Baukultur
A Baukultur, mostra de arquitetos contemporâneos alemães, fez parte da Nona Bienal de Arquitetura. Mas não foi na Oca, foi no Centro Cultural São Paulo.
Escolhi duas obras para falar aqui, as duas com problemas.
A que mais gostei é um edificiozinho espremido em uma rua movimentada de Berlim, a Brunnenstrasse. O edificiozinho se chama Favela Teutônica (é sério), foi feito em 2010 pelo escritório Brandlhuber/Era para um cliente-artista que queria morar, trabalhar e expôr sem sair de casa.
O lugar é um terrenão, e o antigo dono ainda mora em um puxadinho na parte de trás. Ele vendeu só a parte da frente e, no contrato, pôs uma cláusula de que o edifício novo não podia tampar o sol da casa dele.
Segunda questão: a parte da frente do terreno trazia vestígios históricos da guerra. Fica bem onde era o Muro de Berlim. Lá, em meio a ruínas, um porão quase intacto e o poço de um elevador antidiluviano. Se desse para manter, a comunidade iria gostar.
Terceiro ponto. Os dois edifícios, um de cada lado do buraco vazio, têm andares em alturas diferentes. E o arquiteto, Thomas Schneider, queria o seu sobradinho se juntasse visualmente a esses dois edifícios vizinhos. Portanto, com andares coincidentes tanto à esquerda quanto à direita – embora de alturas diferentes.
E, finalmente, o corpo de bombeiros. Escada de emergência afastada três metros do corpo do edifício. Altura máxima para não precisar de local para escada magirus: 8 metros. Sem negociação.
Agora, a solução. 1) O telhado tem a inclinação exata do sol, depois que ele aparece do outro lado da rua, mais uma arvorezinha. Mas o dono do terreno não se importou com a projeção de sombra da arvorezinha; 2) o porão foi mantido e reformado, o elevador novo entrou exatamente no lugar do antigo; 3) cada andar do edifício novo tem dois níveis, para combinar com a altura dos andares díspares dos edifícios que ficam grudados nele; 4) a escada de emergência, dando para o quintal de trás, virou área de bate-papo; e o chão do quintal foi elevado com um aterro para que os 8 metros fossem obedecidos.
Na parte da frente, a fachada é feita de plástico translúcido. Policarbonato, o nome chique. É do que é feita a cobertura de estufas. Luz o dia inteiro. Calorzinho bom também. Na calçada, a galeria de arte, a entrada para os fundos e a entrada para o edifício. A entrada para os fundos é grande e vive fechada. A comunidade se habituou a colocar avisos de exposições, anúncios de aulas particulares e venda de instrumentos musicais por ali.
Até hoje ainda há pendências com a prefeitura, que continua achando o projeto muito esquisito. Mas é uma graça.
O segundo que gostei é um edifício flutuante. Até hoje a administração do porto de Hannover não deu licença para a construção. Acha que vai afundar. Isso porque o tradicional sanduíche de isopor e concreto de que são feitas as plataformas flutuantes aqui está invertida. O arquiteto responsável, Hans Slawik, jura que não afunda. Ele fez a maquete em grandes dimensões e pôs no rio Elba para provar isso. Está lá até hoje. É um complexo de salas de exibição, conferência, escritórios, cafeteria e mesinhas ao ar livre (na plataforma em volta). Tudo isso sobe e desce todos os dias os 3,5 ms da maré. Há três cilindros fixos no leito do rio/mar, e três alças enfiadas neles. É a âncora. Tudo aqui é autossuficiente. Energia para luz e calefação vem de placas solares, o esgoto é tratado e reciclado, água higienizada do entorno, seja rio ou mar.
A construção é muito leve. Na verdade são containeres. Há dois tipos: o quadrado e o retangular (aquele que fica sobre caminhões ou trens). O retangular fica em pé. ficam envoltos em uma “pele” que os protege da exposição excessiva ao tempo. Você muda a composição se precisar. E levanta a pontezinha e vai se instalar em outro porto, se quiser. E se o aquecimento global tocar a campainha, você simplesmente atende – uns centímetros mais em cima.
Há um terceiro projeto de que também gostei. Uma contenção de enchente com estação de bombeamento. Em geral isso tudo não fica aparente para quem passa em frente. Aqui fica. Deixaram uma parte pequena acima do nível do terreno – em uma zona industrial. Fizeram em pedra. Há vãos entre as pedras. As enchentes umedecem os vãos. Nasce uma vegetação. Só para lembrar que água é bom.
Está em Colônia e foi feito em 2009 pelo escritório Astoc de arquitetura.








































