Dois livros
Dois dos últimos livros que li, me encantaram. Um, pela secura de seus fragmentos, propõe uma longa reflexão sobre a morte; o outro, com as reflexões ficcionais sobre o fazer poético, propõe um longo mergulho na ética da escrita. Os dois falam da morte.
O livro de Canetti permite a reflexão sobre a vida, suas relações com o desconhecido e o medo com que é encarado. Uma das reflexões mais densas e ao mesmo tempo mais angustiantes se dá na acertiva de que o devir não deve impedir que se cumpram os desejos e os deveres, que se tenha contraÃdo durante a vida e que exigem coragem e determinação para serem executados. Deve-se cumpri-los, pois não o fazer é render-se à morte, antecipá-la e aceitá-la, sem que se lhe cuspa na cara e a recuse terminantemente. A recusa do escritor é tanto mais densa quanto mais nociva à vida se torna a presença da morte. Ao recusar qualquer transcendência, qualquer capitulação, que dê aos homens a esperança de que a morte significa vida, ao recusar-se aos estatutoas religiosos da morte, Canetti afirma ao mesmo tempo sua crença na inevitabilidade da morte e a certeza de que, embora inevitável, não se deve curvar a ela.
O romance do escritor chileno Roberto Bolaño – A estrela distante – faz o leitor mergulhar de forma assimétrica na constituição do que significa a literatura. Três personagens se destacam na teia que cria para refletir acerca da produção literária. Uma, a do escritor de esquerda – comprometido com as revoluções libertárias e com a ação direta contra a opressão latino-americana, é uma figura frágil cujo ideário se sustenta nas lendas de sua ação. A outra, a do intelectual pequeno burguês, grande e profundo conhecedor da literatura, que se confina em seu exÃlio parisiense, para melhor conhecer e aprofundar o gosto pela literatura e mergulho na erudição que daà advém, termina assassinada por três neo-nazistaas ao socorrer uma mulher que era por eles espancada. A terceira figura – encarna – nos anos terrÃveis da ditadura de Pinochet – o talvez mais terrÃvel que o poético possa suscitar. A presença da morte. A complexidade da personagem é aterradora. Se nela conhecemos a arte, nela também reconhecemos sua face mais terrÃvel. Na morte e na ação repugnante da personagem, que mata por opção polÃtica e faz destas mortes talvez a mais clara denúncia do ilimitado possÃvel que arte sugere, reencontram-se os ditames da arte moderna, em que o desarmônico, o horroroso e a crueldade desenham com traços finos o rosto imutável e arrogante do homem.
A leitura de Canetti e de Bolaño de certa maneira se contradizem e se aproximam, se um vê na morte a representação do mais terrÃvel e a luta que se deve travar até o fim, afim de não reconhecê-la; no outro, a representação da morte – submetida à arte – é da mesma forma a revelação mais destetável e bela do que se tem para oferecer ao mundo.
Arlindo Gonçalves e Luciana Fátima
Recebi para análise três livros de Arlindo Gonçalves, Desonrados e outros contos, Desacelerada mecânica cotidiana e o Carinhas(os) Urbanas(os). Este último, escrito e fotografado a quatro mãos com Luciana Fátima. Preciso confessar que tinha firme intenção de escrever três resenhas separadas, uma para cada livro. Depois de ler os livros, percebo que esta tarefa tornou-se impossÃvel para mim.
Os contos, assim como as fotos, possuem uma estrutura narrativa interessantÃssima, de reflexo. Um conto é complementar e reflexo do outro, todos os personagens se entrelaçam, todas as estórias se tocam e todos os livros tocam profundamente o leitor.
São muitos nÃveis diferentes de espelhamento. Começa, claro, com o Eu da estória sendo contada. Não existe um narrador, existem muitos e nenhum ao mesmo tempo. O narrador é o personagem, o autor e o leitor simultaneamente. Depois, as estórias em si, incluindo seus cenários e personagens, que parecem ser a prova viva de que a teoria das cordas é muito mais palpável do que supõe a FÃsica. O autor brinca com os muitos nÃveis da cidade de São Paulo, cenário escolhido para os livros. Poderia ser qualquer centro urbano e continuaria funcionando igual. São realidades absolutamente distantes, paralelas, tangentes e próximas ao mesmo tempo. Sim, eu sei que isso não faz qualquer sentido. Leia os livros, fará. O ponto de vista do observador destes muitos mundos é também parte dele e, ao mudar o Eu narrativo, o autor insere o leitor em uma observação ativa, como parte integrante deste cenário multidimensional. E, o último e mais importante espelhamento, é a humanização destes diferentes mundos. Não há qualquer julgamento de valor, não existe uma única moral adotada. Para cada ponto de vista, ou seja, para cada Eu narrador, o autor adota a escala de valores daquele personagem e com isso tece um conjunto – que ultrapassa os limites fÃsicos de um único livro – cromático heterogêneo, rico e por isso mesmo interessantÃssimo.
E tem as fotos. As fotos repetem o mesmo diálogo. São rostos olhando para você e você para os rostos. Há uma generosidade de olhar e de se permitir ser olhado que é incomum, tanto para fotógrafos quanto para escritores. As duas profissões, por natureza, são voyeurs, gostam de observar mas preferem manter-se fora do olhar do outro. Estes autores abraçam e acolhem o olhar que volta.
É necessário um olhar maduro para perceber o Outro e enxergá-lo como similar e humano. Não existem grandes diferenças entre você, um marciano, uma prostituta portadora de HIV, um comerciante ou um autor de livros. Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves não apenas sabem disso como aceitam o espelho. E isso é mais do que generoso, é lindo.
A grande dificuldade na fotografia não é técnica, é de discurso. É claro que existem questões de controle da luz, profundidade de campo, etc. O discurso é mais importante. De nada adianta você ter um microfone se não tem nada a dizer. Luciana Fátima tem muito a dizer. E fala junto com outro brilhante orador, Arlindo Gonçalves.
“Há poesia em fachadas de prédios históricos. Ornatos, capitéis, pedestais, cornijas, molduras, abóbadas, cúpulas, motivos vegetais, rostos de pessoas ou de criaturas – ora doces, ora sisudas.
(…) Para quem observa as construções mais detalhadamente, não passa despercebido um certo sentimento carinhoso que partia do responsável pelo projeto para com a cidade. Mesmo as feições mais rabugentas tinham por objetivo afugentar os seres indesejáveis.
Estão lá, resistindo ao descaso, ao vandalismo; verdadeiras gentilezas urbanas que os mestres das fachadas nos legaram.â€
Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves, vocês estão errados. A delicadeza, a generosidade, a poesia e a beleza pertencem a vocês.
Carinha(os) Urbanas(os) – Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves – Editora Horizonte
Desonrados e outros contos – Arlindo Gonçalves – Editora Marco Zero
Desacelerada mecânica cotidiana – Arlindo Gonçalves – Editora Horizonte
Os dias da peste, de Fábio Fernandes
O cinismo
Sou um leitor cÃnico, o que se reflete no meu trabalho como crÃtico. Hoje em dia, estou mais interessado no que posso tirar de um livro do que naquilo que o livro tem por si só a me oferecer, e isso tem um motivo prático e não ególatra. Quando um original está na gaveta, seja na escrivaninha ou na pasta do computador, pertence apenas ao escritor e a mais ninguém. Sua lógica, entrelinhas e significados ocultos são interpretados pela pessoa que os constrói, garantindo a eficiência dos dramas e a risada no fim das piadas. Se isso não acontece, o escritor aperta o delete e começa o processo novamente.
Quando um livro é editado e efetivamente lido ele passa a ser 50% do leitor e as entrelinhas mudam de contexto, pois dependem da bagagem de cada um que conferir suas páginas. Nesse ponto, s dias da peste é um livro arquitetado em camadas, e o leitor apreciará momentos distintos de acordo com o grau de proximidade com o autor. É um terreno explorado na literatura do cotidiano com muito sucesso e que tem minha simpatia desde sempre. O novo livro de Elvira Vigna – Nada a Dizer – e o livro de Ivana Arruda Leite – Ao homem que não me quis – que resenhei recentemente estão aà que não me deixam mentir. Brincar com a verdade literária – por definição uma mentira – é fonte eterna de boas narrativas. Graças aos meus 50% nessa leitura, ou melhor, por ter algum contato com o autor Fábio Fernandes, pude identificar influências pontuais de sua própria vida na vida do protagonista Arthur, um representante do homem cercado de apetrechos tecnológicos, se não conectado biomecanicamente ao seu entorno, mais do que interligado psicologicamente a ele.
“Mas não tenho muito o que comemorar: o excesso de trabalho na empresa se transformou subitamente em seca, porque ninguém está conseguindo resolver os problemas dos computadores e parece que os usuários finalmente estão percebendo isso. A universidade ainda não pagou o salário do mês passado e já estou no cheque especial – que está ficando cada vez mais difÃcil de utilizar, porque ninguém está aceitando cheque de papel.â€
Antes de continuar, ressalto que não é preciso conhecer o autor para entender o livro. Não tenho contato com Ivana Arruda Leite e isso não me impediu de identificar nem de me divertir com os pontos tangentes entre real e imaginário apresentados em sua história. É um tempero extra numa trama bem contada e não o ingrediente principal. O mesmo vale para Os dias da peste. Confie nos seus 50%. O autor confiou nos dele.
Já que o tema aqui é cinismo, Arthur é um belo de um cÃnico. Encantou-se e desencantou-se com o advento dos blogs, reuniu anotações em papel e mais tarde passou a registrar tudo em um podcast gravado em tempo real no aparelho pendurado em seu ouvido. Bem, talvez eu esteja exagerando, mas o importante é entender que a necessidade de registro de Arthur é também a nossa, que se dá em blogs, e-mail, orkut, facebook, sms e outros mil sites numa tentativa de gritar eu existo! e, quem sabe, driblar a mortalidade.
É justamente com o grito de eu existo! dos computadores que o livro começa.
A sátira
Os dias da peste é uma sátira aos velhos tempos que ainda não vivemos. Boa parte da trama se passa ali na curva da história, em uma época ligeiramente para trás, ao mesmo tempo presente e mais à frente no futuro. Porque nosso hoje é um pouco de tudo misturado, ele é retrô, estagnado e hiper-realista. É um futuro que sim, chegou, não do jeito espetaculoso que previam nos filmes, mas de um jeito sorrateiro movido a marketing e produtos onipresentes em nosso cotidiano. O aspirador de pó só não fala porque ele não precisa.
Arthur é professor universitário e técnico de computadores. Como todo bom técnico, ele vive do desespero alheio. Basta você começar a arrancar os cabelos para ele ter o que fazer. Esse nÃvel de desespero aumenta quando os computadores parecem enlouquecer de vez e não querem desligar nem com o fio arrancado da tomada. A primeira suposição, claro, é a de um vÃrus com potencial de infectar qualquer máquina conectada à Internet. O monitor passa a exibir frases personalizadas baseadas nas informações contidas no HD. Se você é um daqueles navegantes que adora sites pornôs, já pode imaginar o tipo de mensagens que seu computador exibiria. Para evitar o problema, basta permanecer desconectado… e morrer de tédio. A segunda suposição, que logo se torna uma certeza, é bem mais interessante: as máquinas estão conseguindo se comunicar, e os humanos chatos que as criaram precisarão conviver com isso.
“O que mais me chateava na IC à s vezes era seu excesso de pedantismo. Eu o comparava a um adolescente nerd que acabou de entrar na faculdade e não só se acha, mas se tem certeza. E o pior é que quase sempre o nerd tem razão. O que não o torna menos irritanteâ€.
Revirando meus arquivos neuronais, me veio em mente uma série da Marvel chamada Marvels (acho eu) em que a existência de super-heróis no mundo é mostrada no ponto de vista das pessoas comuns, explorando questões como medo e deslumbramento diante das improbabilidades da vida. Depois de ler a série, genial, abandonei o mundo dos super-heróis.
Os dias da peste adota uma tática parecida ao filtrar o caos polÃtico-social pelos olhos de Arthur. O mundo mudou, as máquinas – chamadas de Inteligências ConstruÃdas – tem representação até na ONU, mas a vida de Arthur continua um tédio profundo, as contas continuam vencendo no fim do mês e arrumar dinheiro para pagá-las dá um trabalho do cão. A vida de técnico está uma bagunça, a universidade foi para o buraco (quem vai querer ir para a aula com computadores ajudando no ensino em casa?), Arthur continua acima do peso e sem namorada.
Eu que tenho sÃndrome de Manoel Carlos e gosto de desfile de personagens senti falta de mais interações de Arthur com humanos. Eles estão lá, mas pela opção narrativa de notas-blog-podcast, nunca conseguem ganhar corpo (sem trocadilhos) como o do personagem (gordinho) principal. O deuteragonista que mais se aproxima de Arthur em termos de consistência é, ironicamente, sua IC pessoal. Ele é mais sólido do que qualquer outro. A relação de confiança e desconfiança que existe entre os dois é uma das boas sacadas do livro. Até que ponto é saudável confiar em uma inteligência artificial? O que é bom senso e o que é pura paranóia?
A consciência
E tem o Sant’anna que é a voz da consciência de Arthur e do autor. Sant’Anna é um escritor premiado que foi professor de Arthur em uma oficina literária. Se uma alusão ao Sérgio, vale comentar que não é meu autor nacional preferido, Vôo da madrugada possui alguns contos muito inocentes para quem tem tanto chão, mas que sempre cumpriu com seus livros o papel de entreter este leitor. E uma consciência que nos entretém enquanto nos espezinha soa interessante o suficiente para mim. Nos encontros de Sant’Anna e Arthur nos bares da vida ou em sua casa, ele vive lembrando ao protagonista que máquinas não são gente, pondo em foco o preconceito de via dupla entre literatura do cotidiano e literatura fantástica (no caso a ficção-cientÃfica) e dizendo que gente não deve desistir de seus sonhos, o que levanta por tabela a velha lebre do “Do android dream of electric sheep?†na etapa inicial do que seria uma grande transformação na convivência entre homens e máquinas.
Sant’Anna diz ao personagem e ao autor que nunca é tarde para voltar a escrever e que revirar gavetas e blogs pode ser o começo de um bom livro. Ele está lá, com seu mau humor, uma consciência rabugenta, provocando Arthur até que este tenha vontade de xingá-lo, exatamente por saber que ele nunca o fará. Quando Arthur resolve dizer no way, babe, e esgota os argumentos, a consciência se cala pedindo por um café.
“Sant’Anna era o professor. Ele já era famoso nos meios literários, mas nunca foi uma celebridade, não dessas do tipo que vivem nas revistas de fofocas ou nos talk shows da TV. O que acabou sendo ótimo para nós alunos, porque ele não era um sujeito arrogante. Bom, pensando bem, arrogante ele era (…)â€.
É exatamente quando Sant’Anna aparece velho e cansado na porta do apartamento e Arthur percebe que os Ãdolos humanos não são eternos nem por meio da literatura que a IC de Arthur progride de seu papel de diabo no ombro para uma voz na consciência propriamente dita. A IC, essa sim, tem em si a possibilidade da eternidade se superada a incompatibilidade de hardware entre máquinas e humanos, nascendo aà o embrião do tão falado pós-humanismo.
Que venha mais uma parte da saga desse tecnoxamã, que técnico de informática é coisa do passado.
Ao homem que não me quis, de Ivana Arruda Leite
O escritor é um ladrão de histórias, um sujeito de olhos e ouvidos atentos que tira pedaços dos outros na fila do banco, no banco do restaurante, na entrada da livraria, sem dó nem piedade. Enquanto o mentiroso conta casos que se passaram com um primo, um vizinho, um amigo da tia, o escritor põe as histórias roubadas no papel e legitima o processo através de seus personagens. Todos fazem parte dele sem que ele precise fazer parte deles de todo.
Tanto na literatura fantástica quanto na do cotidiano, é larga a interseção do real com o imaginário, criando um espaço para que autores como Ivana Arruda Leite se esbaldem no jogo de percepções permitido.
Ao Homem que não me quis começa com flash fictions, histórias rapidinhas com certa dose de humor que preparam o caminho para três narrativas longas, entre elas a que dá nome ao livro e escancara de vez o jogo das verdades proposto pela autora.
“São Paulo amanheceu parada. A greve de ônibus entope as tripas da cidade. As pessoas se espremem nas lotações clandestinas pra não perder o dia de serviço. Confesso que estou mais preocupada com meu próprio congestionamento. Minha hérnia pode estrangular a qualquer momento e, se isso acontecer, a morte será imediata. Pelo menos é o que diz minha mãeâ€.
A narrativa de Da difÃcil vida das rêmoras é a mais fragmentada. Os parágrafos demoram a se encaixar e deixam o leitor em um estado de suspensão de entendimento, na dúvida de quais seriam os pontos de coesão do texto, até que ele se aproxima do fim de modo mais amarrado, terminando o experimentalismo da quebra. É uma transição interessante das flash fictions para as narrativas mais tradicionais, pois evolui a forma e mantém o foco nas relações humanas que funcionam sem serem perfeitas. O trecho abaixo mostra o clima desses relacionamentos:
“A rêmora gruda no corpo do tubarão e vai se alimentando do que ele não utiliza, dos seus restos. Para o tubarão, a presença da rêmora não cheira nem fede. Ele não abre mão de nada do que lhe é essencialâ€.
A Mulher do Povo conta a história de uma mulher internada pela primeira vez em um hospital público e que divide o quarto com várias pacientes. Há uma brincadeira do contar histórias, de como a protagonista fala de si e fala das demais, com sutilezas sobre verdades e mentiras que se fazem presentes através da história de um traficante internado no quarto ao lado (será mesmo?) e dos falsos banhos que ela toma para enganar a enfermeira. É um conto bem-humorado para um tema que não é dos mais leves. Fico particularmente entristecido quanto leio narrativas em hospitais.
Em Ao Homem que não me quis a protagonista dá em cima de um homem casado que não cede aos seus encantos. O relacionamento só rola na sua cabeça e ela escreve contos sobre eles, presenteando o sujeito com as histórias. Apesar de dizer não às investidas, ele parece curtir os presentes e fica chateado quando ela para de escrever sobre eles. Sem querer investir no real, a ficção os alimenta. Nesse meio tempo, a protagonista sai de férias com um homem que realmente gosta dela, mas a história mostra que o gostar nem sempre é suficiente para que um relacionamento dê certo, já que os dois vivem se desentendendo. Nesse vai e vem de possibilidades, a autora trabalha camadas sutis de metalinguagem indo dela para a história e da protagonista para a imaginação da mesma.
Leitura rápida que cumpre bem seu objetivo. Fiquei curioso para ler Hotel Novo Mundo.
Ao homem que não me quis
Ivana Arruda Leite
Editora Agir
87 páginas
Lobos nacionais não devem nada aos de fora
Lobisomens! Por que eles têm que ser monstros? Eu sou um adorador desses seres e sei o quanto é difÃcil achar algo sobre eles que não seja de fora. Recentemente Meyer os trouxe para a luz (e não era a do seu vampiro luminoso) do mercado pop, até mesmo Shakira gravou um clipe chamado She Wolf. Mas o que poucos sabem é que os lobisomens já evoluÃram muito, não tanto como os vampiros, em questão de mÃdia, mas em suas histórias.
Eu nunca gostei da versão original do Brasil para um ser tão forte e enigmático como os lobisomens e isso me levou a procurar tudo sobre eles (grande parte veio de fora) e cheguei a pensar que não existissem autores de lobisomens nacionais, mas estava enganado. Ainda bem!
Nessa matéria vou deixar de lado os nossos amigos de fora e falar do que nossos autores andaram aprontando com seus lobos. Existe de tudo um pouco. Mais românticos, agressivos, mitológicos ou humanos. Alguns são lobos de verdade, outros parecem outros animais. Andam na lua cheia sobre quatro patas ou em duas. Temem a prata ou riem dela.
Eu sou mais dos lobisomens “Annette Curtisâ€, aqueles que são extremamente fortes, violentos e choram quando batem com porta na mão. Eu que sempre gostei do tema torci o nariz ao conhecer esse romance americano Sangue e Chocolate, mas me encantei ao ler ele. Transformação sendo algo mais espiritual que carnal, a personalidade não aflorando numa besta selvagem sem razão, mas num predador perfeito. Pra mim isso seria um sonho. Imagine apenas com poder do seu desejo poder modificar a sua natureza, não só fisicamente, mas por inteiro. Vivian – a loup garou do livro de Annette – não quer um romance, não quer ser popular e muito menos está disposta a largar tudo que é por um romance Twilight. Ela quer ser livre pra correr em sua forma de loba pela floresta. Sentir o gosto e o cheiro de ser um animal livre de qualquer preocupação social, apenas correr e ser livre. Hoje essa seria a idéia de paraÃso de muita gente.
Fui me aventurando pela internet e pelas bibliotecas sabendo que falar de literatura de lobisomens não é fácil. Não é como achar Bram Stoker em qualquer sebo ou megastore. Muita da produção escrita está fragmentada na internet. Há muitos textos trazendo os lobisomens com uma nova roupagem e nos livros há ainda a idéia clássica em muitos, mas isso já esta mudando. Por que os novos lobos ainda não chegaram na literatura nacional com força? Bem, digo por minha experiência. Uma editora dificilmente publicará um livro de lobisomens sem um vampiro como protagonista ou pelo menos um sanguessuga.
Muitos editores consideram o lobisomem um ser fora de moda. Algo que assusta crianças do interior e que não pode ser explorado comercialmente. Sangue e chocolate não tem vampiros e vendeu o que J. K. Rowling vendeu de Harry Potter. Será mesmo que lobisomem tem que ser condenado a viver na sombra dos “senhores das presas�
Fora do Brasil eles vêm crescendo no cinema e na literatura, mas aqui eles ainda são vistos com certo preconceito. Lobisomens têm uma coisa muito regional (o que é ótimo) e isso afastou a idéia que eles pudessem ser interessantes. Caçando arduamente achei ótimos exemplos de que o mercado está se expandido aos autores de lobisomens, pelo fato deles estarem voltando. Aos poucos algumas editoras já estão abrindo as portas aos uivos da meia noite.
Recentemente a antologia Metamorfose – a Fúria dos lobisomens (livro de que participo) me mostrou inúmeros autores com quem conversei por Orkut, MSN e Skype e que me levaram achar coisas maravilhosas. Existem muitos autores de lobisomens criando romances, contos e fazendo isso com originalidade, mas não tem espaço para mostrar, o que é uma pena. Vale à pena procurar na internet blogs e grupos de discussão sobre esse tema, eu recomendo uma olhada no blog de André Bozzetto.
Pouco a pouco a idéia de monstros regionais feios e doentes está saindo de cena e o lobisomem mitológico antigo está ressurgindo. O lobisomem tradicional faria inveja ao Lestat de Anne Rice. Na Romênia o lobo é tido como um ser sagrado e existem templos e igrejas antigas que acreditam que para se ter o melhor do homem era preciso ter o melhor do animal e vice-versa. Eu recomendo a leitura de bons autores nacionais que tem levado esse tema em seus livros com originalidade e não estão seguindo a fórmula de Underworld. Segue aqui um breve panorama dos destaques atuais:
Kizzy Ysatis em seu livro O diário da Sibila Rubra nos mostra seu lobisomem Thiago (Fausto) que é extremamente fiel ao vampiro Luar (Raul) e prova de seu sangue para ter imortalidade. Kizzy usa a vertente da lenda dos lobos que diz que nem todos se transformam propriamente em lobos. Os lobisomens de Kizzy têm caracterÃsticas de javalis, tigres e leão. O autor usou o tema “a revolução dos lobos†muito antes do filme.
Giulia Moon em seu romance multicultural Kaori – perfume de vampira nos traz os famélicos (o significado no dicionário é faminto). São mendigos largados pelas ruas que com cair da noite se transformam em cães selvagens e vivem de carne morta. São patéticos e não sabem falar, mas isso mostra não como uma regra. Ao longo da narrativa a autora mostra os famélicos como seres muitos perigosos que podem ter seus impulsos próprios. O que podemos ver em comum entre os famélicos e os lobos mitológicos é sua forma de comunicação: eles sabem quando estão perto de outros dos seus e quando alguns deles está ou esteve perto. Giulia recriou os lobisomens mais “ignorantes†de uma forma que passam a ser criaturas novas e fascinantes. Com certeza vão olhar os mendigos do centro com medo e respeito depois de conhecer os famélicos.
Helena Gomes misturou o que há de melhor nos HQs com paisagem que vão desde Hong Kong, Itália, França e, claro, Brasil. Em seu livro existem humanos com poder de se transformar em animais. O lobo é o personagem principal da trama. Wolfgang nos mostra o lobisomem sedutor. Aquele que fazia as mocinhas da antiga Romênia abanar o fogo em baixo das saias. Dono de um olhar penetrante e de um corpo forte ele traz um lobisomem que faria Jacob Black de Meyer se contorcer de inveja. Ele é o Ômega do Clã, ou seja, o lobo mais fraco. Helena trouxe em seu texto a referência homem-animal, que está se tornando uma tendência forte, antes mesmo de Lua Nova ser escrito. Isso mostra como o Brasil ainda está perdendo tempo não divulgando suas obras com o devido vigor.
Martha Argel é conhecida pelo romance Relações de Sangue e por escrever sobre vampiros como ninguém. Uma autora experiente que trouxe a mostra em seu conto “Mariana e o lobo†um toque psicológico ao personagem. Durante boa parte do conto o lobo conversa com a protagonista e com isso cria uma relação tão pessoal, que nos faz questionar a cada linha o quão ficção-realidade é. O lobisomem de Martha é mais etéreo. Seu conto mostra o “lobo em cada um de nósâ€.
Juliano Sasseron com suas Crianças da noite trouxe os lobos de RPG para as páginas dos livros de literatura com uma pincelada extra de poderes e atitude. Ele cria lobisomens gigantescos e poderosos que fazem os vampiros tremerem de medo. Seus lobos são protetores da natureza. São criaturas que lembram os espÃritos dos antigos rituais xamãs. EspÃritos protetores das florestas.
Kaori – perfume de vampira, de Giulia Moon
Giulia Moon começou sua carreira literária como contista. Lançou três coletâneas que a firmaram como um dos nomes mais presentes da literatura vampiresca nacional. Luar de Vampiros, Vampiros no Espelho e A Dama Morcega angariaram fãs e abriram caminho para um convite da Giz Editorial em 2008, quando foi chamada para participar da coletânea Amor Vampiro ao lado de outros nomes importantes do gênero, como o Best-seller André Vianco.
No conto Dragões Tatuados, fortaleceu-se o embrião de Kaori – perfume de vampira, primeiro romance de Giulia Moon, que deve ter deixado muita gente se perguntando se uma contista de mão cheia teria fôlego para uma narrativa longa. Pelo menos era essa a minha curiosidade.
