Ao assistir Melancolia, pensei: pretensioso! Mas dizer pretensioso isoladamente, não o define em sua plenitude. É preciso ir além: pretensioso e arrogante. Arrogante no sentido de exibicionista. O filme? Não! Me refiro ao seu realizador: Lars Von Trier. O filme é simplesmente medíocre, em nada provoca ou incomoda o espectador. O estorvo é o pretenso gênio do diretor. Ele parece querer ser mais do que é. Acredita ser moderno, crítico, lírico. Nada mais distante da realidade. Seu filme é raso, óbvio, enfim, um filme-pastiche.
Na primeira parte – Justine – Trier mostra uma câmera nervosa, instável, trêmula como se a sua presença expusesse uma imbricada relação de forças, ora explícita, por vezes inutilmente represada. Os papéis sociais são mostrados de forma nua e crua. A sociedade contemporânea é radicalmente descrita através daquelas personas contraditórias e risivelmente tolas. Poderia ser assim, mas tudo é muito mais. O que vemos é um desfile de caracteres auto-evidentes em jogos forçados numa tentativa de deflagrar uma crítica ferina ao nosso tempo, proposta esta só viável aos olhos complacentes. Tudo isso cheira à museu. Nada que já não tenha sido filmado com mais originalidade e com maior competência por outros cineastas que o antecederam.
E a cena da jovem Kirsten Dunst urinando num belo gramado de golfe, com um sorriso maroto? Era para chocar? Seria uma conclamação para uma rebeldia contra a insana sociedade burguesa (“Sabe o quanto me custou esta festa?” diz o cunhado o tempo todo…)? Certamente não! O filme visa espectadores sofisticados, maduros tanto intelectual quanto existencialmente, que não se chocariam com tão pouco. A verdadeira transgressão é, indubitavelmente, a próxima cena: como pôde Justine beijar em seguida seu noivo sem lavar as mãos?! É necessário um niilista para denunciar toda esta hipocrisia contemporânea!
Mas o nosso artista não contenta-se com pouco. A modernidade não se limita ao conteúdo. A forma, muitos pensam, é a verdadeira assinatura de um gênio. Assim, ele recusa comprometer sua arte com uma filmagem careta e ultrapassada. Nada de uma história linear, de um desenrolar harmonioso (sempre haverá quem ressalte a antecipação do fim da história exposto no começo do filme ou exultará os brilhantes stills que emolduram a obra). A quebra de ritmo é evocada com este intuito e transpira entre cada fotograma deste filme, acreditando pôr a obra na mais nobre linhagem da cinematografia contemporânea. É por isso que o diretor choca o seu público, por exemplo, fazendo a noiva cochilar na própria festa de casamento: ação-ruptura-ação. Puxa, uma ousadia digna dos grandes nomes.
Nada faria sentido – um conteúdo original e uma forma surpreendente – se Trier não mostrasse a todos que não respeita qualquer tabu; afinal, ele é um digno representante do pessimismo. Então o nosso diretor faz com que a delicada atriz americana transe de forma inconsequente com um jovem convidado da festa nupcial. Mas, ressalto: tudo filmado de uma distância respeitosa. Afinal, há um limite para tudo. O seu público de vanguarda poderia julgar algo além disso como desnecessário.
Quanta bobagem! A verdade é que um filme só deve existir se duas condições estiverem presentes: o projeto cinematográfico precisa ter algo de corriqueiro, afeito a sua própria natureza, como se o autor pudesse exclamar, sem qualquer constrangimento: porque ninguém nunca fez isso antes? Ao mesmo tempo, deve sentir que o filme, caso não seja realizado, representaria uma oportunidade única perdida e de consequências incalculáveis para o mundo. Enfim, arte deve ser um caso de vida ou morte.
Trier não compartilha destes sentimentos. Sua lírica frivolidade beira a irresponsabilidade com o fazer cinematográfico. Ele exige do seu filme que transpire arte, que seja um testemunho emblemático de sua genialidade. Mas não há força que funcione no delicado campo artístico. Como se diz, ou é fácil ou é impossível. Se Lars Von Trier aceitasse sua capacidade, talvez realizasse bons filmes, mas sua ambição resulta num subproduto, espelha os traços mimados de seu autor.
A segunda parte do filme – Claire – é menos problemática. Afinal, a parte inicial já havia dado claros indícios da inconteste capacidade do artista em questão (alguns dirão: “Que cenas memoráveis!”, “Que composições sublimes!”). Rebuscar mais poria em risco o sucesso do filme. Seu público esclarecido precisa entender a obra para exibir-se entre amigos.
Agora, menos problemático não quer dizer mais interessante. A segunda parte é menos afetada, mas, por outro lado, é mais sonsa e sem brilho. Tem o merecimento de evidenciar, aos olhares atentos, que a grande personagem não é a infantil Justine, mas Claire (interpretada magistralmente por Charlotte Gainsbourg) e sua incapacidade de romper com as expectativas impostas e os papéis sociais esperados. Mas como explicar então os louros oferecidos à Kirsten Dunst, aclamada inclusive como melhor atriz no festival de Cannes por sua interpretação? Sua atuação tão elogiada – uma atuação segura, nada além disso – deve-se a sua nudez, comportada, diga-se de passagem. Quando respeitáveis e belas atrizes se despem pela “arte”, recebem em troca elogios superlativos por suas interpretações. É como se a indústria dissesse: Boa menina. Jogo de cartas marcadas.
O que torna mais constrangedora esta tentativa de exibição de Trier é o fato de seu filme ser contemporâneo do desconcertante Film Socialisme de Godard. O velho Godard, aos oitenta anos, ainda é capaz de declarar o seu amor ao cinema e tecer uma obra que atinge o espectador como um soco. Com uma direção azougue, o filme busca fazer emergir as mazelas do continente europeu, sem o fácil recurso das alegorias “pré-fabricadas” (como a de uma grande limusine que não consegue passar por um estreito caminho, por exemplo). Film Socialisme impede o espectador de seguir o reto caminho do sentido, da tão acolhedora moral da história. Cada exibição da trama explicita uma nova camada possível de compreensão, tornando sua experiência cinematográfica um verdadeiro vertedouro de imagens.
Enfim, é preciso não confundir profundidade com as lacunas encontradas pela ausência de talento. Tão pouco podemos definir o cinema pelo simples ato de filmar. Entender a sétima arte como um mero desfilar de uma técnica pretensiosa é reduzí-la ao seu formato mínimo.