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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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03/08/2011

Horsting & Snoeren

Aos 20 anos, Viktor Horsting deixava sua Geldrop natal para estudar na Academia de Arte e Design em Armhem, também na Holanda. Obviamente, nada sei sobre suas expectativas. Contudo, sei dizer o que aconteceu: Viktor teve um encontro consigo mesmo. E não, não há nada de existencialista nisso. Ele, de fato, encontrou outro que era ele próprio, melhor dizendo, que era seu duplo.

Horsting conheceu Rolf Snoeren, que saiu de Dongen com o mesmo propósito de estudar moda em Armhem. Mas as semelhanças não param por aí. Além da nacionalidade, ambos nasceram em 1969, ambos desenhavam e pintavam desde bastante jovens e, sobretudo, têm uma semelhança física impressionante (reforçada, hoje em dia, por usarem roupas, acessórios e cortes de cabelo iguais). Aliás, não foi difícil encontrar comentários dizendo que, inclusive, um completa a frase do outro durante as entrevistas.

Certa vez, um deles diria: “Nossos gostos e ambições estavam no mesmo nível. Parecíamos-nos estar atraídos pela moda do mesmo jeitoâ€. O fato foi que em 1992 veio a graduação e, em seguida, a mudança para um pequeno apartamento em Paris, a capital da moda. Lá, enfim, transformaram-se em um só: Viktor & Rolf (V&R), dois trabalhando como um designer.

Em abril de 1993, a primeira coleção de haute couture, que lhes garantiu três prêmios (Prix de la Presse, Prix du Jury e Prix de la Ville) no Festival Internacional de Moda e de Fotografia de Hyères, no sudeste da França. Passados 18 anos, Horsting e Snoeren ainda causam frisson com suas criações, organizando, a cada temporada, desfiles concorridíssimos na concorridíssima Semana de Moda de Paris.

Mas, o que há de tão especial no trabalho desses holandeses? Mais fácil seria dizer o que não há. Acima, utilizei a palavra desfile, por ser o termo técnico como isso é conhecido. No caso deles, no entanto, melhor seria performance, espetáculo em que o artista atua com inteira liberdade. Como uma espécie teatro, cenários, iluminações, músicas e atuações são pensados para transmitir o espírito por trás da coleção, para contar uma estória. Diria o The Independent, da Inglaterra: “Their extravagant catwalk productions have won Viktor & Rolf a reputation as fashion’s most flamboyant showmenâ€.

Assim, na passarela deles, além das modelos (claro), já passaram dançarinos de baile, a atriz Tilda Swinton (que foi a musa de uma coleção inteira – One Woman Show, de outono-inverno 2003/2004. Todas as modelos tinham cabelo e maquiagem feitos de modo a parecer idênticas à atriz) e os cantores Tori Amos, Rufus Wainwright, Grace Jones e Róisín Murphy. Além disso, tudo já foi posto de cabeça para baixo (Upside Down, de primavera/verão 2006), as roupas já foram utilizadas como chroma-key (Bluescreen, outono/inverno 2002/2003), o desfile já foi totalmente virtual e com uma modelo só, a canadense Shalom Harlow (Shalom, primavera/verão 2009), et cetera.

As roupas que criam, como já era de se esperar, não destoam em nada da forma de apresentação. Muitas parecem verdadeiras esculturas móveis, outras são de tamanhos deformados, muito maiores do que o normal, ainda há aquelas que possuem dúzias de camadas e inúmeras sobreposições. Quando se trata de costura, Viktor & Rolf jogam com as formas das coisas e com aquilo que achamos convencional, o resultado são peças surreais. Já criaram, por exemplo: casacos com a palavra “NO†esculpida, em altíssimo relevo, no e com o próprio tecido; vestidos com a frase “I Love You†escorrendo pela roupa; roupões que parecem camas, com edredom e travesseiro acompanhando; vestidos que deveriam ser usados ao contrário; camisas com inúmeras golas e punhos; etc.

