Do padecer da crítica
Este artigo, inicialmente, trataria de um assunto que considero muito mais nobre em sua essência, já que seria uma reflexão sobre o papel da crítica de arte na era da comunicação global. Infelizmente, ao pesquisar sobre o assunto percebi que o problema se dava muito antes de se ter algo para criticar e ia muito além do que a própria crítica em si. Ao que parece, sustentar uma opinião tornou-se um motivo para que qualquer pessoa seja merecedora de um linchamento moral – e às vezes até físico – só por ter um ponto de vista divergente de alguém.
É óbvio que não se trata de generalizar indiscriminadamente a situação, e que ainda é muito edificante poder debater uma idéia, inclusive com pessoas de opiniões contrárias às nossas. Porém, com a democratização dos meios de comunicação, isso ficou muito mais difícil, sendo necessário analisar bem onde e com quem abrir a boca. Opinar nunca foi tão fácil: twitter, blogs, redes sociais e até o quase finado e-mail são ferramentas que não requerem esforço e ainda agregam a vantagem do anonimato, que é um prato cheio para quem tem preguiça de assumir o que diz. Se por um lado a internet democratizou a opinião pública, por outro deu voz a um sem número de pessoas às quais a maior dádiva seria o silêncio.
A opinião é, a meu ver, uma das características que nos distinguem de símios que reviram, com um fêmur em mãos, uma carcaça de bisão. É importante ressaltar, porém, que ter opinião não significa, necessariamente, que ela esteja certa, ou, ainda, que devemos levá-la a sério. Sobre isso, o filósofo Olavo de Carvalho comentou certa vez em seu True Outspeak que “o direito de se ter opinião é proporcional ao interesse sincero que você tem sobre o assunto. Se você não tem interesse sobre o assunto ou sequer lê alguma coisa, por que devemos ter o interesse de ouvir a sua opinião?”. Para complementar o raciocínio, ele propõe a criação de um supositório de opinião, que a meu ver seria a solução ideal para determinadas pessoas que ainda insistem em transferir o motivo de um debate do assunto para o sujeito.
Quem quer ser levado a sério deve ser tratado seriamente, por isso é infundada a reação que alguns críticos têm de se sentirem ofendidos ao menor sinal de questionamento, como se isso fosse sinal da mais vil censura ou, no mínimo, exemplo de pura presunção – palavra que muitas vezes só é uma forma pomposa de julgar alguém que ousa saber mais do que outra pessoa. Nesse ínterim, o questionamento da idéia passa a ser tratado como questionamento do caráter. Para alguns, a crítica virou um mero exercício do jus esperniandi.
Vale ressaltar que crítico é qualquer pessoa que exerce o poder de crítica, palavra essa que, derivada do grego krinein, significa separar, julgar. A todo momento emitimos julgamentos acerca de alguma coisa, por mais trivial que ela seja: uma refeição ruim, uma embalagem não muito prática, um filme modorrento. Não é preciso ser um gourmet, um designer ou um cineasta para formar a nossa opinião, e é por isso que, neste aspecto, este artigo não diferencia profissionais ou amadores. A (in)capacidade de se fazer uma crítica séria e embasada é abrangente àqueles que têm algo relevante a ser dito, independente de projeção profissional.
A grande arma do falso crítico é, como denominou Schopenhauer, a dialética erística, que se concentra em desqualificar o adversário para vencer um debate sem precisar ter razão ou sequer discutir o assunto proposto. É o que vemos por aí quando se fala mais da pessoa do que da idéia, produzindo respostas baseadas unicamente em pressupostos sobre o caráter, a escolaridade, o nível cultural e, acredite, até a opção sexual da pessoa.
O fato é que a culpa não é unilateral. Por um lado estão muitos críticos ditos especializados, sentados em suas torres de marfim, ditando o que é in e o que é out, rebaixando artista e público a escravos de suas pretensões. Por outro, determinado nível de público que se utiliza apenas da própria “embocardia” mental para exercer seu direito de opinião, declarando guerra a quem ouse pensar diferente. Nesse badminton de vaidade, só quem perde é o público para o qual uma crítica é – oh! – apenas uma crítica. Dialogar, às vezes, deixa de ser um exercício filosófico para ser um exercício de autocontrole.
