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Tag Archives: produção

Matrículas Abertas!


Informações Gerais.
Modalidade: Capacitação.
Carga Horária: 48 horas.
Início: 03 de setembro de 2011.
Término: 26 de novembro de 2011.
Duração: 12 semanas.
Dia da Semana: Sábado.
Horário: 9h00 às 13h00.
Vagas: 40.
Unidade: CMJ.

VERSÃO PARA IMPRESSÃO


Apresentação
A sociedade brasileira contemporânea demonstra crescimento econômico nos últimos anos, apresentado, por exemplo, no dinamismo entre as classes sociais, no investimento crescente das empresas para a qualificação da mão de obra, e na consciência política da importância da educação para o fortalecimento deste movimento. Há uma agitação e integração entre os diferentes setores da sociedade na busca por uma sociedade inclusiva, afirmativa e produtiva. No contexto de uma sociedade global e altamente informatizada essas questões se tornam mais complexas, fragilizando um país caso ele não as encare como problemas políticos e urgentes.

Portanto, nesse cenário, um dos caminhos para a sustentação de um país, passa pela educação, informação e cultura. Caminho este já assumido pelas grandes potências econômicas. Como fortalecer um povo? Para que fortalecer? Qual a importância da cultura no desenvolvimento econômico? Cabe a responsabilidade de educar e informar somente nos espaços e aos profissionais oficiais da educação?  É certo que não, pois inúmeras experiências são desenvolvidas com resultados positivos há muitas décadas. Então como fazer? Por onde iniciar? Para que iniciar um projeto que integra educação, informação, cidadania, arte? Como buscar parceiros? Como administrar financeiramente este trabalho?

Objetivos
O curso tem por objetivo apresentar uma estrutura conceitual e técnica que permite ao cursista planejar e iniciar ações culturais com diferentes grupos sociais e culturais, atendendo suas necessidades e avanços específicos; dialogar com equipes multidisciplinares, acompanhar e avaliar os resultados obtidos. Afirma a importância do trabalho do mediador cultural para o crescimento econômico do país e a solidificação da base democrática. Ao tratar de cultura, o curso desenvolve-se permeando as áreas da arte educação, comunicação, ciências da informação, política, sociologia, educação e administração; ao pensar a prática, entende como ação transformadora que pede atitude inventiva e reflexiva.

Assim, no presente curso, busca-se oferecer conceitos, cases, estruturas de projetos e espaços de criação que atendem às essas perguntas, com o objetivo de preparar mais pessoas para entrarem nesse movimento de melhoria econômica e de busca de maior participação política e artística. Nesse sentido, são objetivos específicos:

  • preparar o profissional para desenvolver projetos de ação cultural;
  • apresentar conceitos básicos que permitam interpretar diferentes realidades sociais e culturais;
  • apresentar e analisar experiências com ação cultural;
  • propor estruturas de ação para viabilizar projetos de ação cultural;
  • criar projetos de ação cultural.

Público Alvo
Profissionais do terceiro setor e de qualquer área de atuação; estudantes com graduação concluída ou em curso de qualquer área do saber, bem como para interessados em atuar com comunidades, nas áreas da cultura, informação, educação, arte e política.

Investimento
Valor do Curso: R$ 650,00

Parcelamento
1ª parcela de R$ 217,00 no ato da matrícula
2ª parcela de R$ 217,00 para 30 dias
3ª parcela de R$ 217,00 para 60 dias


IMPORTANTE
Alunos regularmente matriculados em cursos de graduação e pós-graduação da FESPSP têm 40% de desconto nos cursos do programa de extensão.

Instituições conveniadas e ex-alunos da FESPSP têm 15% de desconto no valor total do curso.

Por motivações logísticas a FESPSP reserva-se ao direito de mudar a data de início, cronogramas e docentes dos cursos; ou não abrir turmas caso não haja quórum mínimo.

Já li alguns autores de literaturas africanas de língua portuguesa, principalmente, devo admitir, por conta do mestrado. Se não fosse pela academia, tenho quase certeza de que não me aventuraria por essas bandas, por pura falta de conhecimento. Não que eu seja totalmente dependente da propaganda, mas tenho consciência de sua importância. Quando a Fernanda Montenegro aparece na tela do cinema, antes da sessão de um filme começar, e diz estar lendo tal livro, isso causa um impacto enorme. Tenho certeza de que 50% das pessoas vão correr atrás da indicação. A mídia, de fato, ainda não está à vontade ou não tem interesse pela África. Se não fosse pela Copa do Mundo do ano passado, a África do Sul estaria imêmore (só para usar uma palavra bonita). Mandela estaria para a África assim como bacalhau está para Portugal. E ponto final.

A TV aberta simplesmente não se dá ao trabalho, a menos que algum país africano sedie um evento esportivo. E a mídia impressa… Bom, no Rio de Janeiro, não temos um jornal, de fato. Temos um representante impresso de um grande conglomerado, que diariamente apresenta em resumo aquilo que foi transmitido na TV. E vice-versa. Falta ao Rio uma Folha de São Paulo, que investe num caderno como a Folha Ilustrada, que realmente vale a leitura.

