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Tag Archives: contemporânea

A exposição era a “Art contemporain d’inspiration islamique”, reunindo artistas premiados pela edição 2011 do Prêmio Jameel. Estava no Institut du Monde Arabe de Paris.

Não fui.

E agora vou dizer o porquê.

Porque arte, contemporaneidade e islamismo me soam mal quando em uma mesma frase.

Explico.

Vou começar dizendo como entendo a contemporaneidade. E por qual caminho a entendo do jeito como a entendo: meu caminho é a observação da arte. Das artes. Elas sempre estão láááá na frente. O que vejo nas exposições a que, sim, vou, e também nos livros que leio e nas músicas que escuto é a assumição do frágil, do efêmero, do que não segue em uma linha reta de antes e depois. Pode ser o artista visual brasileiro a usar um pauzinho torto, uma madeirinha de caixote. A literatura que termina antes do “fim” de uma trama que, aliás, também não tem uma explicação de começo, e que é a literatura feita por tanta gente que não vou nem dar nomes. É a música do Chelpa Ferro a incluir liquidificador e outras banalidades cotidianas que o fruidor irá continuar a ouvir assim que sair na rua ou chegar em casa. O balé do Teatro Carlos Gomes de Salvador, que ridiculariza as grandes narrativas do balé clássico ao fazer gente comum contar sua vida – e dançá-la.

Falei de artistas brasileiros. Tanto quanto islâmicos, “brasileiros” também estão nas margens há muito tempo. Pode me chamar de Polyanna. Mas acho que, com um pouco de sorte, as margens dessa vez não seguirão o destino – determinado pelo centro do poder para todas as margens – e que é a de aspirar ao poder.

Todo mundo sabe disso, da importância enorme das margens. Desde Asimov, pelo menos. O caso é que o moderno não caiu igual em todos os terrenos. Os das margens o receberam mal, pouco, só fingiram que sim. Então temos todos, islâmicos ou não, a permanência – cada um de um jeito e em um grau diferente – do arcaico.

Só que.

Num primeiro nível, digamos pouco sofisticado, a manutenção do arcaico se dá através de símbolos. Você se veste de determinada maneira, igual a séculos, para uma situação ritualizada e às vezes até no seu dia-a-dia. Você come uma mesma receita, e a faz igualzinho à sua avó. Tem objetos determinados em lugares determinados de sua casa. Faz gestos esquisitos ao passar em frente a edificações com teto em formato de torre. E representa tudo isso na arte que você faz.

Num segundo nível, você mantém esse arcaico (e, presta atenção: não estou criticando a manutenção do arcaico de jeito nenhum, como aliás você vai ver daqui a pouco) através de seus processos. Então, esse segundo nível de manutenção do arcaico ressalta o interesse que há em processos diferentes daqueles exercidos pelos grupos detentores do poder. Em geral os processos assim estudados são os de trabalho e os sociais. Você, por estar nas margens, produz coisas (incluindo aí a produção estética) e se relaciona com seu grupo (incluindo aí a fruição estética) em um tempo compartilhado e provavelmente mais lento – e ao mesmo tempo mais “rápido” do que o tempo estipulado como satisfatório pelo grupo dominante. Mais lento porque você vai ter u ma manufatura menos mediada por instrumentos. E mais “rápido” porque esse fazer está integrado na sua vida. Você não separará um tempo especial para fazê-lo ou frui-lo. É uma estética que está no calendário da cozinha. Você faz, junto com outras coisas.

São símbolos e processos o que sempre aparece quando se fala da eventual vantagem da manutenção do arcaico como alternativa a uma modernidade para lá de capenga.

Mas eu radicalizo. Para mim, a importância das margens está num terceiro nível. Ou em nível nenhum, de tão raso: a importância das margens é simplesmente a de ser margem, a de estar fora do poder, não exercê-lo. E, como eu disse polianamente, talvez pela primeira vez na história da humanidade nem queira exercê-lo.

Saindo do campo da arte, o que não devo fazer, mas vou fazer. Rapidinho. Os protestos árabes. Qual foi a crítica? Ah, mas eles não sabem o que querem. Só quem não consegue conceber que alguém não queira o poder pode achar que eles não sabem o que querem. Sabem. Querem distância, não o querem para si, não têm planos para isso. Não gostam do poder. Querem que o poder acabe. Por assim dizer, claro, porque tensão é sinônimo de vida. Mas um poder pulverizado (à la internet?) talvez seja o modelo.

Os que protestaram se parecem com os artistas contemporâneos. Os melhores, pelo menos. De ambos os grupos.

Então, voltando à exposição que estou cobrindo sem ir.

Falei da contemporaneidade e, de lambuja, da arte. Faltou o islamismo.

Não fui à exposição enquanto eu estava em Paris por conta do evento “Literatura brasileira contemporânea”, na Sorbonne. Veja só, os termos são quase iguais. À primeira vista, simplesmente iguais. A diferença, enorme, é que “brasileira” aí é uma palavra usada em sentido funcional: trata-se da literatura que está sendo feita e, desejamos todos, também consumida através da cadeia de produção existente no Brasil. Não há na cabeça de ninguém uma especificidade de brasilidade, ou algo do gênero, que possa ser defendida a sério. Já a palavra “islamique” do título da exposição supõe uma essência. Algo imaterial e intemporal que faz com que aquela arte, feita hoje, se veja como islâmica, ou seja, pertencente a uma tradição que se apresenta como antiquíssima. E aí eu acho que o artista tem de escolher: ou é contemporâneo (com a fragilidade de um presente instável, falando de uma experiência pessoal e não grandiosa, com uma obra em aberto) ou é islâmico (com a força de um passado estabelecido, falando de uma experiência grandiloquente e grupal, com uma obra de significação claramente indicada, fechada). Ou, se quiser ser ambas as coisas, não será artista. E não será artista por causa da lição de Velásquez: você não mente criando. Mente na vida. Negocia. Mas não criando. Velásquez era amigo do rei, maneirava com a igreja, uma vaselina só. E fez muito bem, a Inquisição comia solta. Mas na hora de pintar, todo mundo ficava com aquela cara horrorosa mesmo . E o Conde de Olivares virava quase uma caricatura do poder: corpo enorme, cabeça pequenininha.

Então não fui por isso. Porque o título não fazia sentido.

Tem mais uma coisa. Qual é o problema, certo? Ok. Tenho horror a religiões. Para mim, é o começo de tudo de ruim: totalitarismos, certezas absolutas, dualidades tipo branco e preto, para não falar das linhas retas do modernismo, que são de matar. Mas isso sou eu. Qual o problema? Você, por exemplo, é diferente de mim, e gosta. E aí entra um lance pessoal. Sou mulher. Totalitarismos, certezas absolutas, dualidades e linhas retas são sinônimos de machismo. Assim: um determinado grupo nas margens resiste (e insisto, é muito bom que resista) às incursões do poder dominante, venham elas por sedução (o consumo, a propaganda) ou força (as leis de Jean–Marie Le Pen). Adivinha onde em geral fica esse “território” etéreo cuja posse se disputa? Acertou. O corpo feminino. Entram com a burka à força, tiram a burka, também à força.

Um adendo quanto ao argumento de que mulheres querem a burka. Não sei se querem. Vamos supor que queiram. E que só umas loucas não queiram e se não usarem são atacadas, presas, apedrejadas, sei lá. Vamos supor. Leve em conta o seguinte: quem nunca foi visto, reconhecido como existente, tem a tentação enorme de resolver sua não-identidade assumindo a não-identidade como identidade. Eu não existo? Ótimo, agenciarei minha não existência. Serei aquela que não existe. Resolvido o problema. E se, ao não existir, eu incomodar alguém, melhor ainda, fica só perfeito. É chato citar Lacan, mas não tem outro jeito. Não tem nada pior do que você trair o seu desejo para satisfazer o desejo do outro. Vestir burka é o que o outro quer, principalmente quando ele diz que não quer. Ele também só existe porque diz que não quer. Ele é aquele que não quer a burka. É um jogo.

Estou fora.

Vejo todos os dias a saída do impasse expresso pelo título da exposição a que não fui. Está, por exemplo, nos narradores que foram tema da minha palestra no evento sobre literatura brasileira contemporânea. O personagem, em sendo o personagem-narrador, existe, ainda que por um nanossegundo, antes de abrir a boca (ou escrever a primeira palavra). Ele será, por assim dizer, “islâmico”, pois constituído necessariamente por um passado. Mas o que este passado lhe dá é apenas um ponto de vista. Dará talvez um símbolo ou dois que façam parte de seus hábitos de vida. Uns afetos e uns processos particulares, dele, pessoais, de como lidar com tais afetos (afetos nos dois sentidos, o segundo sendo o do verbo afetar, impactar). Dará, se eu tiver razão, um “não” radical ao poder. E isso é tudo o que ele tem. Não determina o trajeto de antemão. Determina a maneira de dar os passos.

Imagine que seu dia começou cedo. Sem sono, você levantou junto com o sol e ligou a televisão. Estava passando um desenho animado qualquer e resolveu assistir. Sentado diante da tela, você viu uma cachoeira e um personagem tentando fazer o outro despencar lá de cima. Para isso, usava um monte de toras de madeira. O alvo do ataque mantinha-se vivo correndo sobre as toras, como se estivesse em uma esteira.

A cena clássica dos desenhos animados foi a primeira imagem que me surgiu ao entrar na Casa França-Brasil. Na nova exposição de Ivens Machado, o que se enxerga ao entrar no espaço é um trabalho criado a partir de materiais brutos. Retornando ao Rio de Janeiro depois de dez anos, Ivens Machado é um artista que utiliza diversas linguagens em sua atuação. Assim, como em sua carreira, na exposição as esculturas convivem com as instalações e a videoarte.

Nessa perspectiva, variedade é a chave da organização ali: há desde releituras (como as obras de madeira, apresentadas na Bienal de São Paulo de 2004, e a instalação de azulejos, baseada em um trabalho feito para o MAM em 1973) até um vídeo inédito produzido pelo autor. Com um detalhe interessante: não há títulos para as obras. O conjunto é impactante: um certo vazio estabelece um contraste com a solidez dos materiais utilizados. Há muita madeira, combinada a terra, papelão e azulejos.

A sensação inicial foi se repetindo e se transformando conforme o avanço. Não conseguia tirar da cabeça um bonequinho qualquer correndo sobre os troncos. Mas, além disso, uma das esculturas associou a lembrança um conjunto de lápis. Mais a frente, a areia e o aviãozinho sobrevoando traziam a recordação um quintal, um garoto que brincava com a terra e parava tudo pra olhar o avião passar. Em uma das salas, olhando uma instalação feita de azulejos, pensei na cozinha da casa da minha avó. Era possível extrair algo de ingênuo, delicado e infantil naquele ambiente árido construído pelo artista.

Entretanto, tudo aquilo teve um fim ao entrar na sala em que era projetado o vídeo produzido pelo artista. O jogo de fuga apresentado me transportou para outro lugar: um grande pesadelo infantil. Aqueles sonhos que começam agradáveis, não fazem o menor sentido e levam a uma perseguição alucinada que culmina com o momento do susto final e do acordar.

Como em toda relação artística, há um contrato implícito. O artista oferece sua alma e o público seus sentimentos. Há que se fazer um mergulho, o que exige uma disposição prévia. Um desavisado poderia entrar e achar que se tratava de uma reforma no local; um maluco poderia enxergar ali referências infantis, como eu.

Assim, assinado o contrato imaginário, está tudo lá disponível. Basta que o espectador construa seu caminho. Ou seus caminhos. Existe um, que leva da porta de entrada à tela grande em que é exibido o vídeo. Mas é apenas um deles. É importante perceber que caminhos diferentes evocam memórias diferentes. E esse é, sem dúvida, o grande mérito da exposição, uma vez que possibilita a construção de uma memória afetiva a partir da palidez de um azulejo branco ou da crueza de um tronco de madeira.

 

 

SERVIÇO

Exposição: Ivens Machado

Local: Casa França-Brasil (Rua Visconde de Itaboraí, 78 – Centro – Rio de Janeiro)

Temporada: 11 de dezembro a 25 de fevereiro (de terça a domingo, das 10h às 20h)

Informações: 23325120 ou http://www.fcfb.rj.gov.br/

Entrada gratuita.

Classificação: livre.

Quando pensamos em exposições geralmente temos em mente um ambiente explorado por poucos elementos e que formam um conjunto de idéias. Os elementos são pensados pelo conjunto e pela experiência que podem oferecer aos espectadores. Cada obra é milimetricamente sugerida para uma vivência individual e complementar ao ato de ver.

Exposições também têm o mérito de ser pensada pelos artistas e com a intenção que o curador deseja no momento, uma fatia de sua produção digamos assim, que merece ser vista em determinado momento.

Em tempo de idéias, de exposições que levam o pensamento como única forma de vivência artística, seria impensável voltar à produção de trabalhos em massa?

Jovens artistas têm o mérito de serem aventureiros em um espaço que preza pelo novo, pela mudança de paradigmas que nos mostrem o mesmo de forma diferente. Porém cada dia que passa “mudar” se torna uma tarefa mais intelectual do que propriamente física, um pensamento pode conter todo o fazer artístico, enquanto a produção é deixada a terceiros.

Alguns elementos contemporâneos têm buscado uma volta à sofisticação pessoal: o neo-expressionismo com suas pinturas metafísicas e o figurativismo-urbano – que trás consigo o renascimento de técnicas de apreciação pelo olhar com o mérito de serem expostas ao ar livre.

Fugindo do hiper-realismo que parece estar em voga, mas buscando um relativismo pelo expressionismo, os jovens artistas da exposição NÓS EM SÉRIE buscaram fugir aos preceitos de uma exposição convencional. Deixaram de lado o recorte específico e partiram para a exploração em massa, fugindo das criações do Pop, embora você possa ver o uso de cores claramente usadas por artistas Pop, o uso dessas cores está sujeitas ao tempo e ao que o jovem artista explora.

Em determinados momentos o excesso parece pular aos olhos e deixar todos com uma excitação ao observar tamanha profusão de cores em traços fortes e expressivos, mas rotular tais peças como um expressionismo é esquecer-se do conjunto do trabalho do aprendiz-aluno que ainda busca um caminho único.

Não sei até que ponto a afirmação acima pode dar conta de tudo que pode ser visto nessa exposição, onde os estudantes podem criticar livremente o próprio desenvolvimento ao observar o do outro.

Observar e ser observado em sua totalidade, sem escolher o trabalho, apenas pendurá-lo, sem rótulos, sem nome, preencher espaços e localizar o olhar é parte do desenvolvimento do artista.

Jogar-se orgulhoso de seu trabalho, esquecendo qualquer observação, qualquer ismo e seguindo em frente é tão válido quanto mirar em um só estilo, buscar todos para se aceitar em um é complicado, criar sem amarras uma peça depois da outra é um vício que só a paixão do artista pode compreender.

NÓS EM SÉRIE expõe justamente a paixão desenfreada pela arte, pela pintura, pelo desenho, pelo fazer artístico que é o eu-artista em sua expressão primeira, o que se desenvolve primeiro, o excesso de paixão pelo humano, pelo corpo, pela expressão que está contida e que vem contida. O mérito é não ter qualquer pretensão além da arte, é estar livre para experimentar em excesso, desfrutando da arte, ao contrário de estar preso a ela.

Experimentando eles encontraram o caminho de sua produção e pelo excesso eles buscam o olhar atento do observador, de maneira sofisticada eles subvertem o olhar do observador e encontram o caminho para sua exposição.

Sem título

Sem Título - 2

Links:

Ângela Longo    http://www.facebook.com/people/Angela-Longo/100001591212822
Gabriela Heche  http://www.facebook.com/people/Gabriela-Heche/100001765130192
Itapa Rodrigues  https://www.facebook.com/itaparodrigues
Juliana Veloso  https://www.facebook.com/juveliloasona

 

 

Serviço:

Espaço Aldo Malagoli.

Instituto de Artes (UFRGS)

Rua Senhor dos Passos, 248

Porto Alegre, RS.

De 4 a 25 de novembro de 2011

De segunda à sexta-feira

Das 08 horas às 22 horas.

Ao interferir no espaço urbano alguns artistas aproximam-se das manifestações coletivas, dos manifestos políticos, de performances poéticas, das comunidades, diversificando os procedimentos artísticos, convertendo esse espaço em um meio de reflexão das relações entre sujeito e a realidade. Dessa maneira é a obra do artista carioca Ronald Duarte.

Fogo Cruzado, Ronald Duarte

Fogo Cruzado, Ronald Duarte

 

Em uma série chamada Guerra é Guerra, iniciada em 2001, Duarte se dedica a trabalhar com a idéia da urgência urbana, sintetizada em Fogo Cruzado (2002), um diálogo claro, forte e incisivo com a violência urbana. A performance realizada nas ruas de Santa Teresa, bairro do Rio de Janeiro, ateou fogo a 1,5 km de trilhos, reunindo 26 artistas e centenas de espectadores-artistas, deu seqüência ao projeto iniciado um ano antes, desvelando toda a pulsão interna da cidade. A cidade é, pois, uma expressão da sociedade e, consequentemente, do seu modo de vida, captados pelo artista em seu processo criativo.

Em um mundo que assiste a dissolução gradativa das categorias artísticas, fica cada vez mais complicado estabelecer os limites entre os campos artísticos: teatro, performance, música, artes visuais, estão cada vez mais próximos e interligados. É nesse contexto que nasce e surge como artista Ronald Duarte. Duas décadas depois de iniciar seus estudos em belas artes, iniciou o projeto Guerra é Guerra (2001), série de intervenções no espaço urbano. Consolidavam-se aí duas das marcas do artista: sua relação direta com a cidade e o uso do elemento fogo.

Produzido no ano seguinte, Fogo Cruzado (2002) aponta para uma cidade partida, dividida por facções criminosas. Realizada em Santa Teresa, bairro do Rio de Janeiro, bairro alternativo, boêmio e freqüentado por artistas, que mantém preservadas características históricas, mas que também é dividido por facções criminosas, representou no terreno estético, reflexões acerca da política e do exercício da cidadania. A ação coletiva começa antes mesmo de seu início oficial: o espectador pode assistir a inserção da estopa nos interstícios dos trilhos dos bondes, a colocação de material inflamável e o ateamento do fogo. A partir daí, são mil e quinhentos metros delimitados para a ação, em chamas.

 

http://circuitoscompartilhados.org/wp/?page_id=24

 

Nesse processo, a leitura do espaço urbano torna-se uma experiência altamente perceptiva, individualizada pelo espectador. O espaço estético e o espaço teórico fundem-se na criação alegórica da paisagem urbana. Fogo Cruzado é um espaço de interação entre o visível e o invisível. Como visível, a ação artística, a interferência no espaço urbano, a interação com o público. Por outro lado, o invisível: o conceito, a fatalidade social, a letargia da sociedade frente aos acontecimentos, é parte fundamental também nesse processo. O funcionamento dele e a realização da intervenção dependem do espectador: ele precisa se confrontar com as realidades contidas no espaço específico, precisa conhecer a dinâmica sócio-política do local, precisa recorrer a sua consciência, a sua noção de belo, é a invenção do próprio caminho a ser seguido: o espectador é incluído na performance, tornando-se um ator-espectador.

Ao construir esse caminho invisível, não se pode deixar de considerar que o espectador-ator está inserido em um bairro real, de ruas sinuosas, com suas charmosas ladeira. A performance marca no espaço um ambiente de ficção científica, como se um Delorean tivesse acabado de passar por ali, deixando um rastro de fogo no chão e desaparecendo em seguida. Os trilhos incendeiam-se, criando um cenário de caos urbano, materializando a tensão estabelecida ali, antes e após a ação, sua pulsão interna. Apesar da madrugada, o público participa da ação, acompanhando-a. O espaço cotidiano é redimensionado. Aquilo que era ocupado por carros e gente apressada passando, torna-se o lugar do extraordinário.

A partir da análise da obra Fogo Cruzado, de Ronald Duarte, é possível pensar a sociedade constituída, ou mesmo, as sociedades, no Rio de Janeiro, no início do século XXI. Pode-se perceber as tensões sociais presentes na cidade, expressas em uma madrugada, iluminada pelo fogo nas ladeiras de Santa Teresa. Revela-se assim, à distância que separa cidade imaginada; a cidade real, vivenciada cotidianamente; e a cidade conceitual, captada pelo artista.

Com seu trabalho, Ronald Duarte nos oferece uma experiência fundada no aqui e agora. A ação aconteceu sem um roteiro com início, meio e fim, sem cortes programados, apenas como um instante após o outro. Cada espectador participou coletiva e individualmente da experiência, visto que o processo é realizado pelo conjunto do público. Mas a leitura do espaço urbano é depende do olhar de cada um dos indivíduos, isoladamente.

 

Intervenção disponível em:

http://ronalduarte.com/index.php?option=com_content&view=article&id=47&Itemid=2

 

Cristina percebe de uma forma muito mais sensível toda a ambiguidade e significado atribuído aos clichês, que nada mais são do que uma forma para impressão em larga escala. O clichê – material que a artista coloca em evidência – é um carimbo de metal ou madeira utilizado em tipografia que apresenta seu conteúdo de forma ilegível para que após a impressão possa se dar a leitura. Usando uma metalinguagem do próprio material ela utiliza palavras ou expressões que são ‘clichês’ do cotidiano. Chocante, real, visceral, os textos que a artista escolhe são nada mais que necessários para desconstruir a cena contemporânea estigmatizante e quase sempre nociva. A relação com o bullying (o chamado assédio, nas empresas – violência verbal extremamente nociva tanto para quem causa quanto para quem sofre) pode ser percebida enquanto esses estigmas são criados a partir de valores cosméticos. Segundo a artista o clichê “determina estereótipos, condutas de pensamentos e ações que se perpetuam infinitamente”. Ela faz isso, percebe a eficácia do retorno do verbal que tanto foi explorado na poesia Concreta. Aqui a artista utiliza a palavra não apenas como um recurso plástico, mas com uma ênfase linguística poderosa.

A série “Novos e Velhos Clichês para Era Contemporânea” desenha muito mais que simples frases coladas, elas convocam o expectador a refletir sobre seus próprios medos, incertezas, projeções que faz do outro e deixa que ele mesmo decida o que quer fazer com esta informação: quebrar mais um paradigma ou continuar vivendo nele.

O trabalho que Cristina Suzuki desenvolve ao longo de quase 15 anos de carreira atravessa a poesia visual com séries como “Fotocelular”(2003-2011), “Portrait” (2003-2008), “Rendas Digitais” (2009-2011) e as Intervenções “Delicatessen” – frases práticas que colaboram para um mundo mais educado e cordial.

 

Cristina Suzuki - 1

Cristina Suzuki - 1

 

Cristina Suzuki - 2

Cristina Suzuki - 2

Primeiro, o que ele faz desde sempre e que tanto me encanta: Daniel Senise usa o vivido, e isso eu já disse e já me desmanchei em elogios. O que não disse é um aspecto, digamos, político, desse usar o vivido, e que é a relação com o trabalho que isto encobre.

Daniel Senise - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Trabalho & labor. Capitalismo & pré-capitalismo. Essas coisas assim meio chatas, mas que vou explicitar porque acho relevante quando vivemos, mais uma vez, uma mudança nas relações com o trabalho. Porque é capitalismo & pós-capitalismo o que se pode ver na incorporação dos elementos vividos do trabalho cotidiano de Senise, ali, na parede.

A exposição se chama Quase aqui, está na Vermelho, e deste título também vou falar, mas depois, como também vou falar da Vermelho, também depois.

Senise e o trabalho. Ou o capitalismo e o trabalho.

Ok, século XIX.

Tudo muda. Você trabalhava para fazer algo específico. Você morava em um pedacinho de terra (comunitária) no interior da Inglaterra. Ou tinha uma lojinha de serviços em alguma ruazinha de cidade. E você fazia aquilo até ficar pronto. Um dia uma coisa, noutro dia outra coisa. A sola que era colocada um dia num sapato, noutro dia noutro sapato. Ou ferradura. Aí você perde sua lojinha ou seu direito ao uso do pedaço de terra. Passa a trabalhar para um patrão, e por hora. E você vai trabalhar por hora séculos a fio. Ganhando salário, o que quer dizer: tanto por tantas horas. Todo dia tudo sempre igual.

Século XXI. Muda tudo outra vez.

Capitalismo tardio, pós-capitalismo, capitalismo de serviços, comunicacional ou qualquer outra coisa. E você torna a trabalhar para fazer alguma coisa específica e ser pago por aquela coisa. Não importando diretamente quanto tempo você vai levar. Aliás, não é bem fazer, no sentido de produzir um objeto. Provavelmente será um “fazer” não material. Você vai montar um conjunto de saberes e informações que terão um sentido e um valor.

E agora a gente volta para o Senise. Ele pega um rastro indicial de um serviço que não acaba. Por hora, digamos assim. O chão monotipado de seu ateliê, como vimos em exposições anteriores. A bancada de seu ateliê, que é o que está na exposição atual. Chão e bancada que são o vestígio, não de uma feitura específica, mas de um tempo de trabalho. Melhor dizendo, de um labor. Não há, em chão e bancada, começo ou fim. As marcas falam de um gasto “fabril”, “capitalista”, no sentido de que se trata de um valor (advindo das marcas vividas) independente do que ali se faz ou fez. É um valor por tempo de serviço. Ele pega então isso e faz disso um objeto acabado, único. A obra. Ele pega o trabalho por tempo de serviço, capitalista, e o transforma, na tua frente, em um trabalho pré-pós-capitalista, um trabalho por obra, por tarefa. Ele mostra para você uma transformação que você está vivendo na tua vida diária.

Daniel Senise - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Ainda não estamos lá. Estamos quase. O pós-capitalismo está, exatamente, Quase aqui.

A Vermelho, agora.

Acompanho a Vermelho mesmo antes de vir morar em São Paulo. E sempre vi, em suas curadorias, atividades e na escolha de alguns de seus artistas, uma atitude paralela e antagônica ao que se poderia esperar de um “player” do mercado. A Vermelho dá espaço a artes não vendáveis como performances, promove artistas voltados a atividades sociais (embora eu tenha uma aproximação muito cautelosa com este assunto).

Outros de seus artistas contratados falam em suas obras da tensão entre texto e imagem. Não vou me estender sobre isso neste artigo porque é assunto longo, complicado e do qual já falo muito. Mas texto e imagem são uma maneira de falar a mesma coisa: texto e imagem são sinônimos de tempo e espaço. Quando colocados em confronto, trocam de lugar e essa troca, frequente, significa uma troca de conceitos que faz parte – e é icônica – da troca que vivemos hoje, ideológica. O tempo que, por ser fixo (oito horas por dia), vira um espaço de impacto sem constituição de significado. O espaço que, por abrigar um trabalho lento que o modifica, vira, na verdade, um tempo. O tempo de formação de significado.

Vá ver o Senise. Você vai achar que a tua insegurança atual, ao abdicar (ou ser forçado a abdicar) do trabalho capitalista de oito horas por dia, afinal, pode não ser uma coisa tão ruim assim.

Disse que primeiro ia falar do que o Senise faz desde sempre e que muito me encanta. Agora vou falar do que ele traz de novidade (não muita novidade) nesta exposição.

Ele quebra a lógica de suas “paisagens”. Há uma certa falta de sentido à la Escher em algumas de suas novas colagens. E suas bancadas estão cobertas de tinta branca. Como a dizer que houve uma quebra, e que o branco está lá para acolher o que vier.

Amém.

A 8ª Bienal do Mercosul é minha primeira, como morador da cidade de Porto Alegre. Talvez seja por isso que o tema “Ensaios de Geopoética” tenha se encaixado de forma tão singular em minhas visitas pelos caminhos da cidade.

A bienal tem se tornado, cada dia mais, um veículo de mudança e de iniciativa. Essa ideia, de participação, tem se consolidado, como marco no sul do país, de forma expositiva e investigativa. Creio que observar uma Bienal é uma experiência que muda não apenas o olhar pessoal, mas o olhar intelectual.

8ª Bienal do Mercosul (Divulgação)A proposta para essa edição tenta responder a uma pergunta “É possível fazer uma bienal cuja ênfase não seja exclusivamente expositiva?”. Com a proposta de mudar a forma como se vê um trabalho artístico a bienal vem atiçar mais uma vez seu observador a se colocar como peça da própria exposição. Artistas foram convidados para conhecer a cidade e o estado do Rio Grande do Sul, assim transferindo seus olhares para os espaços geográficos e suas sensações para a experiência de ser mais que um expositor, mas um investigador do momento, da sociedade e da forma como ela vê a arte em si. A cidade de Porto Alegre, além de abrigar toda a bienal, participa com seu território. Pontos de resignificação se encontram espalhados pelos caminhos, trazendo olhares para lugares não imaginados antes, transformando a forma como percebe-se a cidade. Cada local a ser desbravado é como um caminho solitário de descoberta. Um caminho tão bem feito que nos leva a descobrir uma construção criada especialmente para atiçar lembranças e memórias, de um território não físico, mas um território afetivo. A casa M é um deleite para o jogo da descoberta, pela sua construção limpa, suas cores que trazem a tona memórias tão raras como aquelas que só temos quando nos deparamos pela primeira vez com algo tão impactante.

Inspirada nas tensões entre territórios locais e transnacionais, entre construções políticas e circunstâncias geográficas, nas rotas de circulação e intercâmbio de capital simbólico. O título (ensaios de geopoética) se refere às diversas formas que os artistas propõem para definir o território, a partir das perspectivas geográfica, política e cultural. (ROCCA, 2011, p. 9)

A bienal se divide nos seguintes temas, separados por seus espaços, ou seu trajeto:

1 – Geopoéticas: a mostra central do Cais do Porto é uma das mais democráticas e com maior sensação de territorialidade. Pode ser identificada por elementos de cada artista em seu pensamento de “território”.

2 – Cadernos de Viagem: ainda no Cais do Porto, a mostra se ocupa do resultado das viagens dos artistas que visitaram cidades do interior do Rio Grande do Sul. Também ocupa a forma como cada um interpretou a visita e entendeu uma arte fora do centro/capital. Ou seja, uma mescla de resultados do saborear e vivenciar um local diferente.

3 – Cidade Não Vista: foram escolhidos nove locais da cidade sede em busca de uma visão e um caminho de interesse não só exploratório, mas artístico. A possibilidade de transitar e desbravar locais com um interesse arquitetônico, em uma paisagem massificada, é quase um exercício de poesia, ajudado por paradas de senso estético, que podem ser agradáveis, singelas ou irritantes, como toda cidade. Um trajeto que evoca a arte de flanar.

4 – Além Fronteiras: ocupando o espaço do MARGS a mostra procura identificar fronteiras, construindo elementos de campos vastos, que nos mostram a amplitude de culturas próximas a nossa ou ligadas ao mercosul. “Temos certeza desses territórios?” parece perguntar cada uma das obras que se espalham e se mostram, como os terrenos que parecem emular.

5 – Eugenio Dittborn: o artista chileno, homenageado da bienal, ocupa o espaço do Santader Cultural com suas Pinturas Aeropostais. Absolutamente sagaz do conjunto da bienal, as obras de Eugenio procuram a não interferência do caminho, são pensadas para serem transportadas. São pinturas dobradas, transferidas por postais e então expostas como pinturas. Não são trabalhos de um local físico, são trabalhos que procuram a passagem de um local para outro.

6 – Continentes: é o projeto de locais (continentes) fora do espaço exclusivo da cidade. Uma busca para criar novos meios do fazer artístico em pontos diferentes pelo mesmo período. As cidades escolhidas foram Porto Alegre, Santa Maria e Caxias do Sul.

7 – Casa M: teve início antes da abertura da bienal e se estende além dela. É um antigo sobrado onde fabricavam-se chapéus. Totalmente reconstruído, sua estrutura preza pelo convívio, pela forma de apresentação, pelo espaço – enquanto elemento de um país e de seus ocupantes – pela casa como fortaleza de seu indivíduo, e suas experiências dentro dela.

Depois desse trajeto posso concluir que a 8ª Bienal do Mercosul possui em sua busca uma possibilidade poética que urge em seu movimento social. Por mais que se busque uma distância dele, o homem enquanto “usuário” desse terreno, se mostra como delírio de poderes que desconhece.

De minha parte aconselho, sem demora, a visita ao Cais do Porto. Com suas obras de um questionamento fantástico, que merecem ser apreciadas com calma e leveza (se possível), a visita deve ser feita semanalmente para que a percepção inicial ajude a compreender que os territórios são, na verdade, criações do homem e que os trabalhos ali expostos demonstram esse ato transitório. A mostra do Margs e a Casa M são experiências focadas, e com interessantes interpretações. Caminhar pela cidade e descobrir o que já se conhece de uma forma diferente é resignificar e é justamente sobre isso que arte contemporânea se desdobra muitas vezes, ou seja, o caminho é um dos trajetos mais reais da bienal. Nas obras de Eugenio Dittborn não se esqueça de ler os aeropostais, perder o trajeto deles é perder a poesia que levou cada uma das peças até você, até eu, até a 8ª Bienal do Mercosul.



Serviço:
De 10/09 a 15/11 de 2011.
Porto Alegre/RS/Brasil.
Diariamente das 9h às 21h
Contato: contato@bienalmercosul.art.br
Telefone: +55 (51) 3254.7500

Links:
http://www.bienalmercosul.art.br/

Referência Bibliográfica:
ROCCA, José; RAMOS, Alexandre Dias. 8 Bienal do Mercosul: Ensaios de Geopoética/Guia. Porto Alegre: Fundação Bienal, 2011. 144 p. Il.

Manoel de Barros faz escola.
Em cinquenta páginas da mais autêntica candura, o poeta prosador Ondjaki constrói uma deliciosa homenagem ao seu mestre. Pouco provável não perceber um cheirinho do nosso Manoel de Barros na poesia do queridíssimo angolano, autor do romance Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, vencedor do Prémio Jabuti, em 2010.

No minilivro Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas), o poeta redescobre a terra, explora-a e revira-a do avesso, numa deslumbrante jornada vocabular, que deixaria perplexos até os mais velhos (afinal, “a perplexidade é um mal juvenil, como a anorexia”)*. Tal perplexidade se origina principalmente do fato de que somos mesmo capazes de compreender o aparente nonsense que nos é apresentado através das palavras. Diferentemente do que se possa pensar, não é necessária uma leitura super atenta e ultraespecializada para captarmos a dimensão da poesia cultivada por Ondjaki. O que se passa é justamente o contrário. Quanto mais desatenta, despretensiosa e, sobretudo, liberta for essa leitura, maior é o impacto que sua beleza nos causa.

Ondjaki

Não são apenas palavras inventadas lançadas num papel. Isso eu faria. São vocábulos distorcidos e retorcidos, transbordando significados, que dão sentidos a outros, igualmente deformados e reformados, que, por sua vez, oferecem um senso de ordem e razão às coisas da terra.

É como um sentimento de proteção que me toma à última folha do livro, como se devesse encerrá-lo a sete chaves, como se nele estivessem guardados os mais preciosos segredos da terra.

* Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa.

página oficial do autor, com poesias: http://www.kazukuta.com/ondjaki/

Vania Rossi

O que vi foram as fotos que Vania Rossi tira. Com algumas delas, faz pinturas em técnica mista: o buraco negro dos vãos entrevistos em suas portas e janelas vai em tinta esmalte automotiva. No resto, uma atenuação com veladura em acrílico. Isso eu não vi.

Vou, portanto, falar das fotos.

De cara, ela me lembrou outra artista que também trabalha com fronteiras, limites. Lúcia Laguna. A mais, a mesma formação inesperada. Ambas passaram a vida sendo professoras. Lúcia mora entre a Mangueira e o asfalto, no Rio de Janeiro. Vania mora em Osasco, na beira de São Paulo. E eu paro por aí, porque o resultado estético desse mesmo foco em passagens, integrações não integradas, vãos do espaço-tempo, de uma e outra, é bem diferente.

Da Lúcia já falei e muito em outro artigo, para o Aguarrás, em 2006.

De Vania falo agora.

Vania RossiO que ela mostra é uma narrativa, a dela, a partir dos vestígios de um vivido antigo, a de outros. Portas e janelas arruinadas. Varandinhas de onde ninguém mais vê a rua. O embate com o atual se dá em diegese. O atual não está no quadro. O atual é o fotógrafo. É aquele que nesse passado, enquadrado, se debruça. A integração não existe. É uma sobreposição e uma construção, a da atualidade sobre uma ruptura em cima da qual se equilibra.

É um tema importante para nós, nessa nossa geografia em que a modernidade também passou de repente, em frente de um processo que estava lá, quietinho na janela, e que não a esperava nem a absorvia.

O problema com essas obras é a dualidade, as oposições binárias. Eu tenho uma tecnologia que me coloca na atualidade, e que é a máquina fotográfica. O que pego para mim, porque dele preciso muito, é o chão antigo (e, por ser antigo, suponho sólido) que me falta.

Vania escapa disso. Suas fotos, ou pelo menos, muitas delas, contém a ambivalência de todos os processos, nunca lineares, nem um pouco ordenados ou consecutivos. Em uma das imagens, um cadeado moderno tranca o que o tempo abre nas madeiras que se estragam. Em outra, a bicicleta encostada no muro registra o movimento que falta na estratificação do passado. Há placas de ruas atuais em frente a paredes do século XIX, cortinas bem cuidadas em fachadas nem tanto, uma maçaneta novinha em porta carcomida. Um varal de roupas, um sol a mudar o que era um vitrô.

Vania RossiOutra coisa, o humano. Não é que não esteja lá, pelo contrário. Restos de vida estão sempre presentes. Mas há como que uma socialização, uma história vista em conjuntos maiores, não individualizada. Pessoas mesmo, quase nunca aparecem. Esse aspecto da fotografia de Vania me faz lembrar outro, que é o feminino na arte fotográfica, e o que isso significa a partir dos anos 1960. Tanto o enfoque socializado, não individualizado, quanto o fato de ela ser mulher, me fazem ver suas fotos como um desdobramento longíquo daqueles anos, em que, por reação ao regime militar, era imperativo capturar um universal, sair da perspectiva dos dramas individuais do ambiente burguês. Ao mesmo tempo, este “universal” se apresentava necessariamente como “brasileiro”. E isto Vania também faz, buscando seus cenários em uma aldeia indígena de Carapicuíba, um casarão de Santana de Parnaíba. Ou no Castelinho, atualmente em demolição, de quando a Av. São João era um lugar para castelinhos. Ao fazer isso, apropria-se, através das lentes, de uma história feita por e contada, não por mulheres, mas por homens.

Vania Rossi tem especialização em artes visuais na USP e expõe onde dá, quando dá.

Agora que sou um projeto de artista plástica, entrei no mundo dos salões. Salão de artes plásticas é uma boa forma de começar, me garantem todos com quem falo. Não tenho motivos para duvidar. A informação é relativamente fácil de conseguir. Existe um site intitulado Mapa das Artes que salva a vida de todos nós (obrigada!).

O problema começa quando a gente tenta seguir as orientações de cada salão. Normalmente é para enviar uma foto de cada trabalho e, quando muito, uma descrição de umas 3 ou 4 linhas. Tudo bem, sei que posso ser prolixa, mas 4 linhas não dá para descrever uma obra. A sensação que dá é a de resumir O Capital em um twitt. Ok, exagerei um pouco. Só um pouco.

E a foto? Ó céus, que coisa mais difícil. Fiz umas aquarelas enormes, em A2 expandido, que obviamente não cabem em scanner nenhum. Ah, tiro foto, tranquilo, penso eu. Not. A melhor foto fica uma porcaria. Todas as nuances somem. É claro que já era véspera do prazo final, mando assim mesmo.

O salão não confirma recebimento. Recebi hoje uma simpática carta dizendo que meus trabalhos não foram selecionados. Faz parte da vida, tudo bem, mas precisava mesmo escrever “não foram selecionados” em caixa alta e negrito?

Levei fácil uns 9 ou 10 dias só preparando o pacote para mandar para o salão, incluindo etiquetas, pasta, etc. Arranquei todos os cabelos, gritei com o computador algumas vezes (ele não respondeu) e sabe o que é pior? Já estou aqui de olho para ver quais são os próximos.

Deixo aqui alguns achados sobre o assunto:

E uns outros, da gringa:

Um dia dá certo.

O Margs (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) expõe pela primeira vez todas as obras de Xico Stockinger (1919-2009) de seu acervo.

Stockinger, possui um trabalho pontuado pela figuração, com um cunho político-social. Sua obsessão pela forma do guerreiro, do corpo como estandarte de sua luta e opressão transforma as esculturas de Stockinger em um objeto de intensidade incomparável, pelo tamanho e peso de sua luta.

Na curadoria de Francisco Alves encontramos separados os temas que mais pesaram para o escultor, na primeira sala peças de bronze e gesso, guerreiros e a perturbadora Sobrevivente IV de 1971, produzidas em técnica mista. Na segunda sala bustos em gesso, peças em metal e pedras modeladas em lugares estratégicos, rodeados por texturas naturais. Já na última sala, ligada com a segunda por um monolítico escuro que parece tragar o olhar vemos as xilogravura e algumas matrizes que mostram a forma como tratava o traço.

Em Stockinger podemos perceber um apuro social, aquela dor e o peso da sociedade que tanto marginalizamos, o frio da pedra ao contrário do que parece não nos afasta do tema, mostra-nos a dimensão exata da dor e de nosso ato comum diante de uma situação tão preocupante quanto a dos Homens-Gabirus, que carrega uma tristeza e uma simplicidade em um bronze sem refino sem o lustro, marcados pelo tempo como em uma peça dramática. A crueza inclusive dialoga com as peças, exibidas cada uma em um espaço separada por uma madeira branca, a criança que chora sozinha com o corpo nu no chão é da mesma estirpe da mãe que levanta os braços aos céus implorando.

O Guerreiro ali exposto enorme com seu tronco de madeira e falo de torneira parece pronto, mas pronto para quê? Se nada pode fazer, permanece em sua vigília obrigatória da condição humana, não à toa os guerreiros (são dois, o maior e o menor de seu lado), produzidos em metal soldado, com peças de madeira. No centro da sala a Sapa observa a si mesma, todo seu peso em suas ancas, um braço para trás, segurando uma toalha o outro se conhecendo, ela ainda possui um sorriso bobo, diante de suas feições tão desprovidas de um senso comum.
Mas nenhuma das condições sociais se compara ao Sobrevivente IV, um ser construído com ossos de animais, pedaços de madeira, metal e bonecas de plástico. Sabe-se que Stockinger tinha um desejo de expor mais uma condição social, mas a criação da peça a transformou em algo horrendo, um ser voraz e perigoso que se alimenta da humanidade e dos seus. Com um grito que irrompe de uma boca escancarada com mãos e uma língua absurda estão ali para agredir, mostrando nossa incapacidade de deixarmos o abismo longe, continuando cada vez mais a nos afundarmos em nosso discurso de igualdade errônea.

O Sobrevivente IV ainda me lembra outro animal, que pareceu se colocar real ali na sala de exposição, a entidade que ronda a casa do conto “A Casa sobre o Abismo” de William Hope Hodgson. Um ser desprovido de misericórdia, ardiloso e com uma força descomunal. Realmente é um atrativo para quem está olhando.

Na seqüência o conjunto de mármores e basaltos parecem mostrar uma contemplação não muito clara, mas muito atraente ao olhar, em peças bem acabadas com interferências mínimas da mão, algumas parecem ter se desenvolvido da forma como Stockinger as criou, outras não. Além do convite que parecem oferecer ao toque e a satisfação do objeto em si.

Seguindo o caminho temos as xilogravuras e suas matrizes. Foi um momento de necessidade que fez com que Stockinger se dedicasse a xilo, um trabalho com um traço mais indulgente, mas que lembra muito da força de sua mão em seus trabalhos esculpidos. As matrizes são um espetáculo aos olhos, um estudo do comportamento do mestre que passou a lecionar xilogravura. Ali temos talhados seus segredos e a forma como descrevia o movimento. Um prato raro é a re-edição em 20 cópias que se encontra totalmente exposta em ordem, podemos ali ver as diferenças minúsculas de uma peça para outra, e o acabamento sendo transformado.

Stockinger merece não só um tempo, mas uma reflexão, outro detalhe são os adesivos que lembram o volume de suas obras mais conhecidas, soltos no tempo e espaço da exposição.

Serviço:
Stockinger: os Diversos Tempos da Forma
de 19 de agosto a 09 de outubro de 2011
no MARGS (http://www.margs.rs.gov.br/)
Praça da Alfândega s/nº- Centro Histórico- Porto Alegre/RS
Telefone: (51) 32863145
ENTRADA FRANCA

João Suzuki (1935-2010) é sem dúvida um dos mais notórios artistas plásticos filhos de imigrantes japoneses que viveu no Brasil, mais precisamente em Mirandópolis (SP). Muito cedo, quando João Suzuki estava no primário, seus pais se mudaram para a cidade de São Paulo a fim de buscarem melhores condições de vida. Apoiado pelo professor de desenho, Suzuki seguiu com as artes entrando muito tempo depois de sua formação escolar, na Associação Paulista de Belas-Artes.

Seguiu praticando desenho e pintura, vendo e estudando outros mestres como Portinari  o qual lhe serviu de inspiração no início da carreira.

Os processos criativos de alguns pintores, como o do próprio Takaouka e também de Manabu Mabe, Tomie Ohtake e Tikashi Fukushima, em que se observam uma progressiva diluição do tema a apropriação de meios, técnicas e materiais adequados à formulação de novas poéticas, sinalizavam avanços da arte brasileira e abriram o seu olhar (SILVA 2007, 13).

A forma circular e o casulo tem uma representação especial na carreira do artista, ele utiliza o próprio material como um recurso do desenho que nele já vislumbra o que irá produzir. Faz o uso da textura da madeira participando do desenho,. Sobre a forma oval, o artista comenta:

Na verdade, a obra realizada dentro de um quadrado, de um retângulo, estava me incomodando. Cheguei a forma ovalada naturalmente. Através da madeira, creio. Muitos pedaços de madeira que recolhi tinham essa forma. Gostei dela, pois eliminou os enquadramentos, os ângulos de 90 graus. Com os ovoides passei a fazer uma obra como se eu estivesse vendo as coisas de frente e não através de uma janela. O nosso olho é redondo e nossa visão de mundo também. Mas isso não foi uma coisa planejada. Fui chegando aos ovoides por intuição. Eu não racionalizo uma obra. Ela vai aparecendo naturalmente e projetando minhas motivações e preocupações do momento. [...] O resultado final depende de minha interferência sobre o material ,e sua conformação me orienta muitas vezes em determinados sentidos. A madeira nos reserva muitas surpresas. Quando começamos a trabalha-la, encontramos um mundo de imagens fascinantes. A gente nunca imagina o que vai encontrar. A partir do encontro, crio em cima, seguindo a sugestão do próprio material ou modificando completamente a configuração encontrada. (SUZUKI apud SILVA, 2007, p. 62)

No início da série dos Ovóides no final dos anos 1970, o artista encontra pedaços de madeira e desenvolve pinturas sobre elas de diferentes aspectos (já iniciara a pintura em restos de madeira mas no plano mais angular), uma única figura que se repete quase que incessantemente nesta série: a figura humana. A relação com o realismo mágico e o surrealismo (e talvez a referência de Frida Kahlo) é sem dúvida uma das influências que o artista tinha em sua obra com a temática cerceando o natural, a flora e fauna, bem como a interação do homem/mulher com o a magia da mãe terra. Quando iniciou o desenho seus modelos eram os moradores de rua, ambulantes, e pessoas que ele encontrava na vida noturna quando passava no centro de São Paulo.

 

FIGURA 1 - E/n/volto/ em arco-/ir/is - Óleo sobre madeira ovóide, 10 x 25 cm, 2002   FIGURA 2 - Compre/ssõ/es - Óleo sobre papel ovóide, 20 x 6 cm, 1998   FIGURA 3 - Flutu/ações - Óleo sobre papel ovóide, 15 x 8,5 cm, 1998
Imagens gentilmente cedidas pela família do artista
ao autor D. Negrisolli para reprodução no Aguarrás.

É na forma oval que Suzuki reflete a pintura por vezes obscurecida pelo tema que só pode ser entendido (ou a tentativa de um dos entendimentos possíveis) com uma análise muito próxima do quadro que ele produz com o sentimento que o artista vivia. A religiosidade sempre esteve presente na vida do artista que seguia a prática da seita Mahikari, bem como a fluidez do espírito que o artista empenha-se em desenhar e deixar marcado na madeira. Talvez uma das marcas mais expostas que ficaram em sua trajetória foi ter sofrido os horrores do regime militar no Brasil, não se sabendo exatamente como chegaram até Suzuki, mas os registros oficiais confirmam que ele esteve quase um mês sob custodia (segundo SILVA, 2007), refletindo nos seus desenhos quando revela a parte – talvez – mais bruta de sua existência.Toda a moldura dos ovóides eram feitos pelo próprio artista que acreditava ser importante finalizar toda a obra de arte. São produções com um acabamento incrivelmente detalhado, minuncioso e perfeito, tal como o processo de pintura de Suzuki que era feito com muita destreza e habilidade no desenho.

O desenho do ovo universalmente remete a vida, a essência da existência inicial de toda a reprodução animal que o artista quis exprimir em toda a sua fase desde os anos 1970 até o final de sua carreira, quando falece em 2010. A série dos Ovóides nunca teve um fim na carreira de Suzuki, sempre estiveram ali, prontos pra eclodir e transformarem-se em figuras míticas, iluminadas e fortes.

 

Bibliografia

SILVA, José Armando Pereira da. João Suzuki: Travessia do sonho. Santo André, São Paulo: Alpharrabio, 2007.

Tirei uma frase de um livro um dia antes de ver as fotos de Tuca Vieira na Fauna Galeria (SP). O livro era sobre literatura, as fotos sobre Berlim. E não que tivessem, em um e outras, o vínculo que se deu na minha cabeça, aliás como em geral os vínculos.

“O novo sentido, o sentido de toda construção, é, portanto, o processo da desidentificação simbólica, uma singular busca contra-hegemônica entre materiais abandonados.”

Isso é Raúl Antelo, na sua seleção de críticas “Ausências” (Editora da Casa).

E agora, a Berlim de Tuca Vieira.

Antes, a minha.

Não a tenho, não concreta, nunca estive em Berlim. Tenho a Berlim da Alemanha do século XX, e a Berlim dos turistas do século XXI. Nenhuma das duas na clave do positivo.

A Berlim de Tuca Vieira é vazia. E foi este o vínculo: a possibilidade, não, mais do que isto, a necessidade de um significante vazio, o ab-sens. Ab-sens, etimologicamente, é algo que se afasta do sentido. Do sentido já estabelecido, claro, o único a merecer o nome. Há outra leitura de ab-sens, mais radical, pois ao se afastar (ab) do sentido (sens), essa palavra indica o afastamento também de uma ordem e, é lícito incluir, da própria ordem da linguagem. Uma palavra, portanto, tautológica, pois é, ainda, uma palavra, embora possa significar uma negação do que sejam palavras. Uma Berlim (poucas cidades têm mais peso no quesito submissão a estruturas do que ela) que é uma negação de Berlim. Em Tuca Vieira não há sequer a imaginação a suprir o que lá não está. As fotos são geométricas, as estruturas focalizadas repetem estruturas “limpas” como cilindros, esferas, poliedros. São edifícios, ruas tomadas em sua frontalidade. Se famosos, se não, já disse, não o saberia. E não importa, porque estão lá como formas. Quase sagradas, em seu momento fundante, num início ainda de imanência.

Tuca Vieira @ Fauna Galeria (SP)

Mas aqui e ali, um rastro. Grafites, um dos legíveis soletra Kaliban – o habitante dono da ilha em que todas as mágicas ainda estão por acontecer de “A tempestade” (sim, Shakespeare em um muro de Berlim ou poderá ser uma banda de rock). Outro dos grafites, para minha divertida surpresa, é um bê e um erre, Br., Brasil.

Há mais uns poucos vestígios de um humano que brota. A sombra de um portão de tabuinhas sobre a fachada lisa de uma construção de concreto. Uma janela que se acende, a única de dezenas de outras. O ônibus no estacionamento.

O que virá vem das margens, do abandonado, do que não tinha valor. Como sempre.

Tuca Vieira @ Fauna Galeria (SP)    Tuca Vieira @ Fauna Galeria (SP)

No mesmo livro de onde tirei a frase ali do início, há uma citação de Peter Sloterdijk falando sobre as renascenças. O filósofo alemão diz que renascenças são quando se recria um velho que nunca de fato existiu, por impossibilidade de se dizer, ainda, o novo.

“Sob esse ponto de vista, as renascenças devem sempre sua fecundidade a uma interpretação errônea e apaixonada do velho pelo novo que ainda não diz seu nome.”

Tuca Vieira denominou Berlinscapes a sua exposição. Scapes são panoramas, e também escapes.

Matrículas Abertas!


Informações Gerais.
Modalidade: Capacitação.
Carga Horária: 48 horas.
Início: 03 de setembro de 2011.
Término: 26 de novembro de 2011.
Duração: 12 semanas.
Dia da Semana: Sábado.
Horário: 9h00 às 13h00.
Vagas: 40.
Unidade: CMJ.

VERSÃO PARA IMPRESSÃO


Apresentação
A sociedade brasileira contemporânea demonstra crescimento econômico nos últimos anos, apresentado, por exemplo, no dinamismo entre as classes sociais, no investimento crescente das empresas para a qualificação da mão de obra, e na consciência política da importância da educação para o fortalecimento deste movimento. Há uma agitação e integração entre os diferentes setores da sociedade na busca por uma sociedade inclusiva, afirmativa e produtiva. No contexto de uma sociedade global e altamente informatizada essas questões se tornam mais complexas, fragilizando um país caso ele não as encare como problemas políticos e urgentes.

Portanto, nesse cenário, um dos caminhos para a sustentação de um país, passa pela educação, informação e cultura. Caminho este já assumido pelas grandes potências econômicas. Como fortalecer um povo? Para que fortalecer? Qual a importância da cultura no desenvolvimento econômico? Cabe a responsabilidade de educar e informar somente nos espaços e aos profissionais oficiais da educação?  É certo que não, pois inúmeras experiências são desenvolvidas com resultados positivos há muitas décadas. Então como fazer? Por onde iniciar? Para que iniciar um projeto que integra educação, informação, cidadania, arte? Como buscar parceiros? Como administrar financeiramente este trabalho?

Objetivos
O curso tem por objetivo apresentar uma estrutura conceitual e técnica que permite ao cursista planejar e iniciar ações culturais com diferentes grupos sociais e culturais, atendendo suas necessidades e avanços específicos; dialogar com equipes multidisciplinares, acompanhar e avaliar os resultados obtidos. Afirma a importância do trabalho do mediador cultural para o crescimento econômico do país e a solidificação da base democrática. Ao tratar de cultura, o curso desenvolve-se permeando as áreas da arte educação, comunicação, ciências da informação, política, sociologia, educação e administração; ao pensar a prática, entende como ação transformadora que pede atitude inventiva e reflexiva.

Assim, no presente curso, busca-se oferecer conceitos, cases, estruturas de projetos e espaços de criação que atendem às essas perguntas, com o objetivo de preparar mais pessoas para entrarem nesse movimento de melhoria econômica e de busca de maior participação política e artística. Nesse sentido, são objetivos específicos:

  • preparar o profissional para desenvolver projetos de ação cultural;
  • apresentar conceitos básicos que permitam interpretar diferentes realidades sociais e culturais;
  • apresentar e analisar experiências com ação cultural;
  • propor estruturas de ação para viabilizar projetos de ação cultural;
  • criar projetos de ação cultural.

Público Alvo
Profissionais do terceiro setor e de qualquer área de atuação; estudantes com graduação concluída ou em curso de qualquer área do saber, bem como para interessados em atuar com comunidades, nas áreas da cultura, informação, educação, arte e política.

Investimento
Valor do Curso: R$ 650,00

Parcelamento
1ª parcela de R$ 217,00 no ato da matrícula
2ª parcela de R$ 217,00 para 30 dias
3ª parcela de R$ 217,00 para 60 dias


IMPORTANTE
Alunos regularmente matriculados em cursos de graduação e pós-graduação da FESPSP têm 40% de desconto nos cursos do programa de extensão.

Instituições conveniadas e ex-alunos da FESPSP têm 15% de desconto no valor total do curso.

Por motivações logísticas a FESPSP reserva-se ao direito de mudar a data de início, cronogramas e docentes dos cursos; ou não abrir turmas caso não haja quórum mínimo.

Sei, por vivência, de algo parecido com o que encontro no livro de artista feito por Alexandre Dacosta. Sei de como a divisão de espaços físicos, sejam eles públicos ou privados, mimetiza e reforça a divisão – desigual – de poder entre os gêneros. A segregação espacial, disfarçada muitas vezes com o sinal positivo de “espaço especialmente dedicado a”, é um dos mecanismos com que um grupo de maior poder mantém sua vantagem competitiva em relação ao de menor poder. Assim, espaços dedicados a ações “femininas” espelham o parêntesis pelo qual tais ações são entendidas dentro de uma “normalidade” que as exclui.

Capa do livro [tecnopoética], de Alexandre Dacosta

O artista é a “mulher” da cultura, não importando seu gênero. Dacosta aponta isso. Seu livro é feito com, e é ele próprio, um parêntesis. E isto desde o título, aliás apropriado, de [tecnopoética], em minúsculas e nos colchetes que o põem fora do espaço “normalmente” dedicado a um título. Dacosta declara que seu espaço é um espaço submetido, encaixado, de quem pede licença para existir. Ele tem razão. A produção de signos culturais dentro de um entendimento de cultura como espaço de resistência crítica é isso mesmo: existe na brecha. Na capa do seu livro, aliás, não há título, presente apenas na lombada. Consistentemente, também não há nome de autor, que acompanha o título na lombada. No entanto, apesar da citação e da autoria dividida com a indústria autora dos objetos confiscados da vida cotidiana, trata-se de um sujeito. Mas a ausência de nome talvez se deva ao fato de que artistas, tanto quanto mulheres e outros segmentos submetidos às hierarquias do poder, precisam não de um, mas de dois talentos: 1) o que lhes permitirá exercer uma atuação criativa; e 2) o que os fará encontrar um espaço, tanto físico quanto metafórico, para exercer o primeiro talento.

Digo que o nome [tecnopoética] é apropriado porque Dacosta exprime, nele, o deslizamento de uma técnica – campo referido como masculino – para a poética, o campo do sensível, entendido como feminino.

E apropriado também para o que ele faz no livro: objetos. A partir de encaixes-frases de objetos banais usados por eletricistas ou encanadores – e que, dentro de sua banalidade, trazem embutidos um hífen linguístico tanto quanto físico: as fendas e pinos de ligações macho-fêmeas – Dacosta rompe dicotomias e cria um espaço geracional, necessário a todo sujeito, a toda arte.

Não só encaixes. Diagramas construtivos, fluxogramas, gráficos e plantas esquemáticas em que, não as partes constitutivas em si mesmas, mas o seu embate interno, a sua sintaxe, apresenta o que as une-atrita: a ironia. O humor é a arma de Dacosta para montar seu espaço artístico, aquele em que ele pode existir.

Na página das dedicatórias, ele escreve: “para mim, para tu, apara o rabo do tatu”.

Aparando os rabos de tatus, colhendo os rastros de de um valor de uso dos objetos, ele continua a estabelecer seu espaço na epígrafe:”só há tempo no lapso do pensamento”. Nas brechas, falhas, no que excede estruturas vigentes, incluindo aí as estruturas linguísticas que, no entanto, são tudo o que há. Mas totalidades incluem seus vazios, e eis aí, dentro desses parêntesis, a oportunidade do tempo de vida, da existência.

Até aí, gostei.

E continuei. As páginas do [tecnopoética] se chamam: projetantes, cabear, articulante, tontura, meta de sobra, lepidóptero (para quem não sabe, o nome certo de borboleta), introito etc.

Chego assim a um segundo gostar: Dacosta anda. Porque brigar por um espaço para poder ocupar este espaço não é o principal nessa nossa vida de artista. Você fazer isso e lá ficar, parado no espaço conquistado, te transforma em apenas um macho um pouco menor, menos importante, do que o macho dominante. Onde você realmente se diferencia é no movimento. Porque uma coisa é certa para definir quem detém o poder: é quem não quer que nada mude, é quem faz a defesa de espaços já conquistados. Mimetizar isso no pequeno espaço conquistado seria refazer o espetáculo oferecido no espaço “principal”, seria fracassar.

Não é o caso aqui.

O objeto representado na capa (foto) do livro se chama “suruba”. Bom. Surubas são acontecimentos em que todos os benjamins, trifásicos e tomadas de dupla face por ventura utilizados podem se lançar em conexões livres, sem garantia alguma de resultado produtivo. Surubas não se organizam, por mais tecnólogicas que sejam. E organização, submissão a estruturas já formadas, eis contra o quê Dacosta luta.

Em um dos trabalhos, ele escreve:

“ante o fixo e o flexo: aragem

dentre a faixa e o fluxo: anteparo

paira uma visão aérea de esguelha: reflexo”

Entre flexões e flexibilidades, necessárias; entre obedecer a faixa e seguir o fluxo, com (bem pouco) cuidado; resta o espaço aéreo que fica sobre o espaço limitado, fechado, consentido. O vôo sobre o labirinto (ou sobre chaves, parêntesis e colchetes). O vôo, que é, nos ensinaram Creta & Minotauro, a melhor maneira de sair do espaço em que tentam nos delimitar. E, de cima, ainda olhar para baixo e ter o gozo de ver sua própria imagem, enfim existente.

MADE-ON-THE-BODY CAPE 1968 (PARANGOLE PAMPLONA)

CAPA FEITA NO CORPO 274cm/108cm no comprimento

1-Cada pedaço de pano deve medir 3 yards no comprimento;

2-Para fazer a capa o pano não pode ser cortado;

3-Alfinetes-de-fralda devem ser usados na construção e depois o pano pode ser costurado para fazer a capa permanente;

4-A estrutura construída no corpo deve ser improvisada pelo próprio participante (se precisar da ajuda de outra pessoa, ok) e feita de forma que possa ser retirada sem cortar;

5-Algumas pessoas podem participar juntas, mas uma só cor, i.e, um só pedaço de pano deve ser usado para cada capa.

Hélio Oiticica

 

Logo abaixo dessas instruções, vê-se Adriana Calcanhotto em três momentos: uma foto de corpo inteiro, erguendo um retângulo de pano brilhante (talvez, tafetá), cor laranja; um close na mão, com sete alfinetes sobre; e, então, corpo inteiro, novamente, vestindo o tecido/montagem.

Instruções e fotos compõem a página de abertura do encarte de Maritmo, disco de 1998 de Adriana. No entanto, o conceito por detrás é de um carioca anarcorromântico, cuja obra balançou o sentido de vanguarda artística nos anos 60/70: Hélio Oiticica.

Leonino de 1937, falecido em 80, Oiticica recentemente foi bastante lembrado pela perda de seu acervo artístico: um incêndio, dizem as notícias, teria destruído 90% de sua obra. Seja por isso, ou não, entre os anos de 2010 e 2011 uma grande retrospectiva de seu trabalho tem rodado o Brasil. Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e, por fim, Belém receberam Helio Oiticica – Museu é o Mundo.

Qual o Parangolé?

Para o crítico de arte Fernando Cocchiarale, Hélio “integrou a primeira safra de artistas brasileiros abstratos-concretos, responsável pela recusa do modernismo temático nacionalista, marcado pelo realismo social, hegemônico na arte brasileira desde a década de 1930”. Para César Oiticica Filho, curador do Projeto Hélio Oiticica, o artista colhia na vida a inspiração para o seu trabalho, realizando verdadeiros experimentos-vida.

Certo, mas o que quer dizer tudo isso? Quer dizer que o “pulo do gato” de Hélio foi, junto a outros artistas brasileiros (como as Lygias: Clark e Pape), pensar em arte que se completa com a participação das outras pessoas. A obra só vira totalmente obra quando eu uso, cheiro, toco, visto, rodo, danço, etc., etc.

Portanto, superando o conceito clássico do ir à galeria e contemplar a arte, o trabalho de Oiticica convida o espectador a entrar. Mais que isso, traz, para dentro da galeria, objetos inusitados que levam o visitante a outros lugares, como o mar, o asfalto, a favela…

Se faltar exemplo para imaginar, voltemos à Calcanhotto. As instruções que começam esse texto ensinam a fazer um Parangolé, trabalho concebido por Hélio, no qual a pessoa monta e desmonta, na galeria (ou fora dela), essas “capas”, com as quais se banham em pura cor única e, quando vestidas, tornam-se a própria obra. Homem e arte, indissociáveis, unos.

Se carecer explicação, eis o que diz Oiticica: os Parangolés são uma “proposição corporal levada a um nível de experimentalidade aberta. Absorção do tempo: fim do display fragmentado: falar em cosmicidade não deve implicar em algo extra-concreto mas em assumir o poder de inventar [...] Não me interessa na dança o seu estado naturalista de ‘manifestação humana’ nem reduções a ego-trip (fragmentação neuro-psiquíca) mas liberação inventiva das capacidades de play, é INVENÇÃO-PLAY”.

É…

Enfim, os Parangolés fazem parte da exposição itinerante. Aliás, são as “sensações”. Mas, além deles, a mostra conta com os Metaesquemas (1957), que remetem ao início do trabalho de Hélio, quando o suporte ainda era bidimensional, mas a pesquisa com a cor e o espaço já existiam; os Relevos Espaciais e Núcleos, espécie de placas geométricas suspensas no ar, também de uma cor só, formando uma estrutura que, descritivamente, seria como se os Metaesquemas saíssem dos quadros e invadissem o espaço; os Bólides (1963) que, segundo a curadoria, “são caracterizados pelo ato de Oiticica não querer mais representar a cor, mas apresentar a cor enquanto próprio pigmento”, convidando o espectador a uma experiência sensorial; e, por fim, os Penetráveis (inclusive, o antológico Tropicália), instalações adentráveis, com pianos,TVs, telhas, tijolos, areia, cascalho,água, palha, et cetera.

Experimenta!

Veja que descrever o que há na exposição é uma tarefa difícil. Prova de que, com Oiticica, devemos viver a experiência: mergulhar na água, pisar no barro, circular entre a cor, vestir o Parangóle. Em Belém, inclusive, a experiência invadiu a cidade. Ao todo, Museu é Mundo está distribuído em seis pontos diferentes, dos quais, quatro são pontos turísticos fundamentais: Forte do Presépio, Casa das 11 Janelas, Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP) e Estação das Docas. Completam a lista: Fórum Landi e Centro Cultural Tancredo Neves (Centur).

Na Estação, conhecidíssima por seu, digamos assim, discreto charme burguês, entramos Nas Quebradas, trabalho fortemente influenciado pela experiência de Hélio nas favelas cariocas. Nas 11 janelas, penetramos em Gal. No Fórum Landi, tocamos piano em Rhodislândia; no MHEP descobrimos que a “pureza é um mito”, com o Tropicália.

Hélio se deslocou de um “construtivismo internacional” para um “construtivismo favelar”, diz a curadoria. Sua obra amalgama experiência, testemunho e arte, criando tensões entre obra e “participador”, tornando Oiticica representante fundamental da vanguarda brasileira dos anos 50,60 e 70.

Seja como for, Hélio era e é delirante. Nos seus desbundes ultracoloridos, apresenta uma arte viva e dinâmica. Influenciando muita gente, seja La Calcanhotto ou a decantada Tropicália. Acredite: o desconcerto, ainda hoje, é garantido. Em Belém, pelo menos, até o dia 5 de junho.

Fiquei pensando em categorizações ao ver a exposição do carioca Cadu Costa na Vermelho. Na ausência delas. Está certo, não há representações de espécie alguma, há acontecimentos. Acontecimentos do tipo que deixam rastros.

Cadu Costa @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cadu Costa @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Por exemplo, em uma sala, martelinhos que “mordem” a parede da galeria, impulsionados por um censor de movimento. Que movimento? O teu, ao entrar na sala. Outros martelinhos, amarrados a uns longos e bonitos pelos de crina de cavalo, também fazem a mesma coisa em outra sala. Só que não mordem nada, acariciam. Trenzinhos também acariciam, ao passar por um trilho em cima da mesa, o que lá está: copos, cristais, garrafinhas. Dura o tempo que dura. O que perdura é o efeito da arte: o desconcerto, o desconforto, o reposicionamento.

Para situar quem não é do ramo: com o fim do  moderno, acabou também um essencialismo, seja lá no que for. Conceitos como autor, assunto, tempo e espaço. Ficou a relação de um fenômeno com outro que com o primeiro tenha alguma sincronia. É um sistema de diferenças e não mais de oposições, e em que o fruidor, com sua perspectiva ideológica, cognitica e sociocultural, é integrado. Em outras palavras, o que se identifica é um valor de uso, uma função dentro de uma rede de práticas culturais. Se fosse coisa escrita, seria a intertextualidade, esse palavrão inventado por Julia Kristeva nos anos 1960 e que só veio a ficar realmente importante na contemporaneidade que então apenas se esboçava.

Mas dá para dividir a obra de Cadu Costa em tópicos semânticos, sintáticos e pragmáticos.

A semântica está sempre deslocada, pois seus objetos o estão. Trenzinhos não andam em cima da mesa de jantar, pelo menos não com os cristais por lá. Crinas de cavalo pedem um entorno diferente de paredes e aparelhinhos. Você se sente meio mal de estar fazendo buracos, ainda que indiretamente, nas paredes tão brancas de uma galeria.

Cadu Costa @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A sintaxe é a do movimento que começa antes, que vem desde antes que o registro é feito, como no caso das medições de luz, de vento, a formar desenhos geométricos mutantes.

E o pragmatismo de seu conteúdo escapa da banalidade cotidiana, embora a ela esteja ligado. Por exemplo, nas cartas de baralho. Recortadas em aviõezinhos que sobre elas “voam” em ângulos retor, linhas finas, e aqui eu entro: desagradáveis. Entro sem pedir licença. Eu também não tenho essência. E a construção do significado conta com a recepção e expectativas do fruidor. Acho os desenhos tradicionais (e é o caso aqui) das cartas de baralho um pouco estranhos, meio assustadores. Os aviõezinhos pioram.

Wittgenstein tem uma definição de conjunto que me agrada: “componentes individuais se relacionam de várias maneiras sem apresentar necessariamente uma única característica que seja compartilhada por todos eles.”

É o caso à primeira vista. À segunda vista, compartilham sim. As obras expostas te sugerem novas vivências. É o bastante.

Não gosto de exposições temáticas. Você sabe disso. Mas era no Museu Afro Brasil. E achei que se alguém podia fazer exposição com tema de luta seriam os negros. O nome do artista deveria ter me acendido um alerta. Cesare Pergola. Italiano? Sim.

Pinturas a partir de fotos. Você reconhece. A lógica é diferente. Pintura e há uma estrutura interna, suficiente. Seus elementos se relacionando entre si. Foto, e você saca que se trata de uma fatia, sempre insuficiente, de algo maior – a cena que você não viu. Foto, e a relação é aberta, com um fora dela – e é nesta insuficiência que está, justamente, seu grande trunfo. É nesta falta que se forma seu significado maior. E com tua ajuda. É na abertura, na falta. Pergola disfarça esta falta (daquilo que continuaria, do que não se vê, mas que, de algum modo, tem na foto tirada sua ausência apontada) botando a falta dentro do próprio quadro. Ele some com o fundo. Falta o fundo. Ele cobre o fundo da cena com tinta uniforme ou quase, formas levemente geometrizadas, cores neutras. Seus quadros têm figuras, mas não têm fundo. Dessa maneira, o “corte” típico de qualquer foto se atenua. Há outra coisa que se atenua. O contexto. E já vou falar disso.

A pincelada é rápida, de pouco ou nenhum volume, e anterior à formação das nuances de cor. À la impressionismo. E isso achei legal. A pincelada com o mesmo ritmo tenso, rápido, sem pensar, de uma luta.

Sem pensar.

Logo na entrada um vídeo com lutadores de sumô. Aquela cara totalmente estúpida, as figuras hipopotâmicas. A seguir, outras lutas, de outros povos. Aliás, de outros machos de outros povos. Não há mulheres nesta exposição. Mas voltemos ao pensamento. O nosso.

A citação ao impressionismo tem esse efeito positivo de conciliar técnica e tema, mas tem outro efeito também. Você forma uma paleta de tons com as cores primárias. Então, os quadros de Pergola são cheios de cores primárias, que são as que existem antes da formação das tonalidades mais nuançadas. E aí a gente chega num formalismo que sempre me parece conservador e que, quando o assunto é luta, se torna francamente perigoso. Você fica achando aquilo tudo tão bonito. Aí tem lutadores africanos “em azul” (título do quadro). Outro: “Lutadores africanos com plumas”. E as palavras são um inferno. Elas nos traem quando menos esperamos. A expressão que Pergola usa para titular seus quadros é típica de um europeu, é do pensamento colonialista europeu. A África é um continente. Tem povos diferentes entre si tanto quanto qualquer outro continente. Dizer que os lutadores são “africanos” é uma visão exterior, superficial e paternalizante. É este o contexto que fica quando o contexto individualizado de cada cena é retirado.

O formalismo de Pergola continua para além da África. Mas só em lugares exóticos, “interessantes” do ponto de vista turístico. Temos um “Boxer em verde” de Bangkok. Uma “Luva vermelha” igualmente excitante porque de algum outro povo “primitivo”. Não vi mulheres de nenhum tipo. No entanto, poderia. Mulheres vietnamitas defenderam suas vilas depois de ter todos seus homens mortos.  Mas não estão lá. Também não vi hooligans ingleses se estraçalhando bestialmente num estádio de futebol. Nem mauricinhos atacando gays em qualquer cidade ocidental. Ou engravatados fudendo com todo mundo em Wall Street. As lutas aí, formais, “bonitas”, são as lutas lá longe. As mais de perto teriam talvez mais dificuldade em serem estetizadas para gáudio de quem entra num museu em um domingo de sol, depois de um café e antes de um almoço.

Ah, dois capoeiristas dançavam lá no meio. Por serem meio esbranquiçados, achei que eram uma referência ao Brasil e à nossa acolhida dançante do que foi inicialmente uma luta só de negros. Mas isso sou eu, otimista a mais não poder.

O humano desde o tempo das cavernas sempre foi representado pelo homem como um arquétipo de vida e conhecimento, quando então a representação servia para os que viessem a existir após aquele que transmitiu a mensagem, conhecessem perigos e lembranças para sobrevivência.

O arquétipo, segundo C. G. Jung, em poucas palavras é a representação de um modelo de pessoa que está no inconsciente coletivo, frequentemente usado para dar vivacidade a maioria das histórias de heróis, mocinhos e bandidos tanto do cinema quanto dos quadrinhos. A sociedade contemporânea vivencia juntamente com a arte – que é fruto de um inconsciente coletivo muitas vezes endossado na trajetória de um artista – uma animalização do corpo do boneco, do fantoche que é interiorizado na vida das pessoas.

O efeito da indústria cosmética tem um papel forte na sociedade após anos 1950, modificando radicalmente a sociedade ocidental e até mesmo os padrões  do corpo que são vendidos pela publicidade e propaganda dos cigarros, bebidas e produtos de beleza. O corpo feminino talvez tenha sido o mais pragmatizado e estigmatizado durante toda a existência, passando do corpo gordo para o esquelético, do molde ao corpo pelos exercícios físicos até a cirurgia plástica. A artista plástica Michelle Massatelli expõe um marco cultural no ocidente, a boneca Barbie. Essa pode ser a imagem mais duradoura de um padrão de beleza perseguido por muitas mulheres (sem comentar o namorado fictício, o Ken – também padrão de beleza perseguido por muitos homens), que estranhamente na primeira foto está jogada, como se estivesse morta e desfacelada. Na segunda foto está numa pose bastante erótica, com a mão no que significaria as partes íntimas, mas como trata-se de uma boneca não revela este ar erótico tão presente num primeiro momento.

MICHELLE MASSATELLI
MICHELLE MASSATELLI
SEM TÍTULO
Série
O Segredo de Bárbara
técnica: Fotografia digital
dimensões: 30 cm x 45 cm
ano: 2010

MICHELLE MASSATELLI
MICHELLE MASSATELLI
SEM TÍTULO
Série: O Segredo de Bárbara
técnica: Fotografia digital
dimensões: 30 cm x 45 cm
ano: 2010

As duas Barbies parecem estar representando a dor de um arquétipo. A artista talvez queira nos transmitir que um símbolo de beleza como esta boneca pode se tornar um ser tão frágil mas ao mesmo tempo tão forte mas que deixa caracterizado a mulher-objeto.

Anterior à artista Michellle Massatelli, a produção de Andy Warhol já dispunha de uma tradição em retratar os sex symbols quando ele inicia a série de Portraits, a exemplo dos retratos retirados de Polaroid do Arnold Schwarzenegger, da Farrah Fawcett e outros artistas famosos dos anos 1970.

Os arquétipos sempre foram meios do ser humano se encontrar e comunicar com os outros humanos de forma a estabelecer suas necessidades afetivas e comunicativas. A representação do boneco perfeito foi transformado em seu papel pela vontade que o homem/mulher tem de se parecer com o perfeito, que no caso é a representação de um boneco – ou boneca – que ele possa se assemelhar e tomar nova forma, evidenciando até mesmo a mutilação doentia do corpo por entrar num esquema de perfeição muitas vezes alcançável apenas a um produto seriado de produção fabril.


Bibliografia Consultada:

Mario Sughi, que na minha opinião é um dos mais relevantes artistas contemporâneos, está com uma nova exposição na Irlanda.

É um pouco longe mas fiz questão de colocar o convite aqui para você conhecer o trabalho dele e visitar o site.

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

All works here and at www.nerosunero.org: Author Mario Sughi, technique Inkjet printed drawing on paper (Limit. Eds of 7), Years 2009/10


Mario Sughi

aka

nerosunero

www.nerosunero.org

 

Quite, almost pleasant, afternoons

7 February 4 March 2011

 

Íontas Castleblayney

Conabury

Castleblayney

Co. Monaghan

12 Brighton Vale

Monkstown, Dublin, Ireland

00353 (0)1 2841782

Mario Sughi is an Italian artist and illustrator living and working in Dublin. He is a member of the IGI (Illustrators Guild of Ireland) and AI (Associazione Illustratori Italiani) and the author of nerosunero. In Rome, at the end of the seventies, he worked as humorist in Italian satirical magazines Il Male and Zut. He moved to Dublin in the late eighties where he studied Medieval History and in 1995 he was awarded a PhD by Trinity College Dublin.

His work, satirical in humour and minimalist in style has been published and presented in international exhibition catalogues (Offf Barcelona 2007; Semi permanent, Sidney 2008; Ink 01 International Illustration Rally, Bilbao 2008; Alfa Romeo Art, Milan 2010); magazines (3×3 Mag, New York; Shift Calendar 2010, Tokyo; The Dubliner, Dublin; Clam Magazine, Paris-NewYork; Ideafixa, Brazil; Fluro Mag, New Zeland), art websites (Juxtapoz, Beautiful Decay, Hi-Fructose) and art galleries (Sexy Art Gallery, Amsterdam, The Shiny Squirrel Gallery, NY; Little Paper Airplanes, Los Angeles; Umber Studios, Minneapolis; 180 Gallery Cambridge, Ontario; Wannabee and DOZ Gallery, Milan; Turn-Berlin, Germany, Fashion Week, Belfast, Arts Club, Gallery, Number One, Mill Street Studios, South Studios and The Loft, Dublin, Ireland) LÜrzer’s Archive included Mario Sughi in their compilation “200 best illustrators worldwide 2009”.

In 2010 Mario was awarded prizes at the 30th Annual of Italian Illustrators , 7th 3×3 Mag Annual, 29th American Illustrators, Aesthetica Magazine.

Last solo exhibition: A new sense of emptiness, Greenroom Art, Manchester, 8 Sept – 23 Oct. 2010, curated by Blank Media Collective.

Upcoming solo exhibition: Mario Sughi, Quite almost pleasant afternoons.

Íontas Gallery, Conabury Castleblayney,Co. Monaghan, Ireland, 7 Feb.-4 March 2011

Exchange Dublin, Dublin, Ireland, 21-27 March 2011

Mario Sughi

www.nerosunero.org

nerosunero@nerosuner.org

The kitchen VIII, de Marina Abramovic  - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásUma das primeiras imagens que você vê ao entrar na exposição de Marina Abramovic (Galeria Luciana Brito, SP) é a de uma caveira em uma bancada. Como o título é The kitchen, a bancada, então, deve ser de uma cozinha. Ambiente doméstico, questão de gênero e este seria um caminho. Mas ao lado da caveira tem uma poeirinha. E eu vou falar é da poeirinha. Isso porque a exposição se chama Back to Simplicity e é carregada de símbolos de origem, natureza, pureza e essas coisas com as quais tenho dificuldade em me relacionar.

(Há uma brincadeira com a questão de símbolos. Você pode dizer que os símbolos nasceram mitos, viraram símbolos, e à medida que a decrepitude avança, se tornam metáforas para afinal morrerem como lugar-comum.)

À poeirinha, então.

E lá vou eu direto para o lugar-comum. No caso, o lugar-comum da arte contemporânea: Duchamp.

Depois de dar O grande vidro por terminado, Duchamp deixou a obra uns seis meses em um cavalete no seu ateliê, que era tudo menos limpo. Quando Man Ray foi lá para fotografá-la recebeu ordem de incorporar a poeira nela acumulada à textura do vidro. A foto foi batizada com o irônico título de Élevage de poussière. Algo como Criação de poeira. Duchamp acabaria por passar verniz em cima de tudo, tornando a poeira partícipe permanente da saga dos noivinhos presos dentro do vidro. Outra vez a domesticidade, a questão de gênero.

Mas depois a gente volta a isso.

Primeiro, fiquemos com a poeira e seu papel em me salvar dos conceitos de origem, natureza, pureza etc.

Porque a poeira tem uma posição muito específica no rol das sujeiras do mundo. Ela não permite binômios. Ela nunca é “de fora”. A poeira está sempre dentro. Ela “desce”, mas não do céu, praga divina. Não. Desce de um teto qualquer. Faz parte do humano e de suas construções. E é lícito ampliar, aqui, a palavra construção. Claro, as de tijolo. Mas também as simbólicas, e as linguísticas.

E aí passei pelos retratos da artista com cordeiros. Um retrato com o cordeiro branco. Outro com um cordeiro preto. E mais um retrato. Ela segurando um bode, o símbolo do diabo. Só que cordeiros e bodes se apresentam não muito limpos. Tem sangue, manchinhas.

Sleeping under the banyan tree, de Marina Abramovic  - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásE comecei a achar que a tal da simplicidade à qual deveríamos todos voltar, não é a da busca por algum tipo (com ou sem transcendência) de sopa primordial. Que, aliás, a se acreditar nos químicos, era uma boa duma mixórdia. Mas, pelo contrário, a simplicidade de coisas que tem peso, forma, feitas com muitas misturas, cabelos, fluidos. Nem bom, nem ruim, só existente. Montanhas que você não sabe onde começam. Figueiras banyan, que só crescem se tiverem algo por perto – pode ser um muro, outra árvore – em que se apoiar. E que continuam, guardando o negativo da forma daquilo que lhe deu apoio, mesmo quando aquele muro ou árvore não mais existe.

Art must be beautiful, de Marina Abramovic  - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásNo andar de cima da galeria, registros de performances da artista. Entre elas, a Art must be beautiful, artist must be beautiful. A artista escova seus longos cabelos com escovas e pentes de metal. Até se arranhar toda. Até se machucar, tirar sangue, arrancar os cabelos. Porque ela precisa da beleza do verdadeiro, do imperfeito, do que se quebra, se suja e se machuca. E que é a única beleza que a arte de hoje admite. Foi isso que Duchamp ensinou.

Agora, o gênero. Há uma política do corpo que reconheço como feminina. E é a partir desta corporeidade que entendo a referência da artista à questão judáica, na performance Lips of Thomas. Ela, nua, de boné militar com a estrela-de-david. E outra estrela-de-david entalhada com uma lâmina na pele de seu abdômen, que sangra.

Sebastian Gordín - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásHá um pensamento filósofico sobre o cinema (mais de um, mas vou ficar só com um) que diz o seguinte: entre teu olho todo-poderoso e o objeto do teu olhar há uma tela. Eis tudo. E aí você pensa no que é uma tela, no que há de regulador, estabilizador, controlador em uma tela. Ou não. Porque pode ser uma “tela” que busca destruir uma outra “tela”, aquela que já está incorporada em você. Uma tela que quer te obrigar a renegociar os parâmetros que você já estabeleceu para mediar aquilo que você se permite ver.

Mas será sempre uma tela. Lacan diz que não tem jeito. Não há o olhar sem tela. E quando há, ele te destrói.

O que podemos fazer para sair do escurinho confortável de nosso cinema 24/7, então, é aceitar ou buscar novas telas.

Ou novos retângulos.

Há uma teoria da arte que diz que arte passou a existir quando puseram alguma coisa num retângulo. E batizaram: isto é arte. E que agora, na contemporaneidade, o retângulo está sendo abandonado pela primeira vez em milênios. E que esta arte – que justamente parará de ser chamada de arte – sai do retângulo e passa a existir da mesma forma que eu ou você.

(Retângulo é qualquer coisa que retire aquele pedacinho de existência da existência mais ampla. Pode ser o quadrado de um pedestal de estátua, um quadro, uma parede a ser coberta de afresco, ou uma tela. Pode ser em 3D também, tipo caixa de acrílico.)

Sebastian Gordín, que expõe na Oscar Cruz a sua A linguagem das coisas, escolheu a caixa de acrílico. Seus pedacinhos de existência-fora-da-existência são mesmo bem completos, por conta dessa terceira dimensão. Até mesmo pequenas gambiarras ou tubinhos de luz estão lá dentro desses mundinhos à parte, iluminando-os e tornando-os independentes da luz cá de fora.

Sebastian Gordín - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásSão três. Um é um museuzinho cujo porão está inundado pela mesma água representada pelos seus diminutos quadros “de grandes proporções”. Outro é um átrio de igreja, com genuflexórios em fila, alarmantemente numerosos, aguardando que a confissão em série nos enquadre na ordem dos moveizinhos, na escala das colunas que tudo sustentam. E o terceiro são estantes e mais estantes de livrinhos. Que tombam qual dominó.

Gordín cutuca nossa tela normatizadora interna ao enveredar – nestas suas outras “telas” – por possibilidades não aventadas.

Há uma segunda brincadeira. É com o gozo voyeurístico. Você está fora dos mundinhos. Pode vê-los de vários ângulos. Examinar a intimidade de seu chão de taco ou ladrilho. Possuí-lo pelo olhar.

Este segundo aspecto, o do erotismo sedutor, é coerente e conduz ao primeiro aspecto, o da cutucada nas nossas expectativas de espectador. Quanto mais seduzidos, maior é nosso desconforto com o inesperado.

Sebastian Gordín - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásQue também é duplo. Pois por mais que queiramos transcender aos mundinhos, eles são fechados. São retângulos. Acabam. De uma certa forma, nos seduzem para depois nos abandonar.

Ao contrário da peça de Gordín que representa o museuzinho, e que tem uma escada levando a um segundo andar inexistente, na galeria o segundo andar existe. E tem a exposição de quadros de Adams Carvalho.

As duas exposições podem ser vistas a partir do mesmo pensamento conceitual. Esta segunda exposição se chama Faceless. As pinturas de Carvalho não têm rosto. A identidade negada a seus modelos também é negada às pinceladas. Corpos e lençóis combinam em uma mesma textura desarrumada. E o mesmo grafismo – quase um retângulo virtual desses de papel quadriculado – propõe e nega a arrumação possível e impossível.

César Meneghetti - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO vídeo de sete minutos Les terra’s di nadie, de César Meneghetti, ora em exibição do MIS-SP, se apresenta como obra política, com suas imagens históricas, de arquivo, referentes aos golpes militares do Brasil e Chile.

A presentificação de eventos passados – sejam eles acontecimentos, objetos ou pessoas – pode se tornar um ato político de duas formas.

A primeira será inserindo na narrativa recorrente e ininterrupta da atualidade um inventário – em si desprovido de sentido, listas de coisas sem nome – que esta narrativa excluiu. A escolha dessas coisas e não de outras, sua justaposição e sua reapresentação ordenada, dão a elas o sentido ou o nome que o tempo lhes negou.

A segunda maneira é tentando modificar o sentido da narrativa atual ao trazer para ela outro sentido – o sentido parcial, construído e individualista de um determinado inventário elegido. Em geral a partir de um claro partido tomado (parti pris).

Na primeira,  o foco é no que está sendo trazido. O que mais é ressaltado é a existência-não existência das coisas elegidas. Na segunda, o foco fica na narrativa atual, que é solicitada a acolher o que está sendo trazido.

No primeiro grupo, por exemplo, há a Rosângela Rennó e a persistência dos vencidos. São os restos das pessoas que não existiram, em forma de fotos velhas, lencinhos usados, cacarequinhos que até há bem pouco estavam no lixo. Ou são os objetos, até mesmo eles, que poderiam ter sido usados para representar esse lixo da história e que se tornaram lixo, eles também. Falo das máquinas fotográficas velhas, enormes, incluídas por Rennó em algumas de suas exibições.

O segundo grupo é o que mais recebe a alcunha de arte política. Antonio Dias, para dar também aqui um exemplo. Chega perto do libelo.

Meneghetti é mais duro que Rennó e mais sutil que Dias. E faz lembrar os dois.

O que ele recupera não é bem os golpes militares citados. É uma parte muito específica desses eventos. São os anônimos que neles foram vencidos. E os recupera através de imagens sem nitidez, monocromáticas ou quase, repetitivas. Repetitivas em concomitância, pois ele divide sua tela em várias projeções simultâneas que, em alguns momentos, chega à pulverização, com a imagem reduzida a quadradinhos, um ao lado do outro. São luzes que passam no teto de um túnel escuro. Paradas militares. O chão seco das terras abandonadas. Sobre isso, o texto que se repete, escrito na tela, ele também repetido, em várias línguas.  Você sabe o que é. Você reconhece a silhueta do corpo sendo jogado de um avião. Você só não sabe quem foi.

O texto é uma poesia de Antonio Arévalo e é sussurado, quase inaudível, por duas mulheres que se sucedem, elas também pouco identificáveis. As vozes são quase iguais. Os nomes tem a existência breve de um release para a imprensa. São os de Carolina Manica e Patricia Rivadeneira.

Quase ao final, a frase que, ao meu ver, mais representa o projeto:

“Nunca se souberam as causas de sua vida.”

À vista de cadáveres, o que o artista diz, na voz desse outro artista-poeta, é o espanto da narrativa em que nos inseremos todos hoje, quando confrontada com essas vidas para as quais havia motivações. E tão fortes. É um golpe. Mais, muito mais do que baionetas e corpos, eventos passados e (des)conhecidos ou (des)esquecidos, Meneghetti nos põe frente a frente com o que não temos e já tivemos. Ou melhor, com o que temos hoje na forma de ausência (ou presente ao extremo no fundamentalismo religioso de alguns, e, ainda bem, não de todos). Motivação.

É esta a ação política desta obra. Mais do que escolher este ou aquele inventário. Ter esta ou aquela escolha política, Meneghetti confronta uma ferida da atualidade. No individualismo em que estamos todos, aqueles corpos, recuperados como indivíduos, trazem, neles, o que o individualismo atual nos nega, um pertencimento.

Quando digo este ou aquele inventário me refiro a algo que raramente é abordado quando se fala de arte política. Os vencedores também a fizeram. Através da censura ou desta outra censura disfarçada, que é a distribuição criteriosa das benesses oficiais, os vencedores também poderiam se arvorar o título de artistas políticos.

É por isso que considerar o conteúdo da arte como suficiente não é suficiente. Baionetas e corpos servem a qualquer coisa. Uma prática de desestabilização de procedimentos artísticos, isso só quem faz são os vencidos ou os que com eles se alinham.

Ah, o som é muito bom. E é de autoria de Fabio Pagotto e Silvia Moraes.





Adendo.

Poucos dias após a exibição de Les terra’s di nadie outro filme de Meneghetti foi exibido em São Paulo, desta vez no cinema do MuBE (programa O homem e a cidade). O vídeo de 29 minutos Terrorista é o depoimento de Percy Sampaio Camargo, preso pela ditadura militar brasileira em 1969. Me preparei para um filme pesado. E ri. Primeiro com o episódio de sua fuga do Brasil. Em um Cessna em dia de tempestade, ele, o piloto e a noiva do piloto iam para o Uruguai. Pane no motor, falta de gasolina. O piloto – que não sabia que ele era procurado – quer descer num campo de pouso militar. “Nããão!!!! Pelamordedeus!!” Resolvem ir para Punta del Leste. Lá, basta dizer que se trata de um ricaço que quer jogar nos cassinos para obter permissão de pouso. Depois, já no Chile, a comunidade brasileira desconfia que Camargo é agente infiltrado. Mas, em um jornal, sai seu nome como terrorista, ladrão de banco, assassino perigoso. Não era. Era professor de biologia da UNESP. Mas graças aos militares, vence desconfianças e pode iniciar sua vida de exilado. E mais: ele berrando um discurso político aos ouvidos dos recrutas que o empurram, de saco cheio, para dentro de um camburão. Você ri. E aí também chora. Camargo, no vídeo com sua barba branca, chora ao falar. E você ao escutar. Bom filme. Serve de exemplo para o filme anterior. Camargo poderia ser um dos anônimos mortos e despejados no mar, ou vivos e despejados no esquecimento. Meneghetti o reinsere.

Uma coisa meio escola e inteiramente preocupante. Porque já vivi isso antes, e na literatura. Quando “descobriram” que criança estava lá, esperando. Aí literatura primeiro virou principalmente literatura infantil, pois era a que mais vendia. Não mais literatura ponto. Mas com o adjetivo. E, logo depois, a literatura infantil virou algo que se ensina.

Revivi esse terror, que foi parte da minha vida e da do país, no chamado boom da literatura infantil. Sendo que boom da é uma aliteração que não evito, pois significante. Revivi. Na Bienal.

Era como uma escola. E, desculpem, meninos, sei que não é de vosso tempo. Mas escola com aula de Moral e Cívica.

Abundavam – sou persistente – projetos.

Exemplos:

- o CADA. Colectivo Acciones de Arte, do Chile (dissolvido em 1985!), com vídeo-depoimento dos “habitantes mais desfavorecidos” e tomando uma produção rural (de leite) como fio condutor;

- o Centro de Pesquisa sobre a Normalidade Brasileira, que estuda curiosidades antropológicas de São Paulo pois “como todos os regimes americanos colonizados, o Brasil vive numa área que não corresponde exatamente ao mundo real em que se situa” (ahn?, mundo real?);

- o Instituto de Mecânica, que toma o nome de um esforço educacional do século XIX para, desta vez de forma mais “democrática, auto-organizada e dispersa”, ensinar o que os ingleses tentaram ensinar às massas ignaras destinadas a suas fábricas do início do capitalismo;

- o do nigeriano Otobong Nkanga, que filmou a decadência de um conjunto habitacional, o Dolphin State (Dolphin State?!), de 1990 (!!);

- o documentário Extracción, de Gabriel Acevedo Velarde, com depoimentos de mais uma carrada de  ”habitantes desfavorecidos”.

E mais:

- instalações reproduzindo as gavetas-dormitórios das cidades-idem japonesas;

- o Manifesto pela volta dos judeus poloneses à Polônia (manifesto mesmo, uma pilha de cartazes, que alguém sugeriu que pegássemos para levar para casa);

- o documentário filmado em uma sweat shop de produção de roupas asiática, a Chen Chieh-jen Factory;

- uma foto do Rio da Prata com um texto lembrando que era lá que jogavam os prisioneiros políticos da Argentina. A foto sendo uma concessão aos alunos burros, uma ilustração por assim dizer, do texto educativo.

E dá-lhe mais mulheres chorando debaixo do shador, chinês sem dente, índio também sem dente, mais mulher, mais pobre. Mendigos assujeitados a câmeras invasoras. E desse jeito até mesmo o documentário que eu já havia visto e gostado, do Miguel Rio Branco, com suas putas miseráveis, ficou ruim de repente.

Projetos antropológicos, educacionais. Sem arte.

Ou, aliás, com arte.

Involuntária.

Por exemplo:

- as fotos do conjunto habitacional nigeriano, muito grandes, tinham seu papel abaulado por baixo do vidro. A curva do papel tornava os edifícios também curvos, desequilibrados, em um acréscimo muito eficaz ao conceito original. Que recebeu, enquanto eu e Roberto fotografávamos sem sucesso o abaulado, mais um acréscimo: o do monitor que explicava a um grupo de basbaques que as pessoas na Nigéria (e, deixou ele entrever, em outras partes do mundo igualmente desfavorecidas) “eram muito criativas”. E punham em suas casas acréscimos não previstos na planta original.

- mais uma arte involuntária, o vídeo dos pobres de Acevedo Velarde. Falavam, estes pobres, em seus vários espanhóis de colonizados. O vídeo, feito para mostras internacionais, chiques, de primeiro mundo, tinha legendas. E as legendas eram em inglês. Perfeito. Uma maravilha de síntese semiótica.

- mais uma arte involuntária: o projeto de estudo da normalidade brasileira é de Jimmie Durham. Durham é um americano que vive atualmente na Europa. Isso não é dito, claro. Vi na Wikipedia. Mas vale todo um compêndio sobre a relação entre o sintagma normalidade e seu uso pela estrutura de poder. Já que estamos na escola.

E mais.

Documentos de performances, o que é toda outra discussão. Pois se é necessário haver registro, o registro é uma contradição inescapável de uma arte que se define como acontecimento, como eclosão não durável, sequer repetível.

E mais.

Documentos do que não é performance por mais que se queira que seja, como a luta livre de um artista do ringue, o autodenominado Minerador-Lutador-Artista Adrian Street.

E mais a Marilá Dardot. Que continua com sua fé inquebrantável no valor simbólico da palavra. Simbólico, não. Mítico. Ocupando o terreiro Longe daqui, Aqui mesmo, a referência a poetas parece ser considerada o suficiente para que a poiesis individual de cada um dos citados ocupe, ocupe o quê? Um espaço? Ali? Parado? Sem a possibilidade de ressignificação que todo processo de comunicação supõe e que todo processo educacional-mitificador mata?

Saí para o recreio.

Porque também tinha recreio, nessa Bienal que descrevo como a mais equivocada que já visitei, aí incluída a do vazio.

E no recreio, ufa, encontrei gente de quem gosto:

Tatiana Blass – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA começar pelo piano da Tatiana Blass, que tenta e tenta produzir arte à medida que vai sendo engessado pela cera da burrice. O nome, aliás, é Metade da fala no chão. Adorei.

Rosângela Rennó parece ser sempre capaz de me comover em meio a essa arte tão pouco comovente. Ela e suas máquinas velhas, fotos antigas, porta-retratos fora de moda, tudo que não presta do nosso passado e que é, de repente, o que nos forma. Nome: Menos-valia.

Efraim Almeida põe ele mesmo pequenininho e nu. Feiinho, barrigudo e adorável. O artista ali existindo, em bonequinhos dele mesmo, preocupado decerto em não ser pisado por quem passa, ou ser esmagado por alguma certeza absoluta.

Jonathas de Andrade dá uma resposta a tudo que eu disse no começo deste artigo. Sua obra se chama Educação para adultos. Uma série de fotos e seus títulos. Me lembrou a tirada célebre do Milan Kundera a respeito da frase “o futuro é das crianças”. Sim. acrescenta o escritor. Porque no futuro (que já chegou, justamente), todos seremos exatamente isso, crianças. Jonathas de Andrade faz com que a gente tenha vergonha de estar ali, neste papel que nos é imposto. Ou que me é imposto. Sei lá se posso falar por outrem. Pareciam gostar, as pessoas que riam e fotografavam tudo.

Cinthia Marcelle trouxe um quadro-negro. Sim, desses de escola. Percebe-se que lá escreveram, apagaram, reescreveram. No chão, o pó do giz usado. Nome: Sobre este mesmo mundo. Assunto: a repetição pedagógica (antipedagógica) do velho, e o que sobra dessa repetição. O pó branco do giz faz referência à segunda obra da artista, localizada perto. É um vídeo sobre cocaína, o pó branco em close. Que vai sumindo à medida que é aspirado. A mesma rua sem saída da repetição, agora radicalizada.

Tatiana Trouvé pôs pesinhos ao fim de fios, no que seria o prumo perfeito da verticalidade exigida pela geometria e pela gravidade (todas as gravidades, incluindo a do politicamente correto). Só que o fio é duro, rígido. Os pesinhos estão como que em balanço, meio inclinados, com seu movimento imobilizado. Não só os pesinhos, Tatiana, não só os pesinhos.