Como no dito popular, grandes mentes discutem idéias, mentes pequenas discutem pessoas. Nesse contexto, acho interessante salientar um trecho de uma crônica de autoria de César Boschetti, na qual ele diz que “a crítica, se arrebatada e irrefletida, é simples bravata. Se maledicente e sem propósito, é mera calúnia. Se arrogante, apenas humilha e destrói. Se hipócrita, só confunde. Se fria e racional, torna-se tediosa. A crítica deve ser oportuna sem ser oportunista. Deve provocar, mas não ofender. Deve questionar ao invés de julgar. Deve ser inteligente, sem ser sábia. A crítica deve ter paixão para ser humana e indignar-se para ser autêntica. A crítica deve ser criança sem ser infantil e madura sem ser caduca.”
Fica cada vez mais difícil se posicionar ideologicamente sabendo que existe tanta intemperança, que acaba ocorrendo o que eu chamo de “hipolexia de rebote”, ou seja, o trabalho de manter uma discussão em um nível aceitável, sem cair em armadilhas manjadas, é tão grande, que às vezes é muito melhor ficar quieto para evitar uma úlcera. Até porque nunca devemos discutir com um incapaz, porque ele tende a levar tudo ao próprio nível para vencer por experiência. A esses, melhor seria se a invenção do professor Olavo fosse verdade.
Análise de uma obra de arte: Os esposos Arnolfini
Artigo originalmente escrito como
trabalho de conclusão do módulo 2
do curso de História da Arte do MASP,
ministrado pelo professor Prof. Renato Brolezzi
PRÓLOGO
Quem pinta com óleo conhece bem o tempo de secagem deste material. Reza a lenda que, dependendo da pincelada, ainda se encontrará tinta fresca séculos depois da camada exterior secar. Quanto mais denso for o suporte, mais tempo leva para a tinta solidificar: telas e papéis são suportes que possibilitam uma secagem mais rápida do que madeira ou pedra, por exemplo. (more…)
Segundas intenções – onde está a experiência estética?
Tente se imaginar na seguinte situação: em uma galeria, são apresentados, lado a lado, dois quadros que têm como características principais um traço inocente e formas simples, desapegadas à realidade. A figura humana é modelada apenas com um círculo e um punhado de retas, e as cores, as mais básicas possíveis. A composição não é muito bem arranjada, sem nenhuma noção de perspectiva, e o motivo, o mais simplório possível: uma família num dia de sol, com direito a arco-íris e tudo mais. (more…)
Crítica para quê?
“Um belo dia ele acordou com as calças na mão, correu até a janela e gritou bem alto para os vizinhos: crítica para quê? Com um sorriso no rosto e já completamente nu, esperou em vão pela resposta. Seu corpo nunca pareceu tão magro no reflexo da vidraça. A pilha de contas para pagar também não ajudava a auto-estima, isso sem falar da réplica da tréplica da tétrica crítica que tinha escrito sobre a peça na semana anterior. Sem encontrar sentido para o trabalho de toda uma vida, tacou-se de braços abertos no meio da rua, levando consigo uma transeunte. Os jornais não deixaram passar a feliz coincidência de o crítico ter caído justo em cima da diretora que deflagrara seu surto depressivo. Pelo menos os dois estavam juntos em uma matéria de capa, pela primeira vez”.
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Análise de uma obra de arte: Athena Parthenos
Artigo originalmente escrito como
trabalho de conclusão do módulo 1
do curso de História da Arte do MASP,
ministrado pelo professor Prof. Renato Brolezzi
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O olhar, o vazio, a ideia
Gostaria de poder aprofundar-me mais nesses conceitos e demonstrar os sentindo intrínsecos dos mesmos, colocados sobre a mesma luz que anteriormente, mas ao continuar a ler, viver e a criar, estamos sempre percebendo novas formas de se produzir, ver e sentir a arte, posto que cada indivíduo possui sua própria maneira de ver, sentir, tocar (etc…) a arte, estou apenas reescrevendo uma página superficial sobre o comportamento artístico, dependente de minhas observações e vivências.