Na coleção apresentada em Hyères, as peças já tinham esse formato “anormalâ€. Sobre isso, Viktor e Rolf explicaram: “The extreme silhouettes and multiple layers, concealing and disfiguring the wearer’s body, express the alienation we felt in the city of fashionâ€. Portanto, para além de uma lógica unicamente sistêmica, de novidades e tendências com data de validade (a cada ida e vinda de estação), esses holandeses produzem coleções carregadas de significado, o que os faz ficar no limite entre arte, design e moda.

“Nós começamos mais no mundo da arte, mostrando nosso trabalho em galerias e museus, mas com a ambição de nos tornamos designers de moda. Nosso trabalho sempre foi sobre moda e, então, mudamos mais para o sistema da moda, primeiro fazendo haute couture e, depois, fazendo ready to wear [prêt-à-porter]. Agora, nós estamos cada vez mais infiltrados no sistema, mas, ao mesmo tempo, temos a ambição de trabalhar à margem dele, de sermos artistas, de sermos artistas de modaâ€.

Nessa lógica, inúmeras vezes já manifestaram seu descontentamento com o ritmo do fashion world, com a velocidade imposta ao criador, cuja criatividade fica refém do calendário. Os grandes estilistas apresentam, no mínimo, duas coleções por ano (primavera-verão/outono-inveno), além disso, muitos têm que apresentar pré-coleções, sem contar linha de acessórios, bolsas, etc. Para protestar contra essa “obrigatoriedadeâ€, Viktor & Rolf já entraram em greve, anunciada em propaganda e posta em revistas parisienses, proclamando: “Viktor & Rolf on strike!”

Essa preocupação com o tempo e com a descartabilidade das criações, aliás, foi tema de outros desfiles da marca, como Silver, do outono inverno de 2006-2007. A partir da tradição holandesa de preservar sapatos de bebê cobrindo-os de prata, a V&R elaborou roupas com essa inspiração. À época, explicaram: “The idea is about treasuring things you love the most, and freezing these moments or experiences. We decided to ‘freeze’ icons of fashion, so silver is on trenches, cocktail dresses and little black dresses, which is a contradiction because fashion is nowadays all so fastâ€.

Contrariamente à velocidade, Viktor e Rolf quiseram parar o tempo. Ainda assim, a efemeridade do mundo que escolheram é implacável. Seu espetáculo dura entre 12 e 15 minutos e é apresentado uma única vez. Às vezes, nem há o tempo para palmas, a platéia escolhida sai às pressas para outro desfile no salão logo ali ao lado ou para que outro desfile seja organizado no mesmo espaço. Ainda assim, sua arte, carregada de sentimentos e expressão, jamais deixa o espectador ileso.

+V&R

1999 – Russian Doll – Outono/Inverno 1999-2000

De haute couture, esse deve ser o desfile do início da carreira de Viktor & Rolf que mais tem referências na internet. Havia apenas uma modelo, Maggie Rizer, posicionada sobre uma plataforma circular móvel, com um vestido bastante simples. Depois, entraram os estilistas que, a cada volta da plataforma, colocavam uma peça de roupa (cada vez mais elaborada e elegante) sobre a modelo, vestindo-a em camadas, como as famosas bonecas russas (matrioskas).

2000 – Stars and Stripes – Outono/Inverno 2000-2001

Trata-se da primeira coleção feminina ready to wear da marca, mostrando uma maior inserção no fashion system.

2001 – Black Hole – Outono/Inverno 2001-2002

Viktor & Rolf sentiam-se tristes. E o resultado? Uma coleção integralmente preta. Não só nas roupas, todas as modelos estavam integralmente pintadas de preto, mesmo dentro dos ouvidos e nariz. A única coisa que se via eram os olhos. “The only part that shone was the eyes. They looked like cats.”

2003 – Monsieur I – Outono/Inverno 2003-2004

Primeira coleção masculina da marca. Também ready to wear.

2004 – Flowerbomb

Voltada para o público feminino, essa é a primeira fragrância da marca. A embalagem lembra uma granada de mão cor-de-rosa.

