A exposição era a “Art contemporain d’inspiration islamique”, reunindo artistas premiados pela edição 2011 do Prêmio Jameel. Estava no Institut du Monde Arabe de Paris.
Não fui.
E agora vou dizer o porquê.
Porque arte, contemporaneidade e islamismo me soam mal quando em uma mesma frase.
Explico.
Vou começar dizendo como entendo a contemporaneidade. E por qual caminho a entendo do jeito como a entendo: meu caminho é a observação da arte. Das artes. Elas sempre estão láááá na frente. O que vejo nas exposições a que, sim, vou, e também nos livros que leio e nas músicas que escuto é a assumição do frágil, do efêmero, do que não segue em uma linha reta de antes e depois. Pode ser o artista visual brasileiro a usar um pauzinho torto, uma madeirinha de caixote. A literatura que termina antes do “fim” de uma trama que, aliás, também não tem uma explicação de começo, e que é a literatura feita por tanta gente que não vou nem dar nomes. É a música do Chelpa Ferro a incluir liquidificador e outras banalidades cotidianas que o fruidor irá continuar a ouvir assim que sair na rua ou chegar em casa. O balé do Teatro Carlos Gomes de Salvador, que ridiculariza as grandes narrativas do balé clássico ao fazer gente comum contar sua vida – e dançá-la.
Falei de artistas brasileiros. Tanto quanto islâmicos, “brasileiros” também estão nas margens há muito tempo. Pode me chamar de Polyanna. Mas acho que, com um pouco de sorte, as margens dessa vez não seguirão o destino – determinado pelo centro do poder para todas as margens – e que é a de aspirar ao poder.
Todo mundo sabe disso, da importância enorme das margens. Desde Asimov, pelo menos. O caso é que o moderno não caiu igual em todos os terrenos. Os das margens o receberam mal, pouco, só fingiram que sim. Então temos todos, islâmicos ou não, a permanência – cada um de um jeito e em um grau diferente – do arcaico.
Só que.
Num primeiro nível, digamos pouco sofisticado, a manutenção do arcaico se dá através de símbolos. Você se veste de determinada maneira, igual a séculos, para uma situação ritualizada e às vezes até no seu dia-a-dia. Você come uma mesma receita, e a faz igualzinho à sua avó. Tem objetos determinados em lugares determinados de sua casa. Faz gestos esquisitos ao passar em frente a edificações com teto em formato de torre. E representa tudo isso na arte que você faz.
Num segundo nível, você mantém esse arcaico (e, presta atenção: não estou criticando a manutenção do arcaico de jeito nenhum, como aliás você vai ver daqui a pouco) através de seus processos. Então, esse segundo nível de manutenção do arcaico ressalta o interesse que há em processos diferentes daqueles exercidos pelos grupos detentores do poder. Em geral os processos assim estudados são os de trabalho e os sociais. Você, por estar nas margens, produz coisas (incluindo aí a produção estética) e se relaciona com seu grupo (incluindo aí a fruição estética) em um tempo compartilhado e provavelmente mais lento – e ao mesmo tempo mais “rápido” do que o tempo estipulado como satisfatório pelo grupo dominante. Mais lento porque você vai ter u ma manufatura menos mediada por instrumentos. E mais “rápido” porque esse fazer está integrado na sua vida. Você não separará um tempo especial para fazê-lo ou frui-lo. É uma estética que está no calendário da cozinha. Você faz, junto com outras coisas.
São símbolos e processos o que sempre aparece quando se fala da eventual vantagem da manutenção do arcaico como alternativa a uma modernidade para lá de capenga.
Mas eu radicalizo. Para mim, a importância das margens está num terceiro nível. Ou em nível nenhum, de tão raso: a importância das margens é simplesmente a de ser margem, a de estar fora do poder, não exercê-lo. E, como eu disse polianamente, talvez pela primeira vez na história da humanidade nem queira exercê-lo.
Saindo do campo da arte, o que não devo fazer, mas vou fazer. Rapidinho. Os protestos árabes. Qual foi a crítica? Ah, mas eles não sabem o que querem. Só quem não consegue conceber que alguém não queira o poder pode achar que eles não sabem o que querem. Sabem. Querem distância, não o querem para si, não têm planos para isso. Não gostam do poder. Querem que o poder acabe. Por assim dizer, claro, porque tensão é sinônimo de vida. Mas um poder pulverizado (à la internet?) talvez seja o modelo.
Os que protestaram se parecem com os artistas contemporâneos. Os melhores, pelo menos. De ambos os grupos.
