suas influências nocivas nas relações humanas, posto que, junto a ele, chegaram atreladas a solidão, a marginalidade e a violência. Dentre os autores que exploraram esta vertente da criação literária, tem-se Rubem Fonseca, João Antônio, Luiz Vilela, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão.

A prosa política, dentro da concepção pós-moderna, é uma literatura que mostra os fatos sociais diante da censura aos meios de comunicação de massa iniciada, aqui no Brasil, no começo de 1964, com a repressão militar. O que o jornal não podia mostrar, a literatura narrava através do romance-reportagem (obras de denúncia dos abusos de poder disfarçada em linguagem jornalística) e do realismo fantástico (obras de denúncia baseadas em situações fictícias, absurdas, como meio de satirizar a situação do país).  Entre os autores da prosa política, vale destacar Antonio Callado, Roberto Drummond, José Louzeiro, Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro, Ivan Ângelo, Murilo Rubião, José J. Veiga e Moacyr Scliar.

Murilo Rubião foi, inclusive, o primeiro autor brasileiro a trabalhar a temática do fantástico na literatura, ainda nos idos de 1940. Sua ficção, eminentemente contista, perpassa os problemas do homem moderno colocando-o sob a ótima do lúdico. Na prosa rubiana, o cotidiano banal ganha ares de fantástico para denunciar e, a cima de tudo, evidenciar, a incapacidade do homem de se situar enquanto ser social.

A partir da década de 1980, outros estilos literários, como a ficção especulativa (a ficção científica, a fantasia e o horror) e a literatura de entretenimento (romances considerados rasos, geralmente escritos para o grande público), ganharam fôlego e corpo — além das prateleiras das livrarias e os meios de comunicação — evidenciando mais uma etapa do longo processo de desdobramento da contemporaneidade artístico-cultural.

E, seja na poesia, na prosa ou nas artes visuais, o pós-modernismo encontrou na figura do homem moderno sua razão de ser. Através da arte-questionadora ou da arte-espetáculo, cada artista procura, à sua maneira, traçar um panorama dos rumos que a cultura tomou — e ainda está tomando — nestes dias de aldeia global, onde o individual, o particular e o autóctone passaram a ter um significado bastante relativo.

Para saber mais (artigo – parte 02):

* JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (trad. Maria Elisa Cevasco). São Paulo: Editora Ática, 2004.

* ROUANET, Sérgio Paulo. As Razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

* FILHO, Domício Proença. Pós-Modernismo e literatura. São Paulo: Ática, 1988.

A Pós-modernidade (parte 1 de 2).

Sempre que se fala em inquietações artísticas e/ou movimentos de vanguarda, a primeira lembrança que nos vem à mente é a Europa — notadamente países como França, Itália, Alemanha e Grã-Bretanha, ou, mais recentemente, os Estados Unidos — como berço de tais manifestações. Porém, nem todas elas se originaram no velho continente ou na eminente potência econômica do outro lado do Atlântico. O Pós-Modernismo, movimento atualmente em voga, foi um deles. Surgido pela primeira vez na década de 1930, o conceito de pós-modernidade teve seu lugar de origem no mundo hispânico, uma geração antes de seu aparecimento na Inglaterra ou nos EUA. Na obra As Origens da Pós-Modernidade (1999), Perry Anderson, historiador e professor de História e Sociologia da Universidade da Califórnia, cujo trabalho se destaca pelo estudo dos fenômenos culturais e políticos contemporâneos, relata que foi Frederico de Onís, um amigo dos poetas e pensadores espanhóis Miguel de Unamuno e José Ortega, quem imprimiu o termo pela primeira vez, embora como meio de descrever um refluxo conservador dentro da própria corrente modernista então vigente. E, uma vez apresentado o termo e sua ideia geral, coube ao filósofo francês Jean-François Lyotard, em sua publicação A Condição Pós-Moderna, de 1979, a expansão do uso do conceito.

Em sua origem, o pós-modernismo trouxe uma série de novos conceitos que englobavam desde a perda da historicidade ao fim das metanarrativas (obra que assume o sentido de uma grande narrativa, de nível superior, capaz de explicar todo o conhecimento existente ou de representar uma verdade absoluta sobre o universo. Livros sagrados, como a Bíblia e o Alcorão, ou obras como “Ulysses”, de James Joyce e “O Capital”, de Karl Marx, são exemplos de metanarrativas), o que, no campo estético, significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da fronteira entre alta cultura e cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado, comumente praticada nas correntes literárias anteriores.

Como fatores determinantes de seu surgimento, podem ser apontadas algumas das características predominantemente surgidas no decorrer do século XX, tais como o boom dos meios de comunicação e a propensão do homem pós-moderno em se deixar dominar por seus inúmeros tentáculos; a colonização do nosso universo, até então particular, pelos mercados, seja ele econômico, político, cultural ou social; a celebração exacerbada do consumo como modo de expressão pessoal; a pluralidade e pouco aprofundamento cultural; a polarização social e a falência das grandes narrativas como fomentadora da consciência e do aprofundamento individual.

A Pós-modernidade, em contraponto à corrente literária que a precedeu, a Modernidade, recobre todos esses fenômenos conduzindo, em um único e mesmo movimento, a uma lógica cultural que valoriza o relativismo e a indiferença, a um conjunto de processos intelectuais flutuantes e indeterminados, a uma configuração de traços sociais que significaria a erupção de um movimento de descontinuidade da condição moderna, ou seja, mudanças dos sistemas produtivos e crise do trabalho, eclipse da historicidade, crise do individualismo e onipresença da cultura narcisista de massa. Em outras palavras, a pós-modernidade primou pelo predomínio do instantâneo, da perda de fronteiras, gerando a ideia de que o mundo está cada vez menor através do avanço da tecnologia, deixando-nos diante de um mundo virtual, onde imagem, som e texto são produzidos em velocidade instantânea.

A Ruptura com o Passado.

Na obra A Condição Pós-moderna, de 1979, além de anunciar o eclipse de todas as narrativas grandiosas, Lyotard procura garantir também e principalmente a morte daquilo que, para ele, representava um passado que não tinha mais razão de ser, notadamente correntes como o socialismo clássico e o marxismo. A esta “lista de negações de modelos arcaicos”, o filósofo francês também incluiu outras tantas, como a redenção cristã, o progresso iluminista, o espírito hegeliano, a unidade romântica, o racismo nazista e o equilíbrio econômico. Assim, o discurso pós-moderno lyotardiano passou a rejeitar não apenas a teoria totalizante do socialismo clássico e do marxismo, mas também a de qualquer outra filosofia da história baseada em noções de causalidade, em soluções absolutas que a tudo englobavam a respeito do destino humano — surgindo daí, a necessidade de abandono das metanarrativas. Essa rejeição das noções de totalidade e das narrativas mestras significou também a rejeição dos fundamentos do princípio do ser, da ontologia que elas pressupõem.

Segundo esta linha de pensamento, não existe, portanto, um único e extenso fio condutor capaz de dar inteligibilidade à história, nenhuma ligação intrínseca entre os acontecimentos, posto que não há uma história apenas, indissociável, mas uma série de pequenas histórias fragmentadas, particulares. Para Lyotard, ao invés da narrativa grandiloquente, o que se tem é uma pluralidade de narrativas não passíveis de serem apreendidas sob uma única lógica, um único prisma. Não há uma história somente, porque não há nenhum sujeito — seja ele individual ou coletivo, teórico ou prático — que a atravesse totalmente e que tenha uma condição primordial a realizar neste percurso, como uma espécie de narrador onisciente. Dada esta condição, não é possível observar, consequentemente, uma continuidade na história.

A obra Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (1991), do norte-americano Fredric Jameson, um dos mais reconhecidos debatedores deste movimento, assinala que a superposição entre as teorias do pós-modernismo e as generalizações sociológicas tem por meta o anúncio de um tipo novo de sociedade, mais conhecida pela alcunha de “sociedade pós-industrial”. Ele argumenta que “qualquer ponto de vista a respeito do pós-modernismo na cultura é, ao mesmo tempo, necessariamente, uma posição política, implícita ou explícita, com respeito à natureza do capitalismo multinacional em nossos dias” (JAMESON, 1991). Observa, ainda, que o ceticismo com relação às metanarrativas é um “modo de experiência” que se originou das condições do trabalho intelectual imposto pelo capitalismo tardio.

O crítico literário americano enumera como ícones desse movimento em direção à chamada cultura de massa (ou indústria cultural, termo criado pelos filósofos alemães Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), membros da prestigiosa Escola de Frankfurt, para exemplificar a massificação dos meios de comunicação) uma série de artistas que se utilizaram dos conceitos pós-modernistas — em detrimento dos antigos modelos até então empregados — para criar obras reconhecidamente mercadológicas, mas nem por isso carentes de qualidades artísticas memoráveis, nomes como Andy Warhol, conhecido como o “pai” da pop art, cujas tendências mais importantes foram o fotorrealismo e o neoexpressionismo; John Cage e a síntese dos estilos clássico e “popular” que posteriormente se viu representada em composições de artistas como Philip Glass e Terry Riley e, também, o punk rock e a “new wave“; Jean-Luc Godard, cineasta francês que transpôs os conceitos pós-modernos para o cinema, e William Burroughs, Thomas Pynchon e Ishmael Reed, como exemplos da literatura de um lado, e o “novo romance francês” e sua sucessão, do outro.

No que respeita à literatura, Fredric Jameson argumenta que, a partir da planificação da cultura, o indivíduo perdeu sua identidade e tornou-se impessoal. A pós-modernidade, para ele, contém características progressistas e reacionárias cuja expressão cultural está intimamente ligada aos aspectos mercadológicos, transformando a arte em simples mercadoria. A sociedade contemporânea é, portanto, marcada pela falta de profundidade e pelo excesso de superficialidade. Segundo ele, “nós nos pensamos enquanto mercadoria e esta é, talvez, a mais importante característica formal de todos os pós-modernismos” (JAMESON, 1991).

Neste contexto, a literatura nos chega como a sublimação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo, onde apenas o momento presente tem importância; seu precedente não acrescenta nada e, portanto, deve ser banalizado. Mudam-se valores; a partir de então é o novo, o fugidio, o efêmero e o individual que devem prevalecer.

O historiador britânico Perry Anderson, ao ser convidado a fazer a apresentação do livro de Jameson, terminou escrevendo o seu próprio, As origens da pós-modernidade, em 1998, constituindo assim uma espécie de “introdução” ao conceito. Nele, Anderson diz que a modernidade foi marcada pela excessiva confiança na razão, pelas grandes narrativas utópicas de transformação social e pelo desejo de aplicação mecânica de teorias abstratas à realidade. Tal representação se deu através de imagens de máquinas (as indústrias), enquanto o pós-modernismo é usualmente imaginado através das “máquinas de imagens”, sejam elas oriundas da televisão, do computador, da Internet ou através das vitrines dos grandes templos de consumo contemporâneos, os shoppings centers. Anderson observa, ainda, que essas máquinas inovadoras podem se distinguir dos velhos ícones futuristas de duas formas interligadas: todas são fontes de reprodução e não de “produção” e já não são sólidos esculturais no espaço. Segundo ele, “o gabinete de um computador dificilmente incorpora ou manifesta suas energias específicas da mesma maneira que a forma de uma asa ou de uma chaminé” (ANDERSON, 1998).