São Paulo é mesmo uma cidade muito evoluída nesse sentido. As melhores editoras estão lá. As melhores revistas, como Bravo ou Piauí, saem de lá. Ao Rio resta a banda pobre da Ed. Abril, responsável pela revista de fofocas TiTiTi, por exemplo. São Paulo abriga a Casa das Áfricas, um espaço cultural e de estudo das sociedades africanas, como eles mesmos se definem. No site, temos acesso às mais recentes publicações africanas de autores novos e consagrados. Obviamente, podemos ler apenas as resenhas ou um pequeno resumo. A Casa tem também um acervo material composto por artesanatos e itens típicos, mas industrializados, afinal a África participa, assim como o resto do mundo (com exceção de alguns países do oriente médio?), do século XXI. As fotos são acompanhadas por explicações sobre o item mostrado, como, por exemplo, as “capulanas”. Muito recorrente na literatura, em textos de Mia Couto, por exemplo, a palavra se refere a uma peça de vestuário, um tecido que tem uma espécie de estampa propagandística.

Além disso, há o Fórum África, que promove encontros e eventos a fim de difundir informações, das mais diversas áreas de conhecimento, sobre a África no Brasil. Recentemente, a organização sem fins lucrativos organizou a XIII Semana da África, que aconteceu entre os dias 25 e 28 de maio, em São Paulo. O evento teve como mote a “desconstrução de estereótipos criados sobre a África e a construção de um novo olhar sobre a população africana”. Muito justo!

Talvez com a Copa e as Olimpíadas, que inevitavelmente vão fazer brotar inúmeros “museus do amanhã”, o Rio acabe investindo mais em cultura, de modo geral. Não em “projetos culturais” como os que a Globo idealiza (barraquinha de cachorro quente grátis + música de 5ª + terreno baldio em um bairro desfavorecido), mas em coisas boas mesmo. Nada de pão e circo. No Rio, ainda falta a base, isto é, investimento em cultura, de modo geral. A julgar pelos passos de tartaruga, até que se chegue à África, a terra já explodiu.

O mais incrível disso tudo é que o Rio de Janeiro é considerado um super pólo cultural. Depois de São Paulo, é claro. Isso mostra como o Brasil é decadente. Ou, para os politicamente corretos, um país em desenvolvimento (eterno).

O conceito de Curadoria em Artes Visuais é relativamente novo, vindo de cerca dos anos 1980. Segundo Tadeu Chiarelli “a princípio, existiriam dois tipos [para “curador”]: o ligado diretamente a uma determinada instituição museológica- normalmente alguém formado nas áreas de História ou teoria da arte, e o curador independente – um profissional ligado às áreas de História ou Crítica de arte que concebe exposições autônomas, sem estar necessariamente vinculado a uma instituição”  (MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO, 2008). No Brasil, segundo o mesmo livro, a atividade do “curador” inicia com Walter Zanini a convite da Fundação Bienal de São Paulo para assumir a curadoria da Bienal de 1981. Retrata o mesmo autor que a atividade de Curador no início foi um pouco conturbada por causa do estrelismo de alguns curadores que fizeram tanto alarde com seus “conceitos genéricos e bombásticos, as peculiaridades cenográficas de suas montagens etc – tornou-se, em muitos casos, mais comentada do que propriamente as obras exibidas” (Ibidem, p. 13).

O ofício de curador abrange várias áreas do conhecimento dentro das Artes Visuais, mas não apenas a História da Arte da qual o curador precisa estar sempre ligado bem como conhecer de montagem, manutenção, execução, plástica, iluminação, logística e muitas vezes sonorização. O Curador de Artes Visuais distingue-se do produtor por causa da interferência que afere no trabalho do artista, que deve ser visto como uma ação benéfica para ambos enquanto tem o curador como canalizador das tendências visuais, poéticas e em alguns casos mercadológica; distingue-se do produtor mas retém algumas tarefas de produção como contratação de mão-de-obra especializada, acompanhamento de logística, acompanhamento de montagem, dentre outras possibilidades de cada projeto.

O artista contemporâneo projeta na arte um caráter muito mais autobiográfico por estar numa relação de experimentação com o objeto que, após o início do conceito dadaísta permitiu o uso de materiais não convencionais para a criação, do que no período da Arte Moderna. Segundo a pesquisadora Kátia Canton a arte contemporânea,

diferentemente da tradição do novo, que engendrou experiências que tomaram corpo a partir do século XX com as vanguardas, a arte contemporânea que surge na continuidade da era moderna se materializa a partir de uma negociação constante entre arte e vida, vida e arte. Nesse campo de forças, artistas contemporâneos buscam sentido, mas o que finca seus valores e potencializa a arte contemporânea são as inter-relações entre as diferentes áreas do conhecimento humano. (CANTON, 2009, p. 49)

Principalmente com a Arte Conceitual há uma dificuldade para o público  em se relacionar com a criação do artista (primeiro pois há o empenho de energia para se fazer a leitura da obra) para que exista um relacionamento poético entre o objeto e o visitante, visto que muitas das linguagens existentes hoje são interpenetrações com a Arte Conceitual. Além de produzir o conceito da exposição, talvez uma das mais importantes ações do Curador (independente) de artes é tornar-se um interlocutor entre artista-obra-público. Nem sempre a conexão que o artista tem com o mundo é entendida em todas as partes do processo de sua criação, portanto o papel do Curador é primeiro acompanhar este processo de criação, da trajetória de sua pesquisa visual, da criação e todo o limiar que tange o objeto criado, por isso há a exigência fundamental de tempo e visita do Curador para acompanhar o artista da qual está trabalhando junto em uma exposição, por exemplo. O segundo item fundamental da relação do Curador é fazer uma tentativa das leituras possíveis da obra do artista; leitura possível pois na Arte Contemporânea o objeto seja ele uma pintura, gravura, videoarte, instalação, performance, etc, possui diversas interpretações e não cabe ao Curador organizá-las, sequenciá-las, prendê-las, sistematizá-las de maneira que o público tenha apenas uma interpretação, mas servir de base poética transformada seja ela num texto, na montagem da exposição, na união das obras expostas, a colaborar com uma entre múltiplas possibilidades de leitura. A Curadora Rejane Cintrão comenta sobre a intermediação