Então, voltando à exposição que estou cobrindo sem ir.
Falei da contemporaneidade e, de lambuja, da arte. Faltou o islamismo.
Não fui à exposição enquanto eu estava em Paris por conta do evento “Literatura brasileira contemporânea”, na Sorbonne. Veja só, os termos são quase iguais. À primeira vista, simplesmente iguais. A diferença, enorme, é que “brasileira” aí é uma palavra usada em sentido funcional: trata-se da literatura que está sendo feita e, desejamos todos, também consumida através da cadeia de produção existente no Brasil. Não há na cabeça de ninguém uma especificidade de brasilidade, ou algo do gênero, que possa ser defendida a sério. Já a palavra “islamique” do título da exposição supõe uma essência. Algo imaterial e intemporal que faz com que aquela arte, feita hoje, se veja como islâmica, ou seja, pertencente a uma tradição que se apresenta como antiquíssima. E aí eu acho que o artista tem de escolher: ou é contemporâneo (com a fragilidade de um presente instável, falando de uma experiência pessoal e não grandiosa, com uma obra em aberto) ou é islâmico (com a força de um passado estabelecido, falando de uma experiência grandiloquente e grupal, com uma obra de significação claramente indicada, fechada). Ou, se quiser ser ambas as coisas, não será artista. E não será artista por causa da lição de Velásquez: você não mente criando. Mente na vida. Negocia. Mas não criando. Velásquez era amigo do rei, maneirava com a igreja, uma vaselina só. E fez muito bem, a Inquisição comia solta. Mas na hora de pintar, todo mundo ficava com aquela cara horrorosa mesmo . E o Conde de Olivares virava quase uma caricatura do poder: corpo enorme, cabeça pequenininha.
Então não fui por isso. Porque o título não fazia sentido.
Tem mais uma coisa. Qual é o problema, certo? Ok. Tenho horror a religiões. Para mim, é o começo de tudo de ruim: totalitarismos, certezas absolutas, dualidades tipo branco e preto, para não falar das linhas retas do modernismo, que são de matar. Mas isso sou eu. Qual o problema? Você, por exemplo, é diferente de mim, e gosta. E aí entra um lance pessoal. Sou mulher. Totalitarismos, certezas absolutas, dualidades e linhas retas são sinônimos de machismo. Assim: um determinado grupo nas margens resiste (e insisto, é muito bom que resista) às incursões do poder dominante, venham elas por sedução (o consumo, a propaganda) ou força (as leis de Jean–Marie Le Pen). Adivinha onde em geral fica esse “território” etéreo cuja posse se disputa? Acertou. O corpo feminino. Entram com a burka à força, tiram a burka, também à força.
Um adendo quanto ao argumento de que mulheres querem a burka. Não sei se querem. Vamos supor que queiram. E que só umas loucas não queiram e se não usarem são atacadas, presas, apedrejadas, sei lá. Vamos supor. Leve em conta o seguinte: quem nunca foi visto, reconhecido como existente, tem a tentação enorme de resolver sua não-identidade assumindo a não-identidade como identidade. Eu não existo? Ótimo, agenciarei minha não existência. Serei aquela que não existe. Resolvido o problema. E se, ao não existir, eu incomodar alguém, melhor ainda, fica só perfeito. É chato citar Lacan, mas não tem outro jeito. Não tem nada pior do que você trair o seu desejo para satisfazer o desejo do outro. Vestir burka é o que o outro quer, principalmente quando ele diz que não quer. Ele também só existe porque diz que não quer. Ele é aquele que não quer a burka. É um jogo.
Estou fora.
Vejo todos os dias a saída do impasse expresso pelo título da exposição a que não fui. Está, por exemplo, nos narradores que foram tema da minha palestra no evento sobre literatura brasileira contemporânea. O personagem, em sendo o personagem-narrador, existe, ainda que por um nanossegundo, antes de abrir a boca (ou escrever a primeira palavra). Ele será, por assim dizer, “islâmico”, pois constituído necessariamente por um passado. Mas o que este passado lhe dá é apenas um ponto de vista. Dará talvez um símbolo ou dois que façam parte de seus hábitos de vida. Uns afetos e uns processos particulares, dele, pessoais, de como lidar com tais afetos (afetos nos dois sentidos, o segundo sendo o do verbo afetar, impactar). Dará, se eu tiver razão, um “não” radical ao poder. E isso é tudo o que ele tem. Não determina o trajeto de antemão. Determina a maneira de dar os passos.