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Tag Archives: literatura

Um ex-militante do PT estupra uma menina índia de 14 anos. Ele acaba em Londres, onde conhece uma mulher negra, fascinante e misteriosa. Ela acaba se suicidando, não sem antes ter um filho, o Donato. Aí coincidências estranhas se sucedem. Donato fica coleguinha de escola, aqui no Brasil, da filha da mulher negra, fascinante e misteriosa de Londres. A filha é, ela também, uma menina negra, fascinante e misteriosa. Enquanto isso, a orfandade persegue Donato, que perde o pai adotivo e trepa com a madrasta. E no final, Donato, durante um ritual vagamente indígena – que ele faz em homenagem à sua mãe índia, e onde inclui perorações politicamente corretas a respeito de políticas indigenistas -, conhece o seu pai biológico, que já está de volta de Londres.

Nisso tudo há boates chamadas Enigmas, personagens com crises esquizóides chamados ao mesmo tempo de Espectro e Sujeito.

É o “Habitante irreal“, de Paulo Scott, ed. Alfaguarra.

capa de "Habitante irreal", de Paulo Scott, ed. AlfaguarraTenho problemas com a frequência com que a prosa masculina lança mão de mulheres fascinantes e misteriosas. Fascinantes, misteriosas e, mais do que o habitante do título, elas sim irreais. Me parecem o correspondente do príncipe encantado que me apavorava na infância.

Também não gosto do politicamente correto da preleção sobre os menos favorecidos. Me cheira a PSDB. O politicamente correto, aliás, é rigoroso na explicitação do que deveria ser feito em prol dos índios, mas não em relação a outras minorias. Lá pelas tantas, um personagem secundário se refere a uma “bichinha judia e nervosa“. Eis uma frase que eu jamais conseguiria escrever.

Há mais coisas de que não gosto. Por exemplo: uma lista de notícias jornalísticas a estabelecer o que seria o momento histórico da trama, sem que a trama nada tenha a ver com o momento histórico. Cito:

“Dezessete de dezembro. Duas pesquisas recentes confirmaram a baixa popularidade e a falta quase completa de aprovação de Margaret Thatcher entre os britânicos. Steven Soderbergh, de vinte e seis anos, rodou o filme Sexo, mentiras e videotape em cinco semanas gastando pouco mais de um milhão de dólares. O muro de Berlim não existe mais, e as capas de todos os jornais garantiram: o mundo ocidental não será mais o mesmo.” (p. 107)

E uma frase que explica algo, supondo um leitor pouco informado, o que sempre é meio ruim:

“Desce na Voluntários da Pátria, que é a principal avenida de Botafogo, caminha até a rua das Palmeiras, até o casarão cinquenta e cinco. Entra.”

Rua das Palmeiras 55 é o endereço do Museu do Índio no Rio, e a explicação de que a Voluntários é a principal avenida de Botafogo não só é discutível, como desnecessária: não acrescenta. Tanto faz se é, se não é.

Mas tudo isso não é o pior para mim. O livro tem coincidências de caminhos traçados, como se houvesse um destino, um significado maior a dirigir a vida de todos, algo do qual os personagens não podem escapar, presos que estão a um determinismo que vem de sua origem étnica, passado pessoal, circunstâncias sociais. Tudo é meio misterioso, fazendo supor que ninguém escapa do… do quê mesmo? Um maktub? É um pensamento meio platônico o que encontro neste livro. Há um deus, mesmo sem este nome, a decidir tudo por todos e só ele detendo a clarividência sobre os fatos. É um pensamento conservador.

Mas da linguagem eu gostei. Sem enfeites “poéticos”, simples, direta, eficiente. E… com enorme destreza literária (no melhor sentido do termo). Um exemplo: ” Os minutos passam e os dois se aquietam, a boneca aterrissa, convida-o pra sentarem um ao lado do outro sobre a espuma, ele deita a cabeça de plástico sobre o seu colo de plástico, pede sua mão em casamento e chora.” (p. 62) Aqui, há uma fusão maravilhosamente bem escrita entre a cena da menina brincando com a boneca, sendo observada pelo homem, e de outra cena possível, a de duas pessoas vivendo uma situação-limite – que é justamente a ambivalência que traz beleza ao livro.

E também gostei das narrativas paralelas, com tipologia diferente. Em uma, a origem da ficcionalização a partir de um fato vivido pelo escritor. Na outra, a ficcionalização que nasce deste fato.

Mesmo com este inegável skill narrativo, o livro me desagrada pela sua ideologia burguesa. O narrador me faz lembrar um ulisses cuja viagem busca a domesticação necessária a uma vida socialmente admissível. Até mesmo o percurso secundário do Donato segue a mesma linha do percurso principal, o do seu pai. O ritual “indígena”, com sua cota de sacrifício (a traquitana que Donato veste machuca sua pele), pode ser entendida como uma troca. Ele faz uma doação ao selvagem, ao livre, à potencialidade, e pode, assim, organizar sua identidade dentro do aceitável. Organiza-se a partir da lei do pai. Aliás, presente na cena, e reconhecido.

Dois novos livros de poesia chegaram esta semana a minhas mãos. O olho empírico, de Dora Ribeiro e o Junco, de Nuno Ramos. Aliás, dois grandes livros, em tudo dessemelhantes, mas próximos pela alta qualidade que possuem e faz deles um dos melhores lançamentos da poesia brasileira neste ano.

Olho empírico – como é saboroso isto – não traz a mínima pista de quem é a autora. Seco, não contém mais informações que as necessárias para o leitor – apenas os poemas em sua nudez, nenhuma informação adicional. Basta ao leitor que leia os poemas e com eles se conforte e frua a excessiva beleza que contêm.

Junco, ao contrário, é prodigo em informações sobre o autor. Data de nascimento, prêmios recebidos, livros publicados, uma bela orelha de Flora Sussekind e a informação adicional de que o autor, cujas obras são belas, é também artista plástico.

O diálogo entre o cão e o junco que Nuno Ramos inaugura em seu livro – cuja paisagem preferencial é o mar – e o que mar traz à praia, como o Drummond de Amar, em Claro Enigma, está repleto da presença da morte. Morte que, entretanto, não indaga o fim da existência, mas os percalços do que a morte estampa na visão – seja o junco, seja o cão – daquele que vê o que o mar devolve em forma fixa.

A morte como forma fixa e plástica, como arte que transpõe os limites da representação verbal e se fixa, como quer o poeta, num verso que vê através e pelas palavras, pois a astúcia da representação do além-significado que, na areia e mar do poema 17 – tornados íntimos contrários – se petrifica em coração de musgo. Qual fluidez mais tênue, se a imagem criada se desmancha em palavras, se a palavra se petrifica em imagens? A arte de Nuno Ramos parece apresentar ao leitor esse dilema, cujas respostas se encontram na facticidade da própria indagação do que é arte, do que é poema, ou vida.

Dora Ribeiro divide seu livro em dois movimentos. A um denomina olho empírico; ao outro, escrita de demolição. O caminho que o olho percorre entre o que observa e funde no cerne do ser, que existe e reflete, se mostra, a cada poema, mais denso à medida que a escrita se apodera da fundição da experiência e se transforma no salto mínimo da escrita como demolição. A metonímia do título do segundo movimento vai nos revelar ao longo do percurso da leitura sua capacidade de rever os significados do já expresso e dar a eles sua mais precisa dicção. O que se demole é o resto através do qual se expressa o novo, a novidade que o poeta vem elucidar, como no belo poema:

a índole do vulgar

depende do

suco lábil

das coisas vivas

se a nudez dos olhos

for capaz de soletrar

nas rais das mãos

todas as fisionomias

estreitas do mundo

fica então aberto o

caminho para

o que não está

ainda escrito

Ler Dora Ribeiro é permitir-se, enfim, a fruição de um pensamento intenso e inaugurador da própria reflexão poética.

"O remorso de baltazar serapião" (Editora 34, 2010), de valter hugo mãeEm “O remorso de baltazar serapião” (Editora 34, 2010), o escritor português valter hugo mãe fala da boçalidade masculina a partir da voz em primeira pessoa de um de seus personagens, o Baltazar presente no título. Neste romance, detentor do prestigiado Prêmio Saramago, a voz masculina e sua força física agridem e violentam as vozes e corpos femininos da primeira à última página. As mulheres que conseguem escapar com vida a esse ataque contínuo e gratuito viram bruxas, em uma referência não explicitada – e que achei engraçada justamente por isso – ao retorno do recalcado. Assassinando Freud, funciona mais ou menos assim: você faz algo que considera errado; não aguenta o tranco; finge que não fez ou finge que não era tão errado assim; e aí, bem depois, você vai morrer de medo de alguma coisa que não tem nada a ver com o que você fez. Por exemplo, aqui, no livro em questão, o medo da bruxa não aparece porque ela, em seu tempo de ser humano, foi queimada viva por todos os homens da aldeia. O medo é porque ela representa um “sobrenatural”, quer dizer, o medo é o contrário da razão do medo. O medo não é consequência de um vivido, é consequência do não-vivido, de algo que escapa à realidade do vivido, que pertence à esfera do incompreensível, ou do que não se quer (ou não se pode) compreender. Contra este poder aposto, justamente por não ser da esfera do vivido, nada funciona. Nem mesmo a  junção das masculinidades, com três dos personagens homens obrigados a viver juntos sem desgrudar um centímetro, ajudados até, vez por outra, por um quarto, o teodolindo. Nem assim.

Voltando. As mulheres então, neste livro, são descritas como seres inferiores, existem para servir aos homens e por eles são aviltadas e brutalizadas sem que haja questionamentos a respeito da legitimidade de assim acontecer.

“as mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus.” (p. 135)

A coisa é tão violenta que chega ao humor, como é o caso da esposa do narrador, a ermesinda, que termina seus dias estuprada sem parar pelo marido e seus dois companheiros de viagem, estando ela já com um pé aleijado, um braço torto, sem uma das mãos e com um dos olhos arrancados porque… ele a ama muito e quer ensiná-la como uma mulher deve ser. Outro exemplo: a mãe do personagem foi assassinada pelo pai, que enfiou a mão em sua vagina e a arrebentou inteira, deixando-a sangrar até morrer porque desconfiou que ela estava grávida de um filho que não era dele.  Nem por isso escapa-se da dicotomia mãe versus puta, já que esta personagem, mesmo com a suspeita que recai sobre ela e que não é desmentida, é o motivo da única “beleza” descrita no livro: as pinturas feitas pelo irmão mais novo do personagem-narrador, uma criança que acredita que a mãe só pode estar no céu, e todos concordam, e céu ele pinta, para gáudio de todos. Porque mãe é mãe.

O autor fala dessa relação masculino-feminino sem definir com exatidão nem uma geografia nem um tempo, o que permite inferir que se trata de um tema que ele vê como independente de contingências culturais, épocas específicas. Trata-se de um vago ambiente rural e primitivo, onde faz muito frio e muito calor. Há referências a um Del-Rey que, mais do que figura real e com função individualizada na trama, parece ser um signo da hierarquia patriarcal, a marca de uma estratificação social que não admite (quer) mudanças. Em reforço a esta hipótese, há os nomes dos personagens, em um português fora de moda: Brunildes, Teodolindo. E, mais um: o latifundiário, comedor de criadas e detentor do poder local, chama-se Dom Afonso, que é um nome de prestígio atemporal: foi o do primeiro rei, o é de nobres de toda a história portuguesa (incluindo o nosso conhecido Martim Afonso de Sousa), e até hoje.

Então, o que vi (li) foram marcas claras – e bem-humoradas, o que terá importância no que pretendo dizer – de uma relação de gêneros, com a vitimização da mulher chegando ao absurdo. O “castigo” dos homens, ou pelo menos do homem-narrador, é o de se ver sem a companhia delas, restando por perto apenas a vaca sarga. Vingança simbólica: ela é fêmea, é vaca, e é ela quem nomeia os homens da família, conhecidos como “os sargas”.

Agora o ponto: como falar de vítimas na literatura, sejam elas as vítimas das relações de gênero, etnias, classes sociais ou o que for. É bem difícil. Você tem um caminho estreito. Se você pinta as vítimas como vítimas, estará reforçando a posição delas de vítimas, estabelecendo, ou contribuindo para definir, seu não-agenciamento, sua sujeição ao poder hegemônico. Se você não toca no assunto, será cúmplice, conivente desse poder hegemônico, dele você fará parte, contribuindo para sua perpetuação e impunidade pelos abusos que, sim, são cometidos – e aqui aproveito a influência do escritor sobre o qual escrevo: cometidos à sorrelfa. Ou às claras mesmo.

Só há uma saída. É atacar o poder. Não mirar a vítima, mas o algoz. E fazê-lo de dentro da própria atuação, da própria escritura, que é o ataque mais radical que há. Quero dizer: em vez de clamar contra a violência estúpida e criminosa do machismo disseminado de hoje e de agora, atacar a linguagem que o exprime e que dele toma leis e costumes em seus níveis morfológicos, sintáticos e semânticos.

valter hugo mãe ataca a linguagem.

Vou dizer como. Primeiro, o ataque mais visível, que é o da supressão das letras maiúsculas de nomes próprios e palavras de início de parágrafo. O autor declara, assim, não respeitar um dos maiores rastros indiciais da hierarquização na língua, em seu segundo nível mais básico, o morfológico. Declara que tamanho (força física, detenção de espaço físico, prevalência sobre os outros) não é documento.

O ataque ao primeiro nível, o mais básico de todos, que é o fonético, também existe, mas é mais difícil para mim, brasileira, detectá-lo corretamente em um falar português que não me é íntimo. Noto uma sonoridade em i nos nomes femininos, que buscam uma resistência, um empenho em não sumir, buscando uma continuidade de gritinhos finos ao terem esses is apoiados em consoantes nasais que lhes são próximas: brunnniiilde, ermesiiinnnna, catariiinnnna. Mas não sou capaz de muito mais.

No terceiro nível de ataque, valter hugo mãe se solta para valer. Sua construção sintática não se atém muito ao tradicional sujeito, verbo, predicado. Diálogos entram direto, sem indicação de voz ou separação do texto discursivo. Em relação à semântica, cus e outras escatologias se vêem lado a lado com formas pudicas de referência a “partes da natureza” (órgãos sexuais).

Isso no que diz respeito às normas da linguagem.

Agora, as técnicas narrativas:

Todo mundo sabe. A terceira pessoa onisciente do romance novecentista não se sustenta mais depois do colapso das certezas absolutas que marcou o início do século XX.  Depois deste colapso total, não dá para usar um narrador que sabe de tudo sem morrer de vergonha do engodo. É nessa época que surge então o estilo livre indireto. Ainda uma terceira pessoa, mas “colada” a um personagem específico. É dele o ponto de vista, só o seu interior – e não o dos outros – é conhecido. A narração assume suas certezas e também suas incertezas, mas ainda fala do mundo social. A escrita feminina de meados do XX trouxe o monólogo interior. Não mais o que se passava do lado de fora, mas o fluxo de pensamento, de consciência, de um narrador. Melhor, de uma narradora. Chatíssimo. E muito difícil de ler, porque consciência, ao falar para si mesma, não precisa de contextos. É um estilo elíptico, que não oferece transições, e que vai, que vai, sem que nada de fato aconteça. Como reação, o estilo “masculino” e visual das explosões, assassinatos e fugas desenfreadas, da literatura chamada “realista”, da mesma época.

Há uma razão para esse processo, e que é a da perda, primeiro, da função social da literatura como veículo de uso pedagógico das instâncias de poder. Uma vez essa perda acontecendo, e aconteceu não só com a literatura mas com qualquer arte, o social passou a ser, já que não era mais uma função, um tema. A literatura social. E depois, nem mais tema. Sumiu o social, e a literatura (arte) passou a falar apenas de si mesma, e da sua perda.

Hoje, no contemporâneo, há mais uma volta do parafuso: a fusão narrador-autor, a fusão ficção-realidade. E a literatura (arte), agora, não tem mais um locus específico, também fundido com o não-lugar em que habitamos todos e mais o McDonalds. Literatura (arte), hoje, não acontece necessariamente em um livro (quadro). Com isso, ela se defronta com a questão de sua própria identidade. No que é, ainda – surpreendentemente ainda – muito eficaz, na medida em que espelha, representa, ao não mais nos espelhar, representar, a nossa própria incapacidade de nos espelhar, representar, nossa própria questão identitária.

Como valter hugo mãe fica nisso? Menos bem. Usa técnicas de ataque ainda do modernismo. Não vi (li) as armas da contemporaneidade em seu livro. Tirando o humor, que é uma das brechas, das poucas que há, que usamos, e que ele usa.

Manoel de Barros faz escola.
Em cinquenta páginas da mais autêntica candura, o poeta prosador Ondjaki constrói uma deliciosa homenagem ao seu mestre. Pouco provável não perceber um cheirinho do nosso Manoel de Barros na poesia do queridíssimo angolano, autor do romance Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, vencedor do Prémio Jabuti, em 2010.

No minilivro Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas), o poeta redescobre a terra, explora-a e revira-a do avesso, numa deslumbrante jornada vocabular, que deixaria perplexos até os mais velhos (afinal, “a perplexidade é um mal juvenil, como a anorexia”)*. Tal perplexidade se origina principalmente do fato de que somos mesmo capazes de compreender o aparente nonsense que nos é apresentado através das palavras. Diferentemente do que se possa pensar, não é necessária uma leitura super atenta e ultraespecializada para captarmos a dimensão da poesia cultivada por Ondjaki. O que se passa é justamente o contrário. Quanto mais desatenta, despretensiosa e, sobretudo, liberta for essa leitura, maior é o impacto que sua beleza nos causa.

Ondjaki

Não são apenas palavras inventadas lançadas num papel. Isso eu faria. São vocábulos distorcidos e retorcidos, transbordando significados, que dão sentidos a outros, igualmente deformados e reformados, que, por sua vez, oferecem um senso de ordem e razão às coisas da terra.

É como um sentimento de proteção que me toma à última folha do livro, como se devesse encerrá-lo a sete chaves, como se nele estivessem guardados os mais preciosos segredos da terra.

* Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa.

página oficial do autor, com poesias: http://www.kazukuta.com/ondjaki/

Inferno, de Strindberg, traduzido por Ismael Cardim, editado pela 34, é um livro que faz o leitor se deparar com os aspectos críticos da loucura. Escrito no final do século XIX, originalmente em francês, tem como pano de fundo os aspectos positivos da ciência. Assim como o conto Enfermaria nº 6, de Tchekhov e o Alienista de Machado de Assis, o romance do escritor sueco – embora nos apresente uma verdadeira aula de química e botânica, tem como determinação a descrença nas ciências positivas. Antípodas nesta narrativa não são as ciências e a religião como quer nos fazer crer o narrador, mas a ciência e a loucura, como nos dois outros livros citados acima.

A possibilidade comparativa entre os três livros, entretanto, não passa desta confluência temática. Cada um deles trata de seu próprio viés. Em Strindberg, a loucura se aproxima metafisicamente da mendicância em uma Europa que ainda não resolvera os dilemas de sua economia; em Tchekhov, a marcante presença da psicologia social – tema tão caro à literatura russa deste período – faz com que a sociedade seja vista através de sujeitos que a determinam quase como um sistema baseado na ausência de mobilidade social; em Machado, as crenças de Simão Bacamarte são os desvarios de uma sociedade de iletrados cuja único poder emana das palavras bem falantes de uso quase privativo do orador – geralmente um advogado – e do médico, correlato do cientista entre nós.

Se em Machado e Tchekhov, a narrativa se passa em cidades pequenas e desimportantes, a cena de Strindberg se passa na cidade que se crê mais cosmopolita da Europa, no séc. XIX, Paris, para lentamente caminhar em direção do norte e da pequena cidade sueca, onde se dá o desfecho eo reconhecimento da nulidade da ciência.

Se em Machado e Tchekhov, os personagens não evitam o destino do abandono da ciência – a loucura – no escritor sueco, a loucura é combatida através de outras possibilidades – nomeadamente a metafísica. Através da metafísica o narrador de Inferno pressupõe outra medida para a percepção transtornada a que a crença científica o teria levado.

Se, mesmo que distante, a construção de O Alienista e Inferno se constitui, através de personagens que se dedicam amorosamente á ciência e nela inicialmente crêem, no Enfermaria nº 6 a personagem, a partir da qual se desenvolve a narrativa, é um diletante.

As três obras permitem ao leitor verificar que, sob o manto das certezas que a ciência infundiu nos espírito das pessoas no século XIX e, de certa forma, no século XX, havia – a partir de um discurso considerado secundário pela voz poderosa da verdade – como era o discurso ficcional – quem dela desconfiasse e a pusesse sob o manto da dúvida, que só mais tarde se compreenderia.

Axilas e outras histórias indecorosas, livro de Rubem Fonseca, recém publicado pela Nova Fronteira, junto a um exercício de memórias ficcionais cujo título é José, traz as mesmas peculiaridades dos contos do autor mineiro. O ambiente de violência, a brevidade dos contos, e o erotismo que – ao que me parece – dá o tom das narrativas apresentadas. O mestre da narrativa curta, do conto enxuto cada vez mais proclama a sua maestria em desfiar a sordidez pequena do cotidiano.

Os dramas vividos pelos personagens têm a mesma percepção de outros contos, de outros livros do autor mineiro, porém, neste axilas há um sabor do já visto, do já lido como se a percepção do autor houvesse se esgotado nos mesmos elementos de sua farta e grandiosa produção. A incidência na formulação de personagens sábios, que falam sobre quaisquer assuntos, com ar douto, nestes contos parece-me exacerbada e desmedida. São cacoetes que repatriam os contos para um universo já sabido e lhes garantem uma circulação visível.

Há, sem dúvida algumas pérolas – como o conto que dá título ao livro. A descrição precisa da anatomia das axilas – a recusa pela palavra sovaco – a presença dos ícones – da literatura erótica, como Aretino – com uma passagem pelo poema drummondiano, em que a língua lambe e da loucura, sugerida pela apreciação de Arthur Bispo do Rosário, é precisa e cria uma sintonia forte com o tipo de personagem que narra o conto, tipo predileto de Rubem Fonseca para criticar a falta de objetivos de uma parcela letrada da sociedade brasileira.

O assassinato, aliado ao erotismo, é outro dos temas prediletos deste livro. Parece-me que – embora a formulação não seja nova na obra do autor, há em Axilas uma contemplação mais premente da morte, não nos seus atos finais, mas no que pode ela indicar sobre o que é a vida e a liberdade de agir dos indivíduos. O conto livre-alvedrio permite que se perceba este pano de fundo no qual o livre-arbítrio é interrogado e dissimuladamente deslocado para o limite das paixões que comandam – sem que o indivíduo se dê conta de que estão sendo comandadas por outra instância que não a da consciência de que derivaria a livre escolha.

Assim é que o leitor ao tomar conhecimento de que o investigador é levado a fazer concurso para a polícia o faz pelo desejo de ser capaz de descobrir as causas da morte dos suicidas, quando – na verdade o desejo se revela em outro ponto – fora dos desejos do narrador. A percepção do falta de comando sobre as próprias ações pode ainda ser vista no conto – Janela sem cortina – em que os assassinatos se dão pela vontade alheio de quem os comete.

Afora, essa temática da morte como ato próximo e distante do indivíduo, o livro de Rubem Fonseca, sem dúvida, de leitura vertiginosa, não traz novidades outras em relação ás que já se incorporaram ao vasto repertório do autor. É bom de ler, como quem lê para confirmar o já sabido.

De que adiantaria lhes dar Otelo? Jamais o compreenderiam. Não se pode fazer uma tragédia sem instabilidade social. Sendo o mundo estável, as pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Como esperar, então, que compreendam paixão exaltada, ciúme, traição? Não, ninguém jamais compreenderia Otelo./ Então, que tal dar-lhes algo novo, que pareça Otelo?/ Porque, se se parecesse realmente com Otelo, ninguém poderia compreendê-lo, por mais novo que fosse. E, se fosse novo, não poderia de maneira alguma ser parecido com Otelo, porque o nosso mundo não é o mesmo mundo de Otelo. Há, portanto, o sacrifício da grande arte em prol da felicidade coletiva.

(Felicidade?)

Aliás, não só a grande arte estava morta. A religião também, ou melhor, a religião como achamos que deva ser: culto, fé, mistério, mitos, transcendentalidade. Deus, Alá, Buda, o que seja, desapareceram. O que não se admite (ou: o que se sabe, mas não se pode admitir) é que um novo altar foi construído e um novo deus erigido: Ford (qualquer analogia com o Henry Ford da indústria, da produção em série, do fordismo, não é mera coincidência). Acontece que a figura de Deus foi associada à dependência, no sentido de que mesmo que você desse o máximo, ainda assim, o resultado poderia não depender de você, ou seja, a total liberdade e plenitude dos atos poderiam não nos levar, com segurança, até o fim. Dessa forma, retirava-se a certeza dos resultados, em favor das vontades de um ente superior e etéreo. A felicidade não estava totalmente em nossas mãos, mas nas vontades de um deus superior. Não havia lugar pra isso na nova sociedade.

E a ciência? Com a ciência chegou-se onde se está: na limpeza, na inexistência da fome, na falta de doenças, no fim do envelhecimento, no prazer. Portanto, na felicidade. No entanto, mesmo ela deve ser controlada, pois é perigosa, deve ser mantida acorrentada e amordaçada. Toda mudança é perigosa. Assim, hoje, a ciência é como uma receita de bolo, na qual se deve repetir as instruções do livro e jamais contestá-las. Pesquisar? Apenas soluções imediatas, para problemas imediatos.

Com a morte da Arte, de Deus e da Ciência, o que resta? Conforto, pragmatismo, prazer e felicidade. Soberana felicidade…

O ano? 1932. O mundo? Nosso admirável mundo moderno. Acima? Lê-se um paraíso artificial. O mentor? Huxley. Em 1932, o inglês Aldous Huxley finalizou a obra que lhe consagrou como literato, garantindo-lhe, entre as gerações futuras (sobretudo as de 1960 e de 1970), o título de autor ligado à contracultura, sobretudo, por causa da sua crítica à sociedade do consumo. Trata-se de Brave New World ou, em português, Admirável Mundo Novo, título, aliás, francamente inspirando em William Shakespeare, mais precisamente em uma fala de Miranda, filha de Próspero, da peça A Tempestade: O wonder! / How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world! That has such people in it! – Oh! Que milagre! Que soberbas criaturas aqui vieram! Como os homens são belos! Admirável mundo novo que tem tais habitantes!

Shakespeare, no entanto, não contribuiu apenas com o título. O escritor inglês acaba funcionando como “preceptor” de um dos protagonistas do livro, o qual, mais que aprender a falar e ler em língua inglesa com as obras desse teatrólogo, aprende a interpretar e entender a vida através delas. Com isso, Shakespeare assume um papel fundamental na história de Huxley, pois se torna o ponto de confronto entre o admirável mundo novo e o velho mundo, locus de resistência e de humanidade no meio de toda a assepsia. Não por acaso, portanto, a incompreensão dos demais personagens quando John (o Senhor Selvagem) cita trechos shakespearianos.

A essência de Admirável Mundo Novo já está clara: mundo futurístico, onde a supremacia da técnica, aliada a uma sociedade totalitária, cria um mundo “perfeito”, sem tristeza ou sofrimento. No entanto, para isso, coisas precisaram ser esquecidas: não existem mais estruturas familiares, nem relações amorosas profundas, mesmo a reprodução não se dá de maneira biológica. As pessoas são feitas em laboratórios e são condicionadas a assumir determinado papel social (rígida estrutura de castas), do qual ninguém pode fugir ou questionar. Melhor, do qual ninguém sente necessidade de fugir, pois não é programada para ficar descontente com sua condição.

O instinto é coletivo e irreflexivo, pois a educação é feita pela repetição de adágios e máximas. Ninguém lê o que não deve ler, ninguém vê ou cria o que não se deve ver ou criar. O pensamento, aliás, não é estimulado. Tudo se resume a um hedonismo irrefreável, no qual só existe a sensação, sem apego à ou peso na consciência que, aliás, também não existe.

Estranhamente, quando se busca a essência da palavra utopia, temos: “lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos”. Assim é o mundo de Huxley. Perfeito, feliz, harmonioso. Contraditoriamente, o Admirável Mundo Novo nos parece um pesadelo, distante da idéia positiva e ideal da Utopia de Morus. Por isso, diz-se que a obra de Aldous é o inverso: é uma distopia.

No entanto, o mais interessante (e, ao mesmo tempo, de uma ironia deliciosa) é como alguns personagens explicam que temos essa sensação de “pesadelo” porque possuímos outro paradigma de sociedade (vejamos nós, por exemplo, brasileiros, que vestimos a fantasia democrática), na qual a estrutura desse admirável mundo novo nos parece hedionda, reprovável. Todavia, quem de fato vive nessa sociedade não sabe o que é essa aversão, pois não pensa sobre ela, mesmo porque não tem outro modelo ao qual recorrer. Ou seja, é a antiga história de ver e criticar com olhos estrangeiros uma sociedade que não é a nossa.

Por isso, John, o “selvagem”, entra em choque com o novo mundo. Tendo crescido em outro lugar, ao ser jogado no brave new world, depara-se com uma realidade sufocante. Relação essa, aliás, que resulta numa das falas mais incríveis da obra: [John tomou água quente com mostarda para provocar vômitos, então, Bernard pergunta]: “Comeu alguma coisa que não lhe fez bem?/ Comi a civilização/ O quê?/ Ela me envenenou; fiquei contaminado. E então engoli minha própria perversidade”. Trecho esse que traz à tona antiguíssimas questões sobre progresso versus vida simples, civilização versus selvageria, et cetera. Afinal, a figura de John, um “índio selvagem”, em confronto com os demais personagens da “civilizada Londres” nos remete à velha questão: Quem é mais ou menos civilizado: o “bom selvagem” ou o “homem da ciência/da cidade”?

Respostas prontas ou politicamente corretas à parte, Huxley, apesar de nos fazer entrever seu posicionamento, não quer, exatamente, nos fazer encontrar prontas as respostas para essas perguntas. Antes, quer nos fazer pensar sobre o assunto. Por isso, por exemplo, os argumentos apresentados para justificar o novo mundo podem nos parecer, mesmo que às vezes, bastante lógicos e possíveis. Um jogo extremante irônico com aquilo que acreditamos sobre verdade, liberdade, Estado e sociedade. Não por acaso, os nomes dos personagens nos remetem a diversas figuras históricas (e, conseqüentemente, diversas ideologias conflitantes), como Marx, Lênin, Ford, etc.

Irônico e bastante referencial – antropologia, filosofia, psicologia, literatura –, Admirável Mundo Novo, por enquanto, ainda é uma obra possível, tanto no presente, quando no futuro. A priori, a aparente leveza do texto de Huxley pode fazer com que o livro pareça mais simples do que é. No entanto, o potencial cáustico de seu conteúdo é tão aterrador quanto o seu final, de um sensual frenesi prolongado. “– Ferve, luxúria, ferve! – com frenesi, o Selvagem vergastou-a outra vez”.

Publicado em 1959, o pequeno ensaio chamado “Idéias para a sociologia da música” é um dos principais textos sobre a análise sociológica da arte [a música no caso] escritos no século XX, momento no qual essas análises passam a ter valor discursivo científico como resultado de modificações paradigmáticas nas ciências sociais ocorridas no período. Segundo a leitura do autor, a sociologia da música seria uma especialidade da sociologia geral, como a sociologia urbana e como, também, as variadas leituras historiográficas. Porém, esta nova modalidade de análise sociológica deve fundar e manter um método próprio vinculado diretamente a determinadas teorias. Assim sendo, segundo o autor, a sociologia da música não pode separar o método do objeto analisado.

Característica em toda, ou, ao menos, grande parte da obra de Adorno, existe a possibilidade da análise social da música passar pelas características de produção, logo, a função desta nova modalidade sociológica é, também, pensar o relacionamento entre produto, no caso, a música, e a sociedade que a produz, que está ligada diretamente à conceituação de sociedade de consumo e indústria cultural. Dessa forma, percebemos, também, a necessidade de pensarmos a música e suas características ideológicas através de sua formalidade.

Porém, Adorno não se classifica como iniciador do pensamento social da música, demonstrando que Weber já iniciara esta especialidade sociológica, em seu livro Os fundamentos racionais e sociológicos da música, através da caracterização de racionalidade na música. Percebemos, em sua leitura, que a História da Música é uma busca direta por racionalização.

Análise interessante que o frankfurtiano faz, como demonstração de sua indagação, é a relação da música do compositor polonês radicado na França Frederic Chopin com a sociedade burguesa da época: de acordo com Adorno, a aristocracia musical de Chopin é o que gera a sua popularidade, burguesa em grande parte. O burguês se transforma em nobre ao se reconhecer naquelas melodias melancólicas. Vale lembrarmos que além de Chopin, Adorno cita compositores como Tchaikovsky e a necessidade de problematização de sua forma composicional, Wagner e sua busca racionalizante, Mendellsohn e Richard Strauss e seus padrões de composição característicos da burguesia industrial alemã. Ressaltemos que, além da menção ao sociólogo alemão Max Weber, Adorno demonstra conhecimento da problemática em torno do tema citando musicólogos como Erwin Ratz [muitas vezes aparece a grafia Retz], um dos fundadores desta matriz disciplinar.

Percebemos, portanto, com a leitura deste pequeno ensaio que o texto é denso e suas indicações devem ser problematizadas e questionadas. O texto como um todo se demonstra como uma fonte de aprofundamentos plurais na área sociológica e histórica – lembremos que a História da Música ainda é uma disciplina que necessita destas formulações teóricas.

Resenha de:  ADORNO, Theodor W. Idéias para a sociologia da música. In: Textos escolhidos de Benjamin, Adorno, Horkheim e Habermas (Coleção: Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural, 1980, p.259-268.

Descobri recentemente a “Coleção Fronteira”, da Nova Fronteira, que atualmente faz parte do enorme Grupo Ediouro. Dentre os títulos, grandes obras de escritores nacionais, como Mário de Andrade, e grandes internacionais, como Thomas Mann. Não com A Montanha Mágica, claro, porque a proposta dessa coleção é ser acessível, e um livro que tem mais de 400 páginas não tem como ser barato e bom ao mesmo tempo. De Thomas Mann, pela “Coleção Fronteira”, foi lançada no ano passado uma edição do classiquíssimo Morte em Veneza.

Materialmente, o livro é okey. Por módicos R$24,90 não se pode exigir capa dura, ilustrações magníficas, papel de gramatura avantajada e etc. Mas é justo. Tão justo quanto os romances adaptados que lemos no colégio. Simples, mas bem justinho. No quesito conteúdo, alguns erros de digitação, mas poucos: uns dois ou três. O que para um livro de cem páginas é o limite!

Mas verdade seja dita: o romance é tão bom, mas tão maravilhosamente bom, que todas as faltas são perdoadas. São cem páginas de ironia e acidez refinadas, muita perspicácia e reflexões incríveis e atuais sobre arte, sociedade, política… Sobre a vida de escritor, alegrias e sacrifícios. Em outros momentos, mais contemplativos, uma admirável candura, antagônica ao modo como percebemos Gustav Aschenbach de início. Personagem incrível é esse que, num tom tão sério e irritadiço, mostra-se indignado com um velho que quer se passar por jovem, como se isso lhe causasse mais náuseas que a cólera indiana. Minuciosamente, descreve, um a um, com verdadeira repulsa, todos os pormenores que fazem daquele personagem velho um ser repugnante e desordeiro. Imperdível! A transcrição é imperativa:

Um dos viajantes, num terno de verão amarelo-claro de corte ultramoderno, gravata vermelha e um panamá de abas audaciosamente viradas para cima, sobrepujava a todos em alacridade com sua voz esganiçada. Mas, assim que seus olhos se fixavam nele, Aschenbach percebeu com uma espécie de horror que era um jovem postiço. Era um velho, não havia dúvida. Rugas rodeavam-lhe os olhos e a boca, o carmesim baço das faces era ruge, o cabelo castanho sob o panamá de fita colorida, uma peruca, o pescoço, flácido, com os tendões à mostra, o bigodinho revirado e a mosca no queixo, tingidos, a dentadura completa e amarela, que exibia rindo, não passava de uma prótese barata. E suas mãos, com anel de sinete em cada indicador, eram as de um ancião. Aschenbach observava enojado aquele personagem e suas relações com os amigos. Será que não sabiam, não viam que era um velho, que não tinha direito a usar roupas como as deles, janotas e coloridas, que não tinha direito a se fazer passar por um deles? [...] Como era possível? (p. 28)

Mas, aos poucos, bem aos poucos, essa amargura vai se dissolvendo. À medida que Aschenbach se depara com Tadzio e toda sua graça fascinante, entra em cena o doce e apaixonado escritor, que, não obstante, não deixa de ser ele mesmo e certamente continua a achar o velhote atrevido bastante repugnante.

Depois de ler o livro, fiquei interessada em ver o filme, apesar de as recomendações não serem as melhores. Como o livro tem um ritmo mais lento, permeado de reflexões e descrições de personagens e paisagens venezianas, a leitura precisa ser igualmente lenta. Se o filme segue o livro fielmente, talvez seja mesmo um pouco monótono. Até porque a literatura parece dar mais margem ou tempo para interpretações e reflexões e etc. Talvez porque livros nos permitam controlar o tempo da leitura. Cinema, não. A dinâmica é outra. Ninguém dá pause ao final de cada frase. Certo?

Morte em Veneza (Thomas Mann)

Editora Nova Fronteira, 2010

“Coleção Fronteira”

Título Original: Der Tod in Venedig

1922

Já li alguns autores de literaturas africanas de língua portuguesa, principalmente, devo admitir, por conta do mestrado. Se não fosse pela academia, tenho quase certeza de que não me aventuraria por essas bandas, por pura falta de conhecimento. Não que eu seja totalmente dependente da propaganda, mas tenho consciência de sua importância. Quando a Fernanda Montenegro aparece na tela do cinema, antes da sessão de um filme começar, e diz estar lendo tal livro, isso causa um impacto enorme. Tenho certeza de que 50% das pessoas vão correr atrás da indicação. A mídia, de fato, ainda não está à vontade ou não tem interesse pela África. Se não fosse pela Copa do Mundo do ano passado, a África do Sul estaria imêmore (só para usar uma palavra bonita). Mandela estaria para a África assim como bacalhau está para Portugal. E ponto final.

A TV aberta simplesmente não se dá ao trabalho, a menos que algum país africano sedie um evento esportivo. E a mídia impressa… Bom, no Rio de Janeiro, não temos um jornal, de fato. Temos um representante impresso de um grande conglomerado, que diariamente apresenta em resumo aquilo que foi transmitido na TV. E vice-versa. Falta ao Rio uma Folha de São Paulo, que investe num caderno como a Folha Ilustrada, que realmente vale a leitura.

São Paulo é mesmo uma cidade muito evoluída nesse sentido. As melhores editoras estão lá. As melhores revistas, como Bravo ou Piauí, saem de lá. Ao Rio resta a banda pobre da Ed. Abril, responsável pela revista de fofocas TiTiTi, por exemplo. São Paulo abriga a Casa das Áfricas, um espaço cultural e de estudo das sociedades africanas, como eles mesmos se definem. No site, temos acesso às mais recentes publicações africanas de autores novos e consagrados. Obviamente, podemos ler apenas as resenhas ou um pequeno resumo. A Casa tem também um acervo material composto por artesanatos e itens típicos, mas industrializados, afinal a África participa, assim como o resto do mundo (com exceção de alguns países do oriente médio?), do século XXI. As fotos são acompanhadas por explicações sobre o item mostrado, como, por exemplo, as “capulanas”. Muito recorrente na literatura, em textos de Mia Couto, por exemplo, a palavra se refere a uma peça de vestuário, um tecido que tem uma espécie de estampa propagandística.

Além disso, há o Fórum África, que promove encontros e eventos a fim de difundir informações, das mais diversas áreas de conhecimento, sobre a África no Brasil. Recentemente, a organização sem fins lucrativos organizou a XIII Semana da África, que aconteceu entre os dias 25 e 28 de maio, em São Paulo. O evento teve como mote a “desconstrução de estereótipos criados sobre a África e a construção de um novo olhar sobre a população africana”. Muito justo!

Talvez com a Copa e as Olimpíadas, que inevitavelmente vão fazer brotar inúmeros “museus do amanhã”, o Rio acabe investindo mais em cultura, de modo geral. Não em “projetos culturais” como os que a Globo idealiza (barraquinha de cachorro quente grátis + música de 5ª + terreno baldio em um bairro desfavorecido), mas em coisas boas mesmo. Nada de pão e circo. No Rio, ainda falta a base, isto é, investimento em cultura, de modo geral. A julgar pelos passos de tartaruga, até que se chegue à África, a terra já explodiu.

O mais incrível disso tudo é que o Rio de Janeiro é considerado um super pólo cultural. Depois de São Paulo, é claro. Isso mostra como o Brasil é decadente. Ou, para os politicamente corretos, um país em desenvolvimento (eterno).

I – Paixão por Machado

Uma semana antes do meu pai falecer numa tragédia natural, o chamei para o meu quarto. Ele veio. Abri uma pequena gaveta e mostrei a ele dois gibis, um em cada canto no fundo da gaveta: “Olha, pai – tou colecionando revistinhas”. “Legal”, ele disse, “mas porque você fica lendo as coisas dos outros – porque não escreve também suas próprias histórias, desenha seus próprios gibis?”

Talvez ele tenha dito aquilo só por dizer, mas foi assim que comecei a colecionar livros e gibis compulsivamente, e comecei a também escrever livros, desenhar gibis, vender assinaturas para meus tios e tias, quando criança.

Quando li o “Dom Casmurro”, ainda muito jovem, não entendi nada. Mas, dicionário à mão, minha pretensão de adolescente me levou a enfrentar o texto de Machado: mais do que saber se Capitu tinha ou não traído Bentinho, eu queria entender aquele texto difícil – e foi por ali, na adolescência, que eu resolvi: se eu quero ser escritor um dia, seja publicando em inglês ou em português, eu tenho que ler tudo que esse Machado de Assis escreveu, eu tenho que escrever como esse Machado de Assis.

Claro que minha pretensão de adolescente jamais se realizou – li todos os romances, novelas e livros de contos de Machado, mas não li tudo – não li todos os contos esparsos, poesia, teatro, crônicas. E jamais nem cheguei perto de escrever como Machado. Mas sempre o li e reli. Mesmo durante a graduação em Filosofia. Eu sempre tinha um livro dele à mão.

Terminada a graduação em Filosofia, fui fazer mestrado em Letras, e a escolha foi óbvia: tinha que envolver Machado de Assis.

Machado, por Wellington Machado de CarvalhoTendo lido Nietzsche na graduação, vi algumas semelhanças entre estes dois expoentes da cultura universal e passei a pesquisá-los mais aprofundadamente. Passei a ler crítica Machadiana e Nietzschiana, crítica cultural e literária. Comecei a me relacionar de forma mais incisiva com as artes. E embora tenha desenvolvido um gosto ainda maior por livros e idéias, e passasse a ler diversos autores (li clássicos da filosofia e da literatura e fui também descobrindo novos autores), sempre mantive uma paixão incondicional por Machado de Assis. Considero o mestre brasileiro o maior e melhor escritor que já li, e sou tão fã dele, que mantenho na parede do meu quarto dois “pôsteres” de Machado desenhados pelo meu estimado amigo Wellington Machado de Carvalho (do Digestivo Cultural) e dados de presente (junto com uma também belíssima caricatura de Ingmar Bergman) quando me mudei de Belo Horizonte para Boston, nos EUA, em 2009. Machado certamente ficaria constrangido de saber que sua imagem é agora fetichizada num pôster, e que fica exposta nas paredes de um quarto. Mas jamais consegui evitar tal fetichização, embora reconheça nela uma certa admiração infantil – além de leitor, sou meio que um “fã de carteirinha de Machado de Assis”. Até hoje leio tudo que sai sobre ele. Vou a palestras e conferências sobre ele. Sua obra continua a me desafiar, a me motivar, a me pôr pra pensar. A me incomodar.

Machado, por Wellington Machado de CarvalhoDurante o mestrado, eu tive aulas com um jovem professor de literatura que fazia uma interessante interseção com novas mídias e comunicação social. Gostava muito das aulas de teoria da adaptação dele. Mas discordava veementemente de uma observação que ele fazia em referência a alguns clássicos brasileiros: ele afirmava que já se disse tudo sobre Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Machado de Assis, e que achava um desperdício de tempo revisitar o chamado “cânone” brasileiro. Esta afirmação nos leva à segunda parte deste texto – vamos lá?

 

II – Machado de Assis e a Escravidão e O problema do Realismo de Machado de Assis

Os dois mais recentes livros sobre Machado lançados no Brasil provam o meu antigo professor de literatura e comunicação social errado: Machado de Assis e a escravidão, organizado por Gustavo Bernardo, Joachim Michael e Markus Schaffauer reúne uma série de ensaios que desdobram e refletem o original estudo lançado por Eduardo de Assis Duarte em 2007: Machado de Assis afro-descendente. O problema do realismo de Machado de Assis, de Gustavo Bernardo, lançado há apenas alguns meses, é um originalíssimo (para falar como José Dias) estudo que visa enfrentar, sem tédio à controvérsia, a falaciosa classificação da obra de Machado de Assis dentro da categoria “realista”.

Oras, com tantos temas para serem revisitados, como pode se afirmar que tudo já foi dito sobre os clássicos? Em linhas gerais, Machado de Assis e a escravidão e O problema do realismo de Machado de Assis visam a confrontar o “embranquecimento” a que a cultura brasileira submeteu o mestre ao longo destes 103 anos após sua morte.

Visando reitrá-lo das categorias “romântico”, “realista”, buscam afirmar a sua negritude (visível em sua máscara mortuária), a sua consciência da escravidão (diversos críticos consideraram-no omisso), o caráter afirmativo (e não niilista, ressentido, como apregoaram alguns) de sua obra.

Se Machado dialogou e emulou o mais fino da cultura européia (Cervantes, Shakespeare, Camões, Montaigne, Platão, Sterne, Schopenhauer – só pra citar alguns), ele foi genial mostrando-se consciente dos problemas sociais do fim do XIX, e também incorporou elementos da cultura africana. Ele também possuía o dom de analisar com fineza e ceticismo a política, cultura e sociedade do período. Ele estava longe, muito longe, de ser um “realista”, ou seja, ele estava muito longe daquele ideal de estrita “representação do real” que a referida escola propunha. Pra Machado, a arte transcende a descrição do que convencionamos chamar de “real”: a arte, mais especificamente a literatura, subverte o real, suspeita dos dogmas, põe o “real” numa situação desconfortável, provando que ele é insuficiente.

Novos estudos sobre Machado, Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector surgirão. Categorizações cairão e outras serão criadas. Tentativas de reduzi-los a uma escola serão reavaliados e novos termos serão cunhados. Esse é o trabalho incessante da crítica. E é por estas e outras que provo o meu antigo professor errado: os clássicos só são clássicos porque sempre serão revistos, relidos e revisitados.

E os clássicos só serão revisitados, porque, ao contrário do que pensam, não é a academia que os define: é o gosto popular. É a admiração de uma criança que talvez nem os entenda.

Fui com uma finalidade pré-estabelecida ao lançamento no Largo das Artes (RJ) do livro de fotos Vaievem, da pequena e simpática editora Binóculo, de Barra do Piraí. Queria saber se o livro – e a exposição concomitante – tratavam o trem e a vida próxima aos trilhos de forma histórica, recuperando sua formação cultural única, ou se, o que eu temia, eu veria apenas o formalismo fácil das linhas retas a sumir no horizonte.

Mais para o bom, com poucas incursões na segunda hipótese.

Vaievem não se atém aos subúrbios cariocas, essa invenção peculiar nossa, já que subúrbio, na verdade, é a Barra da Tijuca. As cidades formadas a partir de atividades fabris ou agropecuárias da linha Central do Brasil são formações autônomas, não são sub de nada.

Logo de cara, um pé atrás. O poema de Chacal se apoia no estereótipo para estabelecer a dicotomia proletariado-classe média que só existe na visão reducionista de um dos componentes deste binômio, a classe média:

“entrar no trem é preciso

antes que o vapor derreta

antes que o gás acabe

antes que o tempo escorra

para driblar a rua intransitável

para escapar da droga da miséria

para imaginar o mundo

fora dos trilhos”

A ferrovia, aliás, historicamente não é marco das cidades retratadas, inicialmente locais de preferência das classes superiores e de estrangeiros aqui convidados a ficar pela Coroa Imperial. Depois, moradia das gentes que por lá também trabalhavam (e trabalham) e que não dependem do trem para nada. Pelo contrário, tendo no trem um distúrbio, um entrave para o tecido urbano, a separar aglomerados em dois, do lado de cá e de lá da via férrea. Bangu e sua fábrica. Ou as vilas proletárias construídas pelo Marechal Hermes, aliado de sindicatos e definitivamente antiliberal. Se fossem construídas hoje, aliás, essas vilas seriam consideradas de classe média, pois apresentavam uma qualidade de vida comparável a qualquer núcleo urbano modernista.

Mas, mesmo sem referências a esta formação cultural bastante rica, a maioria dos fotógrafos escapou da representação hegemônica que eu temia.

Rogério Reis denunciou a tipificação desfavorável de quem mora ao lado do trem com seus bonequinhos minúsculos usando vagões e trilhos como local de agradável lazer. Há a moça de biquini, o senhor de terno, e quem dá adeus gostosamente àquilo que passa por eles, em direção, sabe-se, dos grandes centros urbanos.

Renan Cepeda se atém nas margens, em composições um pouco românticas, saudosistas, e dele gostei um pouco menos, embora sua indistinção em preto e branco o salve de produzir cenários de narrativas já terminadas, concluídas. Dele se aproxima o texto de Paloma Vidal, a falar de uma “perda iminente”. E é certo. há a urgência de uma perda, que Flavio Colker trata de combater por estratégia oposta.

Colker traz cores. Se Cepeda fala da permanência através de limites nem um pouco definidos, Colker é seu oposto e seu igual. As fotos aqui trazem cores primárias fortes e definidas. A composição como que tenta “prender” seu assunto com uma grade de linhas horizontais e verticais formada pelos fios óbvios: fiação elétrica, trilhos, postes. E aí tem um fogo, que é aquilo que não se prende. Bem bom.

José Diniz trouxe o humor. Ele faz, com campos retangulares em sequência, deitados e estreitos, um “trem”, composto de capôs de volks muito velhos. Vêem-se as placas: são de Vassouras, Três Rios, Valença, Folta Redonda, Rio Preto. Aqui se recorre a um conhecimento extraquadro: sabe-se do carinho que este carro popular desperta em seus donos, que deles não se desfazem de jeito nenhum. São quase cachorros.

Monica Mansur é a única a fazer uma referência histórica, e o faz através da brecha frágil de seu pinhole. Aí vemos um chafariz, uma praça, um pedaço de igreja.

E Daniela Dacorso é quem mais recai na reprodução do pensamento hegemônico, a tipificar o habitante dessas localidades como o homem inculto e “grosso”, a mulher brega.

Além deles, também participam no livro e da exposição os seguintes artistas: Claudia Tavares, Kitty Paranaguá, Lucia Vilaseca e Vicente de Mello.

O livro poderia ter mais textos, dentro da minha convicção de que se vê melhor quando se lê. Um bom exemplo, e dentro do mesmo tema, é o 150 anos de subúrbio carioca, da UFF, organizado pelos professores Márcio Piñon de Oliveira e Nelson da Nóbrega Fernandes. A junção de ambos os livros foi meu lucro, do qual ofereço estas migalhinhas.

O enorme título deste ensaio é um pastiche dos títulos que o autor americano David Foster Wallace (1962-2008) utiliza nos seus ensaios. Porém, este meu ensaio é menos sobre David Foster Wallace e seu amigo (o também escritor americano Jonathan Franzen), e mais sobre amizade, literatura e cortesia/decoro.

Mas para falar sobre os temas acima, preciso falar um pouco sobre os autores. David Foster Wallace é considerado o mais importante autor norte-americano da contemporaneidade. A exaltação à sua obra cresceu ainda mais após o seu sucídio em 2008. Até aí, nada de anormal. Ele já era um autor celebrado em vida, embora não fosse propriamente um best seller, como são (também aqui onde me encontro) os livros juvenis, de auto-ajuda, policiais. Ele era celebrado entre os escritores de ficção “séria”: Toni Morrisson, Don deLillo, Cormac McCarthy e… Jonathan Franzen. Foi também celebradíssimo como ensaísta. Acho natural, então, que o culto à sua persona difícil, elaborada, fosse aumentando após a sua morte.

Pois a edição de 18 de Abril de 2011 da revista The New Yorker trouxe um artigo de um dos mais importantes autores americanos da contemporaneidade (Franzen) sobre (entre outras coisas) , aquele que é considerado o maior autor americano da contemporaneidade: Wallace. Numa estratégia interessante para chamar a atenção do público, o longo ensaio de Franzen ficou disponível temporariamente de graça na página da revista na internet – para ler o ensaio, o leitor teria apenas que clicar no botão “like” da revista no Facebook.  Eu soube depois que o experimento de divulgação foi um sucesso, e não me lembro exatamente onde li isso, mas parece-me que o experimento bateu todos os recordes da revista – salve engano (meu), o ensaio de Franzen foi o mais “gostado” da história da página.

Quando tentei acessar o ensaio, ele já estava novamente trancado, inacessível. Sem pedir a eles, três queridos amigos que sabem da minha afinidade por ambos os autores me enviaram uma cópia do artigo mas, leitor à moda antiga, à meia-noite e meia, desci os doze andares do apartamento onde me encontro em retiro por algumas semanas (fruto de uma bolsa para traduções) e fui procurar, no centrão de Vancouver, uma loja de conveniência aberta 24 horas para poder adquirir uma cópia da revista. Achei. Comprei também um café. Fui para casa. Li com voracidade e espanto. (A propósito: insiro estes elementos pessoais no meu texto para tentar sair de mim e me aproximar de você, leitor… sou só mais um ser humano buscando formas de fazer contato de verdade…)

Bem, agora que já ofereci um pouco de contexto e expliquei como cheguei ao ensaio, posso falar um pouco dele. Mas por favor, tenha em mente que a vida pessoal dos autores pouco me interessa. E também mantenha em sua mente que este texto não é sobre Wallace e Franzen. Claro que você é livre para interpretar como quiser, mas saiba que utilizo Wallace e Franzen para falar de problemas comuns a todos nós. Problemas que dizem respeito à amizade, à literatura e à cortesia. Mas eu já disse isso. Avancemos.

O ensaio de Franzen chama-se Farther Away: “Robinson Crusoe”, David Foster Wallace, and the island of solitude [Ainda mais distante: “Robinson Crosoé”, David Foster Wallace e a ilha da solidão (em tradução livre)]. Franzen inicia o texto falando de sua solidão e dos seus vícios, e também do desejo de ir à ilha chilena de Masafuera, local que teria inspirado Daniel Defoe a escrever Robinson Crosoé. Ele diz que na véspera da sua partida para a ilha, foi visitar a viúva de Wallace, que o presenteou com uma pequena caixa em formato de livrinho, que continha uma gaveta com algumas das cinzas de Wallace. Ao deixar a casa da viúva de Wallace, Franzen diz ter ficado com a sensação de que ela o presenteou com algumas das cinzas de Wallace para a sua própria sanidade mental. Afinal, ele ainda está de luto pela perda do amigo. Ele parte, então, para Masafuera. O texto então se divide: ora relata suas impressões sobre a ilha, ora se torna uma aula sobre as origens do romance como gênero. A propósito, gostaria de dizer que a aula é magistral – aprendi muito com o texto, e aprendi também uma coisa que até então ignorava completamente: na América do Norte, os livros de ficção escritos antes do século XVIII eram chamados de “romances”. A denominação “novel” (que significa também novo, recente) só passou a vigorar com os romances do século XVIII, e Franzen acha curioso que a maioria das línguas européias não faça distinção entre “romance” e “novel”. (Em português mesmo, classificamos como “romance” os livros escritos antes do século XVIII, como o Dom Quixote, de 1605, e depois do século XVIII, como o Dom Casmurro, de 1899).

Mas depois da aula de literatura, Jonathan Franzen começa a falar do amigo (afinal, ele ainda tinha que lidar com as cinzas de David Foster Wallace que carregava consigo): e é aí que ele passa a ser extremamente deselegante.

Franzen começa relatando uma pretensa superioridade pessoal sobre Wallace: enquanto ele ama a natureza e sabe admirar a magnitude dos pássaros, Wallace nunca demonstrou o menor interesse pela natureza ou pelos pássaros. Franzen então diz que enquanto observava os beija-flores do pátio da casa de Wallace, este ia tirar o seu cochilo de toda tarde, sobre forte medicação. Pra começo de conversa, acho extremamente deselegante (pra não dizer irrelevante) Franzen publicar na New Yorker algo tão íntimo, tão pessoal, em seu ensaio. Se Wallace gostava de tirar cochilos à tarde e estava sempre sobre forte medicação para cochilar, este era um assunto que só dizia respeito a ele, a ninguém mais. Mas o texto fica ainda mais crasso. A seguir, Franzen diz que Wallace estava doente sim, e que a história da sua amizade com Wallace é simplesmente esta: “ele amava um sujeito que era um doente mental.” (Página 90 da revista). E continua: “o deprimido se matou, de modo a inflingir o máximo de dor naqueles que mais amava, e nós que o amávamos ficamos com raiva, nos sentindo traídos. Traídos não somente pela falha do amor que investimos, mas pelo fato de que o suicídio tirou aquela pessoa de nós e o tornou uma lenda junto ao público”.

Costumo brincar com os meus amigos dizendo que, se você inserir as frases “Nós, que pagamos impostos”, ou “Eu não tive a intenção de” ou “Investi o meu amor” numa sentença, você já perdeu. Não há significados ocultos. Se você irritou alguém, peça desculpas: se irritou, é porque quis mesmo irritar – não existem intenções ocultas, significados ocultos, entrelinhas. A linguagem é. Responsabilize-se pelo modo como a utiliza.

Dizer que investiu no seu amor por Wallace parece-me uma grosseria cósmica. O amor não é uma conta-poupança, uma ação na bolsa. Você não investe amor para gerar lucro. O amor não se investe. O amor se dá gratuitamente. Eu sei que o verbo “to invest”, em inglês, tem também o sentido de usar, dar ou dedicar, mas o modo como Franzen utiliza o termo no texto parece cobrar de Wallace permanecer vivo em troca do amor oferecido. Permanecer vivo e deixar de ser doente, retribuir o amor oferecido por aqueles que… bem… dizem que o amam. Doar o seu amor para as pessoas ao seu redor, para os animais, as plantas, para a existência, é a única forma de amor verdadeiro. O amor verdadeiro só pode ocorrer pela doação. Dizer que o suicídio de Wallace foi uma traição ao amor investido somente diz que não houve amor. Não houve amizade, portanto.

Franzen segue dizendo que, após a morte de Wallace, todo mundo leu o seu famoso discurso para os graduandos em arte da Kenyon College no Wall Street Journal e lamentaram a perda de uma alma grandiosa e gentil. E diz também que o caráter de Wallace era complexo, dúbio; e também mais engraçado, mais perdido, mais em guerra com seus demônios do que o vidente/artista/santo que a imprensa tentava pintar: “As pessoas que conheciam David menos são as que mais falam dele em termos de santidade.” A lista de grosserias de Franzen ainda inclui a afirmação de que não há amor verdadeiro na ficção de Wallace, porque ele jamais se considerou merecedor do amor. Franzen também conta que alguns anos antes de morrer, Wallace autografou duas edições de seus livros em capa dura (hardcover) para ele. No primeiro livro, havia o traçado da mão de Wallace. No segundo, havia o traçado de uma ereção enorme, tão grande que ultrapassou a página inicial – abaixo da ereção, uma seta e a inscrição: “escala 100%”.

Franzen também diz que Wallace era extremamente narcisista, auto-centrado e exigente, se afundou em drogas e álcool, etc. etc. Chega ao aburdo de dizer que Wallace se matou porque estava entediado com o seu romance (o recém lançado The Pale King) e que estava frustrado por não conseguir ultrapassar Infinite Jest, o seu romance de 1997. No fim das contas, Franzen joga as cinzas de David na ilha, fala mais um pouco de Robinson Crusoé, narra seu caminho de volta pra casa e nos desafia (como que a provocar o amigo morto) ao final do texto: como podemos estar entediados em tempos tão complicados?

É muito fácil dizer o que se quiser sobre alguém que não está mais aqui para se defender. Todos podem falar o que quiserem dos mortos – não, eles não voltarão para puxar o seu pé. Mas parece-me que se está perdendo o limite daquilo que é estritamente pessoal, e fiquei desapontadíssimo com o texto de Franzen – ainda mais por se tratar de artistas que se consideravam amigos.

Uma outra forma de ler o texto de Franzen é como uma espécie de “ficcionalização”, embora o texto esteja na seção “reflexões” (portanto, não-ficção) da revista: ao se transformar em linguagem, o fato (neste caso, o homem David Foster Wallace) se perdeu, se esvaziou. Temos uma narrativa, uma impressão, uma interpretação feita por Franzen. Num primeiro momento, o texto de Franzen pode parecer ter alguns méritos no que concerne a Wallace: desmistificando o autor e o homem Wallace, poderia torná-lo ainda mais humano, mais complexo, mais suscetível a erros – mais próximo de nós, portanto, em nossas limitações, falhas, tentativas. Mas ainda assim acho que, como os dois estão entre os maiores artistas desta geração, deveria-se preservar um mínimo de decoro, de respeito. Chamar um amigo de “doente mental” quando ele não está por perto para se defender e demonstrar a sua visão desta possível “outridade da razão” é grosseiro demais para um escritor do porte de Franzen.

Acabo soando um tanto moralista, eu sei – parece que estou querendo ditar regras de conduta, mas é fato que o decoro acabou há muito tempo atrás. Pergunta honesta, assim, de supetão pra amiga leitora, pro amigo leitor: você sabe o que significa a palavra decoro? Sim? Não? Pense mais um pouco. Vou deixar uns pontos vazios aqui pra dar tempo pra você pensar. (. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .) Pensou?

Conheço pessoas que pensam (seriamente) que o mundo de hoje não comporta dignidade moral, honradez, acatamento, respeito a si e aos outros. Ah: estes são sinônimos de decoro. Já me  foi dito que estes são valores antiquados, que o mundo de hoje é dinâmico, rápido, interativo: não precisamos fazer cerimônia para nos apresentarmos um ao outro, para tratarmos um ao outro. Até tento compreender esta mudança de paradigma comportamental, mas nunca consigo. E vejo que a morte do decoro resultou numa quebra de hierarquia (que poderia ser celebrada, não fosse a maneira tosca como foi feita), resultou num destrato ainda maior para com o próximo, num exacerbado narcisismo onde nos exibimos, nos escancaramos (postamos pensamentos e fotos íntimas) para todos os amigos e ainda para qualquer conhecido que vimos uma vez na vida e incorporamos no nosso show particular na rede.

O que Franzen fez em seu ensaio é parecido com o que acabei de descrever e ocorre muitas vezes nas redes sociais: ele compartilhou com desconhecidos (nós, os leitores) dados pessoais dele – detalhes da sua relação com Wallace. Ou, melhor dizendo: a narrativa da sua relação com Wallace. Se por um lado esta exposição e esta abertura nos deixam com a sensação de estarmos próximos das celebridades e artistas de que gostamos, por outro, ela contribui para o show de horrores e egocentrismo que a mídia tanto usa para vender produtos. No caso de Franzen e da New Yorker, e também da campanha da revista para divulgar o ensaio, é o lado do show de horrores egocêntrico e consumista que parece-me ter vencido. Milhares de pessoas, fãs, internautas clicaram em “like” – mas pergunto-me quantas pessoas leram o grotesco relato de Franzen. Afinal, é um texto muito grande para os padrões rápidos da internet.

Acho lamentável o que os amigos e herdeiros do espólio de Wallace estão fazendo com a sua obra. Estão transformando-o em um showman, um messias. Até mesmo Franzen faz parte deste jogo de mitificação sob o pretexto de estar fazendo o contrário. Franzen apenas contribui para vender a persona de artista suicida de Wallace – e não se iludam: há gente lucrando com a venda desta persona. E em dólares. E quanto mais pessoas se importam com a biografia controversa de Wallace, menos pessoas se importam com o que realmente deveria importar: a obra genial escrita por ele, e a sua importante contribuição para a arte literária.

Ou vai ver eu é que sou mesmo medieval, ultrapassado, e tenho que me adaptar ao novo mundo, onde o ego é superior à arte, onde o relato de dados pessoais crassos com uma pitada de firulas sobre literatura é confundido com um ensaio, e onde o amor é um investimento em ações, e espera-se dele exorbitantes lucros – e não simplesmente um ato de doação livre.

Nascido em 1921, na França, Jean Duvignaud tornou-se mundialmente famoso por suas análises sociológicas e antropológicas, principalmente as relacionadas às artes. Neste estudo, apresentamos a resenha de seu texto Problemas de Sociologia da Arte, transcrito de Cahiers internationaux de Sociologie, vol.26, 1959. Em tal artigo, o autor parte da idéia da complexidade de se analisar a sociologia da arte, logo, a sociologia da arte deveria ser pensada como uma sociologia das práticas artísticas, o que permitiria considerar a criação artística em sua totalidade englobando “as estéticas específicas, as formas de criação e a capacidade de intervenção da expressão artística nos diferentes quadros sociais” (p.23). Percebemos, neste momento, a importância de se relacionar toda a forma de variação da produção artística em função dos quadros sociais nos quais se situa o indivíduo ou o grupo que propõe determinada estética. Quadros sociais passa, portanto, a ser um conceito fundamental na compreensão geral da produção de nosso escritor.

Partindo do pressuposto conceitual de que devemos situar como certas estéticas variam de acordo com o quadro social, percebemos que na sociologia da arte ou das práticas artísticas ou no estudo da estética não há uma junção entre a conceituação e a experiência artística. “Partindo dessas variações, poderíamos analisar como uma estética de princípios análogos, mas em quadros sociais diferentes, desenvolve-se de maneira inteiramente diversa segundo a moda de intervenção que implica o tipo de sociedade onde se define” (p.27). Como exemplo dessa interação histórica entre estética de princípio análogo, em quadros sociais distintos, o autor nos cita a arte do final do XVIII e da Revolução Francesa que tentou abolir a intelectualização (ilustração) da arte, buscando “uma comunhão que unisse todos os indivíduos da nação ao redor da mesma representação simbólica.” (p.27), comparando com Schiller, que faz a mesma (ou algo similar) na Alemanha (outro quadro social). Outro exemplo, além do anterior, poderia ser o exemplo da Alemanha Oriental: “a estética que era proposta tinha, em princípio, como objetivo, estabelecer tanto a verdade histórica da obra como seu sentido político contemporâneo” (p.28). A partir deste momento, o autor explicita que chegaremos a encontrar definições provisórias que possibilitam certas análises concretas se pretendemos analisar da maneira mais completa possível as diferentes formas de atitudes estéticas enquanto atitudes criadoras (p.29)

A primeira destas forma é: “a arte como participação na experiência psicossocial de um grupo fechado” (p.29), da forma que ocorreu na arte grega. A segunda seria “a arte como satisfação, como divertimento dos privilegiados e dos sacerdotes” (p.30), é o momento do mecenato, que conecta seu momento histórico às práticas artísticas antigas, logo, não é um momento de inovação ou mesmo modificação nos padrões de criação. A terceira: “a arte como uma ilusão” (p.30). O artista passa a ser algo consagrado. É o que foi valorizado por Hegel em sua análise Estética sob a denominação de fase simbólica da arte. Para este modelo, deve existir uma representação pública o que a leva a ocorrer, constantemente, em sociedades carismáticas. A quarta seria a “atitude de ilustração e embelezamento da vida” (p.31), como ocorreu com a pintura do século XVII e XVIII na Holanda, como representação globalizante da vida. Também é a arte vitoriana – em nossa leitura, devemos ter o cuidado de não aproximarmos os conceitos de ilustração e o de representação, que guardam, muitas vezes, significados distantes. A quinta atitude é a tentativa de oposição ética à experiência tradicional do grupo (p.31): inseparável da anterior, porém, sem imposição de classes dominante. É o momento prévio da imposição, como a França do XVII, a Inglaterra Elisabetana ou o Século de Ouro espanhol. A sexta atitude criadora é a nostalgia de uma comunhão perdida (p.32), atitude romântica por excelência e entendida de forma inseparável da anterior (uma vez que essa atitude se afasta da exigência de quadro social, que exige outra atitude criadora, percebemos a aproximação do hiperindividualismo). A sétima: revolta ética, política e social (p.33), colateral da anterior. É o prometeísmo da arte. Necessidade constante de se caracterizar e compreender os quadros sociais dos artistas. É o ambiente que origina, por exemplo, o romance policial, baseados, originalmente, em conflitos humano-demográficos. A oitava atitude é a arte pela arte (p.34), essa atitude parte diretamente da idéia de destruição do conceito de Belo, todavia, mesmo este tipo de prática acaba por ter seu retorno à conceituação originária de inserção nos quadros sociais. As outras atitudes criadoras são contemporâneas e conseqüências necessárias e evidentes uma da outra: (1) a que implica uma oposição à cultura de massa e (2) a que pretende utilizar os determinismos da cultura de massa em proveito da expressão artística (p.35).

O texto de Jean Duvignaud demonstra uma nítida relação entre a vida social e a expressão artística, logo, devemos “reintegrar a estética na vida social” (p.36). contudo, para solucionar os afastamentos entre estas, é preciso unir conceituação e experiência, o que tenta-se fazer, muitas vezes, sem sucesso. Daí o motivo de certas obras de arte terem um valor que independe do quadro social onde são criadas. Para essas peças, há uma comunicação, uma “corrente emocional” (p.36), dessa forma, percebemos uma descontinuidade dos quadros sociais ao lado de uma grande possibilidade de entendimento humano.

Mais do que um simples texto de análise dos problemas relacionados à sociologia da arte, Jean Duvignaud nos oferece em seu texto uma percepção única acerca da necessidade de compreendermos o fenômeno artístico como prática criadora, essa sim passível de ser analisada socialmente.

 

Resenha de: DUVIGNAUD, Jean. Problemas de Sociologia da Arte. In: VELHO, Gilberto (ORG). Sociologia da Arte (Volume I). 2ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1971, p.23-36.

Nem um pessimismo contagiante, tampouco um otimismo cego: Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, em A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada, expõem como uma bula de remédio (infeliz comparação) os benefícios e os efeitos colaterais da cultura de consumo no mundo hipermoderno, do crescente uso da tecnologia nas relações interpessoais, das experiências imediatistas que o novo consumidor cultural requisita. Pesar a relação custo/benefício do medicamento, isso fica a cargo do leitor. (Se é que alguém ainda lê.)

Dentro do quesito arte, Lipovetsy-Serroy destacam o crescimento de um novo mercado, o de “museus-espetáculos”. Os tradicionais e solenes museus cedem espaço para experiências visuais, imediatas e futurísticas. A arquitetura majestosa dá lugar às estruturas espetaculares. Em resumo, “o momento é da arquitetura emocional em consonância com um hiperconsumidor mais à espreita de experiências imediatas que de iniciação e elevação espirituais.” Hoje, museus são símbolos de desenvolvimento urbano, funcionam com sistema de franquias, movimentam fortunas. O mundo da arte faz parte do mercado. A construção dos novos “museus-espetáculos”, que viram destinos turísticos, e que tem como palavra de ordem recreação em lugar de recolhimento, é reflexo disso. O lado bom é que os artistas não precisam mais morrer para ganhar dinheiro. Viram celebridades ricas ainda em vida. Sai de cena a “glória imortal” e entra em cena a busca pela “celebridade midiática”.

Consomem-se, hoje, de batatas fritas à arte. E ao mesmo tempo em que esse hiperconsumo proporciona no indivíduo a sensação de bem-estar material e físico, e que oferece uma enorme diversidade de meios de comunicação e de informação, ele provoca no consumidor hipermoderno incertezas e inseguranças em relação a sua identidade. A variedade de escolha é muito vasta. Somos confrontados diariamente por uma infinita gama de identidades. Há quase 20 anos atrás Stuart Hall já constatava que “quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem ‘flutuar livremente.’” E isso em 1992, década em que a internet nem era tão pop, e a globalização começava a dar passos mais largos, até atingir o nível de crescimento e a abrangência mundial, tal qual um polvo supernutrido, da qual hoje usufruímos.

Nesse mundo hipermoderno, do hiperconsumo, a sensação é de autonomia, de livre escolha. Por outro lado, é a era da dependência e da indecisão. Isso sem mencionar as relações sociais e afetivas à distância, muitas vezes frágeis, superficiais e frustrantes, que acentuam o sentimento de solidão e de individualidade. São milhares de pessoas conectadas umas às outras mundo afora e, ao mesmo tempo, são milhares de pessoas com a sensação de isolamento.

É muito pouco provável que alguém consiga ser totalmente imparcial ao ler um texto como esse. A cultura-mundo traz um debate atualíssimo e imprescindível para a reflexão sobre os fenômenos culturais que vimos surgir e que vemos crescer. Os fanáticos tecnológicos sempre terão argumentos muito positivos sobre as novas tecnologias. Os fanáticos por traças vão lustrar suas máquinas de escrever. No meu caso, não sou nem um e nem outro. Nem sei bem quem sou mais. Sou uma pipa. Minha identidade flutua quase livremente. Quando sinto que dei muita linha, puxo a corda, e aqui estou eu.

Ó, o livro de Nuno Ramos é feito a partir de nossos espantos cotidianos com a morte. Da composição especialíssima ao retorno ao tema, todo o livro é causador de grande expectação. Uma reflexão profunda – por vezes filosófica – sobre a condição do humano vai bordando ao longo das narrativas a estranheza de estarmos construídos e constituídos na forma de cultura que alcançamos, cuja centralidade é a linguagem.

A estrutura da composição faz lembrar os sete dias da criação; são sete ós entremeados por contos em que o autor interroga a constituição da espécie sobre a terra e seu destino a partir da cultura. A presença da criação segunda, ó, como um deslize para fora do que a história da espécie projetou, faz com que se penetrem possibilidades de revitalização do demasiado humano e da matéria de que somos feitos, incapazes de comunicação. Mônadas para sempre perdidos numa linguagem incapaz de perceber o que nos constitui somos obrigados – com as narrativas de Nuno Ramos – a retroceder a um estado em que a linguagem seria capaz de ser reinventada.

A reinvenção da linguagem permite duas entradas de percepção. Uma é a desconstituição numa morte que fala pelo seu silêncio e pela percepção da inércia reveladora de quem somos e sinal de nossa igualdade com a natureza. Morte reveladora e silenciosa que, no entanto, é o único momento em que podemos nos confrontar com a destinação das espécies e das coisas objetais. A outra está na busca desesperada por uma linguagem capaz de nos desdizer ou de desconstruir enquanto linguagem do comezinho que tudo apaga.

A imersão na linguagem levaria a considerações danadas de espanto. Contra toda uma onda literária que privilegia o contínuo do realismo – disfarçado de sociologia e biografismo em que se mergulha no próprio ou alheio umbigo – ou seu contrário – as viagens pelo mundos dos bruxos, dos magos, da sub cultura letrada tão ao gosto de nossa época – a via que Nuno Ramos escolhe é mais sutil.

Ao escolher pensar o humano dentro dos padrões estritamente materialistas e ao não aceitar que a matéria nos é dada de antemão pela cultura, pressupõe uma outra deriva tanto mais interessante quanto mais se prende a uma forma de contar em que o tempo se torna simultâneo e não contínuo – os próprios títulos são múltiplos e simultâneos – e com isso permite que a linguagem se faça como um correlato do que se narra, densa e expectante como se houvesse se reinventado e assim pudesse inaugurar o mundo, sua forma, seu cheiro e as diretrizes de um pensar ingente sobre um eu que não mais se liga às descrições do passado, mas que se insere de um modo amalgamado aos objetos e seres com os quais compartilhamos a existência.

As narrativas catastróficas sobre o existir encontram nos contos do autor uma resposta instigante, pois, ao contrário da lamentação pela perda de sua centralidade – advinda pelo pensar do fim, a posição de força que o humano tem em Nuno Ramos recompõe a trajetória do fim e o louva como a possibilidade não de pensarmos o mundo para a salvação da cultura, mas pela construção de poderosas inserções nas quais a animalidade se revele e domine o ambiente em que vicejaríamos inscientes sempre dessa linguagem inovadora que nos recriaria como num segundo Fiat – sem imagens e semelhanças possíveis.

Ó é uma ode à linguagem, aliás, como deve ser a linguagem literária.

[...] vendo contra as pálpebras vermelhas os porcos soltos em pares correndo acasalados para dentro das águas e ele nós temos que ficar acordados e ver o mal ser cometido por um momento não sempre e eu não é preciso nem mesmo esse momento para um homem de coragem e ele você considera isso coragem e eu sim senhor o senhor não acha e ele cada homem é arbitro de suas próprias virtudes você considerar o ato corajoso ou não é mais importante que o ato em si que qualquer ato senão seria impossível você estar falando sério e eu o senhor não acredita que eu estou falando sério [...]

Com exceção das reticências, postas por mim (meio que a contragosto) apenas para indicar o corte no original, o trecho é assim mesmo: não há vírgulas, não há travessões, nem qualquer outro sinal de pontuação. Faz parte de um enorme “bloco” escrito do mesmo jeito: sem pontos, vírgulas, guias, nada; mas que ocupa mais de duas páginas do livro. O texto é sem rédeas, como um fluxo contínuo de pensamento, aparentemente extraído direto da cabeça e posto no papel de imediato, em estado bruto, tortuoso, dolorido.

Trata-se dos momentos finais da segunda parte de o “O Som e a Fúria”, de William Faulkner, na qual o narrador-personagem, Quentin Compson, amante da morte e da própria irmã (mais da pureza, do que do corpo em si), rememora um diálogo com seu pai, enquanto toma as últimas providências para seu suicídio.

Todas as ações dessa segunda seção transcorrem em 2 de junho de 1910 e mais do que acompanharmos o que parecer ser o último dia na vida de um homem, somos o próprio homem. Somos Quentin. Faulkner, não por acaso famoso por sua maestria narrativa, reproduz o fluxo mental do suicida, a parecer que nós somos os detentores de seus pensamentos, de suas angústias, como se sua vida fosse a nossa.  Por isso, o trecho acima é como é. Por isso, nessa parte da obra, a narração no presente é literalmente (e constantemente) interrompida de súbito por uma lembrança, por um pensamento avulso (marcado em itálico pelo autor) e retomada em seguida.

Aliás, essa história de vermos os fatos com se fôssemos os personagens é levada tão a sério, que o escritor não nos dá nada de graça. Histórias do passado são apresentadas como se nós tivéssemos presenciado-as. Por isso, Faulkner escusa-se de contá-las de maneira clara, tornando a obra um enorme quebra-cabeça que, eventualmente, pensamos estar com uma peça faltando.

Quentin é apenas um dos narradores. Ainda há Benjamin (1ª parte do livro), irmão mais novo de Quentin e que sofre de deficiência mental; Jason (3ª parte do livro), o mesquinho e ressentido irmão dos outros dois; e uma narração em terceira pessoa, encerrando a obra.

Para cada narrador, um estilo. Se Quentin é um atormentado suicida, estudante de Harvard, o texto reproduz sua confusão, sem prescindir de linguagem culta e muito (e digo, muito) bem elaborada. Se Jason é pragmático, um homem grosseiro e preconceituoso, eis que temos uma narração mais direta, menos embaralhada que as demais, carregada em xingamentos e grosserias. Se Benjamin é doente mental, o texto é fragmentado e a lógica, a noção de espaço, de tempo, de memória é totalmente particular.

Então, dizer que “O Som e a Fúria” é uma obra difícil, é quase igual a chover no molhado. Tão óbvio quanto dizer que é genial, essencial e um marco na literatura no século XX (data de 1929). Enfim, lugares comuns à parte, é importante saber que no quinto ato de Macbeth, de Shakespeare, há um solilóquio no qual a vida é descrita como “uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significada nada”. Eis a síntese do livro de Faulkner. À sua maneira, todos os narradores-personagens são idiotas. Seja uma idiotia literal, como no caso de Benjamin, ou não.

Nas mais de 300 páginas do livro, acompanhamos algumas décadas na família Compson – Jason (o pai); Caroline (a mãe); os filhos: Quentin, Candace (Caddy), Jason e Benjamin (Benjy); e a neta Quentin (filha de Caddy) –, personagens indissociáveis dos empregados (negros): Roskus, Versh, T.P., Frony, Luster e a matriarca (e, nos estudos da obra, a personagem tida como a mais lúcida) Dilsey.

Na verdade, acompanhamos o declínio dessa família, vitimada por uma desgraça anunciada, inclemente com todos. O irmão doente mental, que posteriormente é castrado. O suicida. A irmã promíscua. O solteirão fadado à solidão. O pai alcoólatra. A mãe hipocondríaca.

Estudiosos da obra entendem que Faulkner, americano do Mississipi, faz, em “O Som e a Fúria”, uma metáfora sobre a decadência econômica e moral da elite do sul dos Estados Unidos. Assim, problemáticas raciais, individualismo, misoginia e o papel da mulher na sociedade do início do século passado também estão como pano de fundo da história.

Na edição publicada pela Cosac Naify, com tradução de Paulo Henriques Britto, há uma espécie de apêndice, publicado pela primeira vez em 1946, no qual se conta a história da família Compson. Na última frase dessa seção, diz-se sobre os negros do livro: “eles resistiram”, possivelmente completando a idéia de derrocada da família protagonista. Por isso, a capa dessa edição, uma casa em chamas, é mais do que oportuna, tanto pela obsessão pelo fogo na obra (quase que atribuído de poder hipnótico), quanto pela destruição do lar, último símbolo Compson.

Faulkner apresenta-nos uma obra com tempo e espaço estilhaçados, sem norte para o leitor. Pessoalizando a análise: quando eu estava lendo, a primeira vez que houve uma afirmação (do tipo: isso é isso), lá pela página 60 ou 70 do livro, foi como um raio de luz abrindo minha cabeça, tamanha confusão inicial.

Ao final, temos a impressão que várias pessoas escreveram a mesma história. Não há “A” verdade, e isso não é o importante. Cada um a conta a partir de um ponto de vista próprio. Nós temos que catar os fragmentos, ver nas entrelinhas, pressupor, supor, imaginar, sentir e, ainda assim, a história pode nunca ficar completa, sendo que a completude também não é o importante.

Li em uma revista que William Faulkner reescreveu o texto cerca de cinco vezes, contando a história de muitas maneiras diferentes, não sabendo por onde começar. Na mesma matéria, o jornalista afirma que seus procedimentos se aproximam do estilo de James Joyce, no que concerne à técnica do fluxo de consciência (Joyce escreveu o monumental Ulisses, livro de quase mil páginas, que demorou cerca de oito para ser finalizado e narra, apenas, um dia na vida no ano de 1904, o 16 de junho).

Sinestésico, arbitrário, fatalista, mas sempre consciente do que está fazendo (digo, com intenções calculadas), Faulkner nos proporciona uma experiência sui generis com a palavra. Apresenta-nos um texto ao qual não estamos acostumados, transitando entre as incorreções da língua falada e o puro estilismo. Artífice, leva a palavra a outro patamar, quase sublime.

[...] Dou-lhe esse relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios [...]

Há quem diga que o escritor ou a escritora é um ser humano extremamente narcisista. Ele precisa observar os fatos do mundo, apreendê-los, transformá-los em linguagem, e retransmitir sua perspectiva estritamente pessoal para o leitor. Leio por aí que as idiossincrasias, os maneirismos, a fetichização da palavra escrita auxiliam no desenvolvimento deste “sujeito” pensante, uno, soberano, a interpretar a realidade.

Fala-se muito do narcisimo do escritor português António Lobo Antunes, por exemplo: vira e mexe o autor põe um alter-ego seu como protagonista ou personagem de seus romances. No mais recente livro, o (diga-se de passagem) genial Sôbolos rios que vão (Publicações Dom Quixote, 2010), o autor volta a colocar o seu nome num personagem que passa por uma situação dramática: sofre de câncer e tem que enfrentar o medo da morte de frente. É publicamente notório que o autor empírico, António Lobo Antunes, passou pelo drama do tratamento de um câncer, e que isto muito angustiou o escritor. Mas daí a dizer que o livro é a sua autobiografia, parece-me um equívoco. Mas por ora, retornemos à questão do narcisismo. Explico em breve onde está o equívoco.

Eu não poderia discordar mais de quem acusa os artistas das letras de intenso narcisimo ou egoísmo: a literatura é um radical exercício de alterização, talvez seja o exercício de alterização por excelência. Justifico: o simples ato de criar uma realidade linguísitica para além do fato observado, somado à posterior retransmissão do escrito, implicam numa série de movimentos em direção ao exterior do ego do artista, de modo que o seu “eu” se dissipa, culminando na total aniquilação do ego. Vou tentar desenvolver mais.

O simples fato de o escritor ter uma história para contar é o primeiro movimento de alterização em literatura: para escrever, é necessário, antes de mais nada, imaginar-se outro. É necessário habitar este outro da linguagem e criar ficções, é necessário criar a mente de um outro, as personagens, e criar todas as suas interações. Devo dizer que mesmo os gêneros auto-proclamados não-ficção não podem escapar ao processo de alterização. Se alguém escreve a sua própria autobiografia, está saindo de si para criar uma narração, um personagem baseado em si próprio. Se alguém clama que devemos averiguar e nos ater a “fatos históricos concretos”, esquece-se de que mesmo a história é uma “estória” (apenas para resgatar a clássica e datada distinção): a história também configura-se uma arte narrativa – o tal fato concreto já deixou de ser no instante em que aconteceu – resta-nos narrá-lo. Posso invocar o famoso aforismo de Nietzsche aqui: “não há fatos, somente interpretação”. Depois do trabalho com a linguagem e da criação do universo ficcional, transmite-se o “texto-tecido” para o leitor. Segundo movimento de alterização: agora é o leitor quem participa do movimento de alterização entrando na cabeça do escritor, habitando a sua pele, interpretando o que os narradores dizem e criando sentido.

O terceiro movimento de alterização consiste na capacidade da arte de nos transformar enquanto pessoas. Eu passo a ser um outro (aqui, estou resgatando e distorcendo o famoso aforismo de Rimbaud). A obra acessada poderá (ou não) nos modificar, nos influenciar de alguma maneira. Mas ela certamente nos convidou a sairmos de nós, a deixarmos de ser um pouco nós mesmos e nos convidou também a desenvolver um pouco de empatia. Embora eu utilize a primeira pessoa neste texto, você, leitor, agora habita o meu pensamento, e segue a minha argumentação. Neste pequeno instante da leitura, você está na minha cabeça, na minha imaginação, na forma como uso a linguagem para tentar te alcançar, te tocar. Agora que acabei a frase anterior, o instante da criação terminou, o fato perdeu-se. Parei de escrever e olhei pela janela. Retornei e transmiti o ocorrido. Ele se foi. E você aqui, acompanhando. Voltemos à tentativa de teorizar, agora.

Gostaria de ressaltar que empatia e alteridade são coisas distintas, mas a primeira conduz à outra: enquanto a empatia consiste em se identificar com o outro (ou seja, é ainda a nossa perspectiva que está em vigor), a alteridade consiste neste difícil exercício que implica em aceitar esta “outridade”. Alteridade é o outro em todo o seu mistério, inacessível e belo, incompreensível e inapreensível. Alteridade pouco tem a ver com interpretação, firulas linguísticas, entendimento ou compreensão. Alteridade consiste em aceitar este inapreensível mistério que o outro simplesmente é.

E retorno ao escritor português Lobo Antunes agora, porque foi o seu mais novo romance que me motivou a escrever este pequeno ensaio sobre literatura e alteridade. Há uma passagem do romance onde o narrador, Sr. António Antunes, afirma que “há uma orfandade nas coisas”. Gosto de pensar a “linguagem mesma” como órfã. Gosto de imaginar que, se a linguagem é este tecido desprovido de essência, de sentidos ocultos, somos livres para criar com ela. Claro que há os puristas que vão dizer que as palavras carregam significados pesados, estritos. Acho até que tais puristas têm razão ao querer, por assim dizer, punir quem faz mau uso de determinadas palavras, mas o fazem pelo motivo errado. Explico: uma amiga Sul-africana, negra, que veio para o Canadá há alguns anos atrás para viver uma vida diferente do apartheid do seu país natal, certa vez me disse que um homem branco que usasse a palavra nigger tinha que ser repreendido pelo uso da palavra, devido à série de atrocidades e brutalidade contra os negros que a palavra carrega. Eu também penso que o homem branco de classe média, nos termos de Paulo Freire, o “opressor”, que utiliza o termo racista deve ser repreendido e punido por usar o termo, mas não porque a palavra carrega consigo a série de atrocidades. A palavra não carrega nada. A palavra não é nada além de uma ferramenta. Não fossem as arbitrariedades e o cunho racista, a palavra poderia ser usada em um poema, afinal, ela rima, tem um som interessante. Mas é exatamente pelo fato da palavra não possuir uma essência, é exatamente pelo fato de a “palavra-em-si” não possuir uma verdade soberana, que o homem branco de classe média deve ser repreendido pelo uso racista da palavra: afinal, só temos o jogo de significados e significantes (não essencial, ou metafísica) que a palavra carrega, e só temos a pessoa (que também não possui uma essência metafísica por trás do seu nome) que emitiu a palavra – e ao abrir a boca, somos responsáveis pelo modo como usamos a linguagem. E sim, é exatamente pelo fato de a palavra não possuir uma essência verdadeira ou metafísica que temos que ser cobrados pelos seus significados. A comunicação é um constructo, um jogo admirável. A essência das palavras é apenas o jogo de significantes. A linguagem-tecido, real, aqui, agora.

Todo este jogo, esta elucubração, esta tentativa de sair de si em direção ao “ato” da comunicação aplica-se a qualquer manifestação artística. Penso que o cineasta, o pintor, o escultor, etcetera, passam por estas diversas camadas de alterização para se afirmarem por um instante que seja na existência. É paradoxal que no mundo de hoje (aqui, peço perdão ao leitor pelo uso um tanto abrangente de “o mundo de hoje”) haja tanto individualismo, narcisismo, tanta conversa sobre o tal self – sempre somos nós, sempre sou eu, eu, eu – há tanta conversa sobre a nossa própria visão do mundo, e nos encarceramos, nos fechamos, nos limitamos a ver os outros e a realidade como ela é.

O vazio da linguagem e o fato de só termos esta vida e o modo como usamos as línguas que sabemos, deveria, ao contrário, nos despertar esteticamente para um gosto pelo absurdo, pelo paradoxo, pela vida, ainda que (e talvez exatamente porquê) efêmera. Afinal, é a vida, ela mesma, o nosso maior paradoxo: que sentido você pode inferir do movimento que vai entre o seu nascer e morrer, sabendo que, grossíssimo modo, nascemos apenas para morrer? Nenhum, certo? Não há uma relação de causa e efeito. Então criamos sentidos, nos comunicamos.

Machado de Assis certa feita disse que a arte é consolo físico para um mal metafísico. Encerro aqui esta reflexão convidando o leitor a fazer da vida a sua obra de arte, o seu consolo. E a tentar sair de si, ou pelo menos tentar. Afinal, a aventura por si só é essencialmente solitária. Precisamos criar sentido para a falta de… sentido. Façamos boa arte, então!

“Todo homem tem em si a sua tragédia
… devo mostrar com sinceridade a minha tragédia”
Sienkiewicz

“Vi que a vida era má e escrevi estas cartas.
Se as leres no meio de um festim
as porá de lado com enfado,
mas buscarás a sua consolação
quando o mundo te fizer chorar.”
Albino Forjaz de Sampaio
Palavras Cínicas – Última Carta


Nascido em Lisboa, no final do XIX[1], Albino Forjaz de Sampaio entrou para a história da literatura como um dos mais pessimistas escritores. Ainda jovem Albino começou sua carreira literária, sendo contratado para trabalhar no jornal A Luta, um dos principais jornais de caráter político de Portugal. Essa característica de jornalismo político o seguiria por toda a vida, encontrado leitores apaixonados, bem como críticos ferrenhos.

A obra que aqui analisamos é considerada a de maior importância e repercussão de toda a trajetória do autor, principalmente por seu caráter de leitura ambígua. Já no prefácio o autor explicita sobre a polarização da leitura da referida obra no momento emque a compara com Os sofrimentos do jovem Werther de Goethe e com os textos de Giacomo Leopardi[2]. A comparação que o próprio autor faz com tais autores e, principalmente com a obra de Goethe, deve-se ao fato de a obra de Sampaio ter iniciado um surto de suicídios em Portugal, tal qual a obra do autor alemão iniciara na transição do século XVIII para o XIX, em território luso inclusive. Assim sendo, o autor levanta pesadas objeções a tais críticas, afirmando que o suicídio que ocorre após a leitura de sua obra é cometido por alguns poucos e fracos espíritos humanos. Estes espíritos, por sua vez, não entenderiam a verdadeira essência da vida e do amor, temas já outrora explorados pelo autor em seu livro de contos Lisboa Trágica[3].

Após a explicação do tema e de sua autodefesa o autor demonstra o tom que permeará o livro como um todo: o pessimismo. Dessa forma, passa a demonstrar (de sua forma filosoficamente complexa) que não só o amor mas também a amizade e outros sentimentos são raros e ilusórios. A gratidão existe porque as pessoas desejam sempre mais. O dinheiro, por outro lado, é bom, mas serve a poucos senhores. A morte, desta forma, passa a ser aconselhada àqueles que não podem ou sabem triunfar sobre a vida.

O livro é composto de oito cartas endereçadas poeticamente a um amigo determinado identificado diretamente com o leitor. Na primeira carta notamos uma característica fundamental e importante para a análise da obra como um todo: a atitude estilística do autor, que ora é nitidamente romântica e outra, completamente realista. Nesta primeira carta, o romantismo fica identificado com a atitude do autor com o espaço. O autor faz o paralelo entre o seu bairro, que é afastado, e a cidade em si. Por outro lado, percebemos atitudes completamente dispares do romantismo (entendido aqui em sentido estrito), como é o caso da presença do ateísmo, representado na necessidade de ser mau e duro e na sentença: ou será vencido ou vencedor. Vença!

Em sua segunda carta, Sampaio demonstra conhecimento da obra de Dostoievski admirado por românticos e realistas. O ponto central da carta é a necessidade de debater sobre o que é a vida. Talvez, por esse motivo começar com um dos fundadores do existencialismo.

A terceira carta é uma crítica ao amor dado à mulher idealizada, tão comum no pensamento romântico. Em essência, essa carta está relacionada às mulheres e aos perigos do desejo. As mulheres representam um perigo na visão do autor, uma vez que, todos e, portanto, tudo de ruim veio do ventre das mulheres reais.

Uma das cartas mais poéticas é a quarta. A sua escrita analítica explicita que em tudo e em todos no mundo existe uma tragédia, bem como explícito em nossa epígrafe que também é utilizada pelo autor na coletânea. Além de demonstrar as possíveis mentiras da religião, o autor mostra novamente um traço de sua escrita: o afastamento da cidade em direção ao seu bairro, que fica acima (real e simbolicamente) de toda a urbanidade existente.

Por sua vez, a quinta carta é, diretamente, uma aproximação do pensamento de Maquiavel, sugerindo a necessidade de lutar para se manter no topo da vida (da possibilidade da roda da fortuna maquiavélica). Logo, essa carta se funda num misto de romantismo e realismo, sendo a mais representativa desta característica.

A sexta e a sétima carta possuem um tema em como: a morte. Nelas, percebemos a temática da morte e do suicídio como solução para os infortúnios da vida e como certezas humanas, dessa forma, toda a possibilidade do ato de morrer é tida como salvadora do espírito humano, mostrando, portanto, um profundo pessimismo perante a existência humana.

A última carta possui o mesmo tema central pessimista. E, para a amplificação deste tema o autor se utiliza de recursos poéticos para demonstrar como em todo lugar e na alma de todas as pessoas a vida é sempre igual: ruim. Dessa forma, o autor demonstra como a essência dessas oito cartas deve ser apreendida por todos os indivíduos, enquanto pensantes e sentimentais. Esta última carta, juntamente com a quarta é uma das mais belas, demonstrando, muitas vezes, uma erudição ímpar.

Transformando os sentimentos em entidades puras, Albino Forjaz de Sampaio criou sua crítica social, invertendo toda a moralidade portuguesa de uma época, ao molde do que Oscar Wilde fizera na Inglaterra. Porém, o autor ia além e, mais que qualquer crítica, concluiria que a vida que se vivia no momento não valeria num mundo onde apenas se encontrariam sentimentos ruins. A escrita do autor é complexa muitas vezes e de intensa beleza em outras, aparecendo criações de palavras e novas interpretações de conceitos. Percebe-se, ainda, em toda a essência da obra características românticas e realistas, traço fundamental que acabou caracterizando o autor por toda a sua produção literária.




[1] 19 de Janeiro de 1884.

[2] O italiano Giacomo Leopardi (1798-1837) ficou conhecido por seus poemas líricos com profundo senso de pessimismo, melancolia e ceticismo.

[3] Embora Lisboa Trágica tenha sido publicado em 1910 e Palavras Cínicas, em 1905, resenhamos, aqui, uma segunda edição, publicada em 1911, daí, a citação do livro escrito posteriormente.

Resenha de: ADORNO, Theodor W. Posição do narrador no romance contemporâneo. In: Textos escolhidos de Benjamin, Adorno, Horkheim e Habermas (Coleção: Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural, 1980, p.269-273.

se o romance quer permanecer fiel à sua herança realista e dizer como realmente são as coisas, então eles têm de renunciar a um realismo que, na medida em que reproduz a fachada, só serve para ajudá-la na sua tarefa de enganar

(ADORNO)

O Instituto para a Pesquisa Social de Frankfurt (Institut für Sozialforschung), afiliado à Universidade de Frankfurt (Johann Wolfgang Goethe-Universität Frankfurt am Main), foi um dos principais centros de análise social do século XX, acabando por ser considerada uma escola própria: a Escola de Teoria Crítica ou, simplesmente, a Escola de Frankfurt (Frankfurter Schule). A Escola de Frankfurt, dessa forma, foi uma escola de análise a partir da teoria crítica social formada, em seu início, por pensadores marxistas que criticavam a leitura tendenciosa da obra de Karl Marx proporcionada por indivíduos que pretendiam defender os ortodoxos partidos comunistas crescentes em território europeu. Porém, a escola sofreu grandes modificações teóricas e de participação intelectual no transcorrer do século XX, sendo abalada, por exemplo, pela ascensão do regime nazista na Alemanha, período no qual muitos dos intelectuais de tal ordenamento teórico tiveram de se refugiar em outros países da Europa como Inglaterra, França e Suíça e, mais tarde, nos EUA (vale ressaltar que o próprio Instituto de Pesquisa Social se transferiu para Nova Iorque no ano de 1934, retornando apenas em 1951 para a sua sede em Frankfurt).

Famoso por sua padronização de análise das relações entre arte-sociedade-economia, principalmente a música, Theodor Wiesengrund Adorno, nascido Theodor Ludwig Adorno Wiesengrund, nasceu em Frankfurt am Main em 11 de Setembro de 1903 e faleceu em Visp (Suíça) em 6 de Agosto de 1969, tendo se transformado, ainda em vida, num dos mais respeitados sociólogos, filósofos e musicólogos do século. Grande parte de sua fama e influência intelectual deve-se à análise que faz das interações entre as formações econômicas, enquanto originárias da vida social, e a arte. Ressaltamos aqui, por exemplo, a utilização que o autor faz do conceito de indústria cultural [1] para uma análise da complexa relação entre o capitalismo e a produção cultural-artística. Logo, percebemos que a abordagem utilizada pela Escola de Frankfurt, em sentido lato, e por Adorno em sentido estrito, procura as compreensões da super-estrutura e seu inter-relacionamento com a infra-instrutora, diferentemente da ortodoxa análise que subordinada aquela a esta.

Em 1958, Adorno publicou, na cidade de Frankfurt, o primeiro volume de uma coletânea de ensaios acerca da literatura: Noten zur Literatur. Nesta apareceu um ensaio chamado Posição do narrador no romance contemporâneo. Em tal ensaio adorno analisa o limite do romancista e da obra literária, enquanto forma, percebendo que o romance deveria focar naquilo que foge ao relato. É este ensaio o qual nos propomos resenhar.

Analisando o romance moderno enquanto forma, Adorno percebe que hoje em dia não se pode mais apenas narrar, mas a forma que o romance contemporâneo assumiu, uma vez que está ligado a formatações ideológicas da burguesia, ainda necessita da narração, que se transformou em característica inerente da escrita. Fazendo a análise histórica da narrativa, Adorno cita personagens como Flaubert, Joyve, Kafka e Cervantes, que compreendeu o mundo desencantado com seu Dom Quixote, entre outros.

Após a analise da narrativa em si, Adorno passa a analisar a relação desta com a sociedade existente e percebe que os meios da indústria cultural e a reportagem tiraram muito do romance que acabou se transformando naquilo que o relato não dá conta. Dessa forma, a indústria cultural está intrinsecamente ligada à idéia de controle ideológico já que, como diz o autor, “antes de qualquer mensagem de conteúdo ideológico, já é ideológica a própria pretensão do narrador” [2]. Logo, percebemos que desde o século XVIII o objeto do romance é o conflito entre os homens vivos e a petrificação das relações pessoais, e, o autor nos dirá que “o momento anti-realista do novo romance, sua dimensão metafísica, é ele próprio produzido pelo seu objeto real por uma sociedade em que os homens estão separados uns dos outros e de si mesmos. Na transcendência estética reflete-se o desencantamento do mundo” [3]. Assim sendo, podemos perceber que Adorno compreenderá os esquemas de alienação como um meio estético presente no romance burguês. Uma das percepções que o autor nos oferece acerca dessa degradação do romance é a disseminada subliteratura biográfica e a queda dos objetos dos romances psicológicos que acaba se transformando em uma sensibilidade contra a forma do relato, apresentada por Marcel Proust, responsável pela modificação da relação narrador-leitor.

Adorno ficou conhecido ao longo do século XX como um dos autores de compreensão mais complexa. A complexidade existente em textos como o aqui resenhado reside na dificuldade de acesso a obras mais completas do próprio autor, que contribuiu como poucos para o entendimento da tríade cultura-sociedade-economia sem subordinações conceituais.



[1] Kulturindustrie: termo utilizado por Adorno e por Max Horkheimer (1895-1973) na obra Dialética do Esclarecimento (em alemão: Dialektik der Aufklärung), no capítulo A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas (em alemão: Kulturindustrie – Aufklärung als Massenbetrug)

[2] p.270

[3] p.270

Pássaros grandes não cantam - Luíz HorácioComecei a ler a trilogia de Luíz Horácio sobre o pampa gaúcho por acaso. Li o primeiro volume ainda como original, para uma análise crítica visando à edição. No segundo fui ao lançamento e depois escrevi uma resenha, embora não goste muito de escrever sobre livros. A resenha saiu no finado Jornal do Brasil com o título (não dado por mim) Morre-se muito neste livro. Morre-se tanto que acabou morrendo o jornal. Tudo a ver com o clima mítico da narrativa de Luíz Horácio. E agora soube do lançamento do terceiro. Entre seu segundo e terceiro livro, Luíz Horácio escreveu uma das melhores resenhas que recebi do meu Nada a dizer, para o jornal Rascunho.

E fiquei com vontade – ou me senti desafiada – a ir tão fundo quanto ele foi, ao tratar do meu livro.

Não sei se consegui.

Pássaros grandes não cantam é o nome do terceiro volume, do qual vou tratar aqui. Os outros dois são Perciliana e o pássaro com alma de cão (Códex, 2005) e Nenhum pássaro no céu (Fábrica de Leitura, 2008).

Na minha resenha anterior, sobre o segundo volume, falei de uma unidade entre partes que o autor apresentava, e que incluía a unidade até mesmo entre vida e morte.

Continuei a ver a mesma coisa no terceiro. Mas agora de forma mais abrangente, e incluindo outras duplas com que nossa preguiça mental costuma explicar o mundo.

Primeiro uma explicação biográfica – e não que explicações biográficas necessariamente iluminem algo. Mas aqui há uma deliberação, uma vontade expressa do autor, em retratar uma região geográfica de fronteira. O pampa. Então, vale dizer: ele é de lá. Há outras fronteiras: a racial entre negros, índios e brancos. E que também é dele. A linguística, entre o português e o espanhol. Entre o pampa e a cidade grande. O passado e o presente. O ficcional e o documental. O bom e o mau. E o tempo, que anda minuto a minuto, e que não anda.

“Aeroporto Salgado Filho, Porto Alegre, dez e quarenta da manhã do dia quatro de janeiro de 2010.”

“Passado um tempo que nenhuma daquelas pessoas saberá medir..”

Sai-se da precisão de minutos e entra-se em um tempo não mensurável. Não são duas coisas separadas. Ambos os tempos fazem parte de um mesmo estar da vida dos personagens.

(Como o são de fato o tempo histórico e o psicológico)

Assim, o tempo mneumônico, os palimpsestos do vivido – e os dos outros dois livros anterioes – também compõem o cenário presente.

O livro O paciente inglês, de Michael Ondaatje, começa com o personagem principal dizendo o seguinte para sua enfermeira:

“I am a person who if left alone in someone’s home walks to the bookcase, pulls down a volume and inhales it. So history enters us”.

O livro de Ondaatje me veio à cabeça ao tratar do livro de Luíz Horácio por outros motivos também: 1) ninguém sabe direito quem conta a história em ambos os livros; e 2) o paciente a quem chamam de inglês tem a pele escura, talvez da exposição ao sol, talvez não. Ele tem uma “dark face”, um “black body”. Ele está, no contexto em que se passa a história, entre o civilizado (europeu) e o bárbaro (africano).

No livro de Luíz Horácio, esse Outro é integrado no Eu, seja lá quem você considere ser o Eu e o Outro. E é isso o que faz de sua trilogia uma narrativa muito singular. É uma forma nova de tratar o Outro. Um Outro visto por alguém que é Outro ele também. Coisa de Brasil, este lugar que é convocado a ser o Outro de um centro inexistente mas sempre imposto.

Falei que é uma forma nova. Errei. Não é nova. Montaige, no século XVI, já advertiu que aquilo que se descobria na América talvez não pudesse ser chamado de bárbaro.

Depois de alguns anos de aparente estagnação, o mercado de ficção especulativa vem ganhando força no Brasil, com as grandes editoras trazendo autores estrangeiros e as editoras independentes abrindo espaço para os autores nacionais. Essa não é uma regra rígida, há exceções em ambas as direções, mas, de modo geral é o que acontece. Imaginários é uma coleção de contos de fantasia, ficção científica e terror de autores de diferentes gerações, que no seu terceiro volume traz histórias de Eduardo Spohr, Marcelo Ferlin Assami, Rober Pinheiro, Douglas MCT, Lidia Zuin, Marcelo Galvão, Cirilo S. lemos, Fernando Santos de Oliveira, Ana Cristina Rodrigues e Fábio Fernandes.

A Torre das Almas de Eduardo Spohr é o primeiro spin off baseado em A Batalha do Apocalipse, romance de Spohr que ficou à frente de pesos pesados como Rick Riordan e Stephenie Meyer na lista dos mais vendidos no Brasil. Embora narrativa e diálogos tenham uma estrutura simples, Spohr consegue prender a atenção do leitor ao contar uma guerra entre dois grupos de anjos em ritmo de aventura e investigação. Seus anjos têm um visual moderno e cada classe tem poderes diferenciados, usados com uma maleabilidade que me lembrou de minhas tardes jogando RPG quando mais novo. Quem está traumatizado com a atual onda de anjos românticos pode ficar tranquilo também, beijos açucarados estão fora. A história do Éden Celestial de Spohr deve ter maior apelo para os fãs do romance, mas leitores que não o conhecem certamente irão se divertir.

Marcelo Ferlin Assami participa com Breve relato da ascensão do Papa Alexandre IX, uma história complexa que só fui aproveitar totalmente em minha segunda leitura. Ele me lembrou muito da ousadia de Não há nada lá, primeiro romance de Joca Terron. Enquanto descobre os planos de uma conspiração para matar o Papa, o leitor conhecerá moradores muito peculiares em uma pequena e estranha cidade. O conto tem direito a motos canibais, javalis assassinos, terremotos criados pelo homem, espigas de milho mutantes e medalhões ciganos, entre outras bizarrices. Pode não ser um texto para muitos, mas é ótimo ver um autor assumindo riscos e saindo da mesmice. Um dos meus favoritos do livro.

Rober Pinheiro, conhecido pelo mundo de fantasia Thargor, traz um dos contos mais dinâmicos e bem humorados do livro. As Noivas Brancas é narrado em primeira pessoa pelo capitão de uma nave espacial que me lembrou os detetives clássicos de um filme noir, decadente com elegância, esperando pela próxima missão para pagar suas contas. A grande sacada é que, apesar de ser um conto de ficção-científica, quando o protagonista se droga ele vê um mundo de fantasia, o que permitiu ao autor unir os dois estilos com os quais tem trabalhado. Para melhorar, a viagem lisérgica acontece no clímax da história, o momento mais agitado, quando o capitão e sua equipe vão resgatar as tais noivas brancas. O modo como ele narra o que vê pela frente é realmente ótimo.

Bonifrate de Douglas MCT une Pinóquio e ambientação steampunk, sem se preocupar com explicações tecnológicas, somente o lado de fantasia. Como no Pinóquio original, o principal ponto da história de Douglas é a busca pela identidade e uma descoberta que não leva necessariamente à felicidade. O autor precisa aprimorar sua construção de frases para eliminar redundâncias, mas, fora isso, de sua geração, Douglas é o autor que melhor une o ritmo da literatura juvenil com elementos fantásticos mais sombrios. Não por acaso, seu primeiro romance é uma dark fantasy com um protagonista adolescente.

Dies Irae de Lidia Zuin é um conto cyberpunk tradicional, sem grandes inovações, mas ainda assim competente. Fã assumida do gênero, ela mostra uma anti-heroína tentando sobreviver no mundo cão, cercada de drogas, sexo, violência e synthpop. O clima underground me parece mais estético do que temático, mas os personagens interessantes e o controle do ritmo narrativo compensam na balança. Uma autora em que ficarei de olho em próximos lançamentos.

Marcelo Galvão traz o conto Vida e morte do último astro pornô da Terra, que tive o prazer de ler antes de ser publicado em papel. Um dos pontos fortes de Imaginários 3, ele conta a história da decadência de atores humanos diante da chegada de constructos à indústria de cinema. Aqui, rola uma inversão de valores e o pornô passa a ser mainstream, uma grande sensação documentada em jornais e com prêmios da magnitude do Oscar. Além de uma prosa divertida e situações inteligentes, Galvão soube construir um ótimo protagonista. Deve ser mesmo dura a vida de um ator pornô que precisa competir com robôs sempre bem dispostos.

Cirilo Lemos soube tirar o melhor de sua história, mostrando que tem uma escrita firme que não deve nada a autores já consagrados. Corre, João, Corre, de Cirilo Lemes é um belo conto, com frases bem construídas e uma sensibilidade que não via faz bastante tempo. João, o protagonista, é calmo demais e deixa que a vida tome as decisões por ele. De repente, ele se vê com o filho doente e precisa correr para salvá-lo. Infelizmente, o caso é grave, e o filho morre, colocando João em uma nova situação: salvar o espírito do bebê de uma horda de fantasmas que quer levá-lo embora. Um conto que une literatura de gênero à pegada mainstream.

Ana Cristina Rodrigues continua investindo em seu ponto forte: misturar personagens históricos com trama de fantasia. Nesse conto, La Marche conta à Maria, filha de Borgonha, a história de Melusina, uma fada curiosa amaldiçoada a vagar em busca de amor e se transformar em um dragão. A trama fantástica casa bem com a vida de Maria, uma mulher que não teve grande sorte no amor. Apesar de trazer romance em suas linhas, não é uma história que aposte num final feliz, propriamente dito. Um bom acréscimo ao que já havia lido da autora em A Morte do Temerário, da coletânea Espelhos Irreais.

Por fim, Fábio Fernandes transforma-se em personagem. Garimpando num sebo, ele descobre o texto de O Primmeiro Contacto. Nele, Santos-Dumont e os irmãos Wright, em seu desejo de voar, desenvolvem o que seriam as primeiras naves a saírem da órbita da Terra. Logo no vôo inaugural, Howard Hughes, piloto e financiador do projeto dos irmãos Wright, acaba sendo capturado por alienígenas que parecem polvos. A consequência disso é uma sequência de guerras espaciais entre Terrícolas e Eridanianos, onde nós, obviamente, precisamos correr atrás do prejuízo. Me incomodou o excesso de referências a pessoas reais – ficariam mais discretas na extensão de uma novela ou romance – mas a criatividade e o humor compensam os ruídos na fruição. Gosto de o texto dizer nas entrelinhas que se o egoísmo cria problemas, o altruísmo também não é lá a melhor das soluções.

1. Você tem dois livros publicados usando mundos de alta fantasia que recebeu algumas boas resenhas. Por que você escolheu o gênero como ponto de partida?

Eu não sei sobre a alta fantasia. Eu sei, eu sei, essa é a frase que a editora usou na capa do Thunderer, mas não é exatamente a frase que eu teria escolhido. Ele sugere cavaleiros e donzelas e elfos. Eu pensei nos dos dois primeiros livros como a estranha-gigante-cidade-surreal-eu-não-sei-exatamente o quê.

Eu gosto do fantástico, do estranho e do grotesco. Mesmo na literatura completamente não-fantástica eu tendo a manter um senso do estranho e do grotesco. Eu só gosto. Ele ressoa. Eu comecei a escrever esse tipo de coisa porque, quando eu me sentei e comecei a escrever, foi o que saiu.

2. Como foi a transição para o universo de The Half-Made World? Você acordou um dia e disse: Okay, você escrever uma história de Western?

Comecei a escrevê-lo ao escrever outras coisas, durante o meu tempo livre. As origens dele estão, de alguma forma, perdidas a memória agora, porque eu o alterei muitas e muitas vezes no decorrer da escrita, mas eu me lembro que começa com a voz de um dos personagens principais – John Creedmoor, o cínico homem mal semi-aposentado agente do Gun – e com o mundo desenvolvido ao redor dele – e, em seguida, também em torno da outra personagem principal, Liv, a psicóloga e protagonista acidental. O mundo no qual eles se encaixam era como um Western.

Foi uma mudança de ritmo muito agradável do Thunderer e do Gears of the City, que acontecem ambos em metrópoles. Eu estava ficando sem maneiras não-repetitivas de descrever ruas lotadas e os telhados desordenados, etc.

3. O Steampunk ressurgiu com força provavelmente por causa de sua versatilidade. O que os leitores podem esperar de The Half-Made World, em termos de Steampunk?

Ok, eis o que você tem. Você não tem dirigíveis, mas tem ornitópteros. Você tem trens, mas ao mesmo tempo, por um lado eles emitem vapor, por outro eles são alimentados pelo mal. Ninguém usa goggles e poucas coisas são feitas de bronze.

Na verdade, eu suponho que os pilotos de ornitóptero têm que estar usando goggles, mas eu não faço disso uma grande coisa.

Eu tenho uma pequena história curta pronta para publicar no Tor.com a qualquer momento, situada no mesmo mundo que o livro. Ela se chama Lightbringers e Rainmakers e é steampunk mais clássico: ela mostra um inventor louco com uma máquina de movimento contínuo.

4. Realismo mágico era um gênero muito forte na literatura latino-americana, com base em nomes como Luis Borges, Garcia Márquez, Felisberto Hernández, Murilo Rubião e muitos outros. Esta foi a frase-chave que me chamou a atenção quando eu estava lendo sobre ela em seu site. Como você usa o realismo mágico no seu livro?

Oh, rapaz. Estou intimidado agora. Eu não quero doutrinar a respeito do realismo mágico para um público latino-americano, pois vou fazer papel de bobo. Borges é um ídolo meu e eu amo Marquez, mas eu tenho que ser honesto: não sei nada sobre os outros dois autores que você citou. “Realismo mágico” não é um termo que eu usaria para qualquer coisa que eu escrevi, mas algumas outras pessoas o fazem. Na verdade eu nunca soube exatamente o que “realismo mágico” significa. (Além da linha Gene Wolfe sobre como o realismo mágico é fantasia escrita em espanhol, que é demasiado redutora: obviamente, há algo diferente ali, mesmo que seja difícil de definir).

Então, vamos dizer: há algo na maneira de Borges, Márquez e outros como eles abordam o fantástico. Uma forma particular de borrar as linhas entre o fantástico e o comum, de se recusar a ver essas linhas, que iluminam e energizam os dois lados da linha e, às vezes acho que é algo que eu acho inspirador, como uma técnica que alguém pode tentar usar para seus próprios objetivos.

5. É comum ver escritores de fantasia e ficção científica dedicada a um universo em séries de cinco, sete, zilhões de livros. Você se vê por este caminho ou os livros individuais são mais atraentes para você como escritor?

Thunderer e Gears of the City foram, de alguma forma, dois livros no mesmo mundo, mas o mundo desses livros eram tão mutáveis que, além algumas regras básicas, quase tudo mudou do livro um para o livro dois; na verdade, o livro dois foi uma espécie de inversão do livro um.

Para The Half-Made World haverá pelo menos uma continuação, talvez dois, e, como eu disse, eu já tenho alguns contos definidos neste mundo e planejo ter mais. Depois disso há um monte de livros independentes que eu quero fazer. Eu acho que três livros em um universo poderia ser o meu limite. Mas quem sabe?

6. No Brasil temos uma tradição do realismo na literatura, e a ficção especulativa é considerada um pequeno nicho. Esta situação está mudando gradativamente, mas o fato é que a fantasia e a ficção científica não têm os holofotes dos jornais ainda. Você pensa sobre essa lacuna?

Eu tento não ficar preso a ela. Não adianta reclamar.

Ficção especulativa é um nicho em toda parte. Vamos ser honestos: a ficção de qualquer tipo é uma atividade de nicho, muito menos popular do que de jardinagem, World of Warcraft, manter um caderno de anotações ou outras coisas que também não recebem nenhum destaque na imprensa.

7. Qual dos seus livros que você sugeriria para um leitor que não conhece seu trabalho?

O The Half-Made World. É melhor que os outros. Os outros são história agora, para o inferno com eles! Comprem este aqui. (Por favor?)

* tradução de Fábio Valverde



Em inglês:

1. You have published two books using a high fantasy world that received some good reviews. Why did you choose this genre as a starting point?

I don’t know about high fantasy. I know, I know, that’s the phrase the publisher used on the cover of Thunderer, but it’s not exactly the phrase I would have chosen. It suggests knights and damsels and elves. I thought of the first two books as weird-giant-city-surreal-I-don’t-know-exactly what.

I like the fantastic, the strange and the grotesque. Even in completely non-fantastic literature I gravitate towards stuff with a sense of the weird and the grotesque. I just like it. It resonates. I started writing that sort of stuff because when I sat down and started writing that was what came out.

2. How was the move to the universe of The Half-Made World? Did you wake up one day and said: okay, I’ll write a Western story?

I started writing it while writing other things, during fallow spells. The origins of it are somewhat lost to memory now because I’ve been back over it and over it so many times in the course of writing, but I seem to recall it starting with the voice of one of the main characters – John Creedmoor, the cynical bad-man semi-retired Agent of the Gun – and the world developed around him — and then also around the other main character, Liv, the doctor of psychology and accidental protagonist – and the world that they fit into was western-like.

It was a very pleasant change of pace from Thunderer and Gears of the City, which are both set in Big Giant Cities. I was running out of non-repetitive ways of describing crowded streets and jumbled rooftops and et cetera.

3. Steampunk has resurrected as a strong subgenre in speculative fiction, probably because of its versatility. What can readers expect from The Half-Made World in terms of Steampunk?

OK, here’s what you get. You don’t get dirigibles, but you do get ornithopters. You do get trains, but while on the one hand they do emit steam, on the other they are powered by Evil. Nobody wears goggles and very little is made of brass.

Actually I suppose the ornithopter pilots would have to be wearing goggles, but I don’t make a big thing out of it.

I have a short story due to go up on Tor.com any day now, set in the same world as the book, called Lightbringers and Rainmakers, and it’s more classically steampunk: it stars a mad inventor with a perpetual motion machine.

4. Magic realism was a very strong genre in Latin American literature, based on names such as Luis Borges, Garcia Márquez, Felisberto Hernández, Murilo Rubião and many others. This was the key sentence that caught my attention when I was reading about it on your site. How do you use magic realism on your book?

Oh man. I’m intimidated now. I do not want to pontificate on magic realism for a Latin American audience, I will make a fool of myself. Borges is an idol of mine and I love Marquez but I have to be honest: I do not know the other two guys you just named. “Magic realism” is not a term I myself would use for anything I’ve written, but some other people have. In fact I never know exactly what “magic realism” means. (Other than Gene Wolfe’s line about how magic realism is fantasy written in Spanish, which is too reductive: obviously there’s something distinctive there, even if it’s hard to define).

So let’s say: there’s something in the way Borges and Marquez and others like them approach the fantastic, a particularly way of blurring the lines between the fantastic and the ordinary, of refusing to see those lines, that illuminates and energizes both sides of the line, and I think sometimes that’s something I do find inspirational, as a technique one can try to use for own’s purposes.

5. It’s common to see fantasy and science fiction writers dedicated to one universe in series of five, seven, zillions of books. Do you see yourself on this path or are individual books more attractive to you as a writer?

Thunderer and Gears of the City were two books in the same world, sort of, but the world of those books was so mutable that beyond a few ground rules almost everything changed from book one to book two; in fact book two was sort of an inversion of book one.

For The Half-Made World, there will be at least one follow-up, possibly two, and as I said I already have some short fiction set in that world and plan to have more. After that I have a bunch of one-offs I want to do. I think three books in one universe might be my limit. But who knows?

6. In Brazil we have a tradition of realism in literature, and speculative fiction is considered a small niche. This situation is changing gradually, but… the fact is that fantasy and science fiction don’t have the spotlight on newspapers yet. Do you think about this gap?

I try not to get hung up on it. It does no good to complain.

Speculative fiction is a niche everywhere. Let’s be honest: fiction of any kind is a niche activity, vastly less popular than gardening or World of Warcraft or scrapbooking or other things that also don’t get any spotlight in newspapers.

7. Which of your books would you suggest for a reader who doesn’t know your work?

The Half-Made World. It’s better than the others. They’re history now, to hell with ‘em. Buy this one. (Please?)

Nascido em Breslau em 1897, Norbert Elias ficou conhecido como um dos sociólogos mais importantes do século XX, tendo também estudado medicina, filosofia e psicologia. Saído da Alemanha nazista em 1933 – era judeu – morou na França e Inglaterra, onde lecionou na Universidade de Leicester (1945-62). Sua família não teve a mesma sorte em conseguir se retirar da Alemanha; sua mãe morreu em 1941 em Auschwitz e seu pai em 1940, em Breslau. Elias foi um dos precursores da chamada sociologia figuracional, ramo da sociologia que estuda as relações humanas como um processo, examinando o aparecimento de configurações sociais como um não esperado resultado da interação social.

A obra mais conhecida de Elias, O processo civilizador, foi publicada em 1939, mas acabou ficando mundialmente conhecida apenas na década de 1970. Em tal texto, Elias analisa os efeitos da formação do Estado moderno sobre os costumes e a moral individual, desta forma, relaciona como o viver em sociedade transforma a coação externa em coação interna ao longo de determinado tempo. Em Sobre o tempo, o autor afirma que o tempo não existe em si, porém é uma criação do processo civilizador, sendo transformado, portanto, em um símbolo social. Estudando a história alemã desde o século XVII até a segunda guerra, e como o regime nazista chegou ao poder, Elias pensa a personalidade, o comportamento e a estrutura social da população da Alemanha, estudo este que daria origem a seu livro Os alemães. Por último, vale ressaltarmos o texto Os estabelecidos e os outsiders, no qual o sociólogo pensa nas estruturas de relações de poder através de uma pequena comunidade. Fizemos um apanhado muito superficial de alguns textos de Norbert Elias, todavia vale ainda ressaltar os seguintes: A peregrinação de Watteau à Ilha do Amor, A sociedade de corte, A sociedade dos indivíduos e A solidão dos moribundos, além, é claro, de Norbert Elias por ele mesmo.

ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1995. Em Mozart, sociologia de um gênio, Elias analisa a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart e a relação desta vida e produção artística com o contexto social vivido, ou seja, a Áustria do século XVIII. Elias faleceu em 1990 e não pode conferir a preparação do livro, mas concordou com a possibilidade de reunir os seus escritos acerca do compositor. E mais, sugeriu o título, reconhecendo o possível livro como seu, desta forma, a obra que resenhamos foi organizada por Michael Schröter e publicada no ano de 1991, o que não tem a menor ligação com as comemorações do bicentenário de  Mozart, que ocorreria também em 1991.