Eu vejo o curador como a pessoa que vai intermediar a leitura da obra, possibilitando que ela seja compreendida dentro de um determinado contexto. O curador vem com uma ideia, tem um conceito que permite reunir certas obras. Na minha opinião, esse conceito deve estar claro para o público [...]. O público leigo, que é a grande maioria, precisa de uma intermediação, que não precisa necessariamente acontecer por meio do educador. (MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO, 2008, p. 121)

A obra e o artista sempre continuarão sendo o papel principal de uma mostra, o Curador tem sua importância mostrada na relação que consegue desenvolver entre artista-obra-público para que a própria obra seja relevada, observada, entendida, (as vezes) consumida, parafraseada, lembrada, referida – que tenha importância no tempo e espaço que ocupa, ou no tempo e espaço que está sendo mostrada. O papel do curador não deve ser entendido como um produtor de artes, mas como um profissional que desempenha papel de importância ao estudar a linguagem, a obra, o artista, o tempo, o espaço físico do local e o espaço onde o local ocupa, mas principalmente a história e trajetória que a obra/artista carregam.

Referências bibliográficas
CANTON, K. (2009). Do Moderno ao Contemporâneo (Coleção temas da arte contemporânea ed.). São Paulo: Editora Martins Fontes.
MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO. (2008). Grupo de estudos de Curadoria do Museu de Arte Moderna (2?ed ed.). (F. CHAIMOVICH, Org.) São Paulo.

Um curador de arte de rua. I should live so long.

Cedar Lewisohn fez a palestra no auditório do MASP, acho que sob patrocínio. Havia uma geladeirinha de Red Bull colada à mesa, tornando muito difícil documentar o evento excluindo a marca comercial.

Antes de iniciar a palestra, Lewisohn mostrou um documentário da exposição que ele montou na Tate Gallery há dois anos. E um mapinha da Tate e seus arredores, com os locais – dentro e fora do museu – que haviam sido pintados especialmente para o evento pelos artistas escolhidos por ele.

O documentário mostrava também os preparativos das pinturas: gruas levantando as equipes dos artistas e seus materiais artísticos até o alto dos muros a serem pintados; a colocação dos suportes de metal, a montagem com stencils. À parte, ele comentou sobre o protesto de alguns visitantes com a figura enorme de um negro empunhando uma teleobjetiva como se fosse um fusil. Foi considerada uma arte muito agressiva.

Mas é preciso ser um pouco agressivo às vezes, acrescentou.

E que é importante ter uma visão política das coisas.

Mas Lewisohn não chamou Banksy – o mais famoso e o mais agressivo dos artistas de rua da Inglaterra. Disse que Banksy é muito conhecido em Londres, e que ele buscou apresentar a diversidade.

Diversidade mas não muito.

Lewisohn mostrou o que ele considera um diálogo entre a arte de rua e a arte canônica ocidentale. Ele acha importante que as pessoas notem que a arte de rua não é graffiti “mindless”. O diálogo que é mostrado se dá no nível formal, não conceitual. Sixeart, o artista de rua de Barcelona é similar a Miró. Por causa das cores. Dubuffet e Basquiat também podem ser comparados. Por causa das figuras humanas atulhadas, uma em cima da outra. Lewisohn cita o que ele considera ser um gênero de fotografia, o “poverty photos”. E mostra como algumas obras de rua são iguaizinhas.

Na exposição da Tate estavam presentes os brasileiros Os Gêmos e Nunca. Lewisohn comenta que ter chamado o Nunca foi necessário porque a mensagem dele é mais direta, mais facilmente compreendida do que a dos Gêmeos.

Seguem-se de Kooning, Haring, Christo e as Guerrilla Girls. Somos lembrados da origem cubista da colagem, há uma rápida passagem realismo francês do início do século XX com sua pintura de superfície. E mais uma comparação, agora entre um orientalismo decorativo presente no modernismo e arabescos de rua.

Lewisohn suspira por uns valerem muito mais do que outros e isso o leva para o assunto publicidade.

Ele acha que a publicidade tem seu lado positivo, apesar da opinião de alguns esquerdistas.

“They may be right, but we shall see it from another point of view, there is some positive aspects in advertising.”

E ele considera muito importante que a arte de rua vá para os museus e para as galerias.

Essa sua opinião, aliás, foi o que lhe valeu a palestra no MASP, que expõe arte de rua na mostra De dentro para fora, de fora para dentro.

O primeiro motivo para a arte de rua ir para museus e galerias é que nesses lugares, as pessoas podem prestar mais atenção nela. Não diz quais pessoas.