Para o autor, esse novo mundo pós-moderno neoliberal disseminou conflitos em várias camadas da sociedade. Criou-se um novo perfil de coletividade, bem diferente daquele existente nos anos 60; agora, o mundo encontra-se em um momento de crise de transcendência, pois assim como na virada do século XIX para o século XX, vivemos um período onde as mudanças tecnológicas são tão rápidas e avassaladoras que perdemos o nosso espírito de transcendência, tão discutido por intelectuais do século XX. Vivemos novamente em uma era de racionalidade, onde o que se afigura como mais importante é a técnica e o seu tecnicismo; o que agora conta como fator determinante é a competição entre os homens, perpassada por uma ética narcisista onde o mercado, caracterizado aqui como uma espécie de entidade sobrenatural, regula todas as ações.

A era pós-moderna suscitou várias crises vindas da crise original de transcendência. Uma grande crise ideológica, política e de valores se criou e, seguindo-se a esta, gerou-se uma crise de sociabilidade. Os homens perderam, principalmente nos grandes centros urbanos, o sentido de ser um animal social; eles não mais se socializam, ou o fazem de uma forma minimamente possível. Pode-se, inclusive, dizer que não existe mais alteridade. Os homens e as massas se tornaram indiferentes uns aos outros, gerando uma espécie de niilismo pós-moderno.

O Brasil e a pós-modernidade.

Os aspectos que caracterizaram a pós-modernidade se depararam, no Brasil, com uma barreira de aceitação que encontrou eco em vários pensadores contemporâneos. Entre as muitas vozes contrárias a esta nova corrente de pensamento, em especial as da esquerda tradicionalista brasileira, duas podem ser destacadas aqui como contestadoras contumazes deste movimento.

Ao discorrer sobre o assunto, o historiador Ciro Flamarion Cardoso diz que o “paradigma pós-moderno” é fundamentado no antirracionalismo subjetivista, “desconstrutivista” e na denúncia dos excessos da ciência. Cardoso desconfia da retórica dos pós-modernistas, por vezes apolítica, e das afirmações apresentadas como se fossem verdades absolutas e autoevidentes. Reclama, ainda, do desleixo teórico e das características metodológicas de seus argumentos. Segundo ele, “as ciências sociais, entre elas a história, não estão condenadas a escolher entre teorias deterministas da estrutura e teorias voluntaristas da consciência, nem a passar de uma ciência frequentemente mal conduzida – comprometida com teorias defeituosas da causalidade e da determinação e com uma análise estrutural unilateral – às evanescências (sic) da “desconstrução” e ao império exclusivo do relativismo e da microanálise” (CARDOSO, 1997).

Em sua pedagogia histórico-crítica, Dermeval Saviani, um dos expoentes da filosofia da educação brasileira, cuja linha de pensamento resvala na fundamentação marxista, também reconhece na contextualização pós-moderna tão somente os efeitos de uma época de fragmentação e superficialidade, um período de decadência da cultura e de esvaziamento do trabalho pedagógico nas instituições formativas. A pós-modernidade seria, assim, apenas mais um meio ardiloso da produção ideológica “pós-capitalista” para encobrir a percepção dos homens a respeito do desenvolvimento histórico.

Numa análise mais aprofundada, o filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Jr. percebeu existir, nos argumentos de ambos os pensadores, uma espécie de ciúme ou receio de que “a pós-modernidade seria um suposto período onde a burguesia deixaria de ser classe revolucionária e passaria a ser classe dominante, e, assim sendo, se voltaria contra a própria cultura, pois, agora, teria que se perpetuar no poder através, embora não exclusivamente, de mecanismos ideológicos” (in Educação e razão histórica. São Paulo: 1994).

Excluídas, obviamente, as generalizações, o que mais parece depor contra a pós-modernidade, a ponto de praticamente torná-la ofensiva para alguns políticos e pensadores brasileiros, sejam eles da esquerda tradicional ou da direita reacionária, é sua visão política pouco engajada, a atitude desinteressada e, até certo ponto, despolitizada. Os pós-modernos aparentemente baseiam suas ações em conceitos que nada tem a ver com o peso da chamada “angústia de influência”. Também se mostram avessos aos extremismos clássicos, do tipo “esquerda-progressista” e “direita-conservadora”, uma vez que acreditam que tais definições estão absolutamente superadas. Os pós-modernistas, assim, descartam a ideia de revolução como passaporte necessário para uma nova sociedade, um novo homem e uma nova felicidade realista sem classes e sem desigualdade.

Na pós-modernidade, o fazer político — e, por consequência, todos os outros fazeres que dele deriva —, além de desacreditar o tradicionalismo reinante, representado até então pelos partidos, sindicatos e eleições representativas, geralmente é disseminado através de ações voluntárias de organizações não governamentais, assim como em colaborações espontâneas de grupos e/ou de pessoas físicas que investem na melhoria das condições de alguns setores, como a saúde ou a educação, pilares indispensáveis à sociedade. E é exatamente aqui, na tomada de decisão e na efetiva ação descentralizada e despolitizada, que talvez esteja o cerne da não-aceitação pós-moderna por parte deste conservadorismo tardio.

Situando historicamente, o pós-modernismo surgiu no Brasil em dois momentos distintos e, especialmente no campo das artes e das letras, os últimos anos da década de 60 foram marcados por um primeiro ensaio de imersão nesse movimento, ambas as vertentes combinando elementos das estéticas anteriores, vanguardistas e pós-vanguardistas. Este primeiro momento representa a mudança, ainda que tímida, de um modelo arcaico, modernista em sua concepção e, portanto, ultrapassado, para um novo conceito de produção artística, agora mais caracterizada pela redefinição e massificação das artes como um todo, pelo pragmatismo em relação aos ideais políticos do século e pela criação de um novo viés de produção cultural que engloba a criação local inserida na — e influenciada pela — produção global.

A década de 1980 se configurou como o segundo e mais importante momento pós-modernista nacional, onde os conceitos de massificação e contracultura se tornaram mais fortes e a superação de diversos aspectos do estruturalismo e do marxismo vigentes até então foram abandonados ou revistos. Neste cenário de mudanças radicais, especialmente nos setores político-sociais, notadamente marcados pelo movimento das Diretas Já e pelo processo de redemocratização nacional, a produção cultural começou a ganhar força através da estruturação técnica e da massificação. Na literatura, na música e no cinema houve uma reestruturação de valores; hits internacionais passaram a ser frequentemente consumidos pelos brasileiros, especialmente a música norte-americana e a poesia franco-inglesa, a própria música nacional, como a MPB e o samba, transformou-se, ganhando ares e batidas pop e os valores da contracultura e da planificação cultural revalorizou o saber, agora pensado como produto de consumo cultural.

No meio dessa mistura entre os universos das culturas de massa e erudita, nasceu um revigoramento da tradição dos grandes clássicos, do prazer de ler romances, das exposições de arte europeia, antigas ou modernas, sob a forma de imponentes espetáculos que apresentavam o novo saber em escala global. Semelhante ao ocorrido nos demais campos do pensamento pós-moderno, tanto no plano nacional quanto no internacional, a década de 1980 foi marcada pela normatização da cultura como um todo, ou seja, a arte deixou de lado seu apelo transgressor em favor de uma renovada e crescente preocupação com o caráter funcional e pedagógico das manifestações artísticas. A cultura, enfim, tornou-se produto para consumo das massas.

Para saber mais (artigo – parte 01):

JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (trad. Maria Elisa Cevasco). São Paulo: Editora Ática, 2004.

ANDERSON, Perry. As Origens da Pós-Modernidade (trad. Marcus Penchel). São Paulo: Jorge Zahar Editor, 1998.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo (trad. Júlio Assis Simões). São Paulo: Editora Studio Nobel, 2007.


Como será que ficava uma arte – desorganizada como a contemporânea – em um espaço modernista, organizado, limpo e ligeiramente massacrante. E isso em uma cidade igualmente organizada e, bem, já foi mais limpa.

Curitiba. Museu Oscar Niemeyer. Exposição O estado da arte (uma geral dos contemporâneos paranaenses).

Me diverte sempre um pouco ver como a arte de hoje faz para se esgueirar entre seus patrocínios e instituições e, ao mesmo tempo, demonstrar uma coisa assim meio antimercado.

Sei como. É assim. O lado antimercado na verdade é também do mercado. Um mercado com aversão a si mesmo. Um mercado cínico. Que se diz mercado e se critica ao mesmo tempo em que vende. E que nem por isso.

Mas enfim. É sempre um pouco divertido. Principalmente se o prédio berra a permanência, o espaço imperial. O espaço imperialmente destinado a alguma coisa que já se chamou povo. E que, no dia em que lá fui, se substituía por umas mães sempre desesperadas por um espaço para passear com bebê. E uma turma de colégio. Bem arrumadinha, como todo o resto, em um agrupamento sentado. Sentar é impedir a expressão. Corporal e até vocal. Tente berrar sentado e você vai entender o que digo.

Mas enfim. Fui.

(Em tempo. Não são todos os espaços oscarianos que produziriam o mesmo efeito, o efeito que eu buscava. O MAC-Niterói, por exemplo, por ser aberto em janelas, põe sua arte exposta ao tempo. E tempo aí não só nos acasos da luminosidade meteorológica, mas no sentido de passagem de horas, ou de um lixo do vivido, sempre renovado sobre o azul do mar.)

A exposição curitibana estava disposta em duas salas bem diferentes uma da outra. A primeira com curadoria de Maria José Justina. A segunda sob Artur Freitas.

Primeiro a primeira.

Se deu pior que a segunda. Nela, talvez por ser de viés histórico, a arte se mostrou mais destituída de qualquer possibilidade crítica. Nenhum vídeo. Nenhuma intervenção nas paredes brancas. E as quebras do espaço enorme resultavam em salas quadradas com uma mesma e predizível iluminação.

Alguns dos presentes:

Objeto caipira, de João Osório – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Mercadão, do Grupo Interlux – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Grafo, de Joana Corona – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cobra coral, de Luiz Henrique Schwanik – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

João Osório, com seus Objetos caipiras. No entanto, ele mimetizava, com materiais para lá de kitsch os oratórios de que nossas casas burguesas do interior estão cheias. Mas encolheu-se com o didatismo ambiental. Aqui bem kitsch, ali só o kitsch que tais objetos já trazem em si, sem intenção. Um e outro postos no centro, comparáveis.

Elvo Beneto Damo tinha madeiras em riste com encaixes. Algo que já vi muito. O manifesto do grupo Sensibilização trazia fotos de uma performance/manifestação antiditadura. Ok. Dulce Osinski fez um painel com imagens de metralhadoras. Ok de novo.

Fui para a segunda sala e gostei mais.

Duas intervenções nas paredes brancas já davam um tom diferente. Rodrigo Dulcio cortou o espaço em uma planta de casa improvável, e Cleverson Oliveira colou fita adesiva aos pedaços, “explodindo” uma das esquinas.

Daniel Chaves fez um vídeo bem humorado, ironizando justamente a ânsia de simetria, com imagens cortadas na vertical e se juntando (mal) no meio. Na trilha sonora, ruídos de trânsit (sempre sem sentido), e de diálogos (também sem muito sentido).

O grupo Interlux Arte Livre fez a placa Mercadão e um vídeo, também em tom irônico, em que personagens eram substituídas por buracos na imagem.

Rimon Guimarães desenhou na parede um “mapa” para se chegar em “casa” (um buraquinho). Joana Corona fez o Gafro. Um objeto com teclas de uma velha máquina de escrever, cujo sintagma só existe na sua sombra na parede.

E, principalmente, do lado de fora, bem enjaulada, a obra que seria a menos controlável de todas, estivesse ela em algum outro lugar. Uma minhoca desengonçada e enorme de Luiz Henrique Schwanike.