Kaori – Perfume de Vampira se divide em duas narrativas paralelas. Uma se passa no século XVII, em pleno Japão feudal, e conta como Kaori se transformou em uma kyuketsuki, demônio sugador de sangue em japonês, e lidou com o poder ganho ao beber o sangue ancestral de seu mestre. A outra se passa no século XXI, na cidade de São Paulo, e gira em torno dos vampwatchers, funcionários do IBEEF, um instituto de pesquisa que estuda vampiros e que têm como missão observar e catalogar vampiros de longe, sem interferir em seus ataques. O responsável por movimentar a trama é Samuel, vampywatcher ranzinza que quebra as regras e tira um garoto de rua das mãos de um caçador, descobrindo assim uma complexa rede de vampiros estabelecida na cidade.
“Samuel não tinha muitas esperanças de obter um bom avistamento. Numa noite de segunda-feira como esta, era difÃcil encontrá-los, ao contrário das sextas e sábados, quando dava com vários deles ao mesmo tempo misturados à multidão, escolhendo suas vÃtimas como itens num cardápioâ€.
Quem acompanha a literatura vampiresca sabe que vampiros não nasceram ontem. Aqui no Brasil chegam poucas traduções, mas os mercados americano e europeu são repletos de autores que dedicam séries enormes a vampiros dos mais variados tipos. O que talvez seja novidade é ver o vampiro como cerne da atual febre adolescente crepuscular, a primeira na era da sede por novidades imediatas e consumismo frenético.
A superexposição criou uma falsa idéia do esgotamento do terror vampiresco. Alguns autores aproveitam a onda para lançar seus trabalhos, outros bradam “chega de vampiros, vamos inovarâ€. Mas defender o esgotamento do terror vampiresco seria o mesmo que dizer que o romance policial ou a fantasia medieval não podem mais dar bons frutos. Cabe a cada autor apresentar um trabalho sincero (vampiros picaretas são facilmente identificáveis) e saber se renovar dentro do que gosta de escrever. Superexposição é coisa que passa e logo o público escolhe a nova bola da vez.
Dito isso, o grande mérito de Kaori – perfume de vampira é ser um romance sincero, distante das histórias genéricas que tentam se aproveitar do nicho. Giulia acrescenta à mitologia vampiresca personagens do folclore japonês como os tengus e cria seus próprios, como é o caso dos famélicos. São pequenos detalhes que ajudam a manter o interesse e o ar de novidade ao longo da história. Ao terminar o livro, fiquei com a sensação de que só Giulia Moon poderia tê-lo escrito, por n motivos diferentes. Ponto positivo.
Giulia diz que ficou mais japonesa depois da pesquisa que fez para escrever o livro. O resultado é uma ambientação impecável, em que o leitor se transporta para a época dos samurais. A parte que se passa no século XVII tem tanta força que ofusca a fase contemporânea da trama. A grande responsável é Kaori, uma protagonista enigmática, que nunca deixa saber ao certo o que se passa em sua mente. A construção de Kaori permitiu que Giulia Moon distanciasse a lógica vampira da lógica humana, criando uma aura constante de mistério em torno da jovem. Mesmo quando ela está diante de seu grande amor, o leitor não consegue dizer se o autocontrole será mantido ou se o romance virará um banquete.
“No terreno baldio, os famélicos comiam depressa, farejando o ar e olhando de vez em quando ao redor, pois a qualquer momento alguém poderia surgir para interromper a refeição. Nega já tinha comido e parecia satisfeita, vigiando cada movimento nos arredoresâ€.
Se a parte do Japão é contada numa cadência mais lenta e melancólica, a parte de São Paulo tem o ritmo corrido da cidade, com cenas mais ligeiras não necessariamente pela ação, já que há uso do clima investigativo, mas pela forma como são narradas. Talvez por isso não tenha conseguido a mesma empatia com os personagens dessa parte. Senti falta de saber mais sobre o IBEEF ao longo da trama e não me envolvi com o drama de Samuel, o vampwatcher encrenqueiro. Quando penso nessa fase, quem me vem em mente é a bióloga Beatriz e os famélicos que estuda, esses muito interessantes, e não os vampiros. Com os famélicos acompanhamos uma transformação, desde a novidade até a sua evolução como criatura. Com os vampiros, as transformações se dão efetivamente no passado. Por isso a fase do Japão deixa na memória um punhado de personagens memoráveis em sua individualidade, como o pintor e o samurai, e no coletivo, como os tengus. Nenhum deles termina o livro do jeito que começou.
“A menina sentiu o chão distante, como se seus pés flutuassem no vazio. Olhou em volta, observando cada tronco, cada folha das árvores, cada gota de água que fluÃa do caniço de bambu sobre o riacho pequenino que compunha o jardim. E tudo isso lhe pareceu vago e indistinto, como se pertencesse a outro mundoâ€.
A ressalva em comum fica por conta dos vilões. Tanto no século XVII quanto no XXI quem é mau é mau e ponto. Faltou um toque de cinza na paleta, destrinchá-los em camadas. Ainda assim, se precisasse apontar um preferido entre eles, diria que é Madame Missora, mais uma vez do século XVII.
Para encerrar, volto à questão que abriu a resenha. Kaori – perfume de vampira é uma ótima estréia no mundo dos romances, com fôlego de sobra para um próximo volume.
Kaori, perfume de vampira
Giulia Moon
Giz Editorial
371 páginas
raiva nos raios de sol
O grotesco sempre esteve presente na nossa história. Não faltam exemplos no teatro grego, por exemplo, mas o termo só surgiu no século XVI, quando as escavações na Itália descobriram pinturas ornamentais, esculturas e mais um monte de coisas interessantes. Grotesco vem do italiano grottesco, de grotta (gruta). Ainda demorou um tempo para que o grotesco se tornasse um “gêneroâ€. Foi no Romantismo, com Victor Hugo.
“No pensamento dos Modernos, o grotesco tem um papel imenso. Aà está por toda a parte; de um lado cria o disforme e o horrÃvel; do outro, o cômico e o bufo. Põe em redor da religião mil superstições originais, ao redor da poesia, mil imaginações pitorescas.†(1)
Daà para Baudelaire e Augusto dos Anjos é um pulo.
O grotesco tem como objetivo a crÃtica social através do riso. Existe humor na monstruosidade.
Os monstros de antigamente eram travestidos em abominações circenses e seres imaginários. Esta máscara caiu faz tempo e os monstros de hoje somos nós.
Fernando Mantelli, em raiva nos raios de sol, da Não Editora, traduz esta noção do eu-monstro, do eu-grotesco contemporâneo e atualÃssimo como ninguém. Mantelli aponta, através de seus personagens, o mal-estar que sentimos de nós mesmos e, de uma maneira caricata e com humor, coloca o leitor como aquilo que nossa geração de fato se tornou: testemunhas silenciosas e portanto omissas.
No que eu acredito ser a sua leitura de Erlkönig, Filme de amor, Mantelli usa e abusa das frases curtas e da pontuação como reflexo de uma linguagem oral. A contemporaneidade e o ritmo ágil são os principais traços do autor. É um contador de estórias antes de ser escritor ou qualquer outra coisa.
Não consigo me relacionar com este livro com nojo ou repulsa. Nós somos assim. Nós somos estes monstros, a humanidade é grotesca. O livro, para mim, é caricato e otimista. É quase que uma busca do autor – e, se tudo correr bem, do leitor – em compreender como somos capazes de trair, matar, mentir.
O último conto, O pino do verão, por exemplo, fecha o livro de uma maneira quase poética e nos faz acreditar que, apesar de tudo, somos capazes de afeto e que talvez, só talvez, seja esse afeto e essa capacidade de nos reconhecer no espelho – e não um polegar opositor – que separe o joio do trigo.
Raiva nos raios de sol
Fernando Mantelli
Páginas: 96
ISBN: 9788561249076
1. HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime. 2ª. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.
Wilde Stories 2008
Em meados de 2009 entrei para a lista de discussão da Outer Alliance, um grupo de escritores, editores e pessoas que apóiam a presença da comunidade GLBT na literatura especulativa internacional, independente de sua orientação sexual. Não participo ativamente, mas pesco nomes potenciais dentro de um gênero que leio bastante que é a fantasia urbana, exatamente para saber como os autores vêm trabalhando a questão da sexualidade dentro da fantasia. Colocar elementos do fantástico em tramas contemporâneas permite tratar de preconceito de forma mais acessÃvel. A série True Blood (baseada nos livros da Charlaine Harris) está aà que não me deixa mentir. Ela mostra como seria para a raça humana aceitar de repente a inclusão de vampiros na sociedade e como isso desloca os demais preconceitos já vigentes. A frase genial “God Hates Fangs†sendo um dos sÃmbolos dessa dualidade.
Um dos tÃtulos que conheci por intermédio da Outer Alliance foi a coletânea Wilde Stories 2008 – The Best of the Year’s Gay Speculative Fiction, editada pelo Steve Berman. O Steve fala na introdução que procurava personagens com os quais pudesse se identificar, histórias que se parecessem com a sua, e não achava, daà começou a escrever e organizar livros que dialogassem com a comunidade GLBT de alguma forma. Aqui no Brasil a idéia pode parecer alienÃgena, já que o nosso mercado é uma bagunça e todos os gêneros precisam chegar disfarçados de “romance†nas livrarias e ponto final. Mas nos Estados Unidos e Reino Unido, onde meus olhos alcançam, há uma febre de classificar livros em gêneros, o que pode aprisionar o autor inexperiente, mas por outro lado ajuda a organizar o mercado e abrir espaço nas prateleiras. Há prêmios para a literatura de ficção-cientÃfica, para a de fantasia, para a de terror e, pasmem, para a literatura gay em todas as suas vertentes. Os nichos por lá não são asfixiados como os daqui.
Wilde Stories 2008 apresenta contos bem diferentes em conteúdo e qualidade. Se cada gênero por si só já traz seus desafios e armadilhas, o elemento GLBT acrescenta mais alguns à equação. Awkward, de Francisco Ibáñez-Carrasco, fica de exemplo das derrapadas do livro. Um casal que não se dá tão bem quanto antes precisa discutir a relação quando sua casa é invadida por uma dupla de skinheads ou similares em pleno Halloween. Enquanto os skinheads vasculham a casa atrás de objetos de valor, encontram um armário que revela o passado de drogas de um dos moradores e a relação sadomasoquista que tinham quando mais jovens. Nem preciso dizer que durante a tortura que eles sofrem a chama da paixão se reacende. Tema ardiloso de lado, a diegese é falha e o conto não convence. A história dialoga com as fantasias do autor sem conseguir envolver o leitor na perversidade proposta.
Agora os pontos altos:
The Woman in the Window é uma história tradicional de fantasmas que não tenta reinventar a roda. Apesar da trama simples, o texto é muito bem escrito e foi uma boa escolha para abrir o livro. Jameson Currier conta a história de uma famÃlia que comprou um globo de neve amaldiçoado num antiquário e trouxe consigo um par de fantasmas. A casa dentro do globo de neve muda constantemente, contando uma história de assassinato que vai se repetindo na casa da famÃlia. O desafio é se livrar dos fantasmas e concluir o ciclo sem chegar à morte de fato. O elemento GLBT fica por conta da famÃlia: um casal gay e seus filhos adotivos.
Um contista para se ficar de olho.
“At the dinner table, there was no further discussion about the globe, the two strange men, Claire’s imaginary friends, the bogey men, or the nightmare woman with holes in her headâ€.
Acid and Stoned Reindeer de Rebecca Ore não tem nada de tradicional. A não ser que você já tenha lido histórias sobre entidades que querem fazer sexo com renas drogadas. Rebecca explora uma viagem lisérgica tanto na estrutura quanto no conteúdo, e aproveita o clima de desprendimento da realidade para flertar com situações de non-sense. Um conto feito para o estranhamento, não para o entendimento, tudo com bom humor.
“I put my armor on the reindeer’s shoulder and said, ‘Why do you want to get stoned? I’m never going to do this again.’ Back in New York, I laughedâ€.
Lycanthropy de Jonathan Harper é um dos meus prediletos, apesar do começo meio truncado. Na camada mais superficial é o conto de um jovem que se apaixona por um lobisomem e sai do apartamento que dividia com uma amiga para morar na casa do sujeito. Nas entrelinhas, é um conto sobre transformação. Jonathan preferiu pular a descoberta da sexualidade, o protagonista sabe quem é desde o inÃcio, e apostar em outro tipo de desabrochar. Metáforas bem colocadas e estruturação de personagens em cima de pequenos momentos do cotidiano são o forte do conto.
“They say wolves hide out in back alleys. Another urban legend, alligators live in the sewers, a murderer licks de hand of a blind woman pretending to be her dog. Originally there was an allure here. The decomposition, the fragility, the fact the whole city feels like it could collapse in a moment and that is suppose to mate it memorable. Like Atlantis. That’s why people invent so many stories.â€
Hal Duncan não resistiu à tentação e abusou das narrativas paralelas em The Island of the pirate gods. A história fala de um pirata gay e seu rival que vão parar numa ilha com fadas. As fadas a princÃpio acham que eles são amantes e fantasiam em cima disso, mas como eles vivem se xingando, elas começam a suspeitar de que não é bem essa a verdade. Paralelamente, Duncan conta como surgiram dois deuses piratas que foram marinheiros e amantes quando vivos. O conto é carregado de humor e muito ágil, com uma estrutura entrecortada que pode confundir os desavisados. A falta de noção das fadas é a cereja do bolo.
“It’s not a prayer as any man of the cloth would be proud of, I grant you, but to my renegade deities, Matelotage and Mutinity, it’s the sentiment that matters, not the subtlety; and bless them if they don’t look out for their beloved sonâ€.
Para fechar o livro e a resenha, um conto redondo e bem pensado sobre os efeitos do tempo. Ever so much more than twenty de Joshua Lewis conta a história de um cara que teve um relacionamento com um silfo da floresta quando adolescente. Quando ele muda de cidade, abandona o silfo, mas não deixa a fantasia sumir de sua vida. Faz isso contando histórias fantásticas para a filha, mesmo depois que ela cresce. Mais tarde, ao romper um relacionamento amoroso com seu parceiro, ele decide voltar para o lugar onde viveu na adolescência e acaba reencontrando o silfo. Tudo na história gira em torno da relação dos personagens com a idade. Ao falar do casal, Joshua mostra um cara de cinqüenta que quer parecer um de vinte, enquanto o outro não luta contra a idade, apesar de não ficar feliz com os fios brancos que aparecem. O silfo tem a aparência eternamente jovial, mas é muito mais velho do que o protagonista. Com fluidez e bem amarrado, impressiona o fato de esse ser o primeiro conto publicado do autor.
“She was called Jane, and always had na Odd inquiring look, as IF from the moment she arrived she wanted to ask questions. When she was old enough to ask them they were moustly about faeriesâ€.
Café Espacial
Recebi a revista Café Espacial números 4 e 5 junto com o informativo Quarto Mundo número 3. As duas publicações formam uma combinação interessante, quase um diálogo proposital.
A Café Espacial é uma publicação de quadrinhos, arte, ilustração, literatura, fotografia e, acredito, qualquer coisa desde que ousada e interessante o suficiente.
O conto Contramão do Sergio Chaves, por exemplo, nos mostra que apesar dos blockbusters atuais, o fim do mundo pode sim ser um tema interessante. A revista ainda tem uma seção com resenhas musicais que, de uma vez só, conseguiu fomentar a minha curiosidade para conhecer umas 10 bandas das quais nunca tinha ouvido falar (culpa minha, sem dúvida).
Dos quadrinhos, o que mais gostei foi o F for Knife, de Biu e Shiko. “Entre sua janela e a do quinto andar ocorreu-lhe que Hulks são de Marte e Smurfs são de Vênus†é daquelas frases para virar tagline ou, um sendo pouco mais atual, um twitt. HQs, aliás, são o grande forte da revista. Propostas inteligentes e traços fantásticos.
Para não dizer que não falei de espinhos, achei as resenhas de cinema jornalÃsticas demais, muito didáticas. Acabam conflitando com o resto da revista. Não que tenha algo de errado em ser didático, apenas não me pareceu fazer parte da linguagem da publicação.
O informativo Quarto Mundo, também muito voltado para HQs, tem no número 3 uma que mistura fotografia com traço. É uma proposta interessante e um exercÃcio importante de linguagem mas confesso que me causou a mesma estranheza que senti quando vi Waking Life, uma animação que usa a técnica de rotoscopia, ou seja, desenhada em cima de uma referência filmada.
A Café Espacial número 5 traz o ensaio O olhar cansado, de Luc de Sampaio, sobre o qual comento no podcast em que entrevistei o fotógrafo, de quem sou grande fã.
Kafka
O espetáculo Kafka, da Cia. Borelli de Dança, foi um dos eventos que a Livraria Cultura ofereceu em sua Virada/2009.
Não pensei nisso antes. Mas nada como Kafka. Digo, em todas as artes passamos pela mesma indagação sobre o próprio processo de fazer arte. A pintura discutiu a superfÃcie da tela, a tinta e o gesto. A literatura apresenta metalinguagens até hoje.O fazer artÃstico voltada para ele mesmo, suas questões e processos, em uma época de perda de referências, de estabilidades, foi um fenômeno meio que universal e atingiu todas as linguagens. A situação kafkiana de descobrir-se na forma de uma barata, nesse contexto, não podia ser melhor. A necessária indagação sobre o próprio corpo é, de fato, ideal para uma dança voltada, não para uma narrativa, mas para as próprias possibilidades do corpo como meio de expressão.
O espetáculo abre com quatro bailarinos que se espelham uns nos outros em seus movimentos, formando um corpo único. Eles se analisam. Já começa muito bom, no espanto perante braços e pernas que lhes (nos) parecem novos.
Às vezes tal corpo único é 3/4 barata e 1/4 resistência. Outras vezes tenta conter, todo ele, a baratice galopante. São tentativas de um andar ereto, tentativas de dignidade. Mas sempre algo – um pé que se torce incontrolável, uma perna a tremer ou os dedos da mão, nervosos – vence e retoma os movimentos frenéticos de antenas e patas. Em outras vezes a barata quatrinca explora seus novos limites – os fÃsicos, de seu novo corpo, e os geográficos, do palco fechado.
O coreógrafo Sandro Borelli traz, nessa obra, uma tonalidade nova e interessante para o drama kafkiano da perda da liberdade. Uma interpretação sexual. É um dos momentos, aliás, de que mais gostei. Os bailarinos, exaustos da luta contra a baratice, estão inermes no palco. Mas, pouco a pouco, vêem o movimento baratal renascer de suas mãos, postas em concha sobre o sexo. Um por um, dedos começam a se agitar qual patinhas, qual antenas. Uma hipótese que assim é lançada: aprisionado por limites sociais, econômicos e geográficos, o corpo busca a si mesmo. Uma condição de fechamento, de não alteridade, que inclui o sexo. A claustrofobia, a não-saÃda do corpo para além de si mesmo é o auto-erotismo. Que é, necessariamente, um homoerotismo. Nesse momento, os bailarinos se dividem, os dois homens ficam, as duas mulheres somem. Depois, isso vai se inverter. Ficam as duas mulheres, somem os dois homens. E entra uma sutileza também bonita. Os dois homens tem, a acompanhá-los, sons animais. As duas mulheres, uma espécie de canto/lamento. Na sequência, fica no palco uma das mulheres e voltam os dois homens. Eles tentam interagir com ela. São ações brutas, mas não intencionalmente brutas. Uma brutalidade de quem não se sabe bruto – ou não acha isso relevante. A brutalidade inclui tentativas canhestras de uma sexualidade desinformada. Mas não resulta. No final, a bailarina, “morta”, tem seu corpo analisado e cutucado pelos dois homens. Eles tentam deixá-la em várias posições, nenhuma satisfatória. Eles se entreolham a cada uma dessas tentativas. São eles os cúmplices, ela a estranha. Eles se unem sobre ela, cai uma saliva/esperma sobre seu rosto. É uma saliva/esperma comunal dos dois.
E depois ela é abandonada, inútil.
Há alguns pouquÃssimos momentos de quase-humor no espetáculo. Sempre que vejo uma obra que parta de Kafka sinto falta de humor. Aqui, pelo menos, o humor não está ausente, em que pese a roupa preta e séria dos bailarinos, o palco minimalista, também preto. E a ausência quase total de sons ou música. Kafka, você deve saber disso, achava que estava escrevendo textos de humor. É raro alguém sacar sua enorme ironia. O personagem Gregor, depois de carregar a famÃlia inteira nas costas, trabalhando para sustentá-la, acaba virando uma barata. Mas as coisas vão se arranjando mesmo assim. A irmã leva comida. O resto das pessoas o ignora como sempre fez. O pai acaba conseguindo um novo trabalho. A vida segue. Ele continua lá. Ter se tornado, fisicamente, a barata que sempre foi não faz lá muita diferença.
Rádio UNESP
Entrevista do Eric Novello na Rádio UNESP (mp3).
Entrevista com Fábio Fernandes
1. Qual a premissa de Os Dias da Peste?
“Os Dias da Peste†é a minha resposta a uma pergunta sobre uma questão simples: qual o nosso verdadeiro grau de dependência das máquinas? O “gatilho†que deflagrou a história foi o filme Matrix, que gerou o conto original, Um Diário dos Dias da Peste, escrito em 1999 e publicado em 2000 na coletânea de contos Interface com o Vampiro. Apesar de ter adorado o filme, sempre me incomodou muito esse clichê de as-máquinas-vão-dominar-o-homem. Por dois motivos: primeiro, as máquinas já dominam o homem. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, todo mundo depende de carro ou de metrô (as pessoas também pensam que “máquinas†são apenas computadores, aliás), onde as pessoas não dependem de máquinas? Quando a Internet sai do ar, as pessoas não ficam malucas? Quando você está numa fila de banco e o caixa diz: “caiu o sistemaâ€, qual é a sua reação? Há algum tempo, num papo com o Fausto Fawcett, ele me disse o seguinte: “Antigamente o pessoal queria derrubar o sistema. Hoje neguinho fica puto quando cai o sistema.†É por aÃ. Os Dias da Peste contam a história de um perÃodo no futuro bem próximo em que o sistema cai e isso provoca um “caos informáticoâ€, mas não só. As conseqüências desse caos acabam sendo maiores do que se esperava, e não necessariamente negativas para a humanidade.
2. Você construiu uma relação acadêmica com o tema em seu livro “A construção do imaginário Cyber”. De que maneira isso é diferente ou complementa a sua relação de autor com o universo ciberpunk de “Os Dias da Peste?â€
Quando comecei a escrever, não pensava que iria algum dia estar na academia. Mas ao entrar para o Mestrado de Comunicação e Semiótica na PUC-SP, onde pensava inicialmente em fazer uma pesquisa sobre hipermÃdia, descobri com minha orientadora, a net-artist Giselle Beiguelman, que a ficção cientÃfica estava em alta na academia por suas vinculações com a cibercultura – mas que, pelo menos no Brasil, ninguém havia pensado até então em explorar essas relações muito a fundo. (Na verdade, como eu viria a saber logo em seguida, havia uma pessoa fazendo essa pesquisa junto comigo, e no doutorado: Adriana Amaral, que publicou sua tese sobre a relação entre Philip K. Dick e os cyberpunks como um excelente livro, Visões Perigosas.)
Então desloquei o foco do mestrado para a ficção cientÃfica como formadora, moldadora da cibercultura como a conhecemos hoje (na mesma linha que o Henry Jenkins defende também) e acabei escrevendo uma dissertação sobre a obra de William Gibson, que se transformou no livro A Construção do Imaginário Cyber. Isso acabou reforçando meu lugar na ficção cientÃfica brasileira não só como escritor de histórias relacionadas ao cyberpunk como também um pesquisador e professor que contribui para a informação e formação de novos autores e leitores. Isso tem me agradado imensamente, porque tem surgido uma novÃssima geração de leitores que está muito interessada no cyber e no pós-cyber – e já começa a escrever suas primeiras histórias.
3. Tem uma frase do prefácio da Adriana Amaral que acho excelente. Reproduzo mais ou menos aqui: “Mas é na descrição acurada, e não na extrapolação, como diz Ursula Le Guin, que a FC, ou sci-fi (…) mata a cobra e mostra o pau!†Como essa idéia se relaciona com o seu romance?
Eu sou um apaixonado pela palavra. Desde sempre. Uma coisa que talvez poucos saibam a meu respeito é que eu comecei escrevendo poesia e teatro. Meu primeiro prêmio literário foi um prêmio nacional de dramaturgia que ganhei aos 19 anos, por um conjunto de esquetes, um dos quais foi adaptado em 1998 e foi levado aos palcos cariocas sob a direção de Luiz Armando Queiroz (Vestidos Brancos, a última direção do Luiz, aliás, um trabalho belÃssimo dele que muito me honrou). Continuo escrevendo poemas que jamais publicarei e microcontos cujo foco é mais a forma que o conteúdo, embora eu não abra mão do sentido. Rosa, Leminski e Osman Lins estão entre meus autores mais queridos, de cabeceira. Catatau é leitura constante, oracular (volta e meia pego e abro ao acaso, leio e mergulho na narrativa caudalosa de Leminski). Talvez por isso, embora a extrapolação me fascine, a descrição mexa mais comigo. Gosto imensamente de descrever coisas, cenas, lugares, pessoas. Nem sempre sou rigoroso como quero, mas, como diz um poema de Margareth Castanheiro, que li quando jovem e nunca mais esqueci, “O acerto pode ser incerto/mas o erro tem que ser exatoâ€.
4. A ficção-cientÃfica abre espaços para discussões que não seriam possÃveis na literatura do cotidiano (o tal mainstream)?
Abre. A literatura de ficção cientÃfica faz parte do conjunto-universo que se convencionou chamar de literatura de invenção (muito embora praticamente toda literatura seja de invenção, mesmo as biografias), e isso nos dá uma excelente desculpa para tratarmos de todos os temas que a dita Literatura com L maiúsculo teme falar. Vou citar um exemplo que não pertence à esfera da FC mas pode dar uma idéia interessante: os romances históricos/conspiratórios/de ação na linha O Código Da Vinci. Recentemente eu estava conversando com um editor de uma grande casa editorial carioca (não posso citar nomes) e ele me disse que seu maior sonho era publicar um similar nacional do Best-seller de Dan Brown, e que ele próprio volta-e-meia convida autores brasileiros de porte, conhecidos, ganhadores do Jabuti e de outros prêmios, e a resposta é sempre a mesma: a maioria até gostaria de escrever um livro assim (vários inclusive afirmaram secretamente gostar desse tipo de literatura), mas jamais o faria por medo de ficar mal com a crÃtica e os colegas. Daà o horror, o horror, citando Conrad. Mas a FC é a literatura-Oscar-Wilde, ou seja, a que não tem medo de dizer seu nome: ela fala com absoluta tranqüilidade de seres alienÃgenas, universos paralelos, outros planetas, futuros distantes, muito embora (e grande parte da crÃtica brasileira parece ainda não ter entendido isso) continue falando da nossa realidade, do nosso presente, apenas com outra capa. É um outro modo, bastante elegante, de tratar de angústias e ansiedades. A capa de um realismo mais duro e cruel já foi muito bem tratada por Hemingway, Bukowski, Fante. A FC pode até explorar territórios semelhantes, mas com outros mapas.
