Ativismo digital e a manifestação de pautas personalizadas no movimento feminista
ABI-SÂMARA, Maria do Carmo L. Ativismo digital e a manifestação de pautas personalizadas no movimento feminista. In: Aguarrás, vol. 12, n. 39. ISSN 1980-7767. São Paulo: Uva Limão, JUL/DEZ 2025. Disponível em: <https://aguarras.com.br/ativismo-digital/>. Acesso em: [current_date format=d/m/Y].
Introdução
O objetivo desta pesquisa é o de lançarmos um breve olhar para as transformações do movimento feminista e o caminho por ele percorrido, que partiu de reivindicações sociais comuns à condição da mulher, até o momento atual, caracterizado pela diversidade de grupos e de pautas, disseminadas especialmente pelas mídias digitais. O crescimento significativo de grupos em redes sociais, blogs, Newsletters e outros, tratando dos mais diferentes temas relativos aos direitos das mulheres, com maior ou menor número de seguidores, justifica a reflexão: quais são as forças que estas iniciativas vêm trazendo e quais são os possíveis cuidados que podemos trazer à consciência?
Para tanto, nos propusemos à pesquisa bibliográfica exploratória, assim como ao exercício de cartografar e observar iniciativas voltadas ao fortalecimento da mulher, disponíveis nas redes digitais. Tal coleta encontra-se disponível em: https://padlet.com/mariaabisamara/cartografias-do-feminino-e-do-feminismo-rvr4xjy9o6ad61bt
Um breve percurso histórico do movimento feminista
Podemos compreender o termo Feminismo, como um movimento de busca pela igualdade de direitos e oportunidades entre todos os gêneros, promovendo a justiça social e combatendo a discriminação. Tal movimento nasceu e tem se fortalecido como resistência aos mais diversos mecanismos de opressão cometidos contra as mulheres ao longo de séculos.
A partir do final do século XIX e início do século XX, o que hoje concebemos como “Feminismo” foi aos poucos tomando corpo, até assumir essa denominação. O Movimento Feminista foi indiretamente fomentado pelas turbulências sociais ocorridas a partir de meados do século XIX, que propiciaram a participação das mulheres em reivindicações políticas em torno de causas sociais humanitárias importantes para toda a sociedade. A Primeira Guerra Mundial (1914-1919) foi notadamente marcante, pois obrigou mulheres de diferentes países europeus a assumirem postos de trabalho tipicamente ocupados por homens, como condução de meios de transporte público, mão de obra fabril, serviços de manutenção e outros. Essas experiências de vida produtiva e engajamento social fortaleceram a possibilidade de expressão de suas vozes. Assim, iniciaram-se movimentos por direitos femininos básicos, cujas primeiras pautas foram especialmente o direito ao voto, à educação superior, isonomia salarial e conquista de direitos legais.
No início do século XX já podem ser identificadas grandes movimentações em torno dos direitos das mulheres. Ilze Zirbel, doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina, aponta o crescente nascimento de congressos, associações internacionais, panfletagens e publicações em jornais. Conta a autora que em 1908 aproximadamente 500.000 mulheres uniram-se em manifestação pelo direito ao voto. Ainda neste período, o “Conselho Internacional das Mulheres” chegou a reunir 7.000.000 de mulheres de 24 diferentes países (Zirbel, 2021), um exemplo da projeção do feminismo transnacional. Este período é atualmente identificado como “primeira onda feminista” [1] e abrange meados do século XIX até 1920.[2]
A “segunda onda” está circunscrita aos anos de 1960 a 1980. Este período merece destaque por conta da ampliação da pauta feminista. A “segunda onda” buscou transformar as estruturas sociais, culturais e econômicas que sustentavam a desigualdade de gênero. Direitos igualitários no trabalho e acesso à educação continuaram a ser pleiteados, sendo acrescentados: o direito de escolha profissional; acesso à saúde; controle sobre o próprio corpo nas questões relativas à natalidade; luta contra a objetificação do corpo; combate ao sexismo e ao patriarcado, defesa do lesbianismo e das mulheres negras; luta contra o assédio, violência sexual e violência doméstica.
Uma grande quantidade de obras acadêmicas, literárias e artísticas foram produzidas neste período. Merecem destaque autoras como Betty Friedan e sua obra “Feminine Mystique”, Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo”, Gloria Steinem, editora da revista feminista Ms. O conjunto destas produções foram gérmen para o desenvolvimento de diferentes vertentes do feminismo, como o feminismo radical, o feminismo socialista e o feminismo cultural. A luta contra a opressão sempre foi um ponto de convergência, mas a “segunda onda” marcou o nascimento das divergências entre pontos de vista.