A bailarina de vermelhoEm meu texto Histórias da arte, tenho um capítulo seriíssimo dedicado à arte contemporânea. Me deu vontade de substitui-lo por um link. É que o vídeo A bailarina de vermelho, de Samir Abujamra e Alessandra Colasanti, é meio tudo que eu queria dizer a respeito. A começar com a frase de apresentação da Bailarina: “É que eu não me considero eu, entende?”

A história, ahn, ok, o fio, é simples. Em um dos quadros de Degas (*), há uma cadeira vazia. Depois de vários takes de depoimentos, dados históricos e documentos visuais – incluindo fotos antigas, filmes mudos e vídeos do youtube – ficamos sabendo que a bailarina sumida, assim como a arte contemporânea, está em todos os lugares.

E está, principalmente, na auto-ironia dos nés e entendes de fins de frase. E na legenda com a tradução errada de um “filme mudo”. Ou no suposto programa de Michel Melamed, com um vagabundo entrando em cena, atrás. Na explicação acadêmica de Jards Macalé sobre a origem bailarinesca dos nossos quatro dias de carnaval. Na própria cara torta da atriz. E na sua voz arrastada de quem acaba de cheirar/tomar/fumar todas. E na sua mãozinha que indica que aspas acabam de ser abertas ou fechadas em citações (falsas) de Lacan.

Exemplo de uma citação de Lacan: “Quem sabe faz a hora.” Terminada, claro, com um né.

A Bailarina namorou Picasso. Que é um exemplo, segundo ela, da disparidade eventual que se pode notar entre significado e significante. Um, hiperbólico. O outro, a coisa em si, liliputiano.

Ah, e ela acha que a contextualização de seus procedimentos artísticos se dá a partir do advento da morte do autor. Entende?

(E também se dá no desbunde anti-revolucionário e revolucionário pós-64; na derrubada do World Trade Center; em John Cage – que lhe dedicou uma de suas composições; na arte performática de Beuys; no movimento funk norte-americano; e mais em uma meia dúzia de coisas que não deu tempo de tomar nota. Ok?)

Suas origens conceituais vêm de Gertrude Stein, Andy Warhol, body painting e o balé russo. Né?

O vídeo, de 15 minutos, segue o rastro de tal figura, no ano sabático em que ela some no mundo. Um Laos, Nigéria, Criméia e outros lugares abstrusos, todos filmados em Paris, Nova Iorque e Rio. O vídeo e a Bailarina repetem, caçoando, o linguajar culto, erudito da crítica de arte. Não é só a arte e suas manifestações que são retomadas de forma escrachada. O que, em si, já é uma crítica, e das mais eficazes. O fazer crítico também é ironizado e, desse modo, destruído.

Não é que o vídeo não fale de questões importantes. Fala sim. Mas fala rindo.

Por exemplo, o fim, com os créditos, é um take de um músico de metrô americano. O vídeo acaba com uma música, essa arte que some assim que termina. Sem deixar material algum para ser jogado no lixo. Cujo emissor não é sequer visto. As pessoas, de costas para o músico que está sendo filmado, esperam um trem. O barulho do trem entra na música. Não há distinção entre música e trilha sonora do cotidiano. Assim como não há diferença rígida entre vermelhos. Ou entre fruições estéticas ou apenas sensoriais. E isso não é um drama.

Falei acima das “origens conceituais” da Bailarina. Uma que não é citada é a de Stanislaw Ponte Preta e seu Samba do Crioulo Doido. Carnaval – e se você quiser manter a clave do erudito-cafona, posso teclar aqui um Bakhtin para gáudio do populacho. Carnaval. E Brasil. Total atualidade. É sério. E você está aí, rindo.


Direção: Alessandra Colasanti, Samir Abujamra Roteiro: Alessandra Colassanti, Samir Abujamra Elenco: Alessandra Colasanti, Cora Ronai, Cissa Guimarães, Enrique Diaz, Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna, Vera Holtz, Michel Melamed. Fotografia: Samir Abujamra Montagem: Samir Abujamra Música: Lucas Marcier. País: Brasil Ano: 2010 Duração: 15min

Se não neste tempo - fotografia de celular de Elvira Vigna para o AguarrásDuas coisas logo de cara: o rótulo nacionalista e anacrônico de ‘pintura alemã’, e o título: ‘Se não neste tempo’. Perguntei ao Roberto, versado em germanismos, o que ele entendia pelo título. Disse que lhe parecia uma não querência – ou incapacidade – em pertencer a este tempo. Restava saber que tempo seria este. O este-este. Ou o este-aquele. Porque, já sabia e confirmei, o tempo representado nas 83 obras dos 26 artistas presentes não era bem o mesmo que o meu, lá, bloquinho na mão, aguentando firme o olhar desconfiado dos guardas que me impediam de fotografar.

E então, a incapacidade ou não vontade em pertencer a um tempo diria respeito ao tempo meu, este, o de agora. Diferente do tempo representado, e que era um tempo-aquele. O que emperra cronologias. O tempo fora do tempo dos traumas e dos mitos. O das definições rígidas e antigas sobre procedimentos artísticos (só há pinturas – e isto em uma exposição de arte contemporânea). E que é também o tempo das construções rígidas de identidades.

E, uau, que identidade.

A.R. Penck, Jörg Immendorff, André Butzer, Albert Oehlen, Tatjana Doll, Thomas Zipp, Andy Hope fazem quadros enormes e opressivos. Pretos. Suásticas, cruzes, caixões, caveiras. Em paisagens desérticas, destruídas, lunares. E mais Daniel Richter, que também tem muito preto, mas põe umas corezinhas por trás de suas caveiras ambulantes.

Ou Jonathan Meese, que tem figuras hieráticas, grandes, duras: autoridades religiosas, guerreiros, jogadores de xadrez. Suas obras estão em uma sala separada, com móveis velhos e bibelôs à la Farnese. Um pathos de cheiros e texturas mantidos em quartos fechados.

Bernard Heisig é cru: pinta a guerra mesmo. Trincheiras. Ou fábricas, este outro tipo de trincheira. Um estilo meio realismo social. Em um dos quadros – que também são, como em quase toda a exposição, enormes – há uns balões de história em quadrinhos. Concessão a ocidentalismos, mas mais ou menos. Os balões não são balões. São rígidos retângulos.

E aí vem uma corrente que me surpreendeu. Está certo. O tempo parado, o que falha na sua tarefa principal – que é a de ressignificar sem cessar você e tudo mais – é o tempo em que surgem fetiches e pastiches vindos de um passado visto como mais promissor que o presente. Mas eu não esperava nada tão claro. Há, entre os artistas escolhidos pela curadoria  (Teixeira Coelho e Tereza de Arruda), os que fazem com grande clareza a tentativa comum nessas situações, e que é a seguinte: se você não consegue extrair da tua condição – necessariamente histórica, temporal – um significado tolerável, você tende a presentificar símbolos vazios de outros tempos, com a esperança de que, junto com sua casca, venha também um significado, para você e teu tempo presente, que seja mais palatável, aceitável. Assim como uma coluna grega no meio da tua sala cafona e muderna.

Pois aqui a coluna grega varia de Guernica aos impressionistas. Entre as (enormes) obras em PB de Tatjana Doll, eis uma Guernica. Entre as telas sem expressão de autoria de Anton Henning, você fica frente a frente com um barquinho impressionista.

E já que o assunto é o presente estilhaçado, ponho no mesmo parágrafo as (sim, enormes) paisagens de técnica meio de publicidade/design de David Schnell, cujos títulos, como Vidro, mostram bem esse olhar parado no ar, em meio a uma explosão. Eu junto a ele o cotidiano de Werner Büttner. E mais as paisagens também estilhaçadas (e, sim, continuam enormes) de Corinne Wasmuht. Ou ainda, as pessoas sem rosto dos irônicos Blind dates de Eberhard Havekost.

Lembrei das “comunidades imaginadas” de Homi Bhabha. Mas em um sentido torcido, não previsto pelo teórico do multiculturalismo. O problema, aqui, é não tanto o de saber dos desenvolvimentos de um dado processo identitário. É principalmente saber como incluir em tal processo o peso de identidade herdada, parada. A alemã.

Identidade claramente expressa, no caso desta exposição, pelas palavras e frases inseridas nas telas.

Immendorff, Meese e Richter escrevem em suas telas. Ou melhor, picham. Picham os títulos das obras. Ou frases do tipo: Fuck the police (e é fácil acrescentar: fuck qualquer polícia, incluindo a interna). Quando não picham dentro, nomeiam as obras com uma auto-ironia cínica. Caso de Martin Kippenberger com sua Por minha causa, ou Mulher morta com fezes de pombo. Ou I hate you – esta com as palavras ocupando quase metade do espaço pictórico. Michel Majerus fez um enorme painel com a repetição de um logo. O logo de algo chamado New comer. A palavra é repetida e repetida. Sem registro de autoria, impessoalizado, o painel é um ode ao recém-chegado nada.

É como se o alemão de hoje precisasse sofrer um processo de aculturamento para virar, ahn, alemão. Precisasse passar pelas três fases estabelecidas pelo pensador citado acima: uma dependência do nome histórico; a invenção de um novo nome; o retorno ao nome original, ficcionalizando-o.

Logo na entrada há três obras do veterano Gerhard Richter. Acho que ele leva a palma. É, com seu humor submergido, quem melhor representa o que se vai ver.

Como se sabe, Gerhard Richter faz pintura hiperrealista. Ou seja, ele copia exatamente o seu referente. Só que ele usa, como referente, fotos de má qualidade. Fora de foco, com dupla exposição, manchadas. As reproduz de forma absolutamente perfeita. Não está na sua pintura a imperfeição que salta aos olhos. Está na realidade. Filho de nazistas, Richter nunca saiu da Alemanha. Passou o começo da vida no lado oriental. Depois foi para o lado ocidental. Mas nunca saiu da Alemanha. E eu não diria que é um artista alemão. É um dos maiores nomes da arte contemporânea mundial.

Porque realidade turva, ah, isso tem para todo mundo. Agora, talvez precisasse ser um alemão para sacar como mostrar isso tão bem.

Na última vez em que resenhei um romance de Gustavo Bernardo (o premiado A filha do escritor, de 2008), eu antecipei que o indizível acabaria mostrando a sua face. Mais cedo este ano, quando escrevi uma carta aberta sobre o seu novo livro teórico O livro da metaficção, eu expliquei o que escrevi nos idos de 2008: lendo tanto a ficção quanto os ensaios do autor, sempre ficava comigo uma ligeira sensação de que ele queria escrever sobre a morte.

Qual não foi a minha surpresa com este O gosto do apfelstrudel! A começar pelo título, que incomoda, que possui uma palavra em alemão! Depois, por se tratar mesmo de um livro sobre a morte! Mas primeiro, gostaria de falar um pouco sobre o título difícil.

Quem está habituado a ler as ficções ou os ensaios de Gustavo Bernardo, sabe que ele sempre apresenta muitas palavras em diversas línguas diferentes. Suspeito que sua intenção seja instigar o leitor atento e convidá-lo a desfrutar da beleza de se dizer de modo diferente diversas coisas iguais. Talvez seja um convite para nos espantarmos com a arbitrariedade da linguagem. O fato é que a arbitrariedade da linguagem acaba sendo também signo da arbitrariedade da própria existência: afinal, que sentido podemos inferir ao vivermos uma vida apenas para… morrer?