O segundo motivo é que arte de rua é muito melhor que arte pública (a arte comprada pelo poder público para enfeitar as cidades). A arte pública depende de uma burocracia, de comitês julgadores. É uma arte de consenso. A arte de rua será sempre uma arte mais viva porque não precisa de burocracia. Depois de ser admirada pelas “pessoas”, a arte de rua então pode voltar para as ruas e ocupar de fato o lugar que é dela. Mais um motivo: a arte de rua atrai público jovem para os museus. Não só jovens. Mulheres e outras minorias também.

Mas a ida para o museu, contudo, pode causar alguns problemas para a arte de rua. Por exemplo: a superfície dos muros é mais irregular que uma tela ou a parede lisinha das galerias e museus. E os artistas, acostumados a pôr uma base grossa nos seus trabalhos de rua, precisam adaptar a técnica. Outro problema: às vezes o ambiente em torno, com uma calçada quebrada ou um mato crescendo por perto, pode fazer falta.

Ele acha que o contexto local às vezes pode ser importante.

Este artigo, inicialmente, trataria de um assunto que considero muito mais nobre em sua essência, já que seria uma reflexão sobre o papel da crítica de arte na era da comunicação global.  Infelizmente, ao pesquisar sobre o assunto percebi que o problema se dava muito antes de se ter algo para criticar e ia muito além do que a própria crítica em si. Ao que parece, sustentar uma opinião tornou-se um motivo para que qualquer pessoa seja merecedora de um linchamento moral – e às vezes até físico – só por ter um ponto de vista divergente de alguém.

É óbvio que não se trata de generalizar indiscriminadamente a situação, e que ainda é muito edificante poder debater uma idéia, inclusive com pessoas de opiniões contrárias às nossas. Porém, com a democratização dos meios de comunicação, isso ficou muito mais difícil, sendo necessário analisar bem onde e com quem abrir a boca.  Opinar nunca foi tão fácil: twitter, blogs, redes sociais e até o quase finado e-mail são ferramentas que não requerem esforço e ainda agregam a vantagem do anonimato, que é um prato cheio para quem tem preguiça de assumir o que diz.   Se por um lado a internet democratizou a opinião pública, por outro deu voz a um sem número de pessoas às quais a maior dádiva seria o silêncio.

A opinião é, a meu ver, uma das características que nos distinguem de símios que reviram, com um fêmur em mãos, uma carcaça de bisão. É importante ressaltar, porém, que ter opinião não significa, necessariamente, que ela esteja certa, ou, ainda, que devemos levá-la a sério. Sobre isso, o filósofo Olavo de Carvalho comentou certa vez em seu True Outspeak que “o direito de se ter opinião é proporcional ao interesse sincero que você tem sobre o assunto. Se você não tem interesse sobre o assunto ou sequer lê alguma coisa, por que devemos ter o interesse de ouvir a sua opinião?”. Para complementar o raciocínio, ele propõe a criação de um supositório de opinião, que a meu ver seria a solução ideal para determinadas pessoas que ainda insistem em transferir o motivo de um debate do assunto para o sujeito.

Quem quer ser levado a sério deve ser tratado seriamente, por isso é infundada a reação que alguns críticos têm de se sentirem ofendidos ao menor sinal de questionamento, como se isso fosse sinal da mais vil censura ou, no mínimo, exemplo de pura presunção – palavra que muitas vezes só é uma forma pomposa de julgar alguém que ousa saber mais do que outra pessoa. Nesse ínterim, o questionamento da idéia passa a ser tratado como questionamento do caráter. Para alguns, a crítica virou um mero exercício do jus esperniandi.

Vale ressaltar que crítico é qualquer pessoa que exerce o poder de crítica, palavra essa que, derivada do grego krinein, significa separar, julgar. A todo momento emitimos julgamentos acerca de alguma coisa, por mais trivial que ela seja: uma refeição ruim, uma embalagem não muito prática, um filme modorrento. Não é preciso ser um gourmet, um designer ou um cineasta para formar a nossa opinião, e é por isso que, neste aspecto, este artigo não diferencia profissionais ou amadores. A (in)capacidade de se fazer uma crítica séria e embasada  é abrangente àqueles que têm algo relevante a ser dito, independente de projeção profissional.

A grande arma do falso crítico é, como denominou Schopenhauer, a dialética erística, que se concentra em desqualificar o adversário para vencer um debate sem precisar ter razão ou sequer discutir o assunto proposto.  É o que vemos por aí quando se fala mais da pessoa do que da idéia, produzindo respostas baseadas unicamente em pressupostos sobre o caráter, a escolaridade, o nível cultural e, acredite, até a opção sexual da pessoa.

O fato é que a culpa não é unilateral. Por um lado estão muitos críticos ditos especializados, sentados em suas torres de marfim, ditando o que é in e o que é out, rebaixando artista e público a escravos de suas pretensões. Por outro, determinado nível de público que se utiliza apenas da própria “embocardia” mental para exercer seu direito de opinião, declarando guerra a quem ouse pensar diferente. Nesse badminton de vaidade, só quem perde é o público para o qual uma crítica é – oh! – apenas uma crítica. Dialogar, às vezes, deixa de ser um exercício filosófico para ser um exercício de autocontrole.