5. Qual foi sua rotina de escrita do livro? Escrever um romance exigiu mais disciplina do que você precisava ter como contista?
Muito mais. Contos têm dinâmicas muito particulares, dependendo do tamanho ou da estrutura. Posso levar um dia ou dois meses para escrever um conto, e eles podem variar entre uma e vinte páginas (à s vezes escrevo textos de trinta ou quarenta, mas atualmente têm sido mais raros). Para o romance, entretanto, me impus uma disciplina rÃgida: trabalhar todas as manhãs pelo menos uma hora. Isso me deu, ao fim e ao cabo, uma média de quatro laudas por dia (cerca de mil palavras). No caso de Os Dias da Peste, como eu já tinha dois textos-guia (além de Um Diário dos Dias da Peste, usei também sua continuação, Interface com o Vampiro, escrito em 2000 e publicado também na coletânea homônima). Eram mais ou menos trinta laudas – que acabaram virando 265 em pouco menos de um ano. Preciso dizer que nesse tempo escrevi o livro inteiro e fiz um sem-número de revisões – pelo menos umas nove. Ou seja, 265 laudas foram o produto final, mas devo ter escrito pelo menos o dobro disso.
6. Em uma palestra ouvi você dizer que os autores nacionais não ficam devendo em nada aos autores lá de fora. Disse isso quanto à qualidade dos textos. E na ousadia dos temas trabalhados? Já conseguimos manter paridade?
Não, na ousadia ainda não. Temos boas exceções, claro. Jacques Barcia, por exemplo, é uma delas. Ele sempre consegue me surpreender com histórias belas e terrÃveis, e domina o inglês (lÃngua em que escreve a maior parte de suas histórias) como poucos. Mas percebo que acabo de incorrer num paradoxo: nosso melhor autor dos últimos dois anos talvez o seja justamente porque escreve em total sintonia com o que se escreve lá fora, e não aqui. Eu mesmo sofro de uma terrÃvel esquizofrenia literária: neste ano já publiquei uns oito contos em inglês, que têm sido elogiados lá fora, com temas steampunk e new weird, mas que escrevo com uma grande preocupação em não reinventar a roda, ou seja, não fazer o que já fizeram antes. Os Dias da Peste é um livro cujo tema já foi muito explorado no mercado anglo-americano, e sou altamente devedor a nomes como William Gibson, John Shirley e Pat Cadigan, apenas para citar alguns. Mas não sei se (como alguns colegas americanos meus já me perguntaram) este livro será algum dia traduzido ou reescrito para o inglês. Acho que o cyberpunk é um subgênero que subitamente encontrou uma grande revitalização no Brasil, mas nos EUA e na Inglaterra tomou outro rumo, não tem mais a mesma pegada.
7. O quanto o autor Fábio Fernandes é ciberpunk? Qual a sua relação com os gadgets atuais?
Quem me olha deve achar que eu sou um sujeito completamente sem noção. Na verdade, apesar de ter tido uma formação como técnico em eletrônica no segundo grau e um conhecimento básico de programação, essa linguagem não é o meu forte (embora tenha me aventurado bem de leve nos últimos tempos, por conta dos cursos de tecnologia onde leciono). Mas sou fanático por dispositivos de última geração e procuro estar sempre por dentro das últimas tendências. Não tenho grana para ter os top de linha nem gosto de ser beta-tester (estou mais para delta ou gama-tester, mais pro fim da fila), mas tenho meu iPhonezinho, meu netbook e estou sempre conectado onde quer que eu vá. Ou onde quer que as redes wi-fi e 3G permitam, claro.
Entrevista com Sérgio Pereira Couto
01. Com 150.000 exemplares vendidos, quase 30 livros publicados, você joga pelo ralo a noção geral de que autores nacionais não vendem bem. Qual a sua opinião sobre o nosso mercado editorial? Ter um currÃculo desses facilita na hora de negociar a próxima publicação?
Bem, vamos por partes. Os autores nacionais não vendem bem porque insistem em explorar áreas que não são de interesse do público em geral. Meus livros de pesquisa histórica, por exemplo, são todos calcados em assuntos que são atraentes ao público, que não possuem similares em português que sirvam de introdução ao assunto e, ao mesmo tempo, mostrem um lado simpático da História. Por exemplo, quem nunca quis ler um pouco sobre Piratas, Lendas Chinesas ou entender de maneira não acadêmica a história da civilização romana? História é muito mais do que uma enorme lista de nomes e datas, é também uma fonte inesgotável de tramas que, mais tarde, podem ser aproveitadas num romance de cunho histórico. Pessoas do mercado editorial já me falaram que cerca de sete em cada dez romances publicados tem um pé em algum fato ou lenda retirados da história da civilização humana. Então por que não fazer com que o público tenha acesso a esses assuntos de uma forma divertida? O nosso mercado editorial, infelizmente, ainda é regido por uma regra, que é a da “onda da vezâ€, ou seja, quando um assunto faz sucesso, exploram até que não venda mais. O que você, como autor, pode fazer é tentar sempre dar um ângulo novo para o assunto e aguardar que o editor caia na real e veja que aquilo não dá mais. OU arriscar, com uma boa lábia de vendedor, convencer sua editora a investir X mil reais num assunto que pode vender muito ou pouco, mas quando não corresponde à s vendas, a culpa pela insistência na publicação cai invariavelmente no autor. E por fim afirmo: ter um currÃculo desses facilita sua aproximação com as editoras, mas não garante que você seja um best seller a ponto de vender qualquer coisa para o editor. Você passa pela avaliação normal que os demais passa. A vantagem é que veem sua proposta com mais atenção do que a dos demais, mas o processo de seleção é o mesmo, seja para livros de pesquisa ou para romances.
02. Está havendo um movimento discreto das nossas editoras para encontrar autores com capacidade de escrever Best-sellers, literatura de entretenimento de qualidade. Por que agora e por que só agora?
Há vários motivos para isso e a maioria deles envolve certos parâmetros de vendagem que apenas aqueles que mais estão centrados no mercado compreendem. O que posso afirmar, baseado no que observo nas listagens de mais vendidos, é que há muito da “onda da vez†envolvido nisso. Por exemplo, até o advento das obras de André Vianco, não havia muito interesse em vampiros, que era um assunto restrito apenas aos adoradores do gênero. Depois do Vianco e com o advento da série Crepúsculo, o assunto deixou as esferas dos adoradores e se tornou assunto até mesmo de yuppies. O que nos leva a crer que a “onda da vez†não é um fenômeno só de livros, pois envolve adaptações para outras mÃdias, principalmente quando se tornam filmes. Antigamente o livro dava origem ao filmes e era, depois disso, até ignorado e esquecido. Hoje é o filme que dá origem a novos leitores, que procuram o livro para ver como é a história original. Por isso as editoras, ao sentirem o potencial da tal série, investem em continuações e trilogias. E isso fascina o leitor, que gosta sempre de voltar aos cenários e personagens conhecidos, e até mesmo a esperar desfechos de tramas à lá novela das oito, como aconteceu com o final da série Harry Potter. Há fãs que simplesmente odiaram e outros que adoraram, mas ninguém deixou de fazer fila para comprar o último livro, o que deverá acontecer de novo quando chegar o filme. Ligados nessa tendência, as editoras nacionais querem encontrar um André Vianco que esteja fora da “sociedade vampÃricaâ€, por assim dizer, e ver outros segmentos, como policial, aventura e suspense, entre outros, encontrarem suas contrapartes. Quem sabe, quando sair o primeiro filme baseado numa obra do Vianco, vejamos esse movimento se intensificar ainda mais.
03. Sociedades Secretas está indo para a terceira edição. A trama envolve Maçonaria, Priorado de Sião, DeMolay, Rosacruz. Dá para dizer que há um parentesco com os livros de Dan Brown em questão de tema e estrutura?
Na verdade não. Dan Brown segue uma mesma estrutura de história e possui poucas variações em suas tramas. Meu livro começou como um livro de entrevistas, ou seja, foi baseado em entrevistas reais com representantes das sociedades mais “pop†e era originalmente um guia para orientar as pessoas interessadas em entrar nesse mundo. Foi escrito pelo menos dois anos antes de estrear O Código da Vinci. Foi ideia do editor romancear o livro para ser mais fácil de ser entendido pelas pessoas. A primeira edição saiu poucas semanas depois do livro de Brown e fez sucesso a ponto da editora pedir uma segunda edição com capÃtulos extras. Assim o leitor pode ter nada menos que 12 capÃtulos a mais, com sociedades secretas que só existem no exterior. Esta nova edição, a terceira, traz um novo visual e um novo projeto gráfico, mais a ver com o tema do que as anteriores. O tema é bem simples: dois interessados em conhecer as sociedades secretas se envolvem no mundo de conspirações que, invariavelmente, é evocado pelo próprio assunto. Porém, ao contrário dos livros de Brown, eles não procuram iluminação ou algo do gênero, mas sim esclarecimento e informação. Afinal, informação e poder nos dias de hoje e conhecer onde se põe o pé pode ser a diferença entre a vida e a morte. O livro não se passa num perÃodo de 24 horas como os de Brown, o que já facilita um pouco a compreensão. Mesmo assim é uma aventura que agradou ao público, principalmente por evocar as paisagens e cenários europeus tão caracterÃsticos da história der maçons, templários e rosacruzes, afinal foi lá que a maioria dessas sociedades secretas nasceu.
04. Escrever livros de pesquisa mudou em alguma coisa o seu processo de escrita de romances?
Sem dúvida nenhuma que sim. Para a maioria dos escritores iniciantes é sentar e pensar numa história sem prestar atenção a detalhes da trama. A maioria se esquece que quanto mais sua trama mostrar detalhes que possam ser acessados por uma simples consulta no Google, mais interessado o leitor ficará. Principalmente quando se mexe com fatos históricos. Até mesmo ao contar lendas e mitos devemos ter esse cuidado. Ou teremos uma polêmica desnecessária como a de Brown quando afirmou sobre a existência do Priorado de Sião como sendo da época dos templários. Eu tive oportunidade de estar na Biblioteca Nacional de Paris e vi os tais documentos do tal Dossiê Secreto. Uma criança de sete anos num microcomputador faz algo mais crÃvel do que os papéis que lá estão que, claramente, não são históricos, apenas estão depositados por lá. Sua credibilidade como autor depende do fato de que sua trama , caso se baseie em coisas reais, seja de fato bem pesquisada. Se você quer mesmo fazer uma ficção, então pelo menos mude o nome das coisas, assim sua criatividade pode ir longe. Ninguém jamais disse que Brown não podia ter trocado o Priorado de Sião por, digamos, o Priorado de Nazaré, que teria sido fundado por um grupo de monges que eram na verdade alienÃgenas do tipo grey. A partir do momento em que você se propõe a trabalhar coma realidade, você tem a obrigação de fazer uma pesquisa séria para enriquecer sua trama. É isso que procuro fazer o tempo todo. Meus livros de pesquisa já me deram muitas ideias para romances, alguns já escritos e que aguardam publicação, outros ainda por escrever.
05. Seu Investigação Criminal recebeu elogios de profissionais da área. Acha que programas como CSI abriram um novo campo para a literatura policial?
Sem dúvida que sim. Programas sobre investigação forense são sempre muito bem-vindos porque, ao contrários de histórias que mostram o “mundo cãoâ€, elas possuem um glamour que desperta o interesse das pessoas e acoberta um pouco o aspecto criminoso e violento das ocorrências. Enquanto fazia minha pesquisa para esse esse livro, por exemplo, passei uma semana com os profissionais de vários setores da PolÃcia Técnico-CientÃfica de São Paulo, que me contaram muitos casos e deram muitos exemplos práticos. Um deles falava sobre um estudante que era fissurado em todos os aspectos de CSI e que chegou lá louco para participar de uma autópsia. Chegou a recusar passar pomada tipo Vicky Vaporub no nariz para disfarçar o cheiro porque nunca tinha visto isso no seriado. Quando entrou na sala do IML não aguentou cinco minutos: teve que sair correndo para vomitar no corredor. Mais tarde ele comentou com os investigadores que era mais difÃcil do que aparentava na TV. O trabalho desses profissionais é admirável até mesmo pela falta de recursos. Quando escrevi o livro muitos chegaram a comentar comigo sobre esse aspecto. Afinal, o laboratório dos CSIs é tão cheio de tecnologia de ponta que nem dá para imaginar que, enquanto em laboratórios como o de Little Rock, no Arkansas (onde se passa minha história) eles usam lasers para determinar a trajetória de uma bala, aqui fazem a mesma cosia com barbantes. E com resultados tão bons quanto os dos norte-americanos. Eles aqui fazem milagres para resolver os crimes. Se voltarmos um pouco no tempo veremos que muto do que foi apresentado em histórias de Edgar Allan Poe, Sir Arthur Connan Doyle e até mesmo em Agatha Christie tem coisas que são aprendidas quando se estuda ciência forense. E esta, à parte os insetos e pedaços de cadáver e outras coisas nojentas, é um campo formidável e promissor.
06. E o próximo passo? Sérgio Pereira Couto encontrou seu nicho ou tudo é possÃvel?
Sim, creio que a ficção policial é mais interessante e cheia de promessas do que o mistério das sociedades secretas. Mas trabalho com literatura de mistério, acima de tudo, e essa área permite que você explore tudo, do romance policial cientÃfico ao noir, do mistério histórico à s sociedades secretas. Se for algo que renda uma boa história que possa até mesmo ser lida num dia só, estarei satisfeito, pois o leitor interessado gosta de ler sem parar. E isso é extremamente gratificante.
Variação para a mesmice
Inês Pedrosa, escritora portuguesa, lançou no Brasil A eternidade e o desejo. O livro fez algum sucesso e autora participou da última FLIP. A capa do livro o denuncia. Envolta nas fitas do Senhor do Bonfim, que anunciam seu conteúdo, apresenta como pano de fundo um dos altares barrocos das igrejas baianas. A cor de Exu predomina. Todos os elementos presentes na capa aponta para a necessidade de identificação realista do conteúdo que se desenvolverá.
Em certa medida, a narrativa, emoldurada pelas palavras do Padre Antônio Vieira, vai se cumprindo a partir da formulação que os autores, que intentam fazer falar a cidade, buscam. O livro de Ana Miranda – Boca do Inferno – cai na mesmÃssima tentação, como o baino, por profissão, já havia caÃdo. Em Jorge Amado, a cidade – presa da magia – se mostra na sua mitificação plena. Em Ana Miranda e Inês Pedrosa, a mistificação é apenas corruptela.
Se o narrador histórico-biográfico em Ana Miranda desvela um Gregório anacrônico, que, entre mulateiro e pervertido, constrói uma cidade idealizada, em Inês Pedrosa, a narradora, cega, passa da auto ironia a auto comiseração e aceitação, a partir de um amor idealizado; de sua condição e da perda da causticidade privilegiada que a cegueira jogara-lhe no colo. Ao fazer-se portadora da boa nova – a gravidez do final do livro – apaga literalmente o diálogo com Vieira e com a condição de excluÃdo que o Padre alcançara na Bahia.
Os elementos estão todos dispostos na narrativa. A primeira viagem que empreende à Bahia se dá a partir de um amor arrebatador por Antônio, que lhe causará a cegueira quando tenta proteger o amante de um tiro. A confluência de um Ântônio por outro não chega a constituir um elemento narrativo de realce posto que o contraste se indetermina em uma causa óbvia.
Na segunda viagem apreendida à Bahia, Clara desce na cidade acompanhada de Sebastião, amigo por quem tem amizade e que lhe devota uma paixão tão arrebatadora quanto idealizada. A escolha do nome Sebastião está intrinsecamente ligado ao Rei menino que morre em Alcácer-Quibir e me parece que Inês Pedrosa busca realçar este fato, tanto na esterilidade deste amor quanto no anacronismo que o amor idealizado representa. A partir desta condenação amorosa esperava-se que A eternidade e o desejo buscasse definir o amor em termos libertários.
Clara, a partir do contato com uma mãe-de-santo, se envolve com um cineasta local que vai revelar a ela os segredos do amor. A reveleção, entretanto, mais causa pavor do que arrebatamento. Explica-se: Ao resolver romper com seu passado português, a narradora cai nas armadilhas do amor satisfeito, bem arumado e consolador, através do estancamento da aventura, isto é, da gravidez que denuncia a auto complacência da narradora e o nosso pavor.
VÃtimas da mistificação, as narrativas sobre a cidade da Bahia, a de Ana Miranda, a de Inês Pedrosa ou a de seu Grão Senhor, desde logo colocam um problema para a formulação do literário – quando se querem realistas não dão contam do que é o fictÃcio, pois afirmam-se sobretudo por uma visada sociológica e não ficcional; quando se querem fantasiosas, ou fantásticas, não dão conta do ficcional por estarem presas à mitificação da geografia narrativa, que é uma outra forma de dar conta da realidade ou mesmo de provocar no leitor o gosto pela mesmice.
Uma inexistência existente ou variação para idéias naturalmente falsas
Do novo livro de Dora Ribeiro, A teoria do jardim, extraem-se flores raras. O topus a que remonta o tÃtulo é antigo na poesia universal. Desde a Priapeia, o jardim, como lugar poético, vem sendo tematizado. Se nele, afigura-se a poesia como espaço do utilitarismo, ao longo das construções dos jardins poéticos, a poesia utilitária cede lugar para outra forma de poesia que se escreve distanciada desta dicção. No século de ouro espanhol, fala-se de um jardim das delÃcias.
Se nestes jardins o poema afigura como apêndice de uma vontade ou de uma tópica; nos jardins de Dora, o poema se constrói como forma de reflexão sobre a linguagem, aliás, de uma teoria sobre e sob o jardim. Uma teoria que se define e é definida pelo pensar do jardim. A teoria só é válida quando interroga seu objeto e dele extrai não formulações especÃficas que possam ser aplicadas, mas é instrumento de pensamento no qual se debruçam os que vêem validade na percepção do ainda inconcebÃvel, do ainda imperceptÃvel, dos que permitem que se vislumbrem estruturas para dizer do mundo. Não seria demais afirmar que a formulação de uma teoria é a de um universo centrado tal qual como no poema.
Dora alia o poema e o pensar ingente sobre o mundo. Teoriza flores de jabuticaba, na bela dedicatória para Camila, que nos faz, com a ligeireza de quem não quer nada, adentrar nos portais da poesia e nos surpreender com as flores, outras flores, antes inexistentes, ali colhidas. Como sombra pesam as flores baudelaireanas. Como sombra, as maravilhas de Alice. As referências das sombras se cumprem para serem despedaçadas. Se, como em Baudelaire, se, como em Carrol, o pensar literário propõe lógicas obliteradas pelo senso comum, em Dora, este pensar determina um mergulho distanciado na concepção do poético contemporâneo.
Não é que ao fazer-se contemporânea, ao tomar a poesia como forma da sensibilidade do sujeito, a poeta o faça distanciando o sujeito das observações da sensibilidade imediata, que derivam do próprio sujeito. Esclareço. O sujeito que pensa a poesia de Dora Ribeiro é sempre um sujeito que se sujeita ao ritmo do fazer deslocado da ficção, isto é, é um não-sujeito sem deixar de autocentrar-se no eu. As marcas da pessoalidade se apagam, se desfazem ante a percepção de que aquele sujeito é um sujeito aquele e não este. Leia-se:
os caminhos perseguem ideias
naturalmente falsas
arranjos do tempo
obliqüidades e temperamentos
A obliqüidade, esse maravilhoso quase paradoxo, que se situa na “ideia naturalmente falsa†sob a perseguição de um caminho, permite que se perceba a força que o poema tornado ficção detona. Se são as idéias arranjos e temperamentos num ambiente – o da escrita – que se torna naturalmente falso – o lugar da descoberta da palavra é fabricado como uma inexistência existente, assim como o do sujeito que pensa nas relações entre o objeto e seu significado – é um lugar que, antes de existir, só existe na linguagem.
Neste sentido, o Jardim de Dora é antes de tudo uma teoria, isto é, existe para que exista essa possibilidade de jardim e não o jardim prévio no qual os poetas do passado plantaram suas flores referenciadas tanto para negá-las quanto para delas criarem as possibilidades de localizar sua geografia e envolvimento religioso, ou o jardim dos poetas mais próximos que o tomaram como lugar das delÃcias ou das tensões provocadas pelo mal-estar da civilização, que perde seu jardim e propõe flores negativas, usurpadas.
Sejam uns, sejam outros, o jardim sempre foi o espaço que derivou de uma geografia privada e pública. O que Dora, com sua teoria, busca alertar ao leitor é que os jardins pertencem à linguagem e como linguagem são lugares para que se ensaiem existências prováveis, possÃveis ou ainda carentes da percepção na qual o olhar desta inexistente existência se fixa como um real que, entretanto, ainda não se fez – senão que como livro – como real.
Entrevista com Steve Berman
01. Para começar, gostaria que me ajudasse a definir a ficção especulativa gay. É a ficção especulativa com personagens gays ou são histórias gays com um toque de literatura fantástica?
Pode-se argumentar que sejam ambas. A pergunta mais fácil é o que faz uma boa história de ficção especulativa gay. Os elementos fantásticos devem complementar os temas e personagens gays. É como na culinária – você não quer que um único ingrediente domine os outros. Ser gay é como ser o “forasteiro†– um papel que se encaixa em muitos protagonistas da literatura fantástica.
02. Como é o mercado para esse tipo de literatura no seu paÃs? No Brasil, os personagens e amores gays existem, mas não chega a haver volume que marque o surgimento de um gênero, como me parece ser o caso em outros mercados.
Nos Estados Unidos, tÃtulos com orientação gay ainda são um tanto quanto incomuns. Mais mulheres do que homens americanos lêem livros, então você pode observar um número crescente de livros que podem ter apelo além do público gay tradicional. Isso dito, acredito que um ótimo livro cria “ondas de público leitor†no mercado. Os cÃrculos internos são o público-alvo do autor, mas os cÃrculos externos são aqueles que ele nunca esperava. Vintage foi originalmente escrito para leitores adolescentes gays, mas eu sei que muitos adultos gays ou mulheres heterossexuais gostaram do livro.
03. Eu vejo em filmes gays um problema da repetição dos dilemas. Tem sempre alguém que briga com o melhor amigo ao descobrir a própria sexualidade, sofre preconceito da famÃlia, se apaixona pelo cara heterossexual da faculdade, tem dificuldade de adotar um filho, tem um amigo com AIDS. Às vezes, tudo isso no mesmo filme, em 1h30 de duração. Na literatura, você acha que a vida gay é tratada de forma mais ampla?
Eu acho que tem um movimento crescente nos livros para mostrar que ser gay não é sempre tão simples ou estereotipado quanto a grande mÃdia apresenta. Em Wilde Stories 2009, que eu editei, tem caras que estão saindo do armário aos 40 e se sentem perdidos em uma cultura tipicamente gay, detetives de homicÃdio que lidam com homofobia, e até personagens muçulmanos em um ambiente tipo mil e uma noites.
04. Em Vintage, seu protagonista é um jovem gay que tentou se suicidar. Foi difÃcil trabalhar a faceta psicológica do personagem? O terror ajuda nessas horas?
A parte mais triste de trabalhar no Vintage envolveu a morte de um dos meus leitores beta – ele tinha apenas 14 anos e se enforcou no seu armário devido à depressão e a homofobia que enfrentava na escola. 14 anos de idade… foi uma tragédia que me afetou muito. Parte do narrador do livro é baseado nesse garoto.
Acho que todos nós temos nossos perÃodos de pensamentos mais sombrios, de impulsos autodestrutivos, e eu tentei incorporar isso tudo e mostrar que desistir em face da depressão não é a resposta.
05. Fale um pouco da Ãcarus Magazine.
Bem, eu realmente adoro ler boa ficção especulativa gay. Parecia ser o próximo passo para minha editora (Lethe Press / lethepressbooks.com) começar a publicar uma revista trimestral dedicada a essas histórias. O objetivo é ter alguma coisa especial, colorida e divertida para homens gays – e introduzi-los a um mundo com histórias que tem um toque do estranho e da fantasia. A edição mais recente, especial para Halloween, acabou de ser lançada. Onde mais você encontraria desenhos animados, histórias eróticas de vampiros, fofocas e um conto sobre a San Francisco do futuro?
Adoraria ver alguns autores brasileiros enviando trabalhos – no momento tem um foco mais americano, mas gostaria de ler um conto fantástico ambientado no Carnaval.
06. Para quem quer conhecer a atual produção de Fantasia Urbana Gay ou mesmo Fantasia Urbana, quais nomes você indica?
Alguns dos meus autores favoritos são Holly Black, Cassandra Clare, Ellen Kushner, e Lee Thomas. Todos têm conteúdo gay, em proporções variadas, e suas histórias são cativantes e cheias de vida.
English version:
01. For starters, I’d like you to help me define gay speculative fiction. Is it speculative fiction with gay characters or are they gay stories with a touch of fantasy literature?
SB: Arguably, both. The easier question is what makes a good gay spec fic story. The fantastical elements should compliment the gay themes and characters. It’s much like creating cuisine – you don’t want any single ingredient to overpower the others. Being gay is akin to being the “outsider†– a role that befalls many protagonists in fantastic literature.
02. In Brazil, gay characters and Love stories exist, but there is not enough volume to mark the appearance of a subgenre, like it seems to be the case for other markets. What is the market for this ‘genre’ of literature in your country?
SB: In the United States, gay-oriented titles are still rather uncommon. More American women than men read books, so you are seeing a growing number of titles that can appeal beyond the usual gay readership. That said, I think a great book creates “ripples of readership†within the marketplace; the inner circles are an author’s intended readers, but the outer rings are ones he never expected. Vintage originally written for gay teenage readers, but I know many gay adult or straight females who have enjoyed the book.
03. I see in gay films a problem of repetition of dilemmas. There is always somebody who fights with their best friend when discovering their own sexuality, suffers from prejudice in the family, falls for the straight guy in collage, has a friend who is HIV positive. Sometimes all the problems in the same package, in 1 hour and a half. In literature, do you think gay life is handled more broadly?