Pois além de apontar para a arbitrariedade de se dizer apfelstrudel com pronúncia em português, além de nos fazer invocar o gosto do folhado de maçã, o pequeno romance do escritor carioca (segundo ele mesmo me disse, o seu livro mais difícil) é um livro sobre a morte e, consequentemente, sobre a vida.

Fosse um romance filosófico sobre o movimento entre vida, morte, literatura, linguagem, impossibilidade, como tão bem fizeram autores como Maurice Blanchot ou Pierre Klossowski, que foram extensivamente explorados por diversos autores contemporâneos, poderíamos dizer que o novo livrinho de Gustavo Bernardo seria mais um produto desta linhagem. Mas o livro é maior que isso. Pra começar, o livro foge às peripécias e firulas linguísticas tão caras a um certo movimento do qual eu mesmo aderi. Ao contrário dos livros desta tradição (vou me esquivar de dar nome a ela, porque ela ainda não se esgotou para que possamos encarcerá-la num conceito, num nome, e analisá-la), o livro de Gustavo é narrado de forma simples, direta, bonita. Chega a ser um livro ainda mais belo porque despretensioso sob o ponto de vista formal.

O livro narra a história de H, um homem de idade avançada, diabete, câncer, depois ainda outro câncer. Após diversos tratamentos, H está em coma, mas ouve o que os seus filhos G e G, e ainda W e W, e sua esposa Z dizem ao seu redor. Graças ao poder da invenção mais sensacional de todos os tempos (diga-se: a ficção), H pode estar em dois lugares ao mesmo tempo: ele retorna à infância e relembra momentos da sua vida ao mesmo tempo em que permanece um homem à beira da morte, ouvindo o que a esposa e os filhos dizem ao seu redor. A história de H não tem moralismos, não tem lições, não tem melodrama. A história de H não tem vampiros, escolas para bruxos, lobisomens. A história de H não é trágica, não “dá ibope”, não é nem nunca será manchete de tablóide. A história de H é altamente subversiva, porque é a história da vida e da morte de um homem bom. E é pelo simples fato de não ser uma história cheia de sangue, violência, grandes eventos bombásticos, que a história de H é uma história que merece ser contada. É a história de um outsider – um homem que estoicamente nunca se lamentava, nunca se preocupava. Descobriu a beleza de saber deixar a vida acontecer e mantia a calma e a sabedoria de entender que poderia enfrentar o que quer que fosse com o que tinha à mão. A bondade de H não é a bondade do caridoso que prepotentemente doa – é a bondade silenciosa de um homem que não seduz ninguém, que não pontifica, não emite certezas ou ordens. Preferia perguntar, sugerir, pedir. Era contemplativo, digno e suave. Num mundo rápido e competitivo onde, como diz o Millôr numa reviravolta bem sacada, “o lobo é o homem do lobo”, a história de H é a história de um homem sereno que sabia quem era, como no poema de Borges: “Chego a meu centro, a minha álgebra e minha chave, a meu espelho. Breve saberei quem sou”. E consuma a sua sabedoria relembrando, no último instante, o sabor da sua sobremesa favorita, como Rémy, no filme As invasões bárbaras, cujo último pensamento é a lembrança de uma atriz erguendo a saia para entrar no rio.

Em suma, O gosto do apfelstrudel é mais um belo livro do autor carioca. É repleto de elementos que “arrumam” a nossa alma e nos motivam a valorizar este dom misterioso que nos é dado de graça: a vida. O livro celebra a vida de modo geral e particular: celebra também a vida de H, este outsider do bem.

Ah, quase esqueço de me dizer: H é Hayrton, pai de Gustavo Bernardo.

Resumo do seminário Crítica, arte e política: rumos cruzados – organizado pela ABCA no Instituto Cervantes de São Paulo nos dias 16 e 17 de setembro de 2010.

A primeira mesa foi com Annateresa Fabris e Agnaldo Farias (mediação de João Augusto Frayze-Pereira).

Annateresa analisou a obra de Dora Longo Bahia, sua orientanda na ECA/USP, principalmente na questão dos dois heterônimos da artista.

‘Marcelo do Campo’ e ‘Marcelo Cidade’, segundo Annateresa, se conformam à suspeita imediata de indicarem uma falta, mais do que um excesso. Em vez de serem vistos como uma explosão de papéis/funções/identidade criativas, sua atuação se inclinaria, ao contrário, em direção à crise de subjetividade do artista contemporâneo. A análise se reforça com a estratégia usada da artista quando assina seu próprio nome (com seu ortônimo, portanto). Dora Longo Bahia usa apropriações e simulações e coloca em questão, sempre, o conceito de originalidade na arte.

‘Marcelo Campo’ é um sujeito conceitual, com sua obra principal datada dos anos entre 1960 e 1970 (as datas também são falsas). Costuma ser apresentado com biografia e portfólio próprios e sua obra mais famosa é um Déjeuner sur l’herbe bastante sexualizado. Depois dos anos 1970, ‘Campo’ desistiu da arte e da atuação política (indissolúveis, segundo ‘ele’) e virou surfista e criador de abelhas fracassado. Hoje vive nas ruas e pode ser que se suicide.

‘Marcelo Cidade’ é um cara sem personalidade própria, que faz apropriações de outros artistas. Ou plágios educados. Sua atuação principal se deu a partir do final dos anos 1990. Também foi um ativista político e adora uma pichação. Muito deprimido costuma declarar sua total falta de perspectiva na arte e na política. Declara que a subversão não abala nem uma nem outra. Também é considerado um pré-suicida.

Dora Longo Bahia, segundo Annateresa, já se referiu à questão de seus heterônimos serem masculinos dizendo que “para as mulheres, estar ausente não é uma contradição, estivemos sempre ausentes de tudo.” Ela se referia à estratégia de seus heterônimos de exercerem atividades políticas de dentro do mundo artístico.

Agnaldo Farias fez uma apresentação da sua posição como curador da 29o Bienal de São Paulo, cujo tema é justamente a política na arte. Segundo ele, seu pensamento partiu de dois eixos: ser apolítico tem graves consequências políticas; como se dá o encontro entre trabalhos políticos em um universo não-político, como o da universidade de hoje.

Agnaldo considera, inclusive, que o artista não deveria se institucionalizar desde cedo na vida, entrando para uma FAAP, por exemplo.

(Do lado de fora da sala, o Instituto Cervantes montou a exposição À sombra do futuro, com a curadoria de Deyson Gilbert, Luiza Proença e Roberto Winter. São 25 artistas, unidos com trabalhos de ressignificação. Entre eles, a placa monocromática de Tiago Judas me chamou a atenção. Um quadro vermelho. Dentro, um círculo do mesmo vermelho roda devagarinho graças a um motor oculto. Você não nota que roda. Muitos minutos e muita atenção serão necessários para que você perceba, por minúsculas imperfeições, que a roda gira. Inclusa no quadrado e com ele compartilhando de uma mesma e uniforme superfície, o movimento se dá sem consequências sensoriais de nenhum tipo, pois o motorzinho também é silencioso. Depois da fala de Agnaldo, a peça de Tiago Judas adquiriu a meus olhos uma leitura auto-irônica.)

Agnaldo disse que seu esforço é para que a Bienal aconteça fora de seus muros e que para isso há três estratégias: a educativa, a de circulação de obras e artistas, e de documentação (incluindo e principalmente pela internet).

Falou também da criação dos seis terreiros – locais de troca, de conversa e de reflexão. O nome terreiro foi difícil de achar. Pensaram em ágora, muito pedante. Em praça, muito vulgar. Lounge não durou dois minutos, pavilhão foi descartado quando ficou claro que sua origem etimológica era a de um tubo com o final dilatado.

A segunda mesa foi com Francisco Alambert e Day Peccinini (com mediação de Neide Marcondes).

Ambos enfocaram a política na arte do ponto de vista histórico. Ela falou dos anos sob a ditadura, ele mais da atualidade. Ambos citaram críticos seminais que orientaram e deram cara ao que se fazia em seus tempos. Ela se estendeu sobre Mario Pedrosa e Mario Schenberg. Alambert citou Pedrosa e também críticos de outras artes, como Paulo Emílio e Antonio Cândido. Ressaltou a importância da fundação da USP, para o pensamento do século XX. E lamentou a existência de “boçalidade” como Luís Felipe Pondé, professor da PUC, no universo cultural de hoje, uma civilização de “hotel Hiltons”, em uma citação de Pedrosa. Ou, pior, “da filha do Hilton, da Paris Hilton”.

A última mesa do primeiro dia foi com Margarita Schultz, professora de filosofia e estética da Universidade do Chile, especialista em arte digital. Margarita pôs em questão a própria definição tradicional das palavras arte, política e crítica. Mostrou que hoje só se pode usá-las na indeterminação.

Segundo dia, primeira mesa. Andrea Giunta, da Universidade do Texas, falou sobre as políticas de representação de conteúdo político, com foco na América Latina e suas ditaduras. Trinta anos depois dos sequestros, assassinatos e desaparecimentos políticos, esta arte continua ativa e eficaz. Citou alguns exemplos em duas circunstâncias bem determinadas: a inserção de arte no ambiente cotidiano das grandes cidades, fora dos locais determinados como sendo artísticos, e seu contrário: a ida para as galerias de documentos e rastros cotidianos dos atingidos pelas ditaduras. No primeiro grupo estão a publicação em jornais, em meio a cadernos esportivos ou de assuntos gerais, de “anúncios” que não são desses contextos, desestabilizando e incluindo na manifestação toda a página do periódico de grande circulação escolhido. Também aqui, a modificação imperceptível em um primeiro momento das páginas de catálogos telefônicos. Entre os nomes “legítimos”, se incluem nomes de desaparecidos ou assassinados, com seu antigo endereço e a menção à data de sua morte ou sumiço. No segundo grupo, a montagem de painéis com os lenços das Avós da Praça de Maio ou montagens intercalando fotos dos desaparecidos com espelhos em que o fruidor se vê, assim, incluído entre as vítimas. Giunta finalizou sua fala ressaltando as semelhanças entre o ato artístico e o político: estão ambos sempre pendentes, nunca completos. A mesa foi mediada por Maria Amélia Bulhões Garcia, da UFRGS.

A segunda mesa trouxe Pilar Parcerisas e Maria Teresa Beguiristain, com mediação de Cláudia Fazzolari. Pilar mostrou uma faceta que até então tinha ficado despercebida no debate entre arte e política, ao se referir à intromissão da política na arte – e não vice-versa, como estava sendo visto até então. Oriunda da região basca, ela falou sobre o franquismo e o entrave à criação do período da ditadura espanhola. Beguiristain trouxe o debate para os anos seguintes, mostrando que a relevância atual das margens, da periferia dos centros tradicionais de produção cultural fez com que o conceitualismo só possa ser entendido no plural – e a partir de sua condição, de sua relação com a sociedade. E que, portanto, é uma arte necessariamente política e inclusa na história. Beguiristain ressaltou o aspecto efêmero, de ataque ao mercado desta arte.

A última mesa foi de Maria José Justino, da UFPR, com a presença de Claudia Fazzolari e Mariza Bertoli, em uma discussão sobre a política de gêneros no âmbito da arte.

Justino parte do princípio de que não há essências, e que portanto não se trata de recuperar um feminino ou um masculino. Ambos, lembrou ela, são conceitos relacionados com as normas de ordem social. Também não considera correto reforçar a ideia da mulher artista como fora da história oficial da arte. As tensões de poder se dão dentro da poética, da estrutura da obra. Como exemplo, citou a artista paranaense Maria Cheung.