Eduardo Coimbra, claustrofóbico tanto quanto eu, pôs umas luzes imitando a luz natural (nome da obra) na parte de cima das colunas do pavilhão. Foi muito bom ficar olhando para aquilo.

O que mais gostei foi um vídeo de um belga. David Claerboult filmou uma mulher que chega em uma casa. Toca a campainha. Um homem abre. Ela entra. Começa a limpar. A casa é geométrica, simétrica, não há nada fora do lugar ou dos blocos de cor branca ou negra. Ela faz o café. A mesa é milimetricamente perfeita. E aí vai embora. Vai de bicicleta. O sol está nascendo. Tem um vento suave na sua cara. Ela sorri sozinha na estrada. Às suas costas, ficam a casa e o homem. Ele, preso na racionalidade, previsibilidade, que ele exige que ela mantenha e provenha para ele. Ela faz, o prende, e vai embora, livre. Só excelente.

Uma sugestão. Que o vídeo do belga seja visto antes ou depois da obra de Anna Maria Maiolino. Também no ambiente tradicionalmente provido por mulheres, uma mesa posta, arrumadíssima, para um refeição. Os pratos vêem nascer de dentro deles os brotos do arroz e feijão, em uma imprevisibilidade e não-controle comum em tudo que é vivo.

Efraim Almeida – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Marilá Darbot – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Gabriel Acevedo Velarde – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Eduardo Coimbra – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Tatiana Trouvé – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Anna Maria Maiolino – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Jonathas de Andrade – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Em tempo: deixei para ver a Bienal depois de assentados os sonhos pequenos-burgueses de ascenção social dos pichadores; e alçados os vôos de urubus surpreendentemente desestabilizadores de outros pequenos-burgueses similares. Surpreendentemente porque logo ali, no grande lago do Ibirapuera, abundam (sim, e não é minha culpa) imperturbados.

Daniel Senise - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásPensei em ver o Daniel Senise. Me disseram que eram apenas umas poucas obras. Que as individuais eram de outras pessoas. Quase desisti. Mas fui assim mesmo. E com vontade de ver aquele lance do rastro, do vestígio do vivido que, para mim, marca (marcava) o Senise.

Mas há caminhos, coerências, buscas a serem trilhadas. E o caminho do Senise, vi, o afastava do rastro, do ‘imperfeito’, o aproximava do rigor da construção que, para tantos e para mim também, seria o que estava para trás e não lá na frente. Um passado e não algo a ser (ainda) obtido.

Mas que bom que fui.

Porque encontrei, na Vermelho onde sempre vou, mais uma vez do que gostar. Só que minha cabeça às vezes fica, espichada, quase saindo de sua forma arredondada, por não querer largar um pensamento. E o pensamento era o do rastro, o do vestígio. E, a bem dizer, o da origem – essa palavra que a filosofia nos ensinou a prudentemente evitar, por complicada demais.

Cinthia Marcelle é quem, na minha cabeça torta, grudada em pensamentos prévios, me deu o que Senise me negaria. Seu trabalho são 25 caixas em que há um molde em baixo relevo de facas que de lá foram retiradas. É simples. Seria. As ‘facas’ vão ficando mais e mais elaboradas. Firulas de cabos, adivinhamos. Lâminas em curvas que não julgaríamos existir. E mais e mais os moldes vão ficando menos indício de ausência ou perda, e mais e mais uma ferida no feltro, um cavar existente em si, distante de uma curácia aliás dispensável.

Há um desenvolvimento, aqui, pouco inocente, de quem quebra deste modo a relação representado-representante. E duplamente, quando o primeiro tem (teria) a representação não de sua materialidade, mas de sua imaterialidade.

E é um desenvolvimento quase político na sua negativa em assumir a autoridade inerente a quem se apropria, molda e apresenta um outro como sendo algo seu, de seu controle e autoria.

Conheci Cinthia Marcelle, salvo engano, em maio de 2007. Ela ocupava um espaçozinho, o Box 4, filiado a uma grande galeria carioca. Já me pareceu, então, dos que lutam contra.

Confirmei.

Cia de Foto – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cia de Foto – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Marcelo Zocchio – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Nicolas Robbio – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

O “meditação da ferida”, título do trabalho atual, implica a própria recusa ao conceito de origem, início. E por conseguinte, religião. O que é uma benção (desculpe) nos dias que correm. O significado do trabalho deriva de um deslocamento, não de uma fonte única. O trabalho, que parecia tão simples, complica-se a cada segundo.

Ela traz outro trabalho. Uma espécie de bomba-relógio feita com bananas de dinamite. Em vez de dinamite, tubos de luz fosforescente. Está num canto pouco iluminado de um corredor da galeria. A bomba atrai. Chama teu olho. Você chega perto. Um pequeno aviso, e engraçado, de que arte pode ser perigoso para você, pode explodir com tuas hierarquias já estabelecidas de poderes e valores.

Passei pelos outros e alguns me pegaram. Marcelo Zocchio fez uma escada com um corrimão (real) pregado em cima de sua pintura. A madeira do corrimão, gasta, imperfeita, é a mesma da moldura. Outro – que neste meu dia pelo menos – questionou os limites da representação. Nicolas Robbio armou um sistema de pesos que depende de um fragilíssimo graveto. Também já o conheço de outras obras/exposições e sempre gosto de sua maneira de apresentar o efêmero, de não acreditar em autoridades.

Dora Longo Bahia me encantou com seu back-light dúbio, borrado, pouco visível. O coletivo Cia. de fotos tinha três closes em vídeos de pouco ou nenhum movimento. Mas com o suficiente indício de real – que fotos/vídeos trazem – para mesmerizar quem na sala entrava. Você olhava. E eles te olhavam. De igual para igual.

A abertura principal era de Odires Mlászho. A Vermelho tem essa linha. Um pensamento sobre a relação imagem-texto. São vários os artistas por ela representados que seguem tal pesquisa. Tenho uma posição sobre o assunto. Acho que a imagem contemporânea tem a ganhar quando entende que há uma nova necessidade de linhas temporais (não necessariamente narrativas) na recepção imagética. Hoje. Digo agorinha. Até ontem não era assim. Então, quando o artista se abre para isso, eu gosto. Quando, ao contrário, ele estetiza palavras, eu não gosto. A diferença às vezes é muito pequena. Mas eu noto. Ou acho que noto. Mlászho, por exemplo, estratifica, imobiliza, espacializa, estetiza o texto. Então, eu não gostei.

Sintomas do sujeito pós-moderno (parte 2 de 2).

O filósofo e ensaísta brasileiro Sérgio Paulo Rouanet aponta em seu estudo As Razões do Iluminismo (1987), que o prefixo pós tem muito mais o sentido de exorcizar o velho (neste contexto, a modernidade) do que de articular o novo, o vindouro (o pós-moderno). Ou seja, o que há de fato é uma “consciência de ruptura”, que o autor não considera uma “ruptura real”.

Segundo ele, “depois da experiência de duas guerras mundiais, depois de Auschwitz e Hiroshima, vivendo num mundo ameaçado pela aniquilação atômica, pela ressurreição dos velhos fanatismos políticos e religiosos e pela degradação dos ecossistemas, o homem contemporâneo se cansou da modernidade” (ROUANET, 1987). Todos esses males, ainda segundo o filósofo, são atribuídos ao mundo moderno e a sua avassaladora necessidade de reinvenção. Essa atitude de rejeição se traduz na convicção de que o mundo está transitando para um novo paradigma. O desejo de ruptura leva à convicção de que essa ruptura efetivamente já ocorreu, ou está em vias de ocorrer. O pós-moderno, assim, se afigura muito mais como o cansaço tardio de uma época que pareceu extinguir-se sem ter alcançado seu apogeu do que o despontar de um novo começo que prima pela inclinação ao ineditismo. A consciência pós-moderna não corresponde, portanto, a uma realidade pós-moderna. Nesse sentido, ela é caracterizada como um simples mal-estar da modernidade, um sonho da modernidade.

Ao analisar os sintomas desta pós-modernidade imperfeita, Rouanet se arrisca em fazer uma psicopatologização ao considerar, em primeiro lugar, o moderno como essencialmente contraditório. Em segundo lugar, ao apontar que a sociedade contemporânea, em seu cerne, favorece o surgimento de um hedonismo característico, (todos passam a buscar o prazer pelo prazer, num incessante círculo de repetições, pois tudo o que conta é a satisfação pessoal) socializado pela mídia e, de certa forma, respondido por esta mesma coletividade como sintoma da chamada “sociedade do espetáculo”.

Nesta sociedade de valores massificados, especialmente no que respeita à cultura ocidental, a visibilidade dos aspectos particulares assumiu um caráter obsceno quando passou a excluir quase que completamente a dimensão da subjetividade e da privacidade das pessoas. Ou seja, com o alastramento dos meios de comunicação, anulou-se a dimensão do privado, tornando “tudo e todos” público, desde o cotidiano dos ansiosos por fama e ex-anônimos de programas midiáticos similares ao Big Brother, aos já famosos que figuram em revistas de frivolidades, como a Caras. Também se incluiu nesta categorização os rituais histéricos e cada vez mais midiáticos de evangélicos, carismáticos católicos e islâmicos, que se vendem para a televisão usando como desculpa a pregação de “causas justas” aos miseráveis, igualmente noticiados e fotografados por decorrência de algum fato merecedor da atenção jornalística.

Dada esta extrapolação da privacidade e de sua utilização como moeda de troca, os sintomas do hedonismo na sociedade pós-moderna passaram a operar através de mecanismos de promoção da visibilidade do que era privado, como se decretando o fim do segredo ou o fim da intimidade.

Durante a era moderna a “doença do século” era a histeria. Uma vez incapaz de suportar tanta repressão, o sujeito moderno teatralizava-se, representava-se enquanto ser contextualizado para escapar do embate endopsíquico. Graças a este sintoma, Sigmund Freud fundamentou sua psicanálise. Na era pós-moderna, entretanto, este mal-estar se apresenta de forma mais complexa, uma vez que os anseios individuais se diluem no caldo do disfarce coletivo, criando uma falsa sensação de que “tudo está bem”. O mal-estar pós-moderno é, portanto, visível e banal, expressado através da linguagem do cotidiano e do trabalho compulsivo, excessivo, quase sempre vendido como se fosse “lazer” ou “ócio criativo”. E, uma vez incorporado, este processo leva a uma série de problemas que acaba se tornando inerente ao sujeito pós-moderno, como o estresse, a perversão, a depressão, o sedentarismo e o tédio.

Colocando a questão em termos de patologia social, a pós-modernidade fez surgir, com seu neoliberalismo desenfreado, coisas contraditórias, como as indústrias e a crise de empregabilidade ou a abertura econômica e a escassez monetária; se por um lado temos a ciência mercadológica e a alta tecnologia, por outro, temos a multiplicação da população pobre e as guerras racionais. Na contemporaneidade, a perversão ganha ares de grandeza e se vê livre para manifestar-se em diversas formas, seja travestida de violência urbana, seja no terrorismo, nas guerras ideologicamente consideradas “justas” e “limpas” ou nas guerras “cirúrgicas”. A razão cínica é cada vez mais instrumentalizada. Não basta ser transgressivo, ou perverso ou mesmo imoral; é preciso se construir uma justificativa “moral” e, portanto, passível de aceitação, para atos de imoralidade e perversão.

Assim, na contemporaneidade pós-moderna, a perversão e o estresse tornaram-se sintomas resultantes da falta de lei, da falta de tempo e da falta de perspectiva de futuro, contraditoriamente refletido no sistemático abandono do passado.

Citando novamente Jameson, “a sociedade contemporânea é regida, mais do que tudo, pela ânsia e necessidade de “espetáculo”; ela exige o prazer imediato a qualquer preço, mesmo que para isso tenha que se valer de praticamente tudo, até mesmo abdicar de sua individualidade” (JAMESON, 1991). Enquanto inseridos socialmente, todos se sentem na obrigação de se divertir, de aproveitar cada momento e de trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social, não importando os limites de si próprio ou dos outros.

Para Jameson, a lógica cultural do capitalismo tardio frente à sociedade do consumo está organizada sobre a tríade “pastiche — nostalgia — morte do sujeito”, que permite ao homem pós-moderno “sentir a especificidade da experiência pós-modernista do espaço e do tempo”. Neste contexto, o “pastiche” (mescla que vários gêneros artísticos para a criação de um novo conceito, cujas características são distintas dos originais) assume-se como a representação alegórica da pós-modernidade, uma vez que adota as qualidades de uma máscara estilística de reiteração – como reprodução e sobreposição de estilos, mas esvaziada de conteúdo – condizente com o segundo pilar da tríade, a “nostalgia”, essa tomada como resgate de um passado nada ameaçador, embora instigante, que ofusca a relação humana com o seu presente histórico. Dessa forma, o homem contemporâneo se vê mutilado de sua autonomia, liberdade criativa e potência revolucionária, passando a mover-se no mundo sem procurar extrair dele a mais ínfima mudança sequer. Este último sintoma pós-modernista Jameson denomina como a “morte do sujeito”.

A arte pós-moderna.

De modo geral, a arte contemporânea se apresenta como um produto de concepção multifacetada e abrangente, representação do homem moderno e de sua dissolubilidade em meio aos múltiplos canais de comunicação de massa. Numa sociedade em que o impulso e a espontaneidade superam a razão e a necessidade de sociabilização é direcionada para o consumo, os objetos de mercado se revelam personalizados e estetizados, convertendo numa espécie de simulacro o mundo real, mundo este que agora se encontra desmaterializado. O comportamento dos grupos sociais, em consequência, passou a ser orientado pelos mecanismos de comunicação de massa, que vieram substituir em grande medida os contatos sociais. Mesmo entre o grupo familial ou de convívio próximo, a massificação da comunicação já se faz enormemente presente — quem nunca se utilizou de programas de mensagens, como o MSN, torpedos ou fez uso do celular para falar com um vizinho, amigo ou com um parente que se encontra no cômodo contíguo?

A partir dessa homogeneização dos sentimentos individuais, foram criados fatos, valores e necessidades que serviram de alimento para a estrutura econômica de uma sociedade agora globalizada. O desenvolvimento tecnológico e seus tentáculos que a tudo alcança e enlaça só acrescentou novos elementos à transformação do homem e de sua convivência em sociedade.

Como característica desta arte pós-moderna, tem-se a reificação ou coisificação (conceito marxista que prega a transformação do homem ou da arte em mercadoria, em simples objeto de consumo) da condição criativa, a apresentação da arte descontinuada, alusiva à negação da historicidade, a quebra da sequência estrutural, uma vez que ela não se fia mais na linearidade, nem busca no passado sua base de sustentação, e sua pasteurização, ao se utilizar de todas as formas de linguagens, incorporando num mesmo contexto fragmentos de diversos artistas, estilos e épocas. Neste aspecto, a literatura passou a utilizar o que se convencionou chamar de intertextualidade, ou seja, num mesmo texto há a simultaneidade de cenas, desde a imitação de procedimentos próprios do cinema moderno inseridos na leitura à introdução, na prosa, de técnicas de construção de poemas e a inclusão de posicionamentos autocríticos na composição do texto. Enfim, pastiche!

Um traço tipicamente pós-moderno presente em todas as modalidades artísticas contemporâneas é a tendência a eliminar as fronteiras entre a arte erudita e a arte popular como forma de valorização desta última e seu direcionamento para o consumo da cultura de massa. Diluem-se também os critérios tradicionais de definição da estética.

Na obra Pós-Modernismo e literatura, de 1988, Domício Proença Filho aponta algumas daquelas que considera como as características mais significativas das literaturas pós-modernistas, entre as quais figuram a intensificação do lúdico, do experimentalismo e do pastiche; a utilização deliberada da intertextualidade; a mistura de estilos; o exercício da metalinguagem (a linguagem falando de si mesma); o alegórico, o hiper-real e o metonímico; o texto fragmentado; o centramento na linguagem; a exaltação do prazer e a presença do humor. Assim, a pós-modernidade literária tem seu arcabouço centrado na visão cética do mundo, da arte, da vida, do sentimento e da própria ciência teórica, que foi levada a cabo pelo advento das ciências experimentais objetivas. Torna-se, portanto, uma espécie de anti-ideologia por encarar o fim do processo histórico, o fim das lutas de classe, o fim de um ponto em si mesma. É, em suma, a ausência de motivos. Ela buscou no advento da comunicação de massa novas formas de mídia e veiculação, aproximando-se da arte de cunho mais popular. Neste momento, existe uma adequação aos padrões da “Indústria Cultural”, onde a literatura essencialmente deixa de possuir alteridade; neste cruzamento de intencionalidades, a literatura no Brasil passou a ser vinculada ao mercado editorial, deixando de lado a premissa do estado como mentor e provedor.

A proximidade com outros meios de comunicação social criou no mundo midiático a possibilidade de os gêneros mesclarem-se e darem vazão a um novo produto-arte, porém descaracterizados da sua conceitualização antiga. A palavra passa a dialogar com a imagem, com o som, com o movimento e este com conceitos de outras naturezas, como a Internet, a televisão e a revista cultural. Todas estas variações formam uma única e grande colcha de retalhos, representativa do mass media globalizado. Ao analisar esta rede global massificada, Frederic Jamesom argumenta que o homem contemporâneo “vive em um período de fetichismo visual”.

Essa necessidade de observação-contemplação criou no sujeito moderno uma nova gama de sentimentos, como a valorização da subjetividade pessoal e o não comprometimento com o item universal ou com a causa estética. O prazer passou a ter significado através do ato de se expor, na função expressionista do indivíduo enquanto objeto passível de observação, extremamente autobiográfico, particular e egocêntrico. Agora comprometido com a identidade e com a satisfação do seu próprio eu, o artista pós-moderno fez com que todo um universo de significados sofresse uma inversão de valores, mudasse de lado: antes habitante do texto, tais significações passaram a se incorporar ao autor. A obra literária, então, ganhou ares de portal para a possibilidade de o autor travar contato com o leitor, criar um diálogo bidirecional, uma proximidade.

Para tanto, a literatura pós-moderna abdicou de todos os conceitos das correntes que a precederam, tornando-se desfragmentada quanto ao gênero narrativo. Também aboliu o núcleo do enredo e da estrutura clássica romanesca, distanciando-se do cânone clássico e passando a se utilizar do narrador multifocal. Da concepção romantizada (da estética romântica) ou idealista (oriunda do modernismo), a personagem pós-moderna tornou-se intrusa e ausente, desprovida de passado e história, situada unicamente no presente que lhe condiciona o tema. Falta, ainda, a definição do código e da mensagem da obra e a criação literária passou a celebrar a prática da “bricolagem” (trabalho de colagem de textos ou extratextos dentro do processo criativo, algo que se aproxima, em certa medida, da ideia de hipertexto. Na prática pós-modernista, é a transformação ou estilização de materiais preexistentes em novos trabalhos (não necessariamente originais)) e do diário como forma de realocação do ser dentro do amplo espaço da cultura global de massa.

As faces da pós-modernidade literária no Brasil.

O Pós-Modernismo no Brasil assumiu várias facetas dentro da produção literária, notadamente em relação à prosa.  Enquanto o Concretismo (movimento vanguardista surgido nos idos de 1950, inicialmente na música e depois na poesia e nas artes plásticas, que defendia a racionalidade e rejeitava o expressionismo, o acaso, a abstração lírica e aleatória do fazer artístico) consolidava suas características na poesia, a prosa pós-modernista seguia por diferentes estilos, marcada por tendências diversas, como a regionalista, a urbana, a intimista, a política e realista-fantástica, além de crônicas e contos.

Na poesia, o maior destaque brasileiro deste movimento é o pernambucano João Cabral de Melo Neto. O autor, sempre perseguindo o viés da razão em suas obras, acabou inaugurando um novo jeito de fazer poesia. A essência de sua criação literária mostra uma tentativa de desvendar os elementos concretos da realidade, que se afiguram desafiadores para o poeta. Sempre guiado pelo raciocínio lógico, seus poemas evitam o subjetivismo poético e se voltam para a realidade do mundo, para a verificação dos objetos, das paisagens, dos fatos sociais e suas consequências, sem jamais cair na senda do sentimentalismo.

Já na prosa, o Brasil produziu uma quantidade considerável de grandes obras, abordando estilos e temas os mais diferentes. A literatura regionalista pós-modernista, uma das correntes mais notórias, deu ênfase ao âmbito rural, trazendo para a ficção a exposição de costumes locais e a crítica político-social. Autores como Mário Palmério, Ariano Suassuna, José Cândido de Carvalho e Josué Montello apresentaram ao Brasil urbano o homem do campo, aprofundando-se na psicologia da roça, na riqueza cultural sertaneja e na sua multiplicidade de crenças. Como mais destacado representante desta corrente, tem-se o escritor João Guimarães Rosa. Embora de caráter regionalista, a obra rosiana supera o chamado regionalismo tradicional, uma vez que ora idealiza o sertanejo, ora se compraz com seus aspectos meramente pitorescos, com o realismo documental ou com a transcrição da linguagem popular e coloquial. A obra rosiana apresenta-se dona de uma riqueza de linguagem que a tornam única, além de seu caráter universal no que respeita às questões morais e metafísicas. Criador de uma prosa única, Guimarães Rosa estilizou o linguajar do sertanejo, recriou ou inventou novos vocábulos, mesclou arcaísmos com a fala erudita, conceitualizou o popular e o moderno tecendo, a partir daí, uma nova linguagem na qual estão inseridas as indagações universais do homem: o sentido de vida e morte, a existência-inexistência do bem e do mal, o significado do amor, do ódio e de muitas outras dúvidas que afligem tanto o homem cosmopolita quanto o sertanejo.

Na prosa intimista, outra vertente da ficção pós-modernista nacional, os autores se voltaram para a exploração psicológica das personagens, e, dentre os maiores destaques, tem-se nomes como Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Nélida Piñon, Ivan Ângelo e Raduan Nassar.

A prosa urbana traz em sua denominação muito do que ela representa, ou seja, é uma narrativa direcionada à denúncia dos problemas das grandes cidades, notadamente nos aspectos social e político. Retrata a chegada do progresso e suas influências nocivas nas relações humanas, posto que, junto a ele, chegaram atreladas a solidão, a marginalidade e a violência. Dentre os autores que exploraram esta vertente da criação literária, tem-se Rubem Fonseca, João Antônio, Luiz Vilela, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão.

A prosa política, dentro da concepção pós-moderna, é uma literatura que mostra os fatos sociais diante da censura aos meios de comunicação de massa iniciada, aqui no Brasil, no começo de 1964, com a repressão militar. O que o jornal não podia mostrar, a literatura narrava através do romance-reportagem (obras de denúncia dos abusos de poder disfarçada em linguagem jornalística) e do realismo fantástico (obras de denúncia baseadas em situações fictícias, absurdas, como meio de satirizar a situação do país).  Entre os autores da prosa política, vale destacar Antonio Callado, Roberto Drummond, José Louzeiro, Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro, Ivan Ângelo, Murilo Rubião, José J. Veiga e Moacyr Scliar.

Murilo Rubião foi, inclusive, o primeiro autor brasileiro a trabalhar a temática do fantástico na literatura, ainda nos idos de 1940. Sua ficção, eminentemente contista, perpassa os problemas do homem moderno colocando-o sob a ótima do lúdico. Na prosa rubiana, o cotidiano banal ganha ares de fantástico para denunciar e, a cima de tudo, evidenciar, a incapacidade do homem de se situar enquanto ser social.

A partir da década de 1980, outros estilos literários, como a ficção especulativa (a ficção científica, a fantasia e o horror) e a literatura de entretenimento (romances considerados rasos, geralmente escritos para o grande público), ganharam fôlego e corpo — além das prateleiras das livrarias e os meios de comunicação — evidenciando mais uma etapa do longo processo de desdobramento da contemporaneidade artístico-cultural.

E, seja na poesia, na prosa ou nas artes visuais, o pós-modernismo encontrou na figura do homem moderno sua razão de ser. Através da arte-questionadora ou da arte-espetáculo, cada artista procura, à sua maneira, traçar um panorama dos rumos que a cultura tomou — e ainda está tomando — nestes dias de aldeia global, onde o individual, o particular e o autóctone passaram a ter um significado bastante relativo.

Para saber mais (artigo – parte 02):

* JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (trad. Maria Elisa Cevasco). São Paulo: Editora Ática, 2004.

* ROUANET, Sérgio Paulo. As Razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

* FILHO, Domício Proença. Pós-Modernismo e literatura. São Paulo: Ática, 1988.

Como será que ficava uma arte – desorganizada como a contemporânea – em um espaço modernista, organizado, limpo e ligeiramente massacrante. E isso em uma cidade igualmente organizada e, bem, já foi mais limpa.

Curitiba. Museu Oscar Niemeyer. Exposição O estado da arte (uma geral dos contemporâneos paranaenses).

Me diverte sempre um pouco ver como a arte de hoje faz para se esgueirar entre seus patrocínios e instituições e, ao mesmo tempo, demonstrar uma coisa assim meio antimercado.

Sei como. É assim. O lado antimercado na verdade é também do mercado. Um mercado com aversão a si mesmo. Um mercado cínico. Que se diz mercado e se critica ao mesmo tempo em que vende. E que nem por isso.

Mas enfim. É sempre um pouco divertido. Principalmente se o prédio berra a permanência, o espaço imperial. O espaço imperialmente destinado a alguma coisa que já se chamou povo. E que, no dia em que lá fui, se substituía por umas mães sempre desesperadas por um espaço para passear com bebê. E uma turma de colégio. Bem arrumadinha, como todo o resto, em um agrupamento sentado. Sentar é impedir a expressão. Corporal e até vocal. Tente berrar sentado e você vai entender o que digo.

Mas enfim. Fui.

(Em tempo. Não são todos os espaços oscarianos que produziriam o mesmo efeito, o efeito que eu buscava. O MAC-Niterói, por exemplo, por ser aberto em janelas, põe sua arte exposta ao tempo. E tempo aí não só nos acasos da luminosidade meteorológica, mas no sentido de passagem de horas, ou de um lixo do vivido, sempre renovado sobre o azul do mar.)

A exposição curitibana estava disposta em duas salas bem diferentes uma da outra. A primeira com curadoria de Maria José Justina. A segunda sob Artur Freitas.

Primeiro a primeira.

Se deu pior que a segunda. Nela, talvez por ser de viés histórico, a arte se mostrou mais destituída de qualquer possibilidade crítica. Nenhum vídeo. Nenhuma intervenção nas paredes brancas. E as quebras do espaço enorme resultavam em salas quadradas com uma mesma e predizível iluminação.

Alguns dos presentes:

Objeto caipira, de João Osório – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Mercadão, do Grupo Interlux – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Grafo, de Joana Corona – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cobra coral, de Luiz Henrique Schwanik – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

João Osório, com seus Objetos caipiras. No entanto, ele mimetizava, com materiais para lá de kitsch os oratórios de que nossas casas burguesas do interior estão cheias. Mas encolheu-se com o didatismo ambiental. Aqui bem kitsch, ali só o kitsch que tais objetos já trazem em si, sem intenção. Um e outro postos no centro, comparáveis.

Elvo Beneto Damo tinha madeiras em riste com encaixes. Algo que já vi muito. O manifesto do grupo Sensibilização trazia fotos de uma performance/manifestação antiditadura. Ok. Dulce Osinski fez um painel com imagens de metralhadoras. Ok de novo.

Fui para a segunda sala e gostei mais.

Duas intervenções nas paredes brancas já davam um tom diferente. Rodrigo Dulcio cortou o espaço em uma planta de casa improvável, e Cleverson Oliveira colou fita adesiva aos pedaços, “explodindo” uma das esquinas.

Daniel Chaves fez um vídeo bem humorado, ironizando justamente a ânsia de simetria, com imagens cortadas na vertical e se juntando (mal) no meio. Na trilha sonora, ruídos de trânsit (sempre sem sentido), e de diálogos (também sem muito sentido).

O grupo Interlux Arte Livre fez a placa Mercadão e um vídeo, também em tom irônico, em que personagens eram substituídas por buracos na imagem.

Rimon Guimarães desenhou na parede um “mapa” para se chegar em “casa” (um buraquinho). Joana Corona fez o Gafro. Um objeto com teclas de uma velha máquina de escrever, cujo sintagma só existe na sua sombra na parede.

E, principalmente, do lado de fora, bem enjaulada, a obra que seria a menos controlável de todas, estivesse ela em algum outro lugar. Uma minhoca desengonçada e enorme de Luiz Henrique Schwanike.

A bailarina de vermelhoEm meu texto Histórias da arte, tenho um capítulo seriíssimo dedicado à arte contemporânea. Me deu vontade de substitui-lo por um link. É que o vídeo A bailarina de vermelho, de Samir Abujamra e Alessandra Colasanti, é meio tudo que eu queria dizer a respeito. A começar com a frase de apresentação da Bailarina: “É que eu não me considero eu, entende?”

A história, ahn, ok, o fio, é simples. Em um dos quadros de Degas (*), há uma cadeira vazia. Depois de vários takes de depoimentos, dados históricos e documentos visuais – incluindo fotos antigas, filmes mudos e vídeos do youtube – ficamos sabendo que a bailarina sumida, assim como a arte contemporânea, está em todos os lugares.

E está, principalmente, na auto-ironia dos nés e entendes de fins de frase. E na legenda com a tradução errada de um “filme mudo”. Ou no suposto programa de Michel Melamed, com um vagabundo entrando em cena, atrás. Na explicação acadêmica de Jards Macalé sobre a origem bailarinesca dos nossos quatro dias de carnaval. Na própria cara torta da atriz. E na sua voz arrastada de quem acaba de cheirar/tomar/fumar todas. E na sua mãozinha que indica que aspas acabam de ser abertas ou fechadas em citações (falsas) de Lacan.

Exemplo de uma citação de Lacan: “Quem sabe faz a hora.” Terminada, claro, com um né.

A Bailarina namorou Picasso. Que é um exemplo, segundo ela, da disparidade eventual que se pode notar entre significado e significante. Um, hiperbólico. O outro, a coisa em si, liliputiano.

Ah, e ela acha que a contextualização de seus procedimentos artísticos se dá a partir do advento da morte do autor. Entende?

(E também se dá no desbunde anti-revolucionário e revolucionário pós-64; na derrubada do World Trade Center; em John Cage – que lhe dedicou uma de suas composições; na arte performática de Beuys; no movimento funk norte-americano; e mais em uma meia dúzia de coisas que não deu tempo de tomar nota. Ok?)

Suas origens conceituais vêm de Gertrude Stein, Andy Warhol, body painting e o balé russo. Né?

O vídeo, de 15 minutos, segue o rastro de tal figura, no ano sabático em que ela some no mundo. Um Laos, Nigéria, Criméia e outros lugares abstrusos, todos filmados em Paris, Nova Iorque e Rio. O vídeo e a Bailarina repetem, caçoando, o linguajar culto, erudito da crítica de arte. Não é só a arte e suas manifestações que são retomadas de forma escrachada. O que, em si, já é uma crítica, e das mais eficazes. O fazer crítico também é ironizado e, desse modo, destruído.

Não é que o vídeo não fale de questões importantes. Fala sim. Mas fala rindo.

Por exemplo, o fim, com os créditos, é um take de um músico de metrô americano. O vídeo acaba com uma música, essa arte que some assim que termina. Sem deixar material algum para ser jogado no lixo. Cujo emissor não é sequer visto. As pessoas, de costas para o músico que está sendo filmado, esperam um trem. O barulho do trem entra na música. Não há distinção entre música e trilha sonora do cotidiano. Assim como não há diferença rígida entre vermelhos. Ou entre fruições estéticas ou apenas sensoriais. E isso não é um drama.

Falei acima das “origens conceituais” da Bailarina. Uma que não é citada é a de Stanislaw Ponte Preta e seu Samba do Crioulo Doido. Carnaval – e se você quiser manter a clave do erudito-cafona, posso teclar aqui um Bakhtin para gáudio do populacho. Carnaval. E Brasil. Total atualidade. É sério. E você está aí, rindo.


Direção: Alessandra Colasanti, Samir Abujamra Roteiro: Alessandra Colassanti, Samir Abujamra Elenco: Alessandra Colasanti, Cora Ronai, Cissa Guimarães, Enrique Diaz, Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna, Vera Holtz, Michel Melamed. Fotografia: Samir Abujamra Montagem: Samir Abujamra Música: Lucas Marcier. País: Brasil Ano: 2010 Duração: 15min

Se não neste tempo - fotografia de celular de Elvira Vigna para o AguarrásDuas coisas logo de cara: o rótulo nacionalista e anacrônico de ‘pintura alemã’, e o título: ‘Se não neste tempo’. Perguntei ao Roberto, versado em germanismos, o que ele entendia pelo título. Disse que lhe parecia uma não querência – ou incapacidade – em pertencer a este tempo. Restava saber que tempo seria este. O este-este. Ou o este-aquele. Porque, já sabia e confirmei, o tempo representado nas 83 obras dos 26 artistas presentes não era bem o mesmo que o meu, lá, bloquinho na mão, aguentando firme o olhar desconfiado dos guardas que me impediam de fotografar.

E então, a incapacidade ou não vontade em pertencer a um tempo diria respeito ao tempo meu, este, o de agora. Diferente do tempo representado, e que era um tempo-aquele. O que emperra cronologias. O tempo fora do tempo dos traumas e dos mitos. O das definições rígidas e antigas sobre procedimentos artísticos (só há pinturas – e isto em uma exposição de arte contemporânea). E que é também o tempo das construções rígidas de identidades.

E, uau, que identidade.

A.R. Penck, Jörg Immendorff, André Butzer, Albert Oehlen, Tatjana Doll, Thomas Zipp, Andy Hope fazem quadros enormes e opressivos. Pretos. Suásticas, cruzes, caixões, caveiras. Em paisagens desérticas, destruídas, lunares. E mais Daniel Richter, que também tem muito preto, mas põe umas corezinhas por trás de suas caveiras ambulantes.

Ou Jonathan Meese, que tem figuras hieráticas, grandes, duras: autoridades religiosas, guerreiros, jogadores de xadrez. Suas obras estão em uma sala separada, com móveis velhos e bibelôs à la Farnese. Um pathos de cheiros e texturas mantidos em quartos fechados.

Bernard Heisig é cru: pinta a guerra mesmo. Trincheiras. Ou fábricas, este outro tipo de trincheira. Um estilo meio realismo social. Em um dos quadros – que também são, como em quase toda a exposição, enormes – há uns balões de história em quadrinhos. Concessão a ocidentalismos, mas mais ou menos. Os balões não são balões. São rígidos retângulos.

E aí vem uma corrente que me surpreendeu. Está certo. O tempo parado, o que falha na sua tarefa principal – que é a de ressignificar sem cessar você e tudo mais – é o tempo em que surgem fetiches e pastiches vindos de um passado visto como mais promissor que o presente. Mas eu não esperava nada tão claro. Há, entre os artistas escolhidos pela curadoria  (Teixeira Coelho e Tereza de Arruda), os que fazem com grande clareza a tentativa comum nessas situações, e que é a seguinte: se você não consegue extrair da tua condição – necessariamente histórica, temporal – um significado tolerável, você tende a presentificar símbolos vazios de outros tempos, com a esperança de que, junto com sua casca, venha também um significado, para você e teu tempo presente, que seja mais palatável, aceitável. Assim como uma coluna grega no meio da tua sala cafona e muderna.

Pois aqui a coluna grega varia de Guernica aos impressionistas. Entre as (enormes) obras em PB de Tatjana Doll, eis uma Guernica. Entre as telas sem expressão de autoria de Anton Henning, você fica frente a frente com um barquinho impressionista.

E já que o assunto é o presente estilhaçado, ponho no mesmo parágrafo as (sim, enormes) paisagens de técnica meio de publicidade/design de David Schnell, cujos títulos, como Vidro, mostram bem esse olhar parado no ar, em meio a uma explosão. Eu junto a ele o cotidiano de Werner Büttner. E mais as paisagens também estilhaçadas (e, sim, continuam enormes) de Corinne Wasmuht. Ou ainda, as pessoas sem rosto dos irônicos Blind dates de Eberhard Havekost.

Lembrei das “comunidades imaginadas” de Homi Bhabha. Mas em um sentido torcido, não previsto pelo teórico do multiculturalismo. O problema, aqui, é não tanto o de saber dos desenvolvimentos de um dado processo identitário. É principalmente saber como incluir em tal processo o peso de identidade herdada, parada. A alemã.

Identidade claramente expressa, no caso desta exposição, pelas palavras e frases inseridas nas telas.

Immendorff, Meese e Richter escrevem em suas telas. Ou melhor, picham. Picham os títulos das obras. Ou frases do tipo: Fuck the police (e é fácil acrescentar: fuck qualquer polícia, incluindo a interna). Quando não picham dentro, nomeiam as obras com uma auto-ironia cínica. Caso de Martin Kippenberger com sua Por minha causa, ou Mulher morta com fezes de pombo. Ou I hate you – esta com as palavras ocupando quase metade do espaço pictórico. Michel Majerus fez um enorme painel com a repetição de um logo. O logo de algo chamado New comer. A palavra é repetida e repetida. Sem registro de autoria, impessoalizado, o painel é um ode ao recém-chegado nada.

É como se o alemão de hoje precisasse sofrer um processo de aculturamento para virar, ahn, alemão. Precisasse passar pelas três fases estabelecidas pelo pensador citado acima: uma dependência do nome histórico; a invenção de um novo nome; o retorno ao nome original, ficcionalizando-o.

Logo na entrada há três obras do veterano Gerhard Richter. Acho que ele leva a palma. É, com seu humor submergido, quem melhor representa o que se vai ver.

Como se sabe, Gerhard Richter faz pintura hiperrealista. Ou seja, ele copia exatamente o seu referente. Só que ele usa, como referente, fotos de má qualidade. Fora de foco, com dupla exposição, manchadas. As reproduz de forma absolutamente perfeita. Não está na sua pintura a imperfeição que salta aos olhos. Está na realidade. Filho de nazistas, Richter nunca saiu da Alemanha. Passou o começo da vida no lado oriental. Depois foi para o lado ocidental. Mas nunca saiu da Alemanha. E eu não diria que é um artista alemão. É um dos maiores nomes da arte contemporânea mundial.

Porque realidade turva, ah, isso tem para todo mundo. Agora, talvez precisasse ser um alemão para sacar como mostrar isso tão bem.

Resuminho dos últimos cem anos. O modernismo retirou da arte assuntos exteriores a ela e a desmaterializou. Uma tentativa de forçar – de cima para baixo, autoritariamente – a discussão pública sobre ideias e processos de seu tempo. A retirada do sensorial e a inclinação conceitual iriam provocar um segundo movimento, contrário ao primeiro. O da estetização da vida cotidiana. Com ela, a possibilidade de ressignificação de práticas sociais até então engessadas. Este segundo movimento adquiriu a tonalidade política que se negava a aparecer onde era mais esperada: no projeto inicial.

É neste campo da arte contemporânea, o de cunho social, que se enquadra um programa da pós-graduação em artes da UNESP-Barra Funda. A professora da universidade de Lisboa Virgínia Fróis foi convidada a apresentar seu experiência em Montemor (cidade vizinha a Évora) e pensar, junto com os participantes brasileiros do programa, nas relações entre seu projeto e a situação dos oleiros do Vale da Ribeira.

Primeiro, ela situa a materialidade da arte desenvolvida em Montemor, o barro, dentro desta retomada de materiais difusos, efêmeros e não específicos do fazer artístico atual. Ela o liga ao solo – real (o chão de uma paisagem basicamente rural) e simbólico (uma atividade tradicional local).

O núcleo de arte social contemporânea de Montemor nasceu com a necessidade de recuperação de uma arquitetura muito específica. Campo romano, a vila foi ocupada depois pelos mouros. Seus sete conventos e o Castelo datam do século IX, tendo sido destruídos e reconstruídos várias vezes. As últimas vezes, já no século XVI, com barro, taipa, pau-a-pique. Depois da ditadura franquista, começou-se a recuperação deste patrimônio histórico. E para isto era preciso refazer os tijolos de barro da forma como eram feitos, artesanalmente. Além desta marca histórica, há uma outra especificidade na arquitetura local. As casas e a atividade básica inicial de olaria cresciam de forma orgânica. As casas recebiam adendos à medida que cresciam as famílias. E os fornos utilizados eram fornos móveis. Isto é, eles recebiam novos andares e cavidades interiores à medida que as fornadas iniciais inutilizavam o espaço inicial.

Esta a origem.

O que se discute nos vários fóruns artísticos do Convento de São Francisco de Montemor, hoje, é a interdisciplinidade dos fazeres artísticos e sociais. Os estudos se dão na clivagem de arte (cerâmica, música e fotografia), ciências ambientais (de recuperação dos antigos latifúndios e do rio que corta a cidade) e sociologia (com a produção de pesquisas em que se avalia o impacto das atividades primeiras sobre a população). Um desses fóruns, o Projeto Rio, estudou as margens e o fluxo de água, para os quais a cidade primitiva se voltava, e dos quais se afastou devido à poluição e degradação ambiental. Neste projeto, 15 jovens alunos de pintura e escultura desenvolveram trabalhos em que o foco era a intervenção no processo de abandono do rio e seu entorno. Ou, no dizer de um deles, “neste olhar que avança progressivamente para a desatenção”. Fizeram obras site-specific em barro, necessariamente em grupo, e necessariamente com a participação da comunidade. Deste modo, como disse a professora Virgínia, se tornaram não artistas, mas agentes culturais.

“Somos especialistas em ruínas”, disse ela, referindo-se não só à situação de ruínas históricas do local mas à situação do artista contemporâneo que renasce após o fracasso do projeto modernista.

Alguns exemplos da arte atual internacional que se realiza em Montemor.

Nina Hole – com a instalação/performance Torre da lua, de 2000, em que um forno móvel foi feito e refeito em volta da obra, a cada nova etapa, e onde o próprio fogo da queima do barro e seu posterior resfriamento produziam as mudanças cromáticas da obra, em uma referência às contínuas destruições-construções do local; Sandra Casaca – com colunas soltas de terracota, sustentando o nada e com data marcada para se desfazerem, em uma recuperação estética da influência romana e árabe da região; Arnie Zimerman – com “santos” caiados e deformados que imitavam os apliques religiosos já completamente desfigurados das casas centenárias da cidade. Rosana Bortolin, brasileira, presente à palestra, apresentou ela mesma a sua participação em Montemor: uma gigantesca casa do passarinho brasileiro João de Barro, cuja “cúpula” dialogava com outras cúpulas de conventos e capelas locais.

Em termos de participação da comunidade, aliás, Bortolin recebeu mais do que esperava. Durante um festival popular, vândalos destruíram sua obra pouco tempo depois de instalada. O mesmo pode ser dito da escultura de Nina Hole. A Torre da lua, cheia de janelas, foi usada para esconder as drogas dos frequentadores do parque em Diminuir a vida já curta das obras não é a consequência principal desta mistura tão direta com o social, típica de um determinado campo da arte contemporânea. Montemor não é mais a mesma – e isto em aspectos que escapam à intencionalidade inicial. O pólo de arte mudou a população da cidade. Hoje muitos artistas residem na vila. Seus olivais estão no passado. Moinhos de beira rio viraram galerias de arte. E os oleiros tradicionais, não-artistas (os que fazem basicamente tijolos para as construções-reconstruções), antes eram todos homens. Hoje são mulheres. Os homens estão na nova e próspera indústria de turismo. A cidade, aliás, fica apenas a uma hora de Lisboa. Se bobear, vira um Embu-das-Artes.

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMendigos, trabalhadores da madrugada, prédios vazios e escuros, um botão colorido na calçada depois da chuva, pichações mal encobertas com tinta preta,  a carcaça do carro que serve de suporte para doces à venda, ônibus velhos que vão de Magdalena para Azules e que, pela chapa, sabemos que são peruanos, uma cadeia com presos, a camiseta laranja do homem que tira sua roupa em plena calçada, as rosas pintadas na camiseta de uma puta de beira de estrada, cachorros grudados depois de uma trepada, a lona laranja do ambulante de eletrônicos, a caixa vermelha com pedaços de melancia, a roupa cheia de sangue do carregador de carne, a puta de vestido vermelho, o fogo na calçada, a calça imaculadamente branca de quem pula uma janela para entrar em um ônibus lotado que vai para Tablada, a terra amarela de tão seca, a luz vermelha do cabaré iluminando uma calça amarela grudada na bunda gorda que rebola, espetinhos de camarão, o papel vermelho de um pacote de hollywood com filtro jogado na rua suja. Muito azul, vermelho e amarelo, mas nunca juntos,

Miguel Rio Branco é um colecionador.

E a última exposição parcial – e sempre será pacial – de sua coleção de trastes, lixos, delírios e delitos está no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Algumas considerações sobre colecionadores-artistas:

1) Produzem duas tensões concomitantes e complementares. A primeira se dá porque desafiam, com a descontextualização, a estética original dos objetos colecionados. A segunda se dá por manterem esses objetos suspenso entre a fragmentação de uma narrativa original e a integração em nova coesão narrativa.

2) Condensam sua autoria criativa na manipulação e presentificação dos objetos colecionados, retirando-os assim de uma dupla marca de nascença. Pois esses objetos negligenciados estariam fadados ao esquecimento imediato ou, pelo contrário e por causa disso mesmo, esses objetos são às vezes fetichizados e superdocumentados por sua capacidade indicial de estranhamento.

3) Trazem para o relacionamento fruidor-obra a carga emotiva que deu origem à coleção, e que é o sentimento de posse, de intimidade absoluta, ampliando assim a eficácia de sua arte.

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásColecionadores-artistas podem ser vistos como agentes politicamente ambiguos pois apresentam uma ameaça à esfera pública em sua privatização do coletivo, embora, ao mesmo tempo, ofereçam resistência à institucionalização deste mesmo coletivo ao recuperar e inserir o desvalor no processo histórico oficial.

Agora, o que eu acho de Miguel Rio Branco em particular.

Gosto muitíssimo.

Acho que ele usa sua experiência de posse do que vê, cata e fotografa/filma como uma estratégia para uma crítica de desnaturalização – que é a melhor crítica. Ele interrompe.

Suas fotos têm as cores manipuladas, algumas têm recortes e colagens.  Ele interrompe e desloca. E aí nem precisa recontextualizar porque o receptor se encarrega disso. Ou seja, a verdade estabelecida com violência em cada foto-objeto-vídeo não é a verdade do fato, mas do campo semântico. Nos inclui. Além disso, ele constrói uma identidade dele, Rio Branco, reconhecível a cada pedaço de sua coleção que permite ser vista. Ou que eu vejo.

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásPor exemplo, na instalação chamada Ofélia.  Num canto, jogados, parabrisas quebrados, retratinhos só de peitos femininos, um aviãozinho quebrado de isopor, um tapete sujo de pele de carneiro. Mementos diversos pendurados. Tudo muito sujo, tudo iluminado por tubos de neon. E no chão, inobtrusivas, algumas placas de computador de um outro pedaço de sua coleção de trastes, exposto do Oi Futuro do Rio há bem tempo. A gente olha para as placas e sorri com a alegria triste de quem encontra um velho amigo.

A exposição tem também três vídeos. Em um, sob um ritmo que se mantém, seja ele de uma batida de jazz ou de uma forja de ferreiro, os cabos velhos e sem uso de uma eletricidade que já se foi. Noutro, um tempo que não passa. Num túnel enorme o carro da frente está à mesma velocidade que a câmera que o filma. Em cima desse túnel, um mar que também não parece estar indo à lugar nenhum. E no terceiro vídeo, uma striper incansável tira sua roupa e mostra sua vagina e bunda em poses automatizadas, objetificadas, e depois outra vez.

Wax latex mud – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásDirk Jan Jager fica nu. Depois perde seus pelos corporais. Depois uma “pele” de latex. Depois se torna uma espécie de ausência de si mesmo, em seu molde feito de barro.

É a Wax, latex, mud – a primeira performance do último dia da Verbo.

Fiquei pensando nesse masculino que admite a ação do outro sobre si. (Ele fica quieto, outros vão livrando-o do wax, latex e mud do título de sua performance). E que continua, talvez por isso mesmo, não só bem masculino como talvez até mais atraente do que antes, em sua incólume masculinidade. Em sua incólume potência. E transportei meu pensamento para o âmbito da arte e da posição pouco autoritária, de participação e acolhimento do outro, existente após o término do modernismo. Há mais a ser dito. O que sai do artista é grudado imediatamente na parede ao lado. Ficam, portanto, ele e “obras”. Uma dessas obras é feita com as roupas, cortadas tira por tira com estiletes. Outra com as placas de cera contendo os pelos. Outra com o latex inteiro. A última com pedaços de barro. Poderíamos pensar em uma progressão de fora para dentro, cascas sendo retiradas cada vez mais próximas de… de que? Chegaríamos em um conceito de essência, o que não me parece ser o caso. Vou ficar, então, apenas com o contraste entre “obras” e “obra”, como uma explicitação da exigência contemporânea de que mímesis e antimímesis, ou representação & processo em tempo real, concreto, coexistam (obrigada, Luiz Fernando).

Flaesh – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásGabriel de Brito Nunes fez Flaesh, em uma das atuações mais políticas e contundentes do festival. Desde o primeiro dia da Verbo, eu estava com vontade de enfiar em algum dos meus textos uma citação de que gosto muito: Good my lord, will you see the players well bestowed? Do you hear, let them be well used; for they are the abstract and brief chronicles of the time. É o Ato 2, Cena 2 de Hamlet, quando o próprio recomenda a Polonius que acolha bem a trupe de mambembes que chega em seu palácio.

Na performance de Brito Nunes, a crônica breve de nossa época ficou por conta da plateia, que ria dos trejeitos do performer, sem conseguir, querer ou poder, atentar para a violência do que via. O artista, atuando como um travesti de beira de sarjeta, desce, qual carne de açougue, de um gancho em que estava pendurado de cabeça para baixo. De salto alto e collant, busca o auxílio pobre das drogas, da maquiagem pesada que lhe mancha os dentes e escorre pelo rosto. Dos cetins vermelhos, dos trejeitos em que oferece seu corpo magro à plateia – que ri.

E já que trouxe Hamlet, continuo, agora com Ricardo III, o de Al Pacino. Porque o tempo usado por Brito Nunes, seu sorriso falso que se mantém e se repete, ora para um lado, ora para outro, seu requebro de bunda ossuda, me faz pensar na balança entre intensidade de atuação e frieza de quem se sabe – e se mostra – atuando. Ele fica um segundo a mais, a olhar o resultado de seu sorriso e requebro falsos, os olhos frios, observadores, antes de iniciar o próximo passo de sua coreografia. E isso, no caso desta performance, se mostra duplamente eficaz, já que Brito Nunes – a “pessoa física”, digamos assim – atua um travesti que é uma pessoa que atua, necessariamente, sua vida diária, que é a de uma mulher inexistente que também é a atuação de uma imagem.

Marcando território – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásEu não havia gostado da terceira performance, a Marcando território, de Guilherme Peters, até Roberto me chamar a atenção para um aspecto que me tinha passado. O tal do território é um espaço para andar de skate com duas rampas, uma em frente da outra. O barulho, imitando microfonia, já me afastaria, não estivesse eu já afastada antes, por uma prática – o skatismo – que não admite troca com o entorno, apenas um uso. No entanto, o mergulho entre as duas rampas, e a tentativa de voo que os participantes buscam a cada ida e vinda em direção ao alto, podem ser vistos como um buscar a saída de uma situação de autossuficiencia, autocomplacência. Ok. Pode ser. Acho que o título, Marcando território, desdiz essa leitura generosa. Mas tudo bem. Pode ser.

Já a última não tem solução. Richard Martel, em La création de l’homme comme ready-made, é autorreferente do começo ao fim. Principalmente ao fim. O artista esfrega na cara da plateia vários objetos de plásticos, um para cada dia da semana. Rosas, peixes. Exibe o brilho de papel alumínio, paietês. O último dos objetos são duas letras de isopor pintado: o “R” e o “M” de ready-made. Tão sem fissuras ou falhas a permitir ressignificações e diálogo quanto os objetos utilizados, a performance me deixou mais que indiferente, irritada. Ao final, o artista escreve na parede Hard Art. E depois completa com as letrinhas que faltavam, formando seu próprio nome, ricHARD mARTel. Mais fechado e prepotente impossível.

La création de l'homme comme ready-made – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Não vi a performance de Laura Husak Andreato. Fui embora antes.

Quanto melhor, mais difícil de descrever. No quinto e penúltimo dia do festival da Vermelho, uma  das melhores performances – e não me refiro só ao escopo da Verbo – que já vi. Endurance, da holandesa Rose Akras.

Endurance – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Endurance – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Endurance – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Um eixo descritivo, o da transposição de linguagens:

No chão, um montinho de pó de carvão, nas beiradas, o carvão. Ela usa o carvão para escrever nas paredes. Ao fazer isso, pisa no pó de carvão. E “escreve” outra coisa com os pés, no chão. Não é outra coisa, é a mesma coisa. Pois o que ela escreve nas paredes são frases em que compara o ato de escrever com o de desenhar, se movimentar. Escreve uma frase por cima da outra. E pisa onde já pisou. O resultado final, na parede e no chão, é o mesmo: uma espécie de trilha, de caminho.

Ela não faz só isso. Em um movimento que inclui pausas em poses hieráticas, interrompe a escrita. Vai para o centro do espaço. E começa a girar.

Segundo eixo descritivo, o de gênero:

A performer está vestida com um vestido curto, rodado e transparente. Tem cabelos compridos cobrindo completamente o rosto. Ela gira. Cabelos e vestidos se armam. Abre os braços. É um vórtice, a feminilidade como força que se expande, que abraça e inclui. Há um som aqui. Tecno. É uma força ao mesmo tempo ancestral e atual, ou seja, entramos no intemporal, no sagrado. O que já estava anunciado no hierático anterior. (Uma das posições assumidas – sentada, com um braço sobre as perna flexionadas, ela levanta seus cabelos – é uma citação. Se não me engano, Picasso tem umas banhistas com o mesmo gesto. E é possível que ambos, Picasso e Akras, citem algo mais antigo, ou um tropo resiliente da cultura ocidental envolvendo mulheres e água – no caso, suor.)

E chegamos ao terceiro eixo descritivo, o tempo:

Chama-se Endurance. A performer repete seu ciclo de ações indefinidamente. Mas são ciclos. Menstruais, sazonais ou de linhas lógicas contendo apresentação, desenvolvimento e conclusão – não importa.

A integração dos três eixos:

A escrita não tem pontuação, não é organizada em sintaxe. Além disso, contém “contas” com números aleatórios. A organização fica fora das paredes. Fica no chão que, embora limitado pelas paredes, é onde age um buraco negro, um “feminino” poderosíssimo, um vórtice que tudo alcança. E que, se acaba por se autoconsumir, dura. Dura muito. É uma administração feminina do tempo.

Daí eu ter saído de lá com má-vontade para ver a segunda performance, achando mesmo que não ia gostar. E não gostei.

Lilibeth Cuenca Rasmussen canta. Uma espécie de rap. Na verdade, fala sem parar com uma música atrás. E ela não é um vórtice, é um casulo fechado e imóvel. Literalmente. A artista se apresenta dentro de uma estrutura feita com seis hastes flexíveis que sustentam um tecido branco, ligeiramente translúcido. Fica dentro dele. Quando sai, está dentro de uma malha branca, justa. Nada voa. Nadinha. Distribuíram um papelzinho. Foi a sorte. Porque ela fala sem parar em inglês. É considerada uma artista feminista. Algumas de suas frases:

Don’t sell yourself to get access

Don’t play macho to achieve success

No man will miss you if you don’t make it up

Add a lickle time to climb to the top.

Outra:

Women stand out from the crowd

Have confidence dare to speak out

Stop the quarrels, complaints and the shout

Nobody listens to women who pout.

Lickle é fazer cócegas com a língua enquanto lambe, ahn, alguma coisa. Pout é emburrar. O resto você deve ter entendido sem minha ajuda. O que eu não entendi: a frase que diz que homem nenhum vai sentir a minha falta se eu não lickle ele; e a que diz que ninguém escuta mulheres de mau-humor. Ah, escuta. Escuta, sim…

The present doesn't exist in my mind and the future is already far behind – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Não vou fazer comentários. Sua performance chama-se The present doesn’t exist in my mind and the future is already far behind.

Possession and extension – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A terceira performance também era feminina/feminista. Possession and Extension, de Marlène Renaud-B, incluiu um certo humor, o que sempre é bom. Ela era um desses tapetes de pele de urso, bem macho. Segurava uma cornetinha de jogo de futebol que de vez em quando apertava, em um – nas circunstâncias – nada festivo lamento. Depois se levantou e derrubou um balde de coca-cola nos cabelos (vide o tropo mulher-água/suor já citado, e inclua coca-cola na lista). E faz com que a platéia a prenda, por fitas vermelhas, na hora em que quer ir embora.

palestra: Luiz Fernando Ramos, Nina Gazire e o mediador Mario Ramiro – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásAgora vou assassinar Luiz Fernando Ramos, doutor em literatura brasileira e teoria do teatro – USP. Não tenho outro jeito. Preciso resumir sua palestra. Preciso também, urgentemente, de mais competência. O tema era Trabalho e insistência do presente na arte contemporânea. Luiz Fernando fez um histórico do conceito de mímesis dos gregos até hoje. Disse como, em Aristóteles, a arte era considerada uma representação do real, imbuída de uma utilidade imediata: produzir uma reação do fruidor – fosse emocional, estética ou racional. Tratava-se então de mímesis “por semelhança”. Ou seja, cópia – necessariamente mais pálida – de algo existente. Depois surgiu a mímesis “por diferença”. Luiz Fernando citou o teatro de Artaud. Ainda uma referência a algo, e ainda presente a ideia de que se tratava de provocar uma reação no fruidor. Mas não mais espelho de nada. Algo como uma lente, que podia ampliar o que não era visto antes. Com as vanguardas do século XX, contudo, estratificou-se um forte movimento antimimético, antiteatral. Não mais representação de nada, o que se apresentava nas artes era uma ação, algo que não existia no momento antes de ser feito. Um processo. E o que se esperava, ou melhor, o que se tornava necessário, era não mais uma reação do fruidor, mas sua participação. A arte se dava a partir de um encontro de ações – não necessariamente físicas. Passa a ser um tipo de relação humana. Ou, na instauração de um vazio provocado pelo artista, o fruidor é o “autor” único do que se continua a chamar de arte. Hoje, a situação da arte recupera a mímesis. No vocabulário muito claro do professor, há uma dialética entre o autêntico e o verossímil. O autêntico é aquele indivíduo (o artista) que faz algo às claras (o gestual na pintura, o ator-ator no palco, o performer etc.). O verossímil é a mímesis, a ficcionalização. Sim, porque não há verossimilhança alguma, sentido algum, no real, e isso eu já sabia.

Junto com ele, Nina Gazire, editora de conteúdo da web e mestre de comunicação da USP. Falou da possibilidade do uso antropológico dos conceitos de teatralidade. O estudo de comunidades e situações sociais através da observação e da aplicação da teoria do teatro na linguagem corporal e nos rituais do dia-a-dia. Um entendimento do mundo como representação.

Quarto dia de performances da Verbo, vou começar com umas atualizações. Joana Bastos, a “peça de acervo”, mais visível do que no primeiro dia, ainda se mantinha fechada no depósito da galeria. As apresentações diárias de Mariëlle Videler continuavam no mesmo tom. Desta vez, os participantes falavam coisas sem sentido e em inglês, berrando e fazendo movimentos inesperados. Os berros também eram inesperados. De esperado, só mesmo a opção desta artista pelo impacto sensorial em detrimento do desenvolvimento de um conceito a ser (des)construído com o espectador. Os participantes, misturados às pessoas, usavam máscaras iguais, não se apresentando portanto como candidatos a uma identidade a ser negociada, como não o eram a um diálogo. E a máscara lhes tampava os olhos.

Peça de acervo (atualização) – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Marielle Videler (atualização) – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Jimmy, the jungle beast é a criação de um dançarino de Petrópolis, Bernardo Stumpf. Ele anuncia no microfone: “Eu tenho essa história..” e conta uma história sobre a qual ele se declara não muito certo como começa. Talvez um avião caiu na floresta e um menino foi seu único sobrevivente. Talvez fosse um problema de dieta alimentar. A questão é que esse menino se torna o rei dos animais.

Jimmy, The jungle beast – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásEle pega um pilô e delineia na parte da frente de sua camiseta branca os músculos saltados de um gorila ou de um homem muito forte. Vira de costas para o público. Com movimentos contidos, se transforma no próprio gorila/homem forte (muito bom, como expressão corporal). Aí, de repente, torna a incorporar sua persona inicial e se senta num banquinho para jogar Street fighter II, the world warrior, no computador. Perde. Torna a ir para o meio do espaço. Torna a se virar de costas para a plateia e, por gestos, pede que alguém desenhe nas costas de sua camiseta o mesmo contorno muscular que há na frente. Curiosamente – ou nem tão curiosamente, mas o que merecia todo um artigo só para isso – apenas mulheres se voluntariam para a tarefa. Várias delas. Cada uma faz um musclinho, uma costelinha. Terminado o desenho, mais uma vez ele incorpora o significante da testosterona. Agora os movimentos não têm nada de contidos. Pelo contrário, sua dança é uma espécie de luta entre a street dance e o futebol americano. Perde mais uma vez. Depois de cair no chão repetidamente, decide que aquela é a definitiva. Exausto e suado, tira a camiseta branca e veste uma limpa. A camiseta branca é declarada obra. “Obra sem título”, está no papelzinho que ele gruda com fita crepe embaixo do cabide que a expõe. A derrota do macho. Muito bom. Não fosse a camiseta nova que poucas pessoas puderam observar, já que ele se retirou imediatamente. Preta, nas costas há vários logos de empresas patrocinadoras: Rádio Imperial de Petrópolis, Sandra’s Buffet, Gráfica Tupi, Espaço 85, Prefeitura de Petrópolis e outras. Ou seja, falsa derrota. O macho – da racionalidade econômica – sobrevive a (quase) tudo.

Teoria da fala – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA outra grande performance da noite foi a Teoria da fala, de Pedro Barateiro, que se apresenta com uma “antropóloga”. Os dois, segurando suas anotações, mimetizam uma bem-educada palestra acadêmica, em que um fala um pouco e, com sorrisinhos e mesuras, passa a palavra para o outro. E o que eles dizem é o seguinte. Um estudante português comprou um livro num sebo de Lisboa e dentro do livro encontrou um manuscrito, em sua maior parte ilegível. Mas deu para perceber que se tratava do diário secreto de uma pessoa pertencente a uma comunidade que tinha decidido abolir a escrita, e até mesmo as palavras da linguagem, renomeando todos objetos.

O manuscrito, após muita pesquisa, foi considerado como pertencente a uma aldeia desconhecida de uma parte remota de Angola. A região não tem limites precisos, não tem uma etnia única, não há descrição geográfica, mas se sabe que não teria acesso do colonizador ou de outras tribos.Também não há, ao que tudo indica, uma língua-mãe determinada. Até mesmo a época não é precisa: por volta de 1950. Os manuscritos contêm a descrição dos exercícios de renomeação dos objetos. Esses exercícios foram reencenados pelo estudante português, cujo nome também se perdeu. Há uma “foto” de um desses exercícios reencenados pelo estudante português: um cara sem cabeça segurando um pedaço de pau, sentado de frente para a câmera, com fundo infinito por trás. A performance é interessante como parábola da descontextualização e ressignificação a que ela se pretende. E é engraçada na sua caricatura do ambiente acadêmico.

invasão na galeria por grupo não convidado – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

No final da noite, a Vermelho foi invadida por um grupo de performers não convidado. Eles colaram um programa, modificado com pilô vermelho, em que incluem o nome deles, e passaram a atuar em todas as dependências da galeria. Como em qualquer final de expediente, limpam o chão, as janelas. Passam uma vassoura. São a Cia. do Medo, de Rafael Mendes. Bom. E fica melhor como invasão mesmo. Todos os chiques batendo o último papo no pátio e aqueles, ahn, faxineiros atrapalhando. Vou descer do banquinho, mas antes, só uma palavrinha sobre a luta de classes. Pronto. Desci.

Identidade – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A performance não convidada criou um contraponto interessante com a primeira da noite: a Identidade, de Louise D.D. fazia a exclusão que os invasores pretenderam apontar: a cada um que entrava, era oferecido um “crachá” de identificação.

Na palestra da tarde, O mediador Mario Ramiro recebeu Marcus Bastos, doutor em semiótica da PUC-SP; e Maurício Ianês, o conhecido artista da própria Vermelho.

Marcus Bastos falou sobre o rastro, o vestígio que as performances geram em vídeos gravados ou em qualquer tipo de repetição daquilo que deveria ser único. Falou que rastro, tudo gera. Começou com os duplos holográficos de Star Treck. Modernizou até o skype com câmera. Disse que há o rastro da presença em qualquer coisa que se faça. No skype é um rastro desejado, voluntário. Na câmera de vigilância é o rastro involuntário, indesejado. Citou Foucault e Deleuze, na sua preocupação com os mecanismos de controle. Mas citou também grupos de performers que invertem a relação de poder, usando as câmeras de vigilância como partícipes de suas atuações.

a palestra com Marcus Bastos, Maurício Ianês e o mediador Mario Ramiro – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásIanês falou que seu interesse pela performance se deve ao fato de essa modalidade de expressão se dar sem mediação de um objeto. É o artista e seu público, sem nada no meio. Depois, mostrou alguns de seus trabalhos.

O mediador Ramiro fez um aporte bom ao lembrar que o rastro – voluntário ou não – se antagoniza de certo modo com a liberdade, que é uma das características principais da performance. De fato, eis uma arte que agride o mercado (não é vendável), as estabilidades identitárias do público, e até mesmo o corpo privado do artista. Com isso, são poucas ou nenhuma as suas regras e limites.

No terceiro dia de performances na Vermelho mosquei outra vez. Não vi a Cris Bierrenbach, o que muito lamento. Sei que iria gostar. É que fiquei meio siderada por outra apresentação, e de lá não saí até apagarem a luz e me enxotarem, eu tirando umas últimas fotos do livrinho do texto que me emprestaram, para não ter de copiar à mão, o que não daria tempo.

performance El lugar y la palabra - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásEl lugar y la palabra, conversación interferida – Beirut (de Fernando Renjifo, com os atores Alberto Núñez e Renato Linhares) me fascinou pelo seguinte. Altamente muderna, no sentido que acolhe várias mídias, misturando tudo, essa performance, em princípio, portanto, não daria lugar privilegiado ao texto, mesmo considerando texto não um texto concreto, palavrinhas, mas um roteiro, um fio narrativo. Certo? Certo. Fio narrativo nenhum. Um pouco circular, inclusive, com a presença dos atores repetindo, virados para os vários pontos cardeais, sua atuação de imobilidade total. (Faziam isso de tempos em tempos, interrompendo a trilha sonora que… volto depois) E um pouco circular também pelas conversas, que apareciam na tela completamente escura, em infelizes – porém necessárias – legendas. Se davam em Beirute, essas conversas. E elas se apresentavam interrompidas. Algumas frases trocadas, monólogos, e já se tem novos interlocutores, em novas línguas, em outras situações. E depois se volta a um diálogo já iniciado antes, e por aí vai. E mais: algumas das pessoas gravadas brincam com a sonoridade das frases que dizem, porque há nelas sons repetidos que são difíceis de dizer, na língua lá em que são ditas. Então, a atenção do espectador vai para a sonoridade das palavras, e não para seu significado lógico. E mais ainda. Alguém diz: “Desconfio da capacidade da língua em ser precisa.” Ou: “Só houve resistência em corpos que já haviam experimentado o silêncio.”

Tudo portanto para que o texto – um texto, fosse ele de estruturação ou texto-texto – não se mostrasse como algo importante – ou tão importante quanto tradicionalmente um texto costuma ser importante. E o texto escolhido por Renjifo é muito bom.

Acho que não ficou claro. Assim. Uma tela escura. Você escuta conversas que nunca se concluem. Diversas conversas. Em diversas línguas. Monólogos. Umas poesias. Barulho de mercado público. Risadas. De vez em quando esse som de gente que não perfaz seu caminho lógico se interrompe. E entram ao vivo aqueles dois. E ficam, um em cima do outro, imóveis. Em total silêncio. Cada vez que entram, viram o corpo para uma direção, como uma bússola sem norte. Nada termina de fato. E portanto raras vezes tive a impressão tão nítida de um cotidiano em um lugar deflagrado como assistindo a esta performance.

Vou dar mais uns pedacinhos do texto:

“Se tudo continuar assim, você vai ou você fica? Não sei.”

“O teatro grego não é parecido com isso?”

“Por que deixamos o cavalo, pai? Para que faça companhia à casa, aguenta comigo que voltaremos. Quando? Amanhã ou depois de amanhã. Conheces o caminho? Sim, claro. E a casa, conheces? Como o caminho.”

Há um jogo intersemiótico das várias linguagens (cinema, vídeo, atuação e narrações interrompidas), feitas em suas várias línguas, que começa a te incluir, você, ali, sentado no chão. E, caso você tivesse dúvida de que estava sendo incluído, os atores te convidam a se aproximar, a ficar, como eles, imóvel no meio do ambiente. Por algum tempo.

Agora vou falar do tempo. Eles ficam lá, imóveis, por um tempo. Você é convidado a fazer o mesmo. Acabo de ler um livro da Maria Rita Kehl sobre o tempo da experiência. O que é preciso para transformar vivência em experiência. Um tempo que ela chama de tempo de duração. Sem isso, você não integra o que vive. É o que, lendo notícias, você acha que acontece em Beirute. Não pode haver tempo de duração. Renjifo veio dizer que há.

performance de Marco Paulo Rolla - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásAgora a segunda performance do dia. A de Marco Paulo Rolla. Já cobri algumas de suas exposições na mesma Vermelho. Mostra o cotidiano medíocre, feio e sujo que é o nosso sem a capa do imaginário. Sua performance eram baldes cheios de água. Pessoas comuns, misturadas a nós, olhavam fixo para os baldes, e num impulso de suicidas, metiam lá dentro suas cabeças, ficando submersas até não aguentarem mais, quando então, levantavam ofegantes e ensopadas. O bom da coisa era que eram pessoas comuns. Daí o riso incontrolável que me deu ao ver a cena. Ri de nervoso. Porque eu, totalmente identificada com aquelas pessoas de joelho com a cabeça no balde, também me vi perfeitamente capaz de decidir: é hoje, vou me suicidar no balde. Nenhuma grandiosidade.

À tarde houve o primeiro dos debates teóricos do festival, no CCSP. Falaram Paula Braga, doutora em filosofia da arte da USP, e Ricardo Oliveira, mestre em arquitetura e urbanismo, e editor de moda.

Paula Braga deu um histórico da arte da performance, ligando-a a rituais da antiguidade e mostrando que, mesmo em atividades não consideradas performáticas, ela estaria presente. Deu como exemplo a pintura de Pollock, similar em sua fatura aos rituais de dança dos Navajos, uma cultura estudada por ele. Como definições possíveis, falou do corpo do artista sendo sujeito e objeto da arte – o que produz uma problematização da recepção dessa arte tão pouco categorizável. Assim sendo, é grande sua eficácia em perturbar a estabilidade do corpo do receptor, de como ele é percebido e atuado no corpus social. Neste contexto, Paula se ateve principalmente ao corpo feminino, preso na moral, abusado na mídia, e com exigências rígidas em sua aparência formal.

palestra com Ricardo Oliveira, Paula Braga e Mario Ramiro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásDepois, ela citou alguns exemplos de performances femininas contemporâneas, incluindo a de Paula Garcia, que cobri para o Aguarrás no primeiro texto sobre este festival. Diz ela que a percepção de vitimização da performer pela ação de seus dois auxiliares – que nela vão grudando pedaços de ferro cada vez maiores e mais pesados – não procede. Segundo sua visão, a artista é quem comandaria sem cessar a ação de seus auxiliares, mexendo o dedão do pé para indicar que desejava mais ferros em seu corpo. Não vi o dedão do pé ao assistir à performance. E mantenho minha leitura: Paula Braga, em sua defesa de Paula Garcia, a compara a Joana d’Arc e fala da coroa de espinhos de Cristo. Bem, são duas vítimas.

Ricardo Oliveira, ao falar da moda, disse não a considerar uma arte. Mas que, por ser igualmente híbrida, contendo elementos visuais, performáticos e de cenografia, ela caminha na mesma direção que a arte performática.

A experiência artística se dá em um meio de campo. De um lado, uma ideia que se exprime esteticamente. Do outro, você. No meio, uma troca. As performances trazidas pela Vermelho, em seu segundo dia de festival, mexem nisso.

Lições de anatomia - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Lições de anatomia - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Em uma delas, fiquei em dúvida se seria involuntariamente. É a Lição de anatomia, de Christiana Moraes. Essa atuação limitou-se à demo de um simulador médico computadorizado. E a demo foi tão demo que fiquei achando que não era possível, algo tinha acontecido com o Windows, a impedir uma dramatização. Poderia ser que o robô devesse se levantar da maca berrando miráculo, miráculo, estou curado!!! Ou morrer de vez. Mas, voluntaria ou involuntariamente, a performance robotizada apontou para essa coisa esquisita que qualquer prática teatral tem. Funciona mesmo quando não funciona.

Aqui, o fato de o performer ser uma máquina jogou todo o peso da atuação estética para quem assistia. Passamos a atuar, nós, os que estávamos lá para olhar. E atuamos, primeiro, a morbidez de quem se debruça para ver um desconhecido estendido no meio da rua. E, depois, o vazio de sentido que sente de quem dele se afasta.

Funcionou? Sim. Se a eficácia – sempre muito grande – de performances é a de apontar para a margem do cotidiano, para o que fazemos desligados de nós mesmos, então o robô, transportado para a sala de uma galeria, é uma boa performance.

Caça-palavras - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMarcio Banfi fez o Caça-palavras, também apontando, e também bastante bem, para aquele meio-de-campo de que eu falava há pouco. Aqui, ele atua a função que é a dos artistas em qualquer cultura. A de oferecer uma visão/explicação, dar um significado a essa cultura. Ele fica no meio. De um lado, a cultura (representada por uma revistinha de cultura de massa). Do outro lado, nós. A revistinha escolhida é a de passatempos ligados às palavras – que são os “corpos” da linguagem. Então, Banfi é o corpo em que devemos buscar palavras que nos tragam significado. E Banfi, por sua vez, também é o agente que busca palavras e significados (na revistinha que mantém em seu colo) para, reordenando-os, no-los oferecer. Exerce assim seu papel de artista duplamente. Pois a explicita. Desenhado nas suas costas, o emaranhado sem sentido em que poderemos caçar os sentidos que ele, pilô na mão, também caça – na cultura/revistinha. As palavras que estão emaranhadas em suas costas são: cachorro, amarelar, queda, carro, dente, sustento, fantasma, periquito, etéreo e molhado. Nada muito esotérico. Só uma explicitação de coisas do dia-a-dia. O nosso. E – ao trazê-las, e do modo como as traz – o dia-a-dia dele, de artista.

A reprodução proibida - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E mais uma de igual teor: Ana Montenegro fez A reprodução proibida. Fica, nua, de costas para o público e de frente para uma parede branca. Escutamos suas palavras em tom monocórdio. Descrevem seu corpo e o que ela faz. A seguir, uma reprodução parcial de suas palavras:

Rosto levemente marcado, sem pintura. Não tem carnes em excesso. Axilas escuras e misteriosas. Pernas magras. Sola do pé que aguenta qualquer coisa. Peito não exagerado. Uma cabeça inexpressiva, materialmente colocada. Meio apática, meio simpática, meio fleugmática. Mergulhada no nada, narinas dilatadas. O que resta fazer é corrigir a realidade. Como em um deserto. A sensação física de olhar. Afia o olhar sem cegar as palavras. Enxerga com clareza a própria orelha. Olhos densamente impensados. Tem olhos no silêncio. A extensão do silêncio. Habita o silêncio de olhos abertos. Dar ouvido às vozes. Nunca ouve. A voz de um vácuo. Uma divindade flúida e só ouvida.

Gostei da ideia de o artista não possuir exatamente um corpo físico, de ser um ser fluido. Quanto ao vocabulário religioso, não é o meu, mas entendi aqui um sentido anímico, mais para o mágico – o que melhora.

Neste segundo dia do festival também se apresentou Lia Chaia, com dançarinas de corpo pintado. Não vi. Sem saber muito em que sala se dariam as apresentações, devo ter ficado esperando no lugar errado. O release fala de algo da cultura árabe. Tenho muita dificuldade com a cultura árabe. Vai ver foi meu inconsciente.

Mariëlle Videler - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E havia também uma apresentação de Mariëlle Videler em que vários participantes, imóveis, se inseriam em um espaço sonoro de pios de passarinho. Levavam livros fechados, equilibrados na cabeça e tinham a fala impossibilitada por um lápis atravessado na boca. É comum, entre os que se preocupam com o que é chamado de espiritualidade, uma certa inclinação antiintelectual. Não faz a minha cabeça.

Primeiro dia da Verbo-2010. Nada muito entusiasmante. Poderiam ser mais rápidas, mais bem-humoradas. Mas sempre dá para se sair pensando um pouco, caso você queira se dar a esse trabalho. Pode muito bem apenas se divertir. Eu, por deficiência minha, sempre saio pensando.

Coppola-Zagari – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Alessandra Coppola e David Zagari, filmados enquanto ficam presos em um quarto, furam uma parede em direção à liberdade.

Rolê – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

No Rolê de Guilherme Teixeira, as pessoas precisam se abraçar umas às outras para não cair do skate redondo que ele inventou.

Main Raum – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A mais interessante – embora longuíssima – é a Main Raum de Nathalie Fari (com Michaela Muchina). A artista se arrasta como um réptil em direção a um precário abrigo que se rasga enquanto ela tenta ficar embaixo dele – e ao qual ela deseja tanto se integrar que mesmo pedaços dele ela pega com os dentes.

Uma coisa com performances é a política de integração entre artistas e público. Sem separação nítida de status e com a própria expressão artística muito próxima – simbólica e metonimicamente – de um cotidiano, artista e não-artista precisam se estudar para se identificar e se diferenciar sem parar.

folheto – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A negociação se dá, inclusive, na mitificação de nossos-deles passados históricos – pessoais e culturais (quem foram até chegar lá? quem éramos?), e nos nossos desejos (quem gostaríamos de ser, que fossem). Assim, a performance da prisão – que acaba com a destruição de uma parede da galeria – funciona como um ersatz para quem chega, e precisa se despir um pouco de suas personas para receber o novo. Em Rolê, a negociação com o outro é física: você o abraça, quer o conheça ou não. E com Nathalie Fari, se você não dormir acompanhando seus lentos – e muito, muito bem feitos, a mulher vira uma lagartixa – movimentos, você sair com um certo desconforto por todas as vezes que desejou pique, que se enfurnou embaixo da cama. Ou que buscou, inapta, uma proteção qualquer que se revelou frágil e efêmera.

W-W – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A Wait and Weight (W-W) de Jacopo Milani é uma referência à arte povera e a única maneira de se relacionar com isso é ter uma certa tolerância pelos italianos, cujo passado cultural tem um peso tão, mas tão maior do que suas manifestações internacionais do presente, por mais que se espere por algo de diferente.

Peça de acervo – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A portuguesa Joana Bastos, com sua Peça de acervo, é a responsável pelo único e bem-vindo sopro de humor do primeiro dia do festival. Sentada em meio a tralhas, com uma única perna aberta aparecendo, ela se refere não a um passado, a uma memória e a uma negociação de identidades, mas a um futuro – o dos artistas. E isso se forem bem sucedidos.

Inefável – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A palavra “inefável” foi cantada, letra por letra por um grupo de cantores líricos, na performance assinada por Maurício Ianês. Inefável quer dizer “aquilo que não se pode exprimir por palavras” (no Aurélio). E essa performance também foi engraçada.

Corpo-ruído – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Agora, a Corpo-ruído, de Paula Garcia, me derrubou. Uma mulher fraquinha sobe em uma mesa. Ela tem ímãs grudados com fita crepe pelo corpo. Dois homens vão grudando pedaços de ferro nela. Alguns pregos. Ela vai ficando cada vez com mais dificuldade em ficar de pé. Aí eles tiram os ferros e a ajudam a sair de cima da mesa. Enquanto isso, ela se mantém inerme, passiva, com uma cara de sofrimento. Vem cá, minha santa, não deixa homem nenhum ficar botando ferro em cima de você, não, viu. Não gostei de ver, e fico cá me perguntando o que será que ela quer, ao se mostrar imobilizada voluntariamente pela ação de dois homens. Eu hein.

Não acho que se possa fazer “carreira” em arte. Vejo a vida dos artistas mais como um grande projeto, um se buscar sem parar e sem cansar. Dentro dessa busca, a do lugar que cada um tem na imbricação entre correspondência (a algo, real ou não) e espantos.  Ganha quem acha mais e quem mais abandona o que achou.

Há pouco tempo cobri uma exposição no Paço das Artes, na USP, com curadoria de Felipe Scovino e a presença de alguns dos artistas que torno a encontrar na exposição Além do horizonte, da Amarelonegro (Rio).

Falava, então, de duas atitudes, cada uma de um lado do pathos: os que reagem ao que lhes atinge, e os que se deixam por ele atingir sem reagir. Disse isso porque essa é uma posição inicial que vai determinar – um pouquinho mais para cá ou para lá – qual o lugar do criador frente a seus embates.

E nem são tão iniciantes assim.

Leo Ayres

Leo Ayres fotografa um braço peludo. Seu lugar é de muito perto. A mudança de escala – que já vi em outros artistas e no mesmo tema – transforma os pelos em uma espécie de cobertura vegetal.

Luiza Baldan

Luiza Baldan continua olhando em torno e se sentindo presa. Suas fotos, sempre muito bonitas, trazem o que não devia estar preso. A da exposição é a de um pátio interno, com árvores na parte de dentro, grades. Há sempre uma construção de linhas horizontais e verticais, a construção de algo – e o ar livre, a linha torta, a abertura.

Raul Leal

Raul Leal busca, esse, desde seu começo, uma espécie de mundo próprio. Tive o prazer de ver alguns poucos de seus primeiros quadros. Ele vai por sobre o que lhe toca, cobre, refaz. No texto anterior citei Borges como exemplo de uma criação de mundo, de alguém que não se enquadra exatamente no esquema rudimentar com que abri esta crítica, entre patologias e apatias. Raul me parece que caminha por aí. Ele não comenta o que há. Ele faz o que não há: um mundo profundíssimo e, ao mesmo tempo, em 2D. Quero dizer, sem registros imagéticos de profundidade. O abismo é de quem vê, é meu. Talvez dele.

Pedro Varela

Pedro Varela não tem chão. Literalmente. Sua construção é suspensa por fios. Curvas góticas, brancos mediterrâneos, prediozinhos sul-americanos. Um lugar-nenhum que se balança.

Bob N usa azul. Está no azul. A cor não é inocente. Tem toda uma história da arte por trás dela. São dele acrílicos azuis, tracinhos azuis, fundos azuis.

Deborah Engel

Deborah Engel é das mais explícitas no questionamento sobre seu lugar. As fotos são de paisagens, Nessas paisagens há mãos em primeiro plano. As mãos seguram fotos de paisagens. As paisagem assim seguradas são parecidas com as de trás, mas não são a mesma.

Estela Sokol trouxe cubos brancos para representá-la no cubo branco da galeria, em uma anulação de autoria, de modificação, uma apatia, portanto. (Mas os termos, que hoje adquiriram conotações, são usados por mim em seu sentido etimológico, veja bem.) Em outra obra dela, um círculo negro. Mais uma vez a não-presença de quem prefere ressaltar o que já estava lá.

Gisele Camargo lava seus acrílicos quase monocromáticos, vagamente representativos, em outro dos desmaios apáticos.

Bruno Miguel pôs cartões postais- com representações de paisagens distantes – dentro de caixinhas individuais de acrílico transparente. As paisagens têm trechos “apagados” com papel branco. E o acrílico interrompe o fluxo de comunicação incluso no campo semântico do objeto cartão-postal. É outro da mesma linha. Em um desses cartões está escrito: “Poder viver a vida nos semeados entre penhascos deve ser vivê-la no céu. Quanto é bela a Terra. Que ela seja preservada para sempre.” O sintagma “sempre” aí, como registro de algo que não muda, não-vivo, sendo o mais importante.

Álvaro Seixas entende e acolhe a falta de ordem. Faz pequenas equações bem comportadas de listas, círculos. Mas nada está muito certo, nenhuma linha é muito exata. E a tinta escorre aqui, ali.

Danielle Carcav se revê na personagem menininha, cujas cores e contornos se perdem na paisagem que corresponde a uma memória – real, fabricada, tanto faz. Também na mesma busca por uma correspondência, em outra obra sua, há dois fones de ouvido. Em um, o barulho de tráfego que reconhecemos, que está na memória de todos. Em outro, o silêncio. Que não reconhecemos e nos espanta. Nas telas dos dois equipamentos, o vídeo de uma janela aberta: a cortina que se move, a grade que não se move.

Gosto mais dos que reagem. Ou dos, como Raul, que partem do zero para outra coisa. Me parece que eles, como eu, entendem que eventos – qualquer um – sempre ocorrem em um dado lugar ou tempo. E que eles próprios. Melhor: e que nós próprios somos portanto também “eventos”. Os desse tipo somos menos profissionais, temos menos disciplina, somos menos ligados em “carreiras”, e mais ligados em projetos. Sabendo, inclusive, que as tais circunstâncias de tempo e lugar modificam não só a produção de cada obra, mas também sua recepção. Seu campo de possibilitação. Onde, claro, me incluo e a esta análise.

A curadoria desta segunda exposição é de Daniela Name. E gostei muitíssimo.

OffoffoNem sei se é elogio. Mas o artista angolano Yonamine – em exposição na Soso e presença confirmada na próxima Bienal – usa umas estratégias poéticas que lembram as de Agostinho Neto, o herói nacional, poeta e político da mesma Angola.

E não sei se é elogio porque Agostinho Neto teve lá suas controvérsias que poderiam ser resumidas em uma única atitude icônica: ele escrevia em português, a língua do opressor.

Pausa para um Google básico:

Locomotion 1Neto atuou no MPLA, movimento fundado em 1956. Em 1962 se torna o primeiro presidente do país, cargo que ocupa até a morte, em 1979. Sempre tentou unificar as tribos e dar tratamento igualitário às linguagens tribais. Apesar de seus esforços, uma guerra interna opondo grupos étnicos esmaga o país por 27 anos. Poderia ter sido menos não fossem o interesse e a participação pouco disfarçada das mesmas potências estrangeiras que Neto tanto tinha tentado atrair – entre elas Estados Unidos e uma África do Sul ainda afundada no apartheid. Médico formado na Universidade de Coimbra, nunca abandonou a poesia.

Voltando para Yonamine e a comparação entre as duas poéticas:

Em Sábado nos musseques, Neto usa a repetição dos sintagmas (“Britar pedra / acarretar pedra / britar pedra / acarretar pedra / ao sol / à chuva / britar pedra / acarretar pedra.“) e foi por aí que eu entrei, só para descobrir outras similaridades depois. Yonamine também é fã da força das repetições. E nisso ele encavala com outra característica marcante do Neto, que é o uso do “idioma” estrangeiro, dominador. Pois as repetições de Yonamine se dão em composições pop. Pop. Se houvesse uma linguagem artística representante em tempo integral de uma determinada cultura, seria a pop. E a cultura representada por ela é, claro, a dominadora-americana-consumista-secular. O oposto a um “africano”, termo abusivo e ocidental, mas, que fazer, é nessa linguagem ocidental e abusiva que faço o artigo.

No entanto, o mais importante não é 1) a técnica da repetição, nem sequer 2) o uso de uma linguagem oposta ao que se quer dizer com ela.

Há uma terceira similaridade.

Na raiz mesmo da poética de um e outro há o que em linguística se chama estratégia de provocação. Funciona assim: você começa reforçando (sim, com o auxílio da repetição) imagens da desesperança, enumerando – e repetindo – o pathos da tensão que será apresentada. E aí você vira. Apresenta imagens otimistas, heróicas. Ou, como no caso de Yonamine, simplesmente bem-humoradas – o bom-humor sendo, para quem vive nos extremos, no limite, o heroísmo possível dos dias de hoje. Por exemplo: alguns de seus quadros se chamam Miami be, Ócaraócoroa, Loco-motion, e Offoffo (foto – detalhe) – esse último a repetição de um símbolo adulterado da ONU, entidade que mantém de fora os interesses dos, bem, africanos.

É eficaz. Foi.

Locomotion 2Em que pese o português dos poemas de Neto, foi esse “assimilado” que obteve a independência de Angola.

O uso de “assimilados” pelo colonisador português foi bem estudado. Gilberto Freire era de opinião que assimilava-se por bondade d’alma e por motivos históricos: os portugueses já eram miscigenados desde sempre, com as invasões mouras, por exemplo. Mário de Andrade concorda em termos, mas aponta que a assimilação era falsa, pois não se dava em todas as instâncias de poder, pelo contrário. O caso é que a história mostra que, se o Império tentava assim se manter mais forte com menos gastos militares, a coisa não deu lá muito certo. Nem com Neto e, acho, também com Yonamine. A desenvoltura no trato da “língua” artística internacionalizada é menos uma posse a mais da cultura dominante em um país periférico e mais um país periférico a berrar que houve crime, e rir dos criminosos, sem deixar de lhes apontar um dedo.

Em Mussunda amigo, Neto se dirige a um conterrâneo que ele chama de Mussunda, e fala de seu dilema em adotar os códigos do opressor. Eis um pedacinho:

Para aqui estou eu / Mussunda amigo / escrevendo versos que tu não entendes. / Não era isto / o que nós queríamos, bem sei. / Mas no espírito e na inteligência / nós somos! / Nós somos, / Mussunda amigo. / Nós somos. / Inseparáveis.”

Não falar do ruim é péssimo. Em janeiro deste ano vi umas fotos do recifense Jonathas de Andrade no MAC-Ibirapuera. Me chamou a atenção um jeito – falso, aparente – de passar batido pelas feridas que as cidades têm. Textos e fotos. Nos textos, ele usava um código linguístico que se aproximava do pedagógico – inclusive com múltipla escolha – para falar do cotidiano duro dos centros urbanos, fotografados ali do lado. Longe de o efeito ser edulcorado, pelo contrário. Ao apresentar em textos tão ligeiros uma imagem  sociológica tão pesada, ele reforçava em muito a eficácia de sua documentação. Ele também acha que não falar do ruim é péssimo. Então ele fala, fingindo que não fala.

Jonathas de AndradeAgora ele continua. Desta vez na Vermelho.

(Uma das novas séries de fotos é, inclusive, uma continuação literal dessa exposição que citei acima. Com o mesmo uso do discurso em clave pedagógica, o artista traz mais uma vez entrevistas e entrevistados, e suas casas. As perguntas agora dizem respeito a boas maneiras burguesas. Você deve cuspir no chão? O que você não deve fazer em público de jeito nenhum?)

O conjunto de que mais gostei é o que dá nome à exposição, Ressaca Tropical. Aqui, temos uma espécie de diário, escrito em letrinha caprichada e cursiva, e mais idiota impossível: “Estive com Maria de Fátima”; “Fui ao cinema com Sueli”; “Início de romance com Marlene”; “Fim de romance com Marlene”. E mais uma Nilda, Sandra, Zininha, Albertina, Zeza, Tita, e muitas saudades da Rosa Maria. Há também uma Ana Maria e um: “Iniciei pesquisas para meu dicionário de educação sexual”.

Jonathas de Andrade Jonathas de Andrade

Mas as datas das inserções se referem ao ano de 1977. Geisel. Mais pesado impossível. Lá como cá é a mesma estratégia de mimetizar uma recepção “alienada” e colocá-la junto ao registro de uma situação complicada ou violenta.

Jonathas de AndradeNo release da galeria ficamos sabendo que as fotos que acompanham esse diário são de Jonathas e também de Alcir Lacerda, um repórter fotográfico que documentou o nordeste brasileiro na época citada. O acervo de Alcir Lacerda, histórico, se encontra atualmente na Fundação Joaquim Nabuco. Já as fotos de Jonathas são atuais. E aí, a violência, tão bem exposta graças ao próprio subterfúgio – falso – de camuflá-la, deixa de ser uma questão inerente a um dado período histórico. O escopo se amplia. Passamos a considerar esse não-ver-não-falar como uma estratégia duradoura para poder ver e falar.

Do quê?
De um truque. Na Europa, no auge do colonialismo do século XIX, os autos de Natal costumavam incluir o episódio bíblico do Massacre dos Inocentes. Eram muito populares, parece. E sempre encenados em praça pública com sangue falso esguichando dos bonequinhos-crianças, trucidados por outros bonequinhos, os soldados romanos. No texto dessas peças abundavam piadinhas sobre negros, referências descontextualizadas sobre um Congo de opereta, com rufar de tambores e ossos enfiados em narizes chatos.

Jonathas de AndradeQuem morria aos milhares, e de verdade, é claro, eram os africanos das colônias européias, assassinados pelos prepostos da nobre audiência. Mas ver essa verdade era difícil. Então a morte possível de ser vista era a da época de Cristo, ainda que o texto falasse de forma oblíqua de um presente do qual ninguém queria saber.

É isso que Jonathas mostra. Um modelo que funcionou para os europeus do século XIX, para a burguesia brasileira da época da ditadura. E que continua funcionando.

Na série sobre um velho iate clube a coisa fica não só mais explicada como até mesmo um pouco óbvia. O clube em cima é luxuoso, salões de festas e tal. Embaixo, nos pilotis que avançam sobre a faixa de areia, tudo que o andar de cima não quer ver: sexo, drogas e rock & roll.

No hall de entrada da galeria há o último conjunto de fotos.

(Aliás, é o primeiro conjunto, pois o hall é, justamente, de entrada. Eu é que inverti tudo para poder seguir minha linha de análise.)

Então, nesse primeiro espaço que também é o último, uma casa modernista em ruínas fica cada vez pior, até sumir quase que de todo no meio de um mato que cresce a cada clique da máquina. Só dá para entender isso através da ironia. Se o modernismo quis, autoritariamente, determinar a fusão dos espaços, a permeabilidade consentida, benevolente e autocrática, do capital privado colocado supostamente a serviço das massas, Jonathas mostra que, autoritarismo posto de lado, a decadência do projeto moderno, essa sim, é a única capaz de cumprir o prometido. Paredes desabando, o que antes era reduto de um poder que fingia ser receptivo fica sendo, de fato, o poder de todos – ou de nenhum.

Jonathas se inclui na sua crítica. O vídeo da saleta do primeiro andar traz uma série de rostos anônimos, “fuzilados” pelo poder da câmera que os mira.

Otávio SchipperO local foi desfavorável ao artista. A Otávio Schipper coube o hall das escadas do MariAntonia. Portas, passagem, guardinha de lá para cá e, principalmente, luz de hall. Houvesse um espaço mais pensado e teríamos quase um Teatro Noh.

Uma história de silêncios e sons. Sendo que um dos sons, o de um tambor ou surdo em cadência, é niponica e dramaticamente uma espécie de silêncio a ressaltar os outros sons. Os outros sons nascem de aparelhos de telégrafo. Muitos deles. Hieraticamente posicionados em palcos-mesas.

Niponica, dramática e matematicamente. Pois o drama ascende em um crescendo ritualístico de sonzinhos (um espécie de tec, tec, tec) cada vez mais rápido até explodir em uma voz humana.

(Não é humana, é computadorizada – mas eu volto a isso depois.)

O curador Paulo Venancio Filho se refere, em seu texto, a sons enlouquecidos. Não vi isso. Vi um cálculo, um plano bem executado. Tudo em seu lugar.

Na frente, os alto-falantes e um velho telefone preto. São os atores principais a nos remeter a um humano que 1) ainda não é considerado humano (a voz computadorizada ainda estranhável em seu tom monocórdio), e 2) não o é mais (o velho telefone de uma voz que já morreu). Ao fundo, o coro dos tec, tec. O coro é dividido em dois grupos, dando uma espacialidade horizontal muito interessante e que é a maior vítima da luz assassina. Pedia uma névoa. Pedia um Kurosawa.

Tudo muito simples. Os sons vão num crescendo, pontuados aqui e ali por silêncios cuja tensão é ampliada pela “percussão”, até desembocarem em alguém falando. Não é alguém. E o que esse não-alguém fala é o seguinte:

“Ten plus one equal eleven.”

E outras frases similares de uma matemática pausada, simples, sendo explicada de forma pausada e simples.

(E em inglês – o que, para nós, introduz a nota cômica que alguns ramos do Noh também têm.)

Há mais um detalhe. A instalação traz uma circularidade em sua sequência de sons. Um padrão que se repete. Repetições – mesmo quando apenas pragmáticas, como quando é preciso manter uma traquitana funcionando em looping pelo tempo que por lá houver público – trazem sempre uma implicação psicológica. Prisão, destino inescapável, violência.

Otávio SchipperA violência pouco percebida, e enorme, dos atos executados mecanicamente, sem nem sombra de pensamento crítico (um pleonasmo, desculpem, todo pensamento, por definição, só pode ser crítico). E que é a nossa.

É este o pensamento de Schipper. Um pensamento sobre a violência das coisas que acontecem sem pensamento. E foi assim que ele nomeou sua instalação. Inconsciente mecânico.

Com ele, na programação da tensão sonora, Sergio Krakowski. Descobri pelo Google que ele é matemático. Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada. Tudo a ver.

Caso célebre, a tradução que Baudelaire fez da obra de Poe foi tudo menos fiel. Obcecado por aquele a quem considerava seu mestre e mais íntimo amigo, Baudelaire batalhou pela obra de Poe, difundindo-a. Poe deve sua fama mundial a Baudelaire. Mas ao fazer isso, Baudelaire também modificou essa obra original, e muito, aprofundando-a.

Traduções ou, ampliando o termo, representações de outras representações, trazem sempre à tona a desconstrução que está na base de toda construção poética.

E era nisso que eu pensava ao ver as pinturas de Federico Guerreros. Porque ele as faz a partir de fotos – o que é bem comum. Mas com encáustica, o que é menos comum.

São várias camadas grossas de cera, uma que outra coisa colada por cima, e alguma superfície em tinta metálica a esconder o que foi com ela pintado. E a devolver, ao fruidor, nesse reflexo acinzentado, ele mesmo e seu entorno.

A foto fica lá atrás.

Federico Guerreros - sem título Federico Guerreros - A correr se ha dicho Federico Guerreros - Por una moneda

A pintura de Guerreros não tem contornos que coincidam com seus relevos e texturas. As fotos originais também não. Meio desfocadas, seu desenho se perde, assim como seus detalhes. E, ao mesmo tempo, há um reforço, um aprofundamento daquela primeira obra fotográfica no que ela teria de icônica, no seu vestígio de coisa que existiu. A desconstrução é, ao mesmo tempo, um elogio ao rastro do real que as fotos contem.

As fotos falam de cidades e infâncias que não mais existem. Há entendimento de que o duradouro é apenas o que sobra, momentaneamente, do temporário – para lembrar da frase famosa de Baudelaire. Há também flâneurs que poderiam estar no The Man of the Crowd, de Poe. Há um spleen.

Traduções sempre envolvem uma dessacralização da obra original, pois traduzir significa separar essa obra de seu contexto e fonte de inspiração, emprestando a ela novas condições de produção. Aqui também.

Essas fotos antigas são tratadas com espátulas pouco atentas a minúcias. São tratadas, na verdade, a ferro e fogo. Há uma brutalidade que contradiz e desconstrói o romantismo inicial. A superfície das telas tem um trabalho, e um trabalho pesado, que agride o estar-no-mundo dos dândis e garotos inconsequentes e despreocupados lá retratados. Em uma delas, um balão de história em quadrinho (“mom, I want to be a terrorist”) desestabiliza o onírico. Em outra, isso fica a cargo do título: Lo intento, pero no llego. Há plásticos corrugados, desses de pastas de papelaria, a dizer que a paisagem de fato não existe. Na tela A correr se ha dicho, a sombra dos personagens, no chão, fica sem sentido, pois a luminosidade do quadro é nula. Na tela Por uma moneda, a moeda caída no chão é desproporcionalmente grande. E é o único ponto branco da tela cinza. Dinheiro, diz a tela. Não a infância perdida da foto. Mas dinheiro.