2006 – Viktor & Rolf love H&M

Seguindo os passos de Karl Lagerfeld, atualmente estilista da Chanel, os holandeses criaram uma coleção especial para a gigante H&M. Para entender melhor, é similar ao que acontece com marcas como C&A e Riachuelo, que selecionam alguns estilistas para elaborar coleções de fast fashion.

2008 – The House of Viktor & Rolf

A galeria Barbican, de Londres, organizou uma grande retrospectiva da obra de V&R. Roupas de todas as temporadas foram selecionadas e, além da apresentação em tamanho normal, foram reproduzidas, com total fidelidade, para caber em bonecas de porcelana, feitas especialmente para a mostra. As bonecas, inclusive, usavam a mesma maquiagem e o mesmo cabelo das modelos que apresentaram a roupa no desfile. Tudo era tão detalhado, que até cabelo de verdade foi utilizado.

26/07/2011

Viktor & Rolf

Sinceramente, com inúmeras descrições possíveis, não soube como começar o texto. Digamos assim: há penumbra. De um lado, um globo terrestre gigante, brilhante, com uns cinco, seis metros. Do outro, uma cubo enorme, sobre o qual está Róisín Murphy, ex-vocalista do Moloko. Ela veste o que parece um blazer comum, se não fosse pelo enorme tutu cor-de-rosa que envolve toda a parte superior de seu corpo. Acontece que Róisín é só mais um detalhe. O que está por vir é o que importa. Nos próximos doze minutos, algumas dezenas de modelos entrarão com outros tutus de tamanhos e volumes desproporcionais. Uns, cortados no meio, com enormes buracos, outros, passando dos limites “comuns†de uma saia e fazendo parte das blusas, das pernas das calças. Aliás, calças ou saias? Embora cortados, tudo parece firme, como esculturas. Construído, em vez de costurado.

Ou, podia ser assim: ao fundo, há uma parede com motivos industriais. Rodas dentadas, fumaça, tudo desenhado em tons de cinza e branco. Entra uma modelo de cabelos quase brancos de tão loiros. Maquilada como um robô. Ela usa uma quantidade desproporcional de peças de roupa, tanto, que é visível sua dificuldade ao andar. A modelo se posiciona ao centro da passarela, sobre uma plataforma circular, que logo mais ficará rodando. Os estilistas entram, aproximam-se da modelo e começam a retirar as roupas dela. As demais manequins começam a entrar, como em um desfile convencional. Então, os estilistas retiram as peças da primeira modelo e vestem nas que entram. É a indústria com a linha de produção ativa.

Ainda: o salão está em estranha escuridão. De repente, entra a primeira modelo. Anda com dificuldade, pois usa sapatos enormes, como aqueles tamancos holandeses. No entanto, a maior dificuldade é ter que carregar, nas costas, as luzes do desfile. Sim, presos a todas as peças daquela coleção de outono-inverno, estão estruturas metálicas cheia de holofotes, que, aliás, compõe as próprias roupas. Cada peça, um desfile próprio.

E, quem sabe: o desfile começa de trás para frente. Os estilistas aparecem para cumprimentar o público, agradecendo pela boa recepção da coleção. As modelos, em seguida, entram em conjunto e de despedem. Então, entra a primeira (ou última) modelo usando um vestido, mas na posição invertida. Depois, ela é substituída por outra, que veste o mesmo modelo, mas na posição convencional. E assim se segue. Mangas viram pernas de calça, pernas viram mangas. Golas ficam, não no pescoço, mas nos ombros. Barras de vestido viram decotes e babados.

Veja. Se a idéia inicial deste texto era começar com uma descrição peculiar ou, até mesmo, chamativa para o trabalho destes holandeses, a escolha é deveras complicada. Imagine selecionar qual sonho será descrito?! Aliás, acabemos logo com esse mistério. Para o leitor que sobreviveu até aqui – cinco parágrafos que não dizem exatamente ao que vieram (um ultraje para o texto pretensamente jornalístico) –, respeito e objetividade.

