Aos 20 anos, Viktor Horsting deixava sua Geldrop natal para estudar na Academia de Arte e Design em Armhem, também na Holanda. Obviamente, nada sei sobre suas expectativas. Contudo, sei dizer o que aconteceu: Viktor teve um encontro consigo mesmo. E não, não há nada de existencialista nisso. Ele, de fato, encontrou outro que era ele próprio, melhor dizendo, que era seu duplo.
Horsting conheceu Rolf Snoeren, que saiu de Dongen com o mesmo propósito de estudar moda em Armhem. Mas as semelhanças não param por aí. Além da nacionalidade, ambos nasceram em 1969, ambos desenhavam e pintavam desde bastante jovens e, sobretudo, têm uma semelhança física impressionante (reforçada, hoje em dia, por usarem roupas, acessórios e cortes de cabelo iguais). Aliás, não foi difícil encontrar comentários dizendo que, inclusive, um completa a frase do outro durante as entrevistas.
Certa vez, um deles diria: “Nossos gostos e ambições estavam no mesmo nível. Parecíamos-nos estar atraídos pela moda do mesmo jeito”. O fato foi que em 1992 veio a graduação e, em seguida, a mudança para um pequeno apartamento em Paris, a capital da moda. Lá, enfim, transformaram-se em um só: Viktor & Rolf (V&R), dois trabalhando como um designer.
Em abril de 1993, a primeira coleção de haute couture, que lhes garantiu três prêmios (Prix de la Presse, Prix du Jury e Prix de la Ville) no Festival Internacional de Moda e de Fotografia de Hyères, no sudeste da França. Passados 18 anos, Horsting e Snoeren ainda causam frisson com suas criações, organizando, a cada temporada, desfiles concorridíssimos na concorridíssima Semana de Moda de Paris.
Mas, o que há de tão especial no trabalho desses holandeses? Mais fácil seria dizer o que não há. Acima, utilizei a palavra desfile, por ser o termo técnico como isso é conhecido. No caso deles, no entanto, melhor seria performance, espetáculo em que o artista atua com inteira liberdade. Como uma espécie teatro, cenários, iluminações, músicas e atuações são pensados para transmitir o espírito por trás da coleção, para contar uma estória. Diria o The Independent, da Inglaterra: “Their extravagant catwalk productions have won Viktor & Rolf a reputation as fashion’s most flamboyant showmen”.
Assim, na passarela deles, além das modelos (claro), já passaram dançarinos de baile, a atriz Tilda Swinton (que foi a musa de uma coleção inteira – One Woman Show, de outono-inverno 2003/2004. Todas as modelos tinham cabelo e maquiagem feitos de modo a parecer idênticas à atriz) e os cantores Tori Amos, Rufus Wainwright, Grace Jones e Róisín Murphy. Além disso, tudo já foi posto de cabeça para baixo (Upside Down, de primavera/verão 2006), as roupas já foram utilizadas como chroma-key (Bluescreen, outono/inverno 2002/2003), o desfile já foi totalmente virtual e com uma modelo só, a canadense Shalom Harlow (Shalom, primavera/verão 2009), et cetera.
As roupas que criam, como já era de se esperar, não destoam em nada da forma de apresentação. Muitas parecem verdadeiras esculturas móveis, outras são de tamanhos deformados, muito maiores do que o normal, ainda há aquelas que possuem dúzias de camadas e inúmeras sobreposições. Quando se trata de costura, Viktor & Rolf jogam com as formas das coisas e com aquilo que achamos convencional, o resultado são peças surreais. Já criaram, por exemplo: casacos com a palavra “NO” esculpida, em altíssimo relevo, no e com o próprio tecido; vestidos com a frase “I Love You” escorrendo pela roupa; roupões que parecem camas, com edredom e travesseiro acompanhando; vestidos que deveriam ser usados ao contrário; camisas com inúmeras golas e punhos; etc.
Na coleção apresentada em Hyères, as peças já tinham esse formato “anormal”. Sobre isso, Viktor e Rolf explicaram: “The extreme silhouettes and multiple layers, concealing and disfiguring the wearer’s body, express the alienation we felt in the city of fashion”. Portanto, para além de uma lógica unicamente sistêmica, de novidades e tendências com data de validade (a cada ida e vinda de estação), esses holandeses produzem coleções carregadas de significado, o que os faz ficar no limite entre arte, design e moda.