Bem contemporâneo e nem um pouco romântico, Guerreros, à imagem de Baudelaire, está menos para tradutor da nostalgia das fotos originais, e mais para vampiro, sugando-as para mostrar uma visão da atualidade.

É uma visão de que modelos, sejam eles quais forem, só podem existir, hoje, como uma aporia a ser constantemente negada e desejada.

A exposição está no David Dalmau Studio, São Paulo, e tem 18 telas.

Primeiro a parte formal. Dora Longo Bahia, atualmente em cartaz na Vermelho, continua (*) com sua inserção múltipla ou, pelo menos, dupla. Em uma, há o enfrentamento estrutural daquilo a que se propõe. Na outra, a relação da obra e da própria artista com as questões culturais em que se inserem ambas. Na primeira camada, fala a artista profissional. Na segunda, entra um envolvimento emocional, pessoal. Tudo isso, é claro, entre aspas, porque não há profissional fora de contexto cultural, assim como a pessoa de Dora Longo Bahia não é passível de separação com o que ela de fato é: artista. Mas há uma diferença entre o interesse cognitivo na matéria de trabalho e um envolvimento predominantemente afetivo, e de cuja força ela se defende pelo sarcasmo, pelo humor. Estamos falando aqui de uma interface. Ou, traduzindo, do ponto de contato entre o que é representação simbólica e o que é um real – com esse nome em falta de outro, e também entre aspas. Da junção entre método e experiência, entre conceito e emoção.

Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

O resultado é uma obra muito forte, mas ambivalente para quem vê. Algo nos está sendo dito. Algo nos é exibido. E são duas coisas diferentes. E com mais um detalhe. O que nos está sendo dito e exibido tem uma característica elusiva no que se refere à autoria.

Detalhando:

Então, escutamos/vemos o discurso da violência. Essa violência é um evento que surge em ambientes não-violentos há muito extintos: paisagens bonitas; quartos protegidos onde houve um dia um videogame; cristaleiras, gaiolas em que se pescavam brindes na época em que havia feiras inocentes ou parques de diversões do interior; cartazes com a tipografia caseira daqueles que eram colados em muros de antigamente. O evento violento tem esse espaço inicial protegido, então, e uma temporalidade posterior, em que a coisa acontece.

Segundo passo: essa coisa violenta é mostrada de forma esteticamente sedutora. Ou seja, é uma capa bonita de se ver, atraente. E às vezes é capa mesmo. Uma casca de tinta feita alhures e lá colada. O vestígio da inocência inicial é simbólico, não está mais lá nos objetos, sim, presentes, porque há uma mudança de conceito. O que está lá, agora, é um espaço de ferros e imagens ponteagudas, escuras, barulhentas. É uma inversão. Ao contrário da situação inicial, agora temos uma capa sedutora (a que fala da violência) sobre um suporte soturno, “feio”.

Terceiro: esse fogo cruzado de significados antagônicos continua na própria fatura da obra. Há a autoria de uma pintura que não está lá e cuja casca de tinta foi aposta sobre outra superfície. A autoria aconteceu, ou pelo menos começou, em outro espaço e tempo, sem nosso testemunho. Dessa autoria apenas ouvimos falar, supomos suas condições. As cascas de tinta – e isso na nossa frente – por sua vez são postas como um dos elementos de grandes instalações em que entram mais coisas, como jogos de computador, vidros, ferros – que não foram fabricados, é claro, por Dora Longo Bahia, mas dos quais ela se apropria.

Resumindo: trata-se de uma narrativa em primeira pessoa (por causa da presença emocional com o assunto tratado, visto principalmente através dos registros de humor ou ironia) com um narrador não confiável (sequer podemos ter certeza se ele esteve lá o tempo todo) que conta algo em que não acredita e nos deixa adivinhar aquilo em que, sim, acredita. Sei  bem.

Tais narrativas de narradores não confiáveis subtraem o que nós, fruidores, em geral mais queremos: um guia, uma orientação sobre como receber aquilo. Há a evocação realista da violência urbana de qualquer grande cidade, mas é uma violência “contada”, como se conta a um vizinho algo que se viu na rua. Pode não ser verdade. Pode haver uma risada subterrânea, uma sacanagem, um já esperar pelo olho arregalado – e rir disso. Esse humor  que se esconde aparece principalmente nos cartazes diminutos colados em cima de outros cartazes; nos anúncios de gratuidades da dor (tatuagem) ao lado de outras gratuidades, essas coloridas, de esmalte de unha. Ou, ainda, nos dizeres dos jogos, sempre tão involuntariamente engraçados: Mission failed, you’re killed by agent two. Ou ainda: O seu objetivo é destruir os exércitos vermelhos; se é você quem possui o exército vermelho ou se o jogador que os possui for eliminado, o seu objetivo passa a ser conquistar 24 territórios.

E junto com as letras ou voz anunciando a morte ou a equivalência absurda de objetivos, o som de palmas entusiasmadas.

Nicolas Bobbio – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA exposição da Vermelho também traz artistas que foram alunos de Dora Longo Bahia ou com ela tem afinidades. Entre eles Nicolas Robbio, com uma pinturinha paradisíaca, único registro possível de uma vida impossível, colocada embaixo de um gancho de rede. Se rede houvesse, poderíamos lá ficar, olhando fixamente para a exígua superfície pintada, imaginando o que não há. Sem rede, rimos, de pé mesmo, dessa nossa necessidade. Gisela Motta e Leandro Lima, seguindo sua linha, fizeram um coração pulsante, formado de produtos de consumo execráveis. E André Komatsu preparou uma cerquinha, um tapumezinho, incapaz de tampar seja lá o que for. Há outros, todos bons.


(*) vejo essa exposição como uma continuação da de fevereiro de 2004, no CCBB do Rio de Janeiro, coberta por mim para o Jornal do Brasil.

Alberto Martins na galeria Raquel Arnaud  - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásFui lá por causa dessa cabeça partida, texto e imagem, que é a minha e, descobria, também a dele. Mas a exposição de Alberto Martins na Raquel Arnaud ia me devolver uma entrada em mim mesma, a de minha união, a de um espaço específico, que é onde me encontro e onde se encontram meus traços e textos. E, descobri, ele e os deles.

Porque à primeira vista, é uma cópia de Amilcar. Mas só até perceber que o material é outro: um aço esquisito, que breca a ferrugem que, sim, se instala. Mas só na superfície. Foi essa a dica. A suspensão do tempo. A feitura de outro espaço.

Amilcar de Castro me agrada porque mostra a fragilidade do projeto modernista. Seus ferros enormes e masculinos se apóiam em pezinhos frágeis que, me parecem sempre, não vão suportar o peso de tanta arrogância. Nos papéis, seus pincéis largos ocupam, qual gatos machos a mijar nos cantos, os cantos da superfície plana. Sim, aquele quadrado é dele. Só que o pincel, tão grosso, falha, e a tinta da posse se rarefaz. E a ferrugem de suas peças não tem o que a impeça de continuar a viver seu tempo que é o mesmo que o nosso, esse tempo “do lado de fora”. Esse o Amilcar. Alberto Martins não se defronta com um monumento modernista a ser desmontado. É diferente.

Alberto Martins na galeria Raquel Arnaud - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás“Vous ne pouvez concevoir cet horrible en dedans-en dehors qu’est le vrai espace”, disse Henri Michaux. Horrível por incômodo. Mas necessário, para entender como – ou melhor, onde – haver o encontro. E é aí que se juntam texto e imagem. Mimesis, a imitação de um presente já, por si, ficcional. Poesis, sua transformação. O encontro não na fatura, essa muito diferente para uma e outra atividade (pelo menos para mim). Mas na recepção. Ou melhor dizendo, no encontro. No ato de presentificar o que está ausente – o que só se completa com mais de um. No nanossegundo de reconhecimento mútuo entre criação e fruição, sendo que as duas palavras são erradas, insuficientes, pois apontam uma independência que na verdade não existe.

Alberto Martins na galeria Raquel Arnaud - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA apresentação do artista vem com um texto de Guilherme Wisnik que fala de “passagem”. Só na entrada. Uma vez nesse outro espaço – que nas peças de Alberto Martins passa pela dobra e pela apreensão/apropriação de um ar do entorno – você fica lá. Para todo o sempre, não fora o dia-a-dia e suas miudezas que nos salvam a todos de uma viagem sem volta.

É, digamos, um estar-na-música. A velha máxima de o espaço ser da arte enquanto o tempo é da narrativa se acaba diante de um ritmo. Mesmo antes de Einstein mostrar que as duas coisas eram uma só. Desde sempre e aqui também. É uma música soturna, a de Alberto Martins. Suas peças levam tinta automotiva (mais um ponto em comum: trabalhei com esse esmalte anos a fio até um médico me falar das consequências). É uma tinta assertiva, brilhante, de cores alucinantes. Não aqui. Os azuis, vermelhos e amarelos são abatidos, contidos. Como se viessem, até seu olho, de muito longe. De outro espaço. Em relação à sua posição em cada peça, o tom muda. Inclinados, seus planos pintados sofrem a difração da luz ambiente. Voltando a Henri Michaux: ça bouge, ça émeut.

A noção de passagem, ou o Schwellenkunde de Walter Benjamin, tem a ver com limiar. Vejo mais como portal, aquilo que só depois que a gente transpassa nota, apavorado e fascinado, que existe.

Reconhecível não é sinônimo de descritível. Em Marcone Moreira reconheço algo que não sei descrever. Nem ele. Suas obras são, justamente, sobre o que não está lá.

Não sei mas vou tentar. Por exemplo: a fragilidade das referências se torna, em si, o tema. Reverberações, rastros. Memórias compartilhadas embora não-arrumadas, em que a repetição nas várias telas – ou madeiras velhas – passa a ser a ordem possível e aposta. Uma temporalidade, portanto, que se faz a si mesmo, e no presente. E então, há os buracos.

Essa memória é de um passado de terra e rios, de trabalho. As madeiras são de embarcações, carrocerias de caminhões. Da época em que caminhões tinham carroceria de tábuas e que barcos não conheciam fibra de vidro. Aliás, de uma época ou de um local, porque o espacial e o temporal se misturam muito aqui.

Marcone não faz enunciados pessoais. São memórias/rastros grupais, culturais. Cada obra é o produto de um agrupamento de agentes enunciativos.

Em Horizonte vazado você se debruça sobre o que não mais existe, nos buracos que mostram a parede que está por trás. Nas telas da série Acúmulos há os vocábulos ao contrário de uma língua não mais útil. Corrosivo um dia irá desaparecer na ferrugem que já lhe come as pontas. Contínuo não estava mais na galeria, tinha sido deslocado para a SP-Arte – em uma ironia não intencional. Mas Seringal estava lá, com sua madeira de barco.

É assim uma coisa em camadas. Camadas de passados, de tempos. É Deleuze quem via desse modo o cinema: camadas de tempos coexistindo em ordens não necessariamente cronológicas, e onde o novo – ou o sentido – se produzia do lado de fora. Sempre o que não é filmado, o que a câmera não enquadra é o que dará sentido ao que de fato se vê. Em Marcone, é na junção dos tempos-espaços. Ou no seu caos, em sua abstração. Não é que o abstrato, desse jeito que Deleuze descreve e que tem a ver com o que Marcone faz, seja algo oriundo do que de fato está lá. A abstração – que é sinônimo de sentido – não é uma espécie de “possibilidade” do existente. Só rearrumar de um jeito diferente que, pronto. Não. Em vez de possibilidade a se realizar, a ser buscada, a abstração/sentido já está lá desde sempre, embora não implementável. É uma virtualidade sempre presente, e não uma possibilidade ausente. O sentido, em Marcone, é real e reconhecível, lá, quase concreto, não fora fantasmático.

E isso tem a ver com uma visão de mundo muito curiosa. Em vez de uma ordenação possível e sempre atualizável, ainda que com partes não absorvíveis ou à disposição para serem absorvidas, o mundo de Marcone tem um passado e um futuro presentificados, simultâneos. O que vai acontecer já existe antes. Embora não previsível porque, sim, há buracos.

É engraçado o vocabulário imperialista que lida com esse enunciado coletivo que é o de Marcone. Quando o assunto é tempo, se trata sempre de algo pré-alguma coisa. Pré-industrial, por exemplo. Ênfase no industrial, e o resto que se arranje a partir desse estado (o industrial), que é subentendido como o “correto”, o “natural”, o “bom”. É engraçado também os sintagmas de espaço: América ou, pior, América Latina. América é o europeu nos vendo, e América Latina faz menção a um Império Romano longe para caramba. O pré e o pós aqui acontecem ao mesmo tempo.

É a vingança. Nas cosmogonias – como a que espirra rastros em Marcone – há sempre o que não morre. Palimpsestos que se mantêm nesses prés e pós, nesses apêndices de um outro, considerado o mais importante.

Marcone é de Marabá. Ganhou o Marcantônio Vilaça com uns encaixes de barco chamados cavernames. Umas peças curvas que fazem o suporte das tábuas dos cascos. Soltas no chão, elas não falam dos barcos, mas das correntezas em que barcos dançam, eles e elas igualmente presentes, sem estarem lá. A exposição de Marcone foi montada na Galeria Lurixs, do Rio, e se chama Superfícies.

Patético e apático já foram antônimos, um de cada lado de pathos, que significava qualquer coisa que atingisse o cidadão. Então, patético era quem tentava se defender dos acontecimentos e apático era quem se deixava modificar por eles.

Mas isso foi muito antes de Borges que, claro, criava seus próprios acontecimentos, ordenando-os tão criteriosamente como qualquer grego, mas dizendo que inventava. E aí não dá mais para separar reação da aceitação.

As obras da exposição O lugar da linha, organizada por Felipe Scovino no Paço das Artes também incluem uma organização aposta, que não estava lá – e que parte da linha.

O mundo referenciado é a própria experiência artística, é uma proposta intelectual. É o que acontece, claro, com qualquer intervenção poética. Sempre o início é uma duplicidade. Mas nas obras presentes, por causa de atributos metonímicos (e não tanto metafóricos) há uma mimesis que, por sua vez, servirá de um novo ponto de partida. Sendo que isso está dito: é a linha. E porque então você é convidado a experimentar algo cujo sentido/organização está explicitadamente presente como falso, tal sentido passa a ser considerado como uma produção contínua, e não mais como algo prévio, incluso, a ser descoberto.

E com isso – através, portanto dessa linha ficcional – você se aproximará mais do real inatingível do que de qualquer outra maneira. Um paradoxo para Borges nenhum botar defeito.

São eles:

Bianca Tomaselli apresentou seus Desenhos parasitas, em que uma placa grande de azulejo recebe o risco que vai quadriculá-lo para que se pareça com… azulejos. Uma ‘realidade’ de mentirinha. São dela também peças em cerâmica que na verdade podem ser vistas não como objetos como traços grossos, em branco e preto.

Gisele Camargo - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Gisele Camargo trouxe trípticos em que tintas de textura forte como o esmalte automotivo são mostradas exatamente como isso, tintas, através do contraste com um cerebral grafite.

Ana Holck trouxe estruturas.

Maria Laert - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Maria Laert - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Maria Laet tem dois tipos de trabalho na mostra, ambos em preto e branco. Fotos de um chão amorfo que se organiza a partir de um fio nele colocado; e monotipias em que texturas de pontos, também amorfas, são organizadas a partir de fissuras, falhas, a partir do que é uma brecha.

Luiza Baldan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Luiza Baldan traz suas fotos de grande formato (série Sobre umbrais e afins), de interiores cujos objetos e focos de luz fazem uma construção com seus próprios limites, os das paredes, tetos e chão que os contem.

Chelpa Ferro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA instalação atual do Chelpa Ferro (Jorge Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler) na Vermelho repete outras do mesmo grupo. Misturam campos, sempre. E sempre campos que nem mais o são, que seriam, em um mundo dualístico que não mais existe. Na anterior que deles vi, na Pinacoteca (fevereiro de 2009), misturavam o que seria ‘natureza’ com ‘cultural’. Dessa feita, misturam o que seria ‘alta cultura’ com a ‘baixa’. Mas, justamente, não misturam. Apontam, pelo contrario, a unidade, sempre modificando para sempre a visão do lugar onde se instalam. E modificando também a linguagem que utilizam. Deles escrevi, daquela feita: “Chelpa Ferro faz um aceno aos limites da linguagem. Sua nomeação, sua redefinição do ambiente em que se instala, é por sons que não formam palavras.”

E vou repetir.

Dessa feita são vasinhos. Dos mais bregas possíveis. Domésticos, humildezinhos, de barro, vidro fingindo cristal ou metal, ali no canto do espaço branco e asséptico da galeria de arte. Doze deles, dispostos em um ritmo de dois, depois três, depois dois outra vez, três e dois. Somam 12. Acima deles um trilho que dá suporte a um microfone móvel que capta as vibrações de ondas produzidas dentro dos vasinhos. E o som é magnificente, soberbo. Coisa de Bach em igreja barroca. Um lamento profundo, erudito, transcendental. Quem faz são os vasinhos. Ao cubo branco da galeria cabe acolher essa cantata de bibelôs oriundos da casa da tia Conchita.
São cinco os aspectos que noto nas instalações do grupo: 1) utilização de objetos oriundos da cultura ou de ambientes populares; 2) com isso, uma piscada de olho para nosso desenvolvimento histórico de artes ‘alta’ e ‘baixa’ sempre misturadas; 3) experiências estéticas liminares, limítrofes com a vida cotidiana; 4) montagem de espetáculos cujo ‘excesso’ sonoro é apontado, demonstrado em sua fatura, ao mesmo tempo que é encenado; 5) definitivamente híbridos.

E se dão ao primor de estender esses cinco aspectos ao fruidor à sua frente, através de uma espécie de meta-instalação. Porque você vai lá escutar o lamento gregoriano de vasinhos vagabundos. Mas por trás desse lamento há o som contínuo e furreca do microfone andando no trilho. Uma espécie de ranranranran que dura o minuto, minuto e pouco, da ida e da volta do microfone por cima dos vasinhos. Então eles fazem, e deixam claro como fazem. Há sempre dois níveis de sons, o produzido e o que produz. Não há um atrás-do-palco do espetáculo oferecido.

Chelpa Ferro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásCom isso, o fruidor se vê, ele também, em uma situação limítrofe da vida real, e não privilegiado enquanto classe social. Não importa seu grau de pertencimento ou mergulho, e não importa sua excelência cognitiva. Está tudo lá. Você entra na experiência porque quer, e não porque pode.

Não são eu, é o Bourdieu. Ele denuncia que as classificações hierárquicas de produtos culturais servem apenas para redividir classes sociais sob o fino disfarce de apuramento cognitivo ou estético. Mas que na verdade todo mundo é capaz de viver experiências estéticas igualmente compensadoras a partir de uma mesma situação oferecida.

Até no nome. Ao abdicar de seus nomes de artista para a apresentação de algo chamado Chelpa Ferro, os três criadores dizem que o pré-requisito da ‘alta’ cultura, de que seja produzida por artista identificável e de visão pessoal, com técnica única e tema complexo, é bullshitagem.

Não é simples achar um lugar em que me encaixe. Sofá, cidade ou linguagem, e a dificuldade é igual. Uma questão de achar uma estabilidade transitória em meio à tensão. Afinal, as questões espaciais são muitas e suas respostas fluidas. Por exemplo, a ordem inicial – e haverá sempre uma ordem inicial – já supunha minha chegada ou terei de abrir um lugar à força. Em entrando, o farei com qual grau de abdicação de minha energia e/ou com qual grau de modificação do que lá estava antes.

Trinta e três artistas me fizeram companhia nesse meu dilema cotidiano, com a apropriação Aluga-se. Desde o dia 10 de abril, cada um deles tenta encaixar-se, uns bem outros nem tanto, nos cômodos e jardins de ares modernistas de um casarão do Alto Pinheiros.

Como já disse, para mim localizar-se é 1) admitir uma tensão e 2) viver com ela.

Rafael Campos Rocha - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Rafael Campos Rocha, como em geral com esse artista, conseguiu excelente resultado com seu laguinho e ilha com náufrago, embaixo da escada. Esses cantos perdidos, esses espaços que escapam à utilidade burguesa da casa, e Rafael pegou um deles para radicalizar a inutilidade e, ao mesmo tempo, dar a ele a utilidade do olhar perdido, do horizonte sem fim, a (in)utilidade suprema e sem lugar cômodo possível da arte.

Fabiano Soares o fez também, ao engessar a frente de um veículo na parede exígua de seu quartinho. Uma boa contenda, essa, entre o veículo e a parede, entre a ordem espacial anterior e a entrada do novo. Ao mesmo tempo que o espaço anterior existia e era anunciado como tal por Fabiano, ele também o negava ou o modificava, com a inserção de sua existência e possibilidade.

Sua boa solução foi ressaltada, talvez por acaso, com o uso contrário do quarto ao lado. Evandro Prado, a quem eu já havia visto em Atibaia, lá estava com suas referências sacras, o escuro, os cristos e as velas. Uma redenção. Aliás, no quartinho como na cultura.

Aliás, logo na entrada, na primeira sala, quadros representando objetos de consumo pendiam das paredes. Não sei o que faziam lá, com sua presença gritante e ao mesmo tempo pouco assertiva, pois com referência ao industrial, ao massificado, ao produzido em série. Estavam lá como poderiam não estar em qualquer lugar.

Lais Myrrha - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Laís Myrrha pôs portas soltas que não davam a lugar nenhum, com isso abrindo-as todas, agredindo com sucesso os limites que se lhe eram impostos.

Afonso Tostes tenta um acordo com seu nome-do-pai lacaniano: se eu sou de carne e osso, essa fragilidade toda, você (espaço-lei) também o é, em sua temporalidade disfarçada. E pôs ossos saindo de sua parede, emprestando a ela uma organicidade que é sempre ligada à morte, mesmo quando não se chega à obviedade de ossos.

Giba Gomes - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Giba Gomes - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Giba Gomes buscou companhia para enfrentar o embate com sua sala vazia. Chamou a si figurinhas em preto e branco que empilhou na janela. Outras formavam séries entituladas Homossexuais, Esquizofrênicos etc. Grupos que, na cultura, não se inserem na ordem prévia. Esse artista me pareceu assumir uma estratégia interessante para sua tensão. Ao dizer que é um perdedor e que há muitos outros perdedores, ele repudia e enfraquece de antemão a severidade de seu espaço quadrado.

Roberto Fabra - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Do lado de fora, Roberto Fabra explicita graficamente a ausência de solução. Seu boneco, pintado na fachada, tem um ponto de interrogação no lugar do olho.


Laura Gorski - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Adriana Conceição - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Mai-Britt Wolthers - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Daniel Caballero - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Também do lado de fora e maravilhosamente feminina, Laura Gorski pintou uma planta em negativo, em meio a outras plantas, essas reais. A fenda, a ausência, o que não está lá sendo tão ou mais significante do que o concreto que da brecha depende para seu contorno e entendimento.

No segundo andar, mais mulheres vem demonstrar sua competência em compreender e viver a tensão. Adriana da Conceição desenhou na parede. É uma estratégia que usa a suavidade para conseguir seu propósito de inserção na ordem, no duro, no reto. Sempre funciona muito bem.

Mai-Britt Wolthers é outra que usa o inobtrusivo para se inserir com sucesso. Seus planos geométricos, de cores neutras e ângulos retos, levam um grande caralho desenhado, que contradiz, com sua ironia de traços hesitantes, a determinação masculina dos planos anteriores.

Rosana Naday constrói um enorme e severo casco de navio preto. Mas o faz em tábuas flexíveis, abauladas em suave curva – e que tomam e destróem a arquitetura da sala onde não dá sequer para entrar direito.

Silvia Garcia Pinto modifica seu cubículo, entrevisto por fenda apertada, pondo lá dentro papel higiênico enrijecido com gesso em posições bem pouco ordenadas.

Também no segundo andar, o banheiro é ocupado por Daniel Caballero. Banheiro é um bom lugar para a tensão adquirir conotações sexualizadas e é o que faz Daniel. Pentelhos pretos enormes sobem por todos os lados cobrindo as paredes. Paredes, bidê, vaso e pia, tudo como deve ser. Mas cobertos por pentelhos unissex, e, no chão, uma terra preta faz nascer o que se lá plantar. No dia em que fui, uns musguinhos.

sala torta de Newman Schutze, Bettina Vaz Guimarães, Lina Wurzmann, Wagner Morales - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Há uma construção secundária na casa, ao fundo do jardim. Lá, uma sala em formato desencontrado, com paredes não paralelas. Da maneira como vivi a experiência, essa sala era tudo o que eu queria. A ordem, ainda, mas já nem tanto. Nela instalaram-se Newman Schutze, Bettina Vaz Guimarães, Lina Worzmann e Wagner Morales. E caçoaram dessa ordem que já não o é. Newman pintou janelinhas de cores chapadas, Lina tirou a retidão das colunas com umas placas orgânicas aderentes a elas, Bettina pintou uma chaleira gordinha em pinceladas à la amilcar de castro – grandes, pretas. E Wagner fez uma janela artificial, com um projetor de luz, embaixo de janelas reais e que também não são reais, pois dão para um mezanino e não para o exterior.

Ana Zveibil - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Rosilene Fontes - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Sem ser essa sala, há outros cômodos, ocupados por Ana Zveibil – que amplia a decadência reinante com fotos sobre ambientes mais decadentes ainda; Renato Pera, que filma a própria casa apropriada, antes da apropriação; Rosilene Fontes, com uma planta baixa – portanto racional e fria – de um ambiente urbano com forte conotação humana (pracinha, sobrado do médico, jardim de infância); Eide Feldon e seus livrinhos que questionam o lugar feminino através da história, a começar com figuras femininas de 6.000 anos, fotografadas no British Museum; e Cinthia Marcelle, com seu vídeo hipnótico do trator, forte e possante, mas que fica, impotente e em looping, traçando para todo o sempre, em um solo arenoso, o símbolo do oito deitado, do infinito. Esse vídeo já esteve em exposição no Centro Cultural São Paulo, há pouco. Felippe Segall ocupou o mezanino, transformado em caverna com luz avermelhada, chão de areia e um labirinto na parede. Você subir uma escada para chegar “embaixo”, quer dizer, em um sotão ou caverna, foi uma boa desestabilizada espacial do artista.

Há outros artistas, de quem não gostei, que não me pareceram enfrentar a tensão inerente em uma apropriação – ou fui eu simplesmente que não os entendi.

No seu filme O inquilino, Polanski fala de uma inserção mal-sucedida. O personagem principal traz em sua mímica corporal e em suas palavras toda uma determinação de bem se enquadrar entre os novos vizinhos, entre as novas paredes. Mas a falha na capacidade em viver a tensão o leva a mergulhar no amorfo de um delírio persecutório. Ele não entra, é engolido. E sem conseguir nomear/enfrentar/admitir a ordem – seja ela entendida como espaço ou linguagem – no final sequer é capaz de falar. Só urra.

Não cheguei a ver urros. O que fala bem da curadoria do filósofo José Bento e do artista já citado, o Rafael Campos Rocha.

Ah, a cerveja. Gente, uma tal de Schornstein. De-li-ci-o-sa. E, não, não foi por causa dela que eu gostei tanto do resto. Estava bom mesmo.

Pegar um quadrado de ar e transformá-lo em um espaço humano será sempre um ato político. Quem faz isso é arquiteto – e os há mais e menos lúcidos. O arquiteto Gabriel Borba vai mais longe. Ele questiona o quadrado.

Sua exposição se chama Papéis: caminhos do visível, na Casa Galeria. Dava para começar falando de papéis – 1) matéria fibrosa amorfa de origem vegetal que, ao ser reduzida a quadriláteros finos e flexíveis, serve para escrever, imprimir, desenhar, embrulhar, limpar e construir; 2) representação de funções teatrais ou sociais pré-estabelecidas e identificáveis.

Depois de papéis, iríamos para caminhos – e suas linearidades sempre arbitrárias. E terminaríamos, sob aplausos, com a última palavra do título: visível. Explicitaríamos então tudo que não o é, justamente por escapar a estruturas compreensíveis de antemão.

Mas acabo de ler um comentário sobre o conto Entropy, de Thomas Pynchon, e é por aí que vou.

No conto, uma festinha do balaco quebra a ordem de um edifício. No final, a janela quebrada do apartamento mais ordeiro sugere que o fechamento daquele sistema de vida acabou. Seus habitantes terão de passar a conviver com uma energia vinda de fora, não ordenável, não estabilizável: a da cidade.

Na exposição, as coisas se dão de forma menos alegórica. Borba, eu já disse, questiona o fechamento, o quadrado. Faz isso obrigando esse quadrado a se apresentar de três jeitos diferentes. Três. Não dois. Dois, e ele recairia em esquemas binários dos quais o mundo não está cheio de fato, mas bem que gostaria.

Seu quadrado é o campo espacial de um ato artístico já executado; é a representação de outras espacialidades – artísticas ou não; e é um espaço de potencialidades, não finalizado, aberto a novos atos artísticos ou não (embora, em uma galeria, qualquer ato se inclua no artístico).

Em uma série sem título, o papel branco é furado, tal como a janela de Pynchon. Essa destruição ocorre no meio, no que a racionalidade catalogadora chamaria de centro. E vem em forma de incisões em elipses perfeitas, ângulos retos, círculos, linhas paralelas. A ordem é o que destrói. Por cima, a desordem que constrói, no gestual, no impulso sem lei ou plano de um lápis ou do nanquim. O quadrado do papel é obrigado a incluir o que está por trás dele. Suas possibilidades de ordem são desmentidas. Sua forma também. Assim como sua utilidade pragmática. Enquanto isso, a potencialidade de mais traços ou acidentes continua.

Em outra série, os nomes são nomes de água, esse estado da matéria tão pouco afeito a comportamentos sistematizáveis, tão próprio a transformações de energia: Cachoeira, Lagoa, Chuvisco, Garoa.

Falei aí em cima daquilo que a racionalidade catalogadora chamaria de centro. Em Face, uma impressão estourada de um rosto, há uma linha em branco que o divide pelo meio exato. Exato? Só se você cair no hábito de ordenação, porque rostos são sempre muito bons para destruir ilusões de simetria.

Branco, de Gabriel Borba – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Olhar, de Gabriel Borba – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Garatuja, de Gabriel Borba – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Ordem, de Gabriel Borba – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A obra Branco te deixa inseguro quanto a qual quadrado você deve privilegiar, e que pode incluir o quadrado por onde você anda. A obra Olhar também: para onde você deve olhar, se o quadrado inclui a parede, se o caminho da tua visão segue um barbantinho que atravessa, real, concretíssimo, um, ahn, papel fotográfico que representa outro espaço que representa… deixa pra lá. Em Ordem, o humor do arquiteto, ao agrupar pessoinhas/pinceladas em umas poucas células de seu papel quadriculado. A série Garatuja são telas também das mais concretas, de fibra grossa, onde estão pintadas outras telas, que…

Quer ordem? Quer sistemas com organização interna compreensível? Eis um para você:

Des’que Dada Desse
Desse Dada Deus
Desdeu Dada Dedos
Dada Deu
Ssshhhiii Pla!
Dado Diabo
Dada deu

Ou qualquer outro universo fechado, auto-regulado, com a letra de sua preferência.

(Esse se chama Em D, e está bem na entrada da galeria. Mais um sorrisinho.)

O caso é que a quebra da ordem, ou imprevisto, ou entropia, diz Borba, é o que de fato cria. Ou revoluciona.

Em seu livro A história social da arte e da literatura, Arnold Hauser (1998) traça um interessante perfil do artista na Renascença. Segundo o autor, até a idade média, pintores e escultores, vindos de classes inferiores e não letradas, eram considerados artífices e tinham posição social semelhante à dos pedreiros e carpinteiros. Todavia, no Renascimento, a aliança com os humanistas possibilitou que os artistas se tornassem uma classe social respeitada e com os mesmos privilégios da nobreza.

A partir do Renascimento, a arte passa a ser vista como uma produção extraordinária da cultura e a ser cobiçada pelas classes abastadas. Ainda que o trabalho do artista seja artesanal, muitas vezes braçal, agora não é mais considerado apenas em seus aspectos técnicos, passando também a ter grande valor intelectual. Posteriormente, as Revoluções Burguesas propiciarão um crescimento do mercado de arte, uma vez que a nova classe social que ascende ao poder – a burguesia – almeja o status da nobreza, o que passa pela apreciação da arte e a posse de objetos artísticos

Estes fatos criarão condições para a permanência de uma tradição artística no ocidente em que o conceito de arte que se consolidará na cultura está ligado ao seu suporte material, às suas categorias e à representação naturalista. Durante séculos, as manifestações artísticas tidas como genuínas pela cultura limitavam-se à arquitetura, pintura, escultura e as chamadas artes menores (ourivesaria, cerâmica, e outras). Todas elas, em maior ou menor grau, “copiando” a natureza, contidas em seus suportes e técnicas.

Segundo Cristina Freire (2006), estas idéias que ainda permanecem no imaginário social, confirmando o peso da tradição cultural, são o maior entrave para a compreensão e a apreciação da arte contemporânea – assim será denominada neste artigo a produção da segunda metade do século XX aos nossos dias. Para a grande maioria das pessoas, uma obra de arte ainda é uma pintura ou escultura, feita com grande perícia por um artista genial. É um objeto belo, feito para elevar o espírito, segundo critérios do bom gosto.

Estes conceitos arraigados entram em colisão na cabeça do espectador comum que entra em uma galeria para ver uma “bela” exposição de arte e se depara com objetos e contextos muito diversos do que ele foi buscar ao entrar. Como aceitar que toda sorte de materiais, muitos deles velhos e sujos, possam estar ali dentro? Como entender uma obra que nos convida e nos rechaça? Certa vez, no Museu de Arte da Pampulha, ouvi de um segurança que a parte mais interessante de seu trabalho era ouvir os comentários indignados das pessoas diante das obras expostas…  

Um bom começo para compreender arte contemporânea é considerar o percurso histórico da transformação do conceito de obra de arte. Depois de Marcel Duchamp, a arte nunca mais foi a mesma. O Dadaísmo demoliu o conceito de arte, a Pop colou a arte no cotidiano, o conceitualismo deu sumiço no seu objeto. Junto com o conceito de arte, Duchamp e seus seguidores implodiram também o gosto. A arte deixou de ser feita segundo os critérios do “belo” e do “bom gosto”. Ressalte-se que, na história da filosofia da arte, gosto não é o que a pessoa individualmente prefere, mas um padrão socialmente construído do que ela deve preferir. Arthur Danto (2000), em um artigo entusiasmado, constatou que a questão central da arte hoje não é mais se uma obra de arte é de bom ou mau gosto, mas sim o que ela significa. Segundo o autor, a era do gosto tem sido substituída pela era da significação.

Todavia, chegar a esta “significação” também não é um caminho muito fácil. Alguns teóricos, como Anne Cauquelin (2005), já constataram que a compreensão da arte hoje não se encerra na teoria e crítica de arte. É necessário recorrer a outros campos do conhecimento humano, como a política, a sociologia, a semiótica, a economia, a filosofia… Não a um conhecimento, mas à articulação de vários deles. Danto (2006) também constatou que a teoria da arte tende a progredir ao infinito, ao passo que o objeto artístico tende a desaparecer.

De fato, a compreensão da arte tornou-se complexa. A autonomia da arte, apregoada pelo modernismo, não existe mais: a obra é contextualizada. A leitura de uma obra passa, necessariamente, pelo contexto histórico, social e cultural em que foi produzida. Mas, para aqueles que se predisporem a enveredar pelos caminhos propostos pela arte contemporânea, são reservadas prazerosas surpresas além de ricas possibilidades de fruição estética.

A seguir, será apresentada uma possibilidade de leitura da obra “Tiradentes: totem-monumento ao preso político”, de Cildo Meireles, como um convite à aproximação deste tema.

Cildo Campos Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1948, onde hoje vive e trabalha. É considerado um dos maiores artistas da atualidade tendo seu trabalho reconhecido em todo o mundo. Em abril de 1970, participou da Mostra Do Corpo à Terra, em Belo Horizonte. Esta mostra reuniu artistas de todo o país e foi marcada pelo radicalismo das propostas. O trabalho realizado por Cildo Meireles constituiu-se de uma ação realizada no Parque Municipal. O regime militar organizara uma grande comemoração ao dia de Tiradentes, cujo mito de herói nacional estava sendo utilizado por aquele com interesses próprios. Na visão de Cildo Meireles,

A figura de Tiradentes estava sendo usada pelo regime militar de maneira muito cínica. Ele representava a antítese do que defendiam os militares. O regime militar tinha de fato transferido a capital de Brasília para Ouro Preto, perto do local da exposição, em Belo Horizonte. A exposição era parte de seu Programa Comemorativo, elegendo Tiradentes como “seu” herói nacional. Claro, a hipocrisia destas manobras simbólicas era evidente, e eu decidi fazer um trabalho sobre isto. (Herkenhof ET all, 2000)

A mostra durou três dias. No primeiro, o artista construiu uma instalação, onde dispôs um quadrilátero de tecido branco, em torno de uma estaca de madeira de 2,20 m de altura sobre a qual havia um termômetro clínico, na qual amarrou um grupo de dez galinhas e ali as deixou ficar. No último dia do evento, o feriado de Tiradentes, Cildo ateou fogo às galinhas, que ainda estavam vivas, diante de uma platéia completamente atônita. A ação provocou protestos na imprensa e discursos inflamados de deputados.

A obra de Cildo Meireles é marcada pela construção de fortes metáforas. A galinha é uma ave doméstica que, contrariando a condição natural das aves, normalmente não voa e limita seu território ao espaço físico que o homem lhe destina. É um animal frágil por natureza, cuja vida (ou morte) é determinada pelo homem. Ao longo da história, a humanidade não lhe reservou um lugar privilegiado na cultura como teve, por exemplo, o falcão na antiguidade egípcia.

Esta também era a condição das pessoas que viviam sob o regime ditatorial: até mesmo sua liberdade de ir e vir era condicionada por um “outro”, todos faziam parte de uma grande massa insignificante que não podia decidir sobre seu destino. Para intensificar sua condição, as galinhas estavam amarradas, ainda mais impotentes e dominadas, como prisioneiros de guerra – ou do regime militar. Ao utilizar a galinha como metáfora do preso político, o artista estabelece uma comunicação imediata com o público que, ao presenciar impotente a crueldade explícita, tornava-se cúmplice da violência ao mesmo tempo em que era aterrorizado por ela. Como nos fala Paulo Reis, comentando a obra:

A tomada de posição política, social e ética fora dada pela mais deliberada violência e a participação do espectador veio na comunhão coletiva do horror, espécie de teatro da crueldade. (Reis, 2006)

O artista concretizou o posicionamento ético, defendido por Hélio Oiticica na Nova Objetividade Brasileira. Segundo Oiticica (citado por Reis, 2006), tornou-se imprescindível ao artista a tomada de posição em relação a problemas políticos, éticos e sociais, não sendo mais possível para a arte desvincular-se destas questões. Cildo apropriou-se desta proposição de Oiticica e a ultrapassou, como atesta o mesmo autor:

Cildo Meireles juntava elementos de uma discussão de vanguarda que, seguramente, não tinha mais a mesma configuração da Nova Objetividade brasileira. Ao ocupar uma dimensão pública mais ampla (…) o comprometimento político social e ético era tomado na extremidade do possível (…) e o objeto chegava a seu limite conceitual, pois além dele parecia restar apenas a ação política mais direta. (idem)

Este trabalho, cuja contundência ainda hoje nos atinge, situa-se no quadro do experimentalismo e da tomada de posição política que caracterizaram a vanguarda no Brasil. Podemos dizer que foi uma ação da “guerrilha artística” teorizada por Frederico de Morais. Segundo o crítico, a arte deveria ser utilizada como uma estratégia de luta contra o regime militar (Reis, 2006).

Além disso, “Tiradentes – totem-monumento ao preso político” está na confluência de várias discussões artísticas em voga na época: Os happenings e a performance colocavam o corpo do artista como lócus privilegiado de manifestação da arte. A Pop Arte atenuava as fronteiras entre arte e vida. A Arte Conceitual desmaterializava a obra de arte, tornando a idéia (ou conceito) a partir da qual o artista trabalhou mais importante que o resultado final. Todas estas questões estão presentes nesta obra.

O tema – vida e morte – é a matéria prima do trabalho que tem seu foco na ação do artista. O objetivo é o que pode provocar nas pessoas e não o resultado (físico) final. Foi uma ação que aconteceu uma única vez e permanece no tempo através de registros e depoimentos. Estes aspectos indiciam a influência da Arte Conceitual, muito presente na trajetória do artista. Todavia, a obra escapa a esta vertente artística por seu forte caráter sensual, que provoca emoções intensas e perturbadoras no expectador – ainda que ele hoje, 38 anos depois, possa apenas “imaginá-la”…

Bibliografia citada:
CAUQUELIN, Anne. Arte Contemporânea – Uma introdução.. São Paulo, Martins Fontes, 2005.
DANTO, Arthur C. Após o fim da arte. São Paulo: Odisseus/Edusp,2006
DANTO, Arthur C. Marcel Duchamp e o fim do gosto. In: Revista Ars nº 12. Departamento de Pós-graduação da ECA/USP. Disponível em
http://www.cap.eca.usp.br/ars12.html, acessado em 22/10/09, às 20:00 hs.
FREIRE, Cristina. Arte conceitual. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Edtores. 2006.
HAUSER, Arnold. A História social da arte e da literatura. São Paulo, Martins fontes, 1998.
HERKENHOFF, Paulo; CAMERON, Dan; MOSQUERA, Gerardo. Cildo Meireles. São Paulo: Cosac & Naify, 2000.
REIS, Paulo. Arte de vanguarda no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

Adorno deu um ultimatum: ou a arte sustentava seus elos com o mundo cá fora ou defendia até a morte sua autonomia. E por morte ele queria dizer isso mesmo: a morte da arte, ou pelo menos de sua eficácia, depois de cortado o oxigênio que por cima dela sopra nossa humilde labuta do dia-a-dia.

Teatro da despedida #1 – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás É desse fino fio que fala Tatiana Blass no seu excelente Teatro da despedida, na Galeria Millan.

São três objetos e 11 telas, a maioria delas de grande formato e com uma subdivisão, o Teatro para cachorros e aviões.

No título dessa subdivisão já o escopo abrangido: o muito potente, o grande, o que paira lá em cima. E o furreca, o sujo, o viralatismo de nossa vida diária.

E aí não é nem o caso de ir mais para trás ainda, antes de Andorno. Saussure. Porque o homem que primeiro pensou a linguagem em termos de estrutura e relação, e não de eventos isolados, também já havia dito: a ligação entre uma coisa e outra é arbitrária. Falou arbitrária. Podia ter dito ficcional.

Blass fala de seu difícil ofício. Vamos começar combinando: o que achamos que é a realidade, o objetivo, é uma construção (uma concordância parcial, por assim dizer) coletiva na qual nos inserimos mal e mal. E só não caimos no mais ridículo solipsismo porque fazemos sem parar uns cálculos estatísticos de probabilidade. É provável, ou improvável, que aquilo que estamos vendo possa ser visto de uma forma mais ou menos parecida pela pessoa ao lado. Haveria então algo além daquilo em cada aquilo visto. E esse algo além – além dos cacoetes e maneiras individuais ou, já que o campo é arte, estilo – seria então o que chamamos de realidade, objetividade ou até mesmo de verdade. O algo além, o algo compartilhável. Quer dizer, talvez compartilhável.

Então, em linguagem de linguista, a arte (ou a linguagem, qualquer uma) teria sua contingência a cada manifestação e, também, algo extra-contingência. Teria uma relação de auto-referência, de cognição fechada, e uma relação de alo-referência, em que entraria uma semiótica imprecisa, flexível.

Blass questiona essa simpleza ao reposicionar sua arte em terreno bem menos estável e, portanto, epistemologicamente bem menos conservador.

Seus cachorros derretem. São de parafina, não sobreviverão ao fim da exposição.

Suas pequenas figurinhas pintadas sossobram embaixo de uma tinta posterior e aleatória, não-significante. Essas talvez sobrevivam um pouco mais.

Coxia (detalhe) – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Quanto menos dorme, quanto menos sono há – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Embora – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Sua até sumir; sua carne – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

O que diz Blass é que a arte não pode mais escolher entre sua autonomia e sua referência. Está à beira da morte, essa arte. Há um tempão. E enquanto não morre, fala dela mesma e, de quebra, de todos nós – incapazes, nós também, de fazer essa escolha entre brecar um ‘real’ que nos passa ou delirarmos todos mais ou menos juntos, em um tempo não-temporal. No quadro, o aviãozinho que já passa e o outro que ainda vem, desde o fundo da tela. O cachorro que quase vira a esquina, mas ainda não vira. O cachorro e o homem que estavam lá inda agorinha, antes de uma pincelada sumir com metade de seus corpos.

Blass coloca textos em suas telas e eu também gosto imensamente disso. Gosto de textos. Adoro textos. Acho que textos, que até há cinco minutos, eram uma coisa tão antiga, são desde esse nanossegundo de agora, o que há de mais atual. Nada mais atual do que textos. São algo de pós-morte, os textos.

Um deles:

Não sabia se era pela vontade da despedida ou por simples covardia. Ir embora, sem dúvida ou acerto, meio a meio. Talvez fosse o fim esperado, a vingança programada, a saída definida. Mas não foi assim que foi, ir embora seria muito adequado. Por isso permaneceu ali, ainda quieto, num silêncio desbotado.”

Comecei com Adorno e Saussure. Para não perder a embocadura de nomes lustrosos, ataco de Habermas. Ele concorda com Blass. Diz que a vida insossa, cuja contingência mata a arte com sua presença e também com sua ausência, é visão que merece reparo. São duas faces de uma mesma moeda. Moeda no latu. Latim, pípol, não é o latido do cachorro do quadro. E, sim, também no seu sentido strictu. Pois Habermas já falava, em coro com seu mestre e amigo, o Adorno, que o interesse tudo rege. Mas, juntas ambas as coisas – vida e arte – estariam obrigatoriamente, ele garante. A radicalidade da experiência artística compensa a pobreza da experiência não-artística (ou, vamos ser caridosos, a pobreza da experiência não criativa). A gente racionaliza as coisas e vai levando. Ou, em linguagem mais douta: “A negação (da vida) íntrinsica na arte é fruto de sua resistência à assimilação a tudo que for habitual ou pré-interpretado. Mas a trivialidade só poderá ser quebrada por uma negação que mantenha de algum modo um ponto de contato com a vida mundana – que é o que libera as forças necessárias para a renovação de um estado de comunicação sempre ameaçado pela entropia.

Voalá.

Mas fino fio it is. Blass faz referência, com seus cachorros, ao cachorro que Guillermo Vargas Habacuc deixou morrer de fome e sede dentro de uma galeria, em 2007. O costa-riquenho achava que fazia arte ao repetir um viralatismo que era o dele, artista. (A lembrança dessa referência foi de Carolina Vigna-Marú, a editora do Aguarrás.)

No final do XIX-início do XX, surgiam na literatura ocidental romances sobre a vida e psicologia de jovens. Era a primeira vez que essa faixa etária tinha a seu dispor o ambiente agregador das escolas secundárias, dedicadas a ela. Essas escolas, na época, se propagavam pelo mundo inteiro.

A experiência descrita era sempre uma experiência grupal. Claro, os eventuais atritos edipianos e tal. Mas eram nas gangues, e nas tensões entre seus membros, que Vargas Llosa, Joyce, Thomas Mann ou Cocteau se faziam.

A adolescência continua em voga, mesmo sem esse nome – já que expandida para outras idades. As experiências grupais não.

A exposição Wonderland: ações e paradoxos, do Centro Cultural São Paulo, é de solitários que enfrentam angústias de uma assertividade adulta que parece lhes escapar.

Fica parecendo uma homenagem engraçada e involuntária à morte de Salinger.

São dez videomakers.

O finlandês Antti Laitinen trouxe seu Voyage. É o artista, solitário, remando um barco/ ilha onde só cabem ele e uma palmeira fake. Viaja por um oceano sem fim nem ninguém.

A mineira Marilá Dardot escreve e apaga palavras sem cessar. As palavras são verbos, portanto representam ações que são assim abortadas. Temos Repensar, Liberar, Perceber, Afirmar.

A argentina Laura Glusman trouxe seu Nado y nada, de 2004, onde uma jovem nada sozinha por um rio. Como a câmera se mexe à mesma velocidade, a impressão é que ela não sai do lugar. Acho que me lembro da mesma sensação em idades mais tempranas.

Cinthia Marcelle vai para reflexões metafísicas. Em seu vídeo, uma escavadeira faz sem cessar um percurso em forma de oito deitado, símbolo do infinito. É filmada de longe e do alto – o que põe em relevo a questão de escala.

Kika  Nicolela acende e apaga fósforos que iluminam por alguns segundos seu rosto, em uma identidade que nos foge – e a ela.

Renata Padovan desenha na paisagem traços que ela não consegue manter por muito tempo. Seu instrumento é uma gelatina pouco consistente.

Rodrigo Castro se dedica a achatar uma garrafa de leite com um ferro quente de passar roupa. Nem tudo tem utilidade prática, nessa idade em que a vida ainda não tem utilidade prática.

Lais Myrrha observa as horas passarem sem que ela possa mantê-las, como parece desejar, em seu momento presente: os números do relógio, por mais documentados que sejam, sempre mudam.

Adriana Aranha quer tudo. Mais precisamente todo o café do mundo. Mas não consegue. E Paola Junqueira tenta fazer o inverso, tenta retirar toda a água do mundo, ou pelo menos de um rio, e também não consegue.

Perto dessa exposição, ainda no Centro Cultural, há outra. E dessa eu gostei muito.

O também videomaker Luiz Marchetti, de Cuiabá, expõe sua instalação de diversos monitores, chamada “A poética dos pequenos furtos”, de 2009.

Ele dá continuidade, curiosamente, à mesma temática adolescente de seus vizinhos de salão. Aqui, jovens que furtaram pequenos objetos se exibem com eles, dançando e fazendo caretas. Cristi roubou inúmeras toalhas de um hotel. Rui roubou óculos Gucci de uma ótica carioca. Daniela roubou shorts muito grandes de um mercado em Londres. Pat roubou algo com a grife Saint Lorent. Roberto roubou dois pares de sutiã de um brechó de velhinhas. Sérgio roubou um calção de outrem em um vestiário masculino.

O engraçado é que nada é muito útil, nem fica particularmente bem na cara ou corpo do ladrão. É uma brincadeira infantil. Mas ao misturar marcas famosas e artigos de segunda mão, lojas caras e brechós, o artista acaba mostrando que adolescente é o consumo.

Os jovens ladrões de Luiz Marchetti também agem e se exibem sozinhos. Mas, por serem muitos, trazem de volta, ainda que de forma imperfeita, a experiência de grupo que encantou outros criadores, em outros tempos.

Você pode gostar ou não do Chico Science. Mas tem de saber que ele coloca uma pergunta interessante: quem é o fracote? Ao juntar maracatu e rock (e ciranda e coco e funk e hip-hop), ele não teve medo.

O medo, por exemplo, de Ariano Suassuna, seu conterrâneo, para quem Chico deveria se chamar Ciência, e desistir de vez de chegar perto do grande horror, o diabo em pessoa, a influência estrangeira.

Não foi o que Chico fez. Fez o contrário. O grande horror, o diabo em pessoa, parece dizer ele, é o tambor do maracatu – e o ritmo estrangeiro que se proteja dessa influência desagregadora, capaz mesmo de modificá-lo irremediavelmente. Modificar o rock, o hip hop. Não o contrário. Ou pelo menos, está bem, em partes iguais, ambos se modificando mutuamente e sem parar.

Parar. A ocupação Chico Science do Itaú Cultural acertou ao pôr o velho Ford do artista na abertura. E fazer desse veículo o suporte para a principal atração, um documentário com depoimentos e shows de Chico Science e das bandas a quem influenciou. É isso mesmo. A ideia é que o hibridismo não para.

    

Pois se não tem começo, como haverá de ter fim.

Maracatu, por exemplo, são dois. Um é o de nação, outro é o rural. O primeiro vem da mistura de várias tradições afro-brasileiras (pois é, meu branquelo leitor, a África não é uma coisa só) misturadas com o portuga arabizado que aportou por aqui. O segundo tem tudo isso e mais uns chocalhos bem indígenas.

Quer dizer, esquece começo.

Ah, e tem mais, alguns instrumentos, como a alfaia, trazem um caráter nitidamente religioso (não me pergunte qual religião porque aí complica ainda mais). O instrumento precisa passar por um ritual de sagração antes de ser usado, e alguns toques só podem ser dados por quem de direito.

E agora vamos às músicas. Umas são muito claras: falam do híbrido, do mestiço. Outras, as melhores, são isso, em vez de falar disso. Por exemplo:

Peguei o balaio, fui na feira roubar tomate e cebola.

Ia passando uma véia e pegou minha cenoura.

Ai minha véia, deixa a cenoura aqui.

Nada mais caipiramente maroto. Só que acompanhado de guitarra elétrica. E com aquela gravação distorcida, típica do reggae jamaicano. Fica uma coisa assim meio de hoje e daqui, com vários ontens, todos aparentes. O início do grupo Nação Zumbi foi um encontro com o Lamento Negro, uns músicos de comunidade carente da periferia de Recife. Esse foi o principal “ontem”. E não sumiu.

Na época (anos 1990) falou-se também em herança Tropicalista. Mas o Tropicalismo tinha uma aderência à indústria de massa e o Mangue aderia às pernas das pessoas. Usava a indústria e seus canais de divulgação, mas sempre com um “não” embutido. Por exemplo, não era bonitinho. Mas o Tropicalismo também está lá.

Híbrido, segundo Herom Vargas, doutor em semiótica da PUC-SP e autor de tese sobre Chico Science, é o que vai incorporando o que pinta sem anular os estágios anteriores. Não para para fazer síntese. Segue em frente.

Quando pela primeira vez em um ambiente, você pode fazer duas coisas: procurar pelo igual ou pelo diferente. Se você procurar pelo igual estará na típica posição do colonizado: rauduiudú soa tupi guarani. Se insistir na diferença, você é pós-colonizado: rauduiudú é o cacete.

Se você não fizer nem uma coisa nem outra, mas procurar por um diferente quase igual, ou por um igual com apenas um look diferente, você é um colonizador nato.  O ambiente novo é – ou pode se tornar – uma extensão tua, embora com detalhes típicos bem vendáveis.

E quando você sequer percebe que está em um novo ambiente, parabéns, você é morador de uma grande cidade. Deve ser uma questão de defesa contra mudanças excessivas, sei lá. Afinal, cidades se autocolonizam sem parar.

Hélcio Magalhães, Jonathas de Andrade e Waldo Bravo – os artistas da mostra Cidades imaginadas, no MAC – também não sabem. E nem se importam. O que eles falam é de uma recepção perdida.

Recepção. Não produção. A mostra é de vídeos, fotos. Seria um jornalismo. Mas as cidades não são documentadas, são imaginadas. Não se trata de demonstrar as tensões do objeto escolhido – pedaços de São Paulo ou Recife – mas suas potenciais extensões. Suas possibilidades de ampliar-se até atingir quem por esse objeto passa.

Dá um pouco de vergonha. É como um puxão de orelhas.

Jonathas de Andrade põe uma ficha escolar embaixo de seus pequenos detalhes fotografados. As perguntas são nível primeiro grau: “Assinale a resposta certa – os usos e costumes são iguais no mundo inteiro?”

Dããã.

  

Hélcio Magalhães traz dois painéis fotográficos. Em um, uma colagem de arte de rua. No outro, de pessoas e ruas reais de São Paulo. Sempre lembrando: o grafitti do primeiro é a representação, a pintura, da vida urbana que está fotografada no segundo. Em ambos, as imagens vem cortadas em tiras e estão montadas de forma não sequencial. Elas foram obtidas durante um tempo longo, de 2003 a 2009. A montagem em tiras retira o sentido de documentação histórica que, no entanto, é reforçada pela legenda. É como dizer: as imagens estiveram disponíveis aí na rua por um tempo muito longo, mas isso não aconteceu no passado. Ainda é assim nesse momento.

Porque a questão, nesses dois painéis postos lado a lado, é a seguinte. O grafitti – que é, repetindo, ficcional, representação, pintura – parece muito mais familiar que as fotos das  pessoas e ruas. Os grafitti você conseguiu ver, e reconhecer. As caras e as ruas, não. É brabo. Isso quer dizer que você prefere estar no mundo mitigando seu contato com o diferente através do discurso romântico e individualizado da imaginação. Uma vergonha, de fato.

 

O terceiro artista, Waldo Bravo, é ainda mais contundente. Ele trouxe dois conjuntos para a mostra. Em um, imagens deformadas digitalmente ao ponto da não-compreensão se tornam perfeitamente percebidas quando vistas através de um pequeno espelho colocado embaixo ou em cima dos painéis. Um olhar pan-óptico que só se torna possível através da mediação de uma telinha espelhada.

O outro conjunto, Recortes urbanos, é composto de painéis fotográficos e um vídeo. Levei muito tempo para entender a relação entre uns e outro e não sei se estou certa. Me parece que foram feitos em momentos diferentes, embora sejam uma documentação das mesmas intervenções urbanas. A ideia das intervenções é muito simples, e talvez por isso mesmo, muito eficaz. Em ruas movimentadas de São Paulo, o artista primeiro fotografou ou filmou o que, depois, ficaria por trás de outdoors publicitários. Aí, ele colocou os outdoors. E, dentro dos outdoors, pôs as fotos em tamanho real daquilo que foi ocultado pelos outdoors. Assim, do outro lado da calçada, um passante veria a continuação da fachada, as folhas da árvore, o pedaço de céu que, na verdade, não estava podendo ver, pois obliterados pelo outdoor. O resultado é a constatação de que, para que você consiga ver fachadas, árvores ou céu, o melhor a fazer é colocá-los emoldurados por algum tipo de retângulo – tela, espelho ou suporte de outdoor. Na testa.

Um curador de arte de rua. I should live so long.

Cedar Lewisohn fez a palestra no auditório do MASP, acho que sob patrocínio. Havia uma geladeirinha de Red Bull colada à mesa, tornando muito difícil documentar o evento excluindo a marca comercial.

Antes de iniciar a palestra, Lewisohn mostrou um documentário da exposição que ele montou na Tate Gallery há dois anos. E um mapinha da Tate e seus arredores, com os locais – dentro e fora do museu – que haviam sido pintados especialmente para o evento pelos artistas escolhidos por ele.

O documentário mostrava também os preparativos das pinturas: gruas levantando as equipes dos artistas e seus materiais artísticos até o alto dos muros a serem pintados; a colocação dos suportes de metal, a montagem com stencils. À parte, ele comentou sobre o protesto de alguns visitantes com a figura enorme de um negro empunhando uma teleobjetiva como se fosse um fusil. Foi considerada uma arte muito agressiva.

Mas é preciso ser um pouco agressivo às vezes, acrescentou.

E que é importante ter uma visão política das coisas.

Mas Lewisohn não chamou Banksy – o mais famoso e o mais agressivo dos artistas de rua da Inglaterra. Disse que Banksy é muito conhecido em Londres, e que ele buscou apresentar a diversidade.

Diversidade mas não muito.

Lewisohn mostrou o que ele considera um diálogo entre a arte de rua e a arte canônica ocidentale. Ele acha importante que as pessoas notem que a arte de rua não é graffiti “mindless”. O diálogo que é mostrado se dá no nível formal, não conceitual. Sixeart, o artista de rua de Barcelona é similar a Miró. Por causa das cores. Dubuffet e Basquiat também podem ser comparados. Por causa das figuras humanas atulhadas, uma em cima da outra. Lewisohn cita o que ele considera ser um gênero de fotografia, o “poverty photos”. E mostra como algumas obras de rua são iguaizinhas.

Na exposição da Tate estavam presentes os brasileiros Os Gêmos e Nunca. Lewisohn comenta que ter chamado o Nunca foi necessário porque a mensagem dele é mais direta, mais facilmente compreendida do que a dos Gêmeos.

Seguem-se de Kooning, Haring, Christo e as Guerrilla Girls. Somos lembrados da origem cubista da colagem, há uma rápida passagem realismo francês do início do século XX com sua pintura de superfície. E mais uma comparação, agora entre um orientalismo decorativo presente no modernismo e arabescos de rua.

Lewisohn suspira por uns valerem muito mais do que outros e isso o leva para o assunto publicidade.

Ele acha que a publicidade tem seu lado positivo, apesar da opinião de alguns esquerdistas.

“They may be right, but we shall see it from another point of view, there is some positive aspects in advertising.”

E ele considera muito importante que a arte de rua vá para os museus e para as galerias.

Essa sua opinião, aliás, foi o que lhe valeu a palestra no MASP, que expõe arte de rua na mostra De dentro para fora, de fora para dentro.

O primeiro motivo para a arte de rua ir para museus e galerias é que nesses lugares, as pessoas podem prestar mais atenção nela. Não diz quais pessoas.

O segundo motivo é que arte de rua é muito melhor que arte pública (a arte comprada pelo poder público para enfeitar as cidades). A arte pública depende de uma burocracia, de comitês julgadores. É uma arte de consenso. A arte de rua será sempre uma arte mais viva porque não precisa de burocracia. Depois de ser admirada pelas “pessoas”, a arte de rua então pode voltar para as ruas e ocupar de fato o lugar que é dela. Mais um motivo: a arte de rua atrai público jovem para os museus. Não só jovens. Mulheres e outras minorias também.

Mas a ida para o museu, contudo, pode causar alguns problemas para a arte de rua. Por exemplo: a superfície dos muros é mais irregular que uma tela ou a parede lisinha das galerias e museus. E os artistas, acostumados a pôr uma base grossa nos seus trabalhos de rua, precisam adaptar a técnica. Outro problema: às vezes o ambiente em torno, com uma calçada quebrada ou um mato crescendo por perto, pode fazer falta.

Ele acha que o contexto local às vezes pode ser importante.

A Vermelho costuma expor esse jogo. A palavra ressignificada como imagem. Bem o contrário do que vi – e sobre o que escrevi – no meu artigo anterior.

Dessa vez são obras da dupla Detanico-Lain, e que se somam às de Gabriela Albergaria, Ana Maria Tavares e a uma beirada de acervo, por exemplo, de Marilá Dardot. Se falam, todas elas. Fazem um conjunto. Ou melhor, apresentam um determinado tipo de pensamento.

Me apoiando na semiótica:

Tem um sujeito e seu objeto de busca. As tensões daí decorrentes formam o que se está a analisar. Os signos, portanto, não tem valor fixo. Vão depender de onde estão em relação a essas tensões.

Então vamos.

Sujeitos e objetos são igualmente actantes. Actantes quer dizer atores. Mas atores no gerúndio, atores em movimento. Quando esses sujeitos, esses ‘eus’, não são totalmente donos de sua ação, a análise precisa se desdobrar entre o sujeito-destinador (aquele que faz algo dirigido a um destinatário) e o sujeito-julgador (aquele que se coloca à parte do destinador e julga sua competência). Até aí tudo bem, é o que acontece sempre, quando é um corpo artístico o que está sendo analisado. Há o destinador-artista e há o julgador-público. Normal. Mas quando o que está sendo analisado tem, além disso, um processo de ressignificação do objeto de busca, a duplicação também se dá do lado desse actante, o actante-objeto. Aí, teremos o destinador-artista, o destinador-julgador, e mais: o destinatário (o que está sendo representado) e mais um segundo destinatário, o destinatário-secundário (que está representando o representado). Nas exposições atualmente em cartaz na Vermelho, o primeiro destinatário é, no caso das obras de Detanico-Lain, o universo. Sim, sim, ele mesmo, astros, estrelas. O universo de Detanico-Lain é sempre representado por palavras. O destinatário-secundário é a imagem que essa escrita forma, ao ser retomada para além dela, ao ser retomada como uma meta-representação do universo, uma meta-representação que contém e excede a primeira representação.

Por exemplo.

Na fachada da galeria está Eclipse, um grafismo de sol e lua. Então tem o sol e a lua, tem a representação gráfica do sol e da lua (uma bola e “raios” – mais fortes e mais fracos para um ou para outra) e tem a colocação desse grafismo em um local imagético, ou seja, na parte de cima da fachada, como é adequado a astros celestes. O destinatário, sua representação “literária”, e sua ressignificação imagética.

Analema é uma frase de 365 letras. Mas a frase é disposta na forma do movimento da terra ao redor do sol.

Univers, a palavra univers escrita com a fonte de mesmo nome.

Estrelas do sul são letras. São feitas de luz e pulsam, sim, como estrelas.

Por aí vai.

A mesma coisa com Ana Maria Tavares. A artista, também com imagens gráficas, retira a profundidade, o “realismo” de suas representações de paisagens. Depois arruma essas representações de modo a recuperar uma espécie de 3D realista, uma falsa profundidade, formada pelo vazio dos cubos de vidro que dão suporte a duas imagens ao mesmo tempo, uma na frente, outra atrás.

E Gabriela Albergaria pega a própria coisa real, no caso um galho, e lhe dá continuação através de um desenho. Então, ela primeiro representa a natureza ao separar um de seus sintagmas, o galho real, deslocá-lo e condensá-lo. E depois pega o galho, assim abstraído, e o “revive” ao apresentá-lo ao lado de um desenho feito a lápis, com o papel também actante – um rolo, enorme.

O problema é que a multiplicidade de disjunções entre os actantes todos eles duplicados, e nos quais o público se inclui, nos deixa a todos em uma tensão de privação, de disforia. O programa narrativo se interrompe na espera excessiva de uma distensão.

Não que não saibam.

Na frase de Analema pesquei: “… passo ou espaço um dia passa…”, e: “… trezentos e sessenta e cinco por extenso, o tempo sem direção…”

Marilá Dardot escreve frases que ela emoldura. As frases são em francês, inglês, espanhol, alemão. Menos em português. Marilá é mineira. Um pedaço de frase: “…c’était devant la profondeur passionnée de l’oubli qu’il fallait parler sans cesse, sans arrêt…”

Também acho.

Há uma contradição nas videoinstalações de Gary Hill. Ou, para usar seu próprio vocabulário, há uma parede logo ali.

Vídeos são imagens, certo? Errado. Pelo menos no caso dele e de mais gente que começa a questionar os limites significativos das imagens – como, por exemplo, o curador da exposição, que foi quem o escolheu (é Marcello Dantas, do MIS-SP). Pois é. Algo muda. E muda de dentro.

Então vamos começar pelo texto – o único presente, o do artista, o que ele escreveu sei lá se para acompanhar a exposição ou se para acompanhar ele mesmo, no mundo. E que versa sobre o tempo, esse suprimido. Ou ex-suprimido.
Hill fala, nesse texto, de coisas que voltam, iguais mas diferentes. Uma protomemória de caminho, sendo formada no momento mesmo em que o caminho está sendo percorrido. Algo que o artista conhece desde sempre, e que volta de novo e de novo, “sempre ali”. E ele exprime o desconforto perante uma cobrança implícita, a da responsabilidade (o que supõe autoria, agenciamento, constituição e entendimento do eu como sujeito). Há, nesse texto, a constatação – e se trata da constatação de um videomaker, de um produtor de imagens – de que há algo de novo a pedir sequências, conexões. A pedir palavras, que são, ele aponta, o que junta-separa as coisas. E coisas, aqui, são as explosões de luz (“se enfurno, explode”). As tais coisas que são juntadas-separadas pelas palavras são as imagens que fazem sua vida de artista. E são as palavras, diz ele, que as tornam – essas imagens – inteligíveis. São suas as frases: “não sou responsável por isso”; “são palavras apenas que separam as coisas”; “quer que eu aja com conhecimento, quer reconhecimento, quer que eu esteja totalmente alerta”. Esse algo que quer que o artista fique alerta é o eixo diacrônico, a impor sua latência nos eventos de luz que se sucedem e que, sem ele, seriam mesmo só isso, experiências fenomenológicas não apreensíveis, não assimiláveis ou incorporáveis.

Hill fala, nas cinco videoinstalações selecionadas, da volta do texto sobre a imagem.

As imagens de Hill são as seguintes.

Em Up against down, partes do corpo do artista se chocam e se chocam outra vez contra algo que não se vê, uma parede de vidro, um limite que não se sabia estar ali.

Wall piece é igual mas vestido. Mais choque contra a parede, dessa vez de terno. Mas aqui com uma explicitação que a primeira não tinha. Você só vê o choque, pois a imagem só se ilumina quando o artista se joga contra a parede. E a cada choque, ele interrompe uma frase que estava sendo dita. Ou seja, ou você vê a imagem ou escuta a frase. A imagem é forte. Você não escuta a frase.

Na sala maior do MIS-SP há outra variante da mesma experiência. A sala fica no escuro. De vez em quando, há uma explosão de luz branca. A luz, projetada nas paredes, vai sumindo lentamente em formas geométricas, como se fossem portas ou corredores momentaneamente iluminados a compor um cenário que, infelizmente, não se mantém. Digo infelizmente porque o tempo rápido da explosão de luz é “lamentado” pelo tempo mais lento de sua desaparição. Uma quase-narrativa, que me prendeu, eu lá, de pé, esperando ansiosa pela próxima explosão de luz, para poder saber a continuação daquela “história”. Um desejo de teatro, de continuidade. O nome também influi para você ficar lá, parado, esperando um godô que, portanto, a se acreditar no artista, sim, vem – ou virá. O nome é Unconditional surrender. Vá, e deixe-se ficar.

Viewers é a mais óbvia e, por isso mesmo, a mais conhecida. Imagens estáticas de pessoas em tamanho natural sobre fundo escuro em ambiente escuro. Essas pessoas te olham. É você a virtualidade, a existência efêmera, é você que, ao ser só uma imagem, não parece fazer o menor sentido – ou pelo menos, a cara obtusa dos que te olham fazem você pensar isso.

A última é a Wall piece. Bonitinha para nós que catamos palavras como quem escolhe feijão. São duas mãos tateando um pano de florzinhas, escolhendo às cegas, na pura afinidade sensorial. Qual florzinha eleger, com qual delas um contato trará a troca e, com a troca, o prazer de se saber dedo.

Mais um espetáculo multimídia. E fiquei com um desejo entalado. Que aparecesse, em meio à arte tecnológica (definição: tecnologia usada em experiências estéticas), alguém bem gay. Camp. Lembra o camp?

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO espetáculo – nos últimos dias de dezembro/09, MIS-SP – era o resultado de um intercâmbio de estudantes entre o laboratório do Museu de Imagem e do Som e o centro de artes visuais Hangar, de Barcelona. O artista era o espanhol Lot Amorós (com participação da bailarina brasileira Leila D.). E o título era Eva.

Nos primórdios da Criação do Universo, uma Eva em carne e osso (Leila D.) olha espantada à sua volta. Trata-se de uma nova Criação de um novo Universo. Leila D., por exemplo, em vez de folha de parreira, usa uma roupitcha prateada, tipo astronauta de história em quadrinho. Ela corre de cá para lá, sempre muito espantada, e na tela atrás dela aparecem diagramas computadorizados de sua velocidade corporal. Representações em wireframe de seu corpo. Reduções geométricas de suas formas em quadrados perfeitos (aquele que é composto por números eles também quadrados). Em 3D. Espirais de Arquimedes. Também em 3D. A representação gráfica do teorema de Poincaré (uma rosquinha). A curva de Fibonacci (a do caramujo).

E mais: explosões de raios de luz concêntricos e em prisma.

Música de começo-de-mundo. Não sou culta o suficiente. Pode ter sido Mozart. Ou a trilha sonora do Planeta dos Macacos. Não sei.

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásAntes me explicam, ligeiramente constrangidos, fazendo hora para que a coisa afinal funcione e o espetáculo se inicie, que se trata de uma câmera de raios infra-vermelhos que capta a imagem em resolução de 600 frames por segundo e que depois passa para outra câmera que. Acho que eu deveria ter ficado impressionada. Não fiquei.

Sabe o que me impressionaria? O camp.

Alguém que usasse isso mesmo, produzindo os mesmos impressionantes feixes de luz, com a mesma trilha sonora, tudo igual. Mas caçoando. O que falta nessa arte é a crítica radical, arrasadora, de um movimento que, tendo a virulência que só os outcasts têm, a virulência de uma cicuta social, não apresentasse o bom-mocismo, o politicamente-correto, a postura de eu-é-que-estou-certo de quem sabe que está fazendo algo importante. Porque, não me entenda mal. Acho a arte tecnológica importante. Quero dizer, na teoria. A inclusão de novos instrumentos para fazer a mesma coisa de sempre: arte. É claro que é importante. Mas talvez aí esteja o problema – no que se entende por arte. Esses engenheiros de computação dublês de artistas ninguém-mais-avançado-do-que-eu acham que arte é fazer bonito, é fazer perfeito. Deve ter a ver com algum tipo de deformação na formação. A deles. A de engenheiros de computação. Ou com uma sexualidade de questionamentos facilmente resolvíveis, uma sexualidade de adões e evas.

Talvez ainda cheguem lá. Kitsch eles já são. Depois da demo de feixes de luz, me brindaram com fotos de mitos anteriores à Eva atualizada do palco. Sim, Martin Luther King. Sim, o cogumelo atômico. Ahn, My Lai. E até mesmo a Marilyn Monroe.

(Para os igualmente incultos, mas de menor idade, My Lay foi aquele massacre com napalm no Vietnam. Você já viu, sim, é a menina correndo nua pela estrada, o corpo queimado.)

E a própria Eva, claro.

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO espetáculo acaba com ela, já menos espantada, se levantando e depois caindo frente a um sol de plasma, naquele laranja que só aditivo químico consegue dar. Lindo. É. Pois é. Susan Sontag disse, sobre a assunto, que kitsch todos nós somos. Mas camp, só tendo um auto-conhecimento ultra-moderno, sem ilusões. Assumo meu lado kitsch. O tal do sol era lindo. E eu ainda punha um Roberto Carlos da boa fase para completar. Mas, hélàs, gosto mesmo é do camp.

As galerias de arte têm a impressionante capacidade de mitificar tudo aquilo que é levado para dentro delas. De transformar, inclusive, o que há de mais cotidiano em peça sublime. Melhor dizendo, os artistas (e suas galerias) têm a mágica capacidade de transformar aquilo que sempre esteve ali – no dia-a-dia, no caminho para o trabalho, na volta para casa – em peça de exibição, deleite e espetáculo. Por isso mesmo, um viva aos artistas, que conseguem, digamos assim, tornar a vida um pouco mais vívida.

Carla Evanovitch @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia da artista)Nem ironia, nem densa cerebração. Esse início de texto é apenas uma impressão, captada durante a abertura das exposições Performações Urbanas, de Carla Evanovitch, e Pra sempre…, de Daniel Cruz. Abertas em 15 de dezembro de 2009, ficam até 29 de janeiro de 2010 no Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará.

Propondo uma poética urbana, as exposições de assemelham, e até se completam, justamente por fazer um recorte no cotidiano da metrópole, provocando reflexões sobre tempo, espaço, transitoriedade e fugacidade. Ambas se voltam para essa vida em trânsito.

No trabalho de Carla há uma tentativa de enxergar performance no comportamento de personagens clássicos da vida urbana: aqueles homens e mulheres que entram nos coletivos para vender balas; pedir ajuda para um ente doente; mudar de vida agora que saíram da cadeia; etc. e etc.

A artista realmente foi bem sucedida em seu intento. A pesquisa para esse trabalho, que durou cerca de um ano, exigiu que ela viajasse em muitos ônibus, recolhesse muitos papéis dentro dos coletivos, registrasse narrativas dos personagens e, inclusive, fosse a casa de um deles. E para quê? No final, Carla decidiu ela mesma promover a sua performance: chamou um amigo ator que durante dois dias distribuiu papéis nos coletivos pedindo ajuda para sua fictícia irmã, que precisava de dinheiro para montar uma exposição. Ações filmadas e devidamente mostradas na exposição das Onze Janelas, que ainda permite ouvir e ler relatos dos personagens da vida real.

E por que bem sucedida? A artista realmente mostra o caráter performático na ação desses personagens urbanos: suas ações acabam misturam verdade e dramaturgia. As histórias bebem da verdade, mas acabam crescendo, proliferando, mexendo com a fé, a esperança, a sensibilidade e, mesmo, a indiferença de seu público, os passageiros dos coletivos. Um público efêmero e mutante. E a cada mudança, a história muda, o contexto muda, a narrativa aumenta, os sentimentos são outros. Mostrando a transitoriedade desse espetáculo.

Se Carla optou pelas pessoas, Daniel preferiu o patrimônio, a passagem do tempo impressa no corpo da cidade. Usando uma câmera fotográfica digital comum, o artista registrou prédios que fazem parte do seu trajeto cotidiano. A idéia era mostrar o mesmo prédio em tempos diferentes, mas não num espaço temporal muito longo – na verdade, seu trabalho foi desenvolvido durante o ano de 2009 –, justamente para reforçar essa transitoriedade veloz da paisagem urbana.

Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista) Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista) Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista) Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista) Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista)

O interessante é que, vendo as fotografias, às vezes se cai na dúvida sobre qual foto veio antes e qual veio depois. Às vezes, pensa-se que não é o mesmo lugar. E assim, o artista brinca com o nosso senso de memória, historicidade e lembrança. Não há um tempo certo, um passado e um presente. Esse fluxo temporal é deixado de lado em primazia do tempo fotográfico.

Na maioria das vezes, Daniel opta por registrar prédios deteriorados. Alguns foram restaurados, outros desapareceram, causando uma sensação de efemeridade do estado das coisas. Uma sensação plenamente contemporânea.

Enfim, nas duas exposições, a cidade foi trazida para dentro da galeria. Espaço mágico, mas que, como é natural na arte contemporânea, se permite abrigar as particularidades do mundo prosaico, do cotidiano. Uma arte dessacralizada, mas não menos interessante.

Gosto do Tunga. Acho que não lembro de outro artista que consiga falar, com tanta precisão, clareza e poesia, da mutação que nos define e à nossa época. Gosto dos seus corpos em que não há hierarquia de gêneros. E do sonho de integração, de abrangência, em que tudo cabe – e que me faz sair de suas exposições me sentindo melhor do que quando entrei.

Essa é na Galeria Millan e se chama Quase auroras. Porque tem mais uma coisa que eu gosto nele. É que não é quase crepúsculo, nunca – como em tantos de seus colegas europeus e norte-americanos, mais próximos que estão do fim do mundo (do seu mundo). Com Tunga, é sempre quase aurora. Tem sempre alguma coisa nascendo.

O método está explicitado logo na entrada. Na sua mesa de trabalho, uma garrafa de cristal antigo que ele hesita em jogar fora. Vai juntando uma malhazinha de metal, uma pedrinha. Um dia, faz xixi lá dentro. O cristal refrata a luz. Um coisa meio amarela, muito tênue. Ele passa a ver cenas a partir dessa luz. E as executa.

Quase auroras, de Tunga   Quase auroras, de Tunga    Quase auroras, de Tunga  

Essa garrafa de cristal antigo, no entanto, apesar de seu nome quase grego de phanocópio, é apresentada com um clima burguês decadente, um clima assim meio Farnese de Andrade. São caixas de uma madeirinha pintada de bege, um alcochoado de estojo de jóia de família, uns espelhos meio velhos. É desse fim de linha que nascem os desenhos. Phanocópio, se pegamos a raiz da palavra fenômeno (phanomen) e somamos a ideia de repetição, de múltiplo, desmitificamos o título. Um fenômeno que se repete.

Tunga achou primeiro que se tratava de um phanocópio de projeção. Depois viu que era um phanocópio de deposição. A diferença é a seguinte. A projeção não dura. Então é isso. Trata-se de uma aurora e ela não é um efeito ótico, ela é concreta e está lá guardada para ser vislumbrada, reencenada, muitas vezes.

No papel de fibra grossa, absorvente e texturizado, as imagens aparecem aos poucos. Em algumas das obras você sabe que aquilo lá é um corpo ou uma árvore porque você vai ver outra, parecida, em que aquela forma que mal se vê é a de um corpo ou uma árvore. Não há distinção, árvores e corpos formam um mesmo fluxo. E nada está parado. Um nasce do que sai do outro: fezes, urina, luz, fogo, fruto, sangue, seiva, ar, água. Igual ao Laminadas Almas (exposição dele no Jardim Botânico do Rio em 2006) em que moscas viram os sapos que as comem. E o fruidor vira ator de algo que pode-se chamar de performance – já que você está lá, em um ambiente de arte – mas que também é só a vida mesmo.

Estou devendo à editoria do site uma retrospectiva do ano que se acaba. Acho que acabo de fazer. Ou melhor, o Tunga fez. Um período que começou com ares de apocalipse e termina com todo mundo fazendo planos.

Mais nós. Pois sobre a Bienal de Veneza, o Times londrino disse, em 09/06/09:

“The biennale seems to have brought death to Venice this summer. There’s a corpse floating face down in a swimming pool in the Giardini. Outside the Arsenale a dead postman sprawls. A pile of putrifying body parts lie heaped outside the Italian pavilion and an upper room of the old customs house has been converted into a morgue. So don’t be surprised if you find that a pall has been cast over proceedings. This year’s biennale feels decidedly subdued.”

Vai ver porque, em nossa categorização geral das coisas, moscas e urina, bem, existem, né?

Recebi a revista Café Espacial números 4 e 5 junto com o informativo Quarto Mundo número 3. As duas publicações formam uma combinação interessante, quase um diálogo proposital.

A Café Espacial é uma publicação de quadrinhos, arte, ilustração, literatura, fotografia e, acredito, qualquer coisa desde que ousada e interessante o suficiente.

O conto Contramão do Sergio Chaves, por exemplo, nos mostra que apesar dos blockbusters atuais, o fim do mundo pode sim ser um tema interessante. A revista ainda tem uma seção com resenhas musicais que, de uma vez só, conseguiu fomentar a minha curiosidade para conhecer umas 10 bandas das quais nunca tinha ouvido falar (culpa minha, sem dúvida).

Dos quadrinhos, o que mais gostei foi o F for Knife, de Biu e Shiko. “Entre sua janela e a do quinto andar ocorreu-lhe que Hulks são de Marte e Smurfs são de Vênus” é daquelas frases para virar tagline ou, um sendo pouco mais atual, um twitt. HQs, aliás, são o grande forte da revista. Propostas inteligentes e traços fantásticos.

Para não dizer que não falei de espinhos, achei as resenhas de cinema jornalísticas demais, muito didáticas. Acabam conflitando com o resto da revista. Não que tenha algo de errado em ser didático, apenas não me pareceu fazer parte da linguagem da publicação.

O informativo Quarto Mundo, também muito voltado para HQs, tem no número 3 uma que mistura fotografia com traço. É uma proposta interessante e um exercício importante de linguagem mas confesso que me causou a mesma estranheza que senti quando vi Waking Life, uma animação que usa a técnica de rotoscopia, ou seja, desenhada em cima de uma referência filmada.

A Café Espacial número 5 traz o ensaio O olhar cansado, de Luc de Sampaio, sobre o qual comento no podcast em que entrevistei o fotógrafo, de quem sou grande fã.

O espetáculo Kafka, da Cia. Borelli de Dança, foi um dos eventos que a Livraria Cultura ofereceu em sua Virada/2009.

KafkaNão pensei nisso antes. Mas nada como Kafka. Digo, em todas as artes passamos pela mesma indagação sobre o próprio processo de fazer arte. A pintura discutiu a superfície da tela, a tinta e o gesto. A literatura apresenta metalinguagens até hoje.O fazer artístico voltada para ele mesmo, suas questões e processos, em uma época de perda de referências, de estabilidades, foi um fenômeno meio que universal e atingiu todas as linguagens. A situação kafkiana de descobrir-se na forma de uma barata, nesse contexto, não podia ser melhor. A necessária indagação sobre o próprio corpo é, de fato, ideal para uma dança voltada, não para uma narrativa, mas para as próprias possibilidades do corpo como meio de expressão.

O espetáculo abre com quatro bailarinos que se espelham uns nos outros em seus movimentos, formando um corpo único. Eles se analisam. Já começa muito bom, no espanto perante braços e pernas que lhes (nos) parecem novos.

Às vezes tal corpo único é 3/4 barata e 1/4 resistência. Outras vezes tenta conter, todo ele, a baratice galopante. São tentativas de um andar ereto, tentativas de dignidade. Mas sempre algo – um pé que se torce incontrolável, uma perna a tremer ou os dedos da mão, nervosos – vence e retoma os movimentos frenéticos de antenas e patas. Em outras vezes a barata quatrinca explora seus novos limites – os físicos, de seu novo corpo, e os geográficos, do palco fechado.

O coreógrafo Sandro Borelli traz, nessa obra, uma tonalidade nova e interessante para o drama kafkiano da perda da liberdade. Uma interpretação sexual. É um dos momentos, aliás, de que mais gostei. Os bailarinos, exaustos da luta contra a baratice, estão inermes no palco. Mas, pouco a pouco, vêem o movimento baratal renascer de suas mãos, postas em concha sobre o sexo. Um por um, dedos começam a se agitar qual patinhas, qual antenas. Uma hipótese que assim é lançada: aprisionado por limites sociais, econômicos e geográficos, o corpo busca a si mesmo. Uma condição de fechamento, de não alteridade, que inclui o sexo. A claustrofobia, a não-saída do corpo para além de si mesmo é o auto-erotismo. Que é, necessariamente, um homoerotismo. Nesse momento, os bailarinos se dividem, os dois homens ficam, as duas mulheres somem. Depois, isso vai se inverter. Ficam as duas mulheres, somem os dois homens. E entra uma sutileza também bonita. Os dois homens tem, a acompanhá-los, sons animais. As duas mulheres, uma espécie de canto/lamento. Na sequência, fica no palco uma das mulheres e voltam os dois homens. Eles tentam interagir com ela. São ações brutas, mas não intencionalmente brutas. Uma brutalidade de quem não se sabe bruto – ou não acha isso relevante. A brutalidade inclui tentativas canhestras de uma sexualidade desinformada. Mas não resulta. No final, a bailarina, “morta”, tem seu corpo analisado e cutucado pelos dois homens. Eles tentam deixá-la em várias posições, nenhuma satisfatória. Eles se entreolham a cada uma dessas tentativas. São eles os cúmplices, ela a estranha. Eles se unem sobre ela, cai uma saliva/esperma sobre seu rosto. É uma saliva/esperma comunal dos dois.

E depois ela é abandonada, inútil.

Há alguns pouquíssimos momentos de quase-humor no espetáculo. Sempre que vejo uma obra que parta de Kafka sinto falta de humor. Aqui, pelo menos, o humor não está ausente, em que pese a roupa preta e séria dos bailarinos, o palco minimalista, também preto. E a ausência quase total de sons ou música. Kafka, você deve saber disso, achava que estava escrevendo textos de humor. É raro alguém sacar sua enorme ironia. O personagem Gregor, depois de carregar a família inteira nas costas, trabalhando para sustentá-la, acaba virando uma barata. Mas as coisas vão se arranjando mesmo assim. A irmã leva comida. O resto das pessoas o ignora como sempre fez. O pai acaba conseguindo um novo trabalho. A vida segue. Ele continua lá. Ter se tornado, fisicamente, a barata que sempre foi não faz lá muita diferença.

É engraçado ver a exposição do Rodin junto com a do andar de cima, temática, que mostra retratos do acervo do MASP. Em uma, olhares se cruzam, na outra, não.

Na Olhar e ser visto, há a afirmação identitária que há em todos os retratos, ainda que, por abranger diversas épocas da pintura, tal assertividade do sujeito se torne, ironicamente, questionada. Além disso, a curadoria dividiu o que já era temático em mais temático ainda, separando de forma que me pareceu meio arbitrária retratos que ressaltam “a pompa” (Thomas Gainsborough), “a cena” (uma enorme quantidade de obras do francês Jean-Marc Nattier, com todos os cacoetes do XVIII: mulheres chiquérrimas, reclinadas em meio a panos, com dedos mindinhos levantados ou mãozinha no queixo, pensativas, na aproximação máxima que o feminino da época chegava ao adjetivo “intelectual”). E por aí vai.

Renoir, Modigliani, Picasso (o que sobrou do roubo). Todos olham para você. Nem todos. Van Gogh, por exemplo, não olha. Mas Van Gogh não tinha lá muita certeza sobre sua própria identidade. Outra excessão, o agenciamento gritante da obra de Darcy Penteado, que se dá por escrito. A palavra “Eu”, enorme, é quem olha para você. Mais do que isso, te enfrenta, forte que é com seu conceito maior que qualquer imagem.

Mas, basicamente, as imagens te olham olho no olho, estabelecem com você uma relação de iguais, e uma relação direta. Nada há entre o embate das individualidades, o diálogo pode acontecer, o canal está aberto.

Não com Rodin.

O texto da curadoria ressalta que Rodin, contemporâneo da popularização da fotografia, se viu, como os outros artistas da época, desobrigado do realismo. É bem mais do que isso. Rodin era um perverso, no sentido freudiano da palavra – mais um contemporâneo. E talvez com uma contemporaneidade mais relevante do que a da fotografia. A parte da exposição de Rodin que mais merece ser vista é, curiosamente, não a de suas esculturas (muitas delas daqui mesmo, porque o ano França-Brasil economizou no que pode). Mas a das fotos de Eugene Druet, um barman que acabou amigo de Rodin e se tornou seu fotógrafo oficial.

Nesse conjunto de fotos fica alarmante a ausência, mais do que de olhar, de cabeça mesmo. As figuras retorcidas, torturadas, com as cabeças – quando as há – voltadas para baixo, não terminadas, encobertas por braços, pernas, se desfazendo em cenários de ocasião. Na entrada está a monumental Les trois ombres, com todo mundo olhando para baixo. Mas se tratava de uma porta para o inferno, de modos que. Depois vem, já em foto, o Étude du torse d’Ugolin. E segue com La terre (bunda em primeiro plano, cabeça afundada na, bem, terra); Cybele (sem cabeça); Toilette de Vénus et Andromède (outra bunda sem cara à vista). E mais e mais.

Georges Bataille fala isso muito melhor do que eu. É no seu livro Histoire de l’oeil. O livro começa com a seguinte cena:

“Simone mit l’assiette sur un petit banc, s’installa devant moi et, sans quitter mes yeux, s’assit et trempa son derrière dans le lait. Je restai quelque temps immobile, le sang à la tête et tremblant, tandis qu’elle regardait ma verge tendre ma culotte”.

Depois que o narrador fica de pau duro vendo a mocinha mergulhar a xoxota no leite do gato, a história vai ladeira abaixo, sempre oscilando entre o olhar “objetivo” e o olhar “subjetivo”, até seu final apoteótico:

“Simone cependant s’amusait, glissait l’oeil dans la fente des fesses. Elle s’étendit, releva les jambes et le cul. Elle tenta d’immobiliser le globe en serrant les fesses, mais il en jaillit — comme un noyau des doigts — et tomba sur le ventre du mort”.

O olho, morto, é enfiado no, ahn, ânus da mocinha.

Bataille faz um jogo de tirar o ar entre o olhar objetivo que na verdade objetifica aquilo que olha apesar de, supostamente, respeitar a realidade do olhado; e o olhar subjetivo, que permite a troca de subjetividades, mesmo se, aparentemente, não leva em conta a existência do olhado.

É esse o jogo de Rodin. Sendo que nesse diálogo entre dois voyeurs – ele e você – há um assunto palpitante proposto: o erotismo dos jogos de poder. Ele tortura seus modelos e o faz contando com o teu olhar. O diálogo se dá com você e ele olhando não um para o outro, mas ambos para uma mesma direção, no exercício de um poder sobre o corpo de um terceiro.

Druet, amigo e tudo, escreveu uma carta em que reclamava, humilde, o quanto havia se sujeitado aos caprichos de Rodin, repetindo cenas e descartando o que o mestre não queria manter. E quão pouca compensação (monetária, presume-se) recebeu por isso. Eu acredito.

Há uma foto dele que mostra Rodin em meio a suas esculturas. Rodin está de pé e na foto de pouca nitidez e em preto e branco, o escultor parece ser uma de suas esculturas. Mas isso é o olhar de Druet. Aquilo que Rodin não queria que aparecesse.

Chagall no Museu de Belas Artes do Rio é um Chagall de colecionadores (brasileiros, em sua maioria) e de obras em papel. Essa proximidade de óleos bem conhecidos e gravuras pouco vistas tornou mais claro o que eu já ensaiava ver anteriormente, e que é uma espécie de método.

Longe de receita de bolo. Mas um jeito dele de enfrentar um conflito. O jeito se repete e faz pensar em estruturas míticas, com os estágios tradicionais de ordem, perturbação, tentativa de recuperação da ordem, fracasso, e reorganização final incluindo a consequência da perturbação.

A genialidade é que o conflito se dá em diagese, fora da obra.

Passo a passo.

Ordem inicial: o bairro pobre da Bielorrússia onde o artista nasceu;

Perturbação: o confronto com o Ocidente, sendo que o Ocidente está fora do quadro e é o fruidor que vê a obra;

Tentativa de recuperação da ordem: a frontalidade cerimoniosa das personagens, a sugerir um desejo de teatros sociais a serem obedecidos;

Fracasso: apesar disso, a desorganização geométrica dos cenários se mantém;

Reorganização final: também em diagese. Olhos e mãos viram elos de ligação de uma metalinguagem. A solução do conflito, com uma organização final que leva em contra a perturbação da ordem inicial é o contato humano. É o olhar olho no olho, mesmo se esses olhos se dão em diversidade absoluta. Um olho é o meu, eu que estou na frente do quadro. O outro olho é de quem me olha, bode ou noiva, vindos de outros tempos e texturas. Minha mão lá, na fatura não-artística da minha vida cotidiana. A outra mão também lá – aumentada, aliás, para combinar com a minha – na fatura também não-artística de quem guia uma carroça em cotidianos atemporais. E olhos e mãos meus e deles juntos, pela fatura artística de Chagall.

Há variações.

Em Les mariés aux trois musiciens, um sol amarelo vem por trás do casario e há um bicho em cima dos noivos. São elementos de um não-controle que todos os olhos de todos os seres vivos presentes na cena tentam compensar, olhando, todos juntos, para você.

Na série da Bíblia é comum uma composição circular, ressaltando a situação de quem se vê preso em um conflito que é preciso resolver.

Em L’envol des amoureux, a desorganização chega a um clímax, com as flores do primeiro plano representadas em pinceladas gestuais, loucas, quase abstratas.

O tardio Le village, de 1966, apresenta uma tentativa diferente de recuperação da ordem, com uma perspectiva em estrutura concêntrica. O ponto de vista central é o “primeiro plano”, e à medida em que os elementos se aproximam das bordas do quadro, eles “se afastam” mudando sua posição em relação ao centro-gerador. Chegam a ficar de cabeça para baixo. Com isso eles mantém e reforçam a importância da existência de tal núcleo central, a partir do qual tudo deveria se organizar. Essa perspectiva de ponto de vista central e afastamento em direção às brodas se repete em Homme à table, com a rua do cenário chegando a se encurvar na deformação que a necessidade de um ponto central forte impõe à obra – e ao artista.

A exposição traz referências brasileiras como Ismael Nery, Lasar Segall, Cícero Dias e Tomás Santa Rosa. Gosto do Cícero Dias. Mas a comparação me pareceu forçada. Nenhum deles, bons modernistas que são, inclui o fruidor na solução do conflito artístico. Trazem neles a arrogância de sua época, o que Chagall não faz.

A 7ª Bienal do Mercosul, tem como subtítulo “Grito e Escuta”.

Vamos imaginar o seguinte. Que tipo de situação leva alguém a gritar? Imagine-se nessa situação. Só, livre de qualquer olhar. Uma situação extrema e impactante. Todo o corpo respira, transpira exangue, pulsa em desatino.

Na outra ponta escutar. Estar aberto e com a consciência plena, não fechada, mas circular e absorvente.

A Bienal é um grito coletivo? Ora seria uma forma muito simplista de imaginar a mostra, que coletivamente parece chocar. Estranho, fazia tempo que não percebia tão claramente essa palavra em uma Bienal, chocar. O chocar para alertar, para indignar. Chocar por chocar tem se tornado quase um motivo comum a quem deseja ser artista e mostrar-se capaz de entrar em um mundo de possibilidades criativas e prazerosas para o observador.

Aconselho que você visite tudo leve, de corpo e alma, vá e sinta a experiência da escuta.

Eu fiz o seguinte roteiro:

Santander Cultural com a mostra Projetáveis. Webart e o conceito de interação entre arte e mídia, visualizar e estar na arte, em algum momento a tontura pesa nesse ambiente. O jogo de luzes, subir e descer, as danças de personagens virtuais e o reconhecimento de si mesmo como mídia é suporte para um projeto muito mais simbólico que a rede de informações que nos rodeia em todos os momentos.

MARGS com a mostra Desenho das Idéias. Se você tem um olhar modernista sobre arte comece pelo MARGS, desenhos e pinturas, trabalhos de um visual impecável, com nomes internacionais e nacionais. Preste atenção nos detalhes, observe cada traço humilhante que se interpõe entre um desenho e você. Preste atenção na malha magistralmente aquarelada que se transforma em um intricado brocado situando-se entre o divino e o sensual, nos seres de tão pouco apuro real que parecem cheios de vida dada à realidade do desenho absurdamente realístico.

No cais do Porto, experimentei primeiro a Mostra Absurdo. Entrava em um espaço sem sentido, deslocado e atemporal. Imagens de infância e vida se cruzavam. Construções desfalecidas e sensações imóveis de um zunido claustro. Até mesmo subir uma escada transformava-se em uma experiência de angústia. É irreal a necessidade de pensar duas vezes. Fui testemunha de alguns eventos interessantes e construtivos sobre o medo, como o da jovem que não tinha coragem de subir as escadas que conduziam a uma sala, e o nojo sincero de uma criança ao ver o ossos expostos na areia do mar.

Segundo armazém com as Ficções do Invisível. Aqui a experiência pode levar 67 segundos cravados ou duas horas de imagens, que te fazem pensar em que ponto da escala da vida contemporânea você foi pego e exposto como item de venda. As larvas trabalham sem cessar e homens nus desfilam seus mastros com todo o orgulho nacional. Desejos são realizados e vontades esquecidas. Tudo em nome da angústia que deprime e subtrai. Anda-se em espirais negras ou se percebem vídeos infantilmente erotizados.

Terceiro armazém com as mostras Biografias Coletivas, Texto Público e Radiovisual. Aqui as memórias, imagens e desejos são extrapolados, uma mostra receptiva e provocativa. Ao pensar na necessidade de mostrar que o homem é memória, que a memória como convenção de lembrança de algo é finita ao homem e é a ele que deve e a ele retorna como hedonismo procurado e aplicado. Aqui também uma das obras mais bem vistas pelo olhar da mídia, mantém todo o seu peso na troca. A sociedade e a arte desempenhando papel fundamental na vida? Ou apenas uma lembrança de que sonhos e desejos são coisas tão próximas quanto à realidade física e filosófica. Não se esqueça, não tente, experimente, veja e ouça. Leia? Regurgite tudo de volta em sentidos únicos de nada.

Quarto armazém com a mostra Árvore Magnética. Apenas para situar: o nome dessa mostra se deve a uma lenda chilena, aonde uma árvore possui poderes magnéticos sobre corpos em movimentos. Aqui, ela (a árvore) atrai quase tudo, desde lembranças de outras pessoas, até módulos de pouso lunares, construções públicas, pessoas imaginárias que cuidam de um rio vermelho. Sangue em potencial? Ou apenas um raio-x da necessidade que temos de dar um sentido a tudo que vemos? Diários extrapolados de nossa vida e necessidade de nos realizarmos para os outros. Com o outro. Ou seriamos alguém sem a definição do outro?

Esse foi meu roteiro, mas nada impede você de ir ou vir, na verdade eu espero que você vá mais de uma vez e aproveite muito mais do que eu pude. Não esqueça de abrir seus olhos para a realidade que o cerca. Os(as) mediadores(as) podem ser muito mais significantes no contexto geral, não se acanhe.

Agora a questão fundamental dessa bienal. Quem grita é aquele que ouve? Ou grita porque foi capaz antes de ouvir, com todos os sentidos que o ser-humano é um poço de limitações em um mundo sem?

Serviço:

  • 7ª Bienal do Mercosul
  • Grito e Escuta
  • de 16 de outubro a 29 de novembro de 2009
  • das 9h às 21horas
  • Porto Alegre – RS

A exposição se chama Janelas e é de Lucia Laguna. Nem é preciso mais nada para se saber como dar o primeiro olhar.

No meio, na junção, na fratura. No meio.

Os dez quadros se dividem entre os que se chamam Paisagem e os que se chamam Estúdio. O dentro e o fora. O meio. Na janela.