Selecionamos trechos importantes para a resenha, começando com o capítulo nomeado Músicos burgueses na sociedade de corte. Logo no início Elias faz uma afirmação importante: “Mozart só emerge claramente como um ser humano quando seus desejos são considerados no contexto de seu tempo” (p. 15), tal afirmação é interessante, uma vez que Elias analisa diretamente o desejo humano – criador de obras artísticas – com a contextualização histórica e mais, insere as grandes produções do espírito humano no contexto de crise (conflito) social. Mas qual seria o resultado alcançado por Elias ao analisar a vida de Mozart? O autor percebe a produção mozartiana dentro do gosto da corte, dessa forma, pensa o destino de um burguês, como Mozart, a serviço da aristocracia. Portanto é impossível compreender a formação de Mozart sem pensarmos na forma que o político e o social tinham na época, analisando, assim, todas as pressões que o indivíduo sofre da rede de sociabilidade, o que identifica o subtítulo do livro.

O autor sugere que a maior parte das pessoas que trabalhavam com música eram de origem não-nobre (ou burguesa como chama Elias, mesmo não agradando a tal autor utilizar conceituações gerais), porém, obrigados economicamente a trabalhar com a corte para desenvolverem suas produções. Desta forma, a distância social entre burgueses e aristocratas era grande, mas a espacial muito pequena, e os compositores, como Mozart, eram obrigados a seguir o gosto dominante, não apenas musical mas também todas as suas caracterizações enquanto pessoas: hábitos, costumes, vestimentas, entre outros, logo, não existia apenas uma nobreza de corte mas também uma burguesia de corte. Portanto, é analisada, comparativamente, a prática composicional mozartiana com os antigos ofícios artesanais, mantendo-se a “agudíssima desigualdade social entre produtor da arte e patrono” (p. 26). O último ponto importante do trecho Músicos burgueses na sociedade de corte é a análise que Elias faz das formas que os Estados possuíam na Europa: a Alemanha e a Itália estavam divididas em vários pequenos territórios, cada qual com seu círculo nobre próprio, diferentemente da Inglaterra e da França que possuíam suas nobrezas “unificadas”. Estar no núcleo germânico, portanto, possibilitava aos compositores a tentativa de troca de região visando melhores condições de trabalhos e maior reconhecimento. Da mesma forma, na Inglaterra e na França existia uma maior aproximação entre a burguesia e a nobreza historicamente adaptadas entre si, diferentemente dos Estados germânicos e italianos.

A relação entre o núcleo nobre estabelecido e um burguês compositor como Mozart (Outsider) gera uma necessidade de adaptabilidade das formas composicionais. Assim sendo, Elias pensará as duas possibilidades de formas artísticas: a arte de artesão e a arte de artista.

Elias identifica a arte de artista com aquela que é feita de uma forma autônoma e voltada para um público anônimo, porém, no geral, de mesma classe sócio-econômica de seu produtor, como é o caso dos românticos em geral. Já a arte de artesão (ou de corte) é aquela feita por uma classe subalterna ao molde da nomeada classe dominante, como é o caso de Mozart e de grande parte do Classicismo. Elias vai além, identificando Ludwig van Beethoven como um possível compositor que estava presente nos dois campos composicionais. Logo, a forma com que Mozart escreve, segundo Elias, tende ao gosto dominante, cortês e aristocrático, mesmo com os conflitos do compositor com as famílias nobres e com as formas eclesiásticas e, dessa forma, pensa-se na perda de autonomia sofrida.

Outro ponto de análise importante é o capítulo nomeado O artista no ser humano. Neste capítulo, Elias faz uma análise psico-social, demonstrando que tradicionalmente se separa o indivíduo artista do indivíduo homem, o que se constitui numa separação enganadora. Contudo, o autor admite a dificuldade de se demonstrar onde começa o artista e onde termina o homem ou mesmo onde os dois interagem ou se afastam, mas se convence da necessidade de não se separar as duas qualidades no indivíduo, sendo necessário, portanto, a análise do gênio juntamente com a da sociedade, transformando a genialidade em fato social. Analisando a idéia de talento inato, Elias chega a Leopold Mozart, pai de Wolfgang e passa a compreender como o núcleo social deste influenciou na sua própria formação intelectual, cultural e, principalmente, composicional. Essas análises psico-sociais a que Elias se propõe devem-se também aos pioneiros estudos que Freud empreendeu na primeira metade do século XX, influenciando toda uma geração de autores, principalmente historiadores e sociólogos, bem como antropólogos.

Continuamente ao estudo psico-social, Elias começa a mesclar análises psicológicas com culturais no capítulo A juventude de Mozart e logo passa a perceber as singularidades humorísticas da época. O sociólogo cita uma série de piadas feitas por Mozart a seus pares que passaram a ser tratadas como tabus após o processo de civilização. Essas chacotas, no geral, eram relacionadas a temas sexuais, mais especificamente temas relacionados a várias áreas sexuais do corpo humano. Tais piadas eram, na leitura de Elias, uma estrutura de personalidade contra a ordem estabelecida. Todavia, Mozart sabia exatamente onde eram permitidas e onde não eram, uma vez que circulava nos dois mundos sociais – o círculo aristocrático da corte e o não-cortesão de sua origem. Logo, essa divisão de formas de tratamento acaba se transformando em estrutura de personalidade ao longo do tempo e passa a se reproduzir automaticamente. O humor de Mozart então passa a ser considerado um exemplo do humor “pequeno-burguês” do período. Vale a pena lembrarmos que Norbert Elias não gosta de conceituações como “pequeno-burguês”, porém utiliza tais recursos conceituais para exemplificações.

Compreendendo as análises feitas por Elias, percebemos que a obra apresenta desencontros entre a teoria sociológica utilizada e a cronologia da personagem estudada. Os capítulos vão se mesclando entre teoria e prática, o que pode dificultar o entendimento daqueles que desconhecem a vida e/ou o contexto social, político, cultural e econômico de Mozart. Porém, mesmo com essa dificuldade de leitura, de fácil resolução vale ressaltar, a obra aqui resenhada é uma das mais originais do autor. Nela, ocorre nitidamente uma junção de teoria social e análise da prática artística no século XVIII. Pensando Mozart socialmente e identificando nesta personagem um posicionamento sócio-político, o sociólogo alemão percebeu uma dinâmica social no campo artístico não percebida anteriormente, desta forma, consideramos o texto como fundante da teoria sociológica figurativa no estudo artístico.

Resenha histórica de:

MARQUEZ, Gabriel Garcia. O general em seu labirinto. Rio de Janeiro: Editora Record, 1989.

Gabriel Garcia Márquez, também conhecido como Gabo, nasceu em Aracataca, Colômbia, em 1927, ficou famoso inaugurando, junto com Juan Rulfo, a escrita chamada de realismo fantástico na América Latina. Gabo trabalhou como jornalista durante longos anos de sua vida além de ter estudado direito e ciências políticas, contudo, não chegando a se formar.

Ponto importante na vida de Márquez é sua militância política. Gabo sempre se declarou comunista, mantendo vínculos de amizades com personalidades como Fidel Castro e Hugo Chaves, tal visão política fica exemplificada claramente em toda a sua obra, principalmente na obra aqui analisada (O general em seu labirinto), que tem como personagem central Simon Bolívar. Além de se declarar comunista é importante pensarmos que Garcia Márquez é engajado politicamente, chegando a participar de comícios eleitorais de personagens que agradam sua idealização política. Outro fato interessante e muito pertinente é a principal condecoração recebida por Gabo, o prêmio Nobel de literatura em 1982, essa premiação levou o autor a ser reconhecido mundialmente, e seus textos passaram a ser estudados com uma análise histórico-crítica.

O livro aqui resenhado não se encaixa na padronização de romance de realismo fantástico ou mágico, mas é um romance de ficção histórica. A idéia de tal escrita, neste caso, basicamente é utilizar personagens e eventos reais criando-se aspectos românticos na vida dos indivíduos. A produção do livro demorou aproximadamente 5 anos, uma vez que o autor fez uma intensa pesquisa acerca da vida de Simon Bolívar, recorrendo a documentos originais e cartas pessoais como fonte de sua pesquisa, além de utilizar-se de consagrados livros sobre o período de vida de Bolívar, e das clássicas biografias acerca de tal personagem.

A relação história e sociedade utilizando prismas econômicos é fundamental na análise marxista, porém, a utilização de tais conceitos de forma subentendida sem tornar a análise complexa, transformando assim o texto em acessível ao grande público, é algo que Gabriel faz com excelência em O general em seu labirinto. Mais que uma simples análise da vida de Bolívar ele faz uma análise do período de vida do general, nos mostrando todo o contexto de crise social da época envolvida.

Filho da aristocracia criolla venezuelana, Simon Bolívar nasce em 1783 na cidade de Caracas, Venezuela, então pertencente à Coroa Espanhola. Bolívar, conhecido como El Libertador, lutou pela independência de sua região de nascimento, o vice-reinado de Nova Granada, que englobava Colômbia, Venezuela, Peru e parte da Bolívia. Bolívar teve uma longa estada na Europa, aonde seus ideais revolucionários foram fortemente cunhados, porém com o passar dos anos, o general terminou sua vida sendo hostilizado pelo próprio povo pelo qual empreendeu sua luta em seu ideal de liberdade.

Márquez faz uma caracterização de Bolívar um pouco diferente, ele escolhe demonstrar o lado humano do general Bolívar, o lado humano mais íntimo e profundo que nele habita, o lado dos arrependimentos que carregou pela vida inteira escondidos atrás de uma figura forte de uma figura revolucionária, arrependimento movido por seus defeitos humanos, defeitos de se entregar à causa revolucionária integralmente esquecendo todo o resto da própria vida. O retrato que Gabo nos pinta é um retrato de alguém orgulhoso do seu passado mas ao mesmo tempo com frustrações no seu presente.

O livro se passa numa viagem pelo Rio Magdalena até à morte do general. Durante a viagem ele vai narrando a um amigo e companheiro toda sua vida, sua história de heroísmos e angústias pessoais, como a angústia de ter jurado libertar a sua América do julgo europeu, o que o leva a maiores frustrações quando vê a dominação que classes dominantes americanas exercem dentro do próprio continente em cima de seus compatriotas.

Ponto interessante reside no fato que o Bolívar apresentado não é apenas o Bolívar humanizado espiritual e intelectualmente, é o Bolívar humanizado dentro de sua saúde frágil, é o retrato de um general que, mesmo recordando um passado glorioso, está velho, cansado, enfraquecido pela tuberculose que o acabaria matando em Dezembro de 1830. Neste trecho relatado, podemos notar além de tudo as piores condições de saúde que a região de Nova Granada possui durante o século XIX. Márquez acaba por demonstrar o ponto que se pretende esconder de grandes figuras públicas como estadistas e principalmente de figuras revolucionárias: a idéia do fim da vida. No geral esconde-se o final da vida de personagens que ajudam a criar principalmente o conceito de nacionalidade, como é o caso de Bolívar. É isso que Gabo coloca fora da região de conforto do leitor, ler o fim de uma personagem que, apesar de ser revolucionário e importante para a identidade nacional americana, continua sendo uma pessoa com sua consciência auto-reflexiva e seu corpo enfraquecido pela idade.

Notamos que a obra O general em seu labirinto de Gabriel Garcia Márquez não pode ser desvencilhada de seu ideal e ativismo político, não nos esqueçamos, por exemplo, que Galo morou em Cuba e em tal país foi pessoalmente publicar o livro aqui analisado. Por fim, podemos notar a volta ao cenário das pesquisas sobre Simon Bolívar após a publicação da obra de Márquez. Tal personagem hoje é mais estudado que nunca, e virou argumentação de defesa e ataque para vários estadistas do mundo contemporâneo, principalmente agora, na época dos bicentenários, além de ser a inspiração para famosas obras artísticas como a música Simon Bolívar do grupo chileno Inti-Illimani.

1. O que um leitor acostumado com o world building de Senhor dos Anéis e The Long Price Quartet pode esperar da série O Pêndulo? Até agora, Pilgrims me parece uma leitura leve (me diga se eu estiver errado), com um forte toque de humor quando você brinca com os arquétipos de fantasia.

Para mim, O Pêndulo é uma fantasia convencional em termos de estética. Uma dinâmica interessante da história é que a verdadeira natureza do mundo de fantasia Levaal não é imediatamente aparente para o leitor nem para os personagens dentro da história. Tem mais coisas acontecendo em relação ao conflito dos dragões com os deuses do que os humanos da história percebem, pois eles são marionetes em um jogo mais amplo. A guerra entre o castelo e as Cidades Livres, por exemplo, parece de crítica importância para os seus participantes, mas ela é apenas a primeira dimensão de algo muito maior. (São ondulações na superfície, se você prefere, enquanto coisas muito maiores se movem nas profundezas). É isso o que pode distinguir O Pêndulo de uma história como Senhor dos Anéis, que eu usei como um modelo para a estética e o estilo de narrativa. Em Senhor dos Anéis, a natureza básica da Terra Média é imediatamente aparente para todos os personagens, e a missão de Frodo está clara desde o início. Meus protagonistas não têm uma missão. Eles são peças de um quebra-cabeça, e a jornada deles será revelada aos poucos, à medida que as peças se encaixam. Essa falta de uma missão, eu acho, é a principal diferença entre o meu trabalho e as fantasias mais familiares.

2. Por que você decidiu migrar da experiência de thriller psicológico do Pilo Family Circus para a fantasia de Pilgrims?

A fantasia foi a primeira ficção séria que eu tive contato, então, eu sentia que enquanto escrever terror / thriller era a excursão, a fantasia era a minha casa. Meu romance à parte, Nightfall, que veio depois do Pilo Family Circus, é provavelmente a ponte entre o terror e a fantasia. Quando Nightfall for publicado, o salto de Pilo para O Pêndulo não parecerá mais tão radical.

3. Pesquisando na Internet eu li que você tem um livro não publicado chamado Nightfall. Você pode me falar mais sobre ele?

Nightfall fala de um jovem chamado Aden que acorda em uma banheira em algum lugar, sabendo apenas que está morto. Ele sente como se tivesse acordado em um porta-retratos – de fato, ele é uma pintura que ganhou vida. O mundo em que ele se encontra é habitado por todo tipo de pessoas grotescas e bizarras. E, de alguma forma, tudo isso parece familiar a Aden. O mais curioso é que as pessoas desse mundo parecem considerar o avô de Aden como seu deus. O que, posteriormente, causa problemas para a Igreja do Criador do Mundo, quando Aden diz ser o neto do Criador.

Nightfall é um mundo à beira da extinção, pois uma força chamada “O Esquecimento” está fechando o cerco, destruindo tudo. Na noite em que Aden encarna em Nightfall, o Esquecimento destrói a maior parte do que restava desse mundo. Assim como em O Pêndulo, o protagonista precisa descobrir como ele se adéqua ao seu mundo.

4. Em Strange Places você compartilha sua jornada lidando com a esquizofrenia. Como isso afetou você como autor? Ou seja, você traz algo dessa experiência para o seu processo de escrita?

Eu mudei meu ponto de vista significativamente sobre o que eles chamam de esquizofrenia. Eu não acredito que estava mentalmente doente, somente perdido em alguns pontos, e assustado, porque ninguém mais sabia a verdadeira natureza de nossa realidade, e ninguém estava qualificado para me dizer a verdade sobre ela. E os menos qualificados eram os inquisidores do sistema que se autodenominam médicos. A “doença” foi, na verdade, um processo evolutivo que me deu uma tremenda energia. Nosso sistema é projetado para nos oprimir, e qualquer pessoa que pareça dar um salto evolutivo é derrubada com força. Foi o que aconteceu comigo, e o que acontece com muitos outros. Desde o “diagnóstico”, o medicamento sufocou minha criatividade, minhas emoções e tudo mais a meu respeito. Eu era ingênuo de acreditar naquele papo furado sobre o assunto. Aquilo contaminou a minha criatividade. Por um longo tempo, eu não sabia que estava sendo usado como uma cobaia do sistema médico e do sistema de modo geral. Agora eu sei, e nego tudo que eu disse sobre a experiência de estar doente. Como muitos outros, eu fui deliberadamente um alvo por me mostrar consciente do fato de que vivemos em uma realidade estilo Matrix, construída artificialmente.
Meus primeiros trabalhos possuem uma vitalidade que os posteriores não têm, e o motivo é o medicamento. Eu reduzirei consideravelmente o medicamento, talvez cortando de todo (embora, de uma forma muito gradual e com enorme cuidado). Aí verei se os meus trabalhos ganharão com isso. Eu acredito que sim.

5. O livro The Pilo Family Circus venceu cinco prêmios literários e ganhou várias críticas positivas. Pensando em sua carreira, eles tornaram as coisas mais fáceis ou cada novo projeto é um novo desafio?

Prêmios são um tremendo estímulo, e eles certamente ajudam a destacar o perfil de um autor. Eu não acho que eles afetem minha atitude ao começar novos projetos.

6. No Brasil, temos uma tradição de literatura realista, e a ficção especulativa é considerada um nicho pequeno. Essa situação está mudando gradativamente, mas o fato é que fantasia e ficção-científica ainda não ocupam os holofotes dos jornais. Você lida com uma situação similar na Austrália?

Bem, os jornais e a mídia tradicional estão perdendo relevância diariamente, então eu não sei por que a literatura de gênero precisa da aprovação dela. Os críticos literários dos nossos jornais tratam fantasia como uma piada, e em alguns pontos eu concordo com eles. Eu já deixei de lado muitos livros de fantasia porque eles não retratam o suficiente a nossa realidade e o nosso mundo. Porém, quando isso acontece, a fantasia é um dos gêneros mais poderosos. Eu realmente acredito que existem realidades e histórias escondidas, e alguns autores de fantasia parecem ter a chave para esses lugares, saibam disso ou não. Eu encontrei um simbolismo nos meus trabalhos, que pesquisas depois conectaram com nossas histórias secretas, e no momento em que eu escrevia, eu não tinha ideia de que estava transmitindo esse tipo de coisa. Tanto Pilo quanto O Pêndulo são cheios dessas pequenas pistas e indicadores, e tudo o que eu achava que estava fazendo era contar uma história. A boa fantasia transmite nossa verdadeira história secreta. A mídia mainstream cria e gerencia a Matriz artificial. Então, é claro que eles não seriam muito amáveis com materiais que subvertem sua falsa realidade.

English version:

1. What a reader used to “world building” fantasy such as Lord of the Rings and The Long Price Quartet can expect from Pendulum series? So far, Pilgrims seems like light reading to me (tell me if I’m wrong), with a strong touch of humor when you tinker with archetypes of fantasy.

To me Pendulum is a conventionally formatted fantasy, as far as aesthetics go. One interesting dynamic of the tale is that the true nature of the fantasy world, Levaal, is not immediately apparent to the reader, or even to the characters within the story. There is more going on regarding the dragons’ conflict with the gods than the humans of the story realise, for they are unwitting pawns in a greater game. The war between the castle and the Free Cities, for instance, seems of critical importance to its participants, but it is just the first dimension of something far grander. (Ripples on the surface, if you like, while huge things move in the depths.) That is what may distinguish Pendulum from a tale such as Lord of the Rings (which I used as a model for the narrative style and aesthetics.) In LOTR, the basic nature of Middle Earth is immediately apparent to all characters, and Frodo’s quest is clear from the outset. My protagonists do not have a quest, as such… they are pieces of a puzzle, and their journey will slowly reveal where they fit into the puzzle. This lack of quest I suppose is the key distinction between my work and more familiar fantasies.

2. Why did you decide to move from the psychological thriller experience of The Pilo family Circus to the world building of Pilgrims?

Fantasy was the first serious fiction I was exposed to, so I felt if anything that writing horror / thriller was the excursion, and fantasy was always home. My standalone novel Nightfall, which followed Pilo Family Circus, is probably the bridge between horror / thriller and fantasy. When Nightfall is published, the leap from Pilo to Pendulum will not seem quite so drastic.

3. Digging on Internet I read that you have an unpublished book called Nightfall. Could you tell me something about it?

Nightfall is about a young man named Aden, who wakes up in a bath tub somewhere, knowing only that he is dead. He appears to have woken in a picture frame – in fact, he is a painting come to life. The world he finds himself in is inhabited by all manner of grotesque, bizzarre people. And somehow, all of it is oddly familiar to Aden. What is most peculiar is that the people of this world seem to regard Aden’s grandfather as their god. Which later causes problems for the Worldmaker Church, when Aden claims to be the Worldmaker’s grandson.

Nightfall is a world on the brink of extinction, as a force called “The Forgetting” closes in, destroying everything. On the evening Aden incarnates in Nightfall, the Forgetting destroys most of the remaining world. As with Pendulum, the protagonist must discover how he fits in with his world.

4. In Strange Places you share your journey dealing with schizophrenia. How did it affect you as a writer? I mean, do you bring something from this experience for your writing process?

I have come to change my view drastically about what they called “schizophrenia”. I do not believe I was ever mentally ill, only misguided on some points, and afraid, because no one else knew the true nature of our reality, and no one was qualified to tell me the truth of it. Least of all the system’s witch-hunters who call themselves doctors. The “illness” was in fact an evolutive process, one which gave me tremendous energy. Our system is designed to keep us down, and anyone showing signs of that evolutive leap is clamped down on hard. That is what happened to me, and what happens to many others. Medication has since “diagnosis” stifled my creativity, my emotions, and everything else about me. I was gullible to believe their claptrap about it. It has poisoned my creativity. I did not know for a long time that I was being used as a pawn of the medical establishment and the establishment in general. Now I know, and I renounce everything I ever said about the experience being an illness. I like many others was deliberately targetted for displaying too much awareness of the fact that we are in an artificially constructed Matrix reality. My early works possess a vitality which later works lack, and medication is the reason. I am going to drastically reduce medication, perhaps cutting it altogether (although very gradually and with great care). We’ll see if my works improve. I suspect they shall.

5. The Pilo Family Circus won five literary awards and received lots of positive reviews. From a career point of view, did they make things easier or is every new project a new challenge?

Awards are a tremendous encouragement, and they certainly help with raising an author’s profile. I don’t think they effect my mindset when commencing new projects.

6. In Brazil we have a tradition of realism in literature, and speculative fiction is considered a small niche. This situation is changing gradually, but the fact is that fantasy and science fiction don’t have the spotlight on newspapers yet. Do you deal with a similar situation in Australia?

Well, newspapers and the mainstream media are losing relevance on a daily basis, so I don’t know why the genre needs their approval. Our newspaper literary reviews and such treat fantasy as a joke, and on some points I agree with them – I have set aside many a fantasy book because it does not act as enough of a mirror to our reality and our world. When it does, however, it is one of the most powerful genres. I believe there truly are hidden realities and hidden histories, and some writers of fantasy seem to have the key to those places, whether they know it or not. I have found symbolism in my works which later research linked to our hidden histories, and at the time of writing, I had no idea I was communicating this stuff. Pilo and Pendulum are full of these little clues and pointers, and all I thought I was doing was telling a story. Good fantasy conveys our true hidden history. Mainstream media are creators and maintainers of the artificial Matrix. So of course they would not be too fond of material which subverts their fake reality.

Sintomas do sujeito pós-moderno (parte 2 de 2).

O filósofo e ensaísta brasileiro Sérgio Paulo Rouanet aponta em seu estudo As Razões do Iluminismo (1987), que o prefixo pós tem muito mais o sentido de exorcizar o velho (neste contexto, a modernidade) do que de articular o novo, o vindouro (o pós-moderno). Ou seja, o que há de fato é uma “consciência de ruptura”, que o autor não considera uma “ruptura real”.

Segundo ele, “depois da experiência de duas guerras mundiais, depois de Auschwitz e Hiroshima, vivendo num mundo ameaçado pela aniquilação atômica, pela ressurreição dos velhos fanatismos políticos e religiosos e pela degradação dos ecossistemas, o homem contemporâneo se cansou da modernidade” (ROUANET, 1987). Todos esses males, ainda segundo o filósofo, são atribuídos ao mundo moderno e a sua avassaladora necessidade de reinvenção. Essa atitude de rejeição se traduz na convicção de que o mundo está transitando para um novo paradigma. O desejo de ruptura leva à convicção de que essa ruptura efetivamente já ocorreu, ou está em vias de ocorrer. O pós-moderno, assim, se afigura muito mais como o cansaço tardio de uma época que pareceu extinguir-se sem ter alcançado seu apogeu do que o despontar de um novo começo que prima pela inclinação ao ineditismo. A consciência pós-moderna não corresponde, portanto, a uma realidade pós-moderna. Nesse sentido, ela é caracterizada como um simples mal-estar da modernidade, um sonho da modernidade.

Ao analisar os sintomas desta pós-modernidade imperfeita, Rouanet se arrisca em fazer uma psicopatologização ao considerar, em primeiro lugar, o moderno como essencialmente contraditório. Em segundo lugar, ao apontar que a sociedade contemporânea, em seu cerne, favorece o surgimento de um hedonismo característico, (todos passam a buscar o prazer pelo prazer, num incessante círculo de repetições, pois tudo o que conta é a satisfação pessoal) socializado pela mídia e, de certa forma, respondido por esta mesma coletividade como sintoma da chamada “sociedade do espetáculo”.

Nesta sociedade de valores massificados, especialmente no que respeita à cultura ocidental, a visibilidade dos aspectos particulares assumiu um caráter obsceno quando passou a excluir quase que completamente a dimensão da subjetividade e da privacidade das pessoas. Ou seja, com o alastramento dos meios de comunicação, anulou-se a dimensão do privado, tornando “tudo e todos” público, desde o cotidiano dos ansiosos por fama e ex-anônimos de programas midiáticos similares ao Big Brother, aos já famosos que figuram em revistas de frivolidades, como a Caras. Também se incluiu nesta categorização os rituais histéricos e cada vez mais midiáticos de evangélicos, carismáticos católicos e islâmicos, que se vendem para a televisão usando como desculpa a pregação de “causas justas” aos miseráveis, igualmente noticiados e fotografados por decorrência de algum fato merecedor da atenção jornalística.

Dada esta extrapolação da privacidade e de sua utilização como moeda de troca, os sintomas do hedonismo na sociedade pós-moderna passaram a operar através de mecanismos de promoção da visibilidade do que era privado, como se decretando o fim do segredo ou o fim da intimidade.

Durante a era moderna a “doença do século” era a histeria. Uma vez incapaz de suportar tanta repressão, o sujeito moderno teatralizava-se, representava-se enquanto ser contextualizado para escapar do embate endopsíquico. Graças a este sintoma, Sigmund Freud fundamentou sua psicanálise. Na era pós-moderna, entretanto, este mal-estar se apresenta de forma mais complexa, uma vez que os anseios individuais se diluem no caldo do disfarce coletivo, criando uma falsa sensação de que “tudo está bem”. O mal-estar pós-moderno é, portanto, visível e banal, expressado através da linguagem do cotidiano e do trabalho compulsivo, excessivo, quase sempre vendido como se fosse “lazer” ou “ócio criativo”. E, uma vez incorporado, este processo leva a uma série de problemas que acaba se tornando inerente ao sujeito pós-moderno, como o estresse, a perversão, a depressão, o sedentarismo e o tédio.

Colocando a questão em termos de patologia social, a pós-modernidade fez surgir, com seu neoliberalismo desenfreado, coisas contraditórias, como as indústrias e a crise de empregabilidade ou a abertura econômica e a escassez monetária; se por um lado temos a ciência mercadológica e a alta tecnologia, por outro, temos a multiplicação da população pobre e as guerras racionais. Na contemporaneidade, a perversão ganha ares de grandeza e se vê livre para manifestar-se em diversas formas, seja travestida de violência urbana, seja no terrorismo, nas guerras ideologicamente consideradas “justas” e “limpas” ou nas guerras “cirúrgicas”. A razão cínica é cada vez mais instrumentalizada. Não basta ser transgressivo, ou perverso ou mesmo imoral; é preciso se construir uma justificativa “moral” e, portanto, passível de aceitação, para atos de imoralidade e perversão.

Assim, na contemporaneidade pós-moderna, a perversão e o estresse tornaram-se sintomas resultantes da falta de lei, da falta de tempo e da falta de perspectiva de futuro, contraditoriamente refletido no sistemático abandono do passado.

Citando novamente Jameson, “a sociedade contemporânea é regida, mais do que tudo, pela ânsia e necessidade de “espetáculo”; ela exige o prazer imediato a qualquer preço, mesmo que para isso tenha que se valer de praticamente tudo, até mesmo abdicar de sua individualidade” (JAMESON, 1991). Enquanto inseridos socialmente, todos se sentem na obrigação de se divertir, de aproveitar cada momento e de trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social, não importando os limites de si próprio ou dos outros.

Para Jameson, a lógica cultural do capitalismo tardio frente à sociedade do consumo está organizada sobre a tríade “pastiche — nostalgia — morte do sujeito”, que permite ao homem pós-moderno “sentir a especificidade da experiência pós-modernista do espaço e do tempo”. Neste contexto, o “pastiche” (mescla que vários gêneros artísticos para a criação de um novo conceito, cujas características são distintas dos originais) assume-se como a representação alegórica da pós-modernidade, uma vez que adota as qualidades de uma máscara estilística de reiteração – como reprodução e sobreposição de estilos, mas esvaziada de conteúdo – condizente com o segundo pilar da tríade, a “nostalgia”, essa tomada como resgate de um passado nada ameaçador, embora instigante, que ofusca a relação humana com o seu presente histórico. Dessa forma, o homem contemporâneo se vê mutilado de sua autonomia, liberdade criativa e potência revolucionária, passando a mover-se no mundo sem procurar extrair dele a mais ínfima mudança sequer. Este último sintoma pós-modernista Jameson denomina como a “morte do sujeito”.

A arte pós-moderna.

De modo geral, a arte contemporânea se apresenta como um produto de concepção multifacetada e abrangente, representação do homem moderno e de sua dissolubilidade em meio aos múltiplos canais de comunicação de massa. Numa sociedade em que o impulso e a espontaneidade superam a razão e a necessidade de sociabilização é direcionada para o consumo, os objetos de mercado se revelam personalizados e estetizados, convertendo numa espécie de simulacro o mundo real, mundo este que agora se encontra desmaterializado. O comportamento dos grupos sociais, em consequência, passou a ser orientado pelos mecanismos de comunicação de massa, que vieram substituir em grande medida os contatos sociais. Mesmo entre o grupo familial ou de convívio próximo, a massificação da comunicação já se faz enormemente presente — quem nunca se utilizou de programas de mensagens, como o MSN, torpedos ou fez uso do celular para falar com um vizinho, amigo ou com um parente que se encontra no cômodo contíguo?

A partir dessa homogeneização dos sentimentos individuais, foram criados fatos, valores e necessidades que serviram de alimento para a estrutura econômica de uma sociedade agora globalizada. O desenvolvimento tecnológico e seus tentáculos que a tudo alcança e enlaça só acrescentou novos elementos à transformação do homem e de sua convivência em sociedade.

Como característica desta arte pós-moderna, tem-se a reificação ou coisificação (conceito marxista que prega a transformação do homem ou da arte em mercadoria, em simples objeto de consumo) da condição criativa, a apresentação da arte descontinuada, alusiva à negação da historicidade, a quebra da sequência estrutural, uma vez que ela não se fia mais na linearidade, nem busca no passado sua base de sustentação, e sua pasteurização, ao se utilizar de todas as formas de linguagens, incorporando num mesmo contexto fragmentos de diversos artistas, estilos e épocas. Neste aspecto, a literatura passou a utilizar o que se convencionou chamar de intertextualidade, ou seja, num mesmo texto há a simultaneidade de cenas, desde a imitação de procedimentos próprios do cinema moderno inseridos na leitura à introdução, na prosa, de técnicas de construção de poemas e a inclusão de posicionamentos autocríticos na composição do texto. Enfim, pastiche!

Um traço tipicamente pós-moderno presente em todas as modalidades artísticas contemporâneas é a tendência a eliminar as fronteiras entre a arte erudita e a arte popular como forma de valorização desta última e seu direcionamento para o consumo da cultura de massa. Diluem-se também os critérios tradicionais de definição da estética.

Na obra Pós-Modernismo e literatura, de 1988, Domício Proença Filho aponta algumas daquelas que considera como as características mais significativas das literaturas pós-modernistas, entre as quais figuram a intensificação do lúdico, do experimentalismo e do pastiche; a utilização deliberada da intertextualidade; a mistura de estilos; o exercício da metalinguagem (a linguagem falando de si mesma); o alegórico, o hiper-real e o metonímico; o texto fragmentado; o centramento na linguagem; a exaltação do prazer e a presença do humor. Assim, a pós-modernidade literária tem seu arcabouço centrado na visão cética do mundo, da arte, da vida, do sentimento e da própria ciência teórica, que foi levada a cabo pelo advento das ciências experimentais objetivas. Torna-se, portanto, uma espécie de anti-ideologia por encarar o fim do processo histórico, o fim das lutas de classe, o fim de um ponto em si mesma. É, em suma, a ausência de motivos. Ela buscou no advento da comunicação de massa novas formas de mídia e veiculação, aproximando-se da arte de cunho mais popular. Neste momento, existe uma adequação aos padrões da “Indústria Cultural”, onde a literatura essencialmente deixa de possuir alteridade; neste cruzamento de intencionalidades, a literatura no Brasil passou a ser vinculada ao mercado editorial, deixando de lado a premissa do estado como mentor e provedor.

A proximidade com outros meios de comunicação social criou no mundo midiático a possibilidade de os gêneros mesclarem-se e darem vazão a um novo produto-arte, porém descaracterizados da sua conceitualização antiga. A palavra passa a dialogar com a imagem, com o som, com o movimento e este com conceitos de outras naturezas, como a Internet, a televisão e a revista cultural. Todas estas variações formam uma única e grande colcha de retalhos, representativa do mass media globalizado. Ao analisar esta rede global massificada, Frederic Jamesom argumenta que o homem contemporâneo “vive em um período de fetichismo visual”.

Essa necessidade de observação-contemplação criou no sujeito moderno uma nova gama de sentimentos, como a valorização da subjetividade pessoal e o não comprometimento com o item universal ou com a causa estética. O prazer passou a ter significado através do ato de se expor, na função expressionista do indivíduo enquanto objeto passível de observação, extremamente autobiográfico, particular e egocêntrico. Agora comprometido com a identidade e com a satisfação do seu próprio eu, o artista pós-moderno fez com que todo um universo de significados sofresse uma inversão de valores, mudasse de lado: antes habitante do texto, tais significações passaram a se incorporar ao autor. A obra literária, então, ganhou ares de portal para a possibilidade de o autor travar contato com o leitor, criar um diálogo bidirecional, uma proximidade.

Para tanto, a literatura pós-moderna abdicou de todos os conceitos das correntes que a precederam, tornando-se desfragmentada quanto ao gênero narrativo. Também aboliu o núcleo do enredo e da estrutura clássica romanesca, distanciando-se do cânone clássico e passando a se utilizar do narrador multifocal. Da concepção romantizada (da estética romântica) ou idealista (oriunda do modernismo), a personagem pós-moderna tornou-se intrusa e ausente, desprovida de passado e história, situada unicamente no presente que lhe condiciona o tema. Falta, ainda, a definição do código e da mensagem da obra e a criação literária passou a celebrar a prática da “bricolagem” (trabalho de colagem de textos ou extratextos dentro do processo criativo, algo que se aproxima, em certa medida, da ideia de hipertexto. Na prática pós-modernista, é a transformação ou estilização de materiais preexistentes em novos trabalhos (não necessariamente originais)) e do diário como forma de realocação do ser dentro do amplo espaço da cultura global de massa.

As faces da pós-modernidade literária no Brasil.

O Pós-Modernismo no Brasil assumiu várias facetas dentro da produção literária, notadamente em relação à prosa.  Enquanto o Concretismo (movimento vanguardista surgido nos idos de 1950, inicialmente na música e depois na poesia e nas artes plásticas, que defendia a racionalidade e rejeitava o expressionismo, o acaso, a abstração lírica e aleatória do fazer artístico) consolidava suas características na poesia, a prosa pós-modernista seguia por diferentes estilos, marcada por tendências diversas, como a regionalista, a urbana, a intimista, a política e realista-fantástica, além de crônicas e contos.

Na poesia, o maior destaque brasileiro deste movimento é o pernambucano João Cabral de Melo Neto. O autor, sempre perseguindo o viés da razão em suas obras, acabou inaugurando um novo jeito de fazer poesia. A essência de sua criação literária mostra uma tentativa de desvendar os elementos concretos da realidade, que se afiguram desafiadores para o poeta. Sempre guiado pelo raciocínio lógico, seus poemas evitam o subjetivismo poético e se voltam para a realidade do mundo, para a verificação dos objetos, das paisagens, dos fatos sociais e suas consequências, sem jamais cair na senda do sentimentalismo.

Já na prosa, o Brasil produziu uma quantidade considerável de grandes obras, abordando estilos e temas os mais diferentes. A literatura regionalista pós-modernista, uma das correntes mais notórias, deu ênfase ao âmbito rural, trazendo para a ficção a exposição de costumes locais e a crítica político-social. Autores como Mário Palmério, Ariano Suassuna, José Cândido de Carvalho e Josué Montello apresentaram ao Brasil urbano o homem do campo, aprofundando-se na psicologia da roça, na riqueza cultural sertaneja e na sua multiplicidade de crenças. Como mais destacado representante desta corrente, tem-se o escritor João Guimarães Rosa. Embora de caráter regionalista, a obra rosiana supera o chamado regionalismo tradicional, uma vez que ora idealiza o sertanejo, ora se compraz com seus aspectos meramente pitorescos, com o realismo documental ou com a transcrição da linguagem popular e coloquial. A obra rosiana apresenta-se dona de uma riqueza de linguagem que a tornam única, além de seu caráter universal no que respeita às questões morais e metafísicas. Criador de uma prosa única, Guimarães Rosa estilizou o linguajar do sertanejo, recriou ou inventou novos vocábulos, mesclou arcaísmos com a fala erudita, conceitualizou o popular e o moderno tecendo, a partir daí, uma nova linguagem na qual estão inseridas as indagações universais do homem: o sentido de vida e morte, a existência-inexistência do bem e do mal, o significado do amor, do ódio e de muitas outras dúvidas que afligem tanto o homem cosmopolita quanto o sertanejo.

Na prosa intimista, outra vertente da ficção pós-modernista nacional, os autores se voltaram para a exploração psicológica das personagens, e, dentre os maiores destaques, tem-se nomes como Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Nélida Piñon, Ivan Ângelo e Raduan Nassar.

A prosa urbana traz em sua denominação muito do que ela representa, ou seja, é uma narrativa direcionada à denúncia dos problemas das grandes cidades, notadamente nos aspectos social e político. Retrata a chegada do progresso e suas influências nocivas nas relações humanas, posto que, junto a ele, chegaram atreladas a solidão, a marginalidade e a violência. Dentre os autores que exploraram esta vertente da criação literária, tem-se Rubem Fonseca, João Antônio, Luiz Vilela, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão.

A prosa política, dentro da concepção pós-moderna, é uma literatura que mostra os fatos sociais diante da censura aos meios de comunicação de massa iniciada, aqui no Brasil, no começo de 1964, com a repressão militar. O que o jornal não podia mostrar, a literatura narrava através do romance-reportagem (obras de denúncia dos abusos de poder disfarçada em linguagem jornalística) e do realismo fantástico (obras de denúncia baseadas em situações fictícias, absurdas, como meio de satirizar a situação do país).  Entre os autores da prosa política, vale destacar Antonio Callado, Roberto Drummond, José Louzeiro, Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro, Ivan Ângelo, Murilo Rubião, José J. Veiga e Moacyr Scliar.

Murilo Rubião foi, inclusive, o primeiro autor brasileiro a trabalhar a temática do fantástico na literatura, ainda nos idos de 1940. Sua ficção, eminentemente contista, perpassa os problemas do homem moderno colocando-o sob a ótima do lúdico. Na prosa rubiana, o cotidiano banal ganha ares de fantástico para denunciar e, a cima de tudo, evidenciar, a incapacidade do homem de se situar enquanto ser social.

A partir da década de 1980, outros estilos literários, como a ficção especulativa (a ficção científica, a fantasia e o horror) e a literatura de entretenimento (romances considerados rasos, geralmente escritos para o grande público), ganharam fôlego e corpo — além das prateleiras das livrarias e os meios de comunicação — evidenciando mais uma etapa do longo processo de desdobramento da contemporaneidade artístico-cultural.

E, seja na poesia, na prosa ou nas artes visuais, o pós-modernismo encontrou na figura do homem moderno sua razão de ser. Através da arte-questionadora ou da arte-espetáculo, cada artista procura, à sua maneira, traçar um panorama dos rumos que a cultura tomou — e ainda está tomando — nestes dias de aldeia global, onde o individual, o particular e o autóctone passaram a ter um significado bastante relativo.

Para saber mais (artigo – parte 02):

* JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (trad. Maria Elisa Cevasco). São Paulo: Editora Ática, 2004.

* ROUANET, Sérgio Paulo. As Razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

* FILHO, Domício Proença. Pós-Modernismo e literatura. São Paulo: Ática, 1988.

A Pós-modernidade (parte 1 de 2).

Sempre que se fala em inquietações artísticas e/ou movimentos de vanguarda, a primeira lembrança que nos vem à mente é a Europa — notadamente países como França, Itália, Alemanha e Grã-Bretanha, ou, mais recentemente, os Estados Unidos — como berço de tais manifestações. Porém, nem todas elas se originaram no velho continente ou na eminente potência econômica do outro lado do Atlântico. O Pós-Modernismo, movimento atualmente em voga, foi um deles. Surgido pela primeira vez na década de 1930, o conceito de pós-modernidade teve seu lugar de origem no mundo hispânico, uma geração antes de seu aparecimento na Inglaterra ou nos EUA. Na obra As Origens da Pós-Modernidade (1999), Perry Anderson, historiador e professor de História e Sociologia da Universidade da Califórnia, cujo trabalho se destaca pelo estudo dos fenômenos culturais e políticos contemporâneos, relata que foi Frederico de Onís, um amigo dos poetas e pensadores espanhóis Miguel de Unamuno e José Ortega, quem imprimiu o termo pela primeira vez, embora como meio de descrever um refluxo conservador dentro da própria corrente modernista então vigente. E, uma vez apresentado o termo e sua ideia geral, coube ao filósofo francês Jean-François Lyotard, em sua publicação A Condição Pós-Moderna, de 1979, a expansão do uso do conceito.

Em sua origem, o pós-modernismo trouxe uma série de novos conceitos que englobavam desde a perda da historicidade ao fim das metanarrativas (obra que assume o sentido de uma grande narrativa, de nível superior, capaz de explicar todo o conhecimento existente ou de representar uma verdade absoluta sobre o universo. Livros sagrados, como a Bíblia e o Alcorão, ou obras como “Ulysses”, de James Joyce e “O Capital”, de Karl Marx, são exemplos de metanarrativas), o que, no campo estético, significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da fronteira entre alta cultura e cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado, comumente praticada nas correntes literárias anteriores.

Como fatores determinantes de seu surgimento, podem ser apontadas algumas das características predominantemente surgidas no decorrer do século XX, tais como o boom dos meios de comunicação e a propensão do homem pós-moderno em se deixar dominar por seus inúmeros tentáculos; a colonização do nosso universo, até então particular, pelos mercados, seja ele econômico, político, cultural ou social; a celebração exacerbada do consumo como modo de expressão pessoal; a pluralidade e pouco aprofundamento cultural; a polarização social e a falência das grandes narrativas como fomentadora da consciência e do aprofundamento individual.

A Pós-modernidade, em contraponto à corrente literária que a precedeu, a Modernidade, recobre todos esses fenômenos conduzindo, em um único e mesmo movimento, a uma lógica cultural que valoriza o relativismo e a indiferença, a um conjunto de processos intelectuais flutuantes e indeterminados, a uma configuração de traços sociais que significaria a erupção de um movimento de descontinuidade da condição moderna, ou seja, mudanças dos sistemas produtivos e crise do trabalho, eclipse da historicidade, crise do individualismo e onipresença da cultura narcisista de massa. Em outras palavras, a pós-modernidade primou pelo predomínio do instantâneo, da perda de fronteiras, gerando a ideia de que o mundo está cada vez menor através do avanço da tecnologia, deixando-nos diante de um mundo virtual, onde imagem, som e texto são produzidos em velocidade instantânea.

A Ruptura com o Passado.

Na obra A Condição Pós-moderna, de 1979, além de anunciar o eclipse de todas as narrativas grandiosas, Lyotard procura garantir também e principalmente a morte daquilo que, para ele, representava um passado que não tinha mais razão de ser, notadamente correntes como o socialismo clássico e o marxismo. A esta “lista de negações de modelos arcaicos”, o filósofo francês também incluiu outras tantas, como a redenção cristã, o progresso iluminista, o espírito hegeliano, a unidade romântica, o racismo nazista e o equilíbrio econômico. Assim, o discurso pós-moderno lyotardiano passou a rejeitar não apenas a teoria totalizante do socialismo clássico e do marxismo, mas também a de qualquer outra filosofia da história baseada em noções de causalidade, em soluções absolutas que a tudo englobavam a respeito do destino humano — surgindo daí, a necessidade de abandono das metanarrativas. Essa rejeição das noções de totalidade e das narrativas mestras significou também a rejeição dos fundamentos do princípio do ser, da ontologia que elas pressupõem.

Segundo esta linha de pensamento, não existe, portanto, um único e extenso fio condutor capaz de dar inteligibilidade à história, nenhuma ligação intrínseca entre os acontecimentos, posto que não há uma história apenas, indissociável, mas uma série de pequenas histórias fragmentadas, particulares. Para Lyotard, ao invés da narrativa grandiloquente, o que se tem é uma pluralidade de narrativas não passíveis de serem apreendidas sob uma única lógica, um único prisma. Não há uma história somente, porque não há nenhum sujeito — seja ele individual ou coletivo, teórico ou prático — que a atravesse totalmente e que tenha uma condição primordial a realizar neste percurso, como uma espécie de narrador onisciente. Dada esta condição, não é possível observar, consequentemente, uma continuidade na história.

A obra Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (1991), do norte-americano Fredric Jameson, um dos mais reconhecidos debatedores deste movimento, assinala que a superposição entre as teorias do pós-modernismo e as generalizações sociológicas tem por meta o anúncio de um tipo novo de sociedade, mais conhecida pela alcunha de “sociedade pós-industrial”. Ele argumenta que “qualquer ponto de vista a respeito do pós-modernismo na cultura é, ao mesmo tempo, necessariamente, uma posição política, implícita ou explícita, com respeito à natureza do capitalismo multinacional em nossos dias” (JAMESON, 1991). Observa, ainda, que o ceticismo com relação às metanarrativas é um “modo de experiência” que se originou das condições do trabalho intelectual imposto pelo capitalismo tardio.

O crítico literário americano enumera como ícones desse movimento em direção à chamada cultura de massa (ou indústria cultural, termo criado pelos filósofos alemães Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), membros da prestigiosa Escola de Frankfurt, para exemplificar a massificação dos meios de comunicação) uma série de artistas que se utilizaram dos conceitos pós-modernistas — em detrimento dos antigos modelos até então empregados — para criar obras reconhecidamente mercadológicas, mas nem por isso carentes de qualidades artísticas memoráveis, nomes como Andy Warhol, conhecido como o “pai” da pop art, cujas tendências mais importantes foram o fotorrealismo e o neoexpressionismo; John Cage e a síntese dos estilos clássico e “popular” que posteriormente se viu representada em composições de artistas como Philip Glass e Terry Riley e, também, o punk rock e a “new wave“; Jean-Luc Godard, cineasta francês que transpôs os conceitos pós-modernos para o cinema, e William Burroughs, Thomas Pynchon e Ishmael Reed, como exemplos da literatura de um lado, e o “novo romance francês” e sua sucessão, do outro.

No que respeita à literatura, Fredric Jameson argumenta que, a partir da planificação da cultura, o indivíduo perdeu sua identidade e tornou-se impessoal. A pós-modernidade, para ele, contém características progressistas e reacionárias cuja expressão cultural está intimamente ligada aos aspectos mercadológicos, transformando a arte em simples mercadoria. A sociedade contemporânea é, portanto, marcada pela falta de profundidade e pelo excesso de superficialidade. Segundo ele, “nós nos pensamos enquanto mercadoria e esta é, talvez, a mais importante característica formal de todos os pós-modernismos” (JAMESON, 1991).

Neste contexto, a literatura nos chega como a sublimação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo, onde apenas o momento presente tem importância; seu precedente não acrescenta nada e, portanto, deve ser banalizado. Mudam-se valores; a partir de então é o novo, o fugidio, o efêmero e o individual que devem prevalecer.

O historiador britânico Perry Anderson, ao ser convidado a fazer a apresentação do livro de Jameson, terminou escrevendo o seu próprio, As origens da pós-modernidade, em 1998, constituindo assim uma espécie de “introdução” ao conceito. Nele, Anderson diz que a modernidade foi marcada pela excessiva confiança na razão, pelas grandes narrativas utópicas de transformação social e pelo desejo de aplicação mecânica de teorias abstratas à realidade. Tal representação se deu através de imagens de máquinas (as indústrias), enquanto o pós-modernismo é usualmente imaginado através das “máquinas de imagens”, sejam elas oriundas da televisão, do computador, da Internet ou através das vitrines dos grandes templos de consumo contemporâneos, os shoppings centers. Anderson observa, ainda, que essas máquinas inovadoras podem se distinguir dos velhos ícones futuristas de duas formas interligadas: todas são fontes de reprodução e não de “produção” e já não são sólidos esculturais no espaço. Segundo ele, “o gabinete de um computador dificilmente incorpora ou manifesta suas energias específicas da mesma maneira que a forma de uma asa ou de uma chaminé” (ANDERSON, 1998).

Para o autor, esse novo mundo pós-moderno neoliberal disseminou conflitos em várias camadas da sociedade. Criou-se um novo perfil de coletividade, bem diferente daquele existente nos anos 60; agora, o mundo encontra-se em um momento de crise de transcendência, pois assim como na virada do século XIX para o século XX, vivemos um período onde as mudanças tecnológicas são tão rápidas e avassaladoras que perdemos o nosso espírito de transcendência, tão discutido por intelectuais do século XX. Vivemos novamente em uma era de racionalidade, onde o que se afigura como mais importante é a técnica e o seu tecnicismo; o que agora conta como fator determinante é a competição entre os homens, perpassada por uma ética narcisista onde o mercado, caracterizado aqui como uma espécie de entidade sobrenatural, regula todas as ações.

A era pós-moderna suscitou várias crises vindas da crise original de transcendência. Uma grande crise ideológica, política e de valores se criou e, seguindo-se a esta, gerou-se uma crise de sociabilidade. Os homens perderam, principalmente nos grandes centros urbanos, o sentido de ser um animal social; eles não mais se socializam, ou o fazem de uma forma minimamente possível. Pode-se, inclusive, dizer que não existe mais alteridade. Os homens e as massas se tornaram indiferentes uns aos outros, gerando uma espécie de niilismo pós-moderno.

O Brasil e a pós-modernidade.

Os aspectos que caracterizaram a pós-modernidade se depararam, no Brasil, com uma barreira de aceitação que encontrou eco em vários pensadores contemporâneos. Entre as muitas vozes contrárias a esta nova corrente de pensamento, em especial as da esquerda tradicionalista brasileira, duas podem ser destacadas aqui como contestadoras contumazes deste movimento.

Ao discorrer sobre o assunto, o historiador Ciro Flamarion Cardoso diz que o “paradigma pós-moderno” é fundamentado no antirracionalismo subjetivista, “desconstrutivista” e na denúncia dos excessos da ciência. Cardoso desconfia da retórica dos pós-modernistas, por vezes apolítica, e das afirmações apresentadas como se fossem verdades absolutas e autoevidentes. Reclama, ainda, do desleixo teórico e das características metodológicas de seus argumentos. Segundo ele, “as ciências sociais, entre elas a história, não estão condenadas a escolher entre teorias deterministas da estrutura e teorias voluntaristas da consciência, nem a passar de uma ciência frequentemente mal conduzida – comprometida com teorias defeituosas da causalidade e da determinação e com uma análise estrutural unilateral – às evanescências (sic) da “desconstrução” e ao império exclusivo do relativismo e da microanálise” (CARDOSO, 1997).

Em sua pedagogia histórico-crítica, Dermeval Saviani, um dos expoentes da filosofia da educação brasileira, cuja linha de pensamento resvala na fundamentação marxista, também reconhece na contextualização pós-moderna tão somente os efeitos de uma época de fragmentação e superficialidade, um período de decadência da cultura e de esvaziamento do trabalho pedagógico nas instituições formativas. A pós-modernidade seria, assim, apenas mais um meio ardiloso da produção ideológica “pós-capitalista” para encobrir a percepção dos homens a respeito do desenvolvimento histórico.

Numa análise mais aprofundada, o filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Jr. percebeu existir, nos argumentos de ambos os pensadores, uma espécie de ciúme ou receio de que “a pós-modernidade seria um suposto período onde a burguesia deixaria de ser classe revolucionária e passaria a ser classe dominante, e, assim sendo, se voltaria contra a própria cultura, pois, agora, teria que se perpetuar no poder através, embora não exclusivamente, de mecanismos ideológicos” (in Educação e razão histórica. São Paulo: 1994).

Excluídas, obviamente, as generalizações, o que mais parece depor contra a pós-modernidade, a ponto de praticamente torná-la ofensiva para alguns políticos e pensadores brasileiros, sejam eles da esquerda tradicional ou da direita reacionária, é sua visão política pouco engajada, a atitude desinteressada e, até certo ponto, despolitizada. Os pós-modernos aparentemente baseiam suas ações em conceitos que nada tem a ver com o peso da chamada “angústia de influência”. Também se mostram avessos aos extremismos clássicos, do tipo “esquerda-progressista” e “direita-conservadora”, uma vez que acreditam que tais definições estão absolutamente superadas. Os pós-modernistas, assim, descartam a ideia de revolução como passaporte necessário para uma nova sociedade, um novo homem e uma nova felicidade realista sem classes e sem desigualdade.

Na pós-modernidade, o fazer político — e, por consequência, todos os outros fazeres que dele deriva —, além de desacreditar o tradicionalismo reinante, representado até então pelos partidos, sindicatos e eleições representativas, geralmente é disseminado através de ações voluntárias de organizações não governamentais, assim como em colaborações espontâneas de grupos e/ou de pessoas físicas que investem na melhoria das condições de alguns setores, como a saúde ou a educação, pilares indispensáveis à sociedade. E é exatamente aqui, na tomada de decisão e na efetiva ação descentralizada e despolitizada, que talvez esteja o cerne da não-aceitação pós-moderna por parte deste conservadorismo tardio.

Situando historicamente, o pós-modernismo surgiu no Brasil em dois momentos distintos e, especialmente no campo das artes e das letras, os últimos anos da década de 60 foram marcados por um primeiro ensaio de imersão nesse movimento, ambas as vertentes combinando elementos das estéticas anteriores, vanguardistas e pós-vanguardistas. Este primeiro momento representa a mudança, ainda que tímida, de um modelo arcaico, modernista em sua concepção e, portanto, ultrapassado, para um novo conceito de produção artística, agora mais caracterizada pela redefinição e massificação das artes como um todo, pelo pragmatismo em relação aos ideais políticos do século e pela criação de um novo viés de produção cultural que engloba a criação local inserida na — e influenciada pela — produção global.

A década de 1980 se configurou como o segundo e mais importante momento pós-modernista nacional, onde os conceitos de massificação e contracultura se tornaram mais fortes e a superação de diversos aspectos do estruturalismo e do marxismo vigentes até então foram abandonados ou revistos. Neste cenário de mudanças radicais, especialmente nos setores político-sociais, notadamente marcados pelo movimento das Diretas Já e pelo processo de redemocratização nacional, a produção cultural começou a ganhar força através da estruturação técnica e da massificação. Na literatura, na música e no cinema houve uma reestruturação de valores; hits internacionais passaram a ser frequentemente consumidos pelos brasileiros, especialmente a música norte-americana e a poesia franco-inglesa, a própria música nacional, como a MPB e o samba, transformou-se, ganhando ares e batidas pop e os valores da contracultura e da planificação cultural revalorizou o saber, agora pensado como produto de consumo cultural.

No meio dessa mistura entre os universos das culturas de massa e erudita, nasceu um revigoramento da tradição dos grandes clássicos, do prazer de ler romances, das exposições de arte europeia, antigas ou modernas, sob a forma de imponentes espetáculos que apresentavam o novo saber em escala global. Semelhante ao ocorrido nos demais campos do pensamento pós-moderno, tanto no plano nacional quanto no internacional, a década de 1980 foi marcada pela normatização da cultura como um todo, ou seja, a arte deixou de lado seu apelo transgressor em favor de uma renovada e crescente preocupação com o caráter funcional e pedagógico das manifestações artísticas. A cultura, enfim, tornou-se produto para consumo das massas.

Para saber mais (artigo – parte 01):

JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (trad. Maria Elisa Cevasco). São Paulo: Editora Ática, 2004.

ANDERSON, Perry. As Origens da Pós-Modernidade (trad. Marcus Penchel). São Paulo: Jorge Zahar Editor, 1998.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo (trad. Júlio Assis Simões). São Paulo: Editora Studio Nobel, 2007.


Na última vez em que resenhei um romance de Gustavo Bernardo (o premiado A filha do escritor, de 2008), eu antecipei que o indizível acabaria mostrando a sua face. Mais cedo este ano, quando escrevi uma carta aberta sobre o seu novo livro teórico O livro da metaficção, eu expliquei o que escrevi nos idos de 2008: lendo tanto a ficção quanto os ensaios do autor, sempre ficava comigo uma ligeira sensação de que ele queria escrever sobre a morte.

Qual não foi a minha surpresa com este O gosto do apfelstrudel! A começar pelo título, que incomoda, que possui uma palavra em alemão! Depois, por se tratar mesmo de um livro sobre a morte! Mas primeiro, gostaria de falar um pouco sobre o título difícil.

Quem está habituado a ler as ficções ou os ensaios de Gustavo Bernardo, sabe que ele sempre apresenta muitas palavras em diversas línguas diferentes. Suspeito que sua intenção seja instigar o leitor atento e convidá-lo a desfrutar da beleza de se dizer de modo diferente diversas coisas iguais. Talvez seja um convite para nos espantarmos com a arbitrariedade da linguagem. O fato é que a arbitrariedade da linguagem acaba sendo também signo da arbitrariedade da própria existência: afinal, que sentido podemos inferir ao vivermos uma vida apenas para… morrer?

Pois além de apontar para a arbitrariedade de se dizer apfelstrudel com pronúncia em português, além de nos fazer invocar o gosto do folhado de maçã, o pequeno romance do escritor carioca (segundo ele mesmo me disse, o seu livro mais difícil) é um livro sobre a morte e, consequentemente, sobre a vida.

Fosse um romance filosófico sobre o movimento entre vida, morte, literatura, linguagem, impossibilidade, como tão bem fizeram autores como Maurice Blanchot ou Pierre Klossowski, que foram extensivamente explorados por diversos autores contemporâneos, poderíamos dizer que o novo livrinho de Gustavo Bernardo seria mais um produto desta linhagem. Mas o livro é maior que isso. Pra começar, o livro foge às peripécias e firulas linguísticas tão caras a um certo movimento do qual eu mesmo aderi. Ao contrário dos livros desta tradição (vou me esquivar de dar nome a ela, porque ela ainda não se esgotou para que possamos encarcerá-la num conceito, num nome, e analisá-la), o livro de Gustavo é narrado de forma simples, direta, bonita. Chega a ser um livro ainda mais belo porque despretensioso sob o ponto de vista formal.

O livro narra a história de H, um homem de idade avançada, diabete, câncer, depois ainda outro câncer. Após diversos tratamentos, H está em coma, mas ouve o que os seus filhos G e G, e ainda W e W, e sua esposa Z dizem ao seu redor. Graças ao poder da invenção mais sensacional de todos os tempos (diga-se: a ficção), H pode estar em dois lugares ao mesmo tempo: ele retorna à infância e relembra momentos da sua vida ao mesmo tempo em que permanece um homem à beira da morte, ouvindo o que a esposa e os filhos dizem ao seu redor. A história de H não tem moralismos, não tem lições, não tem melodrama. A história de H não tem vampiros, escolas para bruxos, lobisomens. A história de H não é trágica, não “dá ibope”, não é nem nunca será manchete de tablóide. A história de H é altamente subversiva, porque é a história da vida e da morte de um homem bom. E é pelo simples fato de não ser uma história cheia de sangue, violência, grandes eventos bombásticos, que a história de H é uma história que merece ser contada. É a história de um outsider – um homem que estoicamente nunca se lamentava, nunca se preocupava. Descobriu a beleza de saber deixar a vida acontecer e mantia a calma e a sabedoria de entender que poderia enfrentar o que quer que fosse com o que tinha à mão. A bondade de H não é a bondade do caridoso que prepotentemente doa – é a bondade silenciosa de um homem que não seduz ninguém, que não pontifica, não emite certezas ou ordens. Preferia perguntar, sugerir, pedir. Era contemplativo, digno e suave. Num mundo rápido e competitivo onde, como diz o Millôr numa reviravolta bem sacada, “o lobo é o homem do lobo”, a história de H é a história de um homem sereno que sabia quem era, como no poema de Borges: “Chego a meu centro, a minha álgebra e minha chave, a meu espelho. Breve saberei quem sou”. E consuma a sua sabedoria relembrando, no último instante, o sabor da sua sobremesa favorita, como Rémy, no filme As invasões bárbaras, cujo último pensamento é a lembrança de uma atriz erguendo a saia para entrar no rio.

Em suma, O gosto do apfelstrudel é mais um belo livro do autor carioca. É repleto de elementos que “arrumam” a nossa alma e nos motivam a valorizar este dom misterioso que nos é dado de graça: a vida. O livro celebra a vida de modo geral e particular: celebra também a vida de H, este outsider do bem.

Ah, quase esqueço de me dizer: H é Hayrton, pai de Gustavo Bernardo.

Anônimos, de Silviano SantiagoAnônimos, novo livro de Silviano Santiago, editado pela Rocco, é candente. O conjunto de 10 contos, ajustado numa expressão entre o lírico e a ironia, constrói-se, sob o modelo da literatura social, mas, sem que se esqueça da preocupação com o estar político, apresenta uma segunda linha de leitura, que trata, na evocação de um país que não mais existe, do percurso humanitário emoldurado pelas boas intenções, que se revelam tão inúteis quanto dignas de compaixão.

O autor faz parecer que os contos, ao narrarem a vida de pessoas anônimas, centrem seu olhar nas pessoas que, despossuídas de uma crônica que as localizassem no cenário da vida brasileira, estão – na mesma medida que a propaganda oficial da política dos anos 2000 o faz – conquistando a oportunidade de falarem por si próprias. O engano a que o autor submete seu leitor é de igual maestria.

Ao optar pela desconstrução do discurso que a personagem cria para si, o autor, além de chamar a atenção do leitor para as mazelas de um discurso, necessário e gasto ao mesmo tempo, em que sobressaem tanto a necessidade de incluírem-se as personagens no desenho das preocupações sociais quanto a inutilidade que tal discurso assume numa sociedade cujo sonho se transformou no estar solitário e masturbatório da individualidade.

O impasse que se mostra entre o discurso do humanitarismo, da solidariedade e a impossibilidade de dar a eles lugar no corpo social – com que os contos fecham – é o próprio impasse criado por uma sociedade que ao abandonar os vícios do arcaísmo, do artesanato e mergulhar no mercado e no desenvolvimento industrial.

Conto exemplar deste impasse é o belíssimo Dezesseis anos. A trama, envolvendo a mãe, o pai e o garoto, cuja idade dá título à narrativa, trata de uma família – que vive na linha da pobreza – e que tem como modo de vida e moral possíveis atitudes desusadas no cotidiano das cidades brasileiras. A imagem da mãe soprando a brasa do ferro é tanto mais bela quanto mais pungente é a vida que o garoto deve abandonar, em busca dos sonhos que coincidem com os da vida contemporânea, cujo símbolo máximo é o correlato da pobreza representada pelo desejo de adquirir uma bicicleta. Entretanto o que resta ao garoto é “comprar uma passagem da Viação Itapemirim para São Paulo”, levando as roupas passadas pela mãe, numa trouxa feita com as pontas do lençol.

A fuga do garoto revela um percurso inverso ao da família de Fabiano em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Se lá soava a tosca esperança do estudo, aqui resta a dura realidade do trabalho, a vida desglamourizada nas favelas e cidades superpovoadas e o mercado a abrir sua boca enorme para derrubar sonhos e deslocar definitivamente a compaixão como subproduto da moral atrelada ao mercado.

O livro de Silviano Santiago ao fazer o leitor mergulhar na vida das pessoas comuns tem a grandeza dos livros que fazem refletir e colocar em suspenso as realidades que se tornaram ou parte de um passado triste e precário ou parte de um presente dissolvido pelas necessidades que não mais permite ao indivíduo um mundo coletivo.

“Eis que ouvimos o uivo cavernoso de um Dom Vasco raivoso a berrar mais forte que o ronco da ventania que fustigava nossos costados e os mastros há muito desnudos de todo o velame:

— Vede, ó Lusíadas! — ele sacou a rapieira e a ergueu por sobre a cabeça —

Pois que o próprio mar treme diante da vossa coragem!”.

Xochiquetzal (Gerson Lodi-Ribeiro)


Sempre fui um fã confesso de histórias em quadrinhos, e mesmo antes de trilhar o caminho da literatura, eu já devorava pilhas e pilhas de HQs, pese o desespero do meu bolso e os gritos histéricos da minha mãe.

Lembro que um dos primeiros gibis [nem sei se esse termo ainda é usado hoje] que li era um “What If” — espécie de história hipotética que no Brasil ficou conhecido como “O que aconteceria se..?”— da Disney chamado “A caixa-forte dos Irmãos Metralhas” que imaginava a absurda e improvável situação do Tio Patinhas perder sua herança para os famigerados ladrões mascarados.

Era uma edição especial, caprichada mesmo, com direito a título brilhante e tudo o mais, que guardei por muito tempo, até cometer a loucura de presenteá-la ao meu irmão caçula. E uma relíquia de anos se transformou, em questão de dias, em milhares de pedacinhos entre os dedinhos ávidos dele.

Acabei me esquecendo dela até começar a ler um livro que, embora não tenha absolutamente nada a ver com tudo o que falei até agora, me trouxe à lembrança aquele universo hipotético que me apresentou às HQs.

Xochiquetzal - Uma princesa asteca entre os incasA obra em questão, uma espécie de vertente literária do “What if” que atende pelo nome bonito de História Alternativa, tem um nome prá lá de complicado: “Xochiquetzal – Uma princesa asteca entre os incas”, primeiro romance do carioca Gerson Lodi-Ribeiro, recentemente lançado pela também recente Editora Draco.

Primeiro romance, sim, mas não o primeiro passeio por esse ramo da ficção especulativa que trata das coisas que deveriam ter sido, mas não foram. Depois de brincar com outras realidades nas coletâneas de contos “Outras Histórias…” (1997), “O Vampiro de Nova Holanda” (1998) e “Outros Brasis” (2006), o autor traz neste romance uma releitura da época das grandes navegações e da relação dos portugueses com os impérios pré-colombianos descobertos quando da chegada dos conquistadores às Américas — ou às Cabrálias, para já entrarmos na dinâmica da história.

O livro, narrado sob a ótica particular de Xochiquetzal, uma princesa asteca que foi educada na corte lisboeta, tem início com a viagem de Dom Vasco da Gama, seu esposo, a frente da Esquadra da Vingança, uma grande força naval que foi enviada por El-Rei Dom Manuel contra Calicute, para vingar a morte de Fernão de Magalhaes que havia sido capturado e morto pelo Samorim.

Numa inversão da viagem original — aquela que aconteceu em nossa realidade — a Esquadra da Vingança que parte rumo ao oriente é mostrada como um reflexo do poder de Dom Vasco e, por conseguinte, do próprio “rei dos reis” Dom Manuel e de Portugal. Sob o olhar tendencioso e por vezes compassivo de Dona Xochiquetzal, é construída a imagem dos portugueses como os senhores absolutos dos mares, um povo cujo poder já havia conquistado e avassalado todos os grandes impérios do novo mundo.

Cumprida a vingança, após a destruição de Calicute a Esquadra parte de volta, fazendo o caminho que, em nossa realidade, foi a descoberta que conduziu os portugueses às Índias, através do Cabo das Tormentas.

Interessante observar que a travessia, nesta viagem, parece ser o único ponto do livro em que o autor flerta com a fantasia, numa espécie de remissão, proposital ou não, aos Lusíadas, que serve unicamente para confirmar — novamente — a quase onipotência que Dom Vasco possui até mesmo sobre as revoltas dos mares.

Por outro lado, a Espanha, enfraquecida pelas guerras internas entre os reinos de Castela e Aragão, desempenha no livro o papel de coadjuvante, mais como forma de mostrar a superioridade naval de Portugal do que como uma ameaça real, algo que fica claro durante o sítio ao Golfo Mexicatl, ou mesmo à Cabrália do Norte e a ilha de Mana Rata, orquestrado pelo Rei Carlos, e durante o enfrentamento com as naus portuguesas de Dom Vasco e do Vice-rei, que chegam poucos dias depois, em um auxílio que já não se faz necessário.

Vencido mais este desafio, que nas páginas do livro passa tão rápido que nem mesmo chega a ser considerado como tal, eles recebem das mãos do Vice-rei outra missão, para desagrado de Xochiquetzal, e partem para o sul rumo ao Império Inca.

E é nesta parte do livro em que os principais conflitos, principalmente os de ordem interna, passam a acontecer. Enquanto prestam auxílio ao Príncipe Atahualpa, um dos herdeiros à sucessão do trono incaico após a morte do Sapa Inca Huayna Capac, vemos a tentativa dos príncipes astecas e inca de travar conhecimento e troca de informações à revelia de Dom Vasco e, por conseguinte, da coroa portuguesa. Alguns pontos interessantes são levantados pelo autor, como as grandes epidemias que dizimaram as populações autóctones — tanto no Império Asteca, quanto no Inca — e ajudaram no avassalamento, por parte de Portugal, dos povos do novo continente, além da desconfiança de se os portugueses eram cônscios de serem portadores desta tragédia anunciada. A matéria chega até a ganhar certo destaque, com reuniões secretas em que o príncipe Atahualpa pede conselhos a Xochiquetzal e ao príncipe Itzcoatl, seu irmão, mas morre antes de alcançar corpo, ficando a dúvida de se esta história não poderia ter sido mais trabalhada ou se voltará em futuros projetos do autor.

A parte final do livro se dedica à narrativa mais pormenorizada da guerra interina que varre o Império, traçando uma visão mais do que interessante, oportuna até, acerca da dicotomia existente entre o modo de guerrear dos portugueses e dos Incas e de até que ponto a arte da guerra deve ser usada tão somente como um instrumento de conquista.

A história flui bem, graças em grande parte a habilidade do autor em criar um pano de fundo histórico verossímil e por dar a narrativa um viés mais voltado para a aventura, não se preocupando em demasia com explicações ou detalhes desnecessários.

Talvez o grande problema do livro — que não chega a ser exatamente um problema, mas um empecilho para leitores de primeira viagem — seja a forma como foi trabalhada a linguagem.

Escrita em um rico português quinhentista, com palavras que nem a avó da minha tataravó haveria de conhecer, a história ainda conta com um sem número de expressões em náhuatl, como títulos de nobreza e as designações dos filhos e filhas das Cortes Astecas, o que pode acabar comprometendo o bom andamento da história para um leitor médio. Porém, nada que prejudique em absoluto o livro. Antes, lhe empresta um ar de beleza bastante peculiar.

Confesso que não sou um leitor assíduo de histórias alternativas, mas no final da leitura não pude deixar de imaginar como seria a história hoje se o que se passa no livro tivesse realmente acontecido. Na pior das hipóteses, teríamos um pano de fundo histórico muito mais rico — e menos sangrento — do que o que de fato ocorreu.

Enquanto o último romance de José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal, que vai ser lançado em Portugal em Setembro (2010), não brota nas nossas prateleiras, e enquanto não me apetece ler Estação das Chuvas, lançado em Portugal em 1996, e aqui no Brasil só em 2000 pela Gryphus com tiragem de 10 exemplares (só pode ser, porque nunca encontrei esse livro), e agora em 2010 pela Língua Geral… Enquanto isso, leio Manual Prático de Levitação, e assim me sinto especial, já que foi publicado só no Brasil, pelo menos com esse título e com essa composição de contos.

Nunca tinha lido contos de Agualusa. Prefiro romances, de modo geral. Contos são perigosamente breves e tem mais chances de serem frustrantes. Em um conto de quatro páginas, se até a segunda o negócio não deslanchar, provavelmente vai afundar. E lá se foram minutos de vida que poderiam ter sido melhor aproveitados…

Manual prático de levitação não me faz querer rasgar o livro nem me matar, tampouco matar quem o escreveu, mas também não me faz levitar. São altos e baixos. Alguns contos bons, outros menos. São todos leves, alguns bem oníricos, outros apenas desperdício de papel, como o oitavo conto, chamado “O assalto. E não cito esse texto só porque a personagem assaltada se chama Juliana. É claro que queria muito que meu nome figurasse num texto mais surpreendente, intrigante ou bonito. Mas, não… Juliana aparece no texto frustrante, justamente naquele que submerge.

Por outro lado, os textos bons são realmente bons, e foi isso que me fez preservar o livro (e minha vida e a vida do autor!). Em “Se nada mais der certo leia Clarice”, por exemplo, é como se o velho Santiago (de O velho e o mar) tivesse levado um livro da Clarice (a Lispector) para alto mar quando tentou pescar aquele peixe gigante. Ou como se ela própria tivesse aparecido em seu barco trazendo um pernil e uma garrafa de coca-cola como opção para seus atuns crus e sem tempero.

Santiago não teve essa sorte. Quem tenta recrutar novos leitores de Clarice é um velho pescador pernambucano que, dolorido com a ignorância da humanidade, prefere sonhar peixes, como a escritora o ensinou em certa aparição. E Clarice é mesmo um remédio. Não como auto-ajuda, isso não… Seus textos não são tão óbvios. São como um remédio confuso para mentes confusas. É como a convivência entre os loucos. Eles se entendem. Os confusos também. Mas de volta ao conto, ele é assim: simples, leve e bonito. Afinal, um pescador que não apenas lê, mas que lê Clarice Lispector e Alberto Caeiro já é algo encantador. Aposto como esse pescador também lia Manuel Rui. Ele seria, então, a personificação do desejo de Agualusa de aproximar ou de ressaltar os laços entre os países de língua portuguesa.

José Eduardo Agualusa
Manual Prático de Levitação
(contos)
Gryphus, 2005
Coleção Identidades

De quando em quando recebo e-mails de escritores, que como eu, usam da internet para divulgar suas obras. Algumas vezes temos gratas surpresas, uma delas foi Manuel Carreiro, autor de “Os Pequenos Deuses da Trapaça”. O primeira coisa que notei em seu e-book, foi os pequenos detalhes, que logo me mostraram, de um lado o humor do autor sobre o próprio ofício, de outro a reflexão profunda sobre a forma de se publicar um livro.

Tive vontade, ao escrever estes breves comentários de apenas analisar os aspectos formais da obra do autor, pois valeria à pena me ater a eles, mas não seria justo com o autor não ressaltar o texto. De tal forma, gostaria de de ressaltar a primeira ironia do livro. Quem já comprou algum livro editado na América do Norte, deve ter notado que nas primeiras páginas, derramam-se elogios ao autor, sempre feitos por personalidades de respeito, para Manuel Carneiro quem o recomenda é somente aqueles que jamais poderiam ter lido o livro. Defuntos elogios ou elogios defuntos, os vermes que primeiro roeram as carnes de Brás Cubas, agora homenageiam Manuel Carreiro.

Tenho certa afeição à fábulas. O conto, em sua origem, tem a tradição fabular, e seus fiapos costumam ficar aparentes nos dentes dos escritores com formação filosófica. Desde o título “Pequenos deuses da trapaça” quanto na escolha da narrativa curta e direta, impregnada de metáforas e palavras cuidadosamente escolhidas por seus significados simbólicos a obra me remete à fábula. Talvez pela influência da obra crítica de Italo Calvino, procuro os elementos fabulares que ele escolheu para a literatura que ele esperava (v. Seis Propostas para o próximo milênio – Ed. Cia das Letras). O texto de Manuel Carreiro apresenta todas: 1) leveza, 2) rapidez, 3) exatidão, 4) visibilidade e 5) multiplicidade. Vale lembrar que a sexta, e última (Consistência), nunca foi escrita pelo italiano que faleceu antes de escrever para o ciclo de palestras que faria em Harvard.

Assim, o conjunto de contos do autor (aqui referidos como contos por apresentarem a forma breve e sem entrar na classificação das formas, que para mim é apenas ilustrativa e acadêmica), formam um pequeno universo de fábulas de nosso tempo. Está lá sua reflexão do (anti) herói moderno, em constante crise com seu mundo. Não vejo como é possível fazer literatura de relevância sem explorar cada aspecto dessa ruptura definitiva.

Não há como ler um dos contos de “Os Pequenos Deuses da Trapaça” sem ao final ter mais dúvidas que certezas. A primeira, talvez única, certeza é que estamos diante de um texto em que nenhuma palavra está fora do lugar, como se cada uma delas fosse resultado de reflexão. Esta é a reflexão que nos gera a exata dúvida que nos leva de volta ao início do conto. A angustia que encontramos no texto está na imagem refletida do leitor sobre o texto buscando não se identificar com cada linha que parece envolvê-lo. Não queremos estar no texto de Carreiro, mas somos levados à releitura exatamente pela dialética Hegeliana dessa busca cíclica.

O impulso cíclico (e reflexivo), não é vicioso, como pode esperar o leitor rasteiro, mas virtuoso. Nas palavras do autor é um livro de resistência e hermético na forma. A leitura fácil das redes sociais é negada. Por certo, ao pensar “que merda é essa?” (como deseja o autor) o leitor precisa abrir mão das facilidades do conteúdo vazio e rasteiro da era da informação e encarar a reflexão com o sabor amargo dos remédios.

Sem entrar na descrição de cada um dos contos, vale ressaltar especialmente o conto “Quero ser outro”. Nesta pequena estória, o autor trabalha com a dualidade do ser humano, sobre aqueles impulsos de admiração e inveja que nos faz querer ter/ser algo que não temos/somos. O conto encerra ao mesmo tempo com uma frase reflexiva mas que dá o ar de “causo à moda antiga”.

Creio que vale a pena, para quem for ler a “Os Pequenos deuses da Trapaça” degustá-lo lenta e pacientemente, pensando a cada conto sobre o que leram e preparados para voltar ao seu início. Como uma boa piada, voltando ao tema do humor, cada sorriso que a obra nos proporciona, mostra nossa capacidade de rirmos de nós mesmos.

Segue abaixo, pequena entrevista que realizei com o autor Manuel Carreiro:

1. Eu notei bastante humor em pequenos detalhes do seu livro. Entre eles os trechos de resenha de autores já falecidos, que não poderiam ter lido seu livro. Qual é a importância do humor em sua prosa?

O humor é importante para abrir caminho pra ironia. Aquela página das resenhas dos autores falecidos é apenas um dos diversos aspectos do livro que visam fazer chacota da indústria cultural e do mercado editorial. Aliás, eu procurei fazer um livro sutil, mas altamente subversivo na sua sutileza. O título desta página das resenhas (International praise for “Os pequenos deuses da trapaça”, by Manuel Carreiro) está em inglês justamente para parecer pomposo e para fazer troça destas páginas ridículas muito comuns aqui na América do Norte, onde os resenhistas dos jornais fazem comparações esdrúxulas como “o novo Elvis da crítica cultural”, “um verdadeiro pop star das letras”, “top da lista do new york times review do caralho a quatro”, apenas para alavancar as vendas de um livro que é, geralmente, muito ruim. Coloquei os comentários na língua original do autor (inglês, português e alemão tosco, porque não sei nada de alemão) no intuito de apontar para a grande bobagem que essas páginas são. E também pra forçar a curiosidade de um leitor atento. O leitor curioso de verdade vai ao dicionário conferir o que tá escrito ali… A citação do Gutemberg, por exemplo, é extremamente irônica e cortante em tempos de e-books e de aparelhos de leitura – mas me pergunto se alguém foi pelo menos ao Google translator pra conferir o que tá escrito ali! Há outras coisas que considero engraçadas no livro. O conto sobre Adão e Eva é na verdade uma piada. O comportamento do personagem número um do conto “Quinta-feira” é patético e triste. Os meninos de “Quero ser outro” são ridículos como nós, querendo sempre ser outra coisa que não nós mesmos. Acho que meu livro possui um humor meio amargo, mas também necessário. Mas é um livro que ri principalmente do autor.

2. Por que a preferência pela forma curta?

Fernando, em determinada altura da minha vida, resolvi assumir a minha incompetência. Eu já havia decidido há alguns anos atrás que eu jamais seria capaz de escrever um romance relevante. Sinceramente acho os meus contos relevantes. Não digo que sejam melhores nem piores do que os de ninguém, mas são relevantes porque são instigantes e abertos. Convidam o leitor atento a pensar um pouco. Claro que escrevo em busca de um leitor ideal. E o meu leitor ideal é lento, preguiçoso, vagaroso. Gosta de ler bem devagar, reler um trecho. Coçar o queixo. Pensar um pouco. Sublinhar. Dobrar a página e maltratar o livro. Desdobrar a página. Retomar a leitura. O livro do meu leitor ideal tem manchas de café e farelo de pão dentro dele, porque ele carrega o livro consigo. Ele não sacraliza o objeto. Ele gosta do que vai lá escrito. E aquilo o influencia. Ele sente o que lê. E a única maneira que encontrei para me expressar foi assim – escrevendo contos. Por ora, não vou mais escrever ficção. Pode ser que daqui a 10, 15 anos, se me for dada a graça de estar vivo, apareça algo. Mas por ora, fico 4 anos escrevendo a minha tese-manifesto de doutorado sobre a crise da educação contemporânea e rascunhando um roteiro de filme.

3. Este é um livro de estórias. como você diferencia Estória e História e porque essa escolha para seu livro?

Na verdade não faço distinção entre Estória e História. Até mesmo porque a História também é uma arte narrativa. Ela é uma Estória. Coloquei “Estória” lá por duas razões: uma é fazer uma espécie de homenagem ao João Guimarães Rosa. A outra é resgatar uma palavra tão bonita que caiu em desuso. Resgatar a palavra também é afrontar o desuso.

4. No livro existe, de maneira recorrente, a decomposição de palavras. em que aspecto foi importante a reflexão sobre a forma na expressão do conteúdo na composição do livro?

Decompus e fundi palavras para dar ritmo à narrativa, para inserir pistas sobre os paradoxos e enigmas presentes no texto. Pensei bastante sobre a forma. Houve um momento em que achei que a decomposição, a fusão, a inversão de palavras, enfim, tudo aquilo estava errado. Daí limpei todo o texto. O livro inteiro. O texto ficou fácil, gostoso, compreensível, amigo do leitor. Daí me senti desonesto. Achei que a melhor forma de ser legal com o leitor é não sendo amigo dele. É fazer algo que perturbe a sua alma sossegada. Daí procurei sujar o texto mais com esses elementos todos. Achei que era mais honesto escrever pra mim. O conto “Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal”, por exemplo, me tomou 3 anos ininterruptos de trabalho. Jamais o abandonei por 3 anos. Reescrevi, tornei-o mais acessível, compliquei novamente, cortei, reescrevi à mão. Achei que era necessário o livro ser formalmente quase hermético assim para manter o seu caráter subversivo. Quando digo que ele é subversivo, quero dizer que ele força o leitor a pensar e a refletir. (Por isso espalhei espelhos pelo texto). Até por isso, sei que pouca gente irá lê-lo. Ele é um livro anti-twitter, anti-mensagem ao celular, anti-falar ao telefone e dirigir, anti-MSN, anti-redes sociais. Gosto de imaginar um leitor imprimindo o e-book em casa, encadernando o livro e levando ele para uma floresta. Ele dá uma banana pra civilização, e fica horas, com um lápis à mão lendo e pensando – “que merda é essa?”

E essa inquietude muda sua vida pra sempre.



Vale Lembrar que o Livro “Os pequenos Deuses da Trapaça” está disponível para download no site do Autor: http://ospequenosdeusesdatrapaca.wordpress.com/

Neon Azul, de Eric Novello, editora DracoMe disseram que era um dos ramos – parece que são vários – da literatura fantástica e lá fui eu, que não gosto de literatura fantástica e, surpresa, não encontrei nada, zerinho, de fantástico em todas as linhas que li, de um fôlego só, do Neon Azul.

Sim, é do Carlos. Carlos Eric Novello. Que é amigo, sócio e parente. Então, aviso logo que não se trata de uma crítica literária eivada pelo favoritismo porque: é simples, não faço crítica literária. Faço crítica de arte. Não sei o suficiente sobre a produção atual de cada escritor importante ou não, a história da literatura ou sua teoria para escrever a respeito. Então, não só não é favoritismo como arrisca ser o contrário: um desfavor.

Mas arrisco porque gostei. Havia começado, ao mesmo tempo, a fazer o esqueleto do que vou falar, com Ruffato, na Bienal de Curitiba, em uma mesa cujo título é: literatura e resistência. E o que vou falar lá é que a escrita migrou no eixo temporal para o eixo espacial.

Com isso na cabeça, leio o Neon Azul sacando que se trata também de um eixo espacial cuja temporalidade finge que vai mas volta, sempre para trás, até que a gente saiba como tudo começou. E tudo começou com um editor que vende a alma ao diabo. Aliás, a alma não, que isso seria deveras demodé. Vende o autor. O Lucas, alter ego do Eric Novello em mais de um livro. E que, assim, coitado, vai começar a escrever a respeito da boate Neon Azul sem nem saber que está sendo manipulado. Este o final da história. E seu começo.

Aí você diz: ah, tem diabo de carne e osso (e terno branco), é literatura fantástica! Só se você for um cara de grande literalidade. Porque eu, por exemplo, que não milito na área fantástica, cansei de ver editor vender a sua profissão ao diabo, ali, na minha frente, xícara suja de café no canto da mesa.

Tem mais no livro: tem um cara que atravessa o espelho até ver o assassino que ele mantém preso do outro lado. E tem bonequinho de infância, um sobrevivente de todas as maldades de que todas as infâncias estão cheias, cuja boca de linha parece capaz de engolir uma pessoa inteira. E mais lacanagens acessíveis a qualquer descrição realista de jornalista idem.

Tem um cara que não dorme.  Ele é o gerente da boate. É claro que ele não dorme. E pergunta para a Caró se, quando o deadline aperta, ela dorme. Fantástico nenhum. Vida normal.

A escolha de um mendigo para narrador me encantou. Me encantaram as frases curtas, diretas, limpas. E engraçadas. E aí é que está. Não é que não haja fantástico. É que ele é visto com um total tédio de quem o conhece e tropeça nele desde que nasceu. É um fantástico sem aquela cara de espanto, ó, mas ele é um vampiro!!! Cara, tem vampiro paca chupando o nosso sangue neste exato momento e é isso aí.

Um trecho:

“Nunca fui à Índa e não acredito no poder purificador de um rio poluído por substâncias cancerígenas, mas trazia no peito um pingente na forma do dente quebrado de Ganesha. Acreditava que ele me protegia de alguma maneira.”

Quem fala isso é a personagem Dita, uma striper. E, sim, você adivinhou, o dente não a protege de nada.

Tem Dita, Gabriela, Ricardo e mais muitos personagens. Você não fica sabendo a historinha completa de nenhum deles. É uma fatia de um bolo. É horizontal, não vertical. Sincrônico, em vez de diacrônico. É um pedaço de vidas que giram em torno da tal da boate. Incluindo o cachorro de rua. E o lixo.

Neon não é azul na vida realmente química. É roxo. E em geral passa todo o tempo  vibrando dentro de um tubo. Com isso, emite luz. Um tubo de neon é como se fosse, então, uma linha de luz a marcar contornos, desenhar letras. Deveria ressaltar limites, formas. Sim e não. A luz também tem o efeito de impedir a nitidez dos contornos. Não tem bom ou ruim a ser contornado ou ressaltado por este Neon. Você não escolhe entre ser pai de família ou assassino. Dá para ser os dois. Da mesma forma que também dá para fazer um livro de literatura fantástica e realista ao mesmo tempo.

Ah, mais uma coisa que me encantou. A boate Neon Azul fica na Lapa. É um bairro do Rio que faz parte da minha história. Eu já vi, eu, o Neon Azul, ao sair da redação de algum jornal, ao descer ou subir para Santa Tereza já escurecendo ou ainda por amanhecer.



Neon Azul
Eric Novello
ISBN: 978-85-62942-08-2
Páginas: 168
Preço de capa: R$ 31,90
Editora Draco

Peter Burke escreve periodicamente para a Folha de São Paulo e resolveu, recentemente, juntar tudo, todos os ensaios, e publicá-los em forma de livro. Não sozinho, é claro. Ele não precisa disso. A responsável foi a Civilização Brasileira, um dos milhares de selos do Grupo Record.

Eu não assino a Folha, logo nunca havia lido seus textos de jornal. E existe uma enorme diferença entre aquilo que se escreve para uma coluna de jornal e o que se escreve na Academia, como é o caso dele. Como historiador e professor, seus textos costumam ser mais longos, específicos, aprofundados. Já no jornal, os caracteres são contados e o tema, ou pelo menos o título, precisa ser muito atraente para gerar interesse por parte do leitor de jornal, que é um público muito variado. Bom, o fato é que ninguém investe tempo na leitura de um texto que não parece atraente.

No caso de Peter Burke, ele soube se adaptar ao jornal com maestria. Escreve sobre todo tipo de assunto, de fofoca a Michel de Certeau. Os textos são curtos, são também leves e até superficiais. Mas não tão superficiais a ponto de transformá-los em textos bobos ou inconsistentes. Até porque essa característica seria improvável num texto escrito por Peter Burke. São bons. Funciona assim: O Peter levanta um tema, desenvolve-o um pouco e deixa-o no ar. Você decide se vai querer pesquisar mais sobre o assunto depois ou não. É muito simples e dá certo. Esse livro de ensaios de que falo, O historiador como colunista, é como um catálogo de pré-projetos para uma pós-graduação. Aliás, essa definição seria um ótimo chamariz para as vendas dispararem!

Um dos ensaios mais curiosos é o intitulado “A leitura tem uma história?”, da seção “A história social do cotidiano”. Nesse texto ele comenta a transição da forma como é feita a leitura. Explica que antigamente as leituras eram públicas, feitas em voz alta. Com o tempo, a leitura foi se tornando uma atividade individual, solitária. Durante essa transição, muitos liam silenciosamente, mas fazendo movimentos labiais. E, no final das contas, atualmente, as pessoas lêem de todo jeito. Alto, baixo, sozinhos ou em público. É interessante. Mas o que me fez pensar mesmo foi o encerramento do ensaio, em que o autor conclui sua proposição assim:

“na história cultural a mudança é mais aditiva do que substitutiva; em outras palavras, quando novas idéias, novos objetos ou novas práticas aparecem, coexistem com outros mais velhos, em vez de os expulsar.” (p 230)

Será mesmo? No caso da leitura, que é uma prática, funciona, mas penso nos vinis, nas fitas cassete e no CDs, e em como esses objetos estão todos sendo substituídos pelos mp3 e cia. Hoje em dia, os discos de vinil são peças de colecionadores, a tiragem é mínima. As fitas sumiram do mapa. Os CDs estão sendo gradualmente superados e logo serão esquecidos. É claro que tudo isso acontece em longo prazo, mas existe um prazo. Fica difícil acreditar numa coexistência justa. Não acho que o vinil e o mp3 estejam coexistindo no momento.

Isso tudo me leva a pensar nos e-books. Eu, como amante dos livros de papel que sou, gostaria de me convencer de que o e-book não vai expulsar o livro tradicional da face da terra.

Outro dia li uma matéria que dizia que o Japão não sabe mais o que é livro impresso. Os jovens leem romances no celular. Isso é um extremo. Bom, o Japão é um extremo. Mas em outros países, como Estados Unidos e Alemanha, muitas editoras já trabalham com venda de conteúdos digitais para equipamentos de leitura eletrônica. E a tendência é mesmo que esse mercado cresça. A nova geração de leitores vai poder fazer mais uma atividade na frente de uma tela. Vai poder clicar em links no meio de um romance e ir para um dicionário, quem sabe. As crianças vão ouvir sons, ver ilustrações se movimentando e etc. O “livro” vai ter sempre o mesmo peso, vai poder ser levado para todo o lugar. Tudo muito encantador e atraente.

Por outro lado, as tomadas serão muito requisitadas. Os direitos autorais terão que ser levados a sério. E as anotações feitas nos livros impressos não ficarão mais para a posteridade. Os pesquisadores do século XXII ficarão desapontados com a perda desse precioso material. Quanto a isso, Peter Burke tem toda a razão:

“os historiadores têm boa razão de se alegrar com o fato de que algumas pessoas leem com os dedos [...], sublinhando frases ou escrevendo comentários sarcásticos nas margens dos livros [...]. Depois da passagem de uma geração ou duas, esses rabiscos marginais, como os grafites nas paredes, deixam de ser irritantes e se transformam em preciosos indícios sobre atitudes do passado. Existe uma quantidade dessas anotações e elas agora são estudadas cada vez mais profundamente.” (p. 228)

Não me considero uma pessoa radical, mas agradeço muito por ter uma idade que vai me permitir comprar e conviver com os livros impressos até meus últimos dias. Que fique claro que não quero morrer cedo, só espero que essa mudança ocorra num prazo bem longo!

O título é ótimo. Sempre pensei escrever um livro com um título assim, ou algo como Quantos gritos tem o silêncio ou Quantas mortes tem a vida. Acho genial. Milhares de pessoas já devem ter tido essas idéias, mas acontece que apenas uma delas é famosa, escritor conhecido, pelo menos em Angola, o Ondjaki.

No Brasil, com exceção de pessoas do meio acadêmico especializado, acho improvável que alguém puxe conversa na fila do banco sobre Ondjaki. Na realidade, acho pouco provável que puxem qualquer conversa sobre literatura… Mas se isso acontecesse, naturalmente a personalidade seria brasileira, portuguesa ou de qualquer outra nacionalidade, desde que best-seller ou autor consagrado, canonizado, que certamente foi um best-seller em seu tempo.

Em comparação com outros escritores angolanos, Ondjaki é jovem. Começou a publicar há pouco tempo, em 2000 (Actu Sanguíneu), mas já ganhou prêmios e foi traduzido para algumas línguas, o que não significa popularidade, uma vez que ele escreve em português, tem livros publicados no Brasil e ainda assim está longe de ser conhecido pelo grande público daqui.

Também, não se pode esperar muito do público leitor brasileiro. Aqui, a máxima de Silvio Romero ainda funciona consideravelmente: “neste país aquilo que muito agrada, tenho a certeza de que não presta.” Lê-se pouco e mal. É claro que as coisas mudaram bastante desde o final do século XIX, mas a verdade é que o brasileiro continua não lendo. O cidadão alfabetizado, até com formação universitária, com poder aquisitivo, não lê ou lê muito pouco. Por isso é muito comum comemorar quando lêem alguma coisa, nem que seja uma porcaria: pelo menos está lendo…

Está certo que a literatura no Brasil começou a despontar no final do século XIX, quando o valor social do escritor foi reconhecido, o romantismo instaurou, ao seu modo, bastante criticado, a idéia de nacionalismo e etc. É tudo muito recente, sabemos, mas desde então, para justificar a falta de hábito da leitura, as mesmas desculpas são ouvidas: a taxa de analfabetismo é grande, o acesso aos livros é difícil, fisicamente e financeiramente. Acontece que essas justificativas, exceto o analfabetismo, não procedem nos dias de hoje. O livro está acessível. É vendido em cada esquina, em bancas de jornal, em sebos, em camelôs, em cidades pequenas e grandes, no interior, nas capitais. O preço varia de 50 centavos a 500 reais, ou seja, cabe em todos os bolsos. Além disso, há bibliotecas públicas nos grandes centros e, em algumas cidades pequenas, há bibliotecas particulares abertas à comunidade, montadas por cidadãos exemplares que pelo simples gosto de leitura resolveram incentivar o contato com o livro.

Conclusão: o que falta é vontade.

Mas o que Ondjaki tem a ver com isso? Muito. Em Angola, o problema é o mesmo. A diferença é que lá a literatura ampla e divulgada é muito mais recente. Na década de 1950 é que começou a tentar crescer, mas com a ditadura portuguesa dominando as ruas e as vidas das pessoas, tudo ficou mais difícil. A temática dos romances, contos e poemas, era muito recorrente. Tudo muito social, descrevendo as agruras plantadas pela colonização e todas aquelas dificuldades enfrentadas pela população. Eram muitos os pobres, oprimidos, e sem estrutura alguma. A literatura era uma ferramenta de luta, de oposição. Depois de 1975 é que as coisas começaram a melhorar, bem lentamente. Um grupo de escritores fundou a UEA e então um mercado editorial pode se formar. Vários autores publicaram suas obras, mas o assunto abordado, em sua grande parte, mantinha o mesmo caminho anterior a 1975. E não poderia ser diferente. Suas memórias, sentimentos e experiências estavam todas relacionadas ao que viveram durante séculos. Quando não é escravidão, é ditadura. A liberdade é tão jovem quanto Ondjaki. Portanto, as desculpas utilizadas para justificar a falta de leitura do público brasileiro não cabem mais aqui, e sim em Angola, que já tem posto em prática vários projetos culturais de incentivo a leitura, abertura do mercado editorial, financiamentos para novos escritores, e etc. Resta saber se por lá vai dar certo. Por aqui, não sei qual é a solução. No momento, estamos regredindo. Tentamos arduamente fazer crescer a taxa de analfabetismo e tenho certeza de que conseguiremos. No Rio de Janeiro, pelo menos, o empenho é grande. Estudantes chegam ao ensino médio da rede pública estadual sem saber ler. Dessa forma, poderemos culpar o analfabetismo pela falta de leitura com toda a tranqüilidade.

De volta ao Ondjaki, que acabou sendo coadjuvante em meio as minhas reclamações, seu texto continua muito bom. A escrita é leve, informal, os termos africanos empregados no texto imperam. Folheando o livro de relance, é quase outra língua. Mas é gostoso, diferente. Não é um livro imperdível, mas vale a leitura. Quantas madrugadas tem a noite é uma conversa jogada fora, papo de botequim, só que na África. Lá também tem conversa fiada. Algumas menções à política, à tradição, alguns questionamentos, todos regados a muita cerveja. Uma das passagens mais bonitas do texto, se não a mais bonita de todas, é essa:

“Como sabem, sonhar com o mar é sonhar com as lágrimas, e não as lágrimas leves dos momentos felizes, mas as lágrimas de qualquer tristeza que está para chegar…”. (p. 156)

Os angolanos têm uma relação muito dolorida com o mar, que era a via de chegada e de partida das embarcações que levavam os homens, os pais de família, os jovens, para o trabalho forçado. E também trazia as más notícias, quando os mesmos não retornavam.

Quantas madrugadas tem noite foi publicado em 2004 em Portugal, pelo Editorial Caminho. Aqui no Brasil, agora em 2010, foi publicado pela Leya, editora portuguesa instalada recentemente em São Paulo. Com escritórios em Moçambique, Angola, Portugal e Brasil, essa editora pretende fazer um amplo intercâmbio literário entre esses países e divulgar obras dos novos autores africanos.

Quando fazia escola de cinema, minha professora de estrutura dramática – de quem guardo ótimas lembranças, mas não consigo me lembrar do nome – apresentou Abril Despedaçado, de Walter Salles, com tamanha riqueza de detalhes que ficamos nós, os alunos, refletindo na aula seguinte se o filme mostrado por ela não seria melhor do que aquele filmado de fato pelo diretor, e também qual seria a triangulação entre esses dois pontos de vista e o do albanês Ismail Kadaré, autor do livro que foi livremente adaptado por Salles.

Já disse em resenhas anteriores que não acredito em um texto imparcial, muito menos em um texto sobre um texto, que é o caso de uma resenha, porque em tudo que lemos ou vemos, 50% cabe a quem exibe e 50% a quem olha, sendo o olhar um filtro instantâneo que não se controla e que depende da bagagem do dono desse olhar, não necessariamente no sentido pedante e intelectual, mas no das coisas que nos cercam ou nos faltam enquanto planejamos a vida.
Digo isso porque o olhar é um ponto importante do recorte proposto pelo autor e porque foram vários os pequenos detalhes me fizeram gostar do novo livro de João Paulo Cuenca, O único final feliz para uma história de amor é um acidente. Eu que passo o dia no computador, imerso na internet, já deixei de ter um pensamento linear faz tempo, pois lido com pequenos blocos de informações que chegam e se vão, são selecionados e descartados sem parar, o que não deixa de ter a ver com a estrutura narrativa múltipla do livro. Vou tentar explicar alguns desses detalhes em um recorte meu, criado sem nenhum sentido prático, apenas por diversão, já que literatura, às vezes a gente esquece, também serve para tal.

Yoshiko

Da primeira vez que li uma chamada sobre o livro na internet, me chamou atenção a Companhia das Letras, teoricamente avessa à literatura especulativa, vendê-lo como um “romance que se passa em um futuro próximo na cidade de Tóquio”. Fãs de ficção-científica estão acostumados com autores do gênero usando os termos near future e far future para situarem seu livro diante do público, e, de repente, lá estava a Cia das Letras usando near future em um release sem medo de ser feliz, o que considero um bom sinal, já que caminho entre a literatura especulativa e realista como leitor e autor. Para quem piscou nas últimas notícias do mundo literário, O único final feliz para uma história de amor é um acidente (um título de mais de meia tuitada) faz parte da coleção Amores Expressos: os autores publicados dentro dela viajaram para diferentes cidades do mundo para se inspirar. Cuenca, você já deve ter adivinhado, viajou para Tóquio para escrever essa teia de estranhas histórias de ódio e amor.

Uma delas se passa entre Yoshiko e o Sr. Okuda. Ele, um poeta supostamente aposentado, visto como artista sensível pelo Japão e como um homem cruel pela família, é o pai de Shunsuke, o protagonista, e dono de Yoshiko. É Yoshiko quem abre o livro e nos conta que ela é a versão high-tech de uma boneca inflável, uma andróide de 50 milhões de ienes com todas as medidas feitas sob encomenda para agradar aos caprichos do Sr. Okuda, inclusive os sexuais e suas modestas medidas. De vez em quando, Yoshiko assume a narrativa em letras vermelhas e compartilha sua visão de mundo com o leitor. Tudo que sabe vem das experiências que passa com o Sr. Okuda, das poesias que ele recita para ela e de suas explicações contraditórias sobre o mundo. A evolução de pensamento de Yoshiko carrega uma ironia leve que vai se acentuando no decorrer da história e se integrando à trama principal.

“Antes do Sr. Atsuo Okuda abrir a caixa, tudo estava escuro. Mais que isso: não havia nada para ser iluminado antes do Sr. Okuda abrir a caixa. Se o Sr. Okuda nunca houvesse aberto a caixa, nada existiria. O mundo só começou a partir do momento em que o Sr. Okuda abriu a caixa e disse a palavra. Ele disse: Yoshiko. E Yoshiko ficou sendo o meu nome”.

Além de poeta, pai insensível e parceiro sexual de uma andróide, o Sr. Okuda também é dono de uma agência de espionagem e assiste a tudo de seu periscópio.

O Periscópio

Faz tempo que Big Brother is watching you deixou de ser um jargão de 1984 de Orwell. Somos uma sociedade conectada em tempo integral, exposta em mídias sociais, viciada em shows que exploram a realidade de n maneiras diferentes. Essa sociedade exibicionista e voyeurista é abordada por Cuenca como mais uma camada narrativa. O leitor não só acompanha a vida do protagonista Shunsuke, como o acompanha espionando a vida de sua amada Iulana, virando parceiro de sua invasão de privacidade em um convite direto:

“Através da janela do café, vemos Misako chegar vestindo um sobretudo branco que cobre suas pernas até a metade do tornozelo. Os botões do casaco são dourados, assim como os detalhes das botas do salto alto, as unhas e o tom geral da maquiagem”.

Shunsuke, e agora o leitor, é espionado, mas também espiona. Está dos dois lados ao mesmo tempo, o que permite ao autor preservar um olhar estrangeiro sem comprometer a credibilidade do protagonista como nativo. No fim das contas, O único final feliz… é um mosaico de pessoas (ou não) que não se adéquam ao seu entorno. Iulana, interesse amoroso de Shusuke, é de fato uma estrangeira, pouco fala do japonês, em nada se parece com as japonesas. Desde o início ela é feita para ocupar o papel de outra mulher – uma japonesa, por isso um encaixe impossível – e quando deixa de ser simplesmente uma substituta, Shunsuke percebe que não a conhece de verdade, um não conhecer comum a vida nas grandes metrópoles. Já ele, apesar de japonês, é alguém que não gosta da vida que leva, do emprego que não pensará duas vezes em largar, da sina maldita de seu pai. Sua inadequação é outra, mas também persistente.

O Fugu

Para os ignorantes como eu que não sabiam disso, fugu é o baiacu. Ele está lá na capa da Retina_78 que é linda e tem como seu único pecado ceder à mistura de “Orange and Teal” que se tornou obsessão nos filmes a cartazes Hollywoodianos. Ele está presente através da figura de Suguro Shibata, braço direito do Sr. Okuda e professor da Associação do Fugu Harmonioso de Tsukiji, especialista em cortar o baiacu e tirar tudo que possa envenenar os que gostam de degustá-lo, e também como o fugu número 572 do lote 09.4509, do qual acompanhamos parte do percurso num comparativo ao estado de espírito de Shunsuke e sua incapacidade de descobrir que rumo tomar na vida sob a sombra (e câmera indiscreta) do pai.

Falando em pai, Shunsuke reservou ao dele o apelido carinhoso de Sr. Lagosta Okuda, por vê-lo em seus delírios dessa forma, com cara de lagosta, a despejar suas verdades sobre a vida do filho em forma de poesia.

Gyodai

Como não gostar de um livro que tem o Gyodai, passeando assim, como quem não quer nada, no meio da cidade? Se você não tem a minha idade, talvez não saiba que esse monstrinho simpático com um olho enorme era um personagem-chave da série japonesa Changeman. Quando o Esquadrão Relâmpago conseguia destruir o vilão do episódio, o Gyodai aparecia e lançava um raio no cadáver, fazendo com que ele não só voltasse a vida como também se tornasse um monstro gigante, prontamente combatido pelo robô gigante dos Changeman. Além de ser mais uma brincadeira com as referências da cultura japonesa presentes no livro e mais uma referência ao olhar, o Gyodai marca o ponto em que o realismo e o fantástico se mesclam fora dos delírios do protagonista, e passam a ser indivisíveis, numa naturalidade que é comum à juventude fã de videogames, 3D, animes e cosplay, e abrindo caminho para o final, aquele, do acidente.

Assim como Lars von Trier fez em Dogville no começo de cada capítulo visual, J.P. Cuenca explicita a tragédia no título e no início do texto, uma jogada, não sei se intencional, que desloca a atenção do final do livro para o processo que leva até ele, permitindo aproveitar melhor seus múltiplos olhares, como uma mosca, como a sala do periscópio, numa jornada fragmentada por um mundo underground que pode ser Tóquio ou os recônditos da mente do protagonista e de seu parceiro de voyeurismo, o leitor.

01. Quem está chegando agora talvez não saiba que você já é autor de três livros de mais de 500 páginas, com um número considerável de fãs. Qual foi a importância da Trilogia Tormenta na sua formação como autor?

Como foi o meu início, é claro que foi um aprendizado. A Trilogia foi um espaço para experimentar várias coisas, ver o que dava certo ou não. Mas isso vale para qualquer início, eu acho.

Mais especificamente, a importância da Trilogia para mim foi dupla. Por um lado, escrever em um universo já pronto permitiu que eu me concentrasse nos personagens e tramas, usando os elementos pré-construídos do cenário como base. Uma obra de fantasia (ou qualquer uma passada em um mundo secundário) pode sobrecarregar um autor de primeira viagem, pois teoricamente não há limite para o que você pode criar. Será que vale a pena detalhar todas as espécies de margaridas do mundo? Até que ponto no passado vai a história pregressa que você vai criar? Isso pode paralisar o autor, deixá-lo preso em detalhes que, embora úteis como background, nunca aparecerão na obra. Usar o mundo de Arton (do RPG Tormenta) liberou-me disso tudo. Outro ponto positivo foi a obrigação de trabalhar com editores e com os criadores do cenário. Todo escritor precisa de um editor, mas sempre ficamos tentados a ignorar qualquer um que discorde da nossa visão da obra. Lidando com os donos do cenário, essa não era uma opção! Eu tive liberdade quase ilimitada para mexer em Arton, alterar o mundo e até mesmo explicar pontos fundamentais de seu passado, mas sempre submetendo esses elementos à aprovação dos editores. Hoje em dia, é fácil encarar com naturalidade essa relação de trabalho.

O segundo (ou terceiro?) ponto de importância da Trilogia foi algo bem mais materialista: o público já embutido. Costumo dizer que, embora o principal para qualquer autor seja escrever bem, só escrever bem não costuma ser suficiente no Brasil (infelizmente). Você pode publicar uma obra fenomenal e ser ignorado pelo público. Em geral, é preciso algo a mais — você consegue divulgação em algum grande meio de comunicação, funda sua própria editora, ganha algum edital do governo, etc., e só então consegue alguma projeção e sucesso (inclusive financeiro). Para mim, esse “algo a mais” veio com o público de Tormenta. As pessoas leram a Trilogia, num primeiro momento, motivadas pelo cenário. Foi apenas a partir do segundo e (principalmente) terceiro livros que começou a se formar um público próprio dos romances, não necessariamente fãs de RPG.

02. Quando você terminou o terceiro livro, já tinha em mente qual seria a próxima história ou precisou de um tempo para maturar a idéia? Em outras palavras, como nasceu O Caçador de Apóstolos?

Na verdade, a idéia básica de O caçador de apóstolos já tem uns cinco ou seis anos. Era uma história que eu queria contar logo depois de O inimigo do mundo (meu primeiro romance), mas achei melhor esperar, por diversas razões (essencialmente, achei que ainda não estava pronto para escrever este livro naquela época).
Então sim, O caçador já estava em mente. Mas precisei de umas “férias” depois da Trilogia. O terceiro livro foi exaustivo. Fiquei quase um ano trabalhando em outras coisas (traduções, revisões, a revista DragonSlayer) para só então mergulhar em mais um livro.

Sendo mais específico, O caçador surgiu a partir de uma idéia para uma cena, que eu tive enquanto lia uma história em quadrinhos. Comecei a pensar nas razões para aquela cena acontecer, no ambiente ao redor, nos personagens… Quando notei, a base para um romance estava lá. O curioso é que, no final, esta cena não entrou no livro! Era absolutamente supérflua.

03. Lendo O Caçador fica evidente uma pegada mais mainstream no jeito de contar os fatos, apesar de ser uma fantasia. Você acha que falta certo refinamento literário aos livros de literatura de gênero em geral?

Posso parecer antipático ou arrogante, mas a resposta é sim. Na minha opinião, muitas vezes falta refinamento técnico nas obras de gênero — mas o mesmo vale para obras mainstream, com bastante freqüência.

O que eu vejo (posso estar enganado e, se estiver, peço desculpas) é que muitas vezes os autores de gênero vêm de uma formação sem muito a ver com literatura, e nunca se preocupam com aprender as bases do ofício. É muito fácil pensar que a obra vai se sustentar apenas pelo cenário, pela imaginação dos elementos fantásticos e pelo enredo (quase sempre épico). Então, os autores acabam concentrando-se só nisso e negligenciando o aspecto técnico, o ato de escrever em si. Parece que também existe uma espécie de “rebeldia”, como se a literatura mainstream fosse maçante e árida, e a fantasia (e literatura de gênero em geral) fosse o oásis de diversão e imaginação. Assim, as técnicas consagradas e o estudo formal são rejeitados, como pertencendo ao mundo mainstream.

No entanto, o que acontece é que a própria diversão do leitor, a fruição literária, é prejudicada. O autor quer criar batalhas épicas, mas não estuda técnicas para escrever ação. Quer momentos de emoção e sacrifício, mas não aprende a desenvolver diálogos. O texto torna-se cansativo, justamente porque a técnica literária é ignorada.

Acho que os escritores de gênero deveriam começar simplesmente escrevendo, sem prender-se à sua temática favorita. Começar pelo básico: primeiro narrar uma cena entre um casal absolutamente normal dentro de um apartamento para só mais tarde escrever sobre a maldição que separa dois amantes imortais num castelo em outra dimensão.

Felizmente, existem vários autores de gênero (tanto brasileiros quanto estrangeiros) que estão contradizendo esta tendência. Parece que está surgindo uma nova geração de escritores que se preocupa muito com a técnica. Os leitores agradecem!

04. Em várias passagens você mostra como é complicado manter firme sua opinião como indivíduo diante da opinião de um grupo, das massas. Por que utilizar a religião para destacar esse confronto?

Porque, ao meu ver, pouquíssimas coisas transformam as pessoas em “massa” tanto quanto a religião. É claro, poderia ser política ou até esporte — mas ambos são elementos que não se enquadram tão bem no ambiente medieval.

Além disso, a religião provavelmente é uma das bases mais importantes de qualquer sociedade. É difícil ignorar esse aspecto, principalmente em um contexto semelhante à Idade Média.

Também porque os leitores, de uma forma ou de outra, vão ter alguma relação com a religião, vão reagir à maneira como o assunto é tratado no livro. Pessoas bastante religiosas podem ver a Igreja corrupta e manipuladora do livro como um reflexo sombrio da religião do mundo real, ou de seu passado. Quem não é religioso (ou questiona a religião formalizada) pode ver simplesmente um análogo das instituições do mundo real. De qualquer forma, é quase impossível estar à parte do assunto, hoje em dia ou em qualquer época. No livro, personagens devotos, hereges e ateus são todos questionados em suas crenças e confrontados com incongruências em sua forma de pensar. Eu gostaria que a obra tivesse o mesmo efeito sobre os leitores, sejam quais forem suas convicções.

05. Você acabou de sair de uma mini-turnê de lançamento. Qual o papel desse tipo de evento? Ele ajuda a promover as vendas ou é um momento de relaxar e curtir a presença dos fãs?

Os lançamentos sempre ajudam a promover o livro. Seja porque são anunciados na imprensa local, seja porque o próprio público começa a prestar atenção. Não sei se há um impacto muito significativo nas vendas a curto prazo, mas com certeza é um meio de fazer as pessoas notarem a existência do livro. O mesmo também vale para as próprias livrarias: se um cliente entra perguntando por “um livro medieval”, pode ser que um atendente que tenha visto o lançamento de O caçador de apóstolos lembre-se e recomende.
Mas não vou negar que boa parte (talvez a maior parte) da função do lançamento seja mesmo encontrar os leitores, agradecer pelo interesse e apoio deles.

06. Considerando todo o processo de criação da Trilogia Tormenta, acredito que você já tenha um planejamento para a nova saga iniciada pelo Caçador. Pode adiantar o que vem pela frente?

O caçador de apóstolos terá uma continuação: Deus Máquina, que encerra a história, deve ser publicado em 2011. Também tenho planos para mais uma história (em um ou dois romances) passada no mesmo mundo, mas com outros personagens e em uma época totalmente diferente. Quem já leu O caçador talvez já possa adivinhar o que significa “uma época totalmente diferente” no contexto do cenário…

Além disso, tenho planos para outros romances, fora da ficção de gênero — um romance histórico e um de ficção urbana contemporânea (ou seja, mainstream). Ainda não sei qual será a ordem, ou quando vou começar nesses dois. O romance de ficção histórica vai exigir muita pesquisa, e eu ainda não sei como organizar isso…
De qualquer forma, enquanto houver pessoas dispostas a ler, vou continuar a escrever! É um vício!

Quem não domina a língua alemã, só pode ler o conto de Hoffmann (1776-1822), “A janela de esquina do meu primo”, nesse ano de 2010, mais precisamente a partir de maio, data de lançamento do livro pela COSAC NAIFY em português, no Brasil.

Lançado postumamente em 1822, ano da morte do autor, o conto revela o olhar de um personagem autobiográfico sobre as várias facetas que dão vida a uma praça movimentada no centro de Berlim. Com muita perspicácia, esse Hoffmann disfarçado de doente inválido, escritor impossibilitado de escrever, observa com cuidado as nuances da sociedade berlinense, traçando um panorama elaborado a partir dos tipos sociais que acompanha de sua janela durante as manhãs de feira.

Da narrativa, constituída basicamente de um longo diálogo entre dois personagens, primos, emergem reflexões sobre as mudanças sociais observadas na cidade desde o período que antecede o domínio napoleônico até o encerramento desse ciclo. Discutem-se também o crescimento e urbanização da cidade, o convívio das grandes massas e a mistura de classes sociais em um ambiente apinhado de gente e confuso, passível de testemunhar grandes conflitos a qualquer momento.

Pouco a pouco, são decifradas as vidas por trás dos pontinhos insignificantes que compõe a pintura vista da janela do primo doente. De início, como uma pintura, a vista é estática. Mas, aos poucos, analisada individualmente, ganha vida. Cada passante leva uma história decifrada ou imaginada pela mente criativa desse observador que, estático, transforma a pintura em movimento.

No embalo das pinturas, a edição da COSACNAIFY traz em suas páginas ilustrações de Daniel Bueno, que são como colagens representativas de algumas passagens do texto. Além disso, a capa dura e as notas de pé de pagina oferecem, respectivamente, um ar mais sofisticado ao livro e mais informações ao leitor. Tudo isso justifica os R$45 reais pagos pelo livro, o que, em princípio, é salgado para um livro de um conto. Em princípio.

Livro desta resenha:
A janela de esquina do meu primo”, de E.T.A Hoffmann
Tradução: Maria Aparecida Barbosa
Projeto gráfico: Maria Carolina Sampaio e Paulo André Chagas
Ilustração: Daniel Bueno
Posfácio: Marcus Mazzari
Ed. COSACNAIFY

Anno Dracula foi publicado em 1992 e chegou ao Brasil em 2009 pelas mãos da Aleph, talvez motivada pela atual onda de vampiros crepusculares que agitou o mercado. Ironicamente, o livro tem uma pegada mais adulta e sombria, e tenderá a agradar mais a fãs de autores como Neil Gaiman ou Joe Hill do que fãs de Stephenie Meyer. Peguei o livro buscando uma literatura de entretenimento mais simples e me surpreendi com a densidade do texto. Demorei a entrar no clima e organizar as informações, mas vencidas as primeiras páginas, me diverti com o universo louco de Kim Newman, que consegue com sucesso criar uma versão decadente da era vitoriana, tomada por essa praga chamada vampirismo.

Fã assumido de obras vampirescas, Kim Newman desenvolve uma linha alternativa da história contada por Bram Stoker. Drácula não só venceu Van Helsing como desposou a Rainha Vitória e se tornou o Príncipe Consorte, com grande influência no jogo político inglês. Drácula mantém a conhecida crueldade, empalando inimigos e perseguindo qualquer um que atrapalhe suas ambições de se manter no poder. Newman manteve a complexidade das teias de influência do mundo real e desenvolveu diversos grupos ligados à Rainha, ao Príncipe e ao submundo, cada qual com seu interesse, que vão se alternando durante o livro para mostrar a fragilidade do sistema imposto por Drácula.

A história deixa de lado qualquer resquício de glamour vampiresco. Há amores, ciúmes e conspirações, mas de um jeito peculiar que reforça o aspecto de condenação e não o de dádiva daqueles que se transformam. Com o vampirismo assumido e disseminado, há vampiros mendigando, se prostituindo, e a imortalidade não vale mais do que um par de centavos, literalmente. Mães não prostituem mais o sexo das filhas, mas seus pescoços. O sangue impuro de Drácula se espalhou sem controle e gerou crias doentes que não conseguem se transformar em animais e acabam com os corpos disformes em um meio termo à espera da morte. Transformar-se em vampiro é mais uma via de ascensão burocrática do que um flerte com a eternidade.

O fio condutor da trama é um falso mistério. Um assassino conhecido como Faca de Prata está matando prostitutas vampiras. Pela sopa de referências proposta no livro, fica claro que o sujeito é Jack, o Estripador. Assumindo que as consequências das mortes são muito mais importantes para a trama do que a identidade do assassino, Kim Newman faz a revelação logo na primeira linha. A graça é ver todo mundo girar ao redor do respeitável psicopata sem saber quem ele é. De fato, mais do que parar as mortes, os homens no poder querem que a prisão de Jack tenha um propósito, o que alimenta a rede de segundas e terceiras intenções que permeia os capítulos. Kim Newman parece querer dizer que é impossível saber tudo sobre alguém, mesmo um alguém que viva todo dia ao seu lado, tenha ele séculos de existência ou trinta anos de idade.

Embora Anno Dracula seja uma história fechada, de início, meio e fim dentro de sua proposta, ele possui duas continuações ainda não publicadas no Brasil: The Bloody Red Baron (passado na Primeira Guerra Mundial) e Dracula Cha Cha Cha.

Em Anno Dracula você encontrará os personagens do clássico de Bram Stoker, Lorde Ruthven, Jack, Dr. Moreau, Dr. Jeckyll, Rainha Vitória, Oscar Wilde, Florence Stoker (esposa de Bram Stoker), entre dezenas de outras referências e participações especiais.

Como muitos dos contos que fazem parte desta seleta, o segundo volume da Coleção Imaginários rompeu barreiras e, literalmente, atravessou o Atlântico. Ao lado dos brasileiros André Carneiro, Alexandre Heredia e dos organizadores Eric Novello, Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, quatro escritores portugueses, João Barreiros, Jorge Candeias, Sasha Ramos e Luis Felipe Silva, apresentam suas histórias fantásticas, mostrando que também se produz ficção de gênero, e da boa, entre Trás-os-Montes e Lisboa.

O conto “Se acordar antes de morrer”, que abre este volume dois é, de longe, um dos mais interessantes da coletânea. Nele, João Barreiros retrata uma impressionante catástrofe global, o apocalipse visto sob a ótica de um robô-promotor. Despertado antes do tempo por um erro de programação em sua diretriz de controle, ele assume a forma e gesto de um bom velhinho, cuja missão é distribuir amostras grátis de produtos numa determinada área da cidade. Porém, logo que deixa a base, seus circuitos notam algo incomum: os clientes, sempre afoitos, mostram agora uma estranha atitude comportamental, dezenas de corpos frios agem de forma automática, repetindo gestos e a sempre mesma frase monocórdica: “gah”. A história ganha interesse à medida que o autor, ao longo do desenvolvimento do conto e através das reações do robô a determinadas situações, vai dimensionando a extensão da catástrofe que afetou não apenas humanos, mas animais, aves e até insetos, que se tornaram mais frios que o habitual. Dadas as suas funcionalidades, numa espécie de alusão à dicotomia homem/máquina, o robô não consegue “entender” o que acontece à sua volta, porque as crianças estão se comportando daquela maneira, por que os adultos não se interessam por seus produtos e continuam a ostentar aquela expressão apática, e nas poucas vezes em que encontra humanos quentes ele age unicamente da maneira que pode, entrega-lhes sua cota de amostras grátis — para os clientes com potencial de compra, é claro — e segue a sua programação de “promotor natalino”.

“Às vezes eu os vejo”, de Saint-Clair Stockler, traz uma mistura interessante de elementos da ficção científica, da fantasia e do sobrenatural. Numa cidade do interior, praticamente abandonada pelos moradores mais jovens, uma mulher presencia estranhas aparições, seres que somente ela consegue enxergar. O conto brinca o tempo todo com esta situação e com a relação de crença entre a mãe, religiosa e discípula de Kardec, que acredita serem as aparições “espíritos de luz” que vieram traz mensagens de ajuda, e a descrença a filha, cética quanto a este provável interesse dos espíritos. A história, que ainda apresenta um interesse amoroso e um tutor que faz aflorar seu lado culto latente, segue nesse passo até bem próximo do fim, o que nos deixa sem saber exatamente do que se tratam as tais aparições. Até que um inesperado encontro/devaneio põe mais incerteza no relato da tal moça, e no final fica a dúvida se tudo realmente não passou de um sonho ou se foi a mais pura realidade.

Histórias sobre escolhidos e predestinados são uma constante na literatura fantástica, e não raro vemos surgir toda sorte de messias, dos pós-apocalípticos aos pós-cibernéticos. “Flor do Trovão”, de Jorge Candeias, se apossa dessa velha necessidade humana e a insere num contexto alienígena. Nascida entre o “clarão do raio e o estrondo do trovão”, Flor é tida como a salvadora de sua espécie desde que nasceu e, por tal sorte, adorada. Porém, receosos de interferir nos caminhos de uma antiga profecia, seu povo a cria na mais completa ignorância, fato que a faz sentir-se superior aos demais. Talvez esta seja a nota de dissonância desta história em relação às outras, algo que faz toda a diferença: desde sempre Flor se sabe diferente e em sua cabeça isso a torna superior. Quando a lenda sobre seu nascimento é-lhe finalmente revelada, Flor já se encontra predisposta a aceitá-la como verdade inquestionável. O conto, com uma pegada mais experimentalista, apresenta elementos que vão sendo introduzidos na história sem qualquer comentário sobre ou explicação, como as demais raças que habitam as montanhas deste mundo primitivo e os animais selvagens que ameaçam o povo de Flor do Trovão, deixando para o leitor sua conceituação. O final também surpreende, e como numa espécie de lição de moral, Flor encontra o mesmo destino que os demais de sua espécie a quem julgava inferiores.