O que se descreve? Trata-se de algumas das coleções femininas de dois estilistas holandeses, Viktor Horsting e Rolf Snoeren, que, em 1993, fundaram a Viktor & Rolf. Contudo, como se nota, mais que apresentar as tendências da próxima estação e muito longe de ser aquilo que você vai encontrar na loja mais perto de você, esses caras trazem verdadeiras performances. Narram histórias e apresentam delírios estéticos construídos: em vestidos que parecem camas (com direito a travesseiro e tudo); em modelos vestidas apenas com gigantes laços cor-de-rosa; em mulheres com roupas de alta-costura e chifres de veado na cabeça; em modelos totalmente pintadas de preto; em projeções sobre roupa-chroma-key; em modelos que não desfilam, mas dançam, rodam, piram na passarela/pista de dança; et cetera.

Li uma entrevista com Gilles Lipovetsky (filósofo francês badalado, por causa da pós-modernidade) na qual se explica como a moda e a idéia de arte se fundiram. Isso teria acontecido no século XIX, quando os grandes costureiros realmente se posicionaram como artistas, como verdadeiros criadores, afastando a idéia de simples comerciantes. No entanto, sobre a atualidade, Lipovetsky foi pessimista ao acreditar que essa figura do estilista como criador soberano não é mais tão forte. A arte estaria recuando em favor do marketing, por isso, não vemos mais grandes revoluções na moda.

Então, voltemos a Viktor & Rolf. Como bons comerciantes, eles possuem roupas para o uso nas ruas, além de uma série de outros produtos de sucesso, como a concorridíssima fragrância Flowerbomb. No entanto, o que apresentam nas passarelas mostra um enorme cuidado na composição e na pesquisa. Aliás, se a palavra vanguarda não fosse tão temida (ou tão démodé) hoje em dia, até que eles poderiam ser isso.

Aí você pergunta: então, eles são uma prova contrária ao genial Lipovetsky? Bem, não é bem assim. Veja que o francês não generaliza, fala em recuo, não em extinção. Além do que, se você for refletir sobre a questão, hoje, na era da Lady Gaga, ser, estar e aparecer está intimamente ligado à idéia do “grotescoâ€, do “extravaganteâ€, do “diferenteâ€. Portanto, parecer assim é, por si só, uma grande estratégia de marketing. E agora, José?

Certa vez, o estilista brasileiro Ronaldo Fraga foi convidado para o Programa Roda Viva, da TV Cultura, no qual falou sobre seu processo criativo e toda a pesquisa que está por trás de sua obra. No entanto, para efeitos desse texto, importante mesmo foi sua explicação de como ele busca contar e resgatar histórias com seu trabalho e como deseja mostrar como a cultura e a moda estão intimamente associadas. Ou seja: quer mostrar como moda pode ser (e é) manifestação da cultura de um povo.

Cito essa entrevista porque foi aí que pensei, pela primeira vez, na moda como um processo criativo que, se não similar, está bem próximo de outras artes. Se não em sua totalidade, pelo menos, como diz o Gilles, na figura dos “grandes costureirosâ€. Exemplo, aliás, perfeitamente corporificado em Viktor & Rolf que, com coleções criativas, jogando com idéias como normalidade e anormalidade, sonho e verdade, produzem um trabalho bastante autoral, cuja assinatura é fácil de reconhecer, mesmo para os pouco iniciados no “mundinho fashionâ€.

Artistas ou marketeiros? Em opinião bastante pessoal: não interessa. Damien Hirst, por exemplo, é um artista inglês bastante conceituado contemporaneamente. É, também, um dos maiores marketeiros de si mesmo, nem por isso, seu trabalho não é chamado de arte. O problema (e confusão), talvez, esteja na criação “exclusiva†e “intelectual†de Hirst, contra a visível produção industrial de Viktor & Rolf (que servem à indústria da moda). O importante é que o trabalho desses holandeses é excitante aos olhos e de uma criatividade louvável.

Na dúvida entre arte ou marketing, veja o recente sucesso das retrospectivas sobre Alexander Mcqueen, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, e sobre Pierre Cardin, em São Paulo.

 

Viktor & Rolf, para ver: