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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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11/01/2012

Art contemporain d’inspiration islamique

A exposição era a “Art contemporain d’inspiration islamique”, reunindo artistas premiados pela edição 2011 do Prêmio Jameel. Estava no Institut du Monde Arabe de Paris.

Não fui.

E agora vou dizer o porquê.

Porque arte, contemporaneidade e islamismo me soam mal quando em uma mesma frase.

Explico.

Vou começar dizendo como entendo a contemporaneidade. E por qual caminho a entendo do jeito como a entendo: meu caminho é a observação da arte. Das artes. Elas sempre estão láááá na frente. O que vejo nas exposições a que, sim, vou, e também nos livros que leio e nas músicas que escuto é a assumição do frágil, do efêmero, do que não segue em uma linha reta de antes e depois. Pode ser o artista visual brasileiro a usar um pauzinho torto, uma madeirinha de caixote. A literatura que termina antes do “fim” de uma trama que, aliás, também não tem uma explicação de começo, e que é a literatura feita por tanta gente que não vou nem dar nomes. É a música do Chelpa Ferro a incluir liquidificador e outras banalidades cotidianas que o fruidor irá continuar a ouvir assim que sair na rua ou chegar em casa. O balé do Teatro Carlos Gomes de Salvador, que ridiculariza as grandes narrativas do balé clássico ao fazer gente comum contar sua vida – e dançá-la.

Falei de artistas brasileiros. Tanto quanto islâmicos, “brasileiros” também estão nas margens há muito tempo. Pode me chamar de Polyanna. Mas acho que, com um pouco de sorte, as margens dessa vez não seguirão o destino – determinado pelo centro do poder para todas as margens – e que é a de aspirar ao poder.

Todo mundo sabe disso, da importância enorme das margens. Desde Asimov, pelo menos. O caso é que o moderno não caiu igual em todos os terrenos. Os das margens o receberam mal, pouco, só fingiram que sim. Então temos todos, islâmicos ou não, a permanência – cada um de um jeito e em um grau diferente – do arcaico.

Só que.

Num primeiro nível, digamos pouco sofisticado, a manutenção do arcaico se dá através de símbolos. Você se veste de determinada maneira, igual a séculos, para uma situação ritualizada e às vezes até no seu dia-a-dia. Você come uma mesma receita, e a faz igualzinho à sua avó. Tem objetos determinados em lugares determinados de sua casa. Faz gestos esquisitos ao passar em frente a edificações com teto em formato de torre. E representa tudo isso na arte que você faz.

Num segundo nível, você mantém esse arcaico (e, presta atenção: não estou criticando a manutenção do arcaico de jeito nenhum, como aliás você vai ver daqui a pouco) através de seus processos. Então, esse segundo nível de manutenção do arcaico ressalta o interesse que há em processos diferentes daqueles exercidos pelos grupos detentores do poder. Em geral os processos assim estudados são os de trabalho e os sociais. Você, por estar nas margens, produz coisas (incluindo aí a produção estética) e se relaciona com seu grupo (incluindo aí a fruição estética) em um tempo compartilhado e provavelmente mais lento – e ao mesmo tempo mais “rápido” do que o tempo estipulado como satisfatório pelo grupo dominante. Mais lento porque você vai ter u ma manufatura menos mediada por instrumentos. E mais “rápido” porque esse fazer está integrado na sua vida. Você não separará um tempo especial para fazê-lo ou frui-lo. É uma estética que está no calendário da cozinha. Você faz, junto com outras coisas.

São símbolos e processos o que sempre aparece quando se fala da eventual vantagem da manutenção do arcaico como alternativa a uma modernidade para lá de capenga.

Mas eu radicalizo. Para mim, a importância das margens está num terceiro nível. Ou em nível nenhum, de tão raso: a importância das margens é simplesmente a de ser margem, a de estar fora do poder, não exercê-lo. E, como eu disse polianamente, talvez pela primeira vez na história da humanidade nem queira exercê-lo.

Saindo do campo da arte, o que não devo fazer, mas vou fazer. Rapidinho. Os protestos árabes. Qual foi a crítica? Ah, mas eles não sabem o que querem. Só quem não consegue conceber que alguém não queira o poder pode achar que eles não sabem o que querem. Sabem. Querem distância, não o querem para si, não têm planos para isso. Não gostam do poder. Querem que o poder acabe. Por assim dizer, claro, porque tensão é sinônimo de vida. Mas um poder pulverizado (à la internet?) talvez seja o modelo.

Os que protestaram se parecem com os artistas contemporâneos. Os melhores, pelo menos. De ambos os grupos.

Então, voltando à exposição que estou cobrindo sem ir.

Falei da contemporaneidade e, de lambuja, da arte. Faltou o islamismo.

Não fui à exposição enquanto eu estava em Paris por conta do evento “Literatura brasileira contemporânea”, na Sorbonne. Veja só, os termos são quase iguais. À primeira vista, simplesmente iguais. A diferença, enorme, é que “brasileira” aí é uma palavra usada em sentido funcional: trata-se da literatura que está sendo feita e, desejamos todos, também consumida através da cadeia de produção existente no Brasil. Não há na cabeça de ninguém uma especificidade de brasilidade, ou algo do gênero, que possa ser defendida a sério. Já a palavra “islamique” do título da exposição supõe uma essência. Algo imaterial e intemporal que faz com que aquela arte, feita hoje, se veja como islâmica, ou seja, pertencente a uma tradição que se apresenta como antiquíssima. E aí eu acho que o artista tem de escolher: ou é contemporâneo (com a fragilidade de um presente instável, falando de uma experiência pessoal e não grandiosa, com uma obra em aberto) ou é islâmico (com a força de um passado estabelecido, falando de uma experiência grandiloquente e grupal, com uma obra de significação claramente indicada, fechada). Ou, se quiser ser ambas as coisas, não será artista. E não será artista por causa da lição de Velásquez: você não mente criando. Mente na vida. Negocia. Mas não criando. Velásquez era amigo do rei, maneirava com a igreja, uma vaselina só. E fez muito bem, a Inquisição comia solta. Mas na hora de pintar, todo mundo ficava com aquela cara horrorosa mesmo . E o Conde de Olivares virava quase uma caricatura do poder: corpo enorme, cabeça pequenininha.

Então não fui por isso. Porque o título não fazia sentido.

Tem mais uma coisa. Qual é o problema, certo? Ok. Tenho horror a religiões. Para mim, é o começo de tudo de ruim: totalitarismos, certezas absolutas, dualidades tipo branco e preto, para não falar das linhas retas do modernismo, que são de matar. Mas isso sou eu. Qual o problema? Você, por exemplo, é diferente de mim, e gosta. E aí entra um lance pessoal. Sou mulher. Totalitarismos, certezas absolutas, dualidades e linhas retas são sinônimos de machismo. Assim: um determinado grupo nas margens resiste (e insisto, é muito bom que resista) às incursões do poder dominante, venham elas por sedução (o consumo, a propaganda) ou força (as leis de Jean–Marie Le Pen). Adivinha onde em geral fica esse “território” etéreo cuja posse se disputa? Acertou. O corpo feminino. Entram com a burka à força, tiram a burka, também à força.

Um adendo quanto ao argumento de que mulheres querem a burka. Não sei se querem. Vamos supor que queiram. E que só umas loucas não queiram e se não usarem são atacadas, presas, apedrejadas, sei lá. Vamos supor. Leve em conta o seguinte: quem nunca foi visto, reconhecido como existente, tem a tentação enorme de resolver sua não-identidade assumindo a não-identidade como identidade. Eu não existo? Ótimo, agenciarei minha não existência. Serei aquela que não existe. Resolvido o problema. E se, ao não existir, eu incomodar alguém, melhor ainda, fica só perfeito. É chato citar Lacan, mas não tem outro jeito. Não tem nada pior do que você trair o seu desejo para satisfazer o desejo do outro. Vestir burka é o que o outro quer, principalmente quando ele diz que não quer. Ele também só existe porque diz que não quer. Ele é aquele que não quer a burka. É um jogo.

Estou fora.

Vejo todos os dias a saída do impasse expresso pelo título da exposição a que não fui. Está, por exemplo, nos narradores que foram tema da minha palestra no evento sobre literatura brasileira contemporânea. O personagem, em sendo o personagem-narrador, existe, ainda que por um nanossegundo, antes de abrir a boca (ou escrever a primeira palavra). Ele será, por assim dizer, “islâmico”, pois constituído necessariamente por um passado. Mas o que este passado lhe dá é apenas um ponto de vista. Dará talvez um símbolo ou dois que façam parte de seus hábitos de vida. Uns afetos e uns processos particulares, dele, pessoais, de como lidar com tais afetos (afetos nos dois sentidos, o segundo sendo o do verbo afetar, impactar). Dará, se eu tiver razão, um “não” radical ao poder. E isso é tudo o que ele tem. Não determina o trajeto de antemão. Determina a maneira de dar os passos.

08/01/2012

Não há títulos para Ivens Machado

Imagine que seu dia começou cedo. Sem sono, você levantou junto com o sol e ligou a televisão. Estava passando um desenho animado qualquer e resolveu assistir. Sentado diante da tela, você viu uma cachoeira e um personagem tentando fazer o outro despencar lá de cima. Para isso, usava um monte de toras de madeira. O alvo do ataque mantinha-se vivo correndo sobre as toras, como se estivesse em uma esteira.

A cena clássica dos desenhos animados foi a primeira imagem que me surgiu ao entrar na Casa França-Brasil. Na nova exposição de Ivens Machado, o que se enxerga ao entrar no espaço é um trabalho criado a partir de materiais brutos. Retornando ao Rio de Janeiro depois de dez anos, Ivens Machado é um artista que utiliza diversas linguagens em sua atuação. Assim, como em sua carreira, na exposição as esculturas convivem com as instalações e a videoarte.

Nessa perspectiva, variedade é a chave da organização ali: há desde releituras (como as obras de madeira, apresentadas na Bienal de São Paulo de 2004, e a instalação de azulejos, baseada em um trabalho feito para o MAM em 1973) até um vídeo inédito produzido pelo autor. Com um detalhe interessante: não há títulos para as obras. O conjunto é impactante: um certo vazio estabelece um contraste com a solidez dos materiais utilizados. Há muita madeira, combinada a terra, papelão e azulejos.

A sensação inicial foi se repetindo e se transformando conforme o avanço. Não conseguia tirar da cabeça um bonequinho qualquer correndo sobre os troncos. Mas, além disso, uma das esculturas associou a lembrança um conjunto de lápis. Mais a frente, a areia e o aviãozinho sobrevoando traziam a recordação um quintal, um garoto que brincava com a terra e parava tudo pra olhar o avião passar. Em uma das salas, olhando uma instalação feita de azulejos, pensei na cozinha da casa da minha avó. Era possível extrair algo de ingênuo, delicado e infantil naquele ambiente árido construído pelo artista.

Entretanto, tudo aquilo teve um fim ao entrar na sala em que era projetado o vídeo produzido pelo artista. O jogo de fuga apresentado me transportou para outro lugar: um grande pesadelo infantil. Aqueles sonhos que começam agradáveis, não fazem o menor sentido e levam a uma perseguição alucinada que culmina com o momento do susto final e do acordar.

Como em toda relação artística, há um contrato implícito. O artista oferece sua alma e o público seus sentimentos. Há que se fazer um mergulho, o que exige uma disposição prévia. Um desavisado poderia entrar e achar que se tratava de uma reforma no local; um maluco poderia enxergar ali referências infantis, como eu.

Assim, assinado o contrato imaginário, está tudo lá disponível. Basta que o espectador construa seu caminho. Ou seus caminhos. Existe um, que leva da porta de entrada à tela grande em que é exibido o vídeo. Mas é apenas um deles. É importante perceber que caminhos diferentes evocam memórias diferentes. E esse é, sem dúvida, o grande mérito da exposição, uma vez que possibilita a construção de uma memória afetiva a partir da palidez de um azulejo branco ou da crueza de um tronco de madeira.

 

 

SERVIÇO

Exposição: Ivens Machado

Local: Casa França-Brasil (Rua Visconde de Itaboraí, 78 – Centro – Rio de Janeiro)

Temporada: 11 de dezembro a 17 de janeiro (de terça a domingo, das 10h às 20h)

Informações: 23325120 ou http://www.fcfb.rj.gov.br/

Entrada gratuita.

Classificação: livre.

23/11/2011

NÓS EM SÉRIE

Quando pensamos em exposições geralmente temos em mente um ambiente explorado por poucos elementos e que formam um conjunto de idéias. Os elementos são pensados pelo conjunto e pela experiência que podem oferecer aos espectadores. Cada obra é milimetricamente sugerida para uma vivência individual e complementar ao ato de ver.

Exposições também têm o mérito de ser pensada pelos artistas e com a intenção que o curador deseja no momento, uma fatia de sua produção digamos assim, que merece ser vista em determinado momento.

Em tempo de idéias, de exposições que levam o pensamento como única forma de vivência artística, seria impensável voltar à produção de trabalhos em massa?

Jovens artistas têm o mérito de serem aventureiros em um espaço que preza pelo novo, pela mudança de paradigmas que nos mostrem o mesmo de forma diferente. Porém cada dia que passa “mudar” se torna uma tarefa mais intelectual do que propriamente física, um pensamento pode conter todo o fazer artístico, enquanto a produção é deixada a terceiros.

Alguns elementos contemporâneos têm buscado uma volta à sofisticação pessoal: o neo-expressionismo com suas pinturas metafísicas e o figurativismo-urbano – que trás consigo o renascimento de técnicas de apreciação pelo olhar com o mérito de serem expostas ao ar livre.

Fugindo do hiper-realismo que parece estar em voga, mas buscando um relativismo pelo expressionismo, os jovens artistas da exposição NÓS EM SÉRIE buscaram fugir aos preceitos de uma exposição convencional. Deixaram de lado o recorte específico e partiram para a exploração em massa, fugindo das criações do Pop, embora você possa ver o uso de cores claramente usadas por artistas Pop, o uso dessas cores está sujeitas ao tempo e ao que o jovem artista explora.

Em determinados momentos o excesso parece pular aos olhos e deixar todos com uma excitação ao observar tamanha profusão de cores em traços fortes e expressivos, mas rotular tais peças como um expressionismo é esquecer-se do conjunto do trabalho do aprendiz-aluno que ainda busca um caminho único.

Não sei até que ponto a afirmação acima pode dar conta de tudo que pode ser visto nessa exposição, onde os estudantes podem criticar livremente o próprio desenvolvimento ao observar o do outro.

Observar e ser observado em sua totalidade, sem escolher o trabalho, apenas pendurá-lo, sem rótulos, sem nome, preencher espaços e localizar o olhar é parte do desenvolvimento do artista.

Jogar-se orgulhoso de seu trabalho, esquecendo qualquer observação, qualquer ismo e seguindo em frente é tão válido quanto mirar em um só estilo, buscar todos para se aceitar em um é complicado, criar sem amarras uma peça depois da outra é um vício que só a paixão do artista pode compreender.

NÓS EM SÉRIE expõe justamente a paixão desenfreada pela arte, pela pintura, pelo desenho, pelo fazer artístico que é o eu-artista em sua expressão primeira, o que se desenvolve primeiro, o excesso de paixão pelo humano, pelo corpo, pela expressão que está contida e que vem contida. O mérito é não ter qualquer pretensão além da arte, é estar livre para experimentar em excesso, desfrutando da arte, ao contrário de estar preso a ela.

Experimentando eles encontraram o caminho de sua produção e pelo excesso eles buscam o olhar atento do observador, de maneira sofisticada eles subvertem o olhar do observador e encontram o caminho para sua exposição.

Sem título

Sem Título - 2

Links:

Ângela Longo    http://www.facebook.com/people/Angela-Longo/100001591212822
Gabriela Heche  http://www.facebook.com/people/Gabriela-Heche/100001765130192
Itapa Rodrigues  https://www.facebook.com/itaparodrigues
Juliana Veloso  https://www.facebook.com/juveliloasona

 

 

Serviço:

Espaço Aldo Malagoli.

Instituto de Artes (UFRGS)

Rua Senhor dos Passos, 248

Porto Alegre, RS.

De 4 a 25 de novembro de 2011

De segunda à sexta-feira

Das 08 horas às 22 horas.

O fogo cruzado de Ronald Duarte

Ao interferir no espaço urbano alguns artistas aproximam-se das manifestações coletivas, dos manifestos políticos, de performances poéticas, das comunidades, diversificando os procedimentos artísticos, convertendo esse espaço em um meio de reflexão das relações entre sujeito e a realidade. Dessa maneira é a obra do artista carioca Ronald Duarte.

Fogo Cruzado, Ronald Duarte

Fogo Cruzado, Ronald Duarte

 

Em uma série chamada Guerra é Guerra, iniciada em 2001, Duarte se dedica a trabalhar com a idéia da urgência urbana, sintetizada em Fogo Cruzado (2002), um diálogo claro, forte e incisivo com a violência urbana. A performance realizada nas ruas de Santa Teresa, bairro do Rio de Janeiro, ateou fogo a 1,5 km de trilhos, reunindo 26 artistas e centenas de espectadores-artistas, deu seqüência ao projeto iniciado um ano antes, desvelando toda a pulsão interna da cidade. A cidade é, pois, uma expressão da sociedade e, consequentemente, do seu modo de vida, captados pelo artista em seu processo criativo.

Em um mundo que assiste a dissolução gradativa das categorias artísticas, fica cada vez mais complicado estabelecer os limites entre os campos artísticos: teatro, performance, música, artes visuais, estão cada vez mais próximos e interligados. É nesse contexto que nasce e surge como artista Ronald Duarte. Duas décadas depois de iniciar seus estudos em belas artes, iniciou o projeto Guerra é Guerra (2001), série de intervenções no espaço urbano. Consolidavam-se aí duas das marcas do artista: sua relação direta com a cidade e o uso do elemento fogo.

Produzido no ano seguinte, Fogo Cruzado (2002) aponta para uma cidade partida, dividida por facções criminosas. Realizada em Santa Teresa, bairro do Rio de Janeiro, bairro alternativo, boêmio e freqüentado por artistas, que mantém preservadas características históricas, mas que também é dividido por facções criminosas, representou no terreno estético, reflexões acerca da política e do exercício da cidadania. A ação coletiva começa antes mesmo de seu início oficial: o espectador pode assistir a inserção da estopa nos interstícios dos trilhos dos bondes, a colocação de material inflamável e o ateamento do fogo. A partir daí, são mil e quinhentos metros delimitados para a ação, em chamas.

 

http://circuitoscompartilhados.org/wp/?page_id=24

 

Nesse processo, a leitura do espaço urbano torna-se uma experiência altamente perceptiva, individualizada pelo espectador. O espaço estético e o espaço teórico fundem-se na criação alegórica da paisagem urbana. Fogo Cruzado é um espaço de interação entre o visível e o invisível. Como visível, a ação artística, a interferência no espaço urbano, a interação com o público. Por outro lado, o invisível: o conceito, a fatalidade social, a letargia da sociedade frente aos acontecimentos, é parte fundamental também nesse processo. O funcionamento dele e a realização da intervenção dependem do espectador: ele precisa se confrontar com as realidades contidas no espaço específico, precisa conhecer a dinâmica sócio-política do local, precisa recorrer a sua consciência, a sua noção de belo, é a invenção do próprio caminho a ser seguido: o espectador é incluído na performance, tornando-se um ator-espectador.

Ao construir esse caminho invisível, não se pode deixar de considerar que o espectador-ator está inserido em um bairro real, de ruas sinuosas, com suas charmosas ladeira. A performance marca no espaço um ambiente de ficção científica, como se um Delorean tivesse acabado de passar por ali, deixando um rastro de fogo no chão e desaparecendo em seguida. Os trilhos incendeiam-se, criando um cenário de caos urbano, materializando a tensão estabelecida ali, antes e após a ação, sua pulsão interna. Apesar da madrugada, o público participa da ação, acompanhando-a. O espaço cotidiano é redimensionado. Aquilo que era ocupado por carros e gente apressada passando, torna-se o lugar do extraordinário.

A partir da análise da obra Fogo Cruzado, de Ronald Duarte, é possível pensar a sociedade constituída, ou mesmo, as sociedades, no Rio de Janeiro, no início do século XXI. Pode-se perceber as tensões sociais presentes na cidade, expressas em uma madrugada, iluminada pelo fogo nas ladeiras de Santa Teresa. Revela-se assim, à distância que separa cidade imaginada; a cidade real, vivenciada cotidianamente; e a cidade conceitual, captada pelo artista.

Com seu trabalho, Ronald Duarte nos oferece uma experiência fundada no aqui e agora. A ação aconteceu sem um roteiro com início, meio e fim, sem cortes programados, apenas como um instante após o outro. Cada espectador participou coletiva e individualmente da experiência, visto que o processo é realizado pelo conjunto do público. Mas a leitura do espaço urbano é depende do olhar de cada um dos indivíduos, isoladamente.

 

Intervenção disponível em:

http://ronalduarte.com/index.php?option=com_content&view=article&id=47&Itemid=2

 

Sobre a série “Novos e Velhos Clichês para Era Contemporânea” da artista paulista Cristina Suzuki

Cristina percebe de uma forma muito mais sensível toda a ambiguidade e significado atribuído aos clichês, que nada mais são do que uma forma para impressão em larga escala. O clichê – material que a artista coloca em evidência – é um carimbo de metal ou madeira utilizado em tipografia que apresenta seu conteúdo de forma ilegível para que após a impressão possa se dar a leitura. Usando uma metalinguagem do próprio material ela utiliza palavras ou expressões que são ‘clichês’ do cotidiano. Chocante, real, visceral, os textos que a artista escolhe são nada mais que necessários para desconstruir a cena contemporânea estigmatizante e quase sempre nociva. A relação com o bullying (o chamado assédio, nas empresas – violência verbal extremamente nociva tanto para quem causa quanto para quem sofre) pode ser percebida enquanto esses estigmas são criados a partir de valores cosméticos. Segundo a artista o clichê “determina estereótipos, condutas de pensamentos e ações que se perpetuam infinitamente”. Ela faz isso, percebe a eficácia do retorno do verbal que tanto foi explorado na poesia Concreta. Aqui a artista utiliza a palavra não apenas como um recurso plástico, mas com uma ênfase linguística poderosa.

A série “Novos e Velhos Clichês para Era Contemporânea” desenha muito mais que simples frases coladas, elas convocam o expectador a refletir sobre seus próprios medos, incertezas, projeções que faz do outro e deixa que ele mesmo decida o que quer fazer com esta informação: quebrar mais um paradigma ou continuar vivendo nele.

O trabalho que Cristina Suzuki desenvolve ao longo de quase 15 anos de carreira atravessa a poesia visual com séries como “Fotocelular”(2003-2011), “Portrait” (2003-2008), “Rendas Digitais” (2009-2011) e as Intervenções “Delicatessen” – frases práticas que colaboram para um mundo mais educado e cordial.

 

Cristina Suzuki - 1

Cristina Suzuki - 1

 

Cristina Suzuki - 2

Cristina Suzuki - 2

13/10/2011

Daniel Senise

Primeiro, o que ele faz desde sempre e que tanto me encanta: Daniel Senise usa o vivido, e isso eu já disse e já me desmanchei em elogios. O que não disse é um aspecto, digamos, político, desse usar o vivido, e que é a relação com o trabalho que isto encobre.

Daniel Senise - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Trabalho & labor. Capitalismo & pré-capitalismo. Essas coisas assim meio chatas, mas que vou explicitar porque acho relevante quando vivemos, mais uma vez, uma mudança nas relações com o trabalho. Porque é capitalismo & pós-capitalismo o que se pode ver na incorporação dos elementos vividos do trabalho cotidiano de Senise, ali, na parede.

A exposição se chama Quase aqui, está na Vermelho, e deste título também vou falar, mas depois, como também vou falar da Vermelho, também depois.

Senise e o trabalho. Ou o capitalismo e o trabalho.

Ok, século XIX.

Tudo muda. Você trabalhava para fazer algo específico. Você morava em um pedacinho de terra (comunitária) no interior da Inglaterra. Ou tinha uma lojinha de serviços em alguma ruazinha de cidade. E você fazia aquilo até ficar pronto. Um dia uma coisa, noutro dia outra coisa. A sola que era colocada um dia num sapato, noutro dia noutro sapato. Ou ferradura. Aí você perde sua lojinha ou seu direito ao uso do pedaço de terra. Passa a trabalhar para um patrão, e por hora. E você vai trabalhar por hora séculos a fio. Ganhando salário, o que quer dizer: tanto por tantas horas. Todo dia tudo sempre igual.

Século XXI. Muda tudo outra vez.

Capitalismo tardio, pós-capitalismo, capitalismo de serviços, comunicacional ou qualquer outra coisa. E você torna a trabalhar para fazer alguma coisa específica e ser pago por aquela coisa. Não importando diretamente quanto tempo você vai levar. Aliás, não é bem fazer, no sentido de produzir um objeto. Provavelmente será um “fazer” não material. Você vai montar um conjunto de saberes e informações que terão um sentido e um valor.

E agora a gente volta para o Senise. Ele pega um rastro indicial de um serviço que não acaba. Por hora, digamos assim. O chão monotipado de seu ateliê, como vimos em exposições anteriores. A bancada de seu ateliê, que é o que está na exposição atual. Chão e bancada que são o vestígio, não de uma feitura específica, mas de um tempo de trabalho. Melhor dizendo, de um labor. Não há, em chão e bancada, começo ou fim. As marcas falam de um gasto “fabril”, “capitalista”, no sentido de que se trata de um valor (advindo das marcas vividas) independente do que ali se faz ou fez. É um valor por tempo de serviço. Ele pega então isso e faz disso um objeto acabado, único. A obra. Ele pega o trabalho por tempo de serviço, capitalista, e o transforma, na tua frente, em um trabalho pré-pós-capitalista, um trabalho por obra, por tarefa. Ele mostra para você uma transformação que você está vivendo na tua vida diária.

Daniel Senise - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Ainda não estamos lá. Estamos quase. O pós-capitalismo está, exatamente, Quase aqui.

A Vermelho, agora.

Acompanho a Vermelho mesmo antes de vir morar em São Paulo. E sempre vi, em suas curadorias, atividades e na escolha de alguns de seus artistas, uma atitude paralela e antagônica ao que se poderia esperar de um “player” do mercado. A Vermelho dá espaço a artes não vendáveis como performances, promove artistas voltados a atividades sociais (embora eu tenha uma aproximação muito cautelosa com este assunto).

Outros de seus artistas contratados falam em suas obras da tensão entre texto e imagem. Não vou me estender sobre isso neste artigo porque é assunto longo, complicado e do qual já falo muito. Mas texto e imagem são uma maneira de falar a mesma coisa: texto e imagem são sinônimos de tempo e espaço. Quando colocados em confronto, trocam de lugar e essa troca, frequente, significa uma troca de conceitos que faz parte – e é icônica – da troca que vivemos hoje, ideológica. O tempo que, por ser fixo (oito horas por dia), vira um espaço de impacto sem constituição de significado. O espaço que, por abrigar um trabalho lento que o modifica, vira, na verdade, um tempo. O tempo de formação de significado.

Vá ver o Senise. Você vai achar que a tua insegurança atual, ao abdicar (ou ser forçado a abdicar) do trabalho capitalista de oito horas por dia, afinal, pode não ser uma coisa tão ruim assim.

Disse que primeiro ia falar do que o Senise faz desde sempre e que muito me encanta. Agora vou falar do que ele traz de novidade (não muita novidade) nesta exposição.

Ele quebra a lógica de suas “paisagens”. Há uma certa falta de sentido à la Escher em algumas de suas novas colagens. E suas bancadas estão cobertas de tinta branca. Como a dizer que houve uma quebra, e que o branco está lá para acolher o que vier.

Amém.

28/09/2011

8ª Bienal do Mercosul – Ensaios de Geopoética

A 8ª Bienal do Mercosul é minha primeira, como morador da cidade de Porto Alegre. Talvez seja por isso que o tema “Ensaios de Geopoética” tenha se encaixado de forma tão singular em minhas visitas pelos caminhos da cidade.

A bienal tem se tornado, cada dia mais, um veículo de mudança e de iniciativa. Essa ideia, de participação, tem se consolidado, como marco no sul do país, de forma expositiva e investigativa. Creio que observar uma Bienal é uma experiência que muda não apenas o olhar pessoal, mas o olhar intelectual.

8ª Bienal do Mercosul (Divulgação)A proposta para essa edição tenta responder a uma pergunta “É possível fazer uma bienal cuja ênfase não seja exclusivamente expositiva?”. Com a proposta de mudar a forma como se vê um trabalho artístico a bienal vem atiçar mais uma vez seu observador a se colocar como peça da própria exposição. Artistas foram convidados para conhecer a cidade e o estado do Rio Grande do Sul, assim transferindo seus olhares para os espaços geográficos e suas sensações para a experiência de ser mais que um expositor, mas um investigador do momento, da sociedade e da forma como ela vê a arte em si. A cidade de Porto Alegre, além de abrigar toda a bienal, participa com seu território. Pontos de resignificação se encontram espalhados pelos caminhos, trazendo olhares para lugares não imaginados antes, transformando a forma como percebe-se a cidade. Cada local a ser desbravado é como um caminho solitário de descoberta. Um caminho tão bem feito que nos leva a descobrir uma construção criada especialmente para atiçar lembranças e memórias, de um território não físico, mas um território afetivo. A casa M é um deleite para o jogo da descoberta, pela sua construção limpa, suas cores que trazem a tona memórias tão raras como aquelas que só temos quando nos deparamos pela primeira vez com algo tão impactante.

Inspirada nas tensões entre territórios locais e transnacionais, entre construções políticas e circunstâncias geográficas, nas rotas de circulação e intercâmbio de capital simbólico. O título (ensaios de geopoética) se refere às diversas formas que os artistas propõem para definir o território, a partir das perspectivas geográfica, política e cultural. (ROCCA, 2011, p. 9)

A bienal se divide nos seguintes temas, separados por seus espaços, ou seu trajeto:

1 – Geopoéticas: a mostra central do Cais do Porto é uma das mais democráticas e com maior sensação de territorialidade. Pode ser identificada por elementos de cada artista em seu pensamento de “território”.

2 – Cadernos de Viagem: ainda no Cais do Porto, a mostra se ocupa do resultado das viagens dos artistas que visitaram cidades do interior do Rio Grande do Sul. Também ocupa a forma como cada um interpretou a visita e entendeu uma arte fora do centro/capital. Ou seja, uma mescla de resultados do saborear e vivenciar um local diferente.

3 – Cidade Não Vista: foram escolhidos nove locais da cidade sede em busca de uma visão e um caminho de interesse não só exploratório, mas artístico. A possibilidade de transitar e desbravar locais com um interesse arquitetônico, em uma paisagem massificada, é quase um exercício de poesia, ajudado por paradas de senso estético, que podem ser agradáveis, singelas ou irritantes, como toda cidade. Um trajeto que evoca a arte de flanar.

4 – Além Fronteiras: ocupando o espaço do MARGS a mostra procura identificar fronteiras, construindo elementos de campos vastos, que nos mostram a amplitude de culturas próximas a nossa ou ligadas ao mercosul. “Temos certeza desses territórios?” parece perguntar cada uma das obras que se espalham e se mostram, como os terrenos que parecem emular.

5 – Eugenio Dittborn: o artista chileno, homenageado da bienal, ocupa o espaço do Santader Cultural com suas Pinturas Aeropostais. Absolutamente sagaz do conjunto da bienal, as obras de Eugenio procuram a não interferência do caminho, são pensadas para serem transportadas. São pinturas dobradas, transferidas por postais e então expostas como pinturas. Não são trabalhos de um local físico, são trabalhos que procuram a passagem de um local para outro.

6 – Continentes: é o projeto de locais (continentes) fora do espaço exclusivo da cidade. Uma busca para criar novos meios do fazer artístico em pontos diferentes pelo mesmo período. As cidades escolhidas foram Porto Alegre, Santa Maria e Caxias do Sul.

7 – Casa M: teve início antes da abertura da bienal e se estende além dela. É um antigo sobrado onde fabricavam-se chapéus. Totalmente reconstruído, sua estrutura preza pelo convívio, pela forma de apresentação, pelo espaço – enquanto elemento de um país e de seus ocupantes – pela casa como fortaleza de seu indivíduo, e suas experiências dentro dela.

Depois desse trajeto posso concluir que a 8ª Bienal do Mercosul possui em sua busca uma possibilidade poética que urge em seu movimento social. Por mais que se busque uma distância dele, o homem enquanto “usuário” desse terreno, se mostra como delírio de poderes que desconhece.

De minha parte aconselho, sem demora, a visita ao Cais do Porto. Com suas obras de um questionamento fantástico, que merecem ser apreciadas com calma e leveza (se possível), a visita deve ser feita semanalmente para que a percepção inicial ajude a compreender que os territórios são, na verdade, criações do homem e que os trabalhos ali expostos demonstram esse ato transitório. A mostra do Margs e a Casa M são experiências focadas, e com interessantes interpretações. Caminhar pela cidade e descobrir o que já se conhece de uma forma diferente é resignificar e é justamente sobre isso que arte contemporânea se desdobra muitas vezes, ou seja, o caminho é um dos trajetos mais reais da bienal. Nas obras de Eugenio Dittborn não se esqueça de ler os aeropostais, perder o trajeto deles é perder a poesia que levou cada uma das peças até você, até eu, até a 8ª Bienal do Mercosul.



Serviço:
De 10/09 a 15/11 de 2011.
Porto Alegre/RS/Brasil.
Diariamente das 9h às 21h
Contato: contato@bienalmercosul.art.br
Telefone: +55 (51) 3254.7500

Links:
http://www.bienalmercosul.art.br/

Referência Bibliográfica:
ROCCA, José; RAMOS, Alexandre Dias. 8 Bienal do Mercosul: Ensaios de Geopoética/Guia. Porto Alegre: Fundação Bienal, 2011. 144 p. Il.

21/09/2011

Há prendisajens com o xão, de Ondjaki

Manoel de Barros faz escola.
Em cinquenta páginas da mais autêntica candura, o poeta prosador Ondjaki constrói uma deliciosa homenagem ao seu mestre. Pouco provável não perceber um cheirinho do nosso Manoel de Barros na poesia do queridíssimo angolano, autor do romance Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, vencedor do Prémio Jabuti, em 2010.

No minilivro Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas), o poeta redescobre a terra, explora-a e revira-a do avesso, numa deslumbrante jornada vocabular, que deixaria perplexos até os mais velhos (afinal, “a perplexidade é um mal juvenil, como a anorexia”)*. Tal perplexidade se origina principalmente do fato de que somos mesmo capazes de compreender o aparente nonsense que nos é apresentado através das palavras. Diferentemente do que se possa pensar, não é necessária uma leitura super atenta e ultraespecializada para captarmos a dimensão da poesia cultivada por Ondjaki. O que se passa é justamente o contrário. Quanto mais desatenta, despretensiosa e, sobretudo, liberta for essa leitura, maior é o impacto que sua beleza nos causa.

Ondjaki

Não são apenas palavras inventadas lançadas num papel. Isso eu faria. São vocábulos distorcidos e retorcidos, transbordando significados, que dão sentidos a outros, igualmente deformados e reformados, que, por sua vez, oferecem um senso de ordem e razão às coisas da terra.

É como um sentimento de proteção que me toma à última folha do livro, como se devesse encerrá-lo a sete chaves, como se nele estivessem guardados os mais preciosos segredos da terra.

* Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa.

página oficial do autor, com poesias: http://www.kazukuta.com/ondjaki/

20/09/2011

Vania Rossi

Vania Rossi

O que vi foram as fotos que Vania Rossi tira. Com algumas delas, faz pinturas em técnica mista: o buraco negro dos vãos entrevistos em suas portas e janelas vai em tinta esmalte automotiva. No resto, uma atenuação com veladura em acrílico. Isso eu não vi.

Vou, portanto, falar das fotos.

De cara, ela me lembrou outra artista que também trabalha com fronteiras, limites. Lúcia Laguna. A mais, a mesma formação inesperada. Ambas passaram a vida sendo professoras. Lúcia mora entre a Mangueira e o asfalto, no Rio de Janeiro. Vania mora em Osasco, na beira de São Paulo. E eu paro por aí, porque o resultado estético desse mesmo foco em passagens, integrações não integradas, vãos do espaço-tempo, de uma e outra, é bem diferente.

Da Lúcia já falei e muito em outro artigo, para o Aguarrás, em 2006.

De Vania falo agora.