Lucia Laguna mora entre a Mangueira e o asfalto. Viu a construção do viaduto a ligar, dividir, a ficar no meio. A palavra Estúdio aí amplia seu campo semântico. É o local onde se faz e se vive, onde se estuda e se pensa. O local da visão.

Acho reducionismo falar, no caso dela (e em geral, é verdade), de autonomia estética da arte. Não separo o ordinário, o popular, o mundano, enfim, o entorno. Mas mantenho a ontologia. É uma questão de estruturação, de consolidação, desfamiliarização, iconicidade. Tem sim, é claro. Mas tem também o resto todo.

Aqui, por exemplo. As pinturas de Lucia trazem sempre o que a define mesmo fora da pintura: uma divisão/junção. No entanto estão bem longe de representar exatamente o que se vê das janelas de seu ateliê, no último andar da casa, com a mangueira (árvore) bem antes da Mangueira (morro). A Mangueira, lá, imóvel aparentemente, geometrizada, dir-se-ia, mas com tanta vida que chega-se a se escutar, ou achar que se escuta, o som surdo que de lá vem, como um motor a diesel que não para.

paisagem 25 – Lucia Laguna   paisagem 26 – Lucia Laguna   paisagem 17 (detalhe) – Lucia Laguna   estúdio 27 – Lucia Laguna    paisagem 27 – Lucia Laguna  

Nas obras, há a construção em cuidadosa fita crepe, e a tinta posterior, gestual. Uma ontologia de obra de arte. Mas não uma totalidade fechada em si mesma. A(s) Mangueira(s), aliás, não deixaria(m). Não esquecer: o fato de que sua obra pode ser despregada de seu contexto original e atualizada sem parar pelo fruidor marca seu relacionamento com a arte e não com o anedotário de uma cidade. Eu, por exemplo, gosto de ver coisas reais em suas pinturas. Em Paisagem 25 penso na escada do vizinho. Na 26, nas paredes das casas que ficam por perto. A 27 tem a representação da própria janela, de basculante, presente. Mas também gosto de ver o processo. Onde se liga, em que ponto se dá, essa divisão/junção. É na pintura. Na tinta. No detalhe da Paisagem 17, vê-se o pingo, lá. É tudo. É o mais importante, esse pingo. É a solução. E está não fora, mas dentro da obra.

Pode-se dizer que Lucia Laguna apresenta um schema – a palavra bakhtiniana. Seu schema é o do ‘ateliê do artista’, usado por tantos outros. Schema é uma superestrutura, um motivo que serve de núcleo geracional, ponto de origem que vai determinar os fenômenos específicos de cada obra feita. O schema é ‘o ateliê do artista’ e os cronotropos são, justamente, ‘as janelas’ – local espacial em que se registra uma passagem de tempo. Ou, para usar o vocabulário mais apropriado ao campo da estética, uma luminosidade. Em ‘ateliê do artista’ está o começo das pinturas, os grandes espaços construídos, cujos contornos são cuidadosamente demarcados. Nas ‘janelas’ está o resto todo. Ou seja, o tempo – marcado pela ação temporal, sequencial, da artista – e o que esse tempo faz e traz.

Está na Galeria Virgílio.

Você dá um pio sobre uma obra de arte e danou-se. Ela vira ilustração da tua tese. Comentário. Exemplo. Testemunha e confirmação da tua genialidade. É um inferno. Mas como sei que você nem pensa em entrar em uma galeria, e porque sei que você está perdendo paca com isso, lá vai.

O Aquila.

E, bem, caso você entre, é na Valu Oria Galeria de Arte, Alameda Casa Branca 1130, São Paulo.

Luiz Aquila fala, ahn, não fala justamente. Você deve conhecer identidade fluida, plasticidade & presentificação. Se não conhece, tudo bem. Eu explico: é assim mais ou menos como você se sente, em uma adaptabilidade tão rápida que nem mesmo dá para saber, ao final do dia, quem mesmo você é. Explicando melhor ainda, com a ajuda do Zeca Pagodinho: você deixa a vida te levar.

Aquila deixa a cor se levar. Mas não é tão simples (nunca é). Para dar uma ideia, você é o azul do detalhe de A Pintura, o vermelho, e suas linhas.

Acho que vou por partes. De repente fica mais fácil, mesmo sabendo que ir por partes é justamente o que Aquila não faz, justamente essa sua posição, ou o ponto que coloca em discussão: uma identidade atual, de fluidez, mas integrada. Não sou tão boa quanto ele. E vou por partes. Ou por obras.

A Pintura e o círculo     A Pintura e o quadro azul

Em algumas delas há linhas feitas com uma ponta seca por cima dos campos de cor. É um caminho feito, portanto, a posteriori da caminhada, é a racionalidade como algo aposto à vida que corre. Uma significação de ‘depois’. É o que estou fazendo aqui: pondo linhas mentais sobre a unicidade intangível da obra dele.

A Pintura,o vermelho, e suas linhas (detalhe)Outra coisa. Em algumas das obras, o que vem por cima, o último campo a ser pintado, é o campo do branco. Ele então, depois de falar-sem-falar as suas cores, cria o vazio, o silêncio, que ele descobre como necessário para que eu o entenda. Porque as obras, com suas palavras mudas, só pode ser escutada através desse silêncio. Uma delas, então, A Pintura, o vermelho e suas linhas, é a mais impressionante. As cores vem rolando, rolando, existindo, e acabam no branco, que é o que fica mais perto de mim, que é o que permite que eu, agora um pouco distante, as veja. A Pintura e suas voltas também tem disso. Um branco posterior, para que o resto signifique. Então, em um pedaço dentro da obra está um índice do que toda ela faz. Porque ela nos fala mudamente, sem palavras. Um lance à la Merleau-Ponty: nosso contato com as obras de arte se dão quando as coisas ainda não são coisas ditas, ainda sem as palavras.

Nós. A grega e o vermelhoHá uma obra diferente das outras. É a Nós – a grega e o vermelho. Foi começada em 1989 e retomada agora, em 2009. Vai ver é por isso. Tem uma colagem num cantinho, que era uma expansão de campo usual nas obras anteriores do artista. Mas não é nem isso que faz com que seja única. Aqui está presente a guerra modernista com as leis, regras, limites e outras rigidezas. O retângulo do quadro é repetido dentro dele. A velha estratégia do século que findou de se apropriar do que lhe parece invencível. Um dizer: a racionalidade, ou lei, é minha. Não me submeto a ela na medida que a imponho É também o único quadro de cores sombrias. O resto todo uma explosão de amarelos, laranjas e vermelhos. O engraçado é que essa margem repetida do lado de dentro é reconhecida como margem, como limite necessário, a duras penas. E mais uma vez a posteriori. Pois o pincel preto que a forma cobre uma pintura anterior, cujos acúmulos de tinta ainda se vêem por baixo dessa camisa de força.

O título das obras sempre traz a palavra Pintura em caixa alta. Está certo. É isso mesmo. Pois aqui, a Pintura é o nome próprio de um sujeito. A obra é sujeito, ela conversa com você. E ao fazer isso, te transforma também em outro sujeito. Como são poucas as oportunidades atuais de você se sentir sujeito, o diálogo é precioso.

Há outra obra em que a margem quase aparece. Recortada, problematizada, a franja de A Pintura com acontecimentos recentes está quase toda coberta por formas orgânicas (sexuais femininas?).

Esse pintar por cima, essa temporalidade quase narrativa, só é possível em algo que se reconhece como sujeito porque acolhe sua historicidade, sua diacronia. A Pintura e a neve vermelha são duas. Há uma pintura anterior, coberta por uma textura irregular de pingos vermelhos, e há uma segunda pintura. Um ‘depois’. Na verdade são mais do que duas, são muitas. Elas vão chegando perto de você. Uma das últimas é, outra vez, um campo branco. O silêncio. Necessário.

A Pintura e os novos devaneiosEm A Pintura e o quadro ali – e em A Pintura e os novos devaneios – há uma mesma forma geracional, como um núcleo que se expande. Na primeira delas, essa expansão da pintura, a apresentação da pintura como algo fluido que não para, inclui a presença de um esboço feito a carvão ou linha escura de tinta, por cima de tudo. Como se não fosse possível terminar nada. E não é mesmo.

Não de graça tem um poema do João Cabral de Mello Neto na parede. Chama-se Lição de Pintura:

Quadro nenhum está acabado,

disse certo pintor;

se pode sem fim continuá-lo,

primeiro, ao além de outro quadro

que, feito a partir de tal forma,

tem na tela, oculta, uma porta

que dá a um corredor

que leva a outra e muitas outras.

Goya tinha uma nostalgia da racionalidade. Seus monstros são sua visão apavorada do que seria o mundo fora da razão. Aquila não tem essa nostalgia nem abandona a razão. Apenas arranjou outro caminho.

Baudelaire andava por aí no final de um século dos mais passados e dizia que a vida era isso. E por “isso” ele entendia Paris no iluminismo – e não é à toa que iluminismo se chama iluminismo. Com suas novas ruas tão retas, e iluminadas, em que se misturavam gente de todas as espécies, é fácil entender que esse bebum, filho da alta burguesia, lá se sentisse muito bem. Junto com sua Jeanne Duval. Mulata, no less.

Em que pese seu Flores do Mal ser o que é e foi, Baudelaire não deixava de ser um exultante em relação ao meio ambiente. Paris, enfim, lhe parecia ótimo.

Não é o caso de Marco Paulo Rolla.

Já vi, na própria Vermelho, mais coisas dele e sempre gosto. É dele uma mesa de piquenique das mais decadentes, mas cuidadosamente feita, inteira, de cerâmica. E era dele uma geladeira de vomitar, exposta outra vez na sua individual atual.

Rolla flana pelo urbano e o que o atrai não é o novo. É o velho.

Não falo só do tema, ao qual volto em um instante. Falo também da técnica. Pois Rolla faz óleos enormes, pincelada por pincelada. Figurativos. Sombreamento. Profundidade.

Detalhinhos.

Mas vamos ao tema.

“Ces êtres (Baudelaire está falando, aqui, no seu Le Peintre de la vie moderne, da figura do dândi) n’ont pas d’autre état que de cultiver l’idée du beau dans leur personne, de satisfaire leurs passions, de sentir et de penser”.

O que é mais ou menos o que todos nós, até hoje, queremos da vida, principalmente se formos artistas. Na ideia de beleza é onde nos separamos.

Marco Paulo Rolla – A noite – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás  Marco Paulo Rolla – Bagagem – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás    Marco Paulo Rolla – Cansei da Philips – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás   

O tema – e a beleza – dessa exposição fica em ruas nem um pouco retas, nem um pouco iluminadas. Trata-se do acúmulo de objetos sempre renovados, sempre em vias da obsolescência ou não-funcionamento, aí incluídos, nessa lista de objetos, as pessoas. Em Bagagem, uma mulher cheia de dentes, predadora, tenta fechar uma mala abarrotada. A noite são duas mulheres e um cara, e as duas mulheres, sendo duas, já apontam para o excesso, a repetição. Em Cansei da Philips destruimos uma televisão, revolta das mais inúteis.

Há humor sem parar. Problemas de memória, com todos em volta de um computador, em um ambiente de ciber café, deixa no ar a dúvida de que memória se trata. Essa pintura faz eco com outras obras. Ao lado está uma máquina antiga, Remington, com um papel em que foi datilografada a frase “aqui atônito” várias vezes, cheia de erros. Quem datilografa são duas mãos feitas em pedra sabão. Mal feitas. Não terminadas. Em Memória afetiva, cabeças de plástico transparente deixam ver o que tem dentro: desenhinhos de objetos, só de objetos. A instalação sonora Enganos é a sequência de ruídos que marca ligações mal sucedidas com seus “alôs”, seus ruídos de fundo e o clique de desligar do aparelho. Eu Desejo dá até aflição, porque a tela do vídeo vai se enchendo de relógios, de celulares, uns por cima dos outros, cada vez mais rápido.

Rolla tem sua estratégia para impedir o sufocamento do indivíduo por objetos, todos eles novos, todos brilhantes, iluminados. Na parede está escrita uma de suas frases: “Tudo me é lícito mas nem tudo me convence.” Nessa sua não entrega, na desconfiança do último lançamento, ele vence Baudelaire que, inclusive, renegou a própria obra e tentou entrar na Academia Francesa (sem conseguir).

No encontro de significado, não na satisfação das paixões – como disse Baudelaire – mas, ao contrário, na saturação delas, Rolla se aproxima de outro poeta. De André Breton, que também gostava de flanar por Paris, só que alguns anos depois. Baudelaire pegou um final de século, Breton um começo. Em Nadja, Breton diz: “Tout récemment encore, comme un dimanche, avec un ami, je m’étais rendu au marché aux puces de Saint-Ouen. J’y suis souvent, en quête des ces objets qu’on ne trouve nulle part ailleurs, démodés, fragmentés, inutilisables, presque incompréhensibles, pervers enfin au sens où je l’aime.”

É mais por aí. Talvez seja mesmo uma questão de fim de século e começo de século. Ou, dito de forma mais elegante: de perceber a energia revolucionária que só aparece no que está estragado ou velho, como em ambientes de muito uso, imagens antigas, ou em objetos que já começam a parecer extintos. Não é minha a frase, é de Walter Benjamin.

Vejo arte contemporânea como uma oportunidade de discussão, de pensamento. A única oportunidade. Não há mais fóruns públicos que se lhe assemelhem. Uma galeria aberta, ou museu, e você pensa o mundo. Houve épocas mais propagandísticas. Épocas em que a arte seguia mais de perto uma finalidade. A apelação emocional da contrarreforma, no barroco. O canto do cisne da afirmação masculina, no modernismo. Hoje não. Todas as outras imagens, hoje, seguem um roteiro rígido. Existem para que o capitalismo as venda, no lugar de objetos a cada dia mais transitórios. Você compra então vários objetos em busca da materialização de apenas uma imagem. A que você quer “ser”. Todas elas têm essa função. As da arte contemporânea não. Estão lá para te fazer pensar. Não são necessariamente bonitas, não necessariamente te seduzem. Ou sequer duram.

O convite trazia a imagem de um pedaço de madeira velha e um encaixe de metal a ela acoplado. O título da exposição era Uniões e engates. O artista eu não conhecia: Gavira (Admir Belmonte Gavira). Nem a galeria: Joh Mabe.

E eu estava mesmo pensando que fim havia levado a nostalgia.

Na parede estava escrito uma frase do artista: “… mergulhei com certa determinação nas vãs regiões dos sonhos, voltavam as imagens dos engates de trens e do maquinista…”

Estamos em época de transição. Isso na melhor das hipóteses, pois pode ser de fim mesmo. Ou de mutação, a se acreditar na enxurrada de seres híbridos com que uma novíssima literatura tentaria nos acostumar ao que há de vir. E nostalgia é, historicamente, uma das estratégias para lidar com épocas assim.

Você desloca e concentra alguns ícones – inventados ou históricos, tanto faz. E o faz de modo a ressaltar isso ou aquilo, o que for preciso, contanto que sirva a uma reconciliação de polaridades com o presente. Um presente igualmente icônico, mal entendido e apavorante, como em geral os presentes e pior ainda quando se trata de presente de transição/mutação/fim.

Gavira investe na nostalgia em suas peças híbridas. E reconcilia a polaridade a que me refiro pondo ambas “metades” igualmente em um passado, embora um sendo mais passado do que outro.

Casal: Enlace -  Gavira @ Joh Mabe – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás   Engate -  Gavira @ Joh Mabe – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás    Casal: Resina -  Gavira @ Joh Mabe – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A madeira velha, carcomida e “natural” se contrapõe à elaboração industrial, moderna e brilhante dos engates de trem. Mas trem também é passado, embora menos passado que a imemorialidade de um pedaço velho de madeira. É essa a estratégia apresentada para aguentar um presente feito de passados diversos, um deles sempre ocorrido apenas um nanossegundo atrás. Os objetos têm um verbo, uma ação, que vem do passado. Um gerúndio do tipo estão fazendo, estão sendo, estão agindo. Desde há muito tempo. A nostalgia aqui tem três movimentos claros. As obras 1) vêm do passado (ferragens de trens e madeiras velhas), no entanto; 2) são novas (o metal brilha, a madeira foi limpa e há um pedestal para estabelecer a entrada nobre, voluntária, proposital, desse passado no ambiente presente) e; 3) se chamam Engate de um trem imaginário. O engate é real. O trem é que é imaginário e que pode ser qualquer um, de qualquer época e nome.

Na escolha dos material não-representativos de nada, mas eles próprios, lá, concretos, Gavira faz uma arte auto-referenciada. Mais do que trens e madeiras, é a arte e sua função de pensar mudanças através de materiais não modificados (ou pouco modificados), eis o assunto dessa discussão-exposição. Mais do que uma ligação com o passado, a nostalgia aqui é uma explicitação do nada para engatar, do não-espaço em que estamos. No presente.

Na frase do artista que citei acima, ele fala de sua volta ao tema. As datas das peças confirmam. Há Engates mais antigos, de 2003, e há os novos, de 2009.

Entre uns e outros há outras peças, de bronze ou resina vermelha, que representam casais. Dessas gostei menos. Achei boa, portanto, essa volta a engates não amorosos, não óbvios. Na frase que citei, o artista fala também de um maquinista. Um personagem, portanto, que conduz o trem, uma individualidade determinada, não problematizada. E, no entanto, ausente na materialização das obras. Aí eu já entraria em outro assunto – o da autoria. Fica para outra vez.

Volto ao desenho. Dessa vez com Dibujo español, a exposição atual da Emma Thomas. Na verdade, ao entrar mais uma vez no patiozinho interno da galeria da Rua Augusta fiquei com vontade de falar sobre o patiozinho. Mas, sentada em uma beirada de muro e olhando em volta, percebi que o que eu queria dizer sobre o patiozinho, só o conseguiria se em suas paredes estivessem, como estavam, desenhos.

geral – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásJá disse isso aqui, acho. Essa galeria ocupa um sobrado e tem várias camadas. A da época dos sobrados antes de a rua Augusta virar rua elegante, depois que virou e seus sobrados se transformaram em pontos comerciais, depois que decaiu, e depois que virou moda – outra moda – de novo.

O patiozinho, hoje, é pintado de branco – em uma referência ao cubo branco e impessoal próprio de uma galeria de arte. Mas não vai ser cubo nunca pois mantém seus significados consolidados, quase míticos, todos lá. E faz mais.

Supondo, e suponho, que Levi-Strauss tivesse razão e que ‘os conjuntos míticos são construídos com o único intuito de serem despedaçados e reconstruídos a partir de seus fragmentos’, a galeria aponta para um processo.

E é aí que entram os desenhos. Para que o patiozinho mantivesse seus palimpsestos, teria de ter traços – mais do que massas de cor – a recobri-lo. É o desenho, com sua proximidade absurda da mão que traça e do olho que acompanha esse traço; é o desenho, com sua abdicação em seduzir, com sua distância cerebral do referente, e com a exposição de seu processo, o único ato criativo a poder apontar para o que ainda está em curso, nunca pronto.

geral – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásE não se trata de camadas apenas, intercambiáveis, igualadas. O que está atrás não vem com igual valor. É um prólogo. É necessário para o entendimento do que está sendo feito. Forma ou dirige esse entendimento. Não é o entendimento. Provê os dados para que os desenhos tentem suplantar as contradições entre o velho sobrado e quem entra nele, embora seu sucesso seja sempre tão rápido que, mais do que um sucesso, é um dedo apontado para novas tentativas.

Assim, quem lá entra, não entra para se atualizar. Entra para se lembrar, ao ver os desenhos expostos, que é preciso renovar sem cessar significados apostos.

Os artistas da mostra em questão ajudam nessa tarefa.

Luz Santos – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás    Maria Calzadilla – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Juan Pablo Villalpando consolida formas de tal modo que elas perdem sua especificidade individual, viram formas míticas, tipos de seres novos ou muito velhos. Luz Santos deixa seus bonequinhos de fios caírem pelas paredes em uma queda lenta, que não se acaba e que, por serem formados de fios, sabemos, estarão, ao chegar ao chão, prontos a subir novamente. Maria Calzadilla faz galhos e folhas que nascem e sobem e que não têm fim, além do fim do seu suporte.

E o suporte é outro indício desse recobrir sem cobrir. Não têm molduras, nada há que os separe, brancos que são, dos muros também brancos.

Quando visitei a galeria, motos estacionavam perto dos desenhos. Tudo a ver.

(Além dos artistas citados, vieram também Raul Diaz Reyes e Pedro Luiz Cembranos, cujos desenhos acompanham, em seu próprio modo – um propositalmente usando uma já velha linguagem pop, o outro, mais simbólico, com sua ausência de cabeças – o que digo aqui.)

O eixo Rio-São Paulo recebe a maior parte das mostras internacionais de artes plásticas, cinematográficas, entre outras, e também grande parte das exposições dos grandes artistas nacionais. Só para ilustrar, as obras de Vik Muniz ficaram no MASP, em São Paulo, por um bom tempo, e depois vieram para o MAM, no Rio de Janeiro, onde permaneceram por cerca de três meses. Outro exemplo foi a Virada Russa, exposição de 123 obras do movimento artístico da 1ª fase da Revolução Russa, que passou pelo CCBB do Rio, e que certamente passou ou passará pelas outras capitais em que há um Centro Cultural do Banco do Brasil (São Paulo e Brasília, apenas).

A visibilidade cultural lançada sobre Rio e São Paulo é uma herança histórica que se manteve graças às políticas culturais desses estados que nunca se dispuseram a abrir mão da notoriedade que outrora conquistaram, e graças, também, à sorte, no caso da capital fluminense. No que diz respeito a São Paulo, o estado continua sendo o centro financeiro do Brasil. Por outro lado, o Rio, outrora capital do país, pouquíssimo conserva, em termos político-econômicos, dessa época. Se não fosse pela arquitetura do centro da cidade, mantida a duras penas, e pelo fato de a família real ter se instalado por aqui durante um tempo, hoje o Rio de Janeiro não passaria de um balneário para turistas que curtem sol, praia e turismo sexual.

Muitos estados nordestinos, como o Rio Grande do Norte, por exemplo, que não teve oportunidade de ser capital e nem foi objeto de interesses políticos para tornar-se centro financeiro, vão aos poucos tentando desvencilhar-se do paradigma que os caracterizam: exploração sexual infantil, turismo sexual, ou qualquer outra forma de lazer ilegal relacionada ao sexo.

Há alguns anos, vêm se observando o crescente interesse pelo desenvolvimento no âmbito da gestão cultural em Natal. O número de casas de cultura da cidade é notável e os artistas que surgem na capital começam a ganhar destaque nos principais meios de comunicação da cidade, o que certamente aumenta a motivação dos artistas e, também, a satisfação dos moradores da cidade, que recebem mais alternativas de lazer cultural.

Um exemplo é a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte) que, sob a gestão da prefeitura de Natal, foi restaurada e hoje funciona como um centro de cultura que abriga lojas de artesanato, espaço para exposições e palco para apresentações artísticas.

No momento, a Funcarte apresenta, até 25 de outubro de 2009, a exposição Animais Literários, da artista plástica Sofia Porto, uma carioca-potiguar, que uniu sua paixão pelos animais ao amor pela literatura em obras que exaltam a natureza e o lirismo que ela evoca nos seres humanos. Com uma idéia simples, mas criativa, Sofia inova ao transpor sua imaginação para o papel, partindo de fotografias de insetos, animais e outros vestígios de natureza que ainda encontra numa capital em crescimento.

Assim como a cidade em que vive, Sofia Porto é uma promessa, e o que se espera é que a cidade de Natal acompanhe o ritmo de crescimento da artista. E que não seja imprescindível deixar Natal rumo ao Rio ou a São Paulo para ganhar o mundo.

Animais Literários, por Sofia Porto
Fundação Capitania das Artes
Av. Câmara Cascudo, 434.
Tel: (84) 3232-4956 / 3232-4946
Natal – RN

Matisse e uns contemporâneos franceses na Pinacoteca. Todo mundo baba o Matisse e picha os contemporâneos. E essa é a maior prova de que maluco baba um e picha outros porque um é famoso e os outros não (pelo menos entre nós).

E são iguaizinhos, a curadoria está certíssima em pô-los juntos.

Não gosto de nenhum. E se tiver de, pincel apontado no peito, escolher algum, escolheria os contemporâneos.

Não vou falar do Matisse porque não tenho saco. Está bem, vou. A superfície, a sinuosidade, o imobilismo das figuras e da, em falta de melhor palavra, composição – aqui entendida como sinônimo de repetição decorativa. Imobilismo necessário porque qualquer outra coisa, como tensão no desenho, e lá se ia aguarrás abaixo a frágil alegria que fez sua fortuna e fama. As cores. A facilidade, a serialização. O alvorecer do consumismo desenfreado. Ok. Chega.

Às obras.

Matisse – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – www.aguarras.com.br  Philippe Richard – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – www.aguarras.com.br

Philippe Richard – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – www.aguarras.com.brMatisse faz colagens. Isto é, acrescenta camadas, acumula. Philippe Richard fura o suporte, isto é, retira camadas, suprime. Avançar ou recuar da superfície do suporte às vezes tem um elemento de tempo, de antes e depois. Não aqui. Como isso é feito em cadência e não em ritmo, fica só bonitinho. Richard, em uma de suas séries – os grandes painéis verticais com a incisão feita só na parte de cima -, apresenta um ritmo. É melhor que Matisse, portanto. Diferença entra ritmo e cadência, para quem não sabe: ritmo é sempre individual, mutável, e cadência é institucionalizada, estabilizada. Em mais uma das suas séries, Richard problematiza a superfície, coisa que Matisse jamais fez. São setas que se colocam, impotentes em sua agressividade colorida, perpendiculares à superfície toda-poderosa. Não que Matisse precisasse problematizar a superfície. Imagine. Logo ele, que não problematizou nada. É que, para nossa vida de hoje, a problematização, seja lá do que for, é melhor companheira.

Cécile Bart – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – www.aguarras.com.brCécile Bart é outra que problematiza a superfície da cor, e de forma até mais radical que Richard. Ela estende fios. Não chega a ser um penetrável. Ou pelo menos o olhar duro da guardinha me impediu de por lá caminhar. Mas o olhar entrou. E os fios, de cores diversas, formam outras. Você sabe. Você já viu coisa parecida com vários modernistas. Ela também explicita o que em Matisse some, escondido que está na representação de seus temas. Em seu Oblique, Bart sobrepõe quadrados de cor. Como a cor é translúcida, mais uma vez aqui a sobreposição não indica temporalidade. Só exercício de colorista mesmo, pois as cores sobrepostas formam outras. Mas, pelo menos, mostra o processo.

Mais um a olhar a superfície. E esse foi o que eu mais gostei de todos. Pierre Mabille. Fez um grafite. Escreveu o que devia pintar: “un lac”; “un épis de maïs”. Tudo muito bucólico. E muito sacana, pois ao escrever e não pintar, ao escolher uma linguagem de representação – a escrita – que é muito mais distante de seu referente do que a imagem, ele critica o figurativo Matisse. E faz mais. Entre lagos, nenúfares e espigas de milho, acrescentou, rindo, um “um caroço de manga’. Assim mesmo em português. Adorei.

Matisse detestava ângulo reto e punha tudo em sinuosidades. Frédérique Lucien também. São sinuosidades repetitivas, as de um e outro. E, porque se repetem sobre toda a extensão, são imóveis.

E voltamos a Matisse. Há poucas obras significativas. A presença de suas maiores obras, porém, não mudaria em nada a junção vaca sagrada x contemporâneos desconhecidos. Mas dá raiva ver a economia que está por trás das escolhas. Obras francamente medíocres, não fora a assinatura famosa, de seu começo de carreira, como a Paisagem de Bretanha, de 1887. E toma esboço em lápis e papel, ou em lito. E, sim, odaliscas retorcidas e passivas. E seus nus parados. E também as enormes cortinas de chuveiro, mais conhecidas por serigrafias da série Océanie. Com peixinho, conchinha, plantinha.

“(…) o desenho está intimamente relacionado à experiência. Mais do que qualquer outra mídia, o desenho representa uma relação direta com o artista, testemunho do entorno que o afeta, criando uma narrativa acerca do cotidiano materializada de forma abstrata ou realista.”

Esse é um trecho do release que a Vermelho distribuiu para acompanhar sua exposição Asimetrías y convergencias. São jovens artistas colombianos reunidos pela curadoria de Maria Iovino e que usam o desenho como técnica, mesmo quando constroem ou filmam.

Fiquei com as palavras “de forma abstrata ou realista”.

Lembrei de Borges.

Ele dizia que há três tipos de realismo:

- a narrativa de fatos significativos (a representação histórica, por exemplo);

- a utilização de linguagens tipificadas (o primitivismo, por exemplo);

- a descrição de detalhes insignificantes (o bordadinho de uma toalha na pintura holandesa, por exemplo).

Ele detestava os três.

Já eu, que gosto do terceiro, acho que em desenho só há a possibilidade de realismo. Ou você desenha alguma coisa ou desenha o processo de desenhar. Isso porque não há outra técnica tão próxima da fenomenologia do instante de sua fatura como o desenho. Então não há escape. Nem chega ao símbolo, à substituição. Fica no indicial, no vestígio. Falho, frágil e imperfeito, o desenho chega perto do seu contrário, a “perfeita” representação de uma foto que também, do mesmo modo mas ao contrário, retém nela algo além – ou aquém – de seu assunto registrado.

Mas o desenho ganha. Menos que eventuais figuras, identificáveis ou não, o que está lá é um campo de forças, com seus nós processuais. São processos contínuos de identificação. Nós – agora no outro sentido da palavra, o pronome pessoal. O desenho é nós: eu e você. O desenho é sempre um devir, um inacabado. Existimos, tanto quanto os desenhos, pelo que não está lá.

Tem mais uma coisa a me atrair nessa, ok, técnica (eu podia falar nessa vida). É o espaço em volta. Desenho fica sempre meio solto, incapaz que é de ocupar totalidades. E nessa soltura desarvorada há o tempo desistido, ou melhor, sonhado, do caminhar até a borda. Um dia.

E é aqui que eu volto para a Vermelho. Essa galeria, grande, com várias salas, deu um ritmo aos desenhos.

Por exemplo, os que foram feitos nas paredes, escorrendo para o chão, e com amplo caminho de aproximação.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - Carlos Bonil – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

Carlos Bonil usou um fio elétrico para fazer sua lâmpada antiga, grudada na parede. O fio termina como termina o objeto desenhado: em uma tomada. O que faz da parede uma parede. O que faz do mundo um suporte de desenhos a serem feitos e refeitos, mesmo quando já estão lá, como os fios elétricos que entram nas paredes.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - Ícaro Zorbar Sánchez – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br   exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - María Isabel Arango – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br   

Ícaro Zorbar desenha uma pilha de aparelhos elétricos na parede em frente. Seu fio, esse de tinta, se enrola pelo chão como se de tinta não fosse. Na sala perto, María Isabel Arango mostra sua A personal geography – cubos cuja tridimensionalidade inclui o chão e o ângulo de aproximação do fruidor. Em outra vertente, mas parecida, está Luis Hernandez Mellizo. Ele cavouca o suporte. Sua linha pode ser desenhada ou pode ser a linha real dos limites de uma superfície mais profunda.  Diana Menestrey Schwieger , no Dist-ansiando, faz um vídeo de animação. O fio, vivo, determina ele mesmo sua relação com o entorno.

São exemplos de quem não vê lá muita diferença entre um desenho e os indícios de mundo nele contidos.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 -  Andrés Ramírez Gaviria – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

Também em vídeo, Andrés Ramirez Gaviria, explode uma janela de vidro. O desenho, aqui, dura os segundos que os cacos levam para cair, dentro da moldura de madeira da ex-janela. Só uns segundos, e são tudo.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 -  Pedro Gómez-Egaña – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

Pedro Gomez-Egaña me fez rir com a relação entre seus papeizinhos recortados e montados em arame e a arte cinética dos modernistas, com todo seu aparato tecnológico da época. A simplicidade rindo de quem não a conheceu.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - Teresa Berlinck – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

A instalação de Teresa Berlinck assume a não completude inerente à técnica do desenho. Chama-se Hortus Conclusus e não tem nada de concluída.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 - Natalia Castañeda – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br   exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 -  Mónica Naranjo – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

Natalia Castañeda fez um livro que se desdobra, o Hilando Vientos . É a mais tradicional – ou romântica – deles todos. E Mônica Naranjo, com sua Berlin half-stories, escapa do tradicionalismo de uma seqüência em quadrinhos ao quebrar a obviedade da junção de suas imagens e frases. Gostei muito de uma: “waiting to happen“. Achei que era uma boa maneira de ver a obra dela, uma polissemia que espera pela eclosão de sentido, a cada recepção.

exposição asimetrías y convergencias, Galeria Vermelho 2009 -  Angélica Teuta – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás – ww.aguarras.com.br

E por falar em retardo de conclusão. A obra de que eu mais gostei é a de Angélica Teuta, Decoración para espacios claustrofóbicos. Eu já havia visto algo parecido. Na Paralela da Bienal de São Paulo, ano passado, Nicolás Robbio – um argentino que mora no Brasil – usou o mesmo processo. Trata-se de um retroprojetor que joga em uma parede cega alguma cena. Angélica Teuta fez um desenho em estilete em cima de uma folha de acetato. Pôs um recortado de papel que imita árvore por perto. E pendurou um lacinho de linha que, ao se balançar, fica parecendo um aviãozinho. Na parede, essas coisas formam a vista de uma janela que não está lá. A claustrofobia, portanto, se apresenta como algo que uma ilusão pode resolver. Mas a claustrofobia também pode ser resolvida com a quebra de uma ilusão, outra ilusão: a de origem, começo. A janela de Teuta não tem origem. Não há um “original”, sequer um referente. Há coisas que por acaso se juntam e se separam, ventos a balançar aquilo tudo. Sabendo-se fluido, o claustrofóbico pode olhar por horas uma parede cega, sem problemas.

Acredite em mim, sei do que estou falando.

Ligar mulher e água é lugar-comum que encontra desculpas abundantes. Por exemplo na frase: a nossa atual percepção fluida de identidades faz parte de uma grande feminilização do mundo. Em geral concordo. Mas costumo dizer de outro modo. Não é atual. Não para nós. Estávamos, como sempre estivemos, léguas lá na frente, esperando que o resto do povo descobrisse a pólvora. É. Somos fluidos mesmos. Bidu. Nós, mulheres, já sabíamos disso e exercitávamos tal fluidez há muito tempo, desde que começamos a existir, e, justamente, porque não há começo em mecânica dos fluidos, isso quer dizer há muuuito tempo – tanto que vira futuro. Lembre da ameba na sopa de estrelas, lembre de estrelas.

O bom na exposição Onde a água encontra a terra, do MASP, é que a curadoria foi além do lugar comum. O curador da mostra brasileira é Paulo Herkenhoff, que pegou o bonde andando a partir das escolhas feitas por um dos fotógrafos participantes, Carol Armstrong. Um ou outra botou uma pitada de política de gêneros na história e, com isso, escapou dos binarismos prevalentes em discursos quejandos.

Corpos d'água - Carol Armstrong – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASP  Mar e areia - Carol Armstrong – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASP  A barragem - Carol Armstrong – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASP

Carol Armstrong sai do confronto água x terra de três maneiras. Na série A barragem há a rigidez masculina – com as engrenagens de ferro de uma pequena represa em primeiro plano – a impedir o movimento da água que é apenas uma citação de fundo. É um masculino cansado, esse aqui. A parte dura do tema está esburacada, enferrujada e, principalmente, tem formato circular e é furada. É um masculino que desistiu de ser masculino, e que fica vendo a água passar a seu lado, mansa, é verdade, mas sem parar. O segundo não-confronto – ou confronto já resolvido, posto no passado -  é o da série Mar e areia. Não é um mar e uma areia. É tudo embolado, em um coito empapado, de terras que deveriam ter formas nítidas mas que se amoleceram e moles ficaram desde a última maré. Por fim há a série Corpos d’água, que são várias ofélias semi-afogadas a olhar direto para a câmera, irônicas. Zeca Pagodinho, recém-chegado ao bloco da fluidez, acha que é so deixar a vida levar. Shakespeare, mais sábio – ou mais feminino – sabia do que fluidos são capazes.

E aí vem em mais um aspecto dessa mostra, que é a verticalidade aquosa. Explico: água, sim, mulheres de uma certa maneira somos todos, que remédio. Mas pelo menos exigimos a verticalidade.

Entramos nos dois outros fotógrafos da exposição. Os homens Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy.

Union Square - Fernando Azevedo – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASPFernando Azevedo, na série Union Square, faz com que suas águas reflitam os sólidos. As manchas sem forma definida de poças passam a incluir os perfis verticais de quem passa perto. Em outras séries há garrafas. Copos. Em pé. No meio da foto. E na série Montauk, o horizonte estável – e horizontal – de céu em cima e mar embaixo tem seu movimento – uma ondinha embaixo e uma nuvem em cima – controlado por outro movimento, o do fotógrafo. Trata-se de um tríptico. Em diagese, é a presença do fotógrafo – estática, rígida e duradoura – na frente da paisagem o verdadeiro motivo da série.

Randazzo - Leonardo Kossoy – imagem do catálogo da exposição, reproduzida com a autorização do MASPKossoy, por sua vez, põe muros em frente ao mar, falésias ou, antológico, o bico de um peixe espada, cabeça cortada, mirando o alto, junto a bitucas de cigarro jogadas do mesmo alto para onde seus olhos mortos se dirigem por toda a eternidade. Masculino e morto.

Vi a exposição de Vera Chaves Barcellos junto com um grupo organizado pelo departamento de educação do MASP e guiado pela própria artista. Tive uma mesma impressão a respeito dela e de sua exposição. Algo a respeito de como ela lida com o tempo – o dela e o de suas imagens. A exposição, aliás, se chama Imagens em migração e é um título perfeito. Pois Vera pega fotogramas de filmes antigos, fotos dela mesma ou que ela recortou de revistas e, depois de muito tempo, trabalha nessas imagens para fazer suas instalações. E Vera, ela mesma, parece se ver da mesma maneira, em migração permanente.

Vera nasceu em 1938. Esse é um assunto que me interessa pessoalmente. Nasci nove anos depois, o que, na nossa idade, não faz mais diferença alguma. Costumo notar que as pessoas que fogem da velhice o fazem de duas maneiras que é uma só, a da representação, interna ou externa, da juventude. Exibem essa representação de juventude através de tintas de cores vivas – nos cabelos ou bochechas – jogadas em profusão em cima de uma tela que precisa ser esticada sem parar, e que é o rosto, peito ou bunda. Ou atuam – em palavras ou gestos – a mesma representação, dessa vez de um “interior”, de uma “cabeça jovem”.

A artista é uma mulher bonita de cabelos grisalhos e que não se preocupa em atuar ou representar absolutamente nada. Ela não representa, assim como suas imagens também não representam, pois são atualizadas e parecem sê-lo sem cessar. As datas das obras, aliás, indicam isso, com seu largo espaço de tempo entre o que foi considerado o início – e uma temporária conclusão.

Na palestra, Vera especificou o que entende por atualização, ao falar da sua preferência pela fotografia como material de base. É que a fotografia não pode ser corrigida – só atualizada. Permanece, embora diferente. O interesse está no processo, na fatura.

As instalações de que mais gostei:

Epidermic Scapes (1977-1982). Falei do tempo. Pois a migração também se dá no espaço. Nessa instalação, que ocupa boa parte do chão no subsolo do MASP, há imagens ampliadas de epiderme, obtidas por monotipia. Ampliados, fora de sua relação habitual com o espaço, esses pedaços de pele com pelos já são outra coisa.

The birds. Os fotogramas do filme de 1963 de Alfred Hitchcock foram atualizados por Vera em 2001. Aqui, eu quis ver um comentário irônico da artista sobre o conceito platônico, de uma verdade imutável a ser representada ou buscada. É que os fotogramas escolhidos mostram imagens que o olho humano não vê. Passagens muito rápidas, movimentos não perceptíveis. É como se dissesse que o passado tão avidamente perseguido para que fique lá, cristalizado, não é de fato o passado real. A juventude não é essa, nem era aquela.

A série Retratos, em que mulheres são vistas de costas, me passou a mesma ironia sobre a vacuidade dessa busca.

O curador-coordenador do MASP Teixeira Coelho e a artista Vera Chaves BarcellosA instalação de que mais gostei foi Dones de la Vida. Nomes de mulheres em placas na parede. No chão, retângulos/túmulos com imagens de flores em backlight. Ao lado, penteadeiras com luvas femininas cheias de pó. E com livros ilegíveis, pois feitos de mármore. E um hexágono na forma de uma antiga dobradura infantil em que as faces da figura geométrica escondiam palavras-chaves para a vida particular da participante do jogo. O hexágono é grande, não operacional. É tudo morto, um ideario feminino antigo – e morto.

Essa instalação me traz para minha última impressão da exposição. Na palestra, Vera havia falado da arte política. Pelo que disse, parece não ver muito sentido na expressão. Se o procedimento é bom, ou seja, se for arte, é arte. E política. Gostei da colocação. Concordo com ela. E a arte de Vera é política. Nem precisa ser o Memória de Barcelona, em que fotos mostram muros pichados com frases como “El capital es el unico delinquente“. Ou o vídeo “No a la guerra” (2003 – 2007) em que bofetadas virtuais no rosto da artista se alternam com imagens da Guerra do Iraque. Pode ser a muito simples Keep Smiling. São só pessoas sorrindo de frente para a câmera. As caras duras, imóveis, com seus sorrisos, nos dão um enorme mal-estar.

Vi a exposição da Sophie Calle e li um de seus livros. Esse texto é sobre ambos. E é sobre o que me parece ser uma violência epistemológica.

Douleur exquise, de Sophie Calle, Éditions Actes Sud, 2003A exposição é Cuide de você/Prenez soin de vous, no Sesc-Pompéia.

O livro é Douleur exquise, Éditions Actes Sud, 2003.

Na exposição, ela apresenta 107 reações de outras pessoas a um e-mail de rompimento de seu amante.

No livro, ela apresenta 99 relatos de dor de outras pessoas, que se contrapõem à dor de um telefonema de rompimento de seu amante (outro amante).

Na exposição, a voz do outro é só de mulheres – identificadas e com suas profissões indicadas. O amante também foi identificado. É o escritor Grégoire Bouillier.

No livro, o amante não está identificado e a voz do outro é de homens e mulheres igualmente. Eles também não estão identificados, embora haja fotos de alguns, além de detalhes de suas vidas pessoais. Os relatos “assinados” por Calle, sobre o telefonema de rompimento de seu amante, vêm acompanhados de uma foto do telefone vermelho em que tal telefonema se deu.

Esse livro, sobre esse outro amante, (“M.”), é dedicado ao primeiro amante, Bouillier. Me pareceu um agradecimento e uma homenagem por ele ter-lhe indicado, mesmo contra sua vontade, um caminho artístico, uma receita de sucesso. Esse livro, de todos que ela escreveu, e essa exposição, de todas que fez, estão ligados. São frutos de um mesmo processo.

Esse processo é o de impôr um registro poético autoral sobre a voz do outro. Calle se apropria de um “eu” alheio, oferecendo-o coberto por sua própria estética, sua própria ficcionalização do real. Mas o apresenta como sendo o real. No entanto, como não podia deixar de ser, ela faz uma ressignificação. Pega uma cosmologia alheia e a insere em seu próprio sistema de significação. O problema não está em ela fazer isso. Todos nós, criadores, fazemos igual. O problema é a apresentação dessa voz do outro como sendo real. O que ela nos dá – e essa é a única coisa que ela pode nos dar – é uma verdade sua pessoal. Não é a verdade factual. Ela mente ao dizer que aquele telefone vermelho é o telefone vermelho real em que se deu um telefonema de rompimento (mesmo que seja); ela mente ao dizer que a fulaninha de tal falou tal coisa a respeito do e-mail de rompimento de seu amante (mesmo que tenha falado); ela mente ao dizer que a reprodução fotográfica do e-mail é o e-mail real (embora seja).

Falta sempre o entorno, o contexto, o resto todo do real – inconcebível, inapreensível e incompreensível. Em toda representação artística do real, o real estará ausente. E é por isso mesmo que o representamos e o representamos outra vez. Para dar a ele sentidos. No plural. A obra de arte, para sê-lo, terá de ser polissêmica. E aqui vai mais uma restrição ao trabalho de Calle. Polifonia – ainda mais falsa – não é a mesma coisa que polissemia. Desculpe ser tão banal. É que o engano também é banal.

Agora a questão do poder.

Ao se apropriar da voz do outro – seja esse outro uma das testemunhas de acusação arroladas no livro/exposição/tribunal, sejam os amantes tornados objetos – ela submete a dor do outro à sua própria. Eles vêm em segundo plano.

E essa é exatamente a acusação que Calle faz a seus amantes. Que eles puseram suas dores em primeiro plano, esquecendo a dela. Ela faz o que a eles imputa.


P.S. Na exposição, das 107 mulheres convidadas a dar sua opinião, duas criticaram Calle sobre o uso que ela fez do e-mail.

Sem ser convidada, me ponho como terceira dessa fila.

Não entendi.

Percorri a orla do Rio e, de tantos em tantos passos, lá estavam as estruturas de ferro com painéis enormes (10 metros de altura, quatro de largura, com quatro lados cada uma) mostrando, mostrando o quê? Pois é. Índios, negros, garotos de rua, imitação de pixação, ícones pop, tudo num clima assim, politicamente correto, assuntos da atualidade, sabe como é?

fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA praia do Rio tem estrutura visual de linhas verticais e horizontais. Você olha e vê vários retângulos (os edifícios) em pé. E tem o mar, deitado. Os painéis repetem essa estrutura. Aí você pensa: ah sim, integração. Mas não. As figuras são enormes, te afrontam em seu tamanho sobre-humano. E me incomodou a tipificação. Imitação de pixação?! Índio?!

Me passou haver uma necessidade de classificar, explicar. Ó deus, alguém avisa que já tentaram antes e não deu certo?

Depois eu pensei: não, sua idiota, é que a curadoria quis levar para a orla, zona nobre da cidade, imagens de sua população mais pobre. Mas só se o curador Jéremy Planchon não conhecer nada da cidade. O Rio tem essa enorme – e talvez única- vantagem: morros e bairros ricos não são separados por quilômetros de distância. Pelo contrário.

Mas Planchon conhece a cidade. É francês radicado no Rio, onde tem uma agência de fotos para fins publicitários. E, bingo, lá está a explicação. As imagens tem aquele acabamento perfeito da imagem publicitária. Repito: imitação de pixação!!! Perfeitinha!!!!

Trata-se pois de publicidade. Vendendo o quê? O racionalismo francês, ora.

Bem, boa sorte.

fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásOs artistas: Blek le Rat faz pixação em Paris e se inspira em personagens dos escritores Françoise Sagan e Paul Eluard (!!!! – e vou parar com os pontos de exclamação para não quebrar a tecla do meu note). Willy Bihoreau é ecochato francês (desculpe o pleonasmo) e faz denúncias. Jerk 45 sonha com um mundo melhor. Ned também. Stéphane Carricondo gosta de analisar seu “outro” que, no caso, somos nós, os brasileiros. Vincent Rosenblatt também gosta. O “outro” dele preferido é o frequentador de baile funk. Ele acha fascinante. Mambo é designer e, para quem me conhece, não preciso dizer mais nada.

São 20 painéis. Um dia eles somem.

Não vi toda a edição da Verbo. Não deu.

Como em 2008, agora também o festival anual de performances, organizado pela Galeria Vermelho, contou com uma discussão teórica. Um dos palestrantes a que assisti foi Renato Cymbalista, arquiteto e urbanista da USP. Em outro dia, a convidada foi Cristiane Paoli Quito, coreógrafa do grupo Nova Dança.

Falaram sobre as margens da performance, seus limites – ou melhor, sua permeabilidade.

Os dois passaram batido pela definição de performance. Não vou me dar a esse luxo. Mesmo com seus cem aninhos de existência, acho que ainda tem de explicar. Já vi muita gente olhar aquilo com cara perplexa.

Performance transforma um espaço através de uma ação corporal. Pode ser espaço privado ou público. Físico ou apenas simbólico. Você constrói sua relação com o espaço de uma determinada maneira e vem uma performance para obrigar você a mudar tudo. Como moramos em cidade, que é coisa que muda todos os dias, a performance acaba servindo de exercício para que se possa aguentar um cotidiano que não permite enrijecimentos, sob pena de te expulsar da vida. Ou de casa.

Mais algumas coisas. Performance pode ser ‘site specific’ – quando a modificação é dirigida a um espaço determinado. Performance transforma fato em acontecimento. Performance exibe a ficcionalização que existe em qualquer construção do ‘real’. Performance colabora com o tensionamento inerente à construção ininterrupta do urbano.

A partir daí, Renato Cymbalista divertiu-se muito ao demonstrar que, ao lado de artistas performáticos, outras performances aconteciam no tecido urbano. Começou falando que as cidades medievais se formavam em volta das igrejas – local em que se enterravam os mortos. E que, aos poucos, os mortos foram sendo expulsos para a periferia. Hoje só mortos especiais podem ‘morar’ dentro das cidades. E, qual artistas performáticos, modificam o espaço em seu entorno para aqueles que os cultuam. Deu como exemplo o túmulo do Frei Galvão. Foi divertido ouvir os performáticos da mesa (Lynn Harris do Unreleased Project; Cristiana Ceschi e Beatrice Carvalho, do As routes) se depararem com essa concorrência vinda do além.

Cristiane Paoli Quito mostrou um vídeo de seu grupo. Falou sobre a improvisação teatral e suas falácias. O improvisador (uma das margens da performance) improvisa sempre pouco, pois já carrega em si um acervo de proto-narrativas. Falou mais: que improvisar é primeiro construir um código, para depois rompê-lo. Disse que o que faz são espetáculo abertos em tempo real. E que o que almeja é palco e mentes vazios para que o espaço fale. E falou uma frase que eu tomei nota: a narrativa é um aprisionamento dentro de um fato.

O fato é amplo e amorfo. E você escolhe se fechar em uma das linhas possíveis. Gostei. Me fez pensar que as possibilidades trazidas à tona por uma performance já estavam por lá. E o artista apenas pescou aquela, em vez de alguma outra.

Agora a prática.

Paraphernalia, de Nancy Mauro-Flude - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A apresentação Paraphernalia de Nancy Mauro-Flude é chatíssima e excelente. A artista passa um tempo enorme mexendo em osciladores de frequência. Isso gera aquele ruído exasperante de estática. Há vários no palco. Depois de muuiiiito tempo, ela vai para o microfone e interpreta a música The machines (de Jesse Darlin). Enquanto ela lida com os osciladores é uma pessoa. Quando ela canta, é robô. No palco, além dos osciladores, só a bolsinha de paetê vermelho da artista. É a única coisa que não emite som. Muda, a bolsinha grita sua automatização de um feminino estereotipado.

Body hit,de Anno Dijkstra - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Em Body hit, o holandês Anno Dijkstra fica nu no palco e, ao apertar um botãozinho, leva um ‘tiro’ de tinta dourada. Os pentelhos que já eram louros ficam cobertos de tinta dourada. Uma idéia para lá de estrangeira da nossa cotidiana e tropical violência urbana.

El dinero, de Los torreznos - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Los Torreznos são a dupla espanhola Rafael Lamata e Jaime Vallaure. O que eles fazem é falar. As palavras são as mais banais. O jeito com que falam, não. Na apresentação El dinero, citam nomes de multinacionais e seu patrimônio declarado. Tudo está no jeito como dizem ‘millones de dólares’. Em outra, da qual vi apenas o vídeo, falam o nome dos cargos públicos: deputado, prefeito, governador. Falam devagar, com um tom de profunda reverência. Só que vão subindo de posto até chegar a imperador e, depois, faraó. Você rola de rir. O conceito é profundamente político. Mas não são panfletários. Como disseram: o problema de fazer arte política é a polissemia da arte. Se você fecha em um só significado, adeus arte. Eles não fecham. Se fechassem, seriam comediantes. Como não fecham, são performáticos: fica no ar a demonstração de que uma mesma palavra pode significar coisas bem diferentes, a partir do jeito como é dita.

A maldição de Ford, de Daniel Fagundes - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Na saída, a mesma coisa só que diferente. Depois da porta, A Maldição de Ford, de Daniel Fagundes. Regente de uma orquestra de carros, ele comanda uma harmonia (?) de buzinas. Há uma ‘percussão’ feita de ronco dos motores. E há o solo de uma soprano que, na direção de seu carro, vai cantando ópera até apenas berrar, histérica, presa no ‘engarrafamento’.

Como sempre, muito bom. Que pena que não vi tudo.

Adriano Casanova, curador da Galeria Baró Cruz, apresentou mais do que uma exposição de vídeos/fotos. Redefiniu o que é uma galeria de arte em época de artes não vendáveis. E disponíveis – ainda mais no caso de vídeos e fotos – na internet para quem quiser.

Casanova, na Vídeo in foco / Foto in foco apresenta um pensamento, convida para uma discussão. A galeria de arte, ao contrário da internet, passa a ser um local de pensamento. Aqui, discute-se a divisão entre os que pensam a imagem a partir de outra imagem, uma “cena primitiva” por assim dizer, e os que tentam inseri-la em algum sistema.

Ao misturar vídeos e fotos, ambos com temas e processos parecidos, a exposição põe na mesa o processo de construção individual do que é visto. Não se trata da velha teoria freudiana de que você só consegue ver a partir de um acervo individual, a partir de um desejo, e dentro de suas limitações culturais. O que está em jogo é o depois. Uma vez apreendida a imagem – com todos os limites e liberdades de cada um, como você a classifica, em qual ponto da tensão entre “leis gerais” e “singularidades” você tentará arquivá-la? Aquela imagem é representante de alguma “cena primitiva” que foi presentificada pelo artista ou por você? Ou seu movimento se encaixa em alguma sistematização?

Seja com cenas (a imagem parada, mais propícia a produzir “essências”) ou movimentos (mais propícios a produzir sistemas de construção), você estará imerso no esporte preferido dos da nossa espécie, o de achar significado. Não qualquer significado. Mas um que ultrapasse os componentes da imagem; que se mantenha, uma vez repetidas suas condições de produção; e que possa ter uma “história”, ou seja, um significado que tenha já se iniciado em um “antes”.

Ou, terceira possibilidade. Você entende o mundo como uma sopa. Tensões que explodem em borbulhas – que são eu e você e mais eus e vocês. Tensões. Só tensões.

Cristiano Lenhardt – imagem: divulgaçãoCristiano Lenhardt (Brasil), logo perto da entrada, chega nisso de cara. Seu vídeo, com dois personagens, foi feito com stop motion. Na verdade são imagens paradas que dão a impressão de movimento. O título Retratante e retratado também mostra sua desconfiança em relação a definições, pois os dois papéis se alternam entre um e outro. E, o que mais gosto, a tentativa de comunicação dos personagens se dá por flashes, obturadores, disparadores, lentes. Quer dizer, para inventar cenas ou sistemas só temos, como matéria prima, a imagem da imagem. Quer dizer, estamos mal.

Toby Christian (Inglaterra) e Roberto Bellini (Brasil) – um o contrário do outro – são mais dois que vão direto ao ponto. O Throwing/Catching é de uma simpleza de dar gosto. Tela em branco. E, muito rápido, tão rápido que nem dá para ver, passa algo. Acho que uma pedra. Pedradas que você nem vê de onde veio. E a troco de nada, sem explicação. O Dark/Escuro é o igual-contrário. Tela escura. De vez em quando um flash de luz e uma cena que você não consegue ver. Detalhe: você escuta sons indistintos e, entre eles, o clic do flash. O que te faz ficar muito próximo. Se você chega para trás com a pedra, agora você tem vontade de chegar para trás porque tem alguém com poder de acender uma luz, sem explicação, e esse alguém não é você.

Monica Espinosa – imagem: divulgaçãoMônica Espinosa (México) ocupa toda a parede dos fundos da galeria. Seu vídeo, Six minutes, é ela sentada em um banco pensando em seus amigos, por seis minutos. Ela não se mexe quase. O que se mexe é o que não interessa: alguém passa de bicicleta, o vento balança folhas. O movimento sem finalidade narrativa.

Enrique Radigales (Espanha) tem o vídeo mais longo da mostra e o mais explícito, na discussão sobre imagens paradas, em movimento, imagens de imagens e o que vemos de tudo isso. Filmou seu ateliê. A luz entra pela janela e vai mudando a imagem dos objetos. A mesma coisa com os desenhos dos objetos.

Flamínio Jallageas (Brasil) mostra uma sala de jantar que não é uma sala de jantar. É uma projeção. Durante essa projeção, começam a sumir móveis, objetos, sem que você perceba o momento exato do sumiço. Lá pelas tantas, passa uma pessoa que não está na projeção. Está na frente da projeção, interrompe a projeção. Ela fecha uma porta da sala de jantar. E eu, na frente dessa pessoa, construo então uma narrativa a respeito de imagens que, no entanto, sumiram na minha frente sem eu perceber.

Daniel Athayde – imagem: divulgação

No andar de cima da galeria estavam as fotos. Ou quase-fotos.

Michael Wesely – imagem: divulgaçãoAna Teixeira (Brasil) faz uma sequência. Um corredor de hospital que vai ficando vazio à medida que a noite chega. Lina Kim (Brasil) mostra cenas tropicais. Verdade? Não. É uma praia artificial, vegetação em estufa. Você não vê o que você vê. A manteiga de Jorge Menna Barreto é uma realidade que derrete na sua frente. A Série Pantone de Erica Bohm (Argentina) uma paisagem que mal se vê. Daniel Athayde (Brasil) traz naturezas para lá de mortas: legumes murchos, nuggets velhos, balas frutella desembrulhadas. E Michael Wesely (Alemanha) fotografa uma paisagem em movimento. O resultado é que você só vê, das coisas que passaram, linhas horizontais. As coisas foram embora, só deixaram um rastro – inventado por você.

Lista completa dos artistas:

Camila Esposati, Cristiano Lenhardt, Flaminio Jallageas, Roberto Bellini, Raquel Kogan & Lea Van Steen, Ana Teixeira, Claudia Jaguaribe, Daniel Athayde, Gui Mohallem, Jorge Menna Barreto, Lina Kim, Laura Erber (Brasil),  Cristian Segura, Roberto Jacoby, Alejandro Chaskielberg, Erica Bohm, Nicola Costantino (Argentina), Wilfredo Prieto (Cuba), Michael Wesely (Alemanha), Toby Christian (Inglaterra), Titouan Lamazou (França) Enrique Radigales (Espanha) e Monica Espinosa (México).

Tenho prazeres secretos. Um deles é quando vou a coletivas de qualquer tipo – bienais, festivais e outros ais. Fico descobrindo elos a ligar os artistas. Inventando, aliás. Porque eu não precisaria descobrir nada, elos em geral me são berrados na cara. Aqueles artistas estão juntos porque têm mais ou menos a mesma idade (“novíssima geração”), se debruçaram sobre um mesmo tema (“arte erótica”) ou são os colegas de FAAP do curador.

No caso do 18o Encontro de Artes de Atibaia, os 35 artistas – de 281 inscritos – foram selecionados por um júri (Maria de Fátima Couto, Renata Maia Zago e Sylvia Furegatti).

Marta Masiero - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Eu pensava em Pina Bausch, morta havia poucos dias. Pensava em como ela, formada em balé clássico, havia mostrado a impossibilidade expressiva do balé clássico. Em seus movimentos truncados bruscamente, em suas repetições maníacas de detalhes de posicionamentos tradicionais, ela dizia: não dá mais. E fazia isso tão bem que entrava em contradição: o não dá mais (para exprimir algo com o corpo humano a partir de uma técnica tradicional) era expressivíssimo.

Daí entrei no Centro de Convenções de Atibaia procurando corpos humanos que fossem mais ou menos realistas, que estivessem lá para exprimir algo que não é mais expressível. E, como sempre que você procura algo que quer encontrar, acaba achando.

Bárbara Schall (de Nova Lima) fotografa ela mesma submersa, e o líquido a desfaz. O título também é bom: “Sobre o peso do meu corpo“. Poderia completar: como me representar a partir do peso da representação? Só me desmanchando.

Gilio Mialichi - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Gilio Mialichi (Limeira) faz bonequinhos em uma linha frágil, hesitante, usando os cantos de uns papéis que já viram dias melhores. É um tipo de desenho que já foi considerado “feminino” no século passado e que hoje é considerado apenas muito bom. Ou porque o mundo se tornou todo ele mais frágil, ou porque “feminino” não quer dizer mais nada, ou ambos.

Nessa mesma categoria de desenho frágil-forte estão muitos artistas da mostra. Paula Ordonhes (São Paulo) com seu “Paliativos“, também um bom nome; Raquel Lima (Porto Alegre), que costura – com linha de sutura cirúrgica – suas representações em estado terminal; Flavia Tonelli (Campinas), em quadrinhos de composição impecável mostrando cantos de paredes, fins de corredor. E Bia Bittencourt, Carla Chaim e Marlene Stam (todas de São Paulo). Stam faz com que paredes se tornem vivas apenas através de pregos. Uma vida descoberta pelo negativo, pelo ferimento.

Vitor Mizael - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E, parecido mas diferente, Vitor Mizael (São Paulo). Eu já havia encontrado, e gostado, desse artista no XII Salão Paulista de Arte, ano passado. Faz roupas, em geral camisas sociais masculinas, sem ninguém dentro. Adoro. E ainda escreve umas coisas que ninguém lê. Então, não só não tem ninguém, como esse ninguém escreve coisas que ninguém lê. É muito bom.

Ivana Soares (Niterói) apresenta documentos de identidade velhos ao lado de fotos velhas. Nem vou explicar a força de uma apresentação que parece só ser possível em um passado longínquo.

Jaqueline de Jesus - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Jaqueline de Jesus (Atibaia) fala sobre estar viva e sobre uma “calma que não condiz com a nossa pressa”. E prova. Sua instalação de parede é feita de forma lenta, letra por letra.

Leandro Figueiredo (Sete Lagoas) não faz pessoas. Não chega lá. Faz os instrumentos que fariam ou desfariam pessoas. Sua água forte representa um esmeril, uma máquina de triturar, uma anunciação.

Marcela Tiboni (São Paulo) como que desiste da representação contemporânea e representa a representação da época em que isso era possível. Em “Meus mitos” há fotos de fotos, de pinturas famosas, antigas.

Maringelli - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A figura humana na xilogravura de Maringelli (São Paulo) reencena uma dramaticidade suja, antiga, de textura pesada. Uma indignação puxada da memória, atuada mais do que vivida. Quase uma saudade da época em que vivíamos.

Matias Picón - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Matias Picón – que já fez ponte em exposições com artistas uruguaios – faz colagens imensas, com letras, formas de bichos, cores, tudo misturado, ei, aquilo lá é uma silhueta humana? Não.

Nilson Sato (São Paulo) apresentou um trítico: nos dois primeiros painéis, pingos de tinta; no terceiro, uma velhinha olhando. Parecia meu retrato. Eu (ok, um pouco mais velhinha), olhando um festival de arte e vendo corpos humanos em pingos de tinta.

Angella Conte - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Pois os vi mesmo nas bacias boiando no lago do parque da cidade. Angella Conte (São Paulo) fez uma intervenção em que domestica (no sentido de trazer para a esfera doméstica) a fantasia de “natureza” do parque. Bem bom. O homem não tem uma existência que seja representável claramente. Ok. Mas a natureza também não. Precisa de aspas.

Jô Barban - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E também vi o preto de Jô Barban. Pois o preto não é bem preto. Olhei bem. Cheguei bem perto. No tato dá para perceber. Uma textura aqui, outra ali. E quando a luz bate, e se for a luz certa, dá para ver que há vida lá, no preto.

Bebaprafrente (um nome bossudo de dois artistas paulistas, Bruno Baptistelli e Gustavo Rossini) traz o cenário como impedimento. No salão da exposição apenas o registro de suas intervenções. Uma escada interrompida; restos de construção colocados em pé, cortantes; fios elétricos no meio do caminho. Um não-ir prafrente, bebendo ou não.

Evandro Prado foi muito admirado. Pessoas faziam oh! frente às suas obras. Já eu, vi lá uma ironia. São imagens em grandes dimensões do barroco brasileiro (um cristo, umas sancas). As imagens são feitas por oxidação. O barroco usou ouro, metal incorruptível (daí dentes e alquimia, igualmente). Evandro Prado faz suas cópias barrocas através de uma corrupção, a ferrugem. Ataca, assim, a noção do sagrado, do perene. Fala de um fim.

Das outras obras expostas no Festival, não gostei. Seja porque mostram uma sedução por jogos geométricos de um formalismo em que não acredito, seja porque me pareceram apenas brincadeiras divertidas. Ou foi porque ao vê-los não os vi, distraída com a Pina Bausch.

No release, disseram que a pintura de Alejandra Icaza (Galeria Fortes Vilaça), continha referência a Matisse. Fui lá ver.

Meu interesse não era exatamente Matisse, mas o que ele fazia quando havia guerra. Viveu muito. Pegou as duas guerras mundiais. Assim que a coisa estourava, ele ia para a costa mediterrânea e lá ficava, desenhando florzinha. Eu já soube quantos desenhos de florzinha ele fez, não sei mais. Centenas. Todos iguais. Durante as guerras ele pintava também. A vista da janela, o piano, a mulher dele nua, e mais florzinhas.

Acho meio fascinante isso, um cara ficar fazendo florzinha com a carnificina comendo solta, ao lado.

E como acho que também estamos em uma espécie de guerra, quis ver as florzinhas de Icaza.

Tomates de mar, de Alejandra Icaza - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásDe cara, vi uma diferença. Icaza usa um processo de chegar na cor, que foi o processo tradicional, empregado durante séculos pela arte representativa européia. Você parte de um valor médio qualquer e vai “puxando” para cima e para baixo, quer dizer, para a luz e para a sombra, até chegar no maior valor possível de cor – e de contraste – para aquela composição. Raramente você chega ao branco puro ou ao negro puro, considerados “becos sem saída” do jogo de cor. Icaza também não chega. Quer dizer, chega, mas tem um truque para conseguir uma sobrevida a esse fim de caminho. Para estender o ápice de luz, ela emprega espelhinhos. Para estender o ápice da sombra, ela arranha a superfície da tela com uma ponta seca. Ou seja, para a luz, ela diz: tem mais luz, muito mais, fora da tela. Para a sombra, ela diz: tem mais camadas, muito mais, atrás do fundo absoluto.

Vegetalia, de Alejandra Icaza - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMatisse não partia dos valores neutros. Pelo contrário, usava alegremente vermelhos e verdes como ponto de partida, com pretos e brancos tão achatados quanto todo o resto, em suas superfícies coloridas.

Em Icaza as camadas são mais aparentes. As que se acumulam, de tinta ou colagem, e as que vão para trás, com o furo do estilete ou ponta seca. As camadas não formam uma profundidade espacial. Formam um registro temporal. Comecei aqui, segui, pus mais isso, furei.

Japanese flowers, de Alejandra Icaza - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMas florzinhas todas elas são. E Icaza, tanto quanto Matisse, não está preocupada com elas. É a feitura o que parece atrair ambos. É a ação de formar sinuosidades sobrepostas. A alegria de passar o pincel (ou, nas obras em papel, o grafismo preto do nanquim ou do lápis), ir esfregando-o contra a tela. Florzinhas são. Só mais um tapa na cara das guerras. Poderiam não ser. Em algumas das obras, a artista parece parar antes dessa caracterização, com telas sem título.

As que fotografei tinham título: Vegetalia, Japanese flowers e Tomates de mar. Todas feitas nesse ano de 2009, pós-crise, pré sabe-se lá o quê, e na guerra perene que é a nossa na contemporaneidade.

Leandro Erlich desestabiliza por três vezes a idéia que eu e você temos de casa, na sua exposição na Luciana Brito Galeria.

Você pode pensar. Se pensar vai perder uma parte da arte dele.

Primeiro perdendo, então, para depois largarmos pensamento de lado e permitir a modificação nos atingir, simplesmente.

A mais óbvia das três instalações é a que mereceu mais destaque. Você sobe (ou será que desce?) uma escada apoiada em uma janela pendurada no vácuo, com seu pedacinho de parede falsa.  A janela é do tipo antigo, com vários panos de vidro, a parede também é, com tijolinhos. A escada é de alumínio, bem moderna.

A segunda é uma porta de madeira grossa, antiga, que levou um golpe de uma bola de ferro e se quebrou. Só para mostrar que atrás dela tem outra porta – comum, atual.

E a terceira é uma falsa clarabóia em backlight, por onde passam nuvens em céu azul. Por onde passa o tempo em um varejo visível que se contrapõe à passagem do tempo por atacado, não visível, das duas primeiras.

Brunelleschi, na sua Santa Maria del Fiore, faz um jogo de espelhos para que as nuvens do céu sejam vistas no lugar destinado ao céu em uma pintura sua. Era a Renascença e era a invasão da representação do real na, até então, arte fortemente ideológica/religiosa anterior. Erlich faz justo o contrário. Sua clarabóia, no meio da galeria de dois andares, é necessariamente vista como artificial. O fascínio é porque é artificial. Um céu possível em algum momento em que céus não são mais possíveis.

Da mesma forma, aquela porta quebrada criou outra, por trás, fez brotar outra, depois do trauma. E a escada é uma entrada (prefiro subir) para outro tempo.

A sua desestabilização é tempo-espacial. Forte paca.

Ou você pode só ficar lá, olhando para cima as nuvens de mentira passar, até ficar com o pescoço duro. Ou se permitir a sensação de usar a escada. Só isso. E sair de lá diferente de quando entrou – também aceitando o tempo, como o artista o aceita.

Na mesma galeria há outra instalação, essa de Fabiana de Barros e Michel Favre. Também desestabiliza o ambiente. Aqui, 240 ms de fio elétrico formam uma teia de aranha. Essa teia te prende – quer dizer, prende a tua imagem – assim que você se aproxima. Se você para, você é “comida” pela instalação. É um bom jogo com a arte de Erlich. Em um, o tempo presentíssimo. Em outra, o tempo paradíssimo.

A exposição coletiva de grafismos, na Monica Filgueiras, complementa o que eu disse no último artigo, sobre a maneira de Marcelo Zocchio (em exposição na Vermelho) ser realista.

Aqui também os artistas representam a representação, e aqui também essa representação representada traz um afastamento, um mal estar em relação ao que seria um referente real – se é que dá para usar, ainda, tais termos.

Na Monica Filgueiras são números, letras, linhas escritas de um texto que não existe de fato, que apenas dá a impressão de ser um texto. Cinco artistas e 23 obras.

Se ainda estivéssemos no modernismo, receberíamos essas obras com a assumpção de que seu significado nos é ocultado por alguma espécie de código, uma simbologia que nos exclui mas que, sim, existe. Em termos formais, seria uma reação à superfície da tela, à perda da narrativa e da profundidade que a arte da época experimentou. Descrevendo a situação o ponto de vista do receptor: Sim, isso daqui (a obra) é tinta sobre tela (ou seja lá o que for sobre o suporte que for) mas esse número/letra recupera um mistério, uma profundidade e uma história que não mais são possíveis no momento em que que sou obrigado a me manter na concretude e superficialidade da tela. Em termos não mais formais mas diagéticos, seria ainda um resto de esperança de transcendência. Assim: Esse número/letra que não entendo não me assusta pois acredito que está tudo certo no mundo, e que há uma ordem superior açambarcando tudo que vejo e vivo. Esse número/letra faz o maior sentido, mesmo que esse sentido  me escape porque, ser inferior que sou, não estou apto a participar dessa epifania.

Os códigos da vinci correm na verdade lá atrás. Fazem parte de um momento histórico já sedimentado, e anterior, ao dos que cavocam, arduamente, o caminho.

Em uma possibilidade ainda não tão difundida de um “hoje”, você não veria números e letras como parte de uma organização existente – e excludente.

Você vê como sem sentido mesmo.

Mas essa recepção, ao mesmo tempo que nega um significado, oferece outro, a partir mesmo dessa negação.

O significado é a ausência de significado. O significado é a ausência de um significado de um mundo que perdeu não só a transcendência, como também a imanência. Obsoleto no momento mesmo do presente. É esse o realismo desses grafismos. É essa a representação realista que eles não dão, do mundo como ele pode ser hoje apreendido.

Os artistas:

Gilberto Guimarães Bastos - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Gilberto Guimarães Bastos nos convida a um joguinho. Tentamos acompanhar, como nos clássicos testes de raciocínio matemático, as leis que regem suas sequências de números. Mas é irrelevante se há ou não tais leis por trás da organização numérica de seus quadrinhos. O olhar do fruidor não se mantém pelo tempo necessário para descobrir isso. Traz para a galeria a perplexidade de quem olha cenas da rua, igualmente incompreensíveis. Ou não importantes, de quem passa e esquece.

O olhar para a obra do Ozi repete esse estar na rua, até porquê ele usa materiais de artistas de rua.

Mira Schendel - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Mira Schendel ainda  tem uma formação mais tradicional de símbolos, como o do número 1.

León Ferrari - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

León Ferrari traz uma escrita em que nada está de fato escrito, mas que se escreve mesmo assim, inculcando sua fragilidade de linhas tortas e finas, sua inutilidade que insiste, que sobrevive. Um estar no mundo feminino ou marginal – os grupos não vistos, os que sobrevivem.

Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Raquel Kogan tem uns videozinhos em que palavras como “rever” e “reter” passam da esquerda para a direita ou vice-versa (em um “tanto faz” muito bom). Passam no total silêncio da galeria, para um nada/ninguém que nos inclui. E é dela também uns livrinhos de que gostei muito. Em evanescente tinta branca sobre fundo preto, as letras que não são letras somem. Ou, ao contrário e igualmente, estão inscritas a fogo, em uma permanência que vira o fio, pois no buraco aberto na página, elas na verdade não existem, são exatamente isso, um buraco. A artista usa um pirógrafo que fere, fura o papel pequenininho e irregular que, nos diz a assessoria, é feito a mão a partir de uma planta do Nepal. Mais fragilidades, inutilidades, efemérides em seu sentido etimológico e vernacular de acontecimentos efêmeros – ao mesmo tempo.

Kogan faz eco a Zocchio, que também fere seu suporte nos seus baixos relevos de estilete.

E Zocchio faz eco a esse grafismo todo, ao apresentar em tamanho grande os títulos tão sem sentido de suas obras (o nome, sempre um composto absurdo de números e letras, que é o nome dos objetos teconológicos que ele representa em suas obras). Os números e letras na sala da Vermelho são bem maiores do que as obras a que se referem. A dizer que quem lê, sem ler, CK3UX é quem de fato apreende o sentido dessa arte.

Marcelo Zocchio expõe muita coisa na Vermelho, mas eu fico com as 12 representações de objetos tecnológicos, sanduichados em acrílico e montados com folhas de papel escavadas.

Esses objetos representados são objetos que produzem representações – de sons, dados, texto. Impressoras, dvds, hds etc.

Marcelo Zocchio - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br Marcelo Zocchio - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Portanto, objetos que representam objetos que representam representações da cultura. O acrílico – que os separa do seu entorno – estabelece mais um eco desse jogo de representações, uma vez que sua transparência é modificada pela sua espessura, tornando-se quase um espelho duplo: de quem está na frente e do que está atrás.

E fico pensando nessa sinuca de bico que a arte enfrenta desde que o mundo é mundo – o realismo.

Há mais um detalhe nessa sala de Zocchio. É que, como os papéis são escavados, feridos assim em uma espécie de baixo relevo, o artista também insere, nesse seu pensamento sobre a representação – e sua obsolescência imediata – um viés perverso, de violência.

Mas vamos à obsolescência. E à imanência.

E a Gerhard Richter.

Esse artista do século XX pintava, como se sabe, fotos. Ele pegava fotos – portanto, objetos que continham uma representação – e representava esses objetos em pinturas hiperrealistas. Mas eram fotos fora de foco.

Aqui, são impressoras fora de uso.

Então, o que ambos os artistas nos dizem é de uma excelência artística – é perfeitamente possível haver realismo em arte – que se exerce a partir de um mundo não excelente: fora de foco, se você preferir o registro espacial (o de um referente que está sempre um pouco mais, ou menos, distante do ponto para onde você dirige o seu olhar), ou fora de uso, se você preferir o registro temporal (o de um referente em perene mutação, que só consegue ser apreendido quando já morreu).

Então, há um conceito, que é o da representação realista, aplicado sobre significantes cuja existência real nos foge. Com isso, seu valor de símbolo se torna necessariamente denunciado. E, por causa disso, seu valor de transcendência também vai para o ralo. Então, qual a imanência a que me referi antes?

A da violência. Ao representar um representante de um representado falho, Zocchio ainda mais do que Richter, nos diz que o que fica, o que se mantém para além da vida útil de uma impressora e dos textos que porventura ela reproduziu, é o papel escavado de sua obra. O que fica é a dor inculcada pela inutilidade da passagem. O que fica, como sempre, desse caminho de ida frustrado do conceito para o objeto ideal para o referente real, é o caminho de volta, que é a arte.

Ah! Nas paredes dessa sala de Zocchio estão inscritas as letras e números dos nomes crípticos desses aparelhos obsoletos que ele representa. As letras e números, pelo tamanho e posição, são, por si, uma obra artística também.

Marcelo Zocchio - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Mas de letras e números falo na parte II dessa reflexão sobre os caminhos do realismo em tempos de cólera.

A quarta edição do Rumos, do Itaú Cultural, veio com 45 artistas ou grupos de todo o Brasil. Fui lá ver e, como sempre, vou falar mais daquilo que gostei do que não gostei.

Elieni Tenório, de Belém do Pará, trouxe uns corpetes femininos, bem velhos, meio manchados de uso. Pôs na parede. Ficou uma composição geométrica, mas com o rastro do vivido. Achei bem bom e me lembrou outro artista, este consagrado, de que gosto bastante, o Daniel Senise. Ele também faz construções geometrizadas com carradas do vivido, do humano.

Julia Amaral, de Florianópolis, fez umas jóias muito bonitas, pequenas, preciosas. Mas representando insetos peçonhentos, pequenos animais mortos. Ela me fez lembrar Nazareth Pacheco, que também, com sua arte sedutora e perigosa, nos põe de frente com a questão da sedução do olhar. Um aviso sobre para que serve mesmo o ‘bonito’.

Felipe Cohen, de São Paulo, pôs umas caixas de papelão no meio do chão brilhoso do Itaú. Pôs também uns tijolos de basalto. Você fica lá, de pé, ‘conversando’ com as quadriláteros/embalagens. Eles trazem para esse encontro sua vida passada de utilitários. Você traz para o encontro o que você acha de forma geométricas puras. E aí ficam vocês lá, frente a frente, e, bem, não é que eu tenha gostado do papo, mas com certeza saí meio diferente do que entrei. E acho que é para isso que serve a arte – esse outro ‘utilitário’.

Amanda Mei, São Paulo, fez algo de que sempre senti falta. Falo de Farnese de Andrade. Sempre me espanto de não haver mais fios, na arte contemporânea, desse artista que explicitou tão profundamente um estar-no-mundo mineiro-brasileiro, um pathos que você reconhece como sendo seu, de alguma casa de tia velha, de alguma casa qualquer, mas você tem essa casa, esses objetos na sua memória. Todos temos. Amanda pega esse clima, em uma instalação escura, fechada. E o que eu simplesmente adorei: a única poltrona do ambiente não tem pés. Suspensa por fios pretos, que mal se veem no ambiente escuro, ela flutua em um não-espaço/não-tempo que é exatamente o lugar em que está a memória que você tem daquilo.

Kilian Glasner, do Recife, modificou umas fotos de árvores em sua Rua do futuro. Você vê de relance e sente que tem alguma coisa esquisita. Ele mal modifica. Algo geométrico que não pode ser da paisagem. Um ondular em lugar que você espera uma perspectiva plana. Enfim. Uma ‘natureza’ safadamente rindo de você, que esperava um ‘ó, que bucólico’. É uma tendência que tenho visto com frequência na arte de hoje, essa de misturar os dois campos tradicionais. Acho legal. E, no próprio Rumos, perto de Glasner, um outro com a mesma temática: Marcelo Moscheta, de Campinas, enclausurou ‘nuvens’ de algodão dentro de tijolos de vidro. A recepção é a mesma: você lá, vendo uma possibilidade de refúgio ‘natural’ rir de você.

Luciano Zanette, São Paulo, fará com que você nunca mais veja um Amílcar de Castro da mesma maneira. No seu Hábitos insuficientes (o título também é ótimo) ele tomba mesas, bancadas. O resultado é um Amílcar vagabundo, em que toda a potência do ferro é substituída pela madeira fina, pintadinha. É também um riso, este contra outro dos pensamentos sagrados do modernismo, a fé na industrialização, no poder da ordem e do progresso.

Gabriel Netto, de Porto Alegre, dá ao desenho um dia de glória em 3D. Ele põe na parede suas tiras de rabiscos longos, linhas de grafite. E no chão, em frente, a ‘projeção’ dessas linhas em mais linhas, essas alongadas, enviesadas. Bem bom.

Tiago Romagnani, de Florianópolis, trouxe um vídeo de grande teor afetivo. Uma planta cujo vaso é tombado. Ela se vira para a luz, aos poucos. Na instalação A saudade, mais afeto. Um fio de água corre entre dois fios de metal quase juntos. É um fio de água, espremido. Você pode passar horas lá, vendo.

Alice Shintani, São Paulo, espalhou sua tinta por paredes, chão e teto de um espaço do Itaú. Faz lembrar a pintura de protesto feminista, da década de 60 do século passado. Amorfa, abrangente, líquida, essa pintura diz mais sobre uma maneira de ser contemporânea, frágil,  não-limitante nem limitada, do que qualquer traço enérgico e bem definido, da esfera ‘masculina’. E, sim, a cor escolhida para as manchas é cor-de-rosa.

De Laerte Ramos e sua cerâmica de acabamento perfeito eu já falei em outros sobrearte, e mal. Não gosto. Como também não gosto do que o artista, Diego Belda, chama de sinuca. Composições geométricas coloridas. Então não vou falar mais aqui deles. São ambos de São Paulo. Bárbara Wagner, do Recife, traz uma fotos do ‘outro’ que, no caso, são personagens da Zona da Mata. Mas são ‘outros’ bem conscientes desse seu papel, no posar para as fotos. Acho que essa diferença entre o ‘eu’ e o ‘outro’, hoje, não está mais tão nítida e lidamos com as diferenças mais na base do fluxo – e não gostei das fotos. E, provavelmente sendo injusta, também não tive vontade de ficar vendo o registro de performance do Grupo Empreza, de Goiânia. Vai ver até que foi boa. Mas a cada dia estou menos disponível para ver o resgistro de performances. Acho que esse tipo de arte, tão vigorosa e tão importante no que ela tem de ataque ao mercado de arte, devia assumir seu caráter efêmero, fenomenológico, de momento – e pronto.

Derrida tem uma teoria sobre hospitalidade. Segundo ele, trata-se de uma aporia – essa impossibilidade que, no entanto, tenta existir e tenta outra vez, sem cessar.

Tenho outro bom exemplo, ou vai ver é o mesmo: a arte digitalizada e seu convite insistente para que, como hóspedes, nos sentemos à mesa da ‘criatividade’.

Fui ver o F.I.L.E. (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) do Rio, no Oi Futuro, e lá também – como em qualquer outra casa – o impasse de um convite que se proclama aberto, mas que é fechado.

É uma questão ética.

“Vamos dizer sim para qualquer um que chegue, antes de qualquer definição, antes de qualquer antecipação ou identificação”, diz Derrida, para acrescentar: “dá-se a quem chega tudo o que há na casa e em si mesmo, dá-se de si, sem pedir por compensação ou pelo cumprimento de qualquer condição, por menor que seja.”

E essa oferta é aporética, pois marcada por um paradoxo. Se não há limites, se não há nada entre dois lados, esses dois lados se tornam interpermeáveis, indeterminados, não produtivos.

Ou seja, para que exista quem convide e quem seja convidado – e que algo seja feito em conjunto – é necessária a existência de uma barreira. E a barreira destrói a hospitalidade, cuja definição é a da acolhida sem barreiras. Aporia, pois.

Menos que das outras vezes.

Acompanho os F.I.L.E. desde o primeiro. Esse estava particularmente minguado de instalações interativas.

Sheldon Brown - 'the scalable city' - fotografia de Elvira Vigna

Sheldon Brown trouxe The scalable city que tinha, mais do que a interação, o apelo de uma estética de fim (ou começo) de mundo, muito atraente e muito apropriada aos tempos de hoje.

A de Daan Brickman é sonora, desagradavelmente sonora.

Julio Obelleiro e Alberto García - 'the magic torch' - fotografia de Elvira Vigna

Julio Obelleiro trouxe duas, uma delas, com Alberto García (The magic torch), permitindo que o fruidor desenhe em uma tela com uma lanterna de luz (ó deus, mais um desenhinho de luz).

Se você falar bem alto em um microfone consegue que sua imagem entre na tela de TV de Jarbas Jacome, em Crepúsculo dos ídolos; e eis um título muito bom, que remete à idolatria instantânea e sem valor das famas de 15 minutos. Uma das poucas obras que produzem uma reflexão, uma modificação, em quem a vê.

Troquei de rosto com a monitora da exposição, na bobagem televisiva de Clara Boj e Diego Diaz (mas só funciona se você por a cara bem para cima).

Hugues Bruyère - 'presence' - fotografia de Elvira Vigna

Hugues Bruyère cria uma aura mutante e luminosa em volta da silhueta de quem passa em frente, sempre diferente.

Tinha muita gente mexendo no celular perto de Roaming, de Soraya Braz e Fabio Fon, pois celulares acionam luzes em um painel. Idem, mas com som, na instalação de Giselle Beiguelman e Mauricio Fleury.

Enfim. Você vai, você faz o que mandam, recebe a sua sardinha, e a obra e o artista recebem o resto todo. Qual é esse resto?

O artista que assina a obra abre uma brecha na sua autoridade estabelecida para convidar o fruidor a contribuir com sua atuação na realização da obra. Sem tal atuação, a obra não se realiza. Sem tal atuação, sem a entrada desse falso outro, o artista não se realiza. Sua identidade conta com a presença de um diferente dele, assim como a identidade de quem hospeda só é possível se há a possibilidade de um hóspede – ainda que falso já que limitado por condições ou regras prévias.

Aliás, pode-se dizer que o hóspede, na verdade, é o artista. O artista é hóspede de uma aquiescência, essa sim ilimitada, propiciada pelo fruidor que aceita agir para que o artista exista. Mas, anulado em seu impulso de existência autônoma, o contrário não se dá. O fruidor não alcança a identidade de sujeito – e, muito menos, de sujeito criador da obra. Ao excluí-lo de fato de uma co-autoria, o artista falha na obtenção de significado, pois todas as participações são iguais e já previstas. Não há diferenças a serem negociadas, aqui. Nem mudanças. Sem diferenças ou mudanças não há significado a se extrair da interatividade – que, em princípio, é o que define, o que dá significado à obra.

Derrida, em seu texto, deixa claro que o local verdadeiro, a casa em que tal hospitalidade (não) ocorre é a linguagem: “temos que considerar se a hospitalidade incondicional não consiste em suspender a linguagem e mesmo a comunicação”. Pois qualquer pergunta ou ordem ou declaração será já um impedimento para a acolhida incondicional.

E eis a maior aporia: uma linguagem pode não estabelecer diálogos e, nesse caso, não pode ser chamada de linguagem embora tenha a intenção repetida de sê-lo. A arte de Jarbas Jacome – a meu ver, a melhor instalação – se apóia em um texto (o título de sua obra) mais do que no programa que, afinal, foi o que permitiu que tal obra pudesse ser inscrita em um festival de linguagem eletrônica. É o texto, irônico, antigo e nem um pouco perfeito ou sequer eficaz (exige um pensamento e um acervo cultural prévios) quem conversa realmente com você.

A exposição de Gisela Motta e Leandro Lima, Sob controle, na Vermelho, incomoda. Os dois artistas já trabalharam o tema antes. Em uma coletiva, na mesma Vermelho, em outubro de 2008, um vídeo mostrava ela jogando facas nele, que se encolhia. O fascínio era aguardar o descontrole repentino da mão – e o assassinato.

Bons tempos. Agora, não há possibilidade de descontrole. Claro, o valor político, de denúncia etc. Mas me perguntei até que ponto essa denúncia, como tantas outras, faria parte, ocultamente, do denunciado.

Bingo.

As obras são feitas com total controle. Não denunciam, mas ampliam o problema, agora não mais sociopsicopoliticoantropologicamente falando, mas incluindo o diálogo (diálogo?) estético.

Começa na primeira mesmo. A que abre a mostra, perto da porta. Precisei perguntar. Luzinhas vermelhas que saem de furinhos da parede da entrada. Ah, é a Bala perdida, e os furinhos representam balas de revolver. Os furinhos são perfeitamente redondos. Do mesmo tamanho. Em espaços regulares.

Segue para os mapas feitos com chips de computador. Sim, eu sei, há a computação randômica, o cálculo probabilístico, algoritmos genéticos e redes neurais. Nenhum deles incluído no campo semântico desse ícone da mensuração precisa, do 0 e do 1, do sim e do não.

A instalação Do not é feita de fotos de pessoas não querem ser fotografadas. A imposição da imagem vai além do tema e atinge mais do que a pessoa lá, com a mão na frente da cara. As fotos são em baixa resolução, ampliadas. Oba. Possibilidade de um campo dúbio, não preciso, em que uma troca possa se dar? Nope. Cada pixel das imagens foi refeito, com retícula, e em cada um foi aplicado, em backlight, um led. É uma construção. Precisa. Lembra uma abstração geométrica do modernismo.

A videoinstalação que dá nome à exposição, Sob controle, tem uma câmera que capta o movimento do visitante frente a ela. Os bonecos uniformizados do vídeo então se virarão para onde for o visitante, perseguindo-o com o olhar. São bonecos. Antes de você ser controlado por eles, eles são controlados, em sua feitura, cenário, pelos artistas.

Gisela Motta e Leandro Lima @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna Gisela Motta e Leandro Lima @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna Gisela Motta e Leandro Lima @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna

Amoahiki é exibido em grande formato, em uma tela de pano rasgado sobre a qual um ventilador provoca um movimento contínuo. São imagens sobrepostas da Amazônia. Aqui, as imagens originais, que poderiam oferecer uma presença do sem controle, são anuladas pela sua sobreposição, que é controlada. Sim, o vento é uniforme.

Tem um laser que forma a palavra Exit. Fica em um quarto pequeno da galeria. Uma fumacinha de vez em quando tenta auxiliar a visão do laser. Mas o que você vê mesmo são os mecanismos de feitura: fios, projetores.

Há, na linguística, basicamente, três tipos de discurso: o autoritário, o polêmico e o polissêmico. O autoritário é o do poder, seja ele de um mestre em sala de aula ou de um ditador em seu púlpito. O polêmico é dicotômico, divide o mundo em dois aspectos inconciliáveis e, no mais das vezes, trata-se de um discurso autoritário que quer se disfarçar de bonzinho. Posso dizer que a instalação anterior dos artistas, o vídeo das facas, representava um discurso polêmico.

E o polissêmico é o poético: você passa a vida frente a um deles, descobrindo coisas, acrescentando coisas tuas, modificando-se e modificando-o. É um barato.

Faltou polissemia nas obras do Sob controle. Faltou, justamente, uma brecha para o diálogo. Uma imperfeição que fosse, uma hesitação, um não-saber. As obras são impositivas, autoritárias. Um discurso claro, de quem sabe – e ensina. Você está sob controle. Até mesmo ali, em uma galeria de arte. A exposição incomoda não porque haja um pensamento difícil a ser elaborado e descoberto – essa descoberta que obras de artes provocam na gente. Incomoda porque o pensamento já vem pronto. Não há diálogo. Você não é chamado a colaborar.

Não gosto de exposições temáticas. Quem me lê já sabe disso então não vou repetir aqui os motivos.

Fui, no entanto, na coletiva Nus, da Fortes Vilaça porque andava pensando que, mais ainda do que em outros temas – como paisagens ou retratos – os nus impõem ao processo artístico uma finalidade a ele estrangeira. E uma trajetória, similar à da arte sacra, que é inversa à da apreensão artística, seja por representação ou deslocamento concreto, dos objetos do mundo.

Fui para acabar de pensar.

Há considerações paralelas. Por exemplo, a presença majoritária dos nus femininos, nessa e em qualquer outra exposição sobre o tema. O poder, que é masculino, que é o do artista, curador e fruidor/comprador/colecionador, sempre mais protegido, menos exposto. Na exposição, os homens estão nus ou na presença de mulheres ou de costas, em um oferecimento homossexual – o que faz deles não exatamente presenças masculinas, mas dessa outra classe que o politicamente correto de nossos dias finge aceitar como sendo um outro-igual mas que, nessa e em outras horas, se prova uma categoria à parte – e diminuída – do masculino.

Mas não é o principal.

O que pensava antes, e terminei de pensar depois, é a respeito dos readymade do modernismo do século passado, época que a exposição pretende resgatar e comparar com uma produção contemporânea sobre o mesmo tema.

Que, claro, começou na colagem cubista, começou no cubismo. Algo do mundo, algo concreto do mundo, que, deslocado, desliza ou acorda para o diálogo sensível, para o toma lá dá cá de percepções, entre dois sujeitos (o objeto que agora não é mais objeto, posto que falante, e o fruidor, lá não tão fruidor assim, mas partícipe, co-autor). E que é, esse diálogo, o que se chama de arte.

Pois, pensava eu, no nu o que acontece é justo o contrário.

Há a produção desse objeto ou situação (no caso de performances e outras modalidades efêmeras desse encontro entre dois sujeitos) em um contexto de arte: feita por alguém que se autodenomina artista, apresentada em um local considerado adequado ao ritual artístico, e com um valor inconsútil determinado por leis que valorizam produções artísticas. Mas aqui, em vez de algo do mundo ser representado, narrado a partir de seu ícone mais significante, ou apreendido tal qual, no seu concreto, para dentro do âmbito artístico, é algo do mundo da arte que é deslocado, que desliza para a fenomenologia da situação erótica.

Como a arte sacra desliza para a possibilidade de outro tipo de êxtase, em nossos dias mais raro que o erótico (ao menos no Ocidente), e que é o êxtase religioso.

Digo que da mesma forma que o readymade de Duchamp continha na sua significação o conhecimento compartilhado, prévio, de um caminho, aquele que um urinol faria de um banheiro público a uma galeria, o nu também contém a premissa do conhecimento compartilhado, prévio, de um caminho que vai da tinta ou do bronze ao repertório erótico, feito e refeito por esta e qualquer cultura.

Daí mais mulheres do que homens.

Costumo, a não ser em vernissages, que evito, visitar sozinha galerias. É raro haver outro visitante nas horas mortas de início da tarde a observar o que observo por prazer e dever profissional.

Não foi o caso aqui.

Edgard de Souza Luiz Zerbini Maria Martins Dan McCarthy

Mal cheguei, vem um grupo de jovens – rapazes, moças. Olham, cochichos, comentários, risadinhas. Saem um pouco antes do que eu. Lá fora os encontro entrando em um carro. Não passavam pela rua e resolveram dar uma olhada. Foram ver a exposição. Era um programa. Estabelecer relações entre Maria Martins e Edgard de Souza? Rir junto com a ironia do carteado de Luiz Zerbini? Admirar o pinto murcho do casal no óleo de Dan McCarthy? Não creio. Vieram sentir a estranheza de um deslocamento. Vieram experimentar, viver o roça-roça de dois mundos.

Não como fica a sensação erótica humana na organização espaço-temporal dessa outra racionalidade, a da estética, mas como fica o quadrinho (ou a escultura) quando incluída no universo erótico da vida cotidiana, comum, lá deles.

Deve ser esse negócio de ser o “outro”. Mas fui à exposição dos artistas contemporâneos de Luanda, na Galeria Soso, achando que ia encontrar registros documentais. Aquele esforço tão nosso conhecido de estabelecer uma identidade, já que “outro” dos outros, temos medo de virar o outro de nós mesmos. E ficamos, então, com a síndrome da realidade. Política, social e por aí.

Era e não era. Não era documental. Mas a busca pelo estabelecimento de uma suposta identidade angolana perpassava as obras.

O engraçado é que, na necessidade – também que conhecemos tão bem – de quebrar estereótipos, não satisfazer expectativas já viciadas pelo lugar-comum dos cartazes de turismo, África mesmo é o que não aparece.

Claudia Veiga: 'Tchinganji'O tratamento do espaço dos quatro artistas escolhidos – Cláudia Veiga, Ihosvanny, Kiluanji e Yonamine – é o de não dar espaço. A superfície das fotos, mesmo as que representam cenas ao ar livre, é coberta pela tessitura da construção human, e pouco ou nada deixa para a paisagem. É como se a África ampla a que nos acostumamos devesse sumir para que a África que os artistas querem mostrar possa aparecer.

No mais, dá-lhe símbolo. Há uma preocupação temática em estabelecer imagens da contemporaneidade. E, no entanto, o processo escolhido para o estabelecimento de tais imagens é o de consolidar aspectos em tropos carregados, metafóricos de uma dada situação ou viés, ou mesmo de uma totalidade que nunca se alcança. E aqui há uma ironia e um paradoxo. Se os artistas pretendem estabelecer uma visão atualizada e dinâmica de uma Angola sujeita, ela também, a uma globalização e hibridização fragmentária, eles tentam isso através da criação de símbolos, mantendo, portanto, um pensamento tradicional de formação de mito.

Claudia Veiga fotografou em seqüência uma performance ocorrida durante evento de arte em Luanda, o Input, em 2008. As fotos mostram uma galeria de arte onde um ator irrompe em uma dinâmica teatral, fazendo elo com um espetáculo de palco que haveria logo a seguir. Tchinganji é o nome do mentor que acompanha a iniciação masculina de jovens angolanos tradicionais. Ele usa máscara. Aqui, a obra, titulada Tchinganji é propositalmente borrada, para que não vejamos o rosto da personagem principal. É uma iniciação para a arte.

Kiluanji: 'Kixima remix' Kiluanji: 'Poderosa de bom Jesus' O homem vestido de mulher de Kiluanji é outro símbolo. Com scarpins nos pés e roupas tradicionais, ele não é um travesti, no sentido ocidental do termo. É um homem que se veste de mulher e tem apetrechos ocidentalizados e tradicionais. Está lá para singificar algo, e não para ser ele mesmo.

Do mesmo artista e igual intenção há uma foto de uma feira ao ar livre. Alguém posa. Não é um instantâneo. É um representante de etnia tradicional, em meio a objetos ocidentalizados. Essa chama-se Kixima Remix.

Yonamine e Ihosvanny trouxeram vídeos. O primeiro artista tem dois vídeos simultâneos. Em um, duas mãos com luvas, esponja e detergente esfregam e tentam limpar muito bem uma superfície translúcida. No outro, um homem queima lixo feito de jornais velhos. Esses dois vídeos, em looping, trazem, no entanto, uma novidade interessante. O looping não é só o do tempo, digamos assim, da sequência de quadros da câmera. Não. Os jornais queimados têm uma camada atrás, de mais jornais, que também serão queimados, e mais outra. E as mãos, uma está na frente da superfície translúcida que está sendo limpa. E a outra está atrás. Então, o tempo passa também em 3D. Um tempo para trás, que também se repete em eco.

Ihosvanny talvez seja o mais sofisticado do grupo. Seu “road movie” é de imagens polarizadas em PB, o que resulta em uma quase abstração. De tempos em tempos, uma cena “realista”, em cores, não modificada. Como a lembrar que pessoas são só isso mesmo, pessoas.

Há a natureza e há a cultura.

Entre nesse pensamento, só de brincadeira.

Aliás, entre na Pinacoteca, onde o Chelpa Ferro montou sua última instalação. E a brincadeira – que denuncia a estreiteza do pensamento citado – é que a natureza vira cultura e a cultura vira natureza.

O grupo carioca, formado por Jorge Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler, costuma projetar um clima sobre o ambiente em que se apresenta, modificando-o, e sempre com humor.

Chelpa Ferro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásUma apresentação anterior que vi deles se dava no teatro do sofisticado Centro Cultural Oi Futuro, do Rio. A platéia, vestida para seu programa de sábado à noite, aguardava a música. No palco, o grupo tocou a domesticidade que sua platéia pretendia esquecer indo ao teatro: liquidificadores, latas de conservas, aspiradores de pó, em um barulho infernal.

Na Pinacoteca, o jogo é com o próprio prédio. Uma recuperação das linhas mais antigas da nossa cultura ocidental, como costumava acontecer aos prédios do início do século. Aqui, a recuperação não é bem neoclássica, mas contém um entusiasmo renascentista, contido pela reforma de Paulo Mendes da Rocha e seus tijolos nus, “naturais”.