Anônimos, de Silviano SantiagoAnônimos, novo livro de Silviano Santiago, editado pela Rocco, é candente. O conjunto de 10 contos, ajustado numa expressão entre o lírico e a ironia, constrói-se, sob o modelo da literatura social, mas, sem que se esqueça da preocupação com o estar político, apresenta uma segunda linha de leitura, que trata, na evocação de um país que não mais existe, do percurso humanitário emoldurado pelas boas intenções, que se revelam tão inúteis quanto dignas de compaixão.

O autor faz parecer que os contos, ao narrarem a vida de pessoas anônimas, centrem seu olhar nas pessoas que, despossuídas de uma crônica que as localizassem no cenário da vida brasileira, estão – na mesma medida que a propaganda oficial da política dos anos 2000 o faz – conquistando a oportunidade de falarem por si próprias. O engano a que o autor submete seu leitor é de igual maestria.

Ao optar pela desconstrução do discurso que a personagem cria para si, o autor, além de chamar a atenção do leitor para as mazelas de um discurso, necessário e gasto ao mesmo tempo, em que sobressaem tanto a necessidade de incluírem-se as personagens no desenho das preocupações sociais quanto a inutilidade que tal discurso assume numa sociedade cujo sonho se transformou no estar solitário e masturbatório da individualidade.

O impasse que se mostra entre o discurso do humanitarismo, da solidariedade e a impossibilidade de dar a eles lugar no corpo social – com que os contos fecham – é o próprio impasse criado por uma sociedade que ao abandonar os vícios do arcaísmo, do artesanato e mergulhar no mercado e no desenvolvimento industrial.

Conto exemplar deste impasse é o belíssimo Dezesseis anos. A trama, envolvendo a mãe, o pai e o garoto, cuja idade dá título à narrativa, trata de uma família – que vive na linha da pobreza – e que tem como modo de vida e moral possíveis atitudes desusadas no cotidiano das cidades brasileiras. A imagem da mãe soprando a brasa do ferro é tanto mais bela quanto mais pungente é a vida que o garoto deve abandonar, em busca dos sonhos que coincidem com os da vida contemporânea, cujo símbolo máximo é o correlato da pobreza representada pelo desejo de adquirir uma bicicleta. Entretanto o que resta ao garoto é “comprar uma passagem da Viação Itapemirim para São Paulo”, levando as roupas passadas pela mãe, numa trouxa feita com as pontas do lençol.

A fuga do garoto revela um percurso inverso ao da família de Fabiano em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Se lá soava a tosca esperança do estudo, aqui resta a dura realidade do trabalho, a vida desglamourizada nas favelas e cidades superpovoadas e o mercado a abrir sua boca enorme para derrubar sonhos e deslocar definitivamente a compaixão como subproduto da moral atrelada ao mercado.

O livro de Silviano Santiago ao fazer o leitor mergulhar na vida das pessoas comuns tem a grandeza dos livros que fazem refletir e colocar em suspenso as realidades que se tornaram ou parte de um passado triste e precário ou parte de um presente dissolvido pelas necessidades que não mais permite ao indivíduo um mundo coletivo.

Resuminho dos últimos cem anos. O modernismo retirou da arte assuntos exteriores a ela e a desmaterializou. Uma tentativa de forçar – de cima para baixo, autoritariamente – a discussão pública sobre ideias e processos de seu tempo. A retirada do sensorial e a inclinação conceitual iriam provocar um segundo movimento, contrário ao primeiro. O da estetização da vida cotidiana. Com ela, a possibilidade de ressignificação de práticas sociais até então engessadas. Este segundo movimento adquiriu a tonalidade política que se negava a aparecer onde era mais esperada: no projeto inicial.

É neste campo da arte contemporânea, o de cunho social, que se enquadra um programa da pós-graduação em artes da UNESP-Barra Funda. A professora da universidade de Lisboa Virgínia Fróis foi convidada a apresentar seu experiência em Montemor (cidade vizinha a Évora) e pensar, junto com os participantes brasileiros do programa, nas relações entre seu projeto e a situação dos oleiros do Vale da Ribeira.

Primeiro, ela situa a materialidade da arte desenvolvida em Montemor, o barro, dentro desta retomada de materiais difusos, efêmeros e não específicos do fazer artístico atual. Ela o liga ao solo – real (o chão de uma paisagem basicamente rural) e simbólico (uma atividade tradicional local).

O núcleo de arte social contemporânea de Montemor nasceu com a necessidade de recuperação de uma arquitetura muito específica. Campo romano, a vila foi ocupada depois pelos mouros. Seus sete conventos e o Castelo datam do século IX, tendo sido destruídos e reconstruídos várias vezes. As últimas vezes, já no século XVI, com barro, taipa, pau-a-pique. Depois da ditadura franquista, começou-se a recuperação deste patrimônio histórico. E para isto era preciso refazer os tijolos de barro da forma como eram feitos, artesanalmente. Além desta marca histórica, há uma outra especificidade na arquitetura local. As casas e a atividade básica inicial de olaria cresciam de forma orgânica. As casas recebiam adendos à medida que cresciam as famílias. E os fornos utilizados eram fornos móveis. Isto é, eles recebiam novos andares e cavidades interiores à medida que as fornadas iniciais inutilizavam o espaço inicial.

Esta a origem.

O que se discute nos vários fóruns artísticos do Convento de São Francisco de Montemor, hoje, é a interdisciplinidade dos fazeres artísticos e sociais. Os estudos se dão na clivagem de arte (cerâmica, música e fotografia), ciências ambientais (de recuperação dos antigos latifúndios e do rio que corta a cidade) e sociologia (com a produção de pesquisas em que se avalia o impacto das atividades primeiras sobre a população). Um desses fóruns, o Projeto Rio, estudou as margens e o fluxo de água, para os quais a cidade primitiva se voltava, e dos quais se afastou devido à poluição e degradação ambiental. Neste projeto, 15 jovens alunos de pintura e escultura desenvolveram trabalhos em que o foco era a intervenção no processo de abandono do rio e seu entorno. Ou, no dizer de um deles, “neste olhar que avança progressivamente para a desatenção”. Fizeram obras site-specific em barro, necessariamente em grupo, e necessariamente com a participação da comunidade. Deste modo, como disse a professora Virgínia, se tornaram não artistas, mas agentes culturais.

“Somos especialistas em ruínas”, disse ela, referindo-se não só à situação de ruínas históricas do local mas à situação do artista contemporâneo que renasce após o fracasso do projeto modernista.

Alguns exemplos da arte atual internacional que se realiza em Montemor.

Nina Hole – com a instalação/performance Torre da lua, de 2000, em que um forno móvel foi feito e refeito em volta da obra, a cada nova etapa, e onde o próprio fogo da queima do barro e seu posterior resfriamento produziam as mudanças cromáticas da obra, em uma referência às contínuas destruições-construções do local; Sandra Casaca – com colunas soltas de terracota, sustentando o nada e com data marcada para se desfazerem, em uma recuperação estética da influência romana e árabe da região; Arnie Zimerman – com “santos” caiados e deformados que imitavam os apliques religiosos já completamente desfigurados das casas centenárias da cidade. Rosana Bortolin, brasileira, presente à palestra, apresentou ela mesma a sua participação em Montemor: uma gigantesca casa do passarinho brasileiro João de Barro, cuja “cúpula” dialogava com outras cúpulas de conventos e capelas locais.

Em termos de participação da comunidade, aliás, Bortolin recebeu mais do que esperava. Durante um festival popular, vândalos destruíram sua obra pouco tempo depois de instalada. O mesmo pode ser dito da escultura de Nina Hole. A Torre da lua, cheia de janelas, foi usada para esconder as drogas dos frequentadores do parque em Diminuir a vida já curta das obras não é a consequência principal desta mistura tão direta com o social, típica de um determinado campo da arte contemporânea. Montemor não é mais a mesma – e isto em aspectos que escapam à intencionalidade inicial. O pólo de arte mudou a população da cidade. Hoje muitos artistas residem na vila. Seus olivais estão no passado. Moinhos de beira rio viraram galerias de arte. E os oleiros tradicionais, não-artistas (os que fazem basicamente tijolos para as construções-reconstruções), antes eram todos homens. Hoje são mulheres. Os homens estão na nova e próspera indústria de turismo. A cidade, aliás, fica apenas a uma hora de Lisboa. Se bobear, vira um Embu-das-Artes.

“Eis que ouvimos o uivo cavernoso de um Dom Vasco raivoso a berrar mais forte que o ronco da ventania que fustigava nossos costados e os mastros há muito desnudos de todo o velame:

— Vede, ó Lusíadas! — ele sacou a rapieira e a ergueu por sobre a cabeça —

Pois que o próprio mar treme diante da vossa coragem!”.

Xochiquetzal (Gerson Lodi-Ribeiro)


Sempre fui um fã confesso de histórias em quadrinhos, e mesmo antes de trilhar o caminho da literatura, eu já devorava pilhas e pilhas de HQs, pese o desespero do meu bolso e os gritos histéricos da minha mãe.

Lembro que um dos primeiros gibis [nem sei se esse termo ainda é usado hoje] que li era um “What If” — espécie de história hipotética que no Brasil ficou conhecido como “O que aconteceria se..?”— da Disney chamado “A caixa-forte dos Irmãos Metralhas” que imaginava a absurda e improvável situação do Tio Patinhas perder sua herança para os famigerados ladrões mascarados.

Era uma edição especial, caprichada mesmo, com direito a título brilhante e tudo o mais, que guardei por muito tempo, até cometer a loucura de presenteá-la ao meu irmão caçula. E uma relíquia de anos se transformou, em questão de dias, em milhares de pedacinhos entre os dedinhos ávidos dele.

Acabei me esquecendo dela até começar a ler um livro que, embora não tenha absolutamente nada a ver com tudo o que falei até agora, me trouxe à lembrança aquele universo hipotético que me apresentou às HQs.

Xochiquetzal - Uma princesa asteca entre os incasA obra em questão, uma espécie de vertente literária do “What if” que atende pelo nome bonito de História Alternativa, tem um nome prá lá de complicado: “Xochiquetzal – Uma princesa asteca entre os incas”, primeiro romance do carioca Gerson Lodi-Ribeiro, recentemente lançado pela também recente Editora Draco.

Primeiro romance, sim, mas não o primeiro passeio por esse ramo da ficção especulativa que trata das coisas que deveriam ter sido, mas não foram. Depois de brincar com outras realidades nas coletâneas de contos “Outras Histórias…” (1997), “O Vampiro de Nova Holanda” (1998) e “Outros Brasis” (2006), o autor traz neste romance uma releitura da época das grandes navegações e da relação dos portugueses com os impérios pré-colombianos descobertos quando da chegada dos conquistadores às Américas — ou às Cabrálias, para já entrarmos na dinâmica da história.

O livro, narrado sob a ótica particular de Xochiquetzal, uma princesa asteca que foi educada na corte lisboeta, tem início com a viagem de Dom Vasco da Gama, seu esposo, a frente da Esquadra da Vingança, uma grande força naval que foi enviada por El-Rei Dom Manuel contra Calicute, para vingar a morte de Fernão de Magalhaes que havia sido capturado e morto pelo Samorim.

Numa inversão da viagem original — aquela que aconteceu em nossa realidade — a Esquadra da Vingança que parte rumo ao oriente é mostrada como um reflexo do poder de Dom Vasco e, por conseguinte, do próprio “rei dos reis” Dom Manuel e de Portugal. Sob o olhar tendencioso e por vezes compassivo de Dona Xochiquetzal, é construída a imagem dos portugueses como os senhores absolutos dos mares, um povo cujo poder já havia conquistado e avassalado todos os grandes impérios do novo mundo.