Como no dito popular, grandes mentes discutem idéias, mentes pequenas discutem pessoas.  Nesse contexto, acho interessante salientar um trecho de uma crônica de autoria de César Boschetti, na qual ele diz que “a crítica, se arrebatada e irrefletida, é simples bravata. Se maledicente e sem propósito, é mera calúnia. Se arrogante, apenas humilha e destrói. Se hipócrita, só confunde. Se fria e racional, torna-se tediosa. A crítica deve ser oportuna sem ser oportunista. Deve provocar, mas não ofender. Deve questionar ao invés de julgar. Deve ser inteligente, sem ser sábia. A crítica deve ter paixão para ser humana e indignar-se para ser autêntica. A crítica deve ser criança sem ser infantil e madura sem ser caduca.”

Fica cada vez mais difícil se posicionar ideologicamente sabendo que existe tanta intemperança, que acaba ocorrendo o que eu chamo de “hipolexia de rebote”, ou seja, o trabalho de manter uma discussão em um nível aceitável, sem cair em armadilhas manjadas, é tão grande, que às vezes é muito melhor ficar quieto para evitar uma úlcera. Até porque nunca devemos discutir com um incapaz, porque ele tende a levar tudo ao próprio nível para vencer por experiência. A esses, melhor seria se a invenção do professor Olavo fosse verdade.

Em cinco anos, a produtora Zucca Produções realizou oito espetáculos teatrais badalados, um lançamento de CD, dois curtas metragens e um festival de dança. Acaba de receber o prêmio Zilka Salaberry de teatro infantil nas categorias de melhor texto (João Falcão) e melhor espetáculo, e promove um curso de produção cultural que já soma 200 alunos em pouco mais de um ano. Pilotada pelo produtor Júlio Augusto de Oliveira Silva – ou Júlio Augusto Zucca – e pela atriz Gisela de Castro, responsável pela direção e qualidade artística dos projetos, a produtora tem conseguido consolidar uma marca no mercado cultural que associa credibilidade e qualidade artística. E prova que o mercado da arte e cultura é viável para quem tem disponibilidade ao trabalho, dedicação e generosidade. Na pequena sala da produtora, os dois falaram ao Aguarrás.

Aguarrás: Como surgiu a campanha “Primeira Ida ao Teatro”?

O Pequenino Grão de AreiaJúlio Augusto: Essa idéia surgiu em 2004, quando a gente estava preparando o projeto de “O pequenino grão de areia”. Achamos na internet uma pesquisa que falava que tinha um percentual alto de jovens que nunca tinham ido ao teatro, e a pesquisa fazia uma outra pergunta: “dentre essas atividades culturais (festas, shows, etc.) que você nunca foi, se você tivesse a oportunidade de ir, qual você escolheria conhecer?” O teatro era o segundo colocado numa lista de dez ou quinze itens. O segundo colocado nas atividades que as pessoas mais tinham vontade de conhecer e, ao mesmo tempo, o primeiro que as pessoas nunca tinham visto. Ela [Gisela de Castro] estava lendo isso para mim e caiu a ficha: porque a gente não faz um projeto para trabalhar exatamente essa necessidade e essa vontade das pessoas, aliada a essa deficiência cultural da sociedade? As pessoas não vão ao teatro mas elas querem ir ao teatro. A campanha não nasceu como ação social, o objetivo não é inclusão de comunidades mais carentes, exclusivamente. Cumpre esse objetivo porque acabamos achando grupos que nunca foram ao teatro nessas classes sociais. Mas o objetivo era fazer uma inclusão do teatro como produto cultural. No final das contas é um projeto de formação de platéia.

Aguarrás: O que, para quem trabalha com teatro e cultura, é uma necessidade de primeira ordem, não?

Júlio Augusto: Isso faz parte de uma filosofia nossa. A gente não fica sentado, esperando que o público bata na porta do teatro. Todas as nossas produções, desde a primeira em 2003 até a última, procura buscar quem é o público e vai atrás. Então isso faz parte dessa filosofia de mercado. Se a gente vive de teatro, se é o nosso produto, independente de patrocínio – a gente já fez oito peças e só três tiveram patrocínio –, nosso mercado é o público que vai consumir nosso produto. Nada mais natural do que promover ações que aumentem esse público, que criem novos públicos, que criem novos hábitos de consumo.

Ana Carina Santos e Gisela de CastroAguarrás: Acha que há uma certa preguiça no meio artístico-cultural de correr atrás desse público?

Júlio Augusto: Não diria que é uma preguiça, não. Porque todo mundo que trabalha nessa área, trabalha muito. É uma falta de foco. As pessoas estão muito preocupadas em desenvolver seus projetos artísticos, em realizar seus trabalhos artísticos, e esquecem que estamos inseridos numa sociedade de mercado. Então um produto sem ter consumidor não é produto, não acontece.

Gisela de Castro: Acho que as peças têm realmente o seu público alvo. Quando a gente preenche aqueles formulários e bota “público alvo”, sempre acha um pouco chato. Porque é óbvio: todos são meu público alvo. Mas na verdade não é bem assim. Existe, sim, um público específico, um direcionamento. A “Greve de Sexo”, por exemplo, era uma peça feita por jovens e a gente acreditava que o público alvo era esse. Era um teatro a céu aberto, na UFRJ, era uma comédia, muito descontraída, um texto grego bem traduzido e talvez as pessoas mais velhas se sentissem um pouco desconfortáveis de estar ali, na arquibancada. Tinha esse caráter de informalidade, então era para os jovens. A gente focou nisso.

Aguarrás: Então o primeiro ponto é saber para que público você vai falar?