Quer dizer, o jogo entre natureza e cultura já está lá.

(Inclusive na permeabilidade do prédio, furado, comunicante, em relação ao céu e ao parque.)

Chelpa Ferro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO Chelpa Ferro monta então um cilindro oco de madeira no Octógono. Parece uma árvore. É uma árvore. Feita. Dela sai, de dez em dez minutos, uma traquitana montada com caixas acústicas de diversos graus de historicidade: há as mais antigas, que remetem a uma época histórica das caixas de som, um período “renascentista”, por assim dizer, e há as mais atuais. A produção sazonal de tal fruto sonoro é certinha, regular. O intervalo de tempo é computadorizado. Cultural, não natural. Mas é o intervalo que parece mais natural para a árvore à sua frente. Uma árvore dessas terá uma estação de frutos desse tipo, sem atrasos ou chuvas extemporâneas.

O som que sai de lá te remete a rugidos de animal selvagem, há assobios de algum pássaro de metal que você procura pelo teto, silvos. E de repente acaba. Abrupto, como quem desliga um botão. E vem vindo, outra vez.

Durante o período colonial – o auge do pensamento descrito acima – o colonizador nomeava o ambiente sem nome, selvagem, que conquistava, e essa era uma maneira de se apropriar dele. Estabelecia fronteiras, e nomeava. E as duas coisas eram igualmente importantes. Chelpa Ferro planta sua árvore no centro exato dos limites do Octógono. E nomeia esse espaço do mais antigo centro cultural da cidade de São Paulo com seus rugidos e silvos. Não deixa de haver, nessa ação, uma crítica implícita ao modernismo e seus ideais de progresso e, bem, ordem. Mas isso não está em primeiro plano, nem caberia, pois a crítica ao modernismo não merece mais que fiquemos nela. Já a sabemos. O aspecto que me atrai mais é como essa nomeação do ambiente se dá. Chelpa Ferro faz um aceno aos limites da linguagem. Sua nomeação, sua redefinição do ambiente em que se instala, é por sons que não formam palavras.

Chelpa Ferro nos diz que nossa natureza é um edifício. Que ciclos históricos da cultura humana podem ser vistos com a mesma indiferença de outros ciclos químico-físicos da vida no planeta.

Me fez lembrar o filme Beleza americana, de Sam Mendes. Há uma cena em que o vento faz dançar um saco plástico. Não folhas de árvores.

Plástico.

Se você repete uma coisa e introduz, a cada repetição, uma diferença, você está criando um ritmo e mais do que isso (embora a frase fique com menos e não com mais palavras): está criando. Ponto.

Em música (e, portanto, em poesia também), você escolhe entre assonâncias, consonâncias e dissonâncias. Aliterações, ploces (a repetição proposital de uma determinada palavra em um texto). Antístrofes (repetição em ordem inversa), metagoges (repetição de uma palavra modificando seu significado inicial), paregmênones (enfileiramento de palavras que ecoam uma origem etimológica comum). Enfim.

Marco Paulo Rolla  - fotografia de Elvira Vigna @ AguarrásMesmo que você não saiba o nome certo do que está fazendo. Ou mesmo que você prefira unir tudo isso em uma confortável – e nem sempre entendida – teoria do caos. Porque a teoria do caos, na verdade, fala disso mesmo: uma ordem (a teoria) que é só quase, uma ordem que contém uma diferença, uma imprevisibilidade, uma ordem que não o é.

E mesmo que você apresente não uma poesia ou música, mas uma instalação em uma galeria de arte.

Marco Paulo Rolla armou um pic-nic (escrito dessa maneira) na Vermelho.

Piquenique é uma repetição, e não falo aqui, embora pudesse, dos sons e letras, em rimas e repetições, da palavra em si – o que fica mais aparente ainda na grafia do artista: pic-nic. Falo que piquenique é um ritual e, como qualquer ritual, repete uma fórmula, embora com variações possíveis a cada uma de suas encenações.

O piquenique de Rolla é de cerâmica – essa atividade que nasceu artesanal e virou industrial, sem nunca excluir a possibilidade de produção em série de seus objetos utilitários.

E, dentro do piquenique tipificado de Rolla, há uma repetição interna de objetos: 12 pratos, seis garrafas de vinho, oito copo, além da repetição das frutas (laranjas, maçãs, bananas), talheres etc.

Mas a repetição mais atraente para meu olhar é a da toalha. Uma toalha xadrez, com seus quadrados brancos todos iguais (ou quase iguais), separados pelas linhas em vermelho. Uma toalha xadrez de piquenique, com seus quadrados repetidos e que repete outras trocentas toalhas xadrez de piquenique.

E que, no caso, está amarrotada. E esse foi, para meu olhar, o ápice do caos (daquele, o da ordem que não o é, a que me referi acima).  As dobras, em ondas, são as dobras da crosta terrestre de um continente, a serem medidas em fractais – essa medida que pode mudar a cada nova medição, e que repete, a cada pequena porção, a situação de um todo maior. Quase repete, e o todo é quase todo. Sempre. E talvez eu não devesse falar a palavra sempre mas sim dizer: o que nos parece ser sempre. Depende, a teoria diz, das condições iniciais de observação/experimentação, e como só podemos ter uma, supomos outras, sem as conhecer.

O continente-piquenique de Rolla está contraposto (é só aparente, esta contraposição) a um “mar” que o circunda, o chão da galeria. Nele, está a “natureza”, que tenta nos enganar ser a segunda parte de uma bipolaridade: o piquenique cultural em meio à natureza selvagem.

Mas tem um risinho perfeitamente audível nessa simpleza. Pois o galho, representante do “natural”, veja você, tem suas ramificações também em uma repetição com diferenças – como aliás em geral os galhos. Esse galho não é em cerâmica, é um galho-galho. Ou seja, pode esquecer qualquer conforto em estabelecer situações de nós-eles, artificial-natural, e similares. Não. Não se trata de metáforas, esse outro tipo de repetição. Nem símbolo, nem mito. Nope. Trata-se de um enrijecimento (é em cerâmica, lembra?) de um ritual cultural previsível e atemporal (é um piquenique), e que inclusive já acabou (os alimentos foram consumidos). Esse piquenique pétreo e acabado se dá em um cenário (“natural”) que não mais existe (não temos mais a possibilidade de acreditar em um “natural”). E esse sonho/pesadelo do controle sobre a ordem das coisas, tão detalhadamente construído, berra o seu inverso, o imprevisível – em que estamos todos. Pois você entra na sala e se espanta.

Você já sabia: tratava-se de uma instalação de cerâmica chamada Pic-nic, produzida pelo artista Marco Paulo Rolla durante sua residência no European Ceramic Work Centre, Holanda, em 2000. Você já sabe e se espanta. Tem alguma coisa que você não previu.

Não é inocente essa escolha artística de Rolla. É uma maneira (bem boa) de falar de nós.

Ele já havia atraído minha atenção em uma coletiva anterior (novembro de 2008), na mesma Vermelho, em que expôs uma geladeira atulhada, repleta de comida. Uma pintura de grandes dimensões – e o tamanho só aumenta o impacto das prateleiras caóticas em sua repetição de amarelos, vermelhos, todos consumíveis e repelentes.

Eco, espelhamento, representação. E sempre algo que escapa, pois a pintura e a instalação existem e, na sua existência, já aumentam, repetem e modificam a situação imediatamente anterior. A pintura não usava o hiper-realismo dos simulacros e a toalha em cerâmica brilha como cerâmica e não como pano. É a linguagem. Rolla faz o que faz através de uma linguagem e quer que isso esteja presente. Ou seja, ele usa e expõe – não toalhas, não geladeiras – a linguagem, essa repetição com diferença em que nos inserimos todos. Usa e expõe uma linguagem para apontar o que toalhas e geladeiras, e mais toalhas e geladeiras, e mais e mais, todas quase iguais, repetem e repetem: que não adianta. O que conta mesmo é o momento em que todas elas acabam – toalhas, geladeiras e linguagem – e se vive a falha.

Há mais uma repetição com diferença: o artista, ao representar um piquenique, repete Manet. Com sorte, se pensar muito, você faz o papel da personagem nua, a que abriu mão do excesso.

Lucas Simões armou uma individual na Emma Thomas em janeiro de 2009. Uma série de superfícies, e o que ele acha a respeito de superfícies. São espelhos, mapas, fotos. Principalmente mapas.

A gente vê o que está dentro do olho da gente – e pouca coisa mais. No dia, eu andava pensando a respeito da ressurgência de um gótico, entendida por mim como uma tentativa coletiva de lidar com o medo que acompanha a falência das linhas retas do modernismo. Você pinta um híbrido, ou manchas negras, para que o futuro tenha forma. Exista. Monstruoso, será sempre menos apavorante do que não existente, do que sem forma.

lucas simõesNo convite para a exposição, havia uma reprodução de uma padronagem repetitiva e rigorosa, é certo, mas feita à mão. Ou seja, com as pequenas modificações que a serialização, quando humana, produz.

Aí eu pensei: ah, nada mais eficaz do que o delírio de controle que se anuncia como delírio de controle. Continua servindo de arma contra o incontrolável (que é tudo) e, ao mesmo tempo, se defende da acusação de ser delírio de controle, pois é falho. Seria, então, um gótico ao contrário, um anti-gótico e a ele igual.

A meu favor, digo que havia visto uma obra anterior de Lucas Simões, na Baró Cruz (julho de 2007), em que o artista empregava a técnica vetorial. Controle absoluto não importa que hecatombe modificadora se apresente ao desenho. Resiliente ao extremo, o cálculo computadorizado garantirá a sobrevivência da forma original.

Na sala da Emma Thomas, uma surpresa.

Mapas são representações singulares. Assim como fotografias, se apresentam como continentes de um “real”. Assim como espelhos. E o valor desses três tipos de superfície está justamente no sucesso com que consigam convencer da equivalência ao seu “real” correspondente – mesmo se, para tanto, dependam, todos os três, de regras pré-estabelecidas sem as quais a decodificação não se dá.

Lucas Simões faz cortes em seus mapas e levanta as partezinhas cortadas em “orelhas” que se projetam da superfície original; lá atrás há outra, distante alguns centímetros da primeira. Nas fotos, a estratégia é outra mas igual. Há fotos de caras que foram pintadas. Há fotos de caras que foram pintadas. Nas duas frases iguais uma diferença: há caras pintadas que foram fotografadas e há fotos pintadas de caras.

E por falar em linguagem, os títulos das obras – que fazem parte das obras, na lição aprendida dos neoconcretos cariocas – repetem o jogo dos espaços, agora em palavras. O artista dá, a suas rasas superfícies significantes, outras superfícies: uma anterior, lá atrás, visível pelos buracos dos cortes, e mais uma, aérea, que nos inclui, nós que estamos na frente da obra, e que é apontada pelos pedacinhos levantados das “orelhas”.

Já os títulos são: Detrás, depois, clandestino; Verso, reverso, descobrimento; Amnésia; Deslocamentos; Diferença e repetição.

Se o espaço de Lucas Simões parece dizer que a rasa superficialidade da presentificação contemporânea não é bem assim, a titularização de suas obras reforça o aviso dizendo: olha, há um temporalidade a ser levada em conta.

A obra com espelho (uma delas) que ilustra esse artigo problematiza uma parede em branco. Você já ficou por horas olhando para uma parede em branco? Pois é. Nem se tratava de uma superfície nem você estava no presente.

Em 20 de dezembro de 2007, em três minutos, roubavam um Picasso (e um Portinari) do Masp.

E eu ponho isso na retrospectiva de 2008 porque acho que esse fato foi o verdadeiro início do ano da arte que agora, dezembro de 2008, temo, está longe de se encerrar.

E, na verdade, não foi no dia 20 de dezembro de 2007 que isso que eu vou comentar aqui começou. Foi muuuito antes. Em fevereiro de 2006, outro Picasso (e mais um Monet, um Matisse e um Dali) também sumiam. Dessa vez no Rio, em pleno carnaval. Estavam no simpático e desprotegido Museu da Chácara do Céu, em meio à mata atlântica. Teve também o roubo das gravuras de Debret e Rugendas da Biblioteca Mario de Andrade em SP, antes. E mais outro Portinari da Galeria Thomas Cohn. E mais moedas antigas (entre outras coisas) do Museu do Ipiranga.

E antes que algum nacionalista às avessas diga que isso é coisa do Brasil, lembro que esses roubos não são nada que se compare à perigosa Suíça, onde Picassos e Monets somem como água no ralo.

Quer dizer: grande valor, esse, o imputado à arte.

A dos séculos anteriores. Pois no mesmo dia 20 de dezembro de 2007, enquanto roubavam as duas vacas sagradas do modernismo em uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, Dona Marisa, nossa Primeira Dama, devolvia uma escultura em madeira da artista contemporânea Elisa Bracher. Motivo? A mulher de Lula achava a escultura muito feia. Detalhe: estava deteriorada. Ou seja: nenhum valor, o imputado à essa outra arte, a contemporânea.

Mas não é bem assim. Valor tem. Mas só para algumas de suas manifestações.

Em fevereiro/março de 2008, abriu a 27a Arco, na Espanha, com o Brasil como convidado de honra. Abriu com R$ 2, 6 milhões de patrocínio do dinheiro público para o traslado e montagem das obras. É pouco. É o mínimo. Deve ter havido uma conta para descobrir o mínimo possível antes de pegar mal, de parecer descaso com a “homenagem” (na verdade imposição disfarçada de patrocínio). As obras foram escolhidas por dois curadores indicados pelo mesmo governo pagador: Paulo Sergio Duarte e Moacir dos Anjos. Foram 108 artistas de 32 galerias brasileiras – e mais alguns outros, em mostras paralelas.

Trata-se de uma feira de arte das mais comerciais do mundo.

Por aqui,, alguns eventos depois (50 anos de Bossa Nova, centenário da imigração japonesa, aniversário da morte de Machado de Assis e 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Brasil), veio, então, a 28a Bienal de São Paulo.

Bienal do vazio, chamou-se.

Não foi uma escolha conceitual, nem obrigou-se, o evento, a qualquer coerência, pois vazio ficou apenas um andar do pavilhão de exposição. Os outros puderam se encher.

Mas, sim, vazio. Vazio do dinheiro institucional.

Como aplicar dinheiro em uma arte que tem grande parte de suas obras não voltada para o comércio, porque não composta de objetos?

É essa, acho eu, a frase que resume o ano.E que vem se formulando há tempos e que provavelmente continuará na mesa ano que vem e mais outros.

A arte contemporânea tem boa parte de sua melhor criação em processos únicos ainda que documentados por vídeos, fotos etc. (inclusive interativos); em materiais efêmeros, feitos mesmo para desaparecer; em armações precárias, integradas a um entorno mutável.

O problema não é dela, arte, o problema é do dinheiro. A arte prediz uma situação de mudança radical do sistema de trocas de valor. O dinheiro quer calá-la.

A Bienal do não-vazio estava lá com seus poucos objetos. E houve a Paralela.

Se a Bienal teve espaços que ficaram vazios, a Paralela, montada em um galpão reformado do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, juntou 61 artistas indicados por 11 galerias. Estava lotado.

E para quem andava tropeçando em quadros, esculturas e objetos, uma coisa podia passar despercebida. A mostra era do mercado. O dinheiro público ficou fora da Bienal. O mercado ofereceu o seu para a Paralela. Mas escolheu as obras: objetos. Coisas. O que é passível de ser trocado por dinheiro.

É essa a situação: a estrutura que cerca a arte contemporânea está às voltas com um “produto” que a agride, justamente por não ser produto.

Aguardemos os próximos capítulos.

O termo ‘grotesco‘ foi cunhado no século XV e se referia a uns ornamentos de paredes e vasos escavados do subsolo de Roma, durante a reconstrução da cidade sob o Papa Júlio II. Coisas estranhas e escuras que vinham de cavernas, grotas – daí o nome. Eram ornamentos pré-cristãos, da época do Império, e continham figuras humanas com cabeças ou membros de animais. Asas para voar, chifres em um registro do masculino, velozes patas de cavalo. Um humano que incluía um não-humano, presente desde sempre e até então oculto à força de um intelecto religioso e regulador. A descoberta dessa arte iria dar respaldo a um movimento que ocorreria pouco depois. Cansados da peia cristã, artistas ousavam modificar, conceitualizar, a figura humana. Foi uma descoberta importante. E era bem entendido, esse ‘grotesco’, como algo que existia antes, como uma arte anterior à atual. E que representava uma característica ‘animal’ também anterior a uma humanidade que se exigia bela (à imagem de deus), filosófica e científica. Racional, equilibrada.

É uma questão temporal, seqüencial.

O grotesco escuro, manchado, que Cadu apõe sobre seus desenhos de linhas finas, na exposição Plymouth (galeria Laura Marsiaj), é o registro do que vem depois, e não antes, de uma racionalidade.

plymouth - barbican 1 plymouth - barbican 2 plymouth - barbican 3 plymouth - barbican 4 plymouth - barbican 5 plymouth - barbican 6

A linha de seus grandes desenhos é o grafite preciso dos planos arquitetônicos ou urbanísticos. Das plantas baixas e das perspectivas. O artista tomou para modelo uma pequena cidade inglesa, destruída na Segunda Guerra. Tanto faz. Há um transbordamento do seu tema. Trata-se de uma construção racional, realizada em desenho, a técnica racional por excelência. E, sobre isso, uma pintura gestual sem contornos estabelecidos, na explicitação de um controle tentado, e tentado outra vez, sem sucesso. Não precisa ser Plymouth e Barbican, seu bairro mítico (o único a escapar das bombas). Pode ser qualquer constructo em seu enfrentamento com os fluxos da contemporaneidade. Pois aqui, ao contrário da Renascença, não é a clareza de um plano matemático, previsível, o que vem por cima. É a falência desse plano. A racionalidade é o que ficou para trás, encoberta. Sobre ela, a irracionalidade.

Além de seus seis grandes desenhos, Cadu trouxe uma instalação chamada HMV (His Master Voice). Furadeiras que tocam música. No dia em que visitei a exposição, era o barulho das furadeiras a vencer o da música, esta mal ouvida por baixo, ainda ouvida por baixo.

Uma outra instalação, O hino dos vencedores, é uma composição feita de cartões de mega-sena, essa irracionalidade tão popular.

A questão do grotesco – o da Renascença e os que a ele se seguiram, no gótico e em um certo modernismo figurativo do século XX – é que ele sempre aponta para uma impossibilidade da lógica. Mostra uma não confiabilidade radical, ao solapar a idéia de um passado, ou a de um futuro.

Cadu nasceu em 1977. Passado e futuro não têm, para ele, qualquer sentido. O que ele nos diz é que não o há para ninguém.

A exposição que encerrou o ano da Galeria Vermelho, teve curadoria de Audrey Illouz e se chamou Silêncio!

Com ponto de exclamação.

Em Tragic Muse, o romance de Henry James do final do século XIX, o personagem Nick Donner não consegue terminar o retrato de uma artista de teatro. Ele pretende descobrir uma verdade ao pintar. É para isso que pinta retratos. A artista, Miriam Rooth, pretende, ela também, ao representar seus papéis, chegar a uma verdade a respeito dos personagens encenados. A impossibilidade de conclusão da obra é a admissão de que, em um jogo de representações de representações, em ecos infinitos, não haveria mais sobre o que falar. Ou pintar.

É, no dizer do escritor, “the form without the fact”.

A não referencialidade – mesmo em artes não referenciais – a ocasionar o mutismo acontece em épocas em que o artista não tem chão no coletivo. Por exemplo, na África do Sul do apartheid, na industrialização capitalista da Inglaterra, em situações de exílio ou de ditadura. Ou, vai ver, na exposição dos intestinos de um capitalismo atual.

Não é nosso presente, aqui. Ou não ainda, a acreditar nos pessimistas.

A francesa Audrey Illouz pode ter uma experiência diferente.

Uma obra da mostra que se aproxima desse conceito que considero estrangeiro é uma instalação sonora com a cantora Alison Goldfrapp. Ela fala um mesmo texto em espanhol, holandês e francês, três línguas que ela não entende. Ao falar o que não entende, você também não entende o que ela fala, mesmo que você entenda essas línguas. Você não reconhece as palavras que, no entanto, são ditas corretamente. A menos da entonação, ritmo, acentuação das frases. A menos do contexto.

Marilá Dardot também fica perto desse silêncio proposto pela curadora, em sua tentativa – que já vi antes – de capturar a imobilizar o discurso. Entre outras coisas, trouxe um livro de páginas de vidro. E a série Paisagem sob neblina, em que textos em cinza são aplicadas sobre superfícies também em cinza, dissolvendo-se em quase e apenas uma textura.

Se Dardot é um dos que mais se aproximam de um silêncio que não vejo ter base em dissociação nossa com o coletivo, é ela também quem me deu a primeira dica de que de repente não se tratava de silêncio, mas de surdez. Uma de suas frases em cinza diz: “e ficamos os três em silêncio, observando a tempestade (f)ustigar a cidade”.

No vídeo Donnant, de Anne Durez, ondas “falam” com um corpo de mulher que, inerte, não responde. Na Stone raft uma jangadazinha existe apesar da imensidão de um chão que a ela é indiferente.

O grupo Chelpa Ferro, que se apresentou na abertura, traz a sonoridade gritante de um cotidiano que não queremos escutar.

A geladeira atulhada de Marco Paulo Rolla é algo que também não queremos ver.

E aí vem a performance de Anne Durez e Aguinaldo Bueno, que é o que faltava para me convencer de vez.

Embaixo de um monte de pedras, a artista se move muito devagar. Algumas pedras rolam. Aos poucos fica claro que há uma pessoa debaixo das pedras. Seu parceiro retira as pedras, tira o corpo da artista e o leva embora. Se você não prestar atenção, se você não “ouvir” o quase imperceptível movimento, o rolar de uma primeira pedrinha, você não saberá que há algo vivo por baixo de tanta pedra.

A Galeria apresentou o vídeo Resonating surfaces, sobre a psicanalista brasileira Suely Rolnik, uma das vítimas da ditadura militar brasileira. Me chamou a atenção uma das cenas iniciais, uma panorâmica sobre São Paulo, com a narração dizendo que a cor da cidade é cinza. O cinza do fog matutino, das águas do Tietê, do asfalto. Na tela, vermelhos, azuis e amarelos espalhados por entre os edifícios próximos ao Minhocão. Foi engraçado. Mais um caso de “surdez” ao berro das cores.

A exposição, nos diz o texto explicativo, foi baseada em uma música de Caetano Veloso, composta durante seu exílio voluntário em Londres, durante a ditadura.

Não vejo silêncio agora. Para nós. Acho que para europeus e americanos talvez haja.

O Grupo Arte e Psicanálise do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo organizou, neste ano de 2008, quatro reuniões no Centro Cultural b_arco, em sextas-feiras de agosto, setembro, outubro e novembro. Juntavam-se um artista, um crítico e um psicanalista para analisar a obra do artista presente.

Os críticos, nas quatro reuniões, falaram muito de si mesmo e um pouco da função da crítica, entendida como uma espécie de compadrio, de pertencimento a uma mesma ação criativa. Os críticos não fizeram crítica. Nem poderiam. Deram a idéia de pertencer a panelas.

Já os psicanalistas, sempre valeu a pena escutá-los.

A reunião que encerrou o ciclo, em 28 de novembro, tinha a video-artista Kika Nicolela, a crítica Juliana Monachesi e o psicanalista Joel Birman.

Foram apresentados alguns vídeos da artista antes do início das falas, entre eles Trópico de Capricórnio e Passenger. No primeiro, quatro travestis falam sobre suas experiências, frente à câmera; no segundo, paisagens se dissolvem como se vistas pela janela de um carro.

Birman falou da dissolução das identidades na contemporaneidade.

Eu vi mais coisa.

Vi a dissolução das identidades na contemporaneidade em pleno processo. Digo, os vídeos como parte do processo da dissolução das identidades na contemporaneidade.

Para tomar os dois vídeos citados, os dois mais impactantes, analiso primeiro a posição da câmera.

Em Trópico, a câmera, no alto, esmaga os travestis de encontro à cama. A crítica Juliana Monachesi nos informa que a artista costuma deixar seus entrevistados sozinhos em um cômodo, com a câmera, enquanto ela se retira, só aparecendo ao final. E depois edita as falas. Os travestis do vídeo apresentam uma noção passiva do mundo. Eles recebem ações, eles se pretendem um campo de prazer para um outro que os procura. Eles não demonstram, seja pelas falas editadas, seja pela postura corporal, e seja pela relação deles com a câmera, qualquer agenciamento.

Falam uma fala narcísica, fechada, impotente.

Em Passenger, a paisagem é a da janela do carona. Alguém mais dirige o carro.

Alguém mais está com a câmera. E com o poder. Alguém dirige e forma – e disforma – as identidades – sejam elas de pessoas (os travestis) ou cores (nas luzes que passam pela janela de Passenger).

A produção dessas imagens se dá, por um lado, através da atenção da artista para com seu assunto. Mas, de outro, pelo controle ou criação de sensações, o que cria condições artificiais para a primeira.

A primeira reunião trouxe as obras da artista Nazareth Pacheco, analisadas pela psicanalista Alessandra Monachesi Ribeiro. A psicanalista fez uma análise brilhante da sedução perigosa, presente nas belas lâminas cortantes de Nazareth Pacheco. Na segunda e terceira, houve a presença da ceramista Katsuko Nakano e de Rafael Campos Rocha, artista que usa a ironia e a crítica em seus trabalhos e na sua visão do trabalho alheio. As psicanalistas foram Andrea Mazagão e Leila Ripoll.

Se o evento for repetir-se ano que vem, fica a sugestão:  uma fala crítica mais preparada.

A bienal teve uma Paralela que de repente ficou maior (em tamanho) do que a Bienal.

Com um inquietante desdobramento. Trata-se de mostra paga e promovida pelos galeristas, i.e., mercado. Então, o seguinte. O poder público declara sua falência e o mercado mostra seu vigor. Uma discussão e tanto sobre o papel da coisa pública, mas eu, não sei se preguiçosa ou se covarde, debaixo do meu cobertor de lã, vou me permitir dormir até mais tarde.

Quanto às obras que nos chamaram a atenção (vi a exposição com o Elias Fajardo):

Marepe equilibrou umas cadeiras em uma estrutura desequilibrada. Gosto de esse piscar de olho com um brasileiro inconsútil, não explícito, mas nem por isso menos eficaz, pelo contrário.

Patrícia Leite trouxe duas pinturas. Uma, Janela Aberta, é bem boa, por retomar a metáfora de a pintura ser uma janela para o mundo de forma torta. Sua “janela”, vista em perspectiva, problematiza um frente-a-frente que não temos mais com nosso meio.

Marcos Chaves e Pedro Motta, fotógrafos, falam sobre a mesma coisa. Uma permanência do orgânico, do vivo, dentro do concreto urbano. Mas falam de uma distância que me remeteu ao título da exposição: De perto e de longe. Chaves está tão próximo da irrupção do que não tem controle dentro das formas retilíneas do controlado que dá para sentir a dor da pedra. Motta se atém a uma observação desvinculada. Ambos escapam do, argh, politicamente correto.

Caio Guimarães trouxe um vídeo de 5 minutos de um humor pensante, chamado El pintor tira el cine a la basura: alguém prepara uma parede para uma projeção; passam a projeção; no meio dela, a pessoa retira a tela; embrulha; joga no lixo. Um conteúdo que só existe, literalmente, enquanto durar o meio em que se exprime.

Fabiano Gonper, de quem já cobri uma exposição na Baró Cruz, levou mais de seus grandes desenhos-índices, um registro de uma “categoria”, no caso, nus masculinos.

Rosângela Rennó traz o imaterial, presente também em suas recuperações de objetos, em seus trabalhos em cima de memórias. Dessa vez, o imaterial é o que forma redemoinhos em campos e estradas. Testemunhas dessas espirais de poeira contam o que viram, e fotografaram. Alguns relatos dão, junto com as imagens, a idéia do que aparece e some, sem nada deixar. “Queria parar perto dele, mas ele não me esperou – eles nunca esperam.” “Na minha frente, exatamente na minha frente, se forma o bicho.“. Os lugares trazem campos de significação também de resquícios imateriais que escutamos e (quase) esquecemos, nós, os citadinos que não vemos redemoinhos: as fotos foram tiradas em lugares chamados Peixe Cru, BR 367, Araçuaí.

Lucas Bambozzi fez projeções de vídeos em cima de cartões postais em branco. As projeções são imperfeitas, sem foco ou enquadramento. Um pensamento sobre a perfeição como antônimo de significação. Bem bom.

Nicolás Robbio pode ter feito a obra mais bela da exposição. Retroprojetores jogam em paredes manchadas, velhas, que compõem o velho galpão industrial em que a Paralela foi montada, o recorte que produzirá a imagem de velhas persianas quebradas. Um cenário instantâneo, um drama de varetinhas, um imaginário não-tecnológico, ali, ganhando a concorrência.

Marina Rheingantz tem uma pintura que Elias Fajardo aproximou de Edward Hopper. Uma desolação de um urbano que se desdobra e fulgura ao mesmo tempo em que fracassa.

O ambiente é muito bonito, com suas estruturas metálicas características do início do XX.

Também é perto de um buraco de metrô, um must quando se trata de São Paulo. Mas faltou um ar-condicionado.

Como sempre, me diverti, inclusive no andar vazio.

A 28a Bienal de São Paulo tem, de fato, poucas obras, das quais vi ainda menos – o que me leva a um primeiro pensamento: sobre a capacidade de um adulto informado (sou eu, esse) receber e responder a experiências que exigem dele uma participação, uma colaboração, no jogo constante de significado (seriam as obras de arte, essas).

Se não for assim, claro, quanto mais melhor. Por exemplo, um tobogã e um brinquedo de escalar cubos é pouco. Hordas de consumidores, todos da mesma idade mental (baixa), excitados em busca de mais e mais, invadiram sem parar a projeção de um filme de Godard (Hard and Soft), no auditorio, em que eu tentava não perder as palavras ditas em som ruim e sentido maravilhoso.

Mas se você não vai lá para tirar foto da tela de cinema apagada (o filme atrasou alguns minutos), antes de se levantar em busca da próxima sensação, então, poucas obras está bom.

As que eu vi:

A que mais me fez rir. Sim, arte contemporânea tem senso de humor, baseado na ironia. Quanto ao cinismo, veremos mais adiante. O peruano Fernando Bryce é autor da instalação Vision de la pintura occidental. Um aparte: a instituição não pôs a identificação perto das obras. Você tem de consultor os monitores se quiser saber quem é quem. Bem, o Fernando. Ele fez reproduções, fotográficas e em desenho, do cânone artístico do ocidente. Tem de tudo. Mona Lisa, Rembrandt, Picasso, um ao lado do outro. Ao lado, fac-símiles fakes (e só aí já dá para fazer um tratado, sobre esses fac-símiles que são fac-símiles e que são falsos) da papelada burocrática que cercariam o transporte, a exposição e mesmo a informação de tais obras. Meu preferido é um papel ofício dizendo Fuerza Aerea del Peru, Vision de la Pintura Occidental, Escuela de oficiales, Departamento academico. Você já imaginou?

Depois vi alguns sobre uma das questões principais de que trata a arte de nossas vidas, e as nossas vidas: a identidade. Sophie Calle, francesa, se apresenta sob o olhar do Outro, o que é muito bom. O Outro (é Lacan, isso) sendo nossa única possibilidade de vislumbrar a imagem fugidia, inversa, defeituosa de nós mesmos, e, já disse, única. Diz Calle em um cartaz: “Segundo minhas instruções, durante o mês de abril de 1981, minha mãe foi á agência Duluc Detetives Particulares. Ela pediu que me seguissem e solicitou um relatório por escrito de como eu dispunha meu tempo, bem como uma série de fotografias como prova.” A obra é esse pedido – e chegamos à obra através do resultado desse pedido, as fotos e os dados. Fotos e dados que ja não são mais o que de fato aconteceu, mas apenas o que o detetive contratado pôde mostrar. E o que nós, aqui na Bienal de São Paulo, conseguimos ver. De Sophie Calle não sabemos nada que não esteja irremediavelmente misturado ao que chamou a atenção do detetive contratado, a Paris no outono de 1981, e a nós mesmos que podemos estar atraídos mais por um voyeurismo libidinal ou mais pelo cinza bonito do cenário, ou por qualquer coisa entre um e outro, a depender de quem somos. Ou, ainda, pelo desejo, comum a todos nós, de nos vermos pelo olhar do Outro, de contratarmos, nós, um “detetive” que pudesse nos falar de nós. Muito bom.

Erick Beltrán, do México, trouxe um El mundo explicado, também sobre identidade, mas aqui no viés biotecnológico que parece ser a tentativa desesperada dos que querem porque querem obter uma noção de identidade clara, não angustiante por dúbia, do indivíduo. Os que buscam os genes, os átomos, como se lá estivéssemos. É essa tentativa que a obra de Beltrán expõe a nu.

E Allan McCollum, de Los Angeles, com desenhos que fazem lembrar o teste de Rorschach, repetidos 1.800 vezes – o que anula o propósito semântico de sua referência. Lembrei da musica de Gracia do Salgueiro, cantada por Beth Carvalho: “Subi mais de 1.800 colinas não vi nem a sombra de quem eu desejo encontrar.” Olhei mais de 1.800 desenhos e também não vi.

A mineira Valeska Soares fez uma pilha com letras de papier machê (que quer dizer papel desmanchado, e esse campo semântico também é importante). Roberto, ao passar em frente pela primeira vez, achou que eram ossinhos. Depois viu: eram letras. E comentou: tanto faz. De fato, tanto faz. As letras, mortas e brancas como ossinhos, se referem ao texto do primeiro catálogo da primeira bienal de São Paulo, em 1951. Dentro do contexto de questionamento e renovação a que se pretende a 28a bienal, a obra, auto-referenciada, tem sua eficácia. Há o aspecto da diagese – o que faz parte da obra mas está fora dela. Tendemos a ressaltar essa característica na arte de hoje, em que a referência biográfica do artista ou a contextualização da produção é tão importante quanto o que está ali na nossa frente. Esquecemos que sempre foi assim. Ou você acha que a pintura religiosa anterior à Renascença – só para pegar alguma coisa de bem antiga – seria compreensível não fôra o fuidor pertencer ao mesmo âmbito cultural daquilo que lhe estava sendo mostrado?

E resta o cinismo.

Diz Vladimir Safatle, de quem leio o excelente Cinismo e a falência da crítica, que nossa época é cínica pois apresenta suas normatizações ao mesmo tempo em que apresenta os desvios, as transgressões possíveis dessas normas. Ele mostra como isso serve ao capitalismo tardio e sua necessidade de estabelecer metas de desejo não concretas, mutáveis, flúidas, que atendem ao canibalismo de um consumo de si mesmo. Mas isso não vem ao caso, aqui. Fiquemos com a primeira parte. A bienal, ao apresentar a obra e a não-obra, ao mesmo tempo e com igual valor, nos impede a crítica (e a auto-crítica, mas isso também extrapola aqui os limites não-agressivos desse artigo). E, e nem precisaria eu citar Safatle, pois é o óbvio: a ausência de possibilidade de crítica só serve a um senhor, o que estiver no poder naquele momento. Ou seja, o cinismo é reacionário.

A escultura de grande formato é sempre um diálogo com o público, com a pólis, e portanto com o poder. Os grandes monumentos são tradicionalmente construídos e moldados de acordo com o poder vigente, para a manutenção do status quo. As esculturas ou questionam este poder ou o apóiam. A escultura jamais pode ser, entretanto, neutra.

A neutralidade pertence aos bancos, suíços ou não, e é um modelo falido. A arte não se permite neutra. A arte urbana muito menos.

Um pouco de história. A década de 30 foi marcada por grandes questões políticas e pelo autoritarismo. Tínhamos o nazismo de um lado, Roosevelt de outro tentando erguer o seu país depois da quebra da bolsa de 29 e tínhamos Vargas no Brasil e sua Assembléia Constituinte de 33. É neste cenário complexo e perturbador que o modernismo brota.

O modernismo combate o impressionismo. Por isso temos pinturas que propositalmente desobedecem a anatomia, desenhos que dão as costas para a proporção e perspectiva, ao mesmo tempo que trazem traços mais reais e assertivos. É – ou deveria ser – uma contestação. Compare um Monet com um Picasso, por exemplo. O impressionismo traz a impressão (ahá!) do real com luz, sombra e traços que não são traços. O modernismo traz o traço absolutamente real e concreto em uma interpretação moldada, subjetiva e deturpada da realidade. Um é o oposto do outro.

Estamos falando de um momento, a década de 30, muito perturbador na história mundial, onde as certezas humanas morrem todas, uma a uma, afogadas nas teorias de Einstein.

Passaram-se 80 anos e a história dá voltas. A bolsa quebra novamente, temos Bush, fundamentalistas religiosos em todos os cantos (uma nova forma de nazismo) e uma internet tão revolucionária quanto a relatividade de Einstein.

Temos hoje um chão muito similar ao que deixou brotar o modernismo. É natural, portanto, vermos artistas com os mesmos questionamentos.

Fui no MuBE e saí de lá com a sensação de que a Semana de 22 parece não terminar nunca.

Cássio Lázaro dialoga com o urbano com a forma não-representativa, que por sua vez dialoga em si e entre si com massa e linha. A sua exposição Amassaduras, Dobraduras e Rasgaduras se insere na pólis de forma orgânica, admitindo em si a metamorfose de concreto que a cerca.

Ou seja, considerando que a cidade muda sempre e se molda em cima de sua própria decadência, a escultura que se propõe orgânica mas sem ser representativa, complementa e se permite complementar por este ciclo de vida e morte do concreto.

Falei do modernismo porque Cássio Lázaro pode ser entendido como um modernista. Ele pega a forma e a destrói, a molda de acordo com a sua interpretação da matéria, sem com isso enfraquecer o traço.

O humano, onde está necessariamente inserido o contexto da escultura, pode ser retratado de três formas: por sua presença pictórica, pelo registro de uma interferência ou por sua ausência no espaço.

As esculturas de Cássio Lázaro retratam o humano por sua ausência: é através de suas formas quase fractais que ele questiona a presença (ou não) deste humano e, conseqüentemente, de seu papel na sociedade. Novamente, reproduzindo portanto a vida-morte orgânica da cidade que acolhe e é acolhida por ele.

São esculturas grandes, de aço pintado, laqueado e oxidado que questionam o status quo, ao destruir a forma simbólica do concretismo da nacionalidade e do poder. E isso é bom.

O ruim é que eu tinha uma certa esperança de que a história não desse tanta volta.

Não gosto de exposições temáticas. Não acho que tema seja importante em arte. Pensando nisso, fui à É claro que você sabe do que eu estou falando?, da Vermelho, uma exposição temática sobre sexo. Fui no último dia, para assistir à fala de Vladimir Safatle, de quem gosto.

Ele disse a mesma coisa que eu estava pensando, mas melhor.

Primeiro falou sobre uma necessidade de mercado, de valorização mercantil de objetos de arte, tratados como investimento por instituições como o Dresden Bank e outros (de antes da crise). Não chegou a afirmar que sublinhar temas facilitava a compra, mas quase. Depois refutou uma preocupação expressa pela curadora Luísa Duarte sobre se o sexo estaria bastante presente na arte contemporânea. Está. E de forma nobre.

Esse sexo não útil (desde que perdeu sua função reprodutiva), finito em si mesmo, está presente na arte como ele o é na vida, ou seja, indeterminado, fragmentado, traumático, poliforme, desprovido de vinculação com referentes específicos. Dentro e fora de exposições temáticas.

Se se trepa de todos os jeitos, será de todos os jeitos que o encontraremos na arte. Mas, por não ser mais constitutivo de identidades claras, não haverá palavras ou imagens que lhe dêem conta. Safatle reconhece três vertentes, as três insuficientes.

A primeira esboça um retorno a uma naturalidade perdida, buscando cenários intimistas de “antes” ou “depois” do sexo, ou expressões cotidianas e “humanas”, em situações sexualizadas. Serão as fotos de travestis em seus quartos modestos, por exemplo. A explicitação sexual estaria, aqui, como uma espécie de busca de último refúgio contra uma sociedade composta por artifícios. Um romantismo.

A segunda vertente apresenta pornografia (imagem ou palavra de consumo, objetificada, sem contexto) com um distanciamento brechtiano. Um posicionamento de quase enfado, de pós-consumo. Ou seja, uma apresentação de dispositivos que acionariam uma determinada reação sensorial, não fôra a distância que desativa esses mesmos dispositivos. Em geral, essa vertente da arte utiliza meios fetichizados da cultura, como fotos de técnica publicitária ou bonequinhos de barro populares, mostrando que a reprodução automática e implícita de tais meios – e portanto, de tais imagens ou palavras – é justamente o que as desabilita. Uma denúncia.

A terceira vertente critica a primeira e a segunda, a suposta possibilidade de naturalidade e também a saída pela artificialidade. E mostra o que não pode ser mostrado, o informe. Aqui há uma anulação de limites formais e de categorias, da mesma maneira que não há, na nossa vida, limites entre um corpo biológico e outro.

Safatle terminou sua fala com duas perguntas. A primeira é se haveria uma forma (ou uma exposição) adequada para se pensar a sexualidade contemporânea, considerando seu campo semântico ilimitado e disforme. A segunda é se a arte, para pensar o sexo, precisa realmente organizá-lo em discurso, “falar” dele. Aqui Safatle faz uma ressalva óbvia: de que não se trata de uma proposta de não falar, de recalcar, o que desde Freud há mais de 100 anos já sabemos que não funciona. Mas, diz ele, se sexo não tem forma, não se difere, todas as formas lhe serão indiferentes – e apropriadas.

Muito bom.

Do que gostei, entre os 17 artistas presentes:

Fabio Morais espalhou umas cartelas descrevendo obras ausentes que se chamariam Bimbada, Brochada etc. Ficou muito engraçado porque ele usou um vocabulário de uspiano formado em filosofia da arte para descrever besteira.

Carla Zaccagnini distribuiu um folheto de frente e verso, com as duas versões de uma mesma narrativa, a de uma cena violenta e erótica. De longe a peça mais sexualizada e erótica da mostra e… sem uma imagem sequer, só texto.

Amilcar Packer filmou em vídeo uma fotografia de mulher nua que tem seu sexo furado por um pênis. Só que o pênis (do próprio artista) faz o furo de dentro para fora, o que é bastante perturbador. Fica uma minhoca (desculpe, uma cobra) a sair de dentro da mulher. Mas, por sua própria ambigüidade, a obra também funciona para desestabilizar imagens já consumidas ad infinitum.

Gisela Motta e Leandro Lima protagonizam um ersatz de casal: ela joga facas nele, que se encolhe. Acho que todas as mulheres já tiveram momentos em que gostariam de ter feito o mesmo.

E Nicolas Robbio põe duas pessoas frente a frente em total silêncio, num vídeo que não acaba. Bem bom.

O Hable de Wagner Morales é um touro investindo, cortado em dois. Uma metade fica no térreo da galeria, a outra metade no segundo andar. Se você se põe na posição certa, vê o touro em dois momentos. Gostei da idéia, embora seja muito cerebral.

Marilá Dardot, em seu Clipping, nos deu definições e estatísticas sobre sexo. Em sua neutralidade e didatismo meio cansativos, ela se aproximou um pouco do que Safatle falava em relação ao distanciamento brechtiano.

De Matheus Rocha Pitta eu francamente não gosto. Não é uma questão de qualidade, é apenas uma diferença de pensamento. Vejo nele uma preocupação com questões de início, um platonismo, que me é muito distante.

Já de Keila Alaver poderia dizer o contrário de Matheus. Sua proposta é batida: uma banquinha de doces em forma de órgãos sexuais. Mas eram gostosos. Comprei um caralhinho – rolo de chocolate, duas bolas de uvas confeitadas. Na saída, ninguém no local, roubei um dedo médio (eu, distinta senhora de classe média, sou capaz de crimes contra o patrimônio quando se trata de chocolate). Mordendo-o com gosto enquanto abria o guarda-chuva pensei que esse era um bom resumo da exposição. Ao apontar com seus dedos curatoriais uma especificidade que não existe, a exposição acabou por demonstrar – uma vez tirado o papel celofane – que os prazeres não têm forma: o dedo era apenas um desenho no papel de embrulho. Por dentro, um chocolate puro, sem forma distinguível – e a forma era o menos importante.

(Virgínia de Medeiros mostrou um vídeo sobre testemunhas de Jeová; Leya Mira Brander tinha uma boa pintura mural sobre a primeira vez em um buraco; Lia Chaia veio com uma obra chamada Foda; Maurício Ianês mostrou o vídeo do rosto de um homem que recebe uma ejaculação no olho, o que causa certo impacto; Cínthia Marcelle mostrou cocaína, tão branca quanto esperma; Rafael Assef fez um vídeo de um casal que descreve suas trepadas e vontades; e Marcelo Cidade filma uma moça que lambe uma barra de manteiga sob um título que é o melhor da obra: A perspectiva de John Stagliano sobre as ações de J. Beuys. A obra de Cadu, um sensor que tocaria música com a presença corporal, estava quebrada no dia da minha visita.)

A posição do narrador é a de uma testemunha que fala o que vê.

E a posição da testemunha é sempre muito complicada: ela estará sempre dentro e fora do discurso, sempre falará em uma primeira e terceira pessoas verbais, ao mesmo tempo. Quando essa fala se dá através de miniaturas, o efeito retroativo da significação fica mais acentuado. Miniaturas estão longe, por isso as vemos pequenas. Seu campo semântico inclui a diminuição de tamanho da perspectiva clássica, e a infância.

A exposição Pequenos formatos, no SESC-Paulista (parte da Mostra SESC de Arte – 2008), tem uma predominância de narrativas em suas ceninhas armadas.

O sujeito – ou o cara que fala – hoje está sendo definido exatamente assim, na impossibilidade de se estabelecer um agenciamento que nele nasça. Sujeito é o cara que fala, que enuncia – não importa mais o quê ele fala nem se é nele que tal fala se origina. Ele apenas enuncia. Ele é, portanto, um momento de uma linguagem.

A complicação com miniaturas é que esse momento de linguagem tem seu tempo presente posto também no passado. O processo de sujeitificação vira uma construção histórica. E pomos uma testemunha virtual, fantasmagórica, ali. Uma sombra que inventamos para nossa comodidade, para melhor dialogar com essa outra testemunha, a que se coloca em outro plano, de onde nos conta uma narrativa em uma ceninha montada. Está, essa testemunha que armou a ceninha, em um tempo que não é o nosso, inalcançável, e de lá nos provoca a tristeza dos sujeitos perdidos.

Não é mais o espelho lacaniano onde a distância, entre o eu e esse outro que a mim espelha, trabalha a favor da sujeitificação possível. Aqui, a distância que problematiza – para não dizer impossibilita – a sujeitificação nossa de cada instante é a soma de duas distâncias: a distância que vai entre testemunhar algo e falar do que foi testemunhado, e a distância que há entre a miniatura (que é o falar do que foi testemunhado, a narrativa) e minha estatura, meu ouvido.

Não é bem distância. Estão longe, é certo, mas porque estão efetivamente lá, na sua frente, se põem então em outro plano, outro tempo. É algo em paralelo. Um significado que corre ali do lado, pertinho e inatingível, um passado presentificado em forma de ironia. (Rá, achou que eu serviria para alguma coisa? Eis eu, brilhoso, tipificado, ridiculamente pequeno – e presente.)

E inútil para a construção de um sujeito vivo entendido como um momento de linguagem viva. Ou a linguagem está morta e encolhida para que o sujeito – aquele, o fantasmagórico – fique vive. Ou o sujeito/momento de linguagem está estratificado, preso (e portanto morto) em algum ponto distante de uma linguagem que se mantém viva pela ironia e pela sua eficácia no presente.

E o engraçado é que ao se pôr em tal posição impossível, essa testemunha/narrador/artista se mostra contraditoriamente em seu melhor. É a miniatura o melhor testemunha/narrador/artista das pontes queimadas da contemporaneidade. Ao vê-las sabemos que as perdemos. E em frente com o que, na melhor das hipóteses, é uma transição.

São sete, os artistas da mostra.

Rafael Campos da Rocha, Nazareno, Leonilson (com obras fundidas depois de sua morte) e Rosa Paulino são os narrativos. De Nazareno já falei em vários sobrearte e sempre bem. Gosto de seu pathos, de sua perversidade. Há uma espera em tudo que ele faz, um passado que não se completou, um dia que não acabou e que ficou lá, com seus restos, para sempre. No SESC ele trouxe algumas de suas caminhas com colchões impecáveis, de mármore, que nada amassa. Há cadeirinhas em círculo, aguardando um pronunciamento importante de um enviado que nunca chegou. Um monte de pedrinhas e suas pás/colherinhas de prata, cujos trabalhadores foram até ali tomar um café e não mais voltaram.

Rafael Campos da Rocha usou muito bem o espaço expositivo. Em uma das obras, pôs um minúsculo bonequinho de capitão de navio e um tubarão de plástico, tombado, no canto de um grande suporte quadrado de acrílico, perfeitamente limpo e vazio. Então vemos o drama de um homem que enfrenta e vence um tubarão e… e nada há a fazer com essa vitória.

De Leonilson há uma escadinha de bronze que vai do nada a lugar nenhum (sai do ar e chega à parede cega) e alguns de seus desenhos em hidrocor sobre papéis rasgadinhos com frases pela metade, registrando cenas sem importância, testemunhando o que ninguém viu. Um deles diz: “e eles não viram que ela corria com a boca vermelha em chamas.”

Rosana Paulino narra um processo sexualizado mas tão lento, tão lento, que, tendo começado em algum momento do passado remoto, pode muito bem ter se fossilizado sem ninguém notar. São casulos em uma parede. Deles saem pentelhos pretos em alguns, óvulos semicobertos em outros, conchinhas/bucetas em terceiros, e por aí. Tudo muito parado, velho, morto, mas com sua ameaça de vida por eclodir, mas com uma quase-certeza de que a vida não mais eclodirá.

Os outros três são Walton Hoffman, Nino Cals e Efraim Almeida.

Walton Hoffman é o mais cerebral de todos. O que a narrativa faz com o tempo, ele faz com a superfície espacial de seus objetos. São um aviãozinho e um sobradinho, ambos de acrílico. Acontece que eles são formados por peças como as de um quebra-cabeça. Ou seja, é um 3D (são objetos) formados por uma superfície que nos remete a algo em 2D. Se, nos artistas narrativos, a complexidade de uma cena imagética é esmagada em sua dimensão temporal para que nos fale de outro tempo fora do tempo, de um momento interrompido que insiste em sua dimensionalidade estreita, aqui os objetos se avolumam de uma superfície plana por um instante e nos dizem que a qualquer momento a ela podem voltar.

Nino Cals empilha passados, todos mais ou menos iguais, em um monte que os desresponsabiliza por qualquer participação no processo de sujeitificação. É uma pilha de xicrinhas e bules de porcelana, em cima de uma pilha de toalhinhas bordadas.

E Efraim Almeida mostra suas casinhas de madeira. E dois quadrinhos terríveis: um gato e um cachorro, carimbados em um papel, no testemunho de uma domesticidade que pode ser repetida ad infinitum.

Perguntei a um dos guardas da exposição se ele tinha gostado das peças. Disse que de algumas, e apontou para o tubarãozinho e seu capitão vitorioso, de Rafael Campos da Rocha. Disse que também tinha gostado dessa. Animado com minha concordância, tirou do bolso uma lupa e disse:

“Veja lá, que incrível.”

Fui ver. No bonequinho realmente minúsculo estavam pintados botões cavanhaque, uma insígnia no quepe. Devolvi a lupa agradecendo. O guarda pôs no bolso e me olhou, perdido. Um quê de aflição. Como pode, tanto detalhe (e tanta vitória) para nada.

Acho que de todos os visitantes da exposição, esse guarda deve ter sido um dos que mais a entenderam.

Chamava-se Newton, ou Nilton, não sei. E eu não saber também faz parte do que eu – e ele – vimos.

A intervenção na vila onde fica a Galeria Emma Thomas, no dia 4 de outubro de 2008, me fez voltar a pensar no maneirismo. É um assunto que tem estado na minha cabeça.

Flora Assumpção e Renato Pera projetaram o desenho de uma serpente na parede cega de um sobradinho antigo da Rua Augusta. A intervenção – que durou apenas duas horas – se chamou Morning star ou Serpiente emplumada.

Tem sempre algo que escapa às palavras, que você só saca vendo, mas mesmo assim eu vou tentar.

Foi uma época de quebra de paradigmas. Ou é. E vou parar por aqui porque não acho que comparações de épocas históricas diferentes tenham interesse maior do que a superficialidade do anedótico.

Mas ando prestando atenção no universo iconográfico dos games, na literatura fantástica – que faz um retorno mais para o triunfal em bienais e em prateleiras de livrarias. E nos instrumentos de fascínio visual de alguma arte contemporânea.

A cobra na parede do sobradinho tem, no seu verde químico e no seu traço computadorizado, a presença do que, ainda sem nome, estamos começando a chamar de pós-humano.

O sem nome.

Está bem, uma comparação. No XVI, o sem nome tinha o nome de América, a descoberta que, junto com a reforma protestante, aniquilou as certezas católicas que formavam a identidade européia.

Nosso sem nome vai nascer no buraco obsoleto (deixado lá por mera nostalgia) de alguma xoxota biônica. E a partir daí, não se trata mais de pós nada, mas sim, da coisa em si. Não é coisa. É, sei lá.

(E um aparte: já tentamos de tudo para manter a ilusão de uma identidade própria desde que ficou claro não sermos totalidade alguma, centro de nada, nem nunca o termos sido. Saber nosso mapa genético é a última dessas tentativas. Seremos, suspiramos esperançosos, nosso mapa genético. Assim que pudermos encomendá-lo. Ou, pelo menos, tentamos nos convencer disso, esquecendo que, junto com o mapa genético, virá a possibilidade de modificá-lo.)

À primeira vista você pode considerar a cobra e seus companheiros iconográficos um exemplo da infantilização que grassa em um mundo capitalista que entupiu tanto de comida e objetos os que dele fazem parte que agora viramos todos uns crianções mimados. Só pensaríamos, então, em nos divertir – e da forma mais imbecil possível, ou seja, através de virtualidades fantasiosas.

Mas, acho eu, tem caroço por baixo desse angu.

Pode ser que tantos seres híbridos de poderes ídem tenham a mesma função, nem um pouco infantil, que tiveram os contos de fada em seu exercício de preparação social para uma realidade árdua que ia ficar mais árdua ainda. Quem leu Bettleheim e seu A psicanálise dos contos de fadas sabe do que estou falando.  Quem não leu devia ler: a infância nunca mais lhe será a mesma.

A cobra verde é aposta sobre uma parede insossa. A banalidade do cotidiano é assim sobrepujada pelo brilho falso de uma droga ou de uma luz ou de uma possibilidade. Um por-que-não-? implícito. E a latente ameaça – que vem como sempre com sua irmã gêmea, a atração – de tal verde cobra tem a vantagem de todas as fantasias: trata-se de ameaça/atração controlável, pois feita, quer dizer, de autoria, origem, conhecida.

Um preparo para o não-controle, um trailer, um making of apaziguador. Veja, é assim, habitue-se.

E agora o titulo. Preste atenção: morning star, serpiente emplumada. O campo semântico do ovo da segunda, do novo dia da primeira.

Como eu disse, palavras não dão conta da lógica abrangente e não seqüencial de um impacto estético.

Você não foi lá e não viu. Perdeu.

(Ah, é a foto saiu ruim, sorry.)

Homem que era homem (aquele da Declaração dos Direitos do Homem, de 1793) tinha de ter autonomia para tomar suas próprias decisões pessoais; tinha de externar tais decisões em um estilo, uma expressão puramente dele, individual, autêntica; e considerar que essas duas coisas formavam uma unidade, chamada José Afonso, Cristina Maria, Josicleide etc. E qualquer coisa que viesse ameaçar tal definição de homem era combatida por esse homem com vigor. Os chamados humanistas.

A arte contemporânea pensa diferente. Acha que definir o humano tem dois problemas, o definir e o humano.

Na verdade, o assunto é a boneca barbie (inventada pelo casal Handler, donos da fábrica de brinquedos Mattel, na década de 1930), mas não tive outro jeito senão começar lá de longe.

Me interessa a boneca barbie feita (bem, é, feita ou pegada) por Patrícia Kaufmann, atualmente na Galeria Monica Filgueiras.

Voltando então ao começo e às três características do homem, aquele: livre-arbítrio, singularidade na expressão das decisões tomadas através desse livre-arbítrio, e a noção de que essas duas coisas juntas faziam dele uma totalidade.

O contrário da primeira característica é a alienação, no sentido picanalítico, político e estético. No último campo, que é o que nos interessa, será uma obra de arte não autônoma, que se presta a uma finalidade e que usa seu executor como instrumento e não como agente.

O contrário da segunda é, na política, o que não se alinha a seus interesses sociais; na psicanálise, o que tem a chamada “fala vazia” de Lacan; e na estética, o estereótipo, a impossibilidade de determinar autoria. Ou, segundo Adorno: a arte que conhece a expressão do inexpressivo.

E o contrário da noção de totalidade, de unidade, em qualquer âmbito, é tudo aquilo que excede ou agride uma forma normatizada. A mudança, a metamorfose.

E agora a barbie de Kaufmann.

Ninguém fala da barbie sem crítica. E simplesmente impossível.

Então, me pus a analisar a crítica feita por Kaufmann.

As peças são de pequenas dimensões. Bom. Manteve a dimensão real da boneca e até mesmo a diminuiu. O papel usado na pintura é artesanal, falho, amassado, com as bordas irregulares e suas fibras cortando, interferindo na linha limpa da pintura acrílica chapada, feita através de máscaras – e que teria uma “perfeição” não fora a interferência da textura do papel. Bom também. As pinturas estão em caixas de acrílico (que é um plástico), o que mantém o fruidor à distância, ou seja, uma apresentação condizente com a não-humanização da boneca. Preste atenção, não-humanização nas condições de como o humano é entendido na contemporaneidade. E não como era entendido em 1793.

Porque o humanismo de 1793 não é o de agora. A alienação do sujeito, hoje, pode ser entendida, e o é, como uma permeabilização, desejável até, ao jogo de forças a que pertence. À história, com agá maiúsculo se você quiser ser pernóstico.

A impossibilidade de determinar autoria é, hoje, uma exteriorização bastante atual, interessante, dessa condição anterior, a de um entendimento de fluxo, de processo, de pertencimento e inclusão ao que, antes, não era chamado de humano.

E a totalidade, bem, essa ficou de vez desacreditada com a inelutável certeza de que se falássamos assim do homem, ele seria na verdade um deus – distante e diferente de outros átomos irmãos, e estaríamos uma vez mais – embora posando de prafrentex, embora achando que combatíamos o bom combate – reeditando a velha ideologia idiota mítico-religiosa.

Mito.

E aí a exposição se chama Máscaras do Mito. Máscaras, no primeiro e imediato sentido, porque as pinturas são feitas através de máscaras de papel recortadas.  E tem o mito.

Alguma coisa, talvez o rosa reencenado em vários tons. Talvez os vários papéis da barbie: sm de chicote em punho; puta de lantejoulas no bico dos seios; escracho com cerveja no boudoir (meu deus, achei que nunca mais ia usar essa palavra!); e mais lesbian-chic e outras.

Porque mito é coisa que se reencena, justamente.

Então, vi a exposição diferente. Diferente de mim, e é muito difícil você ver o diferente de você.

(Bravo, Elvira!)

Nunca pertenci, por biografia e biotipo, à esfera das bonecas barbie. Não as tive. Nem concretamente nem como modelo. Então, na Kaufmann, não parti da esfera barbie. Parti de onde eu estava, do lado de fora.

Não.

Kaufmann parte de dentro. É assim: em sendo uma boneca barbie, a crítica se dirige aos limites estreitos que uma boneca barbie tem em suas possibilidades de vida na contemporaneidade. Trata-se, literalmente, de uma boneca barbie que quer ser e ousa ser puta, lesbian-chic, sm etc. É literal, não é um símbolo.

A crítica é a partir de dentro. Não é uma reforma (no sentido político, estético e etimológico). É uma evolução.

Em sendo barbie, e continuando sendo barbie, eis algumas novas possibilidades, parece dizer. A definição do humano, aqui, integra nossa difícil existência contemporânea. Aceita e e reconhece o inumano (o plástico, o rosa) como parte do humano. Mas busca, ainda, num eco mítico, a repetição capaz de oferecer algum conforto ao reencenar o que poderia ter sido, poderia ter sido.

No último artigo, por coincidência, também falava de narrativas. Era a exposição de Liliana Porter, que arma seus bonequinhos em meio a cenas.

Aqui é bem diferente.

Marilá Dardot, agora na Vermelho, não acha, ao contrário de mim e dos escritores que cita em suas obras (Borges, Joyce), que narrativas sejam uma possibilidade – das poucas – de se exercitar um humano que tenta sobreviver, mal, ao fim de seu sonho modernista de liberdade, não concretizado. Ela não as faz, as narrativas, mas as problematiza.

Letras grandes e soltas, despidas de seu status de blocos constitutivos de um sentido, sentido esse necessariamente posto na sua seqüência (a bem dizer, em um futuro que nunca chega), para se tornarem, cada uma dessas letras, algo: uma forma. Ou seja, não mais cúmplices/apoios/instrumentos de uma transformação, de algo em andamento. Mas, sim, existentes, acabadas. Lá para sempre. Essa é a Porque as palavras estão por toda parte/Because words are everywhere.

Duas coisas sobre esse título.

Primeiro que ele diz das palavras em uma exterioridade que implica uma interioridade. O “por toda parte”, espacial, é falado a partir de um centro, o quem fala. E centro, bem, como dizer… Talvez nem precise. A segunda coisa é que os títulos, esse e os outros, vêm sempre em duas línguas, o que já significa apontar para um limite. E é um apontamento sofismátco, o de tal limite que não o é para os que se encontram compartilhando um mesmo código. Quer dizer, não é necessária, não são necessárias, as traduções. Nenhuma delas. Para que nos ponhamos em diálogo, em ficção. Para nos pormos em ação, andando, seguindo.

Em Ulyisses/Ulyisses a violência dessa negativa às narrativas está na ruptura da famosa narrativa de Joyce em páginas congeladas em fotos, mais uma vez com traducão “simultânea”: uma página em inglês, outra em português. Há uma outra ruptura violenta nessa obra, a de tags (sim, é proposital a passagem minha de um código a outro) que marcam supostos trechos do livro, em suas tirinhas de cores berrantes, amarelo, vermelho.

Na obra Com palavras de palavras por palavras, palabras/In words of words for words, palabras pesquei uma das frases que saem, formando um rolo enorme de papel, de dentro de uma máquina de escrever. A frase é: Decifrei o homem como um enigma de palavras cruzadas. Acho eu que o homem não se decifra porque isso seria supor que ele tenha uma natureza, uma “verdade” intrínsica, essencial, e não é assim que eu o vejo. Também não concordo com “enigma” que dá a idéia de algo imutável, uma estrutura fixa cuja chave existe, embora não disponível para leigos. E, por fim, palavras não se cruzam, mas renascem e mudam a cada encontro. Penso eu.

Na estante falsa de O labirinto/The Maze – referência à biblioteca borgiana, Borges teria um troço: os livros não são livros mas representações de livros. Mortos.

Não sei se entendi a Correspondência/Mail, um vídeo onde uma máquina de escrever muito antiga bate, letra por letra, o código dos emails: www.yahoo.com.br, além de endereços eletrônicos, ou a palavra arroba, letra por letra. Gosto da internet. Acho que essa tecnologia serve, como sempre acontece com todas as tecnologias, aos seu tempo e cultura. E um desses serviços é o de propiciar um escape a uma época de problematização do exercício de um humano: pela internet se ficcionaliza mais fácil a si mesmo e a um outro – esse “um outro” sendo elemento necessário a qualquer ficção (são sempre obras coletivas, as ficções) e nem sempre factível de ser inventado, não fora a tela a dar-lhe o álibi da distância e a imprecisão de corpo.

Complicados, os tempos.

Bem, sou eu, isso. É como me suporto. Em uma contemporaneidade obrigatoriamente incompleta, não confortável, que passa ao largo de formas fixas. Sou eu em termos, só por enquanto, é claro.

Uma das (muitas) coisas de que gosto na arte contemporânea é sua narrativa implícita. E às vezes explícita, através de títulos longos, como os de Nazareno (de quem lembrei vendo o que vi), ou nem tão longos, como os de Liliana Porter, em exposição na Brito Cimino. Esse pré-texto – o título – já retira do contemporâneo, logo de cara, a peia modernista de obra independente. Independente do quê?

A presença da narrativa me agrada porque percebo, depois de décadas de um mesmo mantra (o de que imagem é tudo, presente e futuro), um indício na arte (esse único fórum de discussão de idéias que nos resta), de que não é bem assim. É o texto, um texto, o motivo do fascínio que me prende frente aos bonequinhos de Liliana Porter.

Aliás, dois textos.

O primeiro texto se sustenta em atos congelados antes de sua completude – quem os completa somos nós como também somos nós a fornecer o contexto desse primeiro texto. Os atos, executados por bonequinhos, não têm cenário nem espaço realista. Congelados, ou seja, retirados do tempo, e, por não ter cenários, também retirados do espaço, os bonequinhos vivem no próprio texto, têm uma vida (auto)ficcional. Ao viver apenas na esfera da representação, nos fascinam por algo que não temos: coerência. Fazem o que fazem até o fim – que não há.

Há códigos que nos guiam na feitura/reconhecimento desse primeiro texto.

As propriedades denotativas dos atos congelados resultam em significação política e semiótica a partir de piscadelas de olho que a artista nos dá. Os Forced labor (trabalhos forçados) dizem respeito a tarefas femininas como tricotar e varrer – esse último com uma sobreposição: trata-se de varrer, é certo, mas o que o bonequinho-mulher varre é um pigmento azul à la Yves Klein. Ou seja, essa instalação nos remete a um feminino massacrado (o bonequinho é minúsculo e há uma enorme quantidade de pigmento para ser varrido, assim como o bonequinho que tricota, tricota um pano enorme em relação a seu tamanho). E nos remete também a uma “varrida” de um dos ícones no modernismo, com a referência à atitude arrogante e masculina do artista que registrou propriedade (copyright) sobre um determinado tom de azul.

O modernismo e seus valores, aliás, são vítimas em outros trabalhos. Os To see têm, empastelados na tinta que lhes dá o nome – Blue ou White - soldadinhos e suas armas, situações de trabalhadores braçais carregando fardos pesados, desportistas e suas bandeiras e bolas. Há referências a alguns dos principais movimentos do período como as pequenas armações construtivistas feitas com minissacos de aniagem empilhados, escadas, cercas etc.; ao cavalo das esculturas mussolinianas; ou elementos da cultura de massa (cabecinhas de personagens de Walt Disney) responsáveis pelos delitos e delirios da pop-art. Até mesmo um reloginho sem ponteiros, à la Dali, dá para descobrir por ali – esse, e aqui mais uma vez temos dois códigos sobrepostos, nos remetendo ao surrealismo e ao já referido tempo ausente de um paraíso mais para o terrível. Há um adorável site specific de dez centímetros, uma piscadela de olho para rirmos, todos juntos, frente ao bonequinho que destrói um pedaço de parede da galeria. Um mesmo riso, dessa vez às custas da transcendência que até a pouco nos era impingida, e que nos toma frente ao Conejo (coelho) que levita. Lá está o desenhinho de um coelhinho, tão pouco transcendente quanto dá para ser um desenhinho de coelhinho (mal)feito à caneta, com sua sombrinha rabiscada.

A definição que Gérard Genette dá para narrativa é bem básica: trata-se da extensão de um verbo.

E aqui entramos no segundo texto.

O primeiro texto é o que faz/não faz o bonequinho. O segundo texto é o que faz/não faz Porter. O verbo da feitura da obra está lá, à mostra, este também incompleto, falho – e perfeito. Pois como se trata de um verbo criativo, só incompleto e falho ele se torna perfeito, só incompleto e falho ele permite a criação – dela-nossa. Da artista e de quem aceita o seu convite. Nas instalações, é a tinta que foi jogada e que se vê, lá, jogada. O pano que foi arrumado em cima da prateleira e que pode ser desarrumado a qualquer momento. Idem para o pigmento. Idem para tudo. E tem a questão do tamanho também. O tamanho das figurinhas é uma declaração da distância que a artista toma em relação ao que faz. Aqui, ela/nós. Lá, muito longe, os bonequinhos. É montado, vejam, são bonequinhos, seu tamanho é ridículo. Isso é uma obra, percebam, não se esqueçam.

No vídeo, a coisa é mais direta.

Fox in the mirror dura uns 20 minutos e foi feito em 2007. Os bonequinhos em close mostram a precariedade da pintura que lhes dá boca, olhinhos, cabelo. Seus movimentos, feitos com montagem de stills, dá “pulos”. Não há ilusão. Velas em formatos humanos escorrem cera por sobre seus rostos de expressão romântica antes de se apagarem num vento. Bonequinhos caem no fundo infinito, dançam para fora do quadro da câmera, têm um brilho de plástico. E a voz da canção que escutamos sai de bocas que não se mexem. São todos, objetivamente verdadeiros e ironicamente falsos, conceitualmente narrados e formalmente vazios, materialistas e poéticos.

Primeiro uma aulinha chata. O que é arte contemporânea, meninos?

O que é, ninguém sabe. Mas dá para citar algumas características. Uma: a banalidade. Cansadíssimo da grandiloqüência modernista, masculina e arrogante, sem agüentar mais ouvir falar de sublime perto da palavra arte, o contemporâneo existe para mostrar a impossibilidade atual de qualquer delírio autopromocional. Daí que em vez de mármore, dá-lhe cotidiano, um pó de tijolo aqui, um caixote ali. Uma costura dessas assim, alinhavo, feita à mão. Duas: se você falar de abstrato ou figurativo perto de um contemporâneo ele vai achar que você é Múmia, Parte 25. Nada mais é abstrato ou figurativo, é tudo real.

Aquilo lá existe. Pronto. E tem mais. Existe ali, na galeria/museu/ateliê e já existia antes, na prateleira, armário ou álbum de fotos. E aquilo – ok, obra de arte – traz, para sua existência artística, resquícios de sua realidade anterior, mais corriqueira. Então, tem às vezes um tempo duplo aí, lado a lado. Três: a política de identidade na contemporaneidade foge dessas palavras aí que eu usei e prefere falar da mesma coisa de um modo menos amplo, menos “nacional”, em localizações de gênero, de biografias pessoais que podem ou não ser verdadeiras, às vezes descambando para a invenção convicta de personagens, narrativas, autoficção. Certo, vou citar a Cindy Sherman, já que citada está, sempre, em qualquer texto sobre o assunto. É quase uma performance estática, de objeto. O objeto sendo, ele mesmo, uma ação, um desdobramento, ele mesmo contém, nele, seu ambiente.

E depois vou citar o Elias Fajardo. Não vi exposição alguma dele. Visitei o ateliê. Uma intimidade de pote de tinta, de precariedade equilibrista dos quadros grandes dependentes de paredes e pregos pequenos. Nada pomposo lá. E as pinturas – sim, são pinturas – nascem de fotos que são impressas sobre a tela ou placa, e depois pintadas e modificadas. As fotos são de ciclistas solitários que vão e voltam depois; são do Jardim Botânico onde aparece a sombra do artista, no chão, já transformado em personagem, em M. Hulot de chapéu, presente ali no que faz, modificando, e sabendo disso, o que faz com a sua presença. Nenhum delírio de poder, nenhuma ilusão de obra independente e perfeita. Nada disso. E há a série O fecho do mundo, sendo que o fecho, no caso, é fecho mesmo, éclair. Que o Aurélio, aquele besta, chama de fecho-relâmpago, traduzindo o galicismo ao pé da letra. Essa série é a que mais se aproxima da narrativa contemporânea que, sim, é imagética. Da mesma forma que a literatura contemporânea é, pois é, toda ela feita de cenas de filmes, de imagens. Os da série Fecho do mundo são uma costurinha que você abre no fecho éclair e vê outra costurinha, com a imagem de dentro se relacionando, de alguma forma no tempo, com a imagem do lado de fora. Assim, tem o barco e o barqueiro que dorme, tem a cadeira velha e a menina que espia da porta perto da cadeira. E tem a série da família de Fajardo, com três fotos sobrepostas em três estâncias costuradas. A primeira do final do século XIX, a segunda dos anos 40 do século XX e a última de agora há pouco, nos 60 anos do artista. As fotos são posadas, e o lugar é Tebas, Minas Gerais, de onde ele vem. São universais. Todos temos essa família e algum lugar parecido com Tebas de algum canto do nosso passado-presentificado por fotos (Barthes: o estar ali e o ter estado ali, sobrepostos).

Fazendo parte de esse estar-no-mundo absolutamente contemporâneo, uma compota de manga. Como tudo que fazemos de melhor na arte hoje, essa também não era durável. Comi. Era ótima.

Na série Velocidade Máxima, os ciclistas, lentos, passam por paisagens que Fajardo modificou. Uns pretos para que as árvores fossem mais para trás do que já estavam, um chão que dá umas voltas e volta de onde veio. Um ir sem saber para onde.

Não chega a ser agradável, mas pelo menos obriga você a ir para frente. Falo quando você vê alguma coisa e escuta aquela vozinha de dentro da sua cabeça dizendo, ah, isso?! Já sei. E não sabe. Por exemplo, xilogravura e cerâmica que, quando separadas já se põem no centro de um popular, de uma brasilidade. Quanto mais juntas. E aí vem Laerte Ramos e você olha as xilos. Limpas, tecnológicas por assim dizer. Retas. Máquinas. E o popular e a brasilidade escoam pelo ralo. Mas claro que tem alguma coisinha por ali, sempre tem. Um olá, um eco. Você acha isso e então procura. Mas as montanhazinhas têm neve em cima, os naviozinhos são de guerra, nada a ver com a nossa história. E há uns pedacinhos que parecem quebrados mas que são, como tudo ou quase tudo, esmaltados com aquela perfeição brilhosa que só esmalte tem. Dizendo: linhas retas, universais, e agora esse brilho que também não quer saber de gestos, falhas, gambiarra alguma.

Em uma última tentativa de não sair do bem-bom do déjà-vu, você se lembra da junção tecnológico-espiritual de um Anish Kapoor e começa a procurar por algum indício de transcendência até tropeçar no óbvio: são séries. Não é nem imanência, essa outra palavra oriunda da filosofia. É indústria mesmo, coisa feita em vários exemplares. Mas em tudo aquilo há alguma coisa na torção de uma cerâmica, no bonequinho enfermeiro, na “logotipagem” das formas das xilos que provoca um quase-sorriso. É uma coisa meio alegre e, ó cabeça, você torna a lembrar do que não deve, os bonequinhos dos ceramistas nordestinos, também imersos em índices sociais: a situação de prestação de socorro médico, a formação naval, umas dobras que, bem, são quase aviõezinhos que seriam de papel não fossem de cerâmica.

Então.

E você lembra da performance que o artista acaba de fazer na Vermelho (SP). Uma coisa muito da óbvia, mas meio engraçada: a platéia da performance sendo o que aparece em vídeo na caixa de guardar o pó aspirado pelo aspirador de pó. E que se chama Do pó ao pó. Coisa rápida, o vídeo. Muito lenta, a performance. E você se pega mais uma vez pensando na construção ininterrupta de uma identidade, uma das muitas que sempre existem, possíveis, concomitantes, e que é a que junta em um mesmo espaço atual você e uma coisa que não é bem que seja antiga, é só sem tempo – serializada, indefinida, de qualquer época. Simultaneidade espacial e desencontro temporal. E é, eu sei, eu sou maluca. Mas, hein? Não parece o seu dia de hoje? Ou você vai dizer que não ficou perto de alguma coisa que não fazia parte, em absoluto, do tempo que você considera ser o presente? Uma coisa, assim, típica do Brasil, arcaico e lá adiante, na frente. Ao mesmo tempo.

Depois dos cinco dias do Verbo – o evento de performances da Vermelho – comecei a pensar a coisa como uma possibilidade real, e única, de uma diversão. Você vai lá, participa de ações e situações de prazer físico/sensorial/estético sem outra finalidade que essa mesmo. Me pareceu bom e foi bom, sentei em uma cadeira vendo as pessoas/artistas (não havia distinção muito clara, no máximo proponentes e topantes) e achei que arte bem que podia ser aquilo ali. Já foi tanta coisa, já serviu a tantos donos. Podia ser aquilo que estava acontecendo naquelas salas e pátios e seria então, essa, sua definição/estado mais atual, mais próximo a um agora de todos – já indistintos. Uma criação e a melhor delas: a que não serve para nada.

No meio de muitas, a melhor das que vi em todo o evento. Um cara nu, de pé virado para uma parede onde apoiava, precariamente, uma lâmina em escorço. Não feria os dedos e a lâmina às vezes caía. Pensei nas performances hard core onde o artista se corta, se opera, sangra, vomita quase morre. (Vai precisar morrer, aliás, pois é esse o único fim desse caminho.) O cara lá sequer se cortava. O perigo não estava na lâmina, mas na sua nudez. Sua exposição e ausência de defesa não estava nos dedos nus que equilibravam o objeto cortante no seu precário equilíbrio de encontro à parede. Mas no estar nu em meio a um dos corredores mais movimentados da galeria, por onde todos precisavam passar e se esbarrar para ir daqui para ali. Para você ver o quanto eu estava gostando. Não peguei seu nome. Pelo programa, acho que se trata de Tiago Promo, em uma performance chamada meio-dia mas não tenho certeza.

Isso, como eu disse, era uma das muitas – e boas e divertidas e cheias de gente. Havia a mocinha do Verbo People a distribuir cartõezinhos com ordens/ações a serem executadas e, para cada uma, um apliquezinho a ser colocado na roupa, pele. Os 10 x 10 cadernos instantâneos (Renato Hofer) também te dava coisas a fazer, no meio dos outros, um recreio de ações sem finalidades. Idem para a Máquina de desenhar (Michel Groisman, coletiva). Enchendo lingüiça, de Luiz Alfredo Guedes, recuperava a concretude da expressão. Para quem viu Yoko Ono e seu Half a room, a risada é a mesma. Guedes enchia lingüiça e, eu saí antes, mas acho que depois ele fritou. Vermelho na Vermelho, de Sissí Fonseca e Hugo Fortes era ele pintando o cabelo dela de vermelho, o que equivalia a um esquete de humor. Ela, muito magra e autoritária, dando ordens e lendo Nietzsche como quem lê Caras. Hilário. Enfim, vou escrever uma carta à galeria, pedindo para que o evento se torne no mínimo semestral. Esperar um ano para o próximo me parece muito.

Sempre gostei muito de performances, nunca parei para me perguntar por quê. Agora parei. Aliás, não parei, quem parou foi Amilcar Parker, que faz performances e que deu uma palestra no Centro Cultural São Paulo em 15/07 – como parte do evento Verbo, da Galeria Vermelho. Disse ele que entre a performance e seu registro acontece uma alquimia. O resto da palestra escutei mal ou não escutei de todo, porque a alquimia ficou me transformando e me explicando.

Fiquei pensando que performances me atraem porque são sempre um trabalho em andamento, no sentido de que sua repetição nunca o é, sempre com algo diferente se lhe agregando ou soltando. Pensei também que o que fascinava alquimistas era menos o ouro e mais a transformação de alguma coisa em outra coisa. A transformação.

Há sempre um intrínseco do artista, seu corpo/presença/ação. E esse intrínseco sempre se lhe (nos) escapa para um extrínseco que lhe (nos) traz o tempo e o espaço. Mas o tempo e o espaço são sempre modificados – não é o tempo compartilhado ou o espaço mútuo. Não. São feitos, montados, existem à parte. Mas fazem parte. E nos transformam e nós os transformamos.

(Há mais uma coisa que me atrai na alquimia/performance: nenhuma transcendência, só imanência manipulada, como o são todas. Também não há romantismo. Nem nesse e nem em qualquer outro processo visceral, químico, corporal – e eu também gosto disso. O que nos impede a claustrofobia do real é que não é real, e mesmo se você acha que é, ele não está estático, fechado, acabado. Muito pelo contrário. É um real que não acaba, que não se fecha. Performances não acabam: acabam seus episódios, suas atuações. Possibilidades míticas que nunca resultam, nunca saem de suas tentativas, são as tentativas, são tentativas. Performances continuam – dentro e fora, de nós e dos artistas, um looping em espiral, nunca terminando exatamente onde começou.)

Mas, como as outras alquimias, também as performances nem sempre funcionam.

No primeiro dia da Vermelho, uma que se repetiu por todo o evento, La Performola, com Carlos Monroy, era apoiada em programas randômicos computadorizados. Não tive saco.

Andréia - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás Rose Akras - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás Cris Bierrenbach - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás

Uma halterofilista (Andréia) se apresentou como “obra” de Massimo Grimaldi e Sabina Grasso. A idéia de uma pessoa ser uma obra é boa, mas você já viu halterofilistas mulheres na televisão, e isso prejudicou ou me prejudicou. A performance de comida, tradicional no evento da galeria, foi a que mais gostei. Pernas femininas (de Cris Bierrenbach) que saíam de uma caixa, cobertas de chocolate, ali para quem quisesse dar uma lambida. Quiseram. Foi engraçado lembrar a irmandade erótica que nossos sentidos compartilham entre si. E, na última do primeiro dia, 7 a 10 maneiras de perceber seu corpo, de Rose Akras, jovens de olhos vendados estimulavam seus corpos com a chama de velas, com mergulhos em baldes de água ou com movimentos repetitivos. Deve ter sido legal para eles, mas as ações alienavam os presentes, impossibilitados, em um espaço exíguo, de fazer qualquer percepção sensorial de seus próprios corpos, anestesiados pela imobilidade forçada.

Laerte Ramos - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás

No segundo dia, Laerte Ramos apresentou Do pó ao pó. Um aspirador que chupava cantinhos da galeria, sendo que seu depósito era uma caixa com telinhas de vídeo mostrando as pessoas. Achei que era muito esforço para fazer uma ilustração. Aí fui embora.

Amilcar Parker - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás

Na palestra de Amilcar Parker, ele mostrou o registro de uma sua performance no baú de um caminhão que trafegava por São Paulo. No baú fechado, o artista, imóvel em uma cadeira, era jogado de cá para lá ao sabor de curvas e ladeiras. Achei muito bom. Não adianta tentar ficar imóvel se o ambiente chacoalha. Aliás, foi para isso que vim para São Paulo.

Questões da arte contemporânea, todas lá. Novidades mesmo, poucas. O 12° Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Casa das Rosas, juntou os novos da vez.

Falo do que gosto:

Ana Zveibil no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Ana Niski Zveibil fez colagens de fotos urbanas com o mérito de, ao se olhar, a integração ser tão grande que a idéia de colagem é uma segunda idéia. A primeira é que aquela confusão de janelas, prédios e as curvas do célebre edifício Copam de Niemeyer são aquilo mesmo que se vê. Então, a sua colagem é uma acentuação sutil. E não um delírio a se apoiar no real para chegar em alguma coisa esquisita, do tipo “essência”.

Juliana Gouveia no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Juliana Gouveia faz o tradicional uso do PB para emprestar “realismo” a suas fotos. O ponto positivo é que não centraliza, não estetiza muito, só um pouquinho. O cachorro, por exemplo, está cortado.

Francis Farago no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Francis Farago é outra obra de montagem de pedaços urbanos, como a de Zveibil. Aqui, a montagem não se atém aos quatro limites de um retângulo, saindo para fora, desajeitada, deixando aparente o que é: uma montagem.

Walter Miranda no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Walter Miranda bate na tecla ecológica, esse engano da arte atual, com sua Réquiem em Gaia. Aqui, o ponto é negativo: a obra brilha, é bem cuidada, gasta recursos que seu conteúdo pede para economizar.

Vitor Mizael no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna Vitor Mizael no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Vitor Mizael faz uma instalação com uma camisa de enormes braços, cansados, caindo pelo chão da galeria, uma imagem muito boa e, o que gosto, usando ironia. Vi o massacre provocado por atividades profissionais de pouco sentido: todas aquelas que são feitas com camisa social. Mizael fez óleos também, com o mesmo tema. Também gostei do título: Auto-retrato.

Angelita Conte fez a melhor instalação da mostra com seus vultos fugidios, fora de foco, de passantes, a imagem mesmo do nosso olho desatento, sombras que passam, no más. O som que acompanha a série de imagens é também boa: os barulhos de uma rua, os mesmos para os quais também pouca atenção se dá.

Ana Nitzan no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Ana Nitzan traz a questão de gênero, também uma constante na arte atual, com seu enorme vestido feito de veludo, cabelos. Chama-se Pele do avesso.

Ana Prata no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Ana Prata pintou um carro e o que se vê da janela frontal de um carro, que é o nada. Já vi iguais mas não me impediu de gostar desse nada específico.

T. Antunes no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

T. Antunes traz uma das poucas presenças tridimensionais da mostra. Chama-se Percepção do passante II, uma escultura suscinta, com algumas áreas em textura, as áreas entrecortadas, fragmentadas, de um todo que é liso, no qual o olho escorrega, sem ver.

Amanda Mei no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Amanda Mei pegou portas. O bom, aqui, é que a porta é incrustrada na parede. É a parede que, de repente, vira uma porta que, por ser incrustrada, pouca utilidade tem. Bom.

A arte começa onde a imitação acaba.” – Oscar Wilde

O Mube – Museu Brasileiro de Escultura mantém um atelier com aproximadamente 70 alunos por semestre. O Museu conta ainda com cursos regulares de história da arte, somando quase 400 alunos para 14 professores. No atelier, aulas de pintura, escultura, cerâmica, desenho e arte-inclusão para portadores de deficiências físicas. Em escultura usam argila, papier mâché, cimento, gesso e pedra sabão.

Clarissa Von Uhlendorff  - fotografia de Elvira VignaFui ao Mube com firme propósito de ver tudo, não apenas as peças no atelier mas o fato inegável é que os alunos, de uma forma geral, me interessam sempre mais que os artistas consagrados. Uma aluna estava expondo na lojinha, inclusive. A lojinha do Mube, aliás, é um caso interessante: é administrada pela ONG Ação, Ética e Cidadania e promove novos artistas.

Nos recebeu a gentil coordenadora do atelier, Eneida Fausto. Soube depois que ela é responsável pelas aulas para as crianças também.

Mantendo a minha já declarada opção por escrever apenas sobre aquilo que gosto, quero lhes falar sobre Clarissa Von Uhlendorff, aluna.

Von Uhlendorff cria grandes esculturas em papier mâché que parecem ferro. E a dimensão usa o ar, o vazio e então enche de leveza o seu ferro de papel, em quase uma brincadeira do papel-ferro com o leve-pesado, com o vazio-objeto. E aí nessa dança ela ainda coloca mais um elemento, esse estrutural, bem-humorado: ela faz bonecos soltos e juntos ao mesmo tempo, brincando dessa vez com a noção de indivíduo e conjunto.

Clarissa Von Uhlendorff  - fotografia de Elvira VignaExiste um aspecto básico, que todo mundo conhece, de que a escultura, o urbanismo e a arquitetura tratam do e existem no espaço público. E são, necessariamente, influenciados pela política (de pólis, lembra?), servindo à política vigente ou a questionando. As grandes peças robustas, colossais, monumentais, que tocam o céu, fazem apologia ao status quo. Refiro-me a esculturas como o Monumento às Bandeiras, em São Paulo ou ao Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro. São obras feitas para demonstrar grandeza, magnitude e, por serem públicas, demonstram a grandeza do público, ou seja, do Estado. Existe ainda a opção religiosa que, na verdade, se formos pensar bem, segue a mesma lógica e serve ao mesmo status quo.

Quando a escultura moderna consegue transcender essa fácil tentação da austeridade e robustez e torna-se orgânica e leve, como em Von Uhlendorff, e consegue finalmente, com sua mostra do vazio e na liberdade de formas, uma salutar rebeldia.  Em 2008, qualquer coisa diferente de transcendente e moderno é cópia (de Rodin, de Michelangelo, etc). E inovar em escultura quer dizer se libertar, quer dizer se soltar, quer dizer entender e assimilar o vazio. O vazio é rebelde por natureza. Os europeus só foram entender o zero com Fibonacci, em 1228. Vazio não é um conceito simples. O livre não é simples (só parece).

Von Uhlendorff é livre. E isso talvez assuste os curadores menos ousados. Perda deles. Von Uhlendorff deveria estar povoando os jardins do Mube e não contida dentro de um atelier.

Tenho certeza de que em breve estará.

Um dos dois curadores, o Alexandre Hypolito, falou algo sobre o embate entre o público e o privado. A gente entende o que quer. Eu andava lendo sobre a formação de sentido e/ou identidade na internet e entendi o que quis: o dentro e o fora tão misturados da rede – e, por ilação, não só na rede. Fui lá para ver se tinha montagens, colagens. Pois um dos aspectos dessa formação de sentido/identidade de grande rapidez é que ela é também, ao mesmo tempo e surpreendentemente, de grande lentidão. Digo: você vê as partinhas – que vão ser integradas ou que vão modificar o fluxo contínuo de formação do sentido/identidade – se juntando no momento mesmo em que se juntam. Hipertextos todas elas que, à medida em que o texto vai sendo elaborado, perdem seu negrito e o www iniciais, vão pegando um jeitão de frase narrativa mesmo. Ou em vez de frase, imagem momentaneamente proto-organizada. Isso, claro, antes de se abrirem – frase ou imagem – outra vez para um exterior que nem mais é exterior (da mesma maneira em que não há, a bem dizer, um interior – as peles separatórias de hoje todas furadas por piercings, problematizadas todas elas pelo oco que nos habita a nós, não mais estátuas de algum material maciço mas vasos ritualísticos, se tanto).

Em cheio.

A exposição na Emma Thomas se chama Terceiro Espaço porque junta gente do Rio e de Minas (o segundo curador, de Minas, é o Wagner Rossi) nesse terceiro espaço que não é uma coisa nem outra. E que, curiosamente, também não fica onde fica, na Rua Augusta, SP, pois tem uma entradinha de vila que a separa dos bares, ônibus, prostitutas e comércio de logo ali.

E nela, as montagens, colagens, superposições e agrupamentos que eu havia adivinhado.

Entre eles:

Paulo Narazeth - fotografia de Roberto Lehmann

Paulo Nazareth (Minas) fez uma prateleirinha de pequenas inutilidades afetivas, dessas que passam e mais rápido passariam não fossem, justamente, afetivas. Um doce não mais fabricado, um fumo de corda, carrinhos de brinquedo feitos de latinhas de um tempero não mais vendido. Um saquinho de chá usado. Um desenho onde está escrito “nostro adesivo invisibile para proteger o projeto da máquina que nada serve”. A prateleirinha uma concorrente da internet, caseira e tão lenta quanto, com seus hiperlinks de memórias.

Rodrigo Castro de Jesus - fotografia de Roberto Lehmann

Rodrigo Castro de Jesus (Minas) é o próprio vaso ritualístico. Pôs uma camada de látex em cima do corpo. Tirou. Emendou. E voilà, um corpo oquinho, com sua “pele” precária, irregular, de grandes entradas ou saídas. E mais: que corpo que nada, pedaços do corpo. Porque, justamente, ter um corpo inteiro é luxo que perdemos. Temos pênis (alguns de nós, quero dizer), panturrilhas, mãos…

Tereza Costa (Rio de Janeiro) fez algo semelhante. Rolou na tinta, grudou em um vidro essa espécie de adesivo que se formou. Uma monotipia. Se rolar outra vez dá outro resultado. Também aqui pedaços de corpo – íntimos mas externos ou, ao contrário, um lado de fora formado por um contato íntimo – que passam rápidos e lentos.

Patrícia Franca (Minas) põe esse texto perto de seus objetos-olhos: “Como uma obra de arte – ela repetiu, seu olhar indo da tela aos degraus do salão; enquanto seu olhar ia vagamente de um objeto ao outro, a velha questão que continuamente atravessa o céu do pensamento, a vasta questão, generalizada, sujeita a aparecer em tais momentos, vem se apresentar a ela: qual é o sentido da vida?” É da Virgínia Woolf.

Rodrigo Mogiz - fotografia de Roberto Lehmann

Rodrigo Mogiz (Minas) também costura pedaços. Literalmente. Com agulha e linha, ele perpassa camadas translúcidas de desenhos superpostos, um hiperlink de bordadeira, uma construção inacabada, como o são todas. Ali, a agulha ainda presente, instrumento a ser retomado a qualquer momento. Frases escritas entre os conjuntos translúcidos falam de um príncipe que se torna Adão, de uma hora em que é preciso voltar a Londres. Porque tem mais uma coisa nessa formação de sentido/identidade tão rápida e tão lenta: não há distinção entre o público e o privado e nem, tampouco, entre o fato e a ficção.

Como em qualquer feira, a Feira de Arte de São Paulo tem frango morto, peixe morto, salsinha com a raiz de fora ao lado de uma couve-flor começando a amarelar.

Mas não tem jeito. Só se consome o que está morto. Se estiver vivo, não é consumo, é participação. É mais custoso, envolve riscos. E isso vale para os produtos simbólicos da cultura também. Então, havia desde Volpi a Iberê Camargo, passando por Krajcberg e outros cansaços. Só que mercado é lugar alegre desde a Idade Média e esse não foge à regra. É bom, é divertido passear pelo Ibirapuera e tropeçar em um Ângelo Canossa saindo do embrulho ou alguém dizendo “um pouco mais para a direita” para um Antônio Dias a ser pregado nas paredes provisórias.

E tem os amigos também.

Então foi bom e aqui embaixo está uma lista do que eu e Caró gostamos. Foi esse o critério, o da diversão e o do gosto pessoal.

Krajcberg, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Ah! E vi, pela primeira vez na vida, gente comprando arte, assim, como quem compra, bem, qualquer outra coisa. Mulheres com bloquinho tomando nota, falando no celular ou entre elas, se decidindo por um Amílcar de Castro, ali, na minha frente. Confesso, achei emocionante. Achei que por mais que eu tenha restrições sobre salas de jantar e pinturas que combinam com o sofá ou esculturas que ficam tão bem ali no lugar da mesinha de canto, se salas de jantar as há, que contenham um Amílcar – mesmo levando em conta que provavelmente será a sua masculinidade enferrujada o principal atrativo e não, como é para mim, os apoios frágeis, diminutos, já a anunciar a colossal mudança de paradigma que viveríamos e vivemos.

Bem, à lista.

Mais um ah! Obrigada por mim e Caró aos galeristas que nos permitiram fotografar, às vezes rearrumando as peças para obtermos um melhor ângulo. Toda boa sorte na feira, e que tudo seja vendido.

Lista, agora para valer:

Camille Kachani, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Vi o Camille Kachani, com seus objetos banais de uma vida brasileira, tecidos cuidadosamente em pelúcia e emborrachados – o que aumenta espetacularmente o foco na questão recuperação/rejeição irônica dessa mesma brasilidade. Ele estava, que eu tenha visto, em duas galerias, a nossa velha conhecida Almacén, do Rio, e a Galeria Murilo Castro.

Felipe Barbosa, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Tinha os painéis feitos de diminutas bolinhas de futebol, em couro, do Felipe Barbosa também problematizando uma velha mania nacional.

Roberto Vieira, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Na Galeria Lemos de Sá, de Belo Horizonte, vi um artista que não conhecia, o Roberto Vieira, com um clima que faz lembrar o Farnese de Andrade, aliás também presente na Feira. Uma coisa de memória que inclui o escuro, o perverso, o que procuramos tirar da memória. Muito bom.

Nazareno, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú Nazareno, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Tive o prazer de ver o estande da Galeria Mariana Moura, minha velha conhecida de internet. Essa Galeria costuma me mandar releases e avisos de exposições. É de Pernambuco e é grande, importante – o que me faz gostar dela: é fora desse eixinho aqui de baixo. Estavam com Nazareno, que eu simplesmente a-do-ro. O Nazareno tem um viés literário, o que me aproxima dele. Um exemplo do que ele escreve em suas obras:

“Sim, talvez o milagre venha e aconteça, e sua maravilha se mostre perante você, mas você … você é da espécie que não o reconhecerá.”

“Não, não é tão simples, não é assim. Começaremos de novo, com calma, lentamente e de novo, de novo, de novo…”

Ele fala o que eu falava lá no início, sobre a recepção das obras de arte. Mas melhor.

Carlos Contente, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Na Gentil Carioca, havia um Carlos Contente, que eu também gosto, com uns grafites onde se lia, assim mesmo em espanhol, “Ela tiene que reinventarse“. Gosto dessa não-fronteira.

Henrique Oliveira, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Henrique Oliveira tinha uma de suas organicidades de madeira velha inchada, um breque bem vindo no ambiente tão limpinho.

Guillermo Martin Bernejo, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Descobri uma galeria baiana que se chama, justamente, Mendes Bahia, e dentro dela um artista que eu também nunca tinha ouvido falar, Guillermo Martin Bernejo. Ele fez uma espécie de história em quadrinhos não seqüencial, em aquarela sobre madeira. Ao olhar, você tem uma informação de simultaneidade e recorrência que tem tudo a ver com a experiência do tempo contemporâneo. Gostei.

Miguel Simão, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

E, outra boa novidade, um escultor em madeira de Brasília, Miguel Simão, com uma peça muito forte e irônica: uma cabeça que leva sua própria bigorna no cocuruto, como aliás, todos nós, que já levamos conosco o impulso de um baticum entorpecente e suicida.

Na Amparo 60, uma composição do Paulo Bruscky. Uma série de retratinhos 3×4 cortados em três no sentido horizontal. A parte do meio é retirada. Você tem pessoinhas sem rosto. Você demora a notar. Terrível.

Edgard de Souza, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Na Galeria Luisa Strina mais um bom escultor, o Edgard de Souza, com seu corpo aos pedaços.

Você nota? Apesar de uma barraquinha ao lado da outra, como na feira aqui do Paraíso, há uma certa constância, uma certa unidade. Ou então é a recepção, que privilegia, em dados momentos, alguns aspectos em detrimentos de outros. E, bem, tem um império se afundando por aí. Mesmo nas bordas dele, dá para viver a morte.

Walton Hoffmann, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

A Galería Isabel Aninat trouxe um Walton Hoffmann, que é curitibano e que pôs de título na sua cidade artificial, púrpura e brilhosa, o nome de Ciudad, também em espanhol e também me agradando por isso mesmo.

Pedro Motta, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

A Box 4, uma galeriazinha bem pequena do Rio onde nunca iremos encontrar um peixe morto, trouxe uma das mais belas imagens de morte da Feira. Pedro Motta, que documenta o Vale do Jequitinhonha fotografou um prostíbulo. São nove quartos, nove fotos. Não são quartos, são uma coisa subterrânea, uma catacumba de tristeza e beleza. Em um dos quartos, se lê: “Dinho é o homem mais gostoso que conheci no brega.” E aí, entre coraçõezinhos desenhados, a assinatura: “Paulo“. A obra se chama Paisagem submersa. E é vivíssima.

Hilal Sami Hilal, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Uma galeria carioca também nos deu, a mim e a Caró, um dos bons momentos da tarde. Chama-se h.a.p. Galeria e o artista é Hilal Sami Hilal, com uma sombra de obra, nem é registro, é só isso mesmo, uma sombra. É uma vagueza, contudo, que fica e que reproduz, na sua imaterialidade, a própria fruição estética. Uma coisa que treme, balança, dentro de nós, que não é nada, mas que não vai embora. Sobre ele, Paulo Herckenhoff escreveu:

“Hilal escreve no ar, isto é, inscreve a linguagem no vazio.”

É tudo que a arte quer, encontrar um vazio no meio do lixo, onde estabelecer um diálogo, porque linguagem é sempre para diálogo, nunca para monólogo.

Emmanuel Nassar, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Na Galeria Milan, um Emmanuel Nassar com sua força frágil de quem usa a falha – ou o vazio – porque sabe o que isso vale.

Ana Maria Maiolino, na SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Laura Marsiaj e Mercedes Viegas, duas galeristas cujas escolhas sempre me agradam, dividiram juntas um mesmo espaço. Nele, um Ana Maria Maiolino de formas escorreguentas, convidativas, confortáveis.

visão geral da SP Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo/SP) - fotografia de Carolina Vigna-Marú

Há duas maneiras de falar a respeito de arte: uma é chata, a outra pode ser atraente.