Vania RossiO que ela mostra é uma narrativa, a dela, a partir dos vestígios de um vivido antigo, a de outros. Portas e janelas arruinadas. Varandinhas de onde ninguém mais vê a rua. O embate com o atual se dá em diegese. O atual não está no quadro. O atual é o fotógrafo. É aquele que nesse passado, enquadrado, se debruça. A integração não existe. É uma sobreposição e uma construção, a da atualidade sobre uma ruptura em cima da qual se equilibra.

É um tema importante para nós, nessa nossa geografia em que a modernidade também passou de repente, em frente de um processo que estava lá, quietinho na janela, e que não a esperava nem a absorvia.

O problema com essas obras é a dualidade, as oposições binárias. Eu tenho uma tecnologia que me coloca na atualidade, e que é a máquina fotográfica. O que pego para mim, porque dele preciso muito, é o chão antigo (e, por ser antigo, suponho sólido) que me falta.

Vania escapa disso. Suas fotos, ou pelo menos, muitas delas, contém a ambivalência de todos os processos, nunca lineares, nem um pouco ordenados ou consecutivos. Em uma das imagens, um cadeado moderno tranca o que o tempo abre nas madeiras que se estragam. Em outra, a bicicleta encostada no muro registra o movimento que falta na estratificação do passado. Há placas de ruas atuais em frente a paredes do século XIX, cortinas bem cuidadas em fachadas nem tanto, uma maçaneta novinha em porta carcomida. Um varal de roupas, um sol a mudar o que era um vitrô.

Vania RossiOutra coisa, o humano. Não é que não esteja lá, pelo contrário. Restos de vida estão sempre presentes. Mas há como que uma socialização, uma história vista em conjuntos maiores, não individualizada. Pessoas mesmo, quase nunca aparecem. Esse aspecto da fotografia de Vania me faz lembrar outro, que é o feminino na arte fotográfica, e o que isso significa a partir dos anos 1960. Tanto o enfoque socializado, não individualizado, quanto o fato de ela ser mulher, me fazem ver suas fotos como um desdobramento longíquo daqueles anos, em que, por reação ao regime militar, era imperativo capturar um universal, sair da perspectiva dos dramas individuais do ambiente burguês. Ao mesmo tempo, este “universal” se apresentava necessariamente como “brasileiro”. E isto Vania também faz, buscando seus cenários em uma aldeia indígena de Carapicuíba, um casarão de Santana de Parnaíba. Ou no Castelinho, atualmente em demolição, de quando a Av. São João era um lugar para castelinhos. Ao fazer isso, apropria-se, através das lentes, de uma história feita por e contada, não por mulheres, mas por homens.

Vania Rossi tem especialização em artes visuais na USP e expõe onde dá, quando dá.

01/09/2011

Salões

Agora que sou um projeto de artista plástica, entrei no mundo dos salões. Salão de artes plásticas é uma boa forma de começar, me garantem todos com quem falo. Não tenho motivos para duvidar. A informação é relativamente fácil de conseguir. Existe um site intitulado Mapa das Artes que salva a vida de todos nós (obrigada!).

O problema começa quando a gente tenta seguir as orientações de cada salão. Normalmente é para enviar uma foto de cada trabalho e, quando muito, uma descrição de umas 3 ou 4 linhas. Tudo bem, sei que posso ser prolixa, mas 4 linhas não dá para descrever uma obra. A sensação que dá é a de resumir O Capital em um twitt. Ok, exagerei um pouco. Só um pouco.

E a foto? Ó céus, que coisa mais difícil. Fiz umas aquarelas enormes, em A2 expandido, que obviamente não cabem em scanner nenhum. Ah, tiro foto, tranquilo, penso eu. Not. A melhor foto fica uma porcaria. Todas as nuances somem. É claro que já era véspera do prazo final, mando assim mesmo.

O salão não confirma recebimento. Recebi hoje uma simpática carta dizendo que meus trabalhos não foram selecionados. Faz parte da vida, tudo bem, mas precisava mesmo escrever “não foram selecionados” em caixa alta e negrito?

Levei fácil uns 9 ou 10 dias só preparando o pacote para mandar para o salão, incluindo etiquetas, pasta, etc. Arranquei todos os cabelos, gritei com o computador algumas vezes (ele não respondeu) e sabe o que é pior? Já estou aqui de olho para ver quais são os próximos.

Deixo aqui alguns achados sobre o assunto:

E uns outros, da gringa:

Um dia dá certo.

24/08/2011

Stockinger: Os diversos Tempos da Forma

O Margs (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) expõe pela primeira vez todas as obras de Xico Stockinger (1919-2009) de seu acervo.

Stockinger, possui um trabalho pontuado pela figuração, com um cunho político-social. Sua obsessão pela forma do guerreiro, do corpo como estandarte de sua luta e opressão transforma as esculturas de Stockinger em um objeto de intensidade incomparável, pelo tamanho e peso de sua luta.

Na curadoria de Francisco Alves encontramos separados os temas que mais pesaram para o escultor, na primeira sala peças de bronze e gesso, guerreiros e a perturbadora Sobrevivente IV de 1971, produzidas em técnica mista. Na segunda sala bustos em gesso, peças em metal e pedras modeladas em lugares estratégicos, rodeados por texturas naturais. Já na última sala, ligada com a segunda por um monolítico escuro que parece tragar o olhar vemos as xilogravura e algumas matrizes que mostram a forma como tratava o traço.

Em Stockinger podemos perceber um apuro social, aquela dor e o peso da sociedade que tanto marginalizamos, o frio da pedra ao contrário do que parece não nos afasta do tema, mostra-nos a dimensão exata da dor e de nosso ato comum diante de uma situação tão preocupante quanto a dos Homens-Gabirus, que carrega uma tristeza e uma simplicidade em um bronze sem refino sem o lustro, marcados pelo tempo como em uma peça dramática. A crueza inclusive dialoga com as peças, exibidas cada uma em um espaço separada por uma madeira branca, a criança que chora sozinha com o corpo nu no chão é da mesma estirpe da mãe que levanta os braços aos céus implorando.

O Guerreiro ali exposto enorme com seu tronco de madeira e falo de torneira parece pronto, mas pronto para quê? Se nada pode fazer, permanece em sua vigília obrigatória da condição humana, não à toa os guerreiros (são dois, o maior e o menor de seu lado), produzidos em metal soldado, com peças de madeira. No centro da sala a Sapa observa a si mesma, todo seu peso em suas ancas, um braço para trás, segurando uma toalha o outro se conhecendo, ela ainda possui um sorriso bobo, diante de suas feições tão desprovidas de um senso comum.
Mas nenhuma das condições sociais se compara ao Sobrevivente IV, um ser construído com ossos de animais, pedaços de madeira, metal e bonecas de plástico. Sabe-se que Stockinger tinha um desejo de expor mais uma condição social, mas a criação da peça a transformou em algo horrendo, um ser voraz e perigoso que se alimenta da humanidade e dos seus. Com um grito que irrompe de uma boca escancarada com mãos e uma língua absurda estão ali para agredir, mostrando nossa incapacidade de deixarmos o abismo longe, continuando cada vez mais a nos afundarmos em nosso discurso de igualdade errônea.

O Sobrevivente IV ainda me lembra outro animal, que pareceu se colocar real ali na sala de exposição, a entidade que ronda a casa do conto “A Casa sobre o Abismo” de William Hope Hodgson. Um ser desprovido de misericórdia, ardiloso e com uma força descomunal. Realmente é um atrativo para quem está olhando.

Na seqüência o conjunto de mármores e basaltos parecem mostrar uma contemplação não muito clara, mas muito atraente ao olhar, em peças bem acabadas com interferências mínimas da mão, algumas parecem ter se desenvolvido da forma como Stockinger as criou, outras não. Além do convite que parecem oferecer ao toque e a satisfação do objeto em si.

Seguindo o caminho temos as xilogravuras e suas matrizes. Foi um momento de necessidade que fez com que Stockinger se dedicasse a xilo, um trabalho com um traço mais indulgente, mas que lembra muito da força de sua mão em seus trabalhos esculpidos. As matrizes são um espetáculo aos olhos, um estudo do comportamento do mestre que passou a lecionar xilogravura. Ali temos talhados seus segredos e a forma como descrevia o movimento. Um prato raro é a re-edição em 20 cópias que se encontra totalmente exposta em ordem, podemos ali ver as diferenças minúsculas de uma peça para outra, e o acabamento sendo transformado.

Stockinger merece não só um tempo, mas uma reflexão, outro detalhe são os adesivos que lembram o volume de suas obras mais conhecidas, soltos no tempo e espaço da exposição.

Serviço:
Stockinger: os Diversos Tempos da Forma
de 19 de agosto a 09 de outubro de 2011
no MARGS (http://www.margs.rs.gov.br/)
Praça da Alfândega s/nº- Centro Histórico- Porto Alegre/RS
Telefone: (51) 32863145
ENTRADA FRANCA

12/08/2011

A forma circular em João Suzuki

João Suzuki (1935-2010) é sem dúvida um dos mais notórios artistas plásticos filhos de imigrantes japoneses que viveu no Brasil, mais precisamente em Mirandópolis (SP). Muito cedo, quando João Suzuki estava no primário, seus pais se mudaram para a cidade de São Paulo a fim de buscarem melhores condições de vida. Apoiado pelo professor de desenho, Suzuki seguiu com as artes entrando muito tempo depois de sua formação escolar, na Associação Paulista de Belas-Artes.

Seguiu praticando desenho e pintura, vendo e estudando outros mestres como Portinari  o qual lhe serviu de inspiração no início da carreira.

Os processos criativos de alguns pintores, como o do próprio Takaouka e também de Manabu Mabe, Tomie Ohtake e Tikashi Fukushima, em que se observam uma progressiva diluição do tema a apropriação de meios, técnicas e materiais adequados à formulação de novas poéticas, sinalizavam avanços da arte brasileira e abriram o seu olhar (SILVA 2007, 13).

A forma circular e o casulo tem uma representação especial na carreira do artista, ele utiliza o próprio material como um recurso do desenho que nele já vislumbra o que irá produzir. Faz o uso da textura da madeira participando do desenho,. Sobre a forma oval, o artista comenta:

Na verdade, a obra realizada dentro de um quadrado, de um retângulo, estava me incomodando. Cheguei a forma ovalada naturalmente. Através da madeira, creio. Muitos pedaços de madeira que recolhi tinham essa forma. Gostei dela, pois eliminou os enquadramentos, os ângulos de 90 graus. Com os ovoides passei a fazer uma obra como se eu estivesse vendo as coisas de frente e não através de uma janela. O nosso olho é redondo e nossa visão de mundo também. Mas isso não foi uma coisa planejada. Fui chegando aos ovoides por intuição. Eu não racionalizo uma obra. Ela vai aparecendo naturalmente e projetando minhas motivações e preocupações do momento. [...] O resultado final depende de minha interferência sobre o material ,e sua conformação me orienta muitas vezes em determinados sentidos. A madeira nos reserva muitas surpresas. Quando começamos a trabalha-la, encontramos um mundo de imagens fascinantes. A gente nunca imagina o que vai encontrar. A partir do encontro, crio em cima, seguindo a sugestão do próprio material ou modificando completamente a configuração encontrada. (SUZUKI apud SILVA, 2007, p. 62)

No início da série dos Ovóides no final dos anos 1970, o artista encontra pedaços de madeira e desenvolve pinturas sobre elas de diferentes aspectos (já iniciara a pintura em restos de madeira mas no plano mais angular), uma única figura que se repete quase que incessantemente nesta série: a figura humana. A relação com o realismo mágico e o surrealismo (e talvez a referência de Frida Kahlo) é sem dúvida uma das influências que o artista tinha em sua obra com a temática cerceando o natural, a flora e fauna, bem como a interação do homem/mulher com o a magia da mãe terra. Quando iniciou o desenho seus modelos eram os moradores de rua, ambulantes, e pessoas que ele encontrava na vida noturna quando passava no centro de São Paulo.

 

FIGURA 1 - E/n/volto/ em arco-/ir/is - Óleo sobre madeira ovóide, 10 x 25 cm, 2002   FIGURA 2 - Compre/ssõ/es - Óleo sobre papel ovóide, 20 x 6 cm, 1998   FIGURA 3 - Flutu/ações - Óleo sobre papel ovóide, 15 x 8,5 cm, 1998
Imagens gentilmente cedidas pela família do artista
ao autor D. Negrisolli para reprodução no Aguarrás.

É na forma oval que Suzuki reflete a pintura por vezes obscurecida pelo tema que só pode ser entendido (ou a tentativa de um dos entendimentos possíveis) com uma análise muito próxima do quadro que ele produz com o sentimento que o artista vivia. A religiosidade sempre esteve presente na vida do artista que seguia a prática da seita Mahikari, bem como a fluidez do espírito que o artista empenha-se em desenhar e deixar marcado na madeira. Talvez uma das marcas mais expostas que ficaram em sua trajetória foi ter sofrido os horrores do regime militar no Brasil, não se sabendo exatamente como chegaram até Suzuki, mas os registros oficiais confirmam que ele esteve quase um mês sob custodia (segundo SILVA, 2007), refletindo nos seus desenhos quando revela a parte – talvez – mais bruta de sua existência.Toda a moldura dos ovóides eram feitos pelo próprio artista que acreditava ser importante finalizar toda a obra de arte. São produções com um acabamento incrivelmente detalhado, minuncioso e perfeito, tal como o processo de pintura de Suzuki que era feito com muita destreza e habilidade no desenho.

O desenho do ovo universalmente remete a vida, a essência da existência inicial de toda a reprodução animal que o artista quis exprimir em toda a sua fase desde os anos 1970 até o final de sua carreira, quando falece em 2010. A série dos Ovóides nunca teve um fim na carreira de Suzuki, sempre estiveram ali, prontos pra eclodir e transformarem-se em figuras míticas, iluminadas e fortes.

 

Bibliografia

SILVA, José Armando Pereira da. João Suzuki: Travessia do sonho. Santo André, São Paulo: Alpharrabio, 2007.

03/08/2011

Tuca Vieira

Tirei uma frase de um livro um dia antes de ver as fotos de Tuca Vieira na Fauna Galeria (SP). O livro era sobre literatura, as fotos sobre Berlim. E não que tivessem, em um e outras, o vínculo que se deu na minha cabeça, aliás como em geral os vínculos.

“O novo sentido, o sentido de toda construção, é, portanto, o processo da desidentificação simbólica, uma singular busca contra-hegemônica entre materiais abandonados.”

Isso é Raúl Antelo, na sua seleção de críticas “Ausências” (Editora da Casa).

E agora, a Berlim de Tuca Vieira.

Antes, a minha.

Não a tenho, não concreta, nunca estive em Berlim. Tenho a Berlim da Alemanha do século XX, e a Berlim dos turistas do século XXI. Nenhuma das duas na clave do positivo.

A Berlim de Tuca Vieira é vazia. E foi este o vínculo: a possibilidade, não, mais do que isto, a necessidade de um significante vazio, o ab-sens. Ab-sens, etimologicamente, é algo que se afasta do sentido. Do sentido já estabelecido, claro, o único a merecer o nome. Há outra leitura de ab-sens, mais radical, pois ao se afastar (ab) do sentido (sens), essa palavra indica o afastamento também de uma ordem e, é lícito incluir, da própria ordem da linguagem. Uma palavra, portanto, tautológica, pois é, ainda, uma palavra, embora possa significar uma negação do que sejam palavras. Uma Berlim (poucas cidades têm mais peso no quesito submissão a estruturas do que ela) que é uma negação de Berlim. Em Tuca Vieira não há sequer a imaginação a suprir o que lá não está. As fotos são geométricas, as estruturas focalizadas repetem estruturas “limpas” como cilindros, esferas, poliedros. São edifícios, ruas tomadas em sua frontalidade. Se famosos, se não, já disse, não o saberia. E não importa, porque estão lá como formas. Quase sagradas, em seu momento fundante, num início ainda de imanência.

Tuca Vieira @ Fauna Galeria (SP)

Mas aqui e ali, um rastro. Grafites, um dos legíveis soletra Kaliban – o habitante dono da ilha em que todas as mágicas ainda estão por acontecer de “A tempestade” (sim, Shakespeare em um muro de Berlim ou poderá ser uma banda de rock). Outro dos grafites, para minha divertida surpresa, é um bê e um erre, Br., Brasil.

Há mais uns poucos vestígios de um humano que brota. A sombra de um portão de tabuinhas sobre a fachada lisa de uma construção de concreto. Uma janela que se acende, a única de dezenas de outras. O ônibus no estacionamento.

O que virá vem das margens, do abandonado, do que não tinha valor. Como sempre.

Tuca Vieira @ Fauna Galeria (SP)    Tuca Vieira @ Fauna Galeria (SP)

No mesmo livro de onde tirei a frase ali do início, há uma citação de Peter Sloterdijk falando sobre as renascenças. O filósofo alemão diz que renascenças são quando se recria um velho que nunca de fato existiu, por impossibilidade de se dizer, ainda, o novo.

“Sob esse ponto de vista, as renascenças devem sempre sua fecundidade a uma interpretação errônea e apaixonada do velho pelo novo que ainda não diz seu nome.”

Tuca Vieira denominou Berlinscapes a sua exposição. Scapes são panoramas, e também escapes.

12/07/2011

FESPSP – Capacitação técnica do Mediador Cultural como desenvolver ações e captar recursos

Matrículas Abertas!


Informações Gerais.
Modalidade: Capacitação.
Carga Horária: 48 horas.
Início: 03 de setembro de 2011.
Término: 26 de novembro de 2011.
Duração: 12 semanas.
Dia da Semana: Sábado.
Horário: 9h00 às 13h00.
Vagas: 40.
Unidade: CMJ.

VERSÃO PARA IMPRESSÃO


Apresentação
A sociedade brasileira contemporânea demonstra crescimento econômico nos últimos anos, apresentado, por exemplo, no dinamismo entre as classes sociais, no investimento crescente das empresas para a qualificação da mão de obra, e na consciência política da importância da educação para o fortalecimento deste movimento. Há uma agitação e integração entre os diferentes setores da sociedade na busca por uma sociedade inclusiva, afirmativa e produtiva. No contexto de uma sociedade global e altamente informatizada essas questões se tornam mais complexas, fragilizando um país caso ele não as encare como problemas políticos e urgentes.

Portanto, nesse cenário, um dos caminhos para a sustentação de um país, passa pela educação, informação e cultura. Caminho este já assumido pelas grandes potências econômicas. Como fortalecer um povo? Para que fortalecer? Qual a importância da cultura no desenvolvimento econômico? Cabe a responsabilidade de educar e informar somente nos espaços e aos profissionais oficiais da educação?  É certo que não, pois inúmeras experiências são desenvolvidas com resultados positivos há muitas décadas. Então como fazer? Por onde iniciar? Para que iniciar um projeto que integra educação, informação, cidadania, arte? Como buscar parceiros? Como administrar financeiramente este trabalho?

Objetivos
O curso tem por objetivo apresentar uma estrutura conceitual e técnica que permite ao cursista planejar e iniciar ações culturais com diferentes grupos sociais e culturais, atendendo suas necessidades e avanços específicos; dialogar com equipes multidisciplinares, acompanhar e avaliar os resultados obtidos. Afirma a importância do trabalho do mediador cultural para o crescimento econômico do país e a solidificação da base democrática. Ao tratar de cultura, o curso desenvolve-se permeando as áreas da arte educação, comunicação, ciências da informação, política, sociologia, educação e administração; ao pensar a prática, entende como ação transformadora que pede atitude inventiva e reflexiva.

Assim, no presente curso, busca-se oferecer conceitos, cases, estruturas de projetos e espaços de criação que atendem às essas perguntas, com o objetivo de preparar mais pessoas para entrarem nesse movimento de melhoria econômica e de busca de maior participação política e artística. Nesse sentido, são objetivos específicos:

  • preparar o profissional para desenvolver projetos de ação cultural;
  • apresentar conceitos básicos que permitam interpretar diferentes realidades sociais e culturais;
  • apresentar e analisar experiências com ação cultural;
  • propor estruturas de ação para viabilizar projetos de ação cultural;
  • criar projetos de ação cultural.

Público Alvo
Profissionais do terceiro setor e de qualquer área de atuação; estudantes com graduação concluída ou em curso de qualquer área do saber, bem como para interessados em atuar com comunidades, nas áreas da cultura, informação, educação, arte e política.

Investimento
Valor do Curso: R$ 650,00

Parcelamento
1ª parcela de R$ 217,00 no ato da matrícula
2ª parcela de R$ 217,00 para 30 dias
3ª parcela de R$ 217,00 para 60 dias


IMPORTANTE
Alunos regularmente matriculados em cursos de graduação e pós-graduação da FESPSP têm 40% de desconto nos cursos do programa de extensão.

Instituições conveniadas e ex-alunos da FESPSP têm 15% de desconto no valor total do curso.

Por motivações logísticas a FESPSP reserva-se ao direito de mudar a data de início, cronogramas e docentes dos cursos; ou não abrir turmas caso não haja quórum mínimo.

01/07/2011

Alexandre Dacosta

Sei, por vivência, de algo parecido com o que encontro no livro de artista feito por Alexandre Dacosta. Sei de como a divisão de espaços físicos, sejam eles públicos ou privados, mimetiza e reforça a divisão – desigual – de poder entre os gêneros. A segregação espacial, disfarçada muitas vezes com o sinal positivo de “espaço especialmente dedicado a”, é um dos mecanismos com que um grupo de maior poder mantém sua vantagem competitiva em relação ao de menor poder. Assim, espaços dedicados a ações “femininas” espelham o parêntesis pelo qual tais ações são entendidas dentro de uma “normalidade” que as exclui.

Capa do livro [tecnopoética], de Alexandre Dacosta

O artista é a “mulher” da cultura, não importando seu gênero. Dacosta aponta isso. Seu livro é feito com, e é ele próprio, um parêntesis. E isto desde o título, aliás apropriado, de [tecnopoética], em minúsculas e nos colchetes que o põem fora do espaço “normalmente” dedicado a um título. Dacosta declara que seu espaço é um espaço submetido, encaixado, de quem pede licença para existir. Ele tem razão. A produção de signos culturais dentro de um entendimento de cultura como espaço de resistência crítica é isso mesmo: existe na brecha. Na capa do seu livro, aliás, não há título, presente apenas na lombada. Consistentemente, também não há nome de autor, que acompanha o título na lombada. No entanto, apesar da citação e da autoria dividida com a indústria autora dos objetos confiscados da vida cotidiana, trata-se de um sujeito. Mas a ausência de nome talvez se deva ao fato de que artistas, tanto quanto mulheres e outros segmentos submetidos às hierarquias do poder, precisam não de um, mas de dois talentos: 1) o que lhes permitirá exercer uma atuação criativa; e 2) o que os fará encontrar um espaço, tanto físico quanto metafórico, para exercer o primeiro talento.

Digo que o nome [tecnopoética] é apropriado porque Dacosta exprime, nele, o deslizamento de uma técnica – campo referido como masculino – para a poética, o campo do sensível, entendido como feminino.

E apropriado também para o que ele faz no livro: objetos. A partir de encaixes-frases de objetos banais usados por eletricistas ou encanadores – e que, dentro de sua banalidade, trazem embutidos um hífen linguístico tanto quanto físico: as fendas e pinos de ligações macho-fêmeas – Dacosta rompe dicotomias e cria um espaço geracional, necessário a todo sujeito, a toda arte.

Não só encaixes. Diagramas construtivos, fluxogramas, gráficos e plantas esquemáticas em que, não as partes constitutivas em si mesmas, mas o seu embate interno, a sua sintaxe, apresenta o que as une-atrita: a ironia. O humor é a arma de Dacosta para montar seu espaço artístico, aquele em que ele pode existir.

Na página das dedicatórias, ele escreve: “para mim, para tu, apara o rabo do tatu”.

Aparando os rabos de tatus, colhendo os rastros de de um valor de uso dos objetos, ele continua a estabelecer seu espaço na epígrafe:”só há tempo no lapso do pensamento”. Nas brechas, falhas, no que excede estruturas vigentes, incluindo aí as estruturas linguísticas que, no entanto, são tudo o que há. Mas totalidades incluem seus vazios, e eis aí, dentro desses parêntesis, a oportunidade do tempo de vida, da existência.

Até aí, gostei.

E continuei. As páginas do [tecnopoética] se chamam: projetantes, cabear, articulante, tontura, meta de sobra, lepidóptero (para quem não sabe, o nome certo de borboleta), introito etc.

Chego assim a um segundo gostar: Dacosta anda. Porque brigar por um espaço para poder ocupar este espaço não é o principal nessa nossa vida de artista. Você fazer isso e lá ficar, parado no espaço conquistado, te transforma em apenas um macho um pouco menor, menos importante, do que o macho dominante. Onde você realmente se diferencia é no movimento. Porque uma coisa é certa para definir quem detém o poder: é quem não quer que nada mude, é quem faz a defesa de espaços já conquistados. Mimetizar isso no pequeno espaço conquistado seria refazer o espetáculo oferecido no espaço “principal”, seria fracassar.

Não é o caso aqui.

O objeto representado na capa (foto) do livro se chama “suruba”. Bom. Surubas são acontecimentos em que todos os benjamins, trifásicos e tomadas de dupla face por ventura utilizados podem se lançar em conexões livres, sem garantia alguma de resultado produtivo. Surubas não se organizam, por mais tecnólogicas que sejam. E organização, submissão a estruturas já formadas, eis contra o quê Dacosta luta.

Em um dos trabalhos, ele escreve:

“ante o fixo e o flexo: aragem

dentre a faixa e o fluxo: anteparo

paira uma visão aérea de esguelha: reflexo”

Entre flexões e flexibilidades, necessárias; entre obedecer a faixa e seguir o fluxo, com (bem pouco) cuidado; resta o espaço aéreo que fica sobre o espaço limitado, fechado, consentido. O vôo sobre o labirinto (ou sobre chaves, parêntesis e colchetes). O vôo, que é, nos ensinaram Creta & Minotauro, a melhor maneira de sair do espaço em que tentam nos delimitar. E, de cima, ainda olhar para baixo e ter o gozo de ver sua própria imagem, enfim existente.

06/06/2011

Museu é o Mundo

MADE-ON-THE-BODY CAPE 1968 (PARANGOLE PAMPLONA)

CAPA FEITA NO CORPO 274cm/108cm no comprimento

1-Cada pedaço de pano deve medir 3 yards no comprimento;

2-Para fazer a capa o pano não pode ser cortado;

3-Alfinetes-de-fralda devem ser usados na construção e depois o pano pode ser costurado para fazer a capa permanente;

4-A estrutura construída no corpo deve ser improvisada pelo próprio participante (se precisar da ajuda de outra pessoa, ok) e feita de forma que possa ser retirada sem cortar;

5-Algumas pessoas podem participar juntas, mas uma só cor, i.e, um só pedaço de pano deve ser usado para cada capa.

Hélio Oiticica

 

Logo abaixo dessas instruções, vê-se Adriana Calcanhotto em três momentos: uma foto de corpo inteiro, erguendo um retângulo de pano brilhante (talvez, tafetá), cor laranja; um close na mão, com sete alfinetes sobre; e, então, corpo inteiro, novamente, vestindo o tecido/montagem.

Instruções e fotos compõem a página de abertura do encarte de Maritmo, disco de 1998 de Adriana. No entanto, o conceito por detrás é de um carioca anarcorromântico, cuja obra balançou o sentido de vanguarda artística nos anos 60/70: Hélio Oiticica.

Leonino de 1937, falecido em 80, Oiticica recentemente foi bastante lembrado pela perda de seu acervo artístico: um incêndio, dizem as notícias, teria destruído 90% de sua obra. Seja por isso, ou não, entre os anos de 2010 e 2011 uma grande retrospectiva de seu trabalho tem rodado o Brasil. Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e, por fim, Belém receberam Helio Oiticica – Museu é o Mundo.

Qual o Parangolé?

Para o crítico de arte Fernando Cocchiarale, Hélio “integrou a primeira safra de artistas brasileiros abstratos-concretos, responsável pela recusa do modernismo temático nacionalista, marcado pelo realismo social, hegemônico na arte brasileira desde a década de 1930”. Para César Oiticica Filho, curador do Projeto Hélio Oiticica, o artista colhia na vida a inspiração para o seu trabalho, realizando verdadeiros experimentos-vida.

Certo, mas o que quer dizer tudo isso? Quer dizer que o “pulo do gato” de Hélio foi, junto a outros artistas brasileiros (como as Lygias: Clark e Pape), pensar em arte que se completa com a participação das outras pessoas. A obra só vira totalmente obra quando eu uso, cheiro, toco, visto, rodo, danço, etc., etc.

Portanto, superando o conceito clássico do ir à galeria e contemplar a arte, o trabalho de Oiticica convida o espectador a entrar. Mais que isso, traz, para dentro da galeria, objetos inusitados que levam o visitante a outros lugares, como o mar, o asfalto, a favela…

Se faltar exemplo para imaginar, voltemos à Calcanhotto. As instruções que começam esse texto ensinam a fazer um Parangolé, trabalho concebido por Hélio, no qual a pessoa monta e desmonta, na galeria (ou fora dela), essas “capas”, com as quais se banham em pura cor única e, quando vestidas, tornam-se a própria obra. Homem e arte, indissociáveis, unos.

Se carecer explicação, eis o que diz Oiticica: os Parangolés são uma “proposição corporal levada a um nível de experimentalidade aberta. Absorção do tempo: fim do display fragmentado: falar em cosmicidade não deve implicar em algo extra-concreto mas em assumir o poder de inventar [...] Não me interessa na dança o seu estado naturalista de ‘manifestação humana’ nem reduções a ego-trip (fragmentação neuro-psiquíca) mas liberação inventiva das capacidades de play, é INVENÇÃO-PLAY”.

É…

Enfim, os Parangolés fazem parte da exposição itinerante. Aliás, são as “sensações”. Mas, além deles, a mostra conta com os Metaesquemas (1957), que remetem ao início do trabalho de Hélio, quando o suporte ainda era bidimensional, mas a pesquisa com a cor e o espaço já existiam; os Relevos Espaciais e Núcleos, espécie de placas geométricas suspensas no ar, também de uma cor só, formando uma estrutura que, descritivamente, seria como se os Metaesquemas saíssem dos quadros e invadissem o espaço; os Bólides (1963) que, segundo a curadoria, “são caracterizados pelo ato de Oiticica não querer mais representar a cor, mas apresentar a cor enquanto próprio pigmento”, convidando o espectador a uma experiência sensorial; e, por fim, os Penetráveis (inclusive, o antológico Tropicália), instalações adentráveis, com pianos,TVs, telhas, tijolos, areia, cascalho,água, palha, et cetera.

Experimenta!

Veja que descrever o que há na exposição é uma tarefa difícil. Prova de que, com Oiticica, devemos viver a experiência: mergulhar na água, pisar no barro, circular entre a cor, vestir o Parangóle. Em Belém, inclusive, a experiência invadiu a cidade. Ao todo, Museu é Mundo está distribuído em seis pontos diferentes, dos quais, quatro são pontos turísticos fundamentais: Forte do Presépio, Casa das 11 Janelas, Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP) e Estação das Docas. Completam a lista: Fórum Landi e Centro Cultural Tancredo Neves (Centur).

Na Estação, conhecidíssima por seu, digamos assim, discreto charme burguês, entramos Nas Quebradas, trabalho fortemente influenciado pela experiência de Hélio nas favelas cariocas. Nas 11 janelas, penetramos em Gal. No Fórum Landi, tocamos piano em Rhodislândia; no MHEP descobrimos que a “pureza é um mito”, com o Tropicália.

Hélio se deslocou de um “construtivismo internacional” para um “construtivismo favelar”, diz a curadoria. Sua obra amalgama experiência, testemunho e arte, criando tensões entre obra e “participador”, tornando Oiticica representante fundamental da vanguarda brasileira dos anos 50,60 e 70.

Seja como for, Hélio era e é delirante. Nos seus desbundes ultracoloridos, apresenta uma arte viva e dinâmica. Influenciando muita gente, seja La Calcanhotto ou a decantada Tropicália. Acredite: o desconcerto, ainda hoje, é garantido. Em Belém, pelo menos, até o dia 5 de junho.

01/06/2011

Cadu Costa

Fiquei pensando em categorizações ao ver a exposição do carioca Cadu Costa na Vermelho. Na ausência delas. Está certo, não há representações de espécie alguma, há acontecimentos. Acontecimentos do tipo que deixam rastros.

Cadu Costa @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cadu Costa @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Por exemplo, em uma sala, martelinhos que “mordem” a parede da galeria, impulsionados por um censor de movimento. Que movimento? O teu, ao entrar na sala. Outros martelinhos, amarrados a uns longos e bonitos pelos de crina de cavalo, também fazem a mesma coisa em outra sala. Só que não mordem nada, acariciam. Trenzinhos também acariciam, ao passar por um trilho em cima da mesa, o que lá está: copos, cristais, garrafinhas. Dura o tempo que dura. O que perdura é o efeito da arte: o desconcerto, o desconforto, o reposicionamento.

Para situar quem não é do ramo: com o fim do  moderno, acabou também um essencialismo, seja lá no que for. Conceitos como autor, assunto, tempo e espaço. Ficou a relação de um fenômeno com outro que com o primeiro tenha alguma sincronia. É um sistema de diferenças e não mais de oposições, e em que o fruidor, com sua perspectiva ideológica, cognitica e sociocultural, é integrado. Em outras palavras, o que se identifica é um valor de uso, uma função dentro de uma rede de práticas culturais. Se fosse coisa escrita, seria a intertextualidade, esse palavrão inventado por Julia Kristeva nos anos 1960 e que só veio a ficar realmente importante na contemporaneidade que então apenas se esboçava.

Mas dá para dividir a obra de Cadu Costa em tópicos semânticos, sintáticos e pragmáticos.

A semântica está sempre deslocada, pois seus objetos o estão. Trenzinhos não andam em cima da mesa de jantar, pelo menos não com os cristais por lá. Crinas de cavalo pedem um entorno diferente de paredes e aparelhinhos. Você se sente meio mal de estar fazendo buracos, ainda que indiretamente, nas paredes tão brancas de uma galeria.

Cadu Costa @ Vermelho - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A sintaxe é a do movimento que começa antes, que vem desde antes que o registro é feito, como no caso das medições de luz, de vento, a formar desenhos geométricos mutantes.

E o pragmatismo de seu conteúdo escapa da banalidade cotidiana, embora a ela esteja ligado. Por exemplo, nas cartas de baralho. Recortadas em aviõezinhos que sobre elas “voam” em ângulos retor, linhas finas, e aqui eu entro: desagradáveis. Entro sem pedir licença. Eu também não tenho essência. E a construção do significado conta com a recepção e expectativas do fruidor. Acho os desenhos tradicionais (e é o caso aqui) das cartas de baralho um pouco estranhos, meio assustadores. Os aviõezinhos pioram.

Wittgenstein tem uma definição de conjunto que me agrada: “componentes individuais se relacionam de várias maneiras sem apresentar necessariamente uma única característica que seja compartilhada por todos eles.”

É o caso à primeira vista. À segunda vista, compartilham sim. As obras expostas te sugerem novas vivências. É o bastante.

18/04/2011

Pergola

Não gosto de exposições temáticas. Você sabe disso. Mas era no Museu Afro Brasil. E achei que se alguém podia fazer exposição com tema de luta seriam os negros. O nome do artista deveria ter me acendido um alerta. Cesare Pergola. Italiano? Sim.

Pinturas a partir de fotos. Você reconhece. A lógica é diferente. Pintura e há uma estrutura interna, suficiente. Seus elementos se relacionando entre si. Foto, e você saca que se trata de uma fatia, sempre insuficiente, de algo maior – a cena que você não viu. Foto, e a relação é aberta, com um fora dela – e é nesta insuficiência que está, justamente, seu grande trunfo. É nesta falta que se forma seu significado maior. E com tua ajuda. É na abertura, na falta. Pergola disfarça esta falta (daquilo que continuaria, do que não se vê, mas que, de algum modo, tem na foto tirada sua ausência apontada) botando a falta dentro do próprio quadro. Ele some com o fundo. Falta o fundo. Ele cobre o fundo da cena com tinta uniforme ou quase, formas levemente geometrizadas, cores neutras. Seus quadros têm figuras, mas não têm fundo. Dessa maneira, o “corte” típico de qualquer foto se atenua. Há outra coisa que se atenua. O contexto. E já vou falar disso.

A pincelada é rápida, de pouco ou nenhum volume, e anterior à formação das nuances de cor. À la impressionismo. E isso achei legal. A pincelada com o mesmo ritmo tenso, rápido, sem pensar, de uma luta.

Sem pensar.