“Nós começamos mais no mundo da arte, mostrando nosso trabalho em galerias e museus, mas com a ambição de nos tornamos designers de moda. Nosso trabalho sempre foi sobre moda e, então, mudamos mais para o sistema da moda, primeiro fazendo haute couture e, depois, fazendo ready to wear [prêt-à-porter]. Agora, nós estamos cada vez mais infiltrados no sistema, mas, ao mesmo tempo, temos a ambição de trabalhar à margem dele, de sermos artistas, de sermos artistas de moda”.
Nessa lógica, inúmeras vezes já manifestaram seu descontentamento com o ritmo do fashion world, com a velocidade imposta ao criador, cuja criatividade fica refém do calendário. Os grandes estilistas apresentam, no mínimo, duas coleções por ano (primavera-verão/outono-inveno), além disso, muitos têm que apresentar pré-coleções, sem contar linha de acessórios, bolsas, etc. Para protestar contra essa “obrigatoriedade”, Viktor & Rolf já entraram em greve, anunciada em propaganda e posta em revistas parisienses, proclamando: “Viktor & Rolf on strike!”
Essa preocupação com o tempo e com a descartabilidade das criações, aliás, foi tema de outros desfiles da marca, como Silver, do outono inverno de 2006-2007. A partir da tradição holandesa de preservar sapatos de bebê cobrindo-os de prata, a V&R elaborou roupas com essa inspiração. À época, explicaram: “The idea is about treasuring things you love the most, and freezing these moments or experiences. We decided to ‘freeze’ icons of fashion, so silver is on trenches, cocktail dresses and little black dresses, which is a contradiction because fashion is nowadays all so fast”.
Contrariamente à velocidade, Viktor e Rolf quiseram parar o tempo. Ainda assim, a efemeridade do mundo que escolheram é implacável. Seu espetáculo dura entre 12 e 15 minutos e é apresentado uma única vez. Às vezes, nem há o tempo para palmas, a platéia escolhida sai às pressas para outro desfile no salão logo ali ao lado ou para que outro desfile seja organizado no mesmo espaço. Ainda assim, sua arte, carregada de sentimentos e expressão, jamais deixa o espectador ileso.
+V&R
1999 – Russian Doll – Outono/Inverno 1999-2000
De haute couture, esse deve ser o desfile do início da carreira de Viktor & Rolf que mais tem referências na internet. Havia apenas uma modelo, Maggie Rizer, posicionada sobre uma plataforma circular móvel, com um vestido bastante simples. Depois, entraram os estilistas que, a cada volta da plataforma, colocavam uma peça de roupa (cada vez mais elaborada e elegante) sobre a modelo, vestindo-a em camadas, como as famosas bonecas russas (matrioskas).
2000 – Stars and Stripes – Outono/Inverno 2000-2001
Trata-se da primeira coleção feminina ready to wear da marca, mostrando uma maior inserção no fashion system.
2001 – Black Hole – Outono/Inverno 2001-2002
Viktor & Rolf sentiam-se tristes. E o resultado? Uma coleção integralmente preta. Não só nas roupas, todas as modelos estavam integralmente pintadas de preto, mesmo dentro dos ouvidos e nariz. A única coisa que se via eram os olhos. “The only part that shone was the eyes. They looked like cats.”
2003 – Monsieur I – Outono/Inverno 2003-2004
Primeira coleção masculina da marca. Também ready to wear.
2004 – Flowerbomb
Voltada para o público feminino, essa é a primeira fragrância da marca. A embalagem lembra uma granada de mão cor-de-rosa.
2006 – Viktor & Rolf love H&M
Seguindo os passos de Karl Lagerfeld, atualmente estilista da Chanel, os holandeses criaram uma coleção especial para a gigante H&M. Para entender melhor, é similar ao que acontece com marcas como C&A e Riachuelo, que selecionam alguns estilistas para elaborar coleções de fast fashion.
2008 – The House of Viktor & Rolf
A galeria Barbican, de Londres, organizou uma grande retrospectiva da obra de V&R. Roupas de todas as temporadas foram selecionadas e, além da apresentação em tamanho normal, foram reproduzidas, com total fidelidade, para caber em bonecas de porcelana, feitas especialmente para a mostra. As bonecas, inclusive, usavam a mesma maquiagem e o mesmo cabelo das modelos que apresentaram a roupa no desfile. Tudo era tão detalhado, que até cabelo de verdade foi utilizado.