Cumprida a vingança, após a destruição de Calicute a Esquadra parte de volta, fazendo o caminho que, em nossa realidade, foi a descoberta que conduziu os portugueses às Índias, através do Cabo das Tormentas.

Interessante observar que a travessia, nesta viagem, parece ser o único ponto do livro em que o autor flerta com a fantasia, numa espécie de remissão, proposital ou não, aos Lusíadas, que serve unicamente para confirmar — novamente — a quase onipotência que Dom Vasco possui até mesmo sobre as revoltas dos mares.

Por outro lado, a Espanha, enfraquecida pelas guerras internas entre os reinos de Castela e Aragão, desempenha no livro o papel de coadjuvante, mais como forma de mostrar a superioridade naval de Portugal do que como uma ameaça real, algo que fica claro durante o sítio ao Golfo Mexicatl, ou mesmo à Cabrália do Norte e a ilha de Mana Rata, orquestrado pelo Rei Carlos, e durante o enfrentamento com as naus portuguesas de Dom Vasco e do Vice-rei, que chegam poucos dias depois, em um auxílio que já não se faz necessário.

Vencido mais este desafio, que nas páginas do livro passa tão rápido que nem mesmo chega a ser considerado como tal, eles recebem das mãos do Vice-rei outra missão, para desagrado de Xochiquetzal, e partem para o sul rumo ao Império Inca.

E é nesta parte do livro em que os principais conflitos, principalmente os de ordem interna, passam a acontecer. Enquanto prestam auxílio ao Príncipe Atahualpa, um dos herdeiros à sucessão do trono incaico após a morte do Sapa Inca Huayna Capac, vemos a tentativa dos príncipes astecas e inca de travar conhecimento e troca de informações à revelia de Dom Vasco e, por conseguinte, da coroa portuguesa. Alguns pontos interessantes são levantados pelo autor, como as grandes epidemias que dizimaram as populações autóctones — tanto no Império Asteca, quanto no Inca — e ajudaram no avassalamento, por parte de Portugal, dos povos do novo continente, além da desconfiança de se os portugueses eram cônscios de serem portadores desta tragédia anunciada. A matéria chega até a ganhar certo destaque, com reuniões secretas em que o príncipe Atahualpa pede conselhos a Xochiquetzal e ao príncipe Itzcoatl, seu irmão, mas morre antes de alcançar corpo, ficando a dúvida de se esta história não poderia ter sido mais trabalhada ou se voltará em futuros projetos do autor.

A parte final do livro se dedica à narrativa mais pormenorizada da guerra interina que varre o Império, traçando uma visão mais do que interessante, oportuna até, acerca da dicotomia existente entre o modo de guerrear dos portugueses e dos Incas e de até que ponto a arte da guerra deve ser usada tão somente como um instrumento de conquista.

A história flui bem, graças em grande parte a habilidade do autor em criar um pano de fundo histórico verossímil e por dar a narrativa um viés mais voltado para a aventura, não se preocupando em demasia com explicações ou detalhes desnecessários.

Talvez o grande problema do livro — que não chega a ser exatamente um problema, mas um empecilho para leitores de primeira viagem — seja a forma como foi trabalhada a linguagem.

Escrita em um rico português quinhentista, com palavras que nem a avó da minha tataravó haveria de conhecer, a história ainda conta com um sem número de expressões em náhuatl, como títulos de nobreza e as designações dos filhos e filhas das Cortes Astecas, o que pode acabar comprometendo o bom andamento da história para um leitor médio. Porém, nada que prejudique em absoluto o livro. Antes, lhe empresta um ar de beleza bastante peculiar.

Confesso que não sou um leitor assíduo de histórias alternativas, mas no final da leitura não pude deixar de imaginar como seria a história hoje se o que se passa no livro tivesse realmente acontecido. Na pior das hipóteses, teríamos um pano de fundo histórico muito mais rico — e menos sangrento — do que o que de fato ocorreu.

Enquanto o último romance de José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal, que vai ser lançado em Portugal em Setembro (2010), não brota nas nossas prateleiras, e enquanto não me apetece ler Estação das Chuvas, lançado em Portugal em 1996, e aqui no Brasil só em 2000 pela Gryphus com tiragem de 10 exemplares (só pode ser, porque nunca encontrei esse livro), e agora em 2010 pela Língua Geral… Enquanto isso, leio Manual Prático de Levitação, e assim me sinto especial, já que foi publicado só no Brasil, pelo menos com esse título e com essa composição de contos.

Nunca tinha lido contos de Agualusa. Prefiro romances, de modo geral. Contos são perigosamente breves e tem mais chances de serem frustrantes. Em um conto de quatro páginas, se até a segunda o negócio não deslanchar, provavelmente vai afundar. E lá se foram minutos de vida que poderiam ter sido melhor aproveitados…

Manual prático de levitação não me faz querer rasgar o livro nem me matar, tampouco matar quem o escreveu, mas também não me faz levitar. São altos e baixos. Alguns contos bons, outros menos. São todos leves, alguns bem oníricos, outros apenas desperdício de papel, como o oitavo conto, chamado “O assalto. E não cito esse texto só porque a personagem assaltada se chama Juliana. É claro que queria muito que meu nome figurasse num texto mais surpreendente, intrigante ou bonito. Mas, não… Juliana aparece no texto frustrante, justamente naquele que submerge.

Por outro lado, os textos bons são realmente bons, e foi isso que me fez preservar o livro (e minha vida e a vida do autor!). Em “Se nada mais der certo leia Clarice”, por exemplo, é como se o velho Santiago (de O velho e o mar) tivesse levado um livro da Clarice (a Lispector) para alto mar quando tentou pescar aquele peixe gigante. Ou como se ela própria tivesse aparecido em seu barco trazendo um pernil e uma garrafa de coca-cola como opção para seus atuns crus e sem tempero.

Santiago não teve essa sorte. Quem tenta recrutar novos leitores de Clarice é um velho pescador pernambucano que, dolorido com a ignorância da humanidade, prefere sonhar peixes, como a escritora o ensinou em certa aparição. E Clarice é mesmo um remédio. Não como auto-ajuda, isso não… Seus textos não são tão óbvios. São como um remédio confuso para mentes confusas. É como a convivência entre os loucos. Eles se entendem. Os confusos também. Mas de volta ao conto, ele é assim: simples, leve e bonito. Afinal, um pescador que não apenas lê, mas que lê Clarice Lispector e Alberto Caeiro já é algo encantador. Aposto como esse pescador também lia Manuel Rui. Ele seria, então, a personificação do desejo de Agualusa de aproximar ou de ressaltar os laços entre os países de língua portuguesa.

José Eduardo Agualusa
Manual Prático de Levitação
(contos)
Gryphus, 2005
Coleção Identidades

"Mind the gap" de Ana Lucia Mariz - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásFui ver a exposição Mind the gap de Ana Lucia Mariz, na Ímã Foto Galeria, porque estava pensando em hífens. As fotos dela têm hífen. No caso, um espaço na parede. O tal do gap, que é o de uns 20 anos de vida. Mariz fotografou Londres em 1989 e depois outra vez, em 2009. Era isto o que me interessava. O exercício de resistência identitária da fotógrafa frente a seu assunto, através do uso de um espaço diegético – que não está lá.

A estratégia funciona mais ou menos assim: primeiro, Mariz traz um tempo excedente na fixação do seu desejo pelo assunto. Ou, lacanianamente falando, seu “objeto a” tem uma transformação, uma passagem, ali, ao vivo e a cores, durante mesmo sua própria existência como foco de fixação. Depois, há uma narrativa nova, a partir da junção das duas fotos que formam os vários pares presentes na mostra. Assim, o carro que passa em velocidade na foto em branco e preto (1989) chega – travestido de outro carro – na beirada da foto colorida tirada 20 anos depois. A mulher que vê vitrines continua olhando-as, embora mais jovem, 20 anos depois. E as pessoas no transporte público continuam lá, por todo esse tempo, esperando a chegada em casa. Esta nova narrativa, não provocada pela “realidade” de que as fotos são indícios, muda a relação de significado delas, perturba sua existência de representação, de metáfora significante. Mariz quebra, assim, as oposições binárias que poderiam prendê-la. Não mais há, de forma clara, um sujeito e um objeto – pois o sujeito se mete como representação (ou objeto) no intervalo de 20 anos daquilo que representa com sua objetiva. E o objeto, parte dele, e a principal parte, está fora da materialidade ali presente – as fotos. Os binarismos se fundem todos em um terceiro espaço/tempo, que é o espaço da enunciação de algo que não está formulado nem poderia, não está oferecido, não completamente pelo menos. É uma quebra e uma continuidade. É um hífen.

"Mind the gap" de Ana Lucia Mariz - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásHá mais nesse hífen. Há um questionamento do próprio processo de documentação fotográfica, já que seus pré-requisitos arbitrários (semelhanças/dessemelhanças entre situações descontextualizadas;  20 anos de intervalo, ou serão 19 ou 21) são mostrados como tal, sem que isto seja considerado uma quebra do impacto de informação. E não é considerado justamente porque a informação não está nas fotos, mas fora delas. É a informação sobre a constituição de um agenciamento possível, compartilhado, aliás, com quem vê.

Há mais um ponto que me veio à cabeça com esta exposição, e que é a questão da nostalgia, presente tantas vezes em uma determinada arte contemporânea. Nostalgia é uma palavra recente. Parece que nasceu na Suíça (total surpresa) e dizia respeito a soldados que sentiam falta daquelas montanhas lá deles.

"Mind the gap" de Ana Lucia Mariz - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA nostalgia na arte contemporânea é vista, em geral, como uma maneira de exprimir a inadequação social de seus jovens artistas, um sentimento de deslocamento ou insatisfação do aqui-agora. Uma tentativa de condensar todos os tempos e escapar deles. Pois o tempo, hoje, é visto não mais pelo eixo do futuro promissor, do progresso modernista. A nostalgia é usada na arte, assim, como uma espécie de maquis de resistência. Inatingível pelos tiros da realidade, pois embasada em uma história fetichizada. Mas também inatingível para quem nele pretende se abrigar, pois não está lá.

Pode ser que tenha também um pouco disto nas fotos de Mariz.

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMendigos, trabalhadores da madrugada, prédios vazios e escuros, um botão colorido na calçada depois da chuva, pichações mal encobertas com tinta preta,  a carcaça do carro que serve de suporte para doces à venda, ônibus velhos que vão de Magdalena para Azules e que, pela chapa, sabemos que são peruanos, uma cadeia com presos, a camiseta laranja do homem que tira sua roupa em plena calçada, as rosas pintadas na camiseta de uma puta de beira de estrada, cachorros grudados depois de uma trepada, a lona laranja do ambulante de eletrônicos, a caixa vermelha com pedaços de melancia, a roupa cheia de sangue do carregador de carne, a puta de vestido vermelho, o fogo na calçada, a calça imaculadamente branca de quem pula uma janela para entrar em um ônibus lotado que vai para Tablada, a terra amarela de tão seca, a luz vermelha do cabaré iluminando uma calça amarela grudada na bunda gorda que rebola, espetinhos de camarão, o papel vermelho de um pacote de hollywood com filtro jogado na rua suja. Muito azul, vermelho e amarelo, mas nunca juntos,

Miguel Rio Branco é um colecionador.