Eu uso a chata: teorias, pensamentos, conceitos. Helena Trindade usa a própria arte para falar a respeito da arte – o que pode resultar em beleza ou não. A dela resulta.

Na sua exposição atual no Castelinho do Flamengo (RJ) há um eco da anterior onde o tema era Narciso e em cujo espelho cabia o fruidor, a arte e o reflexo de ambos um no outro.

Nesta de agora, a instalação que mais me atraiu foi a Biblioteca Negra. Em um dos quartos do centro cultural, ela fotografou, sobre paredes negras, a imagem de um livro com algumas folhas arrancadas.

Helena Trindade - fotografia Roberto Lehmann

O livro são contos de Edgar Allan Poe e o conto ausente é o A carta roubada.

Esse conto de Poe é um dos exemplos mais claros, na literatura, do que seja um significante sem significado. Rouba-se uma carta, sabe-se quem o fez, ignora-se onde está e ignora-se, principalmente, o que está escrito nela. Não importa.

Significados importantes são apostos em suas páginas e isto basta para que, quem a detiver, detenha também um poder. O conto acaba com a recuperação da carta – que jamais é aberta. Seu conteúdo concreto não será conhecido jamais. Não haverá uma “verdade” a ser perenizada.

Helena Trindade - fotografia Roberto Lehmann

A obra de arte é também um significante vazio. Seu significado será aposto por quem dela frui e variará a depender da pessoa, da época e da cultura onde tal encontro se dê. O significado estará sempre incluso em uma ordem simbólica constantemente em fluxo.

No final do conto de Poe, a carta é encontrada no lugar mais óbvio, onde ninguém lembraria de procurá-la. Na exposição de Trindade, as páginas arrancadas estão esboçadas no corte das páginas restantes, estão, na verdade, dentro do livro, apenas um pouco depois do seu lugar esperado.

Ao representar em imagem o texto literário que representa um outro texto (a carta) que na verdade não representa nada de forma intrínseca e apenas está lá para receber a representação do desejo de quem passa, Trindade nos inclui em sua obra. Porque nós, de pé frente à imagem fotografada também não temos identidade fixa e sim fluida, em cuja correnteza entra, inclusive, o que estamos vendo naquele momento e que será sempre o que desejamos. E é este o nosso poder.

Só isso já bastaria para fazer da instalação um jogo diabólico. Mas Trindade ainda junta uma cereja neste sundae: ao entrar na sala da Biblioteca Negra há um espelho. E tudo – nós, a pintura, o texto literário, o outro texto e o próprio Poe – na figura de seu alter ego, Dupin – nos jogamos em mais esta representação da representação: a imagem no espelho.

Helena Trindade - fotografia Roberto Lehmann

As outras obras seguem o mesmo caminho. Uma mistura de carbonato com cola cobre com seu branco grosso, de mingau, dicionários e paredes em camadas e camadas de … branco. Na escada, as linhas retas de um fio ecoam, em curvas que não são curvas, as curvas dos degraus. Os nomes das intalações são: Sala em branco (a das paredes e dicionários encobertos) e Conversa na escadaria (os fios esticados prendem teclas de antigas máquinas de escrever). Há também uma sala com vestígios de escrita (como quando calcamos muito o lápis, que marcará então uma página onde nada foi na verdade escrito). E há os vídeos, como o Origem da obra de arte, projetado em travesseiros translúcidos encostados um no outro. A luz da projeção os perpassa, em um eco cada vez mais fraco e modificado.

São bonitas, as instalações. E como estão em um ambiente para lá de trabalhado (o Castelinho do Flamengo, em seu não-estilo eclético é cheio das sancas, frisos, debruns e rococôs), a simplicidade da concepção fica ainda mais aparente.

A seguir um dos diálogos do conto de Poe:

“The fact is, the business is very simple indeed, and I make no doubt that we can manage it sufficiently well ourselves; but then I thought Dupin would like to hear the details of it, because it is so excessively odd.”

“Simple and odd,” said Dupin.

“Why, yes; and not exactly that, either. The fact is, we have all been a good deal puzzled because the affair is so simple, and yet baffles us altogether.”

O engraçado dessa história é que na noite anterior à minha visita à exposição, vi uma sessão de vídeos do Bill Viola. Em um deles, o Silent Life, bebês recém-nascidos são filmados em um berçário. O foco está nos olhos deles, semi-abertos, vendo a luz que, ao se refletir nos objetos, dá aos objetos forma e significado. Mas os olhinhos vêem o que vêem sem que haja, ainda, significados. Um mundo de significantes vazios.

Mudam-se os tempos e é preciso refazer as frases. Gombrich listava as “ocorrências do primitivo”, Freud falou de um certo mal-estar, depois chegamos à estética da gambiarra – e cada uma das expressões parte de um ponto de vista distinto para falar da mesma coisa.

Eu, por mim, gosto de pensar que se trata de incorporar as fragilidades, de se assumir falho. É pensando assim que eu me sinto mais perto e foi pensando assim que fui andando até a Galeria Millan em uma São Paulo onde ninguém anda, só dirige.

Longe.

E tão perto.

Lá dentro, Emmanuel Nassar com suas madeirinhas pintadas, seus equilíbrios precários.

Emmanuel Nassar Emmanuel Nassar

A coisa é simples: uma madeira em balanço se mantém no ar graças a uns fios presos por roldanas e chumbados em um buraco – buraco mesmo, o chão furado da galeria, fundo. O balanço também se dá por um contrapeso de metal (latão) que, não por acaso, forma a letra E. Há mais uns pesos: um saco de terra, uma serra circular, pairando no ar.

Nem tão simples.

Primeiro, o primeiro.

(Mundo – que não chega a ser mundo, menos da metade na verdade).

Depois do(s) beco(s) sem saída do modernismo internacionalizado, a arte contemporânea faz uma volta às referências temporais, geográficas. Depois da aridez da geometria, uma gambiarrazinha ali outra acolá, ali sendo Estados Unidos, acolá sendo Europa. Gambiarra esta, ó coincidência, muito usada cá entre os tapuias. De súbito, eis que nos alçamos às alturas.

Isso todo mundo já sabe. Mas não satisfaz. A referência continua sendo o outro. Isto é, as alturas são o que o outro define como sendo alto. Sem essa comparação sincrônica, nos resta muito, nos resta uma história a ser lembrada.

(Segundo os gregos, é para isso que servem as artes, para que nos lembremos das histórias.)

Terra, buraco no chão, ferramenta, madeira pintada de cores primárias, roldanas. A engenhoca ela toda com um ar de quem vai tirar água de poço. Sounds familiar?

Essa a materialidade. Há a desmaterialização. Não só por se tratar de uma instalação, pois ela pode e foi repetida, mas pela diferença mesmo entre, digamos, um saco de terra e um ferro dobrado, entre o efêmero e o que se pretende potente. É também uma representação biográfica, além de social e histórica. Sua iconicidade é específica, de um nacional sem grandes temas, só de pequenas histórias – ou de uma pequena história – e por isso mesmo isento do perigo da tipificação retrógrada. Não é um rural com R maíusculo, não há símbolos. É uma madeira em equilíbrio, e a construção do seu equilíbrio está lá mostrada: primeiro você passa o fio por esta roldana, prende ali no buraco e mantém o saco de terra nesta altura porque o peso do latão está lá para dar o balanço. Há um vestígio da presença do artista, uma fenomenologia de quem, quando pensa em equilíbrio, pensa nesses materiais para obtê-lo por causa do lugar onde nasceu.

E aqui poderíamos ir também para o antônimo, os símbolos: o significado “trabalho” incluso na metáfora da serra circular, do saco de terra; o E de latão, inicial de Emmanuel, a ficar do lado de fora do ambiente. Tão fora quanto nós, convencidos que fomos de que há um centro do qual somos periféricos. A inicial simbolizando uma presença, essa presença simbolizando todas as outras. Isso se formos sérios. Se decidirmos rir, vamos para outros símbolos. Pois trata-se de um móbile. E o que Nassar põe no ar? Terra. A imprensa falou de Calder, que Nassar estaria citando Calder. É juntar a ironia à galhofa. O escultor americano fez estabilidades abstratas que se alçavam em direção ao infinito e se moviam (pouco) ao vento. Pretendeu uma sublimação da matéria. A estabilidade em Nassar é o nanossegundo de empate entre tensões contrárias e banais, cotidianas, não épicas e muito menos sublimes. Ele é assimétrico, precário e provisório. E vivo mesmo quando não venta.

Há umas frases que faz um tempão que sumiram. Por exemplo: a exclusão de grupos sociais é uma necessidade do capitalismo. É como esse sistema econômico e político baseado no acúmulo consegue atribuir valor ao que acumula. Aquilo tem valor, é desejável acumulá-lo (seja o que for), porque aquele outro indivíduo não o possui. E só é possível acumulá-lo se poucos o possuírem. Então é isso, o excluído é excluído não porque ele é assim ou assado, fez isso ou não fez aquilo, mas porque o sistema onde ele vive quer, precisa, exclui-lo.

Monica NadorEntão a função principal da política, do governo, é tentar diminuir no que der, lutar contra, sabendo que jamais vencerá, a exclusão. Função do governo, e não do indivíduo particular, de grupos privados. E isso por um motivo muito simples. Se você, indivíduo, assume esse papel, você estará automaticamente também individualizando a outra ponta da relação. Não é mais o aleatório da exclusão cega de um sistema, mas aquele sujeito ali, que se se esforçar bastante, aprender isso ou aquilo – arte, por exemplo (partindo do pressuposto errado de que arte se aprende) – poderá safar-se da exclusão. Ou seja, se a responsabilidade de tirar alguém da exclusão é individual ou privada, a responsabilidade de sair da exclusão também passa a ser.

E não é. Dizer que é – estratégia conservadora por excelência – é uma dupla penalização.

E isso é só o começo.

Tem também o subproduto de enfraquecer o que já está fraco, que é a vontade dos governos capitalistas de assumirem sua responsabilidade social. E tem muito mais.

Então, é complicado ver a exposição de Monica Nador e seu grupo Jamac na Galeria Vermelho, uma das mais importantes de São Paulo.

Jamac quer dizer Jardim Miriam Arte Clube e é um projeto desenvolvido pela artista em uma das regiões mais violentas da periferia de São Paulo. E aí já entra uma segunda questão. O que é Jardim Miriam, a partir de que lugar esse lugar é definido como sendo Jardim Miriam. Se for de bem longe, os jardins mirians da vida serão sempre o “outro” no sentido antropológico. Serão o diferente de você, com uma unidade forçada e uma inferioridade ressaltada. (Longe aqui não precisa ser distância geográfica, pode ser distância na pirâmide do poder.)

É preciso que seja assim. Se o Jardim Miriam não for inferior, diferente e coeso não serve como receptáculo da ação de quem dele se apropria.

Monica NadorMas não é só isso. A exposição é uma exposição de arte e se dá em uma galeria de arte. Ou seja, o que você vê não é a ação artística-social no Jardim Miriam, mas um simulacro das pinturas feitas por lá, a partir de estêncil, nas suas casas e muros. Na Galeria Vermelho, você vê o que espera: quadros. É parecido com o que acontece com exposições de grafiteiros. Em um muro margeando uma linha de trem, grafiti é uma coisa. Em uma galeria, sua eficácia, potência, se desativa, vira …, sei lá, vira nada, vira um anúncio, um cartaz que se refere a uma outra coisa, a um espetáculo que está sendo encenado em outro lugar. Como quem vai na Galeria Vermelho não sai de lá correndo para pegar três ônibus e um trem até o Jardim Miriam, o simulacro ocupa o lugar da pintura dos muros e paredes e faz com que você possa assistir a esse substituto do espetáculo com toda a segurança física e moral – você está em um lugar chique e é superior socialmente a quem lá não está.

Um artista pode se apropriar de um “outro” no seu fazer artístico se: 1) ele apresenta a obra, falando pelo grupo como se fosse um porta-voz auto-intitulado, assumindo o papel de líder ou tutor pedagógico; 2) o artista se identifica com um fazer artístico (uma técnica, um tipo de material, um padrão estético) já existente anteriormente no grupo escolhido, ressaltando o que ele considera ter mais valor e assumindo uma posição supostamente não-autoral de se exprimir através do grupo – embora, claro, sua interferência, mesmo que apenas de transpor objetos para outros locais ou usos, já signifique uma modificação das condições de produção originais; 3) o artista usa o grupo como tema de sua obra, para a elucidação e comoção de platéias politicamente corretas estranhas à situação social do grupo – sem nunca esquecer que marketing é o filho mais esperto da sociologia; 4) ou, ainda, faz ações de teor estético e sensorial que tenham a finalidade de melhorar a comunidade – dentro da idéia, contestável, de que arte possa melhorar uma comunidade, assim, rapidamente, diretamente (e lembrando sempre que comunidade também é uma idéia contestável).

Não sei nem quero/posso categorizar Monica Nador.

Sei que todas essas categorias da arte de cunho social oferecem a impressão de que a “colaboração” do indivíduo “elucidado” promoverá um processo de auto-reflexão e aumento de auto-estima, tornando o grupo escolhido sujeito de sua própria reivindicação social. Oferecem mais. Quanto maior a distância entre o artista – visto como culto, tecnicamente habilitado, superior etc. – e o grupo escolhido por ele, maior será a sensação de que é possível, para este artista, transcender a especificidade de sua classe e posição social. Esta transcendência é facilmente transmissível para o fruidor da arte, que é da mesma classe e posição social do artista. Então, o resultado dessa arte pode vir a ser uma confirmação e fortalecimento do poder dessa classe. É uma classe com mais este privilégio: pode, pensa ela, transcender-se através da arte e atingir quem ela exclui no resto do seu tempo, quando não está vendo exposições. E se pode transcender e chegar até o outro, sentindo (sempre supostamente) suas experiências e opressões, pode então falar por este outro assim tão bem atingido, tomar decisões por ele – e garantir que fique excluído para todo o sempre.

Para não ser uma chata total, vou falar de uma coisa boa. A arte de Monica Nador, tanto a que ela assina individualmente quanto a que ela apresenta com sendo de autoria dela e do grupo Jamac (a primeira com moldura, a segunda sem moldura), é uma arte de padrões geometrizantes. É este o padrão de todas as artes não-eruditas do mundo. Então, isso me faz crer que ela, afinal, não está tão longe do grupo que escolheu para chamar de seu.

Início de ano e as exposições são sempre coletivas. Tira-se o pó do acervo ou reúnem-se grupos com o título de “novos” e que raramente são de artistas que têm a ver uns com os outros – além da baixa idade e nenhum nome.

Mas eu tento.

A Emma Thomas – Roberto jurava que Emma Thomas era um trocadilho, eu achando que não: paulista é muito sério para isso – abriu com uns dez artistas (nem todos “novos”) que eu olhei daqui e dali e achei terem um apego em comum à narrativa. Não me refiro à tendência autobiográfica da arte contemporânea com seu amealhar de memorabilis, mas à criação de quase-enredos em uma serialização temporal. Talvez uma música.

Henk Niemann (fotografia de Roberto Lehmann) Henk Niemann (fotografia de Roberto Lehmann) Henk Niemann (fotografia de Roberto Lehmann)

Henk Nieman traz a história de um atropelamento. Ou melhor, uma história sobre o vazio, com uma paisagem linda e imutável, silenciosa, de um pós-atropelamento encenado. Pós, mas também pré e durante. As fotos, montadas em fila, fazem com que o fruidor se ponha ao mesmo tempo em todos os tempos. Outra coisa: o fato do atropelamento ser encenado traz uma nova possibilidade de significado. Haver encenação de ato violento para contrapô-lo a uma paz ridiculariza essa paz. Faz com que ela também pareça encenada, a põe entre umas aspas, como de fato está, quando se trata (este é o caso) de uma paz “natural” (uma praia deserta), enclavada, emoldurada, pelo urbano (no caso, uma autovia).

Lívia Benedetti (fotografia de Roberto Lehmann) Lívia Benedetti (fotografia de Roberto Lehmann)

A mesma problematização do “natural” vem com a série de paisagens de Livia Benedetti. Pedaços de fotos de palmeiras e praias têm sua linha do horizonte modificada com a colagem de papel pardo. O papel contudo vai descolando, denunciando a feitura artificial desse paraíso. Se Henk impõe a visão simultânea de três tempos, Benedetti impõe o espaço simultâneo de um horizonte que está lá e aqui, perto e longe, em cima e abaixo do fruidor.

Erica Ferrari (fotografia de Roberto Lehmann)

E outra: Erica Ferrari pega fórmica com padrão em marrom e põe nela umas massas feitas de cera. Também é serial e também é aos poucos que percebemos que as bucólicas paisagens são na verdade fórmica estampada. A padronagem imitando madeira induz o olho do fruidor a fabricar uma profundidade que não está lá, em um “natural” dos mais artificiais.

Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann) Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann) Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann) Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann) Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann)

A série de Cris Muniz é uma história de dentes repetidos até se tornarem registros, cifras musicais em sua seqüência ritmada de elementos verticais e curvos, colcheias de algum compasso antropofágico.

Alexandre Hypólito (fotografia de Roberto Lehmann) Alexandre Hypólito (fotografia de Roberto Lehmann)

Vi uma obra anterior de Alexandre Hypólito em uma galeria do Rio de Janeiro. Ele já trazia, nas suas fotos antigas coladas em madeira, uma biografia de personagens. Sofisticou-se. Continua recuperando um clima de casas – e pessoas – antigas, de vidas burguesas. Mas ultrapassa a possibilidade de fechamento. Em seu pequeno baú cheio de pessoinhas, ele usa os vários planos do objeto como chão para suas cenas anódinas. Com isso, fala de um tempo e um espaço multifacetado, problematizado. Um passado não mais estratificado mas que corre por fora da seqüência romântica. Em outra obra, um vaso de plantas, a mesma problematização. As folhas verdes tão singelas são feitas de placas de computador: a informação, a sua “vida”, portanto, é multiplicada exponencialmente – e em mais direções do que as clássicas, conservadoras, de uma geometria agora não mais euclidiana, de um tempo que estourou sua linearidade.

Paulo Bega faz montagens fotográficas de uma mesma forma repetida, o que resulta em composições geometrizadas, matemáticas, e ritmadas. Márcio Simnch traz árvores que são o registro de algo nervoso, quase o gráfico de uma sonoridade. Luis Coelho faz com que o fruidor veja o que fica quando uma paisagem passa muito rápido – como se ela nem fosse vista.

Não há ilusionismo em nenhum deles. A narrativa – ou a música – vem junto com a explicitação de sua instrumentalização. A banda toca na sua frente, o escritor rabisca o final enquanto recita o texto.

No sábado, 26 de janeiro, houve várias aberturas de exposição, todas perto umas das outras, no centro histórico do Rio de Janeiro.

Fui. Quem sabe alguma novidade me entusiasmava.

Tinha feito o Tatsumi Orimoto há pouco em São Paulo e, quando comecei a entender o que via como dificuldades de auto-retrato, pensei: bem, ainda não me desliguei do Orimoto e de seus pães à guisa de rosto.

Pode ser.

Mas sou chegada a uma grande teoria e também pode ser – prefiro eu – que o que eu via fosse uma pequena amostragem de um momento mais amplo, o da identidade incerta em épocas de mudança de paradigmas. Não vou tão longe e englobar a humanidade inteira, está bem, metade, a do ocidente, ok, apenas a sua manifestação na arte, nem toda, a visual, bem, é melhor eu ficar com a daqui mesmo, sendo que vou ter dificuldade em definir esse “aqui”.

Mas que se não é isso é uma baita coincidência, lá isso é.
Marcus Abreu

Marcus Abreu, galeria Durexx: em Sobeátic, ele cobre com látex uma fotografia de uma sala antiga onde há uma fotografia na parede. Com o látex, o que era indistinto o fica mais ainda. Salvo o rosto do retrato da parede, nítido, e que corresponde a um buraco em branco, igualmente nítido e do mesmo tamanho, ao lado. Qual dos dois é o registro da memória?

Ainda na Durexx, uma das obras mais bonitas de todo o dia: Claudia Melli trabalha com uma caneta de nanquim branco em cima de um vidro de um azul escuro, quase preto. São umas poucas linhas, e ela constrói uma vastidão vazia, de uma noite que não acaba.

Sonia Távora

Sonia Távora, galeria Transverso: seu site specific Do outro lado transforma as linhas verticais de uma grade externa da galeria em uma grade de prisão, uma passagem impedida, que é onde ela coloca sua individualidade em forma de versos escritos de forma frágil, imperfeita, à mão.

Cleone Augusta

Cleone Augusto, também na galeria Transverso, faz formas mais ou menos humanas, de barro. Não pára de fazer, sua obra está perenemente em processo. As figuras são quase todas do mesmo tamanho. Me fez lembrar uma teoria de Darwin que diz: em uma dada população animal os sobreviventes serão sempre os do meio, nem os maiores nem os menores, serão sempre os que não se distinguem.

Fabiano Gonper

Fabiano Gonper, artista da Gentil Carioca: seu desenho, que deve um quê ao holandês Escher, é o desenho de uma mão que pega e modifica o que está desenhado. Chama-se O manipulador e poderia se referir a qualquer um de nós, que nos arrumamos, cara inclusive, para sair.

Simone Michelin

Simone Michelin, também da Gentil, fez parecido com Marcus Abreu, mas sem o pathos tão instigante dele. Sua foto da movimentada 25 de Março, em São Paulo, traz as personagens, tanto as “reais” quanto as representadas nas capas de uma banca de revistas, com os rostos substituídos por ovais em branco.

Guga Ferraz

Ainda na Gentil, uma idéia banal, a do chocolate em formato de revólver, de Guga Ferraz em sua obra Chocolate Suíço. Uma referência, talvez, à banca internacional, cúmplice e beneficiária de um dinheiro, o do tráfico, que é combatido com a outra mão do poder. Mas mesmo com este entendimento a obra fica fácil, um pouco para o lado do panfleto e me faz pensar na dificuldade em estabelecer uma identidade de contestação para os que são jovens hoje.

Edmilson Nunes, no Paço Imperial da Praça XV, volta a apresentar sua visão irônica e dolorida da Igreja Católica com a instalação Assim na terra como no céu. Ao lado, um auto-retrato. Seria um auto-retrato comum, óleo sobre tela, se ele não tivesse posto chumaços de tule preto em toda sua superfície. A imagem se anula, se distancia, fica borrada. Ele usa a mesma técnica em uma grande tela, dessas que ornamentam salas de jantar simples, não sofisticadas. A tela fica mais longe, mais borrada e, por causa disso mesmo, muito mais vívida e eficaz no que ela representa: a distância tão grande que há entre nós e a vida simples e nítida da qual tais telas são ícone.

Carlos Contente, também no Paço, desenha as paredes. Sua exposição se chama Auto-retratos também. Os rostos de seus personagens são feitos com um carimbo, todos iguais. Há um em que ele põe em destaque, separada, a figura principal de uma representação de um jantar formal, e a identifica: “fulano de tal”. Esse o nome do não-indivíduo.

No Paço ainda, a coleção de Márcio Rebello, reunindo cem auto-retratos de artistas brasileiros (Tunga, Daniel Senise, Waltércio Caldas – que aliás estava presente nas vernissages vizinhas – Siron Franco e muitos outros). Eu sei, apenas uma coincidência.

João Penoni, no Largo das Artes, põe em seu vídeo sua própria figura de costas sobreposto a paisagens que passam em ritmo acelerado. Pensei na definição de transgressão, que é quando algo que excede consegue ser visto/vivido como uma possibilidade de inclusão. A transgressão o é sempre em relação a fronteiras impostas. O agente dessa ação possível, contudo, não é identificado na obra de Penoni, e o que é aí incluído é uma paisagem sem a ação humana: praias desertas, montanhas solitárias. Uma transgressão sem testemunhos, a bem dizer, não resultante.

Glaucia Mayer

Glaucia Mayer, também no Largo, é outra que integra sua figura na obra. Aqui em carne e osso mesmo. Mas fantasiada, na verdade mais uma personagem do que uma pessoa. E seu feminino, de um cor de rosa artificial no tom e na textura, me remeteu à artificialidade de uma não-individualidade, de algo feito em série, em moldes. Mais uma dificuldade de individualização.

Só para fechar os comentários sobre o Largo, NGDG (sigla de dois artistas parceiros: Nadam Guerra e Domingos Guimaraens) faz a velha brincadeira de espelhos com o fruidor à frente: você se vê cortado, de cabeça para baixo, no lugar da “obra”. Acho que já vi bem uns 20 espelhos desses nos últimos tempos. Em frente aos espelhos, Bruno Miguel planta umas plantinhas no chão da galeria, também em um registro batido, de cunho ecológico. Mas, ao lado, Bianca Tomaselli consegue uma pequena obra-prima com seu Desenho parasita: uma superfície azulejada onde com uma makita (ferramenta de pedreiros), ela fere uma fileira de azulejos, quebrando assim a construção geométrica anterior. A personificação dos azulejos machucados, o sulco que se transfere da superfície espelhada para quem está em frente e o cunho de intimidade e de cotidiano de uma parede de azulejos brancos, eis alguns dos componentes de uma obra de surpreendente eficácia.

Ivens Machado

E no Paço, uma sala de Ivens Machado com suas Acumulações. Fiz um texto sobre uma exposição dele na Mercedes Viegas, em 2005. Eram uns sacos de entulho. Também um acúmulo. Mas depois do texto pronto e publicado me deu um estalo: aquilo eram sacos sexualizados. Masculino a mais não poder, Ivens me pareceu, então, ter representado o saco cheio de um homem de saco cheio. Não consegui me livrar dessa lembrança e vi as obras do Paço também sexualizadas. Seus paus de ponta afiadas, dezenas dele, presos frouxamente e apontando para você.

Bem. Coisas da cabeça de quem vê. Pode não ser nada disso. E pode ser que todos nós, artistas e visitantes, saibamos muito bem quem somos.

Mas eu duvido.

A reverência ao canônico às vezes impede o bom-humor com que alguns famosos devem ser vistos. Nem vou falar de Shakespeare. Mas Kafka era um humorista. E Rembrandt tinha, em relação ao Renascimento italiano do qual era herdeiro, uma ironia mordaz.

Tatsumi Orimoto, o retratista do homem-pão, me lembra Rembrandt.

Oh!

E agora, passada a reação ao que parece ser um ataque ao sagrado, uns pensamentos.

Tatsumi Orimoto, retrospectiva no MASP

O primeiro é sobre o retratismo, isto é, reproduzir o rosto de alguém em alguma mídia. Só aí as perguntas são três: 1) qual é a persona que o modelo usa ao posar ou ao ser surpreendido (nunca o é, na verdade), isto é, o que ele quer deixar aparente no seu rosto e o que ele se esforça para esconder; 2) qual é o balanceamento que o artista faz entre suas descobertas estéticas pessoais e o que ele acha que o retratado/mundo espera dele; 3) qual é a leitura que o fruidor, terceiro componente desse imbroglio, faz dessas duas primeiras ficções – a da cara que o retratado apresenta e a da cara que o artista irá oferecer a partir da cara que lhe está sendo oferecida. E, a quarta não é bem uma pergunta, só um aviso: o jogo de desejos e acervos dos três envolvidos é modificado continuamente a partir das circunstâncias, sempre imponderáveis, do momento do encontro.

O segundo pensamento é: que saco, eu só queria fazer/ver um retrato. É possível? Mais ou menos. Você vai continuar vendo/fazendo todas essas camadas de mentiras, mas estará sabendo disso. Rembrandt mostrou isso para você cem vezes em cem auto-retratos. E Tatsumi Orimoto outras cem.

Talvez não sejam cem as vezes em que Orimoto montou sua performance do homem-pão ou tenha fotografado sua mãe em cenários dos mais íntimos aos mais públicos. Deve ter sido mais.

Como diz Beú, o pesadelo do homem-pão é a torradeira. O pesadelo de Orimoto é fritar-se na superexposição. Ele é bom – embora não original – mas se repete. Como Rembrandt ainda aí, na repetição.

Uma das obras na exposição retrospectiva do MASP é a Pull to ear, japanese. É de 1983 e uma das menos citadas pelo marketing que cerca o artista. São perfis onde etiquetas de metal presas nas orelhas dos modelos dão opções de definição ao fruidor: latin, chinese, polish (nacionalidades); governor, editor, waitress (profissões); black, brown, purple (cores). Assim, quem vê pode montar como quiser a definição do que está vendo. Outra é a Passport photobox, uma série infinita de fotos no tamanho 4 x 6, do artista e sua mãe olhando para a câmera. Não são iguais. Qual a “melhor”?

(Não tive permissão de fotografar a exposição, daí não mostrar as imagens aqui.)

Ao pôr pães, um ítem universalmente consumível, no lugar da cara dos seus retratados, Orimoto denuncia a impossibilidade ou inutilidade de oferecer uma cara com nariz, boca e olhos feita por alguém com nariz, boca e olhos para ser consumida por outro alguém com nariz, boca e olhos – sendo que todos esses narizes, bocas e olhos não existem.

Ao retratar sua mãe com alzheimer, Orimoto busca livrar-se pelo menos da primeira mentira, a da persona imposta pelo retratado: a mãe não tem persona, é ela mesma, embora, justamente, não seja mais ela, a pessoa que foi, antes da doença.

Ao usar fotos e vídeos como registro de performances, Orimoto busca livrar-se da segunda mentira, a do compromisso que todo artista faz entre ele mesmo e as expectativas que se têm dele. Orimoto monta uma performance efêmera e a documenta, ou seja, a mantém viva através de uma máquina (fotográfica ou de filmagem) com intuito objetivo, jornalístico por assim dizer, onde sua participação autoral é diminuída.

Ao ter como estratégia o choque das culturas (performances de o homem-pão em países árabes, da mãe velha e japonesa na Turquia), Orimoto busca livrar-se da terceira mentira: seu fruidor não poderá lançar mão de seu acervo cultural para enquadrar o que vê, e mesmo seus desejos terão dificuldade em se impôr, frente ao inusitado da cena.

Rembrandt

Rembrandt se auto-retratou com chapéus ridículos, fazendo caretas, se fingindo de louco. Ele caçoou ou, para usar um termo mais chique, desconstruiu, o acervo cultural do retratismo renascentista italiano do qual era herdeiro. Como modelo de si mesmo, a persona escolhida por Rembrandt para se mostrar ao mundo não era pomposa ou socialmente agradável. E, ao deixar claro, na tela, o caminho do seu gesto, a textura da tinta usada, ele avisava ao fruidor que existia alguém que tinha feito aquilo com gestos e tintas, ele punha a superfície bidimensional do objeto em questão às claras, sem ilusão. Jean Genet gostava muito de Rembrandt e escreveu, em um artigo para a L´Express: “seu olhar não é de um outro: é o meu que eu reencontro num espelho, inadvertidamente, e na solidão e esquecimento de mim”. Quase um alzheimer.

No começo achei que era eu. Um vazio na hora de fazer esta retrospectiva. E, furando os miolos com uma broca fina, não que eu não encontrasse eventos, coisas boas para citar. Tem a escolha do Brasil para país homenageado da Arco’08 (agora em fevereiro). Tem a vinda de instituições européias: a Casa Davos, o Istituto Europeo de Design. Mesmo que a primeira venha com um suspeito subtítulo citando a desconhecida arte latino-americana contemporânea, e a segunda sendo, apesar do nome, uma empresa privada que irá ocupar espaço público da cidade do Rio de Janeiro. Quer dizer, até, se fosse o caso, eu precisando dar vazão a algum mau-humor, teria do que falar, mesmo que mal. Mas não era este o caso. Acho a homenagem espanhola ao Brasil e a vinda das duas instituições citadas marcos positivos, ainda que só pela certeza de que players desse peso não são de bater prego sem estopa. Ou seja, não se instalariam se não houvesse grana de retorno. Mais precisamente: a arte, segundo seus patrocinadores, vai bem. Segundo a fraca cobertura crítica e jornalística, melhor ainda, ou eu não teria feito, em 2007, com mudança de cidade e tudo, mais de 50 textos especializados (procuro cobrir só os eventos que já acho, de antemão, que vou gostar – nada a ver com elogios desbragados mas apenas com o meu próprio prazer: prefiro gostar, me divirto menos não gostando).

Então, pensava eu, só sobra eu. Seria eu uma vítima do enfado, o mesmo a justificar minha vinda para São Paulo, em busca de novos estímulos.

Aí veio a Bienal de São Paulo e a proposta dos pavilhões vazios e entendi tudo. Não sei o que dá em brasileiro que às vezes se anima no ruim e quando é bom vira a cara. É claro que tem arte de montão, da melhor qualidade, para encher todos os pavilhões e mais alguns e, sim, dentro do tema que é um bom tema: o vazio. Há muita vontade, acho que em todos nós e não só em mim, de parar e parado ficar, um infinito ou mesmo vários, frente a obras que nos reflitam – dois sentidos aqui – no nosso vazio.

Fazer a Bienal sobre o vazio vazia é portanto um enfado e um desânimo. Enfado e desânimo que eu, tolinha, achava só meus.

Bem, não sei quanto à Bienal, mas tenho meus mecanismos de luta.

Por exemplo, voltar e começar tudo de novo.

(Já perdi a conta das vezes em que recomecei algum “tudo” desde o começo, uma vez e mais uma vez.)

Já falei disso antes.

Ninguém acreditou porque achou que era ficção.

Você devia acreditar na minha ficção.

Está em “Só besteira“, o livro feito de textinhos curtos, de blog. Está no meu site em algum lugar.

Lá conto como os “sobrearte” começaram.

Bem antes das crônicas de humor de O Estado de São Paulo, antes do Jornal do Brasil.

Tem a ver com a Caró, dona do Aguarrás, onde os “sobrearte” saem hoje.

Caró e eu marcávamos uns encontros.

Dizíamos que era para ver a exposição tal, o filme tal. A performance, o recital de poesia. Coisa muito xiita.

Só que marcávamos com grande folga de tempo.

E íamos, antes, a um restaurante árabe de que gostávamos e que calhava de ser perto de todos os centros culturais, teatros e salas do centro do Rio de Janeiro.

E lá ficávamos, papeando, dando risada, tomando cerveja e comendo trouxinhas de repolho.

Esses nossos encontros eram chamados de Repolhos Culturais.

Mais sim do que não, acabávamos perdendo a hora do evento e voltávamos para a casa sem ter visto nada.

Mas muito, muito mais cultas.

Então é isso.

É para isso que eu volto.

Acho que os “sobrearte” terão um texto mais solto, mais descompromissado. Um pouco como quando comecei fazendo os textos só para mim.

Mas com uma diferença.

Prometo que terei ido a todas as exposições de que falarei.

Até daqui a pouco, no ano que vem.

Em tempo: essa idéia do espaço expositivo vazio vem de Yves Klein e data de 1958, maluco devia ficar com vergonha.

Diego Belda diz que representa o universo do escritor João Antonio que diz que representa o universo da malandragem de meados do século passado e, nesse eco, o que é representado é o próprio eco, incluindo aí o muito nosso eco erudito no meio popular e vice-versa.

(Quem escreve sobre isso melhor do que eu é Oswaldo Martins aqui mesmo no Aguarrás, editoria de música, texto titulado A. B. Surdo)

Há outros ecos, o da colagem e escultura em obras que se dizem pinturas.

Diego Belda - mesa de sinuca - fotografia de Elvira Vigna Diego Belda - sinuca de bico - fotografia de Elvira Vigna

A exposição na Virgílio (SP) recupera, então, um escritor que está sendo revisitado em outras instâncias, com sua obra reeditada e reestudada na onda neo-naturalista que nos assola a todos. Pois João Antonio cabe bem aí. Repórter, tomava nota em papéizinhos dos diálogos, gírias e figurinos com que iria vestir e dar fala, depois, a seus personagens. Andava, sim, nos ambientes. Mas só com um pé. O outro, distante, burguês, a tudo observava.

Belda também cabe. Pega o brilho lustroso dos plásticos e fórmicas sem meio-tons dos bares e salões, o ondulado cafona de banquinhos de lanchonetes que só vicejam à luz dura dos néons noturnos.

É esse o brilho. Já as apropriações são enormes: mesas inteiras de sinuca. Mas isso só com um olho. O outro, construtivo, vai montando umas geometrias eruditas. Em 3D.

E se se retrocede fundo o suficiente, a discussão mostra o que é de fato: a questão do verdadeiro, do real, do original. A questão do fake. Em literatura, causam escândalo histórico as insistentes falsas biografias, na pintura, vez por outra algum falso holandês.

Bem, o falso.

Quando o falso é bom como diferenciá-lo do não-falso dentro do âmbito estético e não no da moral.

(Moral é a certeza do certo e do errado, ética é a maravilhosa dúvida, e a conseqüente discussão infinda que pode se dar, inclusive, por meios majoritariamente sensoriais, ou estéticos.)

Então, em termos estéticos não há mesmo diferença se Belda nasceu na Ipiranga com Av. São João. Ou não.

Ficam as obras.

Belda, eu já disse, tem um pé construtivo. Mas acelera. Seu ritmo não é o das formas paradas e euclidianas. Não só por causa do volume que ondula. Mas porque de repente amassa o plástico brilhoso ou põe 26 buracos de caçapa em sua sinuca. É uma bola rápida, essa.

E eis uma identidade suficiente. “É nessa batida o conto. Vai num intenso rebolado em que Bacanaço é rufião, Malagueta é um trapo e Perus, um menino.”

Sabe aqueles olhinhos virados para cima? Aquelas figuras humanas que buscavam em algum lugar acima delas algo que devia ser muito bom (buscavam sempre) e muito triste (as sobrancelhas, invariavelmente, eram caídas para o lado)?

Pois é. Yoko Ono olha para baixo. E ri.

Não se trata mais de buscar a transcendência mas de descobrir a imanência. Vem cá. Qual foi a última vez em que você de fato prestou atenção em alguma coisa? Coisa aqui significando coisa mesmo, matéria, objeto.

A reinserção do homem (detesto isso, dizer homem, mas se disser mulher serei tachada de feminista histérica) no seu meio-ambiente. Daí não ter a menor importância o fato de a arte e a vida não se separarem mais. É bom que assim seja, é preciso, esta a sua utilidade. Digo, a utilidade de uma e outra. Da primeira: na ressignificação de um cotidiano que está alienado. Da segunda: no gozo, só possível, como todos os gozos, com o chegar muito perto, ou dentro. A ponto de provocar uma quebra da lógica, da estrutura ou linguagem. Uma morte. Ou uma revelação (sinônimo de ressignificação).

Da exposição de Yoko Ono do CCBB-SP separei, porque gosto mais, as Instruction Paintings, o Half a room, que é a expressão em inglês referente ao aluguel de uma vaga em um quarto onde já mora outra pessoa. E um dos objetos do Water Event, que é uma instalação feita de objetos enviados por outros artistas para que, com água dentro, fossem dedicados a alguma causa ou grupo.

Instruction Paintings - fotografia de Elvira Vigna Half a room - fotografia de Elvira Vigna Water Event - fotografia de Elvira Vigna

As Instruction Paintings radicalizam isso de que eu falava, de que não se trata de buscar transcendências mas de redescobrir o valor da imanência. Como se sabe, não são pinturas mas instruções para fazê-las. Aqui, não é só o objeto que não existe, a ação para produzi-lo também não está sendo executada – o que tornaria a obra uma performance. Existe só uma possibilidade compartilhada. É uma pessoa (Yoko) falando (escrevendo) para outra pessoa (o fruidor) em uma comunicação direta, olho no olho (ou no papel). É um convite para imaginar junto como seria se. É uma recuperação de um humano que se perdeu, o da comunicação oral. Sim, mesmo sendo escrita, se trata de uma comunicação oral. São fórmulas mais do que frases, com uma cadência de repetição, de “receita”, sujeitas a uma temporalidade e espacialidade específicas (um ambiente propício a fazer obras de arte acontecerem – podia ser a fogueira tribal), em tom íntimo e próximo, e estabelecendo uma relação ritualística e insular entre a proponente (Yoko) e quem ficar parado na frente dos papéizinhos. E esta é a definição de comunicação oral.

O Half a room também recupera um valor arcaico da palavra, mas de outro modo. Yoko pega a expressão pelo seu sentido concreto e corta pela metade os objetos comuns de um quarto. Os objetos, assim, se sujeitam ao nome pelo qual o conjunto deles é chamado. É como se ela dissesse: preste atenção no que você fala. Teorias de comunicação dizem que é isso mesmo, que a linguagem faz o mundo.

O Water Event é montado a partir de contribuições de terceiros. A que eu transcrevo a seguir é de autoria de Hélèna Villovitch, uma escritora francesa, e se refere a um vestido vermelho de tricô, que está pendurado na parede ao lado:

“Este vestido de tricô vermelho foi feito por uma mulher muito triste que esperava que algo acontecesse, ou que alguém aparecesse, ela não sabia exatamente o que ou quem. Foi um trabalho solitário, mas a mulher decidiu que o término seria o começo de uma solução. As pessoas talvez olhem para este vestido e não o achem bonito ou valioso. Que seja! Não importa. Para esta mulher (vocês já entenderam que sou eu!) o importante era acabar alguma coisa, bem ou mal. E, ao oferecer este vestido de tricô vermelho para Yoko Ono como um recipiente, compreendo que seja possível terminar em outro momento (aqui acrescentando água) o que já está terminado. É por isso que esta obra é dedicada às pessoas que têm medo de terminar alguma coisa, para ajudá-las a compreender que o fim não existe.”

Dá de dez em tratados filosóficos.

No subsolo há vídeos de Yoko e John. Em um deles uma mosca (“contribuição da cidade de Nova York”) passeia pelo corpo nu de uma mulher. Em outro, bundas – masculinas e femininas – são filmadas de costas, andando, com morphing que as faz parecer uma só.

Ambos do final dos anos 60, início dos 70. São engraçados, moscas são moscas, já diria o Tunga, e as bundas são peludas, têm espinhas…

Dos projetos para áreas públicas expostos no primeiro piso da Sétima Bienal de Arquitetura, no Ibirapuera, um me chamou a atenção por juntar, de uma forma que nunca vi, a espetacularização do espaço público e o mendigo.

É um trabalho feito na Universidade Mackenzie, sob a orientação das professoras Lizete Maria Rubano e Silvana Maria Zioni para o centro histórico de São Paulo.

projeto da Universidade Mackenzie para o Centro Histórico de São Paulo Seus autores compreendem a rua de hoje como um espaço que perde sua importância de lugar público passando a ser apenas uma ligação entre dois ou mais espaços privados. E consideram que os moradores de rua e os camelôs são os que ainda têm nas ruas um espaço de ação e não apenas de passagem. O projeto é uma intervenção que amplia, na verdade mais do que duplica, algumas dessas áreas, oferecendo uma infra-estrutura de estar que tem essas pessoas como ponto de partida em vez de, ao contrário, tentar se livrar delas, afastá-las. Os autores põem, ao lado dos mendigos e camelôs, um terceiro personagem, que chamam de homens lentos. Achei o nome muito bonito. São aquelas pessoas que andam sem rumo. E sem pressa. Às vezes levando um carrinho de tralhas a atrapalhar o trânsito.

As armações que eles propõem são vermelhas, de ferro. Fazem lembrar a Linha Vermelha, do Rio, também muito bonita.

Outros projetos trazem jardins para regiões que já têm o jardim no nome e só no nome: Jardim Eliana, Jardim Damasceno. Ou recebem o nome de parques: Parque Linear Córrego Água Podre, Parque Linear Córrego Água Vermelha. São mais ecológicos, trocam gente por árvore, afastam os moradores das margens dos cursos d’água para recuperá-las.


ponte em construção da Marginal Pinheiros na avenida Berrini

E, claro, ainda no primeiro piso, a ponte espetacular da Av. Berrini.

maquete feita de papel jornal da UFRGSHá uma observação engraçada a ser feita a respeito das maquetes. As mais criativas estão neste primeiro piso. Uma delas, a do projeto Conexão Açoriana, da UFRGS, mostra uma intervenção urbanística em um local importante de Porto Alegre. É o espaço entre a cidade baixa e o centro histórico, onde há uma ponte de pedra antiga e o ambiente degradado e perigoso das ruas abandonadas, e onde também se fazem manifestações, passeatas, quando as há. Os autores montaram uma maquete com papel jornal, o que dá imediatamente o valor de uso, de trabalho, de cotidiano e cosmopolitismo, e também de documentação histórica. Um achado.

Outras maquetes deste piso usam madeira usada ou aquela rede de plástico trançado, usado em fachadas de prédio em reformas, na cor verde, fazendo com ela, montanhas. Tais montanhas, translúcidas que são, deixam entrever na sua fímbria as habitações que assim vão se integrando e anunciando o novo ambiente florestal. Também bem bom.

No segundo piso, onde ficam os projetos de condomínios fechados e os complexos comerciais ou hoteleiros, as maquetes já são as tradicionais, áridas, na cor branca ou cinza, muito limpas e geometrizadas. Na mudança de clientela, a obrigatória mudança na apresentação.

“netódico” - Ready for take-offHá mais coisas engraçadas para quem quiser prestar atenção. A instalação que mostra a arquitetura alemã atual e que se chama Ready for take-off, ressalta as qualidades “de exportação” que eles querem imprimir na sua marca. Há palavras escritas no chão, com letras grandes e amarelas: disciplinado, confiável, meticuloso, organizado, cumpridor etc. Só que em “metódico” há um erro, está escrito “netódico”. Bem feito.

E tem o estande da Suiça, muito preocupada porque seus vilarejos nas montanhas estão crescendo e é preciso integrar as novas construções ao estilo peculiar das construções históricas e aos Alpes, ao fundo. Então tem uns viadutos aqui e ali. É esse o problema urbano deles.

projeto da UFMT para o Médio Araguaia

Como nas bienais anteriores de arquitetura não faltam o muito conhecido e o desconhecido. No primeiro caso, as habitações integradas ao meio-ambiente. Este ano vieram os prédios ecológicos desenvolvidos pela UFMT para o Médio Araguaia. No segundo caso, há uma foto de uma grande árvore. Ela está no meio de um círculo feito com pedrinhas brancas. Além desse círculo, o descampado dos arredores de Joanesburgo, na África do Sul. As pedrinhas marcam um espaço público. O resto é terra de ninguém, o que é diferente. Foto de Chris Kirchhoff.

lã tratada de Claudy Jongstra

No terceiro piso Claudy Jongstra mostra uma lã tingida e descorada. O material parece uma vista área de campos e florestas. É para revestimento. Belíssimo.

Raul Leal está chegando na frontalidade. Não na frontalidade dos modernistas, para quem a tela era exatamente isso, uma superfície plana. Seus grandes acrílicos, expostos na Galeria Café, de Ipanema, têm mais a ver com uma outra tela, a do computador, com sua frontalidade profunda, infinita mesmo, e que é o parâmetro de frontalidade de hoje.

Raul LealEle ainda não está lá, mas vai chegar. O espaço que ele constrói aponta para esse nada sem norte ou sul e que vai até perder de vista. Sua cidade (ele parte de fotografias que tira pelas ruas do Rio) é um vestígio do lugar público depois que lugares públicos foram lavados de sua utopia comunitária, do seu grude. Vai daí que as manchas mais claras nadam no nada.

As telas são azuis, a cor tradicional do infinito na pintura ocidental, e nelas os fantasmas dos que já fomos se igualam, em um mesmo tratamento, a objetos também mal delineados, apenas umas sombras, só que ao contrário: o escuro é o resto, elas são esbranquiçadas. E têm seu movimento lerdo de sombras estratificado pela interrupção de um real, marca indelével da fotografia original: os passos não são completamente dados, os gestos não se realizam de todo (como na série Do mesmo lado), uma mão fica no ar.

Essa incompletude, somada à precariedade da tinta muito lavada e monocromática, salva Raul de dicotomias antigas, como urbanização/natureza, regionalização/internacionalização (é o Rio porque o reconhecemos, mas talvez soubéssemos ser, mesmo sem este conhecimento que escapa da hermenêutica da imagem, um cenário periférico; talvez não). Ou, mais uma dicotomia, a da terra/céu: o horizonte dos seus espaços é um encontro de dois campos de tonalidade similar, sem contornos muito definidos. Na tela O princípio da distância ele mesmo quase some.

Raul LealHá uma outra tendência em Raul Leal, além da frontalidade de computador. E também aqui ele passa perto, e com sorte escapa, do modernismo: é a geometrização. Na simplificação haverá sempre um essencialismo à espreita, e é preciso ter cuidado e recuperar a fragilidade, o não-acabado, e mesmo a falta de sentido: somos mais nós, assim. A indeterminação pode ser uma exigência de seus personagens, uma exigência para a sobrevivência de quem vive em lugar nenhum.

O título fala de silêncio, o release fala de música e eu vi o tempo. Mas talvez seja a mesma coisa.

Elogio ao Silêncio, de Sergio Fingermann está no Museu de Belas Artes, um edifício neoclássico no meio do tráfego da avenida Rio Branco. E se falo isso é porque a situação do edifício meio que faz eco com o que vamos encontrar lá dentro. De lá, a exposição vai para a Pinacoteca, em São Paulo, e mais uma vez o eco.

Desculpe, mas vou precisar falar: globalização. E pior: Fukuyama.

Sergio Fingermann é o antídoto.

Não é que ele pinte o passado. Isso não faria o menor sentido. Ele pinta, com tinta a óleo e tela, representações de paredes velhas de azulejo, por onde escorrem vestígios de imagens quase apagadas, representações de cenas que só podem, pensamos, vir do passado.

É aí que ele nos pega.

As imagens funcionam porque são contemporâneas. Quer dizer, por terem sido feitas hoje, elas apontam – ao não retratar um determinado hoje, o hoje globalizado, o da universalização do liberalismo norte-americano – o hoje que Fingermann ataca.

Ele pinta o que não está lá.

No processo de feitura, veremos (não veremos) grampos de ferro enferrujados que, retirados, marcam a tela. Nos temas, são personagens com capuzes e roupas medievais que dançam, sem música, em jogos e rodas. As cores são em tons terra: ocres, sienas, pretos. São os restos desbotados de uma pintura que já quase não existe. Há referências místicas em círculos e nas formas básicas da geometria: quadriláteros, cones. Símbolos míticos como poços, véus. Máscaras que sobraram de algum Goya. Arabescos de ferro de um portão cujo vidro quebrou. Um bucolismo rural que a Monsanto enterrou. Em um dos quadros maiores, uma dança é feita no silêncio de palavras pintada: “o cavalheiro: dois passos e levanta o braço; adiante; a dama: dois passos e levanta o braço; adiante.

As coisas não estão lá. Estiveram. Voltarão a estar se você ficar quieto por tempo suficiente em frente a elas. Se conseguir que a persistência do olhar anterior – o da avenida movimentada da grande cidade – se torne transparente para acolher e se somar a essa camada nova/velha.

Que é como pode ser vivida, a contemporaneidade. Na falsa dúvida entre a universalização do liberalismo capitalista norte-americano e a ressurgência de aspectos culturais locais, Fingermann parece sugerir em suas alegorias arquétipas que a divisão entre o desejo de mobilidade (as danças, os jogos) e o de estabilidade (a composição, a deferência), de individualização (personagens) e de pertencimento (cenários), de suas pinturas e que também é a nossa, pode ser solucionada através da memória e da história.

Suas imagens vêm acompanhadas por frases.

Algumas delas:

“A pintura é preciosa, faz as coisas regressarem de sua ausência, de seu esquecimento.
O que se vê numa pintura é esse caminho, esse regresso de lá até o nosso espanto.”

“Às vezes o silêncio se transforma em esfera transparente. Imobiliza-se. Fica sendo.
É uma espécie de gerúndio. É como cápsula que se contém. Fica sendo o não-ver. Fica sendo o não-estar.”

“O olhar circunscreve algo, como faz o círculo, onde a coisa vista, real, fica presa.”

“Ontem nos deformou ou foi por nós deformado?”

“O silêncio é sentinela.
Às vezes fica sentado em corredores.
Às vezes fica encostado nas paredes, de espreita: em quartos, casas velhas, caixas, escritos esparsos, nas fotografias, nas montanhas que estão longe.
Até em certas pinturas.”

Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 22 Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 21 Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 14 Sergio Fingermann - Elogio do silêncio (detalhe da textura) Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 13 Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 15

A primeira idéia é a de um centro vazio. Afinal, as três novas esculturas do jovem artista português Isaque Pinheiro, na Galeria Laura Marsiaj (RJ), apontam para uma forma oca: Apego a um lugar (uma enorme asa de couro pregada na parede com fita crepe e com uma alça de mala no centro, onde se vê inclusive as etiquetas de aeroportos por onde a peça passou antes de chegar ao Rio) tem em seu centro o meio-círculo vazio da alça da mala; Reforma do perigo é um capacete de motociclista feito de mármore, e também vazio; o paletó de fita crepe usado pelo artista na performance de abertura da exposição, uma vez pendurado no cabide, mantém o formato de um corpo que não está mais lá.

Mas o centro não está vazio, bem pelo contrário.

Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro

Há um agenciamento ativo no centro das peças de Isaque, e que luta contra resistências. Se fosse uma metalinguagem as peças representariam um fazer poético contemporâneo a lutar pela libertação de reminiscências estéticas tradicionais. As reminiscências estão referidas. E tradicionais são: Isaque Pinheiro trabalha com mármore, nada mais neoclássico. Cita Duchamp e seu vidro quebrado, incorporado à obra, ao incorporar, ele também, uma rachadura no mármore do capacete, remendada em grampos autorais. Usa asas de couro, em uma alegoria que vem desde que o grego Ícaro tentou sobrevoar pela primeira vez o Mar Egeu.

E usa também fita crepe, esse material vagabundo, temporário e banal, a se contrapôr a um sublime desaparecido – em um dos movimentos mais característicos da arte de hoje. Que, aliás, é sempre barroca pois contém em si esta e outras tensões: a economia contida pelos limites do objeto artístico estará em expansão perene pois incorpora objetos da cultura, sem contudo abdicar do simbólico inerente a eles e anteriores a seu uso estético. O capacete mantém seu significado de liberdade motorizada, as asas idem. O paletó também, pelo contraste: é apertadinho, e a fita crepe ameaça grudá-lo ao corpo de quem o usa.

Há um aspecto muito bom no já citado agenciamento central, que seria masculino e antigo, não fora isso: malas são objetos de controle precário; o capacete de mármore é menor do que a cabeça de qualquer auto-nomeado herói do asfalto; e o paletó de fita crepe é o contrário ao do executivo de sucesso. Isaque Pinheiro age em um centro irremediavelmente contaminado pela periferia.

No catálogo do artista há uma peça que não está na exposição, é o Amor de mãe. Um mármore que representa um desses balões de encher, em formato de mão. Seria oco, se não fosse cheio.

Don Juan conquistava as mulheres pela palavra, era um poeta e não um marombado de academia. Daí a raiva. Criatividade dá sempre muita raiva. Há um detalhe da história que pouco ficou no imaginário popular. No final, ao visitar o túmulo do pai de uma de suas conquistas femininas, Don Juan usa o mesmo dom das palavras para zombar da estátua do seu inimigo. Suas palavras são tão poderosas que trazem a estátua à vida. E ela o mata.

Marcos CardosoA exposição Tradução, de Marcos Cardoso na Galeria Anna Maria Niemeyer, faz lembrar a história de Don Juan. E não porque se trata de obras de Picasso – um conquistador de mulheres – retrabalhadas. Mas por causa da estátua que volta à vida.

Picasso é um monumento. É difícil hoje se posicionar frente a seu nome de forma diferente da que adotamos com algo fechado, imutável, imponente. Picasso é a estátua de Picasso.

A não ser que.

Marcos Cardoso não dá a mínima para Picasso. Não chega a zombar, mas do mestre, aproveita as cores e olhe lá. Não são bem as suas cores, são parecidas, as que ele descobre nos rótulos dos produtos industrializados, nas embalagens. Pega-as dos amigos, a um passo do lixo. Sua intenção não é copiar as cores de Picasso mas torná-las mais vivas, melhores. São as cores do capitalismo, são as cores da sedução. São as melhores que há. Diz.

Marcos Cardoso Marcos Cardoso

E refaz um Picasso mole, efêmero, montável e desmontável. Não é o Picasso que ele traz à vida, é sua morte, é a sua estátua. Não é Picasso que está vivo, ele está morto e engessado, mas sua morte é revivida neste exato instante por Cardoso, e mais no próximo instante que virá. É uma morte tão atual quanto o açúcar União, o rolo de papel higiênico Personal. E será atualizada sempre, a cada nova apropriação dos últimos e recém-lançados – e já no lixo – papeizinhos industrializados. Pois rótulos e embalagens falam de uma passagem de tempo muito específica, o da circulação das mercadorias (e da nossa – indistinguíveis, ambas). É um tempo incessante, e contemporâneo.

Mozart, Molière, Delacroix, Pushkin, Byron. Na Wikipédia há uma lista deles, os que se inspiraram na história original do burlador de Sevilha. Em todos eles a imobilidade triunfa, ela mata a criatividade que a trouxe de volta à vida.

Aqui também acontece algo parecido.

Marcos Cardoso

As obras de Cardoso são heteroglóssicas e dialógicas. Adeus autor. As imagens remetem a Picasso, sua constituição a alguma lata de lixo, o plástico reflete quem se põe em sua frente, e devolve, igual, a luz que as ilumina. O preço de renovar uma morte é a dissolução de um eu.

Marcos CardosoAlém dos “Picassos”, há também um mapa do Brasil, feito com o mesmo processo de autoria difusa: o mapa é o mapa, não tem autor, e as embalagens idem. As embalagens que fazem esse Brasil são de alguma coisa que está sendo vendida em uma liquidação do tipo dois por um.

Cardoso faz o que faz e faz sabendo. Autoria e nacionalidade partilham o mesmo destino. Foram mortas pela hegemonia globalizada. Mas incomodam mesmo assim.

Ou: eu mato, eu morro e eu volto para curtir (Macalé).

Marcos Cardoso

O português Rigo 23 escreve em inglês, espanhol, caracteres de alguma língua asiática e também em português, em seus enormes quadros da exposição Aberturas na auto-estrada, no Mac-Niterói.

History says the best way to travel to new and exciting places is aboard a hero’s ship. Though, if one is a captive indian ou an african slave one is not the hero but the merchandise and the merchandise has no history.
Ou:
After these first 500 years of success nothing like sitting back and enjoying a long failure.“, que é o que eu mais gosto.

E há outros, sobre a “humanidade” e a “demoniocracia” que chegam perto dos cartazes agit-prop da política dos anos 60.

Rigo 23

E é esta a constante. As aberturas na auto-estrada na contemporaneidade do artista são frinchas de onde é possível ver o passado. Em Bolo de sol de Taiching, a silhueta solitária de uma árvore em meio a cartazes publicitários; um vazio pardo no meio de Fazendo feito em Taiwan; uma favela carioca com um espaço para que o chão de terra apareça.

É curiosa essa busca por vestígios em um andarilho que se apresenta como nômade em um espaço que é, como os textos inscritos o demonstram, globalizado.

Uma suposição é que seja exatamente este o contexto: a ainda e sempre globalização e seu conseqüente fluxo de buscas por identidades e memórias culturais – as aberturas, quando as há. Rigo 23 (Ricardo Gouveia) buscaria, então, senão uma atividade diretamente política pelo menos uma utilidade política à sua atividade artística a partir deste contexto e símbolos.

Rigo 23

Mas o mundo onde ele busca suas aberturas é um mundo superlotado. Os quadros são cheios, detalhistas, e aí ele aborda uma segunda questão. As aberturas são não só espaços onde o passado pode se apresentar mas são também espaços vazios. Jorge Luis Borges tinha um personagem, Irineu Funes (de Funes, el memorioso), que não esquecia de nada e que, portanto, não conseguia pensar. O pensamento de Rigo, que parte dessa nostalgia por uma identidade cultural perdida (ou inventada/mitificada), parece mostrar, entre a sintetização direta das palavras-de-ordem (imagens-de-ordem?) e a análise esmiuçada de detalhes e cenas, entre seus pronomes (pró-nomes) de subordinação e de coordenação, que as aberturas a que possamos aspirar estão todas irremediavelmente entre dois mundos: o da abrangência dos detalhes nunca totalmente soldados dos espaços analógicos, e o das linhas retas dos espaços lógicos. Se ficarmos só nas analogias poéticas, ou só nas causas e conseqüências da racionalidade, não as teremos.

Em uma exposição de fotos do Cristo Redentor, a reflexão ausente, e por isso mesmo mais presente, é sobre o conceito de “casa” em uma cidade onde a exterioridade é dominante.

A frontalidade dura, exterior, muda, geométrica e fora da escala humana da estátua-símbolo tenta sua humanização em redes e janelas (foto de Denise Cathilina), na bandeira da porta-bandeira (Milton Guran), na vida das plantas (Marcelo Tabach, Pedro Motta), em brincadeiras de criança (Walter Mesquita, Paula Trope), além da humanização inerente ao uso de tecnologias anteriores à última inventada, e que é a humanização vinda da imperfeição, da falha.

Milton Guran

Rosângela Rennó mais uma vez nos confronta, na sua exposição A última foto, na Caixa Cultural (RJ), com a falha e a intimidade, ambas as coisas cada vez mais elusivas na cidade que se quer de corpos perfeitos e expostos, mesmo se de cimento.

Zé Lobato

Somos todos turistas aqui, como os fotografados por Zé Lobato. Do lado de fora, desejamos entrar, ver de perto, participar, e mostramos nosso meio-sorriso de frustração. E a cidade é a mulher de Luiz Garrido, desejável e falsa, a mostrar um símbolo em vez da pele.

A casa antiga, cujas telhas de barro prometem um pouso mais duradouro, recebe a iluminação e o foco da foto de Patrícia Gouvêa (o Cristo aqui mal se vê, um pontinho no céu noturno). O ponto de vista, contudo, é o do edifício vizinho que a engolfa.

O símbolo da cidade tematiza a exposição através de visibilidades parciais e que registram não só essas parcialidades como o tempo curto gasto para registrá-las. Ou seja, não é só o espaço em volta que muda de fotógrafo para fotógrafo – uns mais de longe, outros na fragmentação do detalhe, na representação da representação. Mas o tempo da visão, o tempo do registro, é freqüentemente bem curto. Mais uns minutos e o Cristo do tríptico de Antonio Augusto Fontes irá sumir do quadro. Na foto de Claudia Tavares já sumiu.

É um não conseguir fazer parte. É a tentativa de fazer parte. Outro exemplo: a quebra dos contornos, agora não mais duros, na transformação do objeto em palimpsesto (Edouard Fraipont, Iuru Frigoletto, Cris Bierrenbach, Ruth Lipschits). Sem limites rígidos, tudo – e nós juntos – podemos fazer parte do mingau monocromático.

Para lidar com o desejo insatisfeito de se sentir parte, haveria duas estratégias: expôr o privado na vida cotidiana – o que as fotos mostram pouco, ou, a segunda, conviver com a privatização do que deveria ser público. Ao enquadrar as máquinas usadas nas fotos junto com as fotos tiradas, Rennó alude à questão ainda não resolvida sobre o direito de fotografar a estátua-símbolo, cujo copyright é reivindicado ao mesmo tempo pela Arquidiocese do Rio de Janeiro e por herdeiros do seu autor. Pode vir um tempo em que não será mais permitido fotografá-la, daí a retirada do valor de trabalho, de uso, das máquinas. A última foto é também a última ceia desse Cristo que, de qualquer modo, não oferecia a fartura desejada pelo nosso apetite.

olympus pen

São as máquinas, aliás, e não o Cristo, as presenças mais doloridas. Têm nomes de gente como Miranda; prometem a realidade como a Realist 35; se referem a canetas de desenho com a Olympus Pen; ou, afetivas, se tratam por diminutivos carinhosos: Beirette, Icarette, Baby Brownie. E nos parecem lindas, muito mais do que o Cristo.

A exposição Tropicália, do MAM, não divide as obras participativas das geométricas, as pesadamente políticas das festivas. Está tudo junto, misturado, como misturadas estão as datas. Ficou bom, dá para ver o bom e o perigo desse bom, sempre presente quando o assunto é falar da nossa difícil brasilidade.

O Tropicalismo entrou no lugar da pop-art, que acontecia no mesmo período nos Estados Unidos. Com a pop nunca se sabe se se trata de fetiche ou pastiche. Se é reprodução irônica do consumo ou, ao contrário, se adoração fetichista desse mesmo consumo. Aqui, nenhuma dúvida. Era a ditadura e tudo que se fazia era contra.

(Não tudo, a Bossa Nova, representante do bom-mocismo do Leblon, tinha em um de seus ídolos, Vinícius de Moraes, um funcionário público cuja função como diplomata era defender a ditadura.)

No MAM, hoje, pode-se notar claramente o aspecto contestatório dessa arte na salinha de Antônio Dias com suas obras da década de 60, feitas em tecido estofado, orgânico, para mostrar vômitos e estripações; no Apague a Luz de Hans Haudenschild, com obuses e silhuetas militares. No L.U.T.E. de Rubens Gerchman (e menos, na sua Lindonéia de olho roxo); no Criança, nunca nunca verás nenhum país como este, de Helio Eichbauer, e nas cortinas vermelhas pingando sangue da maquete do cenário de O Rei da Vela. Ou ainda, na outra salinha especial, esta de Carlos Zílio, que em João incluiu o próprio nome na lista dos fichados pelo DOPS, e depois, como número, o 66 de sua prisão, em 1966.

Mas, hoje, já não se nota a contestação que havia no simples fato de se pôr na arte elementos de uma vida popular que se via esmagada pela não-política da época. Por exemplo, em Éden, de Hélio Oiticica, a pedra de brita do chão, que passa despercebida por quem por lá anda, se refere às construções das favelas, em seu nunca acabar de puxadinhos e remendos e que, na época, estavam ameaçadas de remoção e destruição pelos militares. Ou no também bem simples fato de o violoncelista suiço-baiano Walter Smetak usar utensílios domésticos e restos de coco e caçambas para deles extrair música.

De Ana Maria Maiolino há o Schiii, uma boca aberta e muda. De Nelson Leirner há um porco empalhado. Só isso, um enorme porco, que se você olhar bem, tem cara de general. De Leirner também, um Roberto Carlos em altar de santo com neón pisca-pisca a destruir os outros santos, os verdadeiros, postos sem o mesmo destaque, em volta.

Ao lado dessas obras da época, outras recentes, a chegar perto da sempre presente possibilidade de estetizar, e com isso diluir, questões complexas como a brasilidade, ou as dores da ditadura. Como lidar com o Chacrinha de Matthew Antezzo, um enorme tapete feito em 2004, onde a comunicação é representada por um telefone daqueles antigos, de disco, e onde a frase “quem não se comunica se trumbica” seria, com boa vontade, nostálgica, com má, nem sequer kitsch mais? Ou com o vídeo de Dominique Gonzales-Foerster, Bahia desorientada, de 2005, onde cajus rotundos bóiam no mar e negras de lenço branco na cabeça passeiam por praias paradisíacas?

Rivane Neuenshwander, também contemporânea, escapa disso ao manter a acidez no seu Joe Carioca, um vídeo de animação de 2005 onde o nostálgico Zé Carioca se atualiza em cenas de canibalismo e onde o mapa do Brasil recebe tratamento de código de barras.

Há males que vêm para o mal mesmo, mas que, nem por isso, deixam de ter conseqüências proveitosas. As duas ditaduras brasileiras, Vargas e 64, provocaram dois movimentos, o de Tarsila e o Tropicalismo, ambos tentando uma afirmação, uma celebração, daquilo que se pretendia calar. Seja lá o que for, como se defina, esse “aquilo” que deveria ficar calado e comprar o que lhe servem pronto. E sem esquecer que o Tropicalismo, tanto quanto o Modernismo, teve em sua política de exaltação da periferia aspectos bem polêmicos e que serviram ao conservadorismo inerente a qualquer estratificação de nacionalidade, ao caudilhismo popularesco, então como sempre, reacionário.

O artista fala de água e realmente. Se você passa, suave, são água, ondas, os desenhos feitos com os azulejos sobrepostos da exposição Sobrevôo, na Galeria Mercedes Viegas. Têm esse nome porque também podem ser vistos como paisagens áreas de campos arados, com seus desenhos sinuosos.

Mas aí você chega mais perto.

Meu negro meu madeira meu mamoré, de Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Luiz Monken tem um histórico de obras em que não dava para chegar mais perto do que já se estava: fotos de meninos de rua, lençóis rasgados, punhos ensangüentados. Ele achava que tinha saído dessa temática.

Não exatamente.

Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Se usasse hoje – passado esse tempo de denúncia – esses mesmos vestígios humanos, metonimicamente tão próximos, ele estaria apresentando uma obra cujo significado seria anterior à feitura, de uma existência independente de interpretações e, mais do que isso, com um significado e uma existência que seriam ameaçados pela interpretação artística.

Do jeito como faz, ele recupera uma hermenêutica mediada pelo pensamento. Seus azulejos brancos continuam tão acusatórios quanto o são quaisquer séries de fotos de vítimas, Carandiru, Auschwitz.

Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Mas, brancos e silenciosos, carregam suas cicatrizes reflexivamente (nos dois sentidos: há uma reflexão, um conceito, e, além disso, os azulejos refletem a luz na sua superfície e na do talhe, que é negro ou luminoso, a depender da sua posição em relação à luz). Ao pensar além de mostrar, Monken suspende a empatia acrítica e entra na política.

Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Os azulejos são quadrados brancos empilhados e cortados. Alguns não são empilhados, são só superfície. A análise formal escamoteia uma outra metonímia, não tão próxima quanto pedaços de roupa e olhares suplicantes mas, por isso mesmo, mais eficaz. Essa outra metonímia é a seguinte: o azulejo é um objeto que também remete a uma intimidade humana. É coisa de banheiro, de cozinha – e não de sala de visitas. Montados como o são, suas ondas são as camadas de uma derme de cimento, a que nos cobre e abriga. São humanos.

E são objetos (há pedras e madeiras também). Aqui, as faces expostas na sua dor e na sua acusação estão portanto objetificadas. De certa maneira igualadas, nulificadas, embora haja, a identificá-las, para cada uma, uma cicatriz única. Mas o que poderia ser um aplastramento da contundência tem, contudo, efeito contrário. São muitas as vítimas, e elas são as “nossas” vítimas. A consciência que sua presença nos dá nos forma em nossa identificação/alteridade. Auto-consicência é má-consciência, na frase lapidar de Levinas. É dessa dor que nos formamos. Dependemos dela.

Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Mas Monken não retrata, observador ou passante, essas faces que refletem. Ele as constrói. Seu discurso não está lá para falar pelo outro, por aquele que foi machucado para que lucrássemos com isso. Ele o produz, esse outro, ele é ao mesmo tempo aquele que machuca, agride, e aquele que depois acusa os que não estão machucados. Ao recusar a passividade confortável das testemunhas, incluindo aí as de acusação, Monken também não nos permite conforto algum. Ele está lá para lembrar que a violência pertence ao campo das possibilidades. Para cada um de nós.

Eu tinha uma pergunta específica para fazer às obras expostas na exposição Ver e ser visto, da Repercussivo (RJ).

Essa galeria trabalha com artistas jovens, em início da idade adulta e da profissão. Eu queria saber o quanto eles vêem do que está à sua volta e o quanto eles, ao contrário, apenas querem ser vistos. Eu queria saber se eles aspiram a uma identidade (e papel) social.

De antemão, eu achava que não.

Mas sim.

E em dois níveis, um mais profundo do que o outro.

O menos profundo fica por conta do tema, bem poucos, de cunho social ou crítico. O mais profundo vem pelo modo como seus temas – não importando quais sejam – são tratados. E há os intermediários.

Alexandre Hypólito - fotografia de Roberto LehmannAlexandre Hypólito colou uma foto de uma infância antiga em toras velhas de madeira. Integrou madeira e foto no recorte irregular e nos fios de tinta que recobrem o conjunto. O menino deixa portanto a esfera privada, biográfica e individual, para representar um tempo passado com uma relação menos intermediada de trabalho, e portanto produtora de vínculos sociais mais claros. É a madeira, achada, que denota esse uso de trabalho. Tal tempo ressurge, ao ser fotogrado, e nos critica, a partir de seu despojamento não consumista – a foto é em PB. O título dado por Hypólito, contudo, desmente essa leitura: Reo ab incunabulis – preso desde o berço – é queixa de quem ainda não se libertou de peias, não mais sociais mas psicológicas.

João Penoni também se sente preso. Sua AcroGrafia é uma montagem de fotos feitas com um personagem se exercitando em uma barra, dentro de um banheiro minúsculo. As fotos são cortadas em forma de trapézio. A escolha desse formato para as fotos produz uma ilusão de perspectiva – que se estenderia até o horizonte, caso horizonte houvesse – e isso aumenta ainda mais a claustrofobia do espaço representado. Na utilização de um cenário típico de moradias modernas e urbanas e na solidão dos movimentos de ginástica, que não têm utilidade exterior a eles mesmos, Penoni faz um bom retrato do cotidiano de grandes cidades.

Raul Leal - fotografia de Roberto Lehmann Raul Leal (díptico) - fotografia de Roberto Lehmann

Raul Leal de todos é o que mais abdica de divisões nítidas do tipo “eu vejo o mundo e eu quero ser visto pelo mundo”. Seu mundo sem contornos fixos, impressionista, integra-se e integra-o em um mesmo chão de rua. No díptico apresentado, contudo, o ponto de vista é o aéreo, que esmaga e desconsidera a figura humana.

Tereza Costa - fotografia de Roberto Lehmann

A política de gêneros está representada por dois artistas, duas mulheres. Tereza Costa mostra a sua De nenhum lugar. Para onde importa? onde uma mulher transparente, quase invisível, dá as costas ao fruidor, nega-se portanto ao confronto, à luta. Luiza Baldan faz uma comparação pouco sutil entre um ícone sexual, Marilyn Monroe, e doces ofertados em prateleira de padaria.

Sandra Schechtman - fotografia de Roberto Lehmann Sandra Schechtman, na colagem Ipê, também mostra um chão. Este é habitado pelas sombras de personagens cortados parcialmente pelas fotos. Aqui uma mão, ou um pé. Reveladora é uma inscrição fotografada em uma das tábuas do chão: um “estivemos aqui”, seguido de nomes e uma data. A tentativa tão comum e, nem por isso menos desesperada, de marcar uma presença profundamente individualista no mundo.

Paula Kossatz usa o símbolo gasto do olho que olha quem olha. O tríptico Crer para ver apresenta um olho que olha para a direita, para a esquerda e para a frente. Neste último, uma câmerazinha filma quem está na frente. Aqui nada há para ser gostado, ou não gostado. A idéia não é original. Fica a execução correta do projeto, o que é pouco.

Mel Guerra usa espelhos pintados no Cotidiano da vaidade, o que faz com que você veja a pintura e se veja ao mesmo tempo. Também um conceito pouco original, embora as pinturas sejam boas.

Rodrigo Torres é um bom pintor. Fez uma paisagem onde a silhueta de um observador, em primeiro plano, está integrada ao resto. Um registro mal visível, que não interrompe nada. Cabe aqui uma comparação interessante e altamente favorável ao jovem artista. Na recente exposição de arte chinesa contemporânea, a Coleção Uli Sigg, no CCBB, o artista chinês Fang Lijun, um dos mais importantes de sua geração, também traz um observador retratado ao observar uma paisagem. Ao contrário de Torres, porém, Fang Lijun, cujas telas valem alguns milhares de dólares, não integra seu personagem, ao contrário, faz com que ele domine seu entorno, em uma assertiva arrogante.

Também estão presentes Alexandre Mascarenhas, Raquel Garcia, Sonia Melman e Felix Richter. Este último faz parte da lista dos que integram, e se integram, ao mundo. O faz pela cor. Integrado mas não realista, Richter mostra um inferno povoado de monstros. Ou realista, se quisermos ser pessimistas.

A relação entre autor, fruidor e esse tempo sempre duplo da fotografia (o do que foi fotografado e o da fotografia propriamente dita) têm aqui uma unidade. Alguns dão as costas ao mundo, outros integram-se a ele, mesmo que ao seu chão. O tempo é o da presentificação mitológica ou histórica. E há os que registram o pouco espaço que a sociedade oferece para quem chega. Seja como for, esses artistas, todos eles, ensaiam uma resistência à apropriação hegemônica do olhar.

Quase todos. A exceção – em maior ou menor grau – ficando com os que se apóiam na excelência técnica para repetir conceitos já assimilados.

A dupla estratégia do corte e recorte da figura humana, e a da repetição, nos dípticos e trípticos presentes, traz uma contestação incipiente ao poder, incluindo o autoral. A relação entre o ver e o ser visto, apresentada com várias integrações por textura, cor e composição, se torna assim mais de interação fluida do que de oposição. O que talvez seja uma boa notícia, um individualismo renitente que se anuncia mais problematizado.

Os esgares de emoção que Rodin punha em suas esculturas, ou Goya em suas pinturas negras, não existem mais.

Hoje temos máscaras para essa finalidade. Mesmo quando reais é assim que recebemos as imagens da dor do noticiário policial ou do riso das colunas sociais. Algo aposto, de formas fixas e repetitivas, e que fica entre o rito e a caricatura. Nos fascina justamente por sua previsibilidade reencenada.

Ilha

Na representação artística, a face humana, quando vem, também vem com a problematização das coisas impossíveis ou falsas.

É o que vemos na exposição de Cristina Canale e Sérgio Sister, Pinturas Face a Face, do Instituto Tomie Ohtake (SP).

Menina e pescador

Cristina Canale escolhe pôr suas máscaras devagarinho. Quando põe. Às vezes só esboça. Em Menina e pescador (de 2005), as máscaras, nas figuras humanas ou nas massas de cor, mal cobrem o gesto esboçado no crayon. Em Ilha (2006), houve, em algum momento da fatura, uma expressão. Não mais. A mais emblemática das 11 telas expostas é Mãe com dois filhos (2003). Aqui, as expressões se apresentam em seus vários graus de desistência.

Mãe com dois filhos

Sérgio Sister mostra a mesma impossibilidade de representação de forma mais radical. Seus “quadros” são vazios, a humanidade está nas beiras, onde dá, quando dá. Às vezes não dá, e a beirada nem se completa, é apenas um ângulo mais ou menos reto, precário, que, se não se apoiar na parede, desaba de vez. São nove estruturas que formariam as “molduras” de quadros ausentes, feitas em alumínio pintado ou recoberto com tecido.

Sister

Tanto em um como em outro, o apontamento de uma dissonância entre matéria e voz. Em Canale, como em um teatro de bonecos, seguramos nossas máscaras sociais de família em férias e através delas falamos – ou emudecemos. Em Sister, a máscara, retirada, mostra que não há nada por trás. E a voz possível, aqui, é murmúrio. Por vezes belíssimo, como na estrutura em tons sobre tons de um mesmo vermelho-sangue.

Sister

O que poderia ser entendido como manifestação reativa, conseqüência ou apenas constatação, adquire nesses artistas, contudo, uns ares de linguagem estratégica. Mais do que uma alegorização ou uma desterritorialização, Canale e Sister mostram, nessa exposição conjunta, uma possibilidade de subjetividade nova, que fica ao largo do jogo especular.

(Jogo esse que tenta impôr à contemporaneidade seu eco ao infinito no lugar do significado perdido.)

O desconforto que as máscaras, caso estivessem presentes, trariam seria o da insuficiência.

O desconforto que sua ausência traz é compensado pelo conforto, nascente, surpreendente, de uma subjetividade que pode existir sem se submeter à gramática da superfície.

Um breque contra o fascismo.

(Na nossa época como em outras, fascistas sempre estetizam corpos, sejam eles humanos ou políticos.)

A exposição do Tomie Ohtake mostra uma outra coisa. Raras vezes se vê como uma boa curadoria pode produzir valor agregado. Sister e Canale, separadamente, poderiam ser lidos dessa ou de outras formas. Os dois juntos adquirem nova clareza, enriquecidos um pelo outro.

Fui no centro cultural da Caixa (RJ), devo confessar, ver “Jogos Visuais – arte brasileira no Pan” com uma certa impaciência já que tudo que espero do Pan é que acabe logo. A exposição, de curadoria de Manoel Fernandes, conseguiu me dobrar.

Oriana Duarte

Oriana Duarte mostra stills ampliados com closes de uma mesma atleta. Por algum motivo obscuro, retratistas esportivos (ou de dança) gostam de mostrar o absurdo esforço físico necessário como se fosse leve, simples e fácil. Oriana foge desse lugar comum e mostra o esforço de várias formas. Uma, o próprio exercício retratado. Duas, o imenso barco vermelho no meio da sala, maior que a atleta. Três, o still pixelado de uma captura assumida e incorporada. Nada é fácil, nem mesmo fazer as fotos. Quatro, o vídeo, grande, estourado, que nos cansa por assimilação.

José Tannuri - fotografia de Clarisse Tarran

José Tannuri consegue mostrar um Rio de Janeiro em duas rodas que é caricato e simultaneamente verdadeiro e romântico. Um Brasil possível, que se inventa e reinventa, à venda na carrocinha mais próxima.

Eudes Mota

Depois vi os remos de madeira antiga de Eudes Mota. É impossível não pensar em como são similares os nossos utensílios. Remo, taco de críquete, pá de ventilador, não faz a menor diferença. Eudes esfrega na nossa cara que somos iguais. Remo, porta ou colher de pau.

A vídeo-instalação de Daisy Xavier e Célia Freitas tem um quê de psicanálise. A nadadora vai sempre em frente pela água que escorre na tela. A água que escorre, como o tempo, a natureza, a vida, o infinito, não importa, nos dá a certeza do inexorável e a nadadora que corta isso tudo nos garante que o ser humano ainda é possível. Otimistas.

Raul Mourão Ratão Diniz Bira Carvalho Bira Carvalho Adriano Rodrigues Adriano Rodrigues Adriano Rodrigues

Fotografias de esportes tem, a grosso modo, quatro possibilidades: movimento suspenso (muita luz, lentes maravilhosas, filme rápido e voilá um atleta parado no ar), movimento assumido (borrões e afins), perspectivas (ângulos incomuns, distorções de lentes, essas coisas), e portraits (geralmente em um preto e branco “expressivo”). E aí sempre me dá um pouco aquela sensação de dejá vu.

Matheus Rocha Pitta consegue fugir de tudo isso com Câmara de compensação. E consegue retratar o jogo contido tanto nas artes quanto nos esportes, levando à exposição um de seus raros momentos polissêmicos.

Felipe Barbosa Felipe Barbosa

Felipe Barbosa critica o esporte de consumo com suas bolas rotuladas, catalogadas, organizadas, penduradas na parede. Ele faz o mesmo com outra obra, ao desmontar e remontar uma bola de futebol parece lembrar que a máquina marqueteira do esporte não existe sem o indivíduo (atleta ou artista, aqui não importa).

Marcos Cardoso também remonta bolas de futebol, mas a partir de rótulos jogados fora. A crítica é a mesma mas o método tem um resultado bem mais gráfico.

Aí tem os vídeos.

Ana Vitória Mussi

Ana Vitória Mussi mostra um boxe de alto contraste que traz toda uma nova interpretação do chiaroscuro mas para quem que, como eu, não tem a menor idéia de quem foi Éder Jofre Galinho de Ouro, a mensagem se perde um pouco.

PaulaGabriela e o seu Simbiose mostra duas mulheres andando de um lado para o outro, se confundindo pela falta de foco. É o tal do “movimento assumido” que anda muito em moda ultimamente.

Alice Micelli

O vídeo da Alice Micelli, 99,9 metros rasos, mostra um corredor que vai desacelerando, parando no ar, morrendo na praia. O som vai parando junto. Hilário e angustiante ao mesmo tempo.

Marcos Chaves

Marcos Chaves e sua Foca! também mostra a repetição. É, de fato, muito difícil para o artista entender a repetição no esporte. Para o artista, o aprendizado é um caminho contínuo e normalmente muito longo. Para o atleta, a perfeição só é conseguida através da repetição. Aí um olha para o outro e enxergam focas amestradas.

Marepe mostra o aquecimento de algum time de futebol pequeno. Os jogadores cantam enquanto fazem aqueles movimentos repetitivos. Parece uma ladainha hipnótica igual a de mulheres bordadeiras, militares, religião, não faz diferença. Adorei. Marepe. Você tem razão: somos todos iguais, realmente.

AiráOCrespo & AFA (estudo)

Tem também um enorme graffitti de AiráOCrespo & AFA. Usa tinta spray e acrílica. A spray dá a cor, a textura, a luz, o movimento. A acrílica dá o drama, o foco. Sensacional. Os corredores estão todos mais ou menos na mesma linha imaginária de chegada. Pernas, pra que te quero?! Ah, eu respondo: para levantar daí e dar uma passadinha no Caixa Cultural.

Este fim de semana, dentro do evento anual Santa Teresa de portas abertas, houve uma ocupação no casarão abandonado onde já funcionou a UNEI, União Nacional dos Economiários.

É uma construção antiga, jardim, escada de madeira, uns restos de azulejo português. Os artistas ocupantes, em sua maioria e cada um de um jeito, usaram o espaço para falar do próprio espaço. Como eles achavam que o casarão e seus jardins deveriam ser valorizados. Como eles achavam que deveria ser um casarão e, uma vez ele definido, qual sua relação com os espaços urbanos atuais.

Ocupação da UNEI

Tenho 60 anos. Tenho, na minha memória, casarões desse tipo vivos, não como centros culturais, sedes de instituições ou local para happenings artísticos. Mas com velhinhas que varriam a calçada, regavam as plantas e que moravam com suas filhas solteironas lá desde sempre. As tiras de papel que caem das janelas da casa, bonitas, são as cortinas de voile da minha memória vivida, e dançam no vento, igual.

Ocupação da UNEI

Vi a ocupação um pouco como, acredito, árabes ou negros devem ver uma montagem de Othello de Shakespeare. Aquilo lá na sua frente é para ser uma imagem artística de algo que você identifica como seu, mas que é vista por alguém muito diferente de você. E sem um Shakespeare para me contar piadas e fazer trocadilhos.

Ocupação da UNEI

Ao lado de uns raminhos de flores artificiais (!), América Cupello montou uns fantasminhas com imagens de fósforos queimados, ecológica. Perto, Célia Schiavo é menos dramática e veste uma árvore com um tecido onde há a impressão de mãos que a abraçam. Ilana Braia, José Nasser e Neber Nassaro fizeram uma instalação sonora onde falam lentamente dezenas de nomes de árvores brasileiras: sucupira, pau-brasil, jequitibá, samambaiaçu, carapiá. A seqüência dos nomes faz lembrar lista de mortos em alguma guerra. Eficaz.

Ocupação da UNEI

Pedro Grapiúna fez uma flor de ferro-velho, Lucas Reis pôs um tronco (bem fálico) no meio de uma cadeira. Bruno Rezende Silva montou sua Escultura efêmera com folhas de bromélias; e Almir Soares fez a Nós que aqui estamos por ti esperamos (uma corruptela de frase da Capela dos Ossos, em Évora, que, com mais cerimônia e sonoridade, não trata o visitante por tu mas por vós: nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos). Trata-se de vários pequenos túmulos onde estão “enterrados” designs modernistas de móveis de madeira com nome de bicho.

Na escada, já do lado de dentro, Luiz Fernando Sampaio pôs algumas fotos de escadas modernas, de shoppings e prédios comerciais. Nelas, homens de ternos, peruas enfeitadas e com sacolas de compras, e uma máquina de Pepsi. Chama-se Sobe e desce. Certo. Na mesma linha didática, Luiza Lis e Bruno Siniscalchi puseram uns rostos famosos com um espelho no meio e nos explicam: “direcionamos às celebridades nossas esperanças e reprovações; desta forma voyeur a sociedade consome e produz sonhos. Criamos os espelhos e, com prazer ou inconsicentemente, nos refletimos neles.

Há pontos altos. Os Cem metrônomos de Laila Terra, embora com uma idéia já vista, funciona. Alguns estão parados, outros insistem, todos no chão como soldadinhos do tempo. Enquanto isso, o sol entra pela janela. Dá bastante bem a idéia do que fica, perene, e do que passa, fugaz. Do que se mantém, indestrutível, e do que se torna nem mais símbolo mas apenas metáfora.

Célia Cotrim, com sua voz cochichada -: “o que vejo não vejo, não vejo o que vejo, vejo o quê?, tudo está no mesmo lugar mas às vezes não vejo” – é outra que fala com uma complexidade mais sofisticada do que fica, o que some.

Ocupação da UNEI Ocupação da UNEI
E Tita Bevilaqua, com uma idéia muito simples, também apresenta grande força em seu Varal da memória. Roupas. Só roupas: uma camiseta pintada, um sutiã preto. Velhas ou novas mas profundamente carregadas de um erotismo e de um uso humano – eternos.

No barzinho montado exclusivamente para atender ao público da exposição, uma constatação do involuntário, à la Shakespeare: a cerveja servida é uma Antarctica Original, marca comercial de marketing recente que traz no rótulo a mesma reprodução tipográfica com que foi lançada, em 1906. Um resumo, aliás bastante apreciado, do que eu acabava de ver.

Para ir embora, atravesso outra vez, no meio do jardim, as mesmas portas que dão para o nada, que dividem sem dividir, por onde eu já havia entrado. Sem sair.

Exílio é diferente de emigração. No primeiro, você vai embora porque entrou em choque com a sua sociedade original mas tem vínculos fortes com um grupo social menor que pode, inclusive, ser replicado no lugar de destino. No segundo, você vai embora e corta vínculos.

Exílio raramente produz uma arte de resistência cultural, no sentido de uma arte com recuperações, negociações e confrontamentos de convenções e subjetividades. A emigração sim.

A arte de Marcone Moreira, em exposição na Galeria Lurixs (RJ), tem um quê de arte de resistência cultural.

Marcone MoreiraNão porque ele more em Marabá, o que equivaleria a dizer que há um centro, a cidade grande, origem subentendida da arte contemporânea, e um rincão folclorizado, a vila ribeirinha do norte do país, para onde sua arte – se não ele próprio – teria emigrado.

Por falar da passagem – do caminhão, do barco, da madeira gasta, viajada, e da caixa de papelão corrugado que protege os objetos de consumo em sua travessia rumo ao consumidor – Marcone Moreira entende resistência cultural de uma forma mais sofisticada do que isso.

Marcone MoreiraÉ na gastura do seu material, na tinta pintada e repintada, e a toda a vez descascada, da madeira ou papelão usados que ele fala da resistência cultural. Ele diz da especificidade e diversidade, ao se apoiar no resíduo do vivido. São objetos de uso industrial ou comercial, portanto de um mainstream homogeneizador, que já resistiam, em sua sobrevida particular e única, antes de serem achados e revistos como alternativa estética. Esta revisão se dá dentro de um pensamento crítico sobre contradições e conflitos e que não exclui as sua próprias contradições e conflitos: as composições são construtivistas, geometrizadas, e estão, portanto, sujeitas a uma leitura que as desenraíza de seus sítios e funções originais, de seus contextos sociais e políticos.

Há pedaços de pontes dos bairros de palafitas que simplesmente não são mais identificáveis, ao serem postos em pé.

O embate de Marcone Moreira entre a limpeza das composições de um lado e, de outro, o lixo como suporte; entre os sintagmas nortistas e sulistas; e entre centro e margem (aliás, Margem é o nome da exposição) se radicaliza com uma certa destruição sintática. Não é só a ponte que não é mais identificável. Nas fotos, há um vestígio de presença que se reveste de um significado outro, diferente do da presença. A obra dele seria anti-autoritária se houvesse um foco em ideologia. Não há. As peças têm um poder de sedução. Ao empreender o processo de decodificar, estabelecer as mudanças de significado e o deslocamento dos contextos, e recodificar, o fruidor vê-se frente a uma beleza, o que equivale a dizer, frente a uma questão principalmente estética.

Mas mesmo que ele não queira, suas obras alargam a memória coletiva, afastam a margem um pouco mais para lá, ao integrá-la.

Na parede do ambiente doméstico montado por Ernesto Neto na Galeria Artur Fidalgo, em Copacabana, há uma frase escrita a esferográfica: idéia é isso que cabe dentro. Da frase sai uma seta indicando uma página de caderno, grudada com durex logo ao lado, contendo umas figurinhas, uns diagramas.

Ernesto Neto na Galeria Artur Fidalgo, fotografia de Elvira VignaNão sei quem escreveu isso, se o próprio artista, se algum de seus visitantes, que têm permissão de interagir com o ambiente como quiserem.

A frase oferece uma leitura não só dela mesma, rabiscada na parede, mas de toda a instalação.

Idéia é o que cabe dentro de um espaço criativo, seja ele uma página de caderno desenhada, o salão da galeria ou o ateliê particular do artista, cujos móveis e decoração são os da instalação, em uma reprodução que dizem ser exata.

E, é lícito inverter a frase, ambiente criativo é isso onde cabe uma idéia.

A instalação na Artur Fidalgo tem umas redes de nylon no teto, de onde pendem pesos. São descendentes das meias de mulher contendo bolinhas de chumbo, que o artista fez durante um tempo. A impressão, agora, é de pingos de alguma matéria quase fluida, mas consistente.

A continuar na leitura proposta pela frase da parede, os pingos ficam então sendo o depositar lento mas contínuo de uma idéia que acabará por se constituir em uma forma, como a dos apliques sinuosos, feitos em madeira de cor mais clara, que foram postos no chão.

Ernesto Neto na Galeria Artur Fidalgo, fotografia de Elvira VignaO uso da experiência, individual ou social, caiu em desuso por quase um século. Só agora reaparece. No século XIX havia, principalmente na América Latina, Brasil incluído, uma arte que se queria útil. Aqui ainda relutamos a abandonar essa vertente, mas o fizemos. Agora, volta. Na Bienal de São Paulo, no ano passado, havia uma presença maciça de arte referencial, geográfica e temporal. Mas não é uma volta, exatamente. As melhores obras têm suas referências não no tema, didáticas, mas na maneira como são feitas e nas informações, indiretas, que estão em sua volta – releases, notas, títulos, contextualizações.

Eu sei que se trata de uma reprodução do ateliê do artista porque me disseram isso, não que haja alguma coisa dentro da instalação que assim a determine. Tal informação vale como complemento de uma leitura a respeito do espaço criativo. Não é constitutivo dele.

Aliás, há uma circularidade, uma suficiência no espaço montado na galeria. Os pingos que caem, as formas no chão, é como se o espaço se bastasse a si mesmo, fosse dinâmico sem a interferência dos visitantes que por ele andam, o próprio espaço criando ao se criar.

Faz lembrar outra instalação do artista, para a 49ª Bienal de Veneza, em 2001. Quase um cérebro vivo.

Você pode estar na velocidade que for, se as coisas em torno de você também estiverem se movendo de forma igualmente veloz, haverá um momento em que a sensação é de imobilidade, uma suspensão do tempo, tudo e todos parados. Não é desagradável, pelo contrário, a atemporalidade faz com que passado, presente e futuro se igualem em uma espécie de morte ou de eternidade. Ficamos, ou melhor, temos a impressão de que ficamos, prazeirosamente estáveis – esta raridade.

A exposição 20 e poucos anos, da galeria Baró Cruz (SP), sugere que nesses jovens de 20 e poucos anos, tão fluidos e rápidos, há um desejo (algo que se fantasia em um futuro) ou uma nostalgia (algo que se fantasia em um passado) de estabilidade. No meio da velocidade.

Para começar, a figura humana.

Depois de tanto tempo em que a sua representação na arte é vista como insuficiente, ei-la de volta.

Sumiu quando o poder político, econômico e social do indivíduo nas democracias ocidentais aumentava exponencialmente no pós-guerra. Como se a figura tivesse de explodir em formas e cores porque sua estratificação engessaria a experiência humana em expansão.

Seu reaparecimento vem em um momento em que a individualidade se encolhe, diluída, necessitada mesmo de um espelho que a reafirme. Mesmo se, nessa estrada em que estamos todos, tal espelho é apenas a figura na janela do carro ao lado, viajando em igual e vertiginosa velocidade.

Os expositores, um por um.

Gabriel Jaguaribe, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP Gabriel Jaguaribe, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP Gabriel Jaguaribe, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP Gabriel Jaguaribe, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP
Gabriel Jaguaribe se demora em desenhos de detalhes, no desejo de registrar um mundo minúsculo que de outro modo nos escaparia. Usa caneta muito fina, calígrafo medieval.

Flamínio Jallageas força a duração de técnicas antigas que já desapareceram ou estão em vias de. Faz isso ao revivê-las em formato digital. São aguadas, aquarelas, mas não em tinta e água, e sim pixels, são manchas digitalizadas. E impressas em um papel de arroz, milenar.
Vitor Iwasso, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP

Vitor Iwasso é bem direto. Faz pinturas divididas. Em uma parte há uma representação realista, na outra, formas sinuosas, livres, que espelham contudo as formas e cores usadas na representação realista. Os títulos reforçam a nostalgia/desejo. São narrativos, e narram passados distantes: Eu costumava achar que essas coisas aconteciam por uma razão. Ou: A infelicidade vem em todas as formas e tamanhos. Ele explicita em sua obra um percurso da arte, do realismo ao modernismo, e ao fazer isso emparelha seu movimento a este outro. Antes da encruzilhada.

Rafael Suriani é artista de rua. Faz figuras com caras de animais que dançam danças de rua, de periferia. Um traço rápido, fugidio, de ponta de feltro em papel qualquer, vagabundo, dobrado ou rasgado. Seria uma arte de momento. Mas ele emoldurou. Outros da mostra não o fizeram, mas ele sim. Corretas e burguesas molduras pretas, com vidro, cercam seus desenhos e determinam sua durabilidade física, seu desejo de permanência.
Verena Klary, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Verena Klary repete nos seus quadros a técnica tradicional dos grandes coloristas europeus. Ela traz assim uma simultaneidade a uma estética passada. Mas seu tema é o vento. É no meio do vento que surge a concomitância de internet e século XVIII. Um de seus pastéis se chama Me gusta el viento e, nele, além do desenho há um envelope com bilhetes na escrita descompromissada dos emails e bilhetes adolescentes.
auto-retrato de Rodrigo Bivar, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Rodrigo Bivar tem óleos (e óleo é o que há de mais tradicional, em matéria de tinta) enormes, realistas, de pernas femininas. Ao lado, o único auto-retrato com este nome de toda a exposição. É interessantíssimo. No pequeno auto-retrato, mais do que nas grandes figuras femininas, vemos uma pincelada lambida, sem volume. As pinceladas são todas horizontais, o que produz um movimento de passagem, como se a figura estivesse passando na frente do fruidor. Ou vice-versa.
Juliana Freire, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Juliana Freire usa o gerúndio para nomear suas serigrafias sobre tecido. Todas elas representam, portanto, ações petrificadas em pleno andamento. A maior delas é a Fodendo.

Rafael Carneiro é um dos que mais trazem o registro do transitório. São desenhos sujos em papel rasgado. Este contraponto – que, no entanto, não fica isolado (há outros desenhos não tão sujos em papéis igualmente rasgados) – lembra, na sua fragilidade, o movimento das feministas e dos gays, da década de 60 do século XX, a atacar com rara eficácia o domínio lógico, limpo e eficiente do universo masculino. Continua necessário, continua eficaz.

Marlin Legón fala de uma lenda folclórica, portanto atemporal, de seu país, a Argentina. A mulher que foi morta por lobos é mostrada, contudo, em uma atualização. Ou é o contrário, é a contemporaneidade urbana que é levada para esse passado distante, mítico. Na obra de Legón, a mulher e os lobos travam seu embate em um ferro-velho. E em um terreno cercado, cheio de mato, de alguma periferia.
Anderson Orui, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz Anderson Orui, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz Anderson Orui, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Anderson Orui é o único a se aproximar da representação como instrumento de formação de símbolos. E mesmo assim, o faz para negá-los. No caso dele, é o olho, símbolo do espelho identificatório. Mas, justamente, seus olhos estão riscados ou se encontram atrás de cílios-grades, presos, portanto, em cílios-barras de ferro.

exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Nos outros artistas não há símbolos. Não usam a representação para elegê-los. Ou até mesmo (o que seria um passo além) para mostrar que símbolos funcionam em mão dupla: ao simbolizar em imagens uma verdade pré-existente esta verdade se torna assim verdadeira aos olhos de quem a vê. Não é o que eles buscam, a estratificação. Mas apenas um momento fugidio, embora agradável, de sensação de estabilidade. Sabem que um suposto espelho do aqui e agora deverá ser entendido apenas como um panorama eventual, produzido por critérios fluidos e recebido através de outros, mais fluidos ainda.

É uma estabilidade para lá de temporária, esta.

Anderson Orui, além de suas pinturas com os olhos riscados, traz também uma revistinha pornô em tiragem limitada, 50 exemplares. Nela, uma menina tira a roupa e se masturba em PB, fundo vermelho, página por página. Na última, o corpo depois do gozo tem a imobilidade de que fala a exposição. Foi bom, é bom. Pena que dure pouco.