Logo na entrada um vídeo com lutadores de sumô. Aquela cara totalmente estúpida, as figuras hipopotâmicas. A seguir, outras lutas, de outros povos. Aliás, de outros machos de outros povos. Não há mulheres nesta exposição. Mas voltemos ao pensamento. O nosso.

A citação ao impressionismo tem esse efeito positivo de conciliar técnica e tema, mas tem outro efeito também. Você forma uma paleta de tons com as cores primárias. Então, os quadros de Pergola são cheios de cores primárias, que são as que existem antes da formação das tonalidades mais nuançadas. E aí a gente chega num formalismo que sempre me parece conservador e que, quando o assunto é luta, se torna francamente perigoso. Você fica achando aquilo tudo tão bonito. Aí tem lutadores africanos “em azul” (título do quadro). Outro: “Lutadores africanos com plumas”. E as palavras são um inferno. Elas nos traem quando menos esperamos. A expressão que Pergola usa para titular seus quadros é típica de um europeu, é do pensamento colonialista europeu. A África é um continente. Tem povos diferentes entre si tanto quanto qualquer outro continente. Dizer que os lutadores são “africanos” é uma visão exterior, superficial e paternalizante. É este o contexto que fica quando o contexto individualizado de cada cena é retirado.

O formalismo de Pergola continua para além da África. Mas só em lugares exóticos, “interessantes” do ponto de vista turístico. Temos um “Boxer em verde” de Bangkok. Uma “Luva vermelha” igualmente excitante porque de algum outro povo “primitivo”. Não vi mulheres de nenhum tipo. No entanto, poderia. Mulheres vietnamitas defenderam suas vilas depois de ter todos seus homens mortos.  Mas não estão lá. Também não vi hooligans ingleses se estraçalhando bestialmente num estádio de futebol. Nem mauricinhos atacando gays em qualquer cidade ocidental. Ou engravatados fudendo com todo mundo em Wall Street. As lutas aí, formais, “bonitas”, são as lutas lá longe. As mais de perto teriam talvez mais dificuldade em serem estetizadas para gáudio de quem entra num museu em um domingo de sol, depois de um café e antes de um almoço.

Ah, dois capoeiristas dançavam lá no meio. Por serem meio esbranquiçados, achei que eram uma referência ao Brasil e à nossa acolhida dançante do que foi inicialmente uma luta só de negros. Mas isso sou eu, otimista a mais não poder.

01/02/2011

A representação do homem/boneco nas artes

O humano desde o tempo das cavernas sempre foi representado pelo homem como um arquétipo de vida e conhecimento, quando então a representação servia para os que viessem a existir após aquele que transmitiu a mensagem, conhecessem perigos e lembranças para sobrevivência.

O arquétipo, segundo C. G. Jung, em poucas palavras é a representação de um modelo de pessoa que está no inconsciente coletivo, frequentemente usado para dar vivacidade a maioria das histórias de heróis, mocinhos e bandidos tanto do cinema quanto dos quadrinhos. A sociedade contemporânea vivencia juntamente com a arte – que é fruto de um inconsciente coletivo muitas vezes endossado na trajetória de um artista – uma animalização do corpo do boneco, do fantoche que é interiorizado na vida das pessoas.

O efeito da indústria cosmética tem um papel forte na sociedade após anos 1950, modificando radicalmente a sociedade ocidental e até mesmo os padrões  do corpo que são vendidos pela publicidade e propaganda dos cigarros, bebidas e produtos de beleza. O corpo feminino talvez tenha sido o mais pragmatizado e estigmatizado durante toda a existência, passando do corpo gordo para o esquelético, do molde ao corpo pelos exercícios físicos até a cirurgia plástica. A artista plástica Michelle Massatelli expõe um marco cultural no ocidente, a boneca Barbie. Essa pode ser a imagem mais duradoura de um padrão de beleza perseguido por muitas mulheres (sem comentar o namorado fictício, o Ken – também padrão de beleza perseguido por muitos homens), que estranhamente na primeira foto está jogada, como se estivesse morta e desfacelada. Na segunda foto está numa pose bastante erótica, com a mão no que significaria as partes íntimas, mas como trata-se de uma boneca não revela este ar erótico tão presente num primeiro momento.

MICHELLE MASSATELLI
MICHELLE MASSATELLI
SEM TÍTULO
Série
O Segredo de Bárbara
técnica: Fotografia digital
dimensões: 30 cm x 45 cm
ano: 2010

MICHELLE MASSATELLI
MICHELLE MASSATELLI
SEM TÍTULO
Série: O Segredo de Bárbara
técnica: Fotografia digital
dimensões: 30 cm x 45 cm
ano: 2010

As duas Barbies parecem estar representando a dor de um arquétipo. A artista talvez queira nos transmitir que um símbolo de beleza como esta boneca pode se tornar um ser tão frágil mas ao mesmo tempo tão forte mas que deixa caracterizado a mulher-objeto.

Anterior à artista Michellle Massatelli, a produção de Andy Warhol já dispunha de uma tradição em retratar os sex symbols quando ele inicia a série de Portraits, a exemplo dos retratos retirados de Polaroid do Arnold Schwarzenegger, da Farrah Fawcett e outros artistas famosos dos anos 1970.

Os arquétipos sempre foram meios do ser humano se encontrar e comunicar com os outros humanos de forma a estabelecer suas necessidades afetivas e comunicativas. A representação do boneco perfeito foi transformado em seu papel pela vontade que o homem/mulher tem de se parecer com o perfeito, que no caso é a representação de um boneco – ou boneca – que ele possa se assemelhar e tomar nova forma, evidenciando até mesmo a mutilação doentia do corpo por entrar num esquema de perfeição muitas vezes alcançável apenas a um produto seriado de produção fabril.


Bibliografia Consultada:

29/01/2011

Mario Sughi

Mario Sughi, que na minha opinião é um dos mais relevantes artistas contemporâneos, está com uma nova exposição na Irlanda.

É um pouco longe mas fiz questão de colocar o convite aqui para você conhecer o trabalho dele e visitar o site.

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

Quite, almost pleasant, afternoons - Mario Sughi

All works here and at www.nerosunero.org: Author Mario Sughi, technique Inkjet printed drawing on paper (Limit. Eds of 7), Years 2009/10


Mario Sughi

aka

nerosunero

www.nerosunero.org

 

Quite, almost pleasant, afternoons

7 February 4 March 2011

 

Íontas Castleblayney

Conabury

Castleblayney

Co. Monaghan

12 Brighton Vale

Monkstown, Dublin, Ireland

00353 (0)1 2841782

Mario Sughi is an Italian artist and illustrator living and working in Dublin. He is a member of the IGI (Illustrators Guild of Ireland) and AI (Associazione Illustratori Italiani) and the author of nerosunero. In Rome, at the end of the seventies, he worked as humorist in Italian satirical magazines Il Male and Zut. He moved to Dublin in the late eighties where he studied Medieval History and in 1995 he was awarded a PhD by Trinity College Dublin.

His work, satirical in humour and minimalist in style has been published and presented in international exhibition catalogues (Offf Barcelona 2007; Semi permanent, Sidney 2008; Ink 01 International Illustration Rally, Bilbao 2008; Alfa Romeo Art, Milan 2010); magazines (3×3 Mag, New York; Shift Calendar 2010, Tokyo; The Dubliner, Dublin; Clam Magazine, Paris-NewYork; Ideafixa, Brazil; Fluro Mag, New Zeland), art websites (Juxtapoz, Beautiful Decay, Hi-Fructose) and art galleries (Sexy Art Gallery, Amsterdam, The Shiny Squirrel Gallery, NY; Little Paper Airplanes, Los Angeles; Umber Studios, Minneapolis; 180 Gallery Cambridge, Ontario; Wannabee and DOZ Gallery, Milan; Turn-Berlin, Germany, Fashion Week, Belfast, Arts Club, Gallery, Number One, Mill Street Studios, South Studios and The Loft, Dublin, Ireland) LÜrzer’s Archive included Mario Sughi in their compilation “200 best illustrators worldwide 2009”.

In 2010 Mario was awarded prizes at the 30th Annual of Italian Illustrators , 7th 3×3 Mag Annual, 29th American Illustrators, Aesthetica Magazine.

Last solo exhibition: A new sense of emptiness, Greenroom Art, Manchester, 8 Sept – 23 Oct. 2010, curated by Blank Media Collective.

Upcoming solo exhibition: Mario Sughi, Quite almost pleasant afternoons.

Íontas Gallery, Conabury Castleblayney,Co. Monaghan, Ireland, 7 Feb.-4 March 2011

Exchange Dublin, Dublin, Ireland, 21-27 March 2011

Mario Sughi

www.nerosunero.org

nerosunero@nerosuner.org

05/12/2010

Marina Abramovic

The kitchen VIII, de Marina Abramovic  - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásUma das primeiras imagens que você vê ao entrar na exposição de Marina Abramovic (Galeria Luciana Brito, SP) é a de uma caveira em uma bancada. Como o título é The kitchen, a bancada, então, deve ser de uma cozinha. Ambiente doméstico, questão de gênero e este seria um caminho. Mas ao lado da caveira tem uma poeirinha. E eu vou falar é da poeirinha. Isso porque a exposição se chama Back to Simplicity e é carregada de símbolos de origem, natureza, pureza e essas coisas com as quais tenho dificuldade em me relacionar.

(Há uma brincadeira com a questão de símbolos. Você pode dizer que os símbolos nasceram mitos, viraram símbolos, e à medida que a decrepitude avança, se tornam metáforas para afinal morrerem como lugar-comum.)

À poeirinha, então.

E lá vou eu direto para o lugar-comum. No caso, o lugar-comum da arte contemporânea: Duchamp.

Depois de dar O grande vidro por terminado, Duchamp deixou a obra uns seis meses em um cavalete no seu ateliê, que era tudo menos limpo. Quando Man Ray foi lá para fotografá-la recebeu ordem de incorporar a poeira nela acumulada à textura do vidro. A foto foi batizada com o irônico título de Élevage de poussière. Algo como Criação de poeira. Duchamp acabaria por passar verniz em cima de tudo, tornando a poeira partícipe permanente da saga dos noivinhos presos dentro do vidro. Outra vez a domesticidade, a questão de gênero.

Mas depois a gente volta a isso.

Primeiro, fiquemos com a poeira e seu papel em me salvar dos conceitos de origem, natureza, pureza etc.

Porque a poeira tem uma posição muito específica no rol das sujeiras do mundo. Ela não permite binômios. Ela nunca é “de fora”. A poeira está sempre dentro. Ela “desce”, mas não do céu, praga divina. Não. Desce de um teto qualquer. Faz parte do humano e de suas construções. E é lícito ampliar, aqui, a palavra construção. Claro, as de tijolo. Mas também as simbólicas, e as linguísticas.

E aí passei pelos retratos da artista com cordeiros. Um retrato com o cordeiro branco. Outro com um cordeiro preto. E mais um retrato. Ela segurando um bode, o símbolo do diabo. Só que cordeiros e bodes se apresentam não muito limpos. Tem sangue, manchinhas.

Sleeping under the banyan tree, de Marina Abramovic  - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásE comecei a achar que a tal da simplicidade à qual deveríamos todos voltar, não é a da busca por algum tipo (com ou sem transcendência) de sopa primordial. Que, aliás, a se acreditar nos químicos, era uma boa duma mixórdia. Mas, pelo contrário, a simplicidade de coisas que tem peso, forma, feitas com muitas misturas, cabelos, fluidos. Nem bom, nem ruim, só existente. Montanhas que você não sabe onde começam. Figueiras banyan, que só crescem se tiverem algo por perto – pode ser um muro, outra árvore – em que se apoiar. E que continuam, guardando o negativo da forma daquilo que lhe deu apoio, mesmo quando aquele muro ou árvore não mais existe.

Art must be beautiful, de Marina Abramovic  - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásNo andar de cima da galeria, registros de performances da artista. Entre elas, a Art must be beautiful, artist must be beautiful. A artista escova seus longos cabelos com escovas e pentes de metal. Até se arranhar toda. Até se machucar, tirar sangue, arrancar os cabelos. Porque ela precisa da beleza do verdadeiro, do imperfeito, do que se quebra, se suja e se machuca. E que é a única beleza que a arte de hoje admite. Foi isso que Duchamp ensinou.

Agora, o gênero. Há uma política do corpo que reconheço como feminina. E é a partir desta corporeidade que entendo a referência da artista à questão judáica, na performance Lips of Thomas. Ela, nua, de boné militar com a estrela-de-david. E outra estrela-de-david entalhada com uma lâmina na pele de seu abdômen, que sangra.

27/11/2010

Sebastian Gordín

Sebastian Gordín - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásHá um pensamento filósofico sobre o cinema (mais de um, mas vou ficar só com um) que diz o seguinte: entre teu olho todo-poderoso e o objeto do teu olhar há uma tela. Eis tudo. E aí você pensa no que é uma tela, no que há de regulador, estabilizador, controlador em uma tela. Ou não. Porque pode ser uma “tela” que busca destruir uma outra “tela”, aquela que já está incorporada em você. Uma tela que quer te obrigar a renegociar os parâmetros que você já estabeleceu para mediar aquilo que você se permite ver.

Mas será sempre uma tela. Lacan diz que não tem jeito. Não há o olhar sem tela. E quando há, ele te destrói.

O que podemos fazer para sair do escurinho confortável de nosso cinema 24/7, então, é aceitar ou buscar novas telas.

Ou novos retângulos.

Há uma teoria da arte que diz que arte passou a existir quando puseram alguma coisa num retângulo. E batizaram: isto é arte. E que agora, na contemporaneidade, o retângulo está sendo abandonado pela primeira vez em milênios. E que esta arte – que justamente parará de ser chamada de arte – sai do retângulo e passa a existir da mesma forma que eu ou você.

(Retângulo é qualquer coisa que retire aquele pedacinho de existência da existência mais ampla. Pode ser o quadrado de um pedestal de estátua, um quadro, uma parede a ser coberta de afresco, ou uma tela. Pode ser em 3D também, tipo caixa de acrílico.)

Sebastian Gordín, que expõe na Oscar Cruz a sua A linguagem das coisas, escolheu a caixa de acrílico. Seus pedacinhos de existência-fora-da-existência são mesmo bem completos, por conta dessa terceira dimensão. Até mesmo pequenas gambiarras ou tubinhos de luz estão lá dentro desses mundinhos à parte, iluminando-os e tornando-os independentes da luz cá de fora.

Sebastian Gordín - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásSão três. Um é um museuzinho cujo porão está inundado pela mesma água representada pelos seus diminutos quadros “de grandes proporções”. Outro é um átrio de igreja, com genuflexórios em fila, alarmantemente numerosos, aguardando que a confissão em série nos enquadre na ordem dos moveizinhos, na escala das colunas que tudo sustentam. E o terceiro são estantes e mais estantes de livrinhos. Que tombam qual dominó.

Gordín cutuca nossa tela normatizadora interna ao enveredar – nestas suas outras “telas” – por possibilidades não aventadas.

Há uma segunda brincadeira. É com o gozo voyeurístico. Você está fora dos mundinhos. Pode vê-los de vários ângulos. Examinar a intimidade de seu chão de taco ou ladrilho. Possuí-lo pelo olhar.

Este segundo aspecto, o do erotismo sedutor, é coerente e conduz ao primeiro aspecto, o da cutucada nas nossas expectativas de espectador. Quanto mais seduzidos, maior é nosso desconforto com o inesperado.

Sebastian Gordín - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásQue também é duplo. Pois por mais que queiramos transcender aos mundinhos, eles são fechados. São retângulos. Acabam. De uma certa forma, nos seduzem para depois nos abandonar.

Ao contrário da peça de Gordín que representa o museuzinho, e que tem uma escada levando a um segundo andar inexistente, na galeria o segundo andar existe. E tem a exposição de quadros de Adams Carvalho.

As duas exposições podem ser vistas a partir do mesmo pensamento conceitual. Esta segunda exposição se chama Faceless. As pinturas de Carvalho não têm rosto. A identidade negada a seus modelos também é negada às pinceladas. Corpos e lençóis combinam em uma mesma textura desarrumada. E o mesmo grafismo – quase um retângulo virtual desses de papel quadriculado – propõe e nega a arrumação possível e impossível.

13/11/2010

César Meneghetti

César Meneghetti - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO vídeo de sete minutos Les terra’s di nadie, de César Meneghetti, ora em exibição do MIS-SP, se apresenta como obra política, com suas imagens históricas, de arquivo, referentes aos golpes militares do Brasil e Chile.

A presentificação de eventos passados – sejam eles acontecimentos, objetos ou pessoas – pode se tornar um ato político de duas formas.

A primeira será inserindo na narrativa recorrente e ininterrupta da atualidade um inventário – em si desprovido de sentido, listas de coisas sem nome – que esta narrativa excluiu. A escolha dessas coisas e não de outras, sua justaposição e sua reapresentação ordenada, dão a elas o sentido ou o nome que o tempo lhes negou.

A segunda maneira é tentando modificar o sentido da narrativa atual ao trazer para ela outro sentido – o sentido parcial, construído e individualista de um determinado inventário elegido. Em geral a partir de um claro partido tomado (parti pris).

Na primeira,  o foco é no que está sendo trazido. O que mais é ressaltado é a existência-não existência das coisas elegidas. Na segunda, o foco fica na narrativa atual, que é solicitada a acolher o que está sendo trazido.

No primeiro grupo, por exemplo, há a Rosângela Rennó e a persistência dos vencidos. São os restos das pessoas que não existiram, em forma de fotos velhas, lencinhos usados, cacarequinhos que até há bem pouco estavam no lixo. Ou são os objetos, até mesmo eles, que poderiam ter sido usados para representar esse lixo da história e que se tornaram lixo, eles também. Falo das máquinas fotográficas velhas, enormes, incluídas por Rennó em algumas de suas exibições.

O segundo grupo é o que mais recebe a alcunha de arte política. Antonio Dias, para dar também aqui um exemplo. Chega perto do libelo.

Meneghetti é mais duro que Rennó e mais sutil que Dias. E faz lembrar os dois.

O que ele recupera não é bem os golpes militares citados. É uma parte muito específica desses eventos. São os anônimos que neles foram vencidos. E os recupera através de imagens sem nitidez, monocromáticas ou quase, repetitivas. Repetitivas em concomitância, pois ele divide sua tela em várias projeções simultâneas que, em alguns momentos, chega à pulverização, com a imagem reduzida a quadradinhos, um ao lado do outro. São luzes que passam no teto de um túnel escuro. Paradas militares. O chão seco das terras abandonadas. Sobre isso, o texto que se repete, escrito na tela, ele também repetido, em várias línguas.  Você sabe o que é. Você reconhece a silhueta do corpo sendo jogado de um avião. Você só não sabe quem foi.

O texto é uma poesia de Antonio Arévalo e é sussurado, quase inaudível, por duas mulheres que se sucedem, elas também pouco identificáveis. As vozes são quase iguais. Os nomes tem a existência breve de um release para a imprensa. São os de Carolina Manica e Patricia Rivadeneira.

Quase ao final, a frase que, ao meu ver, mais representa o projeto:

“Nunca se souberam as causas de sua vida.”

À vista de cadáveres, o que o artista diz, na voz desse outro artista-poeta, é o espanto da narrativa em que nos inseremos todos hoje, quando confrontada com essas vidas para as quais havia motivações. E tão fortes. É um golpe. Mais, muito mais do que baionetas e corpos, eventos passados e (des)conhecidos ou (des)esquecidos, Meneghetti nos põe frente a frente com o que não temos e já tivemos. Ou melhor, com o que temos hoje na forma de ausência (ou presente ao extremo no fundamentalismo religioso de alguns, e, ainda bem, não de todos). Motivação.

É esta a ação política desta obra. Mais do que escolher este ou aquele inventário. Ter esta ou aquela escolha política, Meneghetti confronta uma ferida da atualidade. No individualismo em que estamos todos, aqueles corpos, recuperados como indivíduos, trazem, neles, o que o individualismo atual nos nega, um pertencimento.

Quando digo este ou aquele inventário me refiro a algo que raramente é abordado quando se fala de arte política. Os vencedores também a fizeram. Através da censura ou desta outra censura disfarçada, que é a distribuição criteriosa das benesses oficiais, os vencedores também poderiam se arvorar o título de artistas políticos.

É por isso que considerar o conteúdo da arte como suficiente não é suficiente. Baionetas e corpos servem a qualquer coisa. Uma prática de desestabilização de procedimentos artísticos, isso só quem faz são os vencidos ou os que com eles se alinham.

Ah, o som é muito bom. E é de autoria de Fabio Pagotto e Silvia Moraes.





Adendo.

Poucos dias após a exibição de Les terra’s di nadie outro filme de Meneghetti foi exibido em São Paulo, desta vez no cinema do MuBE (programa O homem e a cidade). O vídeo de 29 minutos Terrorista é o depoimento de Percy Sampaio Camargo, preso pela ditadura militar brasileira em 1969. Me preparei para um filme pesado. E ri. Primeiro com o episódio de sua fuga do Brasil. Em um Cessna em dia de tempestade, ele, o piloto e a noiva do piloto iam para o Uruguai. Pane no motor, falta de gasolina. O piloto – que não sabia que ele era procurado – quer descer num campo de pouso militar. “Nããão!!!! Pelamordedeus!!” Resolvem ir para Punta del Leste. Lá, basta dizer que se trata de um ricaço que quer jogar nos cassinos para obter permissão de pouso. Depois, já no Chile, a comunidade brasileira desconfia que Camargo é agente infiltrado. Mas, em um jornal, sai seu nome como terrorista, ladrão de banco, assassino perigoso. Não era. Era professor de biologia da UNESP. Mas graças aos militares, vence desconfianças e pode iniciar sua vida de exilado. E mais: ele berrando um discurso político aos ouvidos dos recrutas que o empurram, de saco cheio, para dentro de um camburão. Você ri. E aí também chora. Camargo, no vídeo com sua barba branca, chora ao falar. E você ao escutar. Bom filme. Serve de exemplo para o filme anterior. Camargo poderia ser um dos anônimos mortos e despejados no mar, ou vivos e despejados no esquecimento. Meneghetti o reinsere.

24/10/2010

Bienal 2010

Uma coisa meio escola e inteiramente preocupante. Porque já vivi isso antes, e na literatura. Quando “descobriram” que criança estava lá, esperando. Aí literatura primeiro virou principalmente literatura infantil, pois era a que mais vendia. Não mais literatura ponto. Mas com o adjetivo. E, logo depois, a literatura infantil virou algo que se ensina.

Revivi esse terror, que foi parte da minha vida e da do país, no chamado boom da literatura infantil. Sendo que boom da é uma aliteração que não evito, pois significante. Revivi. Na Bienal.

Era como uma escola. E, desculpem, meninos, sei que não é de vosso tempo. Mas escola com aula de Moral e Cívica.

Abundavam – sou persistente – projetos.

Exemplos:

- o CADA. Colectivo Acciones de Arte, do Chile (dissolvido em 1985!), com vídeo-depoimento dos “habitantes mais desfavorecidos” e tomando uma produção rural (de leite) como fio condutor;

- o Centro de Pesquisa sobre a Normalidade Brasileira, que estuda curiosidades antropológicas de São Paulo pois “como todos os regimes americanos colonizados, o Brasil vive numa área que não corresponde exatamente ao mundo real em que se situa” (ahn?, mundo real?);

- o Instituto de Mecânica, que toma o nome de um esforço educacional do século XIX para, desta vez de forma mais “democrática, auto-organizada e dispersa”, ensinar o que os ingleses tentaram ensinar às massas ignaras destinadas a suas fábricas do início do capitalismo;

- o do nigeriano Otobong Nkanga, que filmou a decadência de um conjunto habitacional, o Dolphin State (Dolphin State?!), de 1990 (!!);

- o documentário Extracción, de Gabriel Acevedo Velarde, com depoimentos de mais uma carrada de  ”habitantes desfavorecidos”.

E mais:

- instalações reproduzindo as gavetas-dormitórios das cidades-idem japonesas;

- o Manifesto pela volta dos judeus poloneses à Polônia (manifesto mesmo, uma pilha de cartazes, que alguém sugeriu que pegássemos para levar para casa);

- o documentário filmado em uma sweat shop de produção de roupas asiática, a Chen Chieh-jen Factory;

- uma foto do Rio da Prata com um texto lembrando que era lá que jogavam os prisioneiros políticos da Argentina. A foto sendo uma concessão aos alunos burros, uma ilustração por assim dizer, do texto educativo.

E dá-lhe mais mulheres chorando debaixo do shador, chinês sem dente, índio também sem dente, mais mulher, mais pobre. Mendigos assujeitados a câmeras invasoras. E desse jeito até mesmo o documentário que eu já havia visto e gostado, do Miguel Rio Branco, com suas putas miseráveis, ficou ruim de repente.

Projetos antropológicos, educacionais. Sem arte.

Ou, aliás, com arte.

Involuntária.

Por exemplo:

- as fotos do conjunto habitacional nigeriano, muito grandes, tinham seu papel abaulado por baixo do vidro. A curva do papel tornava os edifícios também curvos, desequilibrados, em um acréscimo muito eficaz ao conceito original. Que recebeu, enquanto eu e Roberto fotografávamos sem sucesso o abaulado, mais um acréscimo: o do monitor que explicava a um grupo de basbaques que as pessoas na Nigéria (e, deixou ele entrever, em outras partes do mundo igualmente desfavorecidas) “eram muito criativas”. E punham em suas casas acréscimos não previstos na planta original.

- mais uma arte involuntária, o vídeo dos pobres de Acevedo Velarde. Falavam, estes pobres, em seus vários espanhóis de colonizados. O vídeo, feito para mostras internacionais, chiques, de primeiro mundo, tinha legendas. E as legendas eram em inglês. Perfeito. Uma maravilha de síntese semiótica.

- mais uma arte involuntária: o projeto de estudo da normalidade brasileira é de Jimmie Durham. Durham é um americano que vive atualmente na Europa. Isso não é dito, claro. Vi na Wikipedia. Mas vale todo um compêndio sobre a relação entre o sintagma normalidade e seu uso pela estrutura de poder. Já que estamos na escola.

E mais.

Documentos de performances, o que é toda outra discussão. Pois se é necessário haver registro, o registro é uma contradição inescapável de uma arte que se define como acontecimento, como eclosão não durável, sequer repetível.

E mais.

Documentos do que não é performance por mais que se queira que seja, como a luta livre de um artista do ringue, o autodenominado Minerador-Lutador-Artista Adrian Street.

E mais a Marilá Dardot. Que continua com sua fé inquebrantável no valor simbólico da palavra. Simbólico, não. Mítico. Ocupando o terreiro Longe daqui, Aqui mesmo, a referência a poetas parece ser considerada o suficiente para que a poiesis individual de cada um dos citados ocupe, ocupe o quê? Um espaço? Ali? Parado? Sem a possibilidade de ressignificação que todo processo de comunicação supõe e que todo processo educacional-mitificador mata?

Saí para o recreio.

Porque também tinha recreio, nessa Bienal que descrevo como a mais equivocada que já visitei, aí incluída a do vazio.

E no recreio, ufa, encontrei gente de quem gosto:

Tatiana Blass – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA começar pelo piano da Tatiana Blass, que tenta e tenta produzir arte à medida que vai sendo engessado pela cera da burrice. O nome, aliás, é Metade da fala no chão. Adorei.

Rosângela Rennó parece ser sempre capaz de me comover em meio a essa arte tão pouco comovente. Ela e suas máquinas velhas, fotos antigas, porta-retratos fora de moda, tudo que não presta do nosso passado e que é, de repente, o que nos forma. Nome: Menos-valia.

Efraim Almeida põe ele mesmo pequenininho e nu. Feiinho, barrigudo e adorável. O artista ali existindo, em bonequinhos dele mesmo, preocupado decerto em não ser pisado por quem passa, ou ser esmagado por alguma certeza absoluta.

Jonathas de Andrade dá uma resposta a tudo que eu disse no começo deste artigo. Sua obra se chama Educação para adultos. Uma série de fotos e seus títulos. Me lembrou a tirada célebre do Milan Kundera a respeito da frase “o futuro é das crianças”. Sim. acrescenta o escritor. Porque no futuro (que já chegou, justamente), todos seremos exatamente isso, crianças. Jonathas de Andrade faz com que a gente tenha vergonha de estar ali, neste papel que nos é imposto. Ou que me é imposto. Sei lá se posso falar por outrem. Pareciam gostar, as pessoas que riam e fotografavam tudo.

Cinthia Marcelle trouxe um quadro-negro. Sim, desses de escola. Percebe-se que lá escreveram, apagaram, reescreveram. No chão, o pó do giz usado. Nome: Sobre este mesmo mundo. Assunto: a repetição pedagógica (antipedagógica) do velho, e o que sobra dessa repetição. O pó branco do giz faz referência à segunda obra da artista, localizada perto. É um vídeo sobre cocaína, o pó branco em close. Que vai sumindo à medida que é aspirado. A mesma rua sem saída da repetição, agora radicalizada.

Tatiana Trouvé pôs pesinhos ao fim de fios, no que seria o prumo perfeito da verticalidade exigida pela geometria e pela gravidade (todas as gravidades, incluindo a do politicamente correto). Só que o fio é duro, rígido. Os pesinhos estão como que em balanço, meio inclinados, com seu movimento imobilizado. Não só os pesinhos, Tatiana, não só os pesinhos.

Eduardo Coimbra, claustrofóbico tanto quanto eu, pôs umas luzes imitando a luz natural (nome da obra) na parte de cima das colunas do pavilhão. Foi muito bom ficar olhando para aquilo.

O que mais gostei foi um vídeo de um belga. David Claerboult filmou uma mulher que chega em uma casa. Toca a campainha. Um homem abre. Ela entra. Começa a limpar. A casa é geométrica, simétrica, não há nada fora do lugar ou dos blocos de cor branca ou negra. Ela faz o café. A mesa é milimetricamente perfeita. E aí vai embora. Vai de bicicleta. O sol está nascendo. Tem um vento suave na sua cara. Ela sorri sozinha na estrada. Às suas costas, ficam a casa e o homem. Ele, preso na racionalidade, previsibilidade, que ele exige que ela mantenha e provenha para ele. Ela faz, o prende, e vai embora, livre. Só excelente.

Uma sugestão. Que o vídeo do belga seja visto antes ou depois da obra de Anna Maria Maiolino. Também no ambiente tradicionalmente provido por mulheres, uma mesa posta, arrumadíssima, para um refeição. Os pratos vêem nascer de dentro deles os brotos do arroz e feijão, em uma imprevisibilidade e não-controle comum em tudo que é vivo.

Efraim Almeida – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Marilá Darbot – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Gabriel Acevedo Velarde – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Eduardo Coimbra – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Tatiana Trouvé – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Anna Maria Maiolino – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Jonathas de Andrade – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Em tempo: deixei para ver a Bienal depois de assentados os sonhos pequenos-burgueses de ascenção social dos pichadores; e alçados os vôos de urubus surpreendentemente desestabilizadores de outros pequenos-burgueses similares. Surpreendentemente porque logo ali, no grande lago do Ibirapuera, abundam (sim, e não é minha culpa) imperturbados.

20/10/2010

Daniel Senise @ Vermelho

Daniel Senise - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásPensei em ver o Daniel Senise. Me disseram que eram apenas umas poucas obras. Que as individuais eram de outras pessoas. Quase desisti. Mas fui assim mesmo. E com vontade de ver aquele lance do rastro, do vestígio do vivido que, para mim, marca (marcava) o Senise.

Mas há caminhos, coerências, buscas a serem trilhadas. E o caminho do Senise, vi, o afastava do rastro, do ‘imperfeito’, o aproximava do rigor da construção que, para tantos e para mim também, seria o que estava para trás e não lá na frente. Um passado e não algo a ser (ainda) obtido.

Mas que bom que fui.

Porque encontrei, na Vermelho onde sempre vou, mais uma vez do que gostar. Só que minha cabeça às vezes fica, espichada, quase saindo de sua forma arredondada, por não querer largar um pensamento. E o pensamento era o do rastro, o do vestígio. E, a bem dizer, o da origem – essa palavra que a filosofia nos ensinou a prudentemente evitar, por complicada demais.

Cinthia Marcelle é quem, na minha cabeça torta, grudada em pensamentos prévios, me deu o que Senise me negaria. Seu trabalho são 25 caixas em que há um molde em baixo relevo de facas que de lá foram retiradas. É simples. Seria. As ‘facas’ vão ficando mais e mais elaboradas. Firulas de cabos, adivinhamos. Lâminas em curvas que não julgaríamos existir. E mais e mais os moldes vão ficando menos indício de ausência ou perda, e mais e mais uma ferida no feltro, um cavar existente em si, distante de uma curácia aliás dispensável.

Há um desenvolvimento, aqui, pouco inocente, de quem quebra deste modo a relação representado-representante. E duplamente, quando o primeiro tem (teria) a representação não de sua materialidade, mas de sua imaterialidade.

E é um desenvolvimento quase político na sua negativa em assumir a autoridade inerente a quem se apropria, molda e apresenta um outro como sendo algo seu, de seu controle e autoria.

Conheci Cinthia Marcelle, salvo engano, em maio de 2007. Ela ocupava um espaçozinho, o Box 4, filiado a uma grande galeria carioca. Já me pareceu, então, dos que lutam contra.

Confirmei.

Cia de Foto – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cia de Foto – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Marcelo Zocchio – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Nicolas Robbio – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

O “meditação da ferida”, título do trabalho atual, implica a própria recusa ao conceito de origem, início. E por conseguinte, religião. O que é uma benção (desculpe) nos dias que correm. O significado do trabalho deriva de um deslocamento, não de uma fonte única. O trabalho, que parecia tão simples, complica-se a cada segundo.

Ela traz outro trabalho. Uma espécie de bomba-relógio feita com bananas de dinamite. Em vez de dinamite, tubos de luz fosforescente. Está num canto pouco iluminado de um corredor da galeria. A bomba atrai. Chama teu olho. Você chega perto. Um pequeno aviso, e engraçado, de que arte pode ser perigoso para você, pode explodir com tuas hierarquias já estabelecidas de poderes e valores.

Passei pelos outros e alguns me pegaram. Marcelo Zocchio fez uma escada com um corrimão (real) pregado em cima de sua pintura. A madeira do corrimão, gasta, imperfeita, é a mesma da moldura. Outro – que neste meu dia pelo menos – questionou os limites da representação. Nicolas Robbio armou um sistema de pesos que depende de um fragilíssimo graveto. Também já o conheço de outras obras/exposições e sempre gosto de sua maneira de apresentar o efêmero, de não acreditar em autoridades.

Dora Longo Bahia me encantou com seu back-light dúbio, borrado, pouco visível. O coletivo Cia. de fotos tinha três closes em vídeos de pouco ou nenhum movimento. Mas com o suficiente indício de real – que fotos/vídeos trazem – para mesmerizar quem na sala entrava. Você olhava. E eles te olhavam. De igual para igual.

A abertura principal era de Odires Mlászho. A Vermelho tem essa linha. Um pensamento sobre a relação imagem-texto. São vários os artistas por ela representados que seguem tal pesquisa. Tenho uma posição sobre o assunto. Acho que a imagem contemporânea tem a ganhar quando entende que há uma nova necessidade de linhas temporais (não necessariamente narrativas) na recepção imagética. Hoje. Digo agorinha. Até ontem não era assim. Então, quando o artista se abre para isso, eu gosto. Quando, ao contrário, ele estetiza palavras, eu não gosto. A diferença às vezes é muito pequena. Mas eu noto. Ou acho que noto. Mlászho, por exemplo, estratifica, imobiliza, espacializa, estetiza o texto. Então, eu não gostei.

Pós-Modernidade: da Ruptura Histórica à Cultura de Massa (parte 2 de 2)

Sintomas do sujeito pós-moderno (parte 2 de 2).

O filósofo e ensaísta brasileiro Sérgio Paulo Rouanet aponta em seu estudo As Razões do Iluminismo (1987), que o prefixo pós tem muito mais o sentido de exorcizar o velho (neste contexto, a modernidade) do que de articular o novo, o vindouro (o pós-moderno). Ou seja, o que há de fato é uma “consciência de ruptura”, que o autor não considera uma “ruptura real”.