Autoras como Bel Hooks, apontam que o movimento feminista deste período cometeu falhas importantes, ao continuar ignorando as especificidades das mulheres e suas diferentes dificuldades. Comentando a obra marcante da “segunda onda”, “Feminine Mystique”, a partir da perspectiva da mulher negra, afirma Hooks (2015, p. 1):
Nos Estados Unidos, o feminismo não surgiu das mulheres que são mais vitimizadas pela opressão machista, das mulheres agredidas todos os dias, mental, física e espiritualmente – as que são impotentes para mudar sua condição na vida. Estas são a maioria silenciosa. Uma marca de sua condição de vítimas é o fato de aceitarem sua sina na vida sem questionamento visível, sem protesto organizado, sem fúria ou raiva coletivas. The feminine mystique, de Betty Friedan, publicado em 1963, ainda é saudado como o livro que abriu caminho para o movimento feminista contemporâneo – a obra foi escrita como se essas mulheres não existissem.
No mesmo artigo a autora acrescenta:
A famosa frase de Friedan, “o problema que não tem nome”, muitas vezes citada para descrever a condição das mulheres nesta sociedade, na verdade se refere à situação de um seleto grupo de mulheres brancas casadas, com formação universitária, de classe média e alta – donas de casa entediadas com o lazer, a casa, os filhos, as compras, que queriam mais da vida. Friedan conclui seu primeiro capítulo afirmando: “Não podemos continuar a ignorar essa voz íntima da mulher, que diz: “Quero algo mais que meu marido, meus filhos e minha casa”. […] Ela não falou das necessidades das mulheres sem homem, sem filhos, sem lar, ignorou a existência de todas as mulheres não brancas e das brancas pobres, e não disse aos leitores se era mais gratificante ser empregada, babá, operária, secretária ou uma prostituta do que ser dona de casa da classe abastada. (Hooks, 2015, p. 1 e 2)
O trecho acima mostra a indignação de Hooks (2015) em face à invisibilização de mulheres cujas necessidades deveriam receber prioridade. Em várias de suas obras, a autora tece críticas profundas ao movimento feminista liderado pelas mulheres brancas, chegando a chamá-lo de racista e unidimensional (Hooks, 2015).
Hooks (2015) oferece um exemplo de que antagonismos e divergências em torno de várias pautas do movimento feminista foram sendo intensificadas, culminando nas mudanças que definiram as bases da “terceira onda”, cujo início se deu a partir de 1990[3]. O marco inicial foi creditado à ativista Rebecca Walker, em 1992, após uma publicação na revista Ms. (acima citada), onde a autora expressou sua frustração pelo fato de que as conquistas do movimento feminista permaneceram circunscritas a um determinado público: mulheres brancas de classe média e alta. Assim, segundo Molony e Nelson (2017, p. 11),
A “terceira onda” foi identificada por feministas mais jovens no início da década de 1990 que, nas suas críticas às suas antepassadas feministas, tentaram ir além das “noções dicotômicas de gênero em direção à consideração das múltiplas identidades de idade, classe, raça e preferência sexual, ”que muitos estudiosos agora veem como a adoção da interseccionalidade pelas feministas da “terceira onda”, desenvolvida anteriormente por acadêmicos e ativistas de cor nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo. (Tradução livre da autora)
Assim, na “terceira onda” mulheres mais jovens abraçaram as pautas já disseminadas na “segunda onda”, acrescentando a elas pautas identitárias: interseccionalidade[4], etarismo, assim como redefinição de feminilidade e desconstrução dos padrões de beleza impostos às mulheres. Foi dado grande foco à contestação das estruturas de poder, aos direitos humanos e à justiça social.
Podemos entender, a partir do resumo histórico acima, que o movimento feminista mundial caminhou gradativamente das pautas comuns a todas as mulheres, sendo o movimento sufragista um ótimo exemplo desse ponto de partida, para o acolhimento de necessidades diversas, ligadas a diferentes grupos identitários. O momento atual é caracterizado pelo desejo de dar espaço a todas as diferentes vozes que caracterizam o feminino.