Gisela de Castro: Ou saber o público preferencial. Não necessariamente um público fechado. Porque depois, se a peça é boa, a gente já viu que o boca a boca é que leva o público ao teatro.

Júlio Augusto: Foi assim que surgiu o “Primeira Ida ao Teatro”, uma idéia natural de você formar e atender a uma lacuna que a gente percebeu que existia e tentar estimular que outras produções fizessem isso, que outras ações dessa natureza acontecessem, que isso aumentasse aos poucos, a médio prazo. Acabou que essa ação gerou outros desdobramentos. Como eu falei, ela não surgiu com uma intenção de ser uma contrapartida social, mas funciona muito bem para isso. O projeto vai acontecer sempre que for possível, mas com as crianças ele tem um caráter extra. Tem um caráter não só de formação de platéia, mas de formação de indivíduo, de uma pessoa mais bacana. Uma pessoa que consome arte tende a ser uma pessoa mais interessada em questões mais importantes da vida. Eu acredito nisso.

Gisela de CastroAguarrás: E uma pessoa que produz e trabalha com arte deve ter esse foco nas “questões mais importantes da vida”?

Júlio Augusto: Não necessariamente, acho que cada um busca atender suas necessidades.

Aguarrás: E para vocês dois?

Júlio Augusto e Gisela de Castro:
Para a gente é importante.

Júlio Augusto: A gente se preocupa com o nosso conteúdo artístico, mas como não sou artista, não venho da área artística, a minha participação na produtora é mais de mercado: a Gisela cuida mais do artístico, eu cuido mais do mercado. Para mim, o produto artístico está inserido dentro de um contexto que tem vários aspectos: os que dão resultados a curto prazo, tem aspectos que dão a médio prazo, a longo prazo; tem os que contribuem para a construção de uma marca da produtora, uma marca que gere credibilidade, reconhecimento pela qualidade do trabalho que produz. A gente acredita que construir valores em cima de uma produtora é importante para dar credibilidade nos produtos, para dar confiabilidade nas coisas que a gente faz, para facilitar nosso acesso a parceiros, para facilitar a divulgação de nossos projetos. Estamos vendo resultados claros disso acontecendo. Por exemplo, em “O Pequenino Grão de Areia” agora, na segunda temporada, a gente não precisa de assessoria de imprensa. A mídia divulga.

Gisela de Castro: A peça já se tornou bem falada.

Júlio Augusto:
Sai coisa no jornal que a gente não mandou, que ninguém mandou. No último dia do Clara Nunes saiu quase meia página, uma foto de um quarto de página. Acho que isso é fruto não só da peça, é fruto de um posicionamento que a gente adota em todas as produções. As pessoas já conhecem, dão crédito aos assuntos que chegam da Zucca.

Gisela de Castro:
Ah, sim. Mas porque a peça também está concorrendo ao prêmio [Zilka Salaberry de teatro infantil. Venceu nas categorias melhor texto e melhor espetáculo no dia seguinte à entrevista]. Acho muito importante quem lida com cultura fazer esse tipo de ação, não por uma mera questão filantrópica, não é isso, mas para criação de mercado. Se você não tem um público consumidor de teatro e você não forma essa platéia, não só de crianças e jovens, mas até de adultos também, aquilo não cria o hábito. Infelizmente a maioria dos teatros está na Zona Sul ou no Centro do Rio, tem pouco teatro na periferia. Criar o hábito da pessoa ir ao teatro é diferente de levar o teatro à comunidade, de levar o teatro a uma escola que, muitas vezes, nem tem uma infra-estrutura de verdade, não tem refletor, não monta o cenário como deveria.

Aguarrás: Estruturalmente esse tipo de campanha é complicada ou só precisa de vontade?

Gisela de Castro: Não acho complicado não. O transporte é sempre uma logística, você tem que ver esse custo, contratar pessoas…

Júlio Augusto ZuccaJúlio Augusto: A gente já tentou fazer essa campanha sem fornecer transporte. Eles não aparecem porque você tem que romper uma inércia inicial das pessoas. Achamos importante facilitar ao máximo para que as pessoas não tenham desculpas. E essa coisa que ela estava falando, de levar as pessoas para o teatro e não a peça para fora do teatro, é importante não só para as crianças que estão indo ver, pois há toda uma magia no teatro, mas para que os pais se acostumem também a levar as crianças para o teatro, para os pais também saírem do comodismo. É o pai sair de casa, preparar a criança, botar no carro, estacionar o carro, levar a criança, pagar ingresso. É uma disponibilidade que, a gente estimulando, a própria criança em casa vai continuar esse trabalho com o pai, vai criar esse hábito.

Gisela de Castro: É uma questão de hábito: se pega um ônibus, um trem para ir até o Maracanã, até a praia. Por que não ir até o teatro? E muitas vezes existe esse grau de desconhecimento de ser cidadão. A pessoa não sabe que ela pode, que tem o direito de ir ao teatro. Às vezes a peça custa um real, às vezes é de graça. Mas ela não vai porque ela acha que não faz parte daquilo. Eu, no “Greve de Sexo”, via a galera na arquibancada bebendo cerveja, comendo biscoito globo, sabe? Eu ficava tão feliz, me sentia, assim… eu queria que teatro fosse Maracanã. (risos)

Aguarrás: Quem produz cultura hoje tem clareza do foco, do que está produzindo?