Em tempos de internet e comunicação instantânea em escala global, o autor Alexandre Heredia tece uma história perigosamente atual. Na trama, um programa computacional adquire inteligência e se espalha por toda a rede mundial, tornando-se totalmente onipresente entre bits e bytes. E, num mundo onde tudo é controlado por computador, desde a torradeira às ogivas nucleares, isso soa um bocadinho perigoso. Curiosamente, o programa, agraciado com o nome de Phoebe, se liga de maneira inesperada a seu criado (existe amor/lealdade em um programa de computador?). A história oscila do plano geral para o reduzido espaço de uma empresa particular, onde o futuro do mundo — e da cabeça do funcionário que criou o tal programa — vai ser decidido pelos caprichos desta nova e abrangente forma de vida. O conto é, em suma, ingênuo, focando-se mais na preocupação do funcionário em relação a seu futuro na companhia do que nas implicações globais que poderiam advir de uma criação dessa magnitude.

A fantasia urbana, como o próprio nome já evidencia, é um subgênero que utiliza elementos clássicos do fantástico e os insere sem o menor pudor em um determinado contexto urbano, mesclando o mágico com o cotidiano e dando uma cara nova para a literatura de gênero. Infelizmente, no Brasil, temos poucos escritores que se arriscam neste terreno, mas ao menos um deles já começa a mostrar a que veio. Em “O Cheiro do Suor”, Eric Novello se apossa de um mito/personagem clássico e o apresenta sob uma nova roupagem, inserindo-o num ambiente urbano que lembra muito os filmes noir das décadas de 40 e 50. Um lobisomem, marginal e socialmente deslocado, como todo bom personagem dessa estética deve ser, se vê às voltas com um policial linha dura e um serviço bem ao estilo “viva e não deixe mais ninguém viver”. No conto, um dos melhores desse volume, se não o melhor, o autor dedica uma atenção toda especial à construção textual em detrimento das ações desenfreadas que a gente comumente vê/espera de uma personagem assim. Mas não pense que o conto se torna menos interessante por isso. A narrativa intensa, suja, também lembra em muito a utilizada por Frank Miller em suas HQs (como os primeiros números de Sin City, pra ficarmos no mais recente) e, ao final, fica aquela impressão forte de que o conto muito bem poderia ser parte da malha narrativa que compõe, ao lado das histórias de Marvin, o submundo da “cidade do pecado”.

A “Rosa Negra”, de Sasha Ramos, reconta a história de amor e morte que ronda a vida de um jovem sonhador, tema já visitado por vários outros escritores de épocas tão distantes quanto diversas. Porém, aqui, o papel da mãe zelosa que faz de tudo para salvaguardar o filho ganha outro rosto, além de aspirações bem mais funestas. Sai a figura perversa e dominadora e entra a mãe fraca e suscetível, que mantém o controle por medo de um fantasma do passado. Os elementos fantásticos e científicos aparecem de modo bem dosado, mais como contribuição à história, e a relação entre o jovem e a rosa negra que dá nome e desfecho ao conto é das mais interessantes. Do amor que constrói e inspira à morte que acaba com sonhos e anos de opressão, a velha máxima de que para se ganhar algo novo é necessário deixar para trás algo velho é revista aqui sob uma perspectiva nada animadora.

Num futuro próximo, onde a tecnologia tornou as habitações móveis, um homem parte em busca de sua casa, que se encontra presa em algum lugar de uma extensa área da antiga Europa comandada por um regime neonazista. Viajando de uma Manhattan que se tornou uma espécie de Hong Kong futurista a uma parte de Portugal vendida para pagar dívidas, a personagem de “A casa de um homem”, de Luiz Felipe Silva, acaba por terminar sua busca no castelo de um antigo conhecido da época em que trabalhava como agente secreto do governo. O conto, que o tempo todo parece tratar apenas do desejo de um homem em pegar de volta um bem precioso que lhe foi tomado, mostra no final ser bem mais do que isso, trazendo à tona o antigo desejo do homem de alcançar a imortalidade.

“Eu te Amo, Papai”, de Tibor Moricz, traz um relato de um futuro distópico em que as cidades se tornaram grandes núcleos alimentados por energia proveniente de crianças que ficam confinadas em pequenos casulos desde que nascem. Há séculos este sistema de obtenção de energia paranormal é mantido seguro, até que um pirralho escapa de um dos casulos e organiza uma rebelião. Seu propósito? Ora, encontrar o pai e ganhar dele aquele abraço apertado. O problema é que o tal pai da criança não é lá muito dado a essas coisas de paternalismos e, diante do filhote, se vê às voltas com uma difícil decisão, algo que acaba por se tornar um grande e irremediável inferno particular.

Fechando este segundo volume, André Carneiro apresenta mais um conto que resvala na sua temática preferida: a busca de um homem por seu amor idealizado. No conto “Uma Questão de Língua”, o protagonista é um homem obcecado pela vizinha culta e boazuda, que adora livros raros. No início, ele apenas a observa de longe, segue seus passos e os do pai, mas depois passa a fazer de tudo para conquistá-la, até ir contra os ensinamentos de seu mestre.

Com este número, a Imaginários fecha um ciclo. Porém, uma nova etapa já começou, desta vez sob a batuta de Erick Santos, editor da Draco, que já anunciou mais dois números para a coleção.

uma pequena reflexão proporcionada pelos  “Estudos sobre a leveza”, de Fernando de F.L. Torres

“O mais profundo é a pele.”
Paul Valéry


O filósofo e o poeta geralmente são vistos como pessoas que “têm a cabeça” nas nuvens, “vivem sonhando acordados”, “perdem tempo demais pensando e não são nada práticos”, entre diversos outros clichês comuns numa cultura essencialmente pragmática, técnica e gradualmente robotizada. De antemão, peço ao leitor calma – este texto não possui nenhuma roupagem moralista. Ele pretende apenas resenhar o excelente Estudos sobre a leveza, do advogado, estudante de letras e escritor Fernando de F.L. Torres – e proporcionar algumas reflexões sobre a vida e a arte, a partir do livro e a partir da filosofia.

Este antigo clichê de que a teoria é algo diversa da prática é algo que deveria ser repensado. Embora não se trate de trabalho braçal, pensar, refletir, comunicar sua reflexão é um trabalho árduo que deveria ser melhor compensado. Estudar é algo dificílimo, que requer calma, paciência, cultivo. Em suma, teoria é prática, por mais que insistam em ridicularizar os teóricos (acho que a docência nunca esteve tão desvalorizada como está atualmente, assim como a ciência nunca foi tão mal vista). Pois é exatamente pelo fato de estudar ser algo árduo que, quando recebi o livro de Fernando, fiquei um bom tempo com o título na cabeça. O título pareceu-me um delicioso paradoxo: estudos sobre a leveza, estudos sobre a leveza, estudos sobre a leveza… como algo tão difícil como o ato de estudar poderia se referir à leveza? De que valeria a pena colecionar estudos sobre um tema tão amplo – a leveza? O que é a leveza para o autor? E para os narradores dos contos? Porque o autor chamou os contos de estudos? Onde a leveza se encontra ao longo das narrativas?

Muitas questões surgiram antes da leitura. Felizmente, após ler e reler o livro, nenhuma das questões acima foi respondida. Pelo contrário – o livro despertou mais perguntas. Pra mim, isso é prova de que o livro é bom.

Tenho um amigo escritor em Minas Gerais que diz que um livro de contos vale a pena se ele tiver pelo menos uma história que toque o leitor de alguma maneira. Eu  gostei do livro como um todo, mas tenho que dizer que há pelo menos três histórias (ou contos? ou estudos?) que me marcaram mais. Não vou dizer quais são para evitar que o futuro leitor vá direto a eles. Prefiro convidá-lo a ler o livro todo e encontrar as suas histórias no livro – literatura não é também, um pouco isso? Esse exercício gostoso de alterização?

Uma marca dos “Estudos sobre a leveza” é a linguagem extremamente elegante com o que o autor nos presenteia. O autor não distorce nem brinca com a linguagem, mas ainda assim a linguagem se destaca. As narrativas são simples, diretas, superficiais.

Geralmente usa-se dizer que algo é superficial de maneira pejorativa. Pois eu pretendo subverter essa fórmula batida e inserir aqui o termo “superficial” como um elogio. Explico.

Na seção 4 do prefácio à Gaia Ciência, Nietzsche nos fala que os antigos gregos é que sabiam viver – eles tinham um amor pela superfície, pela forma, pela dobra, pela pele, pela aparência, pelas palavras. “Oh, aqueles gregos”, diz Nietzsche – “(…)eles eram superficiais – por profundidade”. O bom artista, vai dizer Nietzsche, sabe que assim como teoria é uma prática, a forma também é conteúdo. Lembro também o famoso aforismo de Valéry, que recuperei e utilizei como epígrafe deste texto – “O mais profundo é a pele”. Não há nada para além da superfície – você pode ter uma linda história de amor para contar e não saber dar forma a ela. Sua história será simplesmente incomunicável. Construímos a realidade linguisticamente – se há ou não uma dimensão inaudita para além da linguagem, é uma questão de fé.

O mais engraçado é que os “estudos” do livro são realmente leves, e certamente retratam certa leveza cotidiana. Mas são leves e superficiais por profundidade. Se a linguagem é cristalina, as narrativas curtas e os temas cotidianos, não se engane em pensar que elas são também banais. Pelo contrário – a leveza inerente a cada uma das narrativas proporciona reflexões profundas, despertam emoções, incitam a fantasiar e pensar sobre a existência. Em “Mandala de areia”, temos o relato de um jantar entre amigos que culmina numa inesperada fuga. “Pontualidade” narra a história de uma garota que fora abandonada pelos pais e que passa a morar com o avô. É um belíssimo relato sobre as constantes perdas e ganhos em que somos “jogados”. “Os vermelhos” relata a tardia concretização de um antigo desejo. “Cheiro de café quente” é uma saborosa história, nostálgica, que recupera os tempos em que o café era café mesmo, e não uma bebida chique com mil cremes, chocolates e nomes pomposos. “Esqueça Thanatos!” mostra como somos potência, força, querendo viver, e como até mesmo um ato de infidelidade pode ser apenas uma oculta força vital querendo se afirmar, levando-nos a suprimir qualquer moralidade e a libertar desejos reprimidos. “Inesperado gol” foi, talvez, a história que mais comoveu este amante de futebol e cinema que vos escreve… Gostaria de dizer que não entendo absolutamente nada de futebol e tampouco de cinema, mas assisto jogos e vejo filmes compulsivamente – então foi maravilhoso me colocar no lugar do sujeito que foi trabalhar com filmes antigos e acabou encontrando uma pérola maior que a pérola que ele julgava ter encontrado.

A maior prova de que o livro de Fernando de F.L. Torres é bom, é que ele é inclassificável. Se as minhas pequenas impressões narradas no parágrafo anterior dão a sensação de que ele é, digamos, um “militante” da escola neo-realista, o leitor ficará confuso ao se deparar com a magia de narrativas como “Trinta e três rotações”, “Punctum e fiaba”, “Elogio à fábula”, “Abstrato!” – por exemplo. Serão fábulas? Narrativas mágicas? Realismo fantástico?

Pra mim, um bom livro tem um pouco de tudo, e não cabe em lugar algum. Ele habita as dobras, os poros. Ele permite espaço para que o ar e as idéias circulem com liberdade. E a circulação de idéias nos leva à identificação, à perda, aos encontros. Acima de tudo, um texto como “Estudos sobre a leveza”, que permite que idéias “respirem”, nos torna mais inteligentes, sensíveis, compreensivos e solidários na miséria humana. Características que recuperam certa leveza em tempos tão pesados, burros e intolerantes.


Livro desta resenha:
TORRES, Fernando de F.L. Estudos sobre a leveza. Rio de Janeiro: Multifoco, 2009.

De modo geral, não me identifico com histórias de guerra. Procuro passar longe de filmes do gênero, inclusive os clássicos, e perco aí parte da bagagem que deveria ter como roteirista, Apocalypse Now ocupando a ilustre cadeira de exceção à regra por ser uma aula indispensável de cinema. Talvez utilize esse filtro instintivo pelo fato de a guerra ser real demais para se acomodar com harmonia em meus pensamentos. Informação demais para alguém de sonhos intranquilos como eu. A guerra está sempre lá, acontecendo. Ela habita o passado, preenche o presente dos jornais, incomoda em uma falsa iminência no futuro.

Apesar dessa resistência natural, dois livros de guerra vieram parar em minhas mãos recentemente: The Age of Ra e Selva Brasil. O primeiro mistura mitologia egípcia e ambientes militares. Achei que ia encontrar uma pegada maior de fantasia e encontrei a narrativa tradicional de guerra, com diálogos bem capengas para alguém com o currículo de James Lovegrove. Voltou para o final da lista. O segundo é uma história alternativa de Roberto de Sousa Causo, um dos mais conhecidos autores de ficção-científica brasileira. Efeito contrário ao Age of Ra, esse não consegui parar de ler.

Citando a orelha do livro, Selva Brasil acompanha um grupo de soldados em direção a um ponto desconhecido do Amapá, fronteira com a Guiana Francesa, onde deverão substituir outra unidade do exército brasileiro. Esse grupo, entretanto, se depara com desertores e um experimento que não entendem muito bem, mas parece indicar a existência de uma realidade paralela, um Brasil bem diferente do deles, que talvez seja parecido com o nosso.

O Brasil do livro de Causo é um país marginal, inimigo das grandes potências, quase uma Colômbia, e vive um
embargo similar ao de Cuba. Nesse Brasil, Jânio Quadros tentou invadir as Guianas e apoiou a Argentina na invasão às Ilhas Malvinas. Estados Unidos, França e Inglaterra enxotaram todo mundo e aproveitaram para tomar parte da Amazônia. Desde então, as potências enfrentam a coalizão latino-americana e alimentam conflitos na região para tentar invadir nosso país de vez.

Mas a graça toda de Selva Brasil é que, apesar da pesquisa que dá base ao livro, o que move a história é o drama do protagonista, sempre narrando diretamente para o leitor, como se estivesse gravando uma mensagem que, lá no final, vamos descobrir a quem é direcionada. Roberto de Souza Causo, o personagem, fala de sua vida pessoal ou do que é tentar ter uma vida pessoal em um país sufocado pela guerra. É um cara que tem lá suas frustrações e tenta achar um motivo para seguir em frente. A ambientação é eficiente e prende a atenção logo no começo, mas o elemento mágico é realmente o protagonista. Causo trabalhou de forma minuciosa as palavras, definiu um jeitão de falar bem peculiar – indo além do uso das gírias e jargões militares – que torna o personagem verossímil, e nisso a ficção é captada como um depoimento sincero. Fruição a serviço da história. Para o leitor e para o livro, pouco importa qual o experimento secreto conduzido no meio da floresta. O que está em jogo é a transformação do Causo personagem em um ambiente opressor onde pensar demais ou de menos pode significar a morte.

De bônus, ficou um gostinho similar ao que senti lendo Kaori, de Giulia Moon, de que somente Causo autor poderia ter escrito Selva Brasil, mais ninguém. Entra fácil para a lista de melhores que li esse ano. Estava me devendo há tempos ler uma narrativa longa do autor, pelo visto comecei pelo livro certo.

Selva Brasil
Roberto de Sousa Causo
Editora Draco
109 páginas

Kitchen, de Banana Yoshimoto, traz duas narrativas curtas. Kitchen 1 e 2 e Moonligth Shadow. As novelas possuem como temática a morte. Seja na primeira novela, seja na segunda, a morte vista do ponto de vista da autora é narrada de forma delicada, sem deixar de ser densa e incisiva. As narrativas tecem sobre a solidão um tênue apagar dos que vivem o que a morte dos outros, próximos, inicia.

Ao lento apagamento do morto e o sofrimento deste apagamento, na primeira novela, está ligado o estar na cozinha, a busca da satisfação pelo paladar cria delicados os sabores e o aroma das ervas serve ao minucioso traçar das imagens que se apagam e se reavivam na memória recente dos que continuam penosamente. A função da comida, se se liga a esta necessidade, apresenta ao mesmo tempo um derivativo para a busca da alegria.

A noção de alegria, expressa pela novela, pode ser verificada a partir das relações que vão se criando entre as personagens. Ao morrer-lhe a avó, seu último parente vivo, Mikage é convidada por um quase desconhecido para morar em sua casa, na qual vivia com sua mãe, Eriko – um travesti que dirigia um clube gays na noite de Tóquio. Tomada pela beleza de Eriko, Mikage, vai se deixar embalar pela cozinha que assume integralmente e passa a ter uma função determinada na família, até que o ciclo se fecha e passa a viver sozinha e a freqüentar aulas de culinária.

Na segunda parte da novela, Mikage recebe telefonema de seu amigo Yuichi, comunicando-lhe a morte de Eriko, assassinada por um homem que não se conformava com sua beleza e desprezo. A novela abre-se, então, sobre duas solidões. Uma que se torna dupla e outra que a experimenta pela primeira vez. Se o leitor está percebendo, o jogo que se arma não é o da simplicidade, à solidão dos mortos próximos, criam-se abismos entre os vivos da morte, que deverão tecer o lento apagamento de suas memórias para que possam enfim enfrentar a vida.

Na segunda novela, Moonligth Shadow, a morte também é dupla e ainda mais delicada. A morte pressupõe a necessidade da lembrança e a certeza do jamais. Se a primeira necessidade faz com que se fetichisem alguns objetos – o sininho para Satsuki, a narradora, e a roupa de marinheira que Hiiragi passa a usar após a morte de Yumiko – a segunda se abre em uma elegia fúnebre do estar face ao mundo ainda de posse destas lembranças.

A descrição dos ambientes em que a solidão se instala vai se tornando despida de objetos para que os que significam o desejo da vida interrompida mais se destaquem e ganhem uma nitidez quase prazerosa. Semelham uma cópula com os corpos desavindos, numa erotização na qual, ausente, o desejo se torna presente pela interdição que sofrem as personagens. Estranhamente, o conteúdo erótico sub-jaz sob a camada dura e impermeável do que tudo arriscaram e perderam. Talvez por isso os narradores destas novelas sejam tão jovens.

A Estrada, livro escrito por Cormac McCarthy, é um romance de fôlego ininterrupto. Desde que se é tomado pelo périplo das personagens, a leitura se torna vertiginosa. Levados pelo ambiente degradado, as personagens – o pai e o filho – e o leitor são obrigados a reformular os conceitos de humanidade; em que pese certa bipolaridade para a qual o menino tende, as noções de sobrevivência são agônicas, desumanizadas. Toda a graça do romance está, neste sentido, na reeducação pela qual passa o garoto, que deve, para sobreviver, abandonar os conceitos bipolares que sustentaram sua visão de mundo, entre o que é o bem e o que é o mal.

Num mundo desprovido de víveres e dos meios através dos quais obtê-los, resta a luta cega e infrene pela sobrevivência. Esta luta, se, por um lado, obriga a reconsiderar as fronteiras éticas, por outro lado, obriga a um raciocínio posto em abismo. O autor é ágil e esperto ao esconder as causas do desastre. Não se sabem as razões que determinaram a existência de um mundo perto do fim. Tanto pode ter sido o desastre causado por uma explosão atômica quanto pelas questões ambientais. Ao afastar qualquer explicação sobre as causas que determinaram aquele mundo, abre – pelo discurso do menino – uma brecha para que se pense que o próprio sistema dualista da reflexão tenha promovido o extermínio de uns e de outros, ou, como diz o romance, através do menino, da divisão do mundo entre os que estão ao lado bem e os que estão ao lado do mal.

A divisão – aplicada ao mundo pelo ex-presidente americano – teria criado raízes a tal ponto que se faz pressupor inevitável o desfecho que o livro narra. Parece nos dizer o autor que só reaprendendo o que é o legado ético do homem pode-se salvar o mundo de uma catástrofe.

As narrativas sobre esse fim tão decantado são várias e atingem diversas áreas da arte humana. Preocupar-se com seu amanhã é uma das noções que o homem aprende desde sempre, mas principalmente quando seus valores são postos em cheque. Foi assim no passado, quando a visita do Halley criou uma comoção propiciatória dos pensamentos sobre o fim de mundo. Há um poema, muito interessante, escrito em 1911, pelo poeta expressionista alemão, Jakob van Hoddis em que o clima de destruição se mostra com clareza.

O Fim do Mundo (Weltende)

Um chapéu voa destapando um burguês.
Todo o ar ressoa como um grito.
Aterram os telhados e quebram-se em dois.
A costa – lê-se nos jornais – está cheia das marés.

A tempestade aí está, o tropel dos oceanos
desembarca e esmaga os grossos diques.
A constipação de muita gente vê-se no nariz,
e os comboios caem nos túneis.

(Trad. de J. T. Parreira)

Os signos são inequívocos – mares cheios devorando a terra, comboios destruídos, multidão em alarido. Entretanto, caso se tenha alguma perspicácia na leitura, o entendimento do primeiro verso é fundamental para se saber de qual fim do mundo se trata. O mundo que morre e de fato morrerá ao longo de todo o século XX é o mundo burguês. O eco que transborda do poema são as revoluções sociais que se preparam e que possuem na revolução russa seu maior ícone.

Parece que ler dentro desta perspectiva o romance de Cormac é buscar perceber que o mundo que se destrói e se destruíra pelo século XXI afora é o da dicotomia do pensamento. Resta saber quantas guerras serão necessárias para que tal mudança se dê.

Imaginários – Volume IPrimeiro projeto em papel da novíssima Editora Draco, a Coleção Imaginários, organizada por Eric Novello, Saint-Clair Stockler e Tibor Moricz, reúne em cada edição uma seleta de escritores com histórias ambientadas nos mais variados subgêneros da ficção fantástica. Concebida originalmente com o nome de “Projeto 22”, e cuja reorganização dos contos deu origem aos livros um e dois da coleção, a Imaginários já nasce ousada e, além de trazer uma amostra da fina flor dos fantásticos destas terras brasilis, o volume dois tem a missão de unir as literaturas de ambos os lados do Atlântico, apresentando contos de autores portugueses que também navegam por águas fantásticas. Neste primeiro número, os autores Gérson Lodi-Ribeiro, Giulia Moon, Jorge Luiz Calife, Ana Lúcia Merege, Carlos Orsi, Flávio Medeiros, Roberto de Sousa Causo, Osíris Reis, Martha Argel, Davi M. Morales e Richard Diegues se revezam em histórias que vão da ficção científica à fantasia, do humor sutil ao mais profundo inconsciente humano, abrindo de modo bastante positivo a coleção que ainda terá, além do segundo volume já mencionado, outros dois números.

Vinícius de Moraes escreveu certa vez que o amor, mesmo não sendo imortal, deve ser infinito enquanto dure. À nossa revelia, os sentimentos são transitórios e, isto posto, até que ponto devemos interferir em seu curso a fim de torná-lo eterno? O conto “Coleira do Amor”, de Gérson Lodi-Ribeiro, une numa mesma história dois aspectos bastante distintos, porém, convergentes: a busca pela “eternização” do amor e as consequências provenientes de tal ato. Ambientado numa Rio futurista e utópica, onde as casas são inteligentes e as favelas deram lugar a morros verdejantes — resultado do grande êxodo urbano que fez com que a maioria das pessoas deixasse a Terra para viver em colônias nas órbitas baixas —, a trama narra a perda de um ente querido e o consequente sofrimento que isso acarreta, sofrimento este que, no conto, alcança proporções catastróficas graças a um eficiente implante artificial não por acaso denominado “eterno amor”. A história, essencialmente emotiva, se utiliza da tecnologia e do futurismo como pano de fundo de forma mais que oportuna para criar uma linha tênue entre amor e morte o que acaba dando um gostinho especial à coisa toda. E não fosse a incidência do aparato tecnológico que perpassa o conto com a mais absoluta naturalidade e a capacidade narrativa do autor, evidenciando sua gênese sci-fi, esta até poderia ser uma história trágica tanto possível de ser ambientada nas ágoras gregas, quanto nos modernos romances “água com açúcar” que infestam as prateleiras das livrarias.

Com a onda de magia e bruxaria surgida na esteira de Harry Potter em alta, quem já não se imaginou querendo uma varinha mágica para realizar feitiços os mais diversos, ou se tornar conhecedor de poções milagrosas, eficientes e instantâneas? Pois, Giulia Moon conseguiu esse feito. No divertido “Eu, a sogra”, vemos uma senhora, que é ao mesmo tempo bruxa, mãe e sogra, às voltas com o retorno do filho após uma longa temporada no Japão e com uma nora indesejada que ele traz a tiracolo, às vésperas da realização de um feitiço tão importante que só pode ser feito a cada três décadas. A tal nora, irritantemente prestativa, torna-se um ingrediente difícil de encaixar no preparo da poção e, para não fugir à regra, ela acaba botando a mão onde não deve e põe tudo literalmente a perder. Com feitiço — e a possível reconciliação com a prima, a grande beneficiária do tal sortilégio que periga se tornar sua inimiga número um — indo pro beleléu, resta à sogra apenas esperar pelo fim da noite e pelo inevitável. Mas, minutos antes do desespero final, eis que surge a melhor parte do conto. Se você é daqueles que ainda tem dúvidas de que nossos japoneses são melhores do que os dos outros, espere até ver do que essa japonesinha high tech é capaz de fazer com um saco de feitiços e um micro-ondas.

Jorge Luiz Calife traz um conto inocente sobre contato imediato. No deserto do Majave, mãe e filha se veem às voltas com a queda de um objeto desconhecido nas proximidades da casa de verão onde estão hospedadas.  Preocupadas com a ausência do marido/pai que tarda em chegar, mãe e filha decidem encontrá-lo no caminho e, de quebra, matar a curiosidade dando uma espiadela no tal objeto. Ao chegarem ao local, elas encontram uma espécie de nave esférica caída à margem da estrada, e o pior: descobrem que o caminho foi broqueado pela destruição provocada pela queda da nave. Proposital ou não há, aqui, uma tentativa insipiente de suspense, felizmente deixada de lado pelo retorno das duas à casa. Ao chegarem, outra surpresa as aguarda. Uma “entidade”, com jeito e forma do marido/pai desaparecido, está esperando por elas, confortavelmente sentado no sofá da sala. Descoberto pela mulher, “ele” explica que seu verdadeiro marido está reparando sua nave e que, por isso, ela precisa ser paciente. O conto mantém esse “tom inocente” praticamente o tempo todo, remetendo tão insólita situação mais à visão da filha do que da mãe. Um fato que achei particularmente interessante é o motivo da visita dos aliens à Terra: eles buscam a simetria das formas, a perfeição da beleza existente em nosso mundo que, por estarmos cotidianamente tão próximos, sequer percebemos. Um conto despretensioso, talvez o mais despretensioso do livro.

Ambientado no mesmo universo de seu romance de estreia, o conto de Ana Lúcia Merege apresenta uma história de superação e escolhas. Em visita a uma possível nova fonte mágica, que supostamente teria o poder de transformar em supercavalos as montarias do exército real — tal e qual já havia sido feito com as águias a partir do poder de outra fonte — o mago Mael, chamado de “O Senhor das Águias”, se depara com um jovem rebelde, vítima constante da brutalidade e ignorância do pai, como poderes mágicos latentes. Tomando-o como guia no caminho ele descobre que o jovem já fez uso das águas das fontes e que, de certa forma, já tem algum domínio sobre magia, mesmo que inconscientemente. Mael, então, fica tentado a lhe dar uma chance, uma oportunidade. No entanto, antes de tomá-lo como aprendiz, ele terá de deixar o jovem escolher por si mesmo que caminho seguir, o da difícil superação da raiva e do medo ou o da vingança fácil. Conto que planta mais uma sementinha neste universo fantástico, “A Encruzilhada” talvez peque exatamente por isso. Na ânsia de fazer parte de um universo maior, a história se torna aberta, inconclusiva. O conto também apresenta personagens típicas da alta fantasia, o pai rude, a mãe submissa, a filha calada e o jovem rebelde, constantemente castigado por tal conduta e que, um dia, vê diante de si a chance de mudar o estado das coisas. No final, a história torna-se uma boa porta de entrada para se conhecer este mundo que em breve ganhará seu primeiro livro, também com o selo da Draco.

“Por toda a Eternidade”, de Carlos Orsi, traz um recorte rápido e preciso do dualismo interesse X amor, tema tão em voga na história humana. Otelo, um cientista espacial, torna-se afamado ao construir uma nave capaz de se aproximar de buracos negros. Por tal feito, a nave alcança um valor estratosférico (à falta de um termo mais universalizante, condizente com o conto), e passa a ser objeto de desejo de uma raça alienígena interessada neste tipo de exploração. Porém, para desespero de sua esposa ele se recusa a vendê-la, como se ao fazê-lo, estivesse se desfazendo de seu prestígio. E como para todo entusiasta há sempre um oportunista, um “amigo” resolve dar cabo dele, vender a nave por um precinho bom e, de quebra, ainda ficar com a viúva. Ou seja, a mesma velha história conhecida desde os tempos daquele famoso escritor inglês, acrescida aqui de algumas muitas parafernálias tecnológicas e uma tácita raça alien que leva a sério, mas muito a sério mesmo, o tal do “até que a morte os separe”. E como ainda há certa justiça poética neste universo de dissabores, a morte de Otelo e o final tão bem planejado pelo amante e a futura viúva sofre uma reviravolta inesperada, culpa de um autêntico registro que ficará literalmente gravado para toda a eternidade.

Flávio Medeiros traz mais um conto com alienígenas, porém com uma premissa, no mínimo, interessante: sempre, mas sempre mesmo, desconfie de indivíduos bem intencionados. A história segue duas linhas distintas, que se convergem mais para o final. Tony, um solteirão amargurado, acaba encontrando um “eco de sua juventude” na voz de uma crooner que se apresenta num bar onde ele resolve tomar um trago; conhece-a mais para o final da noite (usando a velha tática “pede uma cerveja, faz amizade com o garçom e pergunta da garota”) e, conversa vai, conversa vem, elogio aqui, cantada bem dada ali que, aliás, muito marmanjo já usou ao menos umas vinte vezes na vida, ele acaba se envolvendo com a tal moça. Enquanto o negócio todo começa a se desenrolar, vemos surgir uma “história por detrás da história”. Via pensamentos do Tony, ficamos sabendo da chegada de uma raça alienígena que literalmente desceu do céu com a promessa se salvação do mundo. O motivo para precisarmos disso? Ora, o de sempre. Fechamos os olhos pra tudo e mandamos ver na destruição do planeta. Nada muito diferente do que estamos fazendo hoje. Quando tudo parecia perdido, os tais aliens surgem com a promessa de salvação, plenamente aceita, diga-se de passagem, ainda mais depois que se sabe o valor de tão desprendida ação: eles nada mais querem do que observar, pura e simplesmente. Tecnologia avançadíssima em troca de observação sem nenhum tipo de interferência, apenas análise comportamental. E os humanos o que fazem? O que sabem fazer de melhor: tentam explorar os aliens e tirar proveito da situação. Bateu uma sensação de “já vi isso em algum lugar?” Pois é.

Mas, enquanto o mundo festeja uma nova era de esperança proporcionada pela chegada dos visitantes, Tony sofre uma perda que o torna extremamente rancoroso: sabe o negócio de observação não-interferencial requerido pelos aliens? Isso pode ser mais grave do que imaginamos. No final, como amarração, temos duas grandes revelações: a primeira para o próprio Tony e a segunda, para o leitor. Ambas bruscas, mostrando que, muitas vezes, nem tudo o que parece realmente é.

Enfrentar nosso demônio interior com o pouco de anjo que ainda nos resta. É disso que trata “Um toque do real: óleo sobre tela”, de Roberto de Sousa Causo. Um pintor surrealista vê-se subitamente imerso dentro de sua própria arte, um delírio de formas e movimento composto por aquarelas e rostos desconhecidos, não-rostos na verdade, pintados a óleo. Neste universo onírico em que tudo é cor e forma e movimentos pincelados, algo se destaca: uma quebra na simetria das cores, um sentimento distinto, amor. Quando todas as formas são irreais e os rostos já não sorriem pela simples falta de significados, o que resta a ele é perseguir aquilo que ainda o torna humano, que o difere do todo aquarelado que o cerca. E, ao perseguir esse amor que traz seu mundo de volta à forma verdadeira, ele também terá de se confronta com seu monstro interior, que deforma sua vontade. O conto, um dos melhores do livro, transporta para a esfera do onírico a luta diária que todos nós travamos entre os lados bom e mal que nos faz completos. E, no final, vencido o monstro, resta a consciência do vazio, o descanso pleno, reparador.

Desabafo! Se tivesse que resumir em uma palavra o conto “Contingência, ou Tô pouco ligando”, de Martha Argel, a escolhida seria esta. Durante a narrativa de uma série de fatos fortuitos que se desdobram em outros, que se desdobram em outros e outros, a autora vai tecendo uma crítica mordaz a um sem número de pequenos grandes problemas que parecem afligir a todos, em maior ou menos escala, saibamos deles ou não. Tal crítica se estende desde o profissional de superfície, “produto típico da academia tupiniquim”, à degradação de áreas naturais resultante da ação — ou seria inação?! — deste profissional, coisa que não valoramos e que, muitas vezes, sequer tomamos conhecimento. Através de outra série de pequenas alterações na história original, graças às chamadas contingências, surgem variantes que tentam explicar en passant a tão falada seleção natural, a interferência do homem no curso evolutivo e as consequências de tais atos numa escala mais ampla. O conto é permeado por uma aura de forte impotência, cujo fino revestimento de indiferença aparece a todo instante, através da voz/pensamento do narrador, em frases como “isso não é problema meu”. O mais interessante é que, no final, fica a impressão de que o desabafo — e o dualismo vontade/impotência de fazer algo sobre — é de todos nós.

Numa construção antiga, recentemente transformada numa espécie de centro esportivo escolar, dois jovens encontram uma estranha sala, enquanto procuravam pelo vestuário. Ao entrarem no local, eles se deparam com uma grade posta sobre um enorme buraco e uma corda, também de proporção incomum, aparentemente suspensa no ar. Enquanto explora o ambiente, um dos jovens é atingido por algo que lembra vagamente uma bolha de água, algo cuja tensão superficial (igual àquela que se forma num copo com água, pouco antes de transbordar) o mantém estranhamente unido. Do nada, dezenas de bólidos despencam das alturas invisíveis, atingindo-os. Um dos amigos desaparece no meio da chuva inesperada e quando o outro, que havia saído para buscar ajuda, retorna à câmara, encontra apenas uma parede no lugar da porta. No weird room, no friend. E é isso! Confesso que demorei a entender o que se passava; aliás, uma leitura apenas não revela de imediato do que trata a história, falta-lhe a explicação das entrelinhas.

Fechando a série de contos do primeiro volume, Richard Diegues traz uma história sobre invasão, profecias e o apocalipse bíblico, tudo isso visto sob o ponto de vista do invasor. A Terra, devidamente invadida e expurgada, passa por uma faxina geral para se livrar da presença dos humanos que se amontoam aos milhões nas ruas das grandes e pequenas cidades do mundo. Numa dessas diligências sanitárias, os aliens encontram o corpo de uma freira com mais de 1000 anos de idade, totalmente intacto.  A partir daí, começa uma investigação minuciosa para se tentar identificar os porquês disso, até que pesquisadores se deparam com uma antiga relíquia que fala sobre o apocalipse. Crença em deuses únicos, daqui e de além, milagres, a bíblia e um historiador alienígena se sucedem numa história que narra o fim dos tempos — já que a raça humana foi pro beleléu — de uma maneira bem peculiar. O conto segue muito bem, obrigado!, até a penúltima página, e se tivesse acabado aí, ficaria ótimo. O problema é que a história, como o mundo, não acaba e, no final, vemos surgir um Deus preguiçoso que, não tendo feito nada para salvar os homens, resolve recriar a coisa toda do zero. Não que Ele não possa ter se cansado de brincar de ventríloquo e, a propósito da invasão oportuna, ter se livrado de vez do problema. Mas, nas poucas linhas que antecedem o ponto final, há um humor sutil, um tantinho desproposital, que não casa com o resto do conto, deixando a impressão de que tudo teria ficado melhor se Ele tivesse continuado dormindo.

O Enteado, escrito por Juan José Sauer e publicado pela Iluminuras, em 2002, faz parte de uma tradição que remonta aos cronistas das descobertas e aos romances que durante esses 500 anos se vieram produzindo acerca do tema do desconhecido mundo. São raros, por haverem sido apagados os rastros das culturas indígenas, os romances que possuem um narrador discêntrico das culturas européias. As estratégias, produzidas por diversos autores, para se fazerem menos etnocêntricos, são também múltiplas.

No romance do autor argentino, a escolha narrativa recai sobre um europeu, que não conhecera sua família. Estranho entre os seus, ao navegar como grumete para o novo mundo, numa expedição em terra, se vê salvo do desastre e aniquilamento que sofreram os navegadores. Capturado por uma tribo canibal, se encontra novamente em território estranho.

A estranheza, unindo as duas possibilidades vivenciais do personagem, permite ao autor, no microcosmo da tribo e dos aspectos geográficos que conformam o viver dos autóctones, fazer com que o leitor vivencie filosoficamente o homem, tanto na sua ancestralidade quanto no seu presente.

Não se descuide o leitor em querer desentranhar do mundo selvagem qualquer comiseração humana. O fastio, a soberba, a necessidade de permanência e a devoração mútua existem incrustados na ancestralidade da ancestralidade narrada e no mundo contemporâneo do narrador.

Próxima à fábula, a narrativa de Sauer desentranha do ambiente e do movimento dos homens por esse ambiente uma repetição mecânica e desfeita de sentido. Na tribo e fora dela os sinais que se trocam se dão no nível da linguagem. Se entre nós a necessidade do emprego dos verbos ser e estar é uma constante dos atributos que se dão os homens e conformam o ambiente; na tribo, nada é, nada está, nem o homem nem o ambiente, tudo é denominado a partir do verbo parecer. Mas um parecer que não se determina por uma positividade da semelhança, mas pela diferença e pela dúvida.

A dúvida, e não a assertiva sobre o mundo, criam um abismo que diferencia as duas culturas e faz com que o leitor se veja frente a um mundo – não esqueça o leitor que narrativo – no qual a vida se amplia em possibilidades inusitadas. Percebe-se que a vida, em sua plenitude mais aponta para um parecer ser e não para a essência do ser. Tanto mais profícua é a percepção do autor argentino quanto mais faz com se aproxime o narrador de seu tempo, no qual o homem se conduz por certo império fundamentalista das certezas religiosas e culturais.

O último romance de José Eduardo Agualusa, chamado Barroco Tropical, publicado recentemente, é uma pérola. De início, é intrigante. Em seguida, perturbador. E, finalmente, emocionante.

A narrativa é bastante surpreendente, criativa, diferente. Tudo parte do romance de uma cantora angolana de grande sucesso internacional, chamada Kianda, com o amante, o escritor Bartolomeu Falcato. Em torno dessa história bastante tocante e instável emocionalmente, principalmente por parte da cantora, que mantém vícios um tanto quanto comuns no meio artístico, ganham espaço outras questões políticas, que revelam, por exemplo, tradições muito contestáveis em relação a tratamentos de saúde em Angola, falcatruas políticas, assassinatos, propinas, enfim, todo o campo semântico ligado à palavra “política”. Por outro lado, vem à tona também uma história muito curiosa a respeito de anjos. Anjos negros. Em princípio, essa parece ser uma faceta fantástica da narrativa. Mas apenas parece, porque ao mesmo tempo em que são relatadas aparições de anjos negros num capítulo, num clima bem misterioso, revolvido por simbolismos, em outra parte da narrativa discute-se sobre confecção de asas, sobre militantes políticos que em certa altura da guerra colonial se vestiam de anjos, ou seja, situações mais realistas, que fazem crescer no leitor curioso a vontade de devorar o livro para saber o que está por trás dos benditos anjos negros.

Outro ponto do texto que chama nossa atenção é a quantidade de referências que ele carrega. São dezenas de referências de todos os níveis: histórico, cultural, social, político; e para todos os públicos, gostos, classes, nacionalidades, etc. Até a Marília Gabriela dá o ar de sua graça! O que me faz lembrar de ressaltar que Agualusa é figurinha fácil no Brasil. Volta e meia vem participar de eventos literários por aqui. Talvez por isso, por conhecer bem o país, principalmente o Rio de Janeiro (ao que me parece), seus personagens transitam pela região, passeiam no Leblon, visitam o Real Gabinete Português de Leitura, curtem Caetano e Gil e adoram a Bahia.

É bom ressaltar também que o texto permite uma leitura menos profunda, por parte de leitores que não tenham grande conhecimento sobre a guerra colonial, sem prejuízo algum. Nesse sentido, o autor é bastante cuidadoso ao esclarecer alguns pontos históricos que considera mais importantes para a compreensão do texto, sem o peso de um livro de história ou de uma tese de doutorado. Assim, o leitor pode entrar no misterioso universo dos anjos negros e desfrutá-lo satisfatoriamente. Contudo, acredito que seja bem mais tranqüilo e menos trabalhoso embarcar no romance trazendo na mochila algum conhecimento prévio sobre a história de Angola, porque a base de tudo, no final das contas, é Angola e seus intermináveis problemas resultantes da colonização, que, em Barroco Tropical, são retratados de forma bastante negativa (ou realista), uma vez que o romance se passa em 2020 e não há nem sombra de progresso.

Resumindo, quanto ao enredo, é instigante, emocionante, hipnotizante. Quanto à escrita, esta é leve, corrida, com traços de ironia, o que a torna boa mesmo de ler. Não posso deixar de mencionar que o escritor ainda não está usando a nova ortografia da língua portuguesa. Parece que só nós, brasileiros, estamos ligando para essas mudanças…

Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa, 2009, Companhia das Letras

Nada a dizer recebeu resenhas elogiosas no Jornal do Brasil, Jornal Rascunho, Gazeta do Povo, Folha de São Paulo, Correio Braziliense e Estadão, se tornando um dos trabalhos mais comentados da Elvira. Esse é o sexto romance da autora, o quinto publicado pela Cia das Letras, que esnobou o livro A um passo, um romance de vanguarda que deve ter dado nó na cabeça dos editores de lá por mostrar uma história criada na mesma medida pela autora e por quem a lê, uma aula sobre espaços vazios, sobre o que há fora da tela, diria alguém de cinema.

Nada a dizer, de Elvira VignaNada a dizer traz uma história mais acessível, livro para se ler numa tarde sem sentir o tempo passar. Ele vem disfarçado da descrição de uma traição no ponto de vista da pessoa traída. A narradora conta como descobriu que vinha sendo traída, o que significa essa traição para ela, e como pretende superá-la. Mas há muito mais lá, e a traição amorosa é só uma pincelada de um quadro mais complexo de ideais.

Os livros de Elvira Vigna geralmente falam de mulheres que matam, na voz de narradoras que mentem. A narradora de Nada a dizer, ao contrário, quer sobreviver a mentiras, e busca uma verdade dentro de diversas delas, tanto nas de Paulo, o marido, como nas que foram construídas ao longo do tempo pela sociedade numa busca frenética por símbolos auto-impostos de solidez e felicidade. É quase uma vítima de suas antecessoras assassinas potenciais. Enquanto as killers mostravam a classe média com uma entidade fantasmagórica, sombra de si mesma, a narradora de Nada a dizer mostra que a classe média ainda tem lá sua graça, um quê de humanidade, cheia de desejos, ânsias, fraquezas. Ao fingir que fala da falência dos relacionamentos, Nada a dizer mostra a falência de estruturas de pensamento, e faz isso ironicamente caprichando no desenvolvimento da estrutura que carrega o texto.

Meu olhar nerd curtiu o esqueleto que a autora montou para acomodar sua história. Veio dele meu “uau moment”. Curti também o distanciamento momentaneo da narradora, que olha tudo como pesquisadora na bancada do laboratório antes de se aproximar e se transformar também em personagem, como seus objetos de estudo. Elvira montou a piscina, encheu de água e depois pulou.

Como bem diz o release “mais do que o inventário de perdas e danos em que costuma consistir esse tipo de relato, o que se encontra aqui é uma investigação das motivações de cada um dos envolvidos, bem como uma discussão indireta das possibilidades de entendimento amoroso no mundo urbano contemporâneo”.

Para fechar, é bom dizer que o livro não traz nenhuma lição de moral. Não foi patrocinado pela Disney. Ao desmontar os símbolos, precisa lidar com o que está embaixo deles, o tal do mundo real, se concentrando em um reaprender a olhar a si mesmo. Com direito até a mulheres que matam… ou não. Afinal, mesmo uma narradora interessada em verdades pode contar uma mentira de vez em quando.

Nada a dizer
Elvira Vigna
Companhia das letras
161 páginas.

Já conhecia o texto de Miguel Carqueija do livro Farei meu destino, onde o autor mostrava sua capacidade de lidar com personagens jovens em histórias assumidamente voltadas para jovens sem tentar disfarçá-las de algo mais que uma aventura. Na resenha que escrevi, indiquei os prós e contras de maneira esquemática, tópicos que aproveitei para revisitar terminada a leitura de Tempo das caçadoras, e percebi que apenas os contras haviam ficado para trás.

Antes de tudo, Tempo das Caçadoras, segundo o prefácio, é a sequência de O Fantasma do Apito, mas poderia ser lida de forma independente. Dividida em duas partes, O Clube da Luluzinha e O Olho Mortal, dá continuidade à história de três meninas que foram enviadas para um castelo e lá se envolveram com mortes que levavam ao misterioso Conde de Bruxelas. Como não li O Fantasma… não tive base para entender a motivação das meninas e da policial que as acompanha na perseguição ao tal Conde. Então, apesar de ser parte de uma história maior – a série Liga Mundial – contada de forma modular, aconselho a leitura do primeiro livro para que se aproveite a evolução dos personagens em sua totalidade.

Em o Clube da Luluzinha, o grupo de protagonistas acaba parando numa estranha pousada no meio do nada, devido a uma tempestade. Lá elas precisam lidar umas com as outras, com a necessidade de estar em grupo, e também com um misterioso assassinato. É um texto que evoca a tradição policial, mas usando seus elementos de maneira ágil, através das brincadeiras constantes que as personagens fazem umas com as outras nos diálogos e na percepção das cenas. Num texto mais longo, o autor teria tempo de desenvolver melhor as ferramentas que parece conhecer bem. Aqui, o ritmo não permite. Mas isso não estraga a brincadeira. O importante não é descobrir o assassino, e sim pegar o momento de respiração suspensa em que se pergunta “quem matou?” e aproveitar isso nas relações entre personagens.

Vale comentar que Miguel Carqueija consegue lidar com vários deles ao mesmo tempo sem parecer um rodízio de falas aleatório. É coisa que me irrita e distraí do texto o autor decidir que cada personagem precisa falar pelo menos uma vez em cada cena, alternando uma por uma as vozes presentes. Em Tempo das Caçadoras isso ocorre de forma natural.

Em O Olho Mortal, as três meninas e a policial que as acompanha caem na estrada novamente em busca do Conde, o mote que uniria as duas partes. Para que o leitor não se frustre por não ver o morte realizado, elas chegam a encontrá-lo, mas isso não é simbólico para esse módulo isoladamente, somente para a série como um todo.

Ao contrário da primeira, mais fechada no mistério que se propõe, a segunda parte parece fazer a ponte para uma nova história, dando apenas um gostinho do Conde de Bruxelas, que entra num pé e sai no outro. É divertida, puxa mais para a aventura do que para o mistério, mas será mais bem aproveitada quando o texto da Liga puder ser lido inteiro, num livro só.

Ainda assim, um bom clímax que mantém os pontos fortes do autor e mostra que sua aposta em histórias juvenis pode render bons frutos.

Pegar algo para ler na exaustão de um final de dia pode ser uma injustiça com qualquer autor, mas por outro lado pode ser um bom medidor também. Li Sobrescritos, de Sérgio Rodrigues, numa tacada só, com a leveza que o livro se propõe.

As “40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos” passam rápido, com algum sarcasmo e boa dose de ceticismo sobre a profissão de escritor. Algumas passagens, de tão verdadeiras, dão uma vontade tremenda de largar tudo e abrir uma quitanda. Outras nos lavam a alma. Em As razões:

“Ele perguntou a ela por que ela escrevia e ela respondeu que escrevia porque tinha vontade, e ele falou, muita gente tem vontade, vontade não basta, e ela disse mas então você está me perguntando como eu consigo escrever, é isso?, (…).”

Gosto deste conto por várias razões. A primeira é que “porque deu vontade” é a minha resposta para muita coisa e conheço de perto, intimamente, a reação de pânico e surpresa que isto pode causar nas pessoas. A segunda é que o conto inteiro é escrito de uma maneira extremamente moderna, com a pontuação a serviço do clima, da cena, da narrativa de uma forma geral. Gosto muito.

O livro todo, aliás, merece grande destaque no uso moderno da linguagem. Sem se prender a formalismos idiotas e, ao mesmo tempo, sem nem chegar perto – graças a Deus – do hermético, Sérgio Rodrigues consegue conduzir o leitor no ritmo que cada conto pede, como um maestro conduzindo músicas diferentes. A batuta não se perde, o conjunto fica harmônico e quem ganha é o leitor.

Após treze anos de guerra incessante contra as colônias africanas, Portugal começou a sentir o desgaste desta empreitada através não somente dos levantes que ocorriam com cada vez mais frequência entre os povos colonizados, mas também e principalmente pela insatisfação dos próprios portugueses, cansados que estavam de uma luta que se arrastava há mais de uma década e que nada mais trazia além de pesares.

Embora Portugal sustentasse a manutenção das Guerras Coloniais pelo princípio político da defesa daquilo que considerava como seu território nacional, baseando-se ideologicamente num conceito de nação pluricontinental e multirracial, as nações africanas, notadamente Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, justificavam os movimentos de libertação com base no princípio inalienável de autodeterminação e independência, num âmbito internacional de apoio e incentivo à luta. E, não tão distante do campo das ações político-geográficas, esta guerra se refletiu também e de maneira bastante acentuada na literatura de ambos os lados durante boa parte da segunda metade do século XX, principalmente em face à situação político-social vivida durante o período das guerras coloniais e da nova ordem estabelecida depois da queda do salazarismo no dia 25 de abril de 1974, através da Revolução dos Cravos.

O tema mais recorrente nas obras ficcionais portuguesas deste período passou a ser a Guerra Colonial, e as produções literárias a respeito do assunto focavam o teor crítico da guerra, como uma forma de recuperar e retratar, na ficção, a sucessão de barbáries cometidas por Portugal contra a África. O romance refletia um momento de mudanças e questionamentos próprio do país na época, que procurava, entre outras coisas, sua autodefinição. Essa mistura entre a história e a ficção, além da busca por dados e vivências que fossem reais, não impediu que a linguagem criativa utilizada nas obras fosse explorada ao máximo, dando forma a uma característica que poderia ser incorporada, e aceita, como literatura portuguesa.

O romance português buscava, assim, encontrar, tanto no contexto anterior quanto posterior à Revolução dos Cravos, sua característica marcante e sua identidade. Uma literatura que envolvesse toda a vivência dos portugueses da época da ditadura salazarista, a passagem pela revolução e os dias atuais através de uma linguagem metafórica e plural. O pensamento acerca da história e a busca por sua recuperação, nos altos e baixos, também marcariam as ideias artísticas das produções essencialmente portuguesas.

O filósofo e pensador francês Paul Ricoeur afirmou que um texto literário historiográfico relaciona-se com seu referente da mesma maneira como o veículo de uma metáfora relaciona-se com seu conteúdo. Assim, um discurso histórico passaria a ser uma espécie de metáfora ampliada — a definição tradicional de alegoria — e, por conseguinte, deveria ser visto como pertencente à ordem da fala figurativa, tanto quanto às ordens das falas literal e técnica. É, talvez, neste contexto que mais assertivamente se enquadre o livro “Capitão de Abril”, de Salgueiro Maia, que figurará, aqui, como exemplo pertinente para o melhor entendimento da literatura histórico-ficcional desta época.

Mistura de história real e ficção com pitadas de prosa literária, o livro traça de forma gradativa — com se, com isso, também passasse do texto literário a um texto mais histórico — uma visão que buscava abranger todos os aspectos que caracterizaram a pré-revolução, desde os motivos que levaram os portugueses à guerra, às dificuldades do dia-a-dia dos soldados e o seu quase esquecimento por partes “dos portugueses que aqui ficaram” [referência ao distanciamento existente entre Portugal e os soldados que foram enviados à África] e os motivos que levaram ao levante de 25 de Abril. No início do livro, a figura quase mítica do Capitão Gaspar dá à história um quê épico e, de certo modo, também caricatural, como um ensaio de retorno às grandes eras em que os portugueses eram tidos como os Senhores do Mundo. Contudo, à medida que o livro avança e o lado histórico ganha maiores proporções — e o Capitão sai de cena, enredado pelas tramas paralelas da história e da sua própria vida —, começam também a surgir os questionamentos acerca da guerra e do papel que Portugal desempenhou nela, como se os portugueses, através do narrador, questionassem seu legado enquanto colonizadores e voltassem o olhar mais para dentro de si, para as barbáries que se sucediam em sua própria terra. Aqui, é como se houvesse um questionamento do próprio ser português e, com isso, um questionamento também acerca da história corrente de Portugal.

Isto vai ao encontro do que diz o historiador francês Paul Veyne, quando expõe que não existe um método para se contar uma história, porque a história não faz exigências. Contanto que se relatem coisas verdadeiras, ela fica satisfeita. Ela só procura a verdade, e nisso não é uma ciência, que procura a exatidão, caracterizando-se assim como o mais original do gênero histórico.

Neste contexto, é como se o colonizador assumisse os olhos do colonizado, tomando seus sentimentos como fomento para enraizar suas próprias mudanças. A literatura passa, então, a ser instrumento de uma nova consciência, a buscar, através dos relatos de sua própria história, os motivos que os conduziram até aquele estado de coisas e a força para criar as bases da mudança.

Embora o colonizado não seja citado ou tido como instrumento inspirador da mudança, é dele o ideário adotado pelo colonizador, subjetivamente estando ambos a trabalharem sobre a mesma base ideológica, porém com objetivos diferentes.

Por outro lado, a colonização trouxe consigo um rastro de destruição e morte às nações vítimas do “avanço português”. Findo este período de lutas e de resistência, havia a necessidade de se fazer uma catarse de todo esse sentimento tão sufocado e colocar tudo pra fora, expondo o que era incômodo e expulsando o que não mais convinha ao tempo libertário que surgia. Uma nova geração de escritores, cujas bases literárias estavam profundamente arraigadas no contexto histórico vigente de seus respectivos países, surgiu com a ideia de não apenas criar literatura, mas de conscientizar o povo através da evocação desse passado de conflitos e lutas.

A palavra, então, se torna uma espécie de arma, como forma de combate anticolonial de uma geração que não ansiava apenas pela libertação, mas que também buscava a conscientização coletiva para obter novamente uma identidade cultural, dispersa pela colonização massacrante de Portugal. Essa geração que pregava a descolonização [no sentido de expurgar tudo aquilo que havia sido forçosamente imposto e reaver sua própria identidade], a libertação como colônia e a liberdade cultural, também queria ter sua forma particular de expressão e não ter de seguir modelos que nada tinham a ver com sua realidade. Autores que buscavam algo realmente deles, a construção de uma identidade verdadeira, com uma cara própria, e não aquela imposta pelo colonizador.

Em contrapartida, a literatura colonial vinha como instrumento de validação da colônia, que reafirmava a superioridade do branco em relação ao negro, visto como ser inferior ou alegórico, nunca estudado em profundidade, como se fosse desprovido de qualquer tipo de sentimento interior e destituído de qualquer perspectiva de vida.

O conto “Náusea”, do escritor angolano Agostinho Neto, retrata de modo bem característico o ponto de vista deste período, evocando as raízes da própria cultura daquele que escreve e execrando o que vem de fora. Neto, que desempenhou um papel decisivo na independência de seu país, tornando-se o primeiro presidente de Angola logo após a independência, em 1975, reporta-se a um elemento dominante e de forte apelo histórico, presente na história de ambos os povos, colonizadores e colonizados; reporta-se ao mar. Porém, ele não o vê como os portugueses, que exaltavam seus grandes feitos marítimos, realizados com as grandes expedições, e sim, com os olhos do outro lado, dos que sofreram as consequências destas mesmas expedições. Enquanto para uns o mar trazia vitórias, para outros, ele irremediavelmente aludia à morte.

A literatura, aqui, narra a “verdade histórica” que vem de fora, a fatalidade que cai sobre o povo com a vinda dos intrusos que trouxeram, junto consigo, a transformação de uma realidade. O velho João, após avistar o mar, conta ao sobrinho que aquela infinidade azul não lhe trazia boas recordações do passado, somente lembranças vivificadas de morte. João, figurativamente representado como o homem africano brutalmente colonizado pelo europeu, se desespera ao lembrar-se desses episódios de sofrimento e transformações que chegavam através do mar. Aqui, a história faz uso da literatura para expressar o sentimento de dor e perda pela qual esta personagem passou, “o cheiro deste mar, Kalunga, lhe fazia mal”. Há um sentido conotativo contido nesta náusea, ligado ao que foi remexido, ao passado não morto, trazido subitamente à tona ao rever aquela imensidão azul que tanto o fazia sofrer. O mar era o passado de volta trazendo à superfície, tal qual o fenômeno das marés, tudo aquilo que está no fundo, para ser revisto, regurgitado.

Assim, se a saída encontrada para o português foi a revolução, para o africano a saída foi o vômito, expelir forçosamente esse mal, como forma de eliminar o que o tempo não foi capaz de digerir. Há uma certa urgência neste expurgo, pois somente depois dele é que o velho João — e por definição geral, as ex-colônias africanas — poderiam caminhar novamente em paz. O conto expõe a visão ainda não digerida de um passado de agruras vivido por este povo, a necessidade de eliminação do que não fazia bem, daquela cultura imposta pelo colonizador.

E, aqui, de forma muito sutil, ambas as literaturas novamente dialogam entre si, seja no desejo de libertação e busca da identidade do colonizado, seja na necessidade de retomada da identidade perdida e da “liberdade encarcerada” do colonizador. Novamente a história se veste de literatura para contar como o desejo humano está sempre em busca da renovação, da busca pela identidade, seja ela perdida ou ainda não criada.

Referências Bibliográficas:

MAIA, Salgueiro. Capitão de Abril. Ed. Notícias Editorial. 1997.

NETO, Agostinho. Náusea. Lisboa. Ed. 70, 1980. p. 21-30.

VEYNE, Paul. .”Writing history: essay on epistemology”, tradução de Mina Moore-Rinvolucri (Middletown, 1984), p. 12.

RICOEUR, Paul. “The rule of narrativity: symbolic discourse and the experiences of time in Ricoeur’s thought“, in “In search of meaning”, org. por Theodore F Geraets (Ottawa, 1985), 287-299.

Café Espacial 6É sempre uma felicidade receber a Café Espacial. A revista está apenas no número 6 mas eu já separo um bom chá, tempo e uma rede a jeito para curtir.

A número 6, fica aqui o puxão de orelha, tem um deslize horrível nas páginas 18 e 19, com uma imagem que deveria estar com o branco transparente cobrindo parte da entrevista com a banda VitrolaVil. Fiquei adivinhando pelo contexto o restante das palavras encobertas mas eu tenho certeza de que já amarraram o diagramador no tronco e que você pode assinar a publicação sem susto.

A Café Espacial é, para mim, fonte de grande prazer porque descubro nela novos assuntos e interesses. Nesta edição fiquei com vontade – e vou ceder a ela – de procurar os livros da autora Carol Bensimon, de conhecer melhor o trabalho da fotógrafa Laura Gattaz e de ouvir o som do VitrolaVil. As bandas, não sei se por ignorância minha ou vanguardismo da revista, são sempre uma descoberta. E eu adoro descobrir coisas novas.

Agora, preciso falar para vocês, comovente mesmo foi a matéria Na sala de projeção, o coração do cinema. Tomo a liberdade de transcrever alguns trechos:

Senhor Carlito explicou que antes os filmes eram exibidos em celulóide, o que acarretava grande risco de queimar. Hoje, em poliéster, os filmes chegam à sala de projeção em diversas partes e são bem resistentes, diferentes de uma época em que a máquina de projeção era a carvão.

(…)

E então que senhor Carlito nos conta que é aposentado na função de “operador cinematográfico”, com carteira assinada e tudo. “Pode ver, eu trouxe para você conferir”, mostra orgulhoso.

(…)

E o saudosismo? Existe? O senhor Carlito garante que não.

“Os tempos mudam e precisamos acompanhar o que tem acontecido na nossa era. Foi uma época muito boa enquanto trabalhei com isso, mas temos que entender que o cinema sempre será cinema e os projecionistas, pode perceber, continuam solitários levando luz à tela e ao coração das pessoas”.

Lindo, não?

Mulher de um homem sóNunca é muito simples falar na voz de alguém do sexo oposto. Sem entrar em sexismos idiotas, o fato é que temos diferenças. Alex Castro, em Mulher de um homem só, consegue que a voz feminina, que narra a estória, tenha credibilidade. A voz é tão real que respinga até mesmo nos xingamentos que normalmente usamos.

A imagem de esposa ideal de 1956 que tentei passar pro Murilo elas captaram muito bem: até hoje me chamam de amélia, aquelas vacas.

E este é o principal problema do livro. A credibilidade é tanta que vira a moeda e se torna padrão. Ela se divorcia quando é esperado que o faça, fica zangada quando assim deveria, aceita ajuda quando lhe é cômodo. A narradora do livro é padrão, é o que esperamos. A personagem age exatamente dentro do esperado em cada situação e, com isso, torna-se uma espectadora de sua própria vida. Tenho convicção de que esta era a intenção do autor, mas sem personagens coadjuvantes de igual peso ou uma estória impactante, a voz narrativa assume um papel importante demais para ser apenas o reflexo de um (interessantíssimo) exercício literário. O domínio do autor na condução da estória, entretanto, é digno de nota. Esta marca de interrupção, por exemplo, é deliciosa:

– Acho que todo mundo já tev

– A resposta é sim, não é? Sim?

É um grande mérito quando o autor não permite que o texto o domine.

Mulher de um homem só é cuidadoso na escolha de palavras e exatamente por este motivo incomoda quando – em raros momentos – encontramos justificativas. Entendo que muitas vezes precisamos deixar às claras a não-linearidade da narrativa, mas a pausa dentro do texto enxuto e medido do restante do livro causa grande estranheza. Como, por exemplo, a introdução à prolepse que aparece logo no início do livro:

Vou ter que dar uns pulos no tempo. Estava tudo indo tão bonitinho que fico até chateada de embaralhar as histórias. Comecei do começo lá comecinho mesmo e estava planejando continuar reto até o fim, em ordem cronológica e tudo. Mas aí, e se ceder às minhas vontades? Se pular até o Glicério, vou ter que pular pra trás depois. E sei como é, me conheço, gosto de  dançar: se começo a saracotear, não paro mais. Deixa pra lá: vou, volto, não me importo. Pra que a pressa? A história não vai a lugar nenhum.

Esta explicação, no entanto, não se concretiza. A narradora não volta a “saracotear” a estória. Ficamos à espera de uma não-linearidade que não se realiza. Daí o estranhamento. Não chega a comprometer a leitura, mas poderia receber o mesmo tipo de cuidado que o restante do livro recebe.

Muitíssimo agrada o respeito à inteligência do leitor. Só sabemos que o médico é endocrinologista por conta desta passagem:

Adorava ir visitá-lo no consultório. (…) Era aquela sala de espera enorme, cheia de mulheres gordas, mulheres gordas por todo lado, e eu lá, magérrima na comparação.

Não há, de fato, nenhuma necessidade em citar nominalmente a especialidade do médico. Outro exemplo é a informação de que a narradora divorciou-se. O livro é contado no passado, mas o destino do marido poderia ser outro, como a morte ou a reconciliação. Sabemos que houve um divórcio apenas pelo fato de existir uma segunda esposa.

(…) amanhã, fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele, indo visitar, contando histórias do passado e sugando o futuro.

Mulher de um homem só é recheado deste tipo de jogo literário. Esse jogo entre o dito, o explicitado e o entendido é rico, é a grande força do livro e o que me faz aguardar ansiosamente o próximo livro do autor.

veredito em Canudos, de Sándor MáraiSándor Márai escreveu vários e belos romances. Entre os que constam de sua obra, um merece destaque para nós brasileiros – talvez não pela qualidade, há outros mais densos, melhor trabalhados. O próprio título – Veredicto em Canudos – é ousado e estranho. O escritor húngaro, que leu Euclides da Cunha na tradução inglesa, foi tomado por algum  aspecto do nosso Os Sertões.

O que teria encontrado ali poderia ter sido uma similaridade com a experiência vivida no período da 2ª Guerra e o que a sucede, quando, primeiro os alemães, depois os russos ocuparam a Hungria e fizeram do escritor um exilado. A terra ocupada e devastada de Canudos seria o símile imperfeito da barbárie, retificando o que dos conselheiristas falava a República, posto que a barbárie se encontrava lado a lado, entre os invasores e os invadidos, com clara tendência a tornar aqueles mais bárbaros do que estes.

A esta hipótese se junta outra não menos instigante que se prende à linguagem de Euclides. É notório no livro de Márai o gosto pelo léxico utilizado pelo autor brasileiro. Teriam sido os longos períodos – de estilo clássico – como são, por exemplo, os períodos de As Brasas o que aproximou e fascinou o húngaro, em busca de uma linguagem próxima a da língua natal e ao mesmo tempo exemplar do isolamento político e lingüístico em que estava mergulhado.

Quando o livro foi lançado por aqui, em 2002, uma crítica que afirmava ser o Veredicto em Canudos obra sem motivo ou explicação, desnecessária e menor no romanceiro do grande autor, dizia da estranheza provocada pelo olhar estrangeiro sobre episódio anódino na cultura ocidental. Entretanto, levantem-se alguns pontos que mostram a noção de autoria e validade do livro.

O romance de Sandór Márai “repete” Euclides em toda a primeira parte, parece querer criar, para outros leitores, a ambiência do crime, do extermínio, da diáspora nordestina – estão ali os derruídos personagens que passeiam frente a soldadesca em procissão macabra. Ao aprofundar-se na cena, Márai vai acrescentar elementos a partir dos quais sua narrativa ganhará foros próprios. O ponto da partida é a cabeça decapitada do Conselheiro. Elevada por um negro descomunal, para a visão dos circunstantes, bem no alto da latada, que servia de abrigo e êmulo para a celebração da inglória vitória, a cabeça sorri e espanta.

Tal espanto, provocado por um Antônio Conselheiro mais vivo que morto, vai servir de mote para a conversa, entre uma conselheirista estrangeira e o ministro da guerra brasileiro, de que se valerá o húngaro, para forjar sua ficção sobre Canudos, sobre as civilizações e barbáries universais, que assim e só assim nos dá a medida exata da força que um texto pode adquirir a partir da leitura do outro.

Ler Os Sertões, após a leitura do outro, retira-o das prisões impostas por certo xenofobismo que vê em Euclides e em seu magistral livro a ânsia de sermos lidos como diferentes e, sobretudo, rechaça o gosto romântico – que tanto nos constitui – em nos vermos como presas e promulgadores de uma cultura folclórica e pitoresca.

Em um mundo aonde os meios tecnológicos ditam as regras e a forma de viver passou a ser reflexo desta condição, assumindo um ritmo assustadoramente rápido, tornou-se evidente que o modelo de representação vigente até então já não comporta este avanço em sua totalidade. Velhas definições foram definhando e uma nova consciência, mais generalizada, quiçá plana, surgiu.

É neste terreno de múltiplas possibilidades que surge a ideia de Pós-modernidade. Os conceitos que englobam sua definição podem ser resumidos por certas características peculiares predominantemente desenvolvidas no século XX, a saber, o boom dos meios de comunicação e a propensão em se deixar dominar por seus inúmeros tentáculos; a colonização do nosso universo, até então particular, pelos mercados, seja ele econômico, político, cultural ou social; a celebração exacerbada do consumo como modo de expressão pessoal; a pluralidade e pouco aprofundamento cultural, seja no âmbito restrito ou global; a polarização social e a falência das grandes metanarrativas como fomentadora da consciência e aprofundamento individual.

A pós-modernidade recobre todos esses fenômenos conduzindo, em um único e mesmo movimento, a uma lógica cultural que valoriza o relativismo e a indiferença, a um conjunto de processos intelectuais flutuantes e indeterminados, a uma configuração de traços sociais que significaria a erupção de um movimento de descontinuidade da condição moderna, ou seja, mudanças dos sistemas produtivos e crise do trabalho, eclipse da historicidade, crise do individualismo e onipresença da cultura narcisista de massa. Em outras palavras, a pós-modernidade tem predomínio do instantâneo, da perda de fronteiras, gerando a ideia de que o mundo está cada vez menor através do avanço da tecnologia, deixando-nos diante de um mundo virtual, onde imagem, som e texto são produzidos em velocidade instantânea.

Como colocou Fredric Jameson, teórico do pós-modernismo, o indivíduo perdeu sua identidade e tornou-se, a rigor, impessoal. A pós-modernidade contém características progressistas e reacionárias, cuja expressão cultural está intimamente ligada aos aspectos mercadológicos, transformando a cultura, antes oriunda de uma lógica pensante, em simples mercadoria. A sociedade pós-moderna, assim, é marcada pela falta de profundidade, pelo excesso de superficialidade e pela mercantilização da arte como um todo. Segundo Jameson, “nós nos pensamos enquanto mercadoria, e esta é, talvez, a mais importante característica formal de todos os pós-modernismos“.

Neste contexto, a literatura nos chega como a sublimação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo, onde apenas o momento presente tem importância, seu precedente, sua historicidade, não acrescenta nada e, portanto, deve ser banalizado. Mudam-se valores; a partir de então é o novo, o fugidio, o efêmero e o individual que deve prevalecer.

Como exemplos notórios da disseminação dos aspectos pós-modernos estão dois dos mais respeitados escritores da chamada literatura mainstream; um americano e, outro, inglês.

Na obra Iniciantes, o escritor norte-americano Raymond Carver traça um panorama da pós-modernidade através de contos cujas características mais acentuadas são o tom minimalista da narrativa e a ruptura com quaisquer influências anteriores, buscando no momento presente a completude da ideia proposta. O conto “Torta”, um dos mais significativos do livro, cuja referência direta se dá em relação ao dualismo amor / renúncia, figurará, aqui, como excelente exemplo.

O carro estava lá, e não os outros, e Burt deu graças a Deus por isso”. Este conto nos apresenta Burt, um homem divorciado que decide, sem convite, ir visitar a família no dia de Natal. Recebido com ressalvas pela ex-esposa e os dois filhos, ele se vê às voltas com uma série de acontecimentos aos quais, dada a separação, não tem mais acesso, mas que, pelo hábito, ou pela inércia de sua própria condição, não consegue abandonar. Entre troca de presentes e elogios vazios, Carver nos apresentar dois dos mais marcantes aspectos da pós-modernidade; Burt é um sujeito inserido na vida planificada das famílias das grandes cidades e, como tal, perdeu o sentido de unicidade, de individualismo. Para ele, épocas como o Natal já não representam um sentido particular, mas sim, figuram como “panos de fundo” de algo que já não mais lhe pertence e para o qual ainda existe “uma brecha cabível de reparação”. É como se, através dos presentes e da festa, ele pudesse se sentir inserido novamente no ambiente ao qual estava acomodado e no qual sua vida tinha certa significação. Para ele, o Natal, sem toda aquela encenação, enfeites ou reuniões em volta da mesa, se lhe afigurava vazio de sentido. Não sentido como forma da plenitude do fato, mas sentido como perpetuação da mesmice. Por outro lado, os mesmos presentes com os quais ele tenta reconquistar esse espaço perdido, esse vazio de sentido, é a representação do vazio maior de toda a família. Os presentes representam a planificação de significados, a diluição da cultura e do individualismo e sua imersão na efemeridade da cultura de massa.

Ao ver-se excluído de um espaço que julgava seu, espaço este que passa a ser ocupado “por outros”, e de um amor que dava sentido ao seu não-sentir, Burt reage da única forma possível a quem se sente perdedor; tenta acabar com o Natal da família roubando-lhes as tortas e quase ateando fogo na casa, por conta do excesso de lenhas postas na lareira. 

O ciúme expressado pela personagem ao ver-se preterido é, aqui, uma forma de renúncia. Com isso, Burt renuncia a uma vida nova, vazia dos sentidos comuns e aberta a novas experiências. Para ele, apenas o que está estratificado tem importância; apenas aquele espaço planificado, conhecido e vivido é válido e não há espaço para uma nova busca por outros significados. Manter-se no nível da superfície, ou seja, do que já se tem por certo, é o que importa e, portanto, o “retorno ao seio do lar” é o desejado.

Assim, o conto também evoca de modo muito particular outras duas características marcantes do pós-modernismo: a falta de expressão e a ansiedade. A vida cotidiana, as experiências psíquicas e as linguagens culturais passaram a ser dominadas pelas categorias de espaço e não pelas de tempo, como o eram no período anterior do alto modernismo.

Burt não quer deixar que seu espaço seja invadido, tanto que, no dia seguinte, retorna a casa para resolver o que não foi resolvido na noite anterior. Aqui, novamente a questão do amor e da renúncia se faz presente. Não que Burt ame sua ex-esposa, mas ela é a representação da segurança que ele perdera, do espaço conhecido, da planificação de seus sentidos. E é através do ciúme inconsequente que ele renuncia a tudo o mais. Como desfecho de sua condição, o ato de cortar o fio do telefone quando sua ex-esposa fala com outro evidencia esse desejo de se desligar do que está fora daquele espaço, de reter aquilo que lhe é conhecido e não deixar que nada de externo possa entrar. E quando, após um ato seu de possível agressão com um objeto que lhes era comum, ela lhe pede para “deixar nosso cinzeiro aí”, ele entende sua fala como uma abertura àquilo que pretendia, um retorno, por assim dizer, ao seu espaço. A renúncia da ex em seguir com a discussão é, para Burt, um retorno do amor, não a ela, mas ao comodismo de sua situação. Diante desta evidência, resta a ele retornar em outra data para “acertar o que não está certo”.

Seguindo esta linha de pensamento dualista acerca do amor e da renúncia, outro texto que evoca as características pós-modernistas é o conto “Reviver”, do inglês Julian Barnes, presente na obra “Um Toque de Limão”.

Nele, Ivan, um escritor já afamado pela vasta obra, se vê diante de um pedido inusitado: o encurtamento de uma velha obra sua para representação por uma atriz da qual jamais ouvira falar. No dia da encenação, o velho escritor se vê “arrebatado pela jovem atriz”, vítima do mesmo amor cuja personificação é o tema central da peça.

Porém, este amor é idílico, vago em sua realização, um amor fadado ao platonismo, visto a diferença de idade entre ambos e sua equivocada rigidez moral. Aqui, há a confusão entre personagem e pessoa; o velho escritor não sabe se seu amor é de fato pela jovem atriz ou se por sua personagem, Verochka, que, antes apenas uma coadjuvante negligenciada, nesta nova visão lhe arrebata sobremaneira o coração.

Num primeiro momento, nota-se a presença significativa da estratificação cultural na própria encenação. Passados apenas trinta anos, a peça teve de ser cortada para se adequar aos novos palcos e as novas plateias. Apenas um ajuste a princípio, esse corte sugere toda uma concepção de visão cultural; já não se aceita mais a cultura como forma de aprofundamento do pensar. Agora, ela deve ser leve, ágil, rápida. Aqui, a renúncia do escritor-personagem já denota seu caráter pós-modernista; abre-se mão de uma obra antiga, completa em suas significações, mutila-se seu sentido primário em detrimento de um público inapto, pouco exigente e, acima de tudo, massificado. 

Passado esse momento inicial, surge entre os dois um acanhado flerte; ele, beijando-lhe as mãos em cartas sentimentais; ela, aceitando de bom grado seus galanteios.

E, então, surge a questão da jornada, a representação do enfrentamento dos desafios em busca do amor que está longe. E esta viagem, que anteriormente era tida como o ato final do amor romântico, dura exatos cinquenta quilômetros.

Em seu Teoria da Literatura: Uma Introdução, o crítico Terry Eagleton afirmou que a literatura pós-moderna “é uma arte de prazeres, superfícies e intensidades fugazes. Por saber que suas próprias ficções são infundadas e gratuitas, [o escritor] pode atingir uma espécie de autenticidade negativa apenas ao alardear sua irônica consciência desse fato, pervertidamente chamando atenção para seu próprio status de artifício construído”.

Barnes, através de um narrador tendencioso e, por vezes, cínico, trata estes dois momentos de modo bem peculiar. Embora o escritor veja na atriz a representação de sua amada personagem, o palavreado de amor e entrega constantes nas cartas que ele envia é vazio e convencional, não remetendo a qualquer nota de originalidade. O amor torna-se simulacro de tantas outras situações cujas verdades estão estampadas apenas nas velhas folhas que escrevera. É como se o autor, ao se referir ao seu amor pela atriz, fizesse uma colagem de outros tantos amores. Tanto que, no final, este amor tem a duração exata de apenas cinquenta quilômetros.

Ele a contemplou; beijou-lhe as mãos, inalou o ar que ela exalava. Mas, não ousou beijar-lhe os lábios: renúncia”.

Mesmo tendo-a a seu alcance e contando com seu pleno consentimento, ele optou pela renúncia ao amor. Ou, antes, optou por renunciar não ao amor em si, visto que a amava tão substancialmente quanto se ama a superfície calma de um lago; neste momento, ele renuncia àquilo que está fora de sua rede de significações, que foge da simplicidade dos argumentos que suas peças tão bem simularam e que, por definição, representa a superficialidade de seus próprios sentimentos. O narrador se pergunta por que diabos havia de ser tão covardes as pessoas do mundo, cuja capacidade de se livrar das convenções simplistas da vida e se entregar a um novo amor, verdadeiro, de mãos e pele, lhes era nula. A resposta talvez esteja na própria concepção renunciante do escritor. Aceitar aquele amor seria ultrapassar uma barreira para a qual seu espírito não estava preparado, seria esvaziar-se dos significados comuns, já tão arraigadamente seus, e partir em busca de novos alentos.

A desculpa, então, recai sobre aquilo que mais pesa entre ambos, a idade, e o pensamento final “ah, se…”, como forma de escape, de renúncia, se qualifica como a estagnação de significados, de superficialidade, tão presentes nas obras pós-modernas.

E uma vez renunciado o amor, resta apenas uma mão vazia, mão feita de frio gesso, como forma de continuidade, de banalização de sentimentos já meramente superficiais.

Nota-se, então, que em ambas as obras há a presença de um amor cujo alcance está fora da esfera daqueles que o buscam. E seja ele um amor destrutivo, passional e com fortes inclinações a crises de ciúmes ou um amor platônico e idealizado, ambos seus perseguidores o renunciam por não entendê-lo, por esvaziar seu sentido e tentar enquadrá-lo apenas à sua esfera de compreensão.

As personagens de ambos os contos mantêm-se na superficialidade de suas emoções, e tanto Burt quanto Ivan vivem apenas dentro daquele mundo particular ao qual foram condicionados e, ao se verem diante de uma nova possibilidade, de algo que pode arrancá-los da mesmice cotidiana, renunciam tenazmente a ele utilizando-se para isso de quaisquer argumentos que estejam ao alcance, seja uma mão de gesso ou o roubo de cinco tortas.

Dois dos últimos livros que li, me encantaram. Um, pela secura de seus fragmentos, propõe uma longa reflexão sobre a morte; o outro, com as reflexões ficcionais sobre o fazer poético, propõe um longo mergulho na ética da escrita. Os dois falam da morte.

O livro de Canetti permite a reflexão sobre a vida, suas relações com o desconhecido e o medo com que é encarado. Uma das reflexões mais densas e ao mesmo tempo mais angustiantes se dá na acertiva de que o devir não deve impedir que se cumpram os desejos e os deveres, que se tenha contraído durante a vida e que exigem coragem e determinação para serem executados. Deve-se cumpri-los, pois não o fazer é render-se à morte, antecipá-la e aceitá-la, sem que se lhe cuspa na cara e a recuse terminantemente. A recusa do escritor é tanto mais densa quanto mais nociva à vida se torna a presença da morte. Ao recusar qualquer transcendência, qualquer capitulação, que dê aos homens a esperança de que a morte significa vida, ao recusar-se aos estatutoas religiosos da morte, Canetti afirma ao mesmo tempo sua crença na inevitabilidade da morte e a certeza de que, embora inevitável, não se deve curvar a ela.

O romance do escritor chileno Roberto BolañoA estrela distante – faz o leitor mergulhar de forma assimétrica na constituição do que significa a literatura. Três personagens se destacam na teia que cria para refletir acerca da produção literária. Uma, a do escritor de esquerda – comprometido com as revoluções libertárias e com a ação direta contra a opressão latino-americana, é uma figura frágil cujo ideário se sustenta nas lendas de sua ação. A outra, a do intelectual pequeno burguês, grande e profundo conhecedor da literatura, que se confina em seu exílio parisiense, para melhor conhecer e aprofundar o gosto pela literatura e mergulho na erudição que daí advém, termina assassinada por três neo-nazistaas ao socorrer uma mulher que era por eles espancada. A terceira figura – encarna – nos anos terríveis da ditadura de Pinochet – o talvez mais terrível que o poético possa suscitar. A presença da morte. A complexidade da personagem é aterradora. Se nela conhecemos a arte, nela também reconhecemos sua face mais terrível. Na morte e na ação repugnante da personagem, que mata por opção política e faz destas mortes talvez a mais clara denúncia do ilimitado possível que arte sugere, reencontram-se os ditames da arte moderna, em que o desarmônico, o horroroso e a crueldade desenham com traços finos  o rosto imutável e arrogante do homem.

A leitura de Canetti e de Bolaño de certa maneira se contradizem e se aproximam, se um vê na morte a representação do mais terrível e a luta que se deve travar até o fim, afim de não reconhecê-la; no outro, a representação da morte – submetida à arte – é da mesma forma a revelação mais destetável e bela do que se tem para oferecer ao mundo.

Recebi para análise três livros de Arlindo Gonçalves, Desonrados e outros contos, Desacelerada mecânica cotidiana e o Carinhas(os) Urbanas(os). Este último, escrito e fotografado a quatro mãos com Luciana Fátima. Preciso confessar que tinha firme intenção de escrever três resenhas separadas, uma para cada livro. Depois de ler os livros, percebo que esta tarefa tornou-se impossível para mim.

Os contos, assim como as fotos, possuem uma estrutura narrativa interessantíssima, de reflexo. Um conto é complementar e reflexo do outro, todos os personagens se entrelaçam, todas as estórias se tocam e todos os livros tocam profundamente o leitor.

São muitos níveis diferentes de espelhamento. Começa, claro, com o Eu da estória sendo contada. Não existe um narrador, existem muitos e nenhum ao mesmo tempo. O narrador é o personagem, o autor e o leitor simultaneamente. Depois, as estórias em si, incluindo seus cenários e personagens, que parecem ser a prova viva de que a teoria das cordas é muito mais palpável do que supõe a Física. O autor brinca com os muitos níveis da cidade de São Paulo, cenário escolhido para os livros. Poderia ser qualquer centro urbano e continuaria funcionando igual. São realidades absolutamente distantes, paralelas, tangentes e próximas ao mesmo tempo. Sim, eu sei que isso não faz qualquer sentido. Leia os livros, fará. O ponto de vista do observador destes muitos mundos é também parte dele e, ao mudar o Eu narrativo, o autor insere o leitor em uma observação ativa, como parte integrante deste cenário multidimensional. E, o último e mais importante espelhamento, é a humanização destes diferentes mundos. Não há qualquer julgamento de valor, não existe uma única moral adotada. Para cada ponto de vista, ou seja, para cada Eu narrador, o autor adota a escala de valores daquele personagem e com isso tece um conjunto – que ultrapassa os limites físicos de um único livro – cromático heterogêneo, rico e por isso mesmo interessantíssimo.

E tem as fotos. As fotos repetem o mesmo diálogo. São rostos olhando para você e você para os rostos. Há uma generosidade de olhar e de se permitir ser olhado que é incomum, tanto para fotógrafos quanto para escritores. As duas profissões, por natureza, são voyeurs, gostam de observar mas preferem manter-se fora do olhar do outro. Estes autores abraçam e acolhem o olhar que volta.

É necessário um olhar maduro para perceber o Outro e enxergá-lo como similar e humano. Não existem grandes diferenças entre você, um marciano, uma prostituta portadora de HIV, um comerciante ou um autor de livros. Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves não apenas sabem disso como aceitam o espelho. E isso é mais do que generoso, é lindo.

A grande dificuldade na fotografia não é técnica, é de discurso. É claro que existem questões de controle da luz, profundidade de campo, etc. O discurso é mais importante. De nada adianta você ter um microfone se não tem nada a dizer. Luciana Fátima tem muito a dizer. E fala junto com outro brilhante orador, Arlindo Gonçalves.

“Há poesia em fachadas de prédios históricos. Ornatos, capitéis, pedestais, cornijas, molduras, abóbadas, cúpulas, motivos vegetais, rostos de pessoas ou de criaturas – ora doces, ora sisudas.

(…) Para quem observa as construções mais detalhadamente, não passa despercebido um certo sentimento carinhoso que partia do responsável pelo projeto para com a cidade. Mesmo as feições mais rabugentas tinham por objetivo afugentar os seres indesejáveis.

Estão lá, resistindo ao descaso, ao vandalismo; verdadeiras gentilezas urbanas que os mestres das fachadas nos legaram.”

Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves, vocês estão errados. A delicadeza, a generosidade, a poesia e a beleza pertencem a vocês.



Carinha(os) Urbanas(os) – Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves – Editora Horizonte

Desonrados e outros contos – Arlindo Gonçalves – Editora Marco Zero

Desacelerada mecânica cotidiana – Arlindo Gonçalves  – Editora Horizonte

O cinismo

Sou um leitor cínico, o que se reflete no meu trabalho como crítico. Hoje em dia, estou mais interessado no que posso tirar de um livro do que naquilo que o livro tem por si só a me oferecer, e isso tem um motivo prático e não ególatra. Quando um original está na gaveta, seja na escrivaninha ou na pasta do computador, pertence apenas ao escritor e a mais ninguém. Sua lógica, entrelinhas e significados ocultos são interpretados pela pessoa que os constrói, garantindo a eficiência dos dramas e a risada no fim das piadas. Se isso não acontece, o escritor aperta o delete e começa o processo novamente.

Quando um livro é editado e efetivamente lido ele passa a ser 50% do leitor e as entrelinhas mudam de contexto, pois dependem da bagagem de cada um que conferir suas páginas. Nesse ponto, s dias da peste é um livro arquitetado em camadas, e o leitor apreciará momentos distintos de acordo com o grau de proximidade com o autor. É um terreno explorado na literatura do cotidiano com muito sucesso e que tem minha simpatia desde sempre. O novo livro de Elvira Vigna – Nada a Dizer – e o livro de Ivana Arruda Leite – Ao homem que não me quis – que resenhei recentemente estão aí que não me deixam mentir. Brincar com a verdade literária – por definição uma mentira – é fonte eterna de boas narrativas. Graças aos meus 50% nessa leitura, ou melhor, por ter algum contato com o autor Fábio Fernandes, pude identificar influências pontuais de sua própria vida na vida do protagonista Arthur, um representante do homem cercado de apetrechos tecnológicos, se não conectado biomecanicamente ao seu entorno, mais do que interligado psicologicamente a ele.

“Mas não tenho muito o que comemorar: o excesso de trabalho na empresa se transformou subitamente em seca, porque ninguém está conseguindo resolver os problemas dos computadores e parece que os usuários finalmente estão percebendo isso. A universidade ainda não pagou o salário do mês passado e já estou no cheque especial – que está ficando cada vez mais difícil de utilizar, porque ninguém está aceitando cheque de papel.”

Antes de continuar, ressalto que não é preciso conhecer o autor para entender o livro. Não tenho contato com Ivana Arruda Leite e isso não me impediu de identificar nem de me divertir com os pontos tangentes entre real e imaginário apresentados em sua história. É um tempero extra numa trama bem contada e não o ingrediente principal. O mesmo vale para Os dias da peste. Confie nos seus 50%. O autor confiou nos dele.

Já que o tema aqui é cinismo, Arthur é um belo de um cínico. Encantou-se e desencantou-se com o advento dos blogs, reuniu anotações em papel e mais tarde passou a registrar tudo em um podcast gravado em tempo real no aparelho pendurado em seu ouvido. Bem, talvez eu esteja exagerando, mas o importante é entender que a necessidade de registro de Arthur é também a nossa, que se dá em blogs, e-mail, orkut, facebook, sms e outros mil sites numa tentativa de gritar eu existo! e, quem sabe, driblar a mortalidade.

É justamente com o grito de eu existo! dos computadores que o livro começa.

A sátira

Os dias da peste é uma sátira aos velhos tempos que ainda não vivemos. Boa parte da trama se passa ali na curva da história, em uma época ligeiramente para trás, ao mesmo tempo presente e mais à frente no futuro. Porque nosso hoje é um pouco de tudo misturado, ele é retrô, estagnado e hiper-realista. É um futuro que sim, chegou, não do jeito espetaculoso que previam nos filmes, mas de um jeito sorrateiro movido a marketing e produtos onipresentes em nosso cotidiano. O aspirador de pó só não fala porque ele não precisa.

Arthur é professor universitário e técnico de computadores. Como todo bom técnico, ele vive do desespero alheio. Basta você começar a arrancar os cabelos para ele ter o que fazer. Esse nível de desespero aumenta quando os computadores parecem enlouquecer de vez e não querem desligar nem com o fio arrancado da tomada. A primeira suposição, claro, é a de um vírus com potencial de infectar qualquer máquina conectada à Internet. O monitor passa a exibir frases personalizadas baseadas nas informações contidas no HD. Se você é um daqueles navegantes que adora sites pornôs, já pode imaginar o tipo de mensagens que seu computador exibiria. Para evitar o problema, basta permanecer desconectado… e morrer de tédio. A segunda suposição, que logo se torna uma certeza, é bem mais interessante: as máquinas estão conseguindo se comunicar, e os humanos chatos que as criaram precisarão conviver com isso.

“O que mais me chateava na IC às vezes era seu excesso de pedantismo. Eu o comparava a um adolescente nerd que acabou de entrar na faculdade e não só se acha, mas se tem certeza. E o pior é que quase sempre o nerd tem razão. O que não o torna menos irritante”.

Revirando meus arquivos neuronais, me veio em mente uma série da Marvel chamada Marvels (acho eu) em que a existência de super-heróis no mundo é mostrada no ponto de vista das pessoas comuns, explorando questões como medo e deslumbramento diante das improbabilidades da vida. Depois de ler a série, genial, abandonei o mundo dos super-heróis.

Os dias da peste adota uma tática parecida ao filtrar o caos político-social pelos olhos de Arthur. O mundo mudou, as máquinas – chamadas de Inteligências Construídas – tem representação até na ONU, mas a vida de Arthur continua um tédio profundo, as contas continuam vencendo no fim do mês e arrumar dinheiro para pagá-las dá um trabalho do cão. A vida de técnico está uma bagunça, a universidade foi para o buraco (quem vai querer ir para a aula com computadores ajudando no ensino em casa?), Arthur continua acima do peso e sem namorada.

Eu que tenho síndrome de Manoel Carlos e gosto de desfile de personagens senti falta de mais interações de Arthur com humanos. Eles estão lá, mas pela opção narrativa de notas-blog-podcast, nunca conseguem ganhar corpo (sem trocadilhos) como o do personagem (gordinho) principal. O deuteragonista que mais se aproxima de Arthur em termos de consistência é, ironicamente, sua IC pessoal. Ele é mais sólido do que qualquer outro. A relação de confiança e desconfiança que existe entre os dois é uma das boas sacadas do livro. Até que ponto é saudável confiar em uma inteligência artificial? O que é bom senso e o que é pura paranóia?

A consciência

E tem o Sant’anna que é a voz da consciência de Arthur e do autor. Sant’Anna é um escritor premiado que foi professor de Arthur em uma oficina literária. Se uma alusão ao Sérgio, vale comentar que não é meu autor nacional preferido, Vôo da madrugada possui alguns contos muito inocentes para quem tem tanto chão, mas que sempre cumpriu com seus livros o papel de entreter este leitor. E uma consciência que nos entretém enquanto nos espezinha soa interessante o suficiente para mim. Nos encontros de Sant’Anna e Arthur nos bares da vida ou em sua casa, ele vive lembrando ao protagonista que máquinas não são gente, pondo em foco o preconceito de via dupla entre literatura do cotidiano e literatura fantástica (no caso a ficção-científica) e dizendo que gente não deve desistir de seus sonhos, o que levanta por tabela a velha lebre do “Do android dream of electric sheep?” na etapa inicial do que seria uma grande transformação na convivência entre homens e máquinas.
Sant’Anna diz ao personagem e ao autor que nunca é tarde para voltar a escrever e que revirar gavetas e blogs pode ser o começo de um bom livro. Ele está lá, com seu mau humor, uma consciência rabugenta, provocando Arthur até que este tenha vontade de xingá-lo, exatamente por saber que ele nunca o fará. Quando Arthur resolve dizer no way, babe, e esgota os argumentos, a consciência se cala pedindo por um café.

“Sant’Anna era o professor. Ele já era famoso nos meios literários, mas nunca foi uma celebridade, não dessas do tipo que vivem nas revistas de fofocas ou nos talk shows da TV. O que acabou sendo ótimo para nós alunos, porque ele não era um sujeito arrogante. Bom, pensando bem, arrogante ele era (…)”.

É exatamente quando Sant’Anna aparece velho e cansado na porta do apartamento e Arthur percebe que os ídolos humanos não são eternos nem por meio da literatura que a IC de Arthur progride de seu papel de diabo no ombro para uma voz na consciência propriamente dita. A IC, essa sim, tem em si a possibilidade da eternidade se superada a incompatibilidade de hardware entre máquinas e humanos, nascendo aí o embrião do tão falado pós-humanismo.

Que venha mais uma parte da saga desse tecnoxamã, que técnico de informática é coisa do passado.

O escritor é um ladrão de histórias, um sujeito de olhos e ouvidos atentos que tira pedaços dos outros na fila do banco, no banco do restaurante, na entrada da livraria, sem dó nem piedade. Enquanto o mentiroso conta casos que se passaram com um primo, um vizinho, um amigo da tia, o escritor põe as histórias roubadas no papel e legitima o processo através de seus personagens. Todos fazem parte dele sem que ele precise fazer parte deles de todo.

Tanto na literatura fantástica quanto na do cotidiano, é larga a interseção do real com o imaginário, criando um espaço para que autores como Ivana Arruda Leite se esbaldem no jogo de percepções permitido.

Ao Homem que não me quis começa com flash fictions, histórias rapidinhas com certa dose de humor que preparam o caminho para três narrativas longas, entre elas a que dá nome ao livro e escancara de vez o jogo das verdades proposto pela autora.

“São Paulo amanheceu parada. A greve de ônibus entope as tripas da cidade. As pessoas se espremem nas lotações clandestinas pra não perder o dia de serviço. Confesso que estou mais preocupada com meu próprio congestionamento. Minha hérnia pode estrangular a qualquer momento e, se isso acontecer, a morte será imediata. Pelo menos é o que diz minha mãe”.

A narrativa de Da difícil vida das rêmoras é a mais fragmentada. Os parágrafos demoram a se encaixar e deixam o leitor em um estado de suspensão de entendimento, na dúvida de quais seriam os pontos de coesão do texto, até que ele se aproxima do fim de modo mais amarrado, terminando o experimentalismo da quebra. É uma transição interessante das flash fictions para as narrativas mais tradicionais, pois evolui a forma e mantém o foco nas relações humanas que funcionam sem serem perfeitas. O trecho abaixo mostra o clima desses relacionamentos:

“A rêmora gruda no corpo do tubarão e vai se alimentando do que ele não utiliza, dos seus restos. Para o tubarão, a presença da rêmora não cheira nem fede. Ele não abre mão de nada do que lhe é essencial”.

A Mulher do Povo conta a história de uma mulher internada pela primeira vez em um hospital público e que divide o quarto com várias pacientes. Há uma brincadeira do contar histórias, de como a protagonista fala de si e fala das demais, com sutilezas sobre verdades e mentiras que se fazem presentes através da história de um traficante internado no quarto ao lado (será mesmo?) e dos falsos banhos que ela toma para enganar a enfermeira. É um conto bem-humorado para um tema que não é dos mais leves. Fico particularmente entristecido quanto leio narrativas em hospitais.

Em Ao Homem que não me quis a protagonista dá em cima de um homem casado que não cede aos seus encantos. O relacionamento só rola na sua cabeça e ela escreve contos sobre eles, presenteando o sujeito com as histórias. Apesar de dizer não às investidas, ele parece curtir os presentes e fica chateado quando ela para de escrever sobre eles. Sem querer investir no real, a ficção os alimenta. Nesse meio tempo, a protagonista sai de férias com um homem que realmente gosta dela, mas a história mostra que o gostar nem sempre é suficiente para que um relacionamento dê certo, já que os dois vivem se desentendendo. Nesse vai e vem de possibilidades, a autora trabalha camadas sutis de metalinguagem indo dela para a história e da protagonista para a imaginação da mesma.

Leitura rápida que cumpre bem seu objetivo. Fiquei curioso para ler Hotel Novo Mundo.

Ao homem que não me quis
Ivana Arruda Leite
Editora Agir
87 páginas

Lobisomens! Por que eles têm que ser monstros? Eu sou um adorador desses seres e sei o quanto é difícil achar algo sobre eles que não seja de fora. Recentemente Meyer os trouxe para a luz (e não era a do seu vampiro luminoso) do mercado pop, até mesmo Shakira gravou um clipe chamado She Wolf. Mas o que poucos sabem é que os lobisomens já evoluíram muito, não tanto como os vampiros, em questão de mídia, mas em suas histórias.

Eu nunca gostei da versão original do Brasil para um ser tão forte e enigmático como os lobisomens e isso me levou a procurar tudo sobre eles (grande parte veio de fora) e cheguei a pensar que não existissem autores de lobisomens nacionais, mas estava enganado. Ainda bem!

Nessa matéria vou deixar de lado os nossos amigos de fora e falar do que nossos autores andaram aprontando com seus lobos. Existe de tudo um pouco. Mais românticos, agressivos, mitológicos ou humanos. Alguns são lobos de verdade, outros parecem outros animais. Andam na lua cheia sobre quatro patas ou em duas. Temem a prata ou riem dela.

Eu sou mais dos lobisomens “Annette Curtis”, aqueles que são extremamente fortes, violentos e choram quando batem com porta na mão. Eu que sempre gostei do tema torci o nariz ao conhecer esse romance americano Sangue e Chocolate, mas me encantei ao ler ele. Transformação sendo algo mais espiritual que carnal, a personalidade não aflorando numa besta selvagem sem razão, mas num predador perfeito. Pra mim isso seria um sonho. Imagine apenas com poder do seu desejo poder modificar a sua natureza, não só fisicamente, mas por inteiro. Vivian – a loup garou do livro de Annette – não quer um romance, não quer ser popular e muito menos está disposta a largar tudo que é por um romance Twilight. Ela quer ser livre pra correr em sua forma de loba pela floresta. Sentir o gosto e o cheiro de ser um animal livre de qualquer preocupação social, apenas correr e ser livre. Hoje essa seria a idéia de paraíso de muita gente.

Fui me aventurando pela internet e pelas bibliotecas sabendo que falar de literatura de lobisomens não é fácil. Não é como achar Bram Stoker em qualquer sebo ou megastore. Muita da produção escrita está fragmentada na internet. Há muitos textos trazendo os lobisomens com uma nova roupagem e nos livros há ainda a idéia clássica em muitos, mas isso já esta mudando. Por que os novos lobos ainda não chegaram na literatura nacional com força? Bem, digo por minha experiência. Uma editora dificilmente publicará um livro de lobisomens sem um vampiro como protagonista ou pelo menos um sanguessuga.

Muitos editores consideram o lobisomem um ser fora de moda. Algo que assusta crianças do interior e que não pode ser explorado comercialmente. Sangue e chocolate não tem vampiros e vendeu o que J. K. Rowling vendeu de Harry Potter. Será mesmo que lobisomem tem que ser condenado a viver na sombra dos “senhores das presas”?

Fora do Brasil eles vêm crescendo no cinema e na literatura, mas aqui eles ainda são vistos com certo preconceito. Lobisomens têm uma coisa muito regional (o que é ótimo) e isso afastou a idéia que eles pudessem ser interessantes. Caçando arduamente achei ótimos exemplos de que o mercado está se expandido aos autores de lobisomens, pelo fato deles estarem voltando. Aos poucos algumas editoras já estão abrindo as portas aos uivos da meia noite.

Recentemente a antologia Metamorfose – a Fúria dos lobisomens (livro de que participo) me mostrou inúmeros autores com quem conversei por Orkut, MSN e Skype e que me levaram achar coisas maravilhosas. Existem muitos autores de lobisomens criando romances, contos e fazendo isso com originalidade, mas não tem espaço para mostrar, o que é uma pena. Vale à pena procurar na internet blogs e grupos de discussão sobre esse tema, eu recomendo uma olhada no blog de André Bozzetto.

Pouco a pouco a idéia de monstros regionais feios e doentes está saindo de cena e o lobisomem mitológico antigo está ressurgindo. O lobisomem tradicional faria inveja ao Lestat de Anne Rice. Na Romênia o lobo é tido como um ser sagrado e existem templos e igrejas antigas que acreditam que para se ter o melhor do homem era preciso ter o melhor do animal e vice-versa. Eu recomendo a leitura de bons autores nacionais que tem levado esse tema em seus livros com originalidade e não estão seguindo a fórmula de Underworld. Segue aqui um breve panorama dos destaques atuais:

Kizzy Ysatis em seu livro O diário da Sibila Rubra nos mostra seu lobisomem Thiago (Fausto) que é extremamente fiel ao vampiro Luar (Raul) e prova de seu sangue para ter imortalidade. Kizzy usa a vertente da lenda dos lobos que diz que nem todos se transformam propriamente em lobos. Os lobisomens de Kizzy têm características de javalis, tigres e leão. O autor usou o tema “a revolução dos lobos” muito antes do filme.

Giulia Moon em seu romance multicultural Kaori – perfume de vampira nos traz os famélicos (o significado no dicionário é faminto). São mendigos largados pelas ruas que com cair da noite se transformam em cães selvagens e vivem de carne morta. São patéticos e não sabem falar, mas isso mostra não como uma regra. Ao longo da narrativa a autora mostra os famélicos como seres muitos perigosos que podem ter seus impulsos próprios. O que podemos ver em comum entre os famélicos e os lobos mitológicos é sua forma de comunicação: eles sabem quando estão perto de outros dos seus e quando alguns deles está ou esteve perto. Giulia recriou os lobisomens mais “ignorantes” de uma forma que passam a ser criaturas novas e fascinantes. Com certeza vão olhar os mendigos do centro com medo e respeito depois de conhecer os famélicos.

Helena Gomes misturou o que há de melhor nos HQs com paisagem que vão desde Hong Kong, Itália, França e, claro, Brasil. Em seu livro existem humanos com poder de se transformar em animais. O lobo é o personagem principal da trama. Wolfgang nos mostra o lobisomem sedutor. Aquele que fazia as mocinhas da antiga Romênia abanar o fogo em baixo das saias. Dono de um olhar penetrante e de um corpo forte ele traz um lobisomem que faria Jacob Black de Meyer se contorcer de inveja. Ele é o Ômega do Clã, ou seja, o lobo mais fraco. Helena trouxe em seu texto a referência homem-animal, que está se tornando uma tendência forte, antes mesmo de Lua Nova ser escrito. Isso mostra como o Brasil ainda está perdendo tempo não divulgando suas obras com o devido vigor.

Martha Argel é conhecida pelo romance Relações de Sangue e por escrever sobre vampiros como ninguém. Uma autora experiente que trouxe a mostra em seu conto “Mariana e o lobo” um toque psicológico ao personagem. Durante boa parte do conto o lobo conversa com a protagonista e com isso cria uma relação tão pessoal, que nos faz questionar a cada linha o quão ficção-realidade é. O lobisomem de Martha é mais etéreo. Seu conto mostra o “lobo em cada um de nós”.

Juliano Sasseron com suas Crianças da noite trouxe os lobos de RPG para as páginas dos livros de literatura com uma pincelada extra de poderes e atitude. Ele cria lobisomens gigantescos e poderosos que fazem os vampiros tremerem de medo. Seus lobos são protetores da natureza. São criaturas que lembram os espíritos dos antigos rituais xamãs. Espíritos protetores das florestas.

Giulia Moon começou sua carreira literária como contista. Lançou três coletâneas que a firmaram como um dos nomes mais presentes da literatura vampiresca nacional. Luar de Vampiros, Vampiros no Espelho e A Dama Morcega angariaram fãs e abriram caminho para um convite da Giz Editorial em 2008, quando foi chamada para participar da coletânea Amor Vampiro ao lado de outros nomes importantes do gênero, como o Best-seller André Vianco.

No conto Dragões Tatuados, fortaleceu-se o embrião de Kaori – perfume de vampira, primeiro romance de Giulia Moon, que deve ter deixado muita gente se perguntando se uma contista de mão cheia teria fôlego para uma narrativa longa. Pelo menos era essa a minha curiosidade.

Kaori – Perfume de Vampira se divide em duas narrativas paralelas. Uma se passa no século XVII, em pleno Japão feudal, e conta como Kaori se transformou em uma kyuketsuki, demônio sugador de sangue em japonês, e lidou com o poder ganho ao beber o sangue ancestral de seu mestre. A outra se passa no século XXI, na cidade de São Paulo, e gira em torno dos vampwatchers, funcionários do IBEEF, um instituto de pesquisa que estuda vampiros e que têm como missão observar e catalogar vampiros de longe, sem interferir em seus ataques. O responsável por movimentar a trama é Samuel, vampywatcher ranzinza que quebra as regras e tira um garoto de rua das mãos de um caçador, descobrindo assim uma complexa rede de vampiros estabelecida na cidade.

“Samuel não tinha muitas esperanças de obter um bom avistamento. Numa noite de segunda-feira como esta, era difícil encontrá-los, ao contrário das sextas e sábados, quando dava com vários deles ao mesmo tempo misturados à multidão, escolhendo suas vítimas como itens num cardápio”.

Quem acompanha a literatura vampiresca sabe que vampiros não nasceram ontem. Aqui no Brasil chegam poucas traduções, mas os mercados americano e europeu são repletos de autores que dedicam séries enormes a vampiros dos mais variados tipos. O que talvez seja novidade é ver o vampiro como cerne da atual febre adolescente crepuscular, a primeira na era da sede por novidades imediatas e consumismo frenético.

A superexposição criou uma falsa idéia do esgotamento do terror vampiresco. Alguns autores aproveitam a onda para lançar seus trabalhos, outros bradam “chega de vampiros, vamos inovar”. Mas defender o esgotamento do terror vampiresco seria o mesmo que dizer que o romance policial ou a fantasia medieval não podem mais dar bons frutos. Cabe a cada autor apresentar um trabalho sincero (vampiros picaretas são facilmente identificáveis) e saber se renovar dentro do que gosta de escrever. Superexposição é coisa que passa e logo o público escolhe a nova bola da vez.

Dito isso, o grande mérito de Kaori – perfume de vampira é ser um romance sincero, distante das histórias genéricas que tentam se aproveitar do nicho. Giulia acrescenta à mitologia vampiresca personagens do folclore japonês como os tengus e cria seus próprios, como é o caso dos famélicos. São pequenos detalhes que ajudam a manter o interesse e o ar de novidade ao longo da história. Ao terminar o livro, fiquei com a sensação de que só Giulia Moon poderia tê-lo escrito, por n motivos diferentes. Ponto positivo.

Giulia diz que ficou mais japonesa depois da pesquisa que fez para escrever o livro. O resultado é uma ambientação impecável, em que o leitor se transporta para a época dos samurais. A parte que se passa no século XVII tem tanta força que ofusca a fase contemporânea da trama. A grande responsável é Kaori, uma protagonista enigmática, que nunca deixa saber ao certo o que se passa em sua mente. A construção de Kaori permitiu que Giulia Moon distanciasse a lógica vampira da lógica humana, criando uma aura constante de mistério em torno da jovem. Mesmo quando ela está diante de seu grande amor, o leitor não consegue dizer se o autocontrole será mantido ou se o romance virará um banquete.

“No terreno baldio, os famélicos comiam depressa, farejando o ar e olhando de vez em quando ao redor, pois a qualquer momento alguém poderia surgir para interromper a refeição. Nega já tinha comido e parecia satisfeita, vigiando cada movimento nos arredores”.

Se a parte do Japão é contada numa cadência mais lenta e melancólica, a parte de São Paulo tem o ritmo corrido da cidade, com cenas mais ligeiras não necessariamente pela ação, já que há uso do clima investigativo, mas pela forma como são narradas. Talvez por isso não tenha conseguido a mesma empatia com os personagens dessa parte. Senti falta de saber mais sobre o IBEEF ao longo da trama e não me envolvi com o drama de Samuel, o vampwatcher encrenqueiro. Quando penso nessa fase, quem me vem em mente é a bióloga Beatriz e os famélicos que estuda, esses muito interessantes, e não os vampiros. Com os famélicos acompanhamos uma transformação, desde a novidade até a sua evolução como criatura. Com os vampiros, as transformações se dão efetivamente no passado. Por isso a fase do Japão deixa na memória um punhado de personagens memoráveis em sua individualidade, como o pintor e o samurai, e no coletivo, como os tengus. Nenhum deles termina o livro do jeito que começou.

“A menina sentiu o chão distante, como se seus pés flutuassem no vazio. Olhou em volta, observando cada tronco, cada folha das árvores, cada gota de água que fluía do caniço de bambu sobre o riacho pequenino que compunha o jardim. E tudo isso lhe pareceu vago e indistinto, como se pertencesse a outro mundo”.

A ressalva em comum fica por conta dos vilões. Tanto no século XVII quanto no XXI quem é mau é mau e ponto. Faltou um toque de cinza na paleta, destrinchá-los em camadas. Ainda assim, se precisasse apontar um preferido entre eles, diria que é Madame Missora, mais uma vez do século XVII.

Para encerrar, volto à questão que abriu a resenha. Kaori – perfume de vampira é uma ótima estréia no mundo dos romances, com fôlego de sobra para um próximo volume.

Kaori, perfume de vampira
Giulia Moon
Giz Editorial
371 páginas

O grotesco sempre esteve presente na nossa história. Não faltam exemplos no teatro grego, por exemplo, mas o termo só surgiu no século XVI, quando as escavações na Itália descobriram pinturas ornamentais, esculturas e mais um monte de coisas interessantes. Grotesco vem do italiano grottesco, de grotta (gruta). Ainda demorou um tempo para que o grotesco se tornasse um “gênero”. Foi no Romantismo, com Victor Hugo.

“No pensamento dos Modernos, o grotesco tem um papel imenso. Aí está por toda a parte; de um lado cria o disforme e o horrível; do outro, o cômico e o bufo. Põe em redor da religião mil superstições originais, ao redor da poesia, mil imaginações pitorescas.” (1)

Daí para Baudelaire e Augusto dos Anjos é um pulo.

O grotesco tem como objetivo a crítica social através do riso. Existe humor na monstruosidade.

Os monstros de antigamente eram travestidos em abominações circenses e seres imaginários. Esta máscara caiu faz tempo e os monstros de hoje somos nós.

Fernando Mantelli, em raiva nos raios de sol, da Não Editora, traduz esta noção do eu-monstro, do eu-grotesco contemporâneo e atualíssimo como ninguém. Mantelli aponta, através de seus personagens, o mal-estar que sentimos de nós mesmos e, de uma maneira caricata e com humor, coloca o leitor como aquilo que nossa geração de fato se tornou: testemunhas silenciosas e portanto omissas.

No que eu acredito ser a sua leitura de Erlkönig, Filme de amor, Mantelli usa e abusa das frases curtas e da pontuação como reflexo de uma linguagem oral. A contemporaneidade e o ritmo ágil são os principais traços do autor. É um contador de estórias antes de ser escritor ou qualquer outra coisa.

Não consigo me relacionar com este livro com nojo ou repulsa. Nós somos assim. Nós somos estes monstros, a humanidade é grotesca. O livro, para mim, é caricato e otimista. É quase que uma busca do autor – e, se tudo correr bem, do leitor – em compreender como somos capazes de trair, matar, mentir.

O último conto, O pino do verão, por exemplo, fecha o livro de uma maneira quase poética e nos faz acreditar que, apesar de tudo, somos capazes de afeto e que talvez, só talvez, seja esse afeto e essa capacidade de nos reconhecer no espelho – e não um polegar opositor – que separe o joio do trigo.


Raiva nos raios de sol
Fernando Mantelli
Páginas: 96
ISBN: 9788561249076



1. HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime. 2ª. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.

Em meados de 2009 entrei para a lista de discussão da Outer Alliance, um grupo de escritores, editores e pessoas que apóiam a presença da comunidade GLBT na literatura especulativa internacional, independente de sua orientação sexual. Não participo ativamente, mas pesco nomes potenciais dentro de um gênero que leio bastante que é a fantasia urbana, exatamente para saber como os autores vêm trabalhando a questão da sexualidade dentro da fantasia. Colocar elementos do fantástico em tramas contemporâneas permite tratar de preconceito de forma mais acessível. A série True Blood (baseada nos livros da Charlaine Harris) está aí que não me deixa mentir. Ela mostra como seria para a raça humana aceitar de repente a inclusão de vampiros na sociedade e como isso desloca os demais preconceitos já vigentes. A frase genial “God Hates Fangs” sendo um dos símbolos dessa dualidade.

Um dos títulos que conheci por intermédio da Outer Alliance foi a coletânea Wilde Stories 2008 – The Best of the Year’s Gay Speculative Fiction, editada pelo Steve Berman. O Steve fala na introdução que procurava personagens com os quais pudesse se identificar, histórias que se parecessem com a sua, e não achava, daí começou a escrever e organizar livros que dialogassem com a comunidade GLBT de alguma forma. Aqui no Brasil a idéia pode parecer alienígena, já que o nosso mercado é uma bagunça e todos os gêneros precisam chegar disfarçados de “romance” nas livrarias e ponto final. Mas nos Estados Unidos e Reino Unido, onde meus olhos alcançam, há uma febre de classificar livros em gêneros, o que pode aprisionar o autor inexperiente, mas por outro lado ajuda a organizar o mercado e abrir espaço nas prateleiras. Há prêmios para a literatura de ficção-científica, para a de fantasia, para a de terror e, pasmem, para a literatura gay em todas as suas vertentes. Os nichos por lá não são asfixiados como os daqui.

Wilde Stories 2008 apresenta contos bem diferentes em conteúdo e qualidade. Se cada gênero por si só já traz seus desafios e armadilhas, o elemento GLBT acrescenta mais alguns à equação. Awkward, de Francisco Ibáñez-Carrasco, fica de exemplo das derrapadas do livro. Um casal que não se dá tão bem quanto antes precisa discutir a relação quando sua casa é invadida por uma dupla de skinheads ou similares em pleno Halloween. Enquanto os skinheads vasculham a casa atrás de objetos de valor, encontram um armário que revela o passado de drogas de um dos moradores e a relação sadomasoquista que tinham quando mais jovens. Nem preciso dizer que durante a tortura que eles sofrem a chama da paixão se reacende. Tema ardiloso de lado, a diegese é falha e o conto não convence. A história dialoga com as fantasias do autor sem conseguir envolver o leitor na perversidade proposta.

Agora os pontos altos:

The Woman in the Window é uma história tradicional de fantasmas que não tenta reinventar a roda. Apesar da trama simples, o texto é muito bem escrito e foi uma boa escolha para abrir o livro. Jameson Currier conta a história de uma família que comprou um globo de neve amaldiçoado num antiquário e trouxe consigo um par de fantasmas. A casa dentro do globo de neve muda constantemente, contando uma história de assassinato que vai se repetindo na casa da família. O desafio é se livrar dos fantasmas e concluir o ciclo sem chegar à morte de fato. O elemento GLBT fica por conta da família: um casal gay e seus filhos adotivos.

Um contista para se ficar de olho.

“At the dinner table, there was no further discussion about the globe, the two strange men, Claire’s imaginary friends, the bogey men, or the nightmare woman with holes in her head”.

Acid and Stoned Reindeer de Rebecca Ore não tem nada de tradicional. A não ser que você já tenha lido histórias sobre entidades que querem fazer sexo com renas drogadas. Rebecca explora uma viagem lisérgica tanto na estrutura quanto no conteúdo, e aproveita o clima de desprendimento da realidade para flertar com situações de non-sense. Um conto feito para o estranhamento, não para o entendimento, tudo com bom humor.

“I put my armor on the reindeer’s shoulder and said, ‘Why do you want to get stoned? I’m never going to do this again.’ Back in New York, I laughed”.

Lycanthropy de Jonathan Harper é um dos meus prediletos, apesar do começo meio truncado. Na camada mais superficial é o conto de um jovem que se apaixona por um lobisomem e sai do apartamento que dividia com uma amiga para morar na casa do sujeito. Nas entrelinhas, é um conto sobre transformação. Jonathan preferiu pular a descoberta da sexualidade, o protagonista sabe quem é desde o início, e apostar em outro tipo de desabrochar. Metáforas bem colocadas e estruturação de personagens em cima de pequenos momentos do cotidiano são o forte do conto.

“They say wolves hide out in back alleys. Another urban legend, alligators live in the sewers, a murderer licks de hand of a blind woman pretending to be her dog. Originally there was an allure here. The decomposition, the fragility, the fact the whole city feels like it could collapse in a moment and that is suppose to mate it memorable. Like Atlantis. That’s why people invent so many stories.”

Hal Duncan não resistiu à tentação e abusou das narrativas paralelas em The Island of the pirate gods. A história fala de um pirata gay e seu rival que vão parar numa ilha com fadas. As fadas a princípio acham que eles são amantes e fantasiam em cima disso, mas como eles vivem se xingando, elas começam a suspeitar de que não é bem essa a verdade. Paralelamente, Duncan conta como surgiram dois deuses piratas que foram marinheiros e amantes quando vivos. O conto é carregado de humor e muito ágil, com uma estrutura entrecortada que pode confundir os desavisados. A falta de noção das fadas é a cereja do bolo.

“It’s not a prayer as any man of the cloth would be proud of, I grant you, but to my renegade deities, Matelotage and Mutinity, it’s the sentiment that matters, not the subtlety; and bless them if they don’t look out for their beloved son”.

Para fechar o livro e a resenha, um conto redondo e bem pensado sobre os efeitos do tempo. Ever so much more than twenty de Joshua Lewis conta a história de um cara que teve um relacionamento com um silfo da floresta quando adolescente. Quando ele muda de cidade, abandona o silfo, mas não deixa a fantasia sumir de sua vida. Faz isso contando histórias fantásticas para a filha, mesmo depois que ela cresce. Mais tarde, ao romper um relacionamento amoroso com seu parceiro, ele decide voltar para o lugar onde viveu na adolescência e acaba reencontrando o silfo. Tudo na história gira em torno da relação dos personagens com a idade. Ao falar do casal, Joshua mostra um cara de cinqüenta que quer parecer um de vinte, enquanto o outro não luta contra a idade, apesar de não ficar feliz com os fios brancos que aparecem. O silfo tem a aparência eternamente jovial, mas é muito mais velho do que o protagonista. Com fluidez e bem amarrado, impressiona o fato de esse ser o primeiro conto publicado do autor.

“She was called Jane, and always had na Odd inquiring look, as IF from the moment she arrived she wanted to ask questions. When she was old enough to ask them they were moustly about faeries”.

Recebi a revista Café Espacial números 4 e 5 junto com o informativo Quarto Mundo número 3. As duas publicações formam uma combinação interessante, quase um diálogo proposital.

A Café Espacial é uma publicação de quadrinhos, arte, ilustração, literatura, fotografia e, acredito, qualquer coisa desde que ousada e interessante o suficiente.

O conto Contramão do Sergio Chaves, por exemplo, nos mostra que apesar dos blockbusters atuais, o fim do mundo pode sim ser um tema interessante. A revista ainda tem uma seção com resenhas musicais que, de uma vez só, conseguiu fomentar a minha curiosidade para conhecer umas 10 bandas das quais nunca tinha ouvido falar (culpa minha, sem dúvida).

Dos quadrinhos, o que mais gostei foi o F for Knife, de Biu e Shiko. “Entre sua janela e a do quinto andar ocorreu-lhe que Hulks são de Marte e Smurfs são de Vênus” é daquelas frases para virar tagline ou, um sendo pouco mais atual, um twitt. HQs, aliás, são o grande forte da revista. Propostas inteligentes e traços fantásticos.

Para não dizer que não falei de espinhos, achei as resenhas de cinema jornalísticas demais, muito didáticas. Acabam conflitando com o resto da revista. Não que tenha algo de errado em ser didático, apenas não me pareceu fazer parte da linguagem da publicação.

O informativo Quarto Mundo, também muito voltado para HQs, tem no número 3 uma que mistura fotografia com traço. É uma proposta interessante e um exercício importante de linguagem mas confesso que me causou a mesma estranheza que senti quando vi Waking Life, uma animação que usa a técnica de rotoscopia, ou seja, desenhada em cima de uma referência filmada.

A Café Espacial número 5 traz o ensaio O olhar cansado, de Luc de Sampaio, sobre o qual comento no podcast em que entrevistei o fotógrafo, de quem sou grande fã.

O espetáculo Kafka, da Cia. Borelli de Dança, foi um dos eventos que a Livraria Cultura ofereceu em sua Virada/2009.

KafkaNão pensei nisso antes. Mas nada como Kafka. Digo, em todas as artes passamos pela mesma indagação sobre o próprio processo de fazer arte. A pintura discutiu a superfície da tela, a tinta e o gesto. A literatura apresenta metalinguagens até hoje.O fazer artístico voltada para ele mesmo, suas questões e processos, em uma época de perda de referências, de estabilidades, foi um fenômeno meio que universal e atingiu todas as linguagens. A situação kafkiana de descobrir-se na forma de uma barata, nesse contexto, não podia ser melhor. A necessária indagação sobre o próprio corpo é, de fato, ideal para uma dança voltada, não para uma narrativa, mas para as próprias possibilidades do corpo como meio de expressão.

O espetáculo abre com quatro bailarinos que se espelham uns nos outros em seus movimentos, formando um corpo único. Eles se analisam. Já começa muito bom, no espanto perante braços e pernas que lhes (nos) parecem novos.

Às vezes tal corpo único é 3/4 barata e 1/4 resistência. Outras vezes tenta conter, todo ele, a baratice galopante. São tentativas de um andar ereto, tentativas de dignidade. Mas sempre algo – um pé que se torce incontrolável, uma perna a tremer ou os dedos da mão, nervosos – vence e retoma os movimentos frenéticos de antenas e patas. Em outras vezes a barata quatrinca explora seus novos limites – os físicos, de seu novo corpo, e os geográficos, do palco fechado.

O coreógrafo Sandro Borelli traz, nessa obra, uma tonalidade nova e interessante para o drama kafkiano da perda da liberdade. Uma interpretação sexual. É um dos momentos, aliás, de que mais gostei. Os bailarinos, exaustos da luta contra a baratice, estão inermes no palco. Mas, pouco a pouco, vêem o movimento baratal renascer de suas mãos, postas em concha sobre o sexo. Um por um, dedos começam a se agitar qual patinhas, qual antenas. Uma hipótese que assim é lançada: aprisionado por limites sociais, econômicos e geográficos, o corpo busca a si mesmo. Uma condição de fechamento, de não alteridade, que inclui o sexo. A claustrofobia, a não-saída do corpo para além de si mesmo é o auto-erotismo. Que é, necessariamente, um homoerotismo. Nesse momento, os bailarinos se dividem, os dois homens ficam, as duas mulheres somem. Depois, isso vai se inverter. Ficam as duas mulheres, somem os dois homens. E entra uma sutileza também bonita. Os dois homens tem, a acompanhá-los, sons animais. As duas mulheres, uma espécie de canto/lamento. Na sequência, fica no palco uma das mulheres e voltam os dois homens. Eles tentam interagir com ela. São ações brutas, mas não intencionalmente brutas. Uma brutalidade de quem não se sabe bruto – ou não acha isso relevante. A brutalidade inclui tentativas canhestras de uma sexualidade desinformada. Mas não resulta. No final, a bailarina, “morta”, tem seu corpo analisado e cutucado pelos dois homens. Eles tentam deixá-la em várias posições, nenhuma satisfatória. Eles se entreolham a cada uma dessas tentativas. São eles os cúmplices, ela a estranha. Eles se unem sobre ela, cai uma saliva/esperma sobre seu rosto. É uma saliva/esperma comunal dos dois.

E depois ela é abandonada, inútil.