Ao mesmo tempo, devemos ressaltar a intensificação das divergências e a recusa de certos grupos em assumir e mesmo interagir, com pontos de vista que lhes sejam alheios. Ou seja, o momento atual abarca a multiplicidade, mas cria “bolhas” para sustentá-las.
A ativista Al Garthwaite, membro do Feminismo Revolucionário da “segunda onda”, em entrevista publicada em 2014 pela pesquisadora Finn Mackay, da University of Bristol e University of the West of England, conta que, apesar de ter suas raízes feministas realmente vinculadas ao Feminismo Revolucionário, ela procura não se intitular desta forma. Para ela, os diferentes grupos e as diferentes denominações do movimento sempre acabaram carregando estereótipos na sua bagagem. Como exemplo, ela conta que o movimento foi acusado de odiador de homens, separatistas. Ela lembra das mulheres que deixaram de participar da causa feminista por perceberem um vínculo demasiado forte com a causa das mulheres lésbicas e serem vistas como menos femininas. Garthwaite acredita que sem o uso de denominações, suas ideias podem ser expressas de forma mais clara. Podemos ver como esta ativista encontrou uma estratégia para ganhar acesso às diferentes “bolhas” que foram sendo criadas ao longo do movimento feminista. (Finn, 2014)
O impacto das mídias digitais no movimento feminista
A “terceira onda” tem sido acentuada pela utilização das novas tecnologias, notadamente o uso das mídias sociais que, a partir do início do século XXI, vieram crescendo rapidamente. WhatsApp, Facebook, Instagram, Twitter, Youtube, TikTok, Spotify, Newsletter e outros, tornaram-se espaços por meio dos quais uma multiplicidade de temas voltados ao fortalecimento da mulher, passaram a ser veiculados em forma de palestras, podcasts, posts, pequenos vídeos, cursos de formação, além de divulgação de congressos, cursos e eventos presenciais.
Essas plataformas veiculam histórias de vida e relatos pessoais que possibilitam uma aproximação de temas pouco ou nunca explorados pelo movimento feminista: as inúmeras especificidades da condição da mulher negra e da mulher homossexual; as dificuldades de entrada de mulheres nos mercados prioritariamente masculinos, como o mercado financeiro; a falta de autonomia das mulheres sobre a própria vida financeira; a objetificação dos corpos e a busca de autonomia da mulher sobre sua próprio corporalidade; violência física e psicológica contra a mulher; questões relativas a abuso e assédio sexual; movimentos para o fortalecimento do feminino; feminismo ambientalista (feminino e natureza e a relação destes com os mecanismos de opressão definidos pelo capitalismo), interseccionalidades diversas e outros.
A exposição das emoções, dores e afetos são parte inerente destes relatos, temas sensíveis são tratados de forma a promover empatia e afinidades e muitos deles dirigem-se para ações práticas, encaminhamentos, possíveis estratégias de atuação para enfrentamento de dificuldades.
A pluralidade de temas disponíveis possibilita que cada um se relacione a partir de suas necessidades e interesses pessoais, escolhendo, inclusive, o grau de interação que mais lhe contemple: um ouvinte/leitor que não se expõe, alguém que interage de forma oral, escrita ou participa de eventos – cabe lembrar que a expressão de emoções por meio da escrita tem sido preferida por boa parte dos jovens da atualidade – ou um organizador/ativista. Para aqueles que desejam produzir conteúdo, o acesso à internet, um smartphone e uma conta aberta em um canal serão suficientes para veiculação de suas mensagens.
Encontrar um grupo com quem se pode compartilhar necessidades comuns pode ser sanador. Por meio destes compartilhamentos cada indivíduo tem a oportunidade de chegar a conclusões, tais como: “esse problema que eu achava que era só meu não é só meu”; “essa culpa que eu achava que eu tinha, ela não é minha”. Causas comunitárias são passíveis de ser enfrentadas quando em redes de apoio e ações práticas, podem ser vislumbradas em conjunto.
Muitas iniciativas atuam sem fins lucrativos, outros transformaram suas pautas em produtos e serviços que se propõem a fortalecer mulheres. “Lelabrandão.co.”[5] milita contra a rigidez do modelo de beleza física imputado às mulheres, o que inclui uma crítica às roupas que limitam movimentos em prol de uma estética atraente para os homens. Em seu podcast, “Gostosas também choram” e no Instagram ela aborda diversos temas relacionados ao feminismo: estruturas opressoras do capitalismo, arquiteturas e mobiliários desenhados para o homem universal, objetificação dos corpos das mulheres e outros. Sua marca de roupas, exclusiva para mulheres, trata “uma mulher confortável em si mesma” como uma verdadeira revolução.