A busca pela estabilidade momentânea dentro da velocidade é dita também pela curadoria. Adriano Casanova escolheu artistas que lidam com arte tecnológica de uma maneira boa, sem alarde. Ninguém berra: olha, mamãe, fiz no computador! O digital é visto aqui como deve ser visto, como mais um instrumento, a somar-se a outros instrumentos – canetas, pincéis. Vários dos artistas da mostra foram escolhidos através de seus blogs e mostruários na internet. Outros usam o tablet não porque é tablet, mas porque é o tablet o instrumento mais adequado para o fim pretendido. Há imagens vetoriais (como a do publicitário Lucas Simões), prints. E pastéis, óleo, nanquim, pilô. Misturado, invisível. A não ser que você pare, mas aí, já tanto faz.

No dia 29 de junho, 6ª feira passada, o Espaço Orlândia (Rua Jornalista Orlando Dantas 53, Botafogo, RJ) abriu suas portas ao público.

AssociadosAssociados reúne o trabalho do grupo de artistas formado por Adriano Cipriano, Aimberê César, Alê Souto, Alex Hamburger, Alex Topini, Alexandre Sá, Alexandre Vogler, Amélia Sampaio, Ana Muglia, Ana Torres, Analu Cunha, André Sheik, Arjan, Bob N., Cadu, Caroline Valansi, Chacal, Chang, Chica Granchi, Chico Fernandes, Clarisse Tarran, Claudia Hersz, Cordélia Mourão, Cristina Amiran, Dana Zaver, Daniel Feingold, Daniel Murgel, Daniel Toledo, Daniele Dal Col, David Cury, Domingos Guimaraens, Ducha, Enrica Bernardelli, Felipe Lacerda, Fernanda Antoun, Fernanda Ribeiro, Fernanda Terra, Fernando de la Roque, Franz + Saulo, Galaxi, Grupo Bando, grupo Hora do Brasil, Guga Ferraz, Guilherme Trindade, Gustavo Duarte, Gustavo Speridião, Heik Estanislav, Heleno Bernardi, Ivan Henriques, Jarbas Lopes, Joanna Chaves, Julia Debasse, Julia Milman, Julie Berranger, Julio Callado, Kenny Neoob, Khalil Charif, Lena Amorim, Ligia Teixeira, Lívia Moura, Luiz Alphonsus, Luiz Fernando Sampaio, Lula Vanderlei, Marcela Maria, Marcelo Lins, Marcelo Moraes, Márcia X, Marina Fraga, Marinho, Marisa Florido, Marta Jourdan, Maurício Ruiz, Nadam Guerra, Nelson Ricardo Martins, OPAVIVARÁ!, Pedro Urano, Ricardo Maurício, Ricardo Ventura, Roberto Cabot, Rodrigo Torres, Roma, Roosivelt Pinheiro, Simone Michelin, Suely Fahri, Tato Teixeira, Thiago de Paula, Thomas Jahan, Xico Chaves, Yoav Passy e Zé Tanuri.

Estes artistas vêm se encontrando periodicamente na casa, promovendo discussões, jantares e produzindo os trabalhos que são apresentados.

Por duas semanas a casa mantém suas portas abertas ao público, mas os artistas continuam se encontrando na casa e trabalhando até o último dia, que será marcado por um evento de encerramento.

Confira aqui algumas fotos do evento de abertura, no dia 29/07/2007.

Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann

fotografias de Roberto Lehmann

“Enquanto rabisco não penso em nada”, diz Antonio Bokel recuperando um automatismo à la Breton que há muito tempo ninguém assumia.

Claro, o surrealismo, com sua valoração de um inconsciente não-individualizado, apontava para uma religiosidade das mais burras. Um corpo versus alma primitivo, que se exprimiria, esta última, quando a mente imperfeita dos humanos estivesse dormindo ou, pelo menos, distraída com outra coisa. Tal anti-racionalismo esteve fora de moda até explodir, literalmente, há alguns anos.

Só que não há nada de distração ou alheamento na exposição do espaço Repercussivo, da Barra da Tijuca (RJ). Então, não deve ser automatismo, em que pese a declaração do artista que, inclusive, complementa desconfiar que o que guia sua mão é uma voz superior, algum deus – grafado em seu folheto com todas as letras maíusculas.

O que se vê é o contrário disso. Não só nas obras de Bokel como nas dos dois outros artistas da coletiva: Marcos Dias Corrêa – que é também o galerista – e Bruno Lyra.

Eles vendem tinta.

Antonio Bokel Marcos Dias Corrêa Bruno Lyra

E são excelentes comerciantes. No folheto e no site da galeria há expressões marqueteiras como merchandising, apresentação de produtos, pessoal especializado “para orientar a aquisicão de trabalhos a preços acessíveis” etc. Nenhuma alma aqui, só negócios.

Mas, nos três casos expostos, a venda e a tinta vendida têm uma contraposição radical. Ou não, se lembrarmos que o mercado tudo absorve, mesmo o que o ataca. E há um ataque.

Bokel rabisca tudo, tela, cubos de madeira e a parede que está por perto. Lyra cobre com lagos de tinta diluída textos e números que ficam, assim, ilegíveis. Corrêa “estraga” pinturas caprichadas de ícones de nosso tempo – carros, computadores, foguetes da Nasa – jogando por cima delas respingos e borrões raivosos de tinta encorpada.

A tinta vendida, portanto, não é conformista, é destrutiva/criativa.

Esta destruição/criação não é às cegas, autômata ou guiada por algum deus. É um espelho exato do espaço estreito e do tempo, curto, onde vivem os jovens artistas e galeristas frente a um mercado que os aniquila e em cuja superfície vivem.

Surrealistas, afinal. A espontaneidade radical apenas é mostrada, aqui, em seu processo, ao deixarem aparente a superfície anterior, bem comportada e lógica, onde ela se manifesta.

Os preços são um segundo ataque a partir de dentro, ou sobre. Telas grandes a mil e pouco reais, peças menores a hilários “R$ 299,00”. Não são os preços do mercado de arte. São os preços de quem faz quadros para quem quer pôr quadro na parede do sofá, sem ser, necessariamente, o sofá do Gilberto Chateaubriand.

Na época dos surrealistas, havia a assertiva de que as artes plásticas tinham um apelo instantâneo e de apreensão simultânea, ao contrário da música que seria uma arte de percepção consecutiva, temporal. Depois, essa dicotomia caiu ao se descobrir que ambas as percepções se acumulam e se modificam a cada instante e que ver uma imagem é tão temporal quanto escutar uma música. Que nada ou ninguém escapa ao tempo e que é o tempo, tanto quanto o espaço, que produz a experiência estética em qualquer meio.

(Ou época.)

Os artistas do Repercussivo fizeram uma experiência interessante. A galeria, muito ampla, tem três janelões atrás dos quais se apresentou, na abertura da exposição, o grupo Bonde Som. Vê-los tocando, emoldurados como se quadros fossem, pelo batente dos janelões, ao lado dos quadros reais expostos, foi uma experiência estética que, esta, não pode ser vendida por preço algum.

A galeria tem outro detalhe que soma. Além dos três janelões internos, há três janelinhas, basculantes na verdade. A galeria é em um subsolo. As janelinhas, de vidro fosco, ficam ao alto da parede e na altura da calçada lá fora. Você vê essa arte que se atraca, e ataca, e, ao mesmo tempo, vê o que ela ataca e em que se atraca: a entrada de um shopping center. A entrada e as pessoas que por lá passam aparecem em sombras, bem, surrealistas, quando iluminadas pelos faróis dos carros.

Tiago Judas @ Galeria VermelhoNão dá para não ser pessoal. Por mais distanciamento bem comportado que se assuma, acabam sempre entrando as implicâncias e simpatias de cada um.

Eu, por exemplo.

Ou melhor, o concretismo, por exemplo.

Tiago Judas expõe a opinião dele sobre o concretismo na Galeria Vermelho (SP). Dá nome a tudo, a começar pela exposição, chamada de Matiz Vertical. E continua nomeando: a história em quadrinhos se chama Infinito-D; as aquarelas, Sangue e Clorofila. É o que ele acha a respeito da autonomia da representação em relação ao referente.

A peça com maior destaque é um duplo.

Lado a lado, na parede, há uma construção concreta feita com uma colagem em madeira. Sem fundo/figura, seus campos vermelho e verde se igualam na simetria da composição enquanto se agridem na complementaridade cromática. Nenhuma contaminação pessoal do artista aqui. A obra se impõe como perfeito produto desvinculado de qualquer experimentação fenomenológica, livre de historicidades.

A seu lado, um vídeo. Nele, o artista está sentado em uma cadeira mas não se sente bem, não se mostra relaxado. Sai, então, e dá voltas, inclusive andando pela parede, e tenta várias posições até voltar, suado, à posição inicial. Faz assim, com seu corpo, esse inimigo do concretismo, toda uma pesquisa geométrica (o corpo se dobra em vértices, retângulos) na busca de alguma coisa, o estar-no-mundo perfeito. Ao lado, em uma mesinha, frutas em uma fruteira fazem o papel de frutas em uma fruteira, como se estivessem em uma natureza-morta.

Ri sozinha na galeria.

E rindo continuaria.

O Infinito-D vai pelo mesmo caminho. O Zé é personagem desenhado sem nenhuma linha reta e com o traço sujo característico do gênero. Ele procura, segundo o texto, um alto grau de meditação. Consegue. É o vazio. Texto do último quadrinho: O Zé virou zero.

Duas linhas retas, bem, meio retas, se cruzam no chão. São dois “tênis” costuradinhos de forma a ficarem bem compridos, meio gordinhos e desajeitados, em forma de X. Detalhe, os cadarços estão desamarrados. É o Caminho interno, onde cada pé vai para um lado, mas sempre em linha reta.

Painéis de Comando faz lembrar a arte cinética daqueles tempos, luzinhas, espirais rodando. Mas tudo meio mambembe, de madeira pintada.

Em Sangue e clorofila, pessoas carregadas de objetos complicadíssimos passam perto de árvores. São notepads, televisões portáteis, benjamins de eletricidade que caem do bolso e das mãos. Um cara está com dois relógios. As árvores, estas, parecem não ter problemas em segurar suas folhas.

E em Kipá, bonés tampam buracos na cabeça.

Bem, é hilário.

Ou sou eu que também não tenho muita paciência com os concretos.

Vídeo pode fazer o que faz a poesia, desprezar o cognitivo, o racional, e ir para o estético sem essa passagem, tão cara a nós, ocidentais formados no iluminismo. Não mais relações sintáticas, lógicas, seqüenciais, mas abrangências informais e analógicas, livres, destinadas a causar uma resposta não exprimível em frases de sujeito, verbo e predicado, esta outra linguagem, cujas seqüências não são livres, mas causais.

Foi o que eu esperava ver na edição do grupo Laisle da Galeria Novembro (RJ), o LaisleNonStop.

E foi o que eu não vi. Há um tema que se repete, proposital ou inadvertidamente. É o do artifical ou tecnológico, contraposto a um “natural”, bipolaridade conservadora.

Fernando Alexim

Fernando Alexim mostra um pato enorme, duro na sua imobilidade de metal. É um brinquedo de parque infantil. Atrás dele, árvores se balançam na brisa gentil. Depois, há um escorrega também de aço, uma torneira que pinga lentamente. Alguém passa atrás de uma cortina, em uma janela recortada em meio ao cimento e ferro de tetos de edifícios. Até mesmo um céu com nuvens, visto em paralaxe, tem produzidas duas linhas de luz, duras como se de metal fossem.

Antonella Kurzen

Antonella Kurzen filmou uma pomba pousada em frente a uma roda gigante que, esta, “voa” lentamente ao fundo.

Rob Tyler mostra um abridor que abre latas girando-as em círculo, um mesmo movimento de arruelas, engrenagens, estas últimas vertendo óleo, as primeiras, molho que, como sangue, escorre, viscoso.

Há um vídeo em tons do cinza ao negro, cidades por onde passam nuvens de insetos, que depois estão dentro de palácios vazios. Insetos enormes estão sobre os tetos e em volta de um homem sentado. Um peixe cai do céu, chifres nascem de um edifíco e pentelhos em uma pia. O homem luta contra seu ambiente urbano, dando socos inúteis no ar.

Em outro, uma animação faz sair de um “disposal bag”, os sacos de vômito distribuidos em aviões, uma enorme quantidade de objetos de consumo. Uma metáfora não muito original que iguala o excesso de máquinas fotográficas e relógios ao que não nos é possível digerir.

Há outras repetições.

Em todos os trabalhos sobre paisagens, a mesma idéia de animar artificialmente o que se vê produz resultados de eficácia variável. A estrada reta, com cor modificada, que não acaba nunca, é a que mais se aproxima de um pensamento estético, não professoral. Augustine Gimel faz uma animação interessante, ao sobrepor um tempo presente a resíduos de um tempo imediatamente anterior, o da memória. Gerben Kruk faz a mesma coisa com resultado bastante similar. E Akiko Nakamura também. Mas este corta a tela em várias, tanto na vertical quanto na horizontal. Isto, somado às animações e montagens, faz com que sua viagem de trem apresente a mesma simultaneidade de tempos dos nomes anteriores mas com uma riqueza maior de referências e intervisualidades.

A artificialidade versus “naturalidade” também está presente em Alex Hetherington, com um diálogo impossível entre uma mulher e um homem. Dizem frases como “I’m here”, “I wish I had a conversation”. O homem está de cabeça para baixo na tela, o que faz com que eles nunca estejam em um mesmo plano visual. Ambos não são eles mesmos mas fazem um papel, ela de cantora, ele de palhaço. Uma câmera, voltada para o fruidor, o põe na cena, aumentando a incomunicabilidade. Nós, ao sermos instados assim a sair de nossa “realidade”e virar personagens, nada podemos falar aos outros dois.

Sabine Gruffat e Fernando de La Rocque, apesar de se manterem no tema dominante da exposição, o pensam de forma mais complexa. Ela produz um mar em 3D e faz com que ele se mova a partir de uma música. A água vira pele de um grande dançarino azul. Ele tem seu retrato em close dissolvido em granulação e filtros. Ambos enriquecem o tema ao apontá-lo como falso.

Leonardo Galvão traz um outro tipo de conservadorismo, ao recuperar a metáfora freudiana do ID como sendo o local do animal em nós. Ele faz um jogo com a palavra masturbação/masturba cão. A imagem do cão ocupa o lugar do pênis do modelo masculino que se masturba na tela e, depois, o lugar de sua cabeça. Karen Golan entra em fade in, sai em fade out e, entre um e outro, mastiga a própria língua, também em uma recuperação do corpo como lugar do sentir que nos remete à década de 60 do século passado.

E agora os que usam texto, incluindo os dois curadores da exposição, Érika Fraenkel e Carlo Sansolo. Se até agora os vídeos se posicionaram em graus variados de uma recepção analógica, estes são decididamente lógicos, têm uma mensagem para passar, um recado a dar. Érika Fraenkel estuda a questão do objeto na vida contemporânea e nos informa que “O homem pode se tornar vazio” e que “O objeto é sempre erotizado”. Carlo Sansoro faz uma crítica ao mundo corporativo tecnológico, com pastiches de marquetês como “Com o propósito de expansão de mercados” e palavras como “requerimentos”, “propostas”, que ele junta com outras, íntimas ou cotidianas, como “Do fundo da minha gônada” ou “O que você vai fazer sobre isso? Eu sei o que vou fazer. Eu vou pegar um táxi e voar para casa”. No mesmo grupo dos que ilustram frases vem Joacélio Batista. Ele faz uma montagem de stills animados de um jovem de braguilha aberta sobre cenários urbanos e de periferia. O vídeo abre com a frase-título “Se me queimo no fogo do desejo, por que meus olhos ardem na água?”.

A exposição traz alguns poucos vídeos individualizados em televisões na primeira sala. A grande parte deles está em seqüência em um telão da segunda sala. Estes últimos nem sempre puderam ser identificados com precisão pois a ordem de apresentação, fixada na parede ao lado, não corresponde à ordem de exibição.

Um truque de quem escreve narrativas é fazer com que surpresas e tensões sejam sempre anunciadas antes, em descrições anódinas, para que o leitor não perceba a literalidade ou a possibilidade oculta daquilo que está sob seus olhos, e depois veja que o desenrolar da história se sustenta, é filho de, integrado mesmo, às circunstâncias anunciadas. Assim, a coisa segue com naturalidade e o que vem à cabeça é um “é como as coisas acontecem”.

Gabriela Maciel faz esculturas que mostram como as narrativas são feitas. Usa, para isso, aquelas telas de plástico que edifícios em construção têm estendidas em suas fachadas, à guisa de proteção para pedestres, disfarce para o que está sendo feito.

As telas são furadas, por elas perpassam ar e olhos. E som.

Na galeria de Laura Marsiaj, as telas, enroladas e desenroladas, têm sua trama – nos dois sentidos, o literário e o fabril – disposta pelo chão, com os nós das tensões, os desvios e prolongamentos existentes em qualquer história. Você pode modificá-los, trata-se de uma história aberta, daquele tipo em que o leitor participa, decidindo-se por esta ou aquela hipótese, todas viáveis.

O que Gabriela Maciel diz aqui é que as linguagens se aproximam nessa nossa contemporaneidade sem categorizações. Sua exposição é uma escultura, perfomance, a imagem de um som. E estrutura de novela (novelo).

Gabriela Maciel @ Laura MarsiajA etimologia da palavra alegoria é alla agoreuein, e quer dizer dizer algo diferente, ou dizer a mesma coisa de forma diferente. Com a virtuosidade da ilusão da representação há muito perdida, há aqui uma ilusão tão potente quanto a antiga: faça o teste, comece em um dos grandes nós brancos, apoiados na parede e siga, pondo nesse caminho um enredo de sua escolha, sem perder de vista a tridimensionalidade/intertextualidade da sua história, que se imbrica com outras, de outros conteúdos, e com o passado distante que está, como os passados distantes estão sempre, tanto na tradição da pintura e da literatura, envoltos na cor azulada do horizonte. Os nós e seguimentos azuis estão mais ao fundo para quem entra.

Siga a linha da trama, modifique-a, aqui houve um susto em um momento, seguido de outro logo depois, e vá. Chegará na falsa veritas da ficção – feita de palavra ou imagem.

Gabriela Maciel @ Laura MarsiajPalavras escritas em obras de arte visual – desde assinaturas a títulos e inscrições – têm sua materialidade dentro da obra e sua extensão significativa para além da obra apreendidas ao mesmo tempo. Trata-se de uma escritura, um fragmento de discurso, sem origem determinável de imediato, que absorve e rejeita uma hermenêutica fechada. Aqui nessas esculturas/novelas, a virtualidade de uma frase e a imagem que ela teria, o signo e o material, uma tela de construção, não se opõem, mas se integram, difícil dizer onde uma, onde outra.

É você quem escolhe a música que quer ouvir durante a criação. E o título da mostra é Move. De mover-se e mover o que está lá. A veritas, nem um pouco falsa, é que a linguagem artística é capaz de representar uma verdade, a de como nos construimos e ao mundo.

A expressão preto no branco tem sempre uma entonação meio autoritária, masculina. Por trás de sua aparente chamada por clareza, simplicidade, está uma semiologia de cores. O preto do preto no branco é preto porque seriam as letras de uma comunicação na qual não pairam dúvidas, e o branco é o do papel. Mas preto é também a cor da morte e, por sinédoque, a cor de quem tem o poder de infligi-la.

Não é preciso dizer que o branco é a cor da virgindade, da vitimização deste poder.

Cinthia MarcelleAo mesmo tempo, tanto uma cor quanto a outra trazem, em sua ausência de tonalidades, a noção de um ocultamento de autoria, uma impessoalidade. Ausência de tonalidades porque o preto é, em princípio, preto total, idem para o branco. Qualquer quebra deste absoluto e estaremos no cinza, uma outra cor. E impessoalidade porque não há vestígios individuais em tais registros, já que não há nuance. Assim, trata-se de um poder ainda em grau maior, porque exercido atrás do conforto e segurança de uma invisibilidade. Uma tautologia: o preto no branco exigido para maior clareza é o mesmo preto no branco da ilegibilidade, opacidade, ocultação.

Quanto ao branco, a ausência de individuação também reforça o poder do preto, já que seu poder é exercido indiscriminadamente, em uma abrangência cega de alvos.

E aí você pega o preto no branco, amassa, faz uma bolinha e joga fora.

Cinthia MarcelleCinthia Marcelle, em exposição na Box 4 (RJ), fez várias bolinhas. Sua exposição é uma montanha de bolinhas de papel que enche todo o exígüo espaço da galeria.

Na parede, o vídeo de uma de suas outras instalações.

Os papéis amassados e empilhados são em sua maioria brancos e integram-se às paredes também brancas.

Há, é claro, a idéia óbvia de uma linguagem em crise, a da escrita, a idéia de leis/parâmetros sociais também em crise, e de uma mídia – a impressa – tão lenta quanto o fazer uma bolinha caprichada, redondinha, com ela.

Mas enriquece pensar que junto com esse lixo todo cai também um autoritarismo, ainda que metonímico.

Galeria Box 4
Rua Teixeira de Melo 53, Ipanema
Rio de Janeiro – RJ
(21_ 2247-8809

Que você fala porque não consegue suportar a imensidão do silêncio é uma idéia que pode tropeçar no misticismo. Não é à toa que práticas religiosas incluem silêncios obrigatórios como uma das condições para que se escute a palavra do deus. Há aí uma noção temporal: primeiro, no “início”, haveria um silêncio, e depois, surgiria a palavra, sendo que a do deus é a primeira, mais completa, verdadeira, abrangendo todas as outras. Ou seja, o deus é o dono de um silêncio total que ele pode ou não quebrar e é a partir daí, em um segundo momento, que reproduziríamos “ecos” imperfeitos, as palavras.

Religiões à parte, fica um conceito interessante para os que se dedicam a pensar linguagens: no silêncio há um significado fluido e unificante (ponha-se aí um deus, mais de um ou nenhum, no resquício de um passado não-humano – não inserido em linguagem – que sempre tentamos entender historicamente e que talvez devamos ver como concomitância enriquecedora). Este significado uno do silêncio, nós o destrinchamos em pedacinhos, individualizamos e, ao fazer isso, também o estratificamos, mesmo que seja apenas pelo tempo de a palavra atingir um outro e ter por ele seu significado modificado.

É desse silêncio que fala a exposição Portfólio, no Itaú Cultural de São Paulo. Tem texto e imagem,  e o jogo intersemiótico das duas linguagens merecia um comentário separado, que incluísse essa longa e ideologicamente comprometida convivência, em diversos graus de “textos ilustrados”. A mostra traz curadoria dupla de Nelson de Oliveira (texto) e  Eduardo Brandão (fotos). As fotos são do grupo Cia de Foto e o texto é da escritora Olivia Maia.

Como é o silêncio deles: o som da sala é de sirenes, zumbidos, batidas indistintas. As fotos são de paredes manchadas, pessoas cujas vozes não são ouvidas pela sociedade de consumo, alguém dança em uma montagem de stills. No seu texto, Olivia Maia descreve o ruído urbano que cerca alguém que quer tocar um piano. Termina assim:

“São as paredes desse apartamento. Cinzentas. Absorvem a luz e acolhem todos os sons distantes da cidade, e sempre haverá um zumbido feito conseqüência de tudo que se move, e sempre haverá os gritos e meus pensamentos e essa música repetitiva que segue rumo a lugar nenhum perseguindo labirintos dentro da minha cabeça. Deixo que os dedos toquem as teclas e delas então são as notas saindo mudas e invisíveis: que eu fosse parte desse silêncio histérico que me afligia, dissolvido no espaço. Tocava o que ninguém poderia ouvir, como sopra o vento no deserto. Era o silêncio, todo, aos gritos. A melodia e os ratos e os carros e a fotografia e o aspirador de pé e os gritos de uma criança na rua, caminhões atravessando pontes e um morador do último andar que assiste à televisão, e o feirante que chama os passantes olha a laranja laranja laranja.”

Que Olivia Maia descreva o silêncio total, uno, como o composto indistinto da vida só fala bem dela e de nós que estamos nele e o fazemos assim.

Uma nota: o narrador toca. Isso faz lembrar Heidegger e o que ele disse da música: a única atividade humana que não quer representar nada, que é, ela em si, o impulso da representação. Algo de muito, muito antigo, ou de muito, muito presente.

Não dá para dizer que conheço a China. Nem precisaria. Afinal, uma arte que se nomeia contemporânea e, portanto, internacionalizada, não dependeria de tais contextos. Sei que deve ter um cheiro de cavalos de carroças pelas ruas e um cheiro de fumaça de fábricas pelos ares, na passagem do rural para o urbano. E uma perplexidade de quem sai da brutalidade de uma repressão política. Coisas portanto conhecidas por aqui.

grão de areia, no foyer do CCBB-RJ A peça central da exposição China Hoje – Coleção Uli Sigg, do CCBB-RJ, é um grão de areia onde há um texto escrito, um exemplo atual da velha arte da caligrafia. Está no foyer da instituição e só por isso já adquire um status diferente das demais. Seu autor, Lu Hao, participará da próxima Documenta, de onde Alfons Hug, o curador da mostra carioca, já foi curador. A peça conta a história de Hu, que deixa sua cidadezinha e vai para grandes centros, onde não se adapta. Ele é pai de três filhas, diz o texto. E, isso eu também sei, é algo que aumenta sua desgraça. Fossem três filhos, e ele não estaria tão mal. Mulher, na China, não tem muito valor. A frase escrita no grão de areia é reproduzida em um estande em espiral a ser percorrida de fora para dentro. Termina em um centro. O desconforto é que não há mais centros a serem alcançados no pensamento atual. Nem há mais volta a aldeias – brasileira, chinesa ou o que seja – em busca de um passado cuja idealização, essa sim, pode existir em qualquer cultura.

Há mais peças de igual teor, a exposição – quase só de pinturas, um suporte portanto bem tradicional – põe em discussão justamente a ambigüidade deste título, arte contemporânea, em arte que lida com a relação de poder em dualidades bem determinadas. A nostalgia de Hu vai além da aldeia e atinge o autoritarismo de estado, decadente, e que, parece, deseja-se que seja substituído por algum outro – que impeça os abusos que ele sofre nas poucas frases do seu grão de areia. Os candidatos a tal substituição são o próprio artista quando retrata-se a si mesmo; a arquitetura monumental, fascista, representada em massas imponentes; ou a própria composição e técnica perfeita das pinturas a óleo. Ou o dinheiro. Há um fluxo muito grande de dinheiro na China de hoje e alguns destes quadros aqui comentados têm preço de mercado de vários milhões de dólares. Fala sério. A especulação pode ser tão autoritária quanto um ditador, a nos obrigar a ver de novo o que já vimos várias vezes antes e há muito tempo.

A questão da boa acolhida feita pela arte contemporânea internacionalizada aos acervos culturais locais, populares e artesanais, é bem conhecida. É uma arte que apresenta, portanto, uma abertura em relação ao fechamento do modernismo tardio, construtivista, que tinha horror a povo. O problema é quando a exposição mostra que em vez de patrimônio em constante transformação, o viés nacional parece ser, ao contrário, tradição a ser defendida, embora com concessões à vida metropolitana e cosmopolita.

Fang Lijun - Untitled, 2005 - oil on canvas, 273 x 119 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)

Na paisagem sem título de Fang Lijun, o contorno de sua cabeça careca, enorme, centralizada e de costas para o fruidor, domina o seu assunto: cisnes sobre azul.

Li Dafang tem dois grandes óleos, Letter e Sky. Nos dois, um personagem solitário domina uma paisagem urbana decadente tratada de forma a ser vista com um ar romântico. No primeiro, um monte de escombros se faz de montanha para o personagem, talvez um catador de rua, virar um super-homem, um highlander. No segundo, um rio urbano, sujo, é pintado com uma névoa espiritualizada e o personagem se torna um herói desbravador.

Chen Wenbo - Siyuanqiao, 2004 - Acrylic on canvas, 214 x 198,5 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)

Chen Wenbo, em Siyuanqiao, traz uma composição geometrizada que não perde seu referencial, uma construção arquitetônica, limpa, com superfícies chapadas e sem detalhes, distanciada portanto de seu uso humano.

Yin Zhaoyang - Tiananmen Square, 2003 - oil on canvas, 230 x 380 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)Na Tiananmen Square de Yin Zhaoyang, as figuras humanas se tornam um grafismo a compor o entorno do edifício, símbolo do poder, centralizado, com um vermelho, o das bandeiras nacionais, ausente do resto do quadro, em tons neutros.

Idem para o Beijing Hotel, de Jing Kewen, que mostra uma rua central, um boulevard com árvores, carros e ônibus, também tão limpa que se pensa em um sonho de organização e controle públicos do poder. Neste quadro, as linhas, em diagonal, se encontram onde está a figura, também em vermelho, dos tetos recurvos, tradicionais, arcaicos.

Há uma sala dedicada exclusivamente à arte da chamada Revolução Cultural, com seu realismo moralista, positivista e patológico. Não sei a razão. Mas explica o resto, como eu supus neste artigo.

A técnica da pintura a óleo é primorosa em todos eles, um exercício de disciplina e obediência às regras da representação.

Não há objetos. Há uma estátua. Buda sendo tentado por uma mulher. Bem.

Agora, os que eu gostei.

Li Songsong - “The Happiness of Long Sleep”, 2006 - oil on canvas, 320 x 680 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)

Li Songsong, detalhe (fotografia de Elvira Vigna)Li Songsong, artista que veio pessoalmente à abertura da exposição, traz a técnica da pintura a óleo como ela foi entendida durante o período em que a pintura saiu da frontalidade e ganhou o espaço, em uma tridimensionalidade que viria a eliminar, posteriormente, as classificações antigas que determinavam o que era arte bi e tridimensional. Seu conjunto de seis quadros tem um emplastro grosso, expressionista.

Huang Yan - Chinese Landscape: Tattoo No 2, 1999 - Chromogenic print, 50 x 61 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)Huang Yan traz uma atualização interessante, com a representação de tatuagens que, por sua vez, representam a velha e tradicional pintura chinesa de paisagens.

Qi Zhilong - Untitled, 1998 - oil on canvas, 80 x 50 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)Qi Zhilong põe faces rosadas, pop, na moça-soldado, o que é dúbio: ele pode pretender criticar a rigidez militarista ou, pelo contrário, humanizá-la, torná-la mais palatável. Não sei.

Li Dafang - Portrait n.3, 2005 - oil on canvas, 250 x 150 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)Li Dafang e Xu Wen Tao trazem um viés homoerótico em seus quadros, o que é sempre sinônimo de abertura e quebra de tradicionalismos.

Miao Xiaochun, Shao Yinong e Mu Chen são, de todos, os que mais conseguem se livrar da repetição conformista de uma relação de poder para criticá-la decididamente. Trazem a representação de assembléias populares, salas oficiais. As salas são vazias, decadentes. Uma lâmpada apagada, dependurada por um fio, eis o seu centro.


outras imagens da exposição

Liu Xiadong - A mountain, 1999 - Oil on canvas, 198 x 198 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)

Zeng Fanzhi - Untitled, 1997 - Oil on canvas, 170 x 145 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)

Ai Weiwei - Table with two legs on the wall, 1997 - Qing dynasty table, 90 x 118 x 122 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)

Liu Wei - Gospel - Hearsay, 2002 - Mixed media, 180 x 100 x 700 cm - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)

Yu Hong - She - unemployed girl, 2003 - Acrylic on canvas, photograph mounted on board, 150 x 300 cm (painting); 100 x 70 cm (photograph); 70 x 100 (photograph) - Collection Uli Sigg (imagem cortesia da divulgação da exposição)

Conferência realizada no CCBB-RJ, em 15 de maio de 2007: o artista Li Songsong, o colecionador Uli Sigg e, ao fundo, o curador Alfons Hug. (fotografia de Elvira Vigna)

Coerência, em si, é só um conforto, pois a coisa pode ser coerentemente ruim e aí, o conforto será o de poder perceber rapidamente o ruim.

Em Laís Myrrha, em exposição na carioca Novembro, a coerência se dá a partir de uma visão exata do que é ler/fazer arte contemporânea.

Em um primeiro momento estamos diante da destruição, o que é correto.

Nas paredes, fotos de uma fundação cultural de Belo Horizonte. Dois ambientes, o que foi um auditório, com um palquinho ainda visível em meio a escombros. No outro, o que foi a biblioteca, com os palimpsestos dos volumes marcados nas paredes. Um espetáculo e um conhecimento que se foram. Um detalhe: as marcas na parede fotografada são similares, como se os volumes ausentes tivessem sido padronizados, na morte, em uma só e mesma vida já extinta, em uma dízima periódica que se repete ad infinitum. A exposição se chama “redução ao absurdo” e essa expressão se refere a uma continha de chegar que matemáticos fazem quando contas absolutamente perfeitas, se repetidas, passam a não fechar, a gerar um resíduo que precisa ser eliminado.

Depois há um áudio, a Marselhesa em um compasso muito lento, deformada. O que era marcha guerreira, para frente, no allons-enfants, vira para trás e fica uma marcha fúnebre, de lamento por algo que já se foi.

O Compensação dos erros é um vídeo que mostra um relógio digital e uma mão que tenta desenhar o que o relógio mostra, precisando apagar sem parar os segundos que mudam, um referente impossível.

Laís Myrrha

Laís Myrrha

Metade da galeria é tomada por Teoria das bordas, uma instalação de pó de brita que cobre o chão. O pó, um branco, outro preto, divide pela metade exata essa uma metade da galeria. Andar por cima disso apaga os limites tão precisos.

E aí entra a segunda parte da destruição, que é a criação. Então, nessa arte contemporânea a criação se dá através da experiência. A arte não mais diz algo mas faz algo.

O que foi dito/lido na modernidade, o foi de dois modos, um mais antigo do que o outro. O mais antigo levava em conta símbolos, signos, uma crença de que existiria uma verdade a ser descoberta a partir do sensorial, fosse ele nascido de um referente ou chegando em um. Alegorias, metáforas, conceitos. O menos antigo via o que lá se apresentava, concreto: aquilo era um triângulo, isso aqui uma tinta branca.

Há na contemporaneidade a noção de que se lê algo a cada instante, quem lê fazendo parte da leitura, o objeto não mais separado, detentor de verdades ou identidades claras, assim como o fruidor/leitor também não as detém nem é mais uno, imutável. Se voltar lá no dia seguinte, outra obra acontecerá. Um e outro não mais existindo separados, mas arte sendo o nome do encontro. A arte se fazendo.

Em uma parede branca da galeria há uma porta desenhada, tosca, humanamente.

novembro arte contemporânea
Rua Siqueira Campos, 143 slj. 118
Copacabana
Rio de Janeiro / RJ
(21) 2235-8347

O problema de arte conceitual é quando o conceito não passa. E aí fica sendo o exercício lúdico e solitário do artista para quem aquilo que está exposto faz o maior sentido, mas só para ele.

Ocorre coisa parecida com a obra Basta! que Márcia Clayton expõe na Galeria da Cândido Mendes, em Ipanema, a partir do dia 24/04.

É uma série de tampax colados um ao lado do outro formando como que uma esteira, dessas que, dizem, se você andar por cima massageará os seus pés produzindo relaxamento. Mas não é nada disso, informa a artista. São 400, e o número é importante porque uma mulher tem cerca de 400 períodos menstruais em sua vida – conforme aliás está dito em uma obra ao lado. Mas eu – e acho que ninguém – contará quantos tampax há em Basta! – título que nos remete às faixas que a burguesia do Leblon costumava pôr na janela em manifestos “contra a violência”. E então vem a revelação. Os tampax na verdade estão colados lado a lado para imitar balas de fuzil em um cinturão. E é por isso que a obra está colocada na parede em uma altura um pouco mais baixa do que as outras. Para que fique mais perto da altura da cintura de uma pessoa.

E o Basta! é um basta à submissão biológica da mulher. Ok.

O próximo é o ABCD, seios artificiais onde os mamilos, inexistentes, são substituídos por retratinhos dos dois filhos da artista – que nem eu nem você conhecemos. São 29 pares de seios, idade da artista quando nasceu sua filha mais nova.

Quadrinhos com provérbios com a tradução em braile foram feitos com a ajuda da pessoa para quem a artista costuma dar sessões de leitura no Instituto Benjamin Constant. E isso deve ser importante.

Sempre Livre, de Márcia Clayton

E um grande manto, o Sempre livre, repete em invólucros de absorventes (365) números dos dias e meses, marcando pela cor o ciclo menstrual. Há faixas, por exemplo, onde não há invólucros vermelhos e elas representam o climatério – o que simplesmente não é apreensível.

Mas há um mas.

Márcia Clayton faz séries, repetições, coleciona objetos. Seu manto Sempre livre tem um eco de Arthur Bispo do Rosário. Ela acumula objetos industrializados de uso sexual feminino, coisas que são postas dentro do corpo, sem nunca se integrarem, ou na porta dessa interioridade, que é, aliás, o nome da exposição.

Acumulação tem sempre um aspecto de falta de sentido. Acumula-se o que não se compreende. E os acúmulos costumam ter em si um otimismo. A falta de sentido está no presente, coleções de objetos projetam-se para o futuro quando, quem sabe, algum sentido poderá aparecer. Em seu Provérbios, Márcia Clayton volteia em torno disso: “nomear é dar existência”, “quase tudo o que importa não se sabe falar”, “somos um quadrado, o tempo é que nos esculpe”, “interpretar é trazer à luz”.

Always, de Márcia Clayton

Há um momento involuntário de humor. A peça Always, montada com camisinhas e absorventes, traz um exemplo prático de surdez conceitual. Os invólucros dos absorventes femininos vêm com frasesinhas inspiradoras e bem-humoradas, incluindo a que nos informa sobre o número de 400 ciclos menstruais: “You will have about 400 periods in your life. It just feels like more.”

Já as camisinhas masculinas são as mais diretas possíveis e sua comunicação está em uma única palavra, a marca: ProSex, Durex, Eros, Affair. Ficam perto, uns e outros, e são incomunicáveis.

Uma das coisas que separam a Semana de 22 do que acontecia na mesma época na Europa é que aqui a industrialização e suas conseqüências eram bem-vindas, algo a ser integrado na paisagem bucólica e rural.

Camille Kachani Lá, ficavam pinturas em tons de cinza de máquinas, fábricas e operários, com a industrialização se contrapondo a um ideal burguês de casas de campo, aves. Aqui, a estrada de ferro de Tarsila cuspia cores em meio a bananeiras.

Não se trata mais de industrialização nem de Tarsila mas é daí que vem o fio.

Camille KachaniNa exposição de Camille Kachani na Galeria Anna Maria Niemeyer (Rio de Janeiro), há um vídeo que o artista fez em 2005. Não faz parte, portanto, das pesquisas expostas, grandes montagens de pelúcia e de emborrachado E.V.A. Mas mostra a continuidade de um pensamento. Nesse vídeo, chamado de Pegando tudo, por cinco minutos e meio vemos um carrinho de duas rodas, desses que às vezes acompanham moradores de rua que lá empilham seus pertences. O carrinho e seu proprietário andam pelo centro deteriorado de São Paulo, uma zona de cortiços e comércio popular, o Viaduto Santa Cecília, a Amaral Gurgel. No áudio ouvimos ele cantarolar uma meia frase musical. Há cartazes de compra de ouro. Alguém berra que três pacotes de alguma coisa saem por um real. O carrinho e seu conteúdo estão pintados de dourado. Mas fazem parte de, e andam por, um lixo pós-industrial da megacidade.

Camille KachaniNa exposição, pelúcia e emborrachado constroem objetos desse mesmo entorno: caçambas de lixo, engradados de bebidas. Fora da exposição mas dentro da mesma série, há um pacote de Omo, um liquidificador, uma Kombi, um sanduíche de fast-food. O descarte. Mas aí está. A textura e as cores de Kachani mostram não o repúdio mas uma espécie de acolhimento que fica, tal como o dourado do morador de rua, entre uma ironia e uma real valorização. A deglutição de Tarsila continua, agora com os restos que ficaram da aventura.

Há um outro ponto a estabelecer nobre linhagem na atual contemporaneidade do artista.

Os objetos representados em um único plano têm, todos eles, um dentro.

A fronteira a ser ultrapassada pela deglutição é estabelecida, portanto, não como binária (o lado de cá e o lado de lá) mas como tendo, a própria fronteira, um meio-de-campo híbrido.

Camille KachaniCaçambas, liquidificadores e engradados guardariam em um interior – ou em um anterior (à colocação da pelúcia e do emborrachado) – o registro mais duro e seco de uma geometria que é apresentada amolecida no plano exterior. Mas nem aí. Os poliedros se inserem na forma difícil que o construtivismo adquiriu por aqui. No oco apontado dos objetos só podem existir formas desmanchadas ou em constante transformação.

Camille Kachani

Exposição: até 30 de abril de 2007
segunda a sábado das 10:00 as 22:00h
Galeria Anna Maria Niemeyer
Rua Marques de São Vicente, 52/205
Shopping da Gávea
Rio de Janeiro, RJ
(21)2239-9144

Os desenhos de Marco Veloso são como notas ao pé de página. Comentários que você lê com uma atenção paralela, e que versam sobre passagens sem muita importância da vida de um autor ou sobre uma análise mais detalhada do por quê de alguma construção de linguagem. Pequenos, sem cor, não foram feitos para chamar a atenção.

Mas são o que há. Pois se referem a um texto que não está lá. Nisso, eles não poderiam ser mais contemporâneos. Não há textos grandes, em letras tamanho 12, na contemporaneidade. É uma das possibilidades de definição do que vivemos: grandes temas, leis universais, transcendências do pequeno, eis o que sumiu.

Marco Veloso: distante êxtaseOs desenhos se chamam line of grace, paisagem com castelo e clímax, no silêncio de uma noite azul, pequena glória, distante êxtase. Assim mesmo, com letras minúsculas, a indicar seu tamanho pequeno, sua continuidade de algo que se iniciou antes deles. Um adendo a uma frase anterior. Anterior mas ausente. Além disso, o vocabulário usado nos títulos indicariam a existência de um centro, algo importante que acontece, nuclear. O texto principal. Mas isso é desmentido. Os desenhos são notavelmente descentralizados em sua estrutura. Com ênfase nas linhas diagonais, até mesmo o seguindo a luz central. Neste desenho várias listas em perspectiva se afundam, todas escuras, exceto uma, e esta, mais clara, não é a do meio. As curvas em Veloso são maneiristas, se esvaem para além dos limites do papel. E o branco, que não é branco, é buscado com a borracha, a posteriori. O vazio portanto já foi cheio. Ficou vazio. A página onde havia o texto foi na verdade apagada, não que nunca tivesse havido o texto.

Por serem feitos desse modo, como um comentário sobre algo que se mantém ausente, esses desenhos se tensionam entre dois pólos: foram considerados importantes o suficiente para serem feitos e, ao mesmo tempo, exigem um status de não-importância. É preciso que sejam assim. Apenas sendo não-importantes eles poderiam falar do que falam, da ausência do que é importante.

Sem a lógica associativa de uma linguagem metafórica, os desenhos de Veloso trazem questões de linguagem, não há foco na representação, mesmo quando ela está lá. Ou então, e esta é a segunda linha dessas pequenas notas de pé de página, os desenhos são registros de memória onde também não há ilusão de transcrição da experiência vivida. E não há essa ilusão porque os registros vêm modificados pelo gozo do carvão que passa e passa, livre, sem o arcabouço de um plano esboçado de antemão.

Ao mesmo tempo – e isto é possível apenas porque os desenhos são como são – essa prática enfatiza o acúmulo, o numérico. São vários os desenhos onde as as linhas serpenteiam, são muitas as curvas que saem do quadro. E por permitir a serialização, o leitor/fruidor é convidado a continuar a indexação em mais notas, suas, pessoais, ele (nós) também nesse mesmo mundo que gira sem eixo.

MARCO VELOSO
no silêncio de uma noite azulexposição 04 de abril a 12 de maio de 2007
segunda a sexta-feira das 14h às 19h. sábados das 16h às 20h

Mercedes Viegas Arte Contemporânea
rua João Borges, 86 Gávea Rio de Janeiro RJ
tel 21 2294 4305

Roberto Magalhães, mesmo fazendo enorme sucesso, jamais permitiu que isso o estigmatizasse, engessando a sua criação ou moldando a sua identidade.

“Tornar o simples complicado é fácil, Tornar o complicado simples é criatividade”. Charles Mingus não se referia ao trabalho de Magalhães, mas seria bem apropriado.

Roberto Magalhães: detalhe de “Sonho”, óleo sobre tela, 1,20×1,20m, 2004.

O trabalho de Magalhães é limpo, o óleo dele não empastela, a cor é homogênea, a pincelada firme e precisa. É de fazer inveja: as minhas pinturas são imundas.
Roberto Magalhães: “Auto-retrato pintando…”, óleo sobre tela, 0,50×0,73m, 2003.

O seu “Auto-retrato pintando…” traduz bem a fusão da precisão absoluta, geométrica, de formas precisas e cores limpas com o tema livre, fantástico, de um imaginário complexo e heterogêneo.

Roberto Magalhães: “Origami”, óleo sobre tela, 0,50×0,40m, 2002.

O meu quadro favorito, sem margem de dúvida, é o “Origami”, que me lembra de “O Bibliotecário”, mas não por isso. A recordação de Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), aliás, me acompanhou durante toda a exposição. “Origami” é o meu favorito porque é quase um ato falho, um quase auto-retrato: finas, meticulosas e cuidadosas camadas que compõem a figura traduzem perfeitamente, para mim, Magalhães.

Roberto Magalhães: “Carro-forte”, óleo sobre tela, 0,65×0,92m, 1998

Roberto Magalhães não faz opções fáceis ou fúteis. E isso, por si só, já o define.

Roberto Magalhães: “Cidade Moderna”, óleo sobre tela, 1,30×0,81m, 2003.

Classificar Magalhães dentro de um estilo ou movimento artístico não é tarefa simples: claras referências ao maneirismo, com uma escolha de cores pop, com temas do fantástico ao surrealista. Então, esqueça os rótulos e vá vê-lo sem se preocupar com isso.
Roberto Magalhães: “Poeta”, pstel, 0,70×1,00m, 2002.

Roberto Magalhães estava desde 2001 sem realizar uma exposição individual no Rio de Janeiro. A exposição vai até o dia 5 de maio em galerias vizinhas no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana.

Serviço: Roberto Magalhães
Exposição: 30 de março de 2007 a 5 de maio de 2007
Entrada franca

Arte 21 Galeria (pinturas)
Av. Atlântica, 4.240, loja ss 123, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana – Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2227.7280. De segunda a sexta, das 10h às 19h; aos sábados, das 12h às 18h.

Marcia Barroso do Amaral Galeria de Arte (desenhos)
Av. Atlântica, 4.240, ss 129, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana – Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2267.3747. De segunda a sexta, das 10h às 18h; aos sábados e domingos, das 13h às 17h.

Há duas maneiras de se falar da diferença: na primeira pessoa, quando você se considera como fazendo parte de um dos campos em questão, e na terceira pessoa, quando você acha que não está tomando partido e se dispõe a analisar o jogo.

A questão com as aquarelas em preto e branco de Fabio Cardoso é que ele obviamente está no lado do escuro, mas isso não o impede de analisar a luz.

A sua “primeira pessoa” faz com que as imagens tenham seu valor de verdade indiscutível a partir de uma experiência vivida. Assim, os limites dos dois campos, o claro e o escuro, têm um referente que pode ser transposto da vivência do artista para a de quem vê. Está bem, são portas, todos já vimos o terror e o fascínio de uma porta que se abre para o claro.

Já seria bom.

O caso é que Cardoso não discute a experiência mas a construção da linguagem. As evidências da experiência, então, passam a ser evidências de uma diferença, qualquer uma (sexual, espacial, psicológica), construída dialogicamente em uma linguagem.

Com uma vantagem. Um posicionamento em “terceira pessoa” contém a ilusão de que os eventos analisados não incluem o observador. Cardoso, no seu local escuro, escapa disso. O paradigma epistemológico de sujeito versus objeto tem dificuldades em se manter hoje tão incólume quanto no tempo de Freud. Sujeito e objeto se fundem em práticas culturais onde a compreensão é anterior à explicação pois há tanto do sujeito no objeto quanto vice-versa. Assim, “portas” pode ser apenas a maneira como se fala da negociação de um nanquim (agente) que invade mas é contido pelo papel (outro agente igual). Sendo que ambos podem ser vistos não mais como agentes mas como receptores que sofrem a ação limitante um do outro. Um no outro.

E mais uma vantagem, inversa e igual à anterior. Sua “primeira pessoa” não exerce o poder fenomenológico porque dá à tinta e ao papel, e aos acasos de ambos, a palavra final sobre a negociação dos dois campos, o claro e o escuro, o do sujeito e do objeto.

Além disso, Cardoso põe suas imagens em caixas de acrílico. Mais um jogo no qual ele se posiciona como espectador: o papel dança lá dentro.

Nessas aquarelas quem constrói também é construído. A experiência vivida é recuperada por um posicionamento que inclui: 1) o evento sob investigação; 2) quem faz/sofre a investigação; 3) e também quem por lá for ver as aquarelas, pois as caixas de acrílico, ao refletir o que está em volta, põem no seu interior o que – ou quem – se pensa exterior.

99 PORTAS
Fabio Cardoso
26 mar -04 mai 07
Horários de exposição
seg – sex 14 – 19h
sab – agendamento pelo telefone
Lurixs
Rua Paulo Barreto 77, Botafogo
Rio de Janeiro / RJ
22280-010
(21) 2541-4935

É o segundo FILE-RJ e podia ser o terceiro ou o sexto e o resultado seria igual. Você entraria lá (no Oi Futuro) com cuidado. É o medo de coisa nova. E no entanto.

Relaxe, você está no século XIX. Está bem, no final do século XIX. Gostas de um Monet?

Pois então.

A arte tecnológica, assim chamada por falta de um marqueteiro que lhe arranje – como aos impressionistas – um nome melhor, faz o que Monet fez, com todo o respeito.

Na época, era a busca pelo muito pequeno e pelo que estava dentro. Átomo, inconsciente. Verdades minúsculas e anteriores. Era preciso desvendar coisas, ultrapassar uma exterioridade para que se chegasse a um “lá”. As novidades tecnológicas que tomavam as ruas eram a câmera fotográfica e um novo impulso nas artes gráficas, de impressão, com papéis industriais e mais controle de cores.

Hoje o que nos toma é como essas mesmas coisas muito pequenas interagem. São redes. Movimentos quânticos. Ou sua (sua-tua, a de você) participação no planeta. A noção muito clara de que somos feitos da mesma matéria das estrelas, poeira das estrelas.

Uma coisa é engraçada de notar. Os impressionistas, que tiveram a coragem de pegar o que havia de mais novo e usar isso na maneira como representavam o mundo, representaram o mundo de um ponto de vista burguês. A maneira como pintavam era escandalosa e agressivamente nova. E o que pintavam eram dondocas passeando no parque, ou como a catedral ficava ao pôr-do-sol.

Na FILE deste ano, há mulheres brincando lânguidas com espelhos d’água. Há a modelo Claudia Schiffer. Ok. A mulher da água é virtual e o rosto da Claudia Schiffer tem um morphing. Mas fica a impressão de que para que algo novo se torne palatável é preciso usá-lo em algo muito velho.
palestra de Ted Nelson de 20/03, no Planetário da Gávea

(Na palestra de Ted Nelson de 20/03, no Planetário da Gávea, ele disse que não conseguiria pensar em nada mais estúpido do que usar computador como se fosse um papel. Sim. Mas graças a esse uso estúpido é que as maquininhas se tornaram realmente populares.)

2º FILE-RJ - O Avator

Em O Avator, Ricardo Barreto, Maria Hsu e Marcos Paulo Moreti apresentam, ahn, Nietzsche (eu não disse que você estava no século XIX?). O interesse é que Nietzsche é mediado por um avatar. Você tecla um tema (eu teclei “o outro”) e escuta um Nietzsche feminino e robotizado, mediado portanto pela cultura de massa que ele tanto detestava, falar a respeito.

2º FILE-RJ 2º FILE-RJ

A instalação da Claudia Schiffer feita por Tim Coe, A perfect face, ataca a perfeição tecnológica. Linda, a moça. Mas não tão linda quando minúsculas modificações que você não percebe que estão acontecendo vão transformando seu rosto. Creep, hein? Parece o clima do planeta. Você também quase não nota até que nota.

2º FILE-RJ - Livr(e/o) de Christus Nóbrega

Se o avatar de Nietzsche e a Claudia Schiffer de Coe são instigações críticas à tecnologia, o Livr(e/o) de Christus Nóbrega, um livro livre ou livre-se do livro, é um convite para dar o passo de saída da tecnologia antiga em direção à nova. Você manuseia um livro velho (esotérico, por sinal), e na tela em frente aparecem desenhos, movimentos que não estão nas páginas impressas mas que saem delas.

2º FILE-RJ - Drum in Braz

Essas são algumas das obras presentes. Há obras que não estão propriamente presentes, estão registradas. Os documentários da série Hipersônicas trazem para o centro cultural coisas das ruas. Um deles, o Drum in Braz, de Marcelo Machado e Bobby Nogueira, dá um som para o que você está vendo ali, com as outras obras, dentro do ambiente de ar condicionado. Drum traz a interação, a rede, a ligação. Nele, o som de instrumentos e o som das ruas, juntos.

2º FILE-RJ - Hikenai Guitar wo Hikendaze

Entre os vídeos premiados do Media Art Festival do Japão está um que fala o que estou falando aqui. O Hikenai Guitar wo Hikendaze, de Dendi Groove e Pierre Taki, pega cenas de quadros antigos misturados a perfomances atuais para servir de cenário a um tocador de guitarra. Diz: veja, é a mesma coisa, só que diferente.

E tem mais, mas não deu para ver/fazer tudo. Tem passeio de bicicleta, táxi e ônibus para pegar sons, imagens e juntá-las, você, os artistas, a tecnologia. Pode até ser que alguma catedral ao pôr-do-sol entre nessa.

Vi a exposição de Renata Cazzani no Centro Cultural Cândido Mendes (RJ) no mesmo dia em que assisti a uma palestra de Ted Nelson, onde ele apresentava sua visão de computação e de rede, em uma outra lógica, não seqüencial ou hierárquica.

Na minha cadeira, eu escutava ele falar dos quadros dela.

Renata Cazzani Não que Cazzani não seja seqüencial e hierárquica. Seus enormes quadros são exercícios coloridos de lógica. Mas só se você os vir de frente e de longe.

De perto e de lado, seu construtivismo desmorona frente a um duplo ataque. Porque as laterais dos quadros estão pintadas, tudo aquilo vira uma representação tridimensional de vãos (as massas maiores, de cores escuras) por onde se chega através de degraus de cores mais claras (os campos retangulares, paralelos às margens do quadro). E, segundo ataque: porque todas essas cores têm falhas, a superfície do quadro mais uma vez ganha da ilusão de profundidade e voltamos a estar diante de telas pintadas. Mas não mais construtivistas, ou pelos menos de um construtivismo à la brasileira, falhado, que ri do rigor, com os caminhos do pincel claramente visíveis.

Renata Cazzani Tendo assim demonstrado as aporias que aguardam um pensamento causal e linear, Cazzani se depara, contudo, com perigo similar: o da retórica interna, fechada. Ao não adotar uma única linha conceitual mas, pelo contrário, apontar os limites que haveria em algumas delas, Cazzani ao mesmo tempo que ataca o pensamento hierárquico, lógico, se fecha em seus vãos ocres ou vermelhos – que podem não ser vãos de todo, mas rasos nordestinos.

Como se trata de artista que historicamente não hesita em experimentar, tal perigo parece afastado e o que fica é sua declaração, bastante interessante, de que hoje não há possibilidade de constituição unitária de significado.

Tal impossibilidade levaria, paulatina e inexoravelmente, degrau de cor por degrau de cor, até um nada – os campos maiores de cor. Mas como mesmo esse nada tem sua fatura aparente, voltamos ao começo mais uma vez.

Renata Cazzani Os quadros têm cerca de dois metros por metro e meio, a maioria na dimensão vertical. E aqui cabe também um comentário a respeito da horizontalidade, mais afeita a uma leitura reflexiva, “paisagística”, de uma narrativa imagética seqüêncial. E as dimensões verticais do retrato, individualidade sobre a qual, justamente, Cazzani lança sua dúvida.


Centro Cultural Candido Mendes
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema – RJ
(21) 2267-7295

Renata Cazzani

Receber arte intermediada facilita o controle social.

Por exemplo, a Idade Média.

Leitura? Só com leitores especializados em emendar deficiências físicas (manuscritos em más condições, copiados e recopiados várias vezes) e morais (manuscritos precisando de uma mãozinha interpretativa extra, para que uma determinada mensagem, considerada “correta”, fosse bem entendida).

Imagens? Só com clérigos reforçando o que a tinta não poderia dar, por excesso de concretude.

No mais das vezes, a intermediação acontecia através de anotações diretas no texto ou na imagem. Um controle sempre renovado e, a cada vez, integrado na obra original.

Pelo lado do populacho, entendia melhor quem melhor estava sintonizado com a mensagem do poder – eclesiástico ou nobiliárquico. E a mensagem era a mesma e clara: havia o concreto vivido no dia-a-dia de fome e dificuldades, e havia um algo além. E nós, que fazíamos parte do primeiro, deveríamos nos esforçar para corresponder às expectativas desse nebuloso segundo universo que passava por nós, voando, pelas ruelas esburacadas, envelopado em roupas, carruagens ou nuvens, todas elas igualmente fantásticas.

E aí veio o grafite. Zero intermediação.

Entre a Idade Média e o grafite houve o século XVIII, é claro. Foi quando começou a ficar óbvio que o “algo além” – feito de riquezas terrenas ou não – poderia simplesmente não ser alcançável e, talvez, sequer totalmente desejável. As ruas teriam também seu orgulho, sua auto-estima, sugeria Swift. Ainda houve um contra-ataque do controle do tipo medieval, inculcando a noção de que há que haver muito esforço para obter algo nebuloso que dizem que é ótimo. Foi na literatura. Teve o nome de bildungsroman e era uma volta de controle social, agora não mais de forma grupal mas individual: o indivíduo bom era quem passava por todos aqueles perrengues e chegava a…, bem, não mais ao paraíso propriamente mas a uma espécie de conformismo (também chamado de felicidade, sabedoria, justiça) que, do ponto de vista do poder, também dava conta do recado.

No século XIX, o controle via esforço em direção ao paraíso – ou seus sinônimos oitocentistas – foi exercido pelas grandes ideologias. Se você era capitalista, a riqueza estava logo ali. Se você era socialista, a justiça vinha depois de algumas etapas que, infelizmente, jamais terminavam. E se você era hippie, bastava implementar a utopia em seu quintalzinho que logo, logo, todos, felicíssimos, faríamos a mesma coisa e chegaríamos ao equilíbrio ecológico.

No modernismo do século XX veio a arte construtivista fazendo eco a um outro controle que tomava corpo em mentes positivistas. Se Rousseau tinha feito um Émile com que todo poder sonha (seu personagem era incapaz de idéias ou iniciativas próprias e obedecia cegamente ao seu tutor), o herói aqui tinha fé cega em outro preceptor infalível, a matemática. O controle social se dava por impossibilidade de argumento contrário.

No pós-moderno, não sabemos quem é o preceptor, e ficamos na nóia de que estamos sendo manipulados por ‘alguém’ exterior a nós, como em uma narrativa feita na terceira pessoa, onde os personagens têm seu interior desvendado por um narrador externo a eles.

E agora ao grafite. Há aspectos que lembram a Idade Média, mas de forma perversa, revirando pelo avesso o que lá funcionava tão bem. Bem do ponto de visto do poder, claro.

Sem intermediação, com referências diretas a aspectos temporais e geográficos, com a necessária ambigüidade e indeterminação para uma recepção rica, o grafite repete a função autoral medieva, com suas implementações constantes a uma criação primeira e não-autoral.

Também repete a organização de uma praxis cultural grupal, de produção e reprodução, embora não de recepção. Não totalmente, porque se a recepção não é mediada, ela por outro lado lembra a recepção da Idade Média, na sua formação grupal de subjetividades. Quem vê e se identifica, passa a fazer parte de um grupo virtual, se inscreve no que poderia ser chamado de tradição, fossem outras as condições sociais de seu aparecimento, pouco afeitas a valorizações desse tipo.

E talvez um de seus grandes impactos seja mesmo apontar para quais condições, ou falta delas, de um historicismo, de um conhecimento histórico em suas tintas que se sobrepõem.

Começa a mudar. Na foto, o início de um trabalho do artista espanhol San, trazido ao Brasil pelo Instituto Cervantes. Ele prepara uma parede na Rua do Lavradio, pondo uma base, cuidadoso, antes da aplicação das tintas. É um preparo, não mais um grito.

San - fotografia de David Lehmann

O que é o ZKM – Zentrum für Kunst und Medientechnologie – ficou mais claro com a palestra dada pelo seu curador Thomas Thiel, em 15 de fevereiro no Oi Futuro.

Karlsruhe, onde o ZKM fica, é uma cidadezinha no sul da Alemanha do tamanho de Petrópolis. Tem um castelo medieval no alto da colina e o resto estava em maus lençóis no pós-guerra. Pois lá havia não só uma fábrica de munições, que é o que dava dinheiro para a cidade, como um núcleo judáico. Trucidados uns, falidos outros, a cidade se reinventou recentemente. Sua universidade dirigida à área tecnológica atraiu duas grandes empresas para a região e o ZKM se instalou onde era a fábrica. Restaurado o edifício, puseram um cubo de vidro na entrada, à la Louvre, para dar um ar de contemporaneidade e dividiram sua massa horizontal, de rigor protestante, em três: os museus ZKM, um museu de arte contemporânea não necessariamente tecnológica, e os institutos de pesquisa e ensino.

São eles: os museus Neue Kunst e o Medienmuseum, (Nova Arte e Mídia); e os institutos Bildmedien (Mídias Visuais), Musik und Akustik (Música e Acústica), Filminstitut (Cinema). Trabalham com intercâmbio internacional e promovem o Prêmio Internacional de Mídia, o mais conceituado do setor.

Editam também livros e revistas, como a Infermental. Editam em papel.

o curador Thomas Thiel, do Zentrum für Kunst und Medientechnologie

A palestra de Thiel foi uma seqüência de cartelas. Ele projetava a cartela e falava o que ela continha. Eram imagens fixas, em um tipo de powerpoint que ele controlava do seu notebook. As cartelas vinham com uma mesma diagramação padrão: o cabeçalho do ZKM em cima, o texto com os principais tópicos que estavam sendo falados no meio, e, embaixo, uma foto fixa, uma imagem estática, de propaganda do ZKM. De vez em quando, em vez da foto fixa, entrava um segmento pequeno de vídeo. Mas a estrutura da palestra foi toda ela baseada em imagens fixas e consecutivas, e não vídeo.

Thiel trouxe um pouco das exposições permanentes do ZKM. Peças interativas (faça crescer essa plantinha virtual você mesmo; ou olhe sua sombra se modificar com a substituição do algorítmo). Há também obras que se iniciam com a mobilidade do visitante ou da própria peça (telas montadas em trilhos que, ao serem movidas pelo visitante, fazem uma viagem em imagens; ou uma andada de bicicleta por palavras que surgem e que determinariam cidades específicas, como Bristol ou Nova York).

As exposições permanentes estão divididas em temas. Há uma divisão histórica, que homenageia a escola de vídeo de Buffalo e o precursor-patrono da área, Gerald O’Grady. Os temas são: arte e política, vigilância urbana e o que chamaram de Iconoclash, que é a guerra de imagens na publicidade de religiões e políticas – a mais interessante.

O ZKM também dividiu sua exposição aqui no Brasil em temas. São outros os títulos mas igual o espírito – um hábito alemão de pensar filosoficamente em termos de grandes classificações, mais condizente com coisas inanimadas e verdades eternas, umas e outras em uma atual suspeição quântica.

Sempre será você, em algum grau, a fazer, refazer, participar de qualquer arte que esteja na sua frente. Afinal, Winnicott estava certo: arte é um meio de campo, um pit-stop entre o radicalmente novo e o muito velho. Terá sempre algo que vai modificar a visão de mundo que você tinha até aquele momento, e terá sempre algo seu, antigo, da sua vida, memória e atavismo, que você porá nesse novo, e sem o qual você não poderia apreendê-lo.

Samir Abujamra

A questão aqui, na instalação Folião de Samir Abujamra no Oi Futuro, é a expressão “na sua frente”. Há vídeos na sua frente. Mas como são cinco eles incluem também o lado. E atrás de você há imagens paradas dos mesmos vídeos.

E aí, a participação do fruidor, a discussão de identidade artística, subjetividade, do papel do artista contemporâneo e da função atual da arte na sociedade, se torna mais uma vez premente.

Porque não é uma discussão nova, essa. Vem desde o modernismo com a crise da representação e o uso de linguagens e meios “não-artísticos” no questionamento das especificidades da arte. E seguiu até hoje com o status capenga, que é comum aos criadores de todas as mídias: são ao mesmo tempo marginalizados e privilegiados. Trabalhando por projetos, sem a cobertura básica que a sociedade oferece através de suas leis trabalhistas e sociais, o artista é irmão-gêmeo do desempregado crônico e de todos os que vivem de expedientes, marreteiros, camelôs. É também o centro privilegiado da máquina da cultura, que ocupa posição importante no PIB de qualquer país, mesmo o nosso.

Abujamra faz um pequeno prodígio em sua instalação. Ele vai cercar seu assunto e em vez de falar dele, vai atuá-lo.

Mais do que em outras obras, nessa o artista é você. É você que está no meio dos cinco vídeos de carnaval, gerindo a hierarquia de valores (você diz qual imagem é a mais importante, ao escolher onde pôr o seu olhar), é sua a escolha do ritmo, e é você quem decide qual o grau sensorial de seu envolvimento. Você pode cair no samba ou, a trabalho, olhar um pouco de cada um, tomando notas em um bloquinho.

É carnaval de rua, o tema. Ou seja, você, dividindo com o artista a execução da obra, se vê identificado, no meio, em um corpo a corpo, com seus iguais e os dele – são os desocupados ou os ocupados até demais, batalhando na economia informal ou como der, quando vier. A identificação é reforçada pela interação dos personagens com a câmera e até mesmo pelo reconhecimento de si mesmo (de fato) ou de amigos entre quem acompanha alguns dos mais famosos blocos de rua cariocas. Abujamra usou uma câmera de mão, inobtrusiva, e seu assunto manda beijinhos para ele (e você). Também sorrisos e o olhar fixo de quem costuma observar mais do ser observado, até por uma questão de sobrevivência. Abujamra fez um take dele mesmo, explicitando esse estar-no-mundo múltiplo. Ele é o artista, ele é o fruidor e ele é o assunto. Você que vê também é o artista, também é quem vê e também é o assunto.

Algo desaparece para que tal coisa aconteça. É o sujeito uno. Se você some lá dentro, e passa a ser um dos “outros” que vêm de frente, ao seu encontro, nas imagens igualadas no tamanho (não houve zoom nem closes nas filmagens), Abujamra também some. Ao delegar o fio condutor de sua obra para aquele que a vê e que divide com ele a identidade de criador, ambos tratam de perpretar o próximo sumiço, que é o da noção de história. A ruptura que o carnaval representa na seqüência temporal/racional é um hiato cronológico. Sobraria o espaço, mas esse também, coberto e cercado, é um lado de dentro (uma tenda) no lado de fora (o patiozinho do centro cultural), um não-espaço. Estar dentro-fora do espaço, do tempo e de si mesmo é uma extensão e uma reafirmação do assunto tratado, pois os foliões, grupo que inclui você e o artista, transpiram, berram, queimam calorias, ressaltando assim, em corpos parcamente vestidos (ou seja, com as marcas sociais, individuais e históricas diminuidas), uma passagem escatológica. Essa passagem, ritualizada e sujeita a tabus em todas as sociedades humanas, é uma metáfora para a morte e para o nascimento, pois é quando morto ou feto que se está mais nessa porta. Um sumiço, portanto, radical.

O sujeito uno, conceito paralizante, está aqui posto em cheque em todos os níveis. Por se tratar de obra estruturada, o participante está dentro de uma rede de signos, é, ele próprio, um signo. Em eco e em looping, ele não sai da instalação, mas (se) subtrai momentaneamente.

Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra

Astecas, egípcios. Muita gente tinha o hábito de encher as paredes de seus monumentos com desenhinhos e inscrições e não passa pela cabeça de ninguém, hoje, criticá-los por isso. Há uma diferença, contudo, entre os grafites e pichações das grandes cidades e o que esses povos faziam. Os grafites e pichações deles eram feitos pelo stablishment e não pelos excluídos, como é o caso atual. É esta a diferença, e não que uns sejam “bonitos” e os outros “feios”.

grafites e pichações Por exemplo, no bairro de Botafogo, no Rio, rua Muniz Barreto, há um grafite que anuncia uma organização filantrópica educacional. Então, era “feio” e virou “bonito” ao ser usado por um setor da sociedade organizada?

Näo é por aí.

A palavra francesa “politesse” é mais do que sua tradução em português, “polidez”. Inclui tudo o que é considerado civilizado, educado, de boas-maneiras. Exclui tudo o que é estrangeiro, não-pertencente à noção burguesa e européia de cultura. É também, e isso tanto lá quanto cá, um poderoso instrumento, embora de aparente não-violência, a serviço do controle social.

grafites e pichações O grafiteiro ou pichador – a diferença entre eles é recente: o primeiro é considerado mais palatável do que o segundo – força sua entrada em um mundo que o exclui. Ao inserir sua marca em monumentos de uma cidade que lhe dá as costas, ele executa um gesto de má-educação, ele aborrece e constrange com sua presença forçada, é um “penetra”. Ele força o bem-educado a confrontar-se com sua presença, para a qual não há códigos sociais de relacionamento. É esse o ponto. Há, na inscrição do muro, um desafio às regras da boa-educação. É mais de perto. Para atos violentos, assassinatos, roubos, a polícia serve de intermediário entre um “nós” e um “eles”. Na colaboração não-solicitada ao visual da cidade, não há ninguém no meio. Continua sendo um delito passível de reclusão, portanto com polícia. Mas, mais claramente do que um crime, a presença do transgressor está posta no cotidiano polido de quem passa. Basquiat forçava novaiorquinos a conviverem, no metrô, com sua cultura caribenha-africana de drogado. Keith Haring esfrega o pênis de seus bonequinhos nus, homossexuais e com AIDS, na cara dos passantes. Não é só uma ruptura, em um golpe único. É uma inserção. O grafiteiro-pichador não se isola no seu ato, ele exige uma resposta no mesmo nível, o que desestabiliza os códigos de uma boa-educação não preparada para incluí-lo em rituais sociais. É pior.

grafites e pichações grafites e pichações grafites e pichações grafites e pichações grafites e pichações
Ou é melhor. A “politesse” teve seu auge no século XVIII francês, quando os relacionamentos da sociedade culta e urbana eram altamente ritualizados. Buscava-se, então, em excessos da vida privada e nas hipérboles dos artistas, um escape para a rigidez social. Era um mundo fascinado por sexo e por personagens fantásticos, com poderes especiais (surgiam, por exemplo, os contos de fadas, uma leitura para adultos).

Era e é. No caso do século XVIII, depois veio a Revolução, a guilhotina e um outro nível de excessos. Agora há um sistema democrático e, dentro dele, um jogo – o de quem entra e quem sai.

Basquiat, Haring, os brasileiros Os Gêmeos, Crew e outros, entraram. Em museus, galerias e bienais, e em um código que os inclui e anula ao mesmo tempo. Não intervêm, são acolhidos, é diferente. O britânico Banksy, por outro lado, ao manter sua identidade oculta sob o pseudônimo, reserva uma eficácia maior em suas aparições, um grau maior de incerteza, embora receba acolhimento igual. São vistos com uma atenção tão preconceituosa quanto antes, embora agora sob a capa da aceitação. Têm um “belo” ressaltado. É, na verdade, um convite: eu sorrio para você, você sorri de volta para mim. Não se fala na pobreza de meios – com influência maciça, na maior parte das vezes, das imagens diluídas de massa. Nem se nota que tal pobreza é inversamente proporcional aos espaços ricos que lhe servem de suporte. Daí serem tão bons. Em termos de estilo, é nos prédios neoclássicos, iguaizinhos aos do século XVIII francês, que as inserções causam maior clamor público.

Até bem pouco tempo, não havia pichação em outdoors, como se a cara mais aparente do consumo nas ruas da cidade fosse considerada sagrada. Ninguém intervém em seu desejo, tenta conquistá-lo, eis tudo. Hoje já se vê outdoor pichado. Não é que o grafiteiro-pichador tenha mudado. O que está mudando é o consumo. Não mais passivo, o consumidor, seja ele grafiteiro ou não, analisa criticamente o que não tem.

Tal atitude, crítica e participativa, como acontece sempre, é reabsorvida. Daí as inscrições de autoria de setores organizados, como a sociedade educacional citada antes, ou artistas de outras linguagens e estudantes que, inclusive, se valem de meios caros e técnicos (por exemplo, o stencil), não disponíveis aos excluídos que primeiro usaram essa linguagem nos muros da cidade. Arrisca que estes, os excluídos, com tal concorrência, fiquem de fora, com seus grafites e pichações, de muros e paredes já repletos pelos seus concorrentes mais ricos e com melhores contatos sociais.

Sempre restará a guilhotina.

Marta Jourdan pegou uns ferros de passar roupa, virou ao contrário, pôs no jardim da Mercedes Viegas e fez com que pingos de água caíssem sobre eles, um de cada vez, um contador de segundos fritos. Fritos porque os ferros estão quentes e os pingos viram um som, fffff, e uma fumacinha.

Marta Jourdan Marta Jourdan Marta Jourdan Marta Jourdan A água e os sonhos, de Gaston Bachelard Eliane Duarte Ângelo Venosa Waltércio Caldas

Agora, você pode passar a noite ouvindo os ffffs e vendo as fumacinhas fugirem por entre as folhas e será um espetáculo bonito de ver. Mas, se você já tiver parado para pensar um pouco sobre a política que gere os gêneros, lembrará que ferros de passar roupa fazem parte da construção de um estereótipo feminino. E também lembrará – caso você seja mulher – de uma certa sensação de estar sempre do lado de fora do que interessa, mesmo que o lado de fora seja um jardim. Aliás, até principalmente se for um jardim, porque não é de hoje que mulher e natureza parecem ser uma só unidade na cabeça dos beneficiários da moribunda ideologia/economia patriarcal.

(Enquanto, claro, eles estarão sempre próximos à racionalidade, civilização, progresso, tecnologia e mais outras palavras que dá preguiça de buscar.)

Então, o que faz Jourdan?

(E o uso do sobrenome aqui vem a calhar pois se trata de uma convenção jornalística que serve para aparentar eqüidade no tratamento social dos gêneros e dar a sensação de que a ideologia também é eqüânime. Mas isso sempre nos soa forçado. Afinal, chamamos o dono do boteco de Peixoto e sua mulher – que fica na cozinha enquanto ele fica na caixa registradora – de dona Maricotinha, e nenhuma convenção jornalística vai mudar isso.)

Respondendo à pergunta: Jourdan põe os ferros virados ao contrário.

Ela frita o mundo. Ela conta o tempo, é a dona do tempo. E frita o mundo.

Adorei.

A instalação nasceu de um vídeo, o Infiltração. E o Infiltração nasceu de um dia de chuva. Ela filmou os pingos que caíam sobre a mesa. Depois editou com cenas de um olho chorando. E aí descobriu o fff. Na Líquidos Perfeitos (o nome da instalação na Mercedes Viegas), o fff vem em vários tons, dependendo do grau de inclinação em que os ferros são postos. Então, ela manda o mundo se fritar e faz isso com uma espécie de canção suave.

Nessa época do ano as galerias costumam expôr parte de seus acervos enquanto esperam festas de fim-de-ano e carnaval passarem para voltar a apresentar suas grandes exposições individuais.

É considerada uma época meio morta.

Mas é justamente na junção de obras diferentes que fica claro o aspecto perturbador e precioso (precioso porque raro, em meio a tanta anestesia) da arte contemporânea. Se Jourdan desestabiliza o lugar que ocupa, dentro da galeria outros fazem a mesma coisa. Waltércio Caldas, com uma obra inédita, continua a brincar com o olhar de quem o vê. De qualquer ponto em que você se coloque, em volta de sua peça, terá de abdicar de uma visão automatizada e refazer o percurso da perspectiva com a qual se habituou a ver o mundo desde a Renascença. Ângelo Venosa, na parede, fala da matéria que se esvai, do encontro entre o sólido e o que não existe mais. Eliane Duarte, em outra parede, dá, ela também, um tranco no feminino. Suas Grávidas são feitas com coisas tão terrenas (sisal, pigmentos naturais, betume, fibra de algodão cru), e trançadas com tanta raiva e obstinação, que desse ventre pode-se esperar tudo, menos sapatinhos cor-de-rosa.

Além deles, Afonso Tostes, Ivens Machado, Cildo Meireles, Anna Maria Maiolino, Antonio Dias e muitos outros.

Até dia 15 de fevereiro. Não perca.

Jourdan me deu um exemplar de A água e os sonhos, de Gaston Bachelard, e disse que encontrou nesse livro tudo o que ela gostaria de dizer sobre sua própria obra.

Na Líquidos perfeitos há sempre uma gota ainda por vir. Aqui também. Vou ler o livro e depois conto.

Trechos de A água e os sonhos, de Gaston Bachelard:

“Com que prazer acolheremos uma obra de arte que dê uma ilusão de mobilidade, que nos engane mesmo, se esse erro nos abrir caminho para um devaneio. É exatamente isso o que sentimos diante das Ninféias. Quando simpatizamos com os espetáculos da água, estamos sempre prontos a gozar de sua função narcísica.”

“O verdadeiro olho da terra é a água.”

“Para determinados devaneios, tudo o que se reflete na água traz a marca feminina.”

“Suas águas preencheram uma função psicológica essencial: absorver as sombras, oferecer um túmulo cotidiano a tudo o que, diariamente, morre em nós.”

“Aqui uma pergunta me oprime: não terá sido a morte o primeiro navegador?”

“Cada um dos elementos tem sua própria dissolução: a terra tem seu pó, o fogo sua fumaça. A água dissolve mais completamente.”

“Uma característica avulta de imediato: essas combinações imaginárias reúnem apenas dois elementos, nunca três. A imaginação material une a água à terra; une a água ao seu contrário, o fogo; une a terra e o fogo: vê por vezes no vapor e nas brumas a união do ar e da água.”

“Balzac declara, sem a menor explicação, sem qualquer preparação, como se se tratasse de uma verdade evidente, que se pode apresentar sem comentários: a água é um corpo queimado.”

“Na temporada no Inferno, Rimbaudt parece pedir ao fogo para secar essa água que o obcecara continuamente: eu exijo, eu exijo, um pingo de fogo!”

“No reino das matérias nada encontraremos de mais contrário que a água e o fogo. A água e o fogo proporcionam talvez a única contradição realmente substancial. Se logicamente um evoca o outro, sexualmente um deseja o outro.”

“Quando a imaginação sonha com a união duradoura da água e do fogo, ela forma uma imagem material mista com um poder singular.”

“O tempo se insere na matéria lentamente preparada. Já não sabemos o que é que trabalha: é o fogo, a água, o tempo?”

“Enquanto fonte de energia, o ser é uma cólera a priori.”

O ZKM (instituto que patrocina o Prêmio Internacional de Vídeo, na Alemanha) apresenta no Oi Futuro a mostra Freedom of Expression. Ver os vídeos premiados dá uma boa ideal do potencial subversivo, nem sempre aproveitado, dessa mídia. Fácil de carregar e manejar, a câmera de vídeo produz um testemunho com grande carga de verdade. Documentários filmados de forma mais pesada e onde a presença do documentarista se torna a cada dia mais notada ficam para trás em termos de linguagem. Além disso, o vídeo, justamente por não ter apuro técnico, se torna subversivo só por isso, por dar as costas a uma ideologia da perfeição.

A mostra veio dividida em três partes, Identidade e indivíduo, Política e comunidade e Coisas e objetos. Das três, a do meio é a mais fraquinha, pois sucumbe a essa praga do nosso tempo, o politicamente correto.

Assim, o Television Texts (1990), de Jenny Holzer, é chatíssimo. Por meia hora que parece inteira, cartelas anunciam um tema, a seguir números indicando segundos em contagem regressiva são vistos e ouvidos, até que frases vagamente filosóficas entram, lidas em várias línguas enquanto suas palavras aparecem na tela. Exemplo das frases: “o pecado é um instrumento de controle social” (cartela: “pecado”); “a religião cria mais problemas do que os que resolve” (cartela: “religião”); “as mães não deveriam fazer tantos sacrifícios”(cartela: “mães”). E por aí.

Um outro, o Canon: Taking to the Street (1990), de Dara Birnbaum, é um pouco melhor. Tomadas documentais de uma manifestação de estudantes, organizada pelo The Women’s Center da Universidade de Nova York, contra a presença maciçamente masculina nos cânones literários. As tomadas são realistas mas a montagem não, com imagens abstratas intercaladas a outras, de velocidade alterada. A maioria dos manifestantes é de homens – e a ironia pode não ter sido proposital.

A sessão Coisas e objetos é responsável por mais uma grande chatice. Passage Sets. One Pulls Pivots at the Tip of the Tongue (1995), de Bill Seaman, é um exercício formalista e traz tomadas infindáveis de, por exemplo, mãos, intercaladas por cenários teatrais, entre os quais os do Teatro No japonês, aquele onde nada acontece. Para piorar o já insuportável, as tomadas são em câmera lenta. No entanto, foi Prêmio Internacional de Vídeo em 1995.

Já o BIT plane (1999), feito pelo Bureau of Inverse Technology da Austrália, é bem bom. Mostra uma visão do Silicon Valley da California, com seu ufanismo tecnológico e sedes das grandes empresas de armamento (como a Lockheed) e de computação (como a IBM), a partir de um suposto protótipo de avião-espião, o BIT. Mostra também o inverso de toda essa maravilha: a sociedade onde não se volta atrás. O filme acaba com um apropriado “game over”. Uma frase: “inventar segredos dá mais dinheiro do que obter informações sobre eles.”

Inauguration of a Spacebank (1998), de Mika Taanila, vai pelo mesmo caminho da reflexão crítica sobre tecnologia. É um vídeo propositalmente precário e sem qualidade técnica, e que pretende documentar a inauguração de uma exposição tecnológica. Na Finlândia, o que por si só já é uma reflexão crítica.

Os vídeos do setor Identidade e indivíduo são os que apresentam maior liberdade e é nessa sessão, não sei a razão, que puseram as peças que comentam ou criticam a própria mídia audio-visual, exercício sempre saudável de auto-reflexão.

Em Tuned (2004), Oliver Pietsch apresenta várias cenas de filmes ou de intervalos de filmagem, com atores conhecidos de Hollywood em expressão chapada, rindo como idiotas, fazendo besteira ou em closes que denunciam suas pupilas contraídas pelas drogas. Foi Prêmio Internacional de Mídia para Ciência e Arte de 2005 e essa premiação também é um espanto, dado o tema.

Looking for Alfred (2005), de Johan Grimonprez, é uma desconstrução de um dos grandes mitos do cinema. Sósias de Hitchcock se alternam lendo trechos da entrevista que o célebre diretor deu para Truffault. Enquanto isso, objetos-ícones de seus filmes são desmistificados: um pássaro preto tem sua gaiola logo ali, o charuto se apaga no cinzeiro, guarda-chuvas são esquecidos em um canto, o chapéu coco rola no vento, escadas são mostradas no claro, sem mistério. E seus célebres planos-seqüências são ironizados com um café que anda, anda… e com certeza  esfria.

Bjorn Melhus Bjorn Melhus Bjorn Melhus
Bjorn Melhus é autor de outra peça metalingüística, No sunshine (1997). Dois atores vestidos de palhaço ecoam um as palavras incompreensíveis do outro. Eles têm as mãos não-operacionais, envoltas em uma luva sem dedos. Atrás deles, o plano de fundo se abre e aparece uma tela, onde outros dois atores fazem a mesma coisa, dessa vez nus. Lá pelas tantas um dos personagens readquire o uso das mãos e passa a esnobar os outros.

Exploration (2003), de Jörg Burger, também fala da profissão de ator. Em um hospital universitário, uma jovem treina para exercer atendimento psiquiátrico. Na sua frente, uma atriz faz o papel de “doente”. A suposta paciente se queixa de isolamento, insegurança, vozes internas e desorientação. Quando o treinamento acaba, as duas conversam. A atriz que é uma atriz conhecida, Eva Linder, segura de si, fala então como foi divertido fazer o papel dela mesma. E ouve a que seria futura atendente hospitalar falar como sentiu insegurança, falta de comunicação e desorientação durante o teste.

Tänään/Today (1996) é um dos raros vídeos, em toda a mostra, com uma narrativa ficcional. Eija-Liisa Ahtila conta a história da morte de um avô, do ponto de vista de seus dois filhos adultos e de sua neta adolescente.

Ninguém gosta do morto e tudo se passa em um ambiente “disfunctional”. As imagens são boas, como a do cão que lambe os pés descalços do filho, enquanto ele se queixa que ninguém gosta dele. Frase: “o trem que passa faz tudo tremer e esse é o som do nome de meu pai.”

Rocked Stomach (1970), de Dennis Oppenheim, é um dos mais antigos mas mantém sua atualidade: alguém joga pedras cada vez mais pesadas, por três minutos, em cima de uma barriga de tanquinho.

O principal da exposição no MAC-Niterói não é o que está lá dentro mas a idéia de juntar estátuas de deuses gregos e estatuetas dos orixás afro-brasileiros. Colocá-las em um mesmo grau de importância, eis o que mais desestrutura e ensina.

Há uma outra coisa.

Juntos, os nus completamente humanos dos deuses gregos e as roupas coloridas e completamente triviais dos orixás reforçam uma similaridade que poderia passar despercebida: a da importância da experiência e dos sentidos em ambas as buscas – a grega e a africana – por uma glorificação religiosa que, afinal, pretende anular, por definição, esses mesmos sentidos e experiências.

O sublime, em ambos os casos, é o sublime de sujeitos de sua própria história.

Apolo, Atenas e Hermes são jovens bonitos, o primeiro gosta de música, o último carrega consigo umbastão de quem anda por aí, batendo papo, levando e trazendo notícias. Bastão esse muito parecido com o de Exu, outro andarilho. Há um Hermes mais velho, de barbas sábias, mas não é esse o preferido. A representação do jovem é de longe a mais popular. Depois vêm os dançarinos Dionísio e Omolu, cada qual em seu continente, mas dançam igual. E as saias coloridas de Xangô (vermelha), Iemanjá (azul), Oxalá (branca), Oxum (amarela), Oxossi (verde). Nada de muito sobre-humano.

São, tantos uns quanto outros, heterogêneos.

Deuses são sempre belos, mesmo quando aterradores. E quando representam ideais únicos de beleza estarão servindo aos propósitos ideológicos de sociedades de tendências hegemônicas, totalitárias. Se as manifestações estéticas são discussões éticas no plano da forma, impor uma única forma acaba com a discussão. Além disso, o esforço de identificação com o ideal imposto garante ao poder centralizador uma ilusão de coerência interna através dessa suposta harmonia externa.As infinitas diferenças individuais são abstraídas para dar lugar a uma estética que junta a estética do sublime com a do herói ideal, em geral militarizado. Uma espécie de disciplina com punição automática, se você é feio, você não “pertence” e pronto, você não existe.

No MAC, o antídoto se dá em cadeia. Ao juntar os dois grupos de deuses, o museu combate a unicidade da estética. E faz isso expondo dois exemplos históricos dessa mesma atitude, a grega e a africana. É a melhor função que é possível a um museu. O MAC é freqüentemente acusado de fazer o jogo do museu-turismo, o contraponto contemporâneo do museu-cadáver, onde objetos mortos se enterravam para todo o sempre. Talvez ele não consiga nem queira disassociar sua imagem da arquitetura e do cenário espetacular que o compõem, mas suas exposições trazem uma inteligência que merece destaque. Não são objetos, mas uma possibilidade de entendimento.

Além dos deuses, a exposição traz alguns poucos exemplos de arte contemporânea que ecoam elementos dos dois primeiros grupos. Entre eles, uma tela de Daniel Senise com um grande pé grafitado sobre uma coluna arquitetônica. É uma escolha política. O escatológico e o “baixo” sempre foram antídotos eficazes contra o sublime do tipo cristão, desencorpado. Há também um plissado de Eliane Duarte, Vestido de noiva, que por estar perto de Artémis com suas vestes também plissadas, passa a adquirir uma ironia amarga e feminina sobre ideais inatingíveis de beleza.

panorama geral da exposição- Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Exu - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Iemanjá - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Omolu - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Oxalá - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Oxossi - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Oxum - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Xangô - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Eliane Duarte - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Eliane Duarte (detalhe) - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Artemis - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Daniel Senise - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) bastão - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) bastão (detalhe) - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Atenas - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Atenas (detalhe)- Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Apolo - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Dionísio - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Hermes jovem - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Hermes jovem (detalhe) - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Hermes velho - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Tristão - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ)

Alguns pensamentos sobre perímetros fechados e meio amorfos que se vêem cortados, de repente, por linhas retas que os atravessam e vão além. Na série anterior, a que ganhou o Prêmio Marcantonio Villaça, tais perímetros eram as massas pouco nítidas dos morros, um deles o da Mangueira. As linhas retas eram ora um peitoril de janela, ora as fachadas quadradas das casas e também as linhas Vermelha e a Amarela, ali, presentes. Depois isso mudou e as massas que se expandem, meio amorfas, e as linhas que as seguram, retas, viraram só isso mesmo: massas de cor e linhas retas. Isso mudou, mas Lucia Laguna, que faz suas obras a partir de expansões de cor e retenções geométricas, não mudou. Pelo menos desde que venceu em 2006 o Prêmio, após ser professora a vida inteira.

Lucia Laguna Lucia Laguna Lucia Laguna

Aos pensamentos:

- As linhas apostas/impostas sobre os campos amorfos de cor poderiam ser uma estratégia de controle pessoal sobre o crescimento rizomático e incontrolável de uma favela vizinha, vindo de alguém na classe média. As linhas retas se sobreporiam, então, às massas pouco definidas de cor como um band-aid de racionalidade sobre uma mancha roxa – ou o enquadramento de uma janela sobre a vista lá fora.

- As linhas apostas/impostas sobre os campos amorfos de cor poderiam ter ligação com uma situação não mais pessoal mas social, por exemplo, a da desintegração do poder do Estado. Essa desintegração fazendo com que deveres e obrigações não mais fossem vistos como algo inerente a uma interioridade (os campos de cor mais ou menos fechados) mas sim como algo coercivo, imposto por uma exterioridade – a das linhas que vêm, cortam e seguem para além do quadro. Laguna não mais se situaria, como na hipótese anterior, na classe média olhando uma favela, mas estaria no meio entre as duas coisas e, com sua arte, desenvolveria uma poética muito precisa de passagem (de mão dupla, como veremos a seguir), de migração de forças entre os dois elementos de uma divisão urbana radical.

- Vamos manter a suposição, por mais um instante, de que ela esteja nesse ponto preciso, nem lá nem cá. Isso explicaria detalhes realistas em suas obras. Como o detetive de uma história que não deixa de ser policial, ela buscaria detalhes/pistas para elucidar um crime, que é o do assassinato de um significado, de uma identidade perdida. Surgem então as lajes de contenção de encosta, caixas d’água, casas verdes, uma lâmpada.

- Mas pode ser que Laguna nunca tenha de fato saído – nem física nem simbolicamente – da imagem que se vê da casa que habita há 30 anos. Então, sua posição não seria a de uma classe média ou sequer do seu limite. Fascinada pelo que vê, as linhas que cortam seus quadros, em vez de uma racionalidade procurada, buscada, seriam, ao contrário, a denúncia de uma agressão que viola um espaço até então fechado e seguro, o seu. (Viola em duas e em três dimensões, pois por momentos as linhas afundam na textura do suporte, não rasgam mas quase, chegam na base de gesso que cobre a tela.)

- Mantendo essa hipótese, de que Laguna esteja não na racionalidade aposta/imposta das linhas, nem sequer dividida entre elas e as manchas que se expandem, mas sim, nas manchas de cor que se expandem. Se for assim, sua posição será a de defender sua expansão não ordenada das linhas que a tolhem. Aqui, a procura é a dos tamanhos cada vez maiores, dos dípticos já que um não chega. Nesse caso, o que ela aponta pode ser menos a restauração de uma totalidade perdida e imaginária, de uma unidade inicial, e mais o fruir das possibilidades de um tempo presente. Pois só no hoje as pistas de um passado podem existir. No passado o que hoje são pistas não eram pistas, não eram nada, não tinham sua carga de imanência, sua fisicalidade, não eram importantes para o detetive/artista. Só ao se tornarem pistas é possível fazer daquilo uma história, obter um significado.

Assim sendo, cada mudança é bem-vinda, e as linhas retas são cobertas e recobertas por novos campos de cor.

- O que define a interioridade e a exterioridade de qualquer coisa é um limite. No caso de Laguna, esse limite é derrubado inúmeras vezes, durante a fatura/fratura da obra, se tornando como uma fachada desmoronada de uma casa. O lado de dentro também está fora. Adeus divisão radical de que falávamos no começo. O que temos, então, serão os simples ganhos e perdas de um processo temporal. Anterior às linhas e que as considera. Ou, mudando do urbanismo para a psicologia, um id invencível que se mantém não importa quantas réguas e regras se lhe imponham. Agora, as ameaçadas são as linhas.

- Se é a racionalidade que está ameaçada, vamos falar das profundezas. Mas as cores de Laguna podem ser luminosas, há pontos de luz mesmo nos pretos e, agora, os novos quadros se tornam brancos. Ela é pouco afeita a mergulhos míticos. É o que torna o embate mais duro: na luz da consciência, somos nós a atravessar sob o sol as vias expressas que nos disseram ser retas e que sabemos tortuosas.

E um último pensamento. Laguna na verdade não mudou. Continua sendo a professora que pega massas em expansão, aplica sobre elas regras e racionalidades, só para estimulá-las a uma nova expansão. Crianças, cores, tanto faz.

Nada como uma coletiva de estudantes para rever algumas teorias sobre como obtemos significado.

A Universidade Estácio de Sá apresenta seus alunos de arte premiados em 2006 na Casa França-Brasil e apresenta também, embora sem querer, um argumento a favor do pós-estruturalismo e uma contestação das idéias de Saussure, de que aquilo que é, o é sendo tudo que o resto não é.

Aqui se trata mais de uma conversa do que de uma exclusão.

Os premiados – Adelino de Oliveira, Alexandre Braga, Alexandre Murucci, Analu Nabuco, Camila Rocha, Claudio Melli, Felipe Braga, Leila Souza, Marcos Chaves, Rick Castro, Rodrigo Torres, Thamar, Tito Sena e Viviane Teixeira – no entanto, ficaram excluídos, em uma sala à parte, privados da conversa que se dá entre os outros e entre outras artes e outras linguagens.

Cláudio Pedro No salão principal, Cláudio Pedro instalou um Psicopompos. Suas peças de madeira em duas cores, torneadas, se inseriram nas pedras do chão dessa antiga cavalariça, construída, bem no espírito do que estamos falando, por um arquiteto que acabou virando vinho, o Grandjean de Montigny. As peças, em curvas e pontas, têm um ar meio mourisco que pode nos surpreender mas não aos portugueses que transitavam pelo porto ao lado, na época em que o edifício foi construído, 1810. Cláudio Pedro, então, na sua fala, comenta e presentifica outra arte e também outra época.

Osvaldo Carvalho Seu colega Osvaldo Carvalho vai mais além. Ele traz uma conversa entre duas linguagens. Freedom é formado por tocos de cigarro. Poderia ser uma manifestação boba de simbolismo não fossem, os tocos, da marca Free. A peça em linguagem visual só se complementa, portanto, com a ponte feita com a linguagem escrita. De frente (os tocos estão em escorço) a liberdade em questão é a de juntar rodelinhas marrons até que formem uma estrutura à beira de se desestruturar, pela adição ou subtração sempre possível de seus pequenos elementos. De lado, lê-se a marca impressa e a desestabilização do significado inicial então se estabelece. Uma liçãozinha do que a arte pode fazer.

Rejane Fermann Lição essa demonstrada com grande competência por outro dos participantes, Rejane Fermann. Sua peça se chama Toujours Le Déjeuner e é uma tradução contemporânea da obra de Manet. Le déjeuner sur l’herbe pôs lado a lado – e fez escândalo por isso – conceitos que costumavam ficar bem separados: natureza e civilização.

No quadro de Manet, são cavalheiros bem vestidos (civilizados, racionais) e damas nuas (a velha identificação da mulher com a natureza) durante um piquenique (a visitação ritualística que citadinos fazem periodicamente a cenários “naturais”) às margens do Sena – o rio, elemento da “natureza”, que visita Paris, a maior cidade da época.

Na obra de Fermann, o piquenique mostra a junção, o diálogo, dos dois conceitos que o constituem. Ao fundo, uma pintura de espaços coloridos, uns verdes. Na frente, duas lâminas de vidro com o contorno dos personagens esboçados em metal. Os três planos se apresentam em movimento quando a pessoa à sua frente também se movimenta.

E é esse o tema dessa conversa: movimento. Os participantes da mostra estão em movimento e supõem um visitante em movimento.

Você se aproxima das pontas mouriscas de Cláudio Pedro como quem vai para dentro e para o fundo. Mas elas ficam perto das grandes portas de vidro, iluminadas portanto, e perto de uma possibilidade de continuidade no caminhar.

Se você não andar em volta dos cigarros Free deixará de perceber a parte mais importante da obra.

E passear no piquenique de Manet faz você sentir como poderia estar vestido ou nu, igualmente.

O ano acabou mas o que o marcou talvez não.

Se 2005 foi o ano das galerias particulares, que se expandiram e se organizaram para participação em mostras nacionais – como a paralela da Bienal – ou internacionais, 2006 foi o ano das instituições, e no mau sentido.

Mês a mês, as exposições da descúria e do descaso se sucedem.

No final de janeiro chove dentro do prédio do então Centro Cultural Telemar, obrigado a interromper sua programação. No fim do ano o centro muda de nome para Oi Futuro. Olá.

Em fevereiro ficamos sem o Matisse, Picasse, Monet e Dali do Museu da Chácara do Céu.

Até hoje.

Dez dias depois, o saque é no Museu da Cidade, na Gávea.

Vem abril e dessa vez o roubo se torna mais sutil. A diretoria do CCBB-RJ rouba do público o direito de ver, na exposição Erótica, a obra Desenhando com terços, de Márcia X. Censura. O curador Tadeu Charelli, esgotadas as argumentações, entrega carta de demissão.

Ladrões soltos, mecenas na cadeia. Em maio, Edemar Cid Ferreira vira preso comum em Tremembé expondo uma tradição brasileira de negócios escusos e colecionadores de arte, com o nome do MASP de São Paulo nos noticiários a revolver memórias de sua fundação e do apoio recebido por Assis Chateaubriand.

Junho. Fotos do Rio do início do século, de autoria de Augusto Malta, simplesmente somem do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Estavam ultra bem guardadas, atrás de sete portas trancadas a sete chaves. Pouca gente com acesso, e mesmo assim todos fingem desconhecer os esquemas.

Em agosto é a vez da Biblioteca Mário de Andrade, de São Paulo, que perde um pergaminho de 1.501, 42 obras de Debret e Rugendas. Pouco antes, também em São Paulo, levam 30 íitens históricos e artísticos, incluindo manuscritos de d. Pedro I, do Instituto Histórico e Geográfico.

Em outubro, os ladrões da Mário de Andrade são descobertos, mas a alegria dura pouco. Outros aparecem e saqueiam o acervo de arte sacra do Embú.

E no entanto.

Janeiro, mês de fazer promessas. A Prefeitura do Rio promete um Centro de Referência da Música Carioca, a Biblioteca Popular Carlos Drummond de Andrade, o Museu do Desenvolvimento Urbano, entre outros. Promete também o Centro de Arquitetura e Urbanismo no antigo Cassino da Urca. Esse parece que vai em frente. Será um centro de arquitetura e design…. com profissionais italianos!!!!

E la nave va.

Ou: fuma aqui, toma um chá, fuma aqui, toma um chá.