Há alguns pouquíssimos momentos de quase-humor no espetáculo. Sempre que vejo uma obra que parta de Kafka sinto falta de humor. Aqui, pelo menos, o humor não está ausente, em que pese a roupa preta e séria dos bailarinos, o palco minimalista, também preto. E a ausência quase total de sons ou música. Kafka, você deve saber disso, achava que estava escrevendo textos de humor. É raro alguém sacar sua enorme ironia. O personagem Gregor, depois de carregar a família inteira nas costas, trabalhando para sustentá-la, acaba virando uma barata. Mas as coisas vão se arranjando mesmo assim. A irmã leva comida. O resto das pessoas o ignora como sempre fez. O pai acaba conseguindo um novo trabalho. A vida segue. Ele continua lá. Ter se tornado, fisicamente, a barata que sempre foi não faz lá muita diferença.

Entrevista do Eric Novello na Rádio UNESP (mp3).

1. Qual a premissa de Os Dias da Peste?

“Os Dias da Peste” é a minha resposta a uma pergunta sobre uma questão simples: qual o nosso verdadeiro grau de dependência das máquinas? O “gatilho” que deflagrou a história foi o filme Matrix, que gerou o conto original, Um Diário dos Dias da Peste, escrito em 1999 e publicado em 2000 na coletânea de contos Interface com o Vampiro. Apesar de ter adorado o filme, sempre me incomodou muito esse clichê de as-máquinas-vão-dominar-o-homem. Por dois motivos: primeiro, as máquinas já dominam o homem. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, todo mundo depende de carro ou de metrô (as pessoas também pensam que “máquinas” são apenas computadores, aliás), onde as pessoas não dependem de máquinas? Quando a Internet sai do ar, as pessoas não ficam malucas? Quando você está numa fila de banco e o caixa diz: “caiu o sistema”, qual é a sua reação? Há algum tempo, num papo com o Fausto Fawcett, ele me disse o seguinte: “Antigamente o pessoal queria derrubar o sistema. Hoje neguinho fica puto quando cai o sistema.” É por aí. Os Dias da Peste contam a história de um período no futuro bem próximo em que o sistema cai e isso provoca um “caos informático”, mas não só. As conseqüências desse caos acabam sendo maiores do que se esperava, e não necessariamente negativas para a humanidade.

2. Você construiu uma relação acadêmica com o tema em seu livro “A construção do imaginário Cyber”. De que maneira isso é diferente ou complementa a sua relação de autor com o universo ciberpunk de “Os Dias da Peste?”

Quando comecei a escrever, não pensava que iria algum dia estar na academia. Mas ao entrar para o Mestrado de Comunicação e Semiótica na PUC-SP, onde pensava inicialmente em fazer uma pesquisa sobre hipermídia, descobri com minha orientadora, a net-artist Giselle Beiguelman, que a ficção científica estava em alta na academia por suas vinculações com a cibercultura – mas que, pelo menos no Brasil, ninguém havia pensado até então em explorar essas relações muito a fundo. (Na verdade, como eu viria a saber logo em seguida, havia uma pessoa fazendo essa pesquisa junto comigo, e no doutorado: Adriana Amaral, que publicou sua tese sobre a relação entre Philip K. Dick e os cyberpunks como um excelente livro, Visões Perigosas.)
Então desloquei o foco do mestrado para a ficção científica como formadora, moldadora da cibercultura como a conhecemos hoje (na mesma linha que o Henry Jenkins defende também) e acabei escrevendo uma dissertação sobre a obra de William Gibson, que se transformou no livro A Construção do Imaginário Cyber. Isso acabou reforçando meu lugar na ficção científica brasileira não só como escritor de histórias relacionadas ao cyberpunk como também um pesquisador e professor que contribui para a informação e formação de novos autores e leitores. Isso tem me agradado imensamente, porque tem surgido uma novíssima geração de leitores que está muito interessada no cyber e no pós-cyber – e já começa a escrever suas primeiras histórias.

3. Tem uma frase do prefácio da Adriana Amaral que acho excelente. Reproduzo mais ou menos aqui: “Mas é na descrição acurada, e não na extrapolação, como diz Ursula Le Guin, que a FC, ou sci-fi (…) mata a cobra e mostra o pau!” Como essa idéia se relaciona com o seu romance?

Eu sou um apaixonado pela palavra. Desde sempre. Uma coisa que talvez poucos saibam a meu respeito é que eu comecei escrevendo poesia e teatro. Meu primeiro prêmio literário foi um prêmio nacional de dramaturgia que ganhei aos 19 anos, por um conjunto de esquetes, um dos quais foi adaptado em 1998 e foi levado aos palcos cariocas sob a direção de Luiz Armando Queiroz (Vestidos Brancos, a última direção do Luiz, aliás, um trabalho belíssimo dele que muito me honrou). Continuo escrevendo poemas que jamais publicarei e microcontos cujo foco é mais a forma que o conteúdo, embora eu não abra mão do sentido. Rosa, Leminski e Osman Lins estão entre meus autores mais queridos, de cabeceira. Catatau é leitura constante, oracular (volta e meia pego e abro ao acaso, leio e mergulho na narrativa caudalosa de Leminski). Talvez por isso, embora a extrapolação me fascine, a descrição mexa mais comigo. Gosto imensamente de descrever coisas, cenas, lugares, pessoas. Nem sempre sou rigoroso como quero, mas, como diz um poema de Margareth Castanheiro, que li quando jovem e nunca mais esqueci, “O acerto pode ser incerto/mas o erro tem que ser exato”.

4. A ficção-científica abre espaços para discussões que não seriam possíveis na literatura do cotidiano (o tal mainstream)?

Abre. A literatura de ficção científica faz parte do conjunto-universo que se convencionou chamar de literatura de invenção (muito embora praticamente toda literatura seja de invenção, mesmo as biografias), e isso nos dá uma excelente desculpa para tratarmos de todos os temas que a dita Literatura com L maiúsculo teme falar. Vou citar um exemplo que não pertence à esfera da FC mas pode dar uma idéia interessante: os romances históricos/conspiratórios/de ação na linha O Código Da Vinci. Recentemente eu estava conversando com um editor de uma grande casa editorial carioca (não posso citar nomes) e ele me disse que seu maior sonho era publicar um similar nacional do Best-seller de Dan Brown, e que ele próprio volta-e-meia convida autores brasileiros de porte, conhecidos, ganhadores do Jabuti e de outros prêmios, e a resposta é sempre a mesma: a maioria até gostaria de escrever um livro assim (vários inclusive afirmaram secretamente gostar desse tipo de literatura), mas jamais o faria por medo de ficar mal com a crítica e os colegas. Daí o horror, o horror, citando Conrad. Mas a FC é a literatura-Oscar-Wilde, ou seja, a que não tem medo de dizer seu nome: ela fala com absoluta tranqüilidade de seres alienígenas, universos paralelos, outros planetas, futuros distantes, muito embora (e grande parte da crítica brasileira parece ainda não ter entendido isso) continue falando da nossa realidade, do nosso presente, apenas com outra capa. É um outro modo, bastante elegante, de tratar de angústias e ansiedades. A capa de um realismo mais duro e cruel já foi muito bem tratada por Hemingway, Bukowski, Fante. A FC pode até explorar territórios semelhantes, mas com outros mapas.

5. Qual foi sua rotina de escrita do livro? Escrever um romance exigiu mais disciplina do que você precisava ter como contista?

Muito mais. Contos têm dinâmicas muito particulares, dependendo do tamanho ou da estrutura. Posso levar um dia ou dois meses para escrever um conto, e eles podem variar entre uma e vinte páginas (às vezes escrevo textos de trinta ou quarenta, mas atualmente têm sido mais raros). Para o romance, entretanto, me impus uma disciplina rígida: trabalhar todas as manhãs pelo menos uma hora. Isso me deu, ao fim e ao cabo, uma média de quatro laudas por dia (cerca de mil palavras). No caso de Os Dias da Peste, como eu já tinha dois textos-guia (além de Um Diário dos Dias da Peste, usei também sua continuação, Interface com o Vampiro, escrito em 2000 e publicado também na coletânea homônima). Eram mais ou menos trinta laudas – que acabaram virando 265 em pouco menos de um ano. Preciso dizer que nesse tempo escrevi o livro inteiro e fiz um sem-número de revisões – pelo menos umas nove. Ou seja, 265 laudas foram o produto final, mas devo ter escrito pelo menos o dobro disso.

6. Em uma palestra ouvi você dizer que os autores nacionais não ficam devendo em nada aos autores lá de fora. Disse isso quanto à qualidade dos textos. E na ousadia dos temas trabalhados? Já conseguimos manter paridade?

Não, na ousadia ainda não. Temos boas exceções, claro. Jacques Barcia, por exemplo, é uma delas. Ele sempre consegue me surpreender com histórias belas e terríveis, e domina o inglês (língua em que escreve a maior parte de suas histórias) como poucos. Mas percebo que acabo de incorrer num paradoxo: nosso melhor autor dos últimos dois anos talvez o seja justamente porque escreve em total sintonia com o que se escreve lá fora, e não aqui. Eu mesmo sofro de uma terrível esquizofrenia literária: neste ano já publiquei uns oito contos em inglês, que têm sido elogiados lá fora, com temas steampunk e new weird, mas que escrevo com uma grande preocupação em não reinventar a roda, ou seja, não fazer o que já fizeram antes. Os Dias da Peste é um livro cujo tema já foi muito explorado no mercado anglo-americano, e sou altamente devedor a nomes como William Gibson, John Shirley e Pat Cadigan, apenas para citar alguns. Mas não sei se (como alguns colegas americanos meus já me perguntaram) este livro será algum dia traduzido ou reescrito para o inglês. Acho que o cyberpunk é um subgênero que subitamente encontrou uma grande revitalização no Brasil, mas nos EUA e na Inglaterra tomou outro rumo, não tem mais a mesma pegada.

7. O quanto o autor Fábio Fernandes é ciberpunk? Qual a sua relação com os gadgets atuais?

Quem me olha deve achar que eu sou um sujeito completamente sem noção. Na verdade, apesar de ter tido uma formação como técnico em eletrônica no segundo grau e um conhecimento básico de programação, essa linguagem não é o meu forte (embora tenha me aventurado bem de leve nos últimos tempos, por conta dos cursos de tecnologia onde leciono). Mas sou fanático por dispositivos de última geração e procuro estar sempre por dentro das últimas tendências. Não tenho grana para ter os top de linha nem gosto de ser beta-tester (estou mais para delta ou gama-tester, mais pro fim da fila), mas tenho meu iPhonezinho, meu netbook e estou sempre conectado onde quer que eu vá. Ou onde quer que as redes wi-fi e 3G permitam, claro.

01. Com 150.000 exemplares vendidos, quase 30 livros publicados, você joga pelo ralo a noção geral de que autores nacionais não vendem bem. Qual a sua opinião sobre o nosso mercado editorial? Ter um currículo desses facilita na hora de negociar a próxima publicação?

Bem, vamos por partes. Os autores nacionais não vendem bem porque insistem em explorar áreas que não são de interesse do público em geral. Meus livros de pesquisa histórica, por exemplo, são todos calcados em assuntos que são atraentes ao público, que não possuem similares em português que sirvam de introdução ao assunto e, ao mesmo tempo, mostrem um lado simpático da História. Por exemplo, quem nunca quis ler um pouco sobre Piratas, Lendas Chinesas ou entender de maneira não acadêmica a história da civilização romana? História é muito mais do que uma enorme lista de nomes e datas, é também uma fonte inesgotável de tramas que, mais tarde, podem ser aproveitadas num romance de cunho histórico. Pessoas do mercado editorial já me falaram que cerca de sete em cada dez romances publicados tem um pé em algum fato ou lenda retirados da história da civilização humana. Então por que não fazer com que o público tenha acesso a esses assuntos de uma forma divertida? O nosso mercado editorial, infelizmente, ainda é regido por uma regra, que é a da “onda da vez”, ou seja, quando um assunto faz sucesso, exploram até que não venda mais. O que você, como autor, pode fazer é tentar sempre dar um ângulo novo para o assunto e aguardar que o editor caia na real e veja que aquilo não dá mais. OU arriscar, com uma boa lábia de vendedor, convencer sua editora a investir X mil reais num assunto que pode vender muito ou pouco, mas quando não corresponde às vendas, a culpa pela insistência na publicação cai invariavelmente no autor. E por fim afirmo: ter um currículo desses facilita sua aproximação com as editoras, mas não garante que você seja um best seller a ponto de vender qualquer coisa para o editor. Você passa pela avaliação normal que os demais passa. A vantagem é que veem sua proposta com mais atenção do que a dos demais, mas o processo de seleção é o mesmo, seja para livros de pesquisa ou para romances.

02. Está havendo um movimento discreto das nossas editoras para encontrar autores com capacidade de escrever Best-sellers, literatura de entretenimento de qualidade. Por que agora e por que só agora?

Há vários motivos para isso e a maioria deles envolve certos parâmetros de vendagem que apenas aqueles que mais estão centrados no mercado compreendem. O que posso afirmar, baseado no que observo nas listagens de mais vendidos, é que há muito da “onda da vez” envolvido nisso. Por exemplo, até o advento das obras de André Vianco, não havia muito interesse em vampiros, que era um assunto restrito apenas aos adoradores do gênero. Depois do Vianco e com o advento da série Crepúsculo, o assunto deixou as esferas dos adoradores e se tornou assunto até mesmo de yuppies. O que nos leva a crer que a “onda da vez” não é um fenômeno só de livros, pois envolve adaptações para outras mídias, principalmente quando se tornam filmes. Antigamente o livro dava origem ao filmes e era, depois disso, até ignorado e esquecido. Hoje é o filme que dá origem a novos leitores, que procuram o livro para ver como é a história original. Por isso as editoras, ao sentirem o potencial da tal série, investem em continuações e trilogias. E isso fascina o leitor, que gosta sempre de voltar aos cenários e personagens conhecidos, e até mesmo a esperar desfechos de tramas à lá novela das oito, como aconteceu com o final da série Harry Potter. Há fãs que simplesmente odiaram e outros que adoraram, mas ninguém deixou de fazer fila para comprar o último livro, o que deverá acontecer de novo quando chegar o filme. Ligados nessa tendência, as editoras nacionais querem encontrar um André Vianco que esteja fora da “sociedade vampírica”, por assim dizer, e ver outros segmentos, como policial, aventura e suspense, entre outros, encontrarem suas contrapartes. Quem sabe, quando sair o primeiro filme baseado numa obra do Vianco, vejamos esse movimento se intensificar ainda mais.

03. Sociedades Secretas está indo para a terceira edição. A trama envolve Maçonaria, Priorado de Sião, DeMolay, Rosacruz. Dá para dizer que há um parentesco com os livros de Dan Brown em questão de tema e estrutura?

Na verdade não. Dan Brown segue uma mesma estrutura de história e possui poucas variações em suas tramas. Meu livro começou como um livro de entrevistas, ou seja, foi baseado em entrevistas reais com representantes das sociedades mais “pop” e era originalmente um guia para orientar as pessoas interessadas em entrar nesse mundo. Foi escrito pelo menos dois anos antes de estrear O Código da Vinci. Foi ideia do editor romancear o livro para ser mais fácil de ser entendido pelas pessoas. A primeira edição saiu poucas semanas depois do livro de Brown e fez sucesso a ponto da editora pedir uma segunda edição com capítulos extras. Assim o leitor pode ter nada menos que 12 capítulos a mais, com sociedades secretas que só existem no exterior. Esta nova edição, a terceira, traz um novo visual e um novo projeto gráfico, mais a ver com o tema do que as anteriores. O tema é bem simples: dois interessados em conhecer as sociedades secretas se envolvem no mundo de conspirações que, invariavelmente, é evocado pelo próprio assunto. Porém, ao contrário dos livros de Brown, eles não procuram iluminação ou algo do gênero, mas sim esclarecimento e informação. Afinal, informação e poder nos dias de hoje e conhecer onde se põe o pé pode ser a diferença entre a vida e a morte. O livro não se passa num período de 24 horas como os de Brown, o que já facilita um pouco a compreensão. Mesmo assim é uma aventura que agradou ao público, principalmente por evocar as paisagens e cenários europeus tão característicos da história der maçons, templários e rosacruzes, afinal foi lá que a maioria dessas sociedades secretas nasceu.

04. Escrever livros de pesquisa mudou em alguma coisa o seu processo de escrita de romances?

Sem dúvida nenhuma que sim. Para a maioria dos escritores iniciantes é sentar e pensar numa história sem prestar atenção a detalhes da trama. A maioria se esquece que quanto mais sua trama mostrar detalhes que possam ser acessados por uma simples consulta no Google, mais interessado o leitor ficará. Principalmente quando se mexe com fatos históricos. Até mesmo ao contar lendas e mitos devemos ter esse cuidado. Ou teremos uma polêmica desnecessária como a de Brown quando afirmou sobre a existência do Priorado de Sião como sendo da época dos templários. Eu tive oportunidade de estar na Biblioteca Nacional de Paris e vi os tais documentos do tal Dossiê Secreto. Uma criança de sete anos num microcomputador faz algo mais crível do que os papéis que lá estão que, claramente, não são históricos, apenas estão depositados por lá. Sua credibilidade como autor depende do fato de que sua trama , caso se baseie em coisas reais, seja de fato bem pesquisada. Se você quer mesmo fazer uma ficção, então pelo menos mude o nome das coisas, assim sua criatividade pode ir longe. Ninguém jamais disse que Brown não podia ter trocado o Priorado de Sião por, digamos, o Priorado de Nazaré, que teria sido fundado por um grupo de monges que eram na verdade alienígenas do tipo grey. A partir do momento em que você se propõe a trabalhar coma realidade, você tem a obrigação de fazer uma pesquisa séria para enriquecer sua trama. É isso que procuro fazer o tempo todo. Meus livros de pesquisa já me deram muitas ideias para romances, alguns já escritos e que aguardam publicação, outros ainda por escrever.

05. Seu Investigação Criminal recebeu elogios de profissionais da área. Acha que programas como CSI abriram um novo campo para a literatura policial?

Sem dúvida que sim. Programas sobre investigação forense são sempre muito bem-vindos porque, ao contrários de histórias que mostram o “mundo cão”, elas possuem um glamour que desperta o interesse das pessoas e acoberta um pouco o aspecto criminoso e violento das ocorrências. Enquanto fazia minha pesquisa para esse esse livro, por exemplo, passei uma semana com os profissionais de vários setores da Polícia Técnico-Científica de São Paulo, que me contaram muitos casos e deram muitos exemplos práticos. Um deles falava sobre um estudante que era fissurado em todos os aspectos de CSI e que chegou lá louco para participar de uma autópsia. Chegou a recusar passar pomada tipo Vicky Vaporub no nariz para disfarçar o cheiro porque nunca tinha visto isso no seriado. Quando entrou na sala do IML não aguentou cinco minutos: teve que sair correndo para vomitar no corredor. Mais tarde ele comentou com os investigadores que era mais difícil do que aparentava na TV. O trabalho desses profissionais é admirável até mesmo pela falta de recursos. Quando escrevi o livro muitos chegaram a comentar comigo sobre esse aspecto. Afinal, o laboratório dos CSIs é tão cheio de tecnologia de ponta que nem dá para imaginar que, enquanto em laboratórios como o de Little Rock, no Arkansas (onde se passa minha história) eles usam lasers para determinar a trajetória de uma bala, aqui fazem a mesma cosia com barbantes. E com resultados tão bons quanto os dos norte-americanos. Eles aqui fazem milagres para resolver os crimes. Se voltarmos um pouco no tempo veremos que muto do que foi apresentado em histórias de Edgar Allan Poe, Sir Arthur Connan Doyle e até mesmo em Agatha Christie tem coisas que são aprendidas quando se estuda ciência forense. E esta, à parte os insetos e pedaços de cadáver e outras coisas nojentas, é um campo formidável e promissor.

06. E o próximo passo? Sérgio Pereira Couto encontrou seu nicho ou tudo é possível?

Sim, creio que a ficção policial é mais interessante e cheia de promessas do que o mistério das sociedades secretas. Mas trabalho com literatura de mistério, acima de tudo, e essa área permite que você explore tudo, do romance policial científico ao noir, do mistério histórico às sociedades secretas. Se for algo que renda uma boa história que possa até mesmo ser lida num dia só, estarei satisfeito, pois o leitor interessado gosta de ler sem parar. E isso é extremamente gratificante.

Inês Pedrosa, escritora portuguesa, lançou no Brasil A eternidade e o desejo. O livro fez algum sucesso e autora participou da última FLIP. A capa do livro o denuncia. Envolta nas fitas do Senhor do Bonfim, que anunciam seu conteúdo, apresenta como pano de fundo um dos altares barrocos das igrejas baianas. A cor de Exu predomina. Todos os elementos presentes na capa aponta para a necessidade de identificação realista do conteúdo que se desenvolverá.

Em certa medida, a narrativa, emoldurada pelas palavras do Padre Antônio Vieira, vai se cumprindo a partir da formulação que os autores, que intentam fazer falar a cidade, buscam. O livro de Ana Miranda – Boca do Inferno – cai na mesmíssima tentação, como o baino, por profissão, já havia caído. Em Jorge Amado, a cidade – presa da magia – se mostra na sua mitificação plena. Em Ana Miranda e Inês Pedrosa, a mistificação é apenas corruptela.

Se o narrador histórico-biográfico em Ana Miranda desvela um Gregório anacrônico, que, entre mulateiro e pervertido, constrói uma cidade idealizada, em Inês Pedrosa, a narradora, cega, passa da auto ironia a auto comiseração e aceitação, a partir de um amor idealizado; de sua condição e da perda da causticidade privilegiada que a cegueira jogara-lhe no colo. Ao fazer-se portadora da boa nova – a gravidez do final do livro – apaga literalmente o diálogo com Vieira e com a condição de excluído que o Padre alcançara na Bahia.

Os elementos estão todos dispostos na narrativa. A primeira viagem que empreende à Bahia se dá a partir de um amor arrebatador por Antônio, que lhe causará a cegueira quando tenta proteger o amante de um tiro. A confluência de um Ântônio por outro não chega a constituir um elemento narrativo de realce posto que o contraste se indetermina em uma causa óbvia.

Na segunda viagem apreendida à Bahia, Clara desce na cidade acompanhada de Sebastião, amigo por quem tem amizade e que lhe devota uma paixão tão arrebatadora quanto idealizada. A escolha do nome Sebastião está intrinsecamente ligado ao Rei menino que morre em Alcácer-Quibir e me parece que Inês Pedrosa busca realçar este fato, tanto na esterilidade deste amor quanto no anacronismo que o amor idealizado representa. A partir desta condenação amorosa esperava-se que A eternidade e o desejo buscasse definir o amor em termos libertários.

Clara, a partir do contato com uma mãe-de-santo, se envolve com um cineasta local que vai revelar a ela os segredos do amor. A reveleção, entretanto, mais causa pavor do que arrebatamento. Explica-se: Ao resolver romper com seu passado português, a narradora cai nas armadilhas do amor satisfeito, bem arumado e consolador, através do estancamento da aventura, isto é, da gravidez que denuncia a auto complacência da narradora e o nosso pavor.

Vítimas da mistificação, as narrativas sobre a cidade da Bahia, a de Ana Miranda, a de Inês Pedrosa ou a de seu Grão Senhor, desde logo colocam um problema para a formulação do literário – quando se querem realistas não dão contam do que é o fictício, pois afirmam-se sobretudo por uma visada sociológica e não ficcional; quando se querem fantasiosas, ou fantásticas, não dão conta do ficcional por estarem presas à mitificação da geografia narrativa, que é uma outra forma de dar conta da realidade ou mesmo de provocar no leitor o gosto pela mesmice.

Do novo livro de Dora Ribeiro, A teoria do jardim, extraem-se flores raras. O topus a que remonta o título é antigo na poesia universal. Desde a Priapeia, o jardim, como lugar poético, vem sendo tematizado. Se nele, afigura-se a poesia como espaço do utilitarismo, ao longo das construções dos jardins poéticos, a poesia utilitária cede lugar para outra forma de poesia que se escreve distanciada desta dicção. No século de ouro espanhol, fala-se de um jardim das delícias.

capa de A teoria do jardim, de Dora RibeiroSe nestes jardins o poema afigura como apêndice de uma vontade ou de uma tópica; nos jardins de Dora, o poema se constrói como forma de reflexão sobre a linguagem, aliás, de uma teoria sobre e sob o jardim. Uma teoria que se define e é definida pelo pensar do jardim. A teoria só é válida quando interroga seu objeto e dele extrai não formulações específicas que possam ser aplicadas, mas é instrumento de pensamento no qual se debruçam os que vêem validade na percepção do ainda inconcebível, do ainda imperceptível, dos que permitem que se vislumbrem estruturas para dizer do mundo. Não seria demais afirmar que a formulação de uma teoria é a de um universo centrado tal qual como no poema.

Dora alia o poema e o pensar ingente sobre o mundo. Teoriza flores de jabuticaba, na bela dedicatória para Camila, que nos faz, com a ligeireza de quem não quer nada, adentrar nos portais da poesia e nos surpreender com as flores, outras flores, antes inexistentes, ali colhidas. Como sombra pesam as flores baudelaireanas. Como sombra, as maravilhas de Alice. As referências das sombras se cumprem para serem despedaçadas. Se, como em Baudelaire, se, como em Carrol, o pensar literário propõe lógicas obliteradas pelo senso comum, em Dora, este pensar determina um mergulho distanciado na concepção do poético contemporâneo.

Não é que ao fazer-se contemporânea, ao tomar a poesia como forma da sensibilidade do sujeito, a poeta o faça distanciando o sujeito das observações da sensibilidade imediata, que derivam do próprio sujeito. Esclareço. O sujeito que pensa a poesia de Dora Ribeiro é sempre um sujeito que se sujeita ao ritmo do fazer deslocado da ficção, isto é, é um não-sujeito sem deixar de autocentrar-se no eu. As marcas da pessoalidade se apagam, se desfazem ante a percepção de que aquele sujeito é um sujeito aquele e não este. Leia-se:

os caminhos perseguem ideias

naturalmente falsas

arranjos do tempo

obliqüidades e temperamentos

A obliqüidade, esse maravilhoso quase paradoxo, que se situa na “ideia naturalmente falsa” sob a perseguição de um caminho, permite que se perceba a força que o poema tornado ficção detona. Se são as idéias arranjos e temperamentos num ambiente – o da escrita – que se torna naturalmente falso – o lugar da descoberta da palavra é fabricado como uma inexistência existente, assim como o do sujeito que pensa nas relações entre o objeto e seu significado – é um lugar que, antes de existir, só existe na linguagem.

Neste sentido, o Jardim de Dora é antes de tudo uma teoria, isto é, existe para que exista essa possibilidade de jardim e não o jardim prévio no qual os poetas do passado plantaram suas flores referenciadas tanto para negá-las quanto para delas criarem as possibilidades de localizar sua geografia e envolvimento religioso, ou o jardim dos poetas mais próximos que o tomaram como lugar das delícias ou das tensões provocadas pelo mal-estar da civilização, que perde seu jardim e propõe flores negativas, usurpadas.

Sejam uns, sejam outros, o jardim sempre foi o espaço que derivou de uma geografia privada e pública. O que Dora, com sua teoria, busca alertar ao leitor é que os jardins pertencem à linguagem e como linguagem são lugares para que se ensaiem existências prováveis, possíveis ou ainda carentes da percepção na qual o olhar desta inexistente existência se fixa como um real que, entretanto, ainda não se fez – senão que como livro – como real.

01. Para começar, gostaria que me ajudasse a definir a ficção especulativa gay. É a ficção especulativa com personagens gays ou são histórias gays com um toque de literatura fantástica?

Pode-se argumentar que sejam ambas. A pergunta mais fácil é o que faz uma boa história de ficção especulativa gay. Os elementos fantásticos devem complementar os temas e personagens gays. É como na culinária – você não quer que um único ingrediente domine os outros. Ser gay é como ser o “forasteiro” – um papel que se encaixa em muitos protagonistas da literatura fantástica.

02. Como é o mercado para esse tipo de literatura no seu país? No Brasil, os personagens e amores gays existem, mas não chega a haver volume que marque o surgimento de um gênero, como me parece ser o caso em outros mercados.

Nos Estados Unidos, títulos com orientação gay ainda são um tanto quanto incomuns. Mais mulheres do que homens americanos lêem livros, então você pode observar um número crescente de livros que podem ter apelo além do público gay tradicional. Isso dito, acredito que um ótimo livro cria “ondas de público leitor” no mercado. Os círculos internos são o público-alvo do autor, mas os círculos externos são aqueles que ele nunca esperava. Vintage foi originalmente escrito para leitores adolescentes gays, mas eu sei que muitos adultos gays ou mulheres heterossexuais gostaram do livro.

03. Eu vejo em filmes gays um problema da repetição dos dilemas. Tem sempre alguém que briga com o melhor amigo ao descobrir a própria sexualidade, sofre preconceito da família, se apaixona pelo cara heterossexual da faculdade, tem dificuldade de adotar um filho, tem um amigo com AIDS. Às vezes, tudo isso no mesmo filme, em 1h30 de duração. Na literatura, você acha que a vida gay é tratada de forma mais ampla?

Eu acho que tem um movimento crescente nos livros para mostrar que ser gay não é sempre tão simples ou estereotipado quanto a grande mídia apresenta. Em Wilde Stories 2009, que eu editei, tem caras que estão saindo do armário aos 40 e se sentem perdidos em uma cultura tipicamente gay, detetives de homicídio que lidam com homofobia, e até personagens muçulmanos em um ambiente tipo mil e uma noites.

04. Em Vintage, seu protagonista é um jovem gay que tentou se suicidar. Foi difícil trabalhar a faceta psicológica do personagem? O terror ajuda nessas horas?

A parte mais triste de trabalhar no Vintage envolveu a morte de um dos meus leitores beta – ele tinha apenas 14 anos e se enforcou no seu armário devido à depressão e a homofobia que enfrentava na escola. 14 anos de idade… foi uma tragédia que me afetou muito. Parte do narrador do livro é baseado nesse garoto.
Acho que todos nós temos nossos períodos de pensamentos mais sombrios, de impulsos autodestrutivos, e eu tentei incorporar isso tudo e mostrar que desistir em face da depressão não é a resposta.

05. Fale um pouco da Ícarus Magazine.

Bem, eu realmente adoro ler boa ficção especulativa gay. Parecia ser o próximo passo para minha editora (Lethe Press / lethepressbooks.com) começar a publicar uma revista trimestral dedicada a essas histórias. O objetivo é ter alguma coisa especial, colorida e divertida para homens gays – e introduzi-los a um mundo com histórias que tem um toque do estranho e da fantasia. A edição mais recente, especial para Halloween, acabou de ser lançada. Onde mais você encontraria desenhos animados, histórias eróticas de vampiros, fofocas e um conto sobre a San Francisco do futuro?

Adoraria ver alguns autores brasileiros enviando trabalhos – no momento tem um foco mais americano, mas gostaria de ler um conto fantástico ambientado no Carnaval.

06. Para quem quer conhecer a atual produção de Fantasia Urbana Gay ou mesmo Fantasia Urbana, quais nomes você indica?

Alguns dos meus autores favoritos são Holly Black, Cassandra Clare, Ellen Kushner, e Lee Thomas. Todos têm conteúdo gay, em proporções variadas, e suas histórias são cativantes e cheias de vida.

English version:

01. For starters, I’d like you to help me define gay speculative fiction. Is it speculative fiction with gay characters or are they gay stories with a touch of fantasy literature?

SB: Arguably, both. The easier question is what makes a good gay spec fic story. The fantastical elements should compliment the gay themes and characters. It’s much like creating cuisine – you don’t want any single ingredient to overpower the others. Being gay is akin to being the “outsider” – a role that befalls many protagonists in fantastic literature.

02. In Brazil, gay characters and Love stories exist, but there is not enough volume to mark the appearance of a subgenre, like it seems to be the case for other markets. What is the market for this ‘genre’ of literature in your country?

SB: In the United States, gay-oriented titles are still rather uncommon. More American women than men read books, so you are seeing a growing number of titles that can appeal beyond the usual gay readership. That said, I think a great book creates “ripples of readership” within the marketplace; the inner circles are an author’s intended readers, but the outer rings are ones he never expected. Vintage originally written for gay teenage readers, but I know many gay adult or straight females who have enjoyed the book.

03. I see in gay films a problem of repetition of dilemmas. There is always somebody who fights with their best friend when discovering their own sexuality, suffers from prejudice in the family, falls for the straight guy in collage, has a friend who is HIV positive. Sometimes all the problems in the same package, in 1 hour and a half. In literature, do you think gay life is handled more broadly?

SB: I think there is a growing movement in books to portray being gay is not always as simple or stereotyped as mass media presents. In Wilde Stories 2009, which I edited, there are guys who are coming out at age 40 and feel lost in typical gay culture, homicide detectives who deal with homophobia, and even Muslim characters in an Arabian Nights milieu.

04. In Vintage, your main character is a gay youngster who attempted suicide. Was it hard to work on the psychological aspect of the character? Does the horror element help you?

SB: The saddest part of working on Vintage involved the death of one of my draft readers—he was only 14 years old and hung himself in his closet due to depression and experiencing homophobia at school. 14 years old… it was a tragedy that affected me greatly. Some of the book’s narrator is based on this boy.
I think we all have periods of dark thoughts, of self-destructive impulses, and I tried to incorporate these and show that giving in to depression is not the answer.

05. Talk a little about Icarus your new magazine.

SB: Well, I do love reading good gay speculative fiction. It just seemed like the next evolution for my press (Lethe Press / lethepressbooks.com) to start publishing a quarterly magazine devoted to such tales. The goal is to have something special, colorful, and fun for gay men—and introduce them to stories that feature a bit of weirdness and whimsy. The newest issue, special for Halloween, just released. Where else will you find cartoons, vampire erotica, gossip, and a tale about San Francisco in the future.

I would love to see some Brazilian authors submit their work—right now it’s about American-centric, but I’d love to read a fantastic tale set during Carnivale.

06. For those who want to learn more about what is currently produced in Urban Gay Fantasy or even Urban Fantasy, which names would you recommend to get started?

SB: Some of my favorite authors are Holly Black, Cassandra Clare, Ellen Kushner, and Lee Thomas. They all have gay content, of differing amounts, and their stories are captivating and vivid.

Acabo de descobrir que Miguel Sousa Tavares, o escritor e jornalista português, é filho de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma surpresa e tanto para mim, admiradora de sua obra poética, uma vez que ia justamente comentar que, após ter lido uma seqüência de romances de autores africanos de língua portuguesa, senti uma enorme diferença entre os textos destes e o de Sousa Tavares – No teu deserto – lançado em setembro de 2009, pela Companhia das Letras. Estava já habituada àquela escrita bem poética e reflexiva dos africanos, por isso senti um certo impacto com a leitura do Sousa Tavares.

Não quero comparar os africanos com o português, muito menos dar a entender que, por ser filho de poetisa, Miguel Sousa Tavares deva ser poeta. Aliás, seu nome é Miguel Andresen de Sousa Tavares. Se não tivesse preterido o sobrenome “Andresen”, talvez tivesse imaginado sua filiação muito antes!

Mas isso não importa, o que interessa é que, filho ou não de Sophia (a mesma que teve seus versos introduzindo alguns capítulos de Antes de Nascer o Mundo, do Mia Couto), seu último romance, que dá conta de uma travessia do deserto do Saara e das implicações dessa aventura na vida do protagonista, um jornalista português, e de seu relacionamento com a companheira de viagem, uma garota bem mais jovem que ele, não é uma viagem perdida.

O que há de curioso para se observar é a diferença de comportamentos entre os dois, tendo em vista os significativos quinze anos de idade que os separam, o modo como um enxerga e interpreta as ações do outro, os objetivos profissionais e pessoais do jornalista, a falta de objetivos da jovem garota e o aprendizado da mesma durante esses dias de aventura. Na realidade, é curioso até o momento em que nos damos conta de que já conhecemos essa história, e percebemos que a narrativa não pretende nem nos surpreender nem nos encantar com a simplicidade de uma história banal, como muitas vezes acontece, de uma história ser bonita por ser simples.

Assim, sem muitos rodeios nem grandes descobertas, guiados por uma linguagem simples e objetiva, atravessamos o deserto e entramos na África. Percebemos a existência de um possível romance entre o jornalista e a garota, refletimos rapidamente sobre o silêncio do deserto e a impossibilidade, na atualidade, com todos os avanços tecnológicos relacionados à comunicação, de lidarmos com o silêncio. A era das comunicações, da tecnologia e da popularidade teria nos tornado incapazes de suportar a solidão e o silêncio. O deserto seria, portanto, o último destino procurado pelos viajantes dos dias de hoje. Não posso deixar de ressaltar que essa parte do texto, que começa na página 116 e, tão rapidamente, termina na página 117, é realmente fascinante. É o que oferece sentido à travessia do romance. Discussões sobre o silêncio e a solidão sempre rendem muitas reflexões e, em No Teu Deserto, a naturalidade e a fluidez que caracterizam essas divagações as afastam de qualquer possibilidade de serem apenas tentativas desesperadas de filosofar.

Outro ponto positivo é o fato de o romance ser curto, o que o poupa de ser cansativo.

No teu deserto
Miguel Sousa Tavares
Companhia das Letras
1ª Edição – 2009
(128 pgs.)

Até outubro de 2009 fica em cartaz no Oi Futuro do Rio de Janeiro a peça Sutura, texto do escocês Anthony Neilson, dirigido por Felipe Vidal e interpretado por Cristina Flores e Lucas Gouvêa.

Em princípio, a peça aborda o transtornado relacionamento de um casal jovem, com dificuldades de comunicação, problemas com o passado e dúvidas em relação ao futuro. Num teatro diferente, em que são duas as platéias, e que ficam uma de frente para a outra, podendo o palco ser um mero obstáculo para a comunicação entre os espectadores, os primeiros momentos são de expectativa, uma vez que o tema e o ambiente são incompatíveis: uma história batida num espaço novo.

No decorrer da peça, contudo, o tema ganha novos contornos, a começar pelo jogo temporal, que requer muita atenção e certa familiaridade com esse tipo de recurso, já que o vaivém abrange não só presente e passado, mas também um possível futuro.

A partir daí, o texto torna-se surpreendente e o palco (que na verdade são dois, já que uma cortina semitransparente o divide em duas metades) transfigura-se em parte essencial da peça. Tudo vai bem, então, rumo ao ponto alto do texto, que em muito se assemelha aos Contos de terror, mistério e morte, de Edgar Allan Poe.

Em determinado ponto, para mim o auge, momento em que há uma tensa discussão entre o casal, que culmina numa cena grotesca (que não é possível descrever!), um misto de choque, terror e contentamento tomam conta do teatro. Eis a hora mais indicada para o encerramento do texto. Como ficar melhor que isso, ou como manter tal nível de euforia perturbada que domina a platéia? Impossível! Se fosse um dos contos de terror, mistério e morte teria terminado por aí, com uma platéia de espectadores muito surpresos.

Mas… A peça continua e acaba voltando para a calmaria inicial, para a discussão do relacionamento amoroso e toda aquela história. De todo modo, quem gosta dos contos de Poe vai, seguramente, aproveitar a experiência, ainda que os enfraquecidos minutos finais causem certo desânimo.

Sutura
Texto: Anthony Neilson
Direção: Felipe Vidal
Elenco: Cristina Flores e Lucas Gouvea
Até outubro de 2009.
Teatro do OI Futuro
(Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo/RJ)

O Prédio, o Tédio e o Menino CegoUm romance existencialista bizarro. Definição perfeita. Esta lá no meio do texto, nem fui eu quem disse, foi ele, ou ela, assim, prontinho para ser usado na resenha, numa dessas de preguiçoso que mata o livro numa tacada só e fica livre para não falar nada com nada no restante do texto. Mas aí eu lembro que hoje em dia um autor não é só seu livro. Nada disso. A voz do autor está também no blog, esse famigerado veículo de opiniões. E lá no Jardim Bizarro, que um dia foi vermelho de Amor e Hemácias, o Santiago Nazarian disse que ninguém mete o dedo na sua orelha. É uma coisa que não me esqueço, não sei a razão, e já devo ter citado em outras resenhas daqui. E a orelha de O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é didática, pragmática como cabe ser a uma orelha. Lá no final diz que é o tipo de literatura que desperta zumbis, e eu ri. Eu ri porque achei que era uma brincadeira com o atual debate de limite de gêneros, mas o Tédio, o Menino Cego e o Prédio dão seu jeito de se desprender da realidade com maestria, espalhando zumbis metafóricos e metalingüísticos, mas nem por isso menos ávidos por neurônios, nem por isso menos animadinhos do que o Otto. Sim, tem zumbis. Mas nisso eu fugi da definição, do existencialismo bizarro, que era de onde queria partir e onde queria chegar.

Sabendo da história da orelha, olhei para aquela frase prontinha, embrulhada para presente, e pensei, hum, aí tem. Você pode argumentar sobre a minha total paranóia, que um autor não lança iscas no seu próprio oceano para pegar o crítico pela boca, de beiço espetado. Em minha defesa digo que O Menino Cego, o Tédio e o Prédio é um redemoinho de paranóia, feito para te arrastar para dentro, para o fundo, para que você tente nadar até a superfície e chegue a qualquer outro lugar. É um livro que desorienta. E num dos momentos mais explícitos de metalinguagem há um escritor, uma máquina de lavar roupa, os críticos e O Crítico, oras. E a piada é mais ou menos assim. Não, deixa a piada de lado, o que importa é O Crítico que fala mal dos críticos, que joga na cara o quanto eles falam besteira ao destrinchar teorias igual estou fazendo aqui. E eu nem li Almoço Nu, o Burroughs que me desculpe. Melhor me prevenir.

Mas há um modo didático que nem orelha intocada para se falar do livro, deixar explicadinho o que não quer ser explicado, quer é despistar, embaralhar as cartas do jogo para que não seja bem literatura do cotidiano nem literatura fantástica, que seja, de fato, existencialista, que tenha doses e overdoses de alucinógenos e humor negro, um gordo histérico e uma professora psicopata, num clima de pastiche policial. Isso servido em camadas, nos andares de O Cego, o Prédio e o Menino Tédio. Meninos, aliás, que são a nossa porta de entrada.

Os meninos.
São sete os meninos que acompanhamos na primeira unidade do livro. Há o Cego do título, o Gordo, o Atleta, o Negro, o Narciso, o Andrógino e o Junkie. Eles moram em um prédio inclinado, na beira da praia. São arquétipos propositais, reconhecíveis nos meandros da adolescência, na época de virada para a vida adulta quando a relação consigo mesmo é tão delicada quanto a relação com os colegas. Ser quem você é depende de sua própria opinião ou de como você se situa na hierarquia social do prédio, da rua, da escola? Há uma escala de poder, uma jornada de auto-aceitação descrita com doses de estranhamento. O Nazarian dedica parte do texto à face interna desses meninos, isola-os do todo, raramente estão juntos os sete, ele os trabalha em duplas, trios, vendo no grupo de amigos os subgrupos que se formam momentaneamente, por conveniência. É um dos pontos mais interessante dos meninos, dos sete e também dos personagens periféricos, a incerteza sobre suas amizades, a certeza de uma solidão que não se rompe nos pequenos diálogos ou na busca por afinidades. Dessa parte, entretanto, gosto bastante de um capítulo em que os sete estão reunidos, sobem uma ladeira indo rumo a um objetivo que não existe. No caminho eles pensam em seus porquês, pensam que poderiam estar lá ou em qualquer outro lugar, pensam no momento certo de sair de cena antes que não possam controlar o que se pensa deles. Mas, acima de tudo, é um capítulo simbólico do livro, é um capítulo que não se importa com o ponto de partida nem com o ponto de chegada, e diz que o que vale é o percurso, o processo, e vejo O Prédio, o Tédio e o Menino Cego como um livro que curte seu processo, que declara com a metalinguagem que a escrita é o melhor da história. O próprio autor compete de igual para igual com os personagens, avisa nas entrelinhas que ele também se metamorfoseia, se não da adolescência para a vida adulta, em outros casulos e crisálidas, em uma narradora capaz de migrar pelas páginas do livro de modo voyeurístico até a participação derradeira.

Não sei se essa parte fez bem ao meu niilismo. Talvez tenha feito bem demais, por isso a torcida para a chegada da Professora, a outra personagem-chave, a que mata menininhos. Se ficar pensando muito sobre o assunto, a resenha só termina ano que vem. Então vamos a ela:

A professora.
Um dos motivos do Tédio é uma greve de professores. As aulas são representadas pela sua ausência. Sem as aulas, não há tempo livre, pois o dia inteiro se torna uniforme, homogêneo em sua falta de função. Os professores entram no livro como um componente fantástico, um sopro de terror. Chegam para uma assembléia que supostamente decidirá o futuro da greve, mas chegam em vários ônibus de turismo, uma revoada, migratórios, loucos para aproveitar a praia que há em frente ao Prédio inclinado. São uma massa, um coletivo que planta a semente para a futura chegada de Regina, a professora que nos interessa.

E Regina chega pelo oceano, quando o mar congela, surgindo de um lugar que ninguém sabe bem. Ela deixa os meninos curiosos com a novidade, tudo que é diferente, que é mudança, é uma arma contra o Tédio. Mas Regina é mais do que isso, ela traz em si muitos papéis para sacudir a história e os hormônios. Regina marca a entrada em outro universo, em que os meninos deixam de ser meninos e passam a tentar impressionar a nova moradora. Não é que Regina seja do tipo agradável, pelo contrário, parece medir as palavras para ser incômoda, e faz isso com uma naturalidade paradoxal própria dos seres irritantes. Mas Regina é inacessível, é a grama mais verde. Num primeiro instante todos querem estar com ela, ser como ela. Adiante, as opiniões vão divergindo, os meninos conquistam uma individualidade além dos rótulos. Uma das grandes sacadas de Regina (e do autor) é exatamente sumir com os rótulos. Quando o Gordo deixa de ser o Gordo, o Andrógino deixa de ser o Andrógino, …, e o autor apresenta seus nomes não só para o leitor mas para os próprios personagens, eles precisam encontrar novos papéis na hierarquia, na história, o que desestrutura a relação e os joga para outras faces de seus arquétipos, onde o Junkie é ainda mais junkie e menos iluminado, o Gordo que apanha vira o gordo que bate, o Narciso não é mais o centro das atenções e encara suas inseguranças.

Regina é também a professora e eleva à enésima potência a máxima de que sobreviver ao colégio é para poucos. Não porque seja exigente dentro da sala de aula, mas porque é uma louca psicopata que mata criancinhas. Uma mistura de Bruxa Má e Branca de Neve no meio dos seus sete anões. Os momentos em que o Nazarian enfia o pé na jaca com gosto e explora as sandices da personagem dão um fôlego extra para o final da história, pelo menos para os que curtem humor negro. É uma delícia. Passei o livro inteiro esperando por ela, e confesso que foi com ela que me diverti, mesmo tendo pena dos meninos, já que também não sou assim sem coração só porque escrevo resenhas.

Fazendo um apanhado de clássicos do policial e do terror, Regina desfila um cabedal de técnicas de assassinato, sumindo com cada um dos meninos de um jeito diefrente. Há o machado que destrói a porta repentinamente, auto-referências reptilianas e um chá envenenado que é meu assassinato predileto. Com uma professora assim, diretora carrancuda parece brincadeira de criança.

Os zumbis.
Para fechar, vale falar do estranhamento. Tenho ficado de olho no modo como os autores se aproximam ou se descolam da realidade, e o Prédio, o Tédio e o Menino Cego é cheio de artifícios. O mais direto deles é o prédio inclinado, sempre a um passo de desabar. Está lá para deixar tudo fora do lugar, para tirar do eixo. O elevador não funciona, as pessoas se desequilibram, o Negro é ejetado, o Gordo rola pelo chão. Nazarian brinca também com as mudanças climáticas. Há um sol de rachar que lota as praias, o mar congela na chegada do inverno, vira uma imensa pista de gelo. É por ele que vem Regina. Quando o calor volta, um imenso deserto, o mar desaparece, insetos tomam conta.

Alguns são elementos de ambientação, outros interferem diretamente nos ânimos e na trama. E aí chegam os zumbis.
O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é Coraline with lasers. Ou Coraline ouvindo Suede de franjinha. Não por acaso o único sobrevivente desse massacre chamado adolescência é…

O Prédio, o Tédio e o Menino Cego
Santiago Nazarian
Ed. Record
343 páginas
Com ilustrações muito bem sacadas de Alexandre Matos. Gostei especialmente do pingüim.

Portal StalkerNão é de hoje que vejo ecos de Alice nos quatro cantos das artes, foi assim desde sempre. Muito se fala de Alice pelos delírios lisérgicos, pela garota que diminui e aumenta de tamanho, que pede conselhos a uma Lagarta amarradona no narguilé, que fala com um gato que pisca. É um jogo de percepções, é a explicitação narrativa da inconstância da realidade, é um monte de palavras bonitinhas que nos fazem esquecer o principal sobre Alice no País das Maravilhas – ele foi um marco na literatura infantil por dispensar a moral. Nada de órfão que perdeu a avó católica, nada de meninos que congelam os pés na neve por não terem o que calçar, nada de garotas que se perdem na floresta e são comidas por um lobisomem que curte coroas. Lewis Carroll queria, acima de tudo, contar uma boa história, e há certa ironia que seja um livro nonsense a nos lembrar disso, do valor da boa história.

Sem entrar no mérito dos livros que sobrevivem da pregação de valores, eu me concentro aqui na ficção-científica brasileira, na parcela que acompanho hoje. Se não há ninguém que, amém, pregue valores cristãos em cada confronto alienígena, há outra moral sorrateira e rastejante que se impõe como quem não quer nada. A moral do “veja só como escrevo bem”, “meu livro encalhou menos do que o seu”, “quem, cof cof, você pensa que é”. É a moral do cara que não agüenta ser sapinho no brejão e decide ser o sapão do brejinho, sábias palavras de Glauco Mattoso que cito sempre. Talvez pela ficção-científica ainda estar vencendo as barreiras do nicho, e não duvido de seu grande potencial de vendas – cegas são as editoras, às vezes me pergunto se os autores não conversam entre si ao invés de se comunicarem diretamente com o público.

Insisto nisso porque a ficção-científica é só uma roupa. É um jeans com camiseta como outro qualquer. Um autor pode vestir seu drama como bem entender. Alguns preferem vesti-lo com magia, outros com andróides perturbados. A literatura dita mainstream, que chamo de literatura do cotidiano para ver se um dia o termo cola, pode até fingir que é um corpo nu, mas também tem lá suas vestimentas e maquiagens. Ficam na porta ao lado, é verdade, mas com um armário cheio do mesmo jeito. Sai a nave espacial e entra o pó de barro, o sofrimento do imigrante. Sai a arma de prótons e entra a família de classe média cheia de podres. Sai o dragão tirânico e entra a favela, a periferia, o marginalizado, o cara que trabalha consertando os canos dos esgotos. E nisso, sinto muito, não há nenhuma nudez. Não existe literatura nua. Não importa a fantasia que se escolha, o que conta no final, veja só, é ter por baixo uma boa história.

Mas o que isso tem a ver com a Portal Stalker? Muita coisa. E com essa resenha também. Vamos num passo de cada vez.
Mente por trás do projeto Portal, Nelson de Oliveira é um cara bastante presente na literatura brasileira. Está sempre escrevendo alguma coisa, organizando coletâneas, dando palestras aqui e ali. Assim, por conhecer muitos autores e agitadores é capaz de fazer pontes sobre o muro imaginário que separa os gêneros. Digo isso porque é dessa forma que vejo o projeto Portal, uma revista-livro que abre as portas do armário e mostra para as roupas de um lado as que ficam guardadas no outro. Que joga o batom no chão e diz “não me venha dizer que não usa maquiagem”.

Mas que metáfora bisonha foi essa, Eric? Bem, eu comecei a resenha falando de um livro de nonsense, o que mais você esperava?
Dito isso, escolhi comentar da Stalker os contos que me passaram essa sensação do ‘contar histórias’, do autor que se diverte junto com o leitor. Nada contra o experimentalismo ou as abordagens líricas. Acho que temos mesmo que reinventar a roda ao máximo, acrescentar e subtrair ingredientes na poção para testar seus sabores. Mas hoje, não garanto amanhã, o que busco como leitor é um autor que tenha compromisso de bardo.
Novo protótipo. Geralmente o que me atrai nos contos do Roberto Souza Causo são os artifícios que ele usa para fazer a imersão na ficção-científica. Por pura curiosidade, tenho cada vez prestado mais atenção em como os autores se descolam da realidade e o Causo brinca bastante com isso. O conto Novo protótipo se passa no bairro da Liberdade. Começa com “Bairro da Liberdade. Séculos atrás…”, o que já quebra a idéia de tempo, e narra então episódios futuros, jogando a história para um futuro posterior ao que ainda desconhecemos.

O desconhecido também aparece nas palavras criadas. Um passeio na rua nos oferece centenas de imagens que já nos habituamos. Você sabe o que é um shopping, o que é um cinema, sabe o que é carro, metrô. Um jeito de quebrar essa conexão e utilizar palavras novas (ou menos comuns) como se fossem elementos habituais. Então há dutos fibróticos, metrômaglev, pirâmides arcológicas, holodisplay, ultrepoxi e por aí vai. Com isso, mesmo em poucas páginas, o Causo consegue criar uma mitologia que dê base ao texto, cumprindo parte da missão da literatura fantástica.

A história é simples: Bella é uma assassina que, após cumprir sua missão, tentará fugir de seus contratantes. Detalhes podem funcionar como spoiler, então não os darei. Mas vale dizer que a ambientação é um dos grandes atrativos. Senti certa dificuldade de me conectar com o drama de Bella, mas também é uma protagonista interessante por tudo que tem a oferecer. Viraria fácil um episódio do Animax.

“Empurro a bicicleta junto ao meio-fio. Milhares de paulistanos se aglomeravam nas calçadas. Uma procissão de carros arrastava-se pela Avenida da Liberdade. Era véspera do Hanamatsuri e havia um modesto jubilo budista no ar”.

Luiz Bras, por si só uma ficção, participa com o conto Singularidade Nua. Foi um dos que mais me entreteve. O autor pinga as informações em blocos de texto, mantendo o mistério até o fim, apesar do mistério não ser a base para a história. O primeiro bloco passa a idéia de que algo deu errado, sabe-se lá onde, e que o protagonista, o doutor, irá lá para entender e não necessariamente consertar.

Os blocos seguintes revelam que esse lá são três naves rumo ao desconhecido, cada uma com um irmão. O doutor precisa convencê-los a ativar a autodestruição das naves, e usa com cada um deles um jogo distinto. O deslocamento da realidade se dá pelo modo como o doutor atravessa as distâncias para chegar às naves e com o ambiente onírico que se apresenta dentro delas. Tomadas as devidas proporções, me lembrou da ambiência do primeiro conto de Ray Bradbury em O Homem Ilustrado, em que as crianças arrumam um jeitinho nada convencional de usar seu quarto holográfico para vencer uma disputa com os pais.
Há também uma beleza visual, uma poesia que não afoga a narrativa. Um cuidado com as palavras que me agrada bastante no uso de sombras, cubos de gás verdes e bolhas de sabão.

“Pegou o objeto da mão do visitante. Era um cubo pequeno e pesado, feito de vapor verde. O gás estava todo contido no interior, mas não havia seis paredes sólidas impedindo que vazasse. Huno percebeu isso ao enfiar o dedo em uma das faces, por mera curiosidade. O dedo atravessou sem resistência alguma”.

Ivan Hegenberg participa com Esquizóide, conto excelente que anuncia nas primeiras linhas sua proposta “Já não sei dizer. Se sou real. Ou um personagem de ficção”. É um conto que brinca com a estrutura narrativa sem derrubar o leitor no meio da viagem. Um conto que fala do turbilhão de informações que nos atropela, de como nossa relação com a memória se reflete na formação de identidade.

O narrador não sabe quem é. Para descobrir, começa a revisitar o turbilhão de imagens e sensações que lhe vêm em mente. Borges, Beatles, Bart Simpson, burca, traficantes. Conforme repassa seu arquivo de lembranças, o personagem passa a duvidar de si mesmo, a achar que aquilo não pode ser representativo da realidade tamanho o seu grau de fantasia. Sem decodificar essa realidade fantástica, assume-se como um personagem criado, mas sendo um personagem metalingüístico, ciente de sua condição de personagem, continua sem se entender levantando hipóteses até o fim. Muito bem escrito. Bom encerramento da revista.

“Muitos dados, muitas informações, e não sei de onde vêm. Como se eu estivesse cego, por mais que as imagens cheguem nítidas. Síndrome de Charles Bennett? É uma das possibilidades. Os olhos estão mortos, mas o cérebro ainda sabe ver. E alucina”.

Marco Antônio de Araújo participa com quatro contos. Seu descolamento do cotidiano se dá com o estranhamento. Ao contrário de Causo, a brincadeira aqui se dá com o uso de palavras costumeiras em situações nem tanto. O que mais gostei foi Tempo Virtual, mate real por enfiar elementos de religião na ficção-científica, com direito a terroristas e estanques de fluxo temporal, e também pela nossa postura cada vez mais artificial em encontros sociais. Lá pelas tantas, me peguei numa viagem particular adaptando os santos de hoje, as estátuas que chamamos de imagens, para hologramas, imagens na essência da palavra. Uma fé futurista ainda menos palpável.

“Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção, disparou a tomar providências. Tratavam-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos de etiqueta, protocolos de natureza diplomática”.

Brontops participa com três textos muito bons. Os três tratam de um futuro presente e são muito bem escritos, sem tropeços de ritmo. Em matéria de humor, é o destaque da Stalker com Buraco no céu, que comento aqui. O conto narra um contato com um alienígena que chegou por nossas terras. A questão inevitável é “quem será eleito como representante do planeta para tratar da rendição?”, no melhor estilo Marte Ataca. E aí, nesse choque, na hora de ver quem é quem, o narrador repensa Chuck Norris, Carla Perez, Bono Vox, Bush e outros nomes e situações que entregam nosso atual estágio de evolução, digamos assim. A piadinha do final é a cereja do bolo, no melhor esquema “seria cômico se não fosse trágico”.

“Dessa forma, há uma breve confusão para saber quem irá se render em nome da humanidade. Uns sugerem o papa, outros o Nobel da Paz, e aqueles que ainda se lembram ventilam o nome de Bono Vox”.

Para fechar, um conto que não decidi se gostei ou não no fim das contas. O conto Gigantes, de Mayrant Gallo, narra a história de um casal que encontrou uma pessoinha no jardim e a engaiolou. Um ser humano em miniatura. A história se desenvolve expondo as reações e decisões do casal diante daquele ser. É claro que humanos não prestam e não o tratam bem. Gosto do tom de fábula moderna, mas me incomoda a questão da moral, como comentei no começo dessa resenha. Além disso, o homenzinho demora a aparecer, deixando a primeira parte um tanto centrada na questão “a mulher manda, o homem enlouquece”.

“Davi voltou a percorrer toda a casa em direção aos fundos. Se o vento castigava ali na frente, não iria enfrentá-lo. Sairia por trás e, contornando a casa, alcançaria o jardim. Não só evitaria o vento, como chegaria bem mais rápido”.

Tenho voltado meus olhos para a literatura dita infantil e infanto-juvenil para entender melhor o mercado, estudar as diferenças de linguagem, indo de Goosebumps e Lygia Bojunga ao onipresente Harry Potter. Quem lê as resenhas aqui do Aguarrás deve conhecer a minha posição quanto aos ensinamentos e à moral dentro de uma história infanto-juvenil. Enalteço Alice por ser um texto que vira para o lado oposto e minimiza as pregações do que é bom ou ruim ao utilizar o nonsense. Me vem em mente a cena do julgamento de Alice, em que o Rei muda de opinião a cada linha e nunca sabe bem o que quer dizer. Não se trata de anular o herói. Não há dúvidas de que Alice seja uma heroína, ela resgata bebês, mesmo que esses virem porquinhos na cena seguinte. Mas é preciso brincar com as coisas, relaxar o arcabouço dos arquétipos. A Fantástica Fábrica de Chocolate dá o tom do que quero dizer. Antes do início da história, Roald Dahl apresenta os personagens da seguinte forma:

“Nesse livro aparecem cinco crianças: Augusto Glupe, o menino guloso; Veroca Sal, a menina mimada; Violeta Chataclete, a menina que masca chiclete o tempo todo; Miguel Tevel, o menino que só vê televisão; e Charlie Bucket, o herói”.

Charlie não precisa de coração puro ou alma caridosa. Ao ser anunciado como o herói, a descrição de seus adversários passa a ser vista como brincadeira. Não me interessa mais nada em Violeta, ela masca chiclete o tempo inteiro e você conhece bem esse tipo de pessoa, hum?

Fiz essa repescagem de idéias para deixar clara a minha leitura de Farei Meu Destino, de Miguel Carqueija. O que guiou minha opinião.

Farei meu destinoPrimeiro o que gostei:
Já na dedicatória, Carqueija comenta quem serviu de inspiração: Walt Disney, Naoko Takeushi e Charles Sheffield. Assumir referências e o diálogo com o entorno é coisa que falta a muitos autores de literatura fantástica, todos fazendo clássicos definitivos e reinventando a roda. Então, ponto positivo. De Walt Disney, por exemplo, vem uma entidade que aparece no espelho (que não é espelho meu). Elementos rearranjados dentro da mitologia dinâmica que o autor criou. Saber as referências até torna a leitura mais interessante, num jogo para decifrá-las.

A fluência do texto também é boa, e o autor demonstra conhecer a idade de seu público. Quanto à estrutura narrativa, Farei meu destino é livro de se ler rapidinho, com cenas de ação e pitadas de humor bem distribuídas. Fala o suficiente para apresentar a cena ao leitor e não sobrecarrega de informações ou descrições visuais, deixando espaço para a imaginação, o que é típico de um livro infanto-juvenil.

A heroína começa bem, corajosa. Queima quem tem que queimar, mata quem tem que matar, vira a mesa quando precisa. Faz isso contra vilões declarados, é claro, um bando de tarados, uma freira demoníaca e um suposto estuprador, mas não anula o fato de não ter medo das soluções que envolvem violência (não gratuita). Seu melhor momento é a piadinha sobre óleo de rícino no final.

“Quando recordo aqueles dias, reflito muito nas circunstâncias que convergiram aquelas meninas para junto de mim, uma a uma, até formar aquele grupo sólido e de total lealdade mútua”.

“Embora elas não o pegassem à força, rodeavam-no de tal maneira que ele se sentia prisioneiro. Sandy tinha quinze anos, não poderia lutar contra seis garotas adolescentes. Também nunca se vira rodeada por tantas, e tão charmosas (…)”.

O que não gostei:
Esse é quase um detalhe, mas vale o comentário. Diana, a protagonista, tem um amor durante a história. Mas é um amor muito rápido, um amor que já estava lá e um amor que estará lá, ele não é um amor de tempo presente, então o leitor não consegue torcer por ele, apesar da simpatia dos personagens envolvidos.

Agora o ponto-chave: a religião.
Não é de hoje que religião e literatura fantástica se misturam. Lilith Saintcrow faz isso na série de Jill Kismet, uma caçadora de demônios. Lilith tira a mitologia do preto no branco com sutilezas. A igreja não apoiar os caçadores e dizer que eles irão todos para o inferno junto com os demônios é um dos artifícios. Thomas E. Sniegoski vai bem mais fundo na brincadeira e usa e abusa da mitologia católica. O detetive é um anjo com um cachorro labrador que trabalha de freelancer. Num conto, ele é contratado por anjos caídos para desvendar o assassinato de Noé, numa plataforma de petróleo.

Carqueija também faz sua mistura. Há um toque mágico de pedras da luz, um papel importante da Lua, tobogã voador, bastões mágicos, mundo dos sonhos, dirigível capaz de sair da atmosfera terrestre, coisas que curti consideravelmente, mas tudo isso sucumbe diante da religião. A mitologia funciona direito, é divertida, mas quando a religião entra em cena ela se destaca demais. Não sei a religião do autor, mas me pareceu uma escolha consciente. O livro abre, inclusive, citando um salmo: “Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pomba”. E com isso vem toda uma distribuição de peças: a do bem associado a estar ao lado de deus e a do mal dos ricos, o mal demoníaco que anula a força do mal humano. Insisto que me parece uma cartada narrativa consciente, que não passou da medida por acidente. Foi planejada para ser assim. O problema é que nisso se perde um público, pois a história passa a ser direcionada a quem curte princípios cristãos como eixo moral, que não é o meu caso.

“A Rainha da Serenidade preferiu zelar por todas, do Céu; mas vocês ainda devem permanecer no universo material, protegê-lo contra o Mal”.

“Neste sistema, a revelação de Jesus Cristo forneceu à humanidade as armas espirituais para barrar o caminho do inimigo íntimo, secreto, que vence pela tentação, pela perversão dos espíritos”.

Fui pego de surpresa, pois o livro começa com um tobogã voador, um castelo que abriga antigos segredos e poderes, e de repente a religião vai tomando conta. Faltou à capa, orelha ou contracapa dar uma dica do conteúdo do livro. Elas citam uma aventura fantástica e falam de mangás e animes como referências de trabalho recente do autor, sem dar pista do tom religioso que, ao meu ver, faz a diferença.

Não anula o fato de ser um livro bem escrito, mas isso poderia ficar mais claro.

Seguindo a linha dos escritores africanos que procuram de alguma forma semear reflexões sobre as guerras coloniais e seus efeitos nas sociedades contemporêneas, Mia Couto, moçambicano cuja produção ficcional contempla sete romances até o momento, vem afinando sua escrita e sua criatividade ao publicar, com uma periodicidade incrível, novas produções, entre poesias, romances, crônicas e contos.

Antes de Nascer o Mundo, de Mia CoutoSeu último romance, Antes de Nascer o Mundo (2009), publicado pela Companhia das Letras, mantém algumas das características que acompanham sua escrita há algum tempo como, por exemplo, a sugestividade dos nomes dos personagens, que nunca são apenas nomes, mas sim parte da personalidade, da história passada e do futuro dos mesmos (p.e. Dulcineusa, de Um Rio chamado tempo, uma casa chamada terra, Bartolomeu Sozinho, de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, e Dordalma, de Antes de Nascer o Mundo).

Por outro lado, outros elementos, que oferecem novos ares a escrita de Mia Couto, podem ser ressaltados nesse novo romance. A densidade poética conquistada pelo autor, bem como o aprofundamento do tema abordado, conferem ao texto mais que um simples encontro da atualidade com o passado histórico. Num tom suave, como quem recita uma poesia, o autor abrange assuntos tais como a violência contra as mulheres, as quais dedica um capítulo inteiro (“Os papéis da mulher”), e o impacto sofrido com a chegada da globalização num país desestruturado como Moçambique. Num tom crítico, mas poético e carregado de ironia (“Quem sabe os estrangeiros privados são os novos deuses?”), suas palavras oferecem às questões mais sérias e violentas a suavidade e a harmonia necessárias para denunciar uma série de situações intensas sem, no entanto, ter como resultado algo como um texto jornalístico, documental, objetivo e seco. É interessante destacar que cada capítulo é iniciado com um poema-epígrafe, na grande maioria das vezes de autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen e Hilda Hilst, que funcionam como uma introdução ao que está por vir, como uma espécie de mote, a que se seguem as estrofes.

Em Antes de Nascer o Mundo, passado e presente – tempos indissociáveis – se refletem nas feridas ainda abertas deixadas pelo passado colonial e nos inúmeros problemas sociais enfrentados pelo país. O futuro é um tempo ausente, uma vez que as elucubrações voltam-se para a dissolução de uma série de conflitos internos que caracterizam o passado dos personagens, todos fechados em si mesmos, isolados do mundo e da vida, e assim definidos: “Neste mundo existem os vivos e os mortos. E existimos nós, os que não temos viagem.” (p.54)

Existe vida inteligente na Transilvânia após Crepúsculo? É só saber procurar.

A coletânea Território V (Editora Terracota) foi organizada pelo escritor Kizzy Ysatis, autor de Diário de Sibila Rubra e Clube dos Imortais, que ganhou o prêmio Rachel de Queiróz. Um autor de literatura fantástica premiado pela UBE – União Brasileira dos Escritores – pode espantar os que ainda julgam a relevância do texto pelo tema e não pelo talento do escritor. Como diz Javier Marías, é mais fácil ser respeitado pelo drama do que pelo humor. O fato é que as fronteiras entre gêneros estão sumindo, e aquela tendência natural da literatura brasileira de se alimentar do realismo, do pó de barro do nordeste e da miséria das cidades, está encontrando um ponto de equilíbrio com magos, zumbis e vampiros de sotaque brasileiro.

Território VDe acordo com a orelha, a proposta de Território V era justificar a solidão dos vampiros, brincar com a idéia de que um vampiro não se dá bem nem com ele mesmo (“alcatéia é para os lobos”), o que foi usado de maneira bem diversa pelos participantes. Geralmente em coletâneas você sempre se pergunta se alguns contos foram realmente lidos, de tão ruins. Não é o caso aqui. Os textos estão bem nivelados, sem nenhum ponto gritante fora da curva. Claro que há altos e baixos, isso acontece em coletâneas de um só autor o que dirá de vários. Mas mesmo quando a história não conseguiu me envolver ou descambou para o óbvio, o texto se mostrou bem estruturado, com um trabalho real de edição.

Ao todo são vinte contos, mais o prefácio de Giulia Moon. Resolvi falar de dez deles, os que mais me chamaram atenção e os que quase chegaram lá.

Antes do final, de Octavio Cariello, é fácil um dos meus preferidos. Captou o clima de diversão e reinvenção da proposta e, de quebra, se alimentou de uma atmosfera pós-apocalíptica que me lembrou Laranja Mecânica do Burgess. Uma distopia vampiresca, ó, meus irmãozinhos. Não tem um Alex espancando velhinhas, mas tem um cara que pisa em gatinhos e é, de certo modo, o mocinho da história. A premissa é simples: vampiros se alimentam de humanos. Em pouco tempo, há mais vampiros do que humanos. O alimento passa a ser escasso e humanos são criados como gado, levando a uma guerra por sangue. O ponto central são os vampiros, mas há breves momentos que falam da apatia humana, aquele ar bovino do ser encarcerado. Texto bem escrito, do que tipo que se lê de uma vez só. Merecia ter o dobro do tamanho. O Cariello também é o responsável pela capa.

“Eu falei pros caras que os humanos tavam precisando de sol e ar fresco, mas ninguém levou a sério. Como é que um bando de vampiros poderia arranjar banho de sol praqueles prisioneiros?”

Torniquete, de Douglas MCT, tem como atrativo a fluência da fantasia. Um algo mais que não vem das palavras, mas do jeito que a história é contada. Tinha lido antes de ser selecionado e desde então curtido a proposta. O Douglas não se prende a nenhum estereótipo de vampiro e também não faz um esforço descomunal para confrontá-lo, o que é bom. A história se passa em um orfanato, e o protagonista é um menino albino que sempre ouve um barulho estranho de noite e um dia resolve investigá-lo, dando de cara com uma situação inusitada entre uma menininha vampiresca e o padre que dirige o orfanato. Não, não é abuso e pedofilia. Só senti falta de um pouco mais de mistério sobre o padre, que ficou explicado demais. Mas é, sem dúvida, um trio interessante de personagens. Fica a sugestão para o autor apostar mais em histórias curtas nesse estilo.

“Como podia vê-la tão bem no escuro? A pele dela, tão branca quanto a sua, refletia a luz. Ele se espantou com aquilo. A curiosa pessoinha do pátio era extremamente parecida consigo. Então se reconfortou brevemente”.

O Amor é uma Necrópsia, de Fábio Fabrício Fabretti, é um texto biliar, especialidade do autor. É do tipo que revira o estômago e joga qualquer aura de charme vampiresco no valão. É fácil aqui identificar um estilo, um trabalho mais cuidadoso com as frases para que elas funcionem sozinhas, destacadas. Não é um texto de terror, porque não tem compromisso com o medo, mas tem a atmosfera pesada do gênero. O vampiro protagonista mora em uma gaveta do necrotério e, quando está sozinho, desenvolve uma relação de amor necrofágico com os cadáveres, um sentimento sublime que deixaria a Stephenie Meyer sem comer durante uma semana. Me lembrei dos meus tempos de farmacêutico, não pela necrofagia, mas pelo cheiro de formaldeído no ar. A única ressalva fica por conta dos antepostos adjetivos que o Fábio gosta de usar e que me incomodam durante a leitura.

“A princípio pouco sabia deles, conservados com uma substância rotulada de formaldeído líquido, um poderoso carcinogênico letal aos vivos, mas balsâmico aos mortos. Cada corpo trazia em si uma história velada. (…) Bocas em forma de fendas mudas”.

Cajita de Cigarrillos, de Kizzy Ysatis, é outro bom momento. Nunca tinha lido nada do autor e a curiosidade sempre eleva a expectativa. Ele tem um texto que flui naturalmente, que encontra ritmo na sonoridade das palavras de um jeito inconsciente. Se pensarmos no tema do livro, esse é o conto mais diferentão. É um conto metafísico no modo de expor sentimentos e o efeito das escolhas do autor e dos personagens. Como foi o Kizzy que pensou na proposta do “ser solitário” para a coletânea, natural que a cumprisse ao pé da letra. O conto se alimenta de uma relação de desejo e desprezo entre dois garotos, moleques, um o fodão da turma, o outro um gordinho louco para fazer parte dela. Numa festa, depois de um briga, sentam em roda para contar histórias de terror, os dois no centro em uma disputa, e o que acontece leva a uma situação sangrenta de doação, a resolução física da metafísica. Ponto forte: saber que o leitor é capaz de completar lacunas e trabalhar com isso.

“Eu sou o Victor e sou um saco de pancadas. (…) Queria estar lá brincando com a turma. Sinto inveja. Queria ser como eles; queria ter eles pra mim. Me desprezam mas eu amo eles. Não me conhecem e nem querem me conhecer. Queria mostrar que posso fazer parte da turma”.

Irresistível, de Flávia Muniz, traz uma mistura delicada de lirismo e drama. É um texto que lida com a memória, com os fragmentos que sobrevivem na mente de um vampiro depois de séculos de existência. Explora a capacidade de palavras simples, pequenas agulhadas, despertarem um turbilhão de significados. A protagonista, mais que imagem, é pele, é cheiro. Como dito no próprio texto, ela é volúpia. E graças a manha de flexibilizar o dramático para incorporar o lírico, a Flávia construiu um conto extremamente sensorial, com uma vampira de sentimentos borbulhantes. A história fala que, depois de muito viver, ela encontrou e perdeu o amor. Um amor que vem do outro e também de si. Foi um dos poucos contos a me passar a sensação de atemporalidade. Impecável nesse aspecto.

“Também houvera calor do fogo das lareiras. Ah, que atrevidos! Taças borbulhantes, vinhos cor de sangue, peles nuas, águas perfumadas, bocas ardentes e incontáveis beijos apaixonados sob a lua de mil faces”.

As Vampiras de Kenshin, de Giulia Moon, é um conto divertidíssimo. Conheço a Giulia pessoalmente então cheguei a ouvir sua voz durante a leitura, um audioconto imaginado, o que fala muito da identidade de um autor. A protagonista é Negra Luiza, que de escrava virou uma agente vampiresca, dessas que trabalham em serviços sujos que os humanos não são capazes de lidar (sem ferrar com tudo). Sua missão é resgatar Kenshin, um astro de rock japonês que veio para o Brasil se apresentar no Morumbi e foi sequestrado, possivelmente por fãs histéricas. Mesmo no tempo curto do conto, Giulia consegue fazer a ambientação e apresentar detalhes de sua mitologia pop e underground. Ela lida com elementos contemporâneos como redes sociais e fãs que desmaiam diante dos ídolos (eu sei, desde Elvis e Beatles, mas você entendeu) e lutas para Tarantino nenhum botar defeito. A virada de trama no final vale o texto inteiro. Humor, seja bem-vindo.

“Continuando a minha busca, fui parar numa pequena comunidade do Orkut chamada As Vampiras de Kenshin. Notei que a palavra ‘marbrekots’ constava na descrição do grupo, um código que nós,
vampiros, usamos para nos identificarmos uns aos outros”.

Zugzwang, de Claudio Brites, é um conto que me surpreendeu, me pegou pelo pé. No início eu não dava nada pelo texto. Se soubesse o que significa o título antes de começá-lo, leria com outras expectativas. Mas não sabia. Então lá estavam vampiros jogando xadrez, envoltos em fumaça de cigarro. Enxerguei aí dois símbolos que são armadilhas, desgastados de todas as maneiras possíveis no cinema e na literatura. Mas logo em seguida, o Claudio começa a flertar com a suspensão do tempo, e nisso, o texto escapa de ter o xadrez como mera metáfora do confronto. Interessa mais a espera infinita por um movimento que o jogador não quer fazer. E nesse tempo elástico, na infinitude das decisões, surgem diversas brincadeirinhas com o ambiente literário, deliciosas pra quem é do meio. Na história, um dos vampiros, escritor, saca seu original para mostrar ao fumante. O escritor demorou anos para concluí-lo, o fumante, agora crítico, demorará anos para dar sua opinião. É uma tortura, um jogo de impasses, com direito a alfinetada na vaidade de quem cria. Um dos melhores finais do livro. De sugestão, lembrar que é preciso escolher uma um norte ao brincar com o lirismo das frases, um recorte imaginário que defina de onde virão as palavras.

“A sala vazia fica viva com um morto a menos. Mesmo permanecendo na sala o fumante mergulha no livro o pouco que existe de sua presença. (…) O cigarro volta a iluminar todo o ambiente. O som do livro caindo no colo do escritor o faz entender o despertar do fumante”.

Esplendor, de Juliano Sasseron, entra na lista por flertar com miséria e religião, com breve menção à Faixa de Gaza. O autor, mineiro, não deve saber, mas há uma região do Rio de Janeiro que recebeu esse apelido carinhoso também. O parágrafo introdutório é explicadinho demais ao apresentar o personagem. Depois, o texto evolui para a crítica social e ganha ao incorporar metáforas. Há o garoto temeroso pedindo dinheiro no sinal, a banheira cheia de ratos (quase um Cazuza) e um par de insetos espalhados. Há baratas que resistem a bombas biológicas, gafanhotos destruindo plantações e uma vespa zumbindo no ouvido como a voz da consciência, a que mais funcionou a meu ver. Políticos e religiosos vampiros? Parece ser esse o clima. Boa escolha de tema, só faltou burilar um pouco mais as palavras e lembrar que as metáforas ganham um sabor extra quando se brinca com as entrelinhas.

“Estas duas seitas sempre foram inimigas, guerreiam pelos motivos mais banais. Assim, os gafanhotos voltam a existir. Ninguém se lembraria deles se não fosse a guerra, pois, com tantos agrotóxicos no mercado, esse mal não conseguiria mais causar dano em uma lavoura”.

Anjo da Guarda, de Camilo Vannuchi, é um exemplo de texto direto, com boa fluência. O autor teve a idéia inusitada de levar os vampiros para um sertão romântico, terra de comadres, imerso naquela rotina do ninguém chega ninguém passa. O conto é narrado pela dona de um armazém. Sozinha, recebe toda noite a visita de um homem bonito, que a faz sentir especial de um modo que não entende direito, talvez por não conseguir decifrar seu objeto de platonismo. Um dia, seu pedaço de homem enfrenta um inimigo ali na sua frente, deixando-a aterrorizada. É um texto que vejo fácil adaptado para o teatro infantil (sem demérito nisso), tanto pelo cenário e figurino, quanto pelos personagens e gestual. O ponto positivo foi ser comedido, não colocar a mão onde, talvez, não alcançaria. Só ficou faltando um momento de “uau”, uma cena que marcasse com mais força o clímax.

“Não sou mulher de puxar prosa com cliente, você sabe. Aprendi que dar trela pra freguês é abrir caminho para falatório. Ainda mais neste fim de mundo, nesta vila avexada de uma rua só, encruada na margem esquerda do Velho Chico”.

A cor da lágrima, de Lizy Tequila, fecha a lista por ser um texto redondinho. A narrativa é simples, mas de frases bem trabalhadas. É um texto fácil de se ler, em que os parágrafos rendem na medida. A crítica é o tema da história: o vampiro arrependido. Além de não gostar de sua condição de vampiro, Thiago é um nômade solitário que passeia de velório em velório para esquecer sua própria dor existencial. Não bastasse isso, precisa lidar com o velho dilema de ver os entes queridos morrendo enquanto ele perdura. Lembra um pouco o problema de filmes gays em geral. Não basta ser gay, tem que sofrer preconceito, ter um amigo com AIDS, não ser aceito pela família, brigar com o melhor amigo e, se possível, lutar para adotar uma criança. Tudo em uma hora e meia. Se a Lizy tivesse mirado num drama só, o que é realmente relevante para o final da história, e tivesse aliviado a consciência do Thiago nos demais, o conto teria crescido em densidade psicológica. Ainda assim, é alguém que tenho curiosidade de ler mais textos no futuro.
“Ajoelhado, Thiago chorou angustiado. Um choro de desespero e súplica. A culpa o punia uma vez mais por ser o que era, e a culpa lhe era muito pesada. A aflição por ainda possuir parte da memória humana o impedia de ser como os outros, que caçavam (…)”.

Também participam Raphael Draccon, Cid Vale Ferreira, Luis Eduardo Matta, Marcelo Maluf, Isabella Lemgruber, Solone de Arruda, Isaac Moraes, Sidemar de Castro, Israel Teles e Chris Sevla.

Território V
Editoria Terracota
155 páginas

A Internet qualquer dia vira peça de museu e tem gente que ainda não sabe usar. A situação se complica quando gente é substituído por empresas da área cultural e de entretenimento. É possível sobreviver sem evoluir? A teoria de Darwin também vale para o mercado? A resposta é tão óbvia que me assusto por o país que mais passa tempo conectado não explorar as mídias da Web de maneira decente (procure os portais de seus canais de televisão prediletos e pense sobre o assunto).

A primeira grande mudança, hoje em dia, já é assunto de aula de história. Quando a mp3 derrubou o CD e as gravadoras, havia a desculpa de ser pego desprevenido pela novidade que não veio de cima da pirâmide, mas da base de consumo. A resistência das gravadoras foi de uma estupidez sem tamanho e os resultados não foram dos melhores. Correr atrás do prejuízo ao invés de correr na frente das tendências ainda parece o modelo vigente. No Brasil, não existem bons sites de venda de mp3. A maioria vende wma que vem em qualidade mediana (160kbps, quando deveria vir em 320kbps) e com proteção irritante que acaba com a mobilidade. Nosso país de ares ciberpunks tem como maior canal de vendas o celular.

Aí veio a segunda onda com os vídeos. Diferente dos primos da área de áudio, os distribuidores de vídeo parecem estar se mexendo. Há a proposta de pagar uma mensalidade equivalente à TV por assinatura e baixar o conteúdo on demand, episódios liberados primeiro na Internet e depois na TV, um esforço tímido para munir de novos artifícios os portais dos canais que deve ganhar força nos próximos anos. Também temos locadoras que permitem streaming, evoluções do Youtube e outras ferramentas mais que ajudam na renovação. Sem falar no Blu-ray e no cinema 3D, do lado físico, mas que valem outro texto.

Um movimento natural é que o mesmo processo de virtualização ocorra com os livros, e o papel ceda lugar ao e-book. Sempre achei que o mercado literário tenderia a agir com flexibilidade, aprendendo com os erros dos antecessores, mas alguns pensamentos congelados no tempo e no espaço mostram que editoras podem tomar uma rasteira muito parecida com a que vitimou as gravadoras, munindo-se de mitos ao invés de dados práticos.
Antes de qualquer coisa, é preciso definir o e-book, mesmo que usando um conceito que já nasceu ultrapassado. O e-book, ou livro eletrônico, é uma versão em arquivo do texto lido em papel. Um dos arquivos mais usados é o pdf. Você baixa para o seu computador ou aparelho e lê o texto. Tem quem use até mesmo o celular, sem muitos traumas.
O mercado de e-books ainda é inexpressivo no mundo inteiro, o que não está impedindo as editoras internacionais de pensarem no assunto e começarem seus testes, diferentemente das editoras nacionais, que preferem ignorá-lo.

Por que fazem isso? Também gostaria de saber. Dois argumentos que tenho escutado:

O argumento número 1: ler na tela é incômodo e nada substitui o papel.
A pergunta é: até quando? Não podemos esquecer que nascemos lendo no papel e migramos para a tela. As gerações seguintes já têm o mesmo contato com a tela e com o papel desde cedo, alguns passando mais tempo em frente ao computador do que com um livro ou mesmo vendo televisão. Outra: de que tela estamos falando? O monitor quadradão cede espaço para notebooks e monitores LCD cada vez mais confortáveis aos olhos. O conforto de leitura tem sido a essência da pesquisa de aparelhos portáteis. Serão esses dois argumentos suficientes para frear a demanda?

O argumento número 2: o público que baixa livros eletrônicos (de graça, livros piratas) não é o mesmo público que compra. Quem gosta do livro, compra de qualquer jeito. Quem baixa é porque não teria dinheiro para comprar.
Se no argumento 1 há um saudosismo sinestésico antecipado (que as novas gerações não sentirão), no 2 há a estagnação e a vontade de repetir o que aconteceu com os CDs. Nem sei quantas vezes li e ouvi exatamente esses mesmos argumentos quando pouca gente sabia o que era Napster. Quem gosta mesmo do cantor vai comprar o cd. Quem gosta mesmo de música não aguentará a baixa qualidade da mp3. Você baixa para conhecer e depois vai até a loja e compra. Claro que a indústria fonográfica cometeu outros erros que se somaram ao vendaval eletrônico. A mp3 por si só poderia ter sido a via de transição e acabou abalando estruturas porque não souberam lidar com ela.

É provável que muita gente que baixe livros eletrônicos não os leia e os deixe guardados no HD como mais uma de suas coleções. Por outro lado, é inocência pensar que leitores tradicionais não lêem no computador. Pessoas antenadas com o mercado global, consomem e-books com gosto para se atualizar. O estigma do e-book como veículo de autor fracassado é conversa de dinossauro. Alguém tem prestado atenção no que está acontecendo com os jornais do mundo inteiro (o Brasil sendo a exceção, curiosamente)? Quem gosta de ler jornal está lendo na Internet ou está comprando o papel nas bancas? As novas gerações efetivamente lêem jornais ou só blogs e portais como Terra e UOL? O maior público potencial de um e-book é aquele que lê o livro em papel (e vice-versa). Haverá quem só leia um e outro, mas esses grupos não são necessariamente excludentes.

Outra limitação, real e transitória, é a portabilidade. Ler no computador nos deixa parados em frente à tela, preso a um único local. Mas o livro precisa sair de lá, precisa ir até a cama, enfrentar o metrô lotado, nos acompanhar nos congestionamentos, na cadeira da sala e na mesa de reuniões. Para isso, são necessários aparelhos portáteis que leiam os e-books e tenham um mínimo de atratividade (um algo mais, além da praticidade) para o consumidor. Os fabricantes dos leitores também são os distribuidores, verdadeiros atravessadores de mercadoria, ficando com percentagem das vendas. Para quem não sabe, boa parte do preço de um livro fica com a distribuidora e com a livraria, a menor percentagem indo para a editora e para o autor. Na Wikipédia é possível obter uma lista de leitores de e-book disponíveis no mercado, ficando evidente o destaque para os aparelhos da Sony e da Amazon (o famosinho Kindle). Por enquanto, são poucos os produtos no mercado, o que não ajuda com o preço, ainda salgado, por mais que a economia no longo prazo se justifique.

A promessa é que a Apple lançará em breve um concorrente, e ele não sacudirá o mercado somente pelo preço ou por ter o apelo característico de produtos Apple, mas por entender todo o potencial que o e-book tem a oferecer.
Eu disse anteriormente que o e-book em pdf (ou texto puro) é um conceito ultrapassado. Vejo-o como uma versão preguiçosa do livro, uma visão que reduz ao invés de ampliar. Uma das armas com maior poder de fogo em um livro exposto em livraria é a capa. Quem nunca se aproximou de um livro pela capa que atire a primeira pedra. Os leitores de e-book atuais só possuem visualização em preto e branco, no muito com tons de cinza de bônus, o que acaba com o apelo.

A Apple, aparentemente, entende que o público do futuro curte vídeos online, música on demand e jogos visualmente arrebatadores com narrativas que competem de igual para igual com as demais mídias. Seu leitor de e-book, apelidado de iBook, na verdade seria um aparelho multifuncional, capaz de exibir vídeos e tocar música, abrindo diversas possibilidades para a próxima geração de livros eletrônicos, a que efetivamente fará sucesso.

Eu explico.

As capas:
Imagine o livro Senhor dos Anéis. Vamos dizer que ao invés de pegar seu livro na estante ou abrir um arquivo de texto, você clique em um executável. A primeira diferença seria a capa. Nada de imagem estática ou um rabisco em preto e branco. A capa seria uma animação, imagem em movimento. Você, colecionador, poderia escolher diferentes capas, a animação que mais te atrai, na hora de comprar.

Fluidez:
Sem cair na poluição visual que dominou a primeira leva de Web sites (se lembra daquela gif animada horrível? pois é), as páginas de texto também poderiam ter um algo mais. Pequenos floreios que contam pontos no acabamento e que no e-book poderiam ser animados ou simplesmente variados de um conto para outro, complementando a ambientação. O autor de sucesso seria aquele que visse além de sua história. Um exemplo que me vem em mente seria o de um livro infantil: um dos personagens ajuda o leitor a virar a página ou pula de uma página para outra enquanto segue a história, em vez de simplesmente estar lá.

Entreatos:
Voltando ao Senhor dos Anéis. Quem tem algum contato com jogos conhece bem as animações entre uma fase e outra, com pequenas narrativas que envolvem até atores reais (elemento do clássico Command and conquer). O mesmo poderia ocorrem em momentos importantes de um livro, na virada de um capítulo para outro que valha o simbolismo. O personagem teria voz? Por que não?

Cenas especiais integradas ao texto:
O leitor poderia visitar a cena do crime de um livro policial, ver o registro policial, a ficha de um criminoso, ter acesso ao laudo do legista, ver o corpo estendido no meio da estrada e outras brincadeiras. Cabem aqui fotos, ilustrações, montagens 3D, etc.

Preço da impressão:
Não ter que se desesperar ao incluir ilustrações em um livro, pensando em quanto o preço ficará depois da gráfica. Você pode dizer que preparar esse material todo também custa caro, e eu concordo. JK Rowling e eu não teríamos recursos equivalentes disponíveis, mas saiba que papel e gráficas também não custam barato, pode ter certeza. Cada produto com seu público.

Revisão:
Saiu a primeira versão. Passou pelo escritor, revisor e editor, mas ainda assim há um “Inesplicável” enorme no título do primeiro capítulo e um erro de diagramação no segundo. Basta distribuir uma correção, um patch, da mesma forma que é feito para softwares e sistemas operacionais atualmente. Eletronicamente, o livro passa a ser dinâmico e não mais se aprisiona ao que está impresso.

Dados adicionais:
Quer saber quantas versões o livro já teve? Em que países já foi publicado? Em qual deles fez mais sucesso? Quem adaptou a história para o cinema? As editoras ou distribuidores podem montar seus bancos de dados, numa espécie de Wikipedia, alimentando o leitor com informações.

Materiais extras:
Seu livro pode vir com entrevistas em vídeo do autor, exclusivas da editora ou de determinado distribuidor. O autor ganha um rosto, passa um pouco de seu processo criativo ao trabalhar no texto, aumenta o contato com o seu leitor. Uma editora poderia, por exemplo, através do aparelho, pedir que leitores enviassem perguntas para serem respondidas em breve pelo autor. Poderiam enviar somente para aqueles que tivessem comprado títulos do fulano de tal.

Trilha sonora:
Campanhas conjuntas poderiam vincular música ao texto. Nada que tocasse durante a leitura, atrapalhando. Mas imagine se o personagem é vidrado em uma música do The Doors e a cantarola em uma das cenas. No final, você teria a faixa disponível. Num momento seguinte, faixas e livros poderiam ser distribuídos juntos, de modo que complementassem sua identidade. Um livro pro público jovem que viesse com músicas da banda do momento. E até mesmo uma trilha sonora feita especialmente para o livro? Espere e ouvirá.

Edição comemorativa:
O bom é que tudo pode mudar de uma edição para outra. Os materiais podem ser disponibilizados em um pacote completo, e novos materiais adicionados mais tarde para aquecer as vendas ou comemorar uma nova tiragem. Com o material sendo baixado diretamente no aparelho ou visualizado no site da editora. Já pensou, no aniversário do autor ou de publicação de um livro, receber um conto inédito?

Opções personalizáveis:
O leitor teria a possibilidade de ativar ou desativar qualquer um dos materiais bônus. Cansou das animações entre capítulos? É só desligar. As folhas caindo da árvore no canto da página estão desconcentrando. É só desativar. Quer ver as animações em sequência depois da leitura? Basta clicar no menu.

Importação:
Nada mais de pagar frete caríssimo para conseguir um livro que não saiu no seu país. O acesso a livros em outros idiomas se tornaria muito mais fácil.

O lado negro da força:
Esse canal direto de comunicação pode crescer os olhos na hora de pingar um marketing aqui e ali. A Internet já deixou claro que marketing invasivo não é bem aceito e os novos modelos de propaganda devem estar mais desenvolvidos até o e-book se disseminar, ainda assim fica a observação. O outro lado, positivo, é a chance de concursos e empresas patrocinarem não a publicação, mas a distribuição, com o autor (e a editora, no doubt about it) ganhando um bônus em cima dos direitos autorais pelo uso da marca da empresa x ou y na página dos créditos, aquela que fala a edição, o nome do editor, do revisor, do ilustrador, etc.

Esse é um resumo de idéias que mostra a abertura permitida pelo novo modelo de e-book. As possibilidades são infinitas. Basta pensar no impacto do e-book nas escolas e metodologia de ensino para a lista triplicar de tamanho. A potencialidade existe, só falta a ação. Se o iBook se confirmar como uma ferramenta mais completa do que seus concorrentes capengas, a mudança tardará menos do que imaginamos. Ou alguém dúvida que o iPhone e o iTunes tiveram papel essencial na disseminação da mp3?

Como um último argumento, alguém pode dizer que a ilusão esvazia a imaginação. Nisso, peço que comparem o cinema mudo ao cinema contemporâneo. A resposta esta aí, basta olhar com carinho.

Para não dizer que as editoras daqui não se mexem, algumas já estão repensando seus portais para abrigar material multimídia. Pode ser um primeiro passo. Outro bom puxão no mercado será o novo livro do Dan Brown , que sairá com tiragem prevista de 6,5 milhões de exemplares, e também aposta no formato e-book, podendo agitar esse mercado que ainda responde por uma percentagem pequena das vendas. Mas a mp3 também começou assim, não foi? E veja aonde chegamos.

O outro foi publicado na cola do sucesso de O Leitor, livro de Berhnard Schlink adaptado para os cinemas com Kate Winslet oscarizada no papel principal. Em um texto curtinho que a diagramação faz render 95 páginas, Schlink conta em O outro a história de um homem que perdeu a esposa e precisa aprender a lidar com o vazio que ela deixou. Foi uma boa coincidência pegá-lo logo depois de Enquanto ele estava morto, de Estevão Ribeiro, já que os dois partem do mesmo ponto e seguem caminhos completamente diferentes. Ao tratar do sumiço de um irmão, Estevão repassa a própria vida a limpo. Já Schlink não está muito interessado na revisão de valores de seu protagonista, mas no modo pouco convencional, quase impessoal, que ele arruma para lidar com acontecimentos.

“Envergonhado, percebeu que tinha menos lembranças ainda de seu casamento e de sua família no ano de sua aposentadoria temporária. Sentira-se injustiçado, magoado, lambera suas feridas e esperara que o mundo, o Estado (…) vissem a injustiça cometida contra ele. (…) Lembrou-se de sua luta contra o barulho das crianças e de seus amigos. Aquela alegria ruidosa, para ele, era pouco-caso com a sua necessidade de tranquilidade”.

O outroEm um primeiro instante, Bengt tenta ocupar o espaço deixado pela esposa com pequenos afazeres tais como arrumar a casa e sair para caminhar. No entanto, a rotina da solidão vai se transformando em insatisfação auto-imposta, obrigando-o a inventar metas para seus prazeres. O passeio no parque vira uma caminhada até a árvore tal antes de voltar para casa.
Lisa, a mulher de Bengt, morreu de câncer. Cuidar dela era a sua rotina, sua certeza. Ele sabia que a qualquer momento ela estaria no quarto, deitada na cama. Agora, sem um olho no futuro, só resta o conforto do passado. E é aí que chega uma carta. A princípio ele pensa que é de algum amigo que não foi avisado da morte da esposa, mas não demora para Bengt descobrir que a carta é de um antigo amante de Lisa. Schlink foge do velho esquema de certezas que desmoronam de repente e trata o assunto de modo inusitado. Seu protagonista vê na carta um jeito de ocupar a vida e, como quem não quer nada, começa a responder no lugar da esposa, tentando arrancar informações sobre o caso. Ele não sabe o que é pior: pensar em Lisa sendo outra com o amante ou sendo ela mesma. Bengt vê o amante como alguém que veio tirar o pouco que lhe resta e é preciso derrotá-lo no presente para que seja derrotado também no passado, de modo a promover o retorno do conforto.
Depois de algumas trocas de correspondência, a tentação aumenta e fica claro que o único jeito de levar o plano adiante é se encontrar cara a cara com o oponente, momento em que o autor não resiste e explicita a disputa como um jogo de xadrez, partindo para um xeque-mate coerente com sua fuga de clichês e comodismo de Bengt.

“Quando se lembrava da intimidade entre ambos, sua culpa emudecia, dando lugar a um mal-estar. Teria ele se iludido? Teriam mesmo sido tão íntimos assim? O que faltara? A vida a dois não era boa? Afinal, haviam dormido juntos até ela cair gravemente doente, haviam conversado até ela morrer”.

O Outro é quase um conto. História para se ler em menos de uma hora. A adaptação para os cinemas traz Liam Neeson, Laura Linney e Antônio Banderas, um trio tão inusitado quanto.

Falar de morte é sempre complicado. Digo no trato da vida real e também na literatura. A morte literária não é um mero descarte de personagens como acontece em novelas, é preciso extrair dela um sentido que transcenda o próprio acontecimento. Beira o óbvio dizer que a morte valoriza os que estão vivos. Sabe aquela história de que só damos valor ao sentir falta? Quando alguém se esvai das páginas, os personagens sobreviventes ganham carga dramática instantaneamente. Sua existência passa a ter um algo mais, num truque de cartas e cartola narrativo.

Enquanto ele estava mortoEm Enquanto ele estava morto…, livro de Estevão Ribeiro, a morte está logo na primeira página, mostrando-se como fato real e força-motriz. Mas ela é também uma metáfora do vazio, do que realmente levamos adiante na bagagem emocional que pesa em nossos ombros. A carga da metáfora é potencializada por esse ser um relato autobiográfico, história de família, com as devidas liberdades poéticas. O autor narra do ponto presente parte de sua infância e adolescência, movido pelo drama de saber da morte de um irmão. É um telefonema sem muita explicação. Só se sabe que ele morreu em um garimpo na Bahia. Quer dizer, nem isso se sabe direito. A dúvida (vazio da certeza?) é fonte de angústia, prova da impotência diante do que não podemos controlar. E o que fazer quando não se pode fazer nada parece ser o x da questão para o personagem-autor. Estevão precisa descobrir onde está o corpo. Precisa porque assim determinou diante das contestações dos demais. Quer encontrar o irmão que nunca foi lá essas coisas, mas que com a morte assumiu a aura mítica de herói, e heróis não merecem ser enterrados como indigentes.

“Mas o maior ato de heroísmo de Daniel com o caçula foi livrar-me da morte certa. Uma infeliz coincidência me colocou numa situação onde vivi uma semana como se cada dia fosse o último. Garanto que não foi igual aos filmes hollywoodianos onde a pessoa começa a valorizar as pequenas coisas, vai à praia contemplar o Sol se pondo, acerta-se com a família, repara seus erros. Foi uma tensa espera pela hora da morte”.

Estevão RibeiroAssim, durante 108 páginas que misturam textos e ilustrações do próprio autor, Estevão compartilha suas memórias, indo do drama ao humor e de volta ao drama. Fala dos muitos irmãos, da infância dormindo em barracos, da vida que por pouco não se perde em um corte no joelho ou num mal-entendido. As questões familiares estão presentes desde o primeiro instante, somando-se sinergicamente ao drama do irmão perdido. É curioso ver como algumas pessoas não acreditam na morte de Daniel. Há os que entram em negação porque gostavam do irmão e há os que não acreditam simplesmente porque vaso ruim não quebra. As dores são maiores quando não compartilhadas, e o único a trabalhar em busca da resposta é o narrador, mesmo que, nesse caso, o fim do vazio seja aceitar que um irmão morreu.

“Vivi uma infância de preconceito, não por causa de pele, e sim pela minha condição social e minha criação. Pobre e sem pai, eu era visto como um ser menor entre os amigos que tinham pais e padrastos. Faltaram-me valores e costas quentes. Numa família fragmentada, com quem se reclama de um menino que te bate na escola? Mamãe mandava pedir a Deus que parassem. Não adiantou muito”.

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Descontado o impacto inicial do tema, Enquanto ele estava morto… é um livro leve, desses que se lê numa piscada. Um trabalho honesto de remembrança.

Estevão Ribeiro é o criador do personagem Tristão e autor de Contos Tristes, livro que mistura ilustrações, contos, quadrinhos e poesia. Atualmente escreve a tirinha Os Pássaros.

Vi a exposição da Sophie Calle e li um de seus livros. Esse texto é sobre ambos. E é sobre o que me parece ser uma violência epistemológica.

Douleur exquise, de Sophie Calle, Éditions Actes Sud, 2003A exposição é Cuide de você/Prenez soin de vous, no Sesc-Pompéia.

O livro é Douleur exquise, Éditions Actes Sud, 2003.

Na exposição, ela apresenta 107 reações de outras pessoas a um e-mail de rompimento de seu amante.

No livro, ela apresenta 99 relatos de dor de outras pessoas, que se contrapõem à dor de um telefonema de rompimento de seu amante (outro amante).

Na exposição, a voz do outro é só de mulheres – identificadas e com suas profissões indicadas. O amante também foi identificado. É o escritor Grégoire Bouillier.

No livro, o amante não está identificado e a voz do outro é de homens e mulheres igualmente. Eles também não estão identificados, embora haja fotos de alguns, além de detalhes de suas vidas pessoais. Os relatos “assinados” por Calle, sobre o telefonema de rompimento de seu amante, vêm acompanhados de uma foto do telefone vermelho em que tal telefonema se deu.

Esse livro, sobre esse outro amante, (“M.”), é dedicado ao primeiro amante, Bouillier. Me pareceu um agradecimento e uma homenagem por ele ter-lhe indicado, mesmo contra sua vontade, um caminho artístico, uma receita de sucesso. Esse livro, de todos que ela escreveu, e essa exposição, de todas que fez, estão ligados. São frutos de um mesmo processo.

Esse processo é o de impôr um registro poético autoral sobre a voz do outro. Calle se apropria de um “eu” alheio, oferecendo-o coberto por sua própria estética, sua própria ficcionalização do real. Mas o apresenta como sendo o real. No entanto, como não podia deixar de ser, ela faz uma ressignificação. Pega uma cosmologia alheia e a insere em seu próprio sistema de significação. O problema não está em ela fazer isso. Todos nós, criadores, fazemos igual. O problema é a apresentação dessa voz do outro como sendo real. O que ela nos dá – e essa é a única coisa que ela pode nos dar – é uma verdade sua pessoal. Não é a verdade factual. Ela mente ao dizer que aquele telefone vermelho é o telefone vermelho real em que se deu um telefonema de rompimento (mesmo que seja); ela mente ao dizer que a fulaninha de tal falou tal coisa a respeito do e-mail de rompimento de seu amante (mesmo que tenha falado); ela mente ao dizer que a reprodução fotográfica do e-mail é o e-mail real (embora seja).

Falta sempre o entorno, o contexto, o resto todo do real – inconcebível, inapreensível e incompreensível. Em toda representação artística do real, o real estará ausente. E é por isso mesmo que o representamos e o representamos outra vez. Para dar a ele sentidos. No plural. A obra de arte, para sê-lo, terá de ser polissêmica. E aqui vai mais uma restrição ao trabalho de Calle. Polifonia – ainda mais falsa – não é a mesma coisa que polissemia. Desculpe ser tão banal. É que o engano também é banal.

Agora a questão do poder.

Ao se apropriar da voz do outro – seja esse outro uma das testemunhas de acusação arroladas no livro/exposição/tribunal, sejam os amantes tornados objetos – ela submete a dor do outro à sua própria. Eles vêm em segundo plano.

E essa é exatamente a acusação que Calle faz a seus amantes. Que eles puseram suas dores em primeiro plano, esquecendo a dela. Ela faz o que a eles imputa.


P.S. Na exposição, das 107 mulheres convidadas a dar sua opinião, duas criticaram Calle sobre o uso que ela fez do e-mail.

Sem ser convidada, me ponho como terceira dessa fila.

Há algum tempo, desde o ano passado pelo menos, venho observando que, tanto nos jornais e revistas quanto na televisão, muitas notícias sobre a África vêm sendo veiculadas. São artigos e reportagens que procuram ressaltar os laços que unem o Brasil ao continente africano, especificamente aos países africanos de língua portuguesa, e especialmente a Angola e Moçambique. E isso é ótimo porque contribui para a dissolução daquela terrível e antiga idéia de que a África é feita de elefantes, leões e tribos primitivas.

Do ponto de vista cultural, o intercâmbio entre o Brasil e a África torna possível, e cada vez mais freqüente, o encontro entre nós, brasileiros, e africanos como Mia Couto e Ondjaki, dois escritores conceituados que certamente têm muito a compartilhar. Eventos como a FLIP, que nesse ano (2009) pôde contar também com a presença de Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas brasileiros em assuntos africanos, têm demonstrado preocupação em estreitar as relações entre o Brasil e o continente africano. Outro exemplo é o FESTLIP, festival de teatro de países de língua portuguesa que, em sua segunda edição (2009), trouxe ao Rio de Janeiro 80 profissionais de teatro de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal para onze dias de espetáculo. Do outro lado do oceano, a Casa de Cultura Brasil-Angola, em Luanda, desenvolveu esse ano o projeto “Sopa de Letrinhas”, que teve como objetivo apresentar a literatura infantil brasileira ao público angolano.

Não é tão difícil perceber um certo empenho de ambas as partes em restabelecer o contato enfraquecido passado o período da escravidão. Agora num contexto positivo, em que nenhum país planeja devastar o outro para se estabelecer, o momento é de cooperação. Que Angola e Moçambique são países em fase de desenvolvimento econômico e de reestruturação social, sabemos (o Brasil não é muito diferente). Como resultado de décadas de devastação por conta da colonização portuguesa, esses países enfrentam hoje um complexo processo que visa à reconstrução da nação. Desde o início do século XIX, quando ainda se encontravam sob o domínio português, observa-se, contudo, um crescente desejo de desvelamento daquele substrato africano perdido devido à imposição da cultura do colonizador. Nesse sentido, a literatura, tanto em Angola como em Moçambique, ocupou papel central como impulsionador dos movimentos pró-independência e como responsável pelo resgate das tradições culturais desses países.

Muitos autores que hoje têm suas obras circulando pelas livrarias brasileiras, como Mia Couto, Pepetela e Luandino Vieira, por exemplo, fazem parte de uma geração cheia de ideais, que lutou, através das palavras, pela independência de seus países. No entanto, depois de conquistada, a independência evidenciou muitos contrastes, criou novos problemas e revelou que o processo de reconstrução do país seria mais difícil do que se imaginava. Em sua ficção, esses autores procurar compartilhar essas dificuldades e as utopias que nortearam seus países durante muitos anos.

Menos conhecida por aqui, mas tão essencial quanto, é a obra de Boaventura Cardoso. Conterrâneo de Pepetela e nascido na mesma década deste, em 1944, o escritor participou dos movimentos pela libertação de Angola, além de ter sido membro-fundador da União dos Escritores Angolanos (UEA), responsável pela publicação de textos de escritores angolanos após a independência, em 1975. Desde então, teve seis livros publicados: Dizanga dia Muenhu (1977), O Fogo da Fala (1978), A Morte do Velho Kipacaça (1987), O Signo do Fogo (1992), Maio, Mês de Maria (1997), Mãe, Materno Mar (2001).

Autor de contos e romances de peso, Boaventura Cardoso, que também ocupou o cargo Ministro da Cultura de Angola de 2002 a 2008, inscreve-se no hall dos mais representativos escritores daquele país. Tem muitas passagens pelo Rio de Janeiro, onde costuma contribuir como palestrante em encontros sobre as literaturas africanas de língua portuguesa promovidos por universidades e casas de cultura.

Seu último romance, Mãe, Materno Mar, revela-se um mergulho profundo na temática angolana, em todos os níveis. Através de seus personagens, da linguagem adotada e da forma como desenvolve suas narrativas conhecemos histórias de lutas, de silenciamento e de violência que marcaram o passado recente de Angola; conhecemos situações e personagens que representam as tradições, as religiosidades e as práticas políticas da atual sociedade angolana. O imaginário do país e todas as implicações que uma longa e turbulenta colonização pode suscitar são trabalhados de forma sensacional nesse romance que, mais que entretenimento, é uma aula sobre a sociedade e a cultura angolanas.

Li Lordes de Thargor – O Vale de Eldor faz um par de semanas e precisei digeri-lo por esse tempo para achar o viés da resenha. Gosto de literatura fantástica como um todo, tenho um apreço maior por fantasia urbana e sou um implicante de longa data com o que é chamado de alta fantasia, cuja referência mais óbvia é o consagrado universo de Tolkien. Acho enfadonho o processo de descrição minucioso de novos mundos e me irrito com as batalhas entre anões e elfos que o velho escritor desencadeou na literatura e em jogos de RPG. A alta fantasia também costuma ter um número maior de personagens, num vai e vem que me distrai. Se o autor opta pela criação de um idioma próprio (você sabe falar élfico?), a confusão se eleva um pouco mais. Isso, deixo claro, é uma limitação minha. Os fãs de alta fantasia mergulham de cabeça nessa infinidade de personagens e alguns chegam a estudar os idiomas fictícios. Conversar com fãs de Senhor dos Anéis é um jeito prático de entender o que quero dizer.

Acredito que pelo desgaste natural que a Terra Média sofreu ao longo dos anos e das cópias, Rober Pinheiro tenha tentado fugir ao máximo do bê-á-bá tolkieniano e da regra imaginária de que todo novo autor de fantasia precisa começar com reis e elfos salvando o mundo da devastação. Ponto positivo. Houve um esforço louvável direcionado à criação de um universo repleto de raças e criaturas que não se inspirasse (ou aspirasse, como é o caso mais comum) na mitologia anglo-saxônica. Essa decisão, independentemente de autor ou livro, sempre traz dois aspectos à tona: o primeiro é o valor do inédito, o frescor na busca de uma identidade própria. O segundo é o fato de que o autor não poderá contar com o imaginário coletivo no desenvolvimento da ambiência, tendo que trabalhar do zero a diegese. Quando um dos personagens conta a história da criação de Thargor para o protagonista, precisei de releituras e piscadas para absorver o que estava acontecendo, porque a quantidade de informação é muito grande. É uma parte que daria facilmente um livro (fica a dica de uma prequela) e que enche os olhos. Mas a conexão efetiva como leitor, essa estabeleci com os eventos do tempo presente, e aí a leitura fluiu com facilidade. O desfile de seres fantásticos é quase ininterrupto, com pequenas pausas para recuperar o fôlego, e todos mantém o nível de interesse. Exemplos marcantes são um gorilão de asas coriáceas que é o inimigo central da trama, um guerreiro de pele azul e armadura prateada chamado Háriel Ehltor e o povo felino Ilmory, que considero a cereja do bolo.

“No entanto, mal teve tempo de pôr os pés no chão quando sentiu um forte tremor agitar tudo à sua volta. De repente, uma parte do teto do quarto foi arrancada como se fosse papel molhado e ele viu algo estarrecedor passar pela abertura irregular. Uma enorme criatura de asas negras estava parada embaixo do buraco, resfolegante e envolta numa nuvem de poeira. (…) Era enorme, de mais de dois metros, e tinha a aparência simiesca de um grande gorila, com olhos vermelhos como faróis e dois grandes dentes incisivos inferiores saltando ameaçadoramente para fora da boca. As orelhas caídas dos lados da cabeça, parecidas com orelhas de cachorro, subiam e desciam conforme ele respirava”.

Estão lá influências como o Caipora e até uma versão do mito do boto, numa rápida aparição. Os leitores mais tradicionais gostarão de saber que também há centauros e dragões, já para o final do livro. Cheguei a ficar de pé atrás quando vi dragões em contraponto ao autoral, mas terminou por ser uma das minhas partes prediletas da história, provavelmente por adotar um ritmo mais tradicional de aventura que me remeteu a História sem Fim.

“Olhou ao redor para as pessoas que estavam reunidas ali e viu que eram em sua maioria mulheres, com alguns poucos homens e quase nenhuma criança. Àquela hora, provavelmente todas as crianças que vira quando chegou à vila já estavam dormindo. Continuou a observar com certa curiosidade o círculo em volta do fogo e as pessoas subitamente tingidas de vermelho que o formavam, com seu falatório intermitente e seus gestos largos e teatrais (…)”.

Lordes de ThargorOutro aspecto digno de nota é a inversão da lógica do “herói viaja para um mundo mágico”. Ao invés do protagonista Deivison Martins (nada de nomezinho Zona Sul) passar por um portal ou cair num buraco, é o mundo mágico que vem atrás dele, já que muitas das criaturas de Thargor vivem por aqui. Isso permite explorar cenários como o centro de São Paulo, Fernando de Noronha e a Amazônia, todos remodelados dentro da fantasia. Esse descortinamento se dá quando Deiv encontra uma pedra mágica que projeta a sereia azul da capa do livro, e sua vida de pernas para o ar. Encontrar artefatos é um recurso comum em fantasia e a pedra de Zhar tem uma grande importância para o destino de Thargor, entretanto, Rober Pinheiro teve a manha de não colocá-la como uma arma milagrosa que poderia desequilibrar a história ou a jornada do herói.

Um atrativo extra para alguns leitores será o choque da descoberta, trabalhado quase em tempo integral. O protagonista desconfia do que ouve sobre a origem de Thargor e das razões de estar metido na confusão fantástica, cedendo somente quando a magia tomar dimensões irrefutáveis que arrefecem seu questionamento. Como todo herói adolescente, também desconfia da própria capacidade de lidar com o problema que tem pela frente, e é aí que surge a ponte entre a dimensão épica da história e o valor da conquista pessoal, o verdadeiro legado deixado por Tolkien, muito além dos paetês e purpurinas.

Apesar de Lordes de Thargor – O vale de Eldor ter uma história fechada, o espaço para continuações é amplo, podendo nascer aí uma bela saga de fantasia nacional… uma que passe longe da maldição das trilogias, por favor.

Em tempo: fãs de Tolkien, não me odeiem.

A leitura do livro de Emmanuel Carrère, Um romance russo, editado pela Objetiva, coleção Alfaguara, dá o que pensar acerca das narrativas contemporâneas. O romance inicia-se em um trem, que viaja aos confins da Rússia, atrás de um interno que, dos hospitais psiquiátricos da Sibéria, é levado de volta à Hungria, que havia abandonado, quando feito prisioneiro na Segunda Guerra. Um clima onírico se instala no vagão em que viaja. A Sra. Fujimori aparece para um rápido ménage, com o narrador e sua namorada. O clima se mantém durante a estada do narrador na cidade siberiana e no relato sobre o húngaro repatriado. O mundo parece feito de equívocos.

O narrador, cineasta e intelectual respeitado, descende de família russa, expatriada na França. Aos poucos apresenta as personagens que, tanto em Kotelnitch quanto em Paris, vivem a desdita, a marca da tragicidade. Como deuses decaídos, como tiranos que perderam o poder, Édipos redivivos, se deixam levar pela recusa do que são, pela incapacidade de reconhecerem as mudanças sofridas pelas sociedades. Pela perda irreparável do que possuíam, seja o amor do outro, seja da supremacia social que o intelectual francês e a polícia russa possuíram um dia.

Em torno destas perdas, erige-se um monumento ao vazio, representante anódino do mundo contemporâneo. A ausência de padrões comportamentais fixos e perenes faz com que as personagens representem um mundo outro, onde as referências, que se fizeram presentes no último século, deixaram de ser válidas ou validadas por um discurso envelhecido. O que a narrativa busca compreender é essa lacuna entre o passado e o presente, que não mais se codifica em uma linguagem unívoca.

Tal compreensão, como se disse, se dá pelo tom trágico em que mergulham as personagens. O coro, que ronda o filme a ser filmado, é, entretanto, inútil. As referências da tragédia grega se perdem na mesma prefiguração do vazio que ronda a existência de ambos. O coro dos cidadãos que, em torno dos tiranos destronados, busca identidade própria também não a encontra. Não mais a voz da polis se faz ouvir através dele. Ouve-se o silêncio povoado de vozes sem retorno.

Como nos quadros de Lucien Freud, as personagens se tornam corpos que vagam entre os espaços definidos por um mundo que não mais reconhecem; mundo familiar e estranho e, ao mesmo tempo, o templo-mundo que permite que se olhe em torno e ainda se veja, mesmo que apenas, a desconstrução metódica de si mesmo.

O livro, construído em pequenas narrativas – bolsões unificados pela constante presença do narrador que conduz todas as tramas – dá a medida da diversidade das possibilidades e a inevitável impossibilidade de, seja o narrador, antes entronizado em seu posto inquestionável, seja as personagens por ele escritas, encontrar mesmo qualquer sombra que possa apaziguar a finitude material a que se está preso. Tudo se perde, tudo termina e não resta sequer o consolo de sentir-se vivo.

A partir desta finitude – sem metafísicas – Um romance russo analisa as angústias com que a sociedade contemporânea convive; tal presença, entretanto, não traz a marca do queixume ou do saudosismo, apenas percebe que desde sempre a finitude se instaurou nos objetos que os homens são.

A arte marginal brasileira sofre de uma síndrome infindável de esvaziamento. A marginalidade virou estética e nisso se diluí onde deveria ser forte, na espinha dorsal dos personagens. Seja cinema, grafite ou literatura, todos querem retratar o marginal em uma disputa que estica as bordas para os lados em busca de novos recordes. Há muitos que o fazem no conforto do lar, pois retratar a vida marginal mergulhando em seu universo cansa demais. Imagine ser marginal sem passadeira toda quarta-feira engomando o terninho? Há outros que perdem de vez as estribeiras alegando que seus personagens são mais marginais que os marginais, e não digo pelo jogo de palavras, digo pelo que já ouvi. Um marginal mais do que os demais é aquele que ninguém representa, aquele que eu vi primeiro e ninguém tasca, agora é meu, ajudante de encanador de banheiro de usina hidrelétrica, sabe como é que é. Não é que você precise andar pelos labirintos da usina para escrever sobre eles. Assim fosse, não teríamos os clássicos de Tolkien e Bradbury no cânone literário. O fato é que é preciso identificação do autor com a obra. Seja lá em que ponto obscuro de sua alma, ele precisa buscar a matéria-prima que alimentará sua mentira e a transformará numa história verossímil, com personagens palpáveis. Por isso, me dá calafrios quando pego livros com orelhas marginais, ainda mais quando sim, já andei pelos labirintos e passei pelo encanador, num drible rápido no corredor da usina, com direito a roçadinha de braço.

Vapor BaratoJosé Valdemar de Oliveira, felizmente, soube para onde direcionar sua escrita nos contos de Vapor Barato. Há a tal marginalidade, mas não uma imposta pelo bico da pena, e sim pelos jogos naturais da sociedade. De modo geral, todos os contos esbarram em questões da sexualidade humana, naquilo que deveria ser pura fonte de prazer e é transformado em arsenal para agressões diversas. Como Valdemar não tem medo dos assuntos que aborda, vai direto ao ponto, sem floreios. Há as gírias do mundo gay, travestis deslocados no dia que se realizam à noite, há beijos e transas heterossexuais e homossexuais. Há os estupros das cadeias, a aceitação do que acontece no mundo cão sem dó nem piedade, e que é visto enviesado do lado de fora quando acompanhado de afeto. Estão lá também as boas e velhas prostituas sem síndrome de salto alto ou de a vida me enganou.

Uma jogada interessante para evitar os clichês foi abordar os temas de dentro para fora e não com olhares externos guiando a narrativa. Claro que, como toda coletânea, há contos mais fortes que outros, histórias que funcionam melhor ou pior, seja pela aposta na diversidade (e amplitude da identificação do leitor) ou simplesmente porque nem sempre o quebra-cabeça se encaixa da melhor forma.

Dos que mais chamaram minha atenção, a cereja do bolo é Vapor Barato, que dá nome ao livro. Num parágrafo aqui outro ali juro que ouvi Gal Costa se esgoelando no meu ouvido e me distraí rapidamente,ó minha honey baby, mas o conto em si é bem elaborado na forma e no conteúdo. Conta a vida de um grupo de amigos, personagem a personagem, de modo que a individualidade de um complemente a história do outro até o grande clímax, com um final sacana para um conto que de certo modo trabalha a amizade. São todos livres ao seu modo, dentro do que se permitem, seja fumar maconha, transar com homens (mesmo não sendo gay) ou fazer um strip-tease louco em cima da mesa a ponto de soltar faíscas entre os demais e incendiar a casa. Enquanto se descobrem, o grupo encontra afinidades que os permitem, apesar de tão diferentes, se descobrirem parecidos e romperem juntos fronteiras morais e sexuais. É uma grande festa. Os que estão fora da piscina sempre acham a água sem graça. Ser feliz incomoda, descaradamente ainda mais, e todo mundo sabe que a festa um dia termina. Aqui com violência visualmente física, mas psicológica nas entrelinhas. Ponto ganho.

“Adolescentes encabeçavam a lista de seu cardápio sexual. Escolhia o alvo, fazia amizade, atraía pro bar, dava cerveja. Levemente embriagado é melhor, ela dizia. Falava que tava a fim, era direta sem receios, sem pudores. Transava oral, anal, nem aí, tá ligado? Raramente o bis com o mesmo carinha. Não dizia: transei com ele. Dizia: fiz com ele. Gíria gay que adorava. Aliás, alguns babacas juravam que se tratava de algum travesti aposentado que resolvera passar os restos dos seus dias à beira da praia, contaminando-o com suas doenças. Muita coisa ruim se falou a seu respeito”.

Noiva em Pânico é um conto curtinho e eficiente. Como o título dá a entender, brinca com o desespero de uma noiva que de repente se vê sem o noivo no meio da igreja, diante dos convidados constrangidos. Tem um ar de psicose que sustenta até o fim. Anjos de Preto é o típico conto rock star despido de glamour. Vem com drogas, valium com uísque e uma overdose que vira necrofilia. Foi o conto que me fisgou efetivamente a atenção para o livro. Não pretende ser uma pancada no estômago estilo Réquiem para um sonho, mas sabe aproveitar o clima de delírio para narrar os breves momentos de um casal. Sabe aquela máxima de “o que os vizinhos vão pensar?” Valdemar de Oliveira leva às últimas conseqüências.

“Morreu trepando. Gozou urrando, movida a ácido, e fechou os olhos para sempre. Só saí dela quando também gozei, e olha que demorou, não sei por que, demorou. Aí cheirei mais uma fileira de pó e caí ao seu lado”.

Fragmentos de uma Discussão Amorosa Outrora Subversiva faz graça desde o título. Nele, um casal tem uma discussão de momentos filosóficos alternados com “cale essa maldita boca” e “vá se foder”, na maior integração. O fato é que o homem da relação tem um tesão inabalável que a mulher aproveita até a última gota, mas que lhe dói saber que só existe ali pulsando porque ele tem uma paixão enrustida por um amigo que curiosamente alimenta o mesmo sentimento, sem se privar de suas namoradas passageiras. Apesar de levar a poesia a sério demais numa linha ou duas, dá conta da proposta inicial, sendo um bom exemplo da alternância de aridez e leveza que permeia Vapor Barato. Nada de querer ser mais marginal que a marginalidade. No rádio, o que toca é Bjork e Cássia Eller. Ainda bem.

Vapor Barato
José Valdemar de Oliveira
7 Letras
139 páginas.

01. Para começar, queria que você falasse um pouco do Pó de Parede e como você foi parar na Não Editora.

Eu estava com o Pó de parede quase pronto quando recebi uma bolsa da Funarte para escrever o Sinuca embaixo d’água. E eu queria muito que o Pó de parede fosse meu primeiro livro. Não faria sentido publicá-lo depois do romance, eu acho. Entrei em contato com a Não Editora porque já conhecia o Antônio Xerxenesky, um dos sócios. Os livros eram bonitos, eu poderia me envolver no processo (escolha da capa, essas coisas) e lançá-lo em pouco tempo. Enfim. Pareceu um bom jeito de começar.
Mesmo tendo sido lançado por uma editora pequena do sul do país, o livro teve uma ótima repercussão: resenhas bem positivas em jornais e revistas, mas também gente comentando em seus blogs, e outros me mandando e-mails elogiando, ou então querendo saber como comprá-lo.