E a última exposição parcial – e sempre será pacial – de sua coleção de trastes, lixos, delírios e delitos está no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Algumas considerações sobre colecionadores-artistas:

1) Produzem duas tensões concomitantes e complementares. A primeira se dá porque desafiam, com a descontextualização, a estética original dos objetos colecionados. A segunda se dá por manterem esses objetos suspenso entre a fragmentação de uma narrativa original e a integração em nova coesão narrativa.

2) Condensam sua autoria criativa na manipulação e presentificação dos objetos colecionados, retirando-os assim de uma dupla marca de nascença. Pois esses objetos negligenciados estariam fadados ao esquecimento imediato ou, pelo contrário e por causa disso mesmo, esses objetos são às vezes fetichizados e superdocumentados por sua capacidade indicial de estranhamento.

3) Trazem para o relacionamento fruidor-obra a carga emotiva que deu origem à coleção, e que é o sentimento de posse, de intimidade absoluta, ampliando assim a eficácia de sua arte.

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásColecionadores-artistas podem ser vistos como agentes politicamente ambiguos pois apresentam uma ameaça à esfera pública em sua privatização do coletivo, embora, ao mesmo tempo, ofereçam resistência à institucionalização deste mesmo coletivo ao recuperar e inserir o desvalor no processo histórico oficial.

Agora, o que eu acho de Miguel Rio Branco em particular.

Gosto muitíssimo.

Acho que ele usa sua experiência de posse do que vê, cata e fotografa/filma como uma estratégia para uma crítica de desnaturalização – que é a melhor crítica. Ele interrompe.

Suas fotos têm as cores manipuladas, algumas têm recortes e colagens.  Ele interrompe e desloca. E aí nem precisa recontextualizar porque o receptor se encarrega disso. Ou seja, a verdade estabelecida com violência em cada foto-objeto-vídeo não é a verdade do fato, mas do campo semântico. Nos inclui. Além disso, ele constrói uma identidade dele, Rio Branco, reconhecível a cada pedaço de sua coleção que permite ser vista. Ou que eu vejo.

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásPor exemplo, na instalação chamada Ofélia.  Num canto, jogados, parabrisas quebrados, retratinhos só de peitos femininos, um aviãozinho quebrado de isopor, um tapete sujo de pele de carneiro. Mementos diversos pendurados. Tudo muito sujo, tudo iluminado por tubos de neon. E no chão, inobtrusivas, algumas placas de computador de um outro pedaço de sua coleção de trastes, exposto do Oi Futuro do Rio há bem tempo. A gente olha para as placas e sorri com a alegria triste de quem encontra um velho amigo.

A exposição tem também três vídeos. Em um, sob um ritmo que se mantém, seja ele de uma batida de jazz ou de uma forja de ferreiro, os cabos velhos e sem uso de uma eletricidade que já se foi. Noutro, um tempo que não passa. Num túnel enorme o carro da frente está à mesma velocidade que a câmera que o filma. Em cima desse túnel, um mar que também não parece estar indo à lugar nenhum. E no terceiro vídeo, uma striper incansável tira sua roupa e mostra sua vagina e bunda em poses automatizadas, objetificadas, e depois outra vez.

(ou: Quatro dias que abalaram a terra do Calypso)

À frente, Dionísio. Desembarcando de seu Carro Naval, os Deuses chegaram à Belém e no ápice da liberdade e transgressão que nos ofereceram, não deixaram as pedras no lugar. Nem as pedras, nem o puritanismo, nem o moralismo, nem a vergonha…

Libérrimos, a regra era o êxtase, o delírio, o choque, o espasmo e nessas e outras, quem não esteve, perdeu um espetáculo feito para ser vivido. Tudo era intenso, a sairmos exaustos do Teatro Estádio após horas de catarse. E quando falo horas, realmente são horas: quatro horas, seis horas, com a possibilidade de se estender por um tempo impreciso.

Na terra do “ApoCalypso”, a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, capitaneada por José Celso Martinez Corrêa, apresentou suas Dionisíacas. O real apocalipse para os puritanos, mas experiência estética de uma vida para os que, como eu, embarcaram em suas tragicomediorgyas musicais.

Se nada até agora fez sentido, é porque você não esteve em nenhuma das recentes apresentações do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, que, nos últimos meses, vem se apresentando por diversas cidades brasileiras, como Salvador, Recife e Belém.  Ao todo serão sete cidades em dez meses (até dezembro de 2010) e cada uma receberá quatro espetáculos (Taniko – O rito do mar; Estrela Brazyleira a vagar – Cacilda!!; Bacantes; e O Banquete) que misturam música, dança, teatro, orgia, ritos africanos, mitologia grega, nô japonês, Círio de Nazaré, samba, bossa, rock, sexo, tradições indígenas e vinho, muito vinho.

O grupo em viagem é formado por 60 pessoas, entre técnicos, atores, atrizes, preparadores de corpo e voz, músicos, videógrafos, arquitetos, produtores, camareiras, contra-regras, iluminadores, sonorizadores e comunicadores.

Certo, mas onde está o êxtase? Em Belém, eles ficaram, aproximadamente, entre os dias 9 e 24 de agosto. Nesse tempo, armaram uma tenda gigante em uma praça localizada no centro comercial da cidade, entenda aí, bairro deserto quando o Sol se põe. Além disso, uma semana antes dos espetáculos, realizaram oficinas com atores locais que, uma vez integrados ao processo, participaram das montagens em Belém.

A tenda era um Teatro Estádio. Com capacidade para 1.500 pessoas, não havia um limite certo entre palco e público, tudo era palco e todos, potenciais atores. Em todas as montagens, o público era convidado, estimulado e, até mesmo, impelido, a entrar em cena.

Os atuantes cantavam, dançavam e viviam entre os espectadores, que não raro, podiam ser abraçados, beijados, embriagados e despidos, como acontece numa das cenas mais espetaculares de Bacantes, na qual uma pessoa é puxada da arquibancada e levada para o centro da arena para ser posta nua, com uma máscara de touro sobre a cabeça e ao o som da música: “Ele não sabe que seu dia é hoje! Ele não sabe que seu dia é hoje!”. (Aqui sou obrigado a fazer uma interferência e dizer que durante essa cena, o público foi ao delírio, urrando, pulando, gritando, cantando e aplaudindo o voluntarismo bacante).

Aliás, o primeiro passo para se encarar a experiência dessas montagens é justamente se despir dos pudores sobre nudez.  Os atuantes ficam nus em boa parte do tempo, eliminando tabus sobre o corpo e a sexualidade. Homens beijam-se entre si. Mulheres beijam-se entre si. Há insinuações sexuais. Sacralização e profanação, tendo como regra única a liberdade.

Antes dos espetáculos nos é dado um livro chamado “Hinário” e logo na página dois, escrito em letras garrafais, há “Teatro Musical Brazyleiro”. Pois essa é a essência. As peças são cantadas, portanto, além do trabalho de interpretação, os atuantes, em sua maioria, flertam com o canto, tendo, inclusive, uma banda que toca ao vivo durante as apresentações.

Nesse quesito, gostaria de destacar a voz de Céllia Nascimento, cuja primeira aparição (em Taniko) é arrebatadora. Céllia entra com seios à mostra, coberta de purpurina dourada e com alguns (poucos) adornos com contas metálicas de igual dourado, cuja beleza é potencializada pela cor da pele da atriz, que é negra. Então, entoa uma canção que deixa a todos atônitos.

Na verdade, todos os homens e mulheres que atuam são – sem medo de usar um termo um tanto despropositado para um jornalista – incríveis. Dos quatro espetáculos, vi três e era clara a entrega total de todos que faziam parte deles. Incorporavam o personagem de tal forma que não tenho como descrever, mas é tão intenso que resultam em cenas de grande beleza. (Abro, então, outro parêntese para falar de Anna Guilhermina, que encarna Semele, mãe de Dionísio, em Bacantes; e Cacilda Becker, em Estrela Brazyleira a vagar – Cacilda!!. Destaco-a porque está é musa. Grandessíssima atriz).

Quando, enfim, no domingo quase segunda, as dionisíacas se encerraram em Belém, a sensação era de tristeza e vazio, típico de um pós-furacão.  Tudo que eu entendia por transgressão e libertinagem teve que ser revisto e, na minha vã impressão, vai demorar para repetir, com qualquer outra forma de arte, o delírio e o êxtase ofertados nesses quatro dias.

De Belém, o grupo seguiu num barco rumo à Manaus. Que se preparem os manauaras! Para quem não está lá, as peças podem ser vistas ao vivo no endereço: http://teatroficina.uol.com.br/aovivo

De quando em quando recebo e-mails de escritores, que como eu, usam da internet para divulgar suas obras. Algumas vezes temos gratas surpresas, uma delas foi Manuel Carreiro, autor de “Os Pequenos Deuses da Trapaça”. O primeira coisa que notei em seu e-book, foi os pequenos detalhes, que logo me mostraram, de um lado o humor do autor sobre o próprio ofício, de outro a reflexão profunda sobre a forma de se publicar um livro.

Tive vontade, ao escrever estes breves comentários de apenas analisar os aspectos formais da obra do autor, pois valeria à pena me ater a eles, mas não seria justo com o autor não ressaltar o texto. De tal forma, gostaria de de ressaltar a primeira ironia do livro. Quem já comprou algum livro editado na América do Norte, deve ter notado que nas primeiras páginas, derramam-se elogios ao autor, sempre feitos por personalidades de respeito, para Manuel Carneiro quem o recomenda é somente aqueles que jamais poderiam ter lido o livro. Defuntos elogios ou elogios defuntos, os vermes que primeiro roeram as carnes de Brás Cubas, agora homenageiam Manuel Carreiro.

Tenho certa afeição à fábulas. O conto, em sua origem, tem a tradição fabular, e seus fiapos costumam ficar aparentes nos dentes dos escritores com formação filosófica. Desde o título “Pequenos deuses da trapaça” quanto na escolha da narrativa curta e direta, impregnada de metáforas e palavras cuidadosamente escolhidas por seus significados simbólicos a obra me remete à fábula. Talvez pela influência da obra crítica de Italo Calvino, procuro os elementos fabulares que ele escolheu para a literatura que ele esperava (v. Seis Propostas para o próximo milênio – Ed. Cia das Letras). O texto de Manuel Carreiro apresenta todas: 1) leveza, 2) rapidez, 3) exatidão, 4) visibilidade e 5) multiplicidade. Vale lembrar que a sexta, e última (Consistência), nunca foi escrita pelo italiano que faleceu antes de escrever para o ciclo de palestras que faria em Harvard.

Assim, o conjunto de contos do autor (aqui referidos como contos por apresentarem a forma breve e sem entrar na classificação das formas, que para mim é apenas ilustrativa e acadêmica), formam um pequeno universo de fábulas de nosso tempo. Está lá sua reflexão do (anti) herói moderno, em constante crise com seu mundo. Não vejo como é possível fazer literatura de relevância sem explorar cada aspecto dessa ruptura definitiva.

Não há como ler um dos contos de “Os Pequenos Deuses da Trapaça” sem ao final ter mais dúvidas que certezas. A primeira, talvez única, certeza é que estamos diante de um texto em que nenhuma palavra está fora do lugar, como se cada uma delas fosse resultado de reflexão. Esta é a reflexão que nos gera a exata dúvida que nos leva de volta ao início do conto. A angustia que encontramos no texto está na imagem refletida do leitor sobre o texto buscando não se identificar com cada linha que parece envolvê-lo. Não queremos estar no texto de Carreiro, mas somos levados à releitura exatamente pela dialética Hegeliana dessa busca cíclica.