SB: I think there is a growing movement in books to portray being gay is not always as simple or stereotyped as mass media presents. In Wilde Stories 2009, which I edited, there are guys who are coming out at age 40 and feel lost in typical gay culture, homicide detectives who deal with homophobia, and even Muslim characters in an Arabian Nights milieu.
04. In Vintage, your main character is a gay youngster who attempted suicide. Was it hard to work on the psychological aspect of the character? Does the horror element help you?
SB: The saddest part of working on Vintage involved the death of one of my draft readers—he was only 14 years old and hung himself in his closet due to depression and experiencing homophobia at school. 14 years old… it was a tragedy that affected me greatly. Some of the book’s narrator is based on this boy.
I think we all have periods of dark thoughts, of self-destructive impulses, and I tried to incorporate these and show that giving in to depression is not the answer.
05. Talk a little about Icarus your new magazine.
SB: Well, I do love reading good gay speculative fiction. It just seemed like the next evolution for my press (Lethe Press / lethepressbooks.com) to start publishing a quarterly magazine devoted to such tales. The goal is to have something special, colorful, and fun for gay men—and introduce them to stories that feature a bit of weirdness and whimsy. The newest issue, special for Halloween, just released. Where else will you find cartoons, vampire erotica, gossip, and a tale about San Francisco in the future.
I would love to see some Brazilian authors submit their work—right now it’s about American-centric, but I’d love to read a fantastic tale set during Carnivale.
06. For those who want to learn more about what is currently produced in Urban Gay Fantasy or even Urban Fantasy, which names would you recommend to get started?
SB: Some of my favorite authors are Holly Black, Cassandra Clare, Ellen Kushner, and Lee Thomas. They all have gay content, of differing amounts, and their stories are captivating and vivid.
No teu deserto
Acabo de descobrir que Miguel Sousa Tavares, o escritor e jornalista português, é filho de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma surpresa e tanto para mim, admiradora de sua obra poética, uma vez que ia justamente comentar que, após ter lido uma seqüência de romances de autores africanos de lÃngua portuguesa, senti uma enorme diferença entre os textos destes e o de Sousa Tavares – No teu deserto – lançado em setembro de 2009, pela Companhia das Letras. Estava já habituada à quela escrita bem poética e reflexiva dos africanos, por isso senti um certo impacto com a leitura do Sousa Tavares.
Não quero comparar os africanos com o português, muito menos dar a entender que, por ser filho de poetisa, Miguel Sousa Tavares deva ser poeta. Aliás, seu nome é Miguel Andresen de Sousa Tavares. Se não tivesse preterido o sobrenome “Andresenâ€, talvez tivesse imaginado sua filiação muito antes!
Mas isso não importa, o que interessa é que, filho ou não de Sophia (a mesma que teve seus versos introduzindo alguns capÃtulos de Antes de Nascer o Mundo, do Mia Couto), seu último romance, que dá conta de uma travessia do deserto do Saara e das implicações dessa aventura na vida do protagonista, um jornalista português, e de seu relacionamento com a companheira de viagem, uma garota bem mais jovem que ele, não é uma viagem perdida.
O que há de curioso para se observar é a diferença de comportamentos entre os dois, tendo em vista os significativos quinze anos de idade que os separam, o modo como um enxerga e interpreta as ações do outro, os objetivos profissionais e pessoais do jornalista, a falta de objetivos da jovem garota e o aprendizado da mesma durante esses dias de aventura. Na realidade, é curioso até o momento em que nos damos conta de que já conhecemos essa história, e percebemos que a narrativa não pretende nem nos surpreender nem nos encantar com a simplicidade de uma história banal, como muitas vezes acontece, de uma história ser bonita por ser simples.
Assim, sem muitos rodeios nem grandes descobertas, guiados por uma linguagem simples e objetiva, atravessamos o deserto e entramos na Ãfrica. Percebemos a existência de um possÃvel romance entre o jornalista e a garota, refletimos rapidamente sobre o silêncio do deserto e a impossibilidade, na atualidade, com todos os avanços tecnológicos relacionados à comunicação, de lidarmos com o silêncio. A era das comunicações, da tecnologia e da popularidade teria nos tornado incapazes de suportar a solidão e o silêncio. O deserto seria, portanto, o último destino procurado pelos viajantes dos dias de hoje. Não posso deixar de ressaltar que essa parte do texto, que começa na página 116 e, tão rapidamente, termina na página 117, é realmente fascinante. É o que oferece sentido à travessia do romance. Discussões sobre o silêncio e a solidão sempre rendem muitas reflexões e, em No Teu Deserto, a naturalidade e a fluidez que caracterizam essas divagações as afastam de qualquer possibilidade de serem apenas tentativas desesperadas de filosofar.
Outro ponto positivo é o fato de o romance ser curto, o que o poupa de ser cansativo.
No teu deserto
Miguel Sousa Tavares
Companhia das Letras
1ª Edição – 2009
(128 pgs.)
Sutura
Até outubro de 2009 fica em cartaz no Oi Futuro do Rio de Janeiro a peça Sutura, texto do escocês Anthony Neilson, dirigido por Felipe Vidal e interpretado por Cristina Flores e Lucas Gouvêa.
Em princÃpio, a peça aborda o transtornado relacionamento de um casal jovem, com dificuldades de comunicação, problemas com o passado e dúvidas em relação ao futuro. Num teatro diferente, em que são duas as platéias, e que ficam uma de frente para a outra, podendo o palco ser um mero obstáculo para a comunicação entre os espectadores, os primeiros momentos são de expectativa, uma vez que o tema e o ambiente são incompatÃveis: uma história batida num espaço novo.
No decorrer da peça, contudo, o tema ganha novos contornos, a começar pelo jogo temporal, que requer muita atenção e certa familiaridade com esse tipo de recurso, já que o vaivém abrange não só presente e passado, mas também um possÃvel futuro.
A partir daÃ, o texto torna-se surpreendente e o palco (que na verdade são dois, já que uma cortina semitransparente o divide em duas metades) transfigura-se em parte essencial da peça. Tudo vai bem, então, rumo ao ponto alto do texto, que em muito se assemelha aos Contos de terror, mistério e morte, de Edgar Allan Poe.
Em determinado ponto, para mim o auge, momento em que há uma tensa discussão entre o casal, que culmina numa cena grotesca (que não é possÃvel descrever!), um misto de choque, terror e contentamento tomam conta do teatro. Eis a hora mais indicada para o encerramento do texto. Como ficar melhor que isso, ou como manter tal nÃvel de euforia perturbada que domina a platéia? ImpossÃvel! Se fosse um dos contos de terror, mistério e morte teria terminado por aÃ, com uma platéia de espectadores muito surpresos.
Mas… A peça continua e acaba voltando para a calmaria inicial, para a discussão do relacionamento amoroso e toda aquela história. De todo modo, quem gosta dos contos de Poe vai, seguramente, aproveitar a experiência, ainda que os enfraquecidos minutos finais causem certo desânimo.
Sutura
Texto: Anthony Neilson
Direção: Felipe Vidal
Elenco: Cristina Flores e Lucas Gouvea
Até outubro de 2009.
Teatro do OI Futuro
(Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo/RJ)
O Prédio, o Tédio e o Menino Cego, de Santiago Nazarian
Um romance existencialista bizarro. Definição perfeita. Esta lá no meio do texto, nem fui eu quem disse, foi ele, ou ela, assim, prontinho para ser usado na resenha, numa dessas de preguiçoso que mata o livro numa tacada só e fica livre para não falar nada com nada no restante do texto. Mas aà eu lembro que hoje em dia um autor não é só seu livro. Nada disso. A voz do autor está também no blog, esse famigerado veÃculo de opiniões. E lá no Jardim Bizarro, que um dia foi vermelho de Amor e Hemácias, o Santiago Nazarian disse que ninguém mete o dedo na sua orelha. É uma coisa que não me esqueço, não sei a razão, e já devo ter citado em outras resenhas daqui. E a orelha de O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é didática, pragmática como cabe ser a uma orelha. Lá no final diz que é o tipo de literatura que desperta zumbis, e eu ri. Eu ri porque achei que era uma brincadeira com o atual debate de limite de gêneros, mas o Tédio, o Menino Cego e o Prédio dão seu jeito de se desprender da realidade com maestria, espalhando zumbis metafóricos e metalingüÃsticos, mas nem por isso menos ávidos por neurônios, nem por isso menos animadinhos do que o Otto. Sim, tem zumbis. Mas nisso eu fugi da definição, do existencialismo bizarro, que era de onde queria partir e onde queria chegar.
Sabendo da história da orelha, olhei para aquela frase prontinha, embrulhada para presente, e pensei, hum, aà tem. Você pode argumentar sobre a minha total paranóia, que um autor não lança iscas no seu próprio oceano para pegar o crÃtico pela boca, de beiço espetado. Em minha defesa digo que O Menino Cego, o Tédio e o Prédio é um redemoinho de paranóia, feito para te arrastar para dentro, para o fundo, para que você tente nadar até a superfÃcie e chegue a qualquer outro lugar. É um livro que desorienta. E num dos momentos mais explÃcitos de metalinguagem há um escritor, uma máquina de lavar roupa, os crÃticos e O CrÃtico, oras. E a piada é mais ou menos assim. Não, deixa a piada de lado, o que importa é O CrÃtico que fala mal dos crÃticos, que joga na cara o quanto eles falam besteira ao destrinchar teorias igual estou fazendo aqui. E eu nem li Almoço Nu, o Burroughs que me desculpe. Melhor me prevenir.
Mas há um modo didático que nem orelha intocada para se falar do livro, deixar explicadinho o que não quer ser explicado, quer é despistar, embaralhar as cartas do jogo para que não seja bem literatura do cotidiano nem literatura fantástica, que seja, de fato, existencialista, que tenha doses e overdoses de alucinógenos e humor negro, um gordo histérico e uma professora psicopata, num clima de pastiche policial. Isso servido em camadas, nos andares de O Cego, o Prédio e o Menino Tédio. Meninos, aliás, que são a nossa porta de entrada.
Os meninos.
São sete os meninos que acompanhamos na primeira unidade do livro. Há o Cego do tÃtulo, o Gordo, o Atleta, o Negro, o Narciso, o Andrógino e o Junkie. Eles moram em um prédio inclinado, na beira da praia. São arquétipos propositais, reconhecÃveis nos meandros da adolescência, na época de virada para a vida adulta quando a relação consigo mesmo é tão delicada quanto a relação com os colegas. Ser quem você é depende de sua própria opinião ou de como você se situa na hierarquia social do prédio, da rua, da escola? Há uma escala de poder, uma jornada de auto-aceitação descrita com doses de estranhamento. O Nazarian dedica parte do texto à face interna desses meninos, isola-os do todo, raramente estão juntos os sete, ele os trabalha em duplas, trios, vendo no grupo de amigos os subgrupos que se formam momentaneamente, por conveniência. É um dos pontos mais interessante dos meninos, dos sete e também dos personagens periféricos, a incerteza sobre suas amizades, a certeza de uma solidão que não se rompe nos pequenos diálogos ou na busca por afinidades. Dessa parte, entretanto, gosto bastante de um capÃtulo em que os sete estão reunidos, sobem uma ladeira indo rumo a um objetivo que não existe. No caminho eles pensam em seus porquês, pensam que poderiam estar lá ou em qualquer outro lugar, pensam no momento certo de sair de cena antes que não possam controlar o que se pensa deles. Mas, acima de tudo, é um capÃtulo simbólico do livro, é um capÃtulo que não se importa com o ponto de partida nem com o ponto de chegada, e diz que o que vale é o percurso, o processo, e vejo O Prédio, o Tédio e o Menino Cego como um livro que curte seu processo, que declara com a metalinguagem que a escrita é o melhor da história. O próprio autor compete de igual para igual com os personagens, avisa nas entrelinhas que ele também se metamorfoseia, se não da adolescência para a vida adulta, em outros casulos e crisálidas, em uma narradora capaz de migrar pelas páginas do livro de modo voyeurÃstico até a participação derradeira.
Não sei se essa parte fez bem ao meu niilismo. Talvez tenha feito bem demais, por isso a torcida para a chegada da Professora, a outra personagem-chave, a que mata menininhos. Se ficar pensando muito sobre o assunto, a resenha só termina ano que vem. Então vamos a ela:
A professora.
Um dos motivos do Tédio é uma greve de professores. As aulas são representadas pela sua ausência. Sem as aulas, não há tempo livre, pois o dia inteiro se torna uniforme, homogêneo em sua falta de função. Os professores entram no livro como um componente fantástico, um sopro de terror. Chegam para uma assembléia que supostamente decidirá o futuro da greve, mas chegam em vários ônibus de turismo, uma revoada, migratórios, loucos para aproveitar a praia que há em frente ao Prédio inclinado. São uma massa, um coletivo que planta a semente para a futura chegada de Regina, a professora que nos interessa.
E Regina chega pelo oceano, quando o mar congela, surgindo de um lugar que ninguém sabe bem. Ela deixa os meninos curiosos com a novidade, tudo que é diferente, que é mudança, é uma arma contra o Tédio. Mas Regina é mais do que isso, ela traz em si muitos papéis para sacudir a história e os hormônios. Regina marca a entrada em outro universo, em que os meninos deixam de ser meninos e passam a tentar impressionar a nova moradora. Não é que Regina seja do tipo agradável, pelo contrário, parece medir as palavras para ser incômoda, e faz isso com uma naturalidade paradoxal própria dos seres irritantes. Mas Regina é inacessÃvel, é a grama mais verde. Num primeiro instante todos querem estar com ela, ser como ela. Adiante, as opiniões vão divergindo, os meninos conquistam uma individualidade além dos rótulos. Uma das grandes sacadas de Regina (e do autor) é exatamente sumir com os rótulos. Quando o Gordo deixa de ser o Gordo, o Andrógino deixa de ser o Andrógino, …, e o autor apresenta seus nomes não só para o leitor mas para os próprios personagens, eles precisam encontrar novos papéis na hierarquia, na história, o que desestrutura a relação e os joga para outras faces de seus arquétipos, onde o Junkie é ainda mais junkie e menos iluminado, o Gordo que apanha vira o gordo que bate, o Narciso não é mais o centro das atenções e encara suas inseguranças.
Regina é também a professora e eleva à enésima potência a máxima de que sobreviver ao colégio é para poucos. Não porque seja exigente dentro da sala de aula, mas porque é uma louca psicopata que mata criancinhas. Uma mistura de Bruxa Má e Branca de Neve no meio dos seus sete anões. Os momentos em que o Nazarian enfia o pé na jaca com gosto e explora as sandices da personagem dão um fôlego extra para o final da história, pelo menos para os que curtem humor negro. É uma delÃcia. Passei o livro inteiro esperando por ela, e confesso que foi com ela que me diverti, mesmo tendo pena dos meninos, já que também não sou assim sem coração só porque escrevo resenhas.
Fazendo um apanhado de clássicos do policial e do terror, Regina desfila um cabedal de técnicas de assassinato, sumindo com cada um dos meninos de um jeito diefrente. Há o machado que destrói a porta repentinamente, auto-referências reptilianas e um chá envenenado que é meu assassinato predileto. Com uma professora assim, diretora carrancuda parece brincadeira de criança.
Os zumbis.
Para fechar, vale falar do estranhamento. Tenho ficado de olho no modo como os autores se aproximam ou se descolam da realidade, e o Prédio, o Tédio e o Menino Cego é cheio de artifÃcios. O mais direto deles é o prédio inclinado, sempre a um passo de desabar. Está lá para deixar tudo fora do lugar, para tirar do eixo. O elevador não funciona, as pessoas se desequilibram, o Negro é ejetado, o Gordo rola pelo chão. Nazarian brinca também com as mudanças climáticas. Há um sol de rachar que lota as praias, o mar congela na chegada do inverno, vira uma imensa pista de gelo. É por ele que vem Regina. Quando o calor volta, um imenso deserto, o mar desaparece, insetos tomam conta.
Alguns são elementos de ambientação, outros interferem diretamente nos ânimos e na trama. E aà chegam os zumbis.
O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é Coraline with lasers. Ou Coraline ouvindo Suede de franjinha. Não por acaso o único sobrevivente desse massacre chamado adolescência é…
O Prédio, o Tédio e o Menino Cego
Santiago Nazarian
Ed. Record
343 páginas
Com ilustrações muito bem sacadas de Alexandre Matos. Gostei especialmente do pingüim.
Portal Stalker
Não é de hoje que vejo ecos de Alice nos quatro cantos das artes, foi assim desde sempre. Muito se fala de Alice pelos delÃrios lisérgicos, pela garota que diminui e aumenta de tamanho, que pede conselhos a uma Lagarta amarradona no narguilé, que fala com um gato que pisca. É um jogo de percepções, é a explicitação narrativa da inconstância da realidade, é um monte de palavras bonitinhas que nos fazem esquecer o principal sobre Alice no PaÃs das Maravilhas – ele foi um marco na literatura infantil por dispensar a moral. Nada de órfão que perdeu a avó católica, nada de meninos que congelam os pés na neve por não terem o que calçar, nada de garotas que se perdem na floresta e são comidas por um lobisomem que curte coroas. Lewis Carroll queria, acima de tudo, contar uma boa história, e há certa ironia que seja um livro nonsense a nos lembrar disso, do valor da boa história.
Sem entrar no mérito dos livros que sobrevivem da pregação de valores, eu me concentro aqui na ficção-cientÃfica brasileira, na parcela que acompanho hoje. Se não há ninguém que, amém, pregue valores cristãos em cada confronto alienÃgena, há outra moral sorrateira e rastejante que se impõe como quem não quer nada. A moral do “veja só como escrevo bemâ€, “meu livro encalhou menos do que o seuâ€, “quem, cof cof, você pensa que éâ€. É a moral do cara que não agüenta ser sapinho no brejão e decide ser o sapão do brejinho, sábias palavras de Glauco Mattoso que cito sempre. Talvez pela ficção-cientÃfica ainda estar vencendo as barreiras do nicho, e não duvido de seu grande potencial de vendas – cegas são as editoras, à s vezes me pergunto se os autores não conversam entre si ao invés de se comunicarem diretamente com o público.
Insisto nisso porque a ficção-cientÃfica é só uma roupa. É um jeans com camiseta como outro qualquer. Um autor pode vestir seu drama como bem entender. Alguns preferem vesti-lo com magia, outros com andróides perturbados. A literatura dita mainstream, que chamo de literatura do cotidiano para ver se um dia o termo cola, pode até fingir que é um corpo nu, mas também tem lá suas vestimentas e maquiagens. Ficam na porta ao lado, é verdade, mas com um armário cheio do mesmo jeito. Sai a nave espacial e entra o pó de barro, o sofrimento do imigrante. Sai a arma de prótons e entra a famÃlia de classe média cheia de podres. Sai o dragão tirânico e entra a favela, a periferia, o marginalizado, o cara que trabalha consertando os canos dos esgotos. E nisso, sinto muito, não há nenhuma nudez. Não existe literatura nua. Não importa a fantasia que se escolha, o que conta no final, veja só, é ter por baixo uma boa história.
Mas o que isso tem a ver com a Portal Stalker? Muita coisa. E com essa resenha também. Vamos num passo de cada vez.
Mente por trás do projeto Portal, Nelson de Oliveira é um cara bastante presente na literatura brasileira. Está sempre escrevendo alguma coisa, organizando coletâneas, dando palestras aqui e ali. Assim, por conhecer muitos autores e agitadores é capaz de fazer pontes sobre o muro imaginário que separa os gêneros. Digo isso porque é dessa forma que vejo o projeto Portal, uma revista-livro que abre as portas do armário e mostra para as roupas de um lado as que ficam guardadas no outro. Que joga o batom no chão e diz “não me venha dizer que não usa maquiagemâ€.
Mas que metáfora bisonha foi essa, Eric? Bem, eu comecei a resenha falando de um livro de nonsense, o que mais você esperava?
Dito isso, escolhi comentar da Stalker os contos que me passaram essa sensação do ‘contar histórias’, do autor que se diverte junto com o leitor. Nada contra o experimentalismo ou as abordagens lÃricas. Acho que temos mesmo que reinventar a roda ao máximo, acrescentar e subtrair ingredientes na poção para testar seus sabores. Mas hoje, não garanto amanhã, o que busco como leitor é um autor que tenha compromisso de bardo.
Novo protótipo. Geralmente o que me atrai nos contos do Roberto Souza Causo são os artifÃcios que ele usa para fazer a imersão na ficção-cientÃfica. Por pura curiosidade, tenho cada vez prestado mais atenção em como os autores se descolam da realidade e o Causo brinca bastante com isso. O conto Novo protótipo se passa no bairro da Liberdade. Começa com “Bairro da Liberdade. Séculos atrás…â€, o que já quebra a idéia de tempo, e narra então episódios futuros, jogando a história para um futuro posterior ao que ainda desconhecemos.
O desconhecido também aparece nas palavras criadas. Um passeio na rua nos oferece centenas de imagens que já nos habituamos. Você sabe o que é um shopping, o que é um cinema, sabe o que é carro, metrô. Um jeito de quebrar essa conexão e utilizar palavras novas (ou menos comuns) como se fossem elementos habituais. Então há dutos fibróticos, metrômaglev, pirâmides arcológicas, holodisplay, ultrepoxi e por aà vai. Com isso, mesmo em poucas páginas, o Causo consegue criar uma mitologia que dê base ao texto, cumprindo parte da missão da literatura fantástica.
A história é simples: Bella é uma assassina que, após cumprir sua missão, tentará fugir de seus contratantes. Detalhes podem funcionar como spoiler, então não os darei. Mas vale dizer que a ambientação é um dos grandes atrativos. Senti certa dificuldade de me conectar com o drama de Bella, mas também é uma protagonista interessante por tudo que tem a oferecer. Viraria fácil um episódio do Animax.
“Empurro a bicicleta junto ao meio-fio. Milhares de paulistanos se aglomeravam nas calçadas. Uma procissão de carros arrastava-se pela Avenida da Liberdade. Era véspera do Hanamatsuri e havia um modesto jubilo budista no arâ€.
Luiz Bras, por si só uma ficção, participa com o conto Singularidade Nua. Foi um dos que mais me entreteve. O autor pinga as informações em blocos de texto, mantendo o mistério até o fim, apesar do mistério não ser a base para a história. O primeiro bloco passa a idéia de que algo deu errado, sabe-se lá onde, e que o protagonista, o doutor, irá lá para entender e não necessariamente consertar.
Os blocos seguintes revelam que esse lá são três naves rumo ao desconhecido, cada uma com um irmão. O doutor precisa convencê-los a ativar a autodestruição das naves, e usa com cada um deles um jogo distinto. O deslocamento da realidade se dá pelo modo como o doutor atravessa as distâncias para chegar à s naves e com o ambiente onÃrico que se apresenta dentro delas. Tomadas as devidas proporções, me lembrou da ambiência do primeiro conto de Ray Bradbury em O Homem Ilustrado, em que as crianças arrumam um jeitinho nada convencional de usar seu quarto holográfico para vencer uma disputa com os pais.
Há também uma beleza visual, uma poesia que não afoga a narrativa. Um cuidado com as palavras que me agrada bastante no uso de sombras, cubos de gás verdes e bolhas de sabão.
“Pegou o objeto da mão do visitante. Era um cubo pequeno e pesado, feito de vapor verde. O gás estava todo contido no interior, mas não havia seis paredes sólidas impedindo que vazasse. Huno percebeu isso ao enfiar o dedo em uma das faces, por mera curiosidade. O dedo atravessou sem resistência algumaâ€.
Ivan Hegenberg participa com Esquizóide, conto excelente que anuncia nas primeiras linhas sua proposta “Já não sei dizer. Se sou real. Ou um personagem de ficçãoâ€. É um conto que brinca com a estrutura narrativa sem derrubar o leitor no meio da viagem. Um conto que fala do turbilhão de informações que nos atropela, de como nossa relação com a memória se reflete na formação de identidade.
O narrador não sabe quem é. Para descobrir, começa a revisitar o turbilhão de imagens e sensações que lhe vêm em mente. Borges, Beatles, Bart Simpson, burca, traficantes. Conforme repassa seu arquivo de lembranças, o personagem passa a duvidar de si mesmo, a achar que aquilo não pode ser representativo da realidade tamanho o seu grau de fantasia. Sem decodificar essa realidade fantástica, assume-se como um personagem criado, mas sendo um personagem metalingüÃstico, ciente de sua condição de personagem, continua sem se entender levantando hipóteses até o fim. Muito bem escrito. Bom encerramento da revista.
“Muitos dados, muitas informações, e não sei de onde vêm. Como se eu estivesse cego, por mais que as imagens cheguem nÃtidas. SÃndrome de Charles Bennett? É uma das possibilidades. Os olhos estão mortos, mas o cérebro ainda sabe ver. E alucinaâ€.
Marco Antônio de Araújo participa com quatro contos. Seu descolamento do cotidiano se dá com o estranhamento. Ao contrário de Causo, a brincadeira aqui se dá com o uso de palavras costumeiras em situações nem tanto. O que mais gostei foi Tempo Virtual, mate real por enfiar elementos de religião na ficção-cientÃfica, com direito a terroristas e estanques de fluxo temporal, e também pela nossa postura cada vez mais artificial em encontros sociais. Lá pelas tantas, me peguei numa viagem particular adaptando os santos de hoje, as estátuas que chamamos de imagens, para hologramas, imagens na essência da palavra. Uma fé futurista ainda menos palpável.
“Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção, disparou a tomar providências. Tratavam-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos de etiqueta, protocolos de natureza diplomáticaâ€.
Brontops participa com três textos muito bons. Os três tratam de um futuro presente e são muito bem escritos, sem tropeços de ritmo. Em matéria de humor, é o destaque da Stalker com Buraco no céu, que comento aqui. O conto narra um contato com um alienÃgena que chegou por nossas terras. A questão inevitável é “quem será eleito como representante do planeta para tratar da rendição?â€, no melhor estilo Marte Ataca. E aÃ, nesse choque, na hora de ver quem é quem, o narrador repensa Chuck Norris, Carla Perez, Bono Vox, Bush e outros nomes e situações que entregam nosso atual estágio de evolução, digamos assim. A piadinha do final é a cereja do bolo, no melhor esquema “seria cômico se não fosse trágicoâ€.
“Dessa forma, há uma breve confusão para saber quem irá se render em nome da humanidade. Uns sugerem o papa, outros o Nobel da Paz, e aqueles que ainda se lembram ventilam o nome de Bono Voxâ€.
Para fechar, um conto que não decidi se gostei ou não no fim das contas. O conto Gigantes, de Mayrant Gallo, narra a história de um casal que encontrou uma pessoinha no jardim e a engaiolou. Um ser humano em miniatura. A história se desenvolve expondo as reações e decisões do casal diante daquele ser. É claro que humanos não prestam e não o tratam bem. Gosto do tom de fábula moderna, mas me incomoda a questão da moral, como comentei no começo dessa resenha. Além disso, o homenzinho demora a aparecer, deixando a primeira parte um tanto centrada na questão “a mulher manda, o homem enlouqueceâ€.