02. Na época em que resenhei o Pó de Parede, uma característica marcante foi o seu cuidado com a estrutura narrativa. Nada está lá por acaso. Como você chegou nesse ‘formato’ de escrita? Foi instintivo ou você decidiu que era um caminho a seguir, foi lá e fez?

Acredito que um livro não pode ter acasos. É claro que, durante o processo de escrita, o autor pode sim ir descobrindo coisas e, enfim, ver que detalhes surgem do processo, ou que caminhos antes descartados, ou simplesmente não percebidos, podem ser interessantes. Quanto ao produto final, esse tem que ser um todo coerente.
Geralmente, faço muitas anotações antes de começar a escrever. Sobre os personagens, os lugares, a trama. Tenho uma crença, talvez boba, de que não posso começar a escrever se eu não estiver já muito segura em relação ao que quero contar, e por que quero contar. Sempre acho que vou arruinar toda a ideia se eu correr para o computador. E, bom, o resultado disso é que eu não descarto muita coisa do que escrevo. O que acontece é eu reescrever o texto muitas e muitas vezes, mudando palavras, ordem de frases, pontuação, ou mesmo adicionando elementos. Mas sei de gente que escreve dez páginas para aproveitar uma. É um outro método.

03. Já dá para saber como a vivência na França influenciará seu trabalho e que tipo de ecos trará?

Ainda não está bem claro. O que eu sei é que muitas coisas estão mudando em mim, não há dúvida, e que então isso deve respingar de alguma maneira no meu trabalho. Ah, posso adiantar também que meu terceiro livro vai se passar em Paris. A história não está totalmente definida, mas já tenho alguns contornos dos protagonistas, e sobretudo a atmosfera que quero dar ao romance.

04. É comum que se diga que o mercado de literatura contemporânea brasileira não existe ou está estagnado. Como você vê essa situação?

Não concordo com isso. Há coisas acontecendo e autores surgindo, dentro das possibilidades de um país que, bem, é pobre, e que portanto tem índices vergonhosos de leitura. Ainda assim, há pessoas que podem ler e que querem ler. É claro que a maioria delas não vai optar por autores contemporâneos, porque certamente é mais seguro ler os consagrados. De qualquer forma, os consagrados passaram pela mesma situação: já foram novos autores. E a literatura é lenta, muito lenta.
Por último, digo que eu, pessoalmente, não posso reclamar muito. Vou publicar meu segundo livro por uma grande editora, a Companhia das Letras, o que significa que fui, de certa maneira, absorvida pelo mercado.

05. Você tem uma boa presença na rede, com site e blog. Acha que em algum momento a Internet mudará a literatura como a mp3 mudou a indústria musical?

Acho que já está mudando, porque é a porta de entrada para muitos novos autores. O consumo da literatura também muda, uma vez que você pode comprar livros de qualquer parte do mundo e etc. Mas você disse bem: o mp3 não mudou a música em si, mas a indústria musical. Com a literatura, deve ser parecido, mas mais lento (repito que a literatura é lenta) e mais discreto (condizente com a importância que ela tem na vida da maioria das pessoas).

06. Poderia antecipar algo sobre o próximo livro? Será o Sinuca embaixo d’água?

Sim, será. Sai em setembro desse ano. Vou estar no Brasil para lançá-lo.
Sinuca embaixo d’água é um romance, meu primeiro romance. É uma história na qual se alternam três narradores principais, e mais alguns que fazem rápidas aparições. No centro de tudo, está a morte de uma menina de vinte e poucos anos, Antônia, num acidente de carro. Todos os personagens foram afetados por esse episódio, em maior ou menor grau, e agora precisam lidar com isso. Há o melhor amigo dela, Bernardo, que tenta entender a noite do acidente. O irmão de Antônia, Camilo, que é um cara cuja grande diversão é fazer farra e mexer em carros velhos. E Polaco, dono de um bar, que, através da morte da Antônia, vai ter que reviver algumas questões do seu passado.

Descobri Santiago Roncagliolo em uma entrevista no El País. Roteirista de novela, chamou a atenção da crítica literária com Pudor, livro de histórias entremeadas que falam da intimidade de personagens muito diferentes na voz, mas com algo em comum em seus medos e desejos. Logo depois, ganhou o prêmio Alfaguarra com Abril Vermelho, lançado no Brasil pela Objetiva. Em Pudor, Santiago faz questão de trabalhar o aspecto inconfessável das histórias e deixa que aos poucos escapem ao controle, preparando o grande clímax.

PudorOs protagonistas são membros de uma mesma família. O pai é um empresário que descobre ter uma doença terminal e começa a assumir certos riscos na vida, apesar de ser do tipo quieto que jamais os viveria em plenitude. Sua grande rebeldia é esvaziar garrafas de uísque que não tem dinheiro para bancar na nova velocidade de consumo. De fato, não é só a constatação da morte que muda seus hábitos, mas a noção de que não pode compartilhar a informação com ninguém, sem se decidir se pela proximidade demasiada ou se pelo desinteresse demonstrado, já que o casamento está numa fase automática de modus operandi.

Sua esposa também parece uma dona de casa típica. Cuida dos dois filhos, de um pai com Parkinson, resolve as traquinagens de seu gato, faz o jantar para o marido e só. Sexo entre os dois não é mais um costume, mesmo nos carinhos já não se completam. As coisas começam a mudar quando um bilhete misterioso aparece em sua bolsa. Um pedido de encontro no meio do mercado, sem nome, só hora e local. A possibilidade de trair o marido a inquieta, mas a curiosidade é maior. Desde que não vá para a cama, pensa, não há mal algum em conhecer seu admirador secreto. A situação por si só já a excita. Quem será ele afinal? O admirador parece alimentar um vouyerismo de desencontros, e quem colhe os frutos dessa relação platônica é o marido, num fogo que ressurge de repente.

“No le habría importado tener una enfermedad que le permitiese una baja con goce de haber, aunque lo obligase a quedarse encerrado en su cuarto, sin moverse. Le parecía que no mover un músculo durante una larga temporada sería perfecto y fácil, sería lo mejor. Pero le faltaban dos años para terminar de pagar la hipoteca. Quería vivir hasta entonces, para ver que su casa se convirtiese en su casa de verdad”.

Numa idade em que o fogo é só lembrança, o avô parece desconfortável com o presente. O velho acaba de perder a esposa, mas não consegue se dar conta disso, pois o Parkinson consome a lucidez. Só sabe que agora nada mais faz sentido, porque antes eram dois e agora ela se foi, seja lá para onde tenha ido. Há uma familiaridade nos atos que simplesmente o torna real, mesmo quando o livro passa a brincar com o absurdo (e o fato de a vida ser cheia deles). É curioso acompanhar o raciocínio de alguém que se afasta da realidade para reviver suas memórias e se reaproxima para constatar que o peso do tempo não traz nenhum glamour, tudo na maior naturalidade.

“Por la tarde, cuando Doris abrió la puerta de su casa para recibir a Papapa, lo encontró con el pelo como un mapamundi con manchas negras, que representaban los continentes, y blancas, que representaban los océanos. Sus dientes eran blancos pero con el blanco de la pintura de pared, no de limpieza”.

No extremo oposto, está o pequeno que vê fantasmas. Santiago trabalha os contatos imediatos de Sergio sempre na fronteira do inexplicável. É com imaginação que a criança processa o que não consegue entender, como a morte da avó, por exemplo. É no hospital, sentado na maca com o cadáver, brincando de nave espacial com tantos aparelhos e tubos pendurados, que ele vê o seu primeiro fantasma, uma mulher que passa no corredor e pergunta se aquele corpo é o dela, recebendo a explicação gentil de que não, é o corpo da avó. A família parece não dar trela para essa história de fantasmas, já que vivem centrados em seus próprios problemas e tentações. Como a irmã mais velha é chata e implicante, é na amiga Jasmine que ele encontra algum conforto e justo ela o desafiará a ver não um fantasma, mas um morto de verdade.

Mariana, a tal irmã, não é mesmo alguém muito feliz. Sem se entrosar na escola, sente total desconforto por ter não ter peitos nem pêlo, enquanto todas as meninas da turma já se parecem mulheres adultas e atraentes. Ela é alvo constante de deboches e tem uma só amiga com que pode contar. É a amiga que a acompanha nos banhos, a amiga de quem observa atentamente o corpo, num misto de inveja e atração. Essa adoração de limites tênues, reverte-se em ódio profundo no dia em que saem juntas e a amiga fica com o pegador do colégio, o cara que tem carro na porta, entregando-se a longos beijos. É um desenrolar semitrágico muito bem pensado, misturando tramas adolescentes com a proposta de família em que os membros não compartilham nada além do jantar.
Para fechar a família, o gato. Quem tem gato em casa vai se identificar com várias situações. Quieto em alguns momentos, ele sai totalmente do controle quando sente um cheiro que não consegue explicar, um cheiro que desperta uma vontade enorme de fazer o que não deve e de agir sem nenhum pudor. É ele que fecha a trama quando todos os desejos se realizam, lembrando aos protagonistas que trazem juntos uma lista interminável de conseqüências.

Não bastasse o desenrolar da história, só a facilidade com que Santiago passa de uma voz para outra já vale a leitura.

Santiago Roncagliolo
Pudor
Editora Punto de lectura.
184 páginas.

01. Mesmo com boa vendagem na edição anterior de Alma e Sangue – O despertar do vampiro, você passou por dificuldades e precisou mudar de editora. Geralmente, o escritor iniciante acha que um bom resultado é garantia de estabilidade dentro do mercado. Qual a sua visão do mercado editorial atualmente?

Publicar é só o começo, o escritor precisa ir além para entrar no mercado editorial. Para vender, aparecer diante do público conta bastante. Eu vejo o M.E. em crescimento constante. Quando lancei Alma e Sangue em 2001, não tinha idéia do mercado nem das editoras, eu queria lançar meu livro e lancei. Já em 2005 quando Alma e Sangue foi relançado, comecei incentivada por um fã a navegar pelo Orkut e outros sites, compreendi a dimensão do mundo editorial.

Desde 2001 tenho visto o surgimento de novas editoras, como é o caso da Tarja. Temos vários escritores se reunindo em edições independentes. Contamos também com o Fantasticon que reuni e divulga escritores novos e os já consagrados. Não chamo de onda, mas de um desenvolvimento natural da literatura nacional. Não vou reclamar, pois a edição depende exclusivamente do autor, da qualidade do texto e da persistência, por vezes de sorte, ouso dizer. Vejo jovens buscando uma carreira de escritor e sempre me pergunto se eles fazem idéia do quão persistentes eles precisam ser para continuar e se estabelecer.

Editei duas vezes o mesmo livro, e estou indo para a terceira, dessa vez com um projeto consolidado, apoio e estrutura. Alma e Sangue – O despertar do Vampiro será relançado em junho pela Editora Aleph, para preparar o caminho para a chegada de sua continuação, Alma e Sangue – O império dos vampiros ainda esse ano. Percebo o grau de persistência e paciência que precisei esse tempo todo para compreender e me adequar ao mercado editorial. Não existe caminho fácil.

02. A série Southern Vampires de Charlaine Harris, que foi adaptada para a TV no seriado True Blood, aproveitou a temática para tratar de preconceito racional, fanatismo religioso e outros temas pertinentes. Você faz algo similar em sua literatura?

Não planejei nada, foi tudo muito instintivo e necessário. Estava num momento difícil, deprimida. Havia acabado a escola e fiz vestibular para direito. Não passei, tentei um curso técnico e também não passei. Estava ociosa e frustrada com o rumo da minha vida, pois as coisas que dominava eram todas artísticas, balé, música e pintura. Foi assim que veio a fase que chamo de dominó. Ganhei a máquina de escrever, tinha tempo, a idéia do livro surgiu, mas não evoluía. Até que tive um sonho e ele mudou minha vida. Tinha uma boa historia para contar, o amor entre um vampiro e uma mortal. Foi o que contei.

O que veio atrelado à trama foram às diferenças entre ambos, as conseqüências trazidas por esse envolvimento. Ao invadir o mundo da mortal, o vampiro trouxe seus hábitos e inimigos. E Kara ao entrar na imortalidade foi tocada por eles. Ela se choca ao ser beijada nos lábios por uma vampira, por exemplo, pois é desse modo que eles gostam de se cumprimentar, mas logo se acostuma. Também trato de temas sérios como estupro e a violência contra a mulher, mas dentro do contexto da história. Quando terminei o livro I, acreditei estar contando a história de Kara, a personagem mortal, mas ao finalizar o livro II e mergulhar no III, compreendi que ela é parte de uma trama maior.

03. No livro você aponta uma relação entre a festa do boi bumba e o mito dos vampiros que é um dos grandes momentos do livro. Poderia comentar esse trecho?

Lembro-me de quando era pequena acordar de madrugada com o som dos tambores do bumba meu boi, do Tambor de Criola e do Carimbó, e até mesmo com o som dos terreiros de candomblé mais próximos. Em dias como esses as rosas dos jardins próximos desaparecem. São Luiz, aliás, o Brasil é muito rico em lendas e personagens. Nascer e crescer aqui traz sua parcela de culpa criativa. Claro, sabemos que temos a mistura das lendas dos nossos colonizadores e a dos índios, as trazidas pelos negros. Tudo isso junto fez nosso folclore e nos foi passado oralmente através das gerações mais velhas. Eu sempre vi a festa do Bumba Meu Boi como algo misterioso e belo. Eu não resisti e incorporei a tradição da festa no livro, conscientemente. O som durante a apresentação de um boi é eletrizante, matracas, tambores, as vozes, a magia por trás das cantorias. A lenda é cômica e trágica. A mulher de um vaqueiro esta grávida e desejando comer língua de boi. O animal pertence ao fazendeiro rico, mas para satisfazer a esposa ele mata o boi. Durante a morte do animal eles bebem vinho que é a representação de seu sangue. O Boi é ressuscitado com reza e pajelança e agora é imortal. Está tudo ali o desejo, a morte, o sangue e a ressurreição do animal. É praticamente o ritual de transformação dos vampiros. Foi irresistível colocar no livro.

04. Você acha que esse é um caminho para a criação de uma identidade nacional dentro da fantasia nacional? Pretende explorar outros mitos?

Sim, nos temos um folclore riquíssimo. Do mesmo modo que na Europa há lendas sobre vampiros e monstros, aqui temos lendas incríveis. Eu cresci ouvindo sobre elas. A mula sem cabeça, o saci, o Capelobo, Iara. Histórias estranhas de fantasmas e de mulheres que viravam gatos e peixes, homens virando boto. E mesmo com elementos de macumba e pajelança. Um mundo de únicas, todas nossas e à disposição da imaginação. Certamente dão um toque nacional a narrativa de qualquer livro.
E sim. Na continuação do livro Alma e Sangue, que vai sair por volta de setembro de 2009, trago uma passagem sobre A serpente Encantada, que segundo a lenda vive embaixo da ilha de São Luiz. Quero levar o leitor para as galerias subterrâneas, na Fonte do Ribeirão. Acho que eles vão gostar muito.

05. O sucesso de Crepúsculo fez até Anne Rice voltar a ser editada. É curioso pensar que essa geração que curte Bella Swan e Edward Cullen talvez não conheça Lestat, Louis ou Akasha. Que tipo de vampiro atrai o público hoje em dia? Você trabalha seus personagens pensando na aceitação do público?

Deixar de conhecer Lestat é a mesma coisa que deixar de conhecer Drácula. Ambos são ícones da mitologia vampiresca. É importante que os fãs de novas séries como Crepúsculo e outras que venham a seguir tenham curiosidade, há muitas histórias fabulosas por aí. Muito do que hoje se entende por romance de vampiro hoje em dia devemos à Anne Rice, por exemplo. Se gostar do tema, então tem de experimentar as várias vertentes dessa fonte rubra que é o vampirismo.

O vampiro tem um charme natural. Seja bonito ou careca como Nosferatu. A idéia da imortalidade sempre vai nos atrair como mariposas para a luz. E a adaptação desses seres ao nosso mundo é o mais admirável. É nela que o leitor encontra onde se agarrar. Eles não dormem mais em caixas cheias de areia, não temem cruz nem água benta, tomam banho, vão à escola e se apaixonam, sempre. Na verdade, a imortalidade de um vampiro depende de sua adaptabilidade. Cada vez mais eles andam de jeans e preferem sangue de animais ou mesmo sintético, como explorado em True Blood.

Os meus personagens já surgem prontos, sejam bons ou ruins. Vêm num pacote completo com nome, características, personalidade e caráter. Aparecem para preencher a trama do livro e felizmente o publico os aprova. Posso dizer que tenho muita sorte. Mas também recebo reclamações extensas como cada um deles. Meus leitores são exigentes, por isso me exijo também.
O importante é que, sejam cruéis e lindos como o Lestat, interpretado no cinema por Tom Cruise, ou eternamente adolescentes como Edward Cullen, os vampiros demonstram sua força nos seduzindo há séculos e outros séculos virão na companhia desses seres maravilhosos.

06. Como a Internet influencia a produção de um escritor e sua relação com os fãs? Os escritores de hoje sabem aproveitar o potencial da Web?

Os blogs são uma ponte única entre o fã e o escritor. Deixo quase sempre posts no meu e a resposta ao texto é imediata. A web aproxima, faz as notícias chegarem mais depressa. Gosto de receber os e-mails e recados dos fãs, mas meu texto não está submetido aos seus desejos. A história segue seu curso natural, as alterações só seriam realizadas se o desenrolar da trama exigisse. Tenho um leitor que sempre me pede para que Kara fique grávida. É pena não poder atender sua reivindicação. Na minha mitologia os vampiros não se reproduzem, pelo menos não através de sexo e sim por contaminação sanguínea.
Acredito que o escritor tem conhecimento da Web, mas alguns talvez não saibam como usá-la adequadamente. A Web é um espaço gratuito de divulgação, que se bem direcionada atingirá e ampliará o publico de seu livro. É um espaço democrático.

07. Você pode adiantar alguma coisa sobre Alma e Sangue – O Império dos Vampiros?

Em Alma e Sangue – O Império dos Vampiros, o leitor vai finalmente descobrir o que realmente aconteceu com Kara no final do livro I e mergulhar de cabeça na mitologia que criei para tratar de suas regras e organização. Eles estarão presentes em maior quantidade, mostrando suas leis e conflitos, os interesses que os movem, como nos observam e se mantêm escondidos. Haverá momentos de muita tensão e perigo tanto para a vida de Kara como para de Jan Kmam. O rei Ariel Simon estará bastante presente nesse volume, e o amor entre Kara e Jan vai ser posto a prova várias vezes. Enquanto ele não chega, acho que os fãs vão gostar de reler o primeiro livro também. Ele passou por uma ótima revisão, está mais leve, ganhou cenas novas, novos pontos de vista e algumas pequeninas alterações que, já adianto, não mudaram o rumo da historia. Quem já leu só terá a gostar.

Espelhos Irreais é o primeiro projeto em papel do coletivo de autores Fábrica dos Sonhos. Lançado pela Multifoco, reúne contos de cinco autores, indo da fantasia à ficção. Como toda coletânea, tem seus pontos fortes e fracos, mas no geral o resultado é positivo. Não sou um leitor típico de fantasia clássica. Ao mesmo tempo em que me permito fechar os olhos para as fórmulas de humor da fantasia urbana e gêneros que exploram a ambiência contemporânea, acabo sendo mais exigente com mundos populados por elfos, anões e criaturas similares. Por não ter uma identificação imediata com os personagens, preciso ser convencido pela história, buscando a empatia com a escrita e o escritor e voltando no tempo, quando a fantasia era mais do que uma guerra de anões e tratava de uma batalha interiorizada, mesmo que calcada nas alegorias e contornos épicos que marcaram as grandes obras do gênero.

Espelhos IrreaisLogo no primeiro conto, Aguinaldo Peres foi contra todo esse espírito de grandiosidade que eu estava procurando e mesmo assim me arrebatou dede a primeira página, uma surpresa e tanto. Qualidades da história à parte, o ponto que merece o elogio é a qualidade da escrita. Os Três Trílios é um texto de frases bem trabalhadas, sem carregação de adjetivos, o tipo de conto que é eficiente sem arriscar manobras e pendurar enfeite onde não precisa. Como dizem, escrever fácil é difícil e foi o que o Aguinaldo conseguiu. É um resgate de fábula, com direito a homens comuns se tornando reis e combatendo preconceitos ancestrais em nome da felicidade. É dividido em duas partes. A primeira com os acontecimentos bonzinhos que conduzem à prosperidade do reino, e a segunda com o filho do rei enfrentando alguns revezes por se apaixonar por uma bruxa. Outro elogio válido, os personagens fogem do preto no branco. Nem tudo que a fada pensa é correto, nem tudo que a bruxa faz é errado.
A crítica fica por conta da distribuição das partes. O começo é muito longo, o que roubou um espaço precioso do final. Mesmo acabando no susto, é um dos que merece atenção especial.

“Diferente do tempo humano que é o mesmo para todos os seres, no Reino das Fadas o tempo é individual, cada criatura vive dentro da sua própria bolha de tempo e tem o seu próprio ritmo. Mas mesmo nesse caos existem regras: a velocidade do tempo é inversamente proporcional ao estado de espírito do indivíduo”.

De mesma força, mas explorando estrutura e narrativa distintas, Ana Cristina Rodrigues nos leva para 1488, numa conversa entre Felipe, que é neto de Carlos da Borgonha, e Olivier de La Marche. Felipe está chateado com o que anda ouvindo sobre a morte do avô, abandonado pelos soldados no campo de batalha, e quer saber se o que dizem é verdade. Exatamente pela autora ter um doutorado em História Medieval, havia me preparado para uma seleta de referências e datas que podia ou não dar certo, mas depois que passa a fase de ambientação, o conto dá uma excelente guinada, consistindo em outra boa surpresa de Espelhos Irreais. A carta na manga, como não poderia deixar de ser, ó tolo resenhista, é a fantasia. Para salvar o sorriso de Felipe, La Marche transforma a morte de Carlos da Borgonha numa história repleta de seres fantásticos, uma busca pela fênix. O duelo fantasia versus realidade de A Morte do Temerário trabalha com ingredientes similares aos de O Labirinto do Fauno, mas enquanto no filme o duelo é utilizado como autodefesa, ou seja, vem de dentro para fora, aqui ele flui de fora para dentro, nas palavras gentis de La Marche, que infelizmente não pode atenuar as próprias lembranças. Outro ponto alto.

“Saiba, meu jovem senhor, que das armas da guerra a mais desonrosa é a calúnia. E dentre as injúrias infundadas, o pior tipo é o que ofende os que já faleceram. Mas a verdade deve sempre aparecer, e irei contá-la a você. (…) Carlos estava a muitos dias de viagem de Nancy, em peregrinação, na busca por um tesouro que o transformaria de direito no maior dos príncipes, o que ele já era de fato”.

Bothu e o Elfo Negro, de Roderico Reis, cai no ponto que comentei no início. Não gostei nem desgostei. Pelo título fica evidente que um elfo terá papel central e provavelmente será o inimigo a ser derrotado. A trama em si é bem construída, mas nem história nem personagens fisgaram a minha atenção, provavelmente por o autor depositar suas fichas em uma virada de trama mais para o final, quando poderia ter distribuído mais surpresas pelo texto. Não é preciso colocar o mundo em jogo (péssimo hábito do seriado Heroes, por exemplo), mas o caminho do herói precisa ter uma relevância que transcenda o drama do próprio personagem, e não tenho certeza se Bothu terminou o conto diferente de como começou. Só para não passar em branco, Bothu encontra tempos depois o responsável pela morte de seus pais e tem a chance de fazer algo para compensar a sua suposta covardia na infância. Sobre o texto em si, fica o conselho de tomar cuidado com repetições de palavras. Pode ser que leitores mais afeitos a esse tipo de mitologia aproveitem melhor do que eu.

“Uma grande luz brilhava. Uma luz amarela, forte como uma estrela. Estava a uns cinco metros dele e o fitava. Tinha a forma de um homem, um homem feito de luz”.

Prelúdio, de Daniel Gomes, é o conto mais fraco do livro, por pura falta de fluência, o que só vem com a prática. Faltou trabalhar a construção de frases e pensar melhor as formas de passar imagens para o leitor sem rubricar tanto o texto com detalhes e movimentação de personagem. Esse trecho fala por si só:

“Antes que pudesse chegar mais perto, uma espécie de parede invisível ficou entre ele e o andarilho, cortando o chão com uma profundidade de 10 cm. Quando a poeira se dissipou, lá estava Germano empunhando sua espada com a lâmina voltada para o chão. Com um movimento rápido, colocou a espada em horizontal…”

Fechando o livro, A Gênese de um Novo Mundo traz uma ficção-científica. A história é mais ou menos a seguinte: nosso planeja já era. O pouco que restou dividimos sem critérios de igualdade. Quem é rico leva a melhor parte e o resto você já sabe. Porém, a potencialização da miséria e a situação limite de sobrevivência não nos impediram de continuar procurando um futuro lar. Quando um planeta supostamente habitável é encontrado, é hora de decidir quem serão os escolhidos para populá-lo. E aí entram os protagonistas. Alissa tem na ascendência filósofos, pesquisadores, uma árvore genealógica de alto intelecto. Ela é tratada como uma espécie de Virgem Maria. A mulher que dará o primeiro fruto. O pai da criança será o homem do dinheiro, que patrocinou boa parte das pesquisas que levaram à descoberta do planeta. Um vilão típico. Fechando o triângulo, um jovem órfão apaixonado que quer salvar Alissa de seu destino cruel, mas não é visto de jeito nenhum como um possível progenitor. O ponto forte do conto é a voz de Ana Carolina Ramos. Passado os primeiros parágrafos que são tortuosos até para autores experientes, ela encontra seu estilo narrativo e consegue jogar com a apresentação de personagens e ambientação sem cansar o leitor. É interessante a percepção de que o drama deve vir na frente da maquinaria, do futurismo e da purpurina, fugindo assim de uma armadilha comum na literatura fantástica. A ressalva fica para a construção de personagens, que se encaixam muito rápido nos arquétipos de herói, mocinha, vilão e bom velhinho. Pensar nas tonalidades cinzentas é sempre uma boa pedida.

“A possibilidade de colonização de Alfa-Neo-Gaia foi amplamente divulgada, gerando uma comoção mundial. Alguns não gostariam de deixar a Terra, mas outros desejavam fervorosamente a chance de recomeço. Inicialmente, apenas 250 pessoas seriam escolhidas para a colonização. Quanto a esses pioneiros, todos os favores políticos e influências foram utilizados para que seus lugares fossem garantidos”.

Espelhos Irreais
Organizadora: Ana Cristina Rodrigues
Editora Multifoco.

A OPELF, Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica, começou dia quatro de abril sua maratona de palestras e eventos que ajudam a movimentar o cenário de fantasia e ficção-científica no eixo Rio-São Paulo. Depois de uma palestra de Janaína Azevedo sobre literatura fantástica (que não tive a oportunidade de acompanhar), o clima esquentou com uma mesa-redonda reunindo Ana Cristina Rodrigues (AnaCrônicas), Fábio Fernandes (Interface com o Vampiro e A Construção do Imaginário Cyber), Cristina Lasaitis (Fábulas do Tempo e da Eternidade), Roberto de Sousa Causo (A Corrida do Rinoceronte e Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil) e Gerson Lodi-Ribeiro (Outros Brasis e Crônicas – Taikodom). A OPELF trouxe algumas novidades tecnológicas como entrevistas em vídeo, trailers de livros de novos autores e depoimentos gravados para uma homenagem surpresa a Gerson Lodi-Ribeiro. Segundo Horácio Corral, organizador ao lado de Janaína, a parte tecnológica saiu ligeiramente Steampunk, mas tende a melhorar nas próximas edições. Notebooks só perdem para Datashows na hora de deixar seus donos na mão, o que me lembra de uma das definições de ficção-científica: gênero onde os equipamentos nunca dão defeito nem travam no momento mais importante.

Sobre os temas, houve um frescor nas respostas, mas talvez seja hora de pensar novos questionamentos. Gostei muito de não terem levantado a bandeira do preconceito contra a literatura fantástica (chega disso) ou da simplificação do mercado deficitário brasileiro. Existe um público leitor, senão 1808 não superaria 300 mil cópias vendias, O Filho Eterno do Tezza não chegaria em 10.000 cópias e os livros de André Vianco não sairiam com tiragem de 25.000 exemplares. A pergunta essencial é como chegar até ele e despertar seu interesse por esse nicho específico (fugindo dos arquétipos do nicho, quem sabe), o que de certo modo foi abordado de pontos de vista diversos.

Roberto Causo lembrou que a ficção-científica teve seu momento no país com Sputnik e as armas nucleares servindo de combustível para o interesse, mas que a interrupção da produção por alguns anos minou a oportunidade de se gerar um mercado ou mesmo dados estatísticos suficientes para entender as singularidades desse mercado. Um editor na platéia comentou que não há uma fórmula mágica e é impossível dizer que todo clássico venderá ou que todo livro de ficção-científica tende a ser um fiasco de vendas. É preciso gerar números e criar ferramentas de análises. Como bem colocado por Horacio Corral e Ana Cristina Rodrigues, o fato é que nosso mercado não funciona como o dos Estados Unidos, e isso vale tanto para a dinâmica de consumo quanto para a formação de público leitor, que não contou com as revistinhas pulp responsáveis em grande parte pela disseminação do gênero.

Todos os participantes parecem concordar que é necessário manter a qualidade acima de tudo e acreditar no que se escreve, fugindo das fórmulas do mercado de massa. Como disse Cristina Lasaitis, um bom livro não é sinônimo de vendas, e por mais que tenhamos grandes nomes nacionais pavimentando o caminho até os dias de hoje, eles não foram suficientes para despertar o gosto pelo gênero na geração que os acompanhou. Um pensamento geral parece ser não pensar no público leitor enquanto se escreve, sem se privar, porém, de oferecer o melhor de si. É o paradoxo do egoísmo levantado por Bjork: quanto mais egoísta for o artista na hora de criar sua obra, mais o público agradecerá.

Ainda nesse tema de formação de público, foi importante a participação de Gerson Lodi-Ribeiro. Uma das mentes por trás do RPG Online Taikodom para múltiplos jogadores, lançou no mesmo dia o segundo livro da coleção Taikodom, que explora o cenário do jogo na literatura. Ninguém espera que todos os jogadores venham a comprar o material extra da série (também serão lançados HQs), mas a existência de um público potencial vindo de outras mídias certamente trará bons dados para o debate. É muito comum no mercado estrangeiro que jogos e RPGs originem séries literárias de sucesso, Warcraft e Warhammer estão aí e não me deixam mentir.

No mais, vale ressaltar a importância de eventos desse tipo para o desenvolvimento da literatura fantástica no país. Logo no começo, houve comentários gerais de que os rostos são sempre os mesmos. Que sejam. Pelo que venho acompanhando nos últimos anos, parece que há uma tendência a apreciar mais os eventos com a presença de outsiders do meio. Valorizo pela oportunidade da pluralização de olhares, o Nelson de Oliveira no Invisibilidades 2008 é um ótimo exemplo, mas que não se perca o foco na hora de analisar a relevância. O mainstream sabe fazer de cada uma dessas datas uma grande reunião de conhecidos sem deixar de enxergar o lado profissional. Se os autores de literatura fantástica não souberem fazer o mesmo, a estagnação permanecerá.

A ficção científica normalmente não me atrai muito. Existe um problema intrínseco, para mim, que é a da suspensão da realidade na escrita pretensamente calcada em parâmetros científicos. Este é um problema que nasceu com a FC (como carinhosamente é chamada a ficção científica). Existem raríssimos autores que conseguem o fazer acreditar dentro deste contexto, de um irreal científico.

Eric Novello é um desses raros e preciosos autores.

Paradigmas 1

Eric é um dos autores do livro Paradigmas 1, lançado recentemente pela Tarja Editorial.

Por motivos óbvios, comecei o livro pelo conto dele.

Fogo de Artifício na verdade não é FC, é fantasia urbana, e isso por si só talvez já explique eu ter gostado. O conto se baseia no universo ficcional de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, ou seja, espere encontrar um gato sorridente e um chapeleiro maluco mas não leia para seus filhos. É um conto adulto. Adulto como em assassinatos brutais e sexo selvagem. Adorei.

“Eu havia pedido o encontro. Perdido o controle. As mortes precisavam parar. As mortes, só por elas eu transpirava prazer.”

Pelos mesmos motivos, gostei de Um Forte Desejo, de M. D. Amado, um tipo de “fantasia pulp erótica”, se é que existe esta classificação.

Gostei também de Aqui Há Monstros, de Camila Fernandes, que, assim como Eric, se baseia em um universo ficcional pré-existente, o da mitologia grega.

Não li os outros contos ainda, mas tenho certeza de que a editoria do organizador/autor Richard Diegues fará justiça aos bons autores que assinam o livro.

E assim começo essa resenha, Ó, meus irmãozinhos, ainda sob influência das gírias dos druguis de Laranja Mecânica. Fico muito tentado a escrever um há há há e fazer lá meus trocadilhos, abusar das jogadas de fonética-ética que Anthony Burgess usa quando o personagem não quer saber da escolacola e só se liga, tipo assim, em enfiar uma britva numa babushka qualquer, num lance muito horrorshow. Mas me apiedo de vossos neurônios e como a resenha não terá um glossário como há no final do livro, prometo me comportar e arrastá-los para o cerne dessa distopia escrita em 1962 apenas em citações.

Laranja MecânicaDe modo simples, podemos dizer que a distopia é o inverso da utopia. É aquilo que deu errado. Sim, mais errado do que o mundo em que vivemos. Pelo menos era essa a idéia. O curioso da ficção-científica é que ela pode se tornar literatura mainstream com o tempo. Vide 1984 de George Orwell e seu “Big Brother is watching you” e o universo ciberpunk de William Gibson que parece desatualizado diante dos apetrechos que usamos hoje em dia.

Laranja Mecânica trabalha uma distopia onde a violência saiu do controle. Ela é chamada de ultraviolência. As ruas estão tomadas por gangues e os cidadãos apanham o tempo inteiro, mulheres são estupradas e idosos são as vítimas perfeitas. A violência gratuita promovida pelos adolescentes não é gratuita para o escritor. Não está lá simplesmente buscando o choque. Burgess a utiliza para manipular sentimentos do leitor e debater dilemas morais. Sabe essa conversa de vítimas da sociedade, criação do sistema e todas as teorias que utilizamos para justificar a geração da violência e as metodologias de combate? Será que manteríamos nossas opiniões sobre o assunto em um cenário extremo? Será que continuaríamos a defender a tese de que a tendência à violência é fruto do ambiente e não é intrínseca ao indivíduo que a comete?

“A música sempre me deixava afiado, Ó, meus irmãos, e me fazia sentir como o velho Bog em pessoa, pronto para provocar raios e trovões e fazer com que veks e ptitsas rastejem em meu poder, buahahaha!”

O livro é narrado em primeira pessoa por Alex. Ele é um dos garotos ultraviolentos, o chefe de uma gangue que aterroriza a região porque dinheiro é algo que se consegue sem esforço. Basta bater, roubar e gastar. E é claro, Alex gosta do que faz. Sente um prazer orgástico quando o sangue jorra de suas vítimas. Orgasmos múltiplos quando ouve música clássica e se imagina chutando rostos e barrigas. Mesmo seus druguis, seus amigos, ele controla na base da violência: um soco no nariz, uma canivetada no pulso, e assim segue a relação de suposta amizade. A naturalidade dos gestos o torna um personagem curioso, difícil de lagar de mão. Uma decisão inteligente de Burgess foi colocar o leitor como confidente do personagem. Alex fala diretamente com quem lê. Quando todos o traem, é o leitor que se mantém ao seu lado, testemunhando seus dias na prisão e o tratamento alternativo antiviolência que é o grande charme do livro e que foi tão bem explorado por Kubrick na adaptação para o cinema.

“O mesto estava quase vazio, pois ainda era de manhã. Também parecia estranho, porque tinha sido pintado com vaquinhas vermelhas mugindo, e atrás do balcão não havia nenhum vek que eu conhecesse. Mas quando eu disse: – Leite-com, grande -, o vek com um litso muito magro e recém-barbeado sabia o que eu queria. (…) Então eu pude sentir a visão se chocando com aquela prata toda, e em seguida havia cores do tipo que ninguém jamais videara antes, e depois eu videei tipo assim um grupo de estátuas muito, muito distantes, que estavam sendo trazidas cada vez mais perto, todas iluminadas por uma luz muito brilhante que vinha ao mesmo tempo de cima e de baixo, Ó, meus irmãos”.

Talvez a pergunta que reste seja essa: se o personagem é tão desumano, o que faz o leitor virar as páginas? Há outras formas de empatia. A raiva é uma delas. O que me moveu foi a curiosidade. Eu não via a hora de ver o Alex se ferrar, apanhar muito, receber de volta tudo o que faz durante a primeira parte do livro. Mas Anthony Burgess é experiente manipulador de sentimentos. Será que o leitor conseguirá apoiar na polícia o que condenava no protagonista? Laranja Mecânica é um livro que voa. Não consegui absorver a violência com facilidade, precisei de pausas, mas assim que a história foi para a segunda parte, a velocidade aumentou consideravelmente.

Laranja Mecânica é um dos clássicos da ficção-científica mundial. O turbilhão de sensações, indecisões e sentimentos que gera no leitor ultrapassam qualquer fronteira de gêneros.

Em tempo: o livro conta com um excelente trabalho de tradução, com um capítulo que explica a origem das gírias criadas por Anthony Burgess e as escolhas feitas para os termos em português. No final, reuniram glossários já publicados, o que ajuda o leitor a não se perder nas gírias de Alex e seu grupo. Diga-se de passagem, “perder-se” nesse universo distópico era a idéia original do autor.

Sob o Chile ocupado pelas forças militares muito já se escreveu. Durante os anos de ocupação militar, surgiram diversas novelas que tomavam o fantástico como modo de expressão e denúncia. A novela de Hernán Rivera LetelierO Fantasista - trai essa influência. Nela reencontramos alguns dos tipos criados pela percepção do fantástico, entretanto, já é outra coisa que a novela apresenta. Os acontecimentos espetaculares são aqui tomados em tom menor.

A novela narra um pequeno lugarejo irá desaparecer. Contra este lugarejo se dispõe outro, mais desenvolvido, maior. Ambientado neste local, na exploração do salitre, na pequena Coya Sur, empoeirada, ardente e abandonada, o escritor faz chegar um alguém, acompanhado de uma mulher. O personagem recém-chegado passará a depositar, contra a sua vontade, os anseios da cidadezinha perto fim.

Os desejos pueris da cidadezinha são ganhar um jogo de futebol – o último – contra a arquiinimiga cidade de Maria Elena, que sempre a derrotara em outras partidas. O alguém que chega se revelará não só um exímio controlador da bola, como um conhecedor da história do futebol. Desde logo, a cidade inicia a cooptação do que chega para que ele defenda a derrotada Coya Sur.

Os episódios que se seguem vão descortinando um cenário de abandono e paixão. Os personagens se apresentam aos poucos até que se toma conhecimento do cerne fabuloso da novela. A cidade, o jogo, o Fantasista – nome que se dá a quem chegou – não importam tanto quanto a própria narração. Em o fantasista a narrativa se desdobra em duas narrações. A do narrador, habitante de Coya Sur e a do narrador das espetaculares partidas que acontecem no campo da cidade e na cidade.

Estrangeiro, este narrador revelará para a cidade, não para o leitor, o que acontece. Como um membro de um coro grego, estabelecerá os limites da dor do desaparecimento e o júbilo da vitória sobre a cidade vizinha. Morrendo a cidade morrerá o narrador. Esse amálgama entre o narrador da cidade e a cidade permitirá que o leitor perceba a dupla intenção da novela. Se por um lado, relata as mazelas das populações sobrepujadas por ordens incompreensíveis e autoritárias, por outro, mostra como essas ordens derivaram uma forma narrativa que se esgotou.

O esgotamento de uma forma narrativa longe de tratá-la como algo que não se deve mais empregar – pode ter seu fim decretado por dentro, isto é, é com ironia narrativa que se desconstrói um modo arraigado e determinante de uma interpretação. O mundo que salta das páginas de O Fantasista já não é o que produziu Macondo, mas que com ele dialoga e mantém a mesma percepção de terra arrasada.

O livro de Witold Gombrowicz é desses romances que se devem ler de um fôlego, para depois voltar e reler com vagar para usufruir das artimanhas da narrativa. A história se passa na Polônia ocupada. Anunciadora dos novos tempos, Pornografia percebe o movimento de uma sociedade que se forma das ruínas de um mundo que deixou de se sustentar, de um mundo cujos valores foram coagidos a mudar, de um mundo cuja necessidade se esgota nos dilemas morais da mais ampla devastação humana.

Se o Holocausto representou essa devastação, se o homem veio descobrindo-se, a partir da experiência do genocídio, o que é, a arte e a capacidade de crença dos homens tiveram a necessidade de assumir certo realismo denunciador das utopias. Fosse a arte de caráter socialista, conservadora na forma e no conteúdo, fosse a arte de caráter liberal e experimentalista, o mundo deveria ser recuperado positiva ou negativamente. Aquela seguindo as linhas de Tolstoi; esta, a da poesia francesa do século XIX.

Sabedor da impossibilidade da arte, Gombrowicz busca reinaugurá-la através de uma terceira via. A da corrupção do jovem, a da aproximação da morte, como apelo rejuvenescedor das almas e corpos carcomidos, destruídos pela desesperança. Como uma arte da deseducação, a trama perpetrada por Witold leva ao assassínio. Educar resulta em mostrar os caminhos do assassinato, em favor de uma sensualidade que não pode ser abandonada pelas vicissitudes de um mundo que deixou de ser.

Sob Henia pairam duas possibilidades. O casamento com Waclaw, sob o signo do amor e da fidelidade, jurados ante a mãe quase morta. A entrega absoluta à degradação, ao assassínio, ao prazer destrutivo, que pressupõem uma nova ordem mental, na qual a juventude passa a ser em si o valor a ser valorizado. Em Pornografia, a juventude é destruída para ser reificada. Todos, sob o signo desta juventude estática, paralisada, se transformam em jovens.

As maquinações dos adultos caminham nesta direção. A entrega construída de Henia e Karol é uma necessidade que possuem de se permitirem ações de que moralmente se acham incapazes. A mistura de sensualidade e morte e do prazer que as duas despertam é um índice para a perpetuação da juventude.

Manter os jovens jovens resulta em se permitirem ações descompromissadas aos adultos. Entre outras ações, permitir que a linguagem das representações se mantenha num mesmo diapasão “justificado” por serem jovens é fazer com que se perpetuem nos adultos o desejo de juventude, não mais pela sensualidade, pela potência da sexualidade, mas pelo seu outro lado que é o extermínio, a morte.

Pornografia se escreve para deixar que o leitor perceba o mundo que acaba de erigir-se. Sob o caos da guerra, sob o caos do extermínio – salva o homem o assassinato, e sua cara metade – a propaganda da felicidade. A manutenção de uma juventude eternamente jovem – mazela dos nossos dias – nasce de um descuido com o outro, da desinportância do outro.

Ser jovem abole toda culpa, por isso não culpamos nossos filhos, por isso somos presas fáceis da propaganda, por isso neles nos espelhamos, por isso desejamos tanto e com fervor a juventude que se foi. Ao propor a leitura dos homens desta forma, Witold trilha um caminho terrível e o espelha na vida contemporânea como seu ardil mais intenso.

Como um Sade moderno, verifica os atos da razão e os compreende em sua totalidade, ao revelar a prisão do homem à razão permite-se a afirmação complementar das ações naturais. Se para Sade a natureza era a forma determinada do sucumbir do homem, para Witold, a aliança entre o desejo de morte expresso pela natureza e a luta que contra ela a razão trava só tem sentido se a razão penetrar pornograficamente no reino da morte, isto é, se reificar como juventude.

40 novelas de Luigi Pirandello faz parte de um projeto recente da Companhia das Letras de reunir diversos textos de um determinado autor (já são vários na coleção) em um grande livro. A edição com Pirandello tem 505 páginas é um verdadeiro tour de force, muito mais um estudo do que uma leitura rápida de fim de noite, o que não é de maneira alguma um demérito.

40 novelas de Luigi Pirandello Pirandello foi um dramaturgo, narrador, ensaísta e poeta italiano, publicado ainda na década de 1880. Apesar de ser conhecido mais por suas peças de teatro, começou como poeta e contista, publicando em jornais e revistas sem parar. Fica evidente nessa amostragem de textos selecionada e traduzida por Maurício Santana Dias que Pirandello tinha na escrita um exercício de laboratório de suas idéias. Digo isso porque é fácil identificar os temas preferidos do autor e perceber a necessidade de retrabalhá-los até a exaustão, o que é mais benéfico para ele do que para o leitor.

Um de seus temas preferidos é a falência do casamento. Pirandello explora de todas as maneiras as causas e conseqüências da traição. Também repete em um texto ou outro a noção de que quanto mais se despreza alguém mais esse alguém gosta de você, valendo também o inverso. Tratar um cônjuge ou pretendente com muita dedicação é trilha certa para o fim de uma relação, e ressalto aí as relações que terminam mesmo antes de começar. Achei esses textos cansativos, exatamente pela repetição. Se nas primeiras leituras o humor peculiar do autor ajuda a avançar as histórias, mais para frente perde-se o frescor. Mas como comentei, um livro desse porte é mais do que leitura, é um estudo compacto.

Nas palavras de Maurício Santana Dias: “Ao contrário de mestres de prosa naturalista como Zola, Verga ou mesmo o D’Annunzio das primeiras novelas, Pirandello sabe que ‘a vida como ela é’ é irrepresentável. No entanto, é preciso representá-la de algum modo, mesmo que a arte já não dê conta de nenhuma totalidade”.

Curioso ver como Pirandello posiciona a sociedade em suas histórias. O que a sociedade pensa ou deixa de pensar é uma constante influência no destino dos protagonistas. Os personagens secundários ou a sociedade como entidade coletiva estão sempre induzindo os outros a uma ação que parece lógica quando aplicada à vida de terceiros, mas nunca à própria. Alguns personagens conseguem perceber isso no meio do caminho e escapam de finais trágicos, tomando para si as rédeas, mas são raros os casos. Em um dos textos, um homem é traído e tem que matar a esposa. No julgamento, diz que a culpa não foi dele, mas da verdadeira mulher do amante da esposa. Isso porque a tal mulher, ao descobrir a traição, foi na porta de sua casa e fez um escândalo. Se tivesse ficado quieta, ele não precisaria fazer nada, mas com todo mundo sabendo do acontecido, o que mais lhe restava além da possibilidade do assassinato? É mais ou menos esse o clima.

Um dos grandes tesouros do livro são as três novelas que inspiraram Pirandello a escrever a peça Seis personagens à procura de um autor. A relação direta de personagens “fictícios” com um personagem “real” é impagável. O modo como Pirandello trata a superioridade do real diante do imaginário vale a leitura. Geralmente o personagem fictício vem até o autor convencê-lo de que merece fazer parte de um romance e, enquanto disserta sobre suas qualidades, age de forma a desdizê-las.

“Hoje, audiência. Recebo das nove às doze em meu escritório os senhores personagens de minhas futuras novelas. Cada tipo! Não sei por que todos os descontentes da vida, todos os traídos pela sorte, os enganados, os desiludidos e os quase doidos vêm procurar justo a mim. Se os tratasse bem, eu até entenderia. Mas freqüentemente eu os trato feito cachorros; e eles sabem que não me contento facilmente, que sou cruelmente curioso, que não me deixo levar por aparências nem me impressiono com conversa fiada. Pelo amor de Deus, a alguns peço até provas, testemunhos e documentos. No entanto…”

Destaco ainda um conto muito bonito chamado O quarto à espera. É um quarto mantido todo arrumadinho, com lençol trocado, pijama na cama, esperando o retorno de um homem que provavelmente não voltará. Quem o arruma são as irmãs e a mãe que não querem admitir a possibilidade de que esteja morto. A beleza vem não da situação, mas das escolhas narrativas. O conto, de certa forma, é narrado no ponto-de-vista dos objetos do quarto. Os lençóis sempre felizes por estarem limpos e trocados. O relógio feliz porque está sempre com corda. E a vela triste, porque só será acesa quando aceitarem a morte. Os objetos bem cuidados desprezam a vela porque as mulheres não lhe dão atenção. É um texto calcado em sutilezas, muito bem construído. Como a certeza da morte é inegável, a vela acaba tendo seu momento de bons tratos e pode brilhar diante da tristeza alheia.

“Para essa vela é uma desforra”.

40 novelas de Luigi Pirandello
Maurício Santana Dias (seleção, tradução e prefácio)
Companhia das Letras
505 páginas

1. Você é um autor que escreve tipicamente para um público adulto. Seus textos no blog Palavras que sangram ou no pocket Sexo, drogas e tralalá, por exemplo, lidam com morte e elementos de um universo mais introspectivo. Foi difícil buscar uma nova essência para escrever um infantil?

Produzi muito em minha infância, mas nunca me imaginei escrevendo para crianças, embora a literatura infantil me atraia desde cedo. Meu contato com crianças sempre foi superficial. Não possuo filhos, minha família é distante e dou aula para adultos. Minha temática literária sempre se voltou para as questões do submundo, do amor e da morte, que me fascinam e me inspiram, ou seja, minhas maiores referências de vida e de arte, por isso me chamam por aí de gótico ou “underground”. E de repente me vejo escrevendo para o público mirim. Mais do que isso, envolvendo-me num universo que já pertenci ou que fazemos questão de não mais pertencer.

2. Como surgiu a idéia de O Mistério dos Livros? Sei que a grande inspiração foi Clarice Lispector.

É clichê, mas Clarice é uma das minhas maiores referências literárias. Na adolescência, quando conheci a sua obra e passei a devorá-la, descobri uma entrevista dela na coleção Para gostar de ler. Clarice explicava que, quando criança, se perguntava e imaginava de onde vinham os livros. Nunca me esqueci disso. Anos depois, tanto a recordação de sua curiosidade quanto a sua imaginação mágica, me renderam “O mistérios dos livros”, onde criei a personagem Clarice e reinventei aquele momento indagador da sua infância, com bases ficcionais, claro.

3. Como o projeto foi parar na Alemanha com o livro?

Roseni Kuranyi, uma amiga escritora brasileira que vive em terras germânicas, me chamou para visitar o Projeto Cria-Brasil, uma instituição que visa a educação das crianças de origem brasileira que vivem na Alemanha. Fiquei encantado pelo convite e pelo trabalho do projeto. Mas como palestrar para crianças levando apenas livros de adultos? Então me lembrei que havia escrito o livro infantil sobre Clarice Lispector. Imediatamente resgatei a obra, reescrevi e a apresentei ao meu então editor, Marcos Maynart. Em pouco menos de um mês publicamos o livro e em julho o levei para a Europa. Por coincidência, Clarice Lispector completava trinta anos de falecimento. No Brasil, o livro foi lançado um mês antes da data comemorativa, e no dia exato da sua morte, nove de dezembro, uma peça foi encenada, baseada no livro. Deve ter sido a energia favorável de Clarice que contribuiu.

4. Diz-se muito da dificuldade de traduzir literatura infantil de um idioma para outro. Que é uma literatura de valores muito peculiares e difícil de ser adaptada. Como foi a experiência?

O livro foi publicado no Brasil e lançado na Europa. Não chegou a ser traduzido. Eu o levei na língua portuguesa mesmo. O Projeto Cria-Brasil fez questão de recebê-lo assim, pois está na linha de trabalho que eles realizam, alfabetizando e valorizando a nossa cultura entre os alunos teuto-brasileiros. Claro que as crianças falam fluentemente o alemão, desde as adotadas até as que nasceram ou se mudaram muito novas para lá, mas o projeto instrui a língua portuguesa como um segundo idioma para esses pequenos, sem deixar que eles se desvinculem do Brasil. Na convivência com os brasileiros adultos radicados no estrangeiro, percebi que há uma grande carência sobre tudo o que vem de nós, principalmente nas artes. Levei o caderno cultural de um jornal que comentava a minha ida para a Alemanha e eles devoraram todas as páginas, querendo saber tudo o que acontecia de artístico por aqui.

5. Você já apresentou o livro para públicos distintos, mas acredito que todos eles tenham um ponto em comum. Como você sentiu isso?

Criança é criança em qualquer parte do mundo. A essência da criança é ela mesma. Sou sempre muito bem recebido e aprendo muito. Fico comovido com as mais diversas reações. Quando apareço com meus livros revelando que vim para e por elas, vejo o indisfarçável encantamento em seus olhos. Criança gosta de se sentir especial porque de fato é. Na Alemanha, muitas me perguntaram como era o Rio de Janeiro… se o mar era salgado mesmo… se o Cristo Redentor era realmente grande… Na aldeia indígena que visitei, uma criança curumim se aproximou e me perguntou cheia de deslumbramento se eu havia escrito o livro para ela. Quando visitei a favela Cidade de Deus, na baixada do Rio, pedi às crianças que fizessem um desenho para mim. No momento em que a assistente social me avisou para encerrar o evento, uma menina começou a chorar desesperadamente. Disse a ela que poderia terminar o desenho em seu lar, sem problemas, mas ela me explicou que não tinha lápis de cor em casa. E na escola pública Professor Souza Carneiro, no subúrbio da Penha, várias alunas tímidas quiseram um autógrafo, por nunca terem conhecido um autor. Volto para minha casa e passo dias e noites refletindo. É o tipo de coisa que dinheiro algum no mundo consegue pagar. A maior aprendizagem. O reconhecimento mais gratuito e verdadeiro.

6. Como você foi parar em uma aldeia indígena com um saco de livros nas costas? É possível se conectar a um mundo tão diferente, se é que ele é tão diferente assim?

Tudo começou com um convite que recebi das minhas primas, Eliane de Cássia Bergo, envolvida nas prefeituras mato-grossenses, e Elaine e Érica Bergo, da área de saúde. Através da FUNAI e da Universidade de Mato Grosso, conseguimos chegar à aldeia dos índios Umutinas, que significa “índios barbados”. Eles vivem numa ilha fluvial entre os rios Paraguai e Bugres, na faixa de transição entre a floresta amazônica e o pantanal mato-grossense. Foi uma viagem divertida e aventureira, acompanhado por meus familiares que vivem em Arenápolis. Tanto a recepção quanto o convívio foram de carinho e atenção. Eles valorizam tudo o que vem prestigiá-los e acrescentar-lhes. No centro da aldeia existe uma escola pública chamada Julá Paré, cujos próprios professores são índios. Fiquei impressionado com a organização social e a educação entre eles. Hoje suas raças estão miscigenadas devido às interligações étnicas. E não ignoram a atualidade. Continuam vivendo em ocas, por exemplo, mas são conectados à rede. Alimentam-se ainda da caça, da pesca e da plantação, mas consomem produtos industrializados. Possuem luz elétrica e até um tipo de saneamento. Usufruem da modernidade tanto quanto nós, estudando em faculdades e adquirindo profissões, mas mantém os seus costumes, preservando a sua cultura. Um dos rituais mais famosos dessa tribo, por exemplo, é o Culto aos Mortos.

7. Chegou a ver o Culto aos Mortos?

Participei um pouco daquele cotidiano “selvagem”, numa versão de Hans Staden do século XXI, mas infelizmente não presenciei o Culto aos Mortos. Estes cerimoniais acontecem na colheita do milho ou no decorrer do ano. Eles festejam com vários eventos tradicionais chamados Lorunó (dança com máscaras de cabelo), Yatáribu (cerimônia com canto), Boiká (iniciação dos arcos), Manixuarê (dança com flautas sagradas) entre outras. Trocam suas roupas comuns por vestes e ornamentos típicos, e pintam seus corpos imitando as escamas de peixe. Porém, os pequenos e jovens indígenas me apresentaram uma tradicional demonstração da dança dos guerreiros, onde só os homens participam.

8. Apresentar O Mistério dos Livros em uma tribo indígena foi uma novidade para eles tanto quanto para você? Por mais que seja um infantil, “O Mistério dos Livros” deve carregar no cerne parte das sombras do autor. Houve um choque de culturas e tradições ou a literatura é mesmo universal?

“O mistério dos livros”, como comentado anteriormente, é um mistério até para mim. Trouxe-me acontecimentos inesperados e me abriu muitas portas. É um livro que promove a descoberta da leitura e desperta a sensibilidade artística. A literatura é universal, como provam os clássicos que lemos eternamente. Um episódio interessante na aldeia Umutina foi quando lhes pedi que escolhessem um desenho do livro para pintarem. Todos optaram pela mesma página, com a gravura inicial da menina Clarice brincando com sua boneca num jardim. Foi minha prima Idaliana quem chamou minha atenção para o fato. Não sei se foi o contato familiar com a natureza ou a simplicidade da imagem em si que lhes interessou. A história é outro elemento que envolve diretamente as crianças. Na Alemanha, antes de lermos juntos, pedi que escrevessem no quadro-negro “de onde vêm os livros?”. E responderam: “do céu (da imaginação que Deus nos deu?), “da editora (que faz os livros?)”, “das árvores (que fabrica o papel?)”, “da bolsa (que guarda os livros?)” e “do autor”. Alguém até escreveu “do Fábio”. Quando apresento minha obra a um público infantil, não há distinção, seja numa favela, num bairro nobre ou numa aldeia. A sintonia é tão grande que as crianças rapidamente querem demonstrar suas habilidades: “olha como eu sei cantar…” ou “veja o meu desenho…” ou “eu também posso contar uma história…”. E há os que revelam gostar de escrever histórias, poesias ou diários, seja na cidade grande, no interior ou numa tribo indígena.

9. A pergunta é obvia, mas inevitável: pensando nos índios e na Alemanha. Você acha que o “mistério” propriamente dito foi diferente para os dois?

Como num espetáculo, nenhuma platéia é igual à outra, portanto as reações são as mais variadas. Certa vez me perguntaram por que a capa do livro era preta, e eles mesmos deduziram que se relacionava ao mistério, ao enigma da trama. Em outra situação, queixaram-se do desaparecimento repentino da boneca da personagem, que só é citada no início. Criança é um público crítico e exigente, talvez até mais que os adultos. Se não convencer ou não ficar claro, reclama. Minha prima de cinco anos, Sofia, estava rabiscando a dedicatória que fiz a ela. Diante da minha advertência para não estragar o autógrafo, ela questionou: mas o livro não é meu? No entanto, todos os públicos são iguais quanto ao fascínio de desvendarem o mistério. Me sinto feliz em mostrar que muitas respostas estão simplesmente dentro de nós mesmos.

10. Sei que você está envolvido agora com a biografia da atriz Gloria Pires. Também fez parte da equipe da biografia “Caio Fernando Abreu – cartas”. Como é o processo de construção de um livro sobre a vida alheia? Vira e mexe, dizemos que a realidade é mais interessante que a ficção. A teoria se comprova em uma biografia desse tipo?

O livro das cartas do Caio Fernando Abreu foi uma experiência gratificante e trabalhosa. O Caio deixou muitas cartas aos amigos e fizemos um rastreamento desse material. O processo inteiro do livro levou dois anos. Engraçado que ele próprio, em uma das cartas, recomenda a uma amiga que publique tudo quando ele morresse. Acabei me envolvendo com o mundo biográfico, que sempre gostei de ler. Entretanto, nada é totalmente biográfico na vida de alguém, como nada é totalmente ficcional numa história inventada. Quando se escreve, seja ficção ou biografia, há um ponto em que o real e a imaginação se confluem. Na literatura nem tudo é verdadeiro e nem tudo é falso. A base da ficção é a realidade e não há realidade sem ficção. Ambos são interessantes para quem gosta de escrever. Uma pessoa me perguntou um dia qual tipo de escritor eu gostaria de ser, e respondi que quero ser um escritor que escreva. Acho que um autor deve escrever de tudo, independente do seu estilo. Não gosto de rótulos nem de limitações. Sobre a biografia da Gloria Pires, o escritor e roteirista Eduardo Nassife me convidou para escrever com ele, em comemoração aos quarenta anos de carreira da atriz. Gloria quer lançar a sua primeira obra editorial abordando a vida pessoal e profissional. Na verdade, será a primeira parte da sua biografia, pois sabe que ainda há muito para viver e fazer. Se antes já gostava do seu talento, hoje, além de um dos seus biógrafos, sou seu admirador também. O resto é surpresa!

Por um cinema sem limite não é um livro para quem nunca estudou ou leu nada sobre o assunto. Ele reúne textos de Rogério Sganzerla que vão da década de 60 até 80, abordando principalmente a transição do cinema clássico para o moderno. Os comentários trabalham, por exemplo, a questão da câmera, da mudança do olhar do diretor sobre o seu objeto, indo de uma visão quase divina para a altura do olho humano. É interessante perceber a evolução da linguagem de Eisenstein a Welles despida de todo o caráter técnico da estruturação cinematográfica e se concentrando na questão da câmera e no modo como o diretor situa seus atores em relação a todos os demais elementos da cena.

“A câmera cínica é a câmera que deixou de participar do movimento dramático, distanciou-se dele; olha-o indiferentemente (…). Com essa distanciação, rompe-se a relação dramática câmera-personagem; obtém-se a visão desdramatizada dos seres e dos objetos, e nessa passagem reintroduzem-se em si mesmos”.

Por um cinema sem limite Vale notar que boa parte dos textos foi escrita antes de Sganzerla filmar O bandido da luz vermelha. Como diz a orelha, é um livro muito mais de revelação do que de argumentação, de acordo com o cinema que o autor defende enquanto fala de seus diretores-referência: Godard, Antonioni, Bresson e Orson Welles, entre outros. Aliás, falar da evolução do cinema é obrigatoriamente falar da câmera de Godard em Acossado e da profundidade de campo de Welles em Cidadão Kane. Os comentários de Sganzerla são muito sucintos, de certa forma caóticos, mas a repetição dos conceitos de um texto para outro ajuda no panorama geral do entendimento.

“A reintegração dos seres e dos objetos na dimensão ocular pode ser exemplificada com o título de um filme de Gordard: Uma mulher é uma mulher. Suprime-se assim qualquer noção adjetiva, como por exemplo ‘a mulher é fatal’, a mulher é misteriosa’, etc”.

Dos 18 textos, os mais interessantes desenvolvem o conceito de câmera cínica (com seu contraponto de câmera clínica escrito quase vinte anos depois), e as definições do que seria um cineasta do corpo e um cineasta da alma, de acordo com o que buscam os diretores em suas próprias obras, se uma história calcada em drama narrativo ou um filme que existe simplesmente para desfrutar sua linguagem.

“Em Acossado a câmera cultua o herói, acompanhando-o por intermináveis caminhadas em travelings e contraplongés sistematizados. Em ‘Viver a vida’ as pessoas, destacadamente a heroína, parecem fugir do aparelho, escapar do domínio da câmera cínica”.

Em tempo: a próxima edição merece uma boa revisão de texto e acertos de capa.

Por um cinema sem limite
Rogério Sganzerla
Editora Azougue
118 páginas.

O livro de fantasia urbana Guardiões da Noite saiu na Rússia em 1998, ano da crise financeira russa que teve reflexos no mundo todo. Foi um best-seller na casa de um milhão de cópias só no país. Em 2004, foi adaptado para o cinema e ganhou novo fôlego mundial. Aproveitando a onda de certo jovem mago que virou fenômeno literário, o livro foi traduzido para diversos países. O Brasil não foi um deles. Comprei-o em espanhol, editado pela Plaza Janes. Excelente edição.

Guardianes de la nocheO protagonista de Guardiões da Noite é Antón, um mago da Guarda Noturna, por isso o título Guardián de la noche. Ele é um Outro. Assim são chamados os humanos que têm dons mágicos e conseguem entrar nas várias camadas do Crepúsculo (nada a ver com a série vampiresca adolescente) e ver as coisas como realmente são. Quando um Outro é descoberto pelos guardiões, ele precisa decidir se atuará pela Luz ou das Trevas. O estado de espírito do Outro no momento do seu primeiro contato com o Crepúsculo é fundamental nessa escolha. Medo e raiva ajudam o pêndulo a tender para as trevas, por exemplo. Os vampiros, seguindo o modelo clássico, servem às trevas. Como existe um pacto entre a Guarda Noturna e Diurna, eles não podem morder quem bem entendem. Pelo menos em teoria. Existe uma taxa mensal de mordidas liberadas e controle até com selo de garantia. Nem o mundo mágico escapa dos processos burocráticos e jogos de poder, uma das boas piadas do livro. Já metamorfos em geral podem servir aos dois lados. Um dos mais interessantes do livro se chama Tigrecito e obviamente se transforma em tigre. Ele é um dos mocinhos, na verdade mocinha. Atua como um dos soldados na hora da batalha e sustenta um ar de “eu tenho um segredo” que você certamente já viu por aí em outras histórias. Apesar da ampla variedade de criaturas que Sergey Lukyanenko apresenta ao leitor, o livro se concentra em magos e feiticeiros, muito velhos e manipuladores.

Guardiões da Noite não mostra exatamente uma luta entre o bem e o mal. A Guarda Noturna e Diurna se vigiam mutuamente para manter um equilíbrio, e os dois lados são cheios de artimanhas, o que faz da área cinza um grande tabuleiro de xadrez. Nada impede que o protagonista Antón seja amigo de dois jovens das trevas, ou que o chefe da luz manipule as situações em causa própria. Esse limite tênue é trabalhado o tempo inteiro e ajuda a compor o charme do livro.
Guardiões da Noite não segue a estrutura dramática convencional. Ele é dividido em três unidades, que funcionam como novelas com início meio e fim.

“Yo hacía muchos años que había dejado de interesarme por esos juegos, como la mayoría de los agentes de la Guardia. Matar monstruos en una pantalla pierde todo su atractivo cuando comienzas a encontrártelos por todas partes. Tal vez Olga, que había acumulado una enorme carga de cinismo en el siglo y medio que llevaba dedicada a nuestros menesteres, constituyera una excepción”.

A primeira é divertida, tem muito humor e aproveita o sabor de novidade para fazer uma apresentação cheia de “efeitos especiais”, deixando claro quais são os poderes de cada personagem. É o típico começo para fisgar o leitor. Funciona. A segunda unidade me surpreendeu positivamente por mudar os rumos da história e aumentar a carga dramática. Também tem algo de Agatha Cristhie no aspecto investigativo que ajuda a manter o ritmo da trama através do suspense. Ao mesmo tempo em que tenta provar sua inocência, Antón precisa encontrar o verdadeiro autor de uma série de assassinatos. Os Guardiões da Noite acham que o culpado é um Outro da Luz que se acha um verdadeiro cavaleiro vingador e mata os Tenebrosos que vê pela frente, indiscriminadamente. O problema é que a maioria dos Tenebrosos tem famílias inocentes que sofrem com as mortes, causando um desequilíbrio na balança.
A terceira unidade é muito filosófica e o psicológico dos personagens ganha mais importância do que a trama em si. Sai a ação, entram a conversa e os dilemas morais do protagonista, que não sabe mais se é um legítimo representante da Luz. Seria interessante se não coincidisse com o clímax do livro, o que me deixou meio cansado em um momento em que a adrenalina seria bem-vinda.

Lukyanenko é um bom criador de personagens. É difícil ter antipatia pelo mal ou confiar totalmente no bem. Exceto por momentos desnecessários sobre os limites entre o bem e o mal, o texto flui rápido. Só faltou mesmo um grande clímax na história, resultado talvez de sua estrutura diferenciada. A impressão no fim das contas é que o livro serviu como um grande trailer para o restante da série (o quarto livro saiu recentemente).

Em tempo1: o livro seguinte, Guardiões do Dia (The Day Watch), também foi adaptado para o cinema.

Em tempo 2: Guardiões da Noite, Guardianes de la noche, The Night Watch.

O livro Gomorra foi escrito por Roberto Saviano, atualmente jurado de morte pela máfia italiana chamada Camorra. O Sistema, como a Camorra é conhecida entre os membros, é considerado um dos grupos mafiosos mais fortes e influentes do mundo, com negócios por toda a Europa e parte da Ásia, importadores de drogas vindas da América do Sul e com conexões nos Estados Unidos. A brincadeira entre os nomes Gomorra e Camorra é evidente, mas a escolha também se explica em um dos últimos capítulos, quando Saviano conta a história de um padre que resolveu enfrentar os mafiosos. O autor viveu na região de Nápoles, o que possibilita uma visão bem singular dos fatos, uma chance em mil. Ele era próximo de alguns personagens camorristas do livro, cresceu ouvindo as histórias sobre a violência do grupo e vivenciou várias delas. Seu pai, por exemplo, foi espancado por tentar salvar uma das vítimas da Camorra, que acho sangrando em uma estrada. Trabalhava em ambulância, o ferido precisava de ajuda. Ele o levou para o hospital. O certo seria esperar os assassinos voltarem e terminarem o serviço, para só então recolher o corpo. O livro fala muito dessas leis invisíveis que não competem ao estado, mas ao mundo do crime. Todos sabem quais são e quebrá-las tem conseqüências graves, o que explica a falta crônica de testemunhas para crimes de assassinato.

GomorraAproveitando que os clãs da Camorra são verdadeiras máquinas capitalistas e têm negócios dos mais diversos, Saviano divide o livro de acordo com suas áreas de atuação e momentos importantes da história da máfia, como guerras internas ou prisão dos chefões. O leitor fica sabendo que os vestidos das grifes italianas que circulam por todo mundo e vestem as atrizes de Hollywood são feitos em fábricas clandestinas controladas pela Camorra. Que o cinema influenciou muito mais a máfia do que a máfia o cinema. Que o sul da Itália é um verdadeiro aterro de lixo tóxico e dejetos perigosos, contaminando as terras e o ar a ponto de elevar em 20% o câncer na região.

“Quando uma bala chega, você cai no chão e não respira mais, abre a boca e puxa o ar, mas não entra nada. Não consegue mesmo. São como socos no peito, que parece que estouram. Mas depois a gente se levanta e volta tudo ao normal, e isso que é importante. Depois da queda, você levanta”.

Quem espera algum glamour, esqueça. Nesse ponto filme e livro são coincidentes. Esse não é um romance de Mario Puzo, como o filme também não é Cidade de Deus. A máfia que conquista os jovens napolitanos é uma máquina de fazer dinheiro para os que têm tino comercial e uma máquina de fazer cadáveres para os que só sabem puxar o gatilho. Não há um esforço de Saviano para empurrar um livro em uma só direção. Ele destaca tanto a crueldade quanto o ridículo das situações, tanto a ausência do estado quanto a luta dos carabinieri. A realidade é plural e assim ele a retrata, por mais surreais que possam parecer certos acontecimentos.

“As grifes da moda italiana só começaram a protestar contra o grande mercado das falsificações, gerido pelos cartéis de Secondigliano, depois que a Antimáfia descobriu todo o mecanismo. Até então, não tinham planejado nem mesmo uma única campanha publicitária contra os clãs, nunca tinham feito denúncias (…). Denunciar o grande mercado significava renunciar para sempre à mão-de-obra barata que utilizavam na Campânia”.

Das histórias do livro, duas me chamaram mais atenção. As menos sangrentas e mais cinematográficas. Um jovem bebendo no bar ainda em estado de êxtase por ter experimentado pela primeira vez um AK-47. Seu encantamento é tanto que ele consegue férias de um mês na Camorra para viajar até a Rússia para conhecer Kalashnikov, o inventor da arma. Leva uma mozarela para o velinho, presente do chefe do clã, e volta com dezenas de fotos autografadas para distribuir aos conhecidos. Lá na casa de Kalashnikov, pelas paredes, fotos de crianças que foram batizadas com o nome de seu invento ou corruptelas do mesmo. Uma homenagem dos pais ao invento que mais matou pessoas no mundo, mais do que a AIDS ou desastres naturais, segundo o autor.

“Quando alguém vê tanto sangue pelo chão, começa a apalpar-se para conferir se não está ferido, se naquele sangue não está também o seu; inicia-se uma ânsia psicótica para assegurar-se de que não se está machucado. E mesmo assim não se acredita que um só homem possa ter tanto sangue, pois seguramente o seu próprio corpo possui muito menos”.

A outra história, na verdade um breve parágrafo, fala da apreensão da Camorra quando veio o tsunami. O maremoto revelou “centenas de tambores entupidos de detritos perigosos ou radioativos” enterrados pela Camorra nas praias da Somália nas décadas de 1980 e 1990. Foi supostamente a necessidade de ajuda humanitária que desviou a atenção da mídia para o ocorrido. Força dos fatos comentada, vale dizer que Gomorra também tem um lado mais literário que Saviano deixa escapar em alguns começos ou términos de capítulo, e desse aspecto não gostei.

O autor usa de metáforas desnecessárias para ter certeza de que o leitor entenderá o drama. Quando passa os dedos na marca de bala do AK 47 na vitrine de uma loja, por exemplo, ele faz uma comparação mais ou menos assim: como um verme entrando e saindo dos buracos. Essas e outras figuras imagéticas acabam sendo infantis diante da força do relato. Para mim, a parte pseudo-poética foi entediante e podia ter economizado algumas folhas ao livro. Veja só:

“Dom Peppino escavou uma trilha na encosta das palavras erodidas pelas escavadeiras da sintaxe, aquela força que a palavra pública, pronunciada claramente, podia ainda se permitir”.

Livro e filme têm uma diferença importante: no filme, as artimanhas de roteiro e direção foram descartadas para que não haja um clímax vindo da linguagem cinematográfica. Nem diretor nem roteirista dizem em que cena ficar mais ou menos chocado. Quando respirar ou se desesperar. Existem as imagens, pedaços de história, e nada mais. Se há algum clímax, é o espectador que irá determiná-lo. Quem vê escolhe sua cena mais forte. No livro, Saviano tenta mostrar ao leitor o que é mais impactante. Talvez seja um reflexo verdadeiro do que o afetou mais profundamente, mas que atrapalha o andamento da leitura. É como dizer “morreu uma menina de quatorze anos. Quatorze anos. Quatorze!”, como se as outras mortes não fossem relevantes. É provável que os que acharam o filme monótono gostem desse artifício. Não foi o meu caso.

“O melhor modo de esconder as armas é mantê-las nos quartéis. (…) os fuzis, dessa vez, vinham empilhados em caminhões militares que ostentavam nas laterais o símbolo da OTAN. Grandes carretas roubadas das garagens americanas que, graças àquela inscrição, podiam rodar tranquilamente pela Itália”.

Concluindo, Gomorra é um livro fundamental para decifrar a mecânica do crime organizado e que ajuda muito a entender as entranhas do capitalismo global. Talvez tão relevante quanto O mundo é plano, de Thomas Friedman.

A revista Portal surgiu graças a uma iniciativa do Nelson de Oliveira que, mais e mais, vem se aproximando da literatura fantástica ou ao menos se assumindo como tal. É tecla que sempre bato e engraçado usar o termo assumir, mas a ficção-científica e a fantasia sofrem de um preconceito antigo dentro do meio literário, então o termo cai bem. É costume dizer que as editoras ainda estão descobrindo o fantástico, mas aí estão Harry Potter, Crepúsculo e as obras de André Vianco, todos extremamente lucrativos, para mostrar que as editoras não só conhecem o fantástico como também o seu potencia de retorno.

A que tenho em mãos é o segundo número de seis portais, a Portal Neuromancer. Cada uma das revistas homenageará uma obra importante da ficção-científica. A primeira se chamou Solaris, os próximos serão Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A obra não é comercializada em livrarias e cabe a cada autor presentear os amigos com os exemplares que possui (ou reservar uma parte para vendas diretas).

Esse número traz contos de Fábio Fernandes, Roberto de Sousa Causo, Geraldo Lima, Ataíde Tartari, Marco Antônio de Araújo Bueno, Lima Trindade, J.P. Balbino, Rogers Silva, Tiago Araújo, Jacques Barcia, Luiz Bras e Ana Cristina Rodrigues, com a coordenação editorial do Nelson de Oliveira.

Portal Neuromancer Engraçado que dia desses lia o jornal Rascunho de dezembro e esbarrei com um conto do Luiz Bras, uma ficção que começa assim:

“Aos sete anos eu encontrei a máquina do tempo estacionada bem no centro do quintal de casa. Ela não era feita de metal e plástico e vidro e fios e botões. Ela era feita de luz e sombra e música e perfume e bolhas de sabão. Eu viajei muito nela. Depois eu cresci, a máquina do tempo desapareceu e eu percebi que essas engenhocas maravilhosas surgem apenas para as crianças”.

Luiz Bras é pseudônimo do Nelson de Oliveira. Um pseudônimo capaz de colocar ficção-científica no jornal literário do país, viajar no tempo quando criança e criar agitos literários com essa nova revista. Vamos a ela.

Sem uma ordem definida, fui direto aos nomes que conhecia e resenho uma parte. Ana Cristina Rodrigues participou com o conto O Templo do Amor e me agradou bastante o fato de não ser uma repetição conceitual do seu conto na revista Terra Incógnita. A linguagem é diferente, o clima é diferente, possui uma identidade própria. Conta a história de um matador, um dos melhores de todo o universo, que um dia precisa matar a sacerdotisa do templo do amor, curiosamente uma ex-amante. A Ana Cristina sugere que os homens, espalhados pelo universo, fizeram renascer o paganismo, mas ao invés de cultuar deuses, cultuam forças: destruição, amor, ódio, morte e vida. Daí a morte ter que enfrentar o amor. Mudam os nomes e as vestes, mantém-se o fanatismo. A boa sacada é fazer o matador ser contratado por uma mulher que quer ser sacerdotisa do amor para matar a atual ocupante do cargo. Nem o amor resiste à política.

“O advento das máquinas e de uma civilização universal trouxe de volta certo nível de obscurantismo. Deixamos a prisão de vivermos em um único sistema solar, mas voltamos a nos abrigar na sombra de religiões múltiplas. (…) As sensações guiavam a humanidade como faróis corruptos”.

Luiz Bras (!) participa com Aço contra osso, foneticamente reverberante e de certo modo síntese do embate homem x máquina, realismo x ficção. Nele o protagonista se vê diante de trinta e um clones seus. Ele precisa descobrir qual deles comanda os demais, como nas brincadeiras de criança sentadas em roda, com uma iniciando os gestos que as demais imitarão e com alguém vindo de fora para tentar adivinhar quem é o chefe. O primeiro confronto se passa em uma grande catedral, uma equação matemática a ser resolvida para que se entenda quem afinal é o líder. Me chamou atenção a capacidade de Bras de através de figuras de linguagem dar ao seu cenário uma força tridimensional. A conversa entre gato e rato é o de menos, enrolação. A resposta é sempre matemática. Uma evolução do Playstation movida a filosofia. Tem ecos de Spider, do Cronenberg.

“As outras cópias passeiam pela catedral admirando as obras de arte, tentando tocar a luz colorida que atravessa os vitrais, acendendo as velas apagadas pela brisa perfumada. Enquanto isso eu penso: qual deles?”.

Jacques Barcia participa com dois contos: Meu nome é interno e Pequeno punho do outono. Gostei mais do segundo devido ao ritmo singular do texto, essencial para a ambientação oriental ligada a monges guerreiros e a práticas de Chi Kung, exercícios que tem a ver com a circulação de energia pelo corpo. Jacques dialoga com as fábulas orientais, falando de inspiração e poesia. Enquanto o mestre conta a história, a personagem Brisa Leste faz o treinamento de Chi Kung, passando por dificuldades e superações. As histórias paralelas foram uma boa solução para mostrar o (des) equilíbrio entre mente e corpo. Forma e conteúdo bem integrados.

“Ela cruzou os pés novamente e se agachou, o joelho esquerdo apenas pouco acima do solo, depois socou e defendeu com harmonia. Ela dançava e sentia mais uma vez o arrepio do chi. Partiu da nuca, percorreu a espinha e deixou as mãos em brasa, até ser liberado numa explosão de luz esverdeada”.

Missão especial, de J.B. Balbino, é uma carta escrita por um marinheiro ao seu almirante, relatando o contato que teve com uma nave espacial e um alienígena. É o conto mais tranqüilo de se ler, não exige demais do fôlego do leitor e tem como compromisso contar uma boa história. A escrita me atraiu mais do que a trama, mas considero parada obrigatória da revista. O jeito como o autor transmite os sentimentos do marinheiro, um discurso ainda anestesiado pelo ocorrido, vale o texto. Para melhorar, como é um relato em primeira pessoa, cabe ao leitor acreditar ou não no depoimento. Traumatizado ou assassino mentiroso?

“Pelas onze horas da noite, o primeiro fato estranho aconteceu. Na ocasião conversávamos eu e o tenente, próximos à proa, quando subitamente um nevoeiro nos cobriu. De início não fiquei assustado, pois nevoeiros são comuns em viagens como aquela, mas, junto com a névoa branca, percebi que o ar ficou mais pesado”.

Do Lima Trindade gostei muito de Fim de linha. O personagem Nelson entra em um ônibus e dorme. Quando acorda está em uma espécie de lugar nenhum, onde todas as casas são as mesmas, todos os quarteirões são iguais. O autor descreve uma clareira, o personagem supõe o ônibus quebrado na tentativa de entender o que mais está fora da ordem em sua vida. Não bastassem os problemas pessoais, agora estava lá, em um lá que não era real. Nesse retrato do vazio, pintado com jeitão de ficção, Nelson encontra outros personagens, pergunta, quer saber, mas ninguém fala nada. No império do desânimo, a máxima expressão é uma lágrima no rosto. A falta de entendimento faz Nelson mergulhar cada vez mais no obscuro cenário em que se encontra. Uma boa surpresa esse conto sobre a incomunicabilidade humana.

“Despertou com a sensação do corpo formigando e a surpresa de não estar mais em movimento. As sombras lentamente abandonavam seus olhos, recaíam tímidas nos assentos. Percebeu-se só. Primeiro, o sentimento de embaraço. Depois, o esforço para localizar-se. (…) Levantou. Ainda não escurecera totalmente, tudo se afigurava sem contornos, apagado, fugidio”.

Ataíde Tartari participa com O triângulo de Einstein, a história de um triângulo amoroso criado por um rasgo no tempo e no espaço. Dentro de uma nave, o autor narra várias etapas de um relacionamento. Um casal, o aparecimento de outra mulher, as escolhas, o erro, a briga e a solidão. É o tipo de conto que é mais interessante lido do que comentado, porque o processo de criação em si faz parte da proposta. O ar nonsense também ajuda na composição.

“Naquela primeira noite do reencontro com Anya, Áster ampliou sua cama juntando outra ao lado, colocou champanhe num balde de gelo sobre a mesa de cabeceira e providenciou uns biscoitinhos que imitavam morangos. A cortina e a cama de Esther continuavam no mesmo ambiente, mas sobre isso ele nada podia fazer. Por sorte ela estava no observatório quando os gemidos de Anya ficaram mais altos”.

Para fechar, o conto Director’s cut de Fábio Fernandes. Por ser cinéfilo e roteirista sou suspeito para dizer que gostei, mas como nunca declarei imparcialidade digo mesmo assim. O Fábio faz a seguinte brincadeira: Paulo Emílio, o protagonista, assiste a O coração das trevas, de Orson Welles, baseado no livro homônimo de Joseph Conrad. O livro é para muitos uma obra-prima e Orson Welles é ninguém menos que o diretor de Cidadão Kane, filme que vira e mexe ganha o título de melhor da história do cinema. O detalhe? Esse filme nunca existiu. Mas está lá, na cinemateca onde ele trabalha, bonitinho no arquivo, com créditos no final e tudo mais. Durante o conto aparecem outros filmes dos sonhos e a graça é mesmo essa. Que filmes gostaríamos de ver que nunca foram realizados? Que diretor ou ator escalaríamos para um texto que não nos sai da cabeça? O que faltou na filmografia de Kubrick? A contrapartida é ter que substituir uma das obras da filmografia real, afinal o espaço do arquivo é limitado. Como o texto tem uma escrita simples, a leitura voa. Cabe ao leitor juntar as peças no final e tentar entender o que Paulo Emílio realmente descobriu nos corredores da cinemateca.

“Quando sai da sala de projeção da Cinemateca, é tarde. Tranca a porta e leva a chave. Caminha devagar, sentindo o ar abafado do verão carioca. Está louco para chegar em casa e tirar o terno, mas o que acaba de ver é no mínimo desconcertante”.

É cedo para dizer o que a revista Portal vai representar ou se vai conseguir romper fronteiras e apresentar a faceta mainstream à da ficção e vice-versa, mas inventar o futuro não parece ser problema para nenhum dos participantes.

Nos eventos literários que acompanho e no papo na mesa dos barzinhos (muitas vezes mais interessante), é comum o pensamento de que a literatura está mudando, não se sabe muito bem para onde. Estamos no meio de um óbvio processo de transição. Geralmente o papo surge quando se fala do fetiche do papel. Será que a literatura que importa é só a publicada? Não há nada de bom na Internet e tudo que é publicado é bom? O livro continuará sendo de papel para sempre ou cederá seu lugar para o baratíssimo pdf? O mercado de audiobooks que cresce nos EUA terá algum reflexo no Brasil? Essa é uma conversa que para mim soa velha, desculpe se para você também, mas é importante repeti-la porque ainda há quem brade contra essa coisa entranha chamada Internet. Já li artigos jornalísticos falando mal da Wikipédia e soube de uma professora que obrigou os alunos a fazerem de próprio punho para evitar o famigerado copy e paste possibilitado pelos computadores. São sinais evidentes de um sentimento de “estamos perdidos”. De repente o colecionador de Barsas passou a ter chances de fazer um bom trabalho que são equivalentes à de qualquer pessoa conectada à Internet. Não é mais uma questão de quem detém o conhecimento, mas sim de quem sabe procurá-lo, peneirá-lo e interpretá-lo.

Na literatura a questão primordial ainda são os blogs. Então você também é escritor? Droga! Mas esse era o meu diferencial intelectual. Preciso arrumar outro jeito de provar minha superioridade. E lá estou em papel. Publicado. Você, só de blog não é nada. Mas não existe só blog. Hum. Existem revistas virtuais, e-zines, com um editor por trás. Além disso, o Paulo Roberto Pires tem blog, o Charles Stross tem blog, o Sergio Rodrigues também. Se eles publicarem contos nesse espaço serão menos literatura do que no papel? Existem editoras on demand que imprimem seu cartão de visita literário de trezentas e poucas páginas com capa colorida. Droga! Mas eu, eu… eu sou publicado. Eu até tenho um blog, mas o que faço ali não é literatura não, veja bem, meu amigo, é só uma coisinha aqui que escrevo para passar o tempo, meu trabalho mesmo está no estoque de uma grande editora, encalhado, mas o que vale é a palavra grande do ladinho de editora. Mas uma editora pequena recém criada ganhou o prêmio Açorianos. E então? E os conceitos continuam a se mesclar, cada um tentando defender seu sucesso através de n fatores que geralmente não passam pela qualidade do texto. A qualidade. Às vezes e só às vezes a gente se esquece dela.

Esse lero todo para dizer que não sei quando começou a transição, mas sei que de agora em diante estaremos sempre dentro dela. As mudanças acontecendo rapidamente e as novidades alterando o rumo das mudanças. Não há um final a ser visto da janela na ponta dos pés. O fato é que o virtual e o real colidiram, se misturaram. A parede cheia de CDs e livros virou um HD cheio de mp3 e pdf. O virtual é além de tudo um imenso banco de dados e a literatura presente nele deve ser avaliada com os mesmos pesos e medidas que a literatura em papel. Afinal, Borges lido em um site não vale menos do que Borges editado.

Por sorte, nem todo mundo se desespera aumentando a cerca para proteger seu território. Não só há produção literária como também estímulo para que autores ainda inéditos em papel se aventurem no mundo da escrita. Uma das iniciativas mais interessantes nasceu recentemente no Orkut na comunidade de ficção científica e foi batizada de Prêmio Bráulio Tavares. Sob a batuta de Ana Cristina Rodrigues, a atual presidenta do Clube de Leitores de Ficção Científica, foi organizado um concurso em que os membros da comunidade enviaram contos sob pseudônimos e votaram seguindo regras, elegendo assim os vencedores. Os melhores contos da edição anterior saem em 2009 em papel, em um intercâmbio que devia ser mais explorado pelas editoras.
O Prêmio Braulio Tavares 2008 contou com os votos da comunidade e também de jurados escolhidos pela Ana Cristina, entre eles editores e pessoas importantes no cenário literário da ficção científica brasileira. Foram vinte e um contos e doze mini-contos inscritos. Comento abaixo os cinco primeiros lugares do concurso de contos, que também incluem os 3 eleitos dos jurados.

Muito depois da primeira bomba, de Leonardo Lemos, tratou de um assunto bastante explorado na ficção-científica, mas soube fazer a sua graça. Aproveitando a explosão da primeira bomba atômica, Leonardo situa o leitor no deserto, passa o encanto dos cientistas e a sensação de deslumbramento anterior aos desdobramentos bélicos reais. Interessante que ao quebrar a ambiência do passado citando as mortes que viriam pela frente, o autor faz um jogo com uma perspectiva tomada do futuro que tem tudo a ver com a história.

“Dias mais tarde, o mesmo diretor declararia à imprensa que após a explosão, veio-lhe um trecho do Bhagavad Gita à mente: Agora sou a morte, destruidora de mundos. Foi mesmo. Para 150.000 pessoas após alguns dias, para 340.000 pessoas após alguns anos e somente o futuro poderia dizer quantas pessoas mais morreriam depois”.

Depois disso, o leitor é apresentado a Bernard Brewer. Responsável por estudar as propriedades do plutônio, ele recebe a missão de analisar um fragmento de rocha contendo um material vítreo estranho achado na região da explosão. O conto segue seu ponto de vista, se apropriando de vocabulário analítico, com direito a superfície porosa, estereomicroscópio, caracterização mineralógica e tudo mais. Aos poucos se percebe que a história não girará em torno da bomba e de suas proporções assombrosas, mas sim daquele corpúsculo minúsculo, ironicamente muito mais importante para o pesquisador e para a narrativa. É projeto para Discovery Channel nenhum colocar defeito.

“Assemelhava-se a vidro derretido, translúcido e esverdeado, tendo provavelmente se formado através da fusão de elementos do solo do deserto, causada pela elevadíssima temperatura da explosão. A olho nu, os fragmentos pareciam placas, com uma superfície lisa e a outra altamente irregular”.

Fora os dois primeiros parágrafos truncados, o texto flui bem até o fim e consegue retratar de maneira crível a sensação do profissional da área de pesquisa diante do inusitado.

Marcelo Augusto Galvão, autor de Vida e morte do último astro pornô, escolheu um caminho diferente, usando de modo preciso o tempo peculiar do humor. Sua história brinca com a indústria de entretenimento e de certa maneira potencializa o atual cenário de celebridades baratas, levando-o às últimas conseqüências. Esqueça Laranja Mecânica, Tubarão ou Acossado, os clássicos do cinema são filmes pornôs, e seus participantes são idolatrados.

A introdução é um trecho de A história informal da pornografia do século XX:

“(…) A Era de Ouro do Cinema Pornô é o período compreendido entre o final dos anos 60 e começo dos 80 em que o pornô se consolidou como um gênero cinematográfico legítimo. Películas como ‘Garganta Profunda’ (1972), ‘O Diabo na Carne de Miss Jones’ (1973) e ‘A Décima Musa de Apolo’ (1976) tinham roteiros e atuações convincentes – algo inimaginável hoje em dia – e eram resenhadas nos cadernos culturais dos grandes jornais, acabando por atrair um público sofisticado bem diferente das figuras que freqüentavam as sórdidas salas especializadas em ‘filmes de sacanagem’”.

Como indica o título, o conto narra a história de Nick Richards, ou Nick Dick, no fundo do poço, já na sombra de seus áureos tempos. Quando oferecem a ele um papel que pode recolocar sua carreira nos eixos, Nick se vê em uma situação limite, perturbadora até para ele, e graças a uma seqüência de incidentes, acaba se tornando um grande herói.

“Betty Boobie esteve aqui hoje. Quase não a reconheci, estava sem maquiagem, usando um vestido preto que ia das canelas até o pescoço, cobrindo aqueles peitões dela. Disse que encontrou Jesus (…)”.

O forte do conto é brincar descaradamente com a indústria de sexo e os conceitos de arte. A boa e velha discussão sobre a tecnologia diminuindo o número de empregos (alguém se lembra das aulas sobre mecanização da lavoura?) ganha aqui outros contornos, com os robôs ocupando as vagas até dos atores pornôs. Excelente utilização do tempo do humor em benefício da estrutura narrativa.

O homem bicorpóreo, de Hugo Marcel Vera, muda o clima para o uso de psiônicos pelo exército a revoltas separatistas em colônias de Marte. Aí no meio, uma história de contexto político, de como fatos podem ser ocultados do grande público e da mídia. A personagem de maior empatia é Dra. Helena Corelli, responsável pela pesquisa com os psiônicos. A história é contada através de uma conversa dela com o Primeiro Ministro e gira em torno de idéias para resolver as revoltas. Infelizmente, a pessoa mais indicada para acalmar os rebeldes, o governador Cláudio Texeira, sofreu um atentado. O jeito é usar os recursos científicos disponíveis para fazer o povo acreditar que ele continua bem e que é ele quem faz os discursos pela paz. É para Elvis e Osama nenhum botar defeito.

“— Mantemos sua imagem sempre presente na mídia local. Escrevemos seus discursos, que são lidos pelo próprio Governador, e enviamos à imprensa em holofilmes. Evidentemente a imprensa recebe um arquivo onde somente o áudio da voz pertence ao Governador. As imagens do holofilme são animações gráficas em 3-D baseadas em imagens de arquivo. O resultado final é perfeito”.

O mérito da história é conseguir acender a centelha de uma mitologia complexa mesmo com as limitações de tamanho de um conto. Psiônicos são sempre bem-vindos na literatura fantástica e aqui foram bem utilizados. Também vale ressaltar a qualidade da escrita, que não recai no exagero de adjetivos que costuma poluir textos de novos autores.

Já Rodolfo Londero optou por uma brincadeira literária. 500 anos de Edgard Rice Burroughs conta a história do autor do clássico futurista Uma princesa de marte, lido por 10 entre 10 extraterrestres. O conto é narrado por um desses extraterrestres. Ele não se conforma que um clássico possa ter sido escrito por um povo tão atrasado e que curte autores de péssima qualidade como James Joyce e Virginia Woolf. É uma boa inversão de parâmetros que nos lembra do papel da pluralidade do olhar na literatura. Aquela conversa de que parâmetros determinam uma grande obra.

“Ainda me lembro quando Uma princesa de Marte chegou entre nós. Eu tinha apenas 119 anos e as viagens espaciais para a Terra haviam recém iniciadas. Não nos apresentamos imediatamente para os humanos, pois queríamos conhecer sua política e sua cultura antes de qualquer ação. Então, infiltrados, coletávamos tudo que achávamos interessante: aparelhos portáteis, placas de trânsito, dicionários, etc. Até que um dia alguém coletou uma edição de luxo da obra-prima de Burroughs (mais tarde iríamos descobrir, indignados, que os romances do mestre foram impressos originalmente em revistas de papel barato)”.

Não foi um tema que me atraiu tanto, mas também é um texto bem escrito. Do tipo que se lê de uma vez só. O plágio que os extraterrestres tentam fazer de Uma princesa de Marte já vale a leitura dos fãs de ficção-científica.

Para encerrar a resenha, Aguinaldo Peres e O caso Floret.
O conto começa descrevendo o lugar onde está Floret preso. O autor poderia ter se detido um pouco menos nos detalhes técnicos da ambientação e aproveitado melhor essa parte. É só quando Floret vai conversar com o advogado que a história começa para valer. O advogado pede que ele conte tudo que aconteceu no dia do fatídico episódio, nos deixando a par de seu drama.

Floret foi preso por agredir um funcionário no terminal da versão futurista do metrô de São Paulo. Motivo? Burocracia misturada com falhas tecnológicas. Nada de conseguir passar na catraca. Imagine ter que lidar com a agência de vigilância sanitária e um erro fatal do Windows ao mesmo tempo. É mais ou menos por aí.

“Ele acorda com a voz genérica dos sistemas públicos. Um nicho se abre na parede, na bandeja um copo médio de leite e um pequeno de café, saches de açúcar, torradas e um sanduíche frio embalado a vácuo. O homem despeja dois saches no café e o bebe para empurrar o sanduíche insípido garganta a baixo”.

A idéia de Aguinaldo me lembrou a burocracia labiríntica de Kafka em O Processo e foi a história que mais me agradou, talvez por uma questão de comiseração e identificação com o personagem. Quem já teve que subir e descer infinitamente de um andar para outro dentro de algum cartório ou tentou convencer um funcionário público de que não, o CPF não está na lista de documentos solicitados na Internet, sabe do que estou falando. Uma boa história sem final feliz.

Os contos vencedores não foram colocados em um arquivo separado, mas quem se interessar pode baixar o pdf do concurso com todos os inscritos e dar uma olhada. Como estão sob pseudônimo, procure pelo nome do conto. Ficção científica pura.

O ambiente acadêmico é extremamente engraçado para quem sabe olhar. Para os alunos que querem passar pela universidade o mais rápido possível e ficam desesperados ao esbarrar com cálculos e físicas, talvez não tenha tanta graça assim. Mas para os que convivem mais de perto com professores, participam de projetos de iniciação científica, vivenciam o atraso das bolsas, as eternas disputas de egos, o brilho extra dos dentes de quem termina um mestrado, a universidade é quase um palco de comédia em pé.

Curiosamente, guarda muitas similaridades com o mundinho literário.

O professor de botânicaComo Samir Machado de Machado adotou uma abordagem mais intimista para sua novela, por vezes melancólica, deixando a graça para as sutilezas e para o reconhecimento das situações que variará de leitor para leitor, não posso dizer que O professor de botânica seja um livro de humor. Ainda assim, por ter vivido nesse ambiente com intensidade no riso, arrisco dizer que além das ironias e cutucadas no ranço acadêmico, Samir adota aqui e ali um quê de humor negro inesperado muito bem-vindo.

E agora do começo.

A noveleta conta a história de um professor de botânica de valores antigos, desses que poucos simpatizam e que fazem questão de que seja assim. Seu gosto em exibir a excelente memória para coisas relevantes apenas para ele é provavelmente o maior sinal de seu pensamento ultrapassado. Se ontem decorar era uma questão de sobrevivência e parabenizávamos até quem sabia data de aniversário de cabeça, hoje em dia agendas eletrônicas e o Google pedem do ser humano outras qualidades. Eduardo Rotgeller, o professor, tem um cabedal de manias. É fanático pelo botânico viajante Saint-Hilaire, que passou pelo Brasil e descobriu algumas espécies, enviando bastante material coletado para o exterior. Mora sozinho cercado de livros antigos e empoeirados. Tem de Saint-Hilaire um exemplar em francês para mostrar aos amigos e um em português para ler. Detestar que errem a pronúncia do seu nome e já chegou a devolver o trabalho de um aluno pelo erro na capa.

“Aquele ali é um tipo difícil, cheio de manias, insuportável e rabugento. (…) Ele tem uma opinião formada sobre tudo, até sobre o que não conhece, e é daquele tipo de pessoa que acha que sua falta de conhecimento sobre algo elimina o conhecimento que outros possam ter sobre aquilo”.

Rotgeller, claro, é um homem solitário. Viúvo, divide o tempo entre as aulas e sua estufa de orquídeas. Suas companhias, e coloquem aí algumas aspas, são a empregada que nunca vê e o estagiário Guilherme. A empregada anterior se demitiu quando a patroa morreu, satisfeita por não ter mais que aturar Rotgeller. Os estagiários anteriores parecem não ter durado muito tempo. Guilherme é uma exceção à regra e por um motivo não muito nobre. Ele não gosta de botânica, só insiste para não ter que dizer aos pais que largará outra faculdade. E tem também a bolsa, uma fonte de renda garantida.

Quer dizer, nem tanto.
Dinheiro é um assunto delicado em pesquisa. É grande a disputa pelo orçamento apertado. Rotgeller conquistou o direito de ter um estagiário graças ao bom currículo e aos artigos publicados. De repente, precisa entender que não é o único no mundo. O reitor dá uma explicação rápida. Corte de verba. Outro professor, com projeto de pesquisa parecido, vai dividir a grana com Rotgeller. Como o outro já tem estagiária (e é parente do pró-reitor), o velho botânico precisará abdicar de seu pupilo e agüentar a situação.

“Rogério Mourão era a mente mais tacanha de toda a faculdade. (…) Podia imaginá-lo sendo a criança mais inteligente do seu meio, o que, considerando o meio, não deveria ser difícil. E, então, em algum momento de sua vida, foi convencido de que era de fato inteligente, quando, na verdade, devia ter uma inteligência normal, os outros à sua volta é que eram ignorantes mesmo”.

Ver seu mundinho de regras próprias sacudir não faz nada bem a Rotgeller. Ele passa a ter o desejo de deixar sua marca para a posteridade através de uma glória que seja sua, mas possa ser reconhecida pelos demais que tanto despreza. É a história de se sentir tão superior e não se livrar da necessidade de provar a superioridade. O modo que escolhe para isso é encontrar uma nova espécie. Assim como seu ídolo desconhecido Saint-Hilaire, Rotgeller quer batizar uma planta com seu nome.

Infelizmente, sua grande chance, última tacada, se dará em uma viagem na companhia de Mourão, o professor com quem teve que dividir a bolsa de pesquisa; Guilherme, um total apático aos seus olhos, e a estagiária de Mourão, que de tão importante ninguém sabe o nome. Dá para imaginar os resultados, não?

“Prepararam-se para entrar na mata e dar continuidade ao projeto de pesquisa, agora intitulado temporariamente ‘Inventário e Levantamento Florístico da Flora na Mata Perenifólia da Floresta Ombrófila Densa’. Rotgeller considerava proeza digna de nota terem colocado três redundâncias no mesmo título (…)”.

Enquanto lia a novela de uma só tacada, fiquei remoendo a seguinte frase: O professor de botânica é um livro sobre o tempo e a amargura de não realizar nossos sonhos. Achei a frase uma porcaria, descartei e escrevi o texto aí em cima.

Acho que ficaram claras as “brincadeiras” de Samir Machado de Machado com as intrigas acadêmicas, o que considero o forte do livro. É possível espelhar as situações em várias outras. São brincadeiras quando olhadas de trás para frente, porque na hora em que você se depara com alguém como Rotgeller, um amargo de carne e osso, a produção de ácido clorídrico é considerável. Não precisa disfarçar, você certamente conhece alguém do tipo.

Vale comentar também a escrita segura. Alguns possessivos poderiam desaparecer na revisão, mas de modo geral é um texto redondo que dosa bem a ficção e o que foi fruto de pesquisa. O personagem professor de botânica é factível, o trabalho de campo também. É fácil visualizar o que é narrado como “realidade”. A jogada com a capa (que não tem título nem nome do autor) é inteligente e contribui para as bases invisíveis da diegese. A interrogação fica por conta do momento thriller lá para o final do livro. Não sei se foi um homem armado no estilo Raymond Chandler ou se foi planejado no contexto da história. De qualquer modo, mesmo destoando do clima introspectivo, teve sua graça na saga de Eduardo Rot-geller, ou seja lá como se escreve esse nome. Uma ótima estréia.

Em tempo: belas ilustrações botânicas.

O professor de botânica
Samir Machado de Machado
Não editora
128 páginas

Gentlemen of the Road foi editado primeiramente em um suplemento do New York Times, algo nos moldes do que faz o jornal Rascunho aqui no Brasil. Um pouco depois, ele ganhou versão em livro com um capítulo bônus onde Michael Chabon explica por que um escritor de literatura dita séria, vencedor do prêmio Pulitzer, resolveu escrever literatura de gênero.

Preconceito entre mainstream e literatura fantástica de lado, vale dizer que Chabon é autor de livros tão importantes quanto diferentes. Escreveu Garotos Incríveis, um leve romance mainstream adaptado para o cinema, e Yiddish Policemen’s Union, uma história alternativa vencedora do Hugo e do Nebula Awards, se destacando dos dois lados da fronteira imaginária.

“’I don’t save lives’, Zelikman said. ‘I just prolong their futility’”.

Gentlemen of the Road me pareceu uma mistura de As viagens de Gulliver e Mil e uma noites. Conta a história de Amram, um ex-soldado africano que é ágil com o machado e descrito como um gigante, e de Zelikman, um médico magro de cabelos brancos e com ares de espantalho, apaixonado por chapéus e muito bom de espada. Os dois são amigos e seguem pelo Cáucaso por volta de 950 d.C., trabalhando como ladrões e mercenários de aluguel para sobreviver. Em uma das missões, eles acham Filaq, um adolescente que é o próximo na linha de sucessão do trono do império Khazar. Para ganhar uma recompensa, eles levam Filaq de volta ao seu castelo, encontrando uma situação mais complexa do que previam. Um general chamado Buljan assumiu o posto à força e colocou assassinos na trilha de Filaq, deixando o médico judeu e o guerreiro africano com um dilema moral: largar o garoto e ir embora para evitar problemas ou ajudar Filaq e de quebra restabelecer o equilíbrio do império Khazar? É claro que só há uma resposta possível para os dois anti-heróis.

“Zelikman was obliged to acknowledge that Filaq had a true gift for commanding soldiers, because Zelikman knew what the stripling had intuited, namely that Amram was vulnerable to a well-timed display of taunting”

Gentlemen of the road, de Michael ChabonO livro é uma aventura adolescente com espírito de road story. O autor acrescenta um personagem ou situação por capítulo, segue a mesma estrutura de apresentação de trama em cada um deles e repete fórmulas para mudar os rumos da história. Talvez seja um reflexo negativo do formato de publicação em jornal. Outro fator que atrapalha a fluidez é a forma de descrever as cenas, cheias de exemplos e figuras de linguagem, uma atrás da outra, em um suposto fluxo de pensamento que só consegue deixar as cenas confusas.

Apesar de ser uma leitura rápida e a dupla de protagonistas ser cativante e bem trabalhada, não é um dos pontos altos da carreira de Michael Chabon.

Em tempo: O texto acompanha ilustrações de Gary Gianni.

Tenho uma amiga que já foi restauradora de livros e que estremece quando digo que faço orelhas nas páginas durante a leitura. Explico que é o único jeito de me lembrar das passagens que gostaria de citar quando escrevo a resenha. Ela me fala de um marcador que parece um chapéu que cabe direitinho na orelha do livro e que um dia fará vários para mim, mas enquanto esse dia não chega, e talvez depois que ele passe, me vejo dobrando quase por compulsão as pontas das páginas e quem sofre dessa vez é o livro da Carol Bensimon, que desfila em três noveletas um apanhado de boas frases, dessas que cabem muito bem em uma resenha como a minha.

O que primeiro me chamou atenção foi a idade da Carol. Ela nasceu em 1982 e eu ando com mania de achar todo mundo da década de 80 tão novinho e um prodígio quando faz um trabalho primoroso. Aí percebo que a diferença de idade nem é tanta assim, tenho quatro anos a mais, e deixo outros fatores de lado para me concentrar só no texto que é um excelente primeiro tiro na literatura.

“O homem andava de calça social e camisa clara, mas de algum modo essa não sujava do pó nem molhava do suor. E tudo o que ele fazia era mesmo andar. De um buraco para o outro, de um barulho para o outro, andar e olhar para cima, sobre os homens, sobre o que ainda não havia. Se o gordo mandava no grito, esse mandava no silêncio”.

Falando em orelhas, a do livro que não fui eu que dobrei diz que Carol Bensimon é de Porto Alegre, já publicou contos no Zero Hora e nas revistas Ficções e Bravo! Seu próximo romance, Sinuca embaixo d’água, ganhou a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária e deve sair em 2009.

Pó de Parede, o de agora, não é bem um romance. Como disse, reúne três histórias diferentes na temática mas similares na estrutura. Seja lá o que for que se aprenda em mestrado de escrita criativa ou doutorado de literatura comparada, parece que a Carol aprendeu bem. O capricho com a estrutura das frases salta aos olhos. Às vezes salta demais, é verdade, mas se deixarmos de lado aquele papo da busca do escritor pela frase perfeita, o que resta são histórias muito bem escritas, dessas que dá gosto de ler e reler.

A que abre o livro se chama A Caixa. Comecei resistente porque remete à infância e é uma torcida de nariz automática a que tenho. Mas besteira minha. A leitura é prazerosa na medida. A Carol não tem uma narrativa simplória, ela monta as frases como um quebra-cabeça (e é contra imortalizá-los como quadros) e deixa exposto o suficiente para que se entenda com todas as letras o que ela quer dizer.

“Voltei para dentro do hotel, e cada parte tinha um nome de flor, que era para as pessoas melhor se localizarem e também para que o hotel cobrasse caro delas, porque uma ala dos jasmins valia muito mais do que um corredor sem nome”

A Caixa é um conto de remembrança. Narrado basicamente do ponto de vista de Alice ele vai e vem no tempo até que se monte não uma história, mas um sentimento geral. A maior parte vem da infância, de como Alice se sentia excluída entre os amigos, da visão que tinha dos pais meio diferentões e da casa moderna feita por um arquiteto visionário, essa sim completamente diferente. É nessa suposta exclusão que se formam as relações de amizade com Tomás, outro excluído, e com Laura, a mais improvável de escolhê-los como companhia. O legal é ser construído em cima de impressões, o que realmente dá o gosto de memórias, ao mesmo tempo borradas e coloridas. Algo que está ali, mas não está é. Quem não significa nada, mas tem toda a importância do mundo. Num desses vai e vens a novela chega ao presente, só para se fechar simbolicamente como passado, porque é lá atrás que está toda a diversão.

Assim, fui eu para Falta Céu, a segunda novela, entusiasmado e ressabiado pelo mesmo motivo. Como a Carol tem uma voz muito forte, o risco de deixar os personagens em segundo plano é grande. É uma questão de escolha.

A história muda completamente de cenário. O leitor vai para uma cidade pequena encravada no meio de duas grandes. Lá a vida é daquelas de que qualquer acontecimento vira história e quando a história acaba as pessoas reinventam para fingir que tem novidade. Carol Bensimon consegue passar muito bem esse clima, que ganha um algo mais quando surge um forasteiro e a noção de uma grande obra, seja lá o que ela for. Tem o gosto de acontecimento passo a passo, que vai se instaurando na velocidade de cimento e tijolo, mas que quando muda o entorno parece que veio de repente. Quem já viveu nessas meio-cidades sabe a sensação que é e me impressionou sentir isso vívido na literatura.

Falta Céu é um texto rico em personagens, mas a autora tem um alter ego definido. E esse alter ego passeia por fofoca de vizinho, amor de verão e outros quadros que compõem a história mais do que amarrá-la, propondo um fechamento psicológico que cabe direitinho na proposta.

“Havia um negro genial que tocava jazz no piano bar. Tocava como um doido e tocava para si, como os músicos de verdade tocam para si e, portanto, não me despertava aquela piedade de quando vemos um tecladista na praça de alimentação de um shopping. Era um músico, e não um quebrador de silêncio (…)”.

A última noveleta se chama Capitão Capivara. Curiosamente, quando Carol Bensimon se desdobra em um escritor e uma aspirante a escritora é que os personagens mais ganham vida e conseguem se impor diante da sua voz narrativa. Assim sendo, Capitão Capivara traz um prazer diferente. Permanecem o esmero com a estrutura e a construção cuidadosa para que a frase realmente possua valor agregado, mas a novelinha ganha uma graça extra na história pessoal de cada personagem. E a vivência é mais ou menos essa: há um escritor que foi pago pelo dono de um grande hotel para escrever um romance lá, usando o hotel como cenário. Só que o escritor está passando por uma crise pessoal que complicará um pouco as coisas. Há a aspirante a escritora que resolveu concorrer a uma vaga de babá no hotel. Ela trabalhará cuidando dos filhos dos hóspedes. Único porém: vestida de Capitão Capivara, uma daquelas fantasias grandes, quentes e abafadas de pelúcia que sufocam a própria voz.

Dessa vez, as histórias se cruzam com humor e se fecham narrativamente, com uma última frase digna de tudo que a antecedeu.

Pó de parede
Carol Bensimon
Não editora
122 páginas

O livro do professor João Ângelo Oliva Neto, Falo no jardim, sobre a Priapéia Grega e Latina, é uma preciosidade. Além de trazer para o português, em bela tradução, toda a poesia feita em homenagem a Priapo, um muito bem cuidado estudo sobre esta poesia se desenvolve ao longo do volume. O livro contém estudo fundamental para quem se debruça sobre a formação cultural do homem ocidental, além de trazer uma bela e decisiva iconografia deste deus cultuado nos jardins da poesia.

A base cultural a partir da qual a poesia priápica se desenvolve é definitivamente a de um outro mundo. As preocupações com o equilíbrio do corpo público e privado se estendiam ao cotidiano dos gregos. São várias as informações colhidas aqui e ali que o demonstram. Foucault, em sua Historia da sexualidade a explora e analisa. O culto do deus Priapo, embora tenha se iniciado no espaço público, aos poucos ingressado no espaço privado, está no centro destas preocupações, conforme aponta Oliva Neto.

Afresco de Priapo, da Casa dei Vettii, Pompéia - fonte: Wikimedia CommonsAs receitas para a boa sexualidade, segundo o filósofo francês, passam pelo regramento e por uma série de medidas ostensivas do equilíbrio, através dos cuidados com o corpo que perfazem um arco que vai da alimentação à época mais propícia para o acasalamento. A presença do deus itifálico é, em certa medida, também parte deste equilíbrio; o culto visava, com a prefiguração do grotesco e pela personificação do falo, o risível.

O risível, segundo Oliva Neto, permitia dupla concepção: a de não ser risível por ocupar o espaço público e assim cumprir a função para a qual estava destinado – ou seja – ser lido em sua função religiosa de proteção dos frutos, proteger e propiciar “o nascimento de particular concepção de vida”, através do grotesco. A outra concepção presente no culto ao deus era a do riso genesíaco, oriundo da plenitude amorosa e sexual que em sua função religiosa poderia significar exuberância existencial felicidade tais que ajudaria a comunicar não ser terrível a morte, mas jubilosa.

Os poemas da priapéia e os estudos do professor Oliva Neto permitem, portanto, que se vejam alguns dos ditames sobre os quais a poesia erótica se manifesta. Na sua concepção mais antiga, a morte é o limite supremo através do qual o deus se manifesta, dando aos homens a percepção da alegria, do júbilo do humano. Essa concepção gozosa da morte será decretada finda onde e quando o cristianismo se torne vitorioso. Contra, como diz Oliva Neto, o falo, a cruz. A percepção da cruz, do que representa a morte como sacrifício, vai escamotear dos homens a capacidade de jubilarem-se com o sexo e com o dizer do sexo e da sexualidade.

A percepção do riso da morte se transformará na percepção do ricto da face, distorcida pela dor. Ao se ocultar o falo desproporcional e abundante com que se celebra a vida oferece-se uma figura diáfana, limpa, e assexualizada que afasta os homens de si. Esse movimento fez com que a percepção do erótico se transformasse em algo proibido, vexatório ou ‘nojento’. Seria necessário que alguns séculos corressem até que Freud reabrisse novas possibilidades para a re-interpretação da sexualidade.

As práticas psicanalíticas não teriam, entretanto, a ver com o substrato do mundo priápico, posto que passam pela percepção da doença, do desvio e do grotesco não como incentivo à plenitude deste grotesco, mas como parte sua re-educação. Não se pode mais perceber o grotesco como grotesco, mas como desvio; em um mundo onde se cultuam as formas homogêneas do pensamento, o próprio pensamento se desveste de seu caráter propiciador da diferença e acanha toda e qualquer possibilidade que se dê fora de seu círculo.

Ao recolocar a priapéia em circulação, Oliva Neto torna possível que o homem se interrogue acerca de si mesmo e da sua concepção de sexualidade e, sobretudo, sobre a percepção do estético, daquilo que se permite ver como matéria da beleza.

Haroldo de Campos publicou este belo livro no ano de 1985, pela Editora Brasiliense. Desde essa época uma e outra vez o releio. Há uma série de poemas que revelam o amor do poeta por seu ofício. Como em uma emulação dos romances de formação, o autor faz com que as trilhas de seu percurso, de sua eleição se dêem a ver. A educação dos sentidos cria um emaranhado sutil de citações que permitem refazer o percurso poético, a minimalha das construções que se fazem a partir da capacidade da razão.

O título do livro, retirado de uma citação de Karl Marx, revela a sensibilidade de leitor e propulsor da construção poética. Entenda-se. Em um país, no qual a leitura é ou inexistente ou superficial, desafiar o leitor para a percepção de uma capacidade intrínseca do saber, que é uma forma de desenvolver as sensibilidades, pressupõe o risco da ininteligibilidade. Ao propor ao leitor um mergulho nas formulações do pensamento, através de sua mínima moralia, não permite que o leitor se conforte com as convenções do poético – entre nós as convenções romântico-parnasiana – e se quede satisfeito de si e do poeta.

A intenção desta educação é outra, desloca-se na percepção com que o intelecto – ao reconhecer o texto duplo/triplo/vário – marllamaico – se constrói no abismo da linguagem que prefigura o prazer da leitura e compõe um vasto campo de sensibilidades adormecidas e/ou desconhecidas e revela, ademais, a capacidade de criar realidades ainda não pressupostas, função mesma, prepotente e percuciente, da linguagem poética. Exerce sua função de demiurgo que não deve explicações ao seu objeto – a linguagem – nem a seu outro sujeito – o leitor.

A ficção poética, desta forma, cumpre seu papel mais efetivo: dar a conhecer os traços de uma tradição e sobre eles compor traços que inovam, tencionam a língua até sua significação mais intrínseca: nomear e forjar conhecimento sobre si mesma, e, neste movimento revelar-se como o que é: uma epifania do intelecto. Ao contrário do que se supõe, a linguagem não é um instrumento realista, que revelaria um mundo que possa existir, mas é a própria criação do mundo pelo homem.

Haroldo de Campos foi poeta da sensibilidade maior, expressa na linguagem própria que criou e fez circular entre seus leitores. Essa linguagem tem seus segredos e exige do leitor intenção de desvendamento. Percebam como a linguagem diz numa espiral de significados que se dão a ver na própria construção do poético e na sua eficácia.

Tenzone

um ouro de provença

(ora direis) uma doença

de sol um sol queimado

desse vento mistral (que doura e adensa)

provedor de palavras sol-provença

ponta de diamante rima em ença

como que olha a contra-sol

e a contravento pensa

(Campos, Haroldo de. A educação dos cinco sentidos. 1985)

Tente, leitor, decifrar as citações e o que elas compõem e se surpreenda do que é capaz o poeta. Procure, por exemplo, por tenzione, procure por Bilac, por nosso João Cabral, pela Provença dos provençais, um pouco da pedra drummondiana. Descubra, force os sentidos e perceba como sua sensibilidade foi atingida.

Tenho uma relação curiosa com os livros do Daniel Galera. Gosto muito da escrita, do jeitão que ele desenvolve as frases, da escolha de palavras que tratam o sexo com naturalidade, que lembram que trepar pode ser tão cotidiano como ir até a padaria descolar um café da manhã ou arrumar as malas para ir a Buenos Aires lançar um novo livro. Por outro lado, nem sempre consigo me conectar com as histórias. De primeira, eu explicaria isso dizendo que o mundo descrito não é o meu e que assim me distancio. Mas sou um leitor voraz de fantasia e ficção, equilibro o chamado realismo mainstream com a literatura fantástica, então essa desculpa não me cabe. A possibilidade seguinte seria a escrita, mas essa opção já eliminei de antemão.

Cordilheira, de Daniel GaleraTenho um carinho especial por Até o dia em que o cão morreu, pré-cinema. Na época começava a pesquisar autores nacionais da minha geração, garimpava os livros aqui e ali, feiras de pequenas editoras, estante da Elvira Vigna. Na editora Livros do mal ele era um livro pequeno, de capa amarela, a cara de um cão muito simpático que morre logo de início. O personagem principal (era o dono do cão? Provavelmente) vaga pela cidade, tem uma namorada febril, assiste um pornô com um casal de amigos. Nas idas e vindas, cativa o leitor. Tem simpatia.

Mãos de cavalo, a entrada do Galera na Companhia das Letras, me deu um certo susto. De repente, o escritor e editor da Livros do mal se tornava um autor resenhado em tudo quanto é jornal, lido e relido de cabo a rabo, com um livro publicado por uma das grandes editoras do país. Lembro de ter visto o livro no Shopping da Gávea enquanto esperava o início de uma peça de teatro. Foi muito comentado na época (as memórias são traiçoeiras, não acreditem em mim) o esforço de se adequar ao padrão de uma grande editora. Se não me engano (novamente a memória), nessa mesma época o André Sant’anna também entrou para a companhia das letras, por isso a lembrança dos comentários que serviam para os dois. Não entendam esse esforço como um demérito. O refinamento da escrita é a única arma do autor na busca do ineditismo diante do esgotamento milenar das histórias contadas. De fato, por mais que o texto de Mãos de cavalo e Até o dia em que o cão morreu diferissem, não identifiquei na minha leitura o tal esforço descomunal. Novamente, foi um livro que me seduziu pela qualidade da escrita, pelas tramas paralelas que se encontram psicologicamente, mas não pelo enredo.

Faz tempo, mas acho que era o seguinte: um cirurgião plástico se propõe a encarar uma escalada para recuperar a adrenalina que o dia a dia de paizão (não sei se no sentido biológico) de família lhe tirou. Nesse preparo, vai revirando a infância e entre corridas de bicicleta e brigas de rua acaba descobrindo sua verdadeira dívida com o passado (a culpa não era do presente, oras), seu verdadeiro resgate de adrenalina e masculinidade. Eu, moleque de edifício com um playground gigantesco, não encontrei brechas de diálogo com as pauladas na areia batida nem na crise de casamento, mas a narrativa e a escrita davam o seu recado.

Testosterona comprovada no currículo. Foi com grande curiosidade que peguei Cordilheira, o mais recente romance de Daniel Galera. Isso porque a protagonista do livro, narrado em primeira pessoa, é uma mulher. Poderia inventar uma desculpa mais intelectualizada, roubar alguma frase de Tolstói, mas prefiro ser sincero. Queria ver o Galera na pele ficcional de uma mulher iludida.

Outro motivo foi o cenário. O livro se passa em Buenos Aires, cidade pela qual tenho um carinho teórico. Cordilheira é o primeiro livro da coleção Amores Expressos. A proposta é a seguinte: um grupo de autores viajou para cidades distintas do mundo para escrever um romance de amor, or something like that. Não sei se escolheram ou não os seus destinos, se todos serão realmente publicados, de onde veio o dinheiro, se da iniciativa pública ou privada, etc.,o que sei é que Daniel Galera viveu um mês na Argentina alimentando a história que escreveu em seu retorno e batizou de Cordilheira.

E essa história é mais ou menos assim: Anita é uma escritora brasileira que conquistou um grande sucesso de crítica com seu primeiro e único livro. Ela segue na contramão da busca pela fama e desiste de ser escritora. Chega a ter vergonha do seu trabalho, daquela história que nada mais tem a ver com ela e na qual identifica erros de uma escrita primária.

Outra contramão: Anita não vê nenhuma graça nesse papo de mulher madura se dedicar à profissão. Ela quer um filho e quer agora. Seu namorado Danilo, por sua vez, nem pensa em ser pai. Ele é do tipo que transa e ejacula fora. Quase dá para entender o desespero de Anita. A negativa de Danilo a deixa irritada, radicalmente. Anita busca apoio para a idéia da gravidez entre suas amigas deprimidas e suicidas e ganha um belo sermão. Mesmo as loucas acham a idéia de Anita maluquice. Nessa mesma época, calha de seu livro ser lançado na Argentina. Anita é convidada a viajar para lá e falar sobre ele. Apesar do desgosto que sente com o livro, a escritora aproveita a oportunidade para fugir um pouco de tudo e de todos e respirar novos ares.

A sensação de ser uma desconhecida é libertadora. Ao mesmo tempo em que não tem onde se apoiar, não precisa vestir todas as suas máscaras sociais. No começo, está lá como a escritora. A palestra em si e a festa de divulgação não são o centro do livro, mas há eventos importantes para o restante da história. Depois que o editor lê um pedaço do livro de Anita, pedaço esse em que a personagem Magnólia empurra o namorado de um desfiladeiro, um jovem escritor chamado Holden pergunta por que a personagem fez isso. Anita, totalmente desconectada da velha história, responde qualquer coisa, mas cria aí um vínculo. Depois disso, despe-se por completo e nem a máscara de escritora sustenta mais.

“A biblioteca que tínhamos em casa não era dele. Eram livros deixados pela minha mãe, que era professora de história. (…) Ainda pequeninha, com dez ou doze anos de idade, eu abria um livro atrás do outro somente para investigar aquelas inscrições que talvez me ajudassem a conhecer um pouco mais da mulher que tinha me carregado na barriga e perdido a própria vida para que eu existisse. (…) Minha mãe foi meu primeiro personagem”.