O impulso cíclico (e reflexivo), não é vicioso, como pode esperar o leitor rasteiro, mas virtuoso. Nas palavras do autor é um livro de resistência e hermético na forma. A leitura fácil das redes sociais é negada. Por certo, ao pensar “que merda é essa?” (como deseja o autor) o leitor precisa abrir mão das facilidades do conteúdo vazio e rasteiro da era da informação e encarar a reflexão com o sabor amargo dos remédios.

Sem entrar na descrição de cada um dos contos, vale ressaltar especialmente o conto “Quero ser outro”. Nesta pequena estória, o autor trabalha com a dualidade do ser humano, sobre aqueles impulsos de admiração e inveja que nos faz querer ter/ser algo que não temos/somos. O conto encerra ao mesmo tempo com uma frase reflexiva mas que dá o ar de “causo à moda antiga”.

Creio que vale a pena, para quem for ler a “Os Pequenos deuses da Trapaça” degustá-lo lenta e pacientemente, pensando a cada conto sobre o que leram e preparados para voltar ao seu início. Como uma boa piada, voltando ao tema do humor, cada sorriso que a obra nos proporciona, mostra nossa capacidade de rirmos de nós mesmos.

Segue abaixo, pequena entrevista que realizei com o autor Manuel Carreiro:

1. Eu notei bastante humor em pequenos detalhes do seu livro. Entre eles os trechos de resenha de autores já falecidos, que não poderiam ter lido seu livro. Qual é a importância do humor em sua prosa?

O humor é importante para abrir caminho pra ironia. Aquela página das resenhas dos autores falecidos é apenas um dos diversos aspectos do livro que visam fazer chacota da indústria cultural e do mercado editorial. Aliás, eu procurei fazer um livro sutil, mas altamente subversivo na sua sutileza. O título desta página das resenhas (International praise for “Os pequenos deuses da trapaça”, by Manuel Carreiro) está em inglês justamente para parecer pomposo e para fazer troça destas páginas ridículas muito comuns aqui na América do Norte, onde os resenhistas dos jornais fazem comparações esdrúxulas como “o novo Elvis da crítica cultural”, “um verdadeiro pop star das letras”, “top da lista do new york times review do caralho a quatro”, apenas para alavancar as vendas de um livro que é, geralmente, muito ruim. Coloquei os comentários na língua original do autor (inglês, português e alemão tosco, porque não sei nada de alemão) no intuito de apontar para a grande bobagem que essas páginas são. E também pra forçar a curiosidade de um leitor atento. O leitor curioso de verdade vai ao dicionário conferir o que tá escrito ali… A citação do Gutemberg, por exemplo, é extremamente irônica e cortante em tempos de e-books e de aparelhos de leitura – mas me pergunto se alguém foi pelo menos ao Google translator pra conferir o que tá escrito ali! Há outras coisas que considero engraçadas no livro. O conto sobre Adão e Eva é na verdade uma piada. O comportamento do personagem número um do conto “Quinta-feira” é patético e triste. Os meninos de “Quero ser outro” são ridículos como nós, querendo sempre ser outra coisa que não nós mesmos. Acho que meu livro possui um humor meio amargo, mas também necessário. Mas é um livro que ri principalmente do autor.

2. Por que a preferência pela forma curta?

Fernando, em determinada altura da minha vida, resolvi assumir a minha incompetência. Eu já havia decidido há alguns anos atrás que eu jamais seria capaz de escrever um romance relevante. Sinceramente acho os meus contos relevantes. Não digo que sejam melhores nem piores do que os de ninguém, mas são relevantes porque são instigantes e abertos. Convidam o leitor atento a pensar um pouco. Claro que escrevo em busca de um leitor ideal. E o meu leitor ideal é lento, preguiçoso, vagaroso. Gosta de ler bem devagar, reler um trecho. Coçar o queixo. Pensar um pouco. Sublinhar. Dobrar a página e maltratar o livro. Desdobrar a página. Retomar a leitura. O livro do meu leitor ideal tem manchas de café e farelo de pão dentro dele, porque ele carrega o livro consigo. Ele não sacraliza o objeto. Ele gosta do que vai lá escrito. E aquilo o influencia. Ele sente o que lê. E a única maneira que encontrei para me expressar foi assim – escrevendo contos. Por ora, não vou mais escrever ficção. Pode ser que daqui a 10, 15 anos, se me for dada a graça de estar vivo, apareça algo. Mas por ora, fico 4 anos escrevendo a minha tese-manifesto de doutorado sobre a crise da educação contemporânea e rascunhando um roteiro de filme.

3. Este é um livro de estórias. como você diferencia Estória e História e porque essa escolha para seu livro?

Na verdade não faço distinção entre Estória e História. Até mesmo porque a História também é uma arte narrativa. Ela é uma Estória. Coloquei “Estória” lá por duas razões: uma é fazer uma espécie de homenagem ao João Guimarães Rosa. A outra é resgatar uma palavra tão bonita que caiu em desuso. Resgatar a palavra também é afrontar o desuso.

4. No livro existe, de maneira recorrente, a decomposição de palavras. em que aspecto foi importante a reflexão sobre a forma na expressão do conteúdo na composição do livro?

Decompus e fundi palavras para dar ritmo à narrativa, para inserir pistas sobre os paradoxos e enigmas presentes no texto. Pensei bastante sobre a forma. Houve um momento em que achei que a decomposição, a fusão, a inversão de palavras, enfim, tudo aquilo estava errado. Daí limpei todo o texto. O livro inteiro. O texto ficou fácil, gostoso, compreensível, amigo do leitor. Daí me senti desonesto. Achei que a melhor forma de ser legal com o leitor é não sendo amigo dele. É fazer algo que perturbe a sua alma sossegada. Daí procurei sujar o texto mais com esses elementos todos. Achei que era mais honesto escrever pra mim. O conto “Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal”, por exemplo, me tomou 3 anos ininterruptos de trabalho. Jamais o abandonei por 3 anos. Reescrevi, tornei-o mais acessível, compliquei novamente, cortei, reescrevi à mão. Achei que era necessário o livro ser formalmente quase hermético assim para manter o seu caráter subversivo. Quando digo que ele é subversivo, quero dizer que ele força o leitor a pensar e a refletir. (Por isso espalhei espelhos pelo texto). Até por isso, sei que pouca gente irá lê-lo. Ele é um livro anti-twitter, anti-mensagem ao celular, anti-falar ao telefone e dirigir, anti-MSN, anti-redes sociais. Gosto de imaginar um leitor imprimindo o e-book em casa, encadernando o livro e levando ele para uma floresta. Ele dá uma banana pra civilização, e fica horas, com um lápis à mão lendo e pensando – “que merda é essa?”

E essa inquietude muda sua vida pra sempre.



Vale Lembrar que o Livro “Os pequenos Deuses da Trapaça” está disponível para download no site do Autor: http://ospequenosdeusesdatrapaca.wordpress.com/

Neon Azul, de Eric Novello, editora DracoMe disseram que era um dos ramos – parece que são vários – da literatura fantástica e lá fui eu, que não gosto de literatura fantástica e, surpresa, não encontrei nada, zerinho, de fantástico em todas as linhas que li, de um fôlego só, do Neon Azul.

Sim, é do Carlos. Carlos Eric Novello. Que é amigo, sócio e parente. Então, aviso logo que não se trata de uma crítica literária eivada pelo favoritismo porque: é simples, não faço crítica literária. Faço crítica de arte. Não sei o suficiente sobre a produção atual de cada escritor importante ou não, a história da literatura ou sua teoria para escrever a respeito. Então, não só não é favoritismo como arrisca ser o contrário: um desfavor.

Mas arrisco porque gostei. Havia começado, ao mesmo tempo, a fazer o esqueleto do que vou falar, com Ruffato, na Bienal de Curitiba, em uma mesa cujo título é: literatura e resistência. E o que vou falar lá é que a escrita migrou no eixo temporal para o eixo espacial.

Com isso na cabeça, leio o Neon Azul sacando que se trata também de um eixo espacial cuja temporalidade finge que vai mas volta, sempre para trás, até que a gente saiba como tudo começou. E tudo começou com um editor que vende a alma ao diabo. Aliás, a alma não, que isso seria deveras demodé. Vende o autor. O Lucas, alter ego do Eric Novello em mais de um livro. E que, assim, coitado, vai começar a escrever a respeito da boate Neon Azul sem nem saber que está sendo manipulado. Este o final da história. E seu começo.

Aí você diz: ah, tem diabo de carne e osso (e terno branco), é literatura fantástica! Só se você for um cara de grande literalidade. Porque eu, por exemplo, que não milito na área fantástica, cansei de ver editor vender a sua profissão ao diabo, ali, na minha frente, xícara suja de café no canto da mesa.

Tem mais no livro: tem um cara que atravessa o espelho até ver o assassino que ele mantém preso do outro lado. E tem bonequinho de infância, um sobrevivente de todas as maldades de que todas as infâncias estão cheias, cuja boca de linha parece capaz de engolir uma pessoa inteira. E mais lacanagens acessíveis a qualquer descrição realista de jornalista idem.

Tem um cara que não dorme.  Ele é o gerente da boate. É claro que ele não dorme. E pergunta para a Caró se, quando o deadline aperta, ela dorme. Fantástico nenhum. Vida normal.

A escolha de um mendigo para narrador me encantou. Me encantaram as frases curtas, diretas, limpas. E engraçadas. E aí é que está. Não é que não haja fantástico. É que ele é visto com um total tédio de quem o conhece e tropeça nele desde que nasceu. É um fantástico sem aquela cara de espanto, ó, mas ele é um vampiro!!! Cara, tem vampiro paca chupando o nosso sangue neste exato momento e é isso aí.

Um trecho:

“Nunca fui à Índa e não acredito no poder purificador de um rio poluído por substâncias cancerígenas, mas trazia no peito um pingente na forma do dente quebrado de Ganesha. Acreditava que ele me protegia de alguma maneira.”

Quem fala isso é a personagem Dita, uma striper. E, sim, você adivinhou, o dente não a protege de nada.

Tem Dita, Gabriela, Ricardo e mais muitos personagens. Você não fica sabendo a historinha completa de nenhum deles. É uma fatia de um bolo. É horizontal, não vertical. Sincrônico, em vez de diacrônico. É um pedaço de vidas que giram em torno da tal da boate. Incluindo o cachorro de rua. E o lixo.

Neon não é azul na vida realmente química. É roxo. E em geral passa todo o tempo  vibrando dentro de um tubo. Com isso, emite luz. Um tubo de neon é como se fosse, então, uma linha de luz a marcar contornos, desenhar letras. Deveria ressaltar limites, formas. Sim e não. A luz também tem o efeito de impedir a nitidez dos contornos. Não tem bom ou ruim a ser contornado ou ressaltado por este Neon. Você não escolhe entre ser pai de família ou assassino. Dá para ser os dois. Da mesma forma que também dá para fazer um livro de literatura fantástica e realista ao mesmo tempo.

Ah, mais uma coisa que me encantou. A boate Neon Azul fica na Lapa. É um bairro do Rio que faz parte da minha história. Eu já vi, eu, o Neon Azul, ao sair da redação de algum jornal, ao descer ou subir para Santa Tereza já escurecendo ou ainda por amanhecer.



Neon Azul
Eric Novello
ISBN: 978-85-62942-08-2
Páginas: 168
Preço de capa: R$ 31,90
Editora Draco