“Davi voltou a percorrer toda a casa em direção aos fundos. Se o vento castigava ali na frente, não iria enfrentá-lo. Sairia por trás e, contornando a casa, alcançaria o jardim. Não só evitaria o vento, como chegaria bem mais rápidoâ€.
Farei meu destino, de Miguel Carqueija
Tenho voltado meus olhos para a literatura dita infantil e infanto-juvenil para entender melhor o mercado, estudar as diferenças de linguagem, indo de Goosebumps e Lygia Bojunga ao onipresente Harry Potter. Quem lê as resenhas aqui do Aguarrás deve conhecer a minha posição quanto aos ensinamentos e à moral dentro de uma história infanto-juvenil. Enalteço Alice por ser um texto que vira para o lado oposto e minimiza as pregações do que é bom ou ruim ao utilizar o nonsense. Me vem em mente a cena do julgamento de Alice, em que o Rei muda de opinião a cada linha e nunca sabe bem o que quer dizer. Não se trata de anular o herói. Não há dúvidas de que Alice seja uma heroÃna, ela resgata bebês, mesmo que esses virem porquinhos na cena seguinte. Mas é preciso brincar com as coisas, relaxar o arcabouço dos arquétipos. A Fantástica Fábrica de Chocolate dá o tom do que quero dizer. Antes do inÃcio da história, Roald Dahl apresenta os personagens da seguinte forma:
“Nesse livro aparecem cinco crianças: Augusto Glupe, o menino guloso; Veroca Sal, a menina mimada; Violeta Chataclete, a menina que masca chiclete o tempo todo; Miguel Tevel, o menino que só vê televisão; e Charlie Bucket, o heróiâ€.
Charlie não precisa de coração puro ou alma caridosa. Ao ser anunciado como o herói, a descrição de seus adversários passa a ser vista como brincadeira. Não me interessa mais nada em Violeta, ela masca chiclete o tempo inteiro e você conhece bem esse tipo de pessoa, hum?
Fiz essa repescagem de idéias para deixar clara a minha leitura de Farei Meu Destino, de Miguel Carqueija. O que guiou minha opinião.
Primeiro o que gostei:
Já na dedicatória, Carqueija comenta quem serviu de inspiração: Walt Disney, Naoko Takeushi e Charles Sheffield. Assumir referências e o diálogo com o entorno é coisa que falta a muitos autores de literatura fantástica, todos fazendo clássicos definitivos e reinventando a roda. Então, ponto positivo. De Walt Disney, por exemplo, vem uma entidade que aparece no espelho (que não é espelho meu). Elementos rearranjados dentro da mitologia dinâmica que o autor criou. Saber as referências até torna a leitura mais interessante, num jogo para decifrá-las.
A fluência do texto também é boa, e o autor demonstra conhecer a idade de seu público. Quanto à estrutura narrativa, Farei meu destino é livro de se ler rapidinho, com cenas de ação e pitadas de humor bem distribuÃdas. Fala o suficiente para apresentar a cena ao leitor e não sobrecarrega de informações ou descrições visuais, deixando espaço para a imaginação, o que é tÃpico de um livro infanto-juvenil.
A heroÃna começa bem, corajosa. Queima quem tem que queimar, mata quem tem que matar, vira a mesa quando precisa. Faz isso contra vilões declarados, é claro, um bando de tarados, uma freira demonÃaca e um suposto estuprador, mas não anula o fato de não ter medo das soluções que envolvem violência (não gratuita). Seu melhor momento é a piadinha sobre óleo de rÃcino no final.
“Quando recordo aqueles dias, reflito muito nas circunstâncias que convergiram aquelas meninas para junto de mim, uma a uma, até formar aquele grupo sólido e de total lealdade mútuaâ€.
“Embora elas não o pegassem à força, rodeavam-no de tal maneira que ele se sentia prisioneiro. Sandy tinha quinze anos, não poderia lutar contra seis garotas adolescentes. Também nunca se vira rodeada por tantas, e tão charmosas (…)â€.
O que não gostei:
Esse é quase um detalhe, mas vale o comentário. Diana, a protagonista, tem um amor durante a história. Mas é um amor muito rápido, um amor que já estava lá e um amor que estará lá, ele não é um amor de tempo presente, então o leitor não consegue torcer por ele, apesar da simpatia dos personagens envolvidos.
Agora o ponto-chave: a religião.
Não é de hoje que religião e literatura fantástica se misturam. Lilith Saintcrow faz isso na série de Jill Kismet, uma caçadora de demônios. Lilith tira a mitologia do preto no branco com sutilezas. A igreja não apoiar os caçadores e dizer que eles irão todos para o inferno junto com os demônios é um dos artifÃcios. Thomas E. Sniegoski vai bem mais fundo na brincadeira e usa e abusa da mitologia católica. O detetive é um anjo com um cachorro labrador que trabalha de freelancer. Num conto, ele é contratado por anjos caÃdos para desvendar o assassinato de Noé, numa plataforma de petróleo.
Carqueija também faz sua mistura. Há um toque mágico de pedras da luz, um papel importante da Lua, tobogã voador, bastões mágicos, mundo dos sonhos, dirigÃvel capaz de sair da atmosfera terrestre, coisas que curti consideravelmente, mas tudo isso sucumbe diante da religião. A mitologia funciona direito, é divertida, mas quando a religião entra em cena ela se destaca demais. Não sei a religião do autor, mas me pareceu uma escolha consciente. O livro abre, inclusive, citando um salmo: “Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pombaâ€. E com isso vem toda uma distribuição de peças: a do bem associado a estar ao lado de deus e a do mal dos ricos, o mal demonÃaco que anula a força do mal humano. Insisto que me parece uma cartada narrativa consciente, que não passou da medida por acidente. Foi planejada para ser assim. O problema é que nisso se perde um público, pois a história passa a ser direcionada a quem curte princÃpios cristãos como eixo moral, que não é o meu caso.
“A Rainha da Serenidade preferiu zelar por todas, do Céu; mas vocês ainda devem permanecer no universo material, protegê-lo contra o Malâ€.
“Neste sistema, a revelação de Jesus Cristo forneceu à humanidade as armas espirituais para barrar o caminho do inimigo Ãntimo, secreto, que vence pela tentação, pela perversão dos espÃritosâ€.
Fui pego de surpresa, pois o livro começa com um tobogã voador, um castelo que abriga antigos segredos e poderes, e de repente a religião vai tomando conta. Faltou à capa, orelha ou contracapa dar uma dica do conteúdo do livro. Elas citam uma aventura fantástica e falam de mangás e animes como referências de trabalho recente do autor, sem dar pista do tom religioso que, ao meu ver, faz a diferença.
Não anula o fato de ser um livro bem escrito, mas isso poderia ficar mais claro.
Antes de Nascer o Mundo, de Mia Couto
Seguindo a linha dos escritores africanos que procuram de alguma forma semear reflexões sobre as guerras coloniais e seus efeitos nas sociedades contemporêneas, Mia Couto, moçambicano cuja produção ficcional contempla sete romances até o momento, vem afinando sua escrita e sua criatividade ao publicar, com uma periodicidade incrÃvel, novas produções, entre poesias, romances, crônicas e contos. (more…)
Território V
Existe vida inteligente na Transilvânia após Crepúsculo? É só saber procurar.
A coletânea Território V (Editora Terracota) foi organizada pelo escritor Kizzy Ysatis, autor de Diário de Sibila Rubra e Clube dos Imortais, que ganhou o prêmio Rachel de Queiróz. Um autor de literatura fantástica premiado pela UBE – União Brasileira dos Escritores – pode espantar os que ainda julgam a relevância do texto pelo tema e não pelo talento do escritor. Como diz Javier MarÃas, é mais fácil ser respeitado pelo drama do que pelo humor. O fato é que as fronteiras entre gêneros estão sumindo, e aquela tendência natural da literatura brasileira de se alimentar do realismo, do pó de barro do nordeste e da miséria das cidades, está encontrando um ponto de equilÃbrio com magos, zumbis e vampiros de sotaque brasileiro.
De acordo com a orelha, a proposta de Território V era justificar a solidão dos vampiros, brincar com a idéia de que um vampiro não se dá bem nem com ele mesmo (“alcatéia é para os lobosâ€), o que foi usado de maneira bem diversa pelos participantes. Geralmente em coletâneas você sempre se pergunta se alguns contos foram realmente lidos, de tão ruins. Não é o caso aqui. Os textos estão bem nivelados, sem nenhum ponto gritante fora da curva. Claro que há altos e baixos, isso acontece em coletâneas de um só autor o que dirá de vários. Mas mesmo quando a história não conseguiu me envolver ou descambou para o óbvio, o texto se mostrou bem estruturado, com um trabalho real de edição.
Ao todo são vinte contos, mais o prefácio de Giulia Moon. Resolvi falar de dez deles, os que mais me chamaram atenção e os que quase chegaram lá.
Antes do final, de Octavio Cariello, é fácil um dos meus preferidos. Captou o clima de diversão e reinvenção da proposta e, de quebra, se alimentou de uma atmosfera pós-apocalÃptica que me lembrou Laranja Mecânica do Burgess. Uma distopia vampiresca, ó, meus irmãozinhos. Não tem um Alex espancando velhinhas, mas tem um cara que pisa em gatinhos e é, de certo modo, o mocinho da história. A premissa é simples: vampiros se alimentam de humanos. Em pouco tempo, há mais vampiros do que humanos. O alimento passa a ser escasso e humanos são criados como gado, levando a uma guerra por sangue. O ponto central são os vampiros, mas há breves momentos que falam da apatia humana, aquele ar bovino do ser encarcerado. Texto bem escrito, do que tipo que se lê de uma vez só. Merecia ter o dobro do tamanho. O Cariello também é o responsável pela capa.
“Eu falei pros caras que os humanos tavam precisando de sol e ar fresco, mas ninguém levou a sério. Como é que um bando de vampiros poderia arranjar banho de sol praqueles prisioneiros?â€
Torniquete, de Douglas MCT, tem como atrativo a fluência da fantasia. Um algo mais que não vem das palavras, mas do jeito que a história é contada. Tinha lido antes de ser selecionado e desde então curtido a proposta. O Douglas não se prende a nenhum estereótipo de vampiro e também não faz um esforço descomunal para confrontá-lo, o que é bom. A história se passa em um orfanato, e o protagonista é um menino albino que sempre ouve um barulho estranho de noite e um dia resolve investigá-lo, dando de cara com uma situação inusitada entre uma menininha vampiresca e o padre que dirige o orfanato. Não, não é abuso e pedofilia. Só senti falta de um pouco mais de mistério sobre o padre, que ficou explicado demais. Mas é, sem dúvida, um trio interessante de personagens. Fica a sugestão para o autor apostar mais em histórias curtas nesse estilo.
“Como podia vê-la tão bem no escuro? A pele dela, tão branca quanto a sua, refletia a luz. Ele se espantou com aquilo. A curiosa pessoinha do pátio era extremamente parecida consigo. Então se reconfortou brevementeâ€.
O Amor é uma Necrópsia, de Fábio FabrÃcio Fabretti, é um texto biliar, especialidade do autor. É do tipo que revira o estômago e joga qualquer aura de charme vampiresco no valão. É fácil aqui identificar um estilo, um trabalho mais cuidadoso com as frases para que elas funcionem sozinhas, destacadas. Não é um texto de terror, porque não tem compromisso com o medo, mas tem a atmosfera pesada do gênero. O vampiro protagonista mora em uma gaveta do necrotério e, quando está sozinho, desenvolve uma relação de amor necrofágico com os cadáveres, um sentimento sublime que deixaria a Stephenie Meyer sem comer durante uma semana. Me lembrei dos meus tempos de farmacêutico, não pela necrofagia, mas pelo cheiro de formaldeÃdo no ar. A única ressalva fica por conta dos antepostos adjetivos que o Fábio gosta de usar e que me incomodam durante a leitura.
“A princÃpio pouco sabia deles, conservados com uma substância rotulada de formaldeÃdo lÃquido, um poderoso carcinogênico letal aos vivos, mas balsâmico aos mortos. Cada corpo trazia em si uma história velada. (…) Bocas em forma de fendas mudasâ€.
Cajita de Cigarrillos, de Kizzy Ysatis, é outro bom momento. Nunca tinha lido nada do autor e a curiosidade sempre eleva a expectativa. Ele tem um texto que flui naturalmente, que encontra ritmo na sonoridade das palavras de um jeito inconsciente. Se pensarmos no tema do livro, esse é o conto mais diferentão. É um conto metafÃsico no modo de expor sentimentos e o efeito das escolhas do autor e dos personagens. Como foi o Kizzy que pensou na proposta do “ser solitário†para a coletânea, natural que a cumprisse ao pé da letra. O conto se alimenta de uma relação de desejo e desprezo entre dois garotos, moleques, um o fodão da turma, o outro um gordinho louco para fazer parte dela. Numa festa, depois de um briga, sentam em roda para contar histórias de terror, os dois no centro em uma disputa, e o que acontece leva a uma situação sangrenta de doação, a resolução fÃsica da metafÃsica. Ponto forte: saber que o leitor é capaz de completar lacunas e trabalhar com isso.
“Eu sou o Victor e sou um saco de pancadas. (…) Queria estar lá brincando com a turma. Sinto inveja. Queria ser como eles; queria ter eles pra mim. Me desprezam mas eu amo eles. Não me conhecem e nem querem me conhecer. Queria mostrar que posso fazer parte da turmaâ€.
IrresistÃvel, de Flávia Muniz, traz uma mistura delicada de lirismo e drama. É um texto que lida com a memória, com os fragmentos que sobrevivem na mente de um vampiro depois de séculos de existência. Explora a capacidade de palavras simples, pequenas agulhadas, despertarem um turbilhão de significados. A protagonista, mais que imagem, é pele, é cheiro. Como dito no próprio texto, ela é volúpia. E graças a manha de flexibilizar o dramático para incorporar o lÃrico, a Flávia construiu um conto extremamente sensorial, com uma vampira de sentimentos borbulhantes. A história fala que, depois de muito viver, ela encontrou e perdeu o amor. Um amor que vem do outro e também de si. Foi um dos poucos contos a me passar a sensação de atemporalidade. Impecável nesse aspecto.
“Também houvera calor do fogo das lareiras. Ah, que atrevidos! Taças borbulhantes, vinhos cor de sangue, peles nuas, águas perfumadas, bocas ardentes e incontáveis beijos apaixonados sob a lua de mil facesâ€.
As Vampiras de Kenshin, de Giulia Moon, é um conto divertidÃssimo. Conheço a Giulia pessoalmente então cheguei a ouvir sua voz durante a leitura, um audioconto imaginado, o que fala muito da identidade de um autor. A protagonista é Negra Luiza, que de escrava virou uma agente vampiresca, dessas que trabalham em serviços sujos que os humanos não são capazes de lidar (sem ferrar com tudo). Sua missão é resgatar Kenshin, um astro de rock japonês que veio para o Brasil se apresentar no Morumbi e foi sequestrado, possivelmente por fãs histéricas. Mesmo no tempo curto do conto, Giulia consegue fazer a ambientação e apresentar detalhes de sua mitologia pop e underground. Ela lida com elementos contemporâneos como redes sociais e fãs que desmaiam diante dos Ãdolos (eu sei, desde Elvis e Beatles, mas você entendeu) e lutas para Tarantino nenhum botar defeito. A virada de trama no final vale o texto inteiro. Humor, seja bem-vindo.
“Continuando a minha busca, fui parar numa pequena comunidade do Orkut chamada As Vampiras de Kenshin. Notei que a palavra ‘marbrekots’ constava na descrição do grupo, um código que nós,
vampiros, usamos para nos identificarmos uns aos outrosâ€.
Zugzwang, de Claudio Brites, é um conto que me surpreendeu, me pegou pelo pé. No inÃcio eu não dava nada pelo texto. Se soubesse o que significa o tÃtulo antes de começá-lo, leria com outras expectativas. Mas não sabia. Então lá estavam vampiros jogando xadrez, envoltos em fumaça de cigarro. Enxerguei aà dois sÃmbolos que são armadilhas, desgastados de todas as maneiras possÃveis no cinema e na literatura. Mas logo em seguida, o Claudio começa a flertar com a suspensão do tempo, e nisso, o texto escapa de ter o xadrez como mera metáfora do confronto. Interessa mais a espera infinita por um movimento que o jogador não quer fazer. E nesse tempo elástico, na infinitude das decisões, surgem diversas brincadeirinhas com o ambiente literário, deliciosas pra quem é do meio. Na história, um dos vampiros, escritor, saca seu original para mostrar ao fumante. O escritor demorou anos para concluÃ-lo, o fumante, agora crÃtico, demorará anos para dar sua opinião. É uma tortura, um jogo de impasses, com direito a alfinetada na vaidade de quem cria. Um dos melhores finais do livro. De sugestão, lembrar que é preciso escolher uma um norte ao brincar com o lirismo das frases, um recorte imaginário que defina de onde virão as palavras.
“A sala vazia fica viva com um morto a menos. Mesmo permanecendo na sala o fumante mergulha no livro o pouco que existe de sua presença. (…) O cigarro volta a iluminar todo o ambiente. O som do livro caindo no colo do escritor o faz entender o despertar do fumanteâ€.
Esplendor, de Juliano Sasseron, entra na lista por flertar com miséria e religião, com breve menção à Faixa de Gaza. O autor, mineiro, não deve saber, mas há uma região do Rio de Janeiro que recebeu esse apelido carinhoso também. O parágrafo introdutório é explicadinho demais ao apresentar o personagem. Depois, o texto evolui para a crÃtica social e ganha ao incorporar metáforas. Há o garoto temeroso pedindo dinheiro no sinal, a banheira cheia de ratos (quase um Cazuza) e um par de insetos espalhados. Há baratas que resistem a bombas biológicas, gafanhotos destruindo plantações e uma vespa zumbindo no ouvido como a voz da consciência, a que mais funcionou a meu ver. PolÃticos e religiosos vampiros? Parece ser esse o clima. Boa escolha de tema, só faltou burilar um pouco mais as palavras e lembrar que as metáforas ganham um sabor extra quando se brinca com as entrelinhas.
“Estas duas seitas sempre foram inimigas, guerreiam pelos motivos mais banais. Assim, os gafanhotos voltam a existir. Ninguém se lembraria deles se não fosse a guerra, pois, com tantos agrotóxicos no mercado, esse mal não conseguiria mais causar dano em uma lavouraâ€.
Anjo da Guarda, de Camilo Vannuchi, é um exemplo de texto direto, com boa fluência. O autor teve a idéia inusitada de levar os vampiros para um sertão romântico, terra de comadres, imerso naquela rotina do ninguém chega ninguém passa. O conto é narrado pela dona de um armazém. Sozinha, recebe toda noite a visita de um homem bonito, que a faz sentir especial de um modo que não entende direito, talvez por não conseguir decifrar seu objeto de platonismo. Um dia, seu pedaço de homem enfrenta um inimigo ali na sua frente, deixando-a aterrorizada. É um texto que vejo fácil adaptado para o teatro infantil (sem demérito nisso), tanto pelo cenário e figurino, quanto pelos personagens e gestual. O ponto positivo foi ser comedido, não colocar a mão onde, talvez, não alcançaria. Só ficou faltando um momento de “uauâ€, uma cena que marcasse com mais força o clÃmax.
“Não sou mulher de puxar prosa com cliente, você sabe. Aprendi que dar trela pra freguês é abrir caminho para falatório. Ainda mais neste fim de mundo, nesta vila avexada de uma rua só, encruada na margem esquerda do Velho Chicoâ€.
A cor da lágrima, de Lizy Tequila, fecha a lista por ser um texto redondinho. A narrativa é simples, mas de frases bem trabalhadas. É um texto fácil de se ler, em que os parágrafos rendem na medida. A crÃtica é o tema da história: o vampiro arrependido. Além de não gostar de sua condição de vampiro, Thiago é um nômade solitário que passeia de velório em velório para esquecer sua própria dor existencial. Não bastasse isso, precisa lidar com o velho dilema de ver os entes queridos morrendo enquanto ele perdura. Lembra um pouco o problema de filmes gays em geral. Não basta ser gay, tem que sofrer preconceito, ter um amigo com AIDS, não ser aceito pela famÃlia, brigar com o melhor amigo e, se possÃvel, lutar para adotar uma criança. Tudo em uma hora e meia. Se a Lizy tivesse mirado num drama só, o que é realmente relevante para o final da história, e tivesse aliviado a consciência do Thiago nos demais, o conto teria crescido em densidade psicológica. Ainda assim, é alguém que tenho curiosidade de ler mais textos no futuro.
“Ajoelhado, Thiago chorou angustiado. Um choro de desespero e súplica. A culpa o punia uma vez mais por ser o que era, e a culpa lhe era muito pesada. A aflição por ainda possuir parte da memória humana o impedia de ser como os outros, que caçavam (…)â€.
Também participam Raphael Draccon, Cid Vale Ferreira, Luis Eduardo Matta, Marcelo Maluf, Isabella Lemgruber, Solone de Arruda, Isaac Moraes, Sidemar de Castro, Israel Teles e Chris Sevla.
Território V
Editoria Terracota
155 páginas
E-book: o inÃcio, o fim e o meio
A Internet qualquer dia vira peça de museu e tem gente que ainda não sabe usar. A situação se complica quando gente é substituÃdo por empresas da área cultural e de entretenimento. É possÃvel sobreviver sem evoluir? A teoria de Darwin também vale para o mercado? A resposta é tão óbvia que me assusto por o paÃs que mais passa tempo conectado não explorar as mÃdias da Web de maneira decente (procure os portais de seus canais de televisão prediletos e pense sobre o assunto).
A primeira grande mudança, hoje em dia, já é assunto de aula de história. Quando a mp3 derrubou o CD e as gravadoras, havia a desculpa de ser pego desprevenido pela novidade que não veio de cima da pirâmide, mas da base de consumo. A resistência das gravadoras foi de uma estupidez sem tamanho e os resultados não foram dos melhores. Correr atrás do prejuÃzo ao invés de correr na frente das tendências ainda parece o modelo vigente. No Brasil, não existem bons sites de venda de mp3. A maioria vende wma que vem em qualidade mediana (160kbps, quando deveria vir em 320kbps) e com proteção irritante que acaba com a mobilidade. Nosso paÃs de ares ciberpunks tem como maior canal de vendas o celular.
Aà veio a segunda onda com os vÃdeos. Diferente dos primos da área de áudio, os distribuidores de vÃdeo parecem estar se mexendo. Há a proposta de pagar uma mensalidade equivalente à TV por assinatura e baixar o conteúdo on demand, episódios liberados primeiro na Internet e depois na TV, um esforço tÃmido para munir de novos artifÃcios os portais dos canais que deve ganhar força nos próximos anos. Também temos locadoras que permitem streaming, evoluções do Youtube e outras ferramentas mais que ajudam na renovação. Sem falar no Blu-ray e no cinema 3D, do lado fÃsico, mas que valem outro texto.
Um movimento natural é que o mesmo processo de virtualização ocorra com os livros, e o papel ceda lugar ao e-book. Sempre achei que o mercado literário tenderia a agir com flexibilidade, aprendendo com os erros dos antecessores, mas alguns pensamentos congelados no tempo e no espaço mostram que editoras podem tomar uma rasteira muito parecida com a que vitimou as gravadoras, munindo-se de mitos ao invés de dados práticos.
Antes de qualquer coisa, é preciso definir o e-book, mesmo que usando um conceito que já nasceu ultrapassado. O e-book, ou livro eletrônico, é uma versão em arquivo do texto lido em papel. Um dos arquivos mais usados é o pdf. Você baixa para o seu computador ou aparelho e lê o texto. Tem quem use até mesmo o celular, sem muitos traumas.
O mercado de e-books ainda é inexpressivo no mundo inteiro, o que não está impedindo as editoras internacionais de pensarem no assunto e começarem seus testes, diferentemente das editoras nacionais, que preferem ignorá-lo.
Por que fazem isso? Também gostaria de saber. Dois argumentos que tenho escutado:
O argumento número 1: ler na tela é incômodo e nada substitui o papel.
A pergunta é: até quando? Não podemos esquecer que nascemos lendo no papel e migramos para a tela. As gerações seguintes já têm o mesmo contato com a tela e com o papel desde cedo, alguns passando mais tempo em frente ao computador do que com um livro ou mesmo vendo televisão. Outra: de que tela estamos falando? O monitor quadradão cede espaço para notebooks e monitores LCD cada vez mais confortáveis aos olhos. O conforto de leitura tem sido a essência da pesquisa de aparelhos portáteis. Serão esses dois argumentos suficientes para frear a demanda?
O argumento número 2: o público que baixa livros eletrônicos (de graça, livros piratas) não é o mesmo público que compra. Quem gosta do livro, compra de qualquer jeito. Quem baixa é porque não teria dinheiro para comprar.
Se no argumento 1 há um saudosismo sinestésico antecipado (que as novas gerações não sentirão), no 2 há a estagnação e a vontade de repetir o que aconteceu com os CDs. Nem sei quantas vezes li e ouvi exatamente esses mesmos argumentos quando pouca gente sabia o que era Napster. Quem gosta mesmo do cantor vai comprar o cd. Quem gosta mesmo de música não aguentará a baixa qualidade da mp3. Você baixa para conhecer e depois vai até a loja e compra. Claro que a indústria fonográfica cometeu outros erros que se somaram ao vendaval eletrônico. A mp3 por si só poderia ter sido a via de transição e acabou abalando estruturas porque não souberam lidar com ela.
É provável que muita gente que baixe livros eletrônicos não os leia e os deixe guardados no HD como mais uma de suas coleções. Por outro lado, é inocência pensar que leitores tradicionais não lêem no computador. Pessoas antenadas com o mercado global, consomem e-books com gosto para se atualizar. O estigma do e-book como veÃculo de autor fracassado é conversa de dinossauro. Alguém tem prestado atenção no que está acontecendo com os jornais do mundo inteiro (o Brasil sendo a exceção, curiosamente)? Quem gosta de ler jornal está lendo na Internet ou está comprando o papel nas bancas? As novas gerações efetivamente lêem jornais ou só blogs e portais como Terra e UOL? O maior público potencial de um e-book é aquele que lê o livro em papel (e vice-versa). Haverá quem só leia um e outro, mas esses grupos não são necessariamente excludentes.