Buenos Aires vai, Buenos Aires vem, lá pela página 60 Anita começa a sair com Holden. O leitor não sabe quase nada sobre ele no começo, as informações vêm em gotas. Mistérios à parte, ele é o melhor personagem do livro. O que fica bem claro é que Anita vai tentar usar o jovem para cumprir seu objetivo de engravidar. O que ela não podia imaginar é que ele tivesse amigos bem estranhos, loucos para que ela se mande.

Vou adiantar aqui uma parte que não tem a função de ser uma virada de trama, mas como não quero dar uma de estraga prazeres fica o aviso: se você quer ler o livro com todas as surpresas pule esse parágrafo. Combinado? Combinado. Os amigos de Holden não só parecem estranhos como o são de fato. Todos são autores, com livros escritos e publicados, que decidiram viver as histórias que colocaram no papel e seguir os mesmos caminhos de seus personagens. Representam todo o tempo ritos literários que incluem mais perdas do que ganhos e mexem diretamente com a vida e a morte.

O livro tem um quê de metalinguagem óbvio, já que Anita e Galera passaram um tempo na Argentina, os personagens são escritores com eco nas próprias histórias, há referências esparsas ao mundo da literatura e outros leros mais. Entretanto, o que mais me chamou atenção nessa brincadeira foi o limite entre o real e o imaginário, a pompa do grupo de Holden ao levar a sério aquilo que para Anita soa ridículo.

A relação de Anita com o grupo não segue de maneira intensa, mas é suficiente para conduzir o livro até o final e deixar o leitor curioso diante da psicose coletiva que se desenvolve no terço final da trama.

“Me deu um nó na garganta. Imaginei Duisa na varanda da casinha de madeira instalada numa estância solitária da baía Aguirre, calada dias a fio, num frio nadado, cercada de ovelhas, longe do grande centro urbano onde cresceu, olhando a cordilheira enquanto é observada em segredo pelo marido que décadas depois (…) teria pouco mais que isso a dizer sobre ela”.

Vale repetir, Daniel Galera sabe aonde ir com sua escrita, sabe compor as frases e situações de modo que pareçam vívidas e reais. O problema de Cordilheira (ou meu, quem sabe) é a falta de empatia de Anita. Anita é vazia, simboliza um tipo de pessoa da qual prefiro me distanciar e aqui tive que acompanhá-la de perto por 60 páginas tediosas até que outros personagens tornassem sua vida fútil mais interessante. Ela é um paradoxo: consegue ser quase órfã e mimada ao mesmo tempo. Sou escritora. Não sou mais. Agora quero ser mãe de família. Você me trata bem, mas não quer me dar um filho? Então tchau. Que se dane o seu trabalho.

“Se você quer conhecer uma nação, não leia literatura. Nem uma página. Escritores de ficção têm pouco ou nada a dizer sobre seu país. Toda arte é egoísta, mas a literatura é a mais egoísta de todas. Não há como escrever honestamente sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos”.

O filho de Anita também é metafórico para a personagem. Ela não quer uma criança, quer algo que a preencha por dentro. A obsessão pelo esperma que a complete é só mais uma entre muitas de alguém que perdeu o rumo na vida. É uma mulher que nem com tudo que passará durante a história conseguirá mudar o jeito de pensar e suprir o vazio. A metamorfose, a salvação apregoada de maneira torta pelo grupo de Holden, passará longe de Anita. E com isso, também fui me distanciando da personagem, mesmo tendo aproveitado os tais dois terços finais da história.

Lembra, guardadas as devidas proporções, a sensação que a Camila de Nome Próprio me despertou. Uma vontade de vê-la se ferrar no final, só para compensar o drama.

Daniel Galera
Cordilheira
Companhia das Letras
175 páginas

Em uma pesquina na Amazon descobri Lilith Saintcrow. Ela é autora de mais de uma dezena de livros de fantasia urbana de séries variadas e participa de algumas coletâneas. Para conhecê-la, resolvi apostar na série protagonizada por Jill Kismet, uma caçadora de demônios rabugenta e boca suja que ajuda a polícia a controlar distúrbios sobrenaturais (também conhecidos como massacres generalizados) e manter a ordem dentro do possível em um grande centro urbano.

Criar universos com demônios é correr o risco de cair naquela conversa de anjo caído e tentações que ninguém agüenta mais. Atire o primeiro frasco de água benta quem ainda não ouviu a frase “vaidade é o meu pecado favorito”. Durante as primeiras cinqüenta páginas fiquei receoso de que o livro tendesse para esse lado, mas por sorte o universo de Saintcrow é mais direto e funcional, não perdendo tempo com dramas religiosos. A igreja aparece com pitadas de ironia, caçadores de demônios também vão para o inferno, e em alguns momentos de nervosismo da protagonista, mas a cereja do bolo está em outro lugar. Kismet só pensa no pessoal lá de cima para comentar de suas próprias dúvidas. Foi o jeito que Saintcrow arrumou para dizer que a força que Kismet carrega é realmente dela.

“Night rose from the alleys and bars, spreading its cloak from the east and swirling in every corner. No matter how tired I am, dusk always wakes me up like six shots of espresso and a bullet whizzing past. It’s a hunter thing. I suppose. If we aren’t night owls when we Begin, training and hunting make us so before long”.

A história começa com Kismet se lembrando do pacto que fez com o demônio Perry, um dos chefões da cidade onde se passa a história. Ela leva no pulso a marca do pacto que lhe deu poderes para combater as entidades do mal, e cada vez que precisa usar sua força extra a cicatriz queima, como uma pequena lembrança. Fugindo do clichê, em troca da força sobrenatural Kismet não vendeu a alma. Na verdade, ela precisa se encontrar de tempos em tempos com Perry, para realizar taras estranhas que arrepiam qualquer pessoa sem tendências masoquistas. A idéia do pacto foi de seu antigo mentor, Mikhail, que está morto e só aparece nas lembranças de Kismet. O motivo da morte, inclusive, é um dos mistérios do livro e Saintcrow tenta conectá-la não com a trama principal, mas com os dilemas pessoais de Kismet.

Lilith Saintcrow segue uma tendência dos livros de fantasia urbana e usa narrativa em primeira pessoa para aproximar o leitor, com um adicional de pensamentos, diálogos e lembranças que de vez em quando sobrecarregam o texto, mas o resultado final é positivo. Apesar de a história ser bem contada, com mitologia sólida e final convincente, o forte mesmo são os personagens. Lilith Saintcrow desenvolve a relação entre eles de modo muito atraente. Como muitos deles não são humanos, isso é essencial para que o leitor sinta empatia ou antipatia por eles na medida certa. O jogo de poder entre Perry e Kismet é um bom exemplo. Lilith alterna a situação entre medo e raiva, sempre no limite do psicologicamente suportável para a caçadora, evitando transformar Perry em um obstáculo intransponível ou num problema fácil demais de se resolver.

“Cities need people like us, those Who GO after things the cops can’t catch and keep the streets from boiling over. We handle nonstandard exorcisms, Traders, hellbreed, rogue Weres, scurf, Sorrows, Middle Way adepts… all the fun the nightside can come up with”.

Demônios à parte, o que me conquistou foram os metamorfos de Saintcrow. Avisando desde o primeiro volume que há espaço para todo tipo de criatura, a autora aposta aqui em uma versão felina dos lobisomens. Homens que se transformam em grandes felinos. O interessante é que para apresentá-los, ao invés de insistir nas descrições físicas que dominam o universo dos lobisomens, Saintcrow investe no comportamento social dos bichanos. Quem tem um gato em casa sabe que quando eles chegam perto da gente ficam realmente próximos, a famosa passada pela perna para agradecer. Esse é um dos elementos capturados pela autora do livro. Enquanto os humanos possuem distâncias pré-estabelecidas de acordo com a intimidade que têm com as pessoas, os felinos de Saintcrow estão sempre próximos demais para os nossos parâmetros. Ou seja, nada de apelar para garras e dentes afiados. A caracterização vem da personalidade. Ponto positivo. A elegância ao andar também foi levada em consideração.

Pequenos detalhes que no final fazem a diferença.

A leitura da obra de Henry Miller é sempre de resistência. Resistência contra o obscurantismo cultural. Resistência contra a afirmação de um pensamento cristalizado. Resistência contra a morte da arte. Acabo de ler o seu Pesadelo refrigerado, editado pela Francis Editora. O livro trata das viagens que o escritor fez em busca da América profunda, gestado na volta de Miller ao seu país, após 10 anos de ausência. Entre a França e a América, viajou cerca de um ano pela Grécia. A permanência ali fez com que escrevesse outro livro. O Colosso de Marúsia.

A experiência no mundo grego marcou-o de maneira profunda. Contrastar a viagem pelo mundo grego e pelo mundo americano é um exercício de leitura fascinante, pois um termina por dar a medida do outro. A percepção que tem Henry Miller da vida na Grécia revela as possibilidades animais e selvagens do homem. À alegria da mesa gozosa se junta o gozo da paisagem, das pessoas, de certo espírito ainda juvenil e propenso à paixão, que despreza a calcinação do ambiente pela proliferação das fábricas, do movimento em que o tempo se despe de sua condição última e definitiva de contemplação e produção artística, para erigir-se em estátua estática de um bando humano que não mais o percebe. Ao nos escrever sobre esse tempo, em que o homem perde o êxtase, a civilização do gozo pela civilização do trabalho, Henry Miller já nos fala da América.

Em seu velho carro, corta a América para nela refazer-se do exílio e tentar verificar se, por trás do horror de uma Nova Iorque calcinada pelo capitalismo e pelo consumo, poderia existir ainda um país a ser revisitado e recuperado para e pela arte. Encontra devastação, entretanto. Dos nativos destruídos à arte derruída, salvam-se os loucos, os adoecidos de uma sociedade pouco gozosa, que se rege pelo tempo demarcado, pelo trabalho, pela exploração e pelo lucro.

Seguindo os passos do Pesadelo, a troca da arte pela indústria, do homem livre pelo homem que se emprega e se destrói, verifica-se como origem de uma sociedade curiosa, que necessita do domínio (e de neo-escravos) para criar a si mesma e manter-se equilibrada como império. A arte americana vai se notabilizar como uma não arte, isto é, a conquista dos povos vai fazer da indústria – entre elas, a bélica – o instrumento de beleza de que necessitam para compor a expressão da nação. Belos serão os aviões, belas serão as bombas inteligentes, e seus heróis serão forjados neste conjunto da beleza americana.

Através da técnica e da tecnologia, a não arte erigirá o aprendizado mecânico, para derruir o artista. Em uma das passagens do livro, quando o autor vai a uma penitenciária, o responsável pelo cuidado com os presos vai impor ao autor mais uma amostra do funcionamento das instituições do país arruinado.

“Em uma de nossas penitenciárias federais, o sacerdote irlandês que me mostrou a capela apontou a janela de vitral feita por um dos presos – como se fosse uma grande piada. O que ele admirava eram as ilustrações de caixas de charuto para a Bíblia, executadas por presos que “sabiam pintar”, conforme dizia. Quando lhe disse abertamente que não concordava com sua posição, quando comecei a falar com reverência e entusiasmo sobre os esforços humildes, mas sinceros do homem que havia feito os vitrais, ele confessou que não sabia nada de arte. Só entendia que um homem sabia desenhar e o outro não. “É isso que faz de um homem um artista, saber desenhar braços e pernas, saber fazer um rosto humano, colocar um chapéu direitinho na cabeça de um indivíduo – é isso?”, perguntei. Ele coçou a cabeça perplexo. Evidentemente essa questão nunca lhe passara pela cabeça antes. “O que o sujeito está fazendo agora?”, indaguei a respeito do homem que fizera os vitrais. “Ele? Ah, nós estamos ensinando-o a copiar imagens de revistas.” “Como ele está se saindo?” “Ele não se interessa nem um pouco.”, disse o padre. “Parece não ter vontade de aprender.”

“Idiota!”, pensei comigo. Até na prisão tentam arruinar o artista. Em toda a penitenciária, a única coisa que me interessou foram aquelas janelas de vitral. Era a única manifestação do espírito humano livre da crueldade, ignorância e perversão. E eles haviam pegado esse espírito livre, um homem devoto, humilde, que amava seu trabalho, e tentavam transformá-lo em um burro educado. Progresso e iluminação! Transformar um bom presidiário em um potencial ganhador do prêmio Guggenheim. Pfu!” (Miller)

Criadora de eunucos – de seres amorfos, devorados pela gordura dos fast-foods, destituídos do tesão pela vida –  tal sociedade submete ao puritanismo seus loucos; seus jovens e homens, à mínima condição humana e, com isso, submete a arte a um ícone do mercado. Quer para seus artistas a conformidade das revistas, a conformidade de suas apreensões e um falar constante de um espiritualismo tardio, travestido de modelos cuja imagem mais torpe se revela na arqueologia da destruição com que o autor provoca nossa consciência.

Se o modo de vida americano se afigurava como uma destruição das possibilidades latentes da nova nação, na Grécia, Henry Miller encontrara algumas respostas para a renovação do processo civilizatório. Parece-me que a busca de uma América profunda, por construir, determina o fracasso da arte no processo civilizatório americano, já que o controle da beleza submete as experiências do artista a uma enfadonha fórmula que o mercado determina. Daí a beleza da leitura, a resistência com que se percebem as idiossincrasias do autor.

Violência letal, renda e desigualdade no Brasil é um livro direcionado a um público específico. O ensaio de Ignácio Cano e Nilton Santos (antropólogo) disseca a influência da pobreza no índice de homicídios. Mérito dos autores, faz isso com metodologia científica e não demagogia furada, o que ajuda na hora de desconstruir alguns pensamentos já estabelecidos.

Áreas mais pobres são mais violentas? Esse seria o meu primeiro raciocínio, confesso. Mas a relação não é tão óbvia quanto parece. Nem toda região tem o perfil do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os autores exploram e expõem essas diferenças ao máximo ao comparar dados internacionais, nacionais, estaduais e municipais, o que leva o leitor a analisar a situação de diferentes perspectivas.

“Estabelecer essa relação entre renda e homicídios traria evidentes implicações para as políticas públicas: dar aos homicidas um padrão decente de vida, para que eles não tentem obtê-lo por meio do crime violento. (…) Se acreditarmos que a decisão final de uma pessoa optar pelo comportamento criminoso depende não apenas de sua postura moral, mas também de sua posição na estrutura social, não será tão fácil condená-la quanto seria se acreditarmos que a renda não tem implicações na violência”.

Outro detalhe que enriquece o texto é a inclusão da variável desigualdade social. De certo modo, isso elimina o conflito direto entre pobre e rico, o olhar excludente, mostrando que o que acontece em uma camada social afeta as outras (coisa que o Rio já descobriu).

Surpreendente também é a análise dos autores sobre a qualidade dos dados estatísticos que temos para avaliar a evolução dos casos de homicídio no Brasil. Os registros são tão precários que é até difícil acreditar.

“No Brasil, há duas fontes principais de dados relativos a homicídios: o Ministério as Saúde (atestados de óbito) e a Polícia (boletim ou registro de ocorrência)”.

O livro explica que os registros policiais são baseados em critérios jurídicos, o que pode fazer com que uma morte intencional não seja registrada como homicídio (!). Já o Ministério da Saúde incluirá como homicídio qualquer morte intencional. Assim, o latrocínio – que é o roubo seguido de morte – para um é homicídio e para o outro é crime contra a propriedade. Isso sem contar com as mortes causadas por policiais e as mortes em que não são encontrados corpos, típicas nas guerras entre facções do tráfico.

“No entanto, os estados do Nordeste parecem ter baixas taxas que também podem ser parcialmente creditadas à notificação incompleta. O caso do Maranhão é novamente evidente”.

Para encerrar, um elogio que felizmente tenho repetido por aqui. O livro é conciso e preciso. Foi feito para ser entendido. Mostra dados, tabelas, gráficos e estatísticas, mas não se esquece da fluidez. Nada de linguagem rebuscada para tentar valorizar o texto.

Não por acaso, já está na segunda edição.

Violência letal, renda e desigualdade no Brasil
Ignacio Cano e Nilton Santos
Editora 7 Letras
95 páginas

Inclui mapas coloridos de taxa estimada de homicídio por estado, suicídios por estado, homicídios por município (RJ) e homicídios para residentes de 15 a 34 anos dividido em região administrativa (RJ).

O homoerotismo não é assunto fácil de trabalhar. O erotismo por si só não o é e o fato de se lidar com o que ainda é um tabu em países retrógrados acrescenta novas pedras no caminho dos escritores. Um pensamento mais comum diz que o erotismo resvala em algum lugar entre o inócuo e a vulgaridade. Um escorregão extra e a intenção do texto se perde, flertando com o pornô ou se enfraquecendo diante do leitor. Isso é comum em filmes. O roteirista e o diretor não resistem a enfiar dezenas de problemas no filme. Não basta ser gay, é preciso ter AIDS, ex-esposa, tentar adotar um filho, perder um amigo querido e ser expulso de casa. Tudo isso nos primeiros vinte minutos. Na literatura, o problema é a questão do gênero, do gueto. Fazer literatura e literatura gay parece ser coisas distintas e sem sexo bizarro ou dramas existenciais nada tem muita graça (entenda-se: não consegue ser publicado).

Corações blues e serpentinas de Lima Trindade segue na maré contrária dos exageros. É um texto de minimalismos, econômico nas palavras e direto nas intenções do que quer abordar. Com certo gingado literário, ele aposta no ritmo das frases para se desenvolver, deixando a construção da ambiência em segundo plano.

Com 15 contos divididos entre blues e chorinhos, o livro não chega a ser lírico, mas encontra sua poesia ao trabalhar o sentimento humano através de recortes do dia a dia. É aí que o homoerotismo consegue se destacar do manancial de clichês comumente tratados nesse tema e assume a posição de literatura no sentido amplo da palavra, se afastando das crendices do gueto. É claro que os gays e lésbicas do livro de Lima Trindade possuem desejos e fantasias. Só que antes de tudo eles possuem vida, são humanos. São construídos nos pequenos detalhes, naqueles micro-instantes de sensações que guardamos na memória depois que tudo mais se apaga e se supera. Como tais embriões de tempo são comuns a todos, independentes de sexo, cor ou religião, o texto abre diferentes caminhos de diálogo com o leitor, e cada um encontrará um nível de envolvimento de acordo com sua própria história.

“Mês sim, mês não, publicavam um trabalho da nova dupla dos quadrinhos nacionais. FOP nunca aceitava sua parte do dinheiro. Suze visitava o apartamento, transava, lia as paredes, desenhava e ouvia música. (…) Em pouco mais de dois anos havia publicado e republicado todo o universo imaginário da sala de seu namorado. Virara uma artista conhecida. Otávio continuava tomando Leponex e criando jogos para crianças e adultos viciados. Tirando uma convulsão ou outra, levava uma vida quase normal”.

Em um livro de contos é incomum que o leitor goste de todos, do começo ao fim. Também é assim com os escritores, acredite. O interessante na conjuntura do livro é que é disso que se trata a diversidade, da possibilidade de uma escolha ampla sem restrições pelo credo de terceiros. Fiquei surpreso com um conto meio futurista chamado Uma vez no céu escuro e brilhante ou meu encontro com o caçador de andróides ultrapassados. Teve humor sutil e soube brincar com convenções de maneira inventiva. Apesar de ter simpatizado com os personagens, meu pé atrás fica por conta de Anjinho barroco, conto que flerta com a religião católica, que é para mim o anticlímax em forma de instituição financeira.

Esse é o terceiro livro de Lima Trindade. Não é o ponto de chegada e sim parte de um processo. O importante é que o autor está no caminho certo. Acredito que o leitor vá gostar de boa parte desses blues e chorinhos por serem textos honestos e ligeiros. Serão como uma música que vem à cabeça de repente: não sabemos explicar de onde e não conseguimos parar de assoviar.

“Os andróides nunca desenvolveram um pensamento autônomo ou sentimentos. Nossa maior invenção continua sendo o computador. Eu brincava com meu Nero e via com o rabo dos olhos o coroa. Vou falar o que eu tava receoso de dizer. Após pensar bem, vejo que era um medo bobo, uma besteira diante de tanta bobagem junta. É capaz, acaso meus filhos e neto se deparem com esse texto, que jamais passem das primeiras linhas, tão acostumados a mensagens animadas estão. O homem estava vestido de calça jeans. O quê? Isso não é nada? Não é nada para vocês! Para mim, meus caros, é tudo”.

Lima Trindade já publicou Supermercado da Solidão (2005) e Todo Sol mais o Espírito Santo (2005), e é editor da revista eletrônica Verbo 21.

Corações Blues e Serpentinas
Lima Trindade
Editora Arte Paubrasil
150 páginas.

Saiu esse mês o segundo número da revista Terra Incógnita. Nem idéia? Eu explico. Organizado por Fábio Fernandes e Jacques Barcia, o e-zine tem como objetivo publicar mensalmente contos de ficção-científica nacionais que fujam do lugar comum, com o bônus de entrevistas e textos internacionais em traduções inéditas no Brasil.

A revista começa com um conto de Octávio Aragão (Intempol, A mão que cria), passado nos tempos de Jesus Cristo. Agora e na hora de nossa morte mostra um messias bem diferente da imagem cultuada nas pregações. Jesus abandona o ar hiponga profético e assume uma postura mais prática e raivosa. A primeira linha do conto dá uma boa idéia das intenções do autor:

“Ele voltou, isso era certo. O que não estava certo era todo o resto”.

Octávio escolheu Maria como sua protagonista, tirando-a do papel de coitada e apresentando-a como uma mulher forte, capaz de atitudes duras para defender seus ideais (e boa de briga, cá entre nós). Ela passa longe de pedras e lamúrias e encontra alguns personagens bíblicos clássicos, numa versão alternativa de suas histórias. Lázaro, por exemplo, que é famoso por ter voltado dos mortos, passa a ter a duvidosa fama de voltar para eles. Morto duas vezes, não é para qualquer um.

“Encontrou o que procurava à beira de uma fogueira, na quinta noite de sua peregrinação. Um animal indefinível tostava em fogo baixo. O rosto imerso em sombras escondia o olho restante, aquele que não foi perfurado por espinhos, de um azul sem paralelos neste mundo”.

Octávio optou por situar o leitor aos poucos, deixar que ele entenda com os fatos e não com as explicações do narrador o que afinal está fora da ordem mundial. Com isso, é mais profunda a imersão do leitor na sensação de estranhamento, que passa para uma nova etapa assim que Maria encontra o apóstolo Tomé transformado em mármore, entre outras situações estranhas.

O mérito do conto é potencializar o caráter fantástico inerente ao texto bíblico e impor um clima de “o que será?” até o fim, quando Maria resolve pôr ordem na casa e trabalhar suas frustrações de uma forma nada Junguiana.

Ana Cristina Rodrigues (historiadora e atual presidenta do CLFC) segue um caminho narrativo diferente. Seu conto bebe da linguagem lírica e por muitas vezes me fez sentir recitando as palavras, duplicando o sentido de transposição da informação. O Planeta negro tem como protagonista alguém que sofre. Há um sabor principalmente de desilusão, marcado pela umidade nas paredes e pela chuva fina que cai.

“Cheguei aqui há tanto tempo que não sei mais se o que escorre pelo meu rosto são lágrimas, ou essa maldita chuva”.

Uma das possibilidades do lirismo é a maleabilidade do tempo, a atemporalidade, e Ana Cristina sabe que a dor traz em si sua própria eternidade. Planeta negro junta em um mesmo instante o presente do personagem, a amargura sufocante do passado e um rasgo de esperança com o futuro. Afinal, não há temporal que não se acabe.

“Presos, traídos, uma armadilha. Todos mortos, você inclusive. Não tiveram essa compaixão comigo. Eu me atrevi a sonhar, merecia o pior dos castigos. Uma viagem de três semanas em um tubo de estase. Acordei aqui, imundo, sozinho”.

Comprovando a diversidade da revista, o conto O Abissal de Lúcio Manfredi (escritor e roteirista) é uma verdadeira viagem lisérgica, digna do narguilé de Carroll da melhor safra da lagarta. O conto inteiro propõe um incansável jogo de palavras e nunca segue o caminho fácil. Não é uma questão de fugir das retas e escolher curvas vertiginosas, pelo contrário, as maquinações cerebrais têm um quê de matemáticas que está mais próximo do retilíneo, uma lógica que faz das palavras peças de um quebra-cabeça que montam mais do que frases no final. Se a poesia contemporânea usa sua capacidade de trabalhar diversos temas ao mesmo tempo de maneira minimalista, Manfredi se estende por nove longas páginas. A melhor descrição que me vem em mente é a de um jogo cognitivo. E como todo jogo, pode vencer alguns jogadores antes do final.

“Escapo dos postes que me espreitavam da esquina, prestes a saltar sobre o meu pescoço e me empalar numa salada de maionese apodrecida. É preciso ter cuidado, as sombras se escondem nas sombras. Assobio para um táxi, ele dança uma rumba num pé só e me deixa a oscilar sobre a mesinha de centro de um bar na Cobal de Humaitá”.

O representante internacional da edição é Charles Stross, que ganhou entrevista e resenha feitas por Jacques Barcia. Stross é autor de Accelerando, Glass House, Halting State e Saturn’s Children. O conto traduzido por Ludimila Hashimoto se chama Lagostas e, segundo Fabio Fernandes, é o primeiro do romance fix-up Accelerando. Com produção constante mais para a década de 2000, ele permanece inédito no Brasil. Para quem curte termos cibertecnológicos modernéticos e tecnologia da informação, Stross é parada obrigatória. Uma ótima oportunidade para quem não lê em inglês e quer ficar por dentro do cenário mundial.

“Manfred vira a caixa entre as mãos: é um telefone descartável de supermercado, pago em dinheiro– barato, não rastreável e eficiente. É capaz até de realizar teleconferências, o que faz dele a ferramenta favorita de espiões e caloteiros em qualquer lugar”.

Você tem fome de quê?

Há pouco tempo foi disponibilizado na Internet o conto O caçador. Um homem com um trabuco nas mãos andando pelas ruas em busca de alimento. O único disponível? Carne humana. Sua vítima, uma garotinha, usada e abusada, com uma virada inesperada no final. Foi polêmica certa. Críticas. Elogios. E uma expectativa que enfim se cumpre.

Depois da estréia com uma ficção-científica psicológica de viagem no tempo, Tibor Moricz decidiu deixar cicatrizes nos leitores. Você vai amá-lo, você vai odiá-lo. Talvez recomende o livro, talvez o queime e durma rezando o terço. O fato é que ninguém passará incólume por Fome, livro pós-apocalíptico com potencial para romper barreiras de gêneros.

Momentos de êxtase. O mundo era perfeito. Destruído, arrasado, despovoado. Chuva e sol, florestas, vida animal quase extinta. E menininhas como esta, gazelinhas correndo por entre escombros, exibindo toda a sua graciosidade à sanha de caçadores implacáveis como eu. Doze, onze, dez anos. Tanto faz. Carne é carne. Prazer é prazer.

Fome é um fix-up, termo que nasceu pejorativo e depois adquiriu status de boa literatura. Um fix-up traz contos interligados, que vão se complementando em direção a um clímax final. É quase um romance, é mais que um livro de contos. É essa a brincadeira. Mesmo os contos que preservam a independência em termos de história, contribuem para a construção de um imaginário comum. E o imaginário do livro é sombrio e desolador. O que aconteceria se a natureza enfim cedesse ao nosso descaso e simplesmente morresse? Árvores caindo podres, oceanos mortos. Nenhuma linha verde no horizonte. A falência do planeta levando os animais à morte, entregando o homem à solidão. O domínio do planeta da pior maneira. Sem natureza e animais, rapidamente chegamos à escassez de comida. E esse é o ponto-chave de Fome: o único alimento somos nós.

Enfiou um segundo pedaço na boca. Chupou o sangue que lhe escorria pelos lábios e mastigou a carne lentamente, sorvendo os sucos. Pegou um fêmur e o lançou janela afora. Ele foi cair entre entulhos, levantando uma nuvem de pó”.

Tibor optou por frases curtas, o que mais do que retratar um retorno ao raciocínio primitivo combina com a idéia de um futuro imediatista. Não há uma antecipação do amanhã que permita alongar demais os pensamentos. Quem pensa duas vezes dança. O pouco que se tem é o agora, um senso de urgência que se impregna no modus operandi , desce pela garganta e é exalado pelos poros.

O livro traz uma humanidade degenerada, sem resquícios de valores morais. Saem as conversas em bares e os passeios nos shoppings, entram bandos carniceiros em busca de alimento, certos de que a pessoa ao lado pode matá-lo a qualquer momento.

Sem máscaras sociais e entretenimento, o homem perde a capacidade de se esconder. Quem não encara a realidade de frente, se entrega ao tempo, a inanição. Por mais escuro que seja o esconderijo, por mais protegido que o personagem esteja nos escombros de um edifício antigo, ele sabe que precisa sair e procurar alimento. E que lá fora, a chance de ser morto é grande.

A doença o forçara à reflexão. Aceitar a comida pouca que lhe era atirada sem titubear, sem reclamar, sem protestar. Comer com ânsia, morder tendões, mastigar cartilagens, roer ossos. Comer o que no passado ele rejeitaria enojado. Comer para alimentar os tumores que lhe cresciam pelo corpo”.

A princípio pensei que o texto cairia no clichê de “só os mais fortes sobrevivem”, mas assim como na teoria evolucionista darwiniana, Fome também dá espaço para os mais ágeis, sortudos e espertos. E sabemos que a miséria é o melhor cenário para a proliferação de espertos em geral, carreguem armas de fogo ou a palavra do Senhor.

Antes de tudo escurecer ainda pude ver os anjos… e eles me olhavam com fome”.

Os contos sobre os reprovados na escola de Darwin são uma joelhada no estômago. Os fiapos de semelhança que mantêm com a estrutura atual de sociedade são suficientes para transportar o leitor ao cenário de desencanto e jogá-lo no chão, enquanto desfilam diferentes recortes de uma morte lenta, física e psicológica. Mas é nos contos dos aprovados, dos espertinhos, malandros e fanáticos de plantão, que o livro faz sua graça. Usando um humor nigérrimo para a composição da atmosfera apocalíptica, Tibor visitou diversos tabus, tornando a reconstrução dos dogmas religiosos um tema essencial para o que o livro se propõe. Quem está acostumado a definir o que é certo e errado em uma história irá se surpreender.

E para que os de estômago fraco não digam que não avisei: não leiam depois de comer.

Fome
Tibor Moricz
Tarja Editorial
128 páginas.

Cosmologia do Impreciso (Rio de Janeiro, 7Letras, 2008) é o quarto livro do poeta Oswaldo Martins, e o mais maduro. Nele, o autor consolida uma poética que se fundamenta no profundo diálogo com as criações artísticas da tradição ocidental, e que se desdobra na crítica radical do que, nessa mesma tradição, é interdito, é reflexo hipócrita dos condicionamentos morais. Essa trajetória vem conscientemente sendo percorrida desde seu primeiro livro, desestudos (2000), e se desdobra nos seguintes, minimalhas do alheio (2002), e lucidez do oco (2004), todos pela editora 7Letras.

O intenso jogo dialógico aparece, em todos os títulos, como motor da poesia de Oswaldo Martins. É um desafio para o leitor desfiar os intertextos que cada poema instaura, não só com a literatura, mas também com a pintura, o cinema, a música, e toda forma de arte. Para exemplificar amplitude intertextual dessa poesia, basta mencionar alguns de seus poemas, como o “i modi” (em minimalhas do alheio), em que estão presentes os sonetos luxuriosos de Aretino em diálogo com as famosas gravuras de Giulio Romano e com as do Conde de Waldeck; ou o “di-glauberiana” (em lucidez do oco), em que se fundem o cinema de Glauber Rocha e a pintura de Di Cavalcanti, numa homenagem à fita em que o cineasta documenta o enterro do pintor, filme que foi cassado na justiça brasileira pela família de Di e que só recentemente passou a ser disponibilizado em domínios estrangeiros, através da internet; já no último livro são presenças marcantes Diderot em “estudos para pinturas sacras”, ao lado dos sambistas Cartola e Nelson Cavaquinho, homenageados em “cartolografia” e “cavaquinhos”, respectivamente. Como se vê o jogo de referências construídos na poesia de Oswaldo Martins evita hierarquizar o erudito ou o popular, o nacional ou o estrangeiro. E, de Modigliani ao Afrorreggae, de Man Ray ao Mallarmé mulato, essas escolhas deixam, em última análise, o poeta num lugar ideologicamente privilegiado e intelectualmente livre.

A liberdade é fundamental, justamente, para o que aparece como motivo da poesia de Oswaldo Martins, a celebração, e a crítica de tudo o que contraria a vocação humana de celebrar. Os exemplares vendidos no lançamento de cosmologia do impreciso fizeram-se acompanhar de um CD com os poemas do livro gravados por amigos do poeta; o próprio lançamento não ocorreu numa sisuda livraria, mas num bar da Lapa, famosa região boêmia do centro do Rio. As homenagens tanto nos temas dos poemas quanto nas dedicatórias e nos demais eventos em torno do livro são indícios da celebração. Por outro lado, o poeta não abre mão da reflexão sobre o fazer poético. Muitas leituras ouvidas no CD deixam pistas dos desacertos do leitor diante de tão rigorosa forma. Ao lado da celebração da poesia e da vida, o poeta dispõe a cerebração do poema e do verso, num intenso e sofisticado trabalho cujo objetivo é o desmonte crítico dos condicionamentos morais que também moldam a cultura ocidental. Desde o título de seu terceiro livro, Lucidez do oco, a aporia que cinde o humano em corpo e espírito (seja o santo ou o das luzes), vem sendo explícita e programaticamente combatida em nome liberdade e da afirmação irrefutável da vida. Agora, Cosmologia do impreciso consagra e define a cosmovisão da poesia de Oswaldo Martins. A vida e a liberdade (como condição inevitável do homem, para lembrarmos Sartre), são reafirmadas através do erótico, em sua fortuitidade mais (ex-/im-)pulsiva, numa metáfora igualmente intensa: a buceta, sintomaticamente grafada com u, ratificando o gesto transgressor, a sedição da poesia. Leia-se o título 3 da “antimetafísica das apreciações”:

quando quadros e livros
bucetas são

não são bucetas que se levam
aos livros e quadros

senão que quadros e livros
buscam

o que de buceta
são (
Cosmologia do impreciso, p. 93)

A imagem, que tanto por metonímia, numa menção evidente ao corpo, quanto por metáfora, numa substituição das obras da cultura, aqui representadas pelos livros e quadros, redunda na experiência do erotismo como pulsão para o outro, compartilhamento de corpos e de sentidos, e funda um jogo complexo em que as idéias de nascer e gozar, entrar e sair, circulam, do livro para a vida, da vida para o livro, levando à constatação de que é entre os corpos que a vida se consuma, e que a utopia da poesia, da arte, enfim, é menos alimentar o espírito que promover trocas humanas no interior desse impreciso cosmo, como vem descrito no poema imediatamente posterior:

os botequins
os mistérios
o cachimbo de baudelaire

esta mangueira de cavaquinhos ritmos
no cosmo como o cosmo é:

uma dobradura-porta
aberta para o absurdo (p. 94)

Nesse sentido, o jogo dialógico e intertextual, aquilo que se apresentou como motor, não deixa de se irmanar ao motivo, a celebração das trocas e experiências humanas. Um está para o outro e formam essa “dobradura-porta”, imagem que se revela, simultaneamente, trompe-d’oeil e passagem de fato. Os incautos e escandalizados com o texto equivocadamente tachado de pornográfico, ficam no primeiro, perdem-se na dobradura, e não desfrutam o prazer do texto, como queria Barthes. Mas os que são capazes de ainda demonstrar mínima sensibilidade à humana condição, esses entram no cosmo impreciso e celebram o encontro.

Outras palavras (Otras palabras), primeiro livro de Diana Araújo Pereira, editado pela 7Letras, nos é apresentado numa bela edição bilíngüe, diferente das que costumo encontrar, em que as traduções aparecem ao lado da versão original. Aqui, não. O formato do livro lembra um dicionário bilíngüe português/espanhol e é convidativo desde o formato, de 18cm por 14cm. O livro não tem contra-capa, são duas capas, uma com o título em português, outra em espanhol, em posição invertida, ambas com a imagem “O poeta / xamã”, de Bené Fonteles. Talvez fosse mais interessante que a parte em espanhol acompanhasse a inversão da capa. Porém, a organização se dá apenas em ordem inversa, o último poema em português é o primeiro em espanhol e essa disposição se mantém até o fim.

São poemas em prosa, fragmentos, anotações, pensamentos, que deixam o leitor bem envolvido. Os textos foram escritos originalmente em espanhol, entre 2005 e 2006, durante o período de pesquisa de doutorado da autora, em Sevilha, e traduzidos entre 2007 e 2008. Há uma gostosa sonoridade típica da língua espanhola, mas que não é totalmente perdida na tradução para o português. Os poemas têm o mesmo ímpeto nas duas línguas. Tudo é recuperado, nada se difere abruptamente. O efeito é perfeitamente conquistado na tradução. Também, o fato de serem línguas latinas facilita um pouco. A poetisa escolhe outra língua para escrever, outras palavras diferentes das com que foi alfabetizada, mas as trabalha de forma natural, intensa e apaixonante.

Tudo gira em torno da “palavra”. Há outros rumos no texto, mas, sem dúvida, essa preocupação é que mais ganha espaço nesse livro. Trata de inúmeros eventos. São anotações gerais. Quem sabe uma companhia para os momentos fora da cidade natal? Mas o que importa mesmo é que a autora escreve pelo prazer de escrever e não apenas como uma forma de se expressar. O amor pelo ato da escrita está presente todo o tempo. Há vários elementos envolvidos, várias sensações expostas, mas a atenção à palavra é o mais chamativo.

O prefácio de Jussara Salazar me pareceu um pouco assustador. Floreado demais. Não acho que o prefácio tenha que ter a pretensão de ser mais do que o próprio livro. Talvez essa forma poética de escrita seja decorrência de Jussara também ser poeta. Contudo, achei um pouco incômodo, tanto na primeira leitura, antes da do livro, quanto nas leituras posteriores, já sabendo o conteúdo dos poemas. Todavia, concordo totalmente com Adolfo Montejo Navas, na orelha do livro: aqui “o sujeito lírico importa muito menos do que a linguagem que se agencia”. Essa afirmação dá conta exatamente da essência do livro. Não poderia defini-lo de forma melhor.

Nesses poemas, as palavras parecem impor sua vontade à autora. A voz lírica parece ser a voz dessas palavras. Palavras, nomes, que se unem e formam um corpo, e esse corpo ganha vida. Porém, essa vida, com o auxílio da autora, ganha um rumo. As palavras não se perdem. Não é uma falta de controle sobre o texto, é uma permissão concedida, vigiada, que impõe limites sem controlar, sem impor nada. Limite difícil, mas com um belo resultado. Há muito tempo não vejo uma relação com as palavras tão intensa.

O texto de Diana é feito de palavras eleitas – letras escolhidas, “estas putas sorridentes dos salões falados” – em que a escritora permite que sejam tudo o que podem ser, potencializa suas forças, seus significados. As impulsiona, as reagrupa de forma que possam trabalhar em equipe, porém, sem perderem suas particularidades no resultado maior. Diana transforma a matéria-palavra. E uma das formas de transformação que ela usa é a negação.

Para o eu-lírico, que tem sua voz expressada nesses poemas, existir é saber que pode usar outra palavra ainda. É o que matem viva a vontade de escrever. Saber que outras palavras precisam do seu trabalho, da sua atenção. O que interessa aqui é a escrita, o ato de escrever. As palavras detêm o poder e quando esse poder é posto nas mãos do eu-lírico, este se assusta, pois admira a palavra mais do que tem vontade de dominá-la: “É que perambular entre as sílabas causa tonteiras indeléveis. Normalmente sofro presa a uma letra, e tremo quando posso tê-la em minhas mãos. Porque não se esqueçam que as mãos sim são minhas, ainda que de nada me sirvam se eu não puder escrever, se me falharem os nomes.”

Às vezes, as palavras não saciam esse eu-lírico, não dão conta de tudo o que quer expressar. Sabe que escrever não o levará a nada. A saciedade é breve, mas o prazer da escrita, a tentativa, é o que importa. Outras vezes, o vazio pode o saciar e não precisa mais da palavra perfeita. Essa eterna busca incomoda menos, até porque essa procura é uma forma de encontrar-se: “Me vejo tentando colar pedacinhos de letras. Meu Deus, a que ponto se chega ao tentar encontrar-se a si mesma!” “E acaba que tudo é em vão. Porque a palavra sagrada, a que te situa, sempre desaparece como uma miragem sonora, como o sabor de paraíso que se assoma nos lábios, mesmo que você nunca o tenha provado.”

Diana Araújo Pereira, doutora pela UFRJ/Universidad de Sevilla, é poeta, pesquisadora, tradutora, professora de espanhol e literaturas hispânicas.

De um livro intitulado Do jeito delas – vozes femininas de língua inglesa espera-se uma escrita sensível, delicada, recheada de emoção. E assim são as poesias selecionadas por Márcia Cavendish, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, com tradução de Jorge Wanderley. São poesias de poetas mais que consagradas, como Elizabeth Bishop, Emily Dickinson e Sylvia Plath, entre outras. Com exceção de Dickinson, trata-se de uma seleção de poetas de língua inglesa do século XX representantes da moderna poesia do país.

Na escrita dessas mulheres, o amor é descrito através dos sentidos, mas nada tão subjetivo quanto se possa imaginar. A seleção de palavras aliada a um certo objetivismo diante de temas tão subjetivos resulta em poesias enxutas, mas cheia de significados, reflexões profundas e emoções. Como se cada palavra representasse um milhão, imagens se formam e sensações diversas vão sendo evocadas. Divagações sobre vida e morte, percepções delicadas, mas profundas da natureza e seus fenômenos – frutas, animais, paisagens, sol, chuva -, enfim, tudo que envolve os mistérios e as experiências da vida e da morte recheiam 65 páginas desse livro anestesiante, publicado pela 7 Letras.

Através da escrita poética em que logo se nota a natureza feminina do discurso, as doze poetas reunidas nesse livro vão trilhando seus caminhos no amor, solidão e incertezas. Com qualidades e características diferentes, essas vozes encontram-se no desejo de expressar dúvidas e medos relativos à condição feminina, sempre com muita intensidade.

O que é marcante na escrita dessas mulheres é a linha que norteia as poesias selecionadas, regidas pela exploração dos sentidos táteis e visuais: é o olhar que evoca prazer, o toque que provoca asco, as imagens naturais refrescantes, os sabores delirantes das frutas. As sensações e a natureza se misturam, oferecendo sentido à vida e à morte, apontando muitas vezes para a efemeridade da vida e a importância do viver pleno através das sensações: “aquele que atinge a mortalidade / e em sua prisão se eleva / sobre si mesmo como o mar em despenhadeiro, lutando para ser / livre e incapaz de sê-lo, / e encontra em sua rendição / sua continuidade. (“Que são os anos?” – Marianne Moore)

Em resumo, contaria assim o livro: “Duas meninas descobrem / o segredo da vida / numa linha súbita / de poesia” (“O Segredo” – Denise Levertov).

Do jeito delas – vozes femininas de língua inglesa
Editora 7 Letras, 2008
113 páginas

Faroeste com zumbis. Digo assim, logo de cara, para conquistar o espanto na primeira linha da resenha. Se falhei miseravelmente, me arrisco mais uma vez: faroeste com zumbis que usa metalinguagem. Foi? Então vou direto ao ponto. Areia nos dentes, o primeiro romance de Antônio Xerxenesky, é um pastiche assumido, inspirado nos filmes de Sergio Leone e Clint Eastwood, filmes vindos de uma época em que subverter gêneros sem irar os fãs seria impensável. Prestar uma homenagem enfiando zumbis no meio dos bons e velhos saloons como arrisca Xerxenesky seria forca na certa. E é daí que vem a graça.

“A única coisa que impede a Mavrak verdadeira de ser uma cidade fantasma é o fato de que é habitada”.

Uma das condições do pastiche é ser um trabalho de recorte e colagem e é fácil perceber isso em Areia nos dentes, sobrando até para Romeu e Julieta. Tudo começa com alguns integrantes da família Ramirez tentando descobrir o que os irmãos Marlowe estão tramando no porão. As duas famílias são rivais há tempos, apesar de ninguém lembrar direito por quê. O importante é que, seja lá o que os Marlowe estiveram aprontando, com certeza não é coisa boa para os Ramírez. Como dar uma de xereta na casa do rival nunca acaba bem, Martín Ramirez tem que correr muito para não morrer. Quer dizer, ele tenta. Apaga as pegadas nas areias do deserto, conta com a ajudinha da chuva, chega tranqüilo em casa… e toma um belo tiro.

“O vento convidava a areia para dançar uma valsa. Ela bailou pelo ar com elegância, e grãos assentaram-se nas frestas dos dentes de Juan. Areia nos dentes. A pior sensação que conhecia. Era sentir o tempo no corpo, senti-lo tão perto e tão irrefutável. Tomar consciência de que um dia, talvez muito em breve, ele, Juan, estaria abaixo da areia. (…) Esquecido”.

Vingança, clama Miguel Ramírez, pai de Martín e chefe do clã. Mas os Marlowe não assumem o crime. Para ajudar a resolver a questão, chega um xerife com a missão de por ordem na casa. Um xerife que recebeu uma carta anônima. Mas quem em uma cidade que resolve tudo no tiro quer a presença de um xerife? Só pode ter sido Miguel, acusam os irmãos Marlowe, mas é a vez do patriarca negar a autoria. Pelo sim, pelo não, os Marlowe ficam de olho e Miguel começa a arquitetar com Juan, o filho que sobrou, um modo de honrar a morte de Martín antes que os Marlowe matem mais alguém. Só tem mais um probleminha, Juan é muito ruim de mira.

Nesse ponto, já deu para notar que o humor é um ingrediente importante do livro. Não que ele vá arrancar risadas histéricas, mas cumpre a missão de deixar o clima de inacreditável pairando no ar, alimentando o absurdo até o ponto máximo,a chegada dos zumbis.

“Uma pessoa cochichou para outra que o nome da cidade havia sido mesmo Maverick, uns duzentos anos antes, mas a placa com o nome teve algumas letras comidas com o passar do tempo, e um bom cidadão, por questão de sonoridade, adicionou a letra ‘a’ no meio”.

Mas Areia nos dentes tem outras graças, e talvez seja melhor substituir metalinguagem por muitas linguagens. Xerxenesky não brinca apenas com as histórias, ele brinca com a forma de contá-las, desmanchando parágrafos em opções de múltipla escolha, mudando fontes, embaralhando letras, mudando a narrativa para a formatação de roteiro, dividindo página ao meio, usando o aspecto visual para passar as sensações. Há vários elementos que tiram o leitor da ilusão e o deixam perceber o jogo.

Para melhorar, lá pelas tantas ainda descobrimos que o livro está sendo escrito no México por Ramírez, que decidiu contar a história dos seus antepassados e que, por uma coincidência dessas, soube de um escritor que está escrevendo um faroeste com zumbis lá em Porto Alegre.

Um experimentalismo bem-vindo em tempos de mesmice.

Areia nos Dentes
Antônio Xerxenesky
Não-editora
136 páginas.

1. O vampiro antes de Drácula não é só um livro de contos. As 50 primeiras páginas trazem um material precioso de pesquisa histórica que não se vê todo dia por aí. O que o leitor deve esperar dessa parte?

A idéia de incluir no livro uma análise da evolução do mito do vampiro nasceu logo na primeira conversa que tive com o Silvio Alexandre (era o comecinho de 2006), em que ele sugeriu a antologia e eu topei. Achei interessante principalmente porque eu andava buscando algo assim e ainda não tinha visto em nenhum lugar. Eu tinha uma idéia modesta, de escrever um texto com umas dez páginas, só com a cronologia das principais obras. Mas à medida que ia pesquisando e me aprofundando no tema, percebi que era muito mais complexo do que eu imaginara. Depois que o Humberto entrou no projeto, em setembro ou outubro de 2007, passamos a ler, estudar e discutir o assunto obsessivamente. O resultado final foi além de nossas expectativas. Não acredito que exista, em português, outro estudo que aborde de forma tão minuciosa a trajetória do personagem vampírico através da história e das mudanças de comportamento da sociedade do século XIX, ao mesmo tempo situando-o dentro dos movimentos artísticos que se sucederam. Acho que, ao ler nosso ensaio, o leitor percebe claramente o porquê de afirmarmos que, mais que um personagem, o vampiro é um sintoma da sociedade que o criou.

2. Como foi pesquisar e traduzir todo esse material?

Foi um trabalho de paciência e perseverança, mas também foi uma delícia. Por dois anos e meio vasculhamos nossas próprias bibliotecas (e a do Humberto é inacreditável), livrarias e sebos de São Paulo, Rio, Buenos Aires e Toronto, os acervos disponíveis pela internet (viva o Google Books e o Projeto Gutenberg!) e os acervos pessoais de amigos. O caso mais complicado foi “A família do vurdalak”, de Alexei Tolstói, que só tínhamos em inglês e castelhano; durante dois anos procuramos o original francês, até que um dia, ao voltarmos de uma caçada improdutiva na Biblioteca Nacional e pelos sebos do Rio, pela milésima vez fiz uma busca pela internet, só para não perder o costume, e de repente o texto apareceu em dois sites! Já “O velho Éson”, de Arthur Quiller-Couch entrou no livro aos 45 do segundo tempo, quando estava tudo decidido e o prazo mais do que estourado. Fiquei encantada com o conto. Traduzi primeiro e perguntei depois se podíamos incluí-lo. Ainda bem que todo mundo também gostou!

3. Como sua bagagem como autora de fantasia ajudou na criação do livro?

A experiência como escritora ajudou bastante na hora de dar a forma final aos contos. O Humberto costuma brincar que fiz uma boa ação para com a memória de alguns dos autores, tornando seus textos legíveis e até elegantes (risos). Mas acho que o mais legal desse trabalho foi que ambos usamos nosso background de biólogos e pesquisadores tanto no processo de seleção dos contos quanto na análise da trajetória do vampiro ao longo do tempo e das sucessivas mudanças na sociedade. Acho que os leitores do livro vão perceber claramente a abordagem evolutiva que permeia toda a interpretação das sucessivas alterações que o mito foi sofrendo à medida que a sociedade mudava, e com ela o papel que não só se esperava mas se exigia que o vampiro desempenhasse.

4. Lord Byron parece ter participação fundamental na evolução do vampiro como tema literário. Como vocês chegaram até ele?

O papel de Byron na gênese do vampiro foi mencionado logo nos primeiros textos que consultamos em nossa pesquisa. É bem sabido que foi ele quem originalmente teve a idéia que depois John Polidori transformou no primeiro conto de vampiros. Mas o que mais nos surpreendeu foi saber que o estereótipo do vampiro clássico deve muito mais à personalidade e ao comportamento do próprio Byron do que à sua escrita. Polidori criou o primeiro vampiro da ficção baseando-se totalmente em Byron, e até hoje os vampiros exibem muitas características que vieram dele – a aura de mistério, o charme irresistível e perigoso, a postura de superioridade sobre os humanos “normais”. Isso tudo fazia parte da persona criada por Byron para si mesmo, e que o transformou num verdadeiro popstar em sua época.

5. Você acha que o papel de Bram Stoker na construção do mito dos vampiros é superestimado?

De forma alguma. Bram Stoker atualizou o velho vilão melodramático e kitsch da década de 1840, que se limitava a morder o pescoço de mocinhas, e o transformou numa ameaça à altura do desenvolvimento tecnológico do final do século XIX. Amalgamando o folclore centro-europeu, a literatura pregressa e suas próprias idéias, e imprimindo teatralidade à narrativa, ele “encorpou”o vampiro e fixou as características que conhecemos hoje. Em linhas gerais, tudo que se popularizou ao longo do século XX saiu do Drácula; a maioria dos elementos não nasceu ali, foi incorporada do que existia antes, mas praticamente só se perpetuou porque foi citada por Stoker. Elementos antes populares, que ele não aproveitou, acabaram caindo no esquecimento – o melhor exemplo é o papel do luar na reposição das forças do vampiro; é uma tradição literária que ainda aparece em 1872, em Carmilla, mas que se perdeu por não ter sido aproveitada no Drácula.

6. Qual conto agradou mais a leitora Martha Argel?

É difícil escolher. Gosto de cada um dos contos por diferentes motivos. Acho que destacaria “A floração da estranha orquídea”, de H. G. Wells, pelo ritmo incrivelmente contemporâneo, e pelo humor subjacente; “A dama pálida”, de Alexandre Dumas, pela qualidade quase cinematográfica; “Um mistério da Campagna”, de Anne Crawford, pela forma refinada e precisa como a autora criou os personagens; “O último dos vampiros”, não só pelo humor (outra vez!) como pela ambientação perfeita na floresta tropical; e “O velho Éson”, pelo lirismo e pela beleza da linguagem.

7. Li uma vez que Bram Stoker escolheu o contágio pelo sangue como uma forma de retratar o sentimento xenófobo de sua época, o olhar de que o estrangeiro contamina de certa forma o sangue dos que já vivem em uma região. Não sei se é verdade, mas é uma imagem forte que me marca até hoje. Para você, qual a metáfora dominante hoje nas histórias de vampiro? É tudo uma questão de imortalidade?

Não me sinto confortável em tentar “psicoanalisar” Stoker ou qualquer autor. Já se especulou muito sobre o que se oculta nas entrelinhas de Drácula. Mas é bom lembrar que Stoker era um gerente de teatro, apaixonado pelo que fazia, que nas horas vagas escrevia romances como hobby e não para ser eternizado como escritor. Em minha visão de alguém que também escreve, ele incluiu em Drácula os elementos que julgou necessários e suficientes para compor o clima e o enredo. Como todo autor, porém, ele sofreu a influência do meio em que viveu; se elementos como xenofobia, colonialismo e moralismo aparecem em sua obra, não quer dizer que, necessariamente, foram introduzidos de propósito. Podem ser apenas resultado e (de novo) sintomas da época.

Hoje, os vampiros podem ser considerados como metáfora para um zilhão de coisas: o medo da morte, o apego à juventude, a vontade de poder tudo, a ânsia de satisfação imediata dos desejos. O vampiro, ser imortal mais poderoso que os humanos normais, é principalmente a reafirmação do eu, a confirmação de que o eu está acima de tudo – dos outros, da sociedade e até da mais inevitável de todas as certezas da natureza: a morte.

É uma pena que haja tão pouco de Heinrich Böll editado no Brasil atualmente. Ganhador do Nobel (1972), ele é importantíssimo para quem quer entender a Alemanha pós-guerra de dentro para fora, sem a interferência de documentários pré-fabricados. O autor veio de uma família católica contrária ao nazismo, o que o colocou em posição de destrinchar a dupla moral religiosa que dominou o país posteriormente. Quando a guerra acabou, a identidade do país havia desaparecido. A Alemanha precisou digerir a ocupação não só física como também ideológica das potências vencedoras e reencontrar um nacionalismo que não se refletisse em extermínio alheio. Böll decidiu jogar um pouco de luz nessa sombra.

No papel de reconstrução da identidade, a obra do escritor alemão não deixa as meras aparências recaírem sobre as ruínas dando-lhes novamente uma aparência irreal. O país que renascia precisava ser verdadeiro desde a base para não recair no mesmo erro. A literatura pareceu então a Heinrich Böll uma boa forma de apontar os desvios éticos e morais que permeavam as mudanças na sociedade, retratados em Pontos de vista de um palhaço com inteligente ironia.

“Fui condenado a cavar uma trincheira antitanques no jardim (…) e na melhor tradição dos Schnier eu revirava a terra alemã, ainda que – contrariando a tradição familiar – com as próprias mãos. Escavei atravessado entre as roseiras preferidas de meu avô, na direção exata da cópia de Apolo de Belvedre, e antecipava minha alegria pelo momento em que a estátua fosse ceder à minha sanha escavadora; cedo demais para alegrar-me; a estátua foi abatida por um menino pequeno e com sardas chamado George. Mandou a si mesmo e ao Apolo pelos ares ao explodir por engano uma granada de bazuca”.

Pontos de vista de um palhaço conta a história de Hans Schnier, um palhaço profissional especialista em pantomima que depois de conquistar a fama conhece a decadência, aos vinte e cinco anos de idade. Abandonado por Marie, seu grande amor, Schnier começa a beber e perder a inspiração, e um palhaço não pode se fingir de triste carregando uma tristeza real. Com apresentações desastrosas uma atrás da outra, ele colhe críticas ruins nos jornais e a má fama encerra o ciclo de bons pagamentos. Depois de passar anos viajando de um hotel a outro sem parar, de show para show, de estação de trem para estação, Schnier precisa voltar para casa e de alguma forma reconstruir a vida. É em seu quarto, na cidade de Bonn, que toda a história é narrada.

O livro se divide entre lembranças e presente, entrelaçados de forma ágil para que o leitor não se perca no vai e vem. Enquanto reconstrói a vida de Hans, Böll apresenta um verdadeiro quebra-cabeça emocional. Com as lembranças, testemunhamos o amor que Schnier tinha por Marie, roubada de casa e de seu futuro de menininha cristã para viver um romance adolescente, desses sem dinheiro e sem rumo certo, até a fama sorrir para Hans. É imerso em melancolia que ele fala dos bons momentos que passaram juntos, dos rituais durante as viagens (desses que só os casais conhecem) e de como a tentativa de Marie de fazer as pazes com a religião arruinou o casamento sem papel passado. Não que Marie tenha deixado de ser católica, pelo contrário, foi sua ânsia de ser aceita nos grupos católicos que abandonou quando nova que a fez deixar Hans para trás.

“Um padre de lá nos explicou certa vez que repolho servia para aplacar o apelo da sensualidade. Eu sentia aversão à idéia de que algo servisse para aplacar minha libido ou a de quem quer que fosse”.

Como a culpa é a base da religião que abomina e Schnier é o símbolo de um pensamento crítico, não vemos o palhaço se arrepender jamais. Palhaço sim, bobo da corte não. Ao recontar sua infância e sua relação com a família, ele apresenta peças que o fazem transcender o papel e ser quase real. Sempre de dedo em riste para remexer feridas e incomodar o grupo de religiosos responsável pelo afastamento de Marie, chega um ponto que é estranho pensar que Hans Schnier seja um personagem fictício.

No presente, a situação ganha contornos mais interessantes. Como está falido, doente e em breve passando forme, Schnier precisa pedir dinheiro emprestado a qualquer custo. Seu empresário estima que se Hans sumir uns seis meses do circuito de shows e das páginas dos jornais, ele consegue recolocar sua carreira nos trilhos, mas ficar sem trabalhar meio ano não é uma opção tão simples. Contando os amigos nos dedos, só lhe resta a opção de ligar para todas as pessoas que conhece, inclusive os católicos que abomina, apelando para o suposto sentimento cristão para conseguir alguma coisa que vá além do desprezo.

“Fui à cozinha, cortei uma fatia de pão, passei manteiga, voltei para a sala e liguei para Bela Brosen. Minha esperança era que, naquele estado – abatido e trêmulo – meu pai não fosse para casa, mas sim encontrar-se com a amante. Ela tinha aparência de quem o colocaria na cama, prepararia uma bolsa de água quente e lhe daria leite morno com mel. Minha mãe, quando alguém se sente mal, tem o péssimo hábito de vir falando de vontade e autodomínio”.

Confesso que no começo do livro, me senti impelido a rir da desgraça de Hans. A realidade às vezes é tão chocante que provoca o riso e, cá entre nós, o protagonista é um palhaço. Ele só pode estar fazendo graça, quis me convencer, ao ler as atitudes de sua família sobre a guerra, ao entender a dor que carregava no peito porque sua irmã foi mandada lutar para defender os interesses do país. Não era uma família que Böll estava retratando, era o pensamento de um país inteiro, e logo a graça tornou-se incômoda e a relação com a voz do livro se modificou. Se com a história dos pais riscos do protagonista, Böll critica os meandros sociais em si, com a história de Marie ele vai direto à religião. É triste pensar que as mesmas pessoas que caçavam judeus e mandavam crianças segurar bazucas, depois da guerra e do confessionário se tornaram religiosos exemplares, prontos para colocar o país nos eixos. Mudava o teatro, permaneciam os atores. O catolicismo e nazismo andavam de mãos dadas, um no quarto ao lado do outro.

De certo modo me consola saber que Pontos de vista de um palhaço teve imensa repercussão na Alemanha na época do lançamento, criando uma polêmica duradoura em torno da igreja católica alemã. Como leitor, torço para que outras editoras acordem para o valor de Heinrich Böll e decidam reeditá-lo no Brasil. Afinal, a hipocrisia religiosa é tema universal.

Pontos de vista de um palhaço
Heinrich Böll
Editora Estação Liberdade
308 páginas.

Zé Al – José Alberto Salgado – trabalha com música em práticas diversas e também em áreas acadêmicas. É professor e pesquisador da Escola de Música – UFRJ. Publicou poemas e letras em A Fumaça do Caipira, pela 7Letras, em 1997, e composições musicais no cd Zarpar. Agora, em 2008, também pela 7Letras, volta a publicar poesias com o livro O funcionário e a música – com capa dele mesmo.

No preâmbulo temos a informação que O funcionário e a música é continuação de A Fumaça do Caipira, que “personagens e noções que aqui são recorrentes aparecem lá inicialmente.” e outros passam a participar das histórias, “contracenando com os mais antigos, de perto ou à distância.” Mesmo sem ler o outro livro – que é o meu caso – o leitor percebe a presença desse caipira – pelo menos, a sua fumaça está visivelmente presente. Não é uma continuação com pré-requisito, o leitor se ambienta com facilidade. Os temas pertencem ao cotidiano comum, a voz lírica privilegia a descrição e torna as poesias claras e o tom, às vezes, de prosa, lembraram-me crônicas.

As epígrafes tratam da rotina. Uma é do Antonio Candido – “Quem deseja cortar amarras com a rotina deve mesmo arriscar altos e baixos (…)” – e a outra, acredito que seja do próprio autor, já que não tem nenhuma referência – “Rotina santa que me guarda (…)”. E a “rotina” das epígrafes realmente aparece nas poesias. Aparece diluída nas descrições – “Pela janela verei minha mãe, / verei minha avó / e essa visão desentupirá meu nariz. / Meu avô voltará do trabalho, / pela enésima vez. / O relógio vai cantar / e a porta se abrirá feliz.” -, como questionamento – “como poderia ficar à vontade / para escapar a rotina, / para fugir ao dever?” -, ou como limitação – “Até que outra série de mazelas burocráticas / ou vícios sociais / venham de novo acorrentá-lo sob luzes fluorescentes,”. São poemas que me passaram a imagem de um eu-lírico observador das várias facetas da rotina, em que a poesia seria justamente essa respiração dos momentos livres e reflexão das mais diversas idéias do seu dia-a-dia.

As poesias de Zé Al possuem um vocabulário que nos remete à idéia da “volta”. “Volta”, elemento da rotina, que aparece de diversas maneiras, assim como ela. Às vezes, como uma espécie de releitura, como no poema “Mesmo poema em dois momentos” – “O emaranhado turvo, / as raízes retorcidas / não dirão mais só sofrer. / Virão com a fumaça de blues / outras idéias silenciosas / e um sentimento já normal: / virão com fumaças de som.” -, em que o segundo momento desse poema reflete, com muita habilidade, toda a idéia de rotina que vamos tendo contato ao longo do livro, pois retoma e estende o significado, relê e acrescenta, avalia e aplica na própria poesia, na forma da repetição: “O emaranhado turvo, / as raízes retorcidas / não dirão mais só sofrer. / E depois de cantarolar, / virão outras noções filosóficas, / alguma notícia comentável / e um sentimento já normal.”

O eu-lírico de O funcionário e a música foca seu olhar sobre coisas comuns. Objetos – como uma maçaneta – personagens literários conhecidos, personalidades famosas, lembranças, pessoas desconhecidas. Algumas vezes, possuem um tom crítico, como, por exemplo, “Dois momento no banco”, II: “Longa fila de idosos, / mais longa ainda a do monturo: / banqueiros quaquimiliardários / riem de todas as caras. / Investcenter de deseducação, / investimento na desintegração / de consciências, de sensibilidades.” Olhar demorado que a própria voz lírica reconhece: “Exagera o poeta, dirá o leitor, a leitora. / Ora, acontece é que, diante dos significados, / já vistos ou por descobrir, / até agora estou explorando / o que aconteceu ali.”

Em outros momentos, os poemas me pereceram críticas aos que não olham atentamente, mas a grande parte trata mesmo de assuntos diversos: um estado de espírito, familiares, sentimentos, reflexões próprias, acontecimentos, fatos, imagens. Outras vezes, tratam até mesmo da própria escolha entre as inúmeras opções que o mundo oferece e que perecem passíveis de serem pensadas e quem sabe até de se fazer poesia para esse atento eu-lírico- “Na primeira hora dessa manhã, / diante de opções, / posso pensar no poema / iniciado na manhã anterior; / posso embalar no sonho / e continuar discutindo educação; / posso pensar na garota de ontem; / posso pensar no problema / de estar dividido entres mundos que apitam.”

Não senti emoção alguma com essas poesias, sinceramente, mas reconheço bons momentos de reflexão que irão permanecer e serão associados imediatamente ao Zé Al poeta. Um desses momentos merece ser integralmente transcrito, aliás – o belo “soneto ‘João Pessoa’, 2002″ -, sua beleza merece ser apreciada sem intermediários e vai revelar um pouco mais do que o leitor encontra em O funcionário e a música:


Eu sou Zé Trindade,

aguardando atendimento

na repartição do filme.


Eu sou Mazzaropi,

Esperando o momento

do carimbo grandioso.


Estou na fila desde 1940

e o funcionário foi ali,

saiu e volta já.


Eu sou o restolho de povo brasileiro,

se é que algum dia ele existiu.

Estou com um maço de papéis,

suando o paletó,

esperando ser chamado pela senha,

sentado em labirinto de poetas.

Quando peguei para ler Três Cadáveres de Fialho de Almeida, a primeira coisa que me veio em mente foi a obra de Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento. Nela, Zafón cria a Biblioteca dos livros esquecidos. Quem entra lá tem a missão de escolher um livro e manter sua história viva até passá-lo adiante. Aquele um autor que pouco editou e vendeu provavelmente estará por lá (se algum exemplar escapou da reciclagem). Chega a ser engraçado, já que Zafón é best-seller mundial, mas levanta a velha questão da memória, do que realmente define o que é legado e o que é esquecimento.

Fialho de Almeida participou ativamente do meio jornalístico e literário. A novela Três Cadáveres foi publicada em 1883 no jornal O Atlântico, com o título de “A doente 27”. O texto foi reescrito mais tarde e passou a integrar o livro O País das Uvas (que você ainda encontra por aí). Esse foi o terceiro livro de contos de Fialho, que também se destacou como cronista.
O que chama atenção na obra de Fialho de Almeida é o enfoque mórbido dos retratos que faz da miséria, flertando com doença e morte sem muitos pudores. Mesmo que se utilize de ironias pontuais, Fialho se distancia da maioria dos autores portugueses que atacavam a burguesia na tentativa de pegar carona no sucesso de Eça de Queirós. Esse é seu grande atrativo.

“A primeira noite foi triste. Havia ratos. Uma chuva antipática, muito fina, descia calada sobre os lamaçais da rua; e ao fundo dum boqueirão soturno ouvia-se o rio mugir, e chamarem para os barcos as vozes prolongadas dos barqueiros”.

Em Três Cadáveres, Fialho de Almeida conta a história de um médico (Fialho estudava medicina) que acompanha o caso de Marta, uma mulher com doença terminal largada à própria sorte. O autor usa Marta como canal para explorar os sentimentos do médico em diversas situações. Ao mesmo tempo em que se sente atraído por ela fisicamente, o doutor não pode devotar-lhe mais do que seus cuidados profissionais, criando um dilema comum aos romances da época. Mais tarde, quando a morte anunciada se concretiza, o médico sente o peso da culpa que carrega nos ombros (pela morte de Marta e por todos os desamparados do mundo). A parte mais interessante fica por conta de uma viagem onírica pela consciência do protagonista, representada na história como um passeio pelo mundo dos mortos.

O texto de um escritor português de 1883 não é um livro para muitos. Mas Três Cadáveres flui bem no formato de bolso e não apresenta construções mirabolantes que assustem o leitor, o que aumenta seu potencial. Se Fialho conseguirá escapar da Biblioteca dos livros esquecidos só o tempo dirá. Por enquanto, o autor ainda tem quem cuide de sua história.

Três Cadáveres
Fialho de Almeida
Posfácio e fixação de texto: Maria Helena Santana
Livro no formato de bolso com 97 páginas.
Editora 7 letras.

Um dos fatores determinantes da qualidade de um livro é a sinceridade do autor na abordagem do assunto. Quem lê com freqüência já deve ter esbarrado por aí com picaretagens da modernidade. O autor se veste de periférico e diz retratar todas as minorias que o permitam ganhar dinheiro. Toma banho com sabonete hidratante, mas transpira miséria em cada linha que escreve. É mais ou menos o que faz Claudio Assis no cinema, é o que fazem outros na literatura.

Na literatura fantástica, mudam os temas, permanecem as armadilhas. Mas dessa vez mesmo os fãs ressabiados podem ficar tranqüilos.

De Roswell a Varginha tem na sinceridade a sua maior qualidade. É um livro feito por alguém que entende do assunto, mas que principalmente gosta do que está falando e não tem pretensões de reinventar a roda. O autor, estudioso de ufologia, usou o tema com respeito para escrever uma história em que ficção e realidade se esbarram a todo instante. No meio da leitura é difícil não se perguntar o que foi fruto de pesquisa e o que é simples invenção. A vontade de que seja um relato documental quase supera a ansiedade da linha ficcional.

De certo modo, acho que todos torcem para que exista algo que nos faça arregalar os olhos novamente, que nos faça gritar surpresos, que traga de volta o sentimento infantil de encarar o desconhecido pela primeira vez, me permitam a redundância. Esse algo pode assumir diferentes contornos durante a vida. Pode ser um filme no cinema, um livro arrebatador, podem ser fadas, duendes, um ménage bertolucciano, o primeiro salário ou um OVNI rondando nossas cabeças enquanto esperamos um contato.

“O jipe finalmente chegou ao local, depois de passar por quatro postos de controle. O oficial que viajava nele desceu, e o veículo deu meia-volta retornando à Base de Roswell. Ainda naquela noite, o motorista amedrontado e espantado seria transferido para o sudeste asiático”.

O formato de thriller investigativo deve agradar em cheio quem gosta de ufologia ou tem alguma curiosidade por casos estranhos como o de Varginha. Renato foi esperto ao fugir do esquema “agentes especiais” e equipar seus protagonistas apenas com o necessário.

Na maior parte do tempo, o leitor acompanhará Roberto Monteiro, jornalista que também escreve artigos para revistas de ufologia e para um informativo virtual sempre pronto para revelar conspirações bombásticas. Ele é uma espécie de alterego do autor, que já foi membro do conselho editorial da revista UFO e colaborador da Sci-fi News. Roberto Monteiro é amigo de infância e amante de Lígia Barros, uma policial federal que conduz parte da trama. Os dois vêm de família de tradição militar e é nesse passado em comum que está a primeira ligação com aparições de OVNIs no céu do Brasil.

O livro começa na cidade de Novo México narrando os incidentes de Roswell, talvez o caso mais famoso da ufologia mundial. Nessa parte, Renato apresenta Reynolds, um especialista de inteligência militar que teria ajudado a encobrir os fatos lá nos Estados Unidos e mais tarde teria vindo ao Brasil. Depois disso, o autor passa para o Forte Itaipu, relatando um incidente em que militares foram feridos ao entrar em contato com um objeto estranho que sobrevoou o local. Mais um salto e estamos finalmente em Varginha, a menina dos olhos dos ufólogos brasileiros, que segundo estudiosos do assunto teria nos dado uma importante moeda de troca em acordos tecnológicos.

Renato conta em forma narrativa parte do que aconteceu em Varginha, plantando as sementes da trama que será explorada durante o romance.

“Os dois homens não sabiam o que fazer. O objeto era circular, com uns trinta metros de diâmetro e completamente silencioso. Emitia um fantasmagórico brilho alaranjado, e os soldados ainda estavam paralisados quando ouviram um zumbido mais forte (…) Antes que pudessem se abrigar, suas fardas entraram em chamas. Ambos gritavam e tentavam fugir, enquanto já se ouvia movimento no forte”.

Renato A. Azevedo foi esperto ao fazer um livro rápido, sem pesar demais a mão em filosofias existenciais ou na explicação do inexplicável. Seu maior deslize está no relacionamento entre alguns personagens, que não agregam nada a trama principal e não complementam os protagonistas, dando a impressão de estar sobrando. Os exemplos mais óbvios são a reunião da família de Roberto Monteiro (com pequenos pontos que não levam a lugar nenhum) e os beijos e afagos de Roberto e Lígia com seus namorados, que funcionam mais como fetiche do que como personagens. Renato poderia ter aproveitado o espaço para explorar melhor à tensão entre os dois amantes-protagonistas, que crescem em profundidade quando estão juntos, e são de longe mais interessantes que o pai militar chatinho de Roberto (quantos erres), com o velho discurso de ovelha negra da família.

Como era de se esperar, os pontos fortes do livro surgem quando o tema fica mais evidente, o que demonstra a paixão de Renato pelo assunto. Estão lá as manobras do exército, as fontes que sabem de tudo, os relatos de testemunhas e até um trio abertamente inspirado nos Pistoleiros de Arquivo X, chamado aqui de os Faroleiros.

Em épocas de extrapolações e distopias, é legal ver uma ficção-científica que volte a dialogar com o nosso imaginário mais comum. Como costumo dizer, se ETs não existiam antes, agora nós já os criamos. Se eles aparecem no livro? Só lendo para saber.

Em tempo: Fica a sugestão de uma revisão mais caprichada e uma limpa nas vírgulas na segunda edição.

De Roswell a Varginha
Renato A. Azevedo
Tarja Editorial
103 páginas.

Li, com prazer, o último livro de Silviano Santiago. Heranças. O livro tece as memórias de um senhor doente que passa os últimos dias frente ao computador de seu apartamento em Ipanema, preparando-se para enterrar-se, desenraizado e solitário, em solo estrangeiro. O protagonista escreve suas memórias.

O princípio das memórias, em geral, é o autolouvor ou o esclarecimento de algum ponto obscuro de alguma experiência vivencial que devesse ser esquecida ou relembrada para que se pudesse – em paz – baixar ao túmulo, deixando aos pósteros a paz dos homens probos, se possível com os aplausos – tão comum em nossos dias – com que se celebra a morte.

O personagem de Heranças parte de uma dupla negação. Não quer salvar a honra, não quer para si a fama do heroísmo, gerenciador dos aplausos. Personagem que é da ficção está livre para dispor da análise crua do que viveu. Cria-se aqui o ponto de contato com as diversas memórias ficcionais do século XIX, seja a machadiana, seja a dos sargentos de milícias, além de dialogar com a profusão de ‘memórias’ que abundam no mercado editorial, autorizadas ou não.

Esta dupla negação, que se desdobra em outras possibilidades, traz de Machado o fio cortante da análise de nossas misérias, do nosso desejo de nomeada. O que se nomeia nomeia-se, quando, já a salvo dos dissabores do mundo, o personagem, sedutor e canalha a um só tempo, dispõe-se a esclarecer pontos escusos de sua conduta. Ressalte-se aqui a ausência da confissão. A lucidez do romance está em evitar esse caminho, pois, ao não se confessar, evita o futuro perdão e, assim, uma das armadilhas da narrativa memorialista.

Com cinismo, o protagonista percebe – cedo – que firmar-se no mundo da nomeada depende de ações que lhe permitam estar livre para agir e recolher as benesses de suas ações. Portanto, como as personagens de Machado ou de Manoel de Almeida, o de Heranças evita o trabalho – não há necessidade do trabalho, quando as pessoas se dispõem a ser os rastros dos patrões.

A narrativa se desenrola e, desta maneira, ataca, aqui e ali, de modo randômico, pontos dispersos de uma vida. Não se quer com essa formulação aleatória, entretanto, criar um elo com a fragmentação da narrativa, mas fazer com que se perceba – como comentário cáustico – a própria indústria de pseudo-heróis que as narrativas contemporâneas forjam. Ao se ler como ficção de uma narrativa; Heranças, em seu duplo viés, permite a reflexão do sujeito contemporâneo acerca do espaço que o constitui.

A poetisa Telma Scherer, autora também de Desconjunto, Mestre em Literatura Comparada pela UFRGS, publicou esse ano, pela 7Letras, Rumor da Casa. A casa de Telma Scherer é o espaço da tessitura da sua escrita. A poetisa tece os poemas – “Nessa casa há porão e nem saída, / e as agulhas ainda dançam na minha mão.” – como a personagem do livro Vó Elza tece a vida. O lápis, ou algo do gênero, é a sua agulha e o fazer poético é intimamente ligado ao rumor: “Penetram-me / palavras / mais que todas / no pulso / sons / sobre muros / de silêncio / e olho / sons / sobre o mundo / e dentro: / dentro de mim / há o soco / do som”.

Nessas poesias são evocadas memórias e vê-se o confronto entre dois tempos. Percebi essa casa como representante de um espaço perdido de raízes, da extinção de seres queridos e de uma perda da própria chama interior. A idéia da casa, casa da avó, condensa a força expressiva, já que é, ao mesmo tempo, matriz, centro gerador da vida, lugar do carinho, do afeto e do acolhimento. Ouvir os rumores dessa casa é uma forma de retornar ao acolhimento amoroso das origens, manifestando a nostalgia de um tempo. A casa é a figura da avó, é família, é infância, é o lar, é referência, é o passado, é saudade. Casa composta por recordações, sentimentos, vazio – “Na casa vazia / passou a fome de brilho. / Passou o gosto da fruta / ficou o copo na pia. / Grudou no sulco do chão / o rabo de um rato morto. / Poeira nos travesseiros / restos de cera queimada. / A sombra da mulher morta / está sentada na sala. / Agulhas ainda repousam / num ponto roto da manhã.”

Casa da palavra com rumores em versos, em que o eu-lírico possui um ouvido atento, sensível, e o leitor tem a possibilidade visitá-la por meio dos sons. São 45 poemas, sem preocupação com a métrica, onde escutamos uma forte voz feminina. Alguns poemas possuem também um erotismo marcante e outros a personificação da casa. Como nos versos de Ferreira Gullar citados como uma das epígrafes – “Debaixo do assoalho da casa / no talco preto da terra prisioneira, / quem fala?” – em Rumor da Casa também se tem a percepção das vozes escondidas pelos seus cômodos e a necessidade de questioná-las.

Em “Vó Elza cuidava da casa”, poema escolhido para a contra-capa, Vó Elza é a própria casa, ela mesmo se tece, e a voz lírica revela, na última estrofe: “Sempre achei / que os fios entre seus dedos / não passavam / de cordões umbilicais.” Essa personagem, que entrelaça os fios dos poemas, tece a vida, gera vida, gera memória, gera sons, sentimentos, que vemos retratados nas poesias – “Vó Elza é uma trama / de náusea / e silêncio”.

Esse livro me fez recordar, em algumas passagens, o poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. A mesma sensação que me vêm quando leio “O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, / Pondo grelado nas paredes… / O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), / O que eu sou hoje é terem vendido a casa, / É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…”; veio também, por coincidência, em alguns versos de Telma, como “O silêncio da casa vazia. / O silêncio das mobílias, dos retratos. / O silêncio do quarto da avó, fechado. / O silêncio de papéis em branco, / de sutiãs apertados sob a blusa. / Nenhum som, nenhum prurido. / O silêncio surdo, / o silêncio ensimesmado dos mortos, / o silêncio das suicidas. / O silêncio de filhos que partiram, / e que não voltem!”. O que me deixou feliz, porque poucas coisas me deixam tão feliz quanto poemas dos vários Pessoas.

O silêncio dessa casa incomoda, faz ruídos, rompe o significado de silêncio. Esse silêncio é o som do vazio em que se perdeu a sensação de totalidade dada pela vida em família. Silêncio porque a casa se fechou em ausência – “Pior é o silêncio”: “Não deixar escapar / o canto / onde o dia e seus resíduos / limpos / sábios / amordaçam a sala. / Pior é o silêncio que espera / paciente / e sem falta / até que a luz deste banheiro / até que o canto da cozinha / e a mancha na parede / lhe pareçam / ensurdecedores.”

Casa da poesia, em que, ao mesmo tempo, ela é material que a compõe e o lugar onde se abriga. É a casca e o conteúdo da casa. É o elemento da essência. Poesia que abriga sensações, rumores, pensamentos. É casa, mas não só. Casa em que as janelas são como livros: “As janelas para azul e para o negro / abro e fecho uma a uma, como livros.”

São poemas em que o eu-lírico mostra-nos que conhece as reentrâncias dessa casa cheia de ruídos: “Conheço as reentrâncias desta casa. / Conheço as falhas no carpete, os vidros, os cantos de pó. / A mancha na mesa de madeira, / o sulco na parede da cozinha, / o furo para o quadro que não veio. / Conheço os brilhos desta casa. / Na manhã, o sol que invade a sala, o quarto escuro. / Conheço a dança das luzes no assoalho / – e mudam se deito ao contrário. / Conheço os cheiros desta casa. / O lixo da cozinha, sabonete, xampu. / Conheço o calor do banheiro, no verão. / O cheiro da televisão novinha. O mofo nos armários.”

Casa que abriga uma “menina apavorada” que “presta atenção aos ruídos” e, ao mesmo tempo, não é só menina, mas a velha que tricota para poder pensar “e às vezes fura a agulha com a mão”. Onde observei uma forte imagem do fazer poético, em que se é capaz de romper com o óbvio e dizer muito mais. A voz-lírica se expande, toma conta da casa inteira, vai de menina à velha em instantes. Voz que em “Eu caio do medo ao caos”, vê os vultos escuros das mulheres assombradas – Sarah, Virginia, Ana C, Clarice, Sylvia – e sua fala parece o eco de outras vozes – “É você ou sou eu nessa dança de cordas”; “Clarice, é você atrás do galho / ou sou eu que sussurro?” -, mas não se confunde – “Ela arde de sol ao meu lado. / Maquiou-se de Clarice e nada vale. / Será sempre a mesma e pura Telma.”

Nem parece, mas o tempo também voa na fantasia e na ficção. Bem, talvez na ficção o tempo voe literalmente, em máquinas altamente capacitadas para disparar raios de anacronismo, mas na fantasia o relógio avança diferente e mesmo os vampiros e imortais estão lá apenas para nos lembrar de que diante daquele esbanjamento de sedução, nós, autores, ganhamos todos os dias rugas e cabelos brancos, encarando de dentro o envelhecimento do qual fugimos na literatura.

Mas o passar do tempo também trás coisas boas, claro. E no terreno da literatura fantástica quem vem marcando presença desde 2002 é a revista Scarium, que resiste em edições impressas (em papel, lembra disso? Faz um esforcinho, vai), divulgando autores novos e já consagrados do nosso mercado.

A cabeça por trás desse projeto é Marco A. M. Bourguignon, que ocupa basicamente todas as funções na produção da revista, no melhor estilo canta, dança e representa. Como ninguém é de ferro, ele conta com a ajuda da jornalista Lara Chateaubriand, Mônica Santos e os co-editores Gabriel Boz e Giulia Moon. A Giulia, diga-se de passagem, é uma escritora vampiresca de mão cheia e foi responsável pelo meu contato com o número 22 da Scarium que resenho aqui.

As edições da Scarium são temáticas e fazem um apanhado de autores, misturando gerações. No começo, havia um endereço online que divulgava a revista em papel. Aos poucos, o site foi ganhando autonomia para divulgar eventos e notícias, e talvez um dia use a bocarra da informática para engolir de vez o papel. Apesar da alma de fanzine, a Scarium ficou com cara de revista encorpada e esse número chegou a 74 páginas divididas em doze contos, uma resenha e uma entrevista. O tema da vez foi histórias de Lobisomens.

Mesmo sendo tão conhecidos quanto os vampiros, os lobisomens nunca desfrutaram do mesmo sucesso, talvez por culpa de filmes que ajudam a impregnar no imaginário popular dramas limitados ao confinamento e aos efeitos especiais. Sem contar aquela história de sempre perder a roupa no dia da transformação. Dramas terríveis. O que acho interessante no lobisomem é que ele consegue ser universal e ao mesmo tempo ter uma ligação com o folclore brasileiro, mantendo-se vivo em regiões do interior do país. Ainda assim, é capaz de assumir um aspecto urbano, evocar algo de xamanismo e ritos pagãos, manter um diálogo com temas ecológicos (preservação) e por outro lado ser uma máquina destruidora em sua versatilidade de abordagens.

Na literatura, os vampiros continuam em vantagem, mas o desenvolvimento da literatura fantástica nacional deve equilibrar esse cenário. Antecipando a tendência (ou o desejo incontido do resenhista), a Scarium mostra como quem não quer nada que o personagem também pode gerar histórias interessantes e que o horror não precisa ter medo se romper certas tradições dos gêneros.

Das doze histórias, cinco me chamaram mais atenção e são essas que destaco abaixo.

No conto de Giulia Moon (Vampiros no espelho e outros seres obscuros, A dama morcega), o cenário é urbano e grande parte do clima se desenvolve em uma festa gótica. Um homem segue uma mulher pela noite e pelos modos de cada um fica difícil saber quem será a fera da relação. A grande sacada é explorar um cenário tipicamente vampírico, adequando os arquétipos ao lobisomem. Mais para o final, os personagens chegam a uma fazenda e junto com a história Giulia faz uma transição de estilo, como se houvesse ali o encontro de duas literaturas. Premissa de lado, destaque paraé a narrativa de Giulia, que demonstra nas entrelinhas domínio da escrita.

Mariana Albuquerque (O pássaro e o rochedo, Coração de demônio) adota uma abordagem que vi poucas vezes e que me agrada bastante: dissociar a força da fera da brutalidade do corpo. A figura do lobisomem passa a encarnar um viés mais libertador e a transformação acontece mesmo é com o espírito, habitando o mundo dos sonhos, sem deixar claro o que é real ou não. O final não traz surpresas, mas como a história não é construída em cima de nenhum mistério isso não compromete o resultado final. Mesmo etéreo, o lobisomem de Mariana faz estrago.

O conto de Gabriel Boz é o de estrutura mais inovadora. A história se passa em algum ponto do futuro em que uma peste transformou parte da raça humana em licantropos. O conto é narrado por um soldado lobisomem, mas no formato blog, com direito a intervalos intermináveis entre um post e outro e até mesmo comentário de outros soldados. Para melhorar, os ingredientes futuristas encontram a mitologia egípcia na figura do lobisomem mais imponente de todos os tempos: o deus Anúbis.

Tibor Moricz (Síndrome de Cérbero, Fome) aposta na ironia e propõe uma inversão de papéis na dinâmica das transformações. Seu narrador é meio cafajeste e se comporta como um lobo velho (babão) que vira homem de vez em quando. No meio da noite, ele filosofa sobre o preconceito que tem consigo mesmo (metáfora para a idade?) e pensa no que as lobinhas lá fora diriam se soubessem de sua fraqueza humana.

Explorando também o preconceito, Rita Maria Felix da Silva é ainda mais radical. Em sua história, os lobisomens exterminaram a raça humana e dominaram o planeta, reconstruindo um simulacro de sociedade que tem a violência como eixo. Sua protagonista é uma lobisomem aprisionada em corpo de humana. Professora, ela tem que agüentar a valentia dos alunos e tentar manter a ordem, lembrando um pouco os filmes americanos sobre escolas violentas ou a nossa realidade em algumas escolas públicas. O conto tem reviravolta desnecessária no final, mas nada que comprometa a boa escrita de Rita.

A revista traz ainda contos de Renato Arfelli, Mônica Virgo, Emir Ribeiro, Marco Bourguignon, Helena Gomes, Roberto de Souza Causo e Waldick Garret.

Em tempos de e-zines acessados por milhares, é difícil saber por quanto tempo a Scarium continuará sendo editada em papel. O fato é que a revista continua a cumprir sua função de divulgação da literatura de ficção, fantasia e horror.

E isso agora de escrever a resenha sobre um livro que resenha e que comenta as resenhas que outros já fizeram sobre autores consagrados da literatura portuguesa, como Eça de Queirós, Cesário Verde, Fernando Pessoa e Almada Negreiros. São desafios multiplicados os dos que analisam as obras de grandes nomes na época em que ainda caminham para sê-los. Olhar sobre o ombro é, convenhamos, uma tarefa mais simples por já sabermos onde as peças se encaixaram no fim das contas. E olhar sobre os ombros dos ombros, nem se fala. Por isso a análise do passado carrega outros fardos, e implico consistentemente por aqui com o de tornar o objeto de análise acessível e interessante e fazer do texto crítico algo tão ou mais agradável do que o texto analisado. É uma tarefa difícil, não duvidem disso. Fiquei então muito feliz (me permitam o prazer de vez em quando) ao descobrir em Tiranias da Modernidade um livro extremamente agradável e simples de ler, feito para ampliar o conhecimento e não para restringi-lo aos rocamboles ortográficos acadêmicos.

Sendo assim, nada mais de entortar as frases, vamos direto ao assunto.

Tiranias da modernidade é composto por ensaios sobre autores portugueses de prosa e poesia. Estão lá o sempre bem-vindo Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Cesário Verde. Esse último foi um verdadeiro presente. Não sei como pude passar tanto tempo sem conhecer a poesia urbana de Cesário (que já chamo assim, íntimo, pelo primeiro nome, como um motorista de celebridades). Mas nada de derramar elogios ao poeta português, deixe-me voltar ao livro de Izabel Margato e se eu me desvirtuar do assunto, a culpa é dela que me apresentou o poeta.

Tiranias da Modernidade propõe um ponto de convergência entre os realistas da Geração 70 e os modernistas da Geração Orpheu, que ajudaram o modernismo a chegar de vez na literatura portuguesa. Um dos pontos que mais me chamou a atenção, e que por certo se remete ao título, foi esse atropelo repentino sentido por Portugal, com a modernidade chegando pelas fronteiras, dançando nos trilhos dos trens, mostrando-se nas roupas e costumes e contagiando a literatura. Do mundo fragmentado (talvez mesmo pulverizado) de hoje nos esquecemos que a literatura representa um algo mais do que contar histórias. É um retrato, mesmo que borrado depois da chuva, das mudanças de seu tempo. Ver, absorver, digerir e regurgitar pode ser doloroso. E o que os autores portugueses analisados por Izabel Margato perceberam, cada um ao seu modo, foi o total descompasso com a modernidade da Europa. Portugal, que foi potência em seu movimento de saída da Europa e na busca por outras terras, se vê novamente perdido, um estranho dentro da hegemônica modernidade.

“É essa compreensão tensa da modernidade que me interessa. (…) Dentro desse raciocínio, a ambigüidade vivida por essa geração vai muito além do sentimento contraditório expresso por pensadores ou artistas da época em relação à sociedade moderna. Para os homens da Geração 70 portuguesa, a modernização não pode ser vista apenas a partir da dicotomia ‘vazio de valores’ e ‘abundância de possibilidades’. Para eles, um outro dado assume maior relevo: a impossibilidade de pertencer plenamente a essa nova realidade hegemônica e ao mesmo tempo excludente”.

Ah, essa tal modernidade. Como alcançá-la? Como lidar com a dor do entendimento e processamento produzindo algo que leve ao novo e saia da segurança da mesmice. Desde que o mundo é mundo uma boa maneira de ir adiante e propor a mudança é criticar o presente, ironizá-lo, despi-lo diante dos olhos do povo e dos próprios grupos ironizados. Foi o que fez Eça de Queirós em sua obra, como mostram os inúmeros exemplos do livro. A popularidade dos livros e as vendas impressionantes mostram que ele estava certo. Também faz parte do processo de mudança que alguém comece a ler a nova realidade, a tentar entendê-la com outros olhos, e na época esse papel cabia aos autores, à literatura. A transformação da poesia de Cesário Verde de uma dualidade campo-cidade realidade para um desmembramento interpretativo da cidade é um dos melhores textos para explicar um longo processo de mudança do olhar que ecoa até hoje, mudando apenas o objeto em questão.

“Se os poemas mais realistas de Cesário convocam a particular beleza do cotidiano para a cena do poema, essa circunstância não se confunde, ontologicamente, com a perspectiva linear e positivamente realista da época. O olhar ‘objetivamente duplo’ torna precária a concepção de arte como imitação ou reprodução do real. Na medida em que ele resulta de uma visão de mundo contrária aos costumes, aos usos e às regras de percepção do real. Nesse sentido, a ‘poética do imprevisível’ inaugurada por Cesário é muito mais produtora do que reprodutora de sentidos de realidade, onde a banalidade cotidiana (…) já vem transfigurada (…)”.

Como de hábito, me pergunto quem é o público do livro que estou lendo. Tiranias da Modernidade tem um público amplo. Cabe aos que se interessam pelos autores analisados, pela transformação de Portugal como sociedade, com a triste diminuição da popularidade da literatura, pela personalidade fragmentada de Pessoa e também pelos que querem entender nossa época dando uma espiada rápida no passado. É um livro com um espaço a preencher dentro e fora do meio acadêmico.

Essa força que quebra o hermetismo permitindo comparações com o presente, não pelo texto em si, mas pelo olhar despojado da autora, já vale por si só a leitura.

E ainda tem Cesário verde…

Só para não deixar passar a informação: Izabel Margato é professora de literatura portuguesa do programa de pós-graduação em Letras da PUC-Rio e reconhecida pesquisadora de literatura portuguesa contemporânea. São dela também O papel do intelectual hoje e Literatura/Política/Cultura.

Tiranias da Modernidade
Izabel Margato
85 páginas
Editora 7 Letras

objeto algum, de Rodrigo Guimarães, publicado pela 7letras, recebeu agora em 2008, junto com Érico Nogueira -  O Livro de Scardanelli, o  Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Poesia. O psicólogo Rodrigo Guimarães, mestre em Psicologia Social e doutor em Literatura Comparada, é poeta e ensaísta. Publicou na área de Psicologia Social os livros Ação e vida e Aids: olhares plurais. Em poesia, publicou Olhares, Vestindo águas (menção honrosa no concurso Redescoberta da Literatura Brasileira) e Celacanto (Prêmio Nacional Vereda Literária Uni-BH). Atualmente, é pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

O seu livro objeto algum é algo além do que se vê. Tem que se estar disposto a lê-lo, com boa vontade mesmo, senão os poemas não fluem ou fluirão sem entendimento. Serão lidos, não apreendidos. Não passarão de um amontoado de palavras, o que nenhum poema quer ser, convenhamos. Porém, não começamos sua leitura de forma desavisada, pois, além das boas palavras de António Sérgio Bueno na orelha do livro, temos também a epígrafe como conselho: “a pressa não preme as sinapses necessárias para desentranhar o corte”. Conselho, pois nos faz refletir que, às vezes, a pressa pode ser inútil. Bom isso, já que temos pela frente justamente poemas para serem lidos vagarosamente. Aliás, não são poemas para serem apenas lidos, são poemas para serem refletidos. A beleza do significado não nos é dada de graça, requer uma atenção especial do leitor.

Nesses poemas, as palavras ultrapassam seus limites, e os objetos, através dessas palavras, excedem seus contornos. È um trabalho de percepção, com um olhar concentrado, dedicado, que requer do leitor também esse olhar minucioso, “cabe que um olhar se acumule” para não ceder ao peso dos desvios. Muita coisa está fora do papel, circulando ao redor do livro, seja uma palavra que não está ali impressa – mas a colocamos involuntariamente ao lado de outras logo após terminar de ler um verso – seja uma imagem que nos ocorre e sai lá do fundo das nossas lembranças – o que, com certeza, irá variar para cada leitor. Isso fez com que eu ficasse com a nítida impressão de que, por mais que eu me esforçasse, não conseguia perceber todas as intenções expostas ali. Acho que têm coisas nesses poemas que eu não consegui ver, simplesmente. Não sei se é a janela ou são os meus óculos que estão embaçados – aqui, retomo o poema “incógnita”: “para que serve / uma janela / se falta um olhar / que a atravesse”, acho que me falta esse olhar. Nem sei se é uma impressão real, ou só uma sensação por ter em mãos poemas que talvez queiram passar justamente esse tipo de sensação: a de que existem coisas além do que podemos perceber – “pormenor”: “se diante do desacerto / decidiu-se pelo óbvio, / talvez não tenha visto / o que à primeira vista / não se vê”. Enfim, independente do motivo, me incomodou e me senti feliz por ter algo incomodando.

O livro é composto por duas partes. A primeira, denominada “Sem título”, é composta por versos quase sempre curtos, pelo menos mais curtos do que os da segunda parte, e a segunda, “Objeto algum”, apresenta versos bem longos. É impossível deixar de comentar a disposição do texto nessa segunda parte: impressos verticalmente na folha, fazendo que o livro tome o formato de um bloco – o que me pareceu uma estratégia para que os versos, dessa forma, tivessem seu espaço garantido, mantendo assim sua integridade física, se é que versos têm integridade física.

A construção dos poemas encontrados aqui ressalta a importância dos espaços em branco e preto da folha de papel. Há um belo trabalho poético com o signo lingüístico, em que é nítida a exploração do significante no texto por meio de recursos visuais. A carga semântica dos vocábulos e a disposição geométrica das palavras na página são bem marcantes. Por meio de uma linguagem direta, econômica, Rodrigo Guimarães procura mexer com o leitor, exigindo participação ativa, já que os poemas permitem múltipla leitura e, percebendo esse aspecto, o leitor sente-se tentando a esgotar as possibilidades.

Rodrigo utiliza o poema como objeto da linguagem criando uma tensão de palavras-artefatos. Tomemos como exemplo o poema “por um fio” que apresenta uma estrutura silábica: somente uma sílaba em cada verso, compondo um fio de letras que formam vocábulos monossílabos ou dissílabos. Outro interessante poema é o “da participação totêmica à admiração antropológica”, composto por apenas quatro palavras distribuídas em dois versos: “com ele, / como ele”.

Sem métrica, sem rimas, com pontuação peculiar – é comum os poemas não apresentarem vírgulas, pontos, nada -, em que o poeta, na segunda parte, onde os poemas lembram aforismos em linguagem poética, usa espaços longos entre as palavras como pausa, onde não há nem mesmo letras maiúsculas para indicar o início de frases, o vemos trabalhar a “arquitetura de visibilidade”: “por isso o recuo necessário para perceber os movimentos que transformam banalidades em exigência”, invisibilidade que “se deixa ver mesmo afastando do visível     e ao entrar lentamente dentro de seus passos” – poema “deslocamentos”.

Os poemas de objeto algum versam, principalmente, sobre o olhar demorado que o eu-lírico dedica aos objetos – poema “voyeur”: “o olhar é um utensílio / até mais não ver / o inespecífico, / os acúmulos que / se refinam em arestas.” Às vezes, parece que a percepção além do óbvio não é resultado somente do olhar atento, mas decorrência da vontade do próprio objeto de se denunciar, que faz questão de se desnudar para esse eu-lírico. Objetos que podem sugerir que são aparentemente indiferentes, mas quando expostos a essa contemplação vão além e mostram-se integrantes do mundo e ainda indicam consciência dos seus papéis.

Em “frágil”, nos três últimos versos, o eu-lírico comenta essa sua forma de olhar: “presumo    porém    ter descoberto outra forma de olhar    um movimento involuntário / executado sem me dar conta     e a dúvida     sempre a dúvida / de tê-la aniquilado antes de conhecê-la”. E isso me ajudou, se ele ficou em dúvida, me senti mais à vontade para ficar também sobre várias coisas que encontrei nesse livro.

Tenho notado que as edições da 7Letras vêm se mostrando muito especiais, em vários sentidos. Primeiro pela seleção de poetas, depois, e quando é o caso, pela excelência dos organizadores que selecionam e organizam algumas edições, finalmente pelo trabalho de edição e produção gráfica que, como sabemos, é importantíssima não só para os designers que as criam, mas também para os leitores que são beneficiados de inúmeras maneiras, ainda que muitos não se dêem conta disso ou não reconheçam o valor dos designers gráficos para a produção de um livro de qualidade.

O livro a que me refiro no momento é 19 recantos e outros poemas, de Luiza Neto Jorge, cuja organização é de Jorge Fernandes da Silveira e Maurício Matos. O primeiro, admiradíssimo e muito querido no mundo acadêmico, é pesquisador, professor e já escreveu alguns livros de ensaios e seleções de poesias, dentre eles Cesário Verde: todos os poemas, de 1995, publicado pela 7Letras. O segundo, também com formação em Literatura Portuguesa, tem várias publicações, dentre elas Mensagem, de Fernando Pessoa, que contou com organização em parceria com Cleonice Berardinelli, que dispensa apresentações.

Os Dezanove Recantos é publicado inicialmente em Lisboa, em 1969. A obra é a “mediação extraordinária numa poesia de acontecimentos, de situações tensas entre o sujeito e as suas circunstâncias”, como afirma Jorge Fernandes da Silveira no capítulo nomeado “Implicâncias: Luiza, duas ou três coisas à minha maneira” e acho que eu não seria capaz de pensar numa definição melhor que essa. E os versos confirmam essa definição:

Eu e ele somos a espaços

improváveis veículos (eu e vós)

mestres voadores

reptantes redemoinho meu ressaca viva oculto vinho

oculto amor

(“recanto 18″ – exerto)

Os outros poemas, além dos 19 recantos, seguem uma ordem cronológica de acordo com a publicação, conforme exposto nas páginas intituladas “Origem dos poemas”. Nessa sessão conhecemos todos os títulos dos livros dos quais foram extraídos os poemas que compõe essa seleção, desde A Noite Vertebrada, de 1960, do qual se lê “Subitamente vamos pela rua”, até “Acordar na Rua do Mundo”, parte de A Lume, livro póstumo de 1989.

A edição oferece também uma biobibliografia da poeta, feita por Gastão Cruz, poeta português do grupo de Poesia 61, sobre o qual Jorge Fernandes da Silveira, um dos organizadores do livro, já desenvolveu uma pesquisa, que na verdade foi sua tese de doutorado, mas que posteriormente assumiu formato de livro. Trata-se, aliás, de uma excelente fonte de pesquisa sobre Poesia 61. E Poesia 61, vale lembrar, foi uma obra marcante para a literatura portuguesa contemporânea, composta por cinco livros, mas que formam uma unidade: Morfismos, de Fiama Hasse Pais Brandão, A morte percutiva, de Gastão Cruz, Quarta dimensão, de Luiza Neto Jorge, Tatuagem, de Maria Teresa Horta e Canto adolescente, de Casimiro de Brito.

A biobibliografia, no entanto, sendo lida após a leitura dos poemas, não é muito surpreendente na medida em que Luiza Neto Jorge deixa muitas pistas sobre si em sua escrita. São vestígios de particularidades de sua vida, de momentos históricos que vivenciou, alusões à sua doença respiratória, que, aliás, acaba por levá-la a falecer em fevereiro de 1989, entre outras coisas que nos fazem sentir bem íntimos da escritora. Os poemas “Anos quarenta, os meus” e “Minibiografia” são bastante representativos do que quero dizer.

Para aqueles que não conhecem Luiza Neto Jorge e sua obra, essa seleção é a melhor forma de fazer o primeiro contato com a escritora, por conta da seleção minuciosa dos poemas, bem como dos capítulos complementares que refletem sobre cada um deles.

Aconteceu nesse sábado no Itaú Cultural a primeira parte do evento Invisibilidades, que teve curadoria do escritor e tradutor Fábio Fernandes. Girando em torno do tema Ficção Científica no Século XXI: ainda é possível?, o público pôde acompanhar um amplo debate em duas mesas-redondas.

Na primeira parte, os escritores Antônio Xerxenesky, Max Mallmann, Nelson de Oliveira e Octávio Aragão discutiram com mediação de Gerson Lodi-Ribeiro o tema “Por uma Ficção Científica Pós-Moderna”. Octávio Aragão (criador do Intempol e autor de A mão que cria) começou perguntando ao público e aos debatedores se a ficção no Brasil já conseguia ser ao menos moderna. Foi interessante nesse momento de renovação da literatura fantástica nacional alguém levantar a bandeira do olho no futuro, dizendo que respeitar os escritores pioneiros do gênero no Brasil não significa necessariamente reeditá-los eternamente e viver do passado. A mesma crítica pertinente foi feita para os autores contemporâneos, lembrando-os de que é preciso inovar sempre. Se todas as histórias já foram contadas, e as tragédias gregas estão aí para nos lembrar disso, a evolução da forma e do estilo será sempre possível e deve ser perseguida, colocando o como no mesmo patamar do o quê.

Mantendo o foco na inovação, não faltaram farpas para clássicos como Jornada nas Estrelas, o que deixou alguns membros da platéia mais exaltados. Nem só de Star Trek vive a ficção, é hora de trazer ingredientes novos para a discussão, lembrou novamente Octávio. Apesar das reações contrárias dos fãs da série, concordo com a linha de pensamento da fuga do gueto. É preciso ampliar o espaço, absorver, mastigar e regurgitar o que está acontecendo agora. É preciso também separar televisão, cinema, quadrinhos e literatura, cada um com um ritmo próprio. Por enquanto, lá fora, a literatura vem ganhando na dinâmica. O lançamento de livros do gênero no Brasil segue um atraso assombroso. Se os futuros escritores não correrem atrás e continuarem a ler somente clássicos da década de 50, nossa literatura futurista não conseguirá fugir do paradoxo de ser ultrapassada.

Mas nem só de Star Trek vive a ficção. Acredite se quiser, mesmo estudos de antropologia do ciborgue tiveram espaço na mesa, com um papo sobre literatura pós-humana que não rendeu muito e não foi bem captado pelos debatedores nem pela platéia. Outro ponto interessante foi o velho preconceito com o gênero ficção-científica. Nelson de Oliveira (Subsolo Infinito, Pequeno Dicionário de Percevejos, Algum lugar em parte alguma) foi fundamental no debate, já que começa a flertar abertamente com o gênero só agora, explicitando o desejo de que seu próximo livro seja catalogado como ficção. Outro que se declarou um alien no terreno da ficção foi Antônio Xerxenesky. O autor de Areia nos dentes (Não Editora) criou uma releitura do velho oeste que mistura rixa de famílias com maldições que transformam alguns dos personagens em zumbis. Antônio disse que não sente seu livro como uma ficção-científica (apesar dos elementos da literatura fantástica), e que até gostaria que fosse, mas ainda não chegou lá. Descontraído, deixou muitos curiosos com o tema do romance.

Um consenso da mesa parece ter sido que acima de qualquer rótulo deve haver a qualidade literária e que a luta contra o preconceito não deve vir acompanhada de uma sina de catálogo interminável.

Max Mallmann (Síndrome de Quimera, Zigurate) fez uma brincadeira dizendo que aceita todos os rótulos, mas assumiu que se tivesse apresentado seus projetos como uma ficção, talvez não tivesse sido tão bem recebido pela editora Rocco. Seu romance Síndrome de Quimera, por exemplo, tem um personagem com uma serpente enrolada no coração, mas trabalha um mundo equivalente ao nosso.

No terreno das curiosidades sobre o tema, teve quem lembrasse o caso da Companhia das Letras, que diz no seu site não publicar livros exotéricos, de auto-ajuda e ficção-científica. Comentário clássico nas mesas de ficção.

Para fechar o debate com chave de ouro, Jacques Barcia levantou a seguinte questão: foi dito que um bom autor precisa ler de tudo, de todos os gêneros, inclusive poesia. Mas por que para ser um bom autor de ficção e fantasia é preciso ler literatura mainstream se os autores do mainstream não lêem e fazem questão de demonstrar preconceito com a literatura fantástica? As respostas fugidias deixaram abertas muitas possibilidades. Vale pensar no assunto.

A segunda mesa trocou escritores por editores e, depois de um breve intervalo, levou ao palco Ana Cristina Rodrigues, Ednei Procópio, Jacques Barcia, Richard Diegues e Samir Machado, num debate mediado por Silvio Alexandre, organizador do Fantasticon. Com o nome “Publicar uma Nova Ficção Fantástica no Brasil – Existe Espaço?” o grupo discutiu o mercado tradicional e o papel da Internet nesse momento de transformação. O papo começou com Samir Machado, editor da coleção Ficção de Polpa. Com o sucesso do primeiro volume (editado pela Fósforo), Samir já emplacou o volume 2, agora pela Não Editora, do qual é um dos fundadores. A proposta é trazer o pulp de volta, dando espaço para novos nomes e martelando aos poucos na cabeça do público e da crítica que a ficção e a fantasia também têm qualidade. De acordo com Samir, enquanto uma edição se pagar, virá uma seguinte. Para o volume 3, Samir adiantou que o livro poderá vir com um DVD com um curta-metragem, mas não abriu mais informações. Sobre as anteriores, destacou um conto de zumbis narrado pelo ponto de vista do zumbi, chamando a atenção do público.

A Não Editora desempenha hoje um papel importante como fez a Livros do Mal no passado e como poderia ter feito a Lamparina recentemente. Samir Machado fez questão de deixar claro que apesar do Ficção de Polpa ser uma coletânea, é a editora que banca a publicação e a seleção é muito criteriosa. Afinal, não adianta buscar espaço para a literatura fantástica editando porcaria.

Outro com olhar criterioso foi o autor e editor Richard Diegues. Se mostrando integrado à dinâmica de mercado, Richard falou da dificuldade de achar bons autores, selecionar originais e, dentro desse grupo, escolher o que se adéqua ao perfil da editora. Richard Diegues é um dos fundadores da Tarja Editorial, que além de apostar em literatura fantástica também tenta levar ao mercado nomes ainda desconhecidos, como Cristina Lasaitis e Renato Azevedo, ou autores que só publicaram um livro, como a best-seller Nazarethe Fonseca. Richard fez questão de ressaltar que a Tarja é uma editora tradicional, que banca a publicação, e que mantém forte a figura do editor por trás do livro.

Defendendo uma outra vertente estava Edinei Procópio, da Giz Editorial. A Giz é uma editora nova, há 3 anos no mercado. Fez barulho recentemente com a coletânea Amor Vampiro, que traz autores clássicos do terror como André Vianco, Martha Argel, Nelson Magrini e Giulia Moon. Edinei disse que o escritor não deve ter medo de pagar seu próprio livro, sem deixar claro se falava da publicação independente ou do pagamento para uma editora, o que gerou comentários controversos na platéia. Defendeu que alguns escritores procurem editoras sem distribuição em livraria e que cada um tem um espaço diferente para ocupar. “De repente o seu espaço seja uma editoria on demand na Internet”. Comentou também de sua experiência com o mercado e falou que o livreiro está aceitando fantasia e que sente quando o livro é bom, lamentando apenas a falta de pontos de venda (menos de 2700) no Brasil.

Outro assunto bem lembrado foi a onda das grandes coletâneas com mais de cinqüenta autores, trabalhadas por editoras que cobram dos novatos para a publicação. Novamente Richard, representando o papel, e Ana e Jacques, o lado virtual, reiteraram a importância da figura do editor, da seleção pela qualidade e não pela conta bancária. Ana Cristina, a mulher multi-tarefas, é responsável pela Somnium (e-zine de ficção científica organizado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica) que já vai para a 102ª edição, tem um pé na Black Rocket (nascido na Fábrica dos Sonhos) e é uma das criadoras do site de contos Letra e Vídeo. Uma informação interessante dita pela Ana é o futuro lançamento de um livro de contos que nasceu em um concurso na comunidade de ficção-científica do Orkut. Tudo bem que a comunidade é freqüentada por escritores e fãs ferrenhos do tema, mas fica o registro do intercâmbio entre o virtual e o real.

Aproveitando a questão, Silvio passou a palavra para Jacques Barcia, que vem atuando de forma consistente na faceta virtual da literatura fantástica. Jacques é o editor do e-zine Kalíopes (excelente) e co-editor do Terra Incógnita, que deve ser disponibilizado em breve. Muito antenado com o cenário mundial, é um grande defensor da Internet como ferramenta de divulgação e conhecimento. A Internet não só abre espaço para que autores inéditos possam cativar seu público, como também acaba com a desculpa da falta de conhecimento por falta de ferramentas para buscá-lo. Como de costume, Jacques enumerou alguns autores internacionais que estão fazendo sucesso no momento e disse que já tem material suficiente para fazer uma edição da Kalíopes só com esses nomes. Quem gosta, assim como ele, do diálogo com o contemporâneo, pôde pescar algumas dicas no ar, como Charles Stross. Se você nunca ouviu falar de New Weird e New Space Opera, ele é a pessoa certa para se conversar. Quando questionado sobre a competição entre real e virtual, Jacques disse que o papel e a Internet conviverão em harmonia pelos próximos 50 anos. “Depois disso, não me responsabilizo”, falou bem-humorado.

Para terminar, o conselho geral para autores iniciantes foi “escrevam muito, releiam depois de escrever e mandem para leitores beta antes de enviar à editora”. Algo que me deixou muito feliz foi a crítica à síndrome da trilogia. Parece que todo autor novo já chega com vinte livros programados e esquece que dar um passo de cada vez é mais saudável para todas as partes. Curiosamente, muitos pretensos autores nem sequer lêem, disse alguém. A risada foi geral.

A dica final para quem quer entrar no mercado foi ter paciência, fazer cada livro fechado em si e apresentá-lo de forma independente.

O Invisibilidades II foi patrocinado pelo Itaú Cultural e tem duração de um fim de semana. Nas mesas de domingo passarão nomes como Bráulio Tavares, Fausto Fawcett e Rodolfo Londero, além de oficina de criação com Roberto Causo.

De sombras e vilas, publicado pela 7letras, é o primeiro livro de Cláudio Neves. O texto da contra-capa é do conceituado Marco Lucchesi e o prefácio, em que há uma clara explicação sobre a métrica dos poemas, é do Paulo Henriques Britto. Cláudio Neves nos proporciona sua escrita pela primeira vez em um livro, mas já é um autor premiado e tem alguns poemas publicados em revistas, jornais e antologias. Além de poeta, é ficcionista, ensaísta e crítico literário. Trabalhou como ilustrador e redator em agências de propaganda e, atualmente, atua no magistério.

Seu livro versa, em grande parte, sobre a ‘ausência’ e o autor faz dela belas poesias. Às vezes, trata-se de uma ausência clara, outras apenas insinuada, ou só uma suspeita. Ausência que utiliza a imagem da sombra como uma das suas marcas. Sombras indistintas, abstratas, algo que não vemos definidamente, mas que representam uma presença. Sombras que podem aparecer mais precisas do que um espelho, como em “Intervalo”, ou representadas pela imagem de um gato. São poemas onde “As Ruínas” são o ato criador de onde florescem essas sombras, “na evidência da coisa/ cuja ausência a confirma”. Ausência, muitas vezes, associada à tristeza, tristeza que transpassa o texto e realmente comove.

Em determinada altura do livro começamos a ver uma diferenciação. Não é exatamente uma divisão, mas percebemos uma distinção entre os poemas com facilidade. Alguns dão vozes a personagens literários e míticos, como Orfeu, Eros, Lázaro, Pierre Menárd, Sancho Pança – essas personagens já conhecidas de outras literaturas também me pareceram uma espécie de sombra quando as imaginei como aparições, fantasmas de outros textos, algo desse tipo. Outros poemas têm uma voz lírica que trata, principalmente, das diversas formas de ausência, voz que notamos possuidora de um interessante olhar poético sobre as coisas ao seu redor. No geral, são poemas cheios de musicalidade, em que o poeta utiliza muito bem o recurso das rimas.

A ‘ausência’ aqui aparece como morte, principalmente em forma de suicídio – que vi como uma dupla falta, já que, além da falta/ausência em si, representaria a falta da vontade de viver -, aparece como uma sombra em si e como outras imagens que a ilustram brilhantemente: um piano fechado, uma viúva, alguns objetos que despertam lembranças nas personagens, um balanço vazio – que, aliás, se tornou uma belíssima representação da ausência explorada nesse livro, nada me deu uma ilusão tão forte da ausência como esse balanço vazio. Já a ‘vila’ aparece como a imagem de um livro e suas histórias – poema “Vila”. Algumas personagens, habitantes dessa vila, se tornam recorrentes e nos envolvem. Além delas, algumas palavras de tornam repetitivas, como se fossem uma espécie de tema, fazendo com que retomemos uma idéia lida anteriormente, isso trouxe certa familiaridade aos poemas, uma imediata associação muito peculiar.

Como em todo livro de poesias, alguns poemas se destacam mais do que outros e ofuscam seus companheiros. Porém, o livro é bem harmônico. Possui agradáveis surpresas, como o tocante poema “João de Campos” e um interessante poema, “Patrulha da Cidade”, que veio a mim com direito à musiquinha da chamada do programa de rádio e tudo.

O eu-lírico, nos últimos versos do poema “Falta”, que é emocionante, nos revela exatamente o que vemos muitas vezes retratado em De sombras e vilas: “Há uma falta em que vivo/ e outra que sou/ sem ser minha.”

Trata-se de um livro encantador, acho que isso resume bem.

Se tivesse que escolher apenas um nome dentre o infinito número de autores de sucesso não traduzidos aqui no Brasil para simbolizar o atraso do nosso mercado editorial na área de literatura de fantasia (e, podem apostar, qualquer outra área também) esse nome seria Jim Butcher.

Cansado de ver seus romances de fantasia tradicional (Tolkien, por exemplo) recusados pelas editoras, Butcher fez um curso de escritor para tentar a sorte e se profissionalizar. Como exercício de um dos semestres, escreveu Storm Front, o primeiro livro do que seria a série The Dresden Files.

Jim Butcher tinha 25 anos quando assinou contrato e lançou o livro. Apostando na fantasia urbana, ele trouxe a história de magos para as cidades, desenvolvendo sua mitologia no centro da moderna Chicago (1996). Outra boa jogada foi misturar a fantasia com elementos de narrativa policial, criando uma série detetivesca cheia de participações sobrenaturais. Butcher foi aos poucos dando contornos próprios à fantasia urbana e seu estilo passou a ser chamado de fantasia noir, obviamente por dialogar com a linguagem do cinema noir (cheio de tons de cinza).

Na sétima arte, há muita discussão sobre o que seria afinal o noirl. Muitos dizem que ele não é um gênero em si, mas um conjunto de elementos que podem conviver bem em filmes policiais com loiras fatais, com advogados do diabo, anjos caídos ou mesmo com psicopatas enrustidos como no clássico Se7en. Não é estranho então que esse pacote de luzes e sombras pudesse atravessar outra fronteira e esbarrar também com a fantasia.

Mais de dez anos se passaram e Jim Butcher segue firme com a série narrada por Harry Dresden, um mago que ajuda a polícia em investigações sobrenaturais. Você pode não saber, mas o mundo lá fora é cheio de bruxos, necromancers, fadas, lobisomens e vampiros dos mais variados tipos. Em nove livros, Dresden teve tempo de arrumar inimigos em quase todos esses grupos. E alguns informantes também.

“Many things are not as they seem: the worst things in life never are. I pulled my battle-scarred, multicolored old Volkswagen Beetle up in front of a run-down Chicago apartment building, not five blocks from my own rented basement apartment. Usually, by the time the cops call me, things are pretty frantic; there’s at least one corpse, several cars, a lot of flashing blue lights, yellow-and-black tape, and members of the press – or at least the promise of the imminent arrival of same”.

Em White Night, Dresden é chamado pela policial Murphy para analisar um apartamento. Lá dentro, uma menina morta, aparente suicídio em um cenário incólume. Uma das habilidades de Dresden é seu faro para pistas, sua capacidade de rastrear algo no ar, resíduos de energia e coisas parecidas, mas é o aspecto de ambiente intocado que chama sua atenção. Muitas especulações depois, Harry descobre na parede uma mensagem escrita para ele, algo que só um mago poderia notar, uma espécie de cartão de visita. A hipótese de suicídio é enfim descartada e Dresden e Murphy passam a apostar em um serial killer com gosto peculiar por praticantes de Wicca.

Como todo bom livro de suspense e investigação, White Night traz muitas reviravoltas e surpresas pelo caminho. Para os leitores mais assíduos da série, o nome do livro pode servir como pista, já que Butcher trabalha com códigos de cores para situar sua mitologia, e a cor branca indica a presença de vampiros psíquicos na área.

O que destaca White Night de outros livros de fantasia urbana é sem dúvida a agilidade do texto. Tirando tudo o que é pintura e adereço, sobra a técnica precisa que o autor tem de sobra. Apesar do tamanho do livro, é pouco provável que o leitor se sinta cansado ou perca o interesse, mesmo quando Butcher resolve esticar as cenas de ação além da conta com base nos efeitos especiais.

Parte considerável do mérito da série e de White Night se deve à personalidade de Dresden. Com um humor irônico, Dresden encarna o típico detetive, didático quando precisa ser, sério aqui e ali e mordaz noventa e nove por cento do tempo. Basta substituir a jaqueta e a arma do seu investigador predileto por um cajado e sobretudo e você terá uma idéia de quem é Harry Dresden. Seu arsenal de piadas e bolas de fogo será sempre um prato cheio para os fã de fantasia.

Jim Butcher já lançou a continuação de White Night, chamada Small Favor. É também autor da série Codex Alera (com parentesco maior com mitologia grega e nada contemporâneo) e de Blackout, ilustrado por Mike Mignola, o criador de Hellboy.

Karl Schroeder. Assim, dito de uma só vez, a língua enrolando no meio do exercício de fonoaudiologia. É provável que esse escritor canadense seja desconhecido da maioria dos brasileiros que não têm o hábito de ler em inglês. Pela qualidade da obra, acredito que não demore muito para alguma editora nacional descobrir o apelo de Schroeder e apostar em uma tradução. Enquanto isso não acontece, comento Sun of Suns, livro de 2006 que inicia a série passada no mundo de Virga.

Imagine ver o céu em qualquer direção, não importa para onde você olhe. Virga é um universo feito de ar, um imenso balão de três mil quilômetros de extensão onde não há planetas rochosos, mas cidades que flutuam próximas uma das outras como colônias tecnológicas. A natureza que conhecemos hoje é praticamente uma lenda e convive com o estranho conceito de natureza artificial. A gravidade, claro, não é uma regra e tem que ser gerada por máquinas para manter as cidades no lugar. Não é preciso ser leitor voraz de ficção-científica para saber que um cenário como esse é ideal para uma história de… piratas. Karl Schroeder, autor de clássicos como Ventus, acertou em cheio ao romper a barreira dos gêneros e usar seu ambiente futurista para resgatar elementos clássicos de livros de piratas, com direito a lutas de espada no espaço e mapa do tesouro.

A história começa em Aerie, cidade do protagonista Hayden Griffin. Como não podia deixar de ser, a disputa por fontes de energia continua a gerar problemas, não importa a época. Em Virga, os humanos precisam construir seus próprios sóis de fusão para gerar a luz e o calor que mantém suas cidades. Os espaços entre esses sóis são chamados de “winter” ou inverno, geralmente cheio de nuvens e muito frios. O inverno é fonte de mistérios como nossos oceanos no começo da era das navegações, abrigando tudo o que a imaginação de um piloto é capaz de conceber. Quem não tem um sol, não é nada.

Em algum ponto do passado, Aerie foi subjugada pela frota migratória de Slipstream (a grande nação militar do livro) e passou a depender do sol dos dominadores para sobreviver. Um grupo de pesquisadores – incluindo os pais de Griffin – decide então desenvolver seu próprio sol para declarar independência. A informação acaba vazando por vias tortas e Slipstream faz um ataque surpresa, mata vários cidadãos e põe fim ao projeto. No meio da confusão, Griffin acaba caindo de sua nave e se perde na região do inverno, indo parar na mão de piratas com quem passa a adolescência.

A premissa a partir daqui parece óbvia. Um sujeito rebelde que perdeu os pais na infância só poderia ir atrás de vingança. A boa notícia é que se Schroeder não faz disso o mote principal do livro, usando a idéia apenas para alimentar os conflitos internos do personagem. Em um mundo sem gravidade, os destinos nunca são certos e tudo muda de lugar em um instante, inclusive a história. O plano original de Griffin não é exceção e ele logo se torna peça importante da caça ao tesouro, sendo obrigado a conviver de perto com quem considerava seus inimigos.

Como parte bem pensada de algo maior, Sun of Suns funciona como uma extensa galeria de personagens e situações inusitadas. Enquanto conduz a trama central, Schroeder espalha por todos os lados as sementes de mitologia que explorará nos próximos livros. Quase um livro trailer.

Sun of Suns não é o livro que mudará sua vida, o que não o impede de ser extremamente cativante e eficiente em fisgar o leitor para as continuações (até agora Queen of Candesce e Pirate Sun).

Em Lampadário, a poeta carioca Denise Emmer, faz uma sinfonia abordando temas diversos. São poemas reluzentes. Ela, sem dúvida, usa a língua portuguesa a seu favor. Transforma luz em verbo, e faz dele poesia. As sensações que trazem, permanecem no leitor. Se a luz tem som, os sons são parecidos com estes poemas.

A poetisa explora a palavra e a transforma, utilizando uma linguagem carregada de símbolos. Ela não faz poesia abordando temas comuns – como morte, solidão, amor, perda, esperança -, faz poesia quando transpõe um sentimento para o papel.