Segundo ele, “depois da experiência de duas guerras mundiais, depois de Auschwitz e Hiroshima, vivendo num mundo ameaçado pela aniquilação atômica, pela ressurreição dos velhos fanatismos políticos e religiosos e pela degradação dos ecossistemas, o homem contemporâneo se cansou da modernidade” (ROUANET, 1987). Todos esses males, ainda segundo o filósofo, são atribuídos ao mundo moderno e a sua avassaladora necessidade de reinvenção. Essa atitude de rejeição se traduz na convicção de que o mundo está transitando para um novo paradigma. O desejo de ruptura leva à convicção de que essa ruptura efetivamente já ocorreu, ou está em vias de ocorrer. O pós-moderno, assim, se afigura muito mais como o cansaço tardio de uma época que pareceu extinguir-se sem ter alcançado seu apogeu do que o despontar de um novo começo que prima pela inclinação ao ineditismo. A consciência pós-moderna não corresponde, portanto, a uma realidade pós-moderna. Nesse sentido, ela é caracterizada como um simples mal-estar da modernidade, um sonho da modernidade.

Ao analisar os sintomas desta pós-modernidade imperfeita, Rouanet se arrisca em fazer uma psicopatologização ao considerar, em primeiro lugar, o moderno como essencialmente contraditório. Em segundo lugar, ao apontar que a sociedade contemporânea, em seu cerne, favorece o surgimento de um hedonismo característico, (todos passam a buscar o prazer pelo prazer, num incessante círculo de repetições, pois tudo o que conta é a satisfação pessoal) socializado pela mídia e, de certa forma, respondido por esta mesma coletividade como sintoma da chamada “sociedade do espetáculo”.

Nesta sociedade de valores massificados, especialmente no que respeita à cultura ocidental, a visibilidade dos aspectos particulares assumiu um caráter obsceno quando passou a excluir quase que completamente a dimensão da subjetividade e da privacidade das pessoas. Ou seja, com o alastramento dos meios de comunicação, anulou-se a dimensão do privado, tornando “tudo e todos” público, desde o cotidiano dos ansiosos por fama e ex-anônimos de programas midiáticos similares ao Big Brother, aos já famosos que figuram em revistas de frivolidades, como a Caras. Também se incluiu nesta categorização os rituais histéricos e cada vez mais midiáticos de evangélicos, carismáticos católicos e islâmicos, que se vendem para a televisão usando como desculpa a pregação de “causas justas” aos miseráveis, igualmente noticiados e fotografados por decorrência de algum fato merecedor da atenção jornalística.

Dada esta extrapolação da privacidade e de sua utilização como moeda de troca, os sintomas do hedonismo na sociedade pós-moderna passaram a operar através de mecanismos de promoção da visibilidade do que era privado, como se decretando o fim do segredo ou o fim da intimidade.

Durante a era moderna a “doença do século” era a histeria. Uma vez incapaz de suportar tanta repressão, o sujeito moderno teatralizava-se, representava-se enquanto ser contextualizado para escapar do embate endopsíquico. Graças a este sintoma, Sigmund Freud fundamentou sua psicanálise. Na era pós-moderna, entretanto, este mal-estar se apresenta de forma mais complexa, uma vez que os anseios individuais se diluem no caldo do disfarce coletivo, criando uma falsa sensação de que “tudo está bem”. O mal-estar pós-moderno é, portanto, visível e banal, expressado através da linguagem do cotidiano e do trabalho compulsivo, excessivo, quase sempre vendido como se fosse “lazer” ou “ócio criativo”. E, uma vez incorporado, este processo leva a uma série de problemas que acaba se tornando inerente ao sujeito pós-moderno, como o estresse, a perversão, a depressão, o sedentarismo e o tédio.

Colocando a questão em termos de patologia social, a pós-modernidade fez surgir, com seu neoliberalismo desenfreado, coisas contraditórias, como as indústrias e a crise de empregabilidade ou a abertura econômica e a escassez monetária; se por um lado temos a ciência mercadológica e a alta tecnologia, por outro, temos a multiplicação da população pobre e as guerras racionais. Na contemporaneidade, a perversão ganha ares de grandeza e se vê livre para manifestar-se em diversas formas, seja travestida de violência urbana, seja no terrorismo, nas guerras ideologicamente consideradas “justas” e “limpas” ou nas guerras “cirúrgicas”. A razão cínica é cada vez mais instrumentalizada. Não basta ser transgressivo, ou perverso ou mesmo imoral; é preciso se construir uma justificativa “moral” e, portanto, passível de aceitação, para atos de imoralidade e perversão.

Assim, na contemporaneidade pós-moderna, a perversão e o estresse tornaram-se sintomas resultantes da falta de lei, da falta de tempo e da falta de perspectiva de futuro, contraditoriamente refletido no sistemático abandono do passado.

Citando novamente Jameson, “a sociedade contemporânea é regida, mais do que tudo, pela ânsia e necessidade de “espetáculo”; ela exige o prazer imediato a qualquer preço, mesmo que para isso tenha que se valer de praticamente tudo, até mesmo abdicar de sua individualidade” (JAMESON, 1991). Enquanto inseridos socialmente, todos se sentem na obrigação de se divertir, de aproveitar cada momento e de trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social, não importando os limites de si próprio ou dos outros.

Para Jameson, a lógica cultural do capitalismo tardio frente à sociedade do consumo está organizada sobre a tríade “pastiche — nostalgia — morte do sujeito”, que permite ao homem pós-moderno “sentir a especificidade da experiência pós-modernista do espaço e do tempo”. Neste contexto, o “pastiche” (mescla que vários gêneros artísticos para a criação de um novo conceito, cujas características são distintas dos originais) assume-se como a representação alegórica da pós-modernidade, uma vez que adota as qualidades de uma máscara estilística de reiteração – como reprodução e sobreposição de estilos, mas esvaziada de conteúdo – condizente com o segundo pilar da tríade, a “nostalgia”, essa tomada como resgate de um passado nada ameaçador, embora instigante, que ofusca a relação humana com o seu presente histórico. Dessa forma, o homem contemporâneo se vê mutilado de sua autonomia, liberdade criativa e potência revolucionária, passando a mover-se no mundo sem procurar extrair dele a mais ínfima mudança sequer. Este último sintoma pós-modernista Jameson denomina como a “morte do sujeito”.

A arte pós-moderna.

De modo geral, a arte contemporânea se apresenta como um produto de concepção multifacetada e abrangente, representação do homem moderno e de sua dissolubilidade em meio aos múltiplos canais de comunicação de massa. Numa sociedade em que o impulso e a espontaneidade superam a razão e a necessidade de sociabilização é direcionada para o consumo, os objetos de mercado se revelam personalizados e estetizados, convertendo numa espécie de simulacro o mundo real, mundo este que agora se encontra desmaterializado. O comportamento dos grupos sociais, em consequência, passou a ser orientado pelos mecanismos de comunicação de massa, que vieram substituir em grande medida os contatos sociais. Mesmo entre o grupo familial ou de convívio próximo, a massificação da comunicação já se faz enormemente presente — quem nunca se utilizou de programas de mensagens, como o MSN, torpedos ou fez uso do celular para falar com um vizinho, amigo ou com um parente que se encontra no cômodo contíguo?

A partir dessa homogeneização dos sentimentos individuais, foram criados fatos, valores e necessidades que serviram de alimento para a estrutura econômica de uma sociedade agora globalizada. O desenvolvimento tecnológico e seus tentáculos que a tudo alcança e enlaça só acrescentou novos elementos à transformação do homem e de sua convivência em sociedade.

Como característica desta arte pós-moderna, tem-se a reificação ou coisificação (conceito marxista que prega a transformação do homem ou da arte em mercadoria, em simples objeto de consumo) da condição criativa, a apresentação da arte descontinuada, alusiva à negação da historicidade, a quebra da sequência estrutural, uma vez que ela não se fia mais na linearidade, nem busca no passado sua base de sustentação, e sua pasteurização, ao se utilizar de todas as formas de linguagens, incorporando num mesmo contexto fragmentos de diversos artistas, estilos e épocas. Neste aspecto, a literatura passou a utilizar o que se convencionou chamar de intertextualidade, ou seja, num mesmo texto há a simultaneidade de cenas, desde a imitação de procedimentos próprios do cinema moderno inseridos na leitura à introdução, na prosa, de técnicas de construção de poemas e a inclusão de posicionamentos autocríticos na composição do texto. Enfim, pastiche!

Um traço tipicamente pós-moderno presente em todas as modalidades artísticas contemporâneas é a tendência a eliminar as fronteiras entre a arte erudita e a arte popular como forma de valorização desta última e seu direcionamento para o consumo da cultura de massa. Diluem-se também os critérios tradicionais de definição da estética.

Na obra Pós-Modernismo e literatura, de 1988, Domício Proença Filho aponta algumas daquelas que considera como as características mais significativas das literaturas pós-modernistas, entre as quais figuram a intensificação do lúdico, do experimentalismo e do pastiche; a utilização deliberada da intertextualidade; a mistura de estilos; o exercício da metalinguagem (a linguagem falando de si mesma); o alegórico, o hiper-real e o metonímico; o texto fragmentado; o centramento na linguagem; a exaltação do prazer e a presença do humor. Assim, a pós-modernidade literária tem seu arcabouço centrado na visão cética do mundo, da arte, da vida, do sentimento e da própria ciência teórica, que foi levada a cabo pelo advento das ciências experimentais objetivas. Torna-se, portanto, uma espécie de anti-ideologia por encarar o fim do processo histórico, o fim das lutas de classe, o fim de um ponto em si mesma. É, em suma, a ausência de motivos. Ela buscou no advento da comunicação de massa novas formas de mídia e veiculação, aproximando-se da arte de cunho mais popular. Neste momento, existe uma adequação aos padrões da “Indústria Cultural”, onde a literatura essencialmente deixa de possuir alteridade; neste cruzamento de intencionalidades, a literatura no Brasil passou a ser vinculada ao mercado editorial, deixando de lado a premissa do estado como mentor e provedor.

A proximidade com outros meios de comunicação social criou no mundo midiático a possibilidade de os gêneros mesclarem-se e darem vazão a um novo produto-arte, porém descaracterizados da sua conceitualização antiga. A palavra passa a dialogar com a imagem, com o som, com o movimento e este com conceitos de outras naturezas, como a Internet, a televisão e a revista cultural. Todas estas variações formam uma única e grande colcha de retalhos, representativa do mass media globalizado. Ao analisar esta rede global massificada, Frederic Jamesom argumenta que o homem contemporâneo “vive em um período de fetichismo visual”.

Essa necessidade de observação-contemplação criou no sujeito moderno uma nova gama de sentimentos, como a valorização da subjetividade pessoal e o não comprometimento com o item universal ou com a causa estética. O prazer passou a ter significado através do ato de se expor, na função expressionista do indivíduo enquanto objeto passível de observação, extremamente autobiográfico, particular e egocêntrico. Agora comprometido com a identidade e com a satisfação do seu próprio eu, o artista pós-moderno fez com que todo um universo de significados sofresse uma inversão de valores, mudasse de lado: antes habitante do texto, tais significações passaram a se incorporar ao autor. A obra literária, então, ganhou ares de portal para a possibilidade de o autor travar contato com o leitor, criar um diálogo bidirecional, uma proximidade.

Para tanto, a literatura pós-moderna abdicou de todos os conceitos das correntes que a precederam, tornando-se desfragmentada quanto ao gênero narrativo. Também aboliu o núcleo do enredo e da estrutura clássica romanesca, distanciando-se do cânone clássico e passando a se utilizar do narrador multifocal. Da concepção romantizada (da estética romântica) ou idealista (oriunda do modernismo), a personagem pós-moderna tornou-se intrusa e ausente, desprovida de passado e história, situada unicamente no presente que lhe condiciona o tema. Falta, ainda, a definição do código e da mensagem da obra e a criação literária passou a celebrar a prática da “bricolagem” (trabalho de colagem de textos ou extratextos dentro do processo criativo, algo que se aproxima, em certa medida, da ideia de hipertexto. Na prática pós-modernista, é a transformação ou estilização de materiais preexistentes em novos trabalhos (não necessariamente originais)) e do diário como forma de realocação do ser dentro do amplo espaço da cultura global de massa.

As faces da pós-modernidade literária no Brasil.

O Pós-Modernismo no Brasil assumiu várias facetas dentro da produção literária, notadamente em relação à prosa.  Enquanto o Concretismo (movimento vanguardista surgido nos idos de 1950, inicialmente na música e depois na poesia e nas artes plásticas, que defendia a racionalidade e rejeitava o expressionismo, o acaso, a abstração lírica e aleatória do fazer artístico) consolidava suas características na poesia, a prosa pós-modernista seguia por diferentes estilos, marcada por tendências diversas, como a regionalista, a urbana, a intimista, a política e realista-fantástica, além de crônicas e contos.

Na poesia, o maior destaque brasileiro deste movimento é o pernambucano João Cabral de Melo Neto. O autor, sempre perseguindo o viés da razão em suas obras, acabou inaugurando um novo jeito de fazer poesia. A essência de sua criação literária mostra uma tentativa de desvendar os elementos concretos da realidade, que se afiguram desafiadores para o poeta. Sempre guiado pelo raciocínio lógico, seus poemas evitam o subjetivismo poético e se voltam para a realidade do mundo, para a verificação dos objetos, das paisagens, dos fatos sociais e suas consequências, sem jamais cair na senda do sentimentalismo.

Já na prosa, o Brasil produziu uma quantidade considerável de grandes obras, abordando estilos e temas os mais diferentes. A literatura regionalista pós-modernista, uma das correntes mais notórias, deu ênfase ao âmbito rural, trazendo para a ficção a exposição de costumes locais e a crítica político-social. Autores como Mário Palmério, Ariano Suassuna, José Cândido de Carvalho e Josué Montello apresentaram ao Brasil urbano o homem do campo, aprofundando-se na psicologia da roça, na riqueza cultural sertaneja e na sua multiplicidade de crenças. Como mais destacado representante desta corrente, tem-se o escritor João Guimarães Rosa. Embora de caráter regionalista, a obra rosiana supera o chamado regionalismo tradicional, uma vez que ora idealiza o sertanejo, ora se compraz com seus aspectos meramente pitorescos, com o realismo documental ou com a transcrição da linguagem popular e coloquial. A obra rosiana apresenta-se dona de uma riqueza de linguagem que a tornam única, além de seu caráter universal no que respeita às questões morais e metafísicas. Criador de uma prosa única, Guimarães Rosa estilizou o linguajar do sertanejo, recriou ou inventou novos vocábulos, mesclou arcaísmos com a fala erudita, conceitualizou o popular e o moderno tecendo, a partir daí, uma nova linguagem na qual estão inseridas as indagações universais do homem: o sentido de vida e morte, a existência-inexistência do bem e do mal, o significado do amor, do ódio e de muitas outras dúvidas que afligem tanto o homem cosmopolita quanto o sertanejo.

Na prosa intimista, outra vertente da ficção pós-modernista nacional, os autores se voltaram para a exploração psicológica das personagens, e, dentre os maiores destaques, tem-se nomes como Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Nélida Piñon, Ivan Ângelo e Raduan Nassar.

A prosa urbana traz em sua denominação muito do que ela representa, ou seja, é uma narrativa direcionada à denúncia dos problemas das grandes cidades, notadamente nos aspectos social e político. Retrata a chegada do progresso e suas influências nocivas nas relações humanas, posto que, junto a ele, chegaram atreladas a solidão, a marginalidade e a violência. Dentre os autores que exploraram esta vertente da criação literária, tem-se Rubem Fonseca, João Antônio, Luiz Vilela, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão.

A prosa política, dentro da concepção pós-moderna, é uma literatura que mostra os fatos sociais diante da censura aos meios de comunicação de massa iniciada, aqui no Brasil, no começo de 1964, com a repressão militar. O que o jornal não podia mostrar, a literatura narrava através do romance-reportagem (obras de denúncia dos abusos de poder disfarçada em linguagem jornalística) e do realismo fantástico (obras de denúncia baseadas em situações fictícias, absurdas, como meio de satirizar a situação do país).  Entre os autores da prosa política, vale destacar Antonio Callado, Roberto Drummond, José Louzeiro, Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro, Ivan Ângelo, Murilo Rubião, José J. Veiga e Moacyr Scliar.

Murilo Rubião foi, inclusive, o primeiro autor brasileiro a trabalhar a temática do fantástico na literatura, ainda nos idos de 1940. Sua ficção, eminentemente contista, perpassa os problemas do homem moderno colocando-o sob a ótima do lúdico. Na prosa rubiana, o cotidiano banal ganha ares de fantástico para denunciar e, a cima de tudo, evidenciar, a incapacidade do homem de se situar enquanto ser social.

A partir da década de 1980, outros estilos literários, como a ficção especulativa (a ficção científica, a fantasia e o horror) e a literatura de entretenimento (romances considerados rasos, geralmente escritos para o grande público), ganharam fôlego e corpo — além das prateleiras das livrarias e os meios de comunicação — evidenciando mais uma etapa do longo processo de desdobramento da contemporaneidade artístico-cultural.

E, seja na poesia, na prosa ou nas artes visuais, o pós-modernismo encontrou na figura do homem moderno sua razão de ser. Através da arte-questionadora ou da arte-espetáculo, cada artista procura, à sua maneira, traçar um panorama dos rumos que a cultura tomou — e ainda está tomando — nestes dias de aldeia global, onde o individual, o particular e o autóctone passaram a ter um significado bastante relativo.

Para saber mais (artigo – parte 02):

* JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (trad. Maria Elisa Cevasco). São Paulo: Editora Ática, 2004.

* ROUANET, Sérgio Paulo. As Razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

* FILHO, Domício Proença. Pós-Modernismo e literatura. São Paulo: Ática, 1988.

10/10/2010

O estado da arte

Como será que ficava uma arte – desorganizada como a contemporânea – em um espaço modernista, organizado, limpo e ligeiramente massacrante. E isso em uma cidade igualmente organizada e, bem, já foi mais limpa.

Curitiba. Museu Oscar Niemeyer. Exposição O estado da arte (uma geral dos contemporâneos paranaenses).

Me diverte sempre um pouco ver como a arte de hoje faz para se esgueirar entre seus patrocínios e instituições e, ao mesmo tempo, demonstrar uma coisa assim meio antimercado.

Sei como. É assim. O lado antimercado na verdade é também do mercado. Um mercado com aversão a si mesmo. Um mercado cínico. Que se diz mercado e se critica ao mesmo tempo em que vende. E que nem por isso.

Mas enfim. É sempre um pouco divertido. Principalmente se o prédio berra a permanência, o espaço imperial. O espaço imperialmente destinado a alguma coisa que já se chamou povo. E que, no dia em que lá fui, se substituía por umas mães sempre desesperadas por um espaço para passear com bebê. E uma turma de colégio. Bem arrumadinha, como todo o resto, em um agrupamento sentado. Sentar é impedir a expressão. Corporal e até vocal. Tente berrar sentado e você vai entender o que digo.

Mas enfim. Fui.

(Em tempo. Não são todos os espaços oscarianos que produziriam o mesmo efeito, o efeito que eu buscava. O MAC-Niterói, por exemplo, por ser aberto em janelas, põe sua arte exposta ao tempo. E tempo aí não só nos acasos da luminosidade meteorológica, mas no sentido de passagem de horas, ou de um lixo do vivido, sempre renovado sobre o azul do mar.)

A exposição curitibana estava disposta em duas salas bem diferentes uma da outra. A primeira com curadoria de Maria José Justina. A segunda sob Artur Freitas.

Primeiro a primeira.

Se deu pior que a segunda. Nela, talvez por ser de viés histórico, a arte se mostrou mais destituída de qualquer possibilidade crítica. Nenhum vídeo. Nenhuma intervenção nas paredes brancas. E as quebras do espaço enorme resultavam em salas quadradas com uma mesma e predizível iluminação.

Alguns dos presentes:

Objeto caipira, de João Osório – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Mercadão, do Grupo Interlux – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Grafo, de Joana Corona – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cobra coral, de Luiz Henrique Schwanik – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

João Osório, com seus Objetos caipiras. No entanto, ele mimetizava, com materiais para lá de kitsch os oratórios de que nossas casas burguesas do interior estão cheias. Mas encolheu-se com o didatismo ambiental. Aqui bem kitsch, ali só o kitsch que tais objetos já trazem em si, sem intenção. Um e outro postos no centro, comparáveis.

Elvo Beneto Damo tinha madeiras em riste com encaixes. Algo que já vi muito. O manifesto do grupo Sensibilização trazia fotos de uma performance/manifestação antiditadura. Ok. Dulce Osinski fez um painel com imagens de metralhadoras. Ok de novo.

Fui para a segunda sala e gostei mais.

Duas intervenções nas paredes brancas já davam um tom diferente. Rodrigo Dulcio cortou o espaço em uma planta de casa improvável, e Cleverson Oliveira colou fita adesiva aos pedaços, “explodindo” uma das esquinas.

Daniel Chaves fez um vídeo bem humorado, ironizando justamente a ânsia de simetria, com imagens cortadas na vertical e se juntando (mal) no meio. Na trilha sonora, ruídos de trânsit (sempre sem sentido), e de diálogos (também sem muito sentido).

O grupo Interlux Arte Livre fez a placa Mercadão e um vídeo, também em tom irônico, em que personagens eram substituídas por buracos na imagem.

Rimon Guimarães desenhou na parede um “mapa” para se chegar em “casa” (um buraquinho). Joana Corona fez o Gafro. Um objeto com teclas de uma velha máquina de escrever, cujo sintagma só existe na sua sombra na parede.

E, principalmente, do lado de fora, bem enjaulada, a obra que seria a menos controlável de todas, estivesse ela em algum outro lugar. Uma minhoca desengonçada e enorme de Luiz Henrique Schwanike.

07/10/2010

A bailarina de vermelho

A bailarina de vermelhoEm meu texto Histórias da arte, tenho um capítulo seriíssimo dedicado à arte contemporânea. Me deu vontade de substitui-lo por um link. É que o vídeo A bailarina de vermelho, de Samir Abujamra e Alessandra Colasanti, é meio tudo que eu queria dizer a respeito. A começar com a frase de apresentação da Bailarina: “É que eu não me considero eu, entende?”

A história, ahn, ok, o fio, é simples. Em um dos quadros de Degas (*), há uma cadeira vazia. Depois de vários takes de depoimentos, dados históricos e documentos visuais – incluindo fotos antigas, filmes mudos e vídeos do youtube – ficamos sabendo que a bailarina sumida, assim como a arte contemporânea, está em todos os lugares.

E está, principalmente, na auto-ironia dos nés e entendes de fins de frase. E na legenda com a tradução errada de um “filme mudo”. Ou no suposto programa de Michel Melamed, com um vagabundo entrando em cena, atrás. Na explicação acadêmica de Jards Macalé sobre a origem bailarinesca dos nossos quatro dias de carnaval. Na própria cara torta da atriz. E na sua voz arrastada de quem acaba de cheirar/tomar/fumar todas. E na sua mãozinha que indica que aspas acabam de ser abertas ou fechadas em citações (falsas) de Lacan.

Exemplo de uma citação de Lacan: “Quem sabe faz a hora.” Terminada, claro, com um né.

A Bailarina namorou Picasso. Que é um exemplo, segundo ela, da disparidade eventual que se pode notar entre significado e significante. Um, hiperbólico. O outro, a coisa em si, liliputiano.

Ah, e ela acha que a contextualização de seus procedimentos artísticos se dá a partir do advento da morte do autor. Entende?

(E também se dá no desbunde anti-revolucionário e revolucionário pós-64; na derrubada do World Trade Center; em John Cage – que lhe dedicou uma de suas composições; na arte performática de Beuys; no movimento funk norte-americano; e mais em uma meia dúzia de coisas que não deu tempo de tomar nota. Ok?)

Suas origens conceituais vêm de Gertrude Stein, Andy Warhol, body painting e o balé russo. Né?

O vídeo, de 15 minutos, segue o rastro de tal figura, no ano sabático em que ela some no mundo. Um Laos, Nigéria, Criméia e outros lugares abstrusos, todos filmados em Paris, Nova Iorque e Rio. O vídeo e a Bailarina repetem, caçoando, o linguajar culto, erudito da crítica de arte. Não é só a arte e suas manifestações que são retomadas de forma escrachada. O que, em si, já é uma crítica, e das mais eficazes. O fazer crítico também é ironizado e, desse modo, destruído.

Não é que o vídeo não fale de questões importantes. Fala sim. Mas fala rindo.

Por exemplo, o fim, com os créditos, é um take de um músico de metrô americano. O vídeo acaba com uma música, essa arte que some assim que termina. Sem deixar material algum para ser jogado no lixo. Cujo emissor não é sequer visto. As pessoas, de costas para o músico que está sendo filmado, esperam um trem. O barulho do trem entra na música. Não há distinção entre música e trilha sonora do cotidiano. Assim como não há diferença rígida entre vermelhos. Ou entre fruições estéticas ou apenas sensoriais. E isso não é um drama.

Falei acima das “origens conceituais” da Bailarina. Uma que não é citada é a de Stanislaw Ponte Preta e seu Samba do Crioulo Doido. Carnaval – e se você quiser manter a clave do erudito-cafona, posso teclar aqui um Bakhtin para gáudio do populacho. Carnaval. E Brasil. Total atualidade. É sério. E você está aí, rindo.


Direção: Alessandra Colasanti, Samir Abujamra Roteiro: Alessandra Colassanti, Samir Abujamra Elenco: Alessandra Colasanti, Cora Ronai, Cissa Guimarães, Enrique Diaz, Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna, Vera Holtz, Michel Melamed. Fotografia: Samir Abujamra Montagem: Samir Abujamra Música: Lucas Marcier. País: Brasil Ano: 2010 Duração: 15min

05/10/2010

Pintura alemã contemporânea

Se não neste tempo - fotografia de celular de Elvira Vigna para o AguarrásDuas coisas logo de cara: o rótulo nacionalista e anacrônico de ‘pintura alemã’, e o título: ‘Se não neste tempo’. Perguntei ao Roberto, versado em germanismos, o que ele entendia pelo título. Disse que lhe parecia uma não querência – ou incapacidade – em pertencer a este tempo. Restava saber que tempo seria este. O este-este. Ou o este-aquele. Porque, já sabia e confirmei, o tempo representado nas 83 obras dos 26 artistas presentes não era bem o mesmo que o meu, lá, bloquinho na mão, aguentando firme o olhar desconfiado dos guardas que me impediam de fotografar.

E então, a incapacidade ou não vontade em pertencer a um tempo diria respeito ao tempo meu, este, o de agora. Diferente do tempo representado, e que era um tempo-aquele. O que emperra cronologias. O tempo fora do tempo dos traumas e dos mitos. O das definições rígidas e antigas sobre procedimentos artísticos (só há pinturas – e isto em uma exposição de arte contemporânea). E que é também o tempo das construções rígidas de identidades.

E, uau, que identidade.

A.R. Penck, Jörg Immendorff, André Butzer, Albert Oehlen, Tatjana Doll, Thomas Zipp, Andy Hope fazem quadros enormes e opressivos. Pretos. Suásticas, cruzes, caixões, caveiras. Em paisagens desérticas, destruídas, lunares. E mais Daniel Richter, que também tem muito preto, mas põe umas corezinhas por trás de suas caveiras ambulantes.

Ou Jonathan Meese, que tem figuras hieráticas, grandes, duras: autoridades religiosas, guerreiros, jogadores de xadrez. Suas obras estão em uma sala separada, com móveis velhos e bibelôs à la Farnese. Um pathos de cheiros e texturas mantidos em quartos fechados.

Bernard Heisig é cru: pinta a guerra mesmo. Trincheiras. Ou fábricas, este outro tipo de trincheira. Um estilo meio realismo social. Em um dos quadros – que também são, como em quase toda a exposição, enormes – há uns balões de história em quadrinhos. Concessão a ocidentalismos, mas mais ou menos. Os balões não são balões. São rígidos retângulos.

E aí vem uma corrente que me surpreendeu. Está certo. O tempo parado, o que falha na sua tarefa principal – que é a de ressignificar sem cessar você e tudo mais – é o tempo em que surgem fetiches e pastiches vindos de um passado visto como mais promissor que o presente. Mas eu não esperava nada tão claro. Há, entre os artistas escolhidos pela curadoria  (Teixeira Coelho e Tereza de Arruda), os que fazem com grande clareza a tentativa comum nessas situações, e que é a seguinte: se você não consegue extrair da tua condição – necessariamente histórica, temporal – um significado tolerável, você tende a presentificar símbolos vazios de outros tempos, com a esperança de que, junto com sua casca, venha também um significado, para você e teu tempo presente, que seja mais palatável, aceitável. Assim como uma coluna grega no meio da tua sala cafona e muderna.

Pois aqui a coluna grega varia de Guernica aos impressionistas. Entre as (enormes) obras em PB de Tatjana Doll, eis uma Guernica. Entre as telas sem expressão de autoria de Anton Henning, você fica frente a frente com um barquinho impressionista.

E já que o assunto é o presente estilhaçado, ponho no mesmo parágrafo as (sim, enormes) paisagens de técnica meio de publicidade/design de David Schnell, cujos títulos, como Vidro, mostram bem esse olhar parado no ar, em meio a uma explosão. Eu junto a ele o cotidiano de Werner Büttner. E mais as paisagens também estilhaçadas (e, sim, continuam enormes) de Corinne Wasmuht. Ou ainda, as pessoas sem rosto dos irônicos Blind dates de Eberhard Havekost.

Lembrei das “comunidades imaginadas” de Homi Bhabha. Mas em um sentido torcido, não previsto pelo teórico do multiculturalismo. O problema, aqui, é não tanto o de saber dos desenvolvimentos de um dado processo identitário. É principalmente saber como incluir em tal processo o peso de identidade herdada, parada. A alemã.

Identidade claramente expressa, no caso desta exposição, pelas palavras e frases inseridas nas telas.

Immendorff, Meese e Richter escrevem em suas telas. Ou melhor, picham. Picham os títulos das obras. Ou frases do tipo: Fuck the police (e é fácil acrescentar: fuck qualquer polícia, incluindo a interna). Quando não picham dentro, nomeiam as obras com uma auto-ironia cínica. Caso de Martin Kippenberger com sua Por minha causa, ou Mulher morta com fezes de pombo. Ou I hate you – esta com as palavras ocupando quase metade do espaço pictórico. Michel Majerus fez um enorme painel com a repetição de um logo. O logo de algo chamado New comer. A palavra é repetida e repetida. Sem registro de autoria, impessoalizado, o painel é um ode ao recém-chegado nada.

É como se o alemão de hoje precisasse sofrer um processo de aculturamento para virar, ahn, alemão. Precisasse passar pelas três fases estabelecidas pelo pensador citado acima: uma dependência do nome histórico; a invenção de um novo nome; o retorno ao nome original, ficcionalizando-o.

Logo na entrada há três obras do veterano Gerhard Richter. Acho que ele leva a palma. É, com seu humor submergido, quem melhor representa o que se vai ver.

Como se sabe, Gerhard Richter faz pintura hiperrealista. Ou seja, ele copia exatamente o seu referente. Só que ele usa, como referente, fotos de má qualidade. Fora de foco, com dupla exposição, manchadas. As reproduz de forma absolutamente perfeita. Não está na sua pintura a imperfeição que salta aos olhos. Está na realidade. Filho de nazistas, Richter nunca saiu da Alemanha. Passou o começo da vida no lado oriental. Depois foi para o lado ocidental. Mas nunca saiu da Alemanha. E eu não diria que é um artista alemão. É um dos maiores nomes da arte contemporânea mundial.

Porque realidade turva, ah, isso tem para todo mundo. Agora, talvez precisasse ser um alemão para sacar como mostrar isso tão bem.

09/09/2010

Virgínia Fróis

Resuminho dos últimos cem anos. O modernismo retirou da arte assuntos exteriores a ela e a desmaterializou. Uma tentativa de forçar – de cima para baixo, autoritariamente – a discussão pública sobre ideias e processos de seu tempo. A retirada do sensorial e a inclinação conceitual iriam provocar um segundo movimento, contrário ao primeiro. O da estetização da vida cotidiana. Com ela, a possibilidade de ressignificação de práticas sociais até então engessadas. Este segundo movimento adquiriu a tonalidade política que se negava a aparecer onde era mais esperada: no projeto inicial.

É neste campo da arte contemporânea, o de cunho social, que se enquadra um programa da pós-graduação em artes da UNESP-Barra Funda. A professora da universidade de Lisboa Virgínia Fróis foi convidada a apresentar seu experiência em Montemor (cidade vizinha a Évora) e pensar, junto com os participantes brasileiros do programa, nas relações entre seu projeto e a situação dos oleiros do Vale da Ribeira.

Primeiro, ela situa a materialidade da arte desenvolvida em Montemor, o barro, dentro desta retomada de materiais difusos, efêmeros e não específicos do fazer artístico atual. Ela o liga ao solo – real (o chão de uma paisagem basicamente rural) e simbólico (uma atividade tradicional local).

O núcleo de arte social contemporânea de Montemor nasceu com a necessidade de recuperação de uma arquitetura muito específica. Campo romano, a vila foi ocupada depois pelos mouros. Seus sete conventos e o Castelo datam do século IX, tendo sido destruídos e reconstruídos várias vezes. As últimas vezes, já no século XVI, com barro, taipa, pau-a-pique. Depois da ditadura franquista, começou-se a recuperação deste patrimônio histórico. E para isto era preciso refazer os tijolos de barro da forma como eram feitos, artesanalmente. Além desta marca histórica, há uma outra especificidade na arquitetura local. As casas e a atividade básica inicial de olaria cresciam de forma orgânica. As casas recebiam adendos à medida que cresciam as famílias. E os fornos utilizados eram fornos móveis. Isto é, eles recebiam novos andares e cavidades interiores à medida que as fornadas iniciais inutilizavam o espaço inicial.

Esta a origem.

O que se discute nos vários fóruns artísticos do Convento de São Francisco de Montemor, hoje, é a interdisciplinidade dos fazeres artísticos e sociais. Os estudos se dão na clivagem de arte (cerâmica, música e fotografia), ciências ambientais (de recuperação dos antigos latifúndios e do rio que corta a cidade) e sociologia (com a produção de pesquisas em que se avalia o impacto das atividades primeiras sobre a população). Um desses fóruns, o Projeto Rio, estudou as margens e o fluxo de água, para os quais a cidade primitiva se voltava, e dos quais se afastou devido à poluição e degradação ambiental. Neste projeto, 15 jovens alunos de pintura e escultura desenvolveram trabalhos em que o foco era a intervenção no processo de abandono do rio e seu entorno. Ou, no dizer de um deles, “neste olhar que avança progressivamente para a desatenção”. Fizeram obras site-specific em barro, necessariamente em grupo, e necessariamente com a participação da comunidade. Deste modo, como disse a professora Virgínia, se tornaram não artistas, mas agentes culturais.

“Somos especialistas em ruínas”, disse ela, referindo-se não só à situação de ruínas históricas do local mas à situação do artista contemporâneo que renasce após o fracasso do projeto modernista.

Alguns exemplos da arte atual internacional que se realiza em Montemor.

Nina Hole – com a instalação/performance Torre da lua, de 2000, em que um forno móvel foi feito e refeito em volta da obra, a cada nova etapa, e onde o próprio fogo da queima do barro e seu posterior resfriamento produziam as mudanças cromáticas da obra, em uma referência às contínuas destruições-construções do local; Sandra Casaca – com colunas soltas de terracota, sustentando o nada e com data marcada para se desfazerem, em uma recuperação estética da influência romana e árabe da região; Arnie Zimerman – com “santos” caiados e deformados que imitavam os apliques religiosos já completamente desfigurados das casas centenárias da cidade. Rosana Bortolin, brasileira, presente à palestra, apresentou ela mesma a sua participação em Montemor: uma gigantesca casa do passarinho brasileiro João de Barro, cuja “cúpula” dialogava com outras cúpulas de conventos e capelas locais.

Em termos de participação da comunidade, aliás, Bortolin recebeu mais do que esperava. Durante um festival popular, vândalos destruíram sua obra pouco tempo depois de instalada. O mesmo pode ser dito da escultura de Nina Hole. A Torre da lua, cheia de janelas, foi usada para esconder as drogas dos frequentadores do parque em Diminuir a vida já curta das obras não é a consequência principal desta mistura tão direta com o social, típica de um determinado campo da arte contemporânea. Montemor não é mais a mesma – e isto em aspectos que escapam à intencionalidade inicial. O pólo de arte mudou a população da cidade. Hoje muitos artistas residem na vila. Seus olivais estão no passado. Moinhos de beira rio viraram galerias de arte. E os oleiros tradicionais, não-artistas (os que fazem basicamente tijolos para as construções-reconstruções), antes eram todos homens. Hoje são mulheres. Os homens estão na nova e próspera indústria de turismo. A cidade, aliás, fica apenas a uma hora de Lisboa. Se bobear, vira um Embu-das-Artes.