ArtorquatroJúlio Augusto: O que eu tenho visto é muitos artistas envolvidos na produção e isso tem um efeito colateral que é o das pessoas se preocuparem muito mais com o produto, com a arte em si, do que com a questão de mercado: para quem estão produzindo, se está inserido dentro de uma categoria, se é pertinente àquele espaço. É natural, porque a função do artista é essa. O artista tem o direito e tem o papel de trazer a arte sem nenhuma preocupação mercadológica. Se todo mundo fizer arte pensando num mercado, ninguém vai querer fazer peça experimental, de desenvolvimento de linguagem, as companhias de teatro não existiriam na sua essência. O que falta nas produções é alguém que estude esse produto artístico e pense se existe mercado, qual o mercado, aonde esse produto pode ser melhor apresentado, como trazer o público para vir assistir, que público é esse. Acho que falta uma visão de mercado na produção, não nos artistas.

Aguarrás: Mas hoje se os artistas não se produzirem, não realizam seus projetos pessoais.

Júlio Augusto: É verdade, mas para isso eles têm que se capacitar, se preparar.

Aguarrás: Artista e produtor. É uma dupla?

Júlio Augusto: É complicado o artista pensar em arte e pensar em mercado para o seu produto. Não que isso não exista. Tem muitos artistas que são ótimos vendedores dos seus produtos. Mas normalmente existe um empresário, um produtor associado a esse artista.

detalhe do escritório da Zucca ProduçõesGisela de Castro: Tem muita gente que faz acreditando que a produção vai se manter, e a bilheteria é uma forma de manter a peça em cartaz, e aí funciona bem. Tem gente séria trabalhando nesse sentido. Por um outro lado, e aí é até um pouco perigoso o que eu vou dizer, às vezes essa coisa de patrocínio atrapalha um pouco. Porque a gente vê produções que não estão preocupadas com o lado artístico do produto, que conseguem um patrocínio e então dizem: “ah eu consegui aqui essa grana” e faz qualquer coisa, de qualquer jeito.

Júlio Augusto: Não só faz qualquer coisa como, o que eu acho mais grave, as pessoas com a produção paga, com os artistas pagos pelo patrocínio, dizem: “se não tiver público, não tem problema. Se a peça não for bem de bilheteria, não importa”. Isso é mais grave.

Aguarrás: Não acha que essa falta de conteúdo é um mal que assola a nossa época e não só o teatro?

Júlio Augusto e Gisela de Castro: Ah, com certeza. Em todas as áreas.

Júlio Augusto: É uma busca mais fútil, mais imediatista, mais impaciente. Quer esse resultado imediato para tudo o que se faz, todo mundo quer o sucesso antes de trabalhar, quer reconhecimento antes de conquistar, antes de fazer por merecer. Em todas as áreas, nas empresas, nas artes, na política. Acho que a política, inclusive, é o que puxa (risos). É o causador desse mal.

Aguarrás: Dentro do mercado de produção cultural a prática é de uma atitude muito fechada, o produtor não abre seu quinhão. A postura da Zucca é oposta a isso. Acredita que uma postura fechada trava o mercado?

Júlio: É uma questão estratégica.

Aguarrás: Que estratégia é essa?

Gisela de Castro e Júlio Augusto ZuccaJúlio Augusto: Isso eu aprendi trabalhando em empresas. Existem os profissionais nas empresas que desenvolvem determinado trabalho ou são responsáveis por uma determinada tarefa que não contam como se faz aquilo de jeito nenhum para ninguém. Acham que se contarem vão perder o emprego assim que aparecer alguém que saiba fazer aquilo por menos dinheiro. Mas é justamente o contrário. As pessoas que evoluem são as pessoas que abrem os seus conhecimentos, que não têm segredos sobre como que aquilo funciona. Eu penso da mesma forma. Se estou formando produtores eu vou estar de certa forma formando concorrentes. Quem é bom se estabelece. A qualidade dos trabalhos melhora à medida que a competição melhora, ter pessoas que você formou e instruiu bem posicionadas no mercado, fazendo coisas corretas, só aumenta a sua reputação e a credibilidade. Isso tem se provado uma verdade absoluta.


Aguarrás: E humaniza esse mercado, com profissionais que assumem a postura dividir.


Júlio Augusto:
Desde que eu comecei a dar aula, a gente não percebeu nenhuma situação de ameaça dos alunos, com relação a nossos produtos e projetos, e só tenho tido respostas positivas. Um aumento da credibilidade da empresa, um aumento da minha credibilidade pessoal, como profissional de cultura.

Gisela de Castro:
E tem somado parcerias que aparecem.

Aguarrás: Tem muito artista fazendo esse curso?

Júlio Augusto: No início eram quase só artistas. O curso foi pensado para esse público de artistas que querem se produzir. Mas hoje já é misto. São pessoas que estão querendo traçar o caminho que eu fiz, por exemplo. Vêm de outro mercado, para conhecer o mercado e identificar se é um bom negócio, se é uma boa oportunidade de trabalho, se é um mercado com espaço para trabalhar.

Aguarrás: A palavra mercado foi muito nesta entrevista. O que é o Mercado Cultural?

Júlio Augusto:
É o mercado formado pelos consumidores de produtos de arte, de todas as formas de expressão de arte. É o mercado de pessoas que vão ao cinema, que vão ao teatro, que se interessam por artes plásticas, que lêem e compram livros, são as pessoas que dão crédito a novas formas de arte. Acho que o mercado cultural, no final das contas, são os consumidores. Só que esse mercado é formado pelos consumidores, pelos intermediários, pelos viabilizadores. Os produtores fazem parte do mercado como intermediários ou viabilizadores. Os artistas fazem parte desse mercado como produto final a ser consumido.