Outra limitação, real e transitória, é a portabilidade. Ler no computador nos deixa parados em frente à tela, preso a um único local. Mas o livro precisa sair de lá, precisa ir até a cama, enfrentar o metrô lotado, nos acompanhar nos congestionamentos, na cadeira da sala e na mesa de reuniões. Para isso, são necessários aparelhos portáteis que leiam os e-books e tenham um mÃnimo de atratividade (um algo mais, além da praticidade) para o consumidor. Os fabricantes dos leitores também são os distribuidores, verdadeiros atravessadores de mercadoria, ficando com percentagem das vendas. Para quem não sabe, boa parte do preço de um livro fica com a distribuidora e com a livraria, a menor percentagem indo para a editora e para o autor. Na Wikipédia é possÃvel obter uma lista de leitores de e-book disponÃveis no mercado, ficando evidente o destaque para os aparelhos da Sony e da Amazon (o famosinho Kindle). Por enquanto, são poucos os produtos no mercado, o que não ajuda com o preço, ainda salgado, por mais que a economia no longo prazo se justifique.
A promessa é que a Apple lançará em breve um concorrente, e ele não sacudirá o mercado somente pelo preço ou por ter o apelo caracterÃstico de produtos Apple, mas por entender todo o potencial que o e-book tem a oferecer.
Eu disse anteriormente que o e-book em pdf (ou texto puro) é um conceito ultrapassado. Vejo-o como uma versão preguiçosa do livro, uma visão que reduz ao invés de ampliar. Uma das armas com maior poder de fogo em um livro exposto em livraria é a capa. Quem nunca se aproximou de um livro pela capa que atire a primeira pedra. Os leitores de e-book atuais só possuem visualização em preto e branco, no muito com tons de cinza de bônus, o que acaba com o apelo.
A Apple, aparentemente, entende que o público do futuro curte vÃdeos online, música on demand e jogos visualmente arrebatadores com narrativas que competem de igual para igual com as demais mÃdias. Seu leitor de e-book, apelidado de iBook, na verdade seria um aparelho multifuncional, capaz de exibir vÃdeos e tocar música, abrindo diversas possibilidades para a próxima geração de livros eletrônicos, a que efetivamente fará sucesso.
Eu explico.
As capas:
Imagine o livro Senhor dos Anéis. Vamos dizer que ao invés de pegar seu livro na estante ou abrir um arquivo de texto, você clique em um executável. A primeira diferença seria a capa. Nada de imagem estática ou um rabisco em preto e branco. A capa seria uma animação, imagem em movimento. Você, colecionador, poderia escolher diferentes capas, a animação que mais te atrai, na hora de comprar.
Fluidez:
Sem cair na poluição visual que dominou a primeira leva de Web sites (se lembra daquela gif animada horrÃvel? pois é), as páginas de texto também poderiam ter um algo mais. Pequenos floreios que contam pontos no acabamento e que no e-book poderiam ser animados ou simplesmente variados de um conto para outro, complementando a ambientação. O autor de sucesso seria aquele que visse além de sua história. Um exemplo que me vem em mente seria o de um livro infantil: um dos personagens ajuda o leitor a virar a página ou pula de uma página para outra enquanto segue a história, em vez de simplesmente estar lá.
Entreatos:
Voltando ao Senhor dos Anéis. Quem tem algum contato com jogos conhece bem as animações entre uma fase e outra, com pequenas narrativas que envolvem até atores reais (elemento do clássico Command and conquer). O mesmo poderia ocorrem em momentos importantes de um livro, na virada de um capÃtulo para outro que valha o simbolismo. O personagem teria voz? Por que não?
Cenas especiais integradas ao texto:
O leitor poderia visitar a cena do crime de um livro policial, ver o registro policial, a ficha de um criminoso, ter acesso ao laudo do legista, ver o corpo estendido no meio da estrada e outras brincadeiras. Cabem aqui fotos, ilustrações, montagens 3D, etc.
Preço da impressão:
Não ter que se desesperar ao incluir ilustrações em um livro, pensando em quanto o preço ficará depois da gráfica. Você pode dizer que preparar esse material todo também custa caro, e eu concordo. JK Rowling e eu não terÃamos recursos equivalentes disponÃveis, mas saiba que papel e gráficas também não custam barato, pode ter certeza. Cada produto com seu público.
Revisão:
Saiu a primeira versão. Passou pelo escritor, revisor e editor, mas ainda assim há um “Inesplicável†enorme no tÃtulo do primeiro capÃtulo e um erro de diagramação no segundo. Basta distribuir uma correção, um patch, da mesma forma que é feito para softwares e sistemas operacionais atualmente. Eletronicamente, o livro passa a ser dinâmico e não mais se aprisiona ao que está impresso.
Dados adicionais:
Quer saber quantas versões o livro já teve? Em que paÃses já foi publicado? Em qual deles fez mais sucesso? Quem adaptou a história para o cinema? As editoras ou distribuidores podem montar seus bancos de dados, numa espécie de Wikipedia, alimentando o leitor com informações.
Materiais extras:
Seu livro pode vir com entrevistas em vÃdeo do autor, exclusivas da editora ou de determinado distribuidor. O autor ganha um rosto, passa um pouco de seu processo criativo ao trabalhar no texto, aumenta o contato com o seu leitor. Uma editora poderia, por exemplo, através do aparelho, pedir que leitores enviassem perguntas para serem respondidas em breve pelo autor. Poderiam enviar somente para aqueles que tivessem comprado tÃtulos do fulano de tal.
Trilha sonora:
Campanhas conjuntas poderiam vincular música ao texto. Nada que tocasse durante a leitura, atrapalhando. Mas imagine se o personagem é vidrado em uma música do The Doors e a cantarola em uma das cenas. No final, você teria a faixa disponÃvel. Num momento seguinte, faixas e livros poderiam ser distribuÃdos juntos, de modo que complementassem sua identidade. Um livro pro público jovem que viesse com músicas da banda do momento. E até mesmo uma trilha sonora feita especialmente para o livro? Espere e ouvirá.
Edição comemorativa:
O bom é que tudo pode mudar de uma edição para outra. Os materiais podem ser disponibilizados em um pacote completo, e novos materiais adicionados mais tarde para aquecer as vendas ou comemorar uma nova tiragem. Com o material sendo baixado diretamente no aparelho ou visualizado no site da editora. Já pensou, no aniversário do autor ou de publicação de um livro, receber um conto inédito?
Opções personalizáveis:
O leitor teria a possibilidade de ativar ou desativar qualquer um dos materiais bônus. Cansou das animações entre capÃtulos? É só desligar. As folhas caindo da árvore no canto da página estão desconcentrando. É só desativar. Quer ver as animações em sequência depois da leitura? Basta clicar no menu.
Importação:
Nada mais de pagar frete carÃssimo para conseguir um livro que não saiu no seu paÃs. O acesso a livros em outros idiomas se tornaria muito mais fácil.
O lado negro da força:
Esse canal direto de comunicação pode crescer os olhos na hora de pingar um marketing aqui e ali. A Internet já deixou claro que marketing invasivo não é bem aceito e os novos modelos de propaganda devem estar mais desenvolvidos até o e-book se disseminar, ainda assim fica a observação. O outro lado, positivo, é a chance de concursos e empresas patrocinarem não a publicação, mas a distribuição, com o autor (e a editora, no doubt about it) ganhando um bônus em cima dos direitos autorais pelo uso da marca da empresa x ou y na página dos créditos, aquela que fala a edição, o nome do editor, do revisor, do ilustrador, etc.
Esse é um resumo de idéias que mostra a abertura permitida pelo novo modelo de e-book. As possibilidades são infinitas. Basta pensar no impacto do e-book nas escolas e metodologia de ensino para a lista triplicar de tamanho. A potencialidade existe, só falta a ação. Se o iBook se confirmar como uma ferramenta mais completa do que seus concorrentes capengas, a mudança tardará menos do que imaginamos. Ou alguém dúvida que o iPhone e o iTunes tiveram papel essencial na disseminação da mp3?
Como um último argumento, alguém pode dizer que a ilusão esvazia a imaginação. Nisso, peço que comparem o cinema mudo ao cinema contemporâneo. A resposta esta aÃ, basta olhar com carinho.
Para não dizer que as editoras daqui não se mexem, algumas já estão repensando seus portais para abrigar material multimÃdia. Pode ser um primeiro passo. Outro bom puxão no mercado será o novo livro do Dan Brown , que sairá com tiragem prevista de 6,5 milhões de exemplares, e também aposta no formato e-book, podendo agitar esse mercado que ainda responde por uma percentagem pequena das vendas. Mas a mp3 também começou assim, não foi? E veja aonde chegamos.
O outro, de Bernhard Schlink
O outro foi publicado na cola do sucesso de O Leitor, livro de Berhnard Schlink adaptado para os cinemas com Kate Winslet oscarizada no papel principal. Em um texto curtinho que a diagramação faz render 95 páginas, Schlink conta em O outro a história de um homem que perdeu a esposa e precisa aprender a lidar com o vazio que ela deixou. Foi uma boa coincidência pegá-lo logo depois de Enquanto ele estava morto, de Estevão Ribeiro, já que os dois partem do mesmo ponto e seguem caminhos completamente diferentes. Ao tratar do sumiço de um irmão, Estevão repassa a própria vida a limpo. Já Schlink não está muito interessado na revisão de valores de seu protagonista, mas no modo pouco convencional, quase impessoal, que ele arruma para lidar com acontecimentos.
Enquanto ele estava morto, de Estevão Ribeiro
Falar de morte é sempre complicado. Digo no trato da vida real e também na literatura. A morte literária não é um mero descarte de personagens como acontece em novelas, é preciso extrair dela um sentido que transcenda o próprio acontecimento. Beira o óbvio dizer que a morte valoriza os que estão vivos. Sabe aquela história de que só damos valor ao sentir falta? Quando alguém se esvai das páginas, os personagens sobreviventes ganham carga dramática instantaneamente. Sua existência passa a ter um algo mais, num truque de cartas e cartola narrativo.
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Sophie Calle
Vi a exposição da Sophie Calle e li um de seus livros. Esse texto é sobre ambos. E é sobre o que me parece ser uma violência epistemológica. (more…)
O Brasil na Ãfrica, a Ãfrica no Brasil
Há algum tempo, desde o ano passado pelo menos, venho observando que, tanto nos jornais e revistas quanto na televisão, muitas notÃcias sobre a Ãfrica vêm sendo veiculadas. São artigos e reportagens que procuram ressaltar os laços que unem o Brasil ao continente africano, especificamente aos paÃses africanos de lÃngua portuguesa, e especialmente a Angola e Moçambique. E isso é ótimo porque contribui para a dissolução daquela terrÃvel e antiga idéia de que a Ãfrica é feita de elefantes, leões e tribos primitivas. (more…)
Lordes de Thargor, de Rober Pinheiro
Li Lordes de Thargor – O Vale de Eldor faz um par de semanas e precisei digeri-lo por esse tempo para achar o viés da resenha. Gosto de literatura fantástica como um todo, tenho um apreço maior por fantasia urbana e sou um implicante de longa data com o que é chamado de alta fantasia, cuja referência mais óbvia é o consagrado universo de Tolkien. Acho enfadonho o processo de descrição minucioso de novos mundos e me irrito com as batalhas entre anões e elfos que o velho escritor desencadeou na literatura e em jogos de RPG. A alta fantasia também costuma ter um número maior de personagens, num vai e vem que me distrai. Se o autor opta pela criação de um idioma próprio (você sabe falar élfico?), a confusão se eleva um pouco mais. Isso, deixo claro, é uma limitação minha. Os fãs de alta fantasia mergulham de cabeça nessa infinidade de personagens e alguns chegam a estudar os idiomas fictÃcios. Conversar com fãs de Senhor dos Anéis é um jeito prático de entender o que quero dizer.
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Um romance russo
A leitura do livro de Emmanuel Carrère, Um romance russo, editado pela Objetiva, coleção Alfaguara, dá o que pensar acerca das narrativas contemporâneas. O romance inicia-se em um trem, que viaja aos confins da Rússia, atrás de um interno que, dos hospitais psiquiátricos da Sibéria, é levado de volta à Hungria, que havia abandonado, quando feito prisioneiro na Segunda Guerra. Um clima onÃrico se instala no vagão em que viaja. A Sra. Fujimori aparece para um rápido ménage, com o narrador e sua namorada. O clima se mantém durante a estada do narrador na cidade siberiana e no relato sobre o húngaro repatriado. O mundo parece feito de equÃvocos. (more…)
Vapor Barato, de José Valdemar de Oliveira
A arte marginal brasileira sofre de uma sÃndrome infindável de esvaziamento. A marginalidade virou estética e nisso se diluà onde deveria ser forte, na espinha dorsal dos personagens. Seja cinema, grafite ou literatura, todos querem retratar o marginal em uma disputa que estica as bordas para os lados em busca de novos recordes. Há muitos que o fazem no conforto do lar, pois retratar a vida marginal mergulhando em seu universo cansa demais. Imagine ser marginal sem passadeira toda quarta-feira engomando o terninho? Há outros que perdem de vez as estribeiras alegando que seus personagens são mais marginais que os marginais, e não digo pelo jogo de palavras, digo pelo que já ouvi. Um marginal mais do que os demais é aquele que ninguém representa, aquele que eu vi primeiro e ninguém tasca, agora é meu, ajudante de encanador de banheiro de usina hidrelétrica, sabe como é que é. Não é que você precise andar pelos labirintos da usina para escrever sobre eles. Assim fosse, não terÃamos os clássicos de Tolkien e Bradbury no cânone literário. O fato é que é preciso identificação do autor com a obra. Seja lá em que ponto obscuro de sua alma, ele precisa buscar a matéria-prima que alimentará sua mentira e a transformará numa história verossÃmil, com personagens palpáveis. Por isso, me dá calafrios quando pego livros com orelhas marginais, ainda mais quando sim, já andei pelos labirintos e passei pelo encanador, num drible rápido no corredor da usina, com direito a roçadinha de braço.
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Entrevista com Carol Bensimon
01. Para começar, queria que você falasse um pouco do Pó de Parede e como você foi parar na Não Editora.
Eu estava com o Pó de parede quase pronto quando recebi uma bolsa da Funarte para escrever o Sinuca embaixo d’água. E eu queria muito que o Pó de parede fosse meu primeiro livro. Não faria sentido publicá-lo depois do romance, eu acho. Entrei em contato com a Não Editora porque já conhecia o Antônio Xerxenesky, um dos sócios. Os livros eram bonitos, eu poderia me envolver no processo (escolha da capa, essas coisas) e lançá-lo em pouco tempo. Enfim. Pareceu um bom jeito de começar.
Mesmo tendo sido lançado por uma editora pequena do sul do paÃs, o livro teve uma ótima repercussão: resenhas bem positivas em jornais e revistas, mas também gente comentando em seus blogs, e outros me mandando e-mails elogiando, ou então querendo saber como comprá-lo.
02. Na época em que resenhei o Pó de Parede, uma caracterÃstica marcante foi o seu cuidado com a estrutura narrativa. Nada está lá por acaso. Como você chegou nesse ‘formato’ de escrita? Foi instintivo ou você decidiu que era um caminho a seguir, foi lá e fez?
Acredito que um livro não pode ter acasos. É claro que, durante o processo de escrita, o autor pode sim ir descobrindo coisas e, enfim, ver que detalhes surgem do processo, ou que caminhos antes descartados, ou simplesmente não percebidos, podem ser interessantes. Quanto ao produto final, esse tem que ser um todo coerente.
Geralmente, faço muitas anotações antes de começar a escrever. Sobre os personagens, os lugares, a trama. Tenho uma crença, talvez boba, de que não posso começar a escrever se eu não estiver já muito segura em relação ao que quero contar, e por que quero contar. Sempre acho que vou arruinar toda a ideia se eu correr para o computador. E, bom, o resultado disso é que eu não descarto muita coisa do que escrevo. O que acontece é eu reescrever o texto muitas e muitas vezes, mudando palavras, ordem de frases, pontuação, ou mesmo adicionando elementos. Mas sei de gente que escreve dez páginas para aproveitar uma. É um outro método.
03. Já dá para saber como a vivência na França influenciará seu trabalho e que tipo de ecos trará?
Ainda não está bem claro. O que eu sei é que muitas coisas estão mudando em mim, não há dúvida, e que então isso deve respingar de alguma maneira no meu trabalho. Ah, posso adiantar também que meu terceiro livro vai se passar em Paris. A história não está totalmente definida, mas já tenho alguns contornos dos protagonistas, e sobretudo a atmosfera que quero dar ao romance.
04. É comum que se diga que o mercado de literatura contemporânea brasileira não existe ou está estagnado. Como você vê essa situação?
Não concordo com isso. Há coisas acontecendo e autores surgindo, dentro das possibilidades de um paÃs que, bem, é pobre, e que portanto tem Ãndices vergonhosos de leitura. Ainda assim, há pessoas que podem ler e que querem ler. É claro que a maioria delas não vai optar por autores contemporâneos, porque certamente é mais seguro ler os consagrados. De qualquer forma, os consagrados passaram pela mesma situação: já foram novos autores. E a literatura é lenta, muito lenta.
Por último, digo que eu, pessoalmente, não posso reclamar muito. Vou publicar meu segundo livro por uma grande editora, a Companhia das Letras, o que significa que fui, de certa maneira, absorvida pelo mercado.
05. Você tem uma boa presença na rede, com site e blog. Acha que em algum momento a Internet mudará a literatura como a mp3 mudou a indústria musical?
Acho que já está mudando, porque é a porta de entrada para muitos novos autores. O consumo da literatura também muda, uma vez que você pode comprar livros de qualquer parte do mundo e etc. Mas você disse bem: o mp3 não mudou a música em si, mas a indústria musical. Com a literatura, deve ser parecido, mas mais lento (repito que a literatura é lenta) e mais discreto (condizente com a importância que ela tem na vida da maioria das pessoas).
06. Poderia antecipar algo sobre o próximo livro? Será o Sinuca embaixo d’água?
Sim, será. Sai em setembro desse ano. Vou estar no Brasil para lançá-lo.
Sinuca embaixo d’água é um romance, meu primeiro romance. É uma história na qual se alternam três narradores principais, e mais alguns que fazem rápidas aparições. No centro de tudo, está a morte de uma menina de vinte e poucos anos, Antônia, num acidente de carro. Todos os personagens foram afetados por esse episódio, em maior ou menor grau, e agora precisam lidar com isso. Há o melhor amigo dela, Bernardo, que tenta entender a noite do acidente. O irmão de Antônia, Camilo, que é um cara cuja grande diversão é fazer farra e mexer em carros velhos. E Polaco, dono de um bar, que, através da morte da Antônia, vai ter que reviver algumas questões do seu passado.
Pudor, de Santiago Roncagliolo
Descobri Santiago Roncagliolo em uma entrevista no El PaÃs. Roteirista de novela, chamou a atenção da crÃtica literária com Pudor, livro de histórias entremeadas que falam da intimidade de personagens muito diferentes na voz, mas com algo em comum em seus medos e desejos. Logo depois, ganhou o prêmio Alfaguarra com Abril Vermelho, lançado no Brasil pela Objetiva. Em Pudor, Santiago faz questão de trabalhar o aspecto inconfessável das histórias e deixa que aos poucos escapem ao controle, preparando o grande clÃmax.
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Entrevista com Nazarethe Fonseca
01. Mesmo com boa vendagem na edição anterior de Alma e Sangue – O despertar do vampiro, você passou por dificuldades e precisou mudar de editora. Geralmente, o escritor iniciante acha que um bom resultado é garantia de estabilidade dentro do mercado. Qual a sua visão do mercado editorial atualmente?
Publicar é só o começo, o escritor precisa ir além para entrar no mercado editorial. Para vender, aparecer diante do público conta bastante. Eu vejo o M.E. em crescimento constante. Quando lancei Alma e Sangue em 2001, não tinha idéia do mercado nem das editoras, eu queria lançar meu livro e lancei. Já em 2005 quando Alma e Sangue foi relançado, comecei incentivada por um fã a navegar pelo Orkut e outros sites, compreendi a dimensão do mundo editorial.
Desde 2001 tenho visto o surgimento de novas editoras, como é o caso da Tarja. Temos vários escritores se reunindo em edições independentes. Contamos também com o Fantasticon que reuni e divulga escritores novos e os já consagrados. Não chamo de onda, mas de um desenvolvimento natural da literatura nacional. Não vou reclamar, pois a edição depende exclusivamente do autor, da qualidade do texto e da persistência, por vezes de sorte, ouso dizer. Vejo jovens buscando uma carreira de escritor e sempre me pergunto se eles fazem idéia do quão persistentes eles precisam ser para continuar e se estabelecer.
Editei duas vezes o mesmo livro, e estou indo para a terceira, dessa vez com um projeto consolidado, apoio e estrutura. Alma e Sangue – O despertar do Vampiro será relançado em junho pela Editora Aleph, para preparar o caminho para a chegada de sua continuação, Alma e Sangue – O império dos vampiros ainda esse ano. Percebo o grau de persistência e paciência que precisei esse tempo todo para compreender e me adequar ao mercado editorial. Não existe caminho fácil.
02. A série Southern Vampires de Charlaine Harris, que foi adaptada para a TV no seriado True Blood, aproveitou a temática para tratar de preconceito racional, fanatismo religioso e outros temas pertinentes. Você faz algo similar em sua literatura?
Não planejei nada, foi tudo muito instintivo e necessário. Estava num momento difÃcil, deprimida. Havia acabado a escola e fiz vestibular para direito. Não passei, tentei um curso técnico e também não passei. Estava ociosa e frustrada com o rumo da minha vida, pois as coisas que dominava eram todas artÃsticas, balé, música e pintura. Foi assim que veio a fase que chamo de dominó. Ganhei a máquina de escrever, tinha tempo, a idéia do livro surgiu, mas não evoluÃa. Até que tive um sonho e ele mudou minha vida. Tinha uma boa historia para contar, o amor entre um vampiro e uma mortal. Foi o que contei.
O que veio atrelado à trama foram às diferenças entre ambos, as conseqüências trazidas por esse envolvimento. Ao invadir o mundo da mortal, o vampiro trouxe seus hábitos e inimigos. E Kara ao entrar na imortalidade foi tocada por eles. Ela se choca ao ser beijada nos lábios por uma vampira, por exemplo, pois é desse modo que eles gostam de se cumprimentar, mas logo se acostuma. Também trato de temas sérios como estupro e a violência contra a mulher, mas dentro do contexto da história. Quando terminei o livro I, acreditei estar contando a história de Kara, a personagem mortal, mas ao finalizar o livro II e mergulhar no III, compreendi que ela é parte de uma trama maior.
03. No livro você aponta uma relação entre a festa do boi bumba e o mito dos vampiros que é um dos grandes momentos do livro. Poderia comentar esse trecho?
Lembro-me de quando era pequena acordar de madrugada com o som dos tambores do bumba meu boi, do Tambor de Criola e do Carimbó, e até mesmo com o som dos terreiros de candomblé mais próximos. Em dias como esses as rosas dos jardins próximos desaparecem. São Luiz, aliás, o Brasil é muito rico em lendas e personagens. Nascer e crescer aqui traz sua parcela de culpa criativa. Claro, sabemos que temos a mistura das lendas dos nossos colonizadores e a dos Ãndios, as trazidas pelos negros. Tudo isso junto fez nosso folclore e nos foi passado oralmente através das gerações mais velhas. Eu sempre vi a festa do Bumba Meu Boi como algo misterioso e belo. Eu não resisti e incorporei a tradição da festa no livro, conscientemente. O som durante a apresentação de um boi é eletrizante, matracas, tambores, as vozes, a magia por trás das cantorias. A lenda é cômica e trágica. A mulher de um vaqueiro esta grávida e desejando comer lÃngua de boi. O animal pertence ao fazendeiro rico, mas para satisfazer a esposa ele mata o boi. Durante a morte do animal eles bebem vinho que é a representação de seu sangue. O Boi é ressuscitado com reza e pajelança e agora é imortal. Está tudo ali o desejo, a morte, o sangue e a ressurreição do animal. É praticamente o ritual de transformação dos vampiros. Foi irresistÃvel colocar no livro.
04. Você acha que esse é um caminho para a criação de uma identidade nacional dentro da fantasia nacional? Pretende explorar outros mitos?
Sim, nos temos um folclore riquÃssimo. Do mesmo modo que na Europa há lendas sobre vampiros e monstros, aqui temos lendas incrÃveis. Eu cresci ouvindo sobre elas. A mula sem cabeça, o saci, o Capelobo, Iara. Histórias estranhas de fantasmas e de mulheres que viravam gatos e peixes, homens virando boto. E mesmo com elementos de macumba e pajelança. Um mundo de únicas, todas nossas e à disposição da imaginação. Certamente dão um toque nacional a narrativa de qualquer livro.
E sim. Na continuação do livro Alma e Sangue, que vai sair por volta de setembro de 2009, trago uma passagem sobre A serpente Encantada, que segundo a lenda vive embaixo da ilha de São Luiz. Quero levar o leitor para as galerias subterrâneas, na Fonte do Ribeirão. Acho que eles vão gostar muito.
05. O sucesso de Crepúsculo fez até Anne Rice voltar a ser editada. É curioso pensar que essa geração que curte Bella Swan e Edward Cullen talvez não conheça Lestat, Louis ou Akasha. Que tipo de vampiro atrai o público hoje em dia? Você trabalha seus personagens pensando na aceitação do público?
Deixar de conhecer Lestat é a mesma coisa que deixar de conhecer Drácula. Ambos são Ãcones da mitologia vampiresca. É importante que os fãs de novas séries como Crepúsculo e outras que venham a seguir tenham curiosidade, há muitas histórias fabulosas por aÃ. Muito do que hoje se entende por romance de vampiro hoje em dia devemos à Anne Rice, por exemplo. Se gostar do tema, então tem de experimentar as várias vertentes dessa fonte rubra que é o vampirismo.
O vampiro tem um charme natural. Seja bonito ou careca como Nosferatu. A idéia da imortalidade sempre vai nos atrair como mariposas para a luz. E a adaptação desses seres ao nosso mundo é o mais admirável. É nela que o leitor encontra onde se agarrar. Eles não dormem mais em caixas cheias de areia, não temem cruz nem água benta, tomam banho, vão à escola e se apaixonam, sempre. Na verdade, a imortalidade de um vampiro depende de sua adaptabilidade. Cada vez mais eles andam de jeans e preferem sangue de animais ou mesmo sintético, como explorado em True Blood.
Os meus personagens já surgem prontos, sejam bons ou ruins. Vêm num pacote completo com nome, caracterÃsticas, personalidade e caráter. Aparecem para preencher a trama do livro e felizmente o publico os aprova. Posso dizer que tenho muita sorte. Mas também recebo reclamações extensas como cada um deles. Meus leitores são exigentes, por isso me exijo também.
O importante é que, sejam cruéis e lindos como o Lestat, interpretado no cinema por Tom Cruise, ou eternamente adolescentes como Edward Cullen, os vampiros demonstram sua força nos seduzindo há séculos e outros séculos virão na companhia desses seres maravilhosos.