Um dos poemas, “Dicionário da Língua Bela” – VI, descreve muito bem seu trabalho neste livro:

Dê-me a palavra que invento um bosque

Pleno de repousos e grandes baobás

Sopre-me o verbo que verso o mote

Viagem sem norte vento de além mar

Provavelmente por sua experiência na música, a sonoridade de seus poemas é marcante. E como o trovão antes do raio, o som vem antes da luz neste livro também.

Denise Emmer, filha dos escritores Dias Gomes e Janete Clair, possui uma extensa produção artística. Além de poetisa, é ficcionista, graduada em Física e Música – violoncelo – e também cantora, compositora e instrumentista. Já ganhou diversos prêmios por sua obra literária. Lampadário é o seu décimo quarto livro.

Publicado pela 7 letras este ano, Lampadário é composto por 42 poemas, tem uma bela capa de Mariana Avillez e prefácio do poeta e editor Alexei Bueno, que também colabora com vários mecanismos de imprensa.

Decifra-me ou te devoro. É o que diz a Esfinge em seu encontro com Édipo na tragédia grega de Sófocles. Mais do que um desafio, ela é a antecipação de todo o sofrimento de Édipo no processo de auto-descoberta desencadeado ao procurar saber quem é o assassino de seu pai. Mais do que uma das melhores tragédias, o texto é também o nascimento do gênero investigativo que mais tarde daria origem ao gênero policial. Você pode argumentar que Édipo Rei não tem carros de polícia perseguindo o assassino de Laios, mas a essência de um gênero vai além de seus arquétipos, caracterizando-o em grande parte pela atmosfera que consegue criar e pela capacidade de externar no grande mistério da história algo intimamente ligado ao investigador, suas dores e vivências. As mudanças vêm de dentro para fora, as informações de fora para dentro. É isso que move a trama.

Quintessência, romance de Flávio Medeiros Jr., não é uma tragédia grega. Sua história se passa milhares de anos depois, em um futuro próximo de nossos medos e distante nos avanços científicos e tecnológicos. Ainda assim, ao manter (mesmo que por acaso) um diálogo com a busca edipiana, Flávio começa com o pé direito no universo dos romances, criando uma obra de entretenimento repleta de qualidades.

“A história da humanidade é assim. Após milênios nada muda. As armas evoluem em tecnologia, mas a violência é a mesma. Antigamente os vigaristas perambulavam pelas estradas saltando de sombra em sombra; hoje permanecem sentados em salas com ar condicionado e correm o mundo pela via virtual. Mas a desonestidade, a ânsia de domínio sobre o semelhante, a ambição desmedida, nada muda”.

Um dos pontos mais interessantes de Quintessência é a utilização do real na construção da projeção futurista, o que torna sua mitologia factível e palatável para o leitor, sendo quase uma brincadeira à parte traçar os paralelos entre atualidade e ficção. Exemplos? A divisão entre as polícias civil e militar que causa tanta controvérsia no Brasil finalmente acabou. A Polícia Unificada é coesa no nome e fragmentada em sua estrutura, vivendo ainda as disputas geradas pelo processo de unificação. Com o aquecimento global, o nível dos mares realmente subiu, afetando ilhas e cidades litorâneas como o Rio de Janeiro. Se você conhece a cidade, sabe que quem mora perto do mar é a classe social mais alta e no alto do morro, a parte segura, as pessoas de menor renda. A partir disso, imagine a confusão que o derretimento das geleiras causaria por lá. No quesito poluição, o grande ícone é São Paulo. A situação piorou demais e é praticamente impossível respirar sem máscaras e filtros. Belo Horizonte é um dos poucos lugares a lembrar esse mundo ‘antigo’ em que vivemos. Ainda há natureza, água, ar e shoppings, elementos básicos da sobrevivência humana. Os shoppings, entretanto, foram levados à quase extinção. Nossa inestimável Internet evoluiu para algo mais sofisticado, chamado ultranet, facilitando o comércio eletrônico e transformando os templos do consumo em peças de museu.

É exatamente em um desses templos ainda funcionais, o BH Shopping, que começa o romance Quintessência. Reverberando o medo atual que temos de atentados, Flávio apresenta um terrorista típico. Só descobrimos que ele existe através de sua ação. Ele surge, mata, explode e desaparece. Sem nome, passado e presente, ele nada diz. Sobram corpos e mais corpos espalhados pelo chão e a sensação de fragilidade da população.

Nesse cenário caótico, os leitores são apresentados a Tom Rizzatti, policial e investigador que tentará desvendar o massacre e descobrirá que as coisas são piores do que parecem (sempre são).

Tom Rizzatti é um personagem de apelo certeiro. Está acima dos reles mortais – já que é um policial bem treinado, tem uma arma futurista de dar inveja e um prático implante no olho – e ao mesmo tempo é humano, passível de erros e distúrbios de humor como qualquer um. É aquele sujeito com quem você toma uma cerveja no bar, mas pode contar nos momentos difíceis. São das falas de Rizatti que vêm as melhores frases do livro, geralmente ironizando os demais personagens ou fazendo referências ao universo dos HQs. “Minha merda em bytes!”, diz ele cada vez que se vê surpreso. Flávio Medeiros Jr. consegue alternar os momentos de bom-humor tanto com filosofias de porta de banheiro quanto com debates mais profundos relativos aos dilemas da ciência e às mazelas da sociedade, devidamente ampliados ou restringidos pela peculiar mentalidade futurista.

“Às vezes fico pensando no bidê. Hoje quase ninguém mais tem bidê em casa. É um objeto obsoleto, inútil, que permanece de maneira insolente ocupando o espaço entre a pia e o vaso sanitário. O bidê existe de teimoso, e nem sequer sei direito para que ele serve. O bidê é o máximo da obsolescência e solidão. (…) Às vezes me sinto um bidê…”

Além da mitologia e da proposta de nova sociedade (com destaque para a visão do autor sobre a futura geração de adolescentes, suas novas gírias e gosto peculiar por música e hologramas), Flávio também acerta na estrutura escolhida para narrar a história. Como um bom livro policial, o Quintessência traz perseguições e tiroteios; do lado ficção, ele aproveita apetrechos e novidades tecnológicas; do toque de suspense, desconfianças e reviravoltas repentinas aquecem o relacionamento dos personagens, mas acima de tudo, a história avança à base de informações. É um erro corriqueiro entre novos autores achar que correrias e lutas impõem ritmo a um livro. Quintessência não sofre desse mal.

“Guinei com tudo para a esquerda e meu carro descreveu um perfeito cavalo-de-pau. Parei de frente para a pista por onde tinha vindo. Acelerei, levantando uma nuvem líquida no asfalto molhado e um cheiro de plastiborracha queimada. O Black Beetle vinha bem à frente do outro carro, e vi uma luz arredondada dos dois faróis a laser se aproximando rapidamente. Não sei se o bom e velho Cabeção foi pego de surpresa ou se pretendeu por um instante de tolice bancar o ‘matcho’, porque não se desviou nem reduziu a velocidade. Vinha direto para mim!”

Pelos elementos bem dosados, Quintessência tem boas chances de agradar a públicos diversos, seja na questão dos gêneros ou da faixa etária, já que é um livro com personagens de vigor jovem que ao mesmo tempo aborda dilemas mais adultos. Fica a torcida para que Tom Rizzatti ganhe força para aparecer em novas seqüências e que Flávio Medeiros Jr. não caia na tentação de reciclar o vilão (sim, mesmo o terror disperso tem sua cabeça pensante) ofuscando o desenvolvimento do protagonista e de seus parceiros.
Alguém aí falou na informante hacker?

Quintessência
Flávio Medeiros Jr.
Ed. Monções
227 páginas.

Redor. O livro, escrito por Masé Lemos e publicado pela 7 letras, se escreve em torno de um fingimento perspicaz. Ao anotar-se a si mesmo como uma poética sobre o ínfimo, trai sua própria vertigem. A simplicidade requerida, como bem anota Paula Glanadel, faz parte de suas intenções conscientes, mas é transtornada por uma outra consciência, mais profunda, que sabe não ser possível a simplicidade, ou que a simplicidade faz parte deste fingimento perspicaz de se fingir simples para atingir visagens outras.

O ser permanece enquanto vive; as coisas vividas se esboroam. A morte é um dos temas transversos, embutido contra a aparente platitude das coisas. A partir da morte – não da lamentação da morte, ou da dor causada pela morte – Masé Lemos vai dialogar com a reflexão limítrofe entre o que vive e o que se acaba. Tomem-se dois exemplos. Carta para a menina morta e A mariposa. As referências do diálogo são respectivamente o livro de Cornélio PenaA Menina Morta e o capítulo a Borboleta Preta, de Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas. A presença da reflexão sobre a morte em Carta se liga à reflexão sobre a escrita.

O livro de Cornélio Pena, autor tão pouco lido quanto pouco estudado, é uma dessas obras que demarca as fronteiras entre uma percepção literária tomada como tradição e, de dentro desta tradição, faz surgir uma nova percepção de escrita, para a qual o evento não é o fundamental. O poema de Masé Lemos anota displicentemente: “sua arte de ficção [todas as regras] recomeçara lentamente a construir um mundo e era possível segui-lo nesses passos para fazer ecoar o silvo prolongado de uma idéia, de uma palavra em mil decifrações como ventos a se perseguirem em louca agitação.” A obra se faz a partir de uma cosmogonia. Constrói-se e formaliza o mundo e lhe dá significado. Esse significado não se encontra disposto aqui nem ali – é dado pela capacidade de refletir sobre as coisas, isto é, para a poeta, de refletir sobre as palavras, metáfora abundante na última parte do livro. Mas para que os incautos não apaguem o traço revestido pela palavra, entenda-se que palavra aqui é tomada como nomeação não da coisa em si, mas das relações que as coisas, isto é, as palavras, podem construir e constroem.

Machado. Em a Borboleta Preta, o escritor determina a morte por seus acasos. Sem o restante do livro, por mais que o capítulo seja autônomo, a reflexão se quedaria parcial ou mesmo nula, porque a arte de piparotes do autor não se faria ler. O capítulo de um livro não chega a ser uma palavra – no sentido que se toma nestes comentários. A palavra só existe enquanto palavras se posta em relação. A borboleta preta só é a borboleta preta – um significado – porque pertence a um universo que passou a existir após o livro. Assim, ao tomar o emblemático capítulo do Bruxo como referência, a autora de Redor pressupõe a incorporação em seu poema do capítulo e em seu livro do livro. Esta opção aponta para a percepção de que o livro de Masé deve ser lido como uma formulação fictícia, na qual os capítulos/poemas sucedem-se para montar um quadro de significações que seja como que um cosmo gerado no livro, por isso avisa: “A mariposa não sabe os perigos da madrugada.”

Os perigos da madrugada parecem ser de imediato um lugar comum, bem como a citação de Machado. Uma coisa simples. Entretanto o poder de driblar a citação e a simplicidade está na concepção do assombro que toda casa teve ao acordar e na necessidade de livrar-se do incômodo desta borboleta machadiana rediviva, como se a presença da bruxa significasse perigo para a simplicidade de nossas palavras cotidianas. A morte se insurge por essas brechas. A morte não como uma metafísica, mas como uma anotação sobre o ínfimo, como notação de que o ser, nada metafísico, permanece enquanto as meninas morrem, sem acontecimentos; enquanto as bruxas são jogadas do sexto andar ou enquanto as coisas se encantam em palavras.

O livro Putas Assassinas de Roberto Bolaño é mais que um livro, propõe ao leitor um desafio. Narrar as agruras do descrédito. Retirar da fantasmagoria em que o homem se converteu a capacidade de ainda possuir o que dizer. As experiências da dizimação, a construção de uma sociedade inexeqüível, absurda e cruel não permitem a tranqüilidade de uma sequer noite de sono. Em Bolaño essa fantasmagoria se transforma em potência – não uma potência de essencialidades críveis, mas no anverso da própria existência.

A bruta carnificina disfarçada de sentimentos se impõe com tal força que anula os sentimentos deixando-os penetrarem como o que são. Estupro, invasão e aniquilamento. Confundem-se talvez com o amor no que amor tem de perverso e incompreensível. Os personagens em Bolaño são seres à espera do choque, da labareda, da carbonização. Não há para eles outra saída.

Lembra-me o Buñuel do obscuro objeto do desejo. Lembra-me Kafka dos labirintos do processo. O absurdo de existir e desejar o absurdo do desejar e existir. As putas assassinas de Bolaño são capazes de sentirem que “a sensação de abandono, como se um anjo me fodesse, sem me penetrar, mas na realidade me penetrando até as tripas, é breve“. Por breves momentos elucidativos nos sentimos desgraçados, mas agraciados, postos a rodar junto com a desordem do universo, consumidos pelo braseiro deste anjo infernal que nos fode e nos salva.

O beijo canibal é uma experiência literária que coloca escritor, leitor e personagens no mesmo plano de observação, rompendo o limite imposto pela folha de papel como o teatro interativo faz com a quarta parede. Seu autor abdica da linearidade para narrar uma intensa relação voyeurista entre um escritor e sua personagem, optando pelos desencaixes do caos ao invés da lógica progressiva de estruturas tradicionais. Seguindo um caminho completamente fragmentado, Daniel Odier conta a história de Bird, uma jovem que é contratada por um escritor para percorrer o país em busca de vivências que possam gerar um livro. Nessa trajetória, Bird desdobra-se em várias, decompondo-se diante das mais estranhas situações e personagens. Uma mistura de realismo (quase) fantástico e road movie, candidata à paideuma* mais exigente.

Só que eu já li essa história antes, você pode dizer, e eu também quase me enganei ao ler o release. O fato é que desde seu primeiro parágrafo, O beijo canibal se distancia de tudo que é usual, preguiçoso ou clichê.

O livro gira basicamente ao redor de três personagens: Bird, o Escritor e o Camaleão. Bird é a musa inspiradora, a personagem ideal que todo escritor tenta alcançar. Ela está na obra que o Escritor personagem constrói na história do escritor Odier. Em dado momento, Bird – a personagem de Odier – descobre que é personagem do livro do Escritor e arma um encontro que o deixa conturbado diante da existência de sua personagem. Ao mesmo tempo em que o Escritor é a razão da existência de Bird, ele descobre que Bird sempre existiu, independente de seu livro, despertando seu interesse por tudo que venha dela, seja memória ou pedaço, o físico ou o abstrato. Na dualidade da criação, Escritor e Bird vão para a cama, criando o texto do livro que iremos ler e o que não iremos. Em um ato extremo, Bird beija o escritor, que é absorvido e pára em seu útero, dando a entender que um bom personagem pode fazer o nome de um escritor tanto quanto um escritor pode criar um personagem. É esse o beijo canibal, o começo de tudo.

“Sento sobre a prancha da varanda. O Índio estava se recordando de Bird, Bird ocupava aquele espaço. Eu me perguntei por que diabos aquela obsessão de preencher com tinta um espaço em branco. As ondas se desfazem incessantemente, me esvaziando pouco a pouco de minhas emoções”.

Explorando mais a proposta da dicotomia, Daniel Odier cria também o Camaleão, o alter ego do Escritor. Camaleão acompanha de perto tudo o que o Escritor faz, até que ele conhece Bird. Como o Escritor fica cada vez mais apático e cinzento, o Camaleão decidi acompanhar Bird em sua viagem, tornando-se uma espécie de anjo da guarda que inspira o ar que sai de sua boca, se aninha em seus braços enquanto dorme, bebe do que ela bebe, come do que ela come, sempre invisível. Camaleão não pode interferir em praticamente nada, por ser imaterial, e em seu distanciamento é o “personagem” que nos oferece o olhar mais preciso sobre a vida de Bird. É interessante ver como Camaleão e escritor se aproximam e se separam, movidos pelo desejo desperto pela sexualidade da protagonista. Quanto mais material e presente está o escritor, mais diluído é o Camaleão.

“Meu rosto agora. Tenho olheiras, a pele tão pálida quanto o resto. Meus olhos são amendoados, isso é clássico nos romances, mas em mim é verdade. Meus olhos são de um marrom bem escuro, quase negro. Minha testa está freqüentemente franzida. A única coisa que me atrai na velhice são as rugas. Faço tudo para tê-las o mais rápido possível”.

Outro atrativo do livro são os personagens exóticos que Bird encontra em sua viagem. O primeiro deles é um índio maconheiro, uma espécie de mentor, que a conhece desde pequena. É nele que o Escritor se fixa para saber algo sobre Bird e mais tarde, quando a obsessão sai do controle, descobrir o seu paradeiro. Há também uma prostituta que dorme em tempo integral e um homem albino parente das baleias, sempre refletindo o estado interior da protagonista na construção de seus laços sentimentais. A galeria de personagens estranhos é construída com delicadeza, fingindo-se por acaso. É responsável pela criação de livros dentro do livro, que chegam ao clímax quando Bird encontra uma comunidade de Antropófagos, rompendo novamente os limites das relações interpessoais.

“Mia:Eu era sua ama-de-leite. Como você está vendo, não tenho mais mamas, ele as comeu. Depois, ele devia ter seus dez anos, me fez uma filha, Zoe, que virou sua mulher. Eles tiveram uma filha, Jasmina. Oswald lhe passou a vara por sua vez e ela deu luz à Harmonia, que pariu a mais jovem de nós, Boto, que deve estar com quinze anos agora”.

Vivendo com o salário que o Escritor lhe envia, Bird é errática em seu caminho e comportamento. Alimenta o escritor com um quebra-cabeça de si mesma, envia fotos, fragmentos de textos, o induz a deduzir ao invés de contar com detalhes os seus dias, espalhando pelas páginas os vazios de sua vida para que o Escritor e o leitor possam completar como convier. Diz ela: eu nunca vi uma memória sem lapsos. São os lapsos que nos permitem viver. É desses lapsos que o leitor se alimentará até o fim, incansável para saber mais.

A biografia de Daniel Odier parece uma daquelas brincadeiras, artistas inventados para pregar peças nos críticos. O autor nasceu em Genebra em 1945. Estudou Belas Artes em Roma e mais tarde largou a pintura para ser escritor. As viagens pela América do Sul e Ásia serviram de inspiração para vários de seus trabalhos. A maioria foi publicada sob o pseudônimo Delacorta e transitava no universo policial. Boa parte foi adaptada para o cinema, sendo o mais famoso “Diva”, dirigido por Jean-Jacques Beineix. Atualmente, Odier divide seu tempo entre a França e os Estados Unidos, onde ensina o Shivaísmo. Não é praticamente um romance fantástico?

*Segundo Ezra Pound, Paideuma é “a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos”.

O beijo canibal
Ed. 7 letras
153 páginas de excelente qualidade.

Tenho em mãos a obra Mensagem, de Fernando Pessoa, publicada pela 7Letras agora em 2008. Não se trata de uma edição qualquer, mas sim daquela organizada por Cleonice Berardinelli e Maurício Matos designada: a “edição preparada segundo o exemplar de 1934 corrigido pelo punho do poeta”. Eis a justificativa: “optamos por respeitar a vontade de Pessoa, claramente expressa em diversos textos reunidos no seu Espólio sob a designação Lingüística e publicados no fim do século passado”.

Edição de Mensagem organizada por Cleonice Berardinelli e Maurício MatosO grande diferencial dessa edição, além do rigor de Cleonice, a maior especialista em Fernando Pessoa que eu conheço, são os capítulos “Apresentação”, “À guisa de aparato genérico – Mensagem, poemas in fieri” e “Caderno de Imagens”.

No primeiro, além de comentar o porquê das mudanças sofridas pelo titulo do livro – antes de Mensagem se chamaria Portugal -, Cleonice explica as três partes que compõe a obra – “Brasão”, “Mar Portuguez” e “O Encoberto” – e, em seguida, oferece uma leitura de cada subdivisão que compõe as partes. Uma aula e tanto!

No capítulo seguinte – e quem já assistiu às aulas da professora (ou a apresentações em encontros ou simpósios) sabe bem do que falo – Cleonice mergulha em divagações sobre Pessoa e sua obra, comentando textos já escritos por ela e por ilustres amigos, entre eles Jacinto Prado Coelho, e conta das conversas e das cartas, e de como foi presenteada com uma cópia do primeiro exemplar de Mensagem pertencente a Pessoa, e como tudo se passou nas décadas de 60, 70, 80, 90, entre estudos, pesquisas e amizades. Conhecemos um pouco mais de Pessoa e um pouco mais de Cleonice, que tem sempre histórias maravilhosas e enriquecedoras para compartilhar.

No “Caderno de Imagens”, temos a oportunidade de ver impressões de poemas com correções do punho de Fernando Pessoa, manuscritos que fazem parte de seu espólio, além de fotos, entre elas a última foto do poeta. Para aqueles que dizem só ler livros com figuras, é uma ótima pedida!

Puxa-saquismos à parte, diria que essa é uma das edições mais completas e bem preparadas que já vi (e que agora tenho!) feita com muita dedicação e cuidado. Desde as folhas de tom amarelado, que tornam a leitura mais agradável aos olhos, até a reunião do material que compõe a edição, é fácil perceber que tudo foi realizado com muito gosto e extrema satisfação. Além de todo esse trabalho de pesquisa, nos deleitamos, obviamente, com os poemas da obra. Há quem goste, há quem desgoste. Eu sou da primeira turma!

O livro Notas. Atos. Gestos. traz compositores do eixo Rio – São Paulo falando de modo peculiar sobre o processo composicional. Peculiar porque aborda tanto o que há de Dionisíaco quanto o que há de Apolíneo, o instinto e a razão, na criação musical, desmistificando a idéia do dom divino sem para tal precisar tocar no assunto. Sim, há o sopro das musas, mas também há o talento, a dedicação e zilhões de pequenas peças que se encaixam de maneira distinta até que se forme a música, essa engenhosa (curiosamente) matemática que interpretamos como arte.

O organizador Sílvio Ferraz reuniu textos – relatos composicionais – de Marisa Rezende, Denise Garcia, Rodolfo Caesar, Fernando Iazzetta, Marcos Lacerda e Rogério Costa, conseguindo manter a individualidade de estilos e a variabilidade do tema. Uma característica comum ao grupo? Todos são pesquisadores-educadores que trabalham em grandes universidades públicas, pensando a música além de seus critérios mercadológicos (que se mostram cada vez mais falidos e ultrapassados) e tendo a ética como norte de seus pensamentos.

Rogério Costa, por exemplo, aborda a arte do improviso. O subtítulo do texto fala por si só: na livre improvisação não se deve nada. Sua idéia é que a composição seja resultado de um fluxo vital musical produtivo estimulado pela criação de um lugar (espaço e tempo) que possa gerar os elementos necessários para essa fluidez. Mudando o foco do resultado para o processo, Rogério propõe a ação musical no lugar da exibição de obras primas. É um ponto para começar a leitura.

“Deve ficar evidente também que não se trata de composição de obras, pois nada se fixa e nada se repete. Também não se trata de exibição, pois o público – se houver – deve construir e criar junto com os performers. O público que acompanha uma performance de livre improvisação deve atuar como cúmplice (…) e compartilhar dos riscos que acompanham o processo”.

Já Marisa Rezende burila o pensamento por trás do tema. O que é composição?

“Compor significa, entre outras coisas, fazer escolhas (…) e poder fazer escolhas”. Como ela aponta, são duas estruturas semelhantes, mas com uma diferença básica de intenção entre elas. No primeiro caso, quem está em foco é o compositor no momento de compor, decidindo com que material irá trabalhar e que forma dará a esse material. Entram aí os códigos e o processo. O segundo caso, o do “poder fazer escolhas” traz para o centro do debate o compositor cidadão de algum tempo e lugar, que faz escolhas de alguma forma relacionada à sua condição tempo-espacial. Durante o texto, Marisa tratará do material escolhido para o pontapé inicial em uma composição – a linha melódica, talvez – e da importância do conhecimento para embasar o que temos de intuitivo. O interessante é fazer isso não só por referências, como também através de memórias.

A ênfase de Denise Garcia será a composição por metáforas, trabalhando a idéia de que as palavras criam imagens ou sensações chegando ao conceito de imagem sonora. Denise trabalha o tema de forma prática, usando metáforas e imagens postas em pé de igualdade com a teoria textual. É curioso perceber ao longo do relato que a proposta realmente funciona em sua exposição de partituras (e de seu alfabeto próprio), o que de certo modo se relaciona com a idéia de Silvio Ferraz e sua tatuagem musical, também muito visual, explorando os rascunhos escritos pelo compositor em seu período de formação.

“O propósito desse texto é uma visita a si mesmo. Talvez uma visita a outro si mesmo. Um si mesmo que não conheço mais, e que tem mais cara de um estranho do que de um mim mesmo”.

Você pode pensar: certo, mas o que há de componente visual composicional em um rascunho de uma composição além de sua quase metalinguagem? Há a inspiração. Silvio se remete a experimentações realizadas por ele entre 79 e 80 que tinham por imagem poética as poesias-imagens de Edgard Braga, especificamente Tatuagens e Algo, permitindo que o leitor conheça as imagens e acompanhe o desenvolvimento da idéia até a criação da peça final.

“Como transformar aquelas nuvens de sinais em música, isto tanto parecia difícil quanto óbvio. E a segunda opção aqui estava justamente em deixar de lado alguns dos eixos tradicionais do que se entende por música: as estruturas rítmicas estriadas e os jogos melódicos. Estavam ali no poema diversos sinais que poderiam converter-se facilmente em fonemas (…)”.

O livro traz ainda a abordagem tecnológica de Fernando Iazzetta relacionando composição e performance interativa; Rodolfo Caesar falando do frutífero território entre a teoria e a prática e Marcos Lacerda em um relato sobre etnomusicologia e o surgimento da música popular.

Notas. Atos. Gestos. tem um público certo: os iniciados em música, e que fique claro que não estou me referindo a quantidade de mp3 no seu iPod. Se você tem interesse no processo composicional, em seu aspecto mais tradicional ou na liberdade intrínseca do improviso seja por lazer, estudo ou por trabalho (inclusive como compositor-educador), você é o público alvo.

Notas. Atos. Gestos.
Editora 7 letras
Coleção Trinca-ferro
177 páginas

Já faz um tempo, dizem que Nietzsche é pop. Grupos se reúnem em uma tarde de sábado não para ver futebol, mas para discutir os livros do filósofo. As senhoras enfileiradas nos assentos especiais do metrô não trazem mais Dan Brown na mão, é Nietzsche que está lá em seus mais diversos formatos. Nas escolas, claro, o bigodudo é um sucesso desde o jardim. Dizem. Nunca testemunhei nada que comprovasse a onda pop em torno do escritor. Principalmente se pensarmos em pop como forma reduzida de popular. Talvez as pessoas queiram dizer que Nietzsche é um autor acessível, não necessariamente pelo conteúdo dos textos, mas pela quantidade de livros seus que podem ser achados, seja nas livrarias ou nas bancas de jornal. Quando não há mais nada para relançar, nova capa para experimentar, tradução fresquinha para fazer, é hora de voltar os olhos para os baús e papéis perdidos. Kafka e seu pai que o digam. É assim que geralmente nascem as coleções de obras completas (póstumas), livrões pesados e impossíveis de segurar que fazem mais sentido ao lado de enciclopédias empoeiradas enfeitando as prateleiras da biblioteca. De vez em quando, felizmente, alguns dos textos escapam do todo e, mesmo com cara de material incompleto, ganham capa e edição caprichada. A grande vantagem? Cabem na bolsa, pasta, mochila e são fáceis de carregar.

Cinco prefácios para cinco livros não escritos tem mais ou menos esse clima: o de um texto fugitivo.

A edição da Ed. 7 letras traz a primeira tradução brasileira dos cinco prefácios escritos pelo filósofo. São eles: 1. Sobre o PHATOS da verdade, 2. Sobre o futuro de nossos institutos de formação, 3. O estado grego, 4. Sobre a relação da filosofia de Schopenhauer com uma cultura alemã e 5. A disputa de Homero.

Nietzsche tinha acabado de publicar O nascimento da tragédia no espírito da música (também conhecido como O nascimento da tragédia, ou Helenismo e Pessimismo)e começava a rascunhar os prefácios do que deveriam ser seus próximos cinco livros. As obras nunca foram terminadas e as idéias foram reabsorvidas em outras obras do autor, mas Nietzsche resolveu dar um fim nobre aos textos. Reuniu tudo em um único volume e os entregou para Cosima, a mulher do compositor Wagner. Para quem é novo no universo do filósofo, Nietzsche teve por muitos anos uma admiração por Wagner que beirava o amor platônico. O fim desse amor se encontra no prólogo que Nietzsche escreveu 15 anos depois para seu primeiro livro (O nascimento…), chamado de prefácio para Richard Wagner.

Para você que é fã ou estudioso do autor, o livro é um presente. Os prefácios têm a qualidade extra da clareza da linguagem, característica que foi se perdendo com o passar dos anos, com o filósofo preferindo o rebuscamento para engrandecer idéias que poderiam brilhar também na simplicidade.

É possível que o mais interessante dos prefácios seja O Estado Grego, onde Nietzsche relê a cultura grega por um olhar moderno. E o que há de interessante nisso? O olhar moderno de Nietzsche se refere a 1870-80, e é estranhamente familiar à situação geopolítica que vivemos hoje, ano de 2008. A maior diferença talvez esteja no papel da religião. Enquanto na sociedade grega a religião funcionava como um momento de luz diante das sombras da vida real, hoje a religião é o combustível dessa escuridão, com o escapismo cada vez mais distante e corrompido.

Se fosse citar trechos de todas as páginas que marquei, metade do livro estaria aqui. Escolho então os dois que refletem melhor o pensamento geral que Nietzsche queria abordar. Como comumente acontece com grandes nomes da literatura ou da filosofia, é muito mais interessante ler os textos do que ler sobre eles, por isso deixarei que falem por si.

E agora, para alcançar as mais elevadas exigências de suas metas egoístas pelos meios estatais, antes de tudo o estado deve libertar-se completamente daquelas contrações terríveis e irregulares da guerra, de modo a ser usado racionalmente; e, nessa situação, a guerra é uma impossibilidade. Aqui, convém primeiro podar e abrandar o máximo possível os impulsos políticos particulares…” – O estado grego.

Quando se fala de humanidade, a noção fundamental é a de algo que separa e distingue o homem da natureza. Mas uma tal separação não existe na realidade: as qualidades ‘naturais’ e as propriamente chamadas ‘humanas’ cresceram conjuntamente. O ser humano, em suas mais elevadas e nobres capacidades, é totalmente natureza, carregando consigo seu inquietante duplo caráter”. –A disputa de Homero

Cinco prefácios para cinco livros não escritos
Fredrich Nietzsche
Editora 7 letras, 4ª edição.
O livro tem 82 páginas.
Da página 7 à página 16, prefácio de Pedro Süssekind para os prefácios.
Da 77 em diante, notas de entendimento.

Muito me agrada, no seu conto “A Princesa Alafiá“, a personagem principal ser uma princesa linda e representar o mesmo arquétipo junguiano das cinderelas da vida. Por outro lado, me surpreendeu que a localização fosse em um Quilombo. Como você vê a questão do cenário na literatura?

A descrição é um aspecto fundamental em um texto literário narrativo, pois com esse modo de organização do discurso o leitor tem a oportunidade de visualizar o cenário em que se desenvolve a ação e os personagens que dela participam. No caso do conto da princesa Alafiá o cenário é muito importante, uma vez que a narração pretende trabalhar com a História e formação da cultura afrobrasileira transmitindo de forma fiel os fatos que não são conhecidos através da História oficial.

A nossa tradição oral sempre foi rica em personagens negras ou mestiças. Como você vê o papel desta oralidade na formação da auto-estima infantil?

Minha proposta é trabalhar com a auto estima da criança negra, apesar da história da princesa Alafiá ser importante para todas as crianças, pois através das outras histórias que essa personagem vai contar, a criança será informada a respeito dessas das estórias pelas diversas etnias africanas que chegaram ao Brasil e formaram a cultura afrobrasileira e se reconheceram através dos personagens.

A que faixa etária se destina o seu trabalho?

A princípio achei que fosse para criança de 3 à 9 anos. Entretanto hoje vejo que esse trabalho alcança qualquer idade… Alcança pessoas que compreendem a dimensão ideológica dessa temática e principalmente aquelas que se identificam com essa princesa de pele negra, cabelos crespos olhos escuros, lutadora, guerreira… Ou seja, a mulher negra brasileira.

Você pretende musicar a Alafiá? Ou representá-la em espetáculos teatrais?

Esse conto já virou uma contação de estórias/performática, pois através de movimentos de dança de origem africana e som de tambores, onde entro para fazer a narração vestida de princesa africana. Faço essa apresentação em vários espaços e os resultados são chocantes!

Você considera que a contação de estórias pode exercer um papel importante na formação da criança? Como a contação de estórias pode ajudar a literatura?

Acho que o contato com a literatura é muito importante na formação das identidades da criança. Vou responder melhor essa questão a partir da experiência de meu trabalho.

A contação da História da Princesa Alafiá tem a intenção de trabalhar a auto-estima da criança negra, desconstruindo o conceito hegemônico de beleza, passado também pelas princesas brancas (Cinderela, Branca de Neve..).

Acredito que esse trabalho proporciona um ambiente lúdico e estimula a capacidade imaginativa do público e ao mesmo tempo contribui para a elevação da auto estima da criança negra, que está inserida de forma desigual e representada por meio de papéis sociais que reforçam os estereótipos que sustentam idéia de inferioridade do negro na sociedade.

O conto retrata a história de uma princesa negra que morava no reino de Daomé, no Continente Africano e que veio para o Brasil através do tráfico negreiro, no período da colonização portuguesa. Minha intenção ao escrever tal narrativa ficcional foi fazer frente à hegemonia dos contos de fadas conhecidos no Brasil, desconstruindo a ideologia de termos um único padrão de beleza valorizado, com o objetivo de elevar a auto-estima da criança negra brasileira.Está pautado nos vários aspectos históricos do período e mantém a mesma estrutura dos contos tradicionais: há uma princesa, mas negra, há o sofrimento, mas a princesa não necessita de um homem para resgatá-la, pois ela toma uma atitude impulsionada pelo seu “espírito” guerreiro e encontra um verdadeiro amor, mas a noção de felicidade é outra que não a de viverem felizes para sempre, imersos em riquezas, morando em um castelo.

A princesa Alafiá é uma princesa que “tem a pele negra como a noite, olhos grandes e escuros e crespos cabelos”.

Entendo que faz parte da luta pela afirmação de uma identidade que nos foi tirada e que tentamos reconstruir, a produção de uma literatura voltada para crianças e adolescentes, com o objetivo de influenciar à construção de suas identidades sócio-culturais. Pois nesse momento importante da formação da personalidade, ao se depararem com valores racistas ainda cristalizados em nossa sociedade, possam desenvolver símbolos próprios de auto – reconhecimento que elevem a sua auto estima.

A pesquisadora e escritora Sinara Rúbia apresentou recentemente o tema na Universidade Castelo Branco.

01. Para quem ainda não conhece o site, qual a melhor definição de um Mojobook?

Um MOJO Book é uma série de livros digitais que parte da seguinte premissa: “Se um disco fosse literatura, que história contaria?”.

02. E a filosofia por trás da editora Mojobooks? Vocês provavelmente são amantes da boa música…

A MOJO é uma editora 100% embebida em música, mas não só. Somos também amantes da literatura e adoramos cultura pop. A música é, atualmente, nossa diretriz, nos permite viajar em projetos diferenciados e conectar todos que gostam dela. Mas novidades estão chegando…

03. A Internet de certo modo reposicionou a linguagem escrita como representante da comunicação global, papel que era da linguagem falada na era do telefone, rádio e novela. Pensando então em mídias digitais, é possível imaginar que caminho a literatura deve seguir no futuro? Iremos todos ler PDFs no celular?

Ao mesmo tempo em que a literatura tem um desafio gigante pela frente – que é lidar com a oferta gigantesca de interatividade e interligações de diversas mídias –, ainda é possível perceber que existe uma demanda grande pelo texto “escrito”, ou seja, o suporte literário não irá se esgotar, talvez precise de algumas mudanças básicas, mas isso é questão de gerações. Hoje um jovem já não entende um iPod como tecnologia, um iPod é simplesmente um iPod, como para mim uma TV é uma TV, não um treco de tecnologia. E esses jovens chegarão ao mercado de trabalho em breve, tendo outras visões, outras maneiras de pensar, então, é claro, tudo sofrerá algum tipo de mudança. Não dá para prever qual será efetivamente, mas experiências de leitura – e escrita – unindo diversos suportes já pipocam pela internet. E sim, a migração para o celular já é uma realidade, no Japão os keitais são uma febre gerando mais de US$ 100 milhões de lucros. Agora falar se será em PDF é apenas olhar o presente, existem inúmeras tecnologias surgindo, como o Silverlight, da Microsoft, que ainda farão muita diferença no futuro.

04. Quais são os livros da MojoBooks com maior apelo de público? Já dá para eleger um grande hit no catálogo?

Quando não lançado por algum autor já conhecido, os MOJOs seguem a mesma tendência do mercado da música. Os Beatles têm mais apelo que o New Order. O New Order tem mais apelo que Josh Rose e assim por diante. Mas o grande campeão da MOJO até agora é a Pitty, impressionante o sucesso. Na semana de lançamento, foram 20 mil livros baixados. Hoje, quase 8 meses de seu lançamento, já atingiu mais de 80 mil. O bom disso é que, gostando ou não (e o livro tem bastante qualidade), o livro baseado em Anacrônico, escrito pela Carla Mendes, de apenas 18 anos, gerou um boom de propostas de adolescentes, ou seja, até agora já contabilizamos mais de 200 propostas escritas por menores de 18 anos! Acho que nenhum professor de redação de qualquer escola conseguiu um feito tão notável.

05. A literatura costuma ser um alimento constante para o cinema. Acha que as artes deveriam interagir mais de um modo geral?

Este é um caminho sem volta. A palavra da moda é interdisciplinaridade e não à toa. As referências estão todas aí, fazem parte do cotidiano de qualquer artista. Pegue como exemplo Cabeça Tubarão, livro de Steven Hall, lançado pela Companhia das Letras em 2007. O cara faz um texto sensacional, usando a lingüística como base, mas está tudo lá, tem Happy Mondays, Casablanca, internet…

06. E no caminho inverso, consegue pensar em algum livro que mereça virar ou ganhar uma trilha sonora?

Ah, vários! Aliás, a MOJO surgiu disso. Em meados da década de 90, eu e o Ricardo tínhamos uma banda, o Toward the Cathedral (nome retirado de um poema de TS Elliot). Nossa grande brincadeira era traduzir livros para música, então tinha James Joyce, Kafka, Poe, Camus, tudo lá. A banda acabou em 98 e quando pensamos em retomá-la, sugeri fazermos justamente ao contrário, lançar livros baseados em discos. Daí veio a MOJO… Mas particularmente, adoraria ver um Bob Dylan fazer uma versão de Ulisses, do Joyce. Ou os Sex Pistols tocando Clube da Luta, do Chuck Palahniuk.

07. Quais são os passos a seguir para quem quer ser um escritor da Mojobooks?

É não ter medo de escrever. Todos os discos, músicas, vertem em nossas cabeças através de suas séries de significados (no sentido semiótico mesmo). É juntar esse quebra-cabeça imagético e transformá-lo em palavras. Não é tão difícil, vide que temos bastantes histórias já publicadas. É pensar em “romance”, em “conto” mesmo, deixar a criatividade flutuar, vale terror, vale ficção, vale história de amor. Só não vale o “esse disco significa pra mim”. E quem não tem tarimba de escritor pode ficar sossegado, nós aqui da MOJO ajudamos todo mundo a deixar a história o mais profissional e interessante possível.

Site oficial da Mojo Books.

Certas Canções é o romance de estréia de Marcelo Semer. No meu passeio de sempre pelas orelhas descubro que ele é juiz de direito, já foi professor universitário, jornalista e advogado. Com tanto currículo sempre torço o nariz, mas admito que não existe ciência mais complicada do que sintetizar material para as tais orelhas que de um lado vendem a história e do outro o autor. Pois do lado da história, anos 80. O texto cita Chico, Caetano e Milton Nascimento, chamado carinhosamente de Milton. Entre uma MPB e outra, entre um Paralamas e um Titãs, o momento mágico das Diretas Já. Hora então de mergulhar nas Certas canções.

E o começo é bom. Bem escrito e dosado nos elementos que apresenta: amizade, política e canção. O que podia servir apenas como trilha sonora se mistura logo de cara com a vida dos personagens e ajuda a definir suas personalidades para o leitor. Aqui, o gosto musical é levado a sério, quase questão de caráter.

“Chico ou Caetano? Eu era Chico. Sem Dúvida. Cada palavra no seu lugar, como se elas nunca tivessem estado em qualquer outro antes. Como se tivessem nascido juntas, e só nós ainda não conseguíssemos vê-las assim desde o início. (…) Mas o João, não. Ele era Caetano. João era energia, era etéreo. Era pura sensação. Cheio daquelas coisas que na época a gente não sabia descrever muito bem”.

E essa é a brincadeira: contar a história de amigos inseparáveis (e dessa ingenuidade de amigos que se acham inseparáveis) bebendo da história do Brasil, do fim da ditadura e do que a música representou nessa luta pela liberdade do povo brasileiro. Enquanto o ambiente se compõe no imaginário, o leitor se agarra ao que há de mais concreto: os personagens e sua paixão pela música. Se o que leva um livro adiante são suas perguntas e respostas, em Certas Canções as perguntas surgem com naturalidade: o que será desse triângulo, será mesmo de amigos, será amoroso, que músicas vão ouvir quando suas vidas mudarem radicalmente, porque toda vida há de mudar. Com o passar das páginas, porém, descobrimos que a essência dos personagens não é feita de melodia, é temperada por ela. O verdadeiro substrato é a política. E aqui está o problema.

“Thales Ramalho, que ainda não era um convertido, não veio. Paulo Maluf, o pretenso destinatário da derrota, também não deu às caras. Mas José Sarney estava lá. Era o chefe da tropa inimiga, votou pelo não e arregimentou sua infantaria para votar junto com ele. Mal sabia que seria o verdadeiro herdeiro do insucesso das diretas por obra e graça do destino. Ou será que ele sabia?”

Determinados temas atraem demais a atenção, não importa como sejam utilizados. Há cenas, imagens, momentos que funcionam como verdadeiros buracos negros e mudam a importância relativa das coisas. A política funciona assim. É muito difícil usar a política como pano de fundo, ainda mais a ditadura, sem que ela ganhe a batalha e se torne o foco, sem que ela demonstre a força diante dos protagonistas que ainda são reflexos de Chico e Caetano. Tudo bem que influencie os rumos da história, já que estamos falando da reinvenção da democracia, mas sua onipresença acaba ofuscando o que deveria ser o centro da narrativa: o aspecto humano. Os personagens tão próximos, com jeito tão Caetano de ser, passam a ser de direita, de esquerda, o cara do PMDB. A política está na frente, no pano de fundo a música e a amizade.
O engraçado é que essa armadilha que pega os personagens pelo pé e os dilui, tornando-os mais contadores do que participantes, consegue dar fôlego aos eventos e fazer a trama girar.

“Em relação à estratégia, a esquerda historicamente se dividia entre aqueles que pretendiam o tudo ou nada e aqueles que entendiam possível construir uma nova ordem aos poucos, gradualmente. Entre aqueles que queriam a revolução e outros que entendiam possível iniciar com a reforma. O Saulo era (…) mais realista. Seu objetivo era ocupar espaços, por menores que eles fossem”.

Meu olhar nada imparcial buscava a história de três amigos, de triângulos que em determinado momento sentem os ângulos tensos e desmoronam para formar outras geometrias. E isso eu encontrei aqui e ali, escondido nas entrelinhas, como se o autor na ânsia de compartilhar sua visão política com um mundo de leitores tivesse guardado o melhor da lembrança (verdadeira ou construída) para si.

Se funciona? Quem procura histórias mais cotidianas provavelmente se perderá no meio do caminho, com os amigos ficando menores que os broches em seus peitos. Quem gosta de livros políticos lamberá os beiços e desfrutará com tudo de um saudosismo positivo (nada de besteirol anos 80 como pode induzir a orelha), que mostra um povo com capacidade de mudar seu destino e lembra que nossa música pode ser muito mais do que “tira o pé do chão e grita, galera”.

Certas canções
Marcelo Semer
Editora: 7Letras
Assunto: Romance
Formato: 14×21
Número de Páginas: 126
ISBN: 978-85-7577-419-9
Ano: 2008

Um-sete-um aparece no Houaiss como aquele que comete estelionato, pessoa que mente e engana outras, pessoa que conta muita vantagem, que exagera e inventa fatos. Se tirarmos a parte do estelionato, já que geralmente estelionatários têm um sucesso financeiro muito maior do que os pobres escritores brasileiros, as outras definições caem como uma luva para os que por algum motivo insano se dedicam a contar, inventar, exagerar histórias.

Essa relação não passou despercebida por Ítalo Ogliari, o autor de Um Sete Um, livro narrado em primeira pessoa por um protagonista perto dos trinta anos, como o escritor. O mentiroso nato que conta a história do livro nasceu na periferia de Porto Alegre. Um dia passeando pelas ruas ele encontra seu pai que desapareceu há anos, na verdade um mendigo cheio de cachaça na Avenida Assis Brasil. O mendigo, seu interlocutor que se pararmos para pensar somos nós leitores, não se lembra de nada, por isso só lhe resta acreditar nas palavras do protagonista, com um interesse distante de quem perdeu alguns neurônios com o passar do tempo.

“E por falar em Kombi de igreja, contei pro meu pai, a mãe também entrou pra igreja uma vez, quando eu já tava um pouco mais velho. Uma universal dessas. Mas depois saiu. Ela nunca foi burra. Logo viu que os caras só queriam dinheiro. Primeiro o pastor foi lá em casa convidando ela para participar dos cultos. Disseram que não precisava dar nada se não quisesse. Só que deu quarenta dias e os caras já tavam lá em casa de novo, dizendo que ela andava carregada. Disseram que até eu tava com encosto. Pra puta-que-pariu com encosto em mim. Encosto no rabo deles”.

O livro é dividido em três partes com estrutura épica modular, o que significa que cada uma delas carrega um clímax, apesar dos pontos de trama que as costuram. A primeira conta uma parte da infância do protagonista no beco. Infância não pela idade, mas pela ingenuidade de quem ainda não se misturou com o crime. É aí que surgem os indícios de amizade, o jogo de futebol na rua, o relacionamento com a mãe. É a parte mais interessante, onde o protagonista é humano e tem maior chance de escapar das páginas do livro convencendo o leitor que é real.

Depois disso, com uma arma fria na mão, a história muda de rumo. Os personagens secundários são efetivamente afastados do primeiro plano e viram nomes na multidão, o olhar externo da violência sobre os guetos. Lado bom: o que é verdade ou mentira agora pouco importa, o protagonista omite fatos, rompe a linearidade da história, mata personagens e os traz de volta, porque não foi bem assim, nunca é bem assim e nem quem presencia sabe ao certo como são as coisas. O que interessa ao pai-mendigo que compartilha a cachaça vagabunda com o narrador é ouvir uma boa história que o tire da mesmice do banco da praça.

“Sempre achei que a escola não devia ensinar certas coisas pro pessoal lá do beco. Onde ficava o coração, por exemplo. Sempre achei que o coração fosse do lado direito. Mas não era”.

Então, a arma. Um tiro heróico e a vida no centro de reabilitação de menores. Todo centro desses que se preze tem o pessoal gente boa, o pessoal durão e aquele que se aproveita dos mais novos. Lado ruim: passa o tempo, protagonista livre e o beco ganha ares de favela carioca e essa é a parte entediante. Não pelo andar da história, que se agita com mortes, chacina, tiroteio, drogas, dinheiro de bandido ajudando a comunidade, mas pelo uso desses elementos que não encontram mais espaço na cultura brasileira para respirar com originalidade. A história é a mesma, não muda. Mais cedo ou mais tarde alguém tenta justificar o tiro, inventar razões para o dedo no gatilho em um resquício de humanidade às avessas e se afasta do instinto primitivo que é a roldana principal dessa engenhoca social. Para o olhar distante, o único destino cabível é a morte. Com o tráfico em cena, seja em livros, teatro, HQ ou cinema, quem se dá bem no final é o grande traficante e só.

Por sorte, esse agito também é fechado em si e dura pouco, o suficiente para eliminar os deuteragonistas de uma vez, reforçando o instinto de sobrevivência do protagonista narrador.

“Na verdade, quinhentos era tudo o que eu precisava. Quinhentinhos tava na medida. Eu tinha pedido mil porque é assim que as coisas funcionam. Quer tanto, pede o dobro. Quem não chora não leva”.

E aí a história volta a ser interessante.

A arma continua na mão, mais personagem do que todos. O protagonista fadado a se dar mal na vida precisa arrumar outro jeito de sobreviver e ganhar dinheiro, um jeito mais honesto, digamos assim. Ao mesmo tempo, precisa arrumar um final para a história que conta ao seu pai e para os próprios fantasmas. E é aí que a falsificação de roupas entre em cena, vestida com toda a atualidade do tema, um toque de humor, violência e muito palavrão que ninguém é de ferro. Isso, é claro, até o próximo ciclo, enquanto não vem o tiro derradeiro.

Com tanta adrenalina, altos e baixos, resta ao autor perguntar como quem não quer nada, lá na última linha: dá pra acreditar?

Ítalo Ogliari é graduado em Letras pela ULBRA, Mestre e doutorando em Teoria da Literatura pela PUC-RS. Já publicou dois livros de contos: A mulher que comia dedos e Ana Maria não tinha braço. Um sete Um, 110 páginas, é seu primeiro romance e saiu pela Coleção Rocinante da editora 7 Letras.

De André Rangel Rios, li dois romances, Kant em coma e Aposta, publicados pela 7 letras, em 2006, o primeiro e 2007, o segundo. Há ainda, publicado pela Record o Dentro do teatro de Marionetes, de 2007. Os dois livros de André Rios se interligam por meio de um artifício machadiano. Os personagens se tocam, sem que, entretanto, façam parte de uma mesma proposição narrativa.

Em Kant em coma, o autor opta por apresentar um personagem que dialoga com o estatuto do trabalho universitário, com as pequenas artimanhas que fazem e que são criadas a partir da busca de um status interno, que é a garantia do sucesso entre seus pares. O personagem é, dentro deste meio, um descentrado. Nem deixa de ser o que a academia pede, nem consegue assumir-se como par de seus pares.

A metáfora da morte do pai, presente no romance, é também a metáfora da morte de um sistema de pensamento, que nasce com a formulação da racionalidade. O personagem – Vítor – abalado com a morte do pai e soterrado emocionalmente pela visão precária do mundo profissional, a ausência de discussões, de parcerias válidas, acaba por se enredar entre duas novas possibilidades, a partir do aparecimento de Maria Cristina, concorrente carimbada, por seus méritos e por sua desenvoltura, de um concurso para professor, e de Mariana, jovem que o procura. A relação de oposição entre as duas personagens, que se abeiram do mesmo ‘perigo ético’, isto é, ode se envolverem com o personagem, acabará por trazer ao romance um dinamismo, cuja base está na ação erótica – o outro princípio das reflexões, ligadas ao sentido do mundo, bastante eficaz.

Mestre da ironia do nosso tempo, André Rios neste romance formula com lucidez todo um aparato ético – ou de falsa ética – que rege as relações entre os homens. Com essa formulação abre seu outro romance. É também a morte metafórica que nele se postula. A situação dada é a de um passo além da proposta contida em Kant em coma. Cuidado, leitor, esse passo além não significa dizer de uma qualidade maior ou menor, senão que é apenas um passo no qual as decisões da percepção da falência de um discurso – o acadêmico ou racional – cede lugar para afirmação e negação de um outro. Em Aposta, o narrador se enredará na narrativa. Pesará suas possibilidades.

Em Aposta, André Rios compõe as possibilidades das linhas narrativas. Nelas envolve o narrador – duplo e assassino do autor – e o próprio autor – duplo e assassino do narrador. Em boa parte do livro estes personagens dialogam, se sacaneiam, se ironizam, assim como o leitor e, de quebra, o próprio estatuto da narrativa, pós-moderna ou não.

A morte do autor – discussão à qual atrela seu inconfundível humor – é o mote para o aparecimento do personagem narrador. A partir de seu aparecimento, o romance vai aos poucos encaminhando a leitura, para uma situação limite – a possibilidade da morte dupla. Morrendo o autor, morre com ele o narrador.

Ora, se em Kant em coma a morte tem a ver com a formulação da razão, que desanda em criação, em Aposta, a morte se formula como ficção, criação. Entretanto, tal mudança de estatuto sofrerá uma outra metamorfose, isto é, assim como o real racionalizado nos esconde uma ficção, para ser construído; a formulação do ficcional racionaliza também o real e dá a ele uma expressão, que, contudo, se baseia em operações de complexidade outra.

A rejeição de uma ordem que desmantele os sentidos do texto é em André Rios apenas uma sujeição do texto a outra ordem, na qual as artimanhas do narrar encontram seu caráter mais profícuo: o de contar para esconder, o de esconder para criar sentidos. Assim, ao perceber a necessidade de, no diálogo com o leitor, a quem os dois personagens, a autor e o narrador, pretendem convencer, insistir em sua fidelidade, com promessas de ação e erotismo – motes talvez da produção contemporânea – sobre o nada, o autor de Aposta e Kant em coma formula a necessidade de se ter um olhar irônico e desmantelador de certezas, inclusive as literárias.

Gosto de começar a análise de um livro sondando as orelhas. Não por auxiliar no entendimento, mas para verificar a eficiência desse resumo apertado que tem a complicada missão de ajudar a vender o livro. O escritor Santiago Nazarian já disse que ninguém mete o dedo na sua orelha (ele mesmo a escreve) e entendo a razão. Não é incomum encontrar orelhas que ou entregam o assunto inteiro ou passam longe do que o livro se propõe.

A orelha de Por que não? Rupturas e continuidades da contracultura sofre da mesma síndrome de seu título. Veste a camisa de força da contracultura como principal legado de suas folhas. Veja só:

“Quarenta anos depois do Summer of Love de são Francisco, as práticas culturais, políticas, artísticas e comportamentais que marcaram o movimento da contracultura são avaliadas à luz de um novo ‘aqui e agora’. Partindo da proposta de refletir sobre a atualidade (ou não) da perspectiva contracultural, os textos que compõem este livro apresentam as mais diversas abordagens sobre o tema – de análises e depoimentos sobre as transformações vivenciadas na época até discussões sobre o que teria permanecido ou mudado após quatro décadas”.

Pronto. Dê uma respirada. Esse é o primeiro parágrafo da orelha do livro. Faz um bom resumo da idéia: trazer a contracultura para os dias atuais, ver o que hoje seria contracultura e o que da antiga proposta sobrevive no tempo e espaço. A idéia parece boa para mim e certamente boa para os participantes do livro, por isso não entendo a necessidade de o primeiro capítulo (18 páginas, 28 notas ao final) evocar Walter Benjamin, Nietzsche e Goethe para justificar a pertinência do assunto.

“E o passar do tempo é um aliado da crítica. O tempo queima a obra e consome seu sentido mais óbvio e imediato. Ao fazer crescer a distância entre o teor coisal e o teor da verdade, como em um processo de decantação, tudo que em uma obra é datado sobe a superfície e, nessa separação, seu teor da verdade pode ser nomeado”.

Cláudia Maria de Castro, responsável por essa parte, reconhece que mergulhar nos textos de Walter Benjamin não é para qualquer um. Perscrutar o que há de essência na forma dura do autor é missão árdua que requer paciência. Foi para mim, será para você e boa sorte. Fica a dúvida se começar o livro levantando um arame farpado como esses era a melhor solução (já que o objetivo principal do texto é justificar o que vem a seguir) ou se foi simplesmente honestidade, uma declaração de que, para entender a proposta do livro já é necessário um background cultural considerável.
Feita essa seleção de leitores, o tiro direcionado, pego então o último parágrafo da orelha:

“Temos então um multifacetado campo de observação e ângulos distintos da percepção sobre o pensamento e a atitude contraculturais. Inúmeras são as oportunidades de estendermos as linhas de continuidade-descontinuidade desse legado para a inteligibilidade do mundo contemporâneo”.

Por que não? Rupturas e continuidade da contraculturaSobe de novo. Recupera o fôlego. Uma ampla maioria de assuntos pode ser explorada por ângulos diversos. Qualquer palestra sobre o uso do café no ocidente, a violência no Paquistão ou a evolução acadêmica com o advento do giz pode ser plural. Com a contracultura não é diferente. O ponto de interesse então não é a pluralidade inerente ao tema (qualquer tema), mas a proposta de trazer diferentes olhares, pontos de vista distintos para desenvolver a tal ruptura e continuidade da contracultura.

E isso tem a ver com o texto de Luiz Camillo Osorio, que chama atenção para o ponto central do debate. 99,9% do valor de uma obra/texto/peça/monumento/pires chinês está na capacidade de dialogar não só com o tempo (contexto histórico) e o espaço (o local que sucumbiu ao global), mas com quem a vê. Seja o doutor X-Pert ou o Zé da esquina, é sua bagagem de vida que permite a pluralidade. E isso nem é arte, é biologia. A visão tem como uma das funções buscar eventos na memória que se pareçam com o que estamos vivenciando, encarando no momento e, junto com essa imagem, recapitular os sentimentos também armazenados, vindo aí prazeres e traumas. Tantas interpretações quanto olhos abertos e fechados a admirar ou repensar a obra de um artista. E “por que não?” analisar o papel do museu como espaço de exposição, colocando-o como espaço de experimentação e também o que foi a contracultura e o que ela se tornou ao ser incorporada pelo tal museu de onde deveria ter se distanciado.

Em suma, mostrar que nem só de museu e olhar bovino vive a arte, abre caminho para os capítulos seguintes.

É no texto de Paulo Henrique Britto que o livro fica mais palatável para os iniciantes e iniciados. Sem malabarismos lingüísticos, o autor vai direto ao ponto.

“A idéia da contracultura está intimamente associada à idéia de transgressão: uma ‘contracultura’ seria uma subcultura que se define em oposição à cultura dominante, numa postura transgressiva”.

Palavras. Ficam tão bem quando umas depois das outras adquirem significado inteligível.

Para tornar o capítulo ainda mais interessante, o foco é a poesia. O autor cita a geração mimeógrafo como a que mais se aproximou da contracultura e põe como alvo a produção poética e crítica construtivista-objetivista dos concretos. Adiante, analisa a produção poética atual, apontando diferenças e semelhanças com a contracultura, tarefa difícil já que a proliferação de vozes individuais desloca-se do conceito de unidade de movimentos em geral.

“Quando a ordem do dia é subverter e desconstruir, a própria idéia de transgressão perde o sentido”.

O próximo passo quem dá é Antônio Cícero, ao abordar o Tropicalismo (centrado em Caetano, é verdade) e lembrar que o AI-5 teve enorme peso na produção cultural da época.

“De fato, a recusa a separar alta e baixa cultura, radicalmente realizada na vida prática de Caetano, fazia parte de uma recusa das convenções estéticas, e, de maneira geral das convenções sociais”.

A partir daí, com uma idéia mais clara do valor contracultural e com elementos mais acessíveis para dialogar e construir significados, o leitor acompanhará a influência das drogas alucinógenas (símbolo da cultura hippie e potente filtro midriático) na contracultura. Deixará Focault descansando e esbarrará em nomes como The Doors, Raul Seixas e Jimi Hendrix. Entrará em debates (internos, porém coletivos) sobre o papel da espiritualidade na (de)formação da identidade cultural e passará pela Nova Era que, não por acaso, retoma o tema do individual preponderante ao coletivo. Pensará o papel do teatro e essa idéia antiga que temos de que ser ator de teatro é uma profissão alternativa em seus diversos significados. Esbarrará com a psiquiatria (e volta Focault, Goffman) no seu sentido mais acadêmico. Atualizará o uso das drogas, agora nas raves e boates e, após toda essa caminhada racional, colocará os pés na cena cultural das favelas brasileiras, dos quais AfroReggae e Nós do morro se tornaram boas bandeiras (um dos melhores capítulos).

Jornada concluída, retomo o início da resenha. O grande defeito de Por que não? Rupturas e continuidades da contracultura é não se livrar do malabarismo dialético na maioria dos capítulos, o que além de restringir o público-alvo e afastar leitores mais tímidos, retoma o conceito de literatura para eruditos e recoloca a arte nas paredes do museu. Seu ponto forte é a diversidade. Mais interessante se pensarmos no formato original de seminários em que é possível interagir, complementar e rebater comentários, mas que mantém parte de seu charme como livro pela riqueza de opiniões.

Editora: 7 Letras
Assunto: Sociologia
Formato: 14×21
Número de Páginas: 264
ISBN: 9788575774076
Ano: 2007

A Antologia de Poesia Portuguesa Século XVI, editada pela 7 letras e organizada por Sheila Moura Hue, possui, entre os diversos méritos, o de trazer para o leitor brasileiro uma amostra da poesia escrita à época de Camões. Dividida em diversas partes, a coletânea traz, ao todo, dez temas, que buscam abranger os modos de composição do século.

Como imitação e imitatio não possuem a mesma semântica, e também como o conceito da imitatio é de conhecimento dos poucos interessados em literatura e artes, a utilização do conceito imitação vai ser empregado, tomando a organizadora o cuidado de diferenciar tanto a produção de Camões como a de seus contemporâneos da poesia moderna. A poesia da imitatio tem seja na sátira, seja na poesia “séria” o intuito de propor uma moralidade. Nos textos lidos, tanto mais essa moralidade se expressa quanto mais o leitor mergulha no processo da comparação entre os poemas apresentados. Esta é uma das vantagens que a reunião de um grupo de poetas da mesma época apresenta, pois se pode perceber a recorrência dos temas e do tratamento poético a que são submetidos.

Se a organizadora tem o cuidado de chamar a atenção do leitor paras as diferenças entre a produção poética dos escritores clássicos e dos modernos, a medida nova, metro com o qual os poetas renascidos de Portugal diferenciaram-se dos poetas medievais, introduzida por Sá de Miranda, a partir de Petrarca, terá, por si, também a capacidade de se fazerem deduzir as diferenças entre o poetar clássico e medieval. E o leitor curioso poderá talvez montar um quadro das percepções literárias tão diversas quanto as que são suscitadas pela antologia.

Essa diversidade demonstra o quão o conceito de literatura se modificou ao longo dos tempos, desfazendo as percepções das arritmias das verdades consolidadas. Por exemplo, O Camões, cantor da Pátria portuguesa, não é senão uma visão excêntrica e romântica do Camões que louvou a expansão imperial portuguesa, em versos definitivos, mas atrelados ao conceito poético que vigia. A antologia é deliciosa quando traz lado a lado alguns dos sonetos camonianos e de outros poetas como Pero de Andrade Caminha, Diogo Bernardes cuja temática e tratamento são os mesmos, com versos que ressoam aqui e ali como cópias, mas que são, na verdade, um dos encantos da invenção poética dos poetas clássicos.

Chamam ainda atenção as subdivisões dedicadas à sátira e à poesia crítica (cuidado, leitor, a poesia crítica de que aqui se fala nada tem a ver com a que recebe o mesmo nome na atualidade. Tal poesia é crítica por atuar diretamente sobre um corpo político ou social e não sobre o próprio versejar), pois nelas é onde se pode perceber com maior acuidade o processo da moralização. Durante o período medieval, as poesias satíricas tinham já esse teor, embora mais circunscrito à vida paçã; com o advento do Renascimento tornam-se elas mais públicas, embora dirigidas pelo olhar atento da aristocracia e do clero.

Que aproveite o leitor esta antologia, pois, além de permitir essa rigorosa viagem ao tempo de Camões, ou o Poeta, como lhe chamam os portugueses, o cuidado com o qual Sheila Moura Hue traceja as notícias biográficas dos autores aqui apanhados faz desta antologia um livro do qual devem se orgulhar tanto os leitores de poesia como os seus editores.

Conceito e narrativa

O livro de Márcia Bechara, Casa das Feras, editado pela 7 letras, no ano que passou, busca um difícil equilíbrio; transpor a imaterialidade do espírito em corporificação da matéria e a corporificação da matéria em imaterialidade do espírito, como se quisesse reescrever a observação do real.

Na literatura, a busca de tal reescrita é uma constante, talvez uma das mais instigantes obras que busca recontar o mundo, criar uma cosmologia própria, seja a de Bruno Schulz. Bruno, ao inverter o ponto de vista do olhar – em Lojas de Canela é a poeira em suspensão que detém a expressão do universo – constrói o aniquilamento do sujeito, fazendo com que ele seja percebido pelo objeto. Em nenhum momento o autor polonês, perseguido pelo fascismo e morto no Campo de Concentração, irá tematizar essa transformação. Ela simplesmente, como num texto poético, se apresentará.

A intenção de Márcia Bechara em seu livro é parecida, embora a matriz de sua prosa não seja a de Shulz, mas a de Clarice Lispector e a de Guimarães Rosa. Em alguns contos essa transposição do ponto de vista sobre a matéria/espírito, de que se falava, acaba por se cumprir. Entretanto, muitas vezes essa transposição só se faça porque é nomeada, explicitada pelo narrador, isto é, não se cumpre como tecido narrativo, mas como uma voz que autoriza o leitor a assim ler, como se houvesse a necessidade de um reforço, de uma explicação excêntrica ao texto.

Tomem-se dois exemplos: O conto Pedras, cuja idéia e narrativa são comoventes, e o conto de abertura da coletânea, que possui o mesmo nome do livro, Casa de Feras. Neles a inversão do olhar se evidencia. Em Pedras – o narrador é dúbio – ora se mostra como externo ao quarto do sanatório no qual Camille Claudel se isola do mundo, ora é ela mesma a pedra que chama a atenção do leitor para a relação entre Camille e a pedra que a salva do desastre.

A questão narrativa é problemática neste conto.  A primeira frase está na terceira pessoa: “era um bloco de mármore indefinido colocado em cima de uma plataforma de madeira no meio do quarto de sanatório de Camille Claudel”. (pág. 65). Mais para frente se lê: “Comecei a nascer, portanto, no primeiro olhar que Camille lançou sobre mim, no chão do catre, eu – mármore no centro, posto sobre um lençol encardido como se eu pudesse ser alguma coisa realmente delicada”.

A passagem para a primeira pessoa corresponde ao olhar de Camille sobre a pedra, que vai tomando consciência de sua materialidade e adquirindo, como pedra, uma independência narrativa que apagasse do sujeito sua capacidade de observação. É a pedra, portanto, o sujeito da narração, quem a determina e constitui. Didi-Huberman, em belíssimo texto sobre a alta-modernidade americana, já propunha essa independência do olhar do objeto. A capacidade de o homem ser olhado pelo que concebera também o concebe, o funda. Entretanto, nesta fundação não se pode sentir seja a mão do escultor, seja a voz do narrador, construindo, para além da própria pedra, para além do próprio texto, a voz que nomeia o indizível, a percepção que apura o leitor.

Nem sempre a frase engenhosa cria o significado do texto que olha. Quem determina o conceito que se expressa é a excelência narrativa. Dizer, por exemplo, que “eu queria saber pegar no pires e na xícara com delicadeza, pisar com graça, queria a vida longe do cheiro bom da selva, eu queria rapidamente me corromper para ser salva da natureza.”, embora toque na essência do humano, não é necessariamente dar tônus á narrativa, mas apreendê-la em um conceito que está aquém do próprio texto que se escreve.

A árdua escolha de Márcia Bechara cria para si mesma um terrível dilema que aos poucos irá se aplainando, se solidificando em maior e mais exata economia narrativa.

O livro de contos, de Leonardo Brasiliense, Olhos de Morcego, que faz parte da Coleção Rocinante, editada pela 7 Letras, é correto. Dividido entre histórias que se passam na cidade e no campo, traz como núcleo narrativo o desacerto. Brasiliense foi ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro Juvenil, em 2007, com o título Adeus Contos de Fadas, publicado também pela 7 Letras, em 2006.

Seja nas narrativas urbanas, seja nas rurais, o livro de Brasiliense vai revelando, com a leitura, uma geografia de doentes, de desvios, de longos e tenebrosos desacertos. Estejam eles ligados à plena incapacidade física, como no caso de Tia Teresa, no conto Amigas, seja à plena incapacidade de concatenação do real, como os diversos personagens que fazem parte do conto de abertura, Fim dos tempos, de aguda percepção irônica.

A narrativa desenvolve – no que se refere aos desvios – indivíduos aparentemente sãos que, aos poucos, recebem uma carga semântica que escapa às situações do cotidiano em que estão inseridos. Assim, o desempregado, de Fugindo do amor, é convidado, por um acontecimento inusitado, a penetrar o apartamento de um vizinho, que deixa, sob a porta, bilhete para que ele cuidasse de um canário, na sua ausência, que seria longa. O vizinho, além do pássaro, deixa de herança sua filha, acamada desde sempre, vítima de um nascimento infeliz. A recusa do desempregado – joga chave e bilhete no lixo – e seu desespero, revelado na busca do próprio sustento, vão permitir que, com a hipotética verdade do relato sobre o vizinho, se desdobre sobre o abandono, que é duplo, uma farsa na qual a compensação psicológica está a serviço do ramalhete de desacertos doentios que o livro oferece.

Se tais desacertos são o núcleo dos contos de Olhos de Morcego; sua matriz temática pode ser percebida também alhures. Os contos desdobram a temática dos desacertos doentios em uma análise bastante densa dos problemas sociais. Se aqui se revelam os problemas típicos do mundo urbano, com sua carga semântica de desespero e iniqüidade, no qual os elementos de reconhecimento e justiça estão destroçados; ali, nas narrativas rurais, é o próprio território que se faz desconhecer. Leiam com cuidado os contos O Peão e Dona Mimosa, a parteira.

Em um estilo meio fantasmagórico, a solidão e abandono criam um traço curioso e potente. A lembrança da narrativa popular do Negrinho do Pastoreio é ativada apenas para que se demonstre a presença de um lugar que não mais existe, seja na narrativa, seja no mundo geográfico, embora o índice de injustiça daquele mundo ainda esteja a latejar em nosso mundo real. Assim, sem a compensação ilusória das saídas místicas, o peão de Leonardo Brasiliense se põe a serviço de uma territorialidade arrasada.

A mistura dos dois elementos que se destacaram na leitura de Olhos de morcego permite verificar o traço de união entre eles. O doentio complementa a iniqüidade que o determina. Como o doentio é, entretanto, a própria iniqüidade, e a iniqüidade é também determinada pelo doentio, cria-se um ciclo vicioso para o qual não se vislumbram saídas. Nem místicas, nem sociais. A narrativa torna-se, portanto, o nexo no qual o drama de um mundo se configura como narração.

Neste sentido, Olhos de Morcego, é um livro duplamente correto.

Ando lendo Tchekhov. Alguns contos editados pela L&PM, que recebeu o título de um dos que fazem parte da coletânea – Um homem extraordinário – traduzido do russo por Tatiana Belink.

Os contos contidos, na medida exata da expressão, vão encantando o leitor, construindo canais de comunicação dentro de uma lógica que se desdobra em pequenas doses de emoção, de surpresas. O primeiro conto da coleção – Desgraça alheia – é um primor. A cena feliz de um casamento se desfaz ante a incapacidade de o marido compreender os sentimentos da família que está sendo despojada do único bem que possui. Comprada a propriedade dos sonhos do casal, restam a eles a jactância do marido e a tristeza da mulher. Entretanto o que se revela no conto é mais do que isso.

O embate entre a família do Mujique – que se destrói frente a inexorabilidade do destino – e a alegria do casal que os despoja de tudo quanto têm, da memória afetiva à posse da terra da qual sobrevivem, vai se construindo sem grandes cenas. Toda a narrativa é em tom menor, como se se construísse uma pequena música noturna na qual o lampejo da genialidade se esforça por se esconder.

A percepção aguda de Tchekhov sobre os problemas vividos pela Rússia, a capacidade de lado a lado compreender e distinguir as várias questões sociais e ordená-las em contenção narrativa permite ao leitor apreender não só o drama particular dos mujiques de olhar vago e vida perdida, como também o drama vivido pelos burgueses jactantes e iludidos com a noção positivista do progresso.

Ao conto sobre o qual se escreve e que abre a coletânea segue-se um outro não menos contido. Retomando a questão fáustica, o escritor o faz também em tomo menor, quase como que como uma burla, uma farsa – já que todo o envolvimento com o Diabo não passa de um sonho. O extraordinário Um dia no campo – ceninha traz, já pelo próprio subtítulo, a percepção do mínimo e desimportante. À cena rural, burguesa, o hábito de se passar um dia no campo, se converte numa feroz ausência do bucólico. São personagens desta cena a fome, as crianças desprovidas de teto e família, os tolos. O conto chega a dar um nó nos estômago pela singeleza, pela ingenuidade com que borda este outro do campo burguês.

Assim se sucedem os contos desta coletânea.

Vez por outra algum desocupado traz à tona a pergunta: literatura é diversão ou erudição? Geralmente, é uma discussão cansativa que termina onde começa, mas que chama a atenção de editores por dois motivos: 1. Como diversão a literatura é mais acessível, porém enfrenta concorrentes de peso como a televisão e o videogame. 2. Como erudição ela é imbatível, mirando, entretanto, num público mais restrito, já que cada vez menos gente parece disposta a adquirir conhecimento além do cotidiano das celebridades, que só serve para esvaziar o espaço antes dedicado à cultura e ao jornalismo de conteúdo.

O curioso dessa classificação não é o imenso nicho que ela cria, mas o caráter excludente próprio da escolha. Pois então a erudição deve ser maçante para ser valorizada? E seria um louco aquele que sorri lendo um Nietzsche ou ouvindo música clássica?

Por entender que tais classificações são formadas mais por meandros do que por ângulos retos, o escritor David Coimbra partiu para uma experiência literária agradável, que une diversão e informação sem nenhuma dificuldade e põe abaixo o falso sofrimento do erudito.

Jogo de Damas, segundo a capa, conta a história de grandes mulheres, grandes homens e grandes fatos que determinaram a supremacia feminina. Durante 170 páginas, Coimbra leva o leitor a descobrir que as mulheres dominam o mundo desde os tempos do Homo sapiens, e que são as reais responsáveis pelo surgimento do que chamamos hoje de civilização. Inocente quem pensar o inverso.

É claro que isso é feito com muito humor, sem a pretensão de provar uma teoria científica ou sociológica. Em Jogo de Damas, o conhecimento é parceiro do riso.

“Rodopé não era egípcia como Mahfuz. Nasceu na Trácia. Numa das tantas guerras da Antigüidade, foi capturada pelos egípcios e reduzida à escravidão. Então, lá estava Rodopé, exposta num mercado de escravos como se fosse um melão maduro. E, importante, nua. Total, completa, absolutamente, deliciosamente nua”.

A jornada cultural começa há 3,8 milhões de anos, com os macacos saindo das árvores e indo para o chão andar sobre dois pés. Esbarramos então com o Australopithecus afarensis, Pithecus para os íntimos, e mais a frente com o Homo neanderthalensis e o Homo sapiens, levantando a primeira questão filosófica do livro: se o Neanderthal era musculoso como um Schwarzenegger e peludo como um Tony Ramos, como foi extinto pelo fracote do Sapiens? O segredo está nas mulheres. A resposta, no livro. E é aí que você entende porque escrevi aquele papo-cabeça chato no início da resenha.

David Coimbra acompanha a vida do Neanderthal, do Sapiens e de muitas figuras históricas marcantes com uma linguagem contemporânea totalmente diferente dos textos de história. Funciona como se o autor encarnasse um paparazzo informativo, parado na janela da Rainha Cleópatra, pronto para contar de sua última escapadela com Marco Antônio, ou um biógrafo da vida de Madame de Pompadour, que recolhe informações entrevistando a moça na confeitaria Colombo, entre uma bomba de chocolate e outra.

Está tudo lá, com a distância e a confiabilidade da história, está tudo aqui com a proximidade da prosa ágil e o ponto de vista inusitado do autor. Enquanto Esopo, Aspásia, Espinosa, Nietzsche, Lou Salomé e até Abraão desfilam suas vidas diante do leitor, David Coimbra explica como as mulheres e seus encantos foram determinantes no rumo da História, fossem ex-amantes, assassinas ou rainhas manipuladoras.

Em sua narrativa, Mata Hari é uma celebridade a ser desvendada, dançarina famosa que consegue as melhores críticas no jornal, mas acaba fuzilada como espiã. Tem uma vida mais complexa do que qualquer clichê que a ronde em filmes e livros. Jogo de Damas não fala da Britney careca saindo sem calcinha. Nele, é Messalina quem expõe seu fogo incontrolável e trai o marido com todo mundo que encontra pela frente.

“Espinosa, Kant, Schopenhauer e Nietzsche. Todo um ciclo filosófico completo. Quatro homens poderosos marcados pela influência da mulher. Porque, se não fossem as desilusões que todos eles tiveram com as mulheres, nenhum deles comporia a obra majestosa que compôs. (…) Estariam paparicando suas mulheres, cuidando dos filhos, sendo mediocremente felizes”.

Em um dos pontos altos, o autor contesta a nova teoria de que Cleópatra era feia. Afirma que uma mulher feia não seduziria dois dos homens mais poderosos de seu tempo, chegando a compará-la dentro do tapete ao recheio de doce de leite de um rocambole. Por maior que fosse seu instinto de sobrevivência, Cleópatra contou com uma ajudinha da natureza e de alguns talentos treinados diariamente com os escravos. Nem mesmo Sodoma e Gomorra escapam do olhar irônico de Coimbra que, com muito jeito, fala do afã dos sodomitas de sodomizar os anjos enviados por Deus para acabar com eles, e das barganhas de Abraão para tentar salvar o povo dessas cidades. Sua linha do tempo passa também pela Idade das Trevas, lembrando que nem tudo era escuridão, apesar de não haver fósforo nem isqueiro. Ele ressalta que foi uma ótima época para as mulheres, já que o Estado tinha perdido a força e as religiões não estavam sólidas, resumindo o dia a dia a um imutável ambiente familiar.

“E a família, é o ideal da mulher. Na família, a mulher reina, mesmo que o mando, supostamente, seja patriarcal”.

Outro capítulo interessante explora a vida de Catarina de Médicis e da Rainha Margot. Enquanto acompanha o emaranhado de intrigas próprio da época, o leitor aprende um pouco sobre o Renascimento (as regras de etiqueta não eram das melhores) e as mudanças que ocorrem em Paris com a chegada de Catarina. Vale lembrar que a Rainha Margot teve papel importante nos conflitos religiosos que dividiam a França no século XVI, e é essa a base para o desenvolvimento de piadas e curiosidades, não o inverso.

“O ato de montar, porém, trazia dissabores às meninas, porque elas não usavam nada por baixo das saias. Logo, sempre que uma moça abria as pernas para acomodar-se no lombo do cavalo, era grande a diversão dos rapazes do entorno. Para resolver o problema, Catarina bolou uma calçola, que era vestida sob a saia. (…) Em pouco tempo a calçola foi aperfeiçoada, reduzida, adereçada e transformou-se na moderna calcinha”.

Confesso que acho mais relaxante ler Sartre do que Sidney Sheldon. E que me encanto mais com a vida dos imperadores romanos do que com a dos astros de Hollywood (a quantidade de escândalos é a mesma, posso garantir). Por isso, como todo crítico, sou intrinsecamente suspeito para discorrer sobre qualquer tema. Digo então que se Jogo de Damas não me prendeu na primeira página (nunca fui muito chegado nos Pithecus), logo o fez na segunda, sendo uma das leituras mais prazerosas que tive nesse ano.

É a chance de quem quer aprender sobre história sem ter que levantar a sobrancelha e treinar um ar blasé para o próximo encontro com os amigos.

Jogo de Damas
David Coimbra
Editora L&PM, 2007.
170 páginas.

O novo livro de Richard Diegues reúne 17 contos escritos em datas esparsas, mas que carregam no cerne algo em comum: se parecem com o tipo de história contada em volta do fogareiro, dentro da barraca de camping, debaixo da coberta com a lanterna acesa ou, como diz o nome do livro, Sob a luz do abajur.

Esse não é um formato novo para o autor, que participa da série Necrópole e organizou a coletânea Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos. Sob a luz do abajur é composto por contos curtos, entre 2 e 5 páginas, e textos introdutórios que os acompanham. Se as introduções nem sempre funcionam, os contos são em geral eficazes. A opção por narrativas diretas sem firulas ajuda a manter o fôlego e o tom de suspense.

Richard segue o clima sobrenatural que conquistou os fãs nos trabalhos anteriores, permitindo-se diversificar os temas. É perceptível desde o início a facilidade do autor em mudar sua voz. Ele soa convincente como um caminhoneiro, um executivo, uma prostituta ou um pugilista.

O abajur, por exemplo, traz como protagonista uma menina de três anos de idade e aborda o medo do escuro, sem o interruptor salvador ou a palavra de consolo dos pais. Que caiam as pedras e Santo Embuste viram o fogo para a igreja, sem medo de apertar o gatilho. Em um tom crítico, religião e ficção são colocadas no mesmo patamar. No fio da navalha, um dos mais interessantes, acompanha um sujeito com um dom peculiar, que trabalha numa cutelaria e tem entre seus fregueses alguns psicopatas adeptos do facão. Difícil não pensar no jargão “o cliente tem sempre razão” ou nesses textos que viram febre no mundo corporativo.

“Por ocasião, vou lhe dizer que é apavorante trabalhar neste lugar. Fora o cuidado ao se mover, também é necessário olhar bem onde se senta. Mas isso é simples, adquire-se o hábito depois do terceiro ou quarto corte”. – No fio da navalha.

Richard Diegues também foge de uma armadilha atroz que acompanha os contistas: o último parágrafo. Com exceção de um conto ou outro, não há frases prontas repentinas que tentam agregar um valor que o restante da história não tem ou criar uma grande virada de trama, quase ali no ponto final. O autor prefere um processo honesto, que lembra a escola tradicional dos escritores de terror.

Stephen King costuma basear seus livros em reações. Seus personagens têm uma vida comum, geralmente no Maine, e se vêem frente a frente com o inusitado. As histórias se desenvolvem com os personagens tentando se livrar das arapucas criadas por ele.

Richard escolhe outro caminho. Ele utiliza cenários cotidianos, pequenos medos que se entranham no frenesi da cidade grande e só precisam ser retrabalhados no campo da fantasia. Em seus contos, o terror não causa surpresa nos protagonistas, é parte natural da vida. É preciso lidar com a situação e encará-la de frente.

“O tiro foi certeiro. Estirei o braço à frente, fiz a mira e, mesmo antes de pensar, já havia pressionado o gatilho. Confesso: mirei entre os olhos (…) mas o que importa? Estou pouco ligando para o coice da pistola. Entre os olhos ou no centro da testa, acaba tudo da mesma maneira”.

Sob a luz do abajur tem 94 páginas e saiu pela Tarja editorial, da qual Richard Diegues é um dos editores.

Entrevista exclusiva com Marie Darrieussecq

1. It’s been ten years since Pig Tales came out, drawing international attention and sparking interest from Godard. What is your current relationship with the book? Do writers lose their connection with what has been committed to paper?

I like the book very much, sentimentally. In my life there is a before and after Pig Tales. I was 26 and living on a grant for my PHD, I was an “old student” and I was wondering how to live and write. Pig Tales gave me the answer. I quitted everything and fulfilled my childhood dream: I now do nothing but write. The book has been translated in 45 countries.

I only open it when people ask me to read it in public, and when it happens, I think some things in it are really good, some other things are a bit “young”. Every book I write teaches me more about writing.

I don’t “lose the connection” with what has been committed to paper because all my books are fed with the same deep, archaic material coming from my childhood, and still living in my adult body and mind. Yet I tend to forget what I’ve written. I’m always more interested by the book to come than by the book I’ve just written. Of course.

2. Oscar Wilde says that a good writer has a boring life, because he places all his potential in literature. It is a sentence that has always bothered me, because I like my stories both lived and imagined. And that’s when I remember your book “Le bébé”. How much can readers see of you in your books?

My life is very boring. Very boring and very happy. The more boring and happy my life is, the more I dare plunge in dark vertigos. I wrote only once about my real life, in “le bébé”, the story of the first nine months in the life of me-as-a-mother. It was a rather happy book. I write fiction about darker things, ghosts, absence, problematic bodies, but all these themes are part of me too. When I was younger, I was constantly obsessed with the book I had in mind. Later (maybe because of my children, and also thanks to psycho-analysis) I learned how to breathe out of my writing. I learned to close the exercise-book or turn off the computer, and go back to my boring, calm, nice, ordinary though privileged life. I learned how to write AND live.

3. Absence has great strength in your literature. Phantom Husband and Undercurrents are good examples of that, I believe. Do you relate that to the feeling of inner emptiness, the difficulty in knowing one’s own place? Or is it actually the opposite, a message that life has to be more lived and less planned?

I often write about characters who lose their surroundings and their certitudes, and who find new ways of thinking, talking, loving. But my books have no messages. They ask more questions than they give answers. I think literature is a long question put in the most beautiful way. A book that explains you how to live and what to think is not a book, it’s poison for the brain. A good book opens new windows in your mind, a good book helps you find the words for your own questions. Writers have always tried to describe the sea, the absence of the loved one, the ghosts… but another writer will always find new words and go further. Literature is dynamic, alive and kicking.

4. Is contemporary literature winning the fight against videogames and digital TV? Is there some writer who stands out in your opinion?

I like many different writers. I like Stephen King and Marguerite Duras, Haruki Murakami and Faulkner, Claude Simon and Adão Iturrusgarai. People will always read, either on paper or on electronic books. I marvel at young kids standing in the street, alone, a book in their hand, lost in Harry Potter. Whatever the book is, any book can lead anybody to another book, and so on. One starts with Harry Potter and may read Joyce in the end. And now people learn to do so many things at the same time: jog, read and listen to music for example. They may even give a little phone call. I see that in the parks in Paris.

5. Books are increasingly a synonym for industry. How is it to communicate with readers of the whole world, writing poetic prose, dialoguing with fantastic realism? Do you consider yourself as part of a resistance movement? That the market pressure can make literature poorer?

Yes, I do consider myself as part of a resistance movement against ready-made thinking and ready-made sentences. Each human experience is both unique and universal. Everybody has loved and ached, but advertising and industry try to make us believe that we all do it the same way and that we all can find the same answers in consuming endlessly useless products. They create confusion between need and desire. Literature is made of real desire. In France, due to a long tradition and also to reasonable cultural politics, books that are not mere products are still accessible to a large public. There are independent book shops and independent publishing companies, and the price of books is regulated.

The way my books are read in China or in Brazil, in Suede or in India, is incredibly different. According to their culture and experience, the foreign readers can find meanings in my books that completely escaped me. In Argentina for example “My phantom husband” was read as a political book about the 30 000 persons who disappeared during the dictatorship. I never thought about it while I was writing it, but I find it’s a very beautiful way to read it.

6. What can readers expect from Tom est mort?

Well, well… Despair. Anxiety. Depression. And beauty. Beauty is not always born of pretty things. Personally, I expect a lot from my readers. I appeal to their intelligence, not to their need to be entertained.


01. Dez anos se passaram desde o lançamento de Pig Tales/Truismes, que chamou atenção do mundo e saltou aos olhos de Godard. Qual a sua relação atual com o livro? O escritor realmente perde o vínculo com o que já foi para o papel?Eu gosto muito do livro, sentimentalmente. Na minha vida existe um antes e um depois de Porcarias. Eu tinha 26 e vivia de uma bolsa de Pós-doutorado. Eu era uma “estudante profissional” e estava me perguntando como poderia viver e escrever. Porcarias me deu a resposta. Eu larguei tudo e realizei meu sonho de infância: agora eu só escrevo. O livro foi traduzido em 45 países.

Eu só abro o livro quando as pessoas me pedem para lê-lo em público. Quando isso acontece, eu penso que algumas coisas nele são realmente boas, outras são um pouco “verdes”. Cada livro que escrevo me ensina mais sobre escrever.

Eu não “perco a conexão” com o que foi colocado no papel porque todos os meus livros têm a mesma fonte: material arcaico e profundo vindo da minha infância, que continua vivo no meu corpo e mente adultos. Entretanto, eu tendo a esquecer o que eu escrevi. Estou sempre mais interessada no livro por vir do que pelo livro que acabei de escrever, é claro.

02. Oscar Wilde diz que um bom escritor tem uma vida sem graça, porque coloca todo o seu potencial na literatura. É uma frase que sempre me incomodou, porque gosto das minhas histórias vividas tanto quanto das inventadas. E aí me vem em mente seu livro “O bebê”. O quanto é possível enxergar de você em seus livros?

Minha vida é muito entediante. Muito entediante e muito feliz. E quando mais entediante e feliz é a minha vida, mas ouso mergulhar em abismos escuros. Eu escrevi somente uma vez sobre a minha vida real em “Le Bébé”, a história dos primeiros nove meses na minha vida como mãe. Esse foi um livro relativamente feliz. Eu escrevo ficção sobre coisas mais sombrias, fantasmas, ausência, corpos problemáticos, mas todos esses temas também são parte de mim. Quando eu era mais nova, ficava constantemente obcecada com o livro que tinha em mente. Mais tarde (talvez graças aos meus filhos, e também graças à psicoanálise) eu aprendi como me separar da minha escrita. Eu aprendi a fechar o livro de exercício ou desligar o computador e voltar para a minha vida entediante, calma, agradável, comum porém privilegiada. Eu aprendi a escrever E viver.

03. A ausência tem grande força na sua literatura. Phantom Husband e Undercurrents são bons exemplos disso, creio eu. Você faz um paralelo com a sensação de vazio interior, a dificuldade de saber qual o nosso lugar? Ou é exatamente o inverso, uma mensagem de que a vida tem que ser mais vivida e menos planejada?

Eu freqüentemente escrevo sobre personagens que se dissociam de seus ambientes e suas certezas, e que encontram novos modos de pensar, andar, amar. Mas os meus livros não têm mensagens. Eles oferecem mais perguntas do que respostas. Acho que literatura é uma grande pergunta feita da forma mais bela. Um livro que explica a você como viver e o que pensar não é um livro, é um veneno para o cérebro. Um bom livro abre novas janelas em sua mente, ajuda você a encontrar palavras para suas próprias perguntas. Os escritores sempre tentaram descrever o mar, a ausência do ser amado, os fantasmas… mas outros escritores sempre encontrarão novas palavras e irão além. A literatura é dinâmica, viva e pulsante.

04. O que acha da literatura contemporânea? Algum escritor tem se destacado aos seus olhos?

Eu gosto de muitos escritores diferentes. Eu gosto de Stephen King e Marguerite Duras, Haruki Murakami e Faulkner, Claude Simon e Adão Iturrusgarai. As pessoas estarão sempre lendo, sejam livros eletrônicos ou em papel. Eu admiro crianças em pé na rua, sozinhas, um livro nas mãos, perdidas em Harry Potter. Qualquer que seja o livro, pode levar a pessoa até outro livro, e assim por diante. Você começa com Harry Potter e acabar lendo Joyce. E agora as pessoas aprendem a fazer tantas coisas ao mesmo tempo: correr, ler e ouvir música, por exemplo. Elas podem até fazer uma ligação rápida. Eu vejo isso nos parques em Paris.

05. Livros cada vez mais é sinônimo de indústria. Como é se comunicar com leitores do mundo inteiro, escrevendo prosa poética, dialogando com o realismo fantástico? Você acha que faz parte de um movimento de resistência? Que a pressão do mercado pode tornar a literatura mais homogênea é pobre?

Sim, eu me considero como parte de um movimento de resistência contra frases prontas e pensamentos prontos. Cada experiência humana é única e universal. Todos já amaram e sofreram, mas a indústria e a propaganda tentam nos fazer acreditar que todos nós sentimos isso do mesmo modo e que podemos encontrar as mesmas respostas consumindo uma infinidade de produtos inúteis. Elas confundem necessidade e desejo. A literatura é feita de desejo real. Na França, devido a uma longa tradição e também a políticas culturais razoáveis, os livros que não são meros produtos continuam acessíveis a um grande público. Existem livrarias e editoras independentes, e o preço dos livros é regulado.

O modo como meus livros são lidos na China ou Brasil, Suécia ou Índia, é incrivelmente diferente. De acordo com sua cultura e experiência, leitores estrangeiros podem achar em meus livros significados que me escaparam completamente. Na Argentina, por exemplo, “O nascimento dos fantasmas” foi lido como um livro político sobre as 30.000 pessoas que desapareceram durante a ditadura. Eu nunca pensei sobre isso enquanto o escrevia, mas eu acho que esse é uma forma muito bonita de ler o livro.

06. O que o leitor pode esperar de Tom est mort?

Bem… Desespero. Ansiedade. Depressão. E beleza. A beleza não nasce sempre de coisas belas. Pessoalmente, espero muito de meus leitores. Eu apelo para a inteligência deles e não a necessidade de serem entretidos.

De Amós Oz li recentemente dois belíssimos livros. Suas memórias, que intitulou De Amor e Trevas e a fábula De repente, nas profundezas do bosque. Embora as memórias sejam livro de mais fôlego, interessa-me aqui escrever sobre a história da vila que se viu de repente vazia de animais. O livro traz uma narrativa ágil, repleta de espanto.

O autor opta por compor na contramão do texto, isto é, faz dos homens animais fabulares. A inversão preparada e desenvolvida por Amós Oz tem o mérito de tornar os homens, a quem toda fábula se dirige, personagens que se caracterizam pela existência em um mundo provável, intangível. Fictício.

Sabe-se que as fábulas, na sua origem, promovem deslocamentos verossímeis, quando dão aos animais o dom de expressarem-se com humanidade. As falhas humanas, seus desvios, medos e alegrias estão todas representadas no texto fabular. Moralizam, promovem o bem comum e ideológico da sociedade em que foram gestadas, isto é, cumprem um papel social. Possuem eficácia.

A verossimilhança das fábulas faz com que ela perca os estatutos da ficcionalidade, pois não se fala senão de um mundo moral, pré-concebido como realidade. Não assume tal texto o estatuto de ficção, não se quer como um “como se” que caracteriza, nos tempos modernos, a ficção literária. Ler a fábula como uma ficção tem sido erro que revela não só a incompreensão do que diz como a inércia do leitor em conseguir compreender a própria literatura.

Na base desta inércia se encontram a falta de rigor da leitura e a percepção de que todo texto – desde que passível de aceitação – faz bem ao leitor. Não faz. Muitas vezes o texto é pernicioso, pois faz com que o leitor reafirme seus conceitos preconcebidos sobre a sociedade de que faz parte. Daí a proliferação de textos – muitas vezes insossos – que abundam nas propagandas de incentivo à leitura infantil (e adulta, diga-se de passagem). É, na verdade, um vale tudo – desde que se finja ler, desde que se finja compreender o fenômeno humano. Tais leitores não conseguem sair do lugar em que se entronizaram.

A obra do escritor israelita tem o grande mérito de não tratar o texto (diria maltratar) como clichê. A inversão, que permite ao leitor olhar a si mesmo como produto da fabulação, desloca o sentimento de verdade cristalizado e funda a percepção do homem em um espaço no qual sobressai a diferença. Amós Oz mergulha seus leitores na angústia do acabado, da ausência de história. O que se conta no livro é o que nele se esconde. Os animais que, de repente, conduzidos pela exclusão, somem da vila e se escondem nas profundezas do bosque, vedado à presença humana, desconectam os sentidos usuais da fábula.

Com o sumiço dos animais perdem os homens a capacidade de efabulação. Invertidos os papéis, incapazes de sonhar, incapazes de se comunicar, resta aos homens esquecer o passado e não perpetuar o presente. Sem a noção do tempo, confundidos pela memória do que foi e não mais se encontra, perdem a capacidade de se compreenderem, restando-lhes a chacota, o destrato, os muros erguidos entre eles.

Com o sumiço dos animais perdem os homens seu espelho natural, que lhes diz ainda pertencer a este mundo. Abandonados por este espelho, vagam tristes e solitários pela vila.

O homem é um paradoxo. Misto de ser natural e cultural, pertence e não compreende a natureza, apenas a percebe pelo espelho do outro, pela ação não nomeadora do outro (na anti-fábula, os animais), por isso erige sistemas e regras para buscar compreendê-la. Toda compreensão é cultural, possui linguagem. Findado o espelho, resta ao homem sua cultura que, então, se transforma num código de conduta, num regramento absoluto que termina por travar toda possibilidade de humanidade.

Amós Oz percebe e sofre com o que enxerga: quando se busca apagar as diferenças, a alteridade das culturas, corre-se o perigo de viver cerceado pelas regras que apenas dizem de uma atitude totalitária que afasta a diferença e faz com que se apague o paradoxo de que falávamos acima. Resolvido o paradoxo pela afirmação ou primazia da cultura o homem estará morto.

Na anti-fábula tanto os animais perdem o espelho dos homens quanto os homens perdem o espelho da natureza. Um e outro radicalizam. Um e outro representam metaforicamente a morte.

O belo livro de Amós revela sobre o nosso tempo sua mais terrível face.

Depois de quase meio século de leituras, o que posso esperar de um livro? No mínimo que “o inesperado faça uma surpresa”. E caso você seja daqueles que percebe em tal expectativa doses de ingenuidade, fico aqui a lamentar o seu equívoco.

O inesperado tanto pode estar ao lado como distante, muito distante. Encontrá-lo vai depender do talento dos editores que no mais das vezes optam pela comodidade da compra dos best-sellers d’além mar. Exemplo: perceberam que de uns tempos pra cá o fato de escritor tal ser português já é o bastante para merecer status de “grande?” Mas aqui na minha biblioteca essa banda não toca, mas não toca mesmo! E pelo visto também não toca pros lados da Bertrand Brasil, editora que corre na contra-mão da mesmice e com conhecimento de causa, ela publica Camilo José Cela, voltou seu olhar para a Espanha e de lá trouxe o surpreendente “Maldita Morte”, de Fernando Royuela.

O inesperado em Maldita Morte surge na primeira frase, não há o menor desperdício nesse livro indispensável àqueles que ainda acreditam na literatura de qualidade e na necessidade que o homem tem de se emocionar. Parece exagero? Calma, tem mais, muito mais e se muito também aqui não direi é pensando em vocês, futuros leitores do livro, pois não quero privá-los das agradáveis surpresas que me assaltaram durante a leitura. Adianto apenas que o desfecho é obra de gênio. Duvido que vocês, chegando ao ponto final, não se sintam estimulados a recomeçar a leitura dessa grande obra literária.

O anão Gregório (também atende por Goyo, Goyto ou Gregori) é o protagonista, anfitrião e narrador. Ele acaba de receber uma visita em seus derradeiros dias. Goyo divide algumas semelhanças com o Jean-Baptiste Grenouille, desafortunado personagem principal de O Perfume, do alemão Patrick Suskind, aqui ressalto apenas a fascinação pelos perfumes, o fato de serem desprezados pelas respectivas mães e se Grenouille não tem cheiro, Goyo não passa de um anão deformado.

Antes porém de entrarmos na história propriamente dita, permita, caro leitor, breve exposição sobre o que caracteriza uma grande obra literária.

Ela obrigatoriamente precisa ser única, e, no caso, sequer a tradução a despoja dessa característica, outro aspecto é a capacidade de permitir um número incalculável de leituras, o que no entender de Umberto Eco a torna “aberta”.

Dito isso voltemos ao anão Gregório que cresceu (aqui mera força de expressão) vítima da maldade, do escárnio e da brutalidade, inclusive de seu irmão, Tranquilino, enquanto este viveu, “Um trem de carga levou-lhe pela frente a primogenitura”. Sua mãe acumulava funções em nome da sobrevivência e uma delas era a de prostituta. Como desgraça pouca é bobagem e provando que até o amor materno guarda lá suas limitações, Gregório acaba vendido ao dono de um circo que cumpria temporada na cidade. É justamente no circo que o anão gasta sua juventude expondo a bizarrice de sua condição em troca da mera garantia de sobrevivência. O circo também pode ser encarado como a metáfora da alienação que emana do capitalismo revelando o labirinto sombrio da sociedade, cada vez mais, de consumo.

Maldita Morte é o que se pode considerar um romance pós-moderno onde as fronteiras da ficção e História (a história recente da Espanha) são apagadas em nome de uma evolução ou superação do alcance da linguagem. Parece simples? Podem crer, não é. É necessário que de tal amálgama resulte uma totalidade forte e sensível o bastante, a ponto de ensejar a reflexão do leitor e que a união dialética entre o que se passa no seu âmago e o que reside fora do homem, não seja desprezada. Para tanto Fernando Royuela convocou um exército de personagens incomuns, complexos, capazes de desfiar humor e drama na medida exata. Caso me fosse perguntado sobre o objeto do romance não teria a menor dúvida em apontar a vida e sua mais talentosa coadjuvante, a liberdade.

Maldita Morte é um romance desprovido de amor, o máximo que se pode identificar seria a sua intenção, no mais, eflúvios do desejo carnal e piedade. Sendo assim, podemos então identificar uma trama sombria? Ainda não, as doses de crueldade e contradições aproximam o enredo de uma realidade bem mais cínica e que, mesmo assim, teimamos em não considerá-la sombria.

Gregório está longe de ser ou parecer um herói, o máximo que consegue é granjear a comiseração do leitor, só do leitor porque ao longo da trama não lhe é destinada a menor migalha de amor ou mesmo solidariedade. Quando algo parecido com essa dependência recíproca aparece, não é nada mais que uma simples troca de favores onde o mais frágil sempre acaba perdendo.

Ciente de sua precariedade e de seus limites, Gregório não precisa determinar o sentido de sua vida, a seu ver ele já está traçado, no entanto, embora apenas verbalmente, o anão tenta ser um homem livre e faz do cinismo sua arma mortal.

Com ele na bagagem chega a Madri nos estertores do regime franquista e logo consegue a proteção de um chefe de gang de mendigos em troca da delação de comunistas. E é justamente investido na função de espião que Goyo encontrará aquela que lhe abrirá as portas da redenção, ou da liberdade como preferirem.

O anão é um personagem dos mais complexos e suas ações, nunca desprovidas de uma ambigüidade e de uma lógica particular, provocam no leitor reações de amor e repulsa como a lembrar que no íntimo, bem lá no fundo, somos todos quase iguais, embora alguns esbanjem talento e criatividade.

Para concluir, caro leitor, Maldita Morte é um dos melhores, senão o melhor, lançamento do ano e fiquemos na expectativa de que a Bertrand não tarde em lançar os títulos de Royuela ainda inéditos por essas plagas.

Como Gregório usa e abusa do cinismo para se defender, convém lembrar que estamos na época mais cínica do ano e na dúvida do que presentear, o faça com um exemplar desse livro que também vale por uma aula de teoria literária. Em se tratando de função poética da linguagem há muito que se aprender.

Confesso que foi difícil, mas se consegui me controlar até aqui não seria agora que revelaria o magistral desenlace dessa história que não tem fim.

Maldita Morte. Bendita Literatura!


Trechos

“Ao longo da minha vida conheci uma infinidade de filhos-da-puta e a nenhum desejei uma morte ruim. Com você não vou fazer uma exceção. O ser humano perdura pelo mundo sem se dar conta da tragédia que o aguarda. Uns inventam deuses para remediar a angústia, outros, ao contrário, atendem ao imediatismo do prazer para afugentar o inevitável, mas todos no final são medidos pela rigorosa igualdade da extinção. Eu já estava advertido do fim, mas jamais pensei que fosse acontecer dessa maneira.
Sei a que veio, mas não importa. Nunca até agora tinha me enfrentado com a certeza de deixar de existir, e por isso sua presença, antes de me atemorizar, deprecia-me. Agora compreendo que minha existência tenha estado encaminhada desde o princípio para nosso encontro; que meus passos estivessem condenados até este instante, que não me fosse possível escapar ao meu destino por mais que pretendesse absurdamente, que ninguém, nem sequer os entes queridos, jamais irão chorar minha perda. Sei que você veio para se regozijar com o espetáculo de minha morte, constatei-o na ferrugem dos seus olhos, no limo de sua curiosidade, mas já não temo a inexistência.”

“’Merda de vida’, exclamou o ex-presidiário quando terminou com o prato, ‘uns buscando um amo a quem servir sem pensar e outros em busca da liberdade para poder pensar e não servir’. Aquelas palavras tiveram o efeito de sacudir minha inteligência como um choque de honradez e por elas me apercebi de que na espécie humana, embora totalmente inútil, podia haver também um fio de grandeza que transcendia a mera subsistência cotidiana; um desejo impossível por encontrar a localização da justiça e atém mesmo por praticá-la, uma vontade não cultivada de socorrer os semelhantes sob o lema de igualdade e fraternidade, que em virtude de complexos passes de mágica não desaguavam em proveito próprio. Acaba de descobrir o franciscanismo laico dos marxistas, um pensamento belo e impossível que logo haveria de mudar novamente o curso de minha existência e impulsioná-la, como se ainda fosse possível, pelos terrenos da demagogia, da farsa e do interesse.”

Histórias populares, no mundo inteiro, são sempre maniqueístas, variações de lutas entre um bem e um mal, moralidades rígidas por um lado mas suficientemente elásticas por outro para incluir mau-caratismos e espertezas várias quando se trata de um “fraco” vencer um “forte”.

E aí vem o Brasil, a capoeira e a literatura de cordel, e o bem e o mal começam a negociar.

cordel - Histórias e Bravuras de Besouro cordel - Mestre Camisa 50 anos de lutas e vitórias cordel - Zumbi & Bimba símbolos da resistência Afro Brasileira cordel - O encontro de Luiz Gonzaga com Mestre Waldemar no céu

No cordel de apresentação de seu personagem, Lobisomem, o capoerista e cordelista Victor Alvim Itahim Garcia, do grupo Abadá Capoeira, diz a respeito de si mesmo: ninguém lá é perfeito. Ele lê este verso e começa a jogar sua capoeira dançada, uma negociação entre investidas e defesas. Mais (ou menos) do que uma luta, uma longa conversa de pernas e pés com seu oponente-parceiro.

Dele também, os versos de abertura do cordel Zumbi & Bimba:

É claro que não podemos
Nunca generalizar
A minha intenção não é
De querer polemizar
Pois todos têm liberdade
Pra sua versão contar

Ou, no cordel em que ele homenageia Mestre Camisa, fundador do grupo:

Como todo ser humano
Muitos defeitos tem
Como ninguém é perfeito
Ele erra muito também
Mas a sua intenção
É sempre fazer o bem

Lobisomem em evento de lançamento de cordel - fotografia de Roberto Lehmann É uma distância grande em relação a, por exemplo, os contos de fada originados na Europa, onde um desfile de fracos-bons e fortes-ruins têm, depois de várias crueldades de parte a parte, seu destino modificado graças à intervenção sobrenatural. Ou aos contos hollywoodianos contemporâneos, que seguem o mesmo molde.

Relatos populares têm finalidades precisas. São ensinamentos de sobrevivência e resistência para situações limites e, dentro dessa estratégia, são também instrumentos de integração universalistas. Neles, personagens locais se ligam a arquétipos universais e o indivíduo, eivado de estereótipos psicológicos e sociais – heróis, cenários específicos como encruzilhadas ou estradas, e um tempo colocado em um passado distante ou, no caso hollywoodiano um futuro igualmente distante – se transforma em um ator que exerce sua subjetividade como em um teatro. O problema é que tal linguagem anuncia a crítica e ao mesmo tempo a cancela. Ao se tornar uma encenação que se repete, mesmo se variando detalhes do rito, o relato mostrará uma crítica não mais sobre o poder que oprime o grupo social naquele momento, mas a partir de um poder, o do mito.

O que o sotaque brasileiro traz de interessante é que, ao tornar falível o bem e palatável o mal, não abre espaço para o conceito de que haja algo perfeito de antemão, algo que nós, humanos, devemos nos esforçar para alcançar e uma vez lá, não mais modificar. Sem perfeição à mão, entra obrigatoriamente a negociação.

Viva nóis.

Lobisomem em evento de lançamento de cordel - fotografia de Roberto Lehmann Lobisomem em evento de lançamento de cordel - fotografia de Roberto Lehmann Lobisomem em evento de lançamento de cordel - fotografia de Roberto Lehmann

Segunda-feira, 07 de maio de 2007. Trinta atores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas, caracterizados de padres, monges, árabes, wiccas, mães de santo etc. percorreram toda a Avenida Ataulfo de Paiva, Leblon, Rio de Janeiro. O grupo partiu às 17h30 da esquina da rua Afrânio de Mello Franco até o canal da Visconde de Albuquerque, e, às 19h30, se concentrou em frente à Livraria Letras & Expressões. Ali encenaram um ato dramático de congregação múltipla das crenças em caráter holístico e musical.

Em seguida, ativistas do movimento poético da cidade juntaram-se ao ato. Poetas como Cairo Trindade, Rosália Milstajn, Pablo Mobellan, Mariana Dias e o grupo Trio Los Três deram início ao que os organizadores do evento decidiram nomear “primeiro sarau de poesia mística do Leblon”.

Motivo de toda esta badalação: o lançamento do livro Os dois Prados, de Lucho Apoelo, pela editora Antigo Leblon.

Acompanhe a seguir entrevista com o poeta e editor Érico Braga Barbosa Lima, coordenador do evento:

O EVENTO

A – Como foi a experiência de coordenar um evento de teatro itinerante em plena hora do rush, numa das ruas mais movimentadas do Leblon. É possível avaliar a recepção do público que circulava naquele momento?

EB - É possível descrever a reação do público. Se podemos arriscar uma simplificação, diria que foi um misto de surpresa genuína com ceticismo treinado. As pessoas estão acostumadas a ver tudo na televisão, mas não estão habituadas a ver as coisas fora da televisão. Tentavam racionalizar (e na maioria das vezes a racionalização – poderia dizer a ‘anestesia’ – acabava por vencer), mas não conseguiam afastar dos próprios rostos o olhar de incredulidade. Uma equipe de cinematografistas convidada para registrar o evento capturou as expressões, nuanças e a evolução das reações, material que (ajuntado a mais registros) pretendemos transformar posteriormente em documentário. Como vários dos esquetes são extraordinariamente interativos – em um deles todos os trinta atores param para rir durante um bom tempo de um transeunte escolhido ao acaso –, vale a pena conferir os resultados e verificar, conforme a observação do psicanalista Carlos Mário Alvarez, que acompanhou a ‘passeata’, como a maioria das pessoas ‘está distante de tudo’, principalmente ‘delas mesmas’. Foi um laboratório excepcional. Em todos os aspectos.
O trabalho de coordenação do ‘espetáculo’ (se podemos chamá-lo assim) ficou a cargo do diretor Cláudio Filiciano, que se empenhou na elaboração e acompanhamento das ‘coreografias’, do trabalho de corpo, do tratamento de figurino e das atuações pontuais.
Foi um belo exercício de coordenação (essa é a melhor palavra), pois foram duas horas de ‘peregrinação’ com uma equipe (entre artistas, distribuidores de panfletos, fotógrafos, câmeras de filmagem e assessores) de quase cinqüenta pessoas. E isso era só a primeira etapa da noite.

Para ver os registros, você pode acessar o youtube (há pelo menos 10 vídeos que pudemos disponibilizar de antemão) ou ir diretamente ao site do Lucho Apoelo (www.luchoapoelo.com.br) e visitar a seção de eventos. Estão todos lá.

A – E o trabalho com os atores, houve algum tipo de ensaio ou preparação, como se deu a construção dos personagens? Qual foi a estratégia dramática para que o tema fosse desenvolvido durante a atuação?

EB – Todo o trabalho foi montado em cima do conhecimento prévio que o público tem das manifestações religiosas das mais variadas (trajes, cerimoniais, comportamento, linguagem etc.). O trabalho com ‘tipos’ é calcado no imaginário popular, mas contamos, também, com o olhar antropológico de cada ator e sua contribuição personalizada. Como se tratava de uma produção de baixíssimo custo, não podíamos recorrer à criação de figurino — ele foi adaptado a partir do que havia disponível (cada ator e também das peças anteriores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas) e refinado pelos cuidados particulares dos atores. A ‘protestante’ (crente) ficou absolutamente impecável, e era de vê-la em todos os detalhes (do discurso à saia) convertendo os seguranças do Restaurante Diagonal, com as palavras de Lucho Apoelo. E isso é outro detalhe importante. Você perguntava sobre tema. Na verdade, foram trabalhados os textos de “Os dois Prados”. Foram compiladas 70 falas (máximas ou parágrafos que expressassem uma idéia, um conceito ou uma moral) e distribuídas entre os atores, que as incorporaram e as adaptaram às personalidade e trejeitos da personagem. E é curioso observar – de fato – como a fala místico-religiosa convém perfeitamente a todas as religiões embora elas se reputem diferentes e mormente se refutem. Em outras palavras: uma mesma máxima cabia ao maometano, ao judeu, ao crente, ao padre católico, à cigana e a todos eles, no momento do recitar, pareça que tinha sido baixada naquele mesmo momento como uma inspiração divina de seu próprio e íntimo (único) Deus.

Há que se louvar o trabalho do Cláudio Filiciano, o apoio de Najla Raja, e a disposição (pois foi uma ‘puxada’ física de lascar qualquer um) dos atores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas (terceira idade). Foram perfeitos do começo ao fim – em dedicação, concentração, ritmo e resultados. Para o número reduzido de ensaios de que dispusemos, a capacidade de adaptação e improviso compensou (e sobrou) qualquer desvio do planejamento original.

A – E o recital poético, como foi preparado?

EB – Aproveitando o fato de termos à disposição atores, convidados poetas e uma casa (A livraria Letras & Expressões do Leblon) afeita a saraus e movimentos artísticos, especulou-se a possibilidade de se congregar à atividade de lançamento e da manifestação dramática, uma atividade poética. Nada mais natural. Acabaria acontecendo de qualquer forma. Procedemos, então, à produção. O que se fez, em resultados, foi consagrar a realização do Festival de Poesia mística Apoelística do Leblon, quando conclamamos os poetas convidados e presentes a compartilhar poemas de cunho místico, religioso e/ou espiritual. O cartaz segue em anexo, mas vale destacar os seguintes nomes: Mariana Dias, Ângela Carrocino, Trio Los três, Cairo Trindade, Denisis Trindade, Antonio Gutman, Reynaldo Sancjhes, Rosalia Milstajn, Rosa Born, Marcos Chrispin, Mônica Montone, Pablo Mobelan e Ricardo Oiticica (e do apoio do Poesia Simplesmente), que abrilhantaram a festa com sua participação. Óbvio que, pela quantidade de nomes, dá para se ter uma idéia de que a noite foi longa. Alguns desses poemas serão logo-logo publicados no site do Lucho Apoelo.

A EDITORA E O LANÇAMENTO

A – Há quanto tempo vocês estão no mercado e quais são as linhas editoriais da Antigo Leblon?

EB – Ainda que recente a constituição da empresa (5/04/2004), seus dois sócios militam na atividade literária há bastante tempo. São um escritor e um professor universitário com doutorado em Literatura brasileira, o que determina a inclinação ideológica pela valorização cultural da produção — e a diferencia a sociedade da maioria das editoras do País, para as quais o viés comercial é fator preponderante na seleção dos trabalhos que publicam.

A empresa tem um histórico curto e um ideário que alguns desavisados poderiam chamar de romântico e utopista, mas é inegável que tem atração pela cultura, pela qualidade literária e pelo nível de excelência, o que torna suas obras boas na medida em que nascem por necessidade e não por promessa de recompensa.

A – Você crê que o evento teve uma repercussão por si, ou funcionou como estratégia para o lançamento do livro?

EB – É difícil avaliar a repercussão de qualquer acontecimento na rua, se ela não sai nos noticiários ou na televisão. Este é o parâmetro atual prioritário de aquilatação de sucesso — o outro é o lucro. No primeiro caso, faz-se alarde, no segundo, fica-se na encolha. Nos dois casos, todos mentem, não importa quais sejam os resultados (nunca o saberemos: quem ganha dinheiro não precisa dizer, quem faz sucesso, idem). Antigamente as pessoas andavam nas ruas, brincavam nas ruas, trocavam histórias nas ruas. O que percebemos, nós da produção, os artistas e os convidados (a platéia itinerante e aqueles que seguiriam para o lançamento) é que enquanto andávamos, brincávamos e trocávamos histórias, as pessoas corriam para casa para assistir o jornal. O Leblon morreu. Hoje ele é manjedoura chique para a seguinte zoologia de turistas: aristocratas recém-domiciliados, falsos boêmios e aspirantes a intelectuais. Isso não é pessimismo: é a verdade. Por isso, posso lhe dizer o seguinte. Sim, houve repercussão intramuros, comentou-se muito entre comunidades (isoladas) de amigos. Houve muito contato pela Internet (que ironia!) e principalmente depois que viram os vídeos no youtube (mais ironia ainda!). Houve muitos entusiasmados que fizeram questão de repetir e repetir que a cidade estava precisando de coisas assim. Um deles disse que precisávamos de manifestações “espontâneas” desse tipo. Repare: se chegamos ao ponto de considerarmos coordenar trinta atores criteriosamente fantasiados e ensaiados uma manifestação “espontânea” é sinal de que as coisas vão muito mal e subconscientemente sabemos o quanto estamos sendo manipulados a cada segundo pelas instituições que nos assistem.

A – Eventos dessa natureza, que ultrapassam as portas fechadas das livrarias ou dos teatros, sobretudo os relacionados ao lançamento de um livro, não são muito freqüentes. Neste caso, a opção deveu-se a um diferencial na estratégia promocional da editora Antigo Leblon, ou foi uma opção estritamente relacionada com o livro lançado?

EB – Alguma coisa eu já respondi acima, portanto, aproveito para complementar as informações e os conceitos. No caso de Lucho Apoelo, especificamente, algo mais precisava ser feito, para além da publicação de ‘Os Dois Prados’, o que por si só já é um feito importantíssimo.

O que havia sido pensado inicialmente como estratégia editorial (havíamos planejado trabalhar com cinco atores, mas acabamos contando com a adesão voluntária de toda a companhia) acabou virando uma atuação desafiadora – até certo ponto romântica – característica a que Editora e as pessoas que atuam próxima a ela são mais do que afeitas.
Uma resposta a uma pergunta que você não fez: óbvio que foi válido. E os resultados totais estão ainda longe de terem sido aferidos.

O LIVRO

A – Fale-nos de Lucho Apoelo, como vocês o descobriram?

EB – Fomos inicialmente sondados por um representante de uma associação que insiste em permanecer no anonimato e atende pela misteriosa sigla CLA (Confraria Lucho Apoelo). Embora reticentes, a princípio, fomos seduzidos imediatamente pela história, pela fartura do material, pelas possibilidades de sucesso e, principalmente, pela qualidade literária, coisa raríssima nesse gênero. A CLA nos forneceu cópias digitalizadas do acervo apoelístico: biografia, “Os Dois Prados”, um diário e alguns documentos esparsos. Todos eles interessantíssimos. Criação de uma mente fantasiosa ou personalidade inusitada, a pessoa de Lucho Apoelo é extremamente sedutora, pelo que de anárquico e desmistificador ele traz consigo, justamente o que se poderia julgar o antípoda do místico, normalmente um doutrinário, um moralista caturro, e com pirilampos e símbolos de artifício. E justamente esse advogado do diabo era o predecessor de toda horda mística contemporânea?!… Era bom demais para ser verdade. Óbvio que concordamos imediatamente em trazer a lume o primeiro (e talvez o mais importante) dos documentos que nos disponibilizaram. Aproveitamos e desenvolvemos uma campanha de marketing condizente com o nível de produção inicial que nos propuseram.

A – E a primeira edição de Os dois prados, de quando é, como vocês tiveram acesso a ela?

EB – A história de “Os dois prados” é extremamente interessante. Segundo as cópias dos registros, que tivemos em mãos para compilação dos dados (fornecido pela CLA), só há um único exemplar remanescente e os demais foram recolhidos e destruídos. Embora nunca tivesse redigido uma simples sentença (era um orador extraordinário e se negava a registrar o que segundo ele só podia existir dramaticamente) seus ensinamentos foram cuidadosamente transcritos por um de seus seguidores, responsável por um documento que se tornou o único e confiável evangelho da doutrina disseminada. Essas anotações teriam sido publicadas por um editor de livros científicos, em tiragem de 119 exemplares.
O material abrange, ainda, a análise de um diário mantido por outro seguidor (sem marca de autoria). Tudo isso foi, há mais de cinqüenta anos, lacrado em baú de liga de platina, sugerindo a intenção de preservar o rico acervo para posterior apreciação por parte de estudiosos munidos de recursos capazes de interpretar pelo modo mais apropriado as mensagens que continha. O cuidado com a conservação e os apetrechos utilizados mostram o alto poder aquisitivo do guardião da relíquia. É, também, indício expressivo do perfil dos integrantes do segmento social que buscava sua orientação. Muitos de seus seguidores foram notáveis representantes da aristocracia carioca. Do exame do diário, foi possível constatar que as unidades distribuídas desapareceram das estantes dos livreiros um mês, apenas, após consignadas. Há indicações de que a sede da editora responsável pela primeira e modesta tiragem situava-se nas proximidades da Praça Tiradentes, em sobrado junto àquele onde funcionou, mais tarde, a Estudantina.

Para alavancar uma nova arrancada na estratégia de marketing do nome Lucho Apoelo, estuda-se a publicação, em meados de 2008, do “diário” e uma análise das “notas”. Estão sendo feitas sondagens com alguns escritores para a elaboração da ‘biografia apoelística’. Este é um projeto para início de 2009

A – Tentando relacionar o ato dramático com o livro, será que o evento teatral itinerante, uma proposta meio carnavalizada, está à altura da seriedade esotérica e mística do autor?

EB – Segundo as informações biográficas disponíveis, era o próprio Lucho Apoelo um caminhante, um itinerante e afeito a enigmas (e a mascaradas). Seus encontros eram em locais variados e, muitas vezes, a peregrinação se convertia em uma espécie de caça ao tesouro, em que se sucediam os mapas e charadas para que conseguisse localizar o próximo ponto geográfico, com a próxima charada. No final da noite, ficavam os claudicantes discípulos surpresos em verificar que o aprendizado estava todo ali, no percurso. Não ficava ele séria e concentradamente contabilizando deuses, frases e duendes que emergissem de uma Remington 20. Era o próprio Lucho que ia à frente de seus amigos, seguidores e curiosos, pelas noites, pelos desvãos da cidade, desmistificando os seres imaginários que o ser humano insiste em materializar, com perda da inteligência literária e do poder criador da metáfora.

E há que se fazer uma distinção bem clara entre o “sério” e o “grave”. O ‘grave’, na maioria das vezes é uma pobre alma vulnerável que se esconde atrás da erudição ou da voz grossa ou de um moralismo ou doutrina quaisquer. A seriedade prescinde dessas artificialidades. Até se utiliza, sim, do humor, para desarraigar algumas tiriricas levianas ou falsos conceitos que se agarram à objetividade e à verdade.

Em uma de suas passagens biográficas (aqui, em várias acepções, do ‘anedotário’), conta-se que certa noite, esperaram vários visitantes durante horas que chegasse o ‘mago’. Como se não tivesse notícia (e o que chegava era o dia), foram indo embora, aos poucos, muito contrariados e até enfurecidos, depois de muita falação, um por um, até que o penúltimo que se ia, perguntou ao último, se ele não ia também embora. O rapaz-senhor (não era possível adivinhar a idade), de chapéu coco e terno impecável respondeu que agora já podia ir embora, pois já tinha aprendido o que faltava aprender. Era o próprio Lucho Apoelo, o primeiro a chegar, trajando roupa de época, de senhor respeitável, e que não havia sido reconhecido. Todos esperavam um ‘mago’, pelas vestimentas exóticas, pelo que pudesse ser conferido à vista. Ali o ensinamento foi de que tudo é fantasia, que se prende ao corpo e nos prende ao chão da sociedade.

A partir de então (conta-se) ia-se aos encontros como melhor lhes aprouvesse, e passaram a distinguir o ‘mestre’ pela fisionomia, pela conduta, pelas palavras. Passaram, inclusive, os discípulos, a sair com os trajes que lhe cismassem, no momento. Eram permitidas as fantasias, como expressão de sentimento e circunstância e até vistas com graça (e só por isso). A representação de textos fictícios criados pelos próprios ouvintes e dramatização de improviso eram vistos como manifestação de estado de espírito. Ele já tinha uma perspectiva interativa e lúdica e construtivista, naquela época, para muito além do estilo pergunta-resposta tradicionais. E era tudo entendido como forma… Forma, mas com algum objetivo.

A carnavalização é um ‘respiro’, e também fazia parte das experiências apoelísticas. Mas a prova mais cabal da real seriedade do autor é justamente essa representação carnavalizada que se promoveu e fez registro (e isso já foi comentado logo no início): nenhum dos seus textos, pela voz de atores maometanos vestidos de católicos, crentes vestidos de bruxos, judeus vestidos de ciganos, nenhum de seus textos em nenhum momento perdeu o seu tom de verdade.

A – Finalmente, Érico, como você avalia o resultado da iniciativa neste primeiro mês de lançamento?