01/09/2010

Miguel Rio Branco

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMendigos, trabalhadores da madrugada, prédios vazios e escuros, um botão colorido na calçada depois da chuva, pichações mal encobertas com tinta preta,  a carcaça do carro que serve de suporte para doces à venda, ônibus velhos que vão de Magdalena para Azules e que, pela chapa, sabemos que são peruanos, uma cadeia com presos, a camiseta laranja do homem que tira sua roupa em plena calçada, as rosas pintadas na camiseta de uma puta de beira de estrada, cachorros grudados depois de uma trepada, a lona laranja do ambulante de eletrônicos, a caixa vermelha com pedaços de melancia, a roupa cheia de sangue do carregador de carne, a puta de vestido vermelho, o fogo na calçada, a calça imaculadamente branca de quem pula uma janela para entrar em um ônibus lotado que vai para Tablada, a terra amarela de tão seca, a luz vermelha do cabaré iluminando uma calça amarela grudada na bunda gorda que rebola, espetinhos de camarão, o papel vermelho de um pacote de hollywood com filtro jogado na rua suja. Muito azul, vermelho e amarelo, mas nunca juntos,

Miguel Rio Branco é um colecionador.

E a última exposição parcial – e sempre será pacial – de sua coleção de trastes, lixos, delírios e delitos está no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Algumas considerações sobre colecionadores-artistas:

1) Produzem duas tensões concomitantes e complementares. A primeira se dá porque desafiam, com a descontextualização, a estética original dos objetos colecionados. A segunda se dá por manterem esses objetos suspenso entre a fragmentação de uma narrativa original e a integração em nova coesão narrativa.

2) Condensam sua autoria criativa na manipulação e presentificação dos objetos colecionados, retirando-os assim de uma dupla marca de nascença. Pois esses objetos negligenciados estariam fadados ao esquecimento imediato ou, pelo contrário e por causa disso mesmo, esses objetos são às vezes fetichizados e superdocumentados por sua capacidade indicial de estranhamento.

3) Trazem para o relacionamento fruidor-obra a carga emotiva que deu origem à coleção, e que é o sentimento de posse, de intimidade absoluta, ampliando assim a eficácia de sua arte.

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásColecionadores-artistas podem ser vistos como agentes politicamente ambiguos pois apresentam uma ameaça à esfera pública em sua privatização do coletivo, embora, ao mesmo tempo, ofereçam resistência à institucionalização deste mesmo coletivo ao recuperar e inserir o desvalor no processo histórico oficial.

Agora, o que eu acho de Miguel Rio Branco em particular.

Gosto muitíssimo.

Acho que ele usa sua experiência de posse do que vê, cata e fotografa/filma como uma estratégia para uma crítica de desnaturalização – que é a melhor crítica. Ele interrompe.

Suas fotos têm as cores manipuladas, algumas têm recortes e colagens.  Ele interrompe e desloca. E aí nem precisa recontextualizar porque o receptor se encarrega disso. Ou seja, a verdade estabelecida com violência em cada foto-objeto-vídeo não é a verdade do fato, mas do campo semântico. Nos inclui. Além disso, ele constrói uma identidade dele, Rio Branco, reconhecível a cada pedaço de sua coleção que permite ser vista. Ou que eu vejo.

Miguel Rio Branco - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásPor exemplo, na instalação chamada Ofélia.  Num canto, jogados, parabrisas quebrados, retratinhos só de peitos femininos, um aviãozinho quebrado de isopor, um tapete sujo de pele de carneiro. Mementos diversos pendurados. Tudo muito sujo, tudo iluminado por tubos de neon. E no chão, inobtrusivas, algumas placas de computador de um outro pedaço de sua coleção de trastes, exposto do Oi Futuro do Rio há bem tempo. A gente olha para as placas e sorri com a alegria triste de quem encontra um velho amigo.

A exposição tem também três vídeos. Em um, sob um ritmo que se mantém, seja ele de uma batida de jazz ou de uma forja de ferreiro, os cabos velhos e sem uso de uma eletricidade que já se foi. Noutro, um tempo que não passa. Num túnel enorme o carro da frente está à mesma velocidade que a câmera que o filma. Em cima desse túnel, um mar que também não parece estar indo à lugar nenhum. E no terceiro vídeo, uma striper incansável tira sua roupa e mostra sua vagina e bunda em poses automatizadas, objetificadas, e depois outra vez.

01/08/2010

Verbo – parte 6

Wax latex mud – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásDirk Jan Jager fica nu. Depois perde seus pelos corporais. Depois uma “pele” de latex. Depois se torna uma espécie de ausência de si mesmo, em seu molde feito de barro.

É a Wax, latex, mud – a primeira performance do último dia da Verbo.

Fiquei pensando nesse masculino que admite a ação do outro sobre si. (Ele fica quieto, outros vão livrando-o do wax, latex e mud do título de sua performance). E que continua, talvez por isso mesmo, não só bem masculino como talvez até mais atraente do que antes, em sua incólume masculinidade. Em sua incólume potência. E transportei meu pensamento para o âmbito da arte e da posição pouco autoritária, de participação e acolhimento do outro, existente após o término do modernismo. Há mais a ser dito. O que sai do artista é grudado imediatamente na parede ao lado. Ficam, portanto, ele e “obras”. Uma dessas obras é feita com as roupas, cortadas tira por tira com estiletes. Outra com as placas de cera contendo os pelos. Outra com o latex inteiro. A última com pedaços de barro. Poderíamos pensar em uma progressão de fora para dentro, cascas sendo retiradas cada vez mais próximas de… de que? Chegaríamos em um conceito de essência, o que não me parece ser o caso. Vou ficar, então, apenas com o contraste entre “obras” e “obra”, como uma explicitação da exigência contemporânea de que mímesis e antimímesis, ou representação & processo em tempo real, concreto, coexistam (obrigada, Luiz Fernando).

Flaesh – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásGabriel de Brito Nunes fez Flaesh, em uma das atuações mais políticas e contundentes do festival. Desde o primeiro dia da Verbo, eu estava com vontade de enfiar em algum dos meus textos uma citação de que gosto muito: Good my lord, will you see the players well bestowed? Do you hear, let them be well used; for they are the abstract and brief chronicles of the time. É o Ato 2, Cena 2 de Hamlet, quando o próprio recomenda a Polonius que acolha bem a trupe de mambembes que chega em seu palácio.

Na performance de Brito Nunes, a crônica breve de nossa época ficou por conta da plateia, que ria dos trejeitos do performer, sem conseguir, querer ou poder, atentar para a violência do que via. O artista, atuando como um travesti de beira de sarjeta, desce, qual carne de açougue, de um gancho em que estava pendurado de cabeça para baixo. De salto alto e collant, busca o auxílio pobre das drogas, da maquiagem pesada que lhe mancha os dentes e escorre pelo rosto. Dos cetins vermelhos, dos trejeitos em que oferece seu corpo magro à plateia – que ri.

E já que trouxe Hamlet, continuo, agora com Ricardo III, o de Al Pacino. Porque o tempo usado por Brito Nunes, seu sorriso falso que se mantém e se repete, ora para um lado, ora para outro, seu requebro de bunda ossuda, me faz pensar na balança entre intensidade de atuação e frieza de quem se sabe – e se mostra – atuando. Ele fica um segundo a mais, a olhar o resultado de seu sorriso e requebro falsos, os olhos frios, observadores, antes de iniciar o próximo passo de sua coreografia. E isso, no caso desta performance, se mostra duplamente eficaz, já que Brito Nunes – a “pessoa física”, digamos assim – atua um travesti que é uma pessoa que atua, necessariamente, sua vida diária, que é a de uma mulher inexistente que também é a atuação de uma imagem.

Marcando território – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásEu não havia gostado da terceira performance, a Marcando território, de Guilherme Peters, até Roberto me chamar a atenção para um aspecto que me tinha passado. O tal do território é um espaço para andar de skate com duas rampas, uma em frente da outra. O barulho, imitando microfonia, já me afastaria, não estivesse eu já afastada antes, por uma prática – o skatismo – que não admite troca com o entorno, apenas um uso. No entanto, o mergulho entre as duas rampas, e a tentativa de voo que os participantes buscam a cada ida e vinda em direção ao alto, podem ser vistos como um buscar a saída de uma situação de autossuficiencia, autocomplacência. Ok. Pode ser. Acho que o título, Marcando território, desdiz essa leitura generosa. Mas tudo bem. Pode ser.

Já a última não tem solução. Richard Martel, em La création de l’homme comme ready-made, é autorreferente do começo ao fim. Principalmente ao fim. O artista esfrega na cara da plateia vários objetos de plásticos, um para cada dia da semana. Rosas, peixes. Exibe o brilho de papel alumínio, paietês. O último dos objetos são duas letras de isopor pintado: o “R” e o “M” de ready-made. Tão sem fissuras ou falhas a permitir ressignificações e diálogo quanto os objetos utilizados, a performance me deixou mais que indiferente, irritada. Ao final, o artista escreve na parede Hard Art. E depois completa com as letrinhas que faltavam, formando seu próprio nome, ricHARD mARTel. Mais fechado e prepotente impossível.

La création de l'homme comme ready-made – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Não vi a performance de Laura Husak Andreato. Fui embora antes.

31/07/2010

Verbo – parte 5

Quanto melhor, mais difícil de descrever. No quinto e penúltimo dia do festival da Vermelho, uma  das melhores performances – e não me refiro só ao escopo da Verbo – que já vi. Endurance, da holandesa Rose Akras.

Endurance – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Endurance – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Endurance – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Um eixo descritivo, o da transposição de linguagens:

No chão, um montinho de pó de carvão, nas beiradas, o carvão. Ela usa o carvão para escrever nas paredes. Ao fazer isso, pisa no pó de carvão. E “escreve” outra coisa com os pés, no chão. Não é outra coisa, é a mesma coisa. Pois o que ela escreve nas paredes são frases em que compara o ato de escrever com o de desenhar, se movimentar. Escreve uma frase por cima da outra. E pisa onde já pisou. O resultado final, na parede e no chão, é o mesmo: uma espécie de trilha, de caminho.

Ela não faz só isso. Em um movimento que inclui pausas em poses hieráticas, interrompe a escrita. Vai para o centro do espaço. E começa a girar.

Segundo eixo descritivo, o de gênero:

A performer está vestida com um vestido curto, rodado e transparente. Tem cabelos compridos cobrindo completamente o rosto. Ela gira. Cabelos e vestidos se armam. Abre os braços. É um vórtice, a feminilidade como força que se expande, que abraça e inclui. Há um som aqui. Tecno. É uma força ao mesmo tempo ancestral e atual, ou seja, entramos no intemporal, no sagrado. O que já estava anunciado no hierático anterior. (Uma das posições assumidas – sentada, com um braço sobre as perna flexionadas, ela levanta seus cabelos – é uma citação. Se não me engano, Picasso tem umas banhistas com o mesmo gesto. E é possível que ambos, Picasso e Akras, citem algo mais antigo, ou um tropo resiliente da cultura ocidental envolvendo mulheres e água – no caso, suor.)

E chegamos ao terceiro eixo descritivo, o tempo:

Chama-se Endurance. A performer repete seu ciclo de ações indefinidamente. Mas são ciclos. Menstruais, sazonais ou de linhas lógicas contendo apresentação, desenvolvimento e conclusão – não importa.

A integração dos três eixos:

A escrita não tem pontuação, não é organizada em sintaxe. Além disso, contém “contas” com números aleatórios. A organização fica fora das paredes. Fica no chão que, embora limitado pelas paredes, é onde age um buraco negro, um “feminino” poderosíssimo, um vórtice que tudo alcança. E que, se acaba por se autoconsumir, dura. Dura muito. É uma administração feminina do tempo.

Daí eu ter saído de lá com má-vontade para ver a segunda performance, achando mesmo que não ia gostar. E não gostei.

Lilibeth Cuenca Rasmussen canta. Uma espécie de rap. Na verdade, fala sem parar com uma música atrás. E ela não é um vórtice, é um casulo fechado e imóvel. Literalmente. A artista se apresenta dentro de uma estrutura feita com seis hastes flexíveis que sustentam um tecido branco, ligeiramente translúcido. Fica dentro dele. Quando sai, está dentro de uma malha branca, justa. Nada voa. Nadinha. Distribuíram um papelzinho. Foi a sorte. Porque ela fala sem parar em inglês. É considerada uma artista feminista. Algumas de suas frases:

Don’t sell yourself to get access

Don’t play macho to achieve success

No man will miss you if you don’t make it up

Add a lickle time to climb to the top.

Outra:

Women stand out from the crowd

Have confidence dare to speak out

Stop the quarrels, complaints and the shout

Nobody listens to women who pout.

Lickle é fazer cócegas com a língua enquanto lambe, ahn, alguma coisa. Pout é emburrar. O resto você deve ter entendido sem minha ajuda. O que eu não entendi: a frase que diz que homem nenhum vai sentir a minha falta se eu não lickle ele; e a que diz que ninguém escuta mulheres de mau-humor. Ah, escuta. Escuta, sim…

The present doesn't exist in my mind and the future is already far behind – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Não vou fazer comentários. Sua performance chama-se The present doesn’t exist in my mind and the future is already far behind.

Possession and extension – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A terceira performance também era feminina/feminista. Possession and Extension, de Marlène Renaud-B, incluiu um certo humor, o que sempre é bom. Ela era um desses tapetes de pele de urso, bem macho. Segurava uma cornetinha de jogo de futebol que de vez em quando apertava, em um – nas circunstâncias – nada festivo lamento. Depois se levantou e derrubou um balde de coca-cola nos cabelos (vide o tropo mulher-água/suor já citado, e inclua coca-cola na lista). E faz com que a platéia a prenda, por fitas vermelhas, na hora em que quer ir embora.

palestra: Luiz Fernando Ramos, Nina Gazire e o mediador Mario Ramiro – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásAgora vou assassinar Luiz Fernando Ramos, doutor em literatura brasileira e teoria do teatro – USP. Não tenho outro jeito. Preciso resumir sua palestra. Preciso também, urgentemente, de mais competência. O tema era Trabalho e insistência do presente na arte contemporânea. Luiz Fernando fez um histórico do conceito de mímesis dos gregos até hoje. Disse como, em Aristóteles, a arte era considerada uma representação do real, imbuída de uma utilidade imediata: produzir uma reação do fruidor – fosse emocional, estética ou racional. Tratava-se então de mímesis “por semelhança”. Ou seja, cópia – necessariamente mais pálida – de algo existente. Depois surgiu a mímesis “por diferença”. Luiz Fernando citou o teatro de Artaud. Ainda uma referência a algo, e ainda presente a ideia de que se tratava de provocar uma reação no fruidor. Mas não mais espelho de nada. Algo como uma lente, que podia ampliar o que não era visto antes. Com as vanguardas do século XX, contudo, estratificou-se um forte movimento antimimético, antiteatral. Não mais representação de nada, o que se apresentava nas artes era uma ação, algo que não existia no momento antes de ser feito. Um processo. E o que se esperava, ou melhor, o que se tornava necessário, era não mais uma reação do fruidor, mas sua participação. A arte se dava a partir de um encontro de ações – não necessariamente físicas. Passa a ser um tipo de relação humana. Ou, na instauração de um vazio provocado pelo artista, o fruidor é o “autor” único do que se continua a chamar de arte. Hoje, a situação da arte recupera a mímesis. No vocabulário muito claro do professor, há uma dialética entre o autêntico e o verossímil. O autêntico é aquele indivíduo (o artista) que faz algo às claras (o gestual na pintura, o ator-ator no palco, o performer etc.). O verossímil é a mímesis, a ficcionalização. Sim, porque não há verossimilhança alguma, sentido algum, no real, e isso eu já sabia.

Junto com ele, Nina Gazire, editora de conteúdo da web e mestre de comunicação da USP. Falou da possibilidade do uso antropológico dos conceitos de teatralidade. O estudo de comunidades e situações sociais através da observação e da aplicação da teoria do teatro na linguagem corporal e nos rituais do dia-a-dia. Um entendimento do mundo como representação.

30/07/2010

Verbo – parte 4

Quarto dia de performances da Verbo, vou começar com umas atualizações. Joana Bastos, a “peça de acervo”, mais visível do que no primeiro dia, ainda se mantinha fechada no depósito da galeria. As apresentações diárias de Mariëlle Videler continuavam no mesmo tom. Desta vez, os participantes falavam coisas sem sentido e em inglês, berrando e fazendo movimentos inesperados. Os berros também eram inesperados. De esperado, só mesmo a opção desta artista pelo impacto sensorial em detrimento do desenvolvimento de um conceito a ser (des)construído com o espectador. Os participantes, misturados às pessoas, usavam máscaras iguais, não se apresentando portanto como candidatos a uma identidade a ser negociada, como não o eram a um diálogo. E a máscara lhes tampava os olhos.

Peça de acervo (atualização) – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Marielle Videler (atualização) – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Jimmy, the jungle beast é a criação de um dançarino de Petrópolis, Bernardo Stumpf. Ele anuncia no microfone: “Eu tenho essa história..” e conta uma história sobre a qual ele se declara não muito certo como começa. Talvez um avião caiu na floresta e um menino foi seu único sobrevivente. Talvez fosse um problema de dieta alimentar. A questão é que esse menino se torna o rei dos animais.

Jimmy, The jungle beast – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásEle pega um pilô e delineia na parte da frente de sua camiseta branca os músculos saltados de um gorila ou de um homem muito forte. Vira de costas para o público. Com movimentos contidos, se transforma no próprio gorila/homem forte (muito bom, como expressão corporal). Aí, de repente, torna a incorporar sua persona inicial e se senta num banquinho para jogar Street fighter II, the world warrior, no computador. Perde. Torna a ir para o meio do espaço. Torna a se virar de costas para a plateia e, por gestos, pede que alguém desenhe nas costas de sua camiseta o mesmo contorno muscular que há na frente. Curiosamente – ou nem tão curiosamente, mas o que merecia todo um artigo só para isso – apenas mulheres se voluntariam para a tarefa. Várias delas. Cada uma faz um musclinho, uma costelinha. Terminado o desenho, mais uma vez ele incorpora o significante da testosterona. Agora os movimentos não têm nada de contidos. Pelo contrário, sua dança é uma espécie de luta entre a street dance e o futebol americano. Perde mais uma vez. Depois de cair no chão repetidamente, decide que aquela é a definitiva. Exausto e suado, tira a camiseta branca e veste uma limpa. A camiseta branca é declarada obra. “Obra sem título”, está no papelzinho que ele gruda com fita crepe embaixo do cabide que a expõe. A derrota do macho. Muito bom. Não fosse a camiseta nova que poucas pessoas puderam observar, já que ele se retirou imediatamente. Preta, nas costas há vários logos de empresas patrocinadoras: Rádio Imperial de Petrópolis, Sandra’s Buffet, Gráfica Tupi, Espaço 85, Prefeitura de Petrópolis e outras. Ou seja, falsa derrota. O macho – da racionalidade econômica – sobrevive a (quase) tudo.

Teoria da fala – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA outra grande performance da noite foi a Teoria da fala, de Pedro Barateiro, que se apresenta com uma “antropóloga”. Os dois, segurando suas anotações, mimetizam uma bem-educada palestra acadêmica, em que um fala um pouco e, com sorrisinhos e mesuras, passa a palavra para o outro. E o que eles dizem é o seguinte. Um estudante português comprou um livro num sebo de Lisboa e dentro do livro encontrou um manuscrito, em sua maior parte ilegível. Mas deu para perceber que se tratava do diário secreto de uma pessoa pertencente a uma comunidade que tinha decidido abolir a escrita, e até mesmo as palavras da linguagem, renomeando todos objetos.

O manuscrito, após muita pesquisa, foi considerado como pertencente a uma aldeia desconhecida de uma parte remota de Angola. A região não tem limites precisos, não tem uma etnia única, não há descrição geográfica, mas se sabe que não teria acesso do colonizador ou de outras tribos.Também não há, ao que tudo indica, uma língua-mãe determinada. Até mesmo a época não é precisa: por volta de 1950. Os manuscritos contêm a descrição dos exercícios de renomeação dos objetos. Esses exercícios foram reencenados pelo estudante português, cujo nome também se perdeu. Há uma “foto” de um desses exercícios reencenados pelo estudante português: um cara sem cabeça segurando um pedaço de pau, sentado de frente para a câmera, com fundo infinito por trás. A performance é interessante como parábola da descontextualização e ressignificação a que ela se pretende. E é engraçada na sua caricatura do ambiente acadêmico.

invasão na galeria por grupo não convidado – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

No final da noite, a Vermelho foi invadida por um grupo de performers não convidado. Eles colaram um programa, modificado com pilô vermelho, em que incluem o nome deles, e passaram a atuar em todas as dependências da galeria. Como em qualquer final de expediente, limpam o chão, as janelas. Passam uma vassoura. São a Cia. do Medo, de Rafael Mendes. Bom. E fica melhor como invasão mesmo. Todos os chiques batendo o último papo no pátio e aqueles, ahn, faxineiros atrapalhando. Vou descer do banquinho, mas antes, só uma palavrinha sobre a luta de classes. Pronto. Desci.

Identidade – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A performance não convidada criou um contraponto interessante com a primeira da noite: a Identidade, de Louise D.D. fazia a exclusão que os invasores pretenderam apontar: a cada um que entrava, era oferecido um “crachá” de identificação.

Na palestra da tarde, O mediador Mario Ramiro recebeu Marcus Bastos, doutor em semiótica da PUC-SP; e Maurício Ianês, o conhecido artista da própria Vermelho.

Marcus Bastos falou sobre o rastro, o vestígio que as performances geram em vídeos gravados ou em qualquer tipo de repetição daquilo que deveria ser único. Falou que rastro, tudo gera. Começou com os duplos holográficos de Star Treck. Modernizou até o skype com câmera. Disse que há o rastro da presença em qualquer coisa que se faça. No skype é um rastro desejado, voluntário. Na câmera de vigilância é o rastro involuntário, indesejado. Citou Foucault e Deleuze, na sua preocupação com os mecanismos de controle. Mas citou também grupos de performers que invertem a relação de poder, usando as câmeras de vigilância como partícipes de suas atuações.

a palestra com Marcus Bastos, Maurício Ianês e o mediador Mario Ramiro – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásIanês falou que seu interesse pela performance se deve ao fato de essa modalidade de expressão se dar sem mediação de um objeto. É o artista e seu público, sem nada no meio. Depois, mostrou alguns de seus trabalhos.

O mediador Ramiro fez um aporte bom ao lembrar que o rastro – voluntário ou não – se antagoniza de certo modo com a liberdade, que é uma das características principais da performance. De fato, eis uma arte que agride o mercado (não é vendável), as estabilidades identitárias do público, e até mesmo o corpo privado do artista. Com isso, são poucas ou nenhuma as suas regras e limites.

29/07/2010

Verbo – parte 3

No terceiro dia de performances na Vermelho mosquei outra vez. Não vi a Cris Bierrenbach, o que muito lamento. Sei que iria gostar. É que fiquei meio siderada por outra apresentação, e de lá não saí até apagarem a luz e me enxotarem, eu tirando umas últimas fotos do livrinho do texto que me emprestaram, para não ter de copiar à mão, o que não daria tempo.

performance El lugar y la palabra - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásEl lugar y la palabra, conversación interferida – Beirut (de Fernando Renjifo, com os atores Alberto Núñez e Renato Linhares) me fascinou pelo seguinte. Altamente muderna, no sentido que acolhe várias mídias, misturando tudo, essa performance, em princípio, portanto, não daria lugar privilegiado ao texto, mesmo considerando texto não um texto concreto, palavrinhas, mas um roteiro, um fio narrativo. Certo? Certo. Fio narrativo nenhum. Um pouco circular, inclusive, com a presença dos atores repetindo, virados para os vários pontos cardeais, sua atuação de imobilidade total. (Faziam isso de tempos em tempos, interrompendo a trilha sonora que… volto depois) E um pouco circular também pelas conversas, que apareciam na tela completamente escura, em infelizes – porém necessárias – legendas. Se davam em Beirute, essas conversas. E elas se apresentavam interrompidas. Algumas frases trocadas, monólogos, e já se tem novos interlocutores, em novas línguas, em outras situações. E depois se volta a um diálogo já iniciado antes, e por aí vai. E mais: algumas das pessoas gravadas brincam com a sonoridade das frases que dizem, porque há nelas sons repetidos que são difíceis de dizer, na língua lá em que são ditas. Então, a atenção do espectador vai para a sonoridade das palavras, e não para seu significado lógico. E mais ainda. Alguém diz: “Desconfio da capacidade da língua em ser precisa.” Ou: “Só houve resistência em corpos que já haviam experimentado o silêncio.”

Tudo portanto para que o texto – um texto, fosse ele de estruturação ou texto-texto – não se mostrasse como algo importante – ou tão importante quanto tradicionalmente um texto costuma ser importante. E o texto escolhido por Renjifo é muito bom.

Acho que não ficou claro. Assim. Uma tela escura. Você escuta conversas que nunca se concluem. Diversas conversas. Em diversas línguas. Monólogos. Umas poesias. Barulho de mercado público. Risadas. De vez em quando esse som de gente que não perfaz seu caminho lógico se interrompe. E entram ao vivo aqueles dois. E ficam, um em cima do outro, imóveis. Em total silêncio. Cada vez que entram, viram o corpo para uma direção, como uma bússola sem norte. Nada termina de fato. E portanto raras vezes tive a impressão tão nítida de um cotidiano em um lugar deflagrado como assistindo a esta performance.

Vou dar mais uns pedacinhos do texto:

“Se tudo continuar assim, você vai ou você fica? Não sei.”

“O teatro grego não é parecido com isso?”

“Por que deixamos o cavalo, pai? Para que faça companhia à casa, aguenta comigo que voltaremos. Quando? Amanhã ou depois de amanhã. Conheces o caminho? Sim, claro. E a casa, conheces? Como o caminho.”

Há um jogo intersemiótico das várias linguagens (cinema, vídeo, atuação e narrações interrompidas), feitas em suas várias línguas, que começa a te incluir, você, ali, sentado no chão. E, caso você tivesse dúvida de que estava sendo incluído, os atores te convidam a se aproximar, a ficar, como eles, imóvel no meio do ambiente. Por algum tempo.

Agora vou falar do tempo. Eles ficam lá, imóveis, por um tempo. Você é convidado a fazer o mesmo. Acabo de ler um livro da Maria Rita Kehl sobre o tempo da experiência. O que é preciso para transformar vivência em experiência. Um tempo que ela chama de tempo de duração. Sem isso, você não integra o que vive. É o que, lendo notícias, você acha que acontece em Beirute. Não pode haver tempo de duração. Renjifo veio dizer que há.

performance de Marco Paulo Rolla - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásAgora a segunda performance do dia. A de Marco Paulo Rolla. Já cobri algumas de suas exposições na mesma Vermelho. Mostra o cotidiano medíocre, feio e sujo que é o nosso sem a capa do imaginário. Sua performance eram baldes cheios de água. Pessoas comuns, misturadas a nós, olhavam fixo para os baldes, e num impulso de suicidas, metiam lá dentro suas cabeças, ficando submersas até não aguentarem mais, quando então, levantavam ofegantes e ensopadas. O bom da coisa era que eram pessoas comuns. Daí o riso incontrolável que me deu ao ver a cena. Ri de nervoso. Porque eu, totalmente identificada com aquelas pessoas de joelho com a cabeça no balde, também me vi perfeitamente capaz de decidir: é hoje, vou me suicidar no balde. Nenhuma grandiosidade.

À tarde houve o primeiro dos debates teóricos do festival, no CCSP. Falaram Paula Braga, doutora em filosofia da arte da USP, e Ricardo Oliveira, mestre em arquitetura e urbanismo, e editor de moda.

Paula Braga deu um histórico da arte da performance, ligando-a a rituais da antiguidade e mostrando que, mesmo em atividades não consideradas performáticas, ela estaria presente. Deu como exemplo a pintura de Pollock, similar em sua fatura aos rituais de dança dos Navajos, uma cultura estudada por ele. Como definições possíveis, falou do corpo do artista sendo sujeito e objeto da arte – o que produz uma problematização da recepção dessa arte tão pouco categorizável. Assim sendo, é grande sua eficácia em perturbar a estabilidade do corpo do receptor, de como ele é percebido e atuado no corpus social. Neste contexto, Paula se ateve principalmente ao corpo feminino, preso na moral, abusado na mídia, e com exigências rígidas em sua aparência formal.

palestra com Ricardo Oliveira, Paula Braga e Mario Ramiro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásDepois, ela citou alguns exemplos de performances femininas contemporâneas, incluindo a de Paula Garcia, que cobri para o Aguarrás no primeiro texto sobre este festival. Diz ela que a percepção de vitimização da performer pela ação de seus dois auxiliares – que nela vão grudando pedaços de ferro cada vez maiores e mais pesados – não procede. Segundo sua visão, a artista é quem comandaria sem cessar a ação de seus auxiliares, mexendo o dedão do pé para indicar que desejava mais ferros em seu corpo. Não vi o dedão do pé ao assistir à performance. E mantenho minha leitura: Paula Braga, em sua defesa de Paula Garcia, a compara a Joana d’Arc e fala da coroa de espinhos de Cristo. Bem, são duas vítimas.

Ricardo Oliveira, ao falar da moda, disse não a considerar uma arte. Mas que, por ser igualmente híbrida, contendo elementos visuais, performáticos e de cenografia, ela caminha na mesma direção que a arte performática.

28/07/2010

Verbo – parte 2

A experiência artística se dá em um meio de campo. De um lado, uma ideia que se exprime esteticamente. Do outro, você. No meio, uma troca. As performances trazidas pela Vermelho, em seu segundo dia de festival, mexem nisso.

Lições de anatomia - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Lições de anatomia - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Em uma delas, fiquei em dúvida se seria involuntariamente. É a Lição de anatomia, de Christiana Moraes. Essa atuação limitou-se à demo de um simulador médico computadorizado. E a demo foi tão demo que fiquei achando que não era possível, algo tinha acontecido com o Windows, a impedir uma dramatização. Poderia ser que o robô devesse se levantar da maca berrando miráculo, miráculo, estou curado!!! Ou morrer de vez. Mas, voluntaria ou involuntariamente, a performance robotizada apontou para essa coisa esquisita que qualquer prática teatral tem. Funciona mesmo quando não funciona.

Aqui, o fato de o performer ser uma máquina jogou todo o peso da atuação estética para quem assistia. Passamos a atuar, nós, os que estávamos lá para olhar. E atuamos, primeiro, a morbidez de quem se debruça para ver um desconhecido estendido no meio da rua. E, depois, o vazio de sentido que sente de quem dele se afasta.

Funcionou? Sim. Se a eficácia – sempre muito grande – de performances é a de apontar para a margem do cotidiano, para o que fazemos desligados de nós mesmos, então o robô, transportado para a sala de uma galeria, é uma boa performance.

Caça-palavras - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásMarcio Banfi fez o Caça-palavras, também apontando, e também bastante bem, para aquele meio-de-campo de que eu falava há pouco. Aqui, ele atua a função que é a dos artistas em qualquer cultura. A de oferecer uma visão/explicação, dar um significado a essa cultura. Ele fica no meio. De um lado, a cultura (representada por uma revistinha de cultura de massa). Do outro lado, nós. A revistinha escolhida é a de passatempos ligados às palavras – que são os “corpos” da linguagem. Então, Banfi é o corpo em que devemos buscar palavras que nos tragam significado. E Banfi, por sua vez, também é o agente que busca palavras e significados (na revistinha que mantém em seu colo) para, reordenando-os, no-los oferecer. Exerce assim seu papel de artista duplamente. Pois a explicita. Desenhado nas suas costas, o emaranhado sem sentido em que poderemos caçar os sentidos que ele, pilô na mão, também caça – na cultura/revistinha. As palavras que estão emaranhadas em suas costas são: cachorro, amarelar, queda, carro, dente, sustento, fantasma, periquito, etéreo e molhado. Nada muito esotérico. Só uma explicitação de coisas do dia-a-dia. O nosso. E – ao trazê-las, e do modo como as traz – o dia-a-dia dele, de artista.

A reprodução proibida - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E mais uma de igual teor: Ana Montenegro fez A reprodução proibida. Fica, nua, de costas para o público e de frente para uma parede branca. Escutamos suas palavras em tom monocórdio. Descrevem seu corpo e o que ela faz. A seguir, uma reprodução parcial de suas palavras:

Rosto levemente marcado, sem pintura. Não tem carnes em excesso. Axilas escuras e misteriosas. Pernas magras. Sola do pé que aguenta qualquer coisa. Peito não exagerado. Uma cabeça inexpressiva, materialmente colocada. Meio apática, meio simpática, meio fleugmática. Mergulhada no nada, narinas dilatadas. O que resta fazer é corrigir a realidade. Como em um deserto. A sensação física de olhar. Afia o olhar sem cegar as palavras. Enxerga com clareza a própria orelha. Olhos densamente impensados. Tem olhos no silêncio. A extensão do silêncio. Habita o silêncio de olhos abertos. Dar ouvido às vozes. Nunca ouve. A voz de um vácuo. Uma divindade flúida e só ouvida.

Gostei da ideia de o artista não possuir exatamente um corpo físico, de ser um ser fluido. Quanto ao vocabulário religioso, não é o meu, mas entendi aqui um sentido anímico, mais para o mágico – o que melhora.

Neste segundo dia do festival também se apresentou Lia Chaia, com dançarinas de corpo pintado. Não vi. Sem saber muito em que sala se dariam as apresentações, devo ter ficado esperando no lugar errado. O release fala de algo da cultura árabe. Tenho muita dificuldade com a cultura árabe. Vai ver foi meu inconsciente.

Mariëlle Videler - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E havia também uma apresentação de Mariëlle Videler em que vários participantes, imóveis, se inseriam em um espaço sonoro de pios de passarinho. Levavam livros fechados, equilibrados na cabeça e tinham a fala impossibilitada por um lápis atravessado na boca. É comum, entre os que se preocupam com o que é chamado de espiritualidade, uma certa inclinação antiintelectual. Não faz a minha cabeça.

27/07/2010

Verbo – parte 1

Primeiro dia da Verbo-2010. Nada muito entusiasmante. Poderiam ser mais rápidas, mais bem-humoradas. Mas sempre dá para se sair pensando um pouco, caso você queira se dar a esse trabalho. Pode muito bem apenas se divertir. Eu, por deficiência minha, sempre saio pensando.

Coppola-Zagari – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Alessandra Coppola e David Zagari, filmados enquanto ficam presos em um quarto, furam uma parede em direção à liberdade.

Rolê – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

No Rolê de Guilherme Teixeira, as pessoas precisam se abraçar umas às outras para não cair do skate redondo que ele inventou.

Main Raum – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A mais interessante – embora longuíssima – é a Main Raum de Nathalie Fari (com Michaela Muchina). A artista se arrasta como um réptil em direção a um precário abrigo que se rasga enquanto ela tenta ficar embaixo dele – e ao qual ela deseja tanto se integrar que mesmo pedaços dele ela pega com os dentes.

Uma coisa com performances é a política de integração entre artistas e público. Sem separação nítida de status e com a própria expressão artística muito próxima – simbólica e metonimicamente – de um cotidiano, artista e não-artista precisam se estudar para se identificar e se diferenciar sem parar.

folheto – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A negociação se dá, inclusive, na mitificação de nossos-deles passados históricos – pessoais e culturais (quem foram até chegar lá? quem éramos?), e nos nossos desejos (quem gostaríamos de ser, que fossem). Assim, a performance da prisão – que acaba com a destruição de uma parede da galeria – funciona como um ersatz para quem chega, e precisa se despir um pouco de suas personas para receber o novo. Em Rolê, a negociação com o outro é física: você o abraça, quer o conheça ou não. E com Nathalie Fari, se você não dormir acompanhando seus lentos – e muito, muito bem feitos, a mulher vira uma lagartixa – movimentos, você sair com um certo desconforto por todas as vezes que desejou pique, que se enfurnou embaixo da cama. Ou que buscou, inapta, uma proteção qualquer que se revelou frágil e efêmera.

W-W – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A Wait and Weight (W-W) de Jacopo Milani é uma referência à arte povera e a única maneira de se relacionar com isso é ter uma certa tolerância pelos italianos, cujo passado cultural tem um peso tão, mas tão maior do que suas manifestações internacionais do presente, por mais que se espere por algo de diferente.