06. Como a Internet influencia a produção de um escritor e sua relação com os fãs? Os escritores de hoje sabem aproveitar o potencial da Web?
Os blogs são uma ponte única entre o fã e o escritor. Deixo quase sempre posts no meu e a resposta ao texto é imediata. A web aproxima, faz as notÃcias chegarem mais depressa. Gosto de receber os e-mails e recados dos fãs, mas meu texto não está submetido aos seus desejos. A história segue seu curso natural, as alterações só seriam realizadas se o desenrolar da trama exigisse. Tenho um leitor que sempre me pede para que Kara fique grávida. É pena não poder atender sua reivindicação. Na minha mitologia os vampiros não se reproduzem, pelo menos não através de sexo e sim por contaminação sanguÃnea.
Acredito que o escritor tem conhecimento da Web, mas alguns talvez não saibam como usá-la adequadamente. A Web é um espaço gratuito de divulgação, que se bem direcionada atingirá e ampliará o publico de seu livro. É um espaço democrático.
07. Você pode adiantar alguma coisa sobre Alma e Sangue – O Império dos Vampiros?
Em Alma e Sangue – O Império dos Vampiros, o leitor vai finalmente descobrir o que realmente aconteceu com Kara no final do livro I e mergulhar de cabeça na mitologia que criei para tratar de suas regras e organização. Eles estarão presentes em maior quantidade, mostrando suas leis e conflitos, os interesses que os movem, como nos observam e se mantêm escondidos. Haverá momentos de muita tensão e perigo tanto para a vida de Kara como para de Jan Kmam. O rei Ariel Simon estará bastante presente nesse volume, e o amor entre Kara e Jan vai ser posto a prova várias vezes. Enquanto ele não chega, acho que os fãs vão gostar de reler o primeiro livro também. Ele passou por uma ótima revisão, está mais leve, ganhou cenas novas, novos pontos de vista e algumas pequeninas alterações que, já adianto, não mudaram o rumo da historia. Quem já leu só terá a gostar.
Espelhos Irreais, coletânea
Espelhos Irreais é o primeiro projeto em papel do coletivo de autores Fábrica dos Sonhos. Lançado pela Multifoco, reúne contos de cinco autores, indo da fantasia à ficção. Como toda coletânea, tem seus pontos fortes e fracos, mas no geral o resultado é positivo. Não sou um leitor tÃpico de fantasia clássica. Ao mesmo tempo em que me permito fechar os olhos para as fórmulas de humor da fantasia urbana e gêneros que exploram a ambiência contemporânea, acabo sendo mais exigente com mundos populados por elfos, anões e criaturas similares. Por não ter uma identificação imediata com os personagens, preciso ser convencido pela história, buscando a empatia com a escrita e o escritor e voltando no tempo, quando a fantasia era mais do que uma guerra de anões e tratava de uma batalha interiorizada, mesmo que calcada nas alegorias e contornos épicos que marcaram as grandes obras do gênero.
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2º Ciclo Paulista de Literatura Fantástica
A OPELF, Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica, começou dia quatro de abril sua maratona de palestras e eventos que ajudam a movimentar o cenário de fantasia e ficção-cientÃfica no eixo Rio-São Paulo. Depois de uma palestra de JanaÃna Azevedo sobre literatura fantástica (que não tive a oportunidade de acompanhar), o clima esquentou com uma mesa-redonda reunindo Ana Cristina Rodrigues (AnaCrônicas), Fábio Fernandes (Interface com o Vampiro e A Construção do Imaginário Cyber), Cristina Lasaitis (Fábulas do Tempo e da Eternidade), Roberto de Sousa Causo (A Corrida do Rinoceronte e Ficção CientÃfica, Fantasia e Horror no Brasil) e Gerson Lodi-Ribeiro (Outros Brasis e Crônicas – Taikodom). A OPELF trouxe algumas novidades tecnológicas como entrevistas em vÃdeo, trailers de livros de novos autores e depoimentos gravados para uma homenagem surpresa a Gerson Lodi-Ribeiro. Segundo Horácio Corral, organizador ao lado de JanaÃna, a parte tecnológica saiu ligeiramente Steampunk, mas tende a melhorar nas próximas edições. Notebooks só perdem para Datashows na hora de deixar seus donos na mão, o que me lembra de uma das definições de ficção-cientÃfica: gênero onde os equipamentos nunca dão defeito nem travam no momento mais importante.
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Paradigmas
A ficção cientÃfica normalmente não me atrai muito. Existe um problema intrÃnseco, para mim, que é a da suspensão da realidade na escrita pretensamente calcada em parâmetros cientÃficos. Este é um problema que nasceu com a FC (como carinhosamente é chamada a ficção cientÃfica). Existem rarÃssimos autores que conseguem o fazer acreditar dentro deste contexto, de um irreal cientÃfico. (more…)
Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
E assim começo essa resenha, Ó, meus irmãozinhos, ainda sob influência das gÃrias dos druguis de Laranja Mecânica. Fico muito tentado a escrever um há há há e fazer lá meus trocadilhos, abusar das jogadas de fonética-ética que Anthony Burgess usa quando o personagem não quer saber da escolacola e só se liga, tipo assim, em enfiar uma britva numa babushka qualquer, num lance muito horrorshow. Mas me apiedo de vossos neurônios e como a resenha não terá um glossário como há no final do livro, prometo me comportar e arrastá-los para o cerne dessa distopia escrita em 1962 apenas em citações.
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Uma farsa narrativa – O Fantasista
Sob o Chile ocupado pelas forças militares muito já se escreveu. Durante os anos de ocupação militar, surgiram diversas novelas que tomavam o fantástico como modo de expressão e denúncia. A novela de Hernán Rivera Letelier – O Fantasista - trai essa influência. Nela reencontramos alguns dos tipos criados pela percepção do fantástico, entretanto, já é outra coisa que a novela apresenta. Os acontecimentos espetaculares são aqui tomados em tom menor. (more…)
Pornografia
O livro de Witold Gombrowicz é desses romances que se devem ler de um fôlego, para depois voltar e reler com vagar para usufruir das artimanhas da narrativa. A história se passa na Polônia ocupada. Anunciadora dos novos tempos, Pornografia percebe o movimento de uma sociedade que se forma das ruÃnas de um mundo que deixou de se sustentar, de um mundo cujos valores foram coagidos a mudar, de um mundo cuja necessidade se esgota nos dilemas morais da mais ampla devastação humana. (more…)
40 novelas de Luigi Pirandello
40 novelas de Luigi Pirandello faz parte de um projeto recente da Companhia das Letras de reunir diversos textos de um determinado autor (já são vários na coleção) em um grande livro. A edição com Pirandello tem 505 páginas é um verdadeiro tour de force, muito mais um estudo do que uma leitura rápida de fim de noite, o que não é de maneira alguma um demérito.
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Entrevista com Fábio Fabricio Fabretti
1. Você é um autor que escreve tipicamente para um público adulto. Seus textos no blog Palavras que sangram ou no pocket Sexo, drogas e tralalá, por exemplo, lidam com morte e elementos de um universo mais introspectivo. Foi difÃcil buscar uma nova essência para escrever um infantil?
Produzi muito em minha infância, mas nunca me imaginei escrevendo para crianças, embora a literatura infantil me atraia desde cedo. Meu contato com crianças sempre foi superficial. Não possuo filhos, minha famÃlia é distante e dou aula para adultos. Minha temática literária sempre se voltou para as questões do submundo, do amor e da morte, que me fascinam e me inspiram, ou seja, minhas maiores referências de vida e de arte, por isso me chamam por aà de gótico ou “undergroundâ€. E de repente me vejo escrevendo para o público mirim. Mais do que isso, envolvendo-me num universo que já pertenci ou que fazemos questão de não mais pertencer.
2. Como surgiu a idéia de O Mistério dos Livros? Sei que a grande inspiração foi Clarice Lispector.
É clichê, mas Clarice é uma das minhas maiores referências literárias. Na adolescência, quando conheci a sua obra e passei a devorá-la, descobri uma entrevista dela na coleção Para gostar de ler. Clarice explicava que, quando criança, se perguntava e imaginava de onde vinham os livros. Nunca me esqueci disso. Anos depois, tanto a recordação de sua curiosidade quanto a sua imaginação mágica, me renderam “O mistérios dos livrosâ€, onde criei a personagem Clarice e reinventei aquele momento indagador da sua infância, com bases ficcionais, claro.
3. Como o projeto foi parar na Alemanha com o livro?
Roseni Kuranyi, uma amiga escritora brasileira que vive em terras germânicas, me chamou para visitar o Projeto Cria-Brasil, uma instituição que visa a educação das crianças de origem brasileira que vivem na Alemanha. Fiquei encantado pelo convite e pelo trabalho do projeto. Mas como palestrar para crianças levando apenas livros de adultos? Então me lembrei que havia escrito o livro infantil sobre Clarice Lispector. Imediatamente resgatei a obra, reescrevi e a apresentei ao meu então editor, Marcos Maynart. Em pouco menos de um mês publicamos o livro e em julho o levei para a Europa. Por coincidência, Clarice Lispector completava trinta anos de falecimento. No Brasil, o livro foi lançado um mês antes da data comemorativa, e no dia exato da sua morte, nove de dezembro, uma peça foi encenada, baseada no livro. Deve ter sido a energia favorável de Clarice que contribuiu.
4. Diz-se muito da dificuldade de traduzir literatura infantil de um idioma para outro. Que é uma literatura de valores muito peculiares e difÃcil de ser adaptada. Como foi a experiência?
O livro foi publicado no Brasil e lançado na Europa. Não chegou a ser traduzido. Eu o levei na lÃngua portuguesa mesmo. O Projeto Cria-Brasil fez questão de recebê-lo assim, pois está na linha de trabalho que eles realizam, alfabetizando e valorizando a nossa cultura entre os alunos teuto-brasileiros. Claro que as crianças falam fluentemente o alemão, desde as adotadas até as que nasceram ou se mudaram muito novas para lá, mas o projeto instrui a lÃngua portuguesa como um segundo idioma para esses pequenos, sem deixar que eles se desvinculem do Brasil. Na convivência com os brasileiros adultos radicados no estrangeiro, percebi que há uma grande carência sobre tudo o que vem de nós, principalmente nas artes. Levei o caderno cultural de um jornal que comentava a minha ida para a Alemanha e eles devoraram todas as páginas, querendo saber tudo o que acontecia de artÃstico por aqui.
5. Você já apresentou o livro para públicos distintos, mas acredito que todos eles tenham um ponto em comum. Como você sentiu isso?
Criança é criança em qualquer parte do mundo. A essência da criança é ela mesma. Sou sempre muito bem recebido e aprendo muito. Fico comovido com as mais diversas reações. Quando apareço com meus livros revelando que vim para e por elas, vejo o indisfarçável encantamento em seus olhos. Criança gosta de se sentir especial porque de fato é. Na Alemanha, muitas me perguntaram como era o Rio de Janeiro… se o mar era salgado mesmo… se o Cristo Redentor era realmente grande… Na aldeia indÃgena que visitei, uma criança curumim se aproximou e me perguntou cheia de deslumbramento se eu havia escrito o livro para ela. Quando visitei a favela Cidade de Deus, na baixada do Rio, pedi à s crianças que fizessem um desenho para mim. No momento em que a assistente social me avisou para encerrar o evento, uma menina começou a chorar desesperadamente. Disse a ela que poderia terminar o desenho em seu lar, sem problemas, mas ela me explicou que não tinha lápis de cor em casa. E na escola pública Professor Souza Carneiro, no subúrbio da Penha, várias alunas tÃmidas quiseram um autógrafo, por nunca terem conhecido um autor. Volto para minha casa e passo dias e noites refletindo. É o tipo de coisa que dinheiro algum no mundo consegue pagar. A maior aprendizagem. O reconhecimento mais gratuito e verdadeiro.
6. Como você foi parar em uma aldeia indÃgena com um saco de livros nas costas? É possÃvel se conectar a um mundo tão diferente, se é que ele é tão diferente assim?
Tudo começou com um convite que recebi das minhas primas, Eliane de Cássia Bergo, envolvida nas prefeituras mato-grossenses, e Elaine e Érica Bergo, da área de saúde. Através da FUNAI e da Universidade de Mato Grosso, conseguimos chegar à aldeia dos Ãndios Umutinas, que significa “Ãndios barbadosâ€. Eles vivem numa ilha fluvial entre os rios Paraguai e Bugres, na faixa de transição entre a floresta amazônica e o pantanal mato-grossense. Foi uma viagem divertida e aventureira, acompanhado por meus familiares que vivem em Arenápolis. Tanto a recepção quanto o convÃvio foram de carinho e atenção. Eles valorizam tudo o que vem prestigiá-los e acrescentar-lhes. No centro da aldeia existe uma escola pública chamada Julá Paré, cujos próprios professores são Ãndios. Fiquei impressionado com a organização social e a educação entre eles. Hoje suas raças estão miscigenadas devido à s interligações étnicas. E não ignoram a atualidade. Continuam vivendo em ocas, por exemplo, mas são conectados à rede. Alimentam-se ainda da caça, da pesca e da plantação, mas consomem produtos industrializados. Possuem luz elétrica e até um tipo de saneamento. Usufruem da modernidade tanto quanto nós, estudando em faculdades e adquirindo profissões, mas mantém os seus costumes, preservando a sua cultura. Um dos rituais mais famosos dessa tribo, por exemplo, é o Culto aos Mortos.
7. Chegou a ver o Culto aos Mortos?
Participei um pouco daquele cotidiano “selvagemâ€, numa versão de Hans Staden do século XXI, mas infelizmente não presenciei o Culto aos Mortos. Estes cerimoniais acontecem na colheita do milho ou no decorrer do ano. Eles festejam com vários eventos tradicionais chamados Lorunó (dança com máscaras de cabelo), Yatáribu (cerimônia com canto), Boiká (iniciação dos arcos), Manixuarê (dança com flautas sagradas) entre outras. Trocam suas roupas comuns por vestes e ornamentos tÃpicos, e pintam seus corpos imitando as escamas de peixe. Porém, os pequenos e jovens indÃgenas me apresentaram uma tradicional demonstração da dança dos guerreiros, onde só os homens participam.
8. Apresentar O Mistério dos Livros em uma tribo indÃgena foi uma novidade para eles tanto quanto para você? Por mais que seja um infantil, “O Mistério dos Livros†deve carregar no cerne parte das sombras do autor. Houve um choque de culturas e tradições ou a literatura é mesmo universal?
“O mistério dos livrosâ€, como comentado anteriormente, é um mistério até para mim. Trouxe-me acontecimentos inesperados e me abriu muitas portas. É um livro que promove a descoberta da leitura e desperta a sensibilidade artÃstica. A literatura é universal, como provam os clássicos que lemos eternamente. Um episódio interessante na aldeia Umutina foi quando lhes pedi que escolhessem um desenho do livro para pintarem. Todos optaram pela mesma página, com a gravura inicial da menina Clarice brincando com sua boneca num jardim. Foi minha prima Idaliana quem chamou minha atenção para o fato. Não sei se foi o contato familiar com a natureza ou a simplicidade da imagem em si que lhes interessou. A história é outro elemento que envolve diretamente as crianças. Na Alemanha, antes de lermos juntos, pedi que escrevessem no quadro-negro “de onde vêm os livros?â€. E responderam: “do céu (da imaginação que Deus nos deu?), “da editora (que faz os livros?)â€, “das árvores (que fabrica o papel?)â€, “da bolsa (que guarda os livros?)†e “do autorâ€. Alguém até escreveu “do Fábioâ€. Quando apresento minha obra a um público infantil, não há distinção, seja numa favela, num bairro nobre ou numa aldeia. A sintonia é tão grande que as crianças rapidamente querem demonstrar suas habilidades: “olha como eu sei cantar…†ou “veja o meu desenho…†ou “eu também posso contar uma história…â€. E há os que revelam gostar de escrever histórias, poesias ou diários, seja na cidade grande, no interior ou numa tribo indÃgena.
9. A pergunta é obvia, mas inevitável: pensando nos Ãndios e na Alemanha. Você acha que o “mistério†propriamente dito foi diferente para os dois?
Como num espetáculo, nenhuma platéia é igual à outra, portanto as reações são as mais variadas. Certa vez me perguntaram por que a capa do livro era preta, e eles mesmos deduziram que se relacionava ao mistério, ao enigma da trama. Em outra situação, queixaram-se do desaparecimento repentino da boneca da personagem, que só é citada no inÃcio. Criança é um público crÃtico e exigente, talvez até mais que os adultos. Se não convencer ou não ficar claro, reclama. Minha prima de cinco anos, Sofia, estava rabiscando a dedicatória que fiz a ela. Diante da minha advertência para não estragar o autógrafo, ela questionou: mas o livro não é meu? No entanto, todos os públicos são iguais quanto ao fascÃnio de desvendarem o mistério. Me sinto feliz em mostrar que muitas respostas estão simplesmente dentro de nós mesmos.
10. Sei que você está envolvido agora com a biografia da atriz Gloria Pires. Também fez parte da equipe da biografia “Caio Fernando Abreu – cartasâ€. Como é o processo de construção de um livro sobre a vida alheia? Vira e mexe, dizemos que a realidade é mais interessante que a ficção. A teoria se comprova em uma biografia desse tipo?
O livro das cartas do Caio Fernando Abreu foi uma experiência gratificante e trabalhosa. O Caio deixou muitas cartas aos amigos e fizemos um rastreamento desse material. O processo inteiro do livro levou dois anos. Engraçado que ele próprio, em uma das cartas, recomenda a uma amiga que publique tudo quando ele morresse. Acabei me envolvendo com o mundo biográfico, que sempre gostei de ler. Entretanto, nada é totalmente biográfico na vida de alguém, como nada é totalmente ficcional numa história inventada. Quando se escreve, seja ficção ou biografia, há um ponto em que o real e a imaginação se confluem. Na literatura nem tudo é verdadeiro e nem tudo é falso. A base da ficção é a realidade e não há realidade sem ficção. Ambos são interessantes para quem gosta de escrever. Uma pessoa me perguntou um dia qual tipo de escritor eu gostaria de ser, e respondi que quero ser um escritor que escreva. Acho que um autor deve escrever de tudo, independente do seu estilo. Não gosto de rótulos nem de limitações. Sobre a biografia da Gloria Pires, o escritor e roteirista Eduardo Nassife me convidou para escrever com ele, em comemoração aos quarenta anos de carreira da atriz. Gloria quer lançar a sua primeira obra editorial abordando a vida pessoal e profissional. Na verdade, será a primeira parte da sua biografia, pois sabe que ainda há muito para viver e fazer. Se antes já gostava do seu talento, hoje, além de um dos seus biógrafos, sou seu admirador também. O resto é surpresa!
Por um cinema sem limite, Rogério Sganzerla
Por um cinema sem limite não é um livro para quem nunca estudou ou leu nada sobre o assunto. Ele reúne textos de Rogério Sganzerla que vão da década de 60 até 80, abordando principalmente a transição do cinema clássico para o moderno. Os comentários trabalham, por exemplo, a questão da câmera, da mudança do olhar do diretor sobre o seu objeto, indo de uma visão quase divina para a altura do olho humano. É interessante perceber a evolução da linguagem de Eisenstein a Welles despida de todo o caráter técnico da estruturação cinematográfica e se concentrando na questão da câmera e no modo como o diretor situa seus atores em relação a todos os demais elementos da cena.
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Guardianes de la noche, de Sergey Lukianenko
O livro de fantasia urbana Guardiões da Noite saiu na Rússia em 1998, ano da crise financeira russa que teve reflexos no mundo todo. Foi um best-seller na casa de um milhão de cópias só no paÃs. Em 2004, foi adaptado para o cinema e ganhou novo fôlego mundial. Aproveitando a onda de certo jovem mago que virou fenômeno literário, o livro foi traduzido para diversos paÃses. O Brasil não foi um deles. Comprei-o em espanhol, editado pela Plaza Janes. Excelente edição.
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Gomorra (livro), de Roberto Saviano
O livro Gomorra foi escrito por Roberto Saviano, atualmente jurado de morte pela máfia italiana chamada Camorra. O Sistema, como a Camorra é conhecida entre os membros, é considerado um dos grupos mafiosos mais fortes e influentes do mundo, com negócios por toda a Europa e parte da Ãsia, importadores de drogas vindas da América do Sul e com conexões nos Estados Unidos. A brincadeira entre os nomes Gomorra e Camorra é evidente, mas a escolha também se explica em um dos últimos capÃtulos, quando Saviano conta a história de um padre que resolveu enfrentar os mafiosos. O autor viveu na região de Nápoles, o que possibilita uma visão bem singular dos fatos, uma chance em mil. Ele era próximo de alguns personagens camorristas do livro, cresceu ouvindo as histórias sobre a violência do grupo e vivenciou várias delas. Seu pai, por exemplo, foi espancado por tentar salvar uma das vÃtimas da Camorra, que acho sangrando em uma estrada. Trabalhava em ambulância, o ferido precisava de ajuda. Ele o levou para o hospital. O certo seria esperar os assassinos voltarem e terminarem o serviço, para só então recolher o corpo. O livro fala muito dessas leis invisÃveis que não competem ao estado, mas ao mundo do crime. Todos sabem quais são e quebrá-las tem conseqüências graves, o que explica a falta crônica de testemunhas para crimes de assassinato.
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Revista Portal Neuromancer
A revista Portal surgiu graças a uma iniciativa do Nelson de Oliveira que, mais e mais, vem se aproximando da literatura fantástica ou ao menos se assumindo como tal. É tecla que sempre bato e engraçado usar o termo assumir, mas a ficção-cientÃfica e a fantasia sofrem de um preconceito antigo dentro do meio literário, então o termo cai bem. É costume dizer que as editoras ainda estão descobrindo o fantástico, mas aà estão Harry Potter, Crepúsculo e as obras de André Vianco, todos extremamente lucrativos, para mostrar que as editoras não só conhecem o fantástico como também o seu potencia de retorno.
A que tenho em mãos é o segundo número de seis portais, a Portal Neuromancer. Cada uma das revistas homenageará uma obra importante da ficção-cientÃfica. A primeira se chamou Solaris, os próximos serão Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A obra não é comercializada em livrarias e cabe a cada autor presentear os amigos com os exemplares que possui (ou reservar uma parte para vendas diretas).
Esse número traz contos de Fábio Fernandes, Roberto de Sousa Causo, Geraldo Lima, AtaÃde Tartari, Marco Antônio de Araújo Bueno, Lima Trindade, J.P. Balbino, Rogers Silva, Tiago Araújo, Jacques Barcia, Luiz Bras e Ana Cristina Rodrigues, com a coordenação editorial do Nelson de Oliveira.
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Prêmio Braulio Tavares 2008, contos de ficção-cientÃfica
Nos eventos literários que acompanho e no papo na mesa dos barzinhos (muitas vezes mais interessante), é comum o pensamento de que a literatura está mudando, não se sabe muito bem para onde. Estamos no meio de um óbvio processo de transição. Geralmente o papo surge quando se fala do fetiche do papel. Será que a literatura que importa é só a publicada? Não há nada de bom na Internet e tudo que é publicado é bom? O livro continuará sendo de papel para sempre ou cederá seu lugar para o baratÃssimo pdf? O mercado de audiobooks que cresce nos EUA terá algum reflexo no Brasil? Essa é uma conversa que para mim soa velha, desculpe se para você também, mas é importante repeti-la porque ainda há quem brade contra essa coisa entranha chamada Internet. Já li artigos jornalÃsticos falando mal da Wikipédia e soube de uma professora que obrigou os alunos a fazerem de próprio punho para evitar o famigerado copy e paste possibilitado pelos computadores. São sinais evidentes de um sentimento de “estamos perdidosâ€. De repente o colecionador de Barsas passou a ter chances de fazer um bom trabalho que são equivalentes à de qualquer pessoa conectada à Internet. Não é mais uma questão de quem detém o conhecimento, mas sim de quem sabe procurá-lo, peneirá-lo e interpretá-lo.
Na literatura a questão primordial ainda são os blogs. Então você também é escritor? Droga! Mas esse era o meu diferencial intelectual. Preciso arrumar outro jeito de provar minha superioridade. E lá estou em papel. Publicado. Você, só de blog não é nada. Mas não existe só blog. Hum. Existem revistas virtuais, e-zines, com um editor por trás. Além disso, o Paulo Roberto Pires tem blog, o Charles Stross tem blog, o Sergio Rodrigues também. Se eles publicarem contos nesse espaço serão menos literatura do que no papel? Existem editoras on demand que imprimem seu cartão de visita literário de trezentas e poucas páginas com capa colorida. Droga! Mas eu, eu… eu sou publicado. Eu até tenho um blog, mas o que faço ali não é literatura não, veja bem, meu amigo, é só uma coisinha aqui que escrevo para passar o tempo, meu trabalho mesmo está no estoque de uma grande editora, encalhado, mas o que vale é a palavra grande do ladinho de editora. Mas uma editora pequena recém criada ganhou o prêmio Açorianos. E então? E os conceitos continuam a se mesclar, cada um tentando defender seu sucesso através de n fatores que geralmente não passam pela qualidade do texto. A qualidade. Às vezes e só à s vezes a gente se esquece dela.
Esse lero todo para dizer que não sei quando começou a transição, mas sei que de agora em diante estaremos sempre dentro dela. As mudanças acontecendo rapidamente e as novidades alterando o rumo das mudanças. Não há um final a ser visto da janela na ponta dos pés. O fato é que o virtual e o real colidiram, se misturaram. A parede cheia de CDs e livros virou um HD cheio de mp3 e pdf. O virtual é além de tudo um imenso banco de dados e a literatura presente nele deve ser avaliada com os mesmos pesos e medidas que a literatura em papel. Afinal, Borges lido em um site não vale menos do que Borges editado.
Por sorte, nem todo mundo se desespera aumentando a cerca para proteger seu território. Não só há produção literária como também estÃmulo para que autores ainda inéditos em papel se aventurem no mundo da escrita. Uma das iniciativas mais interessantes nasceu recentemente no Orkut na comunidade de ficção cientÃfica e foi batizada de Prêmio Bráulio Tavares. Sob a batuta de Ana Cristina Rodrigues, a atual presidenta do Clube de Leitores de Ficção CientÃfica, foi organizado um concurso em que os membros da comunidade enviaram contos sob pseudônimos e votaram seguindo regras, elegendo assim os vencedores. Os melhores contos da edição anterior saem em 2009 em papel, em um intercâmbio que devia ser mais explorado pelas editoras.