EB – Este primeiro mês de lançamento teve seus escopos alcançados plenamente. Realização da dramatização peripatética, seu registro para youtube e para o posterior documentário, o lançamento e a vendagem esperada, a produção do sarau com a participação de vinte poetas que abraçaram o movimento — e são naturalmente propagadores e divulgadores do autor. E, principalmente, o início de uma movimentação necessária para, entre outras coisas, nos lembrarmos de que as pessoas existem sempre antes e também para além dos livros. Se elas não voltarem a se encontrar, conversar, reaprender a julgar as coisas e compartilhar suas impressões judicativas com seus cúmplices afetivos e intelectuais, se não voltarem a olhar as coisas, a vida, os fatos com os seus próprios olhos, estarão fadados a persistir nos mesmos atos falhos de que se aproveita fartamente a publicidade ostensiva hodierna e, em menos de dez anos estarão comprando instrução de sabão em pó OMO como se fosse poesia.

A editora Dantes colocou no mercado Fogo nas entranhas, a estréia de Pedro Almodóvar na literatura. O livro, que é de 1981, conta a história de Ming, um chinês milionário e cheio de mulheres que enriqueceu fabricando absorventes femininos. A história tem todo tipo de reviravolta mirabolante no melhor estilo do diretor, adaptadas para as liberdades da estrutura literária. Por exemplo, um casal que é separado em uma enxurrada, com direito a mão para o alto acenando e olhar perdido no infinito, aquele melodrama cômico que os fãs já estão acostumados.

Fogo nas entranhas mostra um Almodóvar mais distante da realidade, exagerando sua fórmula de tragédias, crises amorosas e assassinatos. Sem pudores, ele propõe um cenário de revolução sexual acidental, com todos os instintos humanos sucumbindo ao sexo. Eu explico.

Ming, cansado de ser traído e de fracassar com as mulheres, acaba morrendo. Antes, porém, termina a sua maior criação, o absorvente feminino perfeito (perfeito para a vingança dele). No dia do enterro, as amantes se reúnem de olho na fortuna de Ming e descobrem que o magnata deixou o dinheiro para elas, contrariando expectativas, já que elas são verdadeiras pistoleiras. Para que recebam a fortuna, ele impõe uma condição: elas devem experimentar o produto. Ali, no meio do enterro, cada uma dá o seu jeitinho e coloca o absorvente. O que elas não sabem, é que ele possui uma substância que resseca a mulher por dentro, deixando-a como uma espécie de lixa que torturará os futuros amantes desavisados. Para piorar a situação, o absorvente desperta um desejo sexual avassalador, que causa uma verdadeira caçada por homens, revoltas, destruição e até orgias nas igrejas. O caos e a comédia deliberados.

“Lupe também tinha mergulhado em tudo quanto é tipo de drogas. Quando parecia estar completamente perdida, foi salva por uma dessas religiões de vertente satânica, da qual também acabou se livrando. Tamanho turbilhão existencial serviu para que ela descobrisse que era lésbica. Teve muitos rolos com mulheres. Nos últimos tempos morava em Madrid, apaixonada por uma moça que preferia homens”.

O livro é rico em personagens, todos com função cômica, que aparecem e desaparecem sem muita lógica. O que importa é fazer rir. Se Almodóvar quer acelerar a trama e dar um ar de espionagem, entram tradutores nerds de chinês. Se quer começar uma guerra, coloca as mulheres armadas até os dentes atirando para todo lado. A estrutura é assim, livre, sem pensar nas amarras e nas conseqüências. Pode estar muito distante do que chamamos de literatura, mas funciona bem como pocket, leitura de metrô. Um presente extra para dar junto com o acessório que você comprou no sex shop. Se não fosse de Almodóvar, muito menos leitores saberiam de sua existência. Mas não é esse o caso. O livro se mantém desde o lançamento como sucesso de vendas da Dantes editora.

“Máximo Gómez decidiu estudar aquela língua porque queria ser original. Nada nele chamava a atenção. Saber chinês iria, pelo menos, permitir que fosse diferente dos outros”.

Dorival Caymmi prima pela simplicidade de suas composições. Os versos enxutos, acompanhados de um ritmo exato, são exemplo para muitos que escrevem. Qualidade do escrever é ser, além de preciso, sobretudo, significativo. Qualidade que sobra em Caymmi. O significativo não é, entretanto, dizer o que seja passível de entendimento imediato, fosse assim, a música não criaria comunicação. O que se está entendendo como significativo é exatamente o oposto do imediato processo de comunicação que o cotidiano nos oferece. Significativo aqui significa um ir além da comunicação, uma interseção de sentidos que resultem em algo novo. O ato criador, ao superpor dois ou mais sentidos, criando sentidos outros, transforma-se em invenção.

As canções de Caymmi – sejam elas as que expressam o ritmo, a paisagem humana e física, sejam as que fazem comentários acerca do cotidiano – são sempre exatas. Dizem o que dizem, sem uma vírgula a mais ou a menos. A belíssima Maricotinha, gravada por Maria Bethânia recentemente, pode ser tomada como um dos inumeráveis exemplos do cancioneiro Caymminiano. O que nos diz a música é simples. “Se fizer bom tempo, eu vou, mas, se por acaso chover, não vou”. O que a música diz é só isso, essa economia fundamental que força o ouvinte/leitor a ilações, percepções e recepções as mais interessantes. O que a música não diz, dizendo, é toda uma percepção sociológica do brasileiro, permitida pela ilação que se pode fazer a partir das pausas musicais que sublinham e alinham os versos e o canto.

Compare-se, ao acaso, com a pintura. Uma pessoa, ao observar um quadro qualquer, pode dar-se conta do processo de composição que levou à composição final do quadro e à ilusão que ele provoca. Raramente observam-se as cores, os substratos que levaram tal quadro a ser tal quadro e não outro e a ele emprestam-se significados retirados imediatamente da realidade. Os retirantes de Portinari sofrem essa interpretação, o sorriso enigmático de Gioconda também a sofre.

Ouvir Caymmi, observar um bom quadro, ler um bom livro requer uma outra atitude. Uma atitude crítica, instauradora, na qual um dos agentes do processo – o leitor/ouvinte/observador – deve participar da composição dos significados. Cabe ao ouvinte ouvir, mas não apenas ouvir. Ao ouvinte cabe perceber os significados ocultados pela maestria do compositor. Isso se pode fazer com qualquer composição, com qualquer quadro, qualquer livro. Entretanto, há aqueles que não obrigam o receptor a este exercício de interpretação, são tão evidentes que nada resta deles para dizer, como há outros que inquietam o receptor e subvertem o sentido imediato da comunicação, para tornarem-se invenção. Não há nestes uma imprecisão sequer, mas que, por serem tão precisos, exigem do receptor a ativação do que nessa precisão se esconde.

A música de Caymmi, incrustada na sensibilidade do ouvinte brasileiro – por pertencer ao cancioneiro que se domina desde que se nasce, por assim dizer – é um caso raro em que a expressão do popular se alia à maestria da invenção da arte. Caymmi captou e expôs, nas possibilidades da arte, do périplo sempre inquieto e inconstante, que é o motivo pelo qual a arte se faz, a capacidade de dizer as complexidades humanas, com o mínimo de expressão e o máximo de simplicidade, no que elas possuem de mais intenso.

Ao colocar nos aparelhos que tocam música – são tantos hoje em dia – o cancioneiro de Dorival, o ouvinte não só reconhecerá a si mesmo como descobrirá em si mesmo outros que ainda não havia percebido ser.

Ungaretti

Para Lucia Leão

O poeta italiano escreveu um dos poemas mais emblemáticos de toda a literatura ocidental. Mattina. Dele conheço duas traduções para o português, a de Sérgio Wax e a de Haroldo de Campos.

O poema de Ungaretti:

Mattina

M’illumino
d’immenso

A tradução de Sérgio Wax:

Manhã

Ilumino-me
de imenso

A tradução de Haroldo de Campos:

Manhã

Deslumbro-me
de imenso

A transcrição das duas traduções não tem o desejo da comparação. Entre iluminar-se e deslumbrar-se há pouca, mas séria divergência. Nos dois verbos a noção de luz, contida no original, se mantém intacta. Lume é ressonância sonora e semântica tanto em iluminar quanto em deslumbrar. O que, por hora, diferencia as duas traduções é o acento tônico no fonema nasal da tradução de Haroldo. A adequação que o poeta brasileiro constrói em relação ao acento em italiano é significativa e não mero capricho, pois o sentido de deslumbrar-se afirma uma interpretação do poema praticada pela tradução.

Percebe-se que a interferência semântica constrói de modo claro uma percepção do sujeito em relação à manhã, que ativa o deslumbramento do qual a vítima é o eu-lírico, reforçada, de resto, pela primeira pessoa e pela reflexibilidade do verbo. Deslumbrar-se a si mesmo – iluminar-se a si mesmo – traz ao poema uma ação que está contida no sujeito, que é capaz de iluminar-se/deslumbrar-se a partir da luz jorrada pela manhã. Desta forma, tanto é impressionado pela luz da manhã quanto em si mesmo percebe esta impressão e a empresta à manhã, criando um jogo de duplicidade semântica e de perceptiva. Não se pode afirmar que o sujeito determina o real ou é por ele determinado.

Se a escolha semântica e fonética de Haroldo de Campos reflete esta duplicidade com maior fidedignidade, interpreta o poema. Há quem prefira as brumas do original, mantida na tradução de Sérgio Wax, há quem prefira a aproximação de Haroldo. As preferências estão a cargo de cada leitor, o que não está na escolha do leitor é justamente a fundação do real promovida pelo poema; esta não se pode deixar de ler e é a partir dela que se vai perceber que o poema é um poema, na sua mínima inscrição e, por isso, exemplar de toda e qualquer poesia.

Ao lermos o deslumbramento do sujeito/manhã, da manhã/sujeito as diferenças entre o que se percebe da manhã e o que da manhã se faz perceber desaparecem, tornam-se unas. Nesta unidade reside a percepção do todo, do que não era e passou a ser – integração e movimento (sugerido pela sonoridade do poema) no qual o homem se torna natureza e a natureza se humaniza. A indivisibilidade do sujeito e do objeto, criada pelo poema, nos faz perceber de imediato – antes de qualquer raciocínio – a impossibilidade de falar sobre a vida, senão através do fazer poético. Por isso a poesia é algo mais que o discurso sobre o mundo, é sua própria instauração.

Uma boa solução para quem acha que os livros estão caros é pesquisar os pockets nacionais. L&PM, Martin Claret e a Cia. das Letras têm abastecido o mercado com gêneros, autores, épocas e estilos variados, que possuem a vantagem de não pesar nem na bolsa nem no bolso.

A garota de Cassidy (lançado aqui pela L&PM) foi escrito em 1951 por David Goodis e, segundo a contracapa, é um romance noir sobre o amor e a sordidez.

O livro conta a história de Cassidy, um motorista de ônibus totalmente bêbado e fracassado que mantém uma relação conturbada com Mildred, uma linda mulher de caráter duvidoso. Cassidy chega em casa e percebe que Mildred deu uma festa na sua ausência, e que seus amigos, para variar, quebraram tudo, sujaram a cozinha e comeram sua comida. Para deixar claro que esse é um relacionamento diferente, David Goodis emenda em uma briga de tirar sangue e fazer a mobília voar. Depois da pancadaria e do estranho ritual de reconciliação, Mildred lembra ao “marido” que deu a festa porque estava fazendo aniversário, sai de casa e vai para o bar.

É um começo desnorteador que deixa o leitor sem saber em que terreno está pisando e o que pode encontrar pela frente. Um artifício inteligente por motivar o leitor e equivocado por criar expectativas que não consegue cumprir.

Cassidy, obviamente, decide afogar as mágoas no mesmo bar. Lá, somos apresentados aos amigos de Cassidy que não gostam de Mildred, o dono do bar e bêbados em geral Entre eles, destacam-se Haney, um sujeito com grana que é apaixonado por Mildred, e Doris, uma espécie de coma alcoólico ambulante, em quem Cassidy vê um anjo perdido na terra.

O desenrolar desse quadrado move a história até o fim, sem nada de muito interessante. No meio do livro, David Goodis faz uma virada de trama tão sem sentido que é difícil não se perguntar o que ele bebeu antes de escrever. Nem mesmo o passado misterioso de Cassidy consegue compensar os vazios narrativos.

Pontos positivos:

Assim como os personagens, o leitor nunca sabe quais provocações são reais e quais fazem parte do jogo amoroso do casal. O amor e o ódio convivem mais próximos do que de costume.

Doris é uma personagem bem diferente dos arquétipos convencionais, totalmente enamorada do uísque e apática para a vida.

Pontos negativos:

Apesar de a escrita fluir bem, o livro passa longe da atmosfera densa que consagrou o noir.

A trama é vaga demais e os personagens não evoluem psicológicamente, terminando do mesmo jeito que começaram. É a típica diversão passageira, recomendada para quem acha que existe um poço mais fundo do que o retratado por Bukowski.

David Goodis nasceu na Filadélfia e chegou a ter algum reconhecimento em vida. A fama veio mesmo após a morte em 1967. Atire no pianista foi adaptado para o cinema por ninguém menos que François Truffaut.

Dicionário de pequenas solidões é uma coleção de contos de Ronaldo Cagiano. O material, como explica a nota de edição, é édito e já foi publicado em livros anteriores: Concerto para arranha-céus e Dezembro indigesto, mas passou por algumas modificações. Cagiano, que é mineiro, já transitou pela poesia e trouxe um resquício poético para seu trabalho, apesar de não se apropriar do ritmo lírico. Seu dicionário trata de um sentimento universal. A solidão é democrática e atinge a todos, por outro lado não pode ser confinada a definições, já que é deveras pessoal e os mecanismos que a despertam variam de indivíduo para indivíduo. Ela pode despertar de uma fala, do ruído do mar, um olhar atravessado no meio da rua, da cena da morte no valão da estrada, elementos bem aproveitados pelo autor. Aliás, nada mais solitário do que andar em meio às multidões, e os personagens desse Dicionário possuem um mundo inteiro de figurantes ao redor do seu universo particular.

Ciente dessa amplitude, Cagiano aborda o sentimento de focos diferentes. Há abuso sexual, festas em família, o isolamento da cultura, entremeados de classes sociais.

Em Solidão, acompanhamos Rosalía e seu dia a dia de mulher da vida, as nuances de falsa moral da sociedade que deslocam a personagem para a margem, mesmo que ela sirva de centro para muitas pessoas. Quem já passou por isso sabe o quanto dói. Todos sabem de você, mas fingem que não. Ser você só para si e para os demais, um outro.

“Todo mundo sabia que ela se engraçava com o português do armazém. Não havia dia de chuva ou sol que não passasse em frente ao Empório do Alentejo e jogasse seu charme, seus olhares enviesados, ou um veneno, se visse dona Hormenzinda no balcão. A velha tinha desconfiança, mas nunca deu flagrante. Nunca”.

Há também a solidão da idade, de um distanciamento (i)natural de quem estaciona em um ponto do tempo e recusa-se a girar com o resto do planeta. A solidão nem sempre é imposta pelo externo, pode vir de dentro como opção ou conseqüência de decisões cotidianas (nem sempre claras, apesar de constantes). Essa fuga simbólica do futuro é mais evidente no conto Pavlov, em que uma velha só tem a companhia de seu cachorro (bem mais solitário do que ela, um tipo de companheirismo vitimado).

“A velha monologava seus mistérios, seus mundos estranhos, suas paranóias (…) o cão sofria os diabos, a duras penas conseguia viver naquele mesmo espaço, entre os delírios de Bratislava e suas rabugices”.

Tecendo com sutileza as tramas, Cagiano sabe trabalhar com a ausência, usar o que é dito nas páginas para revelar o que falta no mundo de cada um de seus personagens. O interessante do livro não está em como o autor os isola na história, mas de onde ele evoca a angústia literária e a transfere para o leitor.

Destaque também para encontros, com Kafka passeando por Cataguases.

Vale comentar ainda o capricho da Editora Língua Geral com suas publicações. O acabamento bem planejado torna as páginas mais do que um mero veículo do texto, sem, entretanto, competir com a literatura que apresenta.

Dicionário de Pequenas Solidões

Em seu último livro, História. Ficção. Literatura. (Cia. das Letras. 2006), Luiz Costa Lima aborda as relações entre a história, a ficção e a literatura. Como um dos objetivos de sua indagação não é verificar a especificidade de cada um dos discursos, embora a especificidade de cada um seja fundamental para o que se afirma, o conceito de ficção, que se desenvolve, tanto serve para iluminar o que é específico à história quanto para a o que é pensar a literatura.

A partir da afirmação central de que os dois discursos se aproximam e se afastam, um procurando negar o ficcional, o outro a querer dar a si o estatuto da ficção, o leitor perceberá que, a balizar as noções da percepção do mundo, emprega, para delas dizer, para delas se aproximar, a noção de um saber naturalizado, que não se percebe como ficção. Chamar atenção para este saber vem a ser um dos inúmeros méritos do livro.

A abordagem que o teórico da literatura faz das outras formulações discursivas pressupõe o domínio dos conceitos que analisa. A preocupação, neste sentido, de ter, como contraponto ao objeto de indagação, diversa grade discursiva, faz com que o teórico da literatura fale a partir de uma grade própria, isto é, mesmo que o teórico invista no conhecimento da filosofia, da história, da antropologia, e deve fazê-lo, a consideração que se deve levar em conta é a do conhecimento/indagação do estatuto do literário.

A questão que se levanta tem uma função didática, pois a abordagem de outros discursos facilmente poderia ser vista como tábua de salvação para o analista e, com essa intromissão, salvar o analista da literatura da tematização teórica, fazendo com que ele se atenha apenas ao discurso que não é o literário.

A questão que Luiz Costa Lima nos coloca tem como pano de fundo exatamente a intercessão discursiva entre a História, a ficção e a literatura. O cuidado, com que Costa Lima trata do tema, busca não só a teorização do que é o literário, mas aponta para os limites da utilização seja da história, seja da filosofia. Observar essa preocupação como centro de seus estudos evita que, por exemplo, a literatura seja submetida a outra discursividade e dela se faça um apoio para análises historiográficas, sociológicas ou filosóficas.

A formulação do discurso literário como determinador do real e não como seu reflexo pressuporia o fio da indagação teórica da literatura, ou por outra, a indagação do que é a literatura permitiria ao homem, que se relaciona com o seu mundo, uma visualidade diferente e menos afeita, ou afeita de modo diferente, aos discursos dominantes acerca da definição da realidade.

O como se, a desimportância com que o discurso da ficção trata da verdade, não permitiria só que se verificasse, no discurso que toma a suspensão deste critério, uma possibilidade de extensão do real para fora de sua determinação primeira, dada pelas discursividades que se atrelam a busca de uma verdade.

A formulação da ficção como lugar de onde deriva o saber e o dizer deste saber é, pois, fundamental para que se verifiquem as intersecções entre os discursos e suas especificidades. O que Costa Lima oferece em sua obra ao leitor e estudioso da literatura está na radicalidade e no rigor com que aborda as fronteiras e os limites a partir dos quais se deve e se pode pensar a literatura.

Um livro de ficção científica ainda consegue fugir dos clichês que acompanham o gênero? Tibor Moricz mostra que sim em sua estréia na literatura. A trama gira em torno de uma das maiores ambições da humanidade: viajar no tempo. Tibor evita descrições de efeitos especiais mirabolantes e explora o psicológico dos personagens, usando a ambientação da ficção. Em Síndrome de Cérbero o leitor não encontrará dinossauros, reis egípcios ou naves alienígenas. O que está em jogo é a vida (no mais amplo sentido) do protagonista e aquela velha pergunta que todos fazemos um dia: se pudéssemos voltar no passado, mudaríamos alguma decisão?

Síndrome de Cérbero, de Tibor Moricz; JR EditoraO narrador da história é Leonard Cameron, um cientista atormentando pelo passado amargo, descrito como um físico não muito brilhante, mas que se torna o homem certo no lugar certo. Leonard é um homem solitário, quase assexuado, que decidiu viver em suas memórias. Ele é incapaz de se relacionar, fazer planos que mirem o futuro, talvez pelo medo de não estar lá. Não quer constituir família, nem criar vínculos ou dependências, por carregar nas costas uma perda muito grande, irreparável. Ao mesmo tempo, Leonard tem uma carreira bem-sucedida. É o supervisor de uma instituição científica, o sujeito que confere os projetos, orçamentos e cronogramas. Aquele cara que anda pelo corredor com olhar atento e de quem ninguém gosta. Você deve conhecer um desses. Por isso, ele tem um pé no presente (o lado profissional) e um pé no passado (o sentimental), funcionando como uma máquina do tempo humana em tempo integral.

A união do elemento ficcional ao diálogo com a memória é o grande trunfo do livro.

No primeiro capítulo, conhecemos a infância do futuro cientista. Um garoto de dez anos que vê no mundo um terreno infindável de descobertas, pronto para ser modificado pela sua imaginação. É um mundo povoado mais por heróis do que vilões. Num pulo da cama Leonard pode voar e subir pelas paredes. Em um terreno baldio, enfrentar inimigos terríveis na ponta de um galho de árvore. Não é preciso fechar os olhos para sonhar. Dentro desse universo fantástico há um herói em especial: Robert Cameron, seu pai. Ele não possui super-poderes, não levita nem atravessa parede, mas é perfeito aos olhos do filho, que se encanta com um jogo de beisebol, uma corrida no parque, um minuto de atenção.

“Meu pai era uma pessoa especial. Jamais, em tempo algum, deixou de atender aos meus pedidos, mesmo os mais idiotas. Não que ele me fizesse tudo, mas sua atenção era a mesma, seja para satisfazer minhas vontades, seja para me repreender quanto ao absurdo de minhas propostas. Eu era seu referencial. Único filho e essas coisas todas. (…) Ter 10 anos de idade tinha lá suas vantagens. A diversão era uma das minhas mais importantes responsabilidades sociais”.

Tudo corre bem no dia a dia, mas o clima melancólico das lembranças de Leonard já anuncia a morte que mudaria sua vida. Um besouro negro avermelhado que pousa na testa do pai durante um passeio e que de repente escorre. O corpo tomba para frente, a mãe grita e se desespera. A criança entende que algo está errado. Seu pai está morto.
É uma cena de simbolismo forte, pois desmonta a dinâmica da morte pelo tiro. A bala entra por um lado, sai pelo outro e o sangue escorre. O conjunto em si é traumático. É um evento rápido, uma mudança muito drástica que a mente não tem velocidade para acompanhar. Para Leonard, todo esse conjunto está aprisionado em um só momento. Não se trata do dia em que o pai morreu, mas do segundo preciso. O instante em que Leonard teve a infelicidade de estar olhando para o pai, e ver o furo na forma de um besouro.

Como nem só de memórias vive o protagonista do sci-fi, as viagens ganham também um veículo físico. Um dos pesquisadores da fundação de pesquisas científicas Leicester, depois de muitas tentativas frustradas, descobre um modo de viajar no tempo. Leonard não resiste à possibilidade e se oferece de cobaia. O ponto no passado não poderia ser outro.
Em princípio, o objetivo de Leonard é salvar o pai, nada mais natural. Entretanto, quando ele fala sobre o assunto, usa uma diferença sutil, que explica o seu comportamento até o fim do livro: ele quer ter mais tempo ao lado do pai. O que poder entendido como recuperar a própria vida.

“Eu, no presente, calculando como agiria no passado. Paradoxal, mas envolvente e espetacular. Aquele dia seria um marco na história humana. Seria um marco na minha história e na história do meu pai. Quantas vezes ouvi alegações sobre a inexistência da vida após a morte?Eu provaria que ela existia. Meu pai não morreria… mesmo tendo morrido”.

É claro que ninguém sai ileso de viagens no tempo. Todo bom fã de ficção científica sabe que a lista de contra-indicações e efeitos colaterais é extensa. Tibor é bem competente ao inventar teorias do espaço-tempo e conseqüências orgânicas e temporais, sem jamais abandonar o perfil psicológico do protagonista. O que acontece sempre se reflete em sua mente, chegando inclusive a ampliar a solidão da qual está tentando fugir. Junto a isso, o desnudamento do passado de Leonard e o retorno às lembranças ganha um caráter investigativo. Afinal, quem matou Robert Cameron? Por que um político em início de carreira vira alvo repentino de um atirador? Por que a polícia não solucionou o caso? Mera incompetência?

Como investigar é abandonar a passividade, ao assumir o papel de detetive e salvador, Leonard lança um novo olhar sobre sua história. Além de um ótimo lugar para um viajante do tempo passar o dia, o passado é uma verdadeira caixinha de surpresas. Basta analisar com atenção.

“Jamais em minha infância tive a experiência de ver a TV ligar sozinha. (…) Por isso mesmo que essas manifestações me causavam um susto considerável. É difícil lidar com eventos dessa natureza. Bem, na verdade também era difícil lidar com portas rangendo quando eu era criança. Conscientemente sabemos que é o vento. Só que há um sussurro que vem do fundo da gente, alertando que ali, naquele ranger inofensivo, se esconde um monstro brutal que ambiciona o nosso sangue”.

Tibor Moricz foi um dos premiados do XI Concurso de Contos de Araraquara – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, com um conto de ficção científica.

Síndrome de Cérbero
332 páginas.
JR Editora.

Agora como sempre
com outro é que se obtém perícia:
pois não é fácil alcançar
a porta das palavras nunca ditas.

(Baquilides de Ceos)

De Baquílides encontramos alguns fragmentos de peãs e dezenove poemas completos (segundo informação de Péricles Eugênio da Silva Ramos). Um de seus fragmentos – o Agora como sempre – que transcrevo no inicio do texto, é de uma inusitada beleza.

Quando se lê a poesia grega, muitas vezes espanta a clareza de suas construções; parece que elas comentam e traduzem um sentimento que se universaliza como certeza. Fica-se meio perdido, com a sensação de que a beleza pode ser simples e clara. Desconfia-se. Os leitores socorrem-se de Safo, Anacreonte ou Arquíloco. A mesma precisão é encontrada em seus versos.

Embora não conheça o grego, a percepção das traduções em português, em espanhol e em francês revela a mesma impressão de que estes poetas aliam duas qualidades fundamentais da poesia, a extrema musicalidade e a naturalidade do que dizem e do como dizem. O peã de Baquílides mostra ao leitor do século XXI – ainda que a recepção grega deva ter sido diferente – alguns métodos da composição poética da Antiguidade Clássica.

O primeiro verso do peã inicia-se com afirmação peremptória que lhe dá a medida do que é próprio à composição, unindo as pontas do tempo, isto é, o agora como sempre indica o presente e impele tanto para o passado quanto para o futuro. A certeza de que o verso se mantém dentro de sua unidade parece evocar uma imanência perfeita: poesia é e será – pretensiosos esses gregos – o que dela a tradição diz ser.

O segundo verso confirma a percepção, pois se deve mergulhar no estudo do passado, da tradição, para que se possa manter e ou confirmar a perícia da poesia. O verso parece confirmar a peremptória afirmação inicial, entretanto, tanto funciona para sua manutenção quanto para a sutil e não menos peremptória afirmação de sua diferença. A tradição serve para repetir – imitar – e para diferenciar, tornar único o poema que se escreve, ou para, como quer o poeta, alcançar as portas das palavras nunca ditas.

Em seus versos, toda a construção do pensamento grego sobre a arte – que estará em Platão, com seu realismo, e em Aristóteles, com sua busca de uma função para a arte, se perfaz de maneira assustadora e completa. Pensar o que é a poesia, para Baquílides de Ceos, é acercar-se do inusitado mantendo sobre esse inusitado uma base comum, uma dicção que repete e amplia.

Imitação e diferenciação. Repetição e ampliação. Talvez seja esta a medida que se perdeu, quando os latinos introduziram na poesia a medida prática da moralidade e viram na mimesis grega apenas a imitação – repetição dos cânones consagrados que irão marcar a poesia e o pensamento ocidental por longo tempo.

Perdida a qualidade da mimesis, perdeu-se a conexão direta com o inusitado da beleza, que se revelava nas portas das palavras nunca ditas, mas reconhecidas por toda comunidade grega e de seus herdeiros, que somos nós.

O italiano, do século XVI, foi um boquirroto.

Como escritor, inventou o gênero pornográfico, seus Sonetos Luxuriosos, traduzidos para o português por José Paulo Paes, são um belíssimo documento de sua época e da poesia que nela era produzida. Poesia voltada para o corpo, para a necessidade de purgação do corpo. Poesia moralista, enfim.

Como ser social e humano, era temido pela capacidade crítica da qual se aproveitava para fazer valer suas necessidades. No mundo dos mecenas, no qual se inseria Aretino, o espaço para a afirmação das vaidades e individualidades era mínimo. Mesmo podia-se verificar a inexistência de condições para o surgimento do sujeito tal como o conhecemos hoje. As características pessoais da obra seriam conquistadas pela habilidade que tivessem os artistas de seguirem o cânone. Sem ele, a obra sequer seria concebida.

Dentro desta configuração, a poesia de Aretino se mostra ligada ao que dele se esperava. Propor um sistema em que os defeitos, a condição do humano, se contrapusessem aos ditames da moralidade, não para negá-la, mas para reafirmá-la, para corroborar com o vasto repertório que exibia.

Assim, tomando o escatológico como tema, Aretino buscará, pela exposição crua dos atos obscenos, enquadrar-se na vasta proposição dos temas que se permitiam os escritores de então. Sabe-se que a medida do erótico sempre foi, desde o fim da Idade Média, o texto da sátira. Boccaccio, Rabelais e outros ao buscarem a moralização dos hábitos o fizeram a partir do escatológico. Famosa a página do Gargantua, na qual Rabelais, através de seu personagem, faz uma lista de limpa-cus. Hilariante e mordaz, o capítulo traz uma bela reflexão acerca da utilidade da lógica. A passagem revela sua intenção: chocar o leitor. Diz Gargantua a seu pai, a quem conta a invenção dos limpa-cus:

“__ E você – indaga Gargantua – está disposto a pagar-me uma pipa de vinho bretão se eu o deixar encabulado com a história?”

Ora, a intenção de Gargantua é clara e se desdobra na necessidade do riso educativo. Perceba-se que o choque recebido por seu pai – pater, padre – está na lógica com que defende sua invenção:

“__Pois bem – continua Gargantua – só se limpa o cu quando ele está sujo; ora, ele só está sujo quando se caga; logo, para limpar o cu é preciso cagar.”

A lógica irreprochável de Gargantua tem como endereço as universidades e o tipo de pensamento que nelas se desenvolve. Ao imitar esse discurso, não quereria Rabelais apontar para dificuldade de aceitação do saber desvinculado dos poderes religiosos, da plena aceitação das ações divinas, embora o saber universitário estivesse ainda a ele vinculado?

Se a resposta é negativa ou positiva, no nosso caso, é menos importante, já que o que nos interessa aqui não é a obra de Rabelais, mas a afirmação da duplicidade da sátira. Assim como aponta para a necessidade do riso, a sátira aponta também para a vocação da educação moral. Deve-se, pois, perceber, na passagem do escritor francês, tanto a crítica que aponta para lógica que se inicia quanto para a lógica que a precedeu.

Os sonetos de Aretino, ao contrário, contracenam com a seriedade. A cena dos culhões, conas e adjacências não busca de imediato o riso, mas a capacidade – meio voyerística –  de produzir no leitor uma reação erótica. Dirá Samuel Pepys, acerca de livro (L’École dês filles) que se mantém na linha de Aretino:

“Era um livro poderosamente lascivo, mas maltratou minha piroca, deixando-a erguida uma porção de tempo; precisei descarregá-la uma vez.”

Essa busca da reação erótica irá demarcar o pornográfico e esta demarcação ensaiará o sujeito como centro das preocupações do escritor, anunciando e permitindo que o mecenatismo comece a ser ultrapassado.

Estive outro dia relendo o Machado. O Dom Casmurro e alguns dos comentadores que mais me agradam. Fiquei pensando no que disseram uns, no que disseram outros. Gosto dos calidoscópios, de montar e desmontar imagens que nunca são tão diferentes do que são e nunca são também iguais, ou tão iguais, ficam num entrecruzar de possibilidades que jamais poderemos definir como definitivas. É um recurso intenso.

A obra do velho bruxo tem um pouco desta magia dos calidoscópios; se o leitor mexe com as possibilidades textuais, todo o universo do texto se reorganiza e produz uma imagem diferente semelhante e dessemelhante ao que antes havíamos percebido. Ativa no leitor o desejo de testar essas possibilidades, de produzir no texto lido tantas imagens quantas são as variáveis possíveis. Tarefa inglória. Tanto mais mexemos no texto, tanto mais o texto demonstra sua face mutante.

Se entrarmos pela percepção do discurso científico, o enigma de Capitu se revela um; se pelo discurso jurídico, outro; se pela matriz dos textos semelhantes, a nosso espanto se revela – como propôs Silviano Santiago – um discurso construído por respostas sociais e políticas ao nosso estar advocatício e religioso. Todos estão ali, constituem as peças, através das quais o nosso machado sangra, rasga a carne do que vai se estabelecendo como tradição. Todo esforço de leitura unívoca do texto machadiano tende ao fracasso.

Ler Machado é necessariamente reler o que dele antes propuseram, reler o que dele hoje propõem, pois todas as possibilidades falam de um Machado possível, de um Machado legível. Na legitimação das diversas leituras, na percepção de que ler assim ou assado foi possível é que se constitui a esperteza do leitor: saber que nenhuma deva ser desprezada.

Ao torcermos a caixa de surpresas que são seus livros, uma nova configuração se adequará à cena construída, uma outra imagem, insuspeitada, se formará e seremos todos obrigados a ver nessa nova revelação, que o texto contém desde sempre, o sorriso sardônico do autor e a nossa incredulidade de estarmos frente a um novo texto, que, entretanto, é tão semelhante ao anterior.

O calidoscópio machadiano nos toma e somos levados a brincar com ele, a buscar sempre a prefiguração de novas possibilidades.

Después de passar

Los niños miran
un punto lejano.

Los candiles se apagan.
Unas muchachas ciegas
preguntan a la luna,
y por el aire ascienden
espirales de llanto.

Las montañas miran
un punto lejano.

(Federico Garcia Lorca)

Depois de passar

Os meninos fitam
Um ponto distante.

Os candis se apagam.
Umas moças cegas
interrogam a lua
e pelo ar ascendem
espirais de pranto.

As montanhas olham
um ponto distante.

(Tradução William Agel de Mello)

O texto acima, do poeta espanhol, Federico Garcia Lorca, revela toda a economia e magia da escrita poética. Sabemos que há meninos que olham um ponto distante e que este ponto distante será, no final do poema, objeto de um outro olhar, o da montanha. Não se afirma que ponto é este que montanha e meninos olham. Apenas o sabemos distante. Sabemos mais: que entre o olhar dos meninos e o olhar das montanhas os candeeiros se apagam e as moças estão cegas e choram e que o choro corrobora a distância anunciada dos olhares dos meninos e anuncia a das montanhas.

Todo o poema cabe nesta descrição feita acima. No entanto, há algo que perturba a vigília do leitor. A magia poética que se cria entre a luz do candeeiro, que se apaga, e as esperais que sobem pelo ar criam um nexo lógico e causativo, isto é, a razão, sugerida e não dita, pela qual a cegueira das moças as faz interrogar a lua – o ponto distante e nomeado – que não enxergam, está em relação direta com o ponto não nomeado que montanhas e meninos olham, a lua. Nomeia-se o ponto distante pelo que as moças não olham, por serem cegas, e os que possuem a capacidade de olhar, meninos e montanhas, não podem nomear o que olham. Assim, a cegueira contamina o olhar. O olhar assim contaminado estende sua capacidade até os seres (a montanha) – pois é disso que se trata – a quem é impossível o olhar.

Essa junção entre olhar e não olhar permite ao poeta, e ao leitor, perceber não só a humanização das montanhas como o homem desumanizado, porque pasmo diante do que olha: o ponto distante. Inserido no que não são e ao mesmo tempo são, homens e montanhas conhecem seu paradoxo. Um participa do mundo do outro por pertencerem ambos ao mesmo mundo, sobre o qual, aliás, nada poderá ser dito, senão a negação dos sentidos que os sentidos permitem aos homens como ilusão.

A desolação é absoluta. Resta ao leitor e ao poeta a afirmação de uma estranha ficção, que serve ao mesmo tempo para remir do cativeiro em que os sentidos o colocaram como para afirmar a diferença que os homens possuem quanto à natureza: a capacidade de produzir ficções e vivenciá-las.

Em seu mais recente livro, História, Ficção, Literatura, Luiz Costa Lima indaga-se acerca da determinação do ficcional. Nesta indagação verifica que o estatuto do ficcional se estende por toda manifestação humana. Quanto mais somos passíveis de produzir linguagens mais somos capazes de dotar o mundo de ficções. Tal argumentação, se nos diz de uma pressuposição comum aos homens, no entanto, terá um outro desdobramento, quando o assunto, sobre o qual se reflete, é a literatura.

A formulação do discurso literário como determinador do real e não como seu reflexo pressupõe o fio da indagação teórica da literatura e de sua prática. Assim como é uma forma de ficção calcular as estruturas de um prédio, é uma forma de ficção dotar o mundo de possibilidades para o real, isto é, ser capaz de produzir uma realidade. Embora os discursos humanos promovam essa produção, o único que se sabe produtor de realidades e não a realidade ela mesma é o artístico, o que se produz como um como se e não como uma formulação do que é. Essa diferença brutal vai fazer com que o leitor, diante do inusitado, diante do não previamente demarcado como real, possa aceitá-lo e possa produzir uma percepção crítica diante do que foi já determinado como a fixidez do real, imutável e cristalizado.

Assim é que a magia do poema de Lorca se estende para a determinação de uma sensação de aniquilamento dos modos perceptivos do homem e o deixe com um traço mínimo, econômico, do que é o real: a sua completa incapacidade de distinção, produzida pela linguagem poética.

COSTA LIMA, Luiz. História, Ficção, Literatura. Cia. das Letras. São Paulo. 2006.
LORCA, Federico Garcia. Obra poética completa. Martins Fontes. São Paulo. 1989.

Da obra de Sándor Marái, editada no Brasil pela Companhia das Letras, constam alguns títulos: As brasas, O legado de Eszter, Rebeldes, Divórcio em Buda, Veredicto em Canudos e Confissões de um burguês. Além destes livros, há, editado pela Cosac Naif uma pequena ficção, que serve de introdução para uma pequena novela de Gyula Krúdy, O companheiro de Viagem.

Sándor Marái é um escritor potente. Preso a um ceticismo, a uma descrença constante do ato de escrever, sabe-se, contudo, incapaz de outra atitude. A precisão com que trata a linguagem, a exatidão do que pretende dizer denuncia em cada palavra, em cada frase a presença de um escritor preocupado com seu ofício e com a validade deste ofício. A densidade da reflexão sobre a escrita curiosamente se revela onde sobre a escrita nada é dito. A cena que se desenvolve é outra e alheia à escrita, entretanto, é sobre o próprio ofício do que é a escrita que as páginas de Sándor Marái refletem.

O modo através do qual se atinge tal precisão revela-se aos poucos e aos que, leitores do escritor húngaro, passaram pela descoberta lenta, paciente e operosa da decifração dos ambientes interiores com os quais nos brinda em cada livro. O que as narrativas revelam não são o que narram, mas o que, dentro da narração, se esconde sob o disfarce da escrita.

O mundo encontra-se em ruínas, os homens disfarçam. Criam engrenagens que permitem o mundo existir, a economia que os guia subsiste como um sistema maior e inescrutável. Os homens rodam em torno de seu eixo, economizam e se preparam para a derrocada, com alegria, às vezes; com inconseqüência, sempre. Não há dentro desta ordem noção de futuro, como não há a solução do progresso, da evolução. Tampouco o homem está estanque. Ele responde, luta, afirma um futuro, cria para si e para os outros um discurso que os justifique.

A noção de escrita de Sándor Marái surge da necessidade de ordenar, de criar um método, doar ao homem o que ele procura. Algo que lhe permita desenvolver-se, enternecer-se. Como um retrato do que o mundo é. Faz deste o dilema de sua escrita, porque sabe, como poucos, da incapacidade de ordenação, de evolução que preside a vida humana.

Sob a lucidez, sob a claridade com que ordena o mundo, revela-se a potência de sua ficção. A formulação de um mundo, que se vê impelido para a ruína, para os destroços, ordenada de maneira exata, revela, nas entrelinhas da escrita, a impossibilidade a que todos estão submetidos. Não há saída. Todas as fórmulas se esgotaram. O governo da economia substituiu o sonho de construção do homem. Nos cafés, na vida privada, nos palcos, nos projetos culturais, nas religiões, as portas se fecharam.

Para Sándor Marái o mundo funciona iludido pela necessidade de responder às necessidades. Ao escrever, observa, de dentro da ilusão de ordem, uma ordem única e possível, que se escreve sob o signo da ficção. Para negar a ilusão, ilude o leitor, que pensa ler-se em um mundo correto e funcional, quando, na verdade, só se permite que, sob a exatidão, recaiam, sobre ele, dúvidas e incertezas.

A literatura de Sándor Marái é potente, enfim, não por ter este ou aquele pensamento sobre os homens, não pelo ceticismo que acompanha essa percepção, mas é potente, sobretudo, por obrigar o leitor a não ler apenas o que lê, por obrigá-lo a penetrar na ordenação possível de seu texto.

Com cuidado, reafirme-se: obrigar. O grande escritor obriga, dá ordens, faz escravo do texto o leitor, quer este queira, quer não.

Quando sentei para escrever sobre Balada de uma retina sul-americana, estava decidido a tratar do lirismo dos livros de Carlos Machado. É difícil caminhar no muro divisor que é a prosa poética sem afogar o leitor na densidade do texto (vulgo entediá-lo com chatices) ou sofrer da síndrome de Humpty Dumpty, e ele foge dessas armadilhas. Não que o escritor passe uma segurança contínua e prolongada, pelo contrário, é na tremida de pernas entre um passo e outro que a história ganha fôlego e o leitor conhece a pessoa por trás das folhas. Esse truque sutil nasce da comunicação dual e dualista entre escritor e personagem, do intercâmbio proposital de vozes que funciona como a peça fundamental da metaficção. Mas o texto tem um aspecto multissensorial que supera de longe o lírico, um veio mais valioso.

Balada de uma retina sul-americana, de Carlos Machado

Na orelha do livro, Carlos Machado é músico, letrista e compositor. No miolo, ironicamente entre as orelhas, ele expande o espaço literário em busca de novos sentidos.

Carlos Machado mantém um diálogo constante com a música. Seus textos citam trilhas sonoras, passeiam por David Bowie a Lenine e bebem da liberdade da melodia para formar a estrutura narrativa. A malemolência – tanto a do jeito de se expressar quanto a do gingado – impulsiona pequenas percepções, econômicas no que descrevem, mas amplas no imaginário de quem lê.

“Parecia que eu estava entrando em um bar de jazz em New Orleans. O lugar tinha pouca luz e muita fumaça flutuando pelas cabeças das pessoas. No fundo do bar, sobre um pequeno palco, um pianista desliza seus dedos pelas teclas fazendo-as soarem suavemente. Abraçando  som do piano, uma mulher desprende sua voz estonteante”.
- Aqui jazz, conto de Nós da província: diálogo com o carbono.

Outro ponto atraente é a busca do protagonista por elementos de Curitiba, onde quer que passe. Viagens começam com gosto de aventura e terminam com uma imensa vontade de reencontrar o chuveiro quente e o cheiro do próprio apartamento. O assunto fica melhor em tempos de Mercosul caótico, em que os jornais tentam prever entrelaces da heterogeneidade. Há algo além da paisagem para nos diferenciar e nos aproximar. Há na cultura um mundo novo, mas também há uma “Curitiba” onde quer que se vá, pode ser no campinho de futebol, nos olhos da garota que passa, na cama dura do hotel. É o paradoxo do mundo globalizado misturado. Cada país com uma trilha sonora, em cada pessoa a coexistência de Adriana Calcanhoto e Whitesnake. Personagem e escritor estão conscientes de que a semelhança não é um grau de igualdade, por isso buscam nas dessemelhanças a aproximação com o diferente.

“O nome que dou a essa noite é Antofagasta. A pior de todas até aqui. Já não bastava a feiúra desse lugar, com seu comércio aberto aos peatones em ruas sujas de óleo vindo dos navios, homens suados pelo calor ensurdecedor e putas desdentadas que estão em todos os bares Gato Preto, o hotel ainda tinha cheiro de mijo de cachorro sarnento encostado nas paredes de uma igreja do reino de Deus”
- Balada de uma retina sul-americana.

Balada de uma retina sul-americana é um diário de viagem ficcional, que começa em Curitiba e passa pelo Chile, Argentina e Uruguai. Durante a leitura, construímos fotografias mentais que se decompõem e recompõem em letras, no melhor estilo Matrix. É o relance de um imagem que fica gravado na retina quando olhamos fixamente para um objeto ou tentamos registrar um momento agradável. Ao invés de um álbum, um livro evocativo cheio de mosquitos, perrengues de viajantes e o gostinho do desconhecido. O autor é uma pessoa atenta, que não consegue ser impassível às possibilidades do mundo. Monta poesias e narrativas, lança cds de heavy metal e tem uma banda de mpb.

“Chuí! Era necessário um conversor lingüístico ao atravessar a rua: de um lado, português, samba, jeitinho. Outro: espanhol, candombe, cassinos. Engraçado. De dentro da janela via-se a permissão dos jogos junto ao que era proibido. De que adianta? (…) Câmbio monetário. Mais uma Rui Barbosa. Uma Curitiba na fronteira”.
- Balada de uma retina sul-americana.

1

A literatura chinesa contemporânea traz algumas boas surpresas. Todas femininas. Bastante erotizadas. Xangai Baby, de Wei Hui, Bombons Chineses, de Mian Mian e o belíssimo A Jogadora de Go, de Shan Sa. Shan Sa tem também traduzido o romance Imperatriz, editado aqui pela Ediouro. A leitura de obras produzidas em ambientes culturais diversos sempre é um exercício fascinante, ensina e faz com que sejamos obrigados à alteridade cultural, com a qual se passa a conviver e respeitar.

Os romances de Wei Hui e Mian Mian demonstram, de certa forma, a ocidentalização da China, a percepção de que também lá o mundo foi tocado pelos movimentos sociais que sacudiram o mundo nos anos 60 e 70. O rock domina, o comportamento dos jovens chineses de hoje busca se acercar do que foi o comportamento dos jovens ocidentais de ontem. Percebe-se uma China viva e próxima, mas ao mesmo tempo distante. Há como que uma percepção diferenciada na consideração do futuro – embora se busque, como em todo lugar, a felicidade. Entrega-se ao amor, com a mesma sofreguidão, com a mesma percepção da brevidade da vida. Entretanto, há qualquer coisa de distante, pois, a presença da morte se intercala, entre o ato amoroso e a frustração do próprio ato. A morte que vai ser sugerida durante toda a narrativa de Wei Hui – seja na impossibilidade de concretização do ato amoroso com o homem chinês – que o personagem Tian Tian representa – seja na impossibilidade de permanência do ato amoroso, quando ele se cumpre com o homem estrangeiro.

A impossibilidade se fixa, torna-se o elo possível entre as duas culturas, fomentadas por um olhar feminino que se cumpre num mínimo limite, fronteira na qual o prazer que se busca deve diferenciar-se do que é culturalmente aceito. Se Tian Tian é impotente e Mark, o estrangeiro, o retrato do prazer para a chinesa, o que se coloca é a impossibilidade de realização para além das fronteiras – a plenitude física e cultural.

A alegoria que se desenvolve no romance de Wei Hui faz parte desta intricada trama, na qual, o sexo, e sua erotização, são, na verdade, o espaço a partir do qual se constrói um discurso político acerca da vida atual da China. Todo erotismo, e mesmo a pornografia literária, não podem ser lidos simplesmente como um texto cuja finalidade é o despertar do sexo, o incentivar sua realização. Devem ser lidos – erotismo e pornografia – como elementos de uma composição alegórica – como, para Sade, a pornografia foi a alegoria da natureza destruidora.

Em Wei Hui, a impotência de Tian Tian – que morre, e a realização do sexo com Mark, o estrangeiro membrudo, que volta para a Europa, são índice de outra cena, de outro impasse. Nele e entre eles a China – ao abrir-se, de alguma maneira, para o mercado – este grande rufião da modernidade – se percebe fronteiriça. Moderna, a narradora traceja suas opções. Anote-se, mesmo que longa, a passagem extraída, do final da narrativa, quando a personagem resolve partir para a Europa:

Pouco antes de partir, arrumei algumas coisas. Fiz uns retoques no romance e limpei o apartamento. Eu planejava me mudar de volta para a casa de meus pais; portanto, precisava entregar a chave do apartamento para Connie. As coisas de Tian Tian continuavam lá. Escolhi um dos seus auto-retratos, uma coletânea de poemas de Dylan Thomas de que ele gostava, e uma camisa branca que costumava vestir.

A camisa ainda tinha o seu cheiro. Enterrando o rosto nela, isso me fez perceber o que era perder a felicidade. (Hei, Wei; 2002. 334 335)

A perda da felicidade é o mote, através do qual, o discurso político se insinua. A China que se mantém e se transforma será sempre um arremedo do sonho – pois, por um lado, sabe Wei Hui que ceder ao estrangeiro constitui submissão. Sabe, por outro lado, que manter-se fiel ao mesmo é manter-se ligada à impotência física e econômica – mesmo que, ao optar pelos modelos estrangeiros, seja necessário ver morrer o que lhe é precioso.

Acrescente-se, por fim, que a impotência de Tian Tian não carece de sensualidade e erotismo, como a demonstrar que, na transformação da China, o que será deixado para trás é essa gratuidade do sexo, que denota ausência de finalidade.

2

A Jogadora de Go, de Shan Sa é um grande romance. Ambientado na China invadida pelo Japão, tem um narrativa ágil. Desenvolve-se em torno da ocupação nipônica – na década de 30 – tendo como protagonistas da história o soldado japonês e a resistente chinesa. O romance – como um puzlle – vai sendo montado com pequenas informações colhidas aqui e ali pelas narrativas dos dois personagens. As tradições japonesas e chinesas são desfiadas lentamente, mostrando dois mundos de grandes diferenças culturais – que, aliás, geram a guerra de conquista empreendida pelos japoneses.

A sexualidade imponente e tradicional dos japoneses, a presença das gueixas, a obrigação que tem o homem honrado de possuir sua alma e corpo, a pretensa visão da superioridade de sua cultura, são expressas pelo soldado que, embora busque reafirmar sua cultura, tem para com ela certo desconforto. Designado para espionar o movimento das tropas inimigas, o soldado acaba por cruzar seu caminho com a resistente chinesa, como ele, exímia jogadora de go. A jogadora de go – a resistente chinesa é uma jovem contestatária das estruturas de seu país que se vê ás voltas com a resistência por seu envolvimento amoroso com dois rapazes.

O romance desenvolve-se a partir destes três elementos: o mundo dos conquistadores, o mundo resistente dos conquistados e o jogo que representa a astúcia dos dois mundos. E o envolvimento crescente entre o soldado e a chinesa. O respeito mútuo pelo reconhecimento da sabedoria e das estratégias de que ambos são mestres. Um passa a ocupar os pensamentos do outro. O jogo, a preocupação máxima destas vidas que se escondem sob o disfarce.

Como um disfarce também a narrativa se constrói. Diz o que diz para dizer outra coisa. O colapso e a cena trágica final – quando a resistente e soldado se matam – recupera a emoção dos grandes clássicos, não só porque funciona como fecho, mas por abrir a cena para outras questões – que não as imediatas da narrativa – e (re)ilumina toda a formulação do romance.

O leitor, ao perceber que o romance termina, é obrigado a repensar os pressupostos culturais que demarcavam as personalidades de seus protagonistas, bem como rever a motivação que os levou à guerra. As diferenças culturais são mantidas, embora ao mesmo tempo deixem de ter um peso absoluto na relação entre as pessoas.

Pontue-se ainda uma pequena questão: a China que se descreve é a que, mergulhada no passado, rejeitava a ocidentalização buscada pelo Japão (que na verdade é anterior à 2ª guerra – a leitura de Junikiro Tanizaki é bastante ilustrativa disto). Distante, portanto, da China que se vê hoje e se põe questões típicas de nosso mundo.

O retorno ao romance de Wei Hei é uma possibilidade de compreendermos para quem e por que a leitura dos romances chineses é importante para a percepção da alteridade cultural e como que um libelo contra as ações intervencionistas dos Estados.

Em Bicho do Mato, lançado pela 7 letras, em 2000, Dora Ribeiro reúne seus primeiros cinco livros, escritos entre os anos de 1984 e 1999. Depois viria a edição de Taquara Rachada, também pela 7 letras, em 2002. A edição de seus poemas em Portugal, pela Edições Cotovia, reunindo toda sua obra até então produzida, sob o título de um verso retirado de um de seus mais magníficos poemas, O poeta não existe, aparece em 2005. Há o ainda inédito e belíssimo Teoria do Jardim.

A poesia de Dora faz com que o leitor tenha a necessidade de se reinventar leitor e ler novamente, nos poetas lidos até então, uma nova escrita. Assim como a leitura de um Bandeira, de um Cabral, fez com que se lesse o que até eles se produziu de modo novo, é o leitor de Dora obrigado a reler o significado da poesia, porque, na autora, a poesia assume um novo sentido, uma nova dicção que tanto ilumina o que vem antes, quanto o que acontece durante. Não significa com isso afirmar que a poesia de Dora, como se vê na poesia contemporânea, releia sistematicamente a produção passada e atual.

O raciocínio que permeia sua escrita permite ao leitor vislumbrar a possibilidade de reinvenção da recepção do cotidiano – desde que se abandonem as preconcepções do que seja o cotidiano e seus temas. Tome-se, por exemplo, o poema abaixo:

por outras palavras tentei
por outras vias me expus
terra
o teu lado invisível
aqui finalmente está

A centralidade da palavra terra poderia iludir o leitor do sentido buscado pela escritora. Ah, sim, diria o presumido leitor, estou diante de uma palavra que reconheço. Terra. Localizo-a no espaço, verifico qual a seu meio e qual o seu modo de ser. A visibilidade da nomeação parece superar o incômodo da abstração em que o eu se coloca – expor-se, tornar-se visível. Eu, sujeito do discurso, nomeio o objeto, torno-o, através de sua nomeação, visível. Até aqui é factível que se perceba, na nomeação feita pelo eu, a visibilidade do que lhe é externo – a terra. Assim se resolveriam eu e objeto numa trama bastante plausível. Eu – que não me acho – tenho, entretanto, uma visualidade mínima que compartilho com os outros sujeitos. Com isso a eles me igualo, me tranqüilizo. Posso fazer do eu uma imagem tranqüilizadora. Concretizo-o.

Entretanto, o desenvolvimento da leitura do poema permite que se perceba a permuta entre o eu abstrato, que se concretiza no objeto (terra), e a abstratização a que o objeto é submetido por tornar-se parte do eu “o teu lado invisível / aqui finalmente está”. Esta dialética entre o sujeito e o objeto impede que o significado se imobilize e faça com que o sujeito se separe do objeto e eles, sujeito e objeto, sejam percebidos em separado.

Amálgama fecundo este formulado pelas poesias de Dora Ribeiro. Percebe-se neste poema, e em muitos outros, a pulsação de um lugar a ser definido, lugar não dado pelo objeto e não formulado pelo sujeito, isto é, lugar no qual a composição das palavras é fundadora de sentido. Ficção que se quer ficção. Como nas lojas de canela de Bruno Schulz, o olho que dirige a composição de Dora é antes o dos grãos de poeira em suspensão – o invisível do que se vê e é visto – do que a permanência do estável pó sobre os objetos imóveis.

1. É comum encontrar em críticas o argumento fácil do “amadurecimento do escritor”. A palavra amadurecimento se tornou um curinga dos textos, ao mesmo tempo elogioso ao presente e crítico ao passado. Para você, houve um rompimento de estilo (seja narrativo, temático,…) com os livros anteriores? Como encara esse passado literário?

Acho difícil até mesmo falar em “passado literário”, no meu caso. Publiquei somente três livros, tenho vinte e sete anos, não escrevo há muito tempo e não acho que eu tenha uma obra que possa ser dividida em antes ou depois. Ao mesmo tempo, meus três livros são bem diferentes, e houve, ao meu ver, uma evolução, embora nem todo mundo pense assim. Pra alguns leitores, os contos do Dentes Guardados ainda são a melhor coisa que eu escrevi. Mas o Mãos de Cavalo é indiscutivelmente o meu livro mais trabalhado, foi escrito com mais rigor que os outros, com uma estrutura muito calculada, um trabalho de linguagem mais cuidadoso etc. Os dois anteriores foram escritos de forma mais solta, deixando o texto fluir. Como autor, acho que cada idéia exige uma abordagem diferente. Posso ter um estilo próprio, mas não penso em escrever sempre o mesmo livro ou usar sempre a mesma linguagem. Me interessa variar um pouco, e a natureza dessa variação acaba sendo ditada pela idéia que pretendo expressar. Ou seja, o meu próximo livro provavelmente será um tanto diferente do Mãos de Cavalo. Não gosto do termo “amadurecimento”, parece que é a aproximação de um ideal engessado. Prefiro “transformação”.

2. Já que estamos pelos 27, vale a pergunta… Existe afinal a crise dos 30 anos do Hermano? No livro (e creio que na realidade), me parece que a grande crise acontece mesmo é na infância, época de regras e desafios muito próprios, em que os títulos/apelidos importam mais do que o nome.

Nunca pensei na crise do Hermano como uma crise geracional. É a crise do personagem. Muita gente se identifica, algumas resenhas falaram em crise de 30 anos, mas não foi intenção minha. Nunca tinha ouvido falar em crise de 30 anos. Até onde sei, não existe. Mas existe a crise pela qual o personagem passa aos seus 30 anos, que na verdade é um ponto culminante de um conflito que o acompanha a vida inteira. Pela minha experiência de vida, as crises existenciais são constantes. Algumas mais potentes que outras, mas elas não podem ser encaixadas em etiquetas cronológicas tão genéricas. Todo mundo que tenta entender a própria vida enfrenta pequenas crises constantemente.

Mãos de Cavalo, de Daniel Galera

3. Você, que já teve textos adaptados para cinema (curtas e um futuro longa) e para o teatro, acha que as artes no Brasil interagem pouco? Já pôde espiar o filme do Brant?

Não me parece que as artes no Brasil interagem pouco. Interagem até demais. Faltam, no cinema nacional recente, grandes histórias originais, escritas diretamente para a tela. Sinto falta de verdadeiros criadores no nosso cinema. A tentação de adaptar um livro ou filmar uma história que se parece com tantas outras já filmadas é muito grande. Espiei o filme do Beto, sim, e fiquei feliz em ver que foi uma adaptação que não se amarrou ao texto original. O Beto é um criador, mesmo adaptando obras literárias, como ficou claro no Crime Delicado. O Cão sem Dono é baseado numa história minha, mas é uma obra nova, uma obra do Beto e do Renato Sciasca, que co-dirigiu o filme. Como autor, é estranho me posicionar. Gostei do que vi, mas tenho a minha própria versão da história, que é a do meu livro, e sou muito apegado a ela, naturalmente.

4. Os novos autores lêem os novos autores?

No geral, lêem. Não dá pra ler todo mundo, é gente demais, mas estão todos lendo uns aos outros, na medida do possível. Eu, pelo menos, faço questão de equilibrar autores novos com a turma consagrada e com os clássicos.

5. E os novos leitores, já despertaram interesse? Entrar nas livrarias e ver só uma estante empoeirada para a literatura nacional ainda é cena comum.

Olha, a minha impressão é de que a literatura nacional está muito bem publicada e distribuída. Faltam leitores, claro, pois o país como um todo não lê quase nada de literatura de ficção, mas dentro desse cenário desfavorável, livros é o que não falta. Há títulos demais e eles podem ser encontrados com facilidade. Os poucos leitores que existem se interessam, mas eles são muito poucos, então fica um clubinho, mesmo. O diagnóstico é o mesmo há muito tempo, todos conhecem de cor: educação deficiente, uma cultura que não valoriza muito o livro, e por aí vai. Há um limite do que se pode fazer. Quando as pessoas não estão interessadas, elas não estão interessadas e pronto. Não é imoral não se interessar por livros. É triste e desanimador, mas não se pode obrigar ninguém a ler.

Daniel Galera, fotografia de Raul Krebs

6. O Hermano de Mãos de Cavalo é um personagem muito particular. Ana Paula Maia, por exemplo, usa personagens altamente violentos e viscerais. O Nazarian segue o tempo psicológico de personagens conturbados e agora apareceu com um jacaré falante. Carlos Machado prefere contextos poéticos, quase fotográficos, muito íntimos na narrativa. Ao pegar um pai de família bem-sucedido e fugir dos tiroteios, suicídios e decadências, você levantou uma outra voz. Acha que esse é um nicho a ser explorado? Que daí podem nascer seus futuros trabalhos?

Eu acho que os escritores escrevem sobre aquilo que os fascina. Os tiroteios, suicídios e decadências fascinam a maior parte dos nossos autores, então eles escrevem sobre isso. Eu gosto de um bom tiroteio, gosto de cenas sangrentas e flagrantes de decadência, mas é num nível mais estético. Me interessa mais visualmente do que narrativamente. Mas não é esse tipo de coisa que me fascina no íntimo. O Mãos de Cavalo é resultado de incontáveis coisas que me fascinam, me estimulam a pensar, me assombram antes de dormir ou quando estou nadando, me fazem procurar respostas definitivas que nunca obtenho. Nesse livro, fui buscar matéria-prima em muitas lembranças de infância e adolescência, e também na idéia desse personagem que luta para escolher sua identidade, que fica indeciso entre ser o que é ou o que gostaria de ser, e que sofre diante dessa dicotomia que pode inclusive ser ilusória. Eu não tenho respostas, mas o fascínio com esses temas me fizeram escrever esse livro. Nunca pensei em explorar um nicho específico, embora eu tenha considerado, sim, o fato de que seria uma história diferente de certos clichês que se associa com a literatura brasileira mais recente. Mas isso não significa que quero questionar ou fazer frente à literatura dos outros. Somente sigo o que me fascina, sempre um pouco confuso, mas determinado.

7. O acerto de contas com o passado protagonizado por Hermano é impactante. Jorge Duran costuma dizer que em algum momento é necessário olhar o próprio trabalho e pensar “por que escrevi logo isso? de onde tirei a ânsia desse assassinato?”. Já dá para olhar Mãos de Cavalo e pensar no assunto ou deixa para daqui a 30 anos?

O que o Jorge Duran faz depois de publicar o livro, eu fiz durante muito tempo antes de escrevê-lo. Muitas idéias do livro eram antigas, e cansei de me perguntar de onde vinham, até que desisti. A cena que tu cita (creio que se refere ao momento em que Hermano adulto resgata o garoto que está apanhando dos outros na rua) é resultado de fantasias narrativas que me acompanham desde a infância, e muitas vezes me perguntei de onde vinham, mas não sei ao certo. A cena com certeza tem a ver com cenas de cinema que me impressionaram, entre outras coisas. Mas eu não gosto muito de buscar a origem psicológica ou o significado simbólico das idéias que tenho. Assim como é rude fuçar na vida das pessoas, prefiro não fuçar muito nas minhas idéias. Elaborá-las e colocá-las no papel é o melhor que posso fazer com elas.

Link externo: Rancho Carne

uma constituição de sentidos

Relâmpagos. O título do livro de Ferreira Gullar sugere o que se tornará, quando o leitor o abre, desde a primeira página: fulguração. Aliás, é o que o escritor determina ao afirmar, na abertura do livro, que “toda obra de arte atinge nosso olhar como uma inesperada fulguração, um relâmpago”. O exercício de leitura que se segue vai catalogar os sentidos a que essa proposição busca chegar, conferir.

Nascida da certeza do escritor, a fulguração da tela fala por si, numa linguagem que a arte verbal é incapaz de traduzir. O que dela traduzimos aponta para uma leitura que pode ser a da “manifestação estilística, a da sociologia ou da história para que se possa compreendê-la como tendência artística”. (GULLAR; 2003). A visada de Gullar é, entretanto, outra e se liga à compreensão da manifestação do poético. Do poético como matéria bruta que também explode nos sentidos do leitor, sem que seja necessário determinar sua natureza, quando, ainda sob a sua influência poderosa, se vê o que não se pode ver sob as manhãs e tardes do cotidiano. Sem que se rompa com o cotidiano – ele de fato está ali presente – o cotidiano foi estabilizado numa profusão de tempos irrecuperáveis. A leitura, sensível, densa e direta ao mesmo tempo, em que a percepção do quadro pelo poético traçará, em palavras simples e definitivas, como o quadro comentado:

Um momento de vida, mínimo episódio da história humana – pessoas que, numa sala, posam para um pintor que as retrata – ali na Espanha, num certo dia do século XVII. E parece uma visão irreal esta cena real (com sua luz doce) que Velázquez fixou na tela para sempre. Mas que, na vida, se desfez naturalmente em seguida, como qualquer outra, entre palavras e risos talvez. (Gullar: 2003; 31)

A passagem referida acima comenta o quadro de Velázquez – As meninas – mas, para além do que se afirma acerca dele, importa a compreensão absoluta de dois tempos distintos e complementares: o tempo intemporal do quadro, que fixa para sempre um instante que o tempo cotidiano deixa passar na inexorabilidade mesma do tempo. Nesse conflito, que não se coloca como conflito, mas como síntese dos movimentos postos em quietude pelo pintor, pelo poeta, surge a revelação instantânea do que houve e ainda há. Relâmpagos.

Relâmpagos. A mancha azul que se grava pelo olhar nas retinas da compreensão do absoluto, tornada retalho e composição, em algum lugar – onde? – do centro desfigurado das certezas do cotidiano explode no mundo individual e coletivo como um lampejo pulsante e interminável. O poema em que se lança Gullar tem a ênfase da demonstração do que não se pode compreender – a ênfase tornada objeto, mas objeto que, para além de si mesmo, constrói e desfaz os sentidos que não alcançamos, mas que nos pertencem, nos conformam na fixação material do que podemos ser, talvez o “puído aceno humano”, que o poeta percebe. Em outras palavras: a constituição do olhar, sob o azul descolorido da roupa da Madona, fulgura como um tapa no rosto, como um comentário excêntrico à composição de Leonardo – que, entretanto, não se nota no equilíbrio perfeito da composição. Fulguração do poético, a Mancha revisita no quadro a explosão da percepção de outra linguagem: a poética.

Iridescência. Mulher se penteando. Efusão de cores. A quase figuração. Descrição muda do que é, percebe-se, num lampejo do quase que se apresenta como é e não é. Não como em Velázquez, que em outro plano tornou estável a sala na qual a cena do mundo se estancou a partir do olhar, a mulher que se penteia torna estável “um fato banal da vida”. Diferenciação absoluta. Aqui importam as cores – a profusão delas – que explodem nos sentidos e compõem para além da figuração a distorção da banalidade, mas também torna estável não mais a sala ampla dos castelos, senão que a cena íntima em uma casa qualquer. Entretanto. Entretanto, o mesmo fulgor, o mesmo relâmpago com que se revela a beleza da vida.

Jeanne Hébuterre. Frio e fome. A mulher alongada de Modigliani. A beleza fulgurante da vida ensina nos nus a transmutação do “desejo sexual em ternura e poesia” (Gullar: 2003; 83). Harmonia e cor, outro o brilho da intimidade – as volutas dos pêlos no Nu sentado interagem – contracenam com a história. Degas onde a cor é profusão, desimagem; Picasso onde a cor esculpe a imagem “talhada a facão” (Gullar: 2003; 73). A sensualidade agressiva das Demoiselles. O quadro de Modigliani foi composto em 1917, ano em que Degas morre e após dez anos em que a ruptura cubista aparece com seu clarão destruidor. Três formas da forma, da poesia, da revelação da beleza. Lições gullarianas. Brancusi e a multiplicação da escultura na qual o suporte é já a obra. Gullar e a multiplicação da escritura na qual a explosão do fulgor são estilhaços tocados pelo todo. Simultaneidade.

O toque do dedo, a cor que salta nas retinas do poeta: aqui o canto amarelo, ali a mancha azul, o quadro de Bracher é escrito por este delírio perceptivo que ainda uma vez mais ressalta a especificidade do fazer/compreender a arte. E algo mais: a escolha da cor – o azul de Leonardo, o amarelo de Bracher – são parte da fabricação do livro. Escolhas. Intenção de significado. Partículas de uma tradução sensível das possibilidades de criação ou, em outras palavras: no livro que se dá a ler, a constituição de um universo auto-centrado, alusivo, em diversos momentos, da memória da aprendizagem, mas também da autonomia e liberdade de ver.

Duas vertentes, portanto, se entrelaçam e constituem o livro: a escolha dos quadros e a sua submissão ao construto da indagação do que norteia o pensamento sobre as artes plásticas. Se a escolha é ditada pelo prazer de olhar, pelo prazer de “tentar apreender [das obras] o frescor, a verdade material e poética”; a indagação dos significados amplia este prazer e transmite ao leitor a intenção de criar a forma do livro. As formas artísticas possuem concretude. São o que são e ocupam lugar no espaço. São matéria que desordena a matéria e dá à apreensão dos fenômenos a capacidade de fazer perceber, para além da matéria, a subversão do artista na fabricação da sua própria matéria. A respeito, escreve Gullar, ao pontuar o desenho de Raphael:

Raphael brinca com as linhas, brinca com a imitação dor real: imita-o brincando, exibindo seu virtuosismo que dispensa segui-lo passo a passo; desestabiliza nosso hábito de ver e nos dá a beleza outra, que só o desenho nos pode dar – o desenho de Raphael, mestre anônimo do Engenho de Dentro. (GULLAR: 2003; 116).

Perceber e organizar o modo de operação dos quadros e dos textos, que a eles se referem, exige do leitor que monte as possibilidades do legível que se inscreve em Relâmpagos.

O livro de Gullar não apenas pontua a percepção do que a arte pictórica revela à leitura, é também uma lição, em pequenos quadros, da composição que os comentários vão expondo. É também, através da “experiência fenomenológica”, um mergulho profícuo na sociologia, na história da arte. Apenas que o móvel que constrói essa história, essa sociologia, muda a percepção de seu discurso teórico e vai se afirmar – com rigor e exatidão – em um ponto onde a percepção do histórico, do sociológico, se torna entranhada na aguda concepção das artes verbal e pictórica em que as leis da representação e de sua técnica mergulham numa complexidade de sentidos que nem a autonomia da técnica, nem a autonomia do tempo representado correm paralelos.

A percepção que o leitor de Relâmpagos vai construindo ao longo da leitura tem a ver com essa predisposição do discurso artístico – sem deixar de ser “crítico, autocrítico e autofágico” – o discurso que se compõe sob os relâmpagos demonstra e se faz tão contemporâneo quanto a arte que se revela de sua escrita, de sua tela folha. Pintura da pintura – escrita da escrita – absorvida pela sua época, o texto de Gullar se revela como os móbiles de Alexandre Calder, que realizam

“se o tocamos… … como que uma reavaliação de seu equilíbrio, de seu sistema de distribuição da gravidade: a pá tocada indaga a outra, esta a haste seguinte, e a indagação, como um murmúrio, vai se propagando dos pequenos sistemas aos maiores até ocupar o sistema geral – o móbile todo.” (GULLAR: 2003; 18)

Tábua de quadros e esculturas:
As meninas – Velásquez
A Madonna do cravo – Leonardo da Vinci
Mulher se penteando – Degas
Nu reclinado – Modigliani
Lês Demoiselles D’Avignon – Picasso
Musa adormecida – Brancusi
Natureza-morta com copos de leite e violino – Bracher
Vaso de plantas com bananas – Raphael Domingues
Aranha Suspensa – Calder

O livro de Paulo Neves, Viagem, espera, é composto por três movimentos que parecem díspares. O leitor ao se deparar com a extensão do que o livro propõe, é levado a pensar em uma coletânea, um ajuntado de escritos, que não estivesse alinhavado por uma intenção. Pensa: uma antologia.

O entrelace das variáveis, em Paulo Neves, entretanto, faz funcionar o livro como peça única, que vai se desdobrando à medida que a leitura e seu imaginário se deslocam do papel para a sensibilidade do leitor. Não só se entrelaça a temática, mas o modo de composição. Algumas construções tornam próxima da prosa a composição do poema; algumas construções tornam próxima da poesia a composição da prosa. Tornar próximas, para o leitor de Paulo Neves, não significa, como quiseram alguns escritores modernos, abolir as fronteiras entre prosa e poesia e fazer desta aquela e daquela esta, mas acentuar o caráter episódico de um fazer poético (e prosaico) que se entende como próprio do escrever. O que significa dizer que, seja em prosa ou em verso, o texto de Paulo Neves é essencialmente poesia.

Tomem-se três exemplos, retirados de cada uma das partes do livro:

O primeiro, retirado dos 40 poemas:

“Como dizer o sentimento exato
do que se passou entre nós?
Palavras breves, aproximação
pelas pontas, justamente,
porque tivemos tão pouco contato.
Reserva de insondável coração
que o tempo me fez descobrir,
poema, tarefa de eternidade:
viver a memória de meu pai
como um sentimento por definir.”
(Meu Pai, 2006. 35)

O segundo, do Caderno de prosa e poesia:

“Por ninharia sofremos e fazemos sofrer. Grandes crimes e pequenas ofensas só se distinguem pela posição que ocupam (mais perto ou mais distantes de nós) num encadeamento de ninharias. Mundo abominavelmente reativo, esse em que vivemos. O criminoso é mais abominável que o jornal que o acusa? Horror ao crime, sim. Mas horror também a essa justiça que alimenta o ódio surdo do qual irrompem os criminosos.”
(Cadernos de prosa e poesia, 2006, 64).

O terceiro, do Crônicas breves:

“As notas vão abrindo as escalas, desenvolvendo seu percurso de iniciantes, como quando a harmonia continha surpresas e os desníveis no seu leito sonoro faziam o ouvido estremecer até o coração. As notas vão brotando singelamente, magicamente dos dedos de meu filho João, alargando a alegria e a tristeza do mundo e perfazendo um infinito em pequena escala que é pura manifestação do tempo, do tempo como eterno aprendiz.”
(O prelúdio nº. 1 de Bach, 2006, 94).

Os três fragmentos tomados acima permitem que se tenha do autor uma pequena amostragem. A linguagem simples, quase direta, banderiana, inicialmente revela ao leitor apenas aquilo que, à superfície do papel, parece querer mostrar-se. A relação do eu com o pai, as artimanhas reativas dos homens, as notas musicais de um aprendiz e a passagem do tempo. Se o leitor quiser, pode simplesmente ater-se ao tema e abster-se até de comentá-lo, tão direta, tão límpida é a linguagem. Entretanto, há qualquer coisa que escapa a essa limpidez.

As arestas com que indaga e responde a si mesmo, (ao pai?), ao contrário da limpidez, funciona como dado do impreciso, do indefinível. Corrompe a escrita e a platitude do leitor se vai, restando nele a incapacidade de abster-se de comentar e esquadrinhar a escrita, por ser assim que a máquina do poema funciona, isto é, ao referenciar/reverenciar o silêncio, que cria a reserva entre os homens (sejam eles pais ou filhos ou estranhos) é da própria confecção do poema que se fala. E ao falar-se, o poema turva a limpidez de iluminações outras que matizam o cotidiano das relações. As relações antes estáveis, protegidas pela clareza da linguagem, se tornam instáveis e interrogam desde o seu âmago a estabilidade com que se percebe o mundo. A própria linguagem se torna opaca, outra coisa que não apenas o comércio cotidiano.

A indagação do sofrimento novamente tematiza – por outras vias – a própria linguagem. Da indagação central – o ato abominável do criminoso – tece-se, nas pontas do discurso, um desvio importante, que vai se desdobrando na indagação tranqüila do próprio ato. O ato deixa de ser ato e passa a ser visto como ato apenas na consolidação da linguagem que o determina, por isso o horror pelo modo com que o jornal prejulga prolongar-se ao próprio sentido de justiça, que se aproxima com certa tensão das características humanas e das ninharias através das quais enxergamos o mundo. A posição do sujeito e da notícia torna maior ou menor o crime. Sujeito que determina o objeto; objeto que determina o sujeito. Instável, a linguagem novamente nos indaga de si mesma.

No sentido clássico, talvez, o texto sobre a execução do prelúdio de Bach seja o que mais se aproxima de uma idéia tradicional da poesia entre nós. Nele vemos a emoção que provoca o leitor a emocionar-se a usufruir a calma desta emoção. Mas é justamente a subversão a este padrão do poético que constrói o texto. À idéia de que a poesia se aproxima da sensibilidade, e apenas nela se constrói, é contraposta uma outra possibilidade reflexiva. À pura sensibilidade se dá o contraste do aprendizado, como a afirmar que a beleza também se encontra no que é executado no processo de aprimoramento. A percepção de que este aprendizado se constrói no tempo e por isso se eterniza é, na concepção da sensibilidade educada, a própria beleza que recupera o passado do já feito e repercute no presente e no futuro. Se se fala da beleza, não menos se teoriza o seu estatuto. A escrita dá voltas e permite ao leitor penetrá-la sob a destreza de um múltiplo texto.

Multiplicidade que, aliás, está na ordem mesma da organização do livro de Paulo Neves. A turvação trava a limpidez e faz com que a linguagem ultrapasse os ditames da escrita e liberte na sensibilidade do leitor uma corda qualquer, que execute o prelúdio nº. 1 de Bach, sempre como quem vivencia a execução da beleza.

O que só se consegue através da precisão da linguagem que Viagem, espera constrói.

A ficção, o terror e a fantasia são gêneros que ainda engatinham no Brasil. Há pouca aposta das editoras e a qualidade do material publicado é baixa, seja qual for a relação de causa e conseqüência. Por isso, o lançamento de A mão que cria deve ser comemorado pelos fãs de ficção nacional.

A Mão que Cria

No livro, Octavio Aragão aposta na ficção alternativa, uma espécie de universo paralelo com a história similar à nossa, mas com pesos e influências diferentes dos acontecimentos. Na realidade proposta pelo escritor, Julio Verne é eleito presidente da França em 1886, logo após a morte de Napoleão III, e promove uma grande corrida tecnológica. Outro detalhe importante é a existência da Fundação Moreau, que busca o aperfeiçoamento de espécies animais e acaba influenciando as experiências genéticas vindouras. Seus seguidores levam os experimentos à frente e em 1916 surge o primeiro projeto bem-sucedido da Fundação, o híbrido homem-golfinho – não só um soldado melhorado, como um excelente trabalhador.

Enquanto isso, um asteróide cai na Sibéria e todas as equipes que vão pesquisá-lo desaparecem. Os segredos em torno desse evento influenciarão de forma decisiva os confrontos da Segunda Guerra Mundial. Qual será a estratégia de Hitler para combater os homens híbridos franceses? Como ele usará o asteróide?

“Valentim Pavlov era o responsável pelas armas e pela organização tática da expedição. O professor Webb, receoso de que sua equipe sofresse o mesmo fim da anterior, ordenou retirada imediata, apesar do arsenal que traziam: doze rifles de repetição winchester, vinte e quatro pistolas e revólveres de vários calibres e até uma nova versão portátil da metralhadora francesa marseilleuse, cuja concepção original era do próprio Julio Verne.”

Octavio Aragão é um escritor seguro. Ele aposta no que está criando e não perde tempo tentando se justificar. É importante haver a lógica que sustente o universo fictício, mas tendo isso estruturado, devemos embarcar na viagem sem olhar para trás, e Octavio sabe disso. A prova concreta é o tempo que voa enquanto acompanhamos o duelo entre Ariano e Lours no presente, e um flashes do passado. No início, as referências podem confundir um pouco o leitor menos acostumado, mas ao se compreender a brincadeira com nomes e fatos reais e a elaborada pesquisa necessária, as citações se tornam qualidades, pontos marcadores da linha do tempo.

“Ao término da Segunda Guerra Mundial, os anfíbios eram um problema em potencial. Mais longevos que os homens comuns, capazes de sobreviver submersos por muito tempo, o maior motivo que os havia atraído à Fundação Moreau era a possibilidade de fugirem da miséria (…) O contingente de híbridos e humanos desempregados na Europa tornou-se uma ameaça à estabilidade social”.

Toda ficção que se preze é um espelho do real. Só é permitido voar, ter a cabeça nas estrelas, quando os pés continuam no chão. Ciente disso, Octavio Aragão tece em A mão que cria críticas à nossa sociedade, alfineta preconceitos, aborda a cegueira religiosa, a falência do modelo capitalista e armamentista e os sentimentos que realmente movem o homem na sua ambição.

Octavio Aragão também é o criador de um dos universos mais ricos da ficção científica mundial, o Intempol.

Na literatura e no cinema, geralmente, crianças param onde não devem por causa da curiosidade. No caso de Coraline não é diferente. Com essa solução narrativa, o escritor Neil Gaiman foi bem tradicional. A diferença está no fato de que Coraline não é um mero detonador da ação, ela é a personagem principal que move a história e é plenamente capaz de resolvê-la.

Coraline e a família se mudam para uma nova casa em um edifício. Logo a jovem descobre que antigamente tudo era uma casa só, e que para poder ser separada em apartamentos, uma das portas foi obstruída com tijolos e cimento. Essa porta misteriosa fica na sala em que a família de Coraline guarda pertences herdados, por isso não deve ser freqüentada. Ponto para Gaiman. Com essa brincadeira ele cria a aura do proibido e da violação, e por conseqüência uma fronteira, antes mesmo de revelar o que há do outro lado. A fronteira é uma idéia a se preservar.

A curiosidade, o faro para a aventura e a indução por seres assombrosos levam Coraline a abrir a porta quando os pais não estão em casa e descobrir que a parede de tijolos deu lugar a um corredor de sombras.

Depois de atravessá-la, Coraline encontra um lugar igual ao que mora, encontra sua casa. Lá há o mesmo quintal, a os mesmos vizinhos, há mesma mobília e sua mãe e seu pai, a princípio. Um pai e uma mãe iguais aos seus, exceto por terem olhos de botões negros. Gaiman os batiza de outra mãe e outro pai.

Coraline de Gaiman

Nesse mundo, Coraline pode ter o que quiser, comer o que quiser, dormir quando quiser. É ela quem manda, não há regras, e esse “sonho de toda criança” a leva a suspeitar de que há algo errado no ar.

A menina não é ingênua. Sabe que esse mundo estranho não pode ser real, pois um lugar onde se pode tudo não tem graça.

E aqui começam as explicações.

Repare nos olhos de botões dos outros pais. A primeira imagem que vem em mente é a de roupas, talvez bolsas, mas ambos carcaças vazias. A roupa sem vestir alguém não tem vida, a bolsa não tem função quando está vazia. Essa idéia de vazio, de falta de essência é exatamente a que Gaiman quer passar. A outra mãe é um ser vazio que precisa de Coraline para estar viva. E por que Coraline e não qualquer outro personagem, mesmo o pai e a mãe verdadeiros de Coraline? Porque senão não haveria livro, na prática e na metáfora em que vamos chegar.

Fugindo do livro, vale perceber que todo escritor quer criar um personagem com alguma essência, quer torná-lo real com conteúdo e sentimentos. Ele não pode ser apenas um ser de letras, deve estar vivo. É essa busca, esse processo de criação que está explícito no livro. Um personagem que precisa se formar e se tornar real.

Bem, e qual é a única pessoa capaz de mover uma história, encarar o desafio e chegar ao final do livro? O seu criador, o escritor. E não é esse o papel de Coraline? Mostrar a história para o leitor, criar o motivo, enfrentá-la e resolvê-la? Pois então, achamos Gaiman e a razão de a outra mãe precisar de Coraline, afinal para viver um personagem precisa do seu criador.

A outra mãe, mesmo vazia, não é um personagem qualquer. Ela almeja o poder do escritor. A outra mãe vive em um mundo equivalente ao criado por Gaiman. O raciocínio-chave no livro é que a outra mãe é incapaz de criar, mas pode copiar, por isso o mundo parecido. Mas o escritor tem uma carta na manga. Ele sabe que a evolução da narrativa em um livro depende de conflitos, e Coraline também, por isso renega a perfeição. Se o conflito avança a história, um mundo sem conflitos fica estagnado, exatamente como o mundo fantasmagórico é descrito, parado no tempo e espaço.

Quando Coraline começa a retornar ao mundo da outra-mãe e explorá-lo, seus pais somem. Visitando os jardins, ela descobre que o falso mundo é finito, que há um ponto onde acaba e há o nada, simplesmente. Esse elemento é perfeitamente compreensível, já que uma personagem vive em um espaço criado e nunca além daquilo. A outra mãe não sabe o que há além, Gaiman nunca a apresentou para mais do que está explicitado no livro de Coraline, e é só isso que ela pode usar. Veja que ela não está restrita ao apartamento de Coraline, ela conhece todo o edifício, os vizinhos e o quintal, o que fortalece a questão.

O escritor/Coraline a princípio não entende o nada. Para um escritor não há o vazio, já que ele pode preencher qualquer espaço. Estar diante de uma limitação o põe em cheque, preso a algo inconcebível. O escritor não pode viver sem a criatividade. E aqui, para ajudar Coraline a tomar a direção correta, surge o gato preto da história.

O gato pode enxergar os dois mundos, está lá e cá sem precisar passar pela porta e o corredor de sombras de Coraline (cada escritor tem o seu). Ele é usado por Constantine como portal para o inferno, em Fumaça e Espelhos defende uma casa do demônio e aqui repete suas artes e manhas.

Assumindo a consciência crítica, ele ajuda Coraline, mas debocha de seus raciocínios, ri quando ela percebe que ele sabe falar. Quando o escritor se pergunta: e agora? eu criei um pequeno universo limitado. Como posso solucionar a equação e levar o leitor ao fim da história? O lado criador e o lado crítico conversam para decidir como proceder. O lado crítico recoloca o criador nos trilhos, fora do nada, de volta ao mundo fictício para enfrentar sua história e sua personagem.

Não é de se estranhar também que Coraline consiga fugir do mundo da outra mãe com a ajuda do gato. Apenas a união das duas faces do escritor pode vencer a própria história.

No seu passeio pelo mundo da outra mãe, Coraline começa a ver que ele não é tão parecido com o mundo real. Conforme vai perdendo o duelo, a outra mãe passa a se parecer menos com a mãe de verdade, assemelha-se a um boneco de pano de olhos vidrados. O outro pai e os vizinhos se tornam amorfos e voltam para o casulo, porque dependiam de um mecanismo de criação falho, o da outra mãe.

Por desobediência (por não querer comer besouros), a outra mãe coloca Coraline de castigo dentro de um espelho. O mundo da outra mãe, como dito, é uma imagem do mundo real, mas com limites. Daí entendemos porque o espaço dentro do espelho também é. Seguindo a mesma regra, a sua imagem / seu interior é uma prisão. A outra mãe não entende o interior de um espelho, já que não carrega em si dimensão psicológica.

Dentro do espelho Coraline encontra três personagens. Os três eram crianças que depois de serem trancadas e esquecidas, desapareceram.

Além de lembrar que só o escritor pode chegar ao fim da história, essa cena mostra uma consciência interessante da outra mãe, o seu instinto de auto-preservação. A outra mãe sabe que uma personagem esquecida deixa de existir com o tempo. Quando não há o leitor para lhe dar a vida, ela desaparece. Por isso a urgência com Coraline.

Coraline duela então com a outra mãe e sai pelo universo espelhado, procurando a alma das três crianças. Essas almas – idéia que a outra mãe não compreende, já que é casca – são agora pequenos objetos, a essência virando o físico, mas desprovido de significado.

Coraline então encontra os pais, mas isso não tem importância na história. O que move Gaiman e Coraline é uma força maior, só entendida no plano metafórico. Quando a menina volta, porém, ainda resta o confronto final. Ao bater a porta do mundo falso com força, Coraline corta a mão da outra mãe e essa vem atrás dela.

Simbolismos e coincidências. Gaiman descreve a outra mãe como uma aranha, que tece a teia esperando que a vítima se embole cada vez mais. A mão que anda sozinha tem a forma de uma aranha, suas pernas e velocidade. Ótima imagem. Seria só isso?

Dentro do confronto escritor x personagem, criador e criatura, a mão ganha um significado maior. Afinal a mão é o instrumento de trabalho do escritor para tecer as tramas da história. Ao lançar a sua mão contra Coraline/Gaiman, a outra mãe está dando a cartada final, está chegando o mais próximo possível do escritor, do que ela entende por escrever.

A mão vem atrás da chave negra, a chave que abriu a porta que antes trancava tijolos e revelou um mundo de sombras, rompeu o limite entre o real e a ficção. A chave é a criatividade, o clique que permite o escritor entrar no seu mundo de imaginação.

O duelo agora é pessoal. A mão da personagem contra a mão do escritor. Coraline porém tem algumas outras armas. É ela quem tem o dom da imaginação. Ela consegue mais do que copiar, ela consegue criar, usar o ambiente ao seu favor. E tem o gato, o seu “eu” crítico junto de si. Assim, nossa heroína Coraline monta uma pequena armadilha sobre um poço velho, usando a chave negra/criatividade como isca. A mão aranha não pensa duas vezes e salta, caindo no poço.

Se é um poço sem fundo que leva Alice para o país das maravilhas, aqui o poço é a condenação. Coraline perdeu sua chave, mas ela não é mais necessária, sua história está pronta com um ponto final, o duelo personagem x criador foi vencido.

O último livro de Vargas LlosaTravessuras da menina má – traz algumas novidades. Neste livro, o escritor peruano adota uma postura narrativa mais direta, sem a presença da simultaneidade de outros romances seus. O resultado, embora bastante curioso, é mais esquemático, até porque, ao constituir a narrativa, opta por grandes blocos, marcados pela periodização histórica, dividindo os capítulos pelas décadas que corresponderão a cada bloco. Assim, no final dos anos cinqüenta e início dos sessenta, encontraremos a menina má às voltas com Cuba e Paris; na metade dos anos 60 e início dos anos setenta, estará em Londres – pátria dos movimentos libertários dos hippies. Nos anos cinqüenta, nos anos oitenta em cada capítulo, um grande tema, que tenha mobilizado a sociedade mundial. Poderíamos até perceber que a própria época – os anos dois mil – está marcada no romance pelo que o romance procura ser – uma inserção na mídia globalizada.

Vargas Llosa - Travessuras políticas da má menina má

Mesmo se inserindo nesta mídia, as travessuras falam do Peru. O narrador – peruano – vive fora de seu país, mas com ele mantém alguns laços. Um tio, com quem se corresponde, um amigo egresso do movimento político e revolucionário – que desaparece na guerrilha. Nada mais.

Llosa busca disfarçar as intenções do romance, criando, na relação da menina má com o desenraizamento do narrador, uma eficaz trama na qual os afetos insatisfeitos movem a intenção das personagens. O livro parece justificar-se e somos tomados pela impressão de que é um romance definitivo, nascido para ser um clássico. Entretanto, há algo que desagrada e termina por contaminar toda a narrativa. A submissão dos encontros e desencontros das personagens a uma realidade prévia – esquemática – como se percebeu acerca da estrutura do romance – é como um subtexto que não se integra verdadeiramente à história, que se narra: são, efetivamente, pretextos tão óbvios, tão evidentes que o trabalho sobre o real carece de uma maior solidez, que contorne os lugares comuns, os clichês da análise política. Ao analisar o papel da guerrilha no Peru, o desenraizado narrador apenas percebe o óbvio. Ao relatar encontro com um ex-combatente da guerrilha, conclui: “No 3 de outubro de 1968, os militares, encabeçados pelo general Juan Velasco Alvarado, deram o golpe que acabou com o regime democrático presidido por Belaunde Terry, este foi para o exílio e teve início uma nova ditadura militar no Peru, que duraria 12 anos.”

À passagem que se citou podem-se somar outras – como as que comentam rapidamente as obras de Paul Auster, de Doris Lessing e de Michel Tournier; como as que comentam a ascensão de Allan García ao poder. Em todas elas o que se percebe são as intenções do autor e não a costura destas opiniões como sendo parte da psicologia do narrador. Ele as profere como um ator que ensaiou bem sua fala; por trás notam-se as idiossincrasias de Llosa. Ademais tudo é tão óbvio e esquemático que o leitor percebe sempre antes que o fato seja narrado o encontro e o abandono, o abandono e o encontro das personagens. Numa sucessão infindável e monótona – afinal, se mudam os cenários, a história é sempre a mesma.

Vargas Llosa escreve um romance ressentido. Talvez por isso tenha se jogado tanto nas entrelinhas da composição, talvez por isso a obviedade política se transforme no avesso de um realismo socialista, cuja intenção foi a de abandonar a preocupação com o que a obra tem mais importante e fulgurante – a linguagem em que os conceitos são expressos – para criar – sob o disfarce do literário – uma obra de propaganda.

Leon Eliachar e seu “O homem ao quadrado” têm um sabor especial. Foi o primeiro livro que li com vontade mesmo antes de conhecer os extra-classes do colégio. Eliachar era um comediante que sabia transformar o livro em instrumento do riso, usando até o sumário, o espaço pra dedicatória, sua biografia e uma lista de obras publicadas como piada inteligente.

“Nasci no Cairo, fui criado no Rio; sou, portanto, ‘cairoca’. Meu nome é esse mesmo, Leon Eliachar, tenho 44 anos, mas me orgulho de já ter tido 43, 42, 41, 40, 39, idades que muitas mulheres de 50 jamais atingiram”.

Na profissão desde os 19 anos, Leon Eliachar foi um dos maiores jornalistas humoristas do país, sendo consagrado por seus trabalhos bem elaborados tanto em rádios quanto em jornais e revistas.

O Homem ao Quadrado
O Homem ao Quadrado – 1ª edição pela Editora Paulo de Azevedo, 1960.
Licença editorial para o Círculo do Livro. – 4ª ed em 1976.

Sua definição de humor “Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros”, levou-o a ganhar o prêmio da IX Exposição Internacional de Humorismo. É com ela que o autor abre o livro “O homem ao quadrado”. Logo após, nos dá uma lista de suas 24 obras literárias, escritas desde 1922. O mais distraído (existe leitor distraído) pode não perceber que 1922 é o ano de nascimento de Eliachar e que os títulos são todos piadas e ditos inéditos. Apenas o último é verdadeiro.

1922 – Por que nasci (inédito)
1924 – Como fazer amigos sem sujar as fraldas (inédito)
1925 – Como fazer fraldas sem sujar amigos (inédito)
1930/1945 – Meus quinze anos de silêncio (censurado).

As invencionices literárias não param nem no sumário. Eliachar o coloca de trás para diante, porque quem ri por último ri melhor. Na sua biografia, citada em parte acima, sugere que “a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse – isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse”. Eliachar encontra o humor no malabarismo das palavras, manuseia o verbo como uma pena na sola do pé.

Ele sabe que o humor não é apenas o sentido aplicado às palavras, e que a própria brincadeira com a fonética pode gerar gargalhadas. Tudo é passível de se transformar em instrumento do riso.

Fisgado pela isca introdutória o leitor chega aos contos, o ponto onde muitos livros de humor costumam começar. São histórias curtas, a maioria de uma página, que prendem a atenção em falsos dramas com piadas escondidas onde menos se espera. Em “a operação” um paciente relata uma operação cardíaca sofrida – transformada em um evento hilário – até que ouve o comentário dos médicos de que irá se salvar. Logo depois descobrimos que está contando a história para São Pedro.  Em “a dúvida” um homem que não acredita que sua mulher vai todo dia ao dentista começa a segui-la e descobre que ela realmente vai ao consultório.

“Foi aí que ele passou a dormir calmamente e a viver tranqüilo. E foi aí que ela passou a ter mais liberdade de trai-lo com o dentista”.

Deparamos-nos então com testes de lógica, onde a única lógica é a graça. Leon Eliachar brinca também com o sentido das palavras, criando um dicionário muito particular.

Biombo – o que separa a curiosidade de um lado e um assunto do outro.
Canhoto – sujeito que só escreve direito com a mão esquerda.

Abusando do visual, o humorista se apropria da arte moderna, faz desenhos, embaralha letras, cria diferentes datilografias fazendo piadas de datilógrafas e, enfim, assume o humor negro, colocando piadas em páginas negras com letras brancas. Em um capítulo só de assinaturas ele subverte o próprio nome e o formato das letras. “Leon Eliachato” e “Leon Eliac” (com desconto) são algumas das criações.

Eliachar mostra ao leitor um consultório sentimental via cartas, dá dicas de educação politicamente incorretas para os filhos, usa os rascunhos do livro para criar um novo capítulo de piadas com as próprias piadas usadas anteriormente. Não há artifício ou espaço não manipulado. Tudo é assunto para o humor inteligente.

Como ele mesmo dizia “humorista bom é o que traz sempre um sorriso nos lábios dos outros”. Infelizmente há pouco material biográfico sobre Leon Eliachar. Transformando-se em sua obra, o que encontramos são relatos do próprio e de amigos próximos, todos mudando os fatos para gerar a piada. O humorista morreu em 1987, assassinado no Rio de Janeiro, supostamente vítima de um homem rico, marido de sua amante.

Quero iniciar dizendo que o sentido da arte está nos olhos de quem a vê. Digo assim, secamente, pois é um pensamento que me assusta como escritor, mas que mantém desperta a mente diante de obras causticantes como “contos frios” de Virgilio Piñera.

Para que entenda onde pretendo chegar é importante que tenhamos o mesmo ponto de partida, que no caso foi a leitura sem conhecimento prévio da obra. Assim, antes de qualquer comentário, dou a vez a Piñera e aos retalhos de “A queda”, texto que abre “cuentos fríos”.

Dois alpinistas, após uma manobra mal-sucedida, percebem que irão despencar.

“Não dissemos palavra, mas sabíamos que o despencamento seria inevitável. Passado um tempo indefinível começamos a rodar. Como minha única preocupação era não perder os olhos, pus todo o meu empenho em preservá-los dos terríveis efeitos da queda. Quanto a meu companheiro, sua única angústia era que a bela barba, de um admirável cinza de vitral gótico, não chegasse à planície sequer ligeiramente empoeirada. Então pus todo o meu empenho em cobrir com minhas mãos aquela parte de seu rosto coberta pela barba e ele, por sua vez, aplicou as suas sobre meus olhos”.

Neste conto, escrito em 1944, Piñeda deixa claro o que espera pelo leitor (e do leitor). A frase seguinte talvez pudesse ser “ou me ame ou me largue na prateleira, pois é disso que vamos tratar e somente disso”. Sem desmembramentos de tramas, descrições geográficas ou necessidade de contextualizar historicamente os escritos, temos acesso a questões simples de moral e de comportamento humano. Sua agonia pessoal nunca está escondida entre linhas, pelo contrário, aparece vermelha como uma fratura exposta. E se o termo agora parece fora de contexto, logo um significado surgirá.

Juntar poesia e Virgilio Piñeda é contrariar críticos fervorosos, mas me arrisco a adentrar esse universo mórbido com os olhos da poética. Construído em cima do absurdo, o universo de beleza e estrutura peculiar se dá através das idéias e pensamentos das personagens, na maioria das vezes anônimas, que narram as histórias. Longe de ser um escritor de ação, é o tempo psicológico que move cada um de seus textos. Ou haveria ação em “natação”, no qual um homem explica o porquê de nadar em uma piscina vazia?

Mas não se engane imaginando uma leitura lenta, um livro arrastado. “Contos frios” instiga, desperta a curiosidade, provoca um vertiginoso virar de páginas e um ligeiro embrulho no estômago. Usando situações assombrosas descritas com naturalidade, aparente frieza, Piñeda faz com que o único movimento possível seja para baixo e impede o leitor de abandonar o texto antes da luz da compreensão, e aqui repito: diferente para cada par de olhos a espreitar este álbum de fotografias literário. Em um processo de auto-análise contínuo, pelo qual tentava expurgar medos e tentações, o autor desmembra literalmente o ser humano que é, e dá respostas aos próprios questionamentos, gerando novos em quem compartilha deles.

“A velocidade crescia como é obrigatório nestes casos de corpos que caem no vazio. Com algum esforço, é preciso reconhecer, íamos salvando: meu companheiro, sua bela barba, e eu, meus olhos. Em cinco trechos perdemos: meu companheiro, a orelha esquerda, o cotovelo direito, uma perna (não recordo qual), os testículos e o nariz; eu, a parte superior do tórax, a coluna vertebral, a sobrancelha esquerda, a orelha esquerda e a jugular”.

Quando seu corpo torna-se pouco, o instinto antropofágico leva o leitor até “A carne”, para acompanhar cidadãos que cortam bifes do próprio corpo para comer. Podem ser lascas da nádega esquerda, lábios, bochechas, peitos ou até o macio do dedão do pé, o que importa é saciar a fome. Ou a um hotel, para a exibição do álbum de fotografias de uma senhora por meses e meses ininterruptos, o que obriga os hóspedes a comerem e defecarem sem sair do lugar. Se em alguns textos Piñeda põe de lado a escatologia, a insensatez não o abandona jamais. O importante é entender que as peças não estão lá por acaso, há sim uma simulação do acaso, com um toque de destino digno de Buñuel e seu “Anjo Exterminador”. Homens em metamorfose virando bonecos e palhaços tristes que transformam seu público em palhaços risonhos são reflexos da visão ácida de um escritor sem paciência para o mundo, cercado de poucos amigos.

“Aproximadamente a uns dez pés de planície, a vara de um lavrador enganchou-se graciosamente nas mãos de meu companheiro, mas eu, vendo meus olhos órfãos de todo amparo, devo confessar que, para eterna, memorável vergonha minha, retirei as mãos de sua bela barba cinza, a fim de proteger meus olhos de todo impacto”.

Piñeda viveu de 1912 a 1979. Sua obra, solo fértil para o humor negro, encontra-se viva em sebos e estantes variadas, com páginas amareladas e cheiro de mofo, do jeito que suas personagens gostariam de ler.

 Virgílio Piñera “Contos Frios” ed. Iluminuras 1989, original de 1956.
Virgílio Piñera   “Contos Frios”   ed. Iluminuras   1989, original de 1956.

Rogério Batalha é poeta. Desconhecido, vem editando seus livros quase que marginalmente. Madureira, Cascadura e Penha (mas não só) são os territórios por onde circula. Pertence, com mais propriedade diria que pertenceria, como quer certa inteligência nacional, a uma das metades da cidade partida. Tem lançados e postos em circulação dois livros: Melaço e Anfíbios. No primeiro, Batalha escreve um belo poema, marcado pelo impacto da chacina de Vigário Geral e pelo que tal chacina provocou, com o surgimento do movimento Afroreggae.

“Sagacidade é saber farejar delícias”. Emblemático e diferenciador, o verso, com que abre o poema, serve de mote para a constituição das diversas diferenças que anoto em sua escrita. Ao contrário do que propõe a partitiva inteligência, acerca da divisão da cidade, o que se verifica na poesia de Batalha se constrói a partir do amálgama das diversidades, de modo surpreendente.

Se a visão da cidade partida cinde a percepção do olhar sobre as manifestações culturais do espaço urbano; se, no além túnel, a arte recebe a chancela do popular; se a inteligência brasileira tem a necessidade de “gostar” de tal arte, muita coisa se perde e em várias sentidos. Deste logo, o rótulo arte popular, arte do subúrbio, arte das favelas esconde uma dignificação exatamente daquilo que não é popular e empurra o julgamento do popular para uma aceitação acrítica. É inaceitável que tal aceitação acrítica se transforme em moeda de troca, ou, com maior crueldade ainda, em uma estética própria, localista, como se um redivivo regionalismo (re) fundasse a arte como expressão sociológica, como arte de combate – ou coisa que o valha –, distanciada das questões estéticas. São diversos os livros e também as músicas que simplesmente se exaltam por esta expressão localista. Não tem sentido, por exemplo, exaltar toda e qualquer arte naïf por ser arte naïf. Há uma grande arte naïf e há também uma horrorosa arte naïf. Há os belos quadros de Nelson Sargento e há aqueles dos retratistas de rua. Não basta, portanto, pertencer ao conceito popular/naïf para que a manifestação artística se torne aceitável.

Batalha tem a vantagem de saber disto. Sua poesia, embora fortemente enraizada, busca outra percepção, outro diálogo. Não se aceita como representante estanque do localismo, nem do ferrolho – imposto pelos que “gostam” da arte popular – de uma poesia frágil, porém bacana. Senão, leia-se em Melaço:

Os cambaus, esse mundaréu é meu!
Perebento e muquirana é a mãe!
Eu não sou do seu naipe!
Eu tenho gogó mermão!
Anchova é o caralho!
Eu sou é enchova de dentes afiados!

Sutilezas. Cambaus – peça triangular que se põe no pescoço das cabras para evitar que pulem as cercas. Anchova/enchova – a cerca lingüística ultrapassada pela significação mínima ao nível da expressão. A relativa abertura da medial /ã/ reescrita pela nasalização entre dentes, realiza, com uma concisão de miniaturista, o que o poema anuncia no plano semântico – a quebra das fronteiras. E a ela acrescenta não só a auto-noemação, enchova, como também a rejeição à nomeação que, de fora, tentam lhe impor, anchova.

A partir desta dupla significação, o poeta mostra os dentes afiados, se acrescenta em força e qualidade e requer para si a vasta possibilidade da sagacidade:

Podre podre
Presidiário
Podre podre
Crucificado
Podre podre
Amortalhado
Podre podre
Desumanizado
Podre podre
Torturado
Podre podre
Entulhado
Podre podre
Desovado
E mesmo assim, Afroreggae.

Atentem para o “e mesmo assim”.

Poses de Ricardo Daunt, como todo bom livro, tem histórias internas e externas. Por dentro são 15 textos que se dividem em contos e novelas, do lado de fora são 30 anos desde o primeiro livro e 15 anos longe das livrarias. Esse longo período de gestação influenciou tanto a feitura do livro, quanto influencia a leitura. Saber que lá está um percurso de quinze anos de vida torna mais intrigante a conexão livro-leitor. “Existe a pose do homem solitário na poltrona, a pose do artesão exigente, a pose do objeto de museu”, diz Daunt. Em cima desse primeiro registro capturado – a situação síntese – o escritor compõe com precisão os recortes de vida dos personagens e explora locações, tempos e situações que nos levam a desbravar sentimentos próprios e alheios.

“E você ficou sobre os joelhos, e depois se sentou sobre os calcanhares, as cordas de suas coxas retesadas, uma das mãos tocando de leve minha perna, a outra, alheia, um pouco abaixo das axilas” – 5 monólogos tradicionais.

Ricardo Daunt - Poses Poses não é uma obra estática nem no conteúdo nem na forma. O primeiro retrato jamais se repete no segundo, o que ecoa é a complexidade dos personagens, às vezes próximos de nós, às vezes deslocados para outra realidade, unidos ao nosso olhar por uma ponte crítica metafórica. Logo no conto que abre o livro, nos deparamos com o universo da estranheza, acompanhando um ourives que transpõe o perfeccionismo e vive o próprio ato, num paralelo ao filme The Prestige. A sua busca pelo corte perfeito encontra ecos no passado amoroso, e o rubi, no lugar do coração, pulsa e se mistura às emoções. Essa interface entre criador e criatura é sintomática em Poses, um sinal de que a crítica é também autocrítica.

No conto Ix, o humor se une ao quebra-cabeça. É uma ficção científica de brincadeiras entre significante e significado, que gera a nave Laborex, os monitores Gossipex, a estação Descartes e uma importante decisão. No gabinete de Ralph, um dos pontos altos, um herdeiro revive a história da família Osborn por meio de fotos e legendas de um álbum. É um conto sensível que recria uma época industrial de relações de poder elaboradas e sensíveis às leis sociais, com o rigor forçado da estrutura familiar valendo como moeda de respeito.

Outro destaque é La rosa blanca. Visual e poético, o conto leva o leitor para a Cuba pré-Fidel Castro e mostra sua influência sobre uma família. O limiar entre ficção e realidade é quase lírico. Enquanto o charme do país funciona de pano de fundo, Daunt tece cuidadosamente a personagem Lenita na sua descoberta do mundo.

“Nas raras vezes em que o Ralph de carne e osso cruzou meu caminho, tive a nítida impressão de que seu olhar me acusava de me haver apropriado de algo que lhe pertencia com exclusividade. Mudamente eu também o acusava, porque ele interpôs em nossa virtual relação uma distância que jamais seria vencida”. – O Gabinete de Ralph.

Ricardo Daunt tem um currículo extenso. Com Poses, encerrou a tetralogia Ciclo Urbano, que conta ainda com Homem de prateleira (1979), Grito empalhado (1979) e Endereços Úteis (1984). É autor de Manuário de Vidal e Anacrusa, entre outros. Um breve resumo de sua biografia já daria uma novela curta, repleta de reviravoltas, encontros e desencontros com a vocação de escritor, contato com diferentes culturas e viagens pelo mundo, talvez um reflexo da proposta estrutural de Poses. Vislumbrando o sumário de passado e os projetos do futuro, uma coisa é certa, Ricardo Daunt está em atividade contínua, explorando as variantes mais atrevidas de seu número, assim como Fausto no conto Mágico.

“A sua rebeldia contra os críticos é mais um problema metafísico seu, do que uma crise de consciência deles (…) Ora, se a arte é resultado de um agregado de decisões técnicas conseqüentes, cabíveis, complexas, tomadas por quem assina, ela é necessariamente um objeto cognoscível”. – Blake versus Claude.

Ricardo Daunt, livro Poses, ed. Via Lettera.

O universo literário está cheio de interpretações. Os escritores mastigam o mundo ao seu redor e cospem os resultados no livro. Elvira Vigna é uma escritora peculiar nesse sentido, pois consegue pincelar o fato por trás da interpretação, dando às suas histórias um caráter de realidade raramente visto em outras obras. Mais do que estatura e corte de cabelo, as personagens têm vida, passado, presente e futuro para povoar o livro, sendo tão (ou mais) orgânicos quanto eu e você.

Seu estilo, para quem curte rótulos, é o policial sem polícia. O mistério não nasce da pista largada no chão, da saliva na guimba do cigarro ou do mágico teste de DNA. A densidade narrativa surge do interior dos personagens, do eu incontido que anseia marcar seu território mas decide manter para si (e para o leitor) os próprios mistérios. O policial aqui é o da motivação do crime. O instinto primordial substitui o circo detetivesco já desgastado nos livros e seriados.

“Segue com sua bunda em direção ao caminho das pedras. Chamo por ela. Pára no meio de um cinza quase opaco. Corro até ela. Dou mais um abraço. Ela ri, também me abraça. Depois, o que lembro é de voltar e pensar que tenho que fazer algum plano. É bom fazer planos. Nunca funcionam, mais distrai”.  – Deixei ele lá e vim, Elvira Vigna.

Quando escreveu O assassinato de Bebê Martê, Elvira criou um dos grandes personagens da literatura brasileira. Riquíssimo, Bebê Martê evocava uma aura de sedução e perversidade inerente a todo ser humano que se encara diante do espelho. Em Às seis em ponto, Elvira armou em torno de As meninas de Velásquez a mítica que desnudava pouco a pouco a delicada relação e os segredos de uma família. Coisas que os homens não entendem deu de presente para o leitor um recorte de Santa Teresa, onde Nita, personagem principal, influenciava em sutilezas as vidas que se tocavam com a sua. A um passo, uma obra vanguardista, surpreendeu pela história de vingança que tangencia A Tempestade de Shakespeare e pela estrutura que cuidadosamente trabalha os espaços narrativos, num estilo de dar inveja a Abbas Kiarostami.

Chega então às livrarias Deixei ele lá e vim, seu quinto trabalho policial. Agora a narradora é Shirley Marlone, alguém sem um lugar pré-determinado no mundo. Com o pé fora do quartinho no Vidigal e a idéia fixa de ir para São Paulo – o lugar onde as coisas acontecem, Shirley tenta fugir não mais do passado, mas do presente. Alguém que margeia classificações sociais e sexuais (ela é um travesti), que se confunde da base ao topo da pirâmide, Shirley é do tipo que anda sem querer chegar ou partir. O seu lugar é a viagem, é o caminho, esse meio do percurso que nos atrai. A fuga de si mesmo, na verdade, é a revolta por não entender como tudo parece tão arrumadinho, como as pessoas podem adequar-se às situações (não importa quais), como o loiro do cabelo combina tão bem com o brilho do sol, como os sorrisos podem ser milimetricamente encaixados nos rostos daqueles que se dizem felizes. A fuga de si mesmo é metalingüística da narrativa cíclica de Elvira Vigna, pois põe a personagem numa busca da própria identidade.

Quando decide ir embora e sai do Vidigal, Shirley passa em um hotel na praia para se despedir da amiga Meire. Da favela para a Zona Sul, acompanhamos Shirley em um dia de indecisão, e nos envolvemos com seu jeito agradável de ver o mundo. É inevitável se identificar com a atmosfera do livro, o deslocamento de Shirley pelas páginas. Quem nunca se sentiu fora do lugar ou achou a vida alheia perfeita demais? Quem nunca se sentiu melancólico e depois extraiu humor da melancolia?

Quem lê toda a obra percebe um detalhe curioso. O Assassinato de Bebê Martê e Às Seis em Ponto são livros claustrofóbicos, daqueles em que o carro, o apartamento transbordam sentimentos, lembranças, aquele lodo familiar depositado anos e anos pelo tempo, feito de folhas mortas, fotos queimadas na tentativa de apagar o que não se pode.  Coisas que os homens não entendem coloca a personagem dividida entre dois pontos. É Nova Iorque, é Santa Teresa e uma vida nesse meio. Me lembro das caminhadas pela rua e de um pedaço em que a personagem assiste TV sem som, lá pro final, e a sensação de claustrofobia estava de volta, um momento rápido, minutos antes da conclusão.

Em Deixei Ele Lá e Vim não há mais claustrofobia, não há dois pontos para se perder entre, os cenários são abertos, há uma praia, um deque num hotel, e uma personagem buscando seu espaço, alguém que adoraria estar perdida entre dois pontos, de ter dois pontos, um de bom tamanho, que se sentiria feliz na claustrofobia. Sem ter onde pisar, só com a areia – que nunca é firme – servindo de apoio, um chão e quatro paredes que desabam sobre si podem parecer reconfortantes. É uma ilusão claro, mas uma ilusão desejada quando se luta tentando encontrar um lugar no mundo.

A força de Elvira Vigna está no drible do óbvio. As personagens do livro estão ao nosso lado na rua, no bar, no escritório. A parede imaginária que separa o leitor do território policial é rompida. Ele se identifica com os cenários, encaixa nas situações fragmentos de memória, sons e cheiros do cotidiano. Discretamente, enquanto narra, surge o ciúme, a traição, o bolo de dinheiro. E o melhor é que no meio disso vem o tiro, o assassinato.

“Meire está ali, de pé na minha frente. Sua cara é a única coisa que muda num mundo em que nada muda há muito tempo. Então acompanho cada músculo, é o que há para olhar. Ela tenta, com a bochecha que incha e desincha, a velha brincadeira sobre o aventalzinho. Porque é ridículo, o aventalzinho de babadinho. Mas tanto eu como ela já sabemos disso, e então ela pára. Depois olha para os meus peitos chatos. Ridículos, os peitinhos”. Deixei ele lá e vim – Elvira Vigna.

Comece-se com uma observação simples.

Pedro Juan Gutiérrez, ao escrever seu último livro, O ninho da serpente, memórias do filho do sorveteiro (2005), reafirma, na contemporaneidade, o privilégio do erótico e sua ligação com o pensamento político. A prevalência do erótico, numa obra como a de Gutiérrez, é fundamental para que se possa compreender o significado que assumiu o discurso do fato político no nosso tempo. Num misto de desencanto e afirmação da precariedade do mundo, Gutiérrez, por habitar um espaço social e político demarcado pelo totalitarismo e pelo isolacionismo econômico, pôde verificar duplamente a face do desencanto. Em sua recusa, expressa em todas as suas obras, por abandonar Cuba; em sua recusa por aceitar essa Cuba invadida pela prostituição e pela corrupção, determina a dupla condenação. Ao mesmo tempo elege o estrangeiro como um não lugar e o lugar como estrangeiro, o sujeito nem aqui nem ali é mais sujeito da história, senão que boneco de um teatro de líderes sem cara, como Octávio Paz (Paz, 1987, p. 62) lê o desencanto da história:

Enquanto leio no México, que horas
Se faz em Moscou? É tarde, sempre é tarde,
Sempre na história é noite e horas mortas .

Solyenitzin escreve, o papel arde,
Sua escrita avança; cruel, a aurora
nos planaltos cheios de ossos.

Fui covarde
Não enxerguei de frente o mal e hoje o século
Corrobora o filósofo:O mal? Um par de
Olhos sem cara, um repleto vazio.
O mal: um alguém nada, um algo nada.

Stalin teve cara? A suspeita
Comeu-lhe cara e alma e arbítrio.

Povoou de medo sua noite desalmada,
Sua insônia deixou a Rússia despovoada.

Sujeito da história, o medo emblemático dos líderes compõe tanto em sua parca visibilidade quanto em sua total invisibilidade um lugar descentrado, cujo discurso se apropria do corpo e, dele fazendo uso, elege-o – seja nos discurso de reconstrução do corpo combalido pela idade, seja no corpo promíscuo da baixa prostituição, do onanismo – como o único espaço possível de um combate previamente perdido. O erotismo de Pedro Juan Gutiérrez é o erotismo do nojo, do gosto pelo nojo, ou ainda, da consciência do sujeito como ser viscoso e repelente. O submundo se redesenha pela impossibilidade e pelo desejo desglamourizado.

Não sei quantas horas depois resolveu parar. Levantou da cama e acendeu a luz. Antes não tivesse acendido.

__ Ai, menino, você me ralou a boceta. Gosta tanto assim?

__ Gosto.

Por fim a vi nua. A barriga flácida, as pernas e as coxas cobertas de varizes, os peitos grandes e caídos, a pele suja e encardida, os dentes amarelos e podres. Olhou para mim com as mãos na cintura e riu:

__ Gosta mesmo de mim? Olhe bem.

E deu um giro, alegre, como uma modelo, como uma ninfa púbere com todas as medidas do cânone grego. Olhei bem para ela e me deu raiva de mim mesmo. Ou asco. Não sei.
(Gutiérrez, 2005 p. 15 -16)

Desglamourização que é também política:

A rotina era dura. Por sorte, um grupinho dos mais espertos descobriu uma bezerra não longe dali. Preta, linda, com uns olhos sonhadores. Era de um caipira que a deixava a noite toda amarrada num bosquezinho junto com a vaca. Ficamos viciados. Quase toda noite íamos, a turma inteira, trepar com a bezerra. A vaca não, porque estava sempre com o cu cagado e, além disso, a vagina era enorme. Mas enorme. A bezerrinha, ao contrário, era um docinho. Pequenininha, apertada, quente e vermelha. Belíssima. Às vezes, éramos até dez. Um atrás do outro. Calculamos que ela recolhia por noite um litro, um litro e meio de sêmen em sua vaginazinha. A juventude de aço tinha de se distrair um pouquinho. Para não ficarmos loucos.

O político liberal havia trazido com ele de Havana uma pequena biblioteca e a colocou à nossa disposição: desde as obras escolhidas de Marx, Engels e Lênin até alguns volumes de Mao e Kim Il Sung. O melhorzinho eram os romances do realismo socialista: Um homem de verdade, A  fortaleza de Brest, Os homens de Panfilov, A estrada de Volokoamsk, os livros de Sholojov sobre o rio Don. Enfim, não havia mais nada. E nem toda noite dava para ir para cima da bezerra, porque senão a gente acabava matando a coitada. Então li aquilo tudo. Sem comentários.

Faz tempo que o Google deixou de ser apenas uma ferramenta de busca. Além de pesquisa de imagens, pesquisa em blogs, programa de chat e e-mail, orkut, blog, agenda pessoal e Youtube, uma aposta importante da empresa é a pesquisa de livros.

É difícil colocar direitos autorais e internet em uma mesma frase sem usar a palavra polêmica. Foi assim com a música, com vídeos e está sendo com os livros. A idéia do Google é digitalizar livros e colocar seu conteúdo disponível em ferramentas de busca. As obras livres de direitos autorais estariam disponíveis na íntegra, e caso contrário, o usuário teria acesso a partes dos textos.

O Google Book Project conta com parceiros de peso, como a Biblioteca Pública de Nova Iorque, a Universidade Complutense de Madrid, o que significa ter livros em inglês, espanhol, alemão, francês, italiano e latim.

Para alguns pode ser novidade desprender o conteúdo do papel, talvez com ecos no e-book, que um dia foi cogitado como uma grande ameaça ao mercado editorial, mas não ganhou a força esperada.

O duelo entre tradicionalismo e tecnologia, entretanto, dispersa informações importantes. A polarização do debate destaca o preto e o branco e oculta o cinza, a área mais rica em argumentos e questões. Vale a pena, por exemplo, trazer o conceito de pocket book para a discussão. Feito em papel de menor qualidade, tamanho reduzido e com custos menores, o pocket desafia o conceito de livro-objeto e explora o papel como mero transporte de conteúdo. Um pocket pode custar 50% mais barato do que seu equivalente em formato tradicional. Qual livro você preferiria? Um com capa mais elaborada, melhor diagramação – com a visão se acomodando melhor durante a leitura – e que brilhasse no escuro ou o formato pocket? Isolando questões de custo e qualidade e pensando apenas no tamanho, qual o livro preferencial de uma população que tem como tempo livre o percurso de casa até o trabalho, dentro do ônibus e do metrô? É mais provável que o leitor compre o livro que não pesa na bolsa ou a vontade de ler não encontra barreiras no peso?

Acrescente o livro gratuito nessa equação. Pense também na venda pela Internet, a venda em bancas de jornal, postos de conveniência, formato e-book e audiolivro.

A tendência – como em qualquer área de negócios – é ganhar novos adeptos conforme o processo se consolide. A palavra polêmica aos poucos se transforma no sinônimo debate, pois onde há lucro, há negociação. A virtualização é um processo contínuo, uma conseqüência prática do hipermodernismo. O site Second Life está aí para confirmar a teoria.

Por fim, é importante separar o conceito da busca virtual em livros com a idéia do “livro para todos”. Por mais que a mecânica da Internet seja democrática, o acesso a ela ainda não é.

Não espere nada superficial de Ana Paula Maia. A escritora descobriu-se nas entranhas humanas e tem desbravado rins e intestinos desde então. Quando li O habitante das falhas subterrâneas, seu primeiro romance, tive que lidar com a irritação causada por Ariel. Só continuei a enfrentá-lo e virar as páginas porque o personagem imaginava ter um tumor na cabeça. As estranhezas me comovem. Também já achei que tinha um tumor na cabeça, todo maluco já achou. Os seus demais textos também causam essa mistura de repulsa e cumplicidade.

Desde o primeiro romance, Ana Paula participou de antologias de contos e microcontos e mergulhou de cabeça em A guerra dos bastardos. Ela trabalhava no romance quando foi convidada por uma agente italiana a participar de Sex’n’Bossa, um livro de contos eróticos de autores brasileiros. O conto tem o nome sugestivo de Não se deve meter em porcos que não te pertencem e foi seguido de Até os cães devoram os próprios donos com lágrimas nos olhos. Esse foi o berço de Edgar Wilson, um abrutalhado que mata porcos e os leva para frigoríficos. Ele mexe com tripas como quem arruma a casa e não tem pudores de transar com cadáveres suínos.

Ana Paula Maia

O personagem se desenvolveu. Acabou ganhando um folhetim de 12 capítulos publicado na internet sob o nome de Entre rinhas de cachorro e porcos abatidos, uma dessas histórias com cara de HQ adulto com sangue, sexo, e prazer e dor a gosto do freguês. O escrúpulo dos personagens é regido por uma lei própria, limiar à nossa. O matadouro improvisado de Edgar agora é chamado de oficina e seu machado de corte não se incomoda de igualar as tripas humanas às animais. Os guinchos de um porco de costelas expostas têm a mesma dignidade do choro de traidores quando recebem a primeira machadada na orelha.

“Edgar Wilson sofre de um raro tipo de aversão irracional, desproporcional, mórbida e persistente à galinhas. Ele se envergonha muito e guarda isso em segredo.
Pedro segura o porco firmemente, enquanto Edgar Wilson apanha o machado. ‘Não deixe escapulir novamente’, resmunga Edgar, que acende um cigarro, para logo em seguida suspender o machado”. — Entre rinhas de cachorro e porcos abatidos

Procurando mais espaço, Edgar Wilson acabou entrando para o time de A guerra dos bastardos. Quem quiser ter um gosto da história pode ler o conto Teu sangue em meus sapatos engraxados no livro Contos sobre tela ou espiar o folhetim no blog da autora.

“Um suave tilintar de sininhos angelicais permeava à sua volta acompanhado de um forte odor férrico. Ao acordar, uma cavidade rasgada em seu antebraço, os dentinhos cravados na carne até os ossos, lambuzada de sangue morno, os olhinhos brilhando no princípio das trevas; fezes, sangue e saliva dentro da ferida exposta com as veias arrebentadas e corroídas fluindo através da garganta de Rasputin.” — A guerra dos bastardos

Ana Paula diz que o novo romance nada tem a ver com O habitante das falhas subterrâneas, por isso é difícil prever reações e recepção. É uma história longa, que exige dedicação extra para seguir os acontecimentos. Novamente, aposta nos personagens masculinos, os tais bastardos do título. Pelo que pôde ser visto até agora, será um novo mergulho no lado sombrio do ser humano. Sombrio não só porque tudo é possível.