Peça de acervo – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A portuguesa Joana Bastos, com sua Peça de acervo, é a responsável pelo único e bem-vindo sopro de humor do primeiro dia do festival. Sentada em meio a tralhas, com uma única perna aberta aparecendo, ela se refere não a um passado, a uma memória e a uma negociação de identidades, mas a um futuro – o dos artistas. E isso se forem bem sucedidos.

Inefável – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A palavra “inefável” foi cantada, letra por letra por um grupo de cantores líricos, na performance assinada por Maurício Ianês. Inefável quer dizer “aquilo que não se pode exprimir por palavras” (no Aurélio). E essa performance também foi engraçada.

Corpo-ruído – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Agora, a Corpo-ruído, de Paula Garcia, me derrubou. Uma mulher fraquinha sobe em uma mesa. Ela tem ímãs grudados com fita crepe pelo corpo. Dois homens vão grudando pedaços de ferro nela. Alguns pregos. Ela vai ficando cada vez com mais dificuldade em ficar de pé. Aí eles tiram os ferros e a ajudam a sair de cima da mesa. Enquanto isso, ela se mantém inerme, passiva, com uma cara de sofrimento. Vem cá, minha santa, não deixa homem nenhum ficar botando ferro em cima de você, não, viu. Não gostei de ver, e fico cá me perguntando o que será que ela quer, ao se mostrar imobilizada voluntariamente pela ação de dois homens. Eu hein.

20/07/2010

Daniela Name

Não acho que se possa fazer “carreira” em arte. Vejo a vida dos artistas mais como um grande projeto, um se buscar sem parar e sem cansar. Dentro dessa busca, a do lugar que cada um tem na imbricação entre correspondência (a algo, real ou não) e espantos.  Ganha quem acha mais e quem mais abandona o que achou.

Há pouco tempo cobri uma exposição no Paço das Artes, na USP, com curadoria de Felipe Scovino e a presença de alguns dos artistas que torno a encontrar na exposição Além do horizonte, da Amarelonegro (Rio).

Falava, então, de duas atitudes, cada uma de um lado do pathos: os que reagem ao que lhes atinge, e os que se deixam por ele atingir sem reagir. Disse isso porque essa é uma posição inicial que vai determinar – um pouquinho mais para cá ou para lá – qual o lugar do criador frente a seus embates.

E nem são tão iniciantes assim.

Leo Ayres

Leo Ayres fotografa um braço peludo. Seu lugar é de muito perto. A mudança de escala – que já vi em outros artistas e no mesmo tema – transforma os pelos em uma espécie de cobertura vegetal.

Luiza Baldan

Luiza Baldan continua olhando em torno e se sentindo presa. Suas fotos, sempre muito bonitas, trazem o que não devia estar preso. A da exposição é a de um pátio interno, com árvores na parte de dentro, grades. Há sempre uma construção de linhas horizontais e verticais, a construção de algo – e o ar livre, a linha torta, a abertura.

Raul Leal

Raul Leal busca, esse, desde seu começo, uma espécie de mundo próprio. Tive o prazer de ver alguns poucos de seus primeiros quadros. Ele vai por sobre o que lhe toca, cobre, refaz. No texto anterior citei Borges como exemplo de uma criação de mundo, de alguém que não se enquadra exatamente no esquema rudimentar com que abri esta crítica, entre patologias e apatias. Raul me parece que caminha por aí. Ele não comenta o que há. Ele faz o que não há: um mundo profundíssimo e, ao mesmo tempo, em 2D. Quero dizer, sem registros imagéticos de profundidade. O abismo é de quem vê, é meu. Talvez dele.

Pedro Varela

Pedro Varela não tem chão. Literalmente. Sua construção é suspensa por fios. Curvas góticas, brancos mediterrâneos, prediozinhos sul-americanos. Um lugar-nenhum que se balança.

Bob N usa azul. Está no azul. A cor não é inocente. Tem toda uma história da arte por trás dela. São dele acrílicos azuis, tracinhos azuis, fundos azuis.

Deborah Engel

Deborah Engel é das mais explícitas no questionamento sobre seu lugar. As fotos são de paisagens, Nessas paisagens há mãos em primeiro plano. As mãos seguram fotos de paisagens. As paisagem assim seguradas são parecidas com as de trás, mas não são a mesma.

Estela Sokol trouxe cubos brancos para representá-la no cubo branco da galeria, em uma anulação de autoria, de modificação, uma apatia, portanto. (Mas os termos, que hoje adquiriram conotações, são usados por mim em seu sentido etimológico, veja bem.) Em outra obra dela, um círculo negro. Mais uma vez a não-presença de quem prefere ressaltar o que já estava lá.

Gisele Camargo lava seus acrílicos quase monocromáticos, vagamente representativos, em outro dos desmaios apáticos.

Bruno Miguel pôs cartões postais- com representações de paisagens distantes – dentro de caixinhas individuais de acrílico transparente. As paisagens têm trechos “apagados” com papel branco. E o acrílico interrompe o fluxo de comunicação incluso no campo semântico do objeto cartão-postal. É outro da mesma linha. Em um desses cartões está escrito: “Poder viver a vida nos semeados entre penhascos deve ser vivê-la no céu. Quanto é bela a Terra. Que ela seja preservada para sempre.” O sintagma “sempre” aí, como registro de algo que não muda, não-vivo, sendo o mais importante.

Álvaro Seixas entende e acolhe a falta de ordem. Faz pequenas equações bem comportadas de listas, círculos. Mas nada está muito certo, nenhuma linha é muito exata. E a tinta escorre aqui, ali.

Danielle Carcav se revê na personagem menininha, cujas cores e contornos se perdem na paisagem que corresponde a uma memória – real, fabricada, tanto faz. Também na mesma busca por uma correspondência, em outra obra sua, há dois fones de ouvido. Em um, o barulho de tráfego que reconhecemos, que está na memória de todos. Em outro, o silêncio. Que não reconhecemos e nos espanta. Nas telas dos dois equipamentos, o vídeo de uma janela aberta: a cortina que se move, a grade que não se move.

Gosto mais dos que reagem. Ou dos, como Raul, que partem do zero para outra coisa. Me parece que eles, como eu, entendem que eventos – qualquer um – sempre ocorrem em um dado lugar ou tempo. E que eles próprios. Melhor: e que nós próprios somos portanto também “eventos”. Os desse tipo somos menos profissionais, temos menos disciplina, somos menos ligados em “carreiras”, e mais ligados em projetos. Sabendo, inclusive, que as tais circunstâncias de tempo e lugar modificam não só a produção de cada obra, mas também sua recepção. Seu campo de possibilitação. Onde, claro, me incluo e a esta análise.

A curadoria desta segunda exposição é de Daniela Name. E gostei muitíssimo.

07/07/2010

Yonamine

OffoffoNem sei se é elogio. Mas o artista angolano Yonamine – em exposição na Soso e presença confirmada na próxima Bienal – usa umas estratégias poéticas que lembram as de Agostinho Neto, o herói nacional, poeta e político da mesma Angola.

E não sei se é elogio porque Agostinho Neto teve lá suas controvérsias que poderiam ser resumidas em uma única atitude icônica: ele escrevia em português, a língua do opressor.

Pausa para um Google básico:

Locomotion 1Neto atuou no MPLA, movimento fundado em 1956. Em 1962 se torna o primeiro presidente do país, cargo que ocupa até a morte, em 1979. Sempre tentou unificar as tribos e dar tratamento igualitário às linguagens tribais. Apesar de seus esforços, uma guerra interna opondo grupos étnicos esmaga o país por 27 anos. Poderia ter sido menos não fossem o interesse e a participação pouco disfarçada das mesmas potências estrangeiras que Neto tanto tinha tentado atrair – entre elas Estados Unidos e uma África do Sul ainda afundada no apartheid. Médico formado na Universidade de Coimbra, nunca abandonou a poesia.

Voltando para Yonamine e a comparação entre as duas poéticas:

Em Sábado nos musseques, Neto usa a repetição dos sintagmas (“Britar pedra / acarretar pedra / britar pedra / acarretar pedra / ao sol / à chuva / britar pedra / acarretar pedra.“) e foi por aí que eu entrei, só para descobrir outras similaridades depois. Yonamine também é fã da força das repetições. E nisso ele encavala com outra característica marcante do Neto, que é o uso do “idioma” estrangeiro, dominador. Pois as repetições de Yonamine se dão em composições pop. Pop. Se houvesse uma linguagem artística representante em tempo integral de uma determinada cultura, seria a pop. E a cultura representada por ela é, claro, a dominadora-americana-consumista-secular. O oposto a um “africano”, termo abusivo e ocidental, mas, que fazer, é nessa linguagem ocidental e abusiva que faço o artigo.

No entanto, o mais importante não é 1) a técnica da repetição, nem sequer 2) o uso de uma linguagem oposta ao que se quer dizer com ela.

Há uma terceira similaridade.

Na raiz mesmo da poética de um e outro há o que em linguística se chama estratégia de provocação. Funciona assim: você começa reforçando (sim, com o auxílio da repetição) imagens da desesperança, enumerando – e repetindo – o pathos da tensão que será apresentada. E aí você vira. Apresenta imagens otimistas, heróicas. Ou, como no caso de Yonamine, simplesmente bem-humoradas – o bom-humor sendo, para quem vive nos extremos, no limite, o heroísmo possível dos dias de hoje. Por exemplo: alguns de seus quadros se chamam Miami be, Ócaraócoroa, Loco-motion, e Offoffo (foto – detalhe) – esse último a repetição de um símbolo adulterado da ONU, entidade que mantém de fora os interesses dos, bem, africanos.

É eficaz. Foi.

Locomotion 2Em que pese o português dos poemas de Neto, foi esse “assimilado” que obteve a independência de Angola.

O uso de “assimilados” pelo colonisador português foi bem estudado. Gilberto Freire era de opinião que assimilava-se por bondade d’alma e por motivos históricos: os portugueses já eram miscigenados desde sempre, com as invasões mouras, por exemplo. Mário de Andrade concorda em termos, mas aponta que a assimilação era falsa, pois não se dava em todas as instâncias de poder, pelo contrário. O caso é que a história mostra que, se o Império tentava assim se manter mais forte com menos gastos militares, a coisa não deu lá muito certo. Nem com Neto e, acho, também com Yonamine. A desenvoltura no trato da “língua” artística internacionalizada é menos uma posse a mais da cultura dominante em um país periférico e mais um país periférico a berrar que houve crime, e rir dos criminosos, sem deixar de lhes apontar um dedo.

Em Mussunda amigo, Neto se dirige a um conterrâneo que ele chama de Mussunda, e fala de seu dilema em adotar os códigos do opressor. Eis um pedacinho:

Para aqui estou eu / Mussunda amigo / escrevendo versos que tu não entendes. / Não era isto / o que nós queríamos, bem sei. / Mas no espírito e na inteligência / nós somos! / Nós somos, / Mussunda amigo. / Nós somos. / Inseparáveis.”

01/07/2010

Jonathas de Andrade

Não falar do ruim é péssimo. Em janeiro deste ano vi umas fotos do recifense Jonathas de Andrade no MAC-Ibirapuera. Me chamou a atenção um jeito – falso, aparente – de passar batido pelas feridas que as cidades têm. Textos e fotos. Nos textos, ele usava um código linguístico que se aproximava do pedagógico – inclusive com múltipla escolha – para falar do cotidiano duro dos centros urbanos, fotografados ali do lado. Longe de o efeito ser edulcorado, pelo contrário. Ao apresentar em textos tão ligeiros uma imagem  sociológica tão pesada, ele reforçava em muito a eficácia de sua documentação. Ele também acha que não falar do ruim é péssimo. Então ele fala, fingindo que não fala.

Jonathas de AndradeAgora ele continua. Desta vez na Vermelho.

(Uma das novas séries de fotos é, inclusive, uma continuação literal dessa exposição que citei acima. Com o mesmo uso do discurso em clave pedagógica, o artista traz mais uma vez entrevistas e entrevistados, e suas casas. As perguntas agora dizem respeito a boas maneiras burguesas. Você deve cuspir no chão? O que você não deve fazer em público de jeito nenhum?)

O conjunto de que mais gostei é o que dá nome à exposição, Ressaca Tropical. Aqui, temos uma espécie de diário, escrito em letrinha caprichada e cursiva, e mais idiota impossível: “Estive com Maria de Fátima”; “Fui ao cinema com Sueli”; “Início de romance com Marlene”; “Fim de romance com Marlene”. E mais uma Nilda, Sandra, Zininha, Albertina, Zeza, Tita, e muitas saudades da Rosa Maria. Há também uma Ana Maria e um: “Iniciei pesquisas para meu dicionário de educação sexual”.

Jonathas de Andrade Jonathas de Andrade

Mas as datas das inserções se referem ao ano de 1977. Geisel. Mais pesado impossível. Lá como cá é a mesma estratégia de mimetizar uma recepção “alienada” e colocá-la junto ao registro de uma situação complicada ou violenta.

Jonathas de AndradeNo release da galeria ficamos sabendo que as fotos que acompanham esse diário são de Jonathas e também de Alcir Lacerda, um repórter fotográfico que documentou o nordeste brasileiro na época citada. O acervo de Alcir Lacerda, histórico, se encontra atualmente na Fundação Joaquim Nabuco. Já as fotos de Jonathas são atuais. E aí, a violência, tão bem exposta graças ao próprio subterfúgio – falso – de camuflá-la, deixa de ser uma questão inerente a um dado período histórico. O escopo se amplia. Passamos a considerar esse não-ver-não-falar como uma estratégia duradoura para poder ver e falar.

Do quê?
De um truque. Na Europa, no auge do colonialismo do século XIX, os autos de Natal costumavam incluir o episódio bíblico do Massacre dos Inocentes. Eram muito populares, parece. E sempre encenados em praça pública com sangue falso esguichando dos bonequinhos-crianças, trucidados por outros bonequinhos, os soldados romanos. No texto dessas peças abundavam piadinhas sobre negros, referências descontextualizadas sobre um Congo de opereta, com rufar de tambores e ossos enfiados em narizes chatos.

Jonathas de AndradeQuem morria aos milhares, e de verdade, é claro, eram os africanos das colônias européias, assassinados pelos prepostos da nobre audiência. Mas ver essa verdade era difícil. Então a morte possível de ser vista era a da época de Cristo, ainda que o texto falasse de forma oblíqua de um presente do qual ninguém queria saber.

É isso que Jonathas mostra. Um modelo que funcionou para os europeus do século XIX, para a burguesia brasileira da época da ditadura. E que continua funcionando.

Na série sobre um velho iate clube a coisa fica não só mais explicada como até mesmo um pouco óbvia. O clube em cima é luxuoso, salões de festas e tal. Embaixo, nos pilotis que avançam sobre a faixa de areia, tudo que o andar de cima não quer ver: sexo, drogas e rock & roll.

No hall de entrada da galeria há o último conjunto de fotos.

(Aliás, é o primeiro conjunto, pois o hall é, justamente, de entrada. Eu é que inverti tudo para poder seguir minha linha de análise.)

Então, nesse primeiro espaço que também é o último, uma casa modernista em ruínas fica cada vez pior, até sumir quase que de todo no meio de um mato que cresce a cada clique da máquina. Só dá para entender isso através da ironia. Se o modernismo quis, autoritariamente, determinar a fusão dos espaços, a permeabilidade consentida, benevolente e autocrática, do capital privado colocado supostamente a serviço das massas, Jonathas mostra que, autoritarismo posto de lado, a decadência do projeto moderno, essa sim, é a única capaz de cumprir o prometido. Paredes desabando, o que antes era reduto de um poder que fingia ser receptivo fica sendo, de fato, o poder de todos – ou de nenhum.

Jonathas se inclui na sua crítica. O vídeo da saleta do primeiro andar traz uma série de rostos anônimos, “fuzilados” pelo poder da câmera que os mira.

18/06/2010

Otávio Schipper

Otávio SchipperO local foi desfavorável ao artista. A Otávio Schipper coube o hall das escadas do MariAntonia. Portas, passagem, guardinha de lá para cá e, principalmente, luz de hall. Houvesse um espaço mais pensado e teríamos quase um Teatro Noh.

Uma história de silêncios e sons. Sendo que um dos sons, o de um tambor ou surdo em cadência, é niponica e dramaticamente uma espécie de silêncio a ressaltar os outros sons. Os outros sons nascem de aparelhos de telégrafo. Muitos deles. Hieraticamente posicionados em palcos-mesas.

Niponica, dramática e matematicamente. Pois o drama ascende em um crescendo ritualístico de sonzinhos (um espécie de tec, tec, tec) cada vez mais rápido até explodir em uma voz humana.

(Não é humana, é computadorizada – mas eu volto a isso depois.)

O curador Paulo Venancio Filho se refere, em seu texto, a sons enlouquecidos. Não vi isso. Vi um cálculo, um plano bem executado. Tudo em seu lugar.

Na frente, os alto-falantes e um velho telefone preto. São os atores principais a nos remeter a um humano que 1) ainda não é considerado humano (a voz computadorizada ainda estranhável em seu tom monocórdio), e 2) não o é mais (o velho telefone de uma voz que já morreu). Ao fundo, o coro dos tec, tec. O coro é dividido em dois grupos, dando uma espacialidade horizontal muito interessante e que é a maior vítima da luz assassina. Pedia uma névoa. Pedia um Kurosawa.

Tudo muito simples. Os sons vão num crescendo, pontuados aqui e ali por silêncios cuja tensão é ampliada pela “percussão”, até desembocarem em alguém falando. Não é alguém. E o que esse não-alguém fala é o seguinte:

“Ten plus one equal eleven.”

E outras frases similares de uma matemática pausada, simples, sendo explicada de forma pausada e simples.

(E em inglês – o que, para nós, introduz a nota cômica que alguns ramos do Noh também têm.)

Há mais um detalhe. A instalação traz uma circularidade em sua sequência de sons. Um padrão que se repete. Repetições – mesmo quando apenas pragmáticas, como quando é preciso manter uma traquitana funcionando em looping pelo tempo que por lá houver público – trazem sempre uma implicação psicológica. Prisão, destino inescapável, violência.

Otávio SchipperA violência pouco percebida, e enorme, dos atos executados mecanicamente, sem nem sombra de pensamento crítico (um pleonasmo, desculpem, todo pensamento, por definição, só pode ser crítico). E que é a nossa.

É este o pensamento de Schipper. Um pensamento sobre a violência das coisas que acontecem sem pensamento. E foi assim que ele nomeou sua instalação. Inconsciente mecânico.

Com ele, na programação da tensão sonora, Sergio Krakowski. Descobri pelo Google que ele é matemático. Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada. Tudo a ver.

04/06/2010

Federico Guerreros

Caso célebre, a tradução que Baudelaire fez da obra de Poe foi tudo menos fiel. Obcecado por aquele a quem considerava seu mestre e mais íntimo amigo, Baudelaire batalhou pela obra de Poe, difundindo-a. Poe deve sua fama mundial a Baudelaire. Mas ao fazer isso, Baudelaire também modificou essa obra original, e muito, aprofundando-a.

Traduções ou, ampliando o termo, representações de outras representações, trazem sempre à tona a desconstrução que está na base de toda construção poética.

E era nisso que eu pensava ao ver as pinturas de Federico Guerreros. Porque ele as faz a partir de fotos – o que é bem comum. Mas com encáustica, o que é menos comum.

São várias camadas grossas de cera, uma que outra coisa colada por cima, e alguma superfície em tinta metálica a esconder o que foi com ela pintado. E a devolver, ao fruidor, nesse reflexo acinzentado, ele mesmo e seu entorno.

A foto fica lá atrás.

Federico Guerreros - sem título Federico Guerreros - A correr se ha dicho Federico Guerreros - Por una moneda

A pintura de Guerreros não tem contornos que coincidam com seus relevos e texturas. As fotos originais também não. Meio desfocadas, seu desenho se perde, assim como seus detalhes. E, ao mesmo tempo, há um reforço, um aprofundamento daquela primeira obra fotográfica no que ela teria de icônica, no seu vestígio de coisa que existiu. A desconstrução é, ao mesmo tempo, um elogio ao rastro do real que as fotos contem.

As fotos falam de cidades e infâncias que não mais existem. Há entendimento de que o duradouro é apenas o que sobra, momentaneamente, do temporário – para lembrar da frase famosa de Baudelaire. Há também flâneurs que poderiam estar no The Man of the Crowd, de Poe. Há um spleen.

Traduções sempre envolvem uma dessacralização da obra original, pois traduzir significa separar essa obra de seu contexto e fonte de inspiração, emprestando a ela novas condições de produção. Aqui também.

Essas fotos antigas são tratadas com espátulas pouco atentas a minúcias. São tratadas, na verdade, a ferro e fogo. Há uma brutalidade que contradiz e desconstrói o romantismo inicial. A superfície das telas tem um trabalho, e um trabalho pesado, que agride o estar-no-mundo dos dândis e garotos inconsequentes e despreocupados lá retratados. Em uma delas, um balão de história em quadrinho (“mom, I want to be a terrorist”) desestabiliza o onírico. Em outra, isso fica a cargo do título: Lo intento, pero no llego. Há plásticos corrugados, desses de pastas de papelaria, a dizer que a paisagem de fato não existe. Na tela A correr se ha dicho, a sombra dos personagens, no chão, fica sem sentido, pois a luminosidade do quadro é nula. Na tela Por uma moneda, a moeda caída no chão é desproporcionalmente grande. E é o único ponto branco da tela cinza. Dinheiro, diz a tela. Não a infância perdida da foto. Mas dinheiro.

Bem contemporâneo e nem um pouco romântico, Guerreros, à imagem de Baudelaire, está menos para tradutor da nostalgia das fotos originais, e mais para vampiro, sugando-as para mostrar uma visão da atualidade.

É uma visão de que modelos, sejam eles quais forem, só podem existir, hoje, como uma aporia a ser constantemente negada e desejada.

A exposição está no David Dalmau Studio, São Paulo, e tem 18 telas.

19/05/2010

Dora Longo Bahia

Primeiro a parte formal. Dora Longo Bahia, atualmente em cartaz na Vermelho, continua (*) com sua inserção múltipla ou, pelo menos, dupla. Em uma, há o enfrentamento estrutural daquilo a que se propõe. Na outra, a relação da obra e da própria artista com as questões culturais em que se inserem ambas. Na primeira camada, fala a artista profissional. Na segunda, entra um envolvimento emocional, pessoal. Tudo isso, é claro, entre aspas, porque não há profissional fora de contexto cultural, assim como a pessoa de Dora Longo Bahia não é passível de separação com o que ela de fato é: artista. Mas há uma diferença entre o interesse cognitivo na matéria de trabalho e um envolvimento predominantemente afetivo, e de cuja força ela se defende pelo sarcasmo, pelo humor. Estamos falando aqui de uma interface. Ou, traduzindo, do ponto de contato entre o que é representação simbólica e o que é um real – com esse nome em falta de outro, e também entre aspas. Da junção entre método e experiência, entre conceito e emoção.

Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Dora Longo Bahia – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

O resultado é uma obra muito forte, mas ambivalente para quem vê. Algo nos está sendo dito. Algo nos é exibido. E são duas coisas diferentes. E com mais um detalhe. O que nos está sendo dito e exibido tem uma característica elusiva no que se refere à autoria.

Detalhando:

Então, escutamos/vemos o discurso da violência. Essa violência é um evento que surge em ambientes não-violentos há muito extintos: paisagens bonitas; quartos protegidos onde houve um dia um videogame; cristaleiras, gaiolas em que se pescavam brindes na época em que havia feiras inocentes ou parques de diversões do interior; cartazes com a tipografia caseira daqueles que eram colados em muros de antigamente. O evento violento tem esse espaço inicial protegido, então, e uma temporalidade posterior, em que a coisa acontece.

Segundo passo: essa coisa violenta é mostrada de forma esteticamente sedutora. Ou seja, é uma capa bonita de se ver, atraente. E às vezes é capa mesmo. Uma casca de tinta feita alhures e lá colada. O vestígio da inocência inicial é simbólico, não está mais lá nos objetos, sim, presentes, porque há uma mudança de conceito. O que está lá, agora, é um espaço de ferros e imagens ponteagudas, escuras, barulhentas. É uma inversão. Ao contrário da situação inicial, agora temos uma capa sedutora (a que fala da violência) sobre um suporte soturno, “feio”.

Terceiro: esse fogo cruzado de significados antagônicos continua na própria fatura da obra. Há a autoria de uma pintura que não está lá e cuja casca de tinta foi aposta sobre outra superfície. A autoria aconteceu, ou pelo menos começou, em outro espaço e tempo, sem nosso testemunho. Dessa autoria apenas ouvimos falar, supomos suas condições. As cascas de tinta – e isso na nossa frente – por sua vez são postas como um dos elementos de grandes instalações em que entram mais coisas, como jogos de computador, vidros, ferros – que não foram fabricados, é claro, por Dora Longo Bahia, mas dos quais ela se apropria.

Resumindo: trata-se de uma narrativa em primeira pessoa (por causa da presença emocional com o assunto tratado, visto principalmente através dos registros de humor ou ironia) com um narrador não confiável (sequer podemos ter certeza se ele esteve lá o tempo todo) que conta algo em que não acredita e nos deixa adivinhar aquilo em que, sim, acredita. Sei  bem.

Tais narrativas de narradores não confiáveis subtraem o que nós, fruidores, em geral mais queremos: um guia, uma orientação sobre como receber aquilo. Há a evocação realista da violência urbana de qualquer grande cidade, mas é uma violência “contada”, como se conta a um vizinho algo que se viu na rua. Pode não ser verdade. Pode haver uma risada subterrânea, uma sacanagem, um já esperar pelo olho arregalado – e rir disso. Esse humor  que se esconde aparece principalmente nos cartazes diminutos colados em cima de outros cartazes; nos anúncios de gratuidades da dor (tatuagem) ao lado de outras gratuidades, essas coloridas, de esmalte de unha. Ou, ainda, nos dizeres dos jogos, sempre tão involuntariamente engraçados: Mission failed, you’re killed by agent two. Ou ainda: O seu objetivo é destruir os exércitos vermelhos; se é você quem possui o exército vermelho ou se o jogador que os possui for eliminado, o seu objetivo passa a ser conquistar 24 territórios.

E junto com as letras ou voz anunciando a morte ou a equivalência absurda de objetivos, o som de palmas entusiasmadas.

Nicolas Bobbio – fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA exposição da Vermelho também traz artistas que foram alunos de Dora Longo Bahia ou com ela tem afinidades. Entre eles Nicolas Robbio, com uma pinturinha paradisíaca, único registro possível de uma vida impossível, colocada embaixo de um gancho de rede. Se rede houvesse, poderíamos lá ficar, olhando fixamente para a exígua superfície pintada, imaginando o que não há. Sem rede, rimos, de pé mesmo, dessa nossa necessidade. Gisela Motta e Leandro Lima, seguindo sua linha, fizeram um coração pulsante, formado de produtos de consumo execráveis. E André Komatsu preparou uma cerquinha, um tapumezinho, incapaz de tampar seja lá o que for. Há outros, todos bons.


(*) vejo essa exposição como uma continuação da de fevereiro de 2004, no CCBB do Rio de Janeiro, coberta por mim para o Jornal do Brasil.

03/05/2010

Alberto Martins

Alberto Martins na galeria Raquel Arnaud  - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásFui lá por causa dessa cabeça partida, texto e imagem, que é a minha e, descobria, também a dele. Mas a exposição de Alberto Martins na Raquel Arnaud ia me devolver uma entrada em mim mesma, a de minha união, a de um espaço específico, que é onde me encontro e onde se encontram meus traços e textos. E, descobri, ele e os deles.

Porque à primeira vista, é uma cópia de Amilcar. Mas só até perceber que o material é outro: um aço esquisito, que breca a ferrugem que, sim, se instala. Mas só na superfície. Foi essa a dica. A suspensão do tempo. A feitura de outro espaço.

Amilcar de Castro me agrada porque mostra a fragilidade do projeto modernista. Seus ferros enormes e masculinos se apóiam em pezinhos frágeis que, me parecem sempre, não vão suportar o peso de tanta arrogância. Nos papéis, seus pincéis largos ocupam, qual gatos machos a mijar nos cantos, os cantos da superfície plana. Sim, aquele quadrado é dele. Só que o pincel, tão grosso, falha, e a tinta da posse se rarefaz. E a ferrugem de suas peças não tem o que a impeça de continuar a viver seu tempo que é o mesmo que o nosso, esse tempo “do lado de fora”. Esse o Amilcar. Alberto Martins não se defronta com um monumento modernista a ser desmontado. É diferente.

Alberto Martins na galeria Raquel Arnaud - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás“Vous ne pouvez concevoir cet horrible en dedans-en dehors qu’est le vrai espace”, disse Henri Michaux. Horrível por incômodo. Mas necessário, para entender como – ou melhor, onde – haver o encontro. E é aí que se juntam texto e imagem. Mimesis, a imitação de um presente já, por si, ficcional. Poesis, sua transformação. O encontro não na fatura, essa muito diferente para uma e outra atividade (pelo menos para mim). Mas na recepção. Ou melhor dizendo, no encontro. No ato de presentificar o que está ausente – o que só se completa com mais de um. No nanossegundo de reconhecimento mútuo entre criação e fruição, sendo que as duas palavras são erradas, insuficientes, pois apontam uma independência que na verdade não existe.

Alberto Martins na galeria Raquel Arnaud - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA apresentação do artista vem com um texto de Guilherme Wisnik que fala de “passagem”. Só na entrada. Uma vez nesse outro espaço – que nas peças de Alberto Martins passa pela dobra e pela apreensão/apropriação de um ar do entorno – você fica lá. Para todo o sempre, não fora o dia-a-dia e suas miudezas que nos salvam a todos de uma viagem sem volta.

É, digamos, um estar-na-música. A velha máxima de o espaço ser da arte enquanto o tempo é da narrativa se acaba diante de um ritmo. Mesmo antes de Einstein mostrar que as duas coisas eram uma só. Desde sempre e aqui também. É uma música soturna, a de Alberto Martins. Suas peças levam tinta automotiva (mais um ponto em comum: trabalhei com esse esmalte anos a fio até um médico me falar das consequências). É uma tinta assertiva, brilhante, de cores alucinantes. Não aqui. Os azuis, vermelhos e amarelos são abatidos, contidos. Como se viessem, até seu olho, de muito longe. De outro espaço. Em relação à sua posição em cada peça, o tom muda. Inclinados, seus planos pintados sofrem a difração da luz ambiente. Voltando a Henri Michaux: ça bouge, ça émeut.

A noção de passagem, ou o Schwellenkunde de Walter Benjamin, tem a ver com limiar. Vejo mais como portal, aquilo que só depois que a gente transpassa nota, apavorado e fascinado, que existe.

01/05/2010

Marcone Moreira

Reconhecível não é sinônimo de descritível. Em Marcone Moreira reconheço algo que não sei descrever. Nem ele. Suas obras são, justamente, sobre o que não está lá.

Não sei mas vou tentar. Por exemplo: a fragilidade das referências se torna, em si, o tema. Reverberações, rastros. Memórias compartilhadas embora não-arrumadas, em que a repetição nas várias telas – ou madeiras velhas – passa a ser a ordem possível e aposta. Uma temporalidade, portanto, que se faz a si mesmo, e no presente. E então, há os buracos.

Essa memória é de um passado de terra e rios, de trabalho. As madeiras são de embarcações, carrocerias de caminhões. Da época em que caminhões tinham carroceria de tábuas e que barcos não conheciam fibra de vidro. Aliás, de uma época ou de um local, porque o espacial e o temporal se misturam muito aqui.

Marcone não faz enunciados pessoais. São memórias/rastros grupais, culturais. Cada obra é o produto de um agrupamento de agentes enunciativos.

Em Horizonte vazado você se debruça sobre o que não mais existe, nos buracos que mostram a parede que está por trás. Nas telas da série Acúmulos há os vocábulos ao contrário de uma língua não mais útil. Corrosivo um dia irá desaparecer na ferrugem que já lhe come as pontas. Contínuo não estava mais na galeria, tinha sido deslocado para a SP-Arte – em uma ironia não intencional. Mas Seringal estava lá, com sua madeira de barco.

É assim uma coisa em camadas. Camadas de passados, de tempos. É Deleuze quem via desse modo o cinema: camadas de tempos coexistindo em ordens não necessariamente cronológicas, e onde o novo – ou o sentido – se produzia do lado de fora. Sempre o que não é filmado, o que a câmera não enquadra é o que dará sentido ao que de fato se vê. Em Marcone, é na junção dos tempos-espaços. Ou no seu caos, em sua abstração. Não é que o abstrato, desse jeito que Deleuze descreve e que tem a ver com o que Marcone faz, seja algo oriundo do que de fato está lá. A abstração – que é sinônimo de sentido – não é uma espécie de “possibilidade” do existente. Só rearrumar de um jeito diferente que, pronto. Não. Em vez de possibilidade a se realizar, a ser buscada, a abstração/sentido já está lá desde sempre, embora não implementável. É uma virtualidade sempre presente, e não uma possibilidade ausente. O sentido, em Marcone, é real e reconhecível, lá, quase concreto, não fora fantasmático.

E isso tem a ver com uma visão de mundo muito curiosa. Em vez de uma ordenação possível e sempre atualizável, ainda que com partes não absorvíveis ou à disposição para serem absorvidas, o mundo de Marcone tem um passado e um futuro presentificados, simultâneos. O que vai acontecer já existe antes. Embora não previsível porque, sim, há buracos.

É engraçado o vocabulário imperialista que lida com esse enunciado coletivo que é o de Marcone. Quando o assunto é tempo, se trata sempre de algo pré-alguma coisa. Pré-industrial, por exemplo. Ênfase no industrial, e o resto que se arranje a partir desse estado (o industrial), que é subentendido como o “correto”, o “natural”, o “bom”. É engraçado também os sintagmas de espaço: América ou, pior, América Latina. América é o europeu nos vendo, e América Latina faz menção a um Império Romano longe para caramba. O pré e o pós aqui acontecem ao mesmo tempo.

É a vingança. Nas cosmogonias – como a que espirra rastros em Marcone – há sempre o que não morre. Palimpsestos que se mantêm nesses prés e pós, nesses apêndices de um outro, considerado o mais importante.

Marcone é de Marabá. Ganhou o Marcantônio Vilaça com uns encaixes de barco chamados cavernames. Umas peças curvas que fazem o suporte das tábuas dos cascos. Soltas no chão, elas não falam dos barcos, mas das correntezas em que barcos dançam, eles e elas igualmente presentes, sem estarem lá. A exposição de Marcone foi montada na Galeria Lurixs, do Rio, e se chama Superfícies.

19/04/2010

O lugar da linha

Patético e apático já foram antônimos, um de cada lado de pathos, que significava qualquer coisa que atingisse o cidadão. Então, patético era quem tentava se defender dos acontecimentos e apático era quem se deixava modificar por eles.

Mas isso foi muito antes de Borges que, claro, criava seus próprios acontecimentos, ordenando-os tão criteriosamente como qualquer grego, mas dizendo que inventava. E aí não dá mais para separar reação da aceitação.

As obras da exposição O lugar da linha, organizada por Felipe Scovino no Paço das Artes também incluem uma organização aposta, que não estava lá – e que parte da linha.

O mundo referenciado é a própria experiência artística, é uma proposta intelectual. É o que acontece, claro, com qualquer intervenção poética. Sempre o início é uma duplicidade. Mas nas obras presentes, por causa de atributos metonímicos (e não tanto metafóricos) há uma mimesis que, por sua vez, servirá de um novo ponto de partida. Sendo que isso está dito: é a linha. E porque então você é convidado a experimentar algo cujo sentido/organização está explicitadamente presente como falso, tal sentido passa a ser considerado como uma produção contínua, e não mais como algo prévio, incluso, a ser descoberto.

E com isso – através, portanto dessa linha ficcional – você se aproximará mais do real inatingível do que de qualquer outra maneira. Um paradoxo para Borges nenhum botar defeito.

São eles:

Bianca Tomaselli apresentou seus Desenhos parasitas, em que uma placa grande de azulejo recebe o risco que vai quadriculá-lo para que se pareça com… azulejos. Uma ‘realidade’ de mentirinha. São dela também peças em cerâmica que na verdade podem ser vistas não como objetos como traços grossos, em branco e preto.

Gisele Camargo - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Gisele Camargo trouxe trípticos em que tintas de textura forte como o esmalte automotivo são mostradas exatamente como isso, tintas, através do contraste com um cerebral grafite.

Ana Holck trouxe estruturas.

Maria Laert - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Maria Laert - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Maria Laet tem dois tipos de trabalho na mostra, ambos em preto e branco. Fotos de um chão amorfo que se organiza a partir de um fio nele colocado; e monotipias em que texturas de pontos, também amorfas, são organizadas a partir de fissuras, falhas, a partir do que é uma brecha.