O Prêmio Braulio Tavares 2008 contou com os votos da comunidade e também de jurados escolhidos pela Ana Cristina, entre eles editores e pessoas importantes no cenário literário da ficção cientÃfica brasileira. Foram vinte e um contos e doze mini-contos inscritos. Comento abaixo os cinco primeiros lugares do concurso de contos, que também incluem os 3 eleitos dos jurados.
Muito depois da primeira bomba, de Leonardo Lemos, tratou de um assunto bastante explorado na ficção-cientÃfica, mas soube fazer a sua graça. Aproveitando a explosão da primeira bomba atômica, Leonardo situa o leitor no deserto, passa o encanto dos cientistas e a sensação de deslumbramento anterior aos desdobramentos bélicos reais. Interessante que ao quebrar a ambiência do passado citando as mortes que viriam pela frente, o autor faz um jogo com uma perspectiva tomada do futuro que tem tudo a ver com a história.
“Dias mais tarde, o mesmo diretor declararia à imprensa que após a explosão, veio-lhe um trecho do Bhagavad Gita à mente: Agora sou a morte, destruidora de mundos. Foi mesmo. Para 150.000 pessoas após alguns dias, para 340.000 pessoas após alguns anos e somente o futuro poderia dizer quantas pessoas mais morreriam depoisâ€.
Depois disso, o leitor é apresentado a Bernard Brewer. Responsável por estudar as propriedades do plutônio, ele recebe a missão de analisar um fragmento de rocha contendo um material vÃtreo estranho achado na região da explosão. O conto segue seu ponto de vista, se apropriando de vocabulário analÃtico, com direito a superfÃcie porosa, estereomicroscópio, caracterização mineralógica e tudo mais. Aos poucos se percebe que a história não girará em torno da bomba e de suas proporções assombrosas, mas sim daquele corpúsculo minúsculo, ironicamente muito mais importante para o pesquisador e para a narrativa. É projeto para Discovery Channel nenhum colocar defeito.
“Assemelhava-se a vidro derretido, translúcido e esverdeado, tendo provavelmente se formado através da fusão de elementos do solo do deserto, causada pela elevadÃssima temperatura da explosão. A olho nu, os fragmentos pareciam placas, com uma superfÃcie lisa e a outra altamente irregularâ€.
Fora os dois primeiros parágrafos truncados, o texto flui bem até o fim e consegue retratar de maneira crÃvel a sensação do profissional da área de pesquisa diante do inusitado.
Marcelo Augusto Galvão, autor de Vida e morte do último astro pornô, escolheu um caminho diferente, usando de modo preciso o tempo peculiar do humor. Sua história brinca com a indústria de entretenimento e de certa maneira potencializa o atual cenário de celebridades baratas, levando-o às últimas conseqüências. Esqueça Laranja Mecânica, Tubarão ou Acossado, os clássicos do cinema são filmes pornôs, e seus participantes são idolatrados.
A introdução é um trecho de A história informal da pornografia do século XX:
“(…) A Era de Ouro do Cinema Pornô é o perÃodo compreendido entre o final dos anos 60 e começo dos 80 em que o pornô se consolidou como um gênero cinematográfico legÃtimo. PelÃculas como ‘Garganta Profunda’ (1972), ‘O Diabo na Carne de Miss Jones’ (1973) e ‘A Décima Musa de Apolo’ (1976) tinham roteiros e atuações convincentes – algo inimaginável hoje em dia – e eram resenhadas nos cadernos culturais dos grandes jornais, acabando por atrair um público sofisticado bem diferente das figuras que freqüentavam as sórdidas salas especializadas em ‘filmes de sacanagem’â€.
Como indica o tÃtulo, o conto narra a história de Nick Richards, ou Nick Dick, no fundo do poço, já na sombra de seus áureos tempos. Quando oferecem a ele um papel que pode recolocar sua carreira nos eixos, Nick se vê em uma situação limite, perturbadora até para ele, e graças a uma seqüência de incidentes, acaba se tornando um grande herói.
“Betty Boobie esteve aqui hoje. Quase não a reconheci, estava sem maquiagem, usando um vestido preto que ia das canelas até o pescoço, cobrindo aqueles peitões dela. Disse que encontrou Jesus (…)â€.
O forte do conto é brincar descaradamente com a indústria de sexo e os conceitos de arte. A boa e velha discussão sobre a tecnologia diminuindo o número de empregos (alguém se lembra das aulas sobre mecanização da lavoura?) ganha aqui outros contornos, com os robôs ocupando as vagas até dos atores pornôs. Excelente utilização do tempo do humor em benefÃcio da estrutura narrativa.
O homem bicorpóreo, de Hugo Marcel Vera, muda o clima para o uso de psiônicos pelo exército a revoltas separatistas em colônias de Marte. Aà no meio, uma história de contexto polÃtico, de como fatos podem ser ocultados do grande público e da mÃdia. A personagem de maior empatia é Dra. Helena Corelli, responsável pela pesquisa com os psiônicos. A história é contada através de uma conversa dela com o Primeiro Ministro e gira em torno de idéias para resolver as revoltas. Infelizmente, a pessoa mais indicada para acalmar os rebeldes, o governador Cláudio Texeira, sofreu um atentado. O jeito é usar os recursos cientÃficos disponÃveis para fazer o povo acreditar que ele continua bem e que é ele quem faz os discursos pela paz. É para Elvis e Osama nenhum botar defeito.
“— Mantemos sua imagem sempre presente na mÃdia local. Escrevemos seus discursos, que são lidos pelo próprio Governador, e enviamos à imprensa em holofilmes. Evidentemente a imprensa recebe um arquivo onde somente o áudio da voz pertence ao Governador. As imagens do holofilme são animações gráficas em 3-D baseadas em imagens de arquivo. O resultado final é perfeitoâ€.
O mérito da história é conseguir acender a centelha de uma mitologia complexa mesmo com as limitações de tamanho de um conto. Psiônicos são sempre bem-vindos na literatura fantástica e aqui foram bem utilizados. Também vale ressaltar a qualidade da escrita, que não recai no exagero de adjetivos que costuma poluir textos de novos autores.
Já Rodolfo Londero optou por uma brincadeira literária. 500 anos de Edgard Rice Burroughs conta a história do autor do clássico futurista Uma princesa de marte, lido por 10 entre 10 extraterrestres. O conto é narrado por um desses extraterrestres. Ele não se conforma que um clássico possa ter sido escrito por um povo tão atrasado e que curte autores de péssima qualidade como James Joyce e Virginia Woolf. É uma boa inversão de parâmetros que nos lembra do papel da pluralidade do olhar na literatura. Aquela conversa de que parâmetros determinam uma grande obra.
“Ainda me lembro quando Uma princesa de Marte chegou entre nós. Eu tinha apenas 119 anos e as viagens espaciais para a Terra haviam recém iniciadas. Não nos apresentamos imediatamente para os humanos, pois querÃamos conhecer sua polÃtica e sua cultura antes de qualquer ação. Então, infiltrados, coletávamos tudo que achávamos interessante: aparelhos portáteis, placas de trânsito, dicionários, etc. Até que um dia alguém coletou uma edição de luxo da obra-prima de Burroughs (mais tarde irÃamos descobrir, indignados, que os romances do mestre foram impressos originalmente em revistas de papel barato)â€.
Não foi um tema que me atraiu tanto, mas também é um texto bem escrito. Do tipo que se lê de uma vez só. O plágio que os extraterrestres tentam fazer de Uma princesa de Marte já vale a leitura dos fãs de ficção-cientÃfica.
Para encerrar a resenha, Aguinaldo Peres e O caso Floret.
O conto começa descrevendo o lugar onde está Floret preso. O autor poderia ter se detido um pouco menos nos detalhes técnicos da ambientação e aproveitado melhor essa parte. É só quando Floret vai conversar com o advogado que a história começa para valer. O advogado pede que ele conte tudo que aconteceu no dia do fatÃdico episódio, nos deixando a par de seu drama.
Floret foi preso por agredir um funcionário no terminal da versão futurista do metrô de São Paulo. Motivo? Burocracia misturada com falhas tecnológicas. Nada de conseguir passar na catraca. Imagine ter que lidar com a agência de vigilância sanitária e um erro fatal do Windows ao mesmo tempo. É mais ou menos por aÃ.
“Ele acorda com a voz genérica dos sistemas públicos. Um nicho se abre na parede, na bandeja um copo médio de leite e um pequeno de café, saches de açúcar, torradas e um sanduÃche frio embalado a vácuo. O homem despeja dois saches no café e o bebe para empurrar o sanduÃche insÃpido garganta a baixoâ€.
A idéia de Aguinaldo me lembrou a burocracia labirÃntica de Kafka em O Processo e foi a história que mais me agradou, talvez por uma questão de comiseração e identificação com o personagem. Quem já teve que subir e descer infinitamente de um andar para outro dentro de algum cartório ou tentou convencer um funcionário público de que não, o CPF não está na lista de documentos solicitados na Internet, sabe do que estou falando. Uma boa história sem final feliz.
Os contos vencedores não foram colocados em um arquivo separado, mas quem se interessar pode baixar o pdf do concurso com todos os inscritos e dar uma olhada. Como estão sob pseudônimo, procure pelo nome do conto. Ficção cientÃfica pura.
O professor de botânica, de Samir Machado de Machado
O ambiente acadêmico é extremamente engraçado para quem sabe olhar. Para os alunos que querem passar pela universidade o mais rápido possÃvel e ficam desesperados ao esbarrar com cálculos e fÃsicas, talvez não tenha tanta graça assim. Mas para os que convivem mais de perto com professores, participam de projetos de iniciação cientÃfica, vivenciam o atraso das bolsas, as eternas disputas de egos, o brilho extra dos dentes de quem termina um mestrado, a universidade é quase um palco de comédia em pé.
Curiosamente, guarda muitas similaridades com o mundinho literário. (more…)
Gentlemen of the road, de Michael Chabon
Gentlemen of the Road foi editado primeiramente em um suplemento do New York Times, algo nos moldes do que faz o jornal Rascunho aqui no Brasil. Um pouco depois, ele ganhou versão em livro com um capÃtulo bônus onde Michael Chabon explica por que um escritor de literatura dita séria, vencedor do prêmio Pulitzer, resolveu escrever literatura de gênero.
Preconceito entre mainstream e literatura fantástica de lado, vale dizer que Chabon é autor de livros tão importantes quanto diferentes. Escreveu Garotos IncrÃveis, um leve romance mainstream adaptado para o cinema, e Yiddish Policemen’s Union, uma história alternativa vencedora do Hugo e do Nebula Awards, se destacando dos dois lados da fronteira imaginária. (more…)
Pó de parede, de Carol Bensimon
Tenho uma amiga que já foi restauradora de livros e que estremece quando digo que faço orelhas nas páginas durante a leitura. Explico que é o único jeito de me lembrar das passagens que gostaria de citar quando escrevo a resenha. Ela me fala de um marcador que parece um chapéu que cabe direitinho na orelha do livro e que um dia fará vários para mim, mas enquanto esse dia não chega, e talvez depois que ele passe, me vejo dobrando quase por compulsão as pontas das páginas e quem sofre dessa vez é o livro da Carol Bensimon, que desfila em três noveletas um apanhado de boas frases, dessas que cabem muito bem em uma resenha como a minha.
O que primeiro me chamou atenção foi a idade da Carol. Ela nasceu em 1982 e eu ando com mania de achar todo mundo da década de 80 tão novinho e um prodÃgio quando faz um trabalho primoroso. Aà percebo que a diferença de idade nem é tanta assim, tenho quatro anos a mais, e deixo outros fatores de lado para me concentrar só no texto que é um excelente primeiro tiro na literatura.
“O homem andava de calça social e camisa clara, mas de algum modo essa não sujava do pó nem molhava do suor. E tudo o que ele fazia era mesmo andar. De um buraco para o outro, de um barulho para o outro, andar e olhar para cima, sobre os homens, sobre o que ainda não havia. Se o gordo mandava no grito, esse mandava no silêncioâ€.
Falando em orelhas, a do livro que não fui eu que dobrei diz que Carol Bensimon é de Porto Alegre, já publicou contos no Zero Hora e nas revistas Ficções e Bravo! Seu próximo romance, Sinuca embaixo d’água, ganhou a Bolsa Funarte de EstÃmulo à Criação Literária e deve sair em 2009.
Pó de Parede, o de agora, não é bem um romance. Como disse, reúne três histórias diferentes na temática mas similares na estrutura. Seja lá o que for que se aprenda em mestrado de escrita criativa ou doutorado de literatura comparada, parece que a Carol aprendeu bem. O capricho com a estrutura das frases salta aos olhos. Às vezes salta demais, é verdade, mas se deixarmos de lado aquele papo da busca do escritor pela frase perfeita, o que resta são histórias muito bem escritas, dessas que dá gosto de ler e reler.
A que abre o livro se chama A Caixa. Comecei resistente porque remete à infância e é uma torcida de nariz automática a que tenho. Mas besteira minha. A leitura é prazerosa na medida. A Carol não tem uma narrativa simplória, ela monta as frases como um quebra-cabeça (e é contra imortalizá-los como quadros) e deixa exposto o suficiente para que se entenda com todas as letras o que ela quer dizer.
“Voltei para dentro do hotel, e cada parte tinha um nome de flor, que era para as pessoas melhor se localizarem e também para que o hotel cobrasse caro delas, porque uma ala dos jasmins valia muito mais do que um corredor sem nomeâ€
A Caixa é um conto de remembrança. Narrado basicamente do ponto de vista de Alice ele vai e vem no tempo até que se monte não uma história, mas um sentimento geral. A maior parte vem da infância, de como Alice se sentia excluÃda entre os amigos, da visão que tinha dos pais meio diferentões e da casa moderna feita por um arquiteto visionário, essa sim completamente diferente. É nessa suposta exclusão que se formam as relações de amizade com Tomás, outro excluÃdo, e com Laura, a mais improvável de escolhê-los como companhia. O legal é ser construÃdo em cima de impressões, o que realmente dá o gosto de memórias, ao mesmo tempo borradas e coloridas. Algo que está ali, mas não está é. Quem não significa nada, mas tem toda a importância do mundo. Num desses vai e vens a novela chega ao presente, só para se fechar simbolicamente como passado, porque é lá atrás que está toda a diversão.
Assim, fui eu para Falta Céu, a segunda novela, entusiasmado e ressabiado pelo mesmo motivo. Como a Carol tem uma voz muito forte, o risco de deixar os personagens em segundo plano é grande. É uma questão de escolha.
A história muda completamente de cenário. O leitor vai para uma cidade pequena encravada no meio de duas grandes. Lá a vida é daquelas de que qualquer acontecimento vira história e quando a história acaba as pessoas reinventam para fingir que tem novidade. Carol Bensimon consegue passar muito bem esse clima, que ganha um algo mais quando surge um forasteiro e a noção de uma grande obra, seja lá o que ela for. Tem o gosto de acontecimento passo a passo, que vai se instaurando na velocidade de cimento e tijolo, mas que quando muda o entorno parece que veio de repente. Quem já viveu nessas meio-cidades sabe a sensação que é e me impressionou sentir isso vÃvido na literatura.
Falta Céu é um texto rico em personagens, mas a autora tem um alter ego definido. E esse alter ego passeia por fofoca de vizinho, amor de verão e outros quadros que compõem a história mais do que amarrá-la, propondo um fechamento psicológico que cabe direitinho na proposta.
“Havia um negro genial que tocava jazz no piano bar. Tocava como um doido e tocava para si, como os músicos de verdade tocam para si e, portanto, não me despertava aquela piedade de quando vemos um tecladista na praça de alimentação de um shopping. Era um músico, e não um quebrador de silêncio (…)â€.
A última noveleta se chama Capitão Capivara. Curiosamente, quando Carol Bensimon se desdobra em um escritor e uma aspirante a escritora é que os personagens mais ganham vida e conseguem se impor diante da sua voz narrativa. Assim sendo, Capitão Capivara traz um prazer diferente. Permanecem o esmero com a estrutura e a construção cuidadosa para que a frase realmente possua valor agregado, mas a novelinha ganha uma graça extra na história pessoal de cada personagem. E a vivência é mais ou menos essa: há um escritor que foi pago pelo dono de um grande hotel para escrever um romance lá, usando o hotel como cenário. Só que o escritor está passando por uma crise pessoal que complicará um pouco as coisas. Há a aspirante a escritora que resolveu concorrer a uma vaga de babá no hotel. Ela trabalhará cuidando dos filhos dos hóspedes. Único porém: vestida de Capitão Capivara, uma daquelas fantasias grandes, quentes e abafadas de pelúcia que sufocam a própria voz.
Dessa vez, as histórias se cruzam com humor e se fecham narrativamente, com uma última frase digna de tudo que a antecedeu.
Pó de parede
Carol Bensimon
Não editora
122 páginas
Falo no Jardim
O livro do professor João Ângelo Oliva Neto, Falo no jardim, sobre a Priapéia Grega e Latina, é uma preciosidade. Além de trazer para o português, em bela tradução, toda a poesia feita em homenagem a Priapo, um muito bem cuidado estudo sobre esta poesia se desenvolve ao longo do volume. O livro contém estudo fundamental para quem se debruça sobre a formação cultural do homem ocidental, além de trazer uma bela e decisiva iconografia deste deus cultuado nos jardins da poesia. (more…)
A educação dos cinco sentidos
Haroldo de Campos publicou este belo livro no ano de 1985, pela Editora Brasiliense. Desde essa época uma e outra vez o releio. Há uma série de poemas que revelam o amor do poeta por seu ofÃcio. Como em uma emulação dos romances de formação, o autor faz com que as trilhas de seu percurso, de sua eleição se dêem a ver. A educação dos sentidos cria um emaranhado sutil de citações que permitem refazer o percurso poético, a minimalha das construções que se fazem a partir da capacidade da razão. (more…)
Cordilheira, de Daniel Galera
Tenho uma relação curiosa com os livros do Daniel Galera. Gosto muito da escrita, do jeitão que ele desenvolve as frases, da escolha de palavras que tratam o sexo com naturalidade, que lembram que trepar pode ser tão cotidiano como ir até a padaria descolar um café da manhã ou arrumar as malas para ir a Buenos Aires lançar um novo livro. Por outro lado, nem sempre consigo me conectar com as histórias. De primeira, eu explicaria isso dizendo que o mundo descrito não é o meu e que assim me distancio. Mas sou um leitor voraz de fantasia e ficção, equilibro o chamado realismo mainstream com a literatura fantástica, então essa desculpa não me cabe. A possibilidade seguinte seria a escrita, mas essa opção já eliminei de antemão. (more…)
Night Shift, de Lilith Saintcrow
Em uma pesquina na Amazon descobri Lilith Saintcrow. Ela é autora de mais de uma dezena de livros de fantasia urbana de séries variadas e participa de algumas coletâneas. Para conhecê-la, resolvi apostar na série protagonizada por Jill Kismet, uma caçadora de demônios rabugenta e boca suja que ajuda a polÃcia a controlar distúrbios sobrenaturais (também conhecidos como massacres generalizados) e manter a ordem dentro do possÃvel em um grande centro urbano.
Criar universos com demônios é correr o risco de cair naquela conversa de anjo caÃdo e tentações que ninguém agüenta mais. Atire o primeiro frasco de água benta quem ainda não ouviu a frase “vaidade é o meu pecado favoritoâ€. Durante as primeiras cinqüenta páginas fiquei receoso de que o livro tendesse para esse lado, mas por sorte o universo de Saintcrow é mais direto e funcional, não perdendo tempo com dramas religiosos. A igreja aparece com pitadas de ironia, caçadores de demônios também vão para o inferno, e em alguns momentos de nervosismo da protagonista, mas a cereja do bolo está em outro lugar. Kismet só pensa no pessoal lá de cima para comentar de suas próprias dúvidas. Foi o jeito que Saintcrow arrumou para dizer que a força que Kismet carrega é realmente dela.
“Night rose from the alleys and bars, spreading its cloak from the east and swirling in every corner. No matter how tired I am, dusk always wakes me up like six shots of espresso and a bullet whizzing past. It’s a hunter thing. I suppose. If we aren’t night owls when we Begin, training and hunting make us so before longâ€.
A história começa com Kismet se lembrando do pacto que fez com o demônio Perry, um dos chefões da cidade onde se passa a história. Ela leva no pulso a marca do pacto que lhe deu poderes para combater as entidades do mal, e cada vez que precisa usar sua força extra a cicatriz queima, como uma pequena lembrança. Fugindo do clichê, em troca da força sobrenatural Kismet não vendeu a alma. Na verdade, ela precisa se encontrar de tempos em tempos com Perry, para realizar taras estranhas que arrepiam qualquer pessoa sem tendências masoquistas. A idéia do pacto foi de seu antigo mentor, Mikhail, que está morto e só aparece nas lembranças de Kismet. O motivo da morte, inclusive, é um dos mistérios do livro e Saintcrow tenta conectá-la não com a trama principal, mas com os dilemas pessoais de Kismet.
Lilith Saintcrow segue uma tendência dos livros de fantasia urbana e usa narrativa em primeira pessoa para aproximar o leitor, com um adicional de pensamentos, diálogos e lembranças que de vez em quando sobrecarregam o texto, mas o resultado final é positivo. Apesar de a história ser bem contada, com mitologia sólida e final convincente, o forte mesmo são os personagens. Lilith Saintcrow desenvolve a relação entre eles de modo muito atraente. Como muitos deles não são humanos, isso é essencial para que o leitor sinta empatia ou antipatia por eles na medida certa. O jogo de poder entre Perry e Kismet é um bom exemplo. Lilith alterna a situação entre medo e raiva, sempre no limite do psicologicamente suportável para a caçadora, evitando transformar Perry em um obstáculo intransponÃvel ou num problema fácil demais de se resolver.
“Cities need people like us, those Who GO after things the cops can’t catch and keep the streets from boiling over. We handle nonstandard exorcisms, Traders, hellbreed, rogue Weres, scurf, Sorrows, Middle Way adepts… all the fun the nightside can come up withâ€.
Demônios à parte, o que me conquistou foram os metamorfos de Saintcrow. Avisando desde o primeiro volume que há espaço para todo tipo de criatura, a autora aposta aqui em uma versão felina dos lobisomens. Homens que se transformam em grandes felinos. O interessante é que para apresentá-los, ao invés de insistir nas descrições fÃsicas que dominam o universo dos lobisomens, Saintcrow investe no comportamento social dos bichanos. Quem tem um gato em casa sabe que quando eles chegam perto da gente ficam realmente próximos, a famosa passada pela perna para agradecer. Esse é um dos elementos capturados pela autora do livro. Enquanto os humanos possuem distâncias pré-estabelecidas de acordo com a intimidade que têm com as pessoas, os felinos de Saintcrow estão sempre próximos demais para os nossos parâmetros. Ou seja, nada de apelar para garras e dentes afiados. A caracterização vem da personalidade. Ponto positivo. A elegância ao andar também foi levada em consideração.
Pequenos detalhes que no final fazem a diferença.
Pesadelo refrigerado
A leitura da obra de Henry Miller é sempre de resistência. Resistência contra o obscurantismo cultural. Resistência contra a afirmação de um pensamento cristalizado. Resistência contra a morte da arte. Acabo de ler o seu Pesadelo refrigerado, editado pela Francis Editora. O livro trata das viagens que o escritor fez em busca da América profunda, gestado na volta de Miller ao seu paÃs, após 10 anos de ausência. Entre a França e a América, viajou cerca de um ano pela Grécia. A permanência ali fez com que escrevesse outro livro. O Colosso de Marúsia. (more…)
Violência Letal, Renda e Desigualdade no Brasil
Violência letal, renda e desigualdade no Brasil é um livro direcionado a um público especÃfico. O ensaio de Ignácio Cano e Nilton Santos (antropólogo) disseca a influência da pobreza no Ãndice de homicÃdios. Mérito dos autores, faz isso com metodologia cientÃfica e não demagogia furada, o que ajuda na hora de desconstruir alguns pensamentos já estabelecidos.
Ãreas mais pobres são mais violentas? Esse seria o meu primeiro raciocÃnio, confesso. Mas a relação não é tão óbvia quanto parece. Nem toda região tem o perfil do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os autores exploram e expõem essas diferenças ao máximo ao comparar dados internacionais, nacionais, estaduais e municipais, o que leva o leitor a analisar a situação de diferentes perspectivas. (more…)
Corações Blues e Serpentinas
O homoerotismo não é assunto fácil de trabalhar. O erotismo por si só não o é e o fato de se lidar com o que ainda é um tabu em paÃses retrógrados acrescenta novas pedras no caminho dos escritores. Um pensamento mais comum diz que o erotismo resvala em algum lugar entre o inócuo e a vulgaridade. Um escorregão extra e a intenção do texto se perde, flertando com o pornô ou se enfraquecendo diante do leitor. Isso é comum em filmes. O roteirista e o diretor não resistem a enfiar dezenas de problemas no filme. Não basta ser gay, é preciso ter AIDS, ex-esposa, tentar adotar um filho, perder um amigo querido e ser expulso de casa. Tudo isso nos primeiros vinte minutos. Na literatura, o problema é a questão do gênero, do gueto. Fazer literatura e literatura gay parece ser coisas distintas e sem sexo bizarro ou dramas existenciais nada tem muita graça (entenda-se: não consegue ser publicado). (more…)
Terra Incógnita nº2
Saiu esse mês o segundo número da revista Terra Incógnita. Nem idéia? Eu explico. Organizado por Fábio Fernandes e Jacques Barcia, o e-zine tem como objetivo publicar mensalmente contos de ficção-cientÃfica nacionais que fujam do lugar comum, com o bônus de entrevistas e textos internacionais em traduções inéditas no Brasil. (more…)
Fome, de Tibor Moricz
Você tem fome de quê?
Há pouco tempo foi disponibilizado na Internet o conto O caçador. Um homem com um trabuco nas mãos andando pelas ruas em busca de alimento. O único disponÃvel? Carne humana. Sua vÃtima, uma garotinha, usada e abusada, com uma virada inesperada no final. Foi polêmica certa. CrÃticas. Elogios. E uma expectativa que enfim se cumpre.
A poesia de Oswaldo Martins
Cosmologia do Impreciso (Rio de Janeiro, 7Letras, 2008) é o quarto livro do poeta Oswaldo Martins, e o mais maduro. Nele, o autor consolida uma poética que se fundamenta no profundo diálogo com as criações artÃsticas da tradição ocidental, e que se desdobra na crÃtica radical do que, nessa mesma tradição, é interdito, é reflexo hipócrita dos condicionamentos morais. Essa trajetória vem conscientemente sendo percorrida desde seu primeiro livro, desestudos (2000), e se desdobra nos seguintes, minimalhas do alheio (2002), e lucidez do oco (2004), todos pela editora 7Letras. (more…)


