Lela Brandão compartilha espaço no Instagram com influenciadoras que sustentam uma grande diversidade de reflexões e pontos de vista, sobre a relação das mulheres com seu próprio corpo e juntas, elas abrem espaço para que mulheres tenham acesso a diferentes posicionamentos e encontrem suas próprias afinidades.
A plataforma “As investidoras”[6] oferece educação financeira para mulheres, por compreender a organização da vida financeira como uma forma de fortalecer a autoestima, autocuidado e um caminho imprescindível para conquista de autonomia:
Quando se trata de investimentos para mulheres, o argumento não é enriquecer rapidamente, mas sim buscar liberdade, inclusive para conseguir sair de relacionamentos. (“As Investidoras”, 2023)[7]
Seus cursos são exclusivos para mulheres, para que as participantes se sintam confortáveis em compartilhar experiências, sentimentos e tirar dúvidas sem qualquer constrangimento. Os cursos mais longos oferecidos por “As Investidoras” dão acesso a uma plataforma para formação de comunidades, onde mulheres podem construir novas redes, estudar juntas ou ofertar produtos e serviços.


Para explicar as razões de existência de “As Investidoras”, sua fundadora Samara, relata suas próprias experiências:
Tentei entrar [em uma conversa com seus colegas homens, sobre investimentos], pois estava curiosa. Porém, me deram a entender que eu não era capaz. Foi aí que virei a chave e comecei a questionar por que eu não sabia mais sobre o assunto e minhas amigas não falavam sobre o tema. Enquanto isso, alguns meninos, que não tinham muito conhecimento, se sentiam mais à vontade para falar sobre finanças. (“As Investidoras”, 2023)[8]
Para além de temas específicos, as mídias sociais digitais podem possibilitar adesão a pautas compreendidas por todas como prioritárias. No ano de 2000 foi organizada a primeira “Marcha Mundial das Mulheres”, que reuniu 6000 grupos em 150 países e coletou aproximadamente 5 milhões de assinaturas em um documento em prol do combate à pobreza e da violência contra a mulher. A ação foi veiculada pelos meios digitais.
Campanhas como #MeuPrimeiroAssedio, #MeuAmigoSecreto, #NiUnaMenos, #AgoraÉQueSãoElas, #MeToo, abriram espaço para denúncias contra assédio, violência contra a mulher, feminicídio. Ilze Zirbel destaca que em 2017 a campanha #MeToo, planejada para denunciar atos de assédio e estupro, contabilizou 12 milhões de postagens em 24h. Tais movimentos demonstram como o feminismo transnacional, que esteve presente desde a “primeira onda”, pode ser intensificado pelos meios digitais (Zirbel, 2021).
Exemplos de que os conteúdos ofertados através das mídias sociais podem se infiltrar em novos espaços e deslocar os limites do que é permitido para as mulheres, de forma por vezes silenciosas, são diversos. Annabelle Sreberny relata que o acesso ao smartphone para mulheres sauditas abriu espaços fora do controle de familiares do sexo masculino. Mulheres sauditas residentes em seu país têm feito uso de perfis falsos e anônimos para acompanhar as pautas feministas, o que resultou em reivindicações em prol do direito de postar fotos com seus rostos expostos, por exemplo. Campanhas são organizadas por mulheres das diásporas ou por ONG’s que sustentam debates sobre igualdade de gêneros. Os conteúdos apresentados em inglês e francês têm fortalecido o feminismo transnacional. A partir dessa experiência, Sreberny (2015) reflete sobre como o privado se torna político quando trazido para a esfera pública e problematizado.
Assim, podemos realmente afirmar que os formatos digitais veem ao encontro da multiplicidade das agendas pleiteadas a partir da “terceira onda”. Identificamos claramente uma confluência entre o caminhar do movimento feminista e o desenvolvimento das mídias digitais até o cenário atual, no qual sempre é possível um “esticamento” das agendas e a ocupação de beiradas e fissuras ainda não exploradas. Tal pluralidade certamente atual como fonte de conhecimento, esmiuçando uma parte do conjunto.