Luiza Baldan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Luiza Baldan traz suas fotos de grande formato (série Sobre umbrais e afins), de interiores cujos objetos e focos de luz fazem uma construção com seus próprios limites, os das paredes, tetos e chão que os contem.

15/04/2010

Chelpa Ferro

Chelpa Ferro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásA instalação atual do Chelpa Ferro (Jorge Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler) na Vermelho repete outras do mesmo grupo. Misturam campos, sempre. E sempre campos que nem mais o são, que seriam, em um mundo dualístico que não mais existe. Na anterior que deles vi, na Pinacoteca (fevereiro de 2009), misturavam o que seria ‘natureza’ com ‘cultural’. Dessa feita, misturam o que seria ‘alta cultura’ com a ‘baixa’. Mas, justamente, não misturam. Apontam, pelo contrario, a unidade, sempre modificando para sempre a visão do lugar onde se instalam. E modificando também a linguagem que utilizam. Deles escrevi, daquela feita: “Chelpa Ferro faz um aceno aos limites da linguagem. Sua nomeação, sua redefinição do ambiente em que se instala, é por sons que não formam palavras.”

E vou repetir.

Dessa feita são vasinhos. Dos mais bregas possíveis. Domésticos, humildezinhos, de barro, vidro fingindo cristal ou metal, ali no canto do espaço branco e asséptico da galeria de arte. Doze deles, dispostos em um ritmo de dois, depois três, depois dois outra vez, três e dois. Somam 12. Acima deles um trilho que dá suporte a um microfone móvel que capta as vibrações de ondas produzidas dentro dos vasinhos. E o som é magnificente, soberbo. Coisa de Bach em igreja barroca. Um lamento profundo, erudito, transcendental. Quem faz são os vasinhos. Ao cubo branco da galeria cabe acolher essa cantata de bibelôs oriundos da casa da tia Conchita.
São cinco os aspectos que noto nas instalações do grupo: 1) utilização de objetos oriundos da cultura ou de ambientes populares; 2) com isso, uma piscada de olho para nosso desenvolvimento histórico de artes ‘alta’ e ‘baixa’ sempre misturadas; 3) experiências estéticas liminares, limítrofes com a vida cotidiana; 4) montagem de espetáculos cujo ‘excesso’ sonoro é apontado, demonstrado em sua fatura, ao mesmo tempo que é encenado; 5) definitivamente híbridos.

E se dão ao primor de estender esses cinco aspectos ao fruidor à sua frente, através de uma espécie de meta-instalação. Porque você vai lá escutar o lamento gregoriano de vasinhos vagabundos. Mas por trás desse lamento há o som contínuo e furreca do microfone andando no trilho. Uma espécie de ranranranran que dura o minuto, minuto e pouco, da ida e da volta do microfone por cima dos vasinhos. Então eles fazem, e deixam claro como fazem. Há sempre dois níveis de sons, o produzido e o que produz. Não há um atrás-do-palco do espetáculo oferecido.

Chelpa Ferro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásCom isso, o fruidor se vê, ele também, em uma situação limítrofe da vida real, e não privilegiado enquanto classe social. Não importa seu grau de pertencimento ou mergulho, e não importa sua excelência cognitiva. Está tudo lá. Você entra na experiência porque quer, e não porque pode.

Não são eu, é o Bourdieu. Ele denuncia que as classificações hierárquicas de produtos culturais servem apenas para redividir classes sociais sob o fino disfarce de apuramento cognitivo ou estético. Mas que na verdade todo mundo é capaz de viver experiências estéticas igualmente compensadoras a partir de uma mesma situação oferecida.

Até no nome. Ao abdicar de seus nomes de artista para a apresentação de algo chamado Chelpa Ferro, os três criadores dizem que o pré-requisito da ‘alta’ cultura, de que seja produzida por artista identificável e de visão pessoal, com técnica única e tema complexo, é bullshitagem.

12/04/2010

Aluga-se

Não é simples achar um lugar em que me encaixe. Sofá, cidade ou linguagem, e a dificuldade é igual. Uma questão de achar uma estabilidade transitória em meio à tensão. Afinal, as questões espaciais são muitas e suas respostas fluidas. Por exemplo, a ordem inicial – e haverá sempre uma ordem inicial – já supunha minha chegada ou terei de abrir um lugar à força. Em entrando, o farei com qual grau de abdicação de minha energia e/ou com qual grau de modificação do que lá estava antes.

Trinta e três artistas me fizeram companhia nesse meu dilema cotidiano, com a apropriação Aluga-se. Desde o dia 10 de abril, cada um deles tenta encaixar-se, uns bem outros nem tanto, nos cômodos e jardins de ares modernistas de um casarão do Alto Pinheiros.

Como já disse, para mim localizar-se é 1) admitir uma tensão e 2) viver com ela.

Rafael Campos Rocha - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Rafael Campos Rocha, como em geral com esse artista, conseguiu excelente resultado com seu laguinho e ilha com náufrago, embaixo da escada. Esses cantos perdidos, esses espaços que escapam à utilidade burguesa da casa, e Rafael pegou um deles para radicalizar a inutilidade e, ao mesmo tempo, dar a ele a utilidade do olhar perdido, do horizonte sem fim, a (in)utilidade suprema e sem lugar cômodo possível da arte.

Fabiano Soares o fez também, ao engessar a frente de um veículo na parede exígua de seu quartinho. Uma boa contenda, essa, entre o veículo e a parede, entre a ordem espacial anterior e a entrada do novo. Ao mesmo tempo que o espaço anterior existia e era anunciado como tal por Fabiano, ele também o negava ou o modificava, com a inserção de sua existência e possibilidade.

Sua boa solução foi ressaltada, talvez por acaso, com o uso contrário do quarto ao lado. Evandro Prado, a quem eu já havia visto em Atibaia, lá estava com suas referências sacras, o escuro, os cristos e as velas. Uma redenção. Aliás, no quartinho como na cultura.

Aliás, logo na entrada, na primeira sala, quadros representando objetos de consumo pendiam das paredes. Não sei o que faziam lá, com sua presença gritante e ao mesmo tempo pouco assertiva, pois com referência ao industrial, ao massificado, ao produzido em série. Estavam lá como poderiam não estar em qualquer lugar.

Lais Myrrha - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Laís Myrrha pôs portas soltas que não davam a lugar nenhum, com isso abrindo-as todas, agredindo com sucesso os limites que se lhe eram impostos.

Afonso Tostes tenta um acordo com seu nome-do-pai lacaniano: se eu sou de carne e osso, essa fragilidade toda, você (espaço-lei) também o é, em sua temporalidade disfarçada. E pôs ossos saindo de sua parede, emprestando a ela uma organicidade que é sempre ligada à morte, mesmo quando não se chega à obviedade de ossos.

Giba Gomes - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Giba Gomes - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Giba Gomes buscou companhia para enfrentar o embate com sua sala vazia. Chamou a si figurinhas em preto e branco que empilhou na janela. Outras formavam séries entituladas Homossexuais, Esquizofrênicos etc. Grupos que, na cultura, não se inserem na ordem prévia. Esse artista me pareceu assumir uma estratégia interessante para sua tensão. Ao dizer que é um perdedor e que há muitos outros perdedores, ele repudia e enfraquece de antemão a severidade de seu espaço quadrado.

Roberto Fabra - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Do lado de fora, Roberto Fabra explicita graficamente a ausência de solução. Seu boneco, pintado na fachada, tem um ponto de interrogação no lugar do olho.


Laura Gorski - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Adriana Conceição - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Mai-Britt Wolthers - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Daniel Caballero - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Também do lado de fora e maravilhosamente feminina, Laura Gorski pintou uma planta em negativo, em meio a outras plantas, essas reais. A fenda, a ausência, o que não está lá sendo tão ou mais significante do que o concreto que da brecha depende para seu contorno e entendimento.

No segundo andar, mais mulheres vem demonstrar sua competência em compreender e viver a tensão. Adriana da Conceição desenhou na parede. É uma estratégia que usa a suavidade para conseguir seu propósito de inserção na ordem, no duro, no reto. Sempre funciona muito bem.

Mai-Britt Wolthers é outra que usa o inobtrusivo para se inserir com sucesso. Seus planos geométricos, de cores neutras e ângulos retos, levam um grande caralho desenhado, que contradiz, com sua ironia de traços hesitantes, a determinação masculina dos planos anteriores.

Rosana Naday constrói um enorme e severo casco de navio preto. Mas o faz em tábuas flexíveis, abauladas em suave curva – e que tomam e destróem a arquitetura da sala onde não dá sequer para entrar direito.

Silvia Garcia Pinto modifica seu cubículo, entrevisto por fenda apertada, pondo lá dentro papel higiênico enrijecido com gesso em posições bem pouco ordenadas.

Também no segundo andar, o banheiro é ocupado por Daniel Caballero. Banheiro é um bom lugar para a tensão adquirir conotações sexualizadas e é o que faz Daniel. Pentelhos pretos enormes sobem por todos os lados cobrindo as paredes. Paredes, bidê, vaso e pia, tudo como deve ser. Mas cobertos por pentelhos unissex, e, no chão, uma terra preta faz nascer o que se lá plantar. No dia em que fui, uns musguinhos.

sala torta de Newman Schutze, Bettina Vaz Guimarães, Lina Wurzmann, Wagner Morales - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Há uma construção secundária na casa, ao fundo do jardim. Lá, uma sala em formato desencontrado, com paredes não paralelas. Da maneira como vivi a experiência, essa sala era tudo o que eu queria. A ordem, ainda, mas já nem tanto. Nela instalaram-se Newman Schutze, Bettina Vaz Guimarães, Lina Worzmann e Wagner Morales. E caçoaram dessa ordem que já não o é. Newman pintou janelinhas de cores chapadas, Lina tirou a retidão das colunas com umas placas orgânicas aderentes a elas, Bettina pintou uma chaleira gordinha em pinceladas à la amilcar de castro – grandes, pretas. E Wagner fez uma janela artificial, com um projetor de luz, embaixo de janelas reais e que também não são reais, pois dão para um mezanino e não para o exterior.

Ana Zveibil - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Rosilene Fontes - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Cinthia Marcelle - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Sem ser essa sala, há outros cômodos, ocupados por Ana Zveibil – que amplia a decadência reinante com fotos sobre ambientes mais decadentes ainda; Renato Pera, que filma a própria casa apropriada, antes da apropriação; Rosilene Fontes, com uma planta baixa – portanto racional e fria – de um ambiente urbano com forte conotação humana (pracinha, sobrado do médico, jardim de infância); Eide Feldon e seus livrinhos que questionam o lugar feminino através da história, a começar com figuras femininas de 6.000 anos, fotografadas no British Museum; e Cinthia Marcelle, com seu vídeo hipnótico do trator, forte e possante, mas que fica, impotente e em looping, traçando para todo o sempre, em um solo arenoso, o símbolo do oito deitado, do infinito. Esse vídeo já esteve em exposição no Centro Cultural São Paulo, há pouco. Felippe Segall ocupou o mezanino, transformado em caverna com luz avermelhada, chão de areia e um labirinto na parede. Você subir uma escada para chegar “embaixo”, quer dizer, em um sotão ou caverna, foi uma boa desestabilizada espacial do artista.

Há outros artistas, de quem não gostei, que não me pareceram enfrentar a tensão inerente em uma apropriação – ou fui eu simplesmente que não os entendi.

No seu filme O inquilino, Polanski fala de uma inserção mal-sucedida. O personagem principal traz em sua mímica corporal e em suas palavras toda uma determinação de bem se enquadrar entre os novos vizinhos, entre as novas paredes. Mas a falha na capacidade em viver a tensão o leva a mergulhar no amorfo de um delírio persecutório. Ele não entra, é engolido. E sem conseguir nomear/enfrentar/admitir a ordem – seja ela entendida como espaço ou linguagem – no final sequer é capaz de falar. Só urra.

Não cheguei a ver urros. O que fala bem da curadoria do filósofo José Bento e do artista já citado, o Rafael Campos Rocha.

Ah, a cerveja. Gente, uma tal de Schornstein. De-li-ci-o-sa. E, não, não foi por causa dela que eu gostei tanto do resto. Estava bom mesmo.

16/03/2010

Gabriel Borba

Pegar um quadrado de ar e transformá-lo em um espaço humano será sempre um ato político. Quem faz isso é arquiteto – e os há mais e menos lúcidos. O arquiteto Gabriel Borba vai mais longe. Ele questiona o quadrado.

Sua exposição se chama Papéis: caminhos do visível, na Casa Galeria. Dava para começar falando de papéis – 1) matéria fibrosa amorfa de origem vegetal que, ao ser reduzida a quadriláteros finos e flexíveis, serve para escrever, imprimir, desenhar, embrulhar, limpar e construir; 2) representação de funções teatrais ou sociais pré-estabelecidas e identificáveis.

Depois de papéis, iríamos para caminhos – e suas linearidades sempre arbitrárias. E terminaríamos, sob aplausos, com a última palavra do título: visível. Explicitaríamos então tudo que não o é, justamente por escapar a estruturas compreensíveis de antemão.

Mas acabo de ler um comentário sobre o conto Entropy, de Thomas Pynchon, e é por aí que vou.

No conto, uma festinha do balaco quebra a ordem de um edifício. No final, a janela quebrada do apartamento mais ordeiro sugere que o fechamento daquele sistema de vida acabou. Seus habitantes terão de passar a conviver com uma energia vinda de fora, não ordenável, não estabilizável: a da cidade.

Na exposição, as coisas se dão de forma menos alegórica. Borba, eu já disse, questiona o fechamento, o quadrado. Faz isso obrigando esse quadrado a se apresentar de três jeitos diferentes. Três. Não dois. Dois, e ele recairia em esquemas binários dos quais o mundo não está cheio de fato, mas bem que gostaria.

Seu quadrado é o campo espacial de um ato artístico já executado; é a representação de outras espacialidades – artísticas ou não; e é um espaço de potencialidades, não finalizado, aberto a novos atos artísticos ou não (embora, em uma galeria, qualquer ato se inclua no artístico).

Em uma série sem título, o papel branco é furado, tal como a janela de Pynchon. Essa destruição ocorre no meio, no que a racionalidade catalogadora chamaria de centro. E vem em forma de incisões em elipses perfeitas, ângulos retos, círculos, linhas paralelas. A ordem é o que destrói. Por cima, a desordem que constrói, no gestual, no impulso sem lei ou plano de um lápis ou do nanquim. O quadrado do papel é obrigado a incluir o que está por trás dele. Suas possibilidades de ordem são desmentidas. Sua forma também. Assim como sua utilidade pragmática. Enquanto isso, a potencialidade de mais traços ou acidentes continua.

Em outra série, os nomes são nomes de água, esse estado da matéria tão pouco afeito a comportamentos sistematizáveis, tão próprio a transformações de energia: Cachoeira, Lagoa, Chuvisco, Garoa.

Falei aí em cima daquilo que a racionalidade catalogadora chamaria de centro. Em Face, uma impressão estourada de um rosto, há uma linha em branco que o divide pelo meio exato. Exato? Só se você cair no hábito de ordenação, porque rostos são sempre muito bons para destruir ilusões de simetria.

Branco, de Gabriel Borba – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Olhar, de Gabriel Borba – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Garatuja, de Gabriel Borba – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Ordem, de Gabriel Borba – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A obra Branco te deixa inseguro quanto a qual quadrado você deve privilegiar, e que pode incluir o quadrado por onde você anda. A obra Olhar também: para onde você deve olhar, se o quadrado inclui a parede, se o caminho da tua visão segue um barbantinho que atravessa, real, concretíssimo, um, ahn, papel fotográfico que representa outro espaço que representa… deixa pra lá. Em Ordem, o humor do arquiteto, ao agrupar pessoinhas/pinceladas em umas poucas células de seu papel quadriculado. A série Garatuja são telas também das mais concretas, de fibra grossa, onde estão pintadas outras telas, que…

Quer ordem? Quer sistemas com organização interna compreensível? Eis um para você:

Des’que Dada Desse
Desse Dada Deus
Desdeu Dada Dedos
Dada Deu
Ssshhhiii Pla!
Dado Diabo
Dada deu

Ou qualquer outro universo fechado, auto-regulado, com a letra de sua preferência.

(Esse se chama Em D, e está bem na entrada da galeria. Mais um sorrisinho.)

O caso é que a quebra da ordem, ou imprevisto, ou entropia, diz Borba, é o que de fato cria. Ou revoluciona.

11/03/2010

Algumas considerações sobre a apreciação da arte contemporânea

Em seu livro A história social da arte e da literatura, Arnold Hauser (1998) traça um interessante perfil do artista na Renascença. Segundo o autor, até a idade média, pintores e escultores, vindos de classes inferiores e não letradas, eram considerados artífices e tinham posição social semelhante à dos pedreiros e carpinteiros. Todavia, no Renascimento, a aliança com os humanistas possibilitou que os artistas se tornassem uma classe social respeitada e com os mesmos privilégios da nobreza.

A partir do Renascimento, a arte passa a ser vista como uma produção extraordinária da cultura e a ser cobiçada pelas classes abastadas. Ainda que o trabalho do artista seja artesanal, muitas vezes braçal, agora não é mais considerado apenas em seus aspectos técnicos, passando também a ter grande valor intelectual. Posteriormente, as Revoluções Burguesas propiciarão um crescimento do mercado de arte, uma vez que a nova classe social que ascende ao poder – a burguesia – almeja o status da nobreza, o que passa pela apreciação da arte e a posse de objetos artísticos

Estes fatos criarão condições para a permanência de uma tradição artística no ocidente em que o conceito de arte que se consolidará na cultura está ligado ao seu suporte material, às suas categorias e à representação naturalista. Durante séculos, as manifestações artísticas tidas como genuínas pela cultura limitavam-se à arquitetura, pintura, escultura e as chamadas artes menores (ourivesaria, cerâmica, e outras). Todas elas, em maior ou menor grau, “copiando” a natureza, contidas em seus suportes e técnicas.

Segundo Cristina Freire (2006), estas idéias que ainda permanecem no imaginário social, confirmando o peso da tradição cultural, são o maior entrave para a compreensão e a apreciação da arte contemporânea – assim será denominada neste artigo a produção da segunda metade do século XX aos nossos dias. Para a grande maioria das pessoas, uma obra de arte ainda é uma pintura ou escultura, feita com grande perícia por um artista genial. É um objeto belo, feito para elevar o espírito, segundo critérios do bom gosto.

Estes conceitos arraigados entram em colisão na cabeça do espectador comum que entra em uma galeria para ver uma “bela” exposição de arte e se depara com objetos e contextos muito diversos do que ele foi buscar ao entrar. Como aceitar que toda sorte de materiais, muitos deles velhos e sujos, possam estar ali dentro? Como entender uma obra que nos convida e nos rechaça? Certa vez, no Museu de Arte da Pampulha, ouvi de um segurança que a parte mais interessante de seu trabalho era ouvir os comentários indignados das pessoas diante das obras expostas…  

Um bom começo para compreender arte contemporânea é considerar o percurso histórico da transformação do conceito de obra de arte. Depois de Marcel Duchamp, a arte nunca mais foi a mesma. O Dadaísmo demoliu o conceito de arte, a Pop colou a arte no cotidiano, o conceitualismo deu sumiço no seu objeto. Junto com o conceito de arte, Duchamp e seus seguidores implodiram também o gosto. A arte deixou de ser feita segundo os critérios do “belo” e do “bom gosto”. Ressalte-se que, na história da filosofia da arte, gosto não é o que a pessoa individualmente prefere, mas um padrão socialmente construído do que ela deve preferir. Arthur Danto (2000), em um artigo entusiasmado, constatou que a questão central da arte hoje não é mais se uma obra de arte é de bom ou mau gosto, mas sim o que ela significa. Segundo o autor, a era do gosto tem sido substituída pela era da significação.

Todavia, chegar a esta “significação” também não é um caminho muito fácil. Alguns teóricos, como Anne Cauquelin (2005), já constataram que a compreensão da arte hoje não se encerra na teoria e crítica de arte. É necessário recorrer a outros campos do conhecimento humano, como a política, a sociologia, a semiótica, a economia, a filosofia… Não a um conhecimento, mas à articulação de vários deles. Danto (2006) também constatou que a teoria da arte tende a progredir ao infinito, ao passo que o objeto artístico tende a desaparecer.

De fato, a compreensão da arte tornou-se complexa. A autonomia da arte, apregoada pelo modernismo, não existe mais: a obra é contextualizada. A leitura de uma obra passa, necessariamente, pelo contexto histórico, social e cultural em que foi produzida. Mas, para aqueles que se predisporem a enveredar pelos caminhos propostos pela arte contemporânea, são reservadas prazerosas surpresas além de ricas possibilidades de fruição estética.

A seguir, será apresentada uma possibilidade de leitura da obra “Tiradentes: totem-monumento ao preso político”, de Cildo Meireles, como um convite à aproximação deste tema.

Cildo Campos Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1948, onde hoje vive e trabalha. É considerado um dos maiores artistas da atualidade tendo seu trabalho reconhecido em todo o mundo. Em abril de 1970, participou da Mostra Do Corpo à Terra, em Belo Horizonte. Esta mostra reuniu artistas de todo o país e foi marcada pelo radicalismo das propostas. O trabalho realizado por Cildo Meireles constituiu-se de uma ação realizada no Parque Municipal. O regime militar organizara uma grande comemoração ao dia de Tiradentes, cujo mito de herói nacional estava sendo utilizado por aquele com interesses próprios. Na visão de Cildo Meireles,

A figura de Tiradentes estava sendo usada pelo regime militar de maneira muito cínica. Ele representava a antítese do que defendiam os militares. O regime militar tinha de fato transferido a capital de Brasília para Ouro Preto, perto do local da exposição, em Belo Horizonte. A exposição era parte de seu Programa Comemorativo, elegendo Tiradentes como “seu” herói nacional. Claro, a hipocrisia destas manobras simbólicas era evidente, e eu decidi fazer um trabalho sobre isto. (Herkenhof ET all, 2000)

A mostra durou três dias. No primeiro, o artista construiu uma instalação, onde dispôs um quadrilátero de tecido branco, em torno de uma estaca de madeira de 2,20 m de altura sobre a qual havia um termômetro clínico, na qual amarrou um grupo de dez galinhas e ali as deixou ficar. No último dia do evento, o feriado de Tiradentes, Cildo ateou fogo às galinhas, que ainda estavam vivas, diante de uma platéia completamente atônita. A ação provocou protestos na imprensa e discursos inflamados de deputados.

A obra de Cildo Meireles é marcada pela construção de fortes metáforas. A galinha é uma ave doméstica que, contrariando a condição natural das aves, normalmente não voa e limita seu território ao espaço físico que o homem lhe destina. É um animal frágil por natureza, cuja vida (ou morte) é determinada pelo homem. Ao longo da história, a humanidade não lhe reservou um lugar privilegiado na cultura como teve, por exemplo, o falcão na antiguidade egípcia.

Esta também era a condição das pessoas que viviam sob o regime ditatorial: até mesmo sua liberdade de ir e vir era condicionada por um “outro”, todos faziam parte de uma grande massa insignificante que não podia decidir sobre seu destino. Para intensificar sua condição, as galinhas estavam amarradas, ainda mais impotentes e dominadas, como prisioneiros de guerra – ou do regime militar. Ao utilizar a galinha como metáfora do preso político, o artista estabelece uma comunicação imediata com o público que, ao presenciar impotente a crueldade explícita, tornava-se cúmplice da violência ao mesmo tempo em que era aterrorizado por ela. Como nos fala Paulo Reis, comentando a obra:

A tomada de posição política, social e ética fora dada pela mais deliberada violência e a participação do espectador veio na comunhão coletiva do horror, espécie de teatro da crueldade. (Reis, 2006)

O artista concretizou o posicionamento ético, defendido por Hélio Oiticica na Nova Objetividade Brasileira. Segundo Oiticica (citado por Reis, 2006), tornou-se imprescindível ao artista a tomada de posição em relação a problemas políticos, éticos e sociais, não sendo mais possível para a arte desvincular-se destas questões. Cildo apropriou-se desta proposição de Oiticica e a ultrapassou, como atesta o mesmo autor:

Cildo Meireles juntava elementos de uma discussão de vanguarda que, seguramente, não tinha mais a mesma configuração da Nova Objetividade brasileira. Ao ocupar uma dimensão pública mais ampla (…) o comprometimento político social e ético era tomado na extremidade do possível (…) e o objeto chegava a seu limite conceitual, pois além dele parecia restar apenas a ação política mais direta. (idem)

Este trabalho, cuja contundência ainda hoje nos atinge, situa-se no quadro do experimentalismo e da tomada de posição política que caracterizaram a vanguarda no Brasil. Podemos dizer que foi uma ação da “guerrilha artística” teorizada por Frederico de Morais. Segundo o crítico, a arte deveria ser utilizada como uma estratégia de luta contra o regime militar (Reis, 2006).

Além disso, “Tiradentes – totem-monumento ao preso político” está na confluência de várias discussões artísticas em voga na época: Os happenings e a performance colocavam o corpo do artista como lócus privilegiado de manifestação da arte. A Pop Arte atenuava as fronteiras entre arte e vida. A Arte Conceitual desmaterializava a obra de arte, tornando a idéia (ou conceito) a partir da qual o artista trabalhou mais importante que o resultado final. Todas estas questões estão presentes nesta obra.

O tema – vida e morte – é a matéria prima do trabalho que tem seu foco na ação do artista. O objetivo é o que pode provocar nas pessoas e não o resultado (físico) final. Foi uma ação que aconteceu uma única vez e permanece no tempo através de registros e depoimentos. Estes aspectos indiciam a influência da Arte Conceitual, muito presente na trajetória do artista. Todavia, a obra escapa a esta vertente artística por seu forte caráter sensual, que provoca emoções intensas e perturbadoras no expectador – ainda que ele hoje, 38 anos depois, possa apenas “imaginá-la”…

Bibliografia citada:
CAUQUELIN, Anne. Arte Contemporânea – Uma introdução.. São Paulo, Martins Fontes, 2005.
DANTO, Arthur C. Após o fim da arte. São Paulo: Odisseus/Edusp,2006
DANTO, Arthur C. Marcel Duchamp e o fim do gosto. In: Revista Ars nº 12. Departamento de Pós-graduação da ECA/USP. Disponível em
http://www.cap.eca.usp.br/ars12.html, acessado em 22/10/09, às 20:00 hs.
FREIRE, Cristina. Arte conceitual. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Edtores. 2006.
HAUSER, Arnold. A História social da arte e da literatura. São Paulo, Martins fontes, 1998.
HERKENHOFF, Paulo; CAMERON, Dan; MOSQUERA, Gerardo. Cildo Meireles. São Paulo: Cosac & Naify, 2000.
REIS, Paulo. Arte de vanguarda no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

06/03/2010

Tatiana Blass

Adorno deu um ultimatum: ou a arte sustentava seus elos com o mundo cá fora ou defendia até a morte sua autonomia. E por morte ele queria dizer isso mesmo: a morte da arte, ou pelo menos de sua eficácia, depois de cortado o oxigênio que por cima dela sopra nossa humilde labuta do dia-a-dia.

Teatro da despedida #1 – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás É desse fino fio que fala Tatiana Blass no seu excelente Teatro da despedida, na Galeria Millan.

São três objetos e 11 telas, a maioria delas de grande formato e com uma subdivisão, o Teatro para cachorros e aviões.

No título dessa subdivisão já o escopo abrangido: o muito potente, o grande, o que paira lá em cima. E o furreca, o sujo, o viralatismo de nossa vida diária.

E aí não é nem o caso de ir mais para trás ainda, antes de Andorno. Saussure. Porque o homem que primeiro pensou a linguagem em termos de estrutura e relação, e não de eventos isolados, também já havia dito: a ligação entre uma coisa e outra é arbitrária. Falou arbitrária. Podia ter dito ficcional.

Blass fala de seu difícil ofício. Vamos começar combinando: o que achamos que é a realidade, o objetivo, é uma construção (uma concordância parcial, por assim dizer) coletiva na qual nos inserimos mal e mal. E só não caimos no mais ridículo solipsismo porque fazemos sem parar uns cálculos estatísticos de probabilidade. É provável, ou improvável, que aquilo que estamos vendo possa ser visto de uma forma mais ou menos parecida pela pessoa ao lado. Haveria então algo além daquilo em cada aquilo visto. E esse algo além – além dos cacoetes e maneiras individuais ou, já que o campo é arte, estilo – seria então o que chamamos de realidade, objetividade ou até mesmo de verdade. O algo além, o algo compartilhável. Quer dizer, talvez compartilhável.

Então, em linguagem de linguista, a arte (ou a linguagem, qualquer uma) teria sua contingência a cada manifestação e, também, algo extra-contingência. Teria uma relação de auto-referência, de cognição fechada, e uma relação de alo-referência, em que entraria uma semiótica imprecisa, flexível.

Blass questiona essa simpleza ao reposicionar sua arte em terreno bem menos estável e, portanto, epistemologicamente bem menos conservador.

Seus cachorros derretem. São de parafina, não sobreviverão ao fim da exposição.

Suas pequenas figurinhas pintadas sossobram embaixo de uma tinta posterior e aleatória, não-significante. Essas talvez sobrevivam um pouco mais.

Coxia (detalhe) – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Quanto menos dorme, quanto menos sono há – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Embora – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Sua até sumir; sua carne – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

O que diz Blass é que a arte não pode mais escolher entre sua autonomia e sua referência. Está à beira da morte, essa arte. Há um tempão. E enquanto não morre, fala dela mesma e, de quebra, de todos nós – incapazes, nós também, de fazer essa escolha entre brecar um ‘real’ que nos passa ou delirarmos todos mais ou menos juntos, em um tempo não-temporal. No quadro, o aviãozinho que já passa e o outro que ainda vem, desde o fundo da tela. O cachorro que quase vira a esquina, mas ainda não vira. O cachorro e o homem que estavam lá inda agorinha, antes de uma pincelada sumir com metade de seus corpos.

Blass coloca textos em suas telas e eu também gosto imensamente disso. Gosto de textos. Adoro textos. Acho que textos, que até há cinco minutos, eram uma coisa tão antiga, são desde esse nanossegundo de agora, o que há de mais atual. Nada mais atual do que textos. São algo de pós-morte, os textos.

Um deles:

Não sabia se era pela vontade da despedida ou por simples covardia. Ir embora, sem dúvida ou acerto, meio a meio. Talvez fosse o fim esperado, a vingança programada, a saída definida. Mas não foi assim que foi, ir embora seria muito adequado. Por isso permaneceu ali, ainda quieto, num silêncio desbotado.”

Comecei com Adorno e Saussure. Para não perder a embocadura de nomes lustrosos, ataco de Habermas. Ele concorda com Blass. Diz que a vida insossa, cuja contingência mata a arte com sua presença e também com sua ausência, é visão que merece reparo. São duas faces de uma mesma moeda. Moeda no latu. Latim, pípol, não é o latido do cachorro do quadro. E, sim, também no seu sentido strictu. Pois Habermas já falava, em coro com seu mestre e amigo, o Adorno, que o interesse tudo rege. Mas, juntas ambas as coisas – vida e arte – estariam obrigatoriamente, ele garante. A radicalidade da experiência artística compensa a pobreza da experiência não-artística (ou, vamos ser caridosos, a pobreza da experiência não criativa). A gente racionaliza as coisas e vai levando. Ou, em linguagem mais douta: “A negação (da vida) íntrinsica na arte é fruto de sua resistência à assimilação a tudo que for habitual ou pré-interpretado. Mas a trivialidade só poderá ser quebrada por uma negação que mantenha de algum modo um ponto de contato com a vida mundana – que é o que libera as forças necessárias para a renovação de um estado de comunicação sempre ameaçado pela entropia.

Voalá.

Mas fino fio it is. Blass faz referência, com seus cachorros, ao cachorro que Guillermo Vargas Habacuc deixou morrer de fome e sede dentro de uma galeria, em 2007. O costa-riquenho achava que fazia arte ao repetir um viralatismo que era o dele, artista. (A lembrança dessa referência foi de Carolina Vigna-Marú, a editora do Aguarrás.)

09/02/2010

Wonderland: ações e paradoxos

No final do XIX-início do XX, surgiam na literatura ocidental romances sobre a vida e psicologia de jovens. Era a primeira vez que essa faixa etária tinha a seu dispor o ambiente agregador das escolas secundárias, dedicadas a ela. Essas escolas, na época, se propagavam pelo mundo inteiro.

A experiência descrita era sempre uma experiência grupal. Claro, os eventuais atritos edipianos e tal. Mas eram nas gangues, e nas tensões entre seus membros, que Vargas Llosa, Joyce, Thomas Mann ou Cocteau se faziam.

A adolescência continua em voga, mesmo sem esse nome – já que expandida para outras idades. As experiências grupais não.

A exposição Wonderland: ações e paradoxos, do Centro Cultural São Paulo, é de solitários que enfrentam angústias de uma assertividade adulta que parece lhes escapar.

Fica parecendo uma homenagem engraçada e involuntária à morte de Salinger.

São dez videomakers.

O finlandês Antti Laitinen trouxe seu Voyage. É o artista, solitário, remando um barco/ ilha onde só cabem ele e uma palmeira fake. Viaja por um oceano sem fim nem ninguém.

A mineira Marilá Dardot escreve e apaga palavras sem cessar. As palavras são verbos, portanto representam ações que são assim abortadas. Temos Repensar, Liberar, Perceber, Afirmar.

A argentina Laura Glusman trouxe seu Nado y nada, de 2004, onde uma jovem nada sozinha por um rio. Como a câmera se mexe à mesma velocidade, a impressão é que ela não sai do lugar. Acho que me lembro da mesma sensação em idades mais tempranas.

Cinthia Marcelle vai para reflexões metafísicas. Em seu vídeo, uma escavadeira faz sem cessar um percurso em forma de oito deitado, símbolo do infinito. É filmada de longe e do alto – o que põe em relevo a questão de escala.

Kika  Nicolela acende e apaga fósforos que iluminam por alguns segundos seu rosto, em uma identidade que nos foge – e a ela.

Renata Padovan desenha na paisagem traços que ela não consegue manter por muito tempo. Seu instrumento é uma gelatina pouco consistente.

Rodrigo Castro se dedica a achatar uma garrafa de leite com um ferro quente de passar roupa. Nem tudo tem utilidade prática, nessa idade em que a vida ainda não tem utilidade prática.

Lais Myrrha observa as horas passarem sem que ela possa mantê-las, como parece desejar, em seu momento presente: os números do relógio, por mais documentados que sejam, sempre mudam.

Adriana Aranha quer tudo. Mais precisamente todo o café do mundo. Mas não consegue. E Paola Junqueira tenta fazer o inverso, tenta retirar toda a água do mundo, ou pelo menos de um rio, e também não consegue.

Perto dessa exposição, ainda no Centro Cultural, há outra. E dessa eu gostei muito.

O também videomaker Luiz Marchetti, de Cuiabá, expõe sua instalação de diversos monitores, chamada “A poética dos pequenos furtos”, de 2009.

Ele dá continuidade, curiosamente, à mesma temática adolescente de seus vizinhos de salão. Aqui, jovens que furtaram pequenos objetos se exibem com eles, dançando e fazendo caretas. Cristi roubou inúmeras toalhas de um hotel. Rui roubou óculos Gucci de uma ótica carioca. Daniela roubou shorts muito grandes de um mercado em Londres. Pat roubou algo com a grife Saint Lorent. Roberto roubou dois pares de sutiã de um brechó de velhinhas. Sérgio roubou um calção de outrem em um vestiário masculino.

O engraçado é que nada é muito útil, nem fica particularmente bem na cara ou corpo do ladrão. É uma brincadeira infantil. Mas ao misturar marcas famosas e artigos de segunda mão, lojas caras e brechós, o artista acaba mostrando que adolescente é o consumo.

Os jovens ladrões de Luiz Marchetti também agem e se exibem sozinhos. Mas, por serem muitos, trazem de volta, ainda que de forma imperfeita, a experiência de grupo que encantou outros criadores, em outros tempos.

06/02/2010

Chico Science

Você pode gostar ou não do Chico Science. Mas tem de saber que ele coloca uma pergunta interessante: quem é o fracote? Ao juntar maracatu e rock (e ciranda e coco e funk e hip-hop), ele não teve medo.

O medo, por exemplo, de Ariano Suassuna, seu conterrâneo, para quem Chico deveria se chamar Ciência, e desistir de vez de chegar perto do grande horror, o diabo em pessoa, a influência estrangeira.