Gisela de Castro:
É importante saber o que isso gera na sociedade. É importante você ter na área cultural um mercado, um capital circulando. Você tem profissionais envolvidos e é importante que o profissional seja remunerado, do ator ao técnico, ao diretor, todo mundo. A importância de implementar um mercado significa isso, que as pessoas estejam vivas e capazes de consumir na sociedade. O mercado cultural é uma opção de movimentação financeira, sim. E quanto mais diversidade e pluralidade a gente tiver, melhor para o meio.

Júlio Augusto: A gente acredita na cultura como conceito, que a cultura é ou pelo menos deveria ser um dos itens da cesta básica da população, assim como a alimentação, transporte, educação. Cultura deveria fazer parte dessa cesta básica e ser vista por quem detém a capacidade de ditar regras ou de financiar coisas como tão importante quanto. A cultura se replica em várias situações. Me dá orgulho de ter montado uma empresa e ter entrado nessa história, estar criando postos de trabalho e fomentando pessoas, e empurrando a carreira das pessoas, disseminando trabalho e movimentando a economia. As pessoas trabalhando, consomem e devolvem para a economia esse dinheiro, que circula. Isso que faz um mercado melhorar em determinada região. Se você fomenta essa cadeia, tudo melhora. Toda vez que alguém me fala que está fazendo um trabalho que foi fruto de uma coisa que começou com a gente me dá a sensação de que estou contribuindo positivamente para o mercado cultural.

Aguarrás: Tem percebido retorno dessa postura aberta como princípio profissional?

Júlio Augusto: Eu tenho tido retornos diretos e positivos. Esse curso de produção eu criei para atender a uma demanda que percebi no mercado. Pessoas me ligando para pedir ajuda para fazer projetos e para aprender essa história de como funcionam as leis de incentivo. E eu vi que era muito pouco eficiente fazer uma consultoria para todo mundo e cobrar. E aí falei para a Gisela “vamos juntar essas pessoas todas, já tem três, quatro que me ligaram essa semana. Vamos tentar juntar essas pessoas”. Eu tive quatorze interessados na primeira turma. Agora, é a décima terceira turma que começa. E o que esse curso já me gerou? consultorias bem remuneradas de pessoas que fizeram o curso, o interesse do Sesc nacional em um curso no mesmo formato, via vídeo conferência, para 24 estados. O público desse curso são os técnicos de arte e de cultura de cada estado.

Aguarrás: Como vêem a imagem da Zucca hoje no mercado?

Greve de sexoJúlio Augusto: Acho que a gente está traçando um caminho bacana. Estamos conseguindo uma coisa que é super difícil em marketing: criar uma marca. Acho que esse que era o grande desafio. A gente está conseguindo isso e essa marca hoje tem credibilidade, é razoavelmente conhecida, um dos instrumentos que são impulsionadores disso é o nosso mailling eletrônico, nosso “spam do bem”. Divulgamos nossos projetos por email, é um mailling muito bem cuidado, muito trabalhado, dificilmente a gente repete envio para quem pediu para sair, só se for uma falha técnica, mas é muito raro isso acontecer. Nossos emails têm nosso nome, nosso telefone, e eles servem como meio de divulgação da nossa marca e de nossos projetos. Fora isso tem o boca a boca de nossos produtos, tem a repercussão dos projetos que a gente faz. A gente tem um lado, que faz parte da minha formação, que é trabalhar também mercado de empresas, não só o lado de consumidores de arte.

Aguarrás: A Zucca matém o foco mais forte no teatro?

Júlio Augusto: Estou fazendo uma migração estratégica para a área de cinema. Quero trabalhar esse mercado. Principalmente documentários. Já fiz dois curtas, um documentário e um ficção. Estou finalizando o de ficção.

Aguarrás: quais os projetos para este ano?

Gisela de Castro:
O “Dança” é uma forte parceria. Foi um produto do curso.

Júlio Augusto: Uma pessoa que fez o curso, a Regina Levy, produzia como pessoa física um festival de dança e aí ela me chamou para ser um parceiro dela no primeiro ano. Entrei para cuidar de determinados aspectos da produção. Esse ano eu assumi o projeto pela produtora, e aí a gente entrou também no “Dança em foco”, um festival de vídeo dança que ela desenvolvia há alguns anos.

Aguarrás: Tem como sobreviver sem parcerias em cultura?

Julio Augusto: Existem patrocinadores que são parceiros independente de terem isenção fiscal do patrocínio. Daria para trabalhar, já montei um planejamento de trabalho que, com mais dificuldades e com prazo maior, a gente conseguiria descobrir formas de ganhar dinheiro e sobreviver sem patrocínio, por exemplo. Mas é mais difícil. A parceria vem naturalmente quando você conquista credibilidade, se mostra como uma pessoa que faz coisas legais de uma forma honesta, com base no trabalho. O resultado fala por si. Temos a preocupação com o conteúdo artístico das coisas que a gente faz, a Gisela é a responsável pela qualidade artística. No final das contas, o que interessa é o resultado produto final.

O Aguarrás agradece a atenção de todos os profissionais da Zucca Produções.