No entanto, algumas preocupações também vêm à tona. Apesar dos pontos positivos mencionados acima, são muitas as ativistas do movimento feminista que vêm apontando suas preocupações com relação ao intenso uso das mídias digitais como meio. Al Garthwaite enxerga os meios digitais como grande propagador das ideias do feminismo revolucionário e os utiliza para suas ações, mas destaca a importância de termos consciência de que eles também têm servido para divulgação dos modelos de beleza que estão justamente sendo combatidos, da pornografia em larga escala, de ideias neoliberais que precisam ser questionadas e da disseminação de discursos misóginos e homofóbicos, agora anônimos. (Garthwaite apud Mackay, 2014)
Questiona-se o quanto tais plataformas, ao fragmentar as demandas do movimento feminista em pautas cada vez mais específicas, não estão retirando força do próprio movimento e diminuindo a consciência das mulheres, de que existe uma condição feminina a ser cuidada conjuntamente. Teme-se também a baixa projeção do movimento como um todo. Paulo Freire (1992) destaca a importância de encontrarmos unidade dentro da diversidade. Cada uma destas pautas está em busca da não opressão e cada conquista é uma conquista para o todo, o ganho de um pequeno grupo oprimido é o ganho para toda a sociedade. A pergunta que se coloca é se os espaços limitados das mídias permitirão um diálogo entre as divergências. Se, ao fragmentarmos as discussões em inúmeras pautas identitárias, não dividiremos a causa em si. Seremos capazes de tecer uma única trama a partir de fios e cores variados, que estão colocados à disposição, porém aparentemente confinados em bolhas?
O economista indiano Amartya Sem (2015), em sua obra “Identidade e Violência”, discorre sobre a necessidade de cuidado para que a multidimensionalidade inerente ao ser humano, não seja reduzida ao unidimensional. O autor preocupa-se com as pautas únicas, com os rótulos que são imputados/autoimputados nos indivíduos. Para ele, quanto mais nos diferenciamos e segmentamos uma comunidade, mais nos separamos da ideia de uma humanidade compartilhada. O pertencimento fortalece, mas também separa:
[…] um sentimento de pertencer a uma comunidade é, pois, visto como um recurso – como capital. Tal compreensão é importante, mas tem que ser complementada pelo reconhecimento mais extenso de que um sentimento de identidade pode excluir resolutamente muitas pessoas, mesmo enquanto generosamente inclui outras. (Sen, 2015, p. 22)
No que se refere à ideia de humanidade compartilhada, o autor afirma:
Nossa humanidade compartilhada é selvagemente desafiada quando as múltiplas divisões no mundo são unificadas em um sistema de classificação supostamente dominante (Sen, 2015, p. 11)
Em vista do percurso e dos exemplos acima mencionados, podemos afirmar que a integração das diversas pautas passa a fazer parte dos novos desafios do movimento feminista. Para a ativista Martha Easton (2012), a consciência da teoria feminista afia o discurso e o desafio daquelas que se identificam com o movimento feminista é garantir que as preocupações de uma causa comum não sejam neutralizadas por um ou outro aspecto da fragmentação.
Há também ponderações a fazer quanto à facilidade de acesso às mídias digitais, pois essa facilidade é uma verdade parcial. Jen Schradie (2018), pesquisador do Institute for Advanced Study em Toulouse, ao medir o engajamento de 90.000 postagens digitais, encontrou uma profunda desigualdade: o engajamento está presente entre indivíduos de classe média e alta, mas exclui aqueles pouco favorecidos economicamente. Através de entrevistas e observações etnográficas, o pesquisador constatou que as lacunas se devem aos recursos (acesso à rede e aparelho), às habilidades para utilização, ao sentimento de empoderamento para participar e tempo (Schradie, 2018).
Quanto à produção de conteúdos, existe de fato uma facilidade, mas a difusão em larga escala nem sempre é orgânica. A difusão em larga escala geralmente necessita de impulsionamentos, cujo custo pode ser significativo.
Consonante com o estudo de Schradie (2018), a UNESCO divulgou em 2023 o “Relatório de monitoramento global da educação – a tecnologia na educação: uma ferramenta a serviço de quem?” Esta pesquisa define os meios digitais como um direito de todo cidadão, mas afirma que aqueles que mais se beneficiariam dos diversos aspectos da educação, através do ambiente virtual, são justamente os que não tem acesso. Neste sentido, o conhecimento veiculado em plataformas digitais pode estar apoiando a desigualdade, ao invés de reduzi-la.[9] As mídias digitais apenas aparentam ser para todos, mas não são.
Mulheres e comunidades excluídas dos meios digitais continuam sendo beneficiadas por grupos locais, não necessariamente organizados para esses fins: são os grupos religiosos, as comunidades artesãs, as responsáveis pela organização de festas populares tradicionais e outras. Várias destas comunidades têm sido objeto de pesquisa a geraram teses e dissertações, com relatos sobre a experiência coletivas destas mulheres, como a comunidade de tecedeiras de redes de dormir de São Bento – MA (Sousa, 2015), ou as mulheres quebradeiras de coco de babaçu (Matos; Borelli; Schwartz, 2022).
Estudos acadêmicos e difusão de ações de comunidade em meios digitais têm ajudado a compreender as especificidades do universo feminino. A pergunta que se pode fazer, quanto ao acesso, seria: o quanto os meios digitais tem interferido, positiva ou negativamente, direta ou indiretamente, nas comunidades com menor acesso a ele?
Considerações finais
O movimento feminista mundial percorreu um trajeto significativo e transformador ao longo das décadas, partindo de pautas comuns que atendiam a todas as mulheres, com destaque para o movimento sufragista, que marcou o ponto de partida dessa trajetória. Inicialmente centrado na conquista de direitos básicos, como o direito ao voto e à educação, o movimento evoluiu gradualmente para incorporar as demandas de grupos distintos, levando em consideração as múltiplas realidades e experiências de mulheres de diferentes origens, classes sociais, etnias e orientações sexuais. Nesse processo, o feminismo foi se tornando cada vez mais plural, acolhendo a diversidade e ampliando seus horizontes para incluir as necessidades específicas de diversos grupos identitários.
O momento atual do movimento feminista é caracterizado por um desejo crescente de amplificar todas as vozes que compõem o espectro do feminino, criando um espaço de maior inclusão e diálogo. A “terceira onda” do feminismo, em especial, se destaca por esse impulso de pluralidade e intersecção, buscando dar visibilidade às experiências femininas mais diversas e desafiando as normas estabelecidas sobre o que é ser mulher. Nesse contexto, as tecnologias e as mídias digitais desempenham um papel crucial, proporcionando uma plataforma inédita para a disseminação de diferentes perspectivas e pautas feministas, além de permitir a formação de redes globais de apoio e solidariedade. As redes sociais, blogs, podcasts e outras ferramentas digitais, não só amplificam as vozes femininas, mas também criam espaços de mobilização e ativismo, acessíveis a um público global e diversificado.
Ao possibilitar a troca de experiências e informações de forma rápida e abrangente, a tecnologia contribui para que o movimento feminista se torne mais dinâmico e multifacetado, ultrapassando barreiras físicas e culturais. Contudo, é importante reconhecer que, embora as tecnologias tragam avanços no campo da visibilidade e inclusão, também revelam desafios, como a segmentação das mulheres em “bolhas digitais” e a exclusão de populações de baixa renda, que ainda enfrentam dificuldades de acesso às plataformas digitais.
O movimento feminista, em sua terceira onda, se caracteriza pela busca por um feminismo cada vez mais inclusivo e interseccional, capaz de dar espaço a todas as vozes do feminino, com as mídias digitais desempenhando um papel fundamental na ampliação dessas vozes e na construção de um movimento global e diversificado. No entanto, é necessário que o acesso às tecnologias seja democratizado, para que todas as mulheres, independentemente de sua classe social ou localização geográfica, possam participar plenamente desse processo de transformação social.
Referências
EASTON, Martha. Feminism. JSTOR Repository. 2012. Disponível em:
https://www.jstor.org/stable/23924276?read-now=1&seq=1#page_scan_tab_contents. Acesso em: 02 nov. 2024.
HOOKS, Bell. Mulheres negras: moldando a teoria feminista. Rev. Bras. Ciênc. Polít. n.16, Jan-Apr, 2015. Acesso em: 04 nov. 2024. DOI: https://doi.org/10.1590/0103-335220151608
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
MACKAY, Finn. Open space reclaiming revolutionary feminism. JSTOR Repository. 2014. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/24571941?read-now=1#page_scan_tab_contents. Acesso em: 04 nov. 2024.
MATOS, Maria Izilda Santos; BORELLI, Andrea; SCHWARTZ, Rosana. Quebradeiras de coco babaçu: gênero, lutas, sustentabilidade e terceiro setor. São Paulo: Editora eManuscrito. 2022.
MOLONY, Barbara; NELSON, Jennifer (org.). Women’s Activism and “Second Wave” Feminism: Transnational Histories. London/New York: Bloomsbury. 2017.
SCHRADIE, Jen. The Digital Activism Gap. JSTOR Repository. 2018. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/26505560?read-now=1#page_scan_tab_contents. Acesso em: 04 nov. 2024.
SEN, Amartya. Identidade e violência – A ilusão do destino. 1. ed. São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, 2015.
SREBERNY, Annabelle. Women’s Digital Activism in a Changing Middle East. JSTOR Repository. 2015. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/43997966?read-now=1#page_scan_tab_contents. Acesso em: 04 nov. 2024.
SOUSA, Beatriz de Jesus. Tramas de Gênero – um estudo sobre mulheres que tecem redes de dormir em São Bento – MA. Maranhão: EDUFMA, 2015.
UNESCO. Relatório de monitoramento global da educação, resumo, 2023: a tecnologia na educação: uma ferramenta a serviço de quem? Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000386147_por. Acesso em: 04 nov. 2024.
ZIRBEL, Ilze. Ondas do Feminismo. Mulheres na Filosofia, 2021. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/ondas-do-feminismo/. Acesso em: 04 nov. 2024
Notas
[1] A metáfora da onda foi cunhada pela feminista Martha Weinman Lear em 1968. Em um artigo no “New York Times”, Lear nomeia a “primeira onda” como o período dedicado principalmente à pauta sufragista e anuncia a chegada de uma “segunda onda”, que traria novas demandas ao movimento feminista. (Molony; Nelson, 2017).
Apesar de não fazer parte do escopo desta pesquisa, achamos importante apontar que muitos autores rejeitam o uso da metáfora da onda por acreditarem que a ideia da onda faz pensar em algo que se extingue em certos períodos. Por ser uma terminologia muito conhecida, ela será utilizada, porém entre aspas e deve ser lida com a consciência de que fora dos períodos de onda o movimento feminista manteve-se ativo.
[2] Há divergências de datas entre diferentes autoras. Assumimos, para esse artigo a datação dada por Ilze Zirbel, em seu artigo “Ondas feministas”. Para solucionar o problema de que a metáfora da onda pode levar a pensar que o movimento feminista se extingue fora delas, Molony e Nelson propõem a expansão dos períodos, de forma que o tempo histórico sempre esteja inserido em uma das ondas. (Molony; Nelson, 2017)
[3] Certas autoras, como Kira Cochrane, em “All the Rebel Women: The Rise of the Fourth Wave of Feminism”[3], afirmam que 2010 deu início à quarta onda, caracterizada pela intensificação da tecnologia digital. Outras autoras, como a socióloga britânica Angela McRobbie, afirmam que uma intensificação não é suficiente para marcarmos uma nova onda. Neste texto estamos assumindo o momento atual como parte da “terceira onda”.
[4] Interseccionalidade é o termo usado para descrever a interação de duas ou mais condições de um indivíduo e como elas afetam sua relação com a sociedade. Por exemplo, podemos estudar o impacto de uma mulher negra de classe social baixa (gênero e condição econômica) para compreender como essas duas condições, quando combinadas, resultam em uma situação muito diversa daquelas vividas por mulheres negras, somente.
[5] 392 mil seguidoras na conta pessoal do Instagram e 159 mil seguidoras na conta da sua marca de roupas Lela Brandão.co. Seu podcast “Gostosas também choram” entrou na lista dos mais ouvidos do país logo após o lançamento, em 2023.
[6] 99,9 mil seguidores na conta comercial de As Investidoras, Instagram.
[7] Disponível em: https://borainvestir.b3.com.br/objetivos-financeiros/investir-melhor/mulheres-querem-investir-para-conquistar-liberdade-diz-julia-abi-samara/#:~:text=%E2%80%9CQuando%20se%20trata%20de%20investimentos,para%20conseguir%20sair%20de%20relacionamentos%E2%80%9D.
[8] https://borainvestir.b3.com.br/objetivos-financeiros/investir-melhor/mulheres-querem-investir-para-conquistar-liberdade-diz-julia-abi-samara/
[9] O Relatório acima citado diz respeito à área da educação especificamente, mas as pesquisas envolvem acesso de forma geral e se prestam ao trabalho aqui apresentado.