Não foi o que Chico fez. Fez o contrário. O grande horror, o diabo em pessoa, parece dizer ele, é o tambor do maracatu – e o ritmo estrangeiro que se proteja dessa influência desagregadora, capaz mesmo de modificá-lo irremediavelmente. Modificar o rock, o hip hop. Não o contrário. Ou pelo menos, está bem, em partes iguais, ambos se modificando mutuamente e sem parar.

Parar. A ocupação Chico Science do Itaú Cultural acertou ao pôr o velho Ford do artista na abertura. E fazer desse veículo o suporte para a principal atração, um documentário com depoimentos e shows de Chico Science e das bandas a quem influenciou. É isso mesmo. A ideia é que o hibridismo não para.

    

Pois se não tem começo, como haverá de ter fim.

Maracatu, por exemplo, são dois. Um é o de nação, outro é o rural. O primeiro vem da mistura de várias tradições afro-brasileiras (pois é, meu branquelo leitor, a África não é uma coisa só) misturadas com o portuga arabizado que aportou por aqui. O segundo tem tudo isso e mais uns chocalhos bem indígenas.

Quer dizer, esquece começo.

Ah, e tem mais, alguns instrumentos, como a alfaia, trazem um caráter nitidamente religioso (não me pergunte qual religião porque aí complica ainda mais). O instrumento precisa passar por um ritual de sagração antes de ser usado, e alguns toques só podem ser dados por quem de direito.

E agora vamos às músicas. Umas são muito claras: falam do híbrido, do mestiço. Outras, as melhores, são isso, em vez de falar disso. Por exemplo:

Peguei o balaio, fui na feira roubar tomate e cebola.

Ia passando uma véia e pegou minha cenoura.

Ai minha véia, deixa a cenoura aqui.

Nada mais caipiramente maroto. Só que acompanhado de guitarra elétrica. E com aquela gravação distorcida, típica do reggae jamaicano. Fica uma coisa assim meio de hoje e daqui, com vários ontens, todos aparentes. O início do grupo Nação Zumbi foi um encontro com o Lamento Negro, uns músicos de comunidade carente da periferia de Recife. Esse foi o principal “ontem”. E não sumiu.

Na época (anos 1990) falou-se também em herança Tropicalista. Mas o Tropicalismo tinha uma aderência à indústria de massa e o Mangue aderia às pernas das pessoas. Usava a indústria e seus canais de divulgação, mas sempre com um “não” embutido. Por exemplo, não era bonitinho. Mas o Tropicalismo também está lá.

Híbrido, segundo Herom Vargas, doutor em semiótica da PUC-SP e autor de tese sobre Chico Science, é o que vai incorporando o que pinta sem anular os estágios anteriores. Não para para fazer síntese. Segue em frente.

23/01/2010

Cidades imaginadas

Quando pela primeira vez em um ambiente, você pode fazer duas coisas: procurar pelo igual ou pelo diferente. Se você procurar pelo igual estará na típica posição do colonizado: rauduiudú soa tupi guarani. Se insistir na diferença, você é pós-colonizado: rauduiudú é o cacete.

Se você não fizer nem uma coisa nem outra, mas procurar por um diferente quase igual, ou por um igual com apenas um look diferente, você é um colonizador nato.  O ambiente novo é – ou pode se tornar – uma extensão tua, embora com detalhes típicos bem vendáveis.

E quando você sequer percebe que está em um novo ambiente, parabéns, você é morador de uma grande cidade. Deve ser uma questão de defesa contra mudanças excessivas, sei lá. Afinal, cidades se autocolonizam sem parar.

Hélcio Magalhães, Jonathas de Andrade e Waldo Bravo – os artistas da mostra Cidades imaginadas, no MAC – também não sabem. E nem se importam. O que eles falam é de uma recepção perdida.

Recepção. Não produção. A mostra é de vídeos, fotos. Seria um jornalismo. Mas as cidades não são documentadas, são imaginadas. Não se trata de demonstrar as tensões do objeto escolhido – pedaços de São Paulo ou Recife – mas suas potenciais extensões. Suas possibilidades de ampliar-se até atingir quem por esse objeto passa.

Dá um pouco de vergonha. É como um puxão de orelhas.

Jonathas de Andrade põe uma ficha escolar embaixo de seus pequenos detalhes fotografados. As perguntas são nível primeiro grau: “Assinale a resposta certa – os usos e costumes são iguais no mundo inteiro?”

Dããã.

  

Hélcio Magalhães traz dois painéis fotográficos. Em um, uma colagem de arte de rua. No outro, de pessoas e ruas reais de São Paulo. Sempre lembrando: o grafitti do primeiro é a representação, a pintura, da vida urbana que está fotografada no segundo. Em ambos, as imagens vem cortadas em tiras e estão montadas de forma não sequencial. Elas foram obtidas durante um tempo longo, de 2003 a 2009. A montagem em tiras retira o sentido de documentação histórica que, no entanto, é reforçada pela legenda. É como dizer: as imagens estiveram disponíveis aí na rua por um tempo muito longo, mas isso não aconteceu no passado. Ainda é assim nesse momento.

Porque a questão, nesses dois painéis postos lado a lado, é a seguinte. O grafitti – que é, repetindo, ficcional, representação, pintura – parece muito mais familiar que as fotos das  pessoas e ruas. Os grafitti você conseguiu ver, e reconhecer. As caras e as ruas, não. É brabo. Isso quer dizer que você prefere estar no mundo mitigando seu contato com o diferente através do discurso romântico e individualizado da imaginação. Uma vergonha, de fato.

 

O terceiro artista, Waldo Bravo, é ainda mais contundente. Ele trouxe dois conjuntos para a mostra. Em um, imagens deformadas digitalmente ao ponto da não-compreensão se tornam perfeitamente percebidas quando vistas através de um pequeno espelho colocado embaixo ou em cima dos painéis. Um olhar pan-óptico que só se torna possível através da mediação de uma telinha espelhada.

O outro conjunto, Recortes urbanos, é composto de painéis fotográficos e um vídeo. Levei muito tempo para entender a relação entre uns e outro e não sei se estou certa. Me parece que foram feitos em momentos diferentes, embora sejam uma documentação das mesmas intervenções urbanas. A ideia das intervenções é muito simples, e talvez por isso mesmo, muito eficaz. Em ruas movimentadas de São Paulo, o artista primeiro fotografou ou filmou o que, depois, ficaria por trás de outdoors publicitários. Aí, ele colocou os outdoors. E, dentro dos outdoors, pôs as fotos em tamanho real daquilo que foi ocultado pelos outdoors. Assim, do outro lado da calçada, um passante veria a continuação da fachada, as folhas da árvore, o pedaço de céu que, na verdade, não estava podendo ver, pois obliterados pelo outdoor. O resultado é a constatação de que, para que você consiga ver fachadas, árvores ou céu, o melhor a fazer é colocá-los emoldurados por algum tipo de retângulo – tela, espelho ou suporte de outdoor. Na testa.

22/01/2010

Cedar Lewisohn

Um curador de arte de rua. I should live so long.

Cedar Lewisohn fez a palestra no auditório do MASP, acho que sob patrocínio. Havia uma geladeirinha de Red Bull colada à mesa, tornando muito difícil documentar o evento excluindo a marca comercial.

Antes de iniciar a palestra, Lewisohn mostrou um documentário da exposição que ele montou na Tate Gallery há dois anos. E um mapinha da Tate e seus arredores, com os locais – dentro e fora do museu – que haviam sido pintados especialmente para o evento pelos artistas escolhidos por ele.

O documentário mostrava também os preparativos das pinturas: gruas levantando as equipes dos artistas e seus materiais artísticos até o alto dos muros a serem pintados; a colocação dos suportes de metal, a montagem com stencils. À parte, ele comentou sobre o protesto de alguns visitantes com a figura enorme de um negro empunhando uma teleobjetiva como se fosse um fusil. Foi considerada uma arte muito agressiva.

Mas é preciso ser um pouco agressivo às vezes, acrescentou.

E que é importante ter uma visão política das coisas.

Mas Lewisohn não chamou Banksy – o mais famoso e o mais agressivo dos artistas de rua da Inglaterra. Disse que Banksy é muito conhecido em Londres, e que ele buscou apresentar a diversidade.

Diversidade mas não muito.

Lewisohn mostrou o que ele considera um diálogo entre a arte de rua e a arte canônica ocidentale. Ele acha importante que as pessoas notem que a arte de rua não é graffiti “mindless”. O diálogo que é mostrado se dá no nível formal, não conceitual. Sixeart, o artista de rua de Barcelona é similar a Miró. Por causa das cores. Dubuffet e Basquiat também podem ser comparados. Por causa das figuras humanas atulhadas, uma em cima da outra. Lewisohn cita o que ele considera ser um gênero de fotografia, o “poverty photos”. E mostra como algumas obras de rua são iguaizinhas.

Na exposição da Tate estavam presentes os brasileiros Os Gêmos e Nunca. Lewisohn comenta que ter chamado o Nunca foi necessário porque a mensagem dele é mais direta, mais facilmente compreendida do que a dos Gêmeos.

Seguem-se de Kooning, Haring, Christo e as Guerrilla Girls. Somos lembrados da origem cubista da colagem, há uma rápida passagem realismo francês do início do século XX com sua pintura de superfície. E mais uma comparação, agora entre um orientalismo decorativo presente no modernismo e arabescos de rua.

Lewisohn suspira por uns valerem muito mais do que outros e isso o leva para o assunto publicidade.

Ele acha que a publicidade tem seu lado positivo, apesar da opinião de alguns esquerdistas.

“They may be right, but we shall see it from another point of view, there is some positive aspects in advertising.”

E ele considera muito importante que a arte de rua vá para os museus e para as galerias.

Essa sua opinião, aliás, foi o que lhe valeu a palestra no MASP, que expõe arte de rua na mostra De dentro para fora, de fora para dentro.

O primeiro motivo para a arte de rua ir para museus e galerias é que nesses lugares, as pessoas podem prestar mais atenção nela. Não diz quais pessoas.

O segundo motivo é que arte de rua é muito melhor que arte pública (a arte comprada pelo poder público para enfeitar as cidades). A arte pública depende de uma burocracia, de comitês julgadores. É uma arte de consenso. A arte de rua será sempre uma arte mais viva porque não precisa de burocracia. Depois de ser admirada pelas “pessoas”, a arte de rua então pode voltar para as ruas e ocupar de fato o lugar que é dela. Mais um motivo: a arte de rua atrai público jovem para os museus. Não só jovens. Mulheres e outras minorias também.

Mas a ida para o museu, contudo, pode causar alguns problemas para a arte de rua. Por exemplo: a superfície dos muros é mais irregular que uma tela ou a parede lisinha das galerias e museus. E os artistas, acostumados a pôr uma base grossa nos seus trabalhos de rua, precisam adaptar a técnica. Outro problema: às vezes o ambiente em torno, com uma calçada quebrada ou um mato crescendo por perto, pode fazer falta.

Ele acha que o contexto local às vezes pode ser importante.

21/01/2010

Detanico e Lain

A Vermelho costuma expor esse jogo. A palavra ressignificada como imagem. Bem o contrário do que vi – e sobre o que escrevi – no meu artigo anterior.

Dessa vez são obras da dupla Detanico-Lain, e que se somam às de Gabriela Albergaria, Ana Maria Tavares e a uma beirada de acervo, por exemplo, de Marilá Dardot. Se falam, todas elas. Fazem um conjunto. Ou melhor, apresentam um determinado tipo de pensamento.

Me apoiando na semiótica:

Tem um sujeito e seu objeto de busca. As tensões daí decorrentes formam o que se está a analisar. Os signos, portanto, não tem valor fixo. Vão depender de onde estão em relação a essas tensões.

Então vamos.

Sujeitos e objetos são igualmente actantes. Actantes quer dizer atores. Mas atores no gerúndio, atores em movimento. Quando esses sujeitos, esses ‘eus’, não são totalmente donos de sua ação, a análise precisa se desdobrar entre o sujeito-destinador (aquele que faz algo dirigido a um destinatário) e o sujeito-julgador (aquele que se coloca à parte do destinador e julga sua competência). Até aí tudo bem, é o que acontece sempre, quando é um corpo artístico o que está sendo analisado. Há o destinador-artista e há o julgador-público. Normal. Mas quando o que está sendo analisado tem, além disso, um processo de ressignificação do objeto de busca, a duplicação também se dá do lado desse actante, o actante-objeto. Aí, teremos o destinador-artista, o destinador-julgador, e mais: o destinatário (o que está sendo representado) e mais um segundo destinatário, o destinatário-secundário (que está representando o representado). Nas exposições atualmente em cartaz na Vermelho, o primeiro destinatário é, no caso das obras de Detanico-Lain, o universo. Sim, sim, ele mesmo, astros, estrelas. O universo de Detanico-Lain é sempre representado por palavras. O destinatário-secundário é a imagem que essa escrita forma, ao ser retomada para além dela, ao ser retomada como uma meta-representação do universo, uma meta-representação que contém e excede a primeira representação.

Por exemplo.

Na fachada da galeria está Eclipse, um grafismo de sol e lua. Então tem o sol e a lua, tem a representação gráfica do sol e da lua (uma bola e “raios” – mais fortes e mais fracos para um ou para outra) e tem a colocação desse grafismo em um local imagético, ou seja, na parte de cima da fachada, como é adequado a astros celestes. O destinatário, sua representação “literária”, e sua ressignificação imagética.

Analema é uma frase de 365 letras. Mas a frase é disposta na forma do movimento da terra ao redor do sol.

Univers, a palavra univers escrita com a fonte de mesmo nome.

Estrelas do sul são letras. São feitas de luz e pulsam, sim, como estrelas.

Por aí vai.

A mesma coisa com Ana Maria Tavares. A artista, também com imagens gráficas, retira a profundidade, o “realismo” de suas representações de paisagens. Depois arruma essas representações de modo a recuperar uma espécie de 3D realista, uma falsa profundidade, formada pelo vazio dos cubos de vidro que dão suporte a duas imagens ao mesmo tempo, uma na frente, outra atrás.

E Gabriela Albergaria pega a própria coisa real, no caso um galho, e lhe dá continuação através de um desenho. Então, ela primeiro representa a natureza ao separar um de seus sintagmas, o galho real, deslocá-lo e condensá-lo. E depois pega o galho, assim abstraído, e o “revive” ao apresentá-lo ao lado de um desenho feito a lápis, com o papel também actante – um rolo, enorme.

O problema é que a multiplicidade de disjunções entre os actantes todos eles duplicados, e nos quais o público se inclui, nos deixa a todos em uma tensão de privação, de disforia. O programa narrativo se interrompe na espera excessiva de uma distensão.

Não que não saibam.

Na frase de Analema pesquei: “… passo ou espaço um dia passa…”, e: “… trezentos e sessenta e cinco por extenso, o tempo sem direção…”

Marilá Dardot escreve frases que ela emoldura. As frases são em francês, inglês, espanhol, alemão. Menos em português. Marilá é mineira. Um pedaço de frase: “…c’était devant la profondeur passionnée de l’oubli qu’il fallait parler sans cesse, sans arrêt…”

Também acho.

Gary Hill

Há uma contradição nas videoinstalações de Gary Hill. Ou, para usar seu próprio vocabulário, há uma parede logo ali.

Vídeos são imagens, certo? Errado. Pelo menos no caso dele e de mais gente que começa a questionar os limites significativos das imagens – como, por exemplo, o curador da exposição, que foi quem o escolheu (é Marcello Dantas, do MIS-SP). Pois é. Algo muda. E muda de dentro.

Então vamos começar pelo texto – o único presente, o do artista, o que ele escreveu sei lá se para acompanhar a exposição ou se para acompanhar ele mesmo, no mundo. E que versa sobre o tempo, esse suprimido. Ou ex-suprimido.
Hill fala, nesse texto, de coisas que voltam, iguais mas diferentes. Uma protomemória de caminho, sendo formada no momento mesmo em que o caminho está sendo percorrido. Algo que o artista conhece desde sempre, e que volta de novo e de novo, “sempre ali”. E ele exprime o desconforto perante uma cobrança implícita, a da responsabilidade (o que supõe autoria, agenciamento, constituição e entendimento do eu como sujeito). Há, nesse texto, a constatação – e se trata da constatação de um videomaker, de um produtor de imagens – de que há algo de novo a pedir sequências, conexões. A pedir palavras, que são, ele aponta, o que junta-separa as coisas. E coisas, aqui, são as explosões de luz (“se enfurno, explode”). As tais coisas que são juntadas-separadas pelas palavras são as imagens que fazem sua vida de artista. E são as palavras, diz ele, que as tornam – essas imagens – inteligíveis. São suas as frases: “não sou responsável por isso”; “são palavras apenas que separam as coisas”; “quer que eu aja com conhecimento, quer reconhecimento, quer que eu esteja totalmente alerta”. Esse algo que quer que o artista fique alerta é o eixo diacrônico, a impor sua latência nos eventos de luz que se sucedem e que, sem ele, seriam mesmo só isso, experiências fenomenológicas não apreensíveis, não assimiláveis ou incorporáveis.

Hill fala, nas cinco videoinstalações selecionadas, da volta do texto sobre a imagem.

As imagens de Hill são as seguintes.

Em Up against down, partes do corpo do artista se chocam e se chocam outra vez contra algo que não se vê, uma parede de vidro, um limite que não se sabia estar ali.

Wall piece é igual mas vestido. Mais choque contra a parede, dessa vez de terno. Mas aqui com uma explicitação que a primeira não tinha. Você só vê o choque, pois a imagem só se ilumina quando o artista se joga contra a parede. E a cada choque, ele interrompe uma frase que estava sendo dita. Ou seja, ou você vê a imagem ou escuta a frase. A imagem é forte. Você não escuta a frase.

Na sala maior do MIS-SP há outra variante da mesma experiência. A sala fica no escuro. De vez em quando, há uma explosão de luz branca. A luz, projetada nas paredes, vai sumindo lentamente em formas geométricas, como se fossem portas ou corredores momentaneamente iluminados a compor um cenário que, infelizmente, não se mantém. Digo infelizmente porque o tempo rápido da explosão de luz é “lamentado” pelo tempo mais lento de sua desaparição. Uma quase-narrativa, que me prendeu, eu lá, de pé, esperando ansiosa pela próxima explosão de luz, para poder saber a continuação daquela “história”. Um desejo de teatro, de continuidade. O nome também influi para você ficar lá, parado, esperando um godô que, portanto, a se acreditar no artista, sim, vem – ou virá. O nome é Unconditional surrender. Vá, e deixe-se ficar.

Viewers é a mais óbvia e, por isso mesmo, a mais conhecida. Imagens estáticas de pessoas em tamanho natural sobre fundo escuro em ambiente escuro. Essas pessoas te olham. É você a virtualidade, a existência efêmera, é você que, ao ser só uma imagem, não parece fazer o menor sentido – ou pelo menos, a cara obtusa dos que te olham fazem você pensar isso.

A última é a Wall piece. Bonitinha para nós que catamos palavras como quem escolhe feijão. São duas mãos tateando um pano de florzinhas, escolhendo às cegas, na pura afinidade sensorial. Qual florzinha eleger, com qual delas um contato trará a troca e, com a troca, o prazer de se saber dedo.

01/01/2010

Lot Amorós

Mais um espetáculo multimídia. E fiquei com um desejo entalado. Que aparecesse, em meio à arte tecnológica (definição: tecnologia usada em experiências estéticas), alguém bem gay. Camp. Lembra o camp?

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO espetáculo – nos últimos dias de dezembro/09, MIS-SP – era o resultado de um intercâmbio de estudantes entre o laboratório do Museu de Imagem e do Som e o centro de artes visuais Hangar, de Barcelona. O artista era o espanhol Lot Amorós (com participação da bailarina brasileira Leila D.). E o título era Eva.

Nos primórdios da Criação do Universo, uma Eva em carne e osso (Leila D.) olha espantada à sua volta. Trata-se de uma nova Criação de um novo Universo. Leila D., por exemplo, em vez de folha de parreira, usa uma roupitcha prateada, tipo astronauta de história em quadrinho. Ela corre de cá para lá, sempre muito espantada, e na tela atrás dela aparecem diagramas computadorizados de sua velocidade corporal. Representações em wireframe de seu corpo. Reduções geométricas de suas formas em quadrados perfeitos (aquele que é composto por números eles também quadrados). Em 3D. Espirais de Arquimedes. Também em 3D. A representação gráfica do teorema de Poincaré (uma rosquinha). A curva de Fibonacci (a do caramujo).

E mais: explosões de raios de luz concêntricos e em prisma.

Música de começo-de-mundo. Não sou culta o suficiente. Pode ter sido Mozart. Ou a trilha sonora do Planeta dos Macacos. Não sei.

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásAntes me explicam, ligeiramente constrangidos, fazendo hora para que a coisa afinal funcione e o espetáculo se inicie, que se trata de uma câmera de raios infra-vermelhos que capta a imagem em resolução de 600 frames por segundo e que depois passa para outra câmera que. Acho que eu deveria ter ficado impressionada. Não fiquei.

Sabe o que me impressionaria? O camp.

Alguém que usasse isso mesmo, produzindo os mesmos impressionantes feixes de luz, com a mesma trilha sonora, tudo igual. Mas caçoando. O que falta nessa arte é a crítica radical, arrasadora, de um movimento que, tendo a virulência que só os outcasts têm, a virulência de uma cicuta social, não apresentasse o bom-mocismo, o politicamente-correto, a postura de eu-é-que-estou-certo de quem sabe que está fazendo algo importante. Porque, não me entenda mal. Acho a arte tecnológica importante. Quero dizer, na teoria. A inclusão de novos instrumentos para fazer a mesma coisa de sempre: arte. É claro que é importante. Mas talvez aí esteja o problema – no que se entende por arte. Esses engenheiros de computação dublês de artistas ninguém-mais-avançado-do-que-eu acham que arte é fazer bonito, é fazer perfeito. Deve ter a ver com algum tipo de deformação na formação. A deles. A de engenheiros de computação. Ou com uma sexualidade de questionamentos facilmente resolvíveis, uma sexualidade de adões e evas.

Talvez ainda cheguem lá. Kitsch eles já são. Depois da demo de feixes de luz, me brindaram com fotos de mitos anteriores à Eva atualizada do palco. Sim, Martin Luther King. Sim, o cogumelo atômico. Ahn, My Lai. E até mesmo a Marilyn Monroe.

(Para os igualmente incultos, mas de menor idade, My Lay foi aquele massacre com napalm no Vietnam. Você já viu, sim, é a menina correndo nua pela estrada, o corpo queimado.)

E a própria Eva, claro.

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO espetáculo acaba com ela, já menos espantada, se levantando e depois caindo frente a um sol de plasma, naquele laranja que só aditivo químico consegue dar. Lindo. É. Pois é. Susan Sontag disse, sobre a assunto, que kitsch todos nós somos. Mas camp, só tendo um auto-conhecimento ultra-moderno, sem ilusões. Assumo meu lado kitsch. O tal do sol era lindo. E eu ainda punha um Roberto Carlos da boa fase para completar. Mas, hélàs, gosto mesmo é do camp.

17/12/2009

Performações Urbanas/Pra Sempre…

As galerias de arte têm a impressionante capacidade de mitificar tudo aquilo que é levado para dentro delas. De transformar, inclusive, o que há de mais cotidiano em peça sublime. Melhor dizendo, os artistas (e suas galerias) têm a mágica capacidade de transformar aquilo que sempre esteve ali – no dia-a-dia, no caminho para o trabalho, na volta para casa – em peça de exibição, deleite e espetáculo. Por isso mesmo, um viva aos artistas, que conseguem, digamos assim, tornar a vida um pouco mais vívida.

Carla Evanovitch @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia da artista)Nem ironia, nem densa cerebração. Esse início de texto é apenas uma impressão, captada durante a abertura das exposições Performações Urbanas, de Carla Evanovitch, e Pra sempre…, de Daniel Cruz. Abertas em 15 de dezembro de 2009, ficam até 29 de janeiro de 2010 no Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará.

Propondo uma poética urbana, as exposições de assemelham, e até se completam, justamente por fazer um recorte no cotidiano da metrópole, provocando reflexões sobre tempo, espaço, transitoriedade e fugacidade. Ambas se voltam para essa vida em trânsito.

No trabalho de Carla há uma tentativa de enxergar performance no comportamento de personagens clássicos da vida urbana: aqueles homens e mulheres que entram nos coletivos para vender balas; pedir ajuda para um ente doente; mudar de vida agora que saíram da cadeia; etc. e etc.

A artista realmente foi bem sucedida em seu intento. A pesquisa para esse trabalho, que durou cerca de um ano, exigiu que ela viajasse em muitos ônibus, recolhesse muitos papéis dentro dos coletivos, registrasse narrativas dos personagens e, inclusive, fosse a casa de um deles. E para quê? No final, Carla decidiu ela mesma promover a sua performance: chamou um amigo ator que durante dois dias distribuiu papéis nos coletivos pedindo ajuda para sua fictícia irmã, que precisava de dinheiro para montar uma exposição. Ações filmadas e devidamente mostradas na exposição das Onze Janelas, que ainda permite ouvir e ler relatos dos personagens da vida real.

E por que bem sucedida? A artista realmente mostra o caráter performático na ação desses personagens urbanos: suas ações acabam misturam verdade e dramaturgia. As histórias bebem da verdade, mas acabam crescendo, proliferando, mexendo com a fé, a esperança, a sensibilidade e, mesmo, a indiferença de seu público, os passageiros dos coletivos. Um público efêmero e mutante. E a cada mudança, a história muda, o contexto muda, a narrativa aumenta, os sentimentos são outros. Mostrando a transitoriedade desse espetáculo.

Se Carla optou pelas pessoas, Daniel preferiu o patrimônio, a passagem do tempo impressa no corpo da cidade. Usando uma câmera fotográfica digital comum, o artista registrou prédios que fazem parte do seu trajeto cotidiano. A idéia era mostrar o mesmo prédio em tempos diferentes, mas não num espaço temporal muito longo – na verdade, seu trabalho foi desenvolvido durante o ano de 2009 –, justamente para reforçar essa transitoriedade veloz da paisagem urbana.

Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista) Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista) Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista) Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista) Daniel Cruz @ Museu Casa das Onze Janelas, no Centro Histórico de Belém, Pará (fotografia cortesia do artista)

O interessante é que, vendo as fotografias, às vezes se cai na dúvida sobre qual foto veio antes e qual veio depois. Às vezes, pensa-se que não é o mesmo lugar. E assim, o artista brinca com o nosso senso de memória, historicidade e lembrança. Não há um tempo certo, um passado e um presente. Esse fluxo temporal é deixado de lado em primazia do tempo fotográfico.

Na maioria das vezes, Daniel opta por registrar prédios deteriorados. Alguns foram restaurados, outros desapareceram, causando uma sensação de efemeridade do estado das coisas. Uma sensação plenamente contemporânea.

Enfim, nas duas exposições, a cidade foi trazida para dentro da galeria. Espaço mágico, mas que, como é natural na arte contemporânea, se permite abrigar as particularidades do mundo prosaico, do cotidiano. Uma arte dessacralizada, mas não menos interessante.

11/12/2009

Tunga

Gosto do Tunga. Acho que não lembro de outro artista que consiga falar, com tanta precisão, clareza e poesia, da mutação que nos define e à nossa época. Gosto dos seus corpos em que não há hierarquia de gêneros. E do sonho de integração, de abrangência, em que tudo cabe – e que me faz sair de suas exposições me sentindo melhor do que quando entrei.

Essa é na Galeria Millan e se chama Quase auroras. Porque tem mais uma coisa que eu gosto nele. É que não é quase crepúsculo, nunca – como em tantos de seus colegas europeus e norte-americanos, mais próximos que estão do fim do mundo (do seu mundo). Com Tunga, é sempre quase aurora. Tem sempre alguma coisa nascendo.

O método está explicitado logo na entrada. Na sua mesa de trabalho, uma garrafa de cristal antigo que ele hesita em jogar fora. Vai juntando uma malhazinha de metal, uma pedrinha. Um dia, faz xixi lá dentro. O cristal refrata a luz. Um coisa meio amarela, muito tênue. Ele passa a ver cenas a partir dessa luz. E as executa.

Quase auroras, de Tunga   Quase auroras, de Tunga    Quase auroras, de Tunga  

Essa garrafa de cristal antigo, no entanto, apesar de seu nome quase grego de phanocópio, é apresentada com um clima burguês decadente, um clima assim meio Farnese de Andrade. São caixas de uma madeirinha pintada de bege, um alcochoado de estojo de jóia de família, uns espelhos meio velhos. É desse fim de linha que nascem os desenhos. Phanocópio, se pegamos a raiz da palavra fenômeno (phanomen) e somamos a ideia de repetição, de múltiplo, desmitificamos o título. Um fenômeno que se repete.

Tunga achou primeiro que se tratava de um phanocópio de projeção. Depois viu que era um phanocópio de deposição. A diferença é a seguinte. A projeção não dura. Então é isso. Trata-se de uma aurora e ela não é um efeito ótico, ela é concreta e está lá guardada para ser vislumbrada, reencenada, muitas vezes.

No papel de fibra grossa, absorvente e texturizado, as imagens aparecem aos poucos. Em algumas das obras você sabe que aquilo lá é um corpo ou uma árvore porque você vai ver outra, parecida, em que aquela forma que mal se vê é a de um corpo ou uma árvore. Não há distinção, árvores e corpos formam um mesmo fluxo. E nada está parado. Um nasce do que sai do outro: fezes, urina, luz, fogo, fruto, sangue, seiva, ar, água. Igual ao Laminadas Almas (exposição dele no Jardim Botânico do Rio em 2006) em que moscas viram os sapos que as comem. E o fruidor vira ator de algo que pode-se chamar de performance – já que você está lá, em um ambiente de arte – mas que também é só a vida mesmo.

Estou devendo à editoria do site uma retrospectiva do ano que se acaba. Acho que acabo de fazer. Ou melhor, o Tunga fez. Um período que começou com ares de apocalipse e termina com todo mundo fazendo planos.

Mais nós. Pois sobre a Bienal de Veneza, o Times londrino disse, em 09/06/09:

“The biennale seems to have brought death to Venice this summer. There’s a corpse floating face down in a swimming pool in the Giardini. Outside the Arsenale a dead postman sprawls. A pile of putrifying body parts lie heaped outside the Italian pavilion and an upper room of the old customs house has been converted into a morgue. So don’t be surprised if you find that a pall has been cast over proceedings. This year’s biennale feels decidedly subdued.”

Vai ver porque, em nossa categorização geral das coisas, moscas e urina, bem, existem, né?

30/11/2009

Café Espacial

Recebi a revista Café Espacial números 4 e 5 junto com o informativo Quarto Mundo número 3. As duas publicações formam uma combinação interessante, quase um diálogo proposital.

A Café Espacial é uma publicação de quadrinhos, arte, ilustração, literatura, fotografia e, acredito, qualquer coisa desde que ousada e interessante o suficiente.

O conto Contramão do Sergio Chaves, por exemplo, nos mostra que apesar dos blockbusters atuais, o fim do mundo pode sim ser um tema interessante. A revista ainda tem uma seção com resenhas musicais que, de uma vez só, conseguiu fomentar a minha curiosidade para conhecer umas 10 bandas das quais nunca tinha ouvido falar (culpa minha, sem dúvida).

Dos quadrinhos, o que mais gostei foi o F for Knife, de Biu e Shiko. “Entre sua janela e a do quinto andar ocorreu-lhe que Hulks são de Marte e Smurfs são de Vênus” é daquelas frases para virar tagline ou, um sendo pouco mais atual, um twitt. HQs, aliás, são o grande forte da revista. Propostas inteligentes e traços fantásticos.

Para não dizer que não falei de espinhos, achei as resenhas de cinema jornalísticas demais, muito didáticas. Acabam conflitando com o resto da revista. Não que tenha algo de errado em ser didático, apenas não me pareceu fazer parte da linguagem da publicação.

O informativo Quarto Mundo, também muito voltado para HQs, tem no número 3 uma que mistura fotografia com traço. É uma proposta interessante e um exercício importante de linguagem mas confesso que me causou a mesma estranheza que senti quando vi Waking Life, uma animação que usa a técnica de rotoscopia, ou seja, desenhada em cima de uma referência filmada.

A Café Espacial número 5 traz o ensaio O olhar cansado, de Luc de Sampaio, sobre o qual comento no podcast em que entrevistei o fotógrafo, de quem sou grande fã.

28/11/2009

Kafka

O espetáculo Kafka, da Cia. Borelli de Dança, foi um dos eventos que a Livraria Cultura ofereceu em sua Virada/2009.

KafkaNão pensei nisso antes. Mas nada como Kafka. Digo, em todas as artes passamos pela mesma indagação sobre o próprio processo de fazer arte. A pintura discutiu a superfície da tela, a tinta e o gesto. A literatura apresenta metalinguagens até hoje.O fazer artístico voltada para ele mesmo, suas questões e processos, em uma época de perda de referências, de estabilidades, foi um fenômeno meio que universal e atingiu todas as linguagens. A situação kafkiana de descobrir-se na forma de uma barata, nesse contexto, não podia ser melhor. A necessária indagação sobre o próprio corpo é, de fato, ideal para uma dança voltada, não para uma narrativa, mas para as próprias possibilidades do corpo como meio de expressão.

O espetáculo abre com quatro bailarinos que se espelham uns nos outros em seus movimentos, formando um corpo único. Eles se analisam. Já começa muito bom, no espanto perante braços e pernas que lhes (nos) parecem novos.

Às vezes tal corpo único é 3/4 barata e 1/4 resistência. Outras vezes tenta conter, todo ele, a baratice galopante. São tentativas de um andar ereto, tentativas de dignidade. Mas sempre algo – um pé que se torce incontrolável, uma perna a tremer ou os dedos da mão, nervosos – vence e retoma os movimentos frenéticos de antenas e patas. Em outras vezes a barata quatrinca explora seus novos limites – os físicos, de seu novo corpo, e os geográficos, do palco fechado.

O coreógrafo Sandro Borelli traz, nessa obra, uma tonalidade nova e interessante para o drama kafkiano da perda da liberdade. Uma interpretação sexual. É um dos momentos, aliás, de que mais gostei. Os bailarinos, exaustos da luta contra a baratice, estão inermes no palco. Mas, pouco a pouco, vêem o movimento baratal renascer de suas mãos, postas em concha sobre o sexo. Um por um, dedos começam a se agitar qual patinhas, qual antenas. Uma hipótese que assim é lançada: aprisionado por limites sociais, econômicos e geográficos, o corpo busca a si mesmo. Uma condição de fechamento, de não alteridade, que inclui o sexo. A claustrofobia, a não-saída do corpo para além de si mesmo é o auto-erotismo. Que é, necessariamente, um homoerotismo. Nesse momento, os bailarinos se dividem, os dois homens ficam, as duas mulheres somem. Depois, isso vai se inverter. Ficam as duas mulheres, somem os dois homens. E entra uma sutileza também bonita. Os dois homens tem, a acompanhá-los, sons animais. As duas mulheres, uma espécie de canto/lamento. Na sequência, fica no palco uma das mulheres e voltam os dois homens. Eles tentam interagir com ela. São ações brutas, mas não intencionalmente brutas. Uma brutalidade de quem não se sabe bruto – ou não acha isso relevante. A brutalidade inclui tentativas canhestras de uma sexualidade desinformada. Mas não resulta. No final, a bailarina, “morta”, tem seu corpo analisado e cutucado pelos dois homens. Eles tentam deixá-la em várias posições, nenhuma satisfatória. Eles se entreolham a cada uma dessas tentativas. São eles os cúmplices, ela a estranha. Eles se unem sobre ela, cai uma saliva/esperma sobre seu rosto. É uma saliva/esperma comunal dos dois.

E depois ela é abandonada, inútil.

Há alguns pouquíssimos momentos de quase-humor no espetáculo. Sempre que vejo uma obra que parta de Kafka sinto falta de humor. Aqui, pelo menos, o humor não está ausente, em que pese a roupa preta e séria dos bailarinos, o palco minimalista, também preto. E a ausência quase total de sons ou música. Kafka, você deve saber disso, achava que estava escrevendo textos de humor. É raro alguém sacar sua enorme ironia. O personagem Gregor, depois de carregar a família inteira nas costas, trabalhando para sustentá-la, acaba virando uma barata. Mas as coisas vão se arranjando mesmo assim. A irmã leva comida. O resto das pessoas o ignora como sempre fez. O pai acaba conseguindo um novo trabalho. A vida segue. Ele continua lá. Ter se tornado, fisicamente, a barata que sempre foi não faz lá muita diferença.