Tinha tudo para ser aquela velha dialética chata do nós e eles, negros e brancos, colonizados e colonizadores. Afinal, é uma exposição de curadoria portuguesa para artistas das ex-colônias portuguesas africanas e para artistas brasileiros de ascendência africana. E pior, chama-se Réplica e Rebeldia. Quer dizer, duas opções: ou você copia e se anula ou você se rebela, sendo que rebeldia bem sucedida muda de nome e de idade, deixa de ser alguma coisa adolescente e sem resultado prático e passa a se chamar, por exemplo, revolução.

É só depois de um tempo que se atenta para o detalhe que entre as réplicas e as rebeldias há um “e” e não um “ou”.

E isso é tudo. Pois as obras conseguem ser uma coisa e outra, ali, na invenção de uma continuidade sempre tão problemática quando se é o Outro até de si mesmo. Como ser africano na contemporaneidade?

A resposta é dada, por exemplo, pela sobrevivência de materiais moles ou técnicas manuais lado a lado com manipulação digital e aço, em desenhos, fotos, colagens, objetos de corda, instalações de pano, vime e vídeo. Nisso, conseguem exorcisar um outro fantasma. É que o Outro do imaginário ocidental sempre foi o lugar seguro para a fantasia do sexo, ahn, selvagem. A mulher longínqua mantendo o moralismo doméstico. Ao incorporar técnicas identificadas como femininas, hesitantes ou frágeis – embasados, é certo, pela tradição que os conflitua – esses artistas apontam e destróem mais essa dualidade.

O Outro das artes visuais é, a depender da época, ou totalmente sedutor – como no modernismo do século XX – ou totalmente aterrorizante – como no incipiente século XXI, onde chega a ter sua existência negada no sonho/pesadelo da globalização.

O que esses artistas dizem é que o Outro existe e faz parte do Eu.

Viteix - Réplica e Rebeldia @ MAM Victor Sousa - Réplica e Rebeldia @ MAM Tomás Cumbana - Réplica e Rebeldia @ MAM Sidney Amaral - Réplica e Rebeldia @ MAM Rosana Paulino - Réplica e Rebeldia @ MAM Rondaldo Rego - Réplica e Rebeldia @ MAM Rondaldo Rego - Réplica e Rebeldia @ MAM Maurino Araújo - Réplica e Rebeldia @ MAM Hilário Gemuce - Réplica e Rebeldia @ MAM Fernando Alvin - Réplica e Rebeldia @ MAM Fábio Domingues - Réplica e Rebeldia @ MAM Celestino Mudaulane - Réplica e Rebeldia @ MAM António Ole - Réplica e Rebeldia @ MAM

É a margem africana no desenho surrealista de Viteix; as manchas (corpos negros quase invisíveis) das colagens de António Ole, ambos de Angola. Mulher no banheiro do moçambicano Victor Sousa é uma instalação onde aparecem a lingerie preta e o pano tribal lado a lado. Vidas em Maputo é um desenho de Celestino Mudaulane feito em pilô, um material industrial, mas representando cordas velhas. A mulher digital azul do carioca Fabio Domingues é azul só na aparência, você não tem dúvida de que é uma negra.

Nas fotos, Tomás Cumbana traz um negro rindo; Bauer Sá (da Bahia) chamou de Xangô eyes, em inglês, seu retrato de um negro com máscara de Xangô e Luís Basto fotografou um negro de mau-humor e óculos fashion. É de Hilário Gemuce a instalação Deixa andar onde manequins sem cabeça se misturam aos visitantes e a um vídeo de negros que caminham por uma rua africana.

A exposição traz as figuras já conhecidas do mineiro Maurino em sua mistura de curvas barrocas e feições africanas; e as peças em madeira hamenageando dividindades iorubas de Ronaldo Rego.

E o angolano Fernando Alvim, com sua pintura de grandes dimensões Cultural wireless, poderia dar o subtítulo da exposição. A ligação aqui não precisa de cabo, é pelo ar que se respira.

Gauguin, em uma época mais inocente, conseguiu descobrir em si a sexualidade/vitalidade que o machismo/colonialismo de sua época imputava aos taitianos. Com isso, tornou-se não mais um Eu europeu ou um Outro exótico, mas ambos, e gênio. Exatamente na mesma época, Sir Henry Stanley dizia, em seu cáqui impecável, a frase famosa: Dr. Livingston, I presume? – e dizia isso porque dar um grito de alegria e sair correndo o faria mais parecido com os selvagens do que ele poderia suportar.

Os artistas e o curador Antônio Pinto Ribeiro (com o mineiro Antônio Sérgio Moreira e o moçambicano Hilário Gemuce), que bom, estão mais para Gauguin do que para Stanley.

Só quem mora em nações, hoje, são os pobres e os que herdam, sem intermediações institucionalizadas, culturas históricas. Os inseridos na economia globalizada, exerçam eles qualquer profissão incluindo aí os produtores de arte contemporânea, já desertaram há tempos e hoje não moram em lugar algum. Voam.

Oswaldo Guayasamín nasceu em 1919, morreu em 1999, é um modernista e sua arte se quer senão nacional (do Equador) pelo menos latino-americana.

Oswaldo Guayasamín

A exposição na Caixa Cultural Rio, em cartaz até janeiro de 2007, mostra pela primeira vez no Brasil o que ele pretendeu mostrar para seus conterrâneos e não-conterrâneos – e aqui ele não fazia distinção. O que ele pretendeu mostrar portanto para um receptor globalizado foram a herança católica do culto ao sofrimento, as máscaras estilizadas da herança indígena e as grandes dimensões da arte pública e política dos muralistas de todos os tempos e lugares. Um certo suspense romântico em retratos como o de Paco de Lucia; extravagâncias como na composição das Homenage a los mártires; dramas nas linhas, e no uso da cor, como os olhos – únicos pontos em azul, do seu Eichman; detalhes que acentuam uma rebeldia também romântica, como os dentes e genitálias feitas em negativo, um complemento e uma agressão ao resto das pinturas da série La Espera.

Oswaldo Guayasamín Oswaldo Guayasamín Oswaldo Guayasamín Oswaldo Guayasamín

Signos semióticos para a síntese da nação. Uma das possibilidades de síntese. Porque o paradoxo das sínteses é que você só consegue fazê-las se ressaltar detalhes que, por sua vez, só poderão ser ressaltados a partir de uma idéia prévia do que é esse todo que você pretende sintetizar. Ou seja, para você chegar a uma síntese, você já terá de ter chegado nela antes. O paradoxo vale para essa síntese que faço aqui e também para a que Guayasamín fez em relação a seu país ou continente.

Pode ser que não tenha sido sempre assim. Pode ser que tenha havido uma época em que não só a produção mas a recepção da arte se desse de outro jeito. Hoje, qualquer visita ao centro histórico de uma velha cidade européia e você fica com a sensação de que está na Disneylândia, que aquilo foi montado especialmente para que você soubesse como era, quando era.

Artes nacionais passam perto disso. Você duvida, data, se afasta. No entanto perduram. Discutem-se razões para fazer exposições apenas com artistas brasileiros. Feiras, exposições e bienais “homenageiam” países, como se isso fizesse algum sentido. Você fica então buscando/inventando pontos sempre frágeis de identidade.

Um pensamento ocorre, na vivência da diferença entre a exposição de Guayasamín e outras, de arte contemporânea. Em que medida a rejeição da transcendência e o uso do lúdico não surgiram como uma resposta ao fracasso da arte anterior em dar conta da tarefa a que se propõs: refletir a respeito de movimentos sociais em contraponto a um Estado investido de um poder ainda de certo modo divino; exaltar o valor da racionalidade, das verdades eternas, e de uma matemática presente mesmo quando, ou principalmente, era energicamente negada em expressionismos vários?

Os anos 1930 viram o auge da idéia de que a discussão ética (ética e não moral, discussão e não certezas), sempre presente na estética, era irmã gêmea da atividade política. Depois veio Bakhtin e a carnavalização. E depois veio hoje. E Guayasamín fica, como diz a apresentação do curador, com um valor histórico, um como era, quando era, se é que era.

As instalações Acessos possíveis, montadas no Parque Lage em 25 e 26 de novembro de 2006, foram feitas pelos alunos de Iole de Freitas, professora da instituição, e resultaram em uma bem humorada revisitação do casarão do Jardim Botânico.

Alguns destaques:

Salto triplo, de Sonia Távora O Salto triplo de Sonia Távora brinca com a noção de cofre, lugar de guardar dinheiro, e prisão: o dinheiro também pode prender você. Em um jogo de espelhos, você se vê dentro do cofre, no subsolo.

Receita de memória, de Lídia Peychaux Lídia Peychaux põe retratos da infância na parede, como em qualquer casa burguesa. Mas ao repetir o formato do suporte das fotos em quadrados vazios, traz a formatação para a própria memória, como ela é montada e remontada por nós. O título, apropriadamente, é Receita de memória.

Desconstruindo Pollock, de Marilda Rezende Desconstruindo Pollock, de Marilda Rezende Marilda Rezende e o seu Uma das melhores e mais engraçadas é a Desconstruindo Pollock, onde Marilda Rezende substitui os famosos – e masculinos, decididos, gestuais – respingos de tinta por um emaranhado de femininos fios de lã. Obedecendo à mesma construção que dá ao expressionista americano a noção de profundidade em seus quadros, Rezende também faz o seu emaranhado em vários planos … e todos eles acabam entrando pelo ralo!

Plugando o sub, de Célia Cotrim Célia Cotrim consegue uma rara mudança de ambientação em sua Plugando o sub. Em uma das salas velhas, marcadas pela umidade, ela pôs quatro caixas de backlight com imagens de um fundo de piscina. No verão carioca, entrar na sala de teto alto, fresca, silenciosa e com as imagens de água, faz com que você de fato entre na instalação.

Cleone Augusto Cleone Augusto E no alto da escada de acesso, Cleone Augusto montou uma estreita passagem com chão de pó de carvão e paredes cavernosas. A entrada do casarão, em piso de mármore, dá para o pátio interno, aberto, luminoso e amplo. A falsa entrada é seu antônimo e Augusto quer que lembremos ser ele sempre possível.

(*) Comentário de Lidia Peychaux enviado por email em 29/11/06: Estou muito grata pelo teus comentários e a apresentação da obra no site. Não tenho tido a oportunidade de conversar com você, gostei muito do site, aproveito esta para acrescentar alguns dados sobre a obra: se trata de 5 projetos, um deles é a memórias das fotografias familiares cujo processo foi a queima de 7 fotos sendo a metáfora: apagar com fogo as memórias de ancestrais, o processo artístico consiste em fotografar as cinzas respeitando o formato das fotos que já no existem mais, como o resto das cinzas fiz uma tinta e com caneta também herança de familia, escribi em forma de declaração júridica descrevendo o conteúdo visual das mesmas, registrado posteriormente em cartório legitimando no circuito do sistema um fato artístico. Todo o trabalho completo: o vento da memoria, memoria das fotografias familiares, receita da memória, vídeo: memória e tempo, e memórias de Bayauca, um projeto de arte etnográfica denunciando 602 povoados em riesgo de desaparicão na Argentina, estão disponiveis num CD com breve texto explicativo.

Marilda Rezende: “Elvira Vigna, agradeço a atenção dada ao meu trabalho ‘Desconstruindo Pollock’ na EAV do Parque Lage. Abraços

Acho que ninguém mais pensa a sério em conceitos como verdade, pureza, início. Daí a curiosidade com uma exposição chamada Fake, do Grupo DOC, na Galeria 90. Se existe um fake, é porque existe alguma coisa que não seja.

Fake Fake Fake

Já o papelzinho de apresentação mostra que não é por aí. De Nietzsche a Baudrillard, passando pelo Aurélio com suas definições de pastiche, plágio, mimese, paródia etc., o texto deixa claro que o fake apresentado reivindica adequadamente o título de verdadeiro, o verdadeiro hoje só podendo ser o fake assumido.

Resta um aspecto que tem mais a ver com o vocabulário literário do que com o das artes visuais e que é o da metáfora.

A metáfora traz uma questão de complementaridade, seja como paralelismo ou oposição, entre os campos diegético e extradiegético.

(Agravada aqui pela virtualidade de um e outro: a exposição é de fotos, vídeos.)

O caso é que o Fake do Grupo DOC tem o fake e seu abismo de espelhos, e tem também um desejo de referência, ainda que metafórica, já que referência “toute courte” é uma impossibilidade filosófica. Há um universo, se não verdadeiro, puro ou inicial, pelo menos posto em paralelo – e incessantemente reabsorvido. E isso dá uma impressão de unidade composta por diferenças – que é a própria definição do que seja uma metáfora.

Assim é nas notas de dinheiro com ídolos pop, na cabeça romana feita de espuma, ou no irônico vídeo sobre história da arte.

Mas metáforas e outras construções de linguagem se completam na cabeça de quem as vê/lê. E, para isso, é preciso supor uma cultura uniformizada, comum, que compartilhe valores e símbolos, o que é mais uma dificuldade em época de pulverização de tribos, de agudo ressurgimento de grupos.

Existe um outro tipo de conceituação de construções artísticas, sem referentes ou metáforas. É o orgânico. Nasceu no período romântico do Século XIX mas o exemplo mais citado é o de James Joyce. O artista partiria de um núcleo – fragmento de memória ou experiência – que incha e cresce segundo critérios estéticos, como o som das palavras ou a textura da tinta. O defeito dessa teoria é a idéia de que há um conteúdo inicial sem forma (o fragmento de memória) que conquistará sua forma à medida que se afaste desse conteúdo inicial. Uma tautologia das boas, ausente, que bom, dessa exposição.
Então, recapitulando: o fake é fake assumido, em um mundo sem referências, onde também não há organicidades fechadas em suas peles; esse fake usa a metáfora como um simulacro de exterioridade, sendo que metáforas, infelizmente, também são uma construção e, pior, sujeitas a um compartilhamento cultural cada vez mais raro. O humor – porque tudo isso é feito com humor – se dá no nanossegundo em que você percebe isso.

E aí, que remédio, só rindo.

O que prova a eficácia do grupo.

Quando a superfície de uma pintura não é contínua, aí tem coisa. Em geral, a fissura, incisão ou camada superposta é uma maneira de registrar o tempo – o tempo gasto na feitura da pintura e que pode ser entendido como o registro do tempo que passa, simplesmente. É um recurso para suprir uma falta, pois pinturas não são próprias para o registro do tempo, e sim do espaço. Literatura, sim, aponta o tempo – com seu conteúdo cheio de “antes” e “depois” e suas letrinhas, lidas uma depois da outra.

Isso em geral, pois há literaturas mais espaciais do que temporais e pinturas com registros rítmicos e de tempo.

Vânia Barbosa abre a exposição A cor da palavra na Galeria Almacén, agora em novembro/2006. Ela usa literatura na sua pintura. E a primeira idéia é de que ela faz isso para dar o tempo que falta à pintura. Outros já o fizeram.

Não é o caso. Sua construção é bem original. Ela pega o parado na literatura e o temporal na pintura. Ela inverte. Ao fazer isso, brinca com a noção rígida de compartimentação artística.

Seria um caso de doppelbegabung, a palavra alemã para obras feitas por autores que usam uma dupla linguagem. Mas a literatura é de Elisa Lucinda e não dela. Então, a duplicidade seria autoral mas também não é, porque a literatura tem aqui, justamente, um papel de reforço do visual ao vir do jeito que vem, parada.

Assim:

A poesia é a menos temporal das literaturas, pois aponta para sua própria estrutura – que é constante. Além disso, nesse caso de Vânia Barbosa, as frases poéticas surgem em graus variados de elevação/incisão na superfície das pinturas. Então, a temporalidade está na maneira como a literatura aparece nas pinturas e não no fato de ser literatura. Além disso, a superfície das pinturas têm rasgos, fendas, sobreposições. Ou seja, as pinturas têm, na sua feitura, o tempo. A literatura, não. O resultado é a aceitação – bem atual – do indeterminável no lugar da busca redutora por algo fechado e acabado. E isso se dá tanto na obra quanto no posicionamento de autoria, ele também aberto. A autoria não é de Elisa Lucinda e Vânia Barbosa. É de Vânia Barbosa. Mas é uma autoria aberta, múltipla, complexa, com seus processos de interação à mostra, pois ela “diz” o seu processo de criação, onde entrou o impacto dos versos da amiga – uma poeta que escreve cenas, momentos, como quem pinta.

Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa

Primeiro tem a questão da ontologia. A 27ª Bienal de São Paulo traz, ao lado de cada obra, um texto explicativo, uma bula. Fica difícil saber como seria a recepção das obras sem isso. O texto diz o que o autor quis fazer e diz mais, diz que ele viveu em tal ou tal outro lugar exótico, que trabalha com essa ou aquela comunidade carente etc.

E um agravante: o politicamente correto, insuportável.

Mas eu vi inteirinha, e mais a paralela do Prodam e a da Oca. Só escapou o MAM com os concretistas porque eu os acho monótonos.

geral da Bienal 27

O bom e o ruim, começando com o bom.

Shaun Gladwell, da Austrália, armou dois vídeos que passam um ao lado do outro. Em um, um aleijado faz evoluções no seu skate. No outro, uma stripper faz evoluções na sua barra. Chama-se Double voyage e a comparação é evidente e cruel. Há mais uma crueldade: os filmes começam antes do começo. Ou seja, você vê a stripper chegar, cara cansada, se apoiar na barra, esperar, e só aí a música começa e ela faz um primeiro movimento com os quadris. Terrível.

stripper
Stripper de Double voyage
Fernando Ortega, México, fez um vídeo de quatro minutos de um ciclista em uma estrada. Ele pedala seu veículo com um anexo acoplado, onde leva mulher, ventilador e outras tralhas. O ventilador gira suas pás por causa do vento. A música é de Caetano Veloso. Chama-se Para Xó e é lindíssimo ao mostrar a simultaneidade de dois tempos, o antigo, do ciclista, e o atual, o da rodovia, com os carros modernos que o ultrapassam. Não que ele se importe. Continua lá, pedalando, parece feliz.

Marilá Dardot, uma artista da Galeria Vermelho, filmou em câmera fixa uma cidade à noite, ao longe. Só  umas poucas luzes tremem, pequenos movimentos em um todo parado. Chama-se Constelação, tem 46 minutos e dá uma idéia muito boa sobre o frenesi urbano, quando visto a uma certa distância.

Em uma outra obra, ela põe frases em murais. Uma delas poderia dar um bom resumo da Bienal: “Tout s’est passé ensuite avec tant de précipitation, de certitude et de naturel, que je ne me souviens plus de rien.

A mineira Mabe Bethônico é a responsável por um dos poucos momentos de humor da exposição. Ela reuniu as perguntas mais freqüentes da Bienal anterior. Se Dardot põe o mito urbano em perspectiva, Bethônico faz o mesmo em relação à arte. O público não está nem aí para a arte.

Algumas das perguntas:

  • “É por aqui que entra?”
  • “O que está tendo aqui?”
  • “Aqui é a Bienal do Livro?”
  • “Precisa de convite para entrar?”
  • “Quanto custa para entrar?”
  • “Vocês aceitam doações d obras de arte?”
  • “Pode entrar com cachorro?”
  • “Onde é o bebedouro?”
  • “Essa exposição tem quadro de Picasso?”
  • “Onde é o restaurante?”
  • “Como faz para expor aqui?”

E uma das obras mais fortes – e mais simples – é a de Ahlam Shibli, de Haifa. Ele fotografa a vida de gays, travestis, em sociedades fundamentalistas.

O ruim fica com Martinho Patrício, da Paraíba, que quis fazer uma homenagem à Lygia Clark e pôs uns módulos para o público montar. Só que uma funcionária do museu explica que a permissão de mexer nas pecinhas se resume a dois montinhos laterais, bem pobrinhos.

A americana Barbara Visser, em seu Transformation House, mostra … uma sombra chinesa! Sem ironia. Ou seja, a tecnologia deu tanta volta que acabou inventando sua avó.

Mas a medalha de ouro em politicamente correto vai para Minerva Cuevas, de Cuba, que em sua Terra Primitiva se deu ao desfrute de escrever, caso alguém tivesse dúvida: “o homem branco tem medo de escutar.

Parabéns, Flipper.

Há uns dez anos, Zé Ramalho e Zeca Baleiro fizeram uma música chamada Bienal, que eu não sei se chegou a ser gravada.

Segue a letra, para gáudio do leitor:

Bienal
Desmaterializando a obra de arte no fim do milênio
Faço um quadro com moléculas de hidrogênio
Fios de pentelho de um velho armênio
Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta
-
Meu conceito parece à primeira vista
Um barrococó figurativo neoexpressionista
Com pitadas de art-nouveau pós-surrealista
Calcado na revalorização da natureza morta
-
Minha mãe certa vez disse-me um dia
Vendo minha obra exposta na galeria
Meu filho isso é mais estranho que o cu da gia
E muito mais feio que um hipopótamo insone
-
Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o Segundo Caderno
Calcular o Produto Bruto Interno
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone
Rodopiando na fúria do ciclone
Reinvento o Céu e o inferno
-
Minha mãe não entendeu o subtexto
Da arte materializada no presente contexto
Reclicando o lixo lá do cesto
Chego a um resultado estético bacana
-
Com a graça de Deus e Basquiat
Nova Iorque me espere que eu vou já
Picharei com dendê de vatapá
Uma psicodélica baiana
-
Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de Pepsi e Fanta Uva
Um penico com água da última chuva
Ampolas de injeção de penicilina
-
Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria

Nos dias 7 e 8 de novembro de 2006, na Galeria Vermelho em São Paulo, Yann Marussich apresentou sua performance Traversée que pode durar até seis horas, dependendo de como a assistência se comporta.

Marussich fica imóvel, deitado sobre uma solução de pigmento e óleo no início de uma esteira que usa todo o comprimento da sala. Está preso pelo pescoço a uma roldana que, acionada, o puxará até o final da esteira, deixando uma imagem feita pela passagem do corpo no líquido colorido.

Yann Marussich
joelho “sangrando” em azul
Várias coisas. Primeiro, ele recupera um pouco das performances dos anos 70, quando a transgressão maior era a violência feita contra o corpo, em uma fronteira que beirava o ilícito. Quem puxa a roldana é o público que, assim, é obrigado a atuar claramente um sadismo que em geral prefere deixar velado. A pessoa aciona a roldana, a corda estica, parece apertar o pescoço e o corpo inerme e nu se move mais uns centímetros em direção ao final. A referência à Carole Schneenmann e outros da cena novaiorquina daquela época se dá também em um filme mostrado antes de a performance começar, onde líquidos corporais são substituídos por fluxos azuis que saem de ferimentos, nariz e boca. Tanto na performance quanto no filme há a referência e também um comentário: o “sangue” no filme é falso, é uma tinta azul; o enforcamento da performance também é só aparente, pois a corda passa por um nó na nuca. Assim, Marussich lembra a importância em se recuperar as sensações vividas mas, ao mesmo tempo, diz que isso não é mais possível.

Yann Marussich
o artista
Outra coisa – que é um pouco a mesma coisa: ele é um dançarino e, no entanto, fica imóvel. O movimento corporal é latente. De olhos fechados e nu, são suas veias que pulsam, o peito que incha e desincha com a respiração. É mais uma vez uma recuperação do movimento mais básico, os outros não sendo mais possíveis, significantes.

Yann Marussich
a imagem “pintada”
E, terceiro, é ele que “pinta” a imagem que fica na esteira depois de ser arrastado através da esteira. É o seu corpo, ele inteiro, fisicamente, o “pincel”. Como sempre acontece quando é o corpo em sua totalidade a participar de um ato, há uma volta a um sentido ético, de responsabilidade orgânica pela ação cometida. E, aqui também, há essa volta e o comentário de que ela não parece possível, já que a ação se dá em um trajeto já marcado, determinado. A única escolha é a da assistência, que aqui não merece o nome, já que é ela quem puxa a corda, em vez de ficar assistindo a alguma coisa.

O resultado é, para todos, a vivência de algo que foi feito.

É rara. Nossos atos não costumam ser tão nítidos.

Não é uma sistemização formalista mas a troca de um diacronismo por um sincronismo. Em vez de um antes, há um ao mesmo tempo, em vez de um passado, seria um presente (só que não é, como veremos depois.)

Pode ser apenas porque se trata de um instrumental ainda novo para a arte. E isso tornaria esse diacronismo mais aparente do que com outros materiais. Mas é também uma questão de como somos hoje, e a arte – essa ou outra – espelha isso.

A exposição de novembro de 2006 do Centro Cultural Telemar – que agora se chama Oi Futuro – traz oito famosos artistas em um mesmo tipo de instrumental artístico, o tecnológico. São reflexos ou projeções. Não a coisa em si, mas o reflexo ou sua projeção. Sendo que já seria bem difícil definir ‘a coisa em si’. Então, há um eco de Baudrillard ecoando naquelas escadas.

Ou de Bakhtin, ao analisar as vozes múltiplas dos romances de Dostoievsky. Falava ele de “uma pluralidade de consciências de igual valor”.

E de fato, os oito artistas – Antonio Dias, Daisy Xavier, Laura Erber, Miguel Rio Branco, Paulo Vivacqua, Roberto Cabot, Thiago Rocha Pitta e Tunga – por estarem juntos, exibem uma interdependência, tanto mútua, uns com (ou contra) os outros, quanto em relação à voz de uma curadoria, a da Lígia Canongia. Ao mesmo tempo, se submetem a uma ruptura. Não que não pesquisassem, uns mais, outros menos, antes, as novas tecnologias. Mas pelo fato de estarem juntos – e com o compromisso de mostrarem reflexos e projeções – é como se abdicassem, por pouco que seja, de uma linha pessoal para estabelecerem a forma desse espetáculo conjunto. É um espaço compartilhado em vez de um tempo individualizado. Outra vez. É, como já foi dito, uma marca do nosso tempo (sem ironia).

Reflexos e projeções postos nas mãos de oito consciências de igual valor. Há um grau de intercambiabilidade, se é que tal palavrão existe. São um pouco intercambiáveis. Um pouco, não muito. São escolhas individuais em como formalizar uma ética que, essa, é mais ou menos igual para todos. Ou, pelo menos, que todos adotaram provisoriamente para fazer essa exposição e que é a ética dos atos que coexistem lado a lado, simultâneos, ininterruptos. Não um só processo, uma só discussão sobre o que é bom (bonito?), o que é ruim. Mas muitos, tipo uma sopa borbulhante. Uma ética/estética não mais claramente perceptível, mas fluida, mutável. E que acontece no espaço, não na história. E em um espaço que uniformizou seus vestígios, sem identidade geográfica. Isso não quer dizer que as obras não tenham individualidade, mas que elas foram criadas a partir de parâmetros e condições que independem do que existia até então.

Sem questionamentos.

A não ser em dois casos: Miguel Rio Branco, Paulo Vivacqua.

Epilectronic, de Miguel Rio Branco
Epilectronic, de Miguel Rio Branco
O primeiro fez a instalação Epilectronic (junção de pileque epiléptico eletrônico) com o lixo tecnológico – placas, monitores – envolvendo suas projeções computadorizadas. O segundo fez Deserto, uma areia onde se enterram amplificadores e partes de aparelhos sonoros, na frente de uma tela onde não há projeções, muda.

Ambos usam a tecnologia criticamente, incluem um tempo no maravilhamento atemporal. É uma novidade.

Deserto, de Paulo Vivacqua
Deserto, de Paulo Vivacqua
Pois há um problema com reflexos (mais de um). O “igual valor” de que falávamos fica comprometido se houver reflexos primários e secundários, um reflexo de outro reflexo, em uma diluição não perceptível se as luzes forem, como são sempre, sedutoras ao olhar. E, caso o reflexo do reflexo esteja lado a lado com o reflexo, digamos, mais consciente, autoral, esse reflexo “imitador” não terá igual valor de consciência do que o outro, seu modelo.

Aqui, o problema fica teórico. Não há imitações, claro, e para saber disso bastava ler os nomes dos oito, sem ver. Mas há reflexos secundários e auto-reflexos. Roberto Cabot usa suas linhas sinuosas, já apresentadas no MAM em fevereiro desse ano. Tunga refaz sua fantástica Laminadas Almas. Ambos acrescentam particularidades, aperfeiçoam conceitos em algo já feito anteriormente. Antonio Dias usa o já clássico tríptico de telas lado a lado com uma mesma imagem em pontos de vista diferentes. A mesma coisa faz Daisy Xavier com mãos que acariciam a borda de um buraco, vistas de frente e de costas. Laura Erber usa uma idéia já vista no Emoção Art.ficial do Itaú de São Paulo em agosto, onde Camille Utterback e Romy Achituv apresentaram o Text Rain, feito em 1999.

Thiago Rocha Pitta, seguindo seu tom lírico, apresenta um trocadilho visual. Sua cascata, que desce a montanha, é similar à fumaça que a montagem de sua projeção coloca subindo do mesmo ponto da tela.

Todos em looping.

Várias dessas obras representam situações de pré-evento, evento esse que nunca chega: o homenzinho nunca consegue pegar todas as palavras que caem à sua volta, as mãos nunca acham o que procuram. É por isso que não se trata de um eterno presente. É um eterno futuro. Parado. As coisas, perdão, os reflexos, não ‘são’. Indicam algo que está por vir, eternamente. E nessa não-existência, fogem de um fim não desejado. É importante essa promessa de um algo mais, de um novo reflexo, maior.

A exceção fica em Vivacqua e Rio Branco, que se põem a favor da causalidade, da temporalidade.

E como o estar lado a lado obriga à uma relação dialógica – não de confirmação mútua mas de mútua suplementação – a exposição afinal resulta, toda ela, em um interessante questionamento do que seja a liberdade artística. É certo que a ausência de eventos causadores dos reflexos e projeções significa uma liberdade, já que não há determinismo de espécie alguma. Mas se tudo coexiste e se influencia mutuamente sem aspirações a uma conclusão, será preciso usar um novo leque de significados, estar aqui também, no uso da palavra arte, em um zero sintagmático.

Pensamento positivo: não é a primeira vez que a arte mostra essa mudança do entendimento da sua matéria-prima, o tempo e o espaço. Na Renascença também houve o registro artístico de algo escandaloso: o tempo clássico, helenístico, não era mais capaz de incluir o futuro que as mudanças tecnológicas da época traziam. Lá era o contrário. Saía-se da eternidade dos fundos não determinísticos, abstratos, e entrava-se nas paisagem finitas, de horizontes mensuráveis. Agora volta-se a um infinito.

E com isso vem o lado ruim desse particular estar-no-(não)mundo: ninguém morre de vez, mas também ninguém vive muito.

(*) Comentário de Laura Erber, recebido por email de 22/11/06: Elvira, tenho lido as notícias sobre arte e novidades quentes no seu site. Mas olha, não posso concordar com essa identificação total entre meu trabalho (exposto na Telemar) e o trabalho da chuva de palavras da Camille Utterback e do Romy Achituv. Se eles têm em comum a chuva de palavras por outro lado são movidos por questões muito distintas. O meu gira em torno da questão da nominação, da auto-nomeação. A chuva inicial é uma solução visual para a entrada em cena das palavras, o que está em jogo é a relação entre um corpo sem identidade e a ação de apropriar-se de um nome que o singularizaria.

A fusão do cinema com a arte contemporânea se dá em duas vertentes, dependendo de quem faz. Se é um cineasta, vamos ter um criador em geral de uma geração mais velha, gente que fez nome no cinema tradicional, o das salas escuras, e que agora experimenta sua técnica em outro entorno, o dos museus e galerias. Aqui a estrutura da linguagem cinematográfica, que privilegia o tempo sobre o espaço, se mantém.

Rosângela RennóSe, ao contrário, quem faz é um artista que vem da visualidade exposta no claro e com um fruidor em movimento, o que resulta é uma inversão, e o espaço fica mais importante do que o tempo. São então as telas múltiplas com várias instâncias de uma mesma imagem em pontos de vista diferentes. Ou os filmes em câmera muito lenta, onde as imagens recuperam seu valor estético, onde o que vale é sua composição como quadro, e não o que acontece antes ou depois.

Rosângela Rennó faz o contrário, em um passo além dessa fusão. Na sua exposição de outubro de 2006 na Galeria Artur Fidalgo em Copacabana, ela parte da imagem estática. Uma foto. E acrescenta a ela pequenas animações em um ou outro detalhe, em câmera muito lenta. São dez minutos para perceber o imperceptível: um braço que se mexe, uma saia que se levanta. Em cinco vídeos expostos em tela pequena (dez polegadas) e em looping, vemos dois pulos em que a personagem está de cabeça para baixo, dois nadadores, e um salto em um barranco. Todas elas imagens estáticas, que congelam um movimento paralisado em pleno andamento. E serão estas as imagens em que ela emprestará artificialmente, por meio da animação, um movimento que não está lá. Acrescente-se a isso o fato de essas imagens serem de uma certa forma atemporais: as roupas são meio antigas mas não muito, os ambientes ao ar livre não têm registros de época. E a trilha sonora, passarinhos e ondas, é eterna. E são em preto e branco ou monocromia, as imagens, em mais um distanciamento do tratamento realista mas usando a inversão, que sempre acontece, de ser este tratamento – que deveria ser menos realista – na verdade mais realista do que o colorido, em uma impressão (de imprimir, in print) característica da nossa cultura, de que o “real” é em preto e branco, e a cor é publicidade ou ficção.

A migração do foco do tempo para o espaço que artistas da geração de Rennó fazem nos museus do mundo inteiro não é inocente. Ao abrir mão de uma narrativa, ao desprezar as relações causais, ao expôr o não-acontecimento, essas obras se tornam muito mais do que atemporais, elas se tornam apolíticas. Estão lá para serem apreciadas por vagas (nos dois sentidos) que por elas passam em um roçar superficial.

E Rennó faz o caminho contrário. O estático, o certo, a tranqüilizadora imutabilidade não estão mais lá. Há um inquietante tempo a se imiscuir nesse paraíso.

Arthur Omar. Zooprismas. Centro Cultural Telemar. Rua Dois de Dezembro 63, Flamengo, de terça a domingo, das 11 às 20 h. Até 29 de outubro.

Madona do Rio
Madona do Rio

São palavras como glória, anjo, pureza, vertigem, desmaterialização. E mais citações filosóficas, a Marselhesa e sua invocação dos cidadãos às armas. E também uma música orquestrada, grandiloqüente, por trás de rostos humanos que se desfazem.

Podia ser um pensamento sobre a luz e sua velocidade, e sobre outras coisas velozes, mas fica um cheiro de religião, de monumentalidade, de estímulos sensoriais encantatórios, quase hipnóticos, e isso esmaga a possibilidade de pensamento.

É Arthur Omar nos quatro andares do Centro Cultural Telemar.

E é a questão da religião ser ou não uma resposta viável ao niilismo ocidental. Se a menina afegã – ainda sem idade para a burka – de uma de suas instalações pode ou não ser comparada à menina dos brincos de pérola, pintada por Vermeer – o mestre da escola que escolheu o cotidiano, a materialidade extremamente otimista da vida imanente dos burgueses de seu tempo, como tema.

O mesmo incômodo prevalece em Madona do Rio, em que uma face de mulher, no registro simbólico conservador de mulher-sofredora (olhos baixos, cabeça inclinada), recebe, sofre, raios de luz frenéticos sobre a pele.

No vídeo Ballet 2, congelamentos periódicos da imagem dos bailarinos (do Mannheim Opera Ballet) aponta para a idéia de que a ética/estética está ligada à premissa de uma perspectiva extra-temporal: os movimentos têm em si a possibilidade do eterno, do imutável.

Pele Mecânica
Pele Mecânica

Na instalação Pele Mecânica, um desdobramento em cores digitais da obra em preto e braco Antropologia da Face Gloriosa, as dimensões sobre-humanas das faces que se dissolvem supõem uma metafísica que aplaca a experiência de alteridade que poderia acontecer com a seqüência de tipos variados.

Em Anjo, um pária domina a cidade com o olhar. Aqui há um registro piedoso, que implica em uma transcendência na medida que a figura apresenta, mais uma vez, uma temporalidade distinta, a interromper o ritmo luminoso do fundo urbano da parte inferior da imagem.

Anjo
Anjo

Nas fotos de Dionísica, o retrato é da “monstruosidade da carne”, seja lá o que se possa entender disso.

E Mola Cósmica, o painel que ocupa a fachada do prédio, faz lembrar a frase de Kierkegaard, de que repetição é a única forma de eternidade disponível aos humanos.

Em que pese o nome de Zooprismas da exposição, estamos diante de uma apresentação mais de prismas de luz que espelham a própria luz do que de pertencimento e espelhamento de uma história e de uma escolha, de uma experiência do possível.

ARCO é uma feira internacional de arte contemporânea que acontece anualmente, sempre em fevereiro, em Madri. Em 2007, eles vão homenagear a Coréia, em 2008 o Brasil. Qual será a diferença? Qual a especificidade de uma arte contemporânea feita aqui ou acolá?

A diretora do evento, Lourdes Fernández, e a diretora do Museu Reina Sofía, Ana Martinez de Aguillar, estiveram no Rio de Janeiro no início de outubro de 2006. Falaram coisas como vitalidade, conversão de tendências, permeabilidade, não-cópia.

De fato.

ARCO

No programa da visita das duas diretoras ao Rio de Janeiro está o Centro de Arte Hélio Oiticica, com a segunda edição do Arquivo Geral. É uma espécie de mostra paralela à Bienal de São Paulo, com curadoria muito livre de Paulo Venâncio Filho.

Lá, ele separou espaço para dois sites specifics. O de Arjan é o mais impactante, ocupando todo o ambiente da escada. Em sangüínea e carvão, orgânico, sujo, anotado, irônico e frágil, os grafites do artista se contrapõem e se somam (nas cores semelhantes) ao jacarandá polido e clássico dos degraus e corrimão.

ARCO

Aliás, a intimidade com a madeira poderia ser uma das especificidades que buscam as diretoras espanholas. O artista do hemisfério norte luta com a preservação da madeira de lá, sujeita a carunchos, cupins e degradação por humidade e variação de temperatura. Ele costuma usar o material com reverência, quase cerimônia. Os que por aqui trabalham encontram uma madeira que, por ser tropical, é mais resistente (quando de crescimento lento) e porque eles também são tropicais, a tornam íntima, usada, com um registro de afeto. Estão nesse caso a instalação de José Bechara, os totens de Afonso Tostes, os carretéis de Eduardo Frota e até mesmo os lápis de Malu Fatorelli. E, claro, Frans Krajcberg.

Outra: a tranqüilidade com que se misturam áreas. O axioma recente é, para nós, velho conhecido. Iole de Freitas mantém uma bi-dimensão que vem da pintura. Ângelo Venosa vai mais longe nesse caminho e pendura suas rendas de metal na parede, usando os vazados para uma profundidade também dada na lateral: as peças se esvaem. E tem Nelson Leirner a apontar, teimoso, o que existe desde D. Pedro II: a convivência do popular com o erudito. Eliane Duarte faz a mesma coisa e inclui a biografia no refazer de costuras anônimas.

Mais uma. Aqui, o mais rígido modernista, que sonhou durante o século XX com critérios objetivos, científicos, matemáticos, inclui o movimento, a festa, o prazer: Abraham Palatnik.

Lá não estavam, mas há o som ritmado a dar tratamento contemporâneo ao objeto industrial usado como material adquirido. Bandas como a Chelpa Ferro e músicos como Tato Taborda subvertem, ao tocá-los, a utilidade inerente desses objetos, industrializados ou encontrados, de segunda-mão, colhidos.No Arquivo Geral, o vídeo de Laura Erber fala de naturezas mortas. Um chão que recebe folhas, frutas, poças de água – e um isqueiro. A mão que aparece só recolhe o isqueiro. Um humor.

Vivos, todos.

Antonio Dias, Miguel Rio Branco, Luiz Áquila já estão confirmados na feira. O curador Paulo Sérgio Duarte diz que o critério de escolha dos artistas será o olho do curador, acostumado a 40 anos de praia. Diz que não há critérios objetivos nem pode haver. Mais uma contemporaneidade: a subjetividade de quem não trabalha com absolutos.

O projeto Cybermohalla fala da cultura popular de duas favelas de Nova Delhi – a Lok Nayak Jai Prakash e a Ambedkar Nagar – e é administrado pela ONG Ankur e um centro de estudos sociais, o Sarai. Os jovens das comunidades são estimulados a fazer diários como meio de refletir sobre a realidade deles e de seu entorno. Usam papel, vídeo, fotos ou tudo junto. Esses diários são tratados como um banco de dados sobre um presente que se renova sem parar e, embora já tenha estado mais ativo, em setembro de 2006 seu material continuava no ar.

Cybermohalla
O maior desses diários, o Before coming here, had you thought of a place like this? é uma instalação onde, por cima de fotos “grafitadas” no computador, aparecem vídeos, fotos dos participantes, filminhos de animação e cartuns sobre acontecimentos locais: um desatre de trem, um rato que tudo come ou uma noiva, por exemplo.

Nada que não tenha aqui, mas Nova Delhi continua paupérrima e violenta, nós também. E fica um certo desânimo com essas iniciativas.

Para quem quiser desanimar de vez, entre em: http://www.sarai.net/cybermohalla/cybermohalla.htm
Mas, duradouro ou não, tem uma coisa nesse projeto que não encontrei em nenhum dos muitos que tentam dar uma outra visão da arte e das pessoas no Vidigal, na Maré e em muitas outras.

É um projeto baseado em computador. O “livro”, “revista mural” e “instalação” – todos feitos com a estrutura de um diário de adolescente – existem da forma como existem porque usam a internet.

E aí vem o pensamento de que a metáfora da arqueologia para a descoberta de significados, velha como é (data do século XIX), pode precisar voltar à vida para exprimir a polissemia de um site onde você clica e clica outra vez, cada vez mais “fundo”, em busca de ruínas, coisas quebradas e casebres sem teto, que existem na superfície o tempo todo, só que ninguém vê.

Para ficar só no exemplo do século XIX, casebres na superfície era o que não faltava. Foi a época em que as cidades européias inventavam a favela, graças ao início da industrialização e à migração, muitas vezes forçada, dos camponeses pobres que perdiam o direito à terra. E enquanto isso, Théophile de Gautier e Victor Hugo, entre outros, falavam em suas obras de escavações, potes quebrados e de um discurso não escutado, o dos papiros. Mas havia um bom motivo para ir catar no fundo de um buraco o que ninguém queria ver em cima do solo. A arqueologia, no noticiário com descobertas que enchiam a imaginação popular, trazia dois atrativos que na verdade eram um só: primeiro, havia o fascínio com a tecnologia usada nas escavações e, segundo, essa tecnologia era usada para recuperar uma ligação com um passado perdido. Ou seja, um futuro que ressaltava um passado – nada mais apaziguador.

Hoje, dentro de nosso imaginário urbano, a favela também tem um valor de passado, de arcaico. Todos nós já moramos em uma casa de barro, todos nós já andamos descalços e tivemos de caçar diariamente algo para comer.

Fragmentos como esses, fotos, frases ou muros pichados (dizia-se inscritos) – escavados em um site ou em um sítio – são vestígios de uma totalidade que nos escapa e escapa em dois sentido, não a conhecemos e não a temos no presente. Um Cybermohalla, tanto quanto um Egito para o século XIX, é onde podemos pôr um desejo de não-fragmentação – que é o que vivemos no nosso presente urbano. Assim, se equivalem Egito, projetos em favelas, religiões orientais ou tipos de massagens alternativas. Mas se para quem os vende tanto faz, para quem os compra, há uma diferença. Projetos em favela, pelo menos, tentam alcançar um Outro.

Agora, é preciso não esquecer que nos sites, esses sítios arqueológicos contemporâneos, a tela, sem fundo e “limpa”, páira em um não-tempo e um não-espaço onde o presente, ou seja, a página de entrada com os dados objetivos, precisa ser “destruída” para que os hyperlinks ocorram. A coerência, a reconstrução desses fragmentos achados, então se dá, claro, na nossa cabeça, não que esteja lá, disponível. Nem pode. E essa qualidade de distância, ou “aura”, no sentido usado por Walter Benjamin, não tem nada de politicamente correto. Afinal, você vê os fragmentos como vindos de um longe tão longe que você sequer se dá ao trabalho de calcular, embora favelas e asfalto sejam parte de uma mesma situação urbana, a sua.

Com essa topologia temporal e espacial, o site mostra fragmentos de favelas indianas para nós, brasileiros, aparentemente como um exemplo raro de um Outro perfeito: o outro-tempo e o outro-lugar. É preciso escapar dessa armadilha de ver esse Outro como Outro para conseguir chegar até ele. Porque, por mais que se cave, é o Mesmo.

Há o subtítulo de “new museum” no portal onde se chega teclando http://www.rhizome.org/events/timeshares/. Mas não é de artes plásticas que se trata e sim de literatura, essa nova, visual e oral, filha da internet.

O portal Times Shares, administrado pela ONG Rizhome, abre para vários projetos, em uma programação atualizada periodicamente. Em meados de setembro de 2006 havia um poema em andamento, formado de forma automática com as frases e palavras que entram em tempo real na linha onde se tecla as buscas do Google.

Um exemplo:

smokey montain realstate
good morning america
beetles
famous children photography
flat tongue bitch
super boobs
indian scholarships

Ficar lá olhando o poema se formar é uma experiência ao mesmo tempo de pertencimento e de solidão. Foi iniciado em 2005 por Jon Thomson e Alison Craighead, da Inglaterra, e o endereço, para quem quiser ir direto, é: http://www.automatedbeacon.net/

Rizhome

Bem parecido com o do projeto seguinte, no endereço direto de http://artport.whitney.org/commissions/thedumpster/. De Golan Levin, Kamal Nigam e Jonathan Feinberg esse projeto tem o nome de Dumpster (depósito de lixo) e junta mensagens de gente que dispensou o(a) namorado(a). As mensagens, ao se somarem, formam pequenas novelas de amor fracassado e mais uma vez, a sensação é de solidão e pertencimento.

Exemplo:

  • Been up to this weekind, did santa came??? ha, you wish!!! Me and Anne broke up.
  • I broke yp with John. I am kinda happy about that cuz he kinda annoyed me a lot but then he was sweet. Anyway, enough about me, how uo have been?

E há o de Takuji Kogo, do Japão, de 2006. Um texto muito bom, com a animação de uma bonequinha, em looping, como suporte. Diz o trecho do texto:

I’m not happy seeing your look of unhappiness whenever you go to the mall.
I saw fantastic things, you should take a look in those luxury things you can’t afford.
I fell upon a web page. I saw fantastic things you should see. I can see your ecstactic face when you pick up your present that you can’t afford.

Tradução (minha):

Não fico feliz vendo sua cara triste sempre que você vai ao shopping.
Vi coisas fantásticas, você devia ir dar uma olhada nessas coisas luxuosas que são caras demais para você.
Caí em uma página da web. Vi coisas fantásticas que você devia ver. Já posso ver sua cara de êxtase quando você escolher um presente que não poderá comprar.

Rizhome E por aí vaí, a bonequinha se requebra e diz outras frases de igual teor de crueldade, com um sorriso e olhos meigos.

O projeto de Kogo não é interativo. Quer dizer, você pode mixar outras musiquinhas, mas a boneca se requebrará sempre do mesmo jeito dizendo sempre as mesmas frases. Não é interativo e é o melhor exemplo de uma arte que só pode ser feita pela internet, que tem características próprias desse instrumento tão poderoso e tão pouco compreendido. A interatividade – muitas vezes falsa, no sentido de apenas oferecer um leque muuuiiito grande de opções randômicas mas sempre dentro de parâmetros pré-estabelecidos pelo programador, este sim o verdadeiro artista – é apenas a face mais visível da coisa.

Há esse incrível processo, ininterrupto, de criação-dissolução-nova criação de identidades culturais, que tem sua eficácia ligada às condições de produção e às de recepção, típicas da internet.

Você produz em língua estrangeira. Digo isso não só me referindo aos não-anglofônicos, mas porque se trata da última tecnologia de comunicação a ser inventada e, como tal, mantém em si a estranheza e a necessidade de aprendizado. Você aprende (ainda), é uma “segunda língua”. Ao mesmo tempo, as condições de intimidade – os computadores hoje são pequenos e estão em um cômodo da sua casa onde você tem privacidade – e a mimetização que a tecnologia faz dos processos mentais humanos tornam esse estranho uma extensão do seu próprio corpo. É você, uma parte de você, que é nova.

As condições de recepção são similares, em termos de mediação – é uma máquina – e de proximidade – ela fala com você e só com você. Diferentemente da televisão (a penúltima invenção), ninguém compartilha o seu momento no computador.

Ele fala só com você, e com outros milhões iguais a você. No mundo inteiro. Repetindo a cada instância a mesma imbricação de estranheza e intimidade. Você se reformula, se redescobre. Não tem como não o fazer.

Agora, de volta ao projeto japonês.

O que o torna especial é o fato de ser tudo isso que foi descrito acima e, além disso, japonês.

Merece um estudo aprofundado a posição única que o Japão apresenta no seu constructo cultural histórico e em como esse constructo se distingüe hoje, quando todas as culturas se vêem face ao mesmo processo de aquisição de elementos exógenos e reforço-invenção do que é considerado nativo.

O Japão formou sua linguagem escrita e, portanto, o esteio de sua cultura, com os signos e as tradições literárias de um outro povo, o chinês. Todas as outras línguas/culturas chegaram lá bem mais tarde, no período Meiji, meados do século XIX.

Uma vez chegadas, se tornaram o alvo de interesse da elite intelectual, que importou não só termos em inglês modificados, como – o que é de regra – sistemas de elaboração de pensamento por causa da necessidade de adaptar, nas traduções, a estrutura gramatical e sintática da língua estrangeira, e tecnologias – esse outro tipo de tradução de pensamento. Foi uma transferência semiótica. Ninguém vive isso impunemente. Muito menos quem já tinha, na sua história, uma formação híbrida, um discurso não-unificado, instável. No início do período Meiji, a escrita japonesa continha signos duplos, colocados juntos formando uma só “palavra”, um de origem japonesa muito antiga e o outro de origem chinesa. No início do século XX começam a surgir formas coloquiais que reproduzem o som de um japonês falando palavras inglesas. No início do século XXI, o inglês de um projeto japonês de arte na internet é perfeito. Mas a bonequinha que o fala é indiscutivelmente japonesa, com o “pathos” dos mangás, o trejeito de passividade meio perversa e erotizada de quem sabe como ninguém acolher as investidas alheias e sobreviver mesmo assim.

O que vale também para o texto do projeto de Kogo: um libelo contra o consumo. Um libelo contra o consumo, falado em inglês, por uma personagem digital, desenhada nas formas consagradas do consumo: curvas suaves, cores alegres, “femininas”, música agradável, movimentos idens.

É o que a internet faz: parece que come identidades culturais mas também as fortalece. E, o outro lado, incômodo: parece que ataca o consumismo mas também o fortalece.

Mana Bernardes está presa em um destino. Se depender dela, nós também. Na sua instalação de setembro/06 do Paço Imperial, o texto manuscrito feito em papel quadriculado, de arquitetura, constrói um caminho de palavras que seguimos.

Exemplo das palavras: “uma memória de onde o amor gera flores minha bisavó com elas enfeitava as suas tortas de nozes”. Ou: “esta cidade que destrói o infinito verde para construir edificações fadadas a tombar.”

Mana Bernardes

A idéia de que haja um infinito, idealizado, em algum ponto do passado, reforça o fechamento do caminho que faz a volta na sala para terminar perto de onde começou. O presente urbano, moderno e cosmopolita não serve, o bom era um “antes”.

Ela é designer de jóias, faz produtos para vender. O destino portanto seria o do consumo, repetido e repetido, pois entre os materiais que usa estão os restos de um consumo já ocorrido, como garrafas e plásticos de envólucros. Sem notar, ela apresenta na instalação o dilema do mundo em que vive e que está morto: junto com o caminho de palavras manuscritas no rígido suporte quadriculado há vídeos mostrando seus objetos, em looping, enquanto uma voz monótona lê o que está escrito e numera as frases.

Creepy stuff, man.

Pratos feitos

os blocos do pf
O frio atinge de maneira tão aguda que me curvo. As costas já doem, não sei se por causa do frio ou da minha posição nada ergonômica. O inverno além de chegar atrasado me deixou mais caseiro ainda. Nada me faria sair de casa. Nada.

Recebo um convite. Quem mandou inventar que não ia sair de casa? Quem? Pelo menos é por uma boa causa, nessa cidade que parece nunca ter nada, quando temos uma coisa assim é sinal que temos que ir. Temos, entenda-se eu e minha pouca vontade de aparecer em público, o que está se tornando um proble

ma.

Uma ajuda à minha vontade foi minha curiosidade e uma jovem de cabelos encaracolados, com um sorriso que… Moro em Criciúma, cidade do extremo sul catarinense, cidade suja, de ar pesado e clima quente, uma bacia de sentidos extremos.

A exposição acontecia na Fundação Cultural de Criciúma, na Galeria de Arte Contemporânea Willy Zumblick. A galeria tem como meta difundir a contemporaneidade em nossa cidade. Mas arte é um mundinho difícil de se entender, vai saber, vez ou outra sempre temos uma cara nova.

Pratos feitos
Rosângela Becker

A exposição versava sobre o trabalho conjunto de várias artistas e ali estavam algumas delas. A simpática, a elegante, a pseudo-inteligente, a que me atraia – estranho, isso sempre acontece – não se esqueça da curadora! Isso é importante.

A exposição coletiva tinha um único trabalho, um bloco de notas. Usei muito na época do comércio, olha só, não era um bloco de notas, tipo Moleskine, era um bloco de notas fiscais, daqueles em três vias. Cada novo jogo representava um artista e como tal uma nova visão daquele conceito.

O nome do bloco nomeava a exposição: PF. Prato Feito, aquele prato, feito por antecedência, com o básico da mesa brasileira, feijão, arroz, bife, ovos, batatas e como tal representa uma visão poética, ou faminta, do conceito de arte. A arte aqui é uma mistura de conceitos efêmeros e eternos. Na visão dos artistas participantes, uma coletiva que busca a originalidade e transmissão rápida de pensamentos e idéias, tantas e tão singulares que não sei por qual começar… seria injusto de minha parte olhar apenas para alguns.

Bem, quem estou querendo enganar? Eu nunca fui muito justo mesmo!

A apresentação foi direta e simples, versava sobre o método de produção:

uma idéia que poderia reunir os trabalhos do grupo de estudo, original e viável para a venda ou para distribuição, com um custo aceitável e fácil montagem. Embora a produção e acabamento tenham sido meticulosamente cuidados, a sensação de que o bloco saiu mesmo de uma Junta Estadual era legal.
Lembro-me, que ao colocar as mãos no meu exemplar, a primeira idéia, o primeiro desejo foi de queimá-lo, de transformá-lo, de poder de alguma forma fazer parte daquela construção, ainda que destruindo tudo que ela representava.

Os trabalhos ficavam expostos em uma mesa de madeira, nas paredes, ao redor, estavam presos na parede, folha por folha.

Fui fisgado particularmente pelos ambientes e pela descrição dos passos e da socialização do ambiente criado por Rosângela Becker.

A criatividade e intuição de Giorgia Mesquita, com sua ode à poesia, e o belo hábito de ser cativante, em sua fala e atitude, em partida de seu desenho, nos sublima, olhando e abraçando o vazio, tomando para cada um de nós o descompasso da vida. Como uma tarde de verão, perto de uma lagoa, o vento golpeando a face rubra.

Pratos feitos
“Abra os braços e deixe o vento passar”. Giorgia Mesquita.
Vanessa Schultz e sua construção, que é uma folha, que se dobra e dobra, e vira um caderninho.

Mas confesso, que o divertido foi perceber, como as pessoas se comportavam ao perceber o que era realmente a efetividade, o suor e a performance que descrevia Priscila Zaccaron.

Pratos feitos
Vanessa Schultz

Conversas acaloradas, eu observava, de longe, percebi o desenho, ri fui pegar um pouco de quentão e voltei rindo, esbarrei na menina de cabelos encaracolados, ficamos por ali conversando, papo legal. Nesse ínterim consegui conversar com a Giorgia Mesquita.

_ Você acha que o trabalho de vocês pode ser considerado algo agressivo ou calmo? Ela pensou um pouco:

_ Você que deve descrever, que deve dar ao trabalho o sentimento que ele merece. Ao passar para mim, no caso o espectador, ela respondeu sem responder e me colocou em situação de creditar ou não seu trabalho, fiquei sem graça de falar sobre minha vontade.

_ Hum. Pensei um pouco. _ Qual o sentido então de você criar, em conjunto, algo que dá um trabalho tremendo, que produz amor ou ódio, e deixar a cargo do cara que vê a obra, que a toca, ou compra, dar um sentido pra ela?

Devo ter assustado ela nesse momento, ela me olhou, com curiosidade, pensou um pouco.

_ A maneira como trabalhamos, ou produzimos nosso trabalho, tem uma certa ligação com o que desejamos, isso é claro. Nesse trabalho procuramos acima de tudo a unidade, a conformidade, não um decreto. A pessoa que recebe ou adquire um exemplar do Prato Feito, tem total liberdade para fazer o que quiser, inclusive queimar – coincidência, ou ela sacou minha vontade? – Mas porquê você tem essa fascinação pela agressividade? Que agressividade é essa? Me olhou, eu disse:

_ Agressividade? Sou um cara tão calmo!

Fomos interrompidos por sorrisos, aparentemente o pessoal conseguiu desvendar o mistério da “Dedicação à efetividade da performance. Priorização do suor.” Da Priscila Zaccaron.

Pratos feitos
Priscila Zaccaron

Ficava mais frio, o quentão ajudava, mas minha vontade não, a menina de cabelos encaracolados foi embora (sem final feliz). Peguei meu mais novo bloco de notas, fui até meu carro e zarpei para casa, tinha muitas coisas para deixar para trás.

Inclusive meu desejo de agressividade.


Artistas participantes: Adriana Barreto; Alex Cabral; Amanda Cifuente; Ana Paula Lima; Brígida Baltar; Bruna Mansani; Cássio Ferraz; Claudia Zimmer; Damé; Daniela Mattos; Débora  Santiago; Edmilson Vasconcelos; Fabiola Scaranto; Gabrielle Althausen; Giorgia Mesquita; Jorge Menna Barreto; Julia Amaral; Laércio Redondo; Liomar Arouca; Melissa Barbery; Minerva Cuevas; Nara Milioli; Orlando Maneschy; Patricia Scandolara; Paula Tonon; Priscila Zaccaron; Raquel Stolf; Regina Melim; Renata Patrão; Ricardo Basbaum; Rosângela Becker; Sandra Reis; Silvia Guadagnini; Tâmara Willerding; Traplev; Vanessa Schultz; Yiftah Peled.

San Pedro: interferência

No final dos 1960 e início dos 1970 apareceram na Europa e Estados Unidos umas performances femininas (e às vezes masculina, como com Joseph Beuys em seu Coyote) com o corpo humano sendo mostrado em situação de perigo e violência. A idéia era a recuperação, através da dor e do choque, da fisicalidade em um momento em que o indivíduo sentia a perda de valor advinda da Guerra Fria e do que na época era considerado como ameaça iminente, a bomba atômica.

Em San Pedro: interferência, o grupo Alpendre Casa de Arte e Pesquisa recupera o clima dessas performances. O vídeo de 14 minutos fez parte do Dança em foco, um festival de dança filmada em vídeo que ocupou o Centro Cultural Telemar (RJ) no início de setembro de 2006. Nele, uma bailarina dança no espaço destruído de um edifício abandonado, o San Pedro (de Fortaleza), com cacos de vidro e pedras no chão.

A novidade é o vídeo.

San Pedro: interferência

Em um primeiro pensamento, o vídeo afastaria o impacto de alguém que dança sobre vidros com os pés descalços. No segundo pensamento, vem um outro impacto, o de que vivemos, e vemos, hoje, com um olhar-câmera que envolve o mundo em uma granulação estabilizante, que diminui a profundidade do nosso foco e que é o que nos põe no mesmo plano real-irreal do que estamos vendo. O olhar-câmera vai do plano-geral a uma atenção mais próxima, planos médios, em um ritmo não engajado. A montagem segue o mesmo compasso de quem vê aqui, ali, o todo, com um incômodo, sim, mas pouco emotivo. Nós.

O jogo de atenção dirigida versus sensação geral estabelece uma identidade entre o espectador e a mídia que apresenta, recorta e junta os fragmentos de imagem. Mas é mais do que isso, é o próprio fluxo da imagem, aplastrada em sua pouca resolução, que estabelece a identidade com esse nosso olhar que não olha, contemporâneo.

A bailarina dança sozinha na frente de uma janela que dá para o nada. A impressão é de um certo contentamento com esse nada, eternidade bem-vinda para a qual todo o espaço do edifício se dirige: é o único ponto claro. Essa sucção em direção à janela se dá no mesmo momento em que a obra se apresenta como um último signo de memória, da existência física. E também como última possibilidade de linhas sinuosas a se contrapôr aos quadrados rígidos da janela para a qual a bailarina dá as costas e na qual dilui seus contornos.

O vídeo nasceu de uns poemas escritos – e publicados artesanalmente – por Eduardo Jorge, um dos diretores da peça, junto com Alexandre Veras. A coreografia é de Andrea Bardawil.

les pissenlits
les pissenlits

É uma arte física, essa. Você faz o que faz com o sopro, o movimento do corpo, gestos.

Não, não é a arte das cavernas, a argila moldada com a mão, o dedo no sangue para a cor vermelha do dorso do bisão.

É a terceira edição da Bienal Internacional de Arte e Tecnologia, presente em julho, agosto e setembro de 2006 do Itaú Cultural de São Paulo e que teve o título modernoso de Emoção Art.ficial 3.0.

Se você for pensar, o que está lá não é muito diferente de e-mail, com seu perto-longe. É mesmo um lugar-comum quando se fala na linguagem da comunicação computadorizada: nada tão íntimo quanto a mensagem mandada para alguém que não se conhece. Nenhuma comunicação tão oral e direta quanto essa, intermediada e escrita.

É igual. E igual os seus limites, que migram, não mais os nossos, de quem emite a comunicação-arte, mas os da intermediação.

E se não temos os nossos limites (timidez?, pouco repertório?, inépcia?) para nos brecar, ficamos apenas com os da midiatização. Ou não ficamos, já que o que está entre nós, emitentes, e o que emitimos, ou seja, o que está no meio, mídia, é bem amplo, abrangente. Podemos usá-lo sem chegar perto do que seria uma de suas bordas, quando então passará a entrar em algum tipo de looping, ainda que randômico (o caos, aqui, é apenas um algoritmo mais sofisticado).

É a sua atração. Temos a fisicalidade da criação sem o ônus da liberdade. Usá-la seria se arriscar a esbarrar no fracasso (o nosso mesmo, pessoal e intrasnferível), na frustração, no limite, na necessidade de humildemente repetir e repetir até conseguir ultrapassar uma nossa incapacidade.

Esse é o ponto de vista de quem cria-junto, não o do criador da peça, o autor cujo nome se lê na plaquinha – esse com total liberdade, na medida em que domine seu instrumento. Quem não tem o ônus da liberdade mas não sabe disso é você, o que vai lá para interagir, criar-junto. E esse, o ponto de vista de quem cria, ou crê que cria, é um dos pontos de vista instados a emergir, já que as peças são quase todas interativas.

Há o ponto de vista do fruidor e aí a coisa funciona melhor.

Você sopra e a paina se espalha em uma parede que não é mais parede mas ar livre, infinito. É a instalação de Edmond Couchot e Michel Bret, Les Pissenlits (2006). E aí não mais importa que a paina se espalhe de forma perfeita e com x possibilidades de variação, a depender da força com que você soprou os três pequenos cilindros (um para cada face da parede que, formando um U aberto, imita assim uma terceira dimensão). É lindo de qualquer maneira.

Em Messa di Voce (2003), Golan Levin e Zachary Lieberman usam a voz de quem está ao microfone para criar desenhos, padrões de cor. Se são dois (há dois microfones) a falar, cantar ou emitir ruídos, cria-se um diálogo de formas, cores, as duas vozes sendo captadas de forma distinta pelo programa que você esquece que existe.

De uma máquina de escrever antiga, aquelas de modelo alemão, que quem tiver mais de 50 anos terá conhecido, sai um “papel” que na verdade é uma tela fina onde se projetam as letras batidas nas teclas. As letras se transformam em seres vivos a tentar escapulir do “papel”. É Life Writer (2005) de Christa Sommerer e Laurent Mignonneau e é também a materialização do terror de qualquer escritor.

Eden, de Jon McCormack, de 2000, é um jogo de transparências. Quatro paredes translúcidas com registros de pequenas formas primárias e orgânicas a se sobrepôr, formando composições diferentes à medida que você anda na frente delas. As formas fazem lembrar os desenhos do grafiteiro americano Keith Haring e a descoberta do que seria o caldeirão criativo de suas figuras, o eden, o paraíso primordial dos grafiteiros, ou um proto-grafite em ebulição, é uma das experiências mais interessantes da mostra.

Camille Utterback e Romy Achituv apresentaram o Text Rain, de 1999. Letras caem sem parar, projetadas em uma parede. Quando você passa em frente, a sua silhueta refletida na parede impede as letras de caírem por alguns instantes. E elas então formam algumas palavras em volta de seu ombro, cabeça. Você pode ajudar, por exemplo esticando a mão para impedir que alguma outra letra caia. Uma metáfora que quem escreve apreciará, na sua luta constante e perdida para que as letras não caiam em algum abismo e sumam.

O Cheap Imitation (2002) de David Rokeby sai do padrão dos outros. É uma brutal ironia. Ao andar na frente de sua tela-projeção, os movimentos que você faz são decompostos com uma idêntica geometrização da usada pelos cubistas. Eu fiz, não o Braque de Nu Subindo Escada, mas o Braque de Mulher Vestida Passando de Lá para Cá. Não será possível ver os cubistas da mesma maneira depois disso.

Há uma instalação com uma falha de apresentação. Em Thoughtbody Environment Interface (2006), Bill Seaman apresenta, sem interatividade, fluxos ininterruptos de formas abstratas ou quase, junto com uma narração encantatória, hipnótica. O ritmo todo é lento mas um pouco tenso e para quem está na Av. Paulista, sentar ali na frente é uma continuidade, ao mesmo tempo que uma outra possibilidade do que foi vivido até minutos atrás. Pois bem. As legendas com a tradução do que é narrado foram postas em cima das imagens, à la televisão, e sua presença branca e parada quebra completamente o efeito desejado pela obra. Uma pena.

O que dá para pensar, a respeito dessa bienal e de outras mostras de arte computadorizada interativa é que o problema está em uma dicotomia entre o que é arte e o que é computação interativa, no seu aspecto de atividade falsamente livre, não para quem cria o programa mas para quem com ele é instado a interagir. É uma questão ampla, que ultrapassa a arte computadorizada interativa e transborda para a cultura que a gerou. O que de fato, no nosso dia-a-dia, fazemos ou achamos que fazemos, que ação (ou simulacro de ação) é essa que achamos que é nossa, convidados que somos a “interagir” com engrenagens programadas que, de tão amplas, parecem não existir?

Se a arte pode ser medida por sua eficácia de espelho, por seu papel de mostrar o tempo e espaço de sua criação, suas circunstâncias de produção, essa arte aqui abordada é, então, exemplar.

Junto às obras há pequenos textos explicativos, em forma de poemas, cuja autoria não foi especificada pela instituição organizadora. Como exemplo, dois deles. O primeiro é o da instalação de Bill Seaman, o segundo de uma instalação de robôs-cachorros que reagem a sons e gestos, feita em 2004 por France Cadet.

Interação cor purificada
Foca padrões em fluxo
Ações (observadas)
Abstraindo as qualidades
Operativas
Em um novo contexto
[Analogias vivas recombinantes]O discernimento emerge
Sonho milagroso
Intencionalidade das máquinas
[Alcance]

Começou dia 14, em SP, o Festival FILE, mostra de Arte Eletrônica (www.file.org.br).

Chegando ao espaço temos a idéia de que estamos em outro mundo, outra dimensão. Tudo é possível nesse universo de virtualidades reais. Desde a entrada,  a idéia é promover a interação homem/máquina. Em sua 7ª edição, o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, o File, que foi aberto ao público no dia 15 de agosto, acontece na Galeria de Arte do Sesi e Teatro Popular do Sesi, onde os espaços estão sendo ocupados com exposições, perfomances e palestras até o dia 3 de setembro.

São 200 artistas de 30 nacionalidades diferentes, o que reafirma a vocação do festival de apresentar as diferentes tendências da arte eletrônica. Os trabalhos, vários e muito interessantes, variam entre arte na internet, animação e cinema interativo, hipertextos, jogos eletrônicos, poesia digital, música e instalações, robótica e performances.

O mais interessante de tudo isso é que o FILE não é só um espaço de exibições e mostras, se propõe também a ser um espaço educativo. Acontecem, simultaneamente, o FILE Media Art, o FILE Poetry (Poesia), Hipersônica (Música), Hipercinematividade (Cinema), Panoramas (Fotografias), Games (Jogos), Installations (Instalações Interativas), Documenta ou FILE CD – Cinema Documental que é a Mostra Audiovisual e o Symposium. O FILE Symposium apresenta um cardápio fantástico de possibilidades de aprendizagem, com as palestras programadas, que, juntas proporcionam uma ampla discussão e disseminação das artes digitais, tão pouco explorada nas escolas.

São palestras abertas ao público que têm a intenção, segundo os organizadores do evento, de proporcionar diálogos, envolvendo temáticas muito interessantes. No dia 16, quarta, uma bastante interessante, propôs diálogos entre cinema e games. No dia 17, quinta, a “boa” para a área educativa foi assistir a palestra “Usando Mídias Digitais na Construção Colaborativa e Interdisciplinar de Conhecimento”, com Jorge Franco, Roseli D. Lopes, Nilton F. Franco e Sandra R. R. Cruz. Por fim, na sexta, dia 18, imperdível é a fala da Profª. Drª. Val Sampaio, falar sobre imagens, na palestra “São tantas as imagens”. Nos vemos lá, ok?

Ah, e é bom ficar atento aos registros do evento para conhecer as conclusões. Muita gente boa falando de coisas sérias, para quem quer aprender sobre arte. Resultado? Um evento imperdível, certamente!

Informações: Galeria de Arte do Sesi e Teatro Popular do Sesi. Av. Paulista, 1.313, São Paulo, 3146-7405. Abertura para convidados hoje, às 19h30. 3ª a sáb., 10h às 20h; dom., 10 às 19h. Grátis (retirar senhas com antecedência no dia). Até 3/9.

Nem tão moderno, nem tão brasileiro

A primeira característica é a ambientação rural ou os traços rurais de um urbano incipiente. Um locus amenus, estivéssemos falando do imaginário mais literário do que plástico da época idílico-pastoral que antecedeu à modernidade na Europa. Mas é do modernismo nas artes plásticas brasileiras de que trata a Coleção Banco Real (ABN-AMRO) exposta no MAM-RJ e essa é a maior contradição desse movimento que, por aqui, ao mesmo tempo em que se propôs enfatizar a cidade também buscou um “brasileiro” anterior a ela.

A segunda característica é a presença de um pathos, pois não é porque a coisa se passa em uma paisagem “natural” idealizada que vai haver harmonia entre homem e mundo. Pelo contrário, ao estabelecer um cronotopo arcaico e imutável, que não avança no tempo nem procura outros ares, o conflito se dá não só no tema mas também no tratamento do tema, em passagens que vão de um neoclassicismo já considerado velho mas persistente a tentativas de ambientação de um novo ainda mal aprendido. Uma polifonia que perpassa a carreira de vários dos artistas presentes e que, às vezes, pode ser visível em uma mesma obra, dependendo de que pedaço se olhe. Cândido Portinari e seus pés e mãos cubistas que não combinam com o resto do quadro; Manabu Mabe em um figurativismo surpreendente para quem gosta de suas manchas de cor; Di Cavalcanti a meio caminho entre um equilíbrio entre os campos cromáticos e sua aversão a qualquer disciplina; Flávio Shiró a pintar com ares de floresta tropical o Parque D. Pedro II, que fica no meio de São Paulo; ou ainda Cícero Dias e vários outros que se seduziram pelo realismo social da época.

Esse conflito se soma a um outro, o do erotismo, presente mais aqui do que em outras praias mas que, aqui ou além, vem sempre assolado, no modernismo, por resquícios de culpabilização judáico-cristã e por uma assertiva do poder masculino. (Ambos esses aspectos iriam sumir depois, na arte contemporânea e mais rápido sumiriam por aqui, onde preocupações morais não são o forte.)

Mas apesar disso tudo, assim como o pastor europeu pré-moderno, o pintor modernista brasileiro também não é o que aparenta. Parece se preocupar com um “brasileiro”, ovelha para lá de desgarrada, mas de fato, como o pastor que é sempre um poeta disfarçado, ele tem como ocupação principal a linguagem artística. Assim, apesar dos equívocos, é possível ver as questões próprias da arte, seus materiais e seus processos, como o tema principal que surge aos poucos, à medida que o visitante se aproxima da segunda parte da exposição, a que trata dos neoconcretos e abstracionistas informais.

Nem tão moderno, nem tão brasileiro

Não que isso proteja esse grupo das características anteriores, tão nossas. A horizontalidade de uma paisagem não formulada está lá na obra de Fayga Ostrower, um idílico perturbado explica os títulos de Farnese de Andrade (Êxtase, Sonho). E Iberê Camargo é todo pathos em seu Equilíbrio que tem tudo menos equilíbrio entre suas grossas pinceladas.

Assim, ao subjetivar o que deveria ser objetivo – da paisagem à geometria; ao idealizar um arcaico abrangente unindo cidade e campo em um não-tempo que só poderia produzir conflito; ao exacerbar e depois abandonar um pathos erótico masculino e “pecaminoso”; e principalmente ao descobrir, entre desvios, a própria arte como tema, o modernista brasileiro sai dessa exposição apto a ingressar na contemporaneidade, mas levando pouca bagagem. O que é ruim mas também foi bom. Sem a mala sem alça de uma tradição rígida, a viagem se fez mais rápida.

Malu Fatorelli

Lá pelas tantas, quando fronteiras de um modo geral – de gêneros, países ou cânones – se tornaram tênues, a arte, questionada pela sua similaridade com a não-arte, passou a pensar a respeito de seus próprios processos e conceitos.

Mas é claro que, aqui também, na história da arte, não há fronteiras fixas e a preocupação com o fazer e com o material já vinha desde sempre, bastando, para ver isso, puxar esta diacronia.

Malu Fatorelli puxa.

Malu Fatorelli

Ela ocupou uma das salas do Parque Lage, em julho, com o que poderia ser a continuação de um libelo, fôssemos nós franceses e os hábitos os do século XVII ou quiçá do XVIII.

Pois o Parque Lage, escola carioca que é o berço de tantos artistas contemporâneos, se tornou conhecida pelo movimento chamado Geração 80, de pintores que tinham na cor e no volume os instrumentos maiores de sua expressão. E Malu traz para este núcleo de coloristas a sua arte de arquiteta e desenhista. Tipo Nicolas Poussin versus Rubens ou, cem anos depois, Ingres e Delacroix.

Ela é Poussin e Ingres. Fosse Rubens ou Delacroix e em vez de lápis estaríamos vendo bolotas de tinta, talvez o próprio tubo incluído na formação concreta, material, da obra.

Fosse Rubens ou Delacroix e sua arte não causaria maior choque, já que a exposição do material, do concreto, quando se trata de tinta, cor e volume, já é coisa antiga, velha mesmo. Mas lápis?

O resultado é um desenho de traços (as sombras dos lápis no gesso onde eles se enfiam) que muda ao mudar a luz e a posição do espectador, ao mesmo tempo em que leva a não-ficcionalidade, a imposição ética de mostrar a fatura, até as últimas conseqüências: é assim que é feito, e é este o instrumento que tradicionalmente seria usado para fazê-lo e que ainda o é, mas de outro modo, com ele presente e não mais sombra de um gesto que se pretende genial e inalcançável.

Esta presença física dos lápis requer mais um comentário, que nos remeterá a uma das quebras de fronteiras de que falávamos, a dos gêneros. Pois os lápis são fálicos, agressivos, voltados com suas pontas para o espectador, são muitos, a atirar tiros de grafite. E no entanto, o desenho, a frágil trama dos traços, criada pelo luz e pelo movimento, recupera um fazer abrangente, includente (o desenho se espicha, busca mais espaço do que de fato ocupa) não mais lógico mas analógico, nem um pouco certeiro ou autoritário.

Acontece o maior tititi no mercado de artes plásticas: Um artista japonês chamado Yoshihiko Wada, conhecidíssimo, foi acusado de nada mais nada menos que plágio. E logo de Alberto Sughi.

Alberto Sughi
“Piano bar”, de Alberto Sughi, 1996.

Yoshihiko Wada
“Muso”, de Yoshihiko Wada, 2004

Alberto Sughi me enviou o texto a seguir por email, que reproduzo na íntegra.


The following is a statement from Alberto Sughi where he expresses his views on the story seeing Japanese artist Yoshihiko Wada accused of having won broad recognition at home by having plagiarised Alberto Sughi’s work.

“I was informed, at first by the Japanese embassy in Rome and then directly by officials from Tokyo, of an investigation by the Agency for Cultural Affairs of Japan on accusations brought against Japanese artist I oshihiko Wada. Wada, who was recently awarded an important Education Minister’s prize, is accused of having plagiarised my work. Through an examination of the catalogues and photographs presented to me, I was able to verify that most of Wada’s work is an exact copy of my paintings. I was very disturbed.

This gross plagiarism violates the rights of the artist as sole owner of his image: a very serious offense under international law, which Wada perpetrated to obtain considerable personal advantages.

At the same time I consider all the relevant committees have acted carelessly by giving credit to a plagiariser who has ultimately defrauded them too.

The entire episode must have caused a sensation when you consider that I have been literally surrounded by media, journalists, from Japanese radio and television for the last couple of days!”

Alberto Sughi
Rome 30 May 2006



La seguente e’ una dichiarazione di Alberto Sughi sulla vicenda che vede l’artista giapponese Yoshihiko Wada accusato di avere vinto ampio riconoscimento in Giappone avendo plagiato il lavoro di Alberto Sughi.

“Prima l’Ambasciata giapponese a Roma ed in seguito un ispettore arrivato direttamente da Tokio mi hanno informato di una inchiesta in corso sull’accusa di plagio che l’ artista giapponese Ioshihiko Wada, recentemente insignito di un importante premio ministeriale, avrebbe commesso nei confronti della mia opera di pittore.

Attraverso il catalogo e le fotografie che mi sono state presentate ho potuto appurare, con vero sconcerto, che la maggiore parte delle opere di Wada sono una copia assoluta di miei quadri.

Questa impressionante operazione di plagio si configura come un reato che lede il diritto di immagine che è di esclusiva proprietà dell’autore, un reato che il diritto internazionale considera molto grave e che Wada ha commesso ottenendo considerevoli vantaggi personali.

Ritengo nello stesso tempo che gli organi di competenza abbiano abbiano commesso una grave leggerezza nel dare credito ad un plagiatore da cui sono stati a loro volta frodati.
La questione deve avere suscitato grande scalpore se è vero che da alcuni giorni sono assediato da agenzie , giornalisti e televisioni giapponesi.”

Alberto Sughi
Roma 30 Maggio 2006



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Algumas notas selecionadas da imprensa:
http://mdn.mainichi-msn.co.jp/national/news/20060529p2a00m0et015000c.html
http://www.gaijinpot.com/read_news.php?id=7012
http://nyartsmagazine.com/pages/nyam_document_p.php?nid=620

O grupo Inter Referências (Emne Al-Haje, Lilian Pedroso, Sonia Távora e Teresa de Oliveira Santos) fez uma intervenção urbana que consistiu em estender um tapete vermelho no caminho para o mar da praia de Ipanema, na mesma semana em que duas grandes campanhas publicitárias (TAM e Itaú) também usaram tapetes vermelhos, neste caso para vender produtos.

Tapete Vermelho Tapete Vermelho Tapete Vermelho

intervenção urbana do grupo Inter Referências

Na antropologia, há uma maneira tradicional de classificar sociedades. Elas seriam sociedades baseadas na troca de presentes ou sociedades baseadas na troca de mercadorias. A passagem de presentes para mercadorias seria a passagem do arcaico para a modernidade.

E é a hora de dizer: se não vejamos – e apontar para algum quadro-negro.

Inter Referências

Pois nada mais didático do que a desestabilização conseguida pelo grupo de artistas. Na recepção cautelosa, indiferente ou contestatória dos passantes, ficaram claras as diferenças entre publicidade e arte, e as semelhanças entre sociedades arcaicas e a nossa.

São elas:

  • a legibilidade da intervenção se deu inserida no tempo presente: outros tempos e o tapete vermelho seria entendido de outro modo, com uma carga de nobreza talvez maior do que sua banalização pela publicidade permite hoje;
  • a legibilidade da intervenção se deu de forma dialética, oscilando entre a obsolescência e ressignificação do símbolo “tapete vermelho”: o não dar importância gerava um estranhamento pelo não dar importância;
  • a legibilidade da intervenção foi específica do seu espaço: a areia em volta aos poucos desmanchou o limite tapete-não tapete, inserindo um outro tópos, o do segredo – não tem valor porque não se nota, tem mais valor porque requer esforço para ser notado;
  • a legibilidade da intervenção foi instável ao longo do tempo em que ficou instalada e incluiu uma possibilidade de transformação até mesmo no seu futuro: como “fantasma”, lembrança incrustada no local por um tempo ainda, depois de seu desmanche;
  • o tapete foi vivido como uma área protegida, especial, e também, como seu contrário, uma área de inquietação, de entrada no desconhecido: atravessá-lo, em um caso como no outro, requereu uma decisão – visível na hesitação dos passos;

Tapete Vermelho

  • o tapete foi vivido como uma área de passagem; como uma fronteira que, uma vez transposta, permitiria a entrada em um outro espaço e tempo: entrada no mundo ritualizado da cultura e saída do mundo “natural” da praia, e entrada em um outro tempo de salões e palácios com tapetes vermelhos;
  • uma troca de mercadorias se dá sem envolvimento emocional entre os participantes que são indiferentes ou desconhecidos e se mantêm assim uma vez o processo terminado: “no strings attached”.
  • uma troca de presentes exige envolvimento emocional entre os participantes, se não anterior, pelo menos posterior ao processo: “temos uma relação”.
  • o tapete dos artistas deixou claro que não há presentes “puros”, isto é, sem inserção em algum código social que suponha – e imponha – uma contrapartida em gratidão, compensação em atos amistosos ou retribuição em valor igual ou parecido e isto provocou insegurança: o que terei de dar em troca se eu aceitar a possibilidade de andar sobre este tapete;
  • e o tapete das empresas também deixou claro não há mercadorias “puras”, isto é, que não gerem algum tipo de excesso, de sobra; estes resíduos, reintegrados automaticamente pelo capitalismo, são essenciais para o funcionamento do sistema, daí a tranqüilidade com que os personagens das imagens publicitárias recebem o “tapete”: nada terei de dar em troca, é natural que o mercado me ofereça um bônus de vez em quando.

Resumindo: arte desestabiliza, publicidade tranqüiliza.


Tapete Vermelho Campanha publicitária da TAMTapete Vermelho Campanha publicitária do Itaú

Juntar Arthur Bispo do Rosario a outro nordestino universal, Ariano Suassuna, sempre pode provocar algum risinho. Um era louco reconhecido, o outro o é menos. E aí a discussão envereda sobre onde passar a linha que dividirá uma arte feita com este propósito e outra, com outros. E mesmo aí a coisa complica, pois será difícil estabelecer o propósito conceitual independente das iluminogravuras, as imagens que cercam e formam os textos do dramaturgo e escritor que leva estes títulos com segurança até a Academia de Letras. O quanto de autonomia haverá na ilustração de uma idéia. E o quanto de ilustração de uma idéia haverá na arte do outro, aquele cujos únicos títulos eram os imputados por seus colegas de hospício. Pois se ambos tinham nas letras e nas linhas uma só unidade.

E, mais um enrosco. O propósito do produtor não determina a recepção de sua obra. Feitas ou não com a consciência que define o artista, as artes – de um e outro – são recebidas como tal, à maneira de tantas outras, de outros tempos e lugares, mágicas, utilitárias ou laudatórias, hoje experimentadas sem tais adjetivos.

O caso é que ambos, mais do que nos dar sua visão de mundo, nos criam um. O mesmo, ou quase.

Um conceito determinante, o poder

Se um formou um exército de bons, listando seus nomes no Manto da Apresentação que seria apresentado a Deus no dia do Juízo Final, o outro formou, em suas iluminogravuras, uma coleção de escudos de armas, uma dimensão heráldica, a partir de contos populares nordestinos. O viés visionário, como sói acontecer, não exclui o gozo do roçar no poder, e se Bispo era o “xerife” da ala Ulisses Viana da Colônia Juliano Moreira, Suassuna foi nomeado em 1995 Secretário Estadual de Cultura pelo Governador Miguel Arraes. Gozo e dor, ambos vítimas tanto quanto agentes. Um, negro e louco, enfrentou as violências de um sistema, explicitadas pelo dr. Rodrigues Caldas, diretor da Colônia, que disse em seu discurso inaugural de 1920 estar pronto para lidar com “os delicados problemas atuais de higiene e defesa social pertinentes aos deveres do Estado para com os tarados e desvalidos de fortuna, do espírito ou do caráter, para com os ébrios, loucos e menores retardados, ou delinqüentes e abandonados, assim como para com os indesejáveis inimigos da ordem e do bem público, alucinados pelo delírio vermelho e fanático das sangüinárias e perigosíssimas doutrinas anarquistas ou comunistas.”

Era esse o ambiente que não conseguiu prender Bispo.

Suassuna, Bispo e o 16 de junho

Em carta a um médico psiquiatra, em 1945, Bispo diz: “o eletrochoque faz de mim um ausente que se sabe ausente e se vê durante semanas em busca do seu ser, como um morto ao lado de um vivo que não é mais ele.”

Suassuna enfrentou as violências de outro sistema, o do código de honra nordestino, que o fez órfão e que o destinava a uma luta de sangue, não fosse a mãe, que saiu da Paraíba com ele e seus irmãos para evitar a continuação da briga com a família de João Pessoa. Ao escrever, ambientou sua obra na ditadura Vargas (anos 20, 30) e escolheu publicá-la na ditadura militar (o Movimento Armorial nasceu em 1970, governo Médici). Caçoou de ambas.

Ele também.

Suassuna, Bispo e o 16 de junho

Mas na comparação entre vida e obra dos dois, há apenas o aspecto mais superficial da questão do poder e, na gênese da criação, o que mais os une. Pois em ambos, embaixo da aparente estética militarizada ou quase, há a recusa a um poder que seria deles por direito, o da autoria.

Tanto em Bispo quanto no Romance d’A Pedra do Reino, o processo é o do diálogo com o entorno, o da assemblage. Ninguém menos autoritário do que o artista que pega textos de outrem, os seus próprios, novelas, contos, poemas, folhetos de cordel, monólogos dramáticos, diálogos filosóficos, crônicas de época e os junta com desenhos, gravuras, que pinta e repinta, uma a uma. E que depois reescreve e repinta, tudo, vezes e vezes, sem acabar nunca.

Ou o que pega canecas, sapatos, roupas desmanchadas em fios de linha, textos, listas de nomes e os junta com desenhos figurativos, decorativos e transforma tudo em símbolos. E pega mais e mais. E não acaba nunca.

Suassuna, Bispo e o 16 de junho

Há um nome para a visualidade-texto de Bispo ou para o texto-visualidade de Suassuna: teatro. Tudo que está lá pode ser entendido como o que resta de uma encenação de teatro que não chegou a ser vista ou que se verá um dia. Em Bispo, são figurinos, uns poucos textos, cenários aos pedaços. O Tudo nunca completo que aponta para um Todo bem maior do que a soma das partes – no otimismo intrínseco dos inventários: o sentido existe, só está mais além. Assim, não se deve ver um estandarte bordado, ler seu texto, ou apreciar os pequenos barcos como objetos autônomos. É uma estética do acontecimento, do provisório, nada a imobiliza em “obra-prima”, partícipe que está de um processo sem fim de rebordagem e acréscimos.

O mesmo em Suassuna, na sua realimentação sem fim entre o oral e o escrito. Para entrar no universo armorial, e também no universo católico pouco ortodoxo de Bispo, há que se dialogar com uma herança católica que é a nossa, mesmo se não formos católicos, pois a História, pois é, não acabou.

Suassuna, Bispo e o 16 de junho

Para Bispo, o Outro de seu diálogo deveria responder a uma pergunta:

“De que cor você vê a minha aura?”

A resposta certa era “azul”, e ele poderia perfeitamente retrucar, como o Quaderna de Suassuna:

“Tudo apontava o Sol: fiquei embaixo,
na Cadeia em que estive e em que me acho,
a sonhar e a cantar, sem lei nem Rei.”

Mito, sempre tão chato

O arquétipo junguiano – que quis com este conceito ultrapassar os aspectos mais estreitos, biográficos, da observação freudiana – pode ser visto como uma leitura do mito, este dado universal idêntico para todos os indivíduos. Arquétipo evoca algo primário, arcaico. Mas o elemento cultural, social, determinará a atualização específica do mito. Nenhum mito tem uma forma definitiva, acabada, ele não é autêntico nem será anacrônico: há o vocabulário básico, transmitido no tempo, e seus códigos de interpretações, que mudam, e que farão com que o mito traduza características da sociedade onde ele se encena. Melhor: traduza características que não estão na sociedade onde ele se encena.

E aqui entra a ambigüidade entre o conservadorismo e papel revolucionário de Bispo e Suassuna. A encenação de um mito tem um papel revolucionário. O caráter insólito, de não-pertencimento a um tempo determinado, é um tipo de aviso que o povo dá ao poder, perturba-o, aponta e acentua fissuras da cultura estabelecida. Se o mito é uma explicação do mundo e de seu funcionamento, que abrange a totalidade dos seres e das coisas, sua encenação não é uma explicação mas uma ação. Há sempre uma ameaça latente. Pois mitos preferem histórias onde há interditos transgredidos. É sempre um esforço humano em mudar a ordem estabelecida e estabelecer outra coisa em seu lugar. Traz, sempre, uma diáletica do poder. Encena um passado – ou um futuro – e, ao fazer isso, desmitifica o poder do presente.

Suassuna, Bispo e o 16 de junho

O que caracteriza a arte realista é ser uma ficção que se nega a si própria, ao tentar impor uma mimese como a coisa em si. Fundamentalmente reacionária, não? O tratamento mítico do espaço, por outro lado, em sua ambigüidade de estar ao mesmo tempo dentro e fora da geografia e da História, longe da realidade do entorno mas cheio de indícios dela, desestrutura o referencial do participante da encenação e o induz a assumir uma atitude de disponibilidade para pensar o impensável.

Walter Benjamin: “não se trata de assenhorar-se de experiências terríveis e primordiais através de um amortecimento gradual, seja pela invocação maliciosa ou pela paródia; trata-se também de saborear repetidamente, do modo mais intenso, as mesmas vitórias e triunfos.”

Em vez de refazer um mesmo caminho determinado por outrem, ao ver-ler e ler-ver Bispo e Suassuna, é a ausência de centro, com tudo o que isto significa, o que nos bate. Dizemos, distraídos: bonito, e quanto trabalho. E temos vagas lembranças de carnaval.

Pois são estas, as lembranças (umas citações de A Moça Caetana e A Pedra do Reino):
“Salve o que vai perecer: O efêmero sagrado, as energias desperdiçadas, a luta sem grandeza, o heróico assassinado em segredo. O que foi marcado de estrelas – tudo aquilo que, depois de salvo e assinalado, será para sempre e exclusivamente seu.”

“O enigma permanece. O silêncio queima o veneno das serpentes e, no campo de sono ensangüentado, arde em brasa o sonho perdido, tentando em vão reedificar seus dias, para sempre destroçados.”

E:

“Na arte, a gente tem que ajeitar a realidade.”

Um pouco de biografia

Bispo nasceu em 1911 ou 1909, ninguém sabe. Foi em Japaratuba, Sergipe, que ele chamava de Missão Japaratuba, o nome antigo do povoado, uma ex-colônia religiosa. Dizia, sobre a data, “um dia eu simplesmente apareci no mundo.”

Quaderna, o personagem de Suassuna, nasce em 16 de junho, a mesma data de Suassuna e a mesma data em que transcorre a ação do Ulisses, de James Joyce. E sobre isso, Quaderna fala: “ah, ele pôs esse dia porque já estava me prevendo.”

Suassuna nasceu em 1927 no Palácio da Redenção de João Pessoa, nome que ele jamais irá pronunciar preferindo, como Bispo, o nome antigo da cidade: Cidade de Nossa Senhora das Neves. Suassuna tem uma antevisão do mundo que iria criar, quando conhece A Pedra do Reino, em 1966. O local, em São José do Belmonte, divisa entre Pernambuco e Paraíba, é desde 1993 sede de um ritual repetido anualmente, a Cavalgada. Em Japaratuba, o ritual mais marcante é o do Dia de Reis. Ambos, o de Suassuna e de Bispo, de origem ibérica e religiosa.

Sinaleiro da marinha, pugilista, “faz-tudo” da rica família Leone e artista (post mortem) da Bienal de Veneza em 1995, graças a um esforço descobridor que teve início em 1989, com o crítico Frederico de Morais, Bispo viveu 50 anos confinado na Colônia Juliano Moreira criando “os registros de minha passagem pela terra”. Suassuna, ocupante da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, criou o personagem Quaderna, um preso que registra frases, conhecimentos que não passam, retornam.


nota da editora: Elvira enviou este artigo no dia 14 de junho bem cedo. Por motivos óbvios optei por publicá-lo 2 dias depois.


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Nam June Paik

Nam June Paik teve em maio, no Centro Cultural Telemar (RJ), o que foi a mais completa retrospectiva desde sua morte, em 29 de janeiro de 2006.

De todas as obras, cobrindo 40 anos de convívio com a arte contemporânea e de debate com as questões da linguagem audiovisual, escolhi a meia hora que ele dedica a Charlotte Moorman, a ‘topless cellist’, sua amiga e colaboradora. Neste vídeo, há pedaços de um outro, anterior, o Tribute to John Cage. E, nele também, a passagem entre documentar uma arte de colagem, de acúmulo, e vir a fazê-la ele mesmo, como no Analogue Assemblage, de 2000, o mais recente.

O que esse vídeo, ainda de 1995, pergunta é até que ponto o documento de uma performance pode ser, ele próprio, uma performance. Em Topless cellist, Nam mantém uma bem comportada cadência de entrevistas com professores, colegas e companheiros de Charlotte, alternando com registros de suas performances. Ela tocava nua, com dois pequenos televisores no lugar dos seios; tocava coberta de chocolate (Chocolate Cello, direção de Jim McWilliams); tocava pendurada vários metros acima do palco (Sky Kiss, de Otto Piene); tocava com um homem no lugar do violoncelo. Sobrepunha efeitos de espetáculo, acumulava incitações sensoriais.

Parte destas idéias era comum a Nam, como o uso concomitante de vários televisores – presente em diversas de suas obras. Nesse vídeo mesmo, ora Charlotte tem televisores à guisa de sutiã, ora é Nam que, na edição do vídeo, ‘recorta’ dois círculos no lugar dos seios, onde mixa outras imagens filmadas da mesma performance, telas auxiliares.

Em quase todo o vídeo, contudo, seu enquadramento e montagem são os da neutralidade – em um papel de testemunha e não de colaborador. Mas, em dado momento, Charlotte, em um palco, antes de começar sua performance, pede ao maestro já posicionado que chame Nam. Pede insistentemente e completa;

“Não me mexo enquanto Nam não vier.”

Dono da interpretação, da imagem da performance que iria acontecer – muito mais do que agente de sua reprodução mediatizada – Nam neste momento se mostra como integrante do fazer artístico. Charlotte precisava dele, de seus olhos, para poder se ver do outro lado do palco, que é o lado que conta, o do fruidor/participante.

Charlotte Moorman

Além disso, o vídeo aborda a questão de algo que, sendo uma reprodução, mostra uma irreprodutibilidade. Não é possível, ao ver o vídeo, viver o que foi vivido naquela época e naqueles palcos, as mulheres com jóias e penteados cuidados, na platéia chique de uma Nova York que usava a vanguarda como diversão de salão.

Mas já quase no final do vídeo, depois de mostrar a artista doente de câncer, Nam adota uma série de imagens muito rápidas. Nesta hora, ele usa, na linguagem audiovisual, o correspondente do que Cage usava em seus sons acumulados e do que Charlotte usava, em sua proliferação de estímulos sensoriais. Tanto quanto eles, Nam desestabiliza os indícios do real e suas convenções de percepção.

Cage, amigo pessoal de Nam, fez com sua música a trilha sonora de um capitalismo estridente e otimista. Seu Concerto para 12 Rádios é o melhor retrato crítico de uma sociedade que queria tudo.

Na apropriação concomitante de registros que estes artistas fizeram, cada um com seu instrumento, o resultado é um só: a imagem informe de uma arte que escolhe combater do lado de dentro as suas condições de reificação.


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No dia 20 de maio de 2006, sete da noite, aconteceu uma performance do Tunga num galpão do estacionamento do Jardim Botânico do Rio, o recém-inaugurado Centro Tom Jobim. Estava cheio e aqui vem uma dificuldade para continuar a frase. O hábito é dizer/pensar, cheio de gente que foi assistir. Mas não é isso. Ninguém assistiu a nada. Ou não só.

A recepção e a produção da arte aconteceram ao mesmo tempo e, aliás, só porque havia gente paca. A possibilidade de haver um momento artístico, isto é, de alguém dar uma parada e sentir/perceber/entender alguma coisa que fizesse a diferença entre o que esta pessoa era antes, o que ela achava que o mundo era antes – e depois, só poderia acontecer com gente paca. (A questão de dar uma parada, tomar o tempo de se permitir sentir/perceber/entender é uma coisa de que eu falo com freqüência e é um dos motivos de eu gostar tanto de arte contemporânea. Ela é um breque contra o consumo, a rapidez, a superfície. Se você não der a tal parada não vai nunca entender nada, ganhar nada da arte. Dar uma parada é tudo que produtores de lixo não querem que você faça. Vai que você vire inteligente e pare de consumir as imagens que neguinho te empurra, mil a cada esquina, vitrina, tela.)

No Laminadas almas (o nome da exposição do Tunga) não éramos assistência, mas atores de nós mesmos, tanto quanto os sapos e moscas que nos olhavam, da mesma maneira como olhávamos para eles e para os sete dançarinos com asas de mosca e pulos de sapo; os artistas (Thiago e Matheus Rocha Pitta) que fingiam ser cientistas olhando moscas por um microscópio; e mais um baterista que fazia o som repercutir em vidros de laboratório alinhados perto do seu instrumento.

Tunga - Laminadas almas Tunga - Laminadas almas

A idéia de sermos atores, além de componentes da assistência, foi induzida por duas maneiras. Primeiro havia a presença de bengalas, luvas e abajures, elementos cênicos de um jogo social deslocado no tempo. São um pouco antigos, um pouco distantes, fazem parte de um cenário possível se fingirmos ser o que de fato já fomos ou seremos, no próximo sarau, jantar fino. A segunda maneira é porque – como os dançarinos e artistas cientistas estavam misturados a todos nós, e como eles exerciam uma ação determinada, um script – éramos levados a caminhar os passos que caminharíamos de qualquer maneira, por entre moscas e sapos (eles também seguindo o seu script de um comer o outro e virar pele de bolsas e luvas), conscientes disso, nós também seguindo um script que inventávamos, um pouco na brincadeira, um pouco inseguros, a cada passo: iríamos ali para aquela sala ou nos deteríamos um instante na bateria? Muito bem bolado.

E agora um problema que não é bem um problema mas faz parte da própria gênese da arte que aconteceu naquele dia. Ela não era um produto, ela aconteceu. A exposição (composta pelos objetos e as gaiolas de moscas e sapos) ficou por lá para quem quisesse entrar e ver, tipo exposição mesmo. E aí, quem foi no dia seguinte, ficou só com uma metáfora – a da transformação de moscas em sapos e em luvas. Claro, transformação tem a ver com arte mas, em comparação com a performance da abertura, é bem pouco. Há uma brincadeira de internet, um decálogo para que as pessoas aprendam a escrever.

O primeiro ítem é relativo a metáforas e diz: fuja das metáforas como o diabo da cruz. É como deve ter se sentido o sujeito que foi ver a exposição nas horas mortas que se seguiram à performance: dentro de uma metáfora e querendo fugir dela.