Vivendo em um meio dito “intelectual” estou mais propenso a discernir comportamentos artísticos, mas estou também mais calejado das cegueiras coletivas da nossa visão de vanguarda, dos clichês nos quais caímos, nos comportamentos adquiridos de outros, do imenso ego da sensibilidade artística. Percebi que existe um mecanismo de “status intelectual”, motivado pela ideia-olhar-vazio. (more…)
A eterna novela: arte e design em três atos
Ato I – O que é arte
Todas as palavras podem assumir várias significações, independente do real sentido que elas exprimem. Podemos usar a palavra filme, por exemplo, tanto para exprimir aquilo que vemos no cinema ou na televisão quanto para enaltecê-lo, como na frase “isso sim é um filme”. Ao usarmos a palavra em seu sentido original, tomamos seu sentido classificativo, ou seja, a palavra exprime exatamente o que ela propõe. Se, ao contrário, a usamos para exaltar uma qualidade, estamos usando o seu sentido valorativo. Se cada palavra pode assumir um sentido, dependendo do contexto em que é empregada, com a arte não seria diferente. (more…)
Idéia
A arte é uma forma de alimentar a alma.
Existem algumas linhas de pensamento que dizem que para se ver a arte em toda sua plenitude é necessário estar alimentado fisicamente para poder digerir e apreciar cada nuance do ver-arte. Outras tentam justificar que a sensação de “ausência” não apenas colabora, como amplifica a sensação do ver. (more…)
Qual o seu vazio?
Quando nos deparamos com a idéia de arte nos confrontamos com a herança do que é aquilo que nomeamos como sendo arte. A idéia romântica adotada pelos pintores e herdada pela comunidade, não dão conta de todos os desenvolvimentos que aconteceram e acontecem de forma vigorosa em nosso tempo.
Engenho e arte
Iniciei o livro curioso para saber como Deise Quintiliano se sairia com Engenho e Arte: pós-modernidade e relatividade em Sartre. Se ter um bom tema em mãos não é garantia de qualidade, quando o que está em jogo é o legado de Sartre o cenário fica ainda mais complicado. O motivo é tolo mais existente: é inevitável comparar a qualidade do objeto e do produto de estudo, o interesse despertado por cada um em separado. Engenho e Arte, felizmente, constrói sua individualidade sem vampirizar suas fontes, mantendo um diálogo bem dosado com as idéias dinâmicas do pensador. Outras características positivas de Engenho e Arte são: 1. munir o leitor com informações suficientes para que ele acompanhe o pensamento proposto e 2. evitar ao máximo frases truncadas e aglomerados de palavras inatingíveis, geralmente usadas como armaduras do saber contra a lâmina da ignorância (em outras palavras, quanto mais difícil escrevo mais inteligente pareço).
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Jardim Selvagem
Algumas perguntas sempre são comuns em bate-papos sobre arte.
Isso é arte?
Como isso pode ser arte?
Quem disse que isso é arte?
Não esquecendo, claro, daquela conhecida por todos:
O que é arte?
Considerações sobre a utilidade da arte
“A arte diz o indizível;
exprime o inexprimível;
traduz o intraduzível.”
(Leonardo Da Vinci)
Ao nos agarrarmos a um lápis, um pincel, um formão ou a um buril, sentimos que algo inexplicável acontece. O impulso criador nos chama para a comunhão da tríade “criador-ferramenta-criatura”, fazendo com que esses materiais se tornem prolongamentos de nossas mãos, a fim de uma única função: criar coisas belas (1).
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Experimentações
Há tantas contradições em arte que fico muitas vezes com medo de escrever uma linha que seja sobre o assunto.
Escrever sobre arte no Brasil então é tão confuso que o próprio escritor(?) sente-se indefinido.
Ser atacado não é o problema, não ser compreendido esse sim é o problema.
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