Cartografias gastronômicas: a alimentação como marca identitária na cultura de imigrantes sírios na cidade de São Paulo
CASTRO, Estefania Medeiros. Cartografias gastronômicas: a alimentação como marca identitária na cultura de imigrantes sírios na cidade de São Paulo. In: Aguarrás, vol. 12, n. 39. ISSN 1980-7767. São Paulo: Uva Limão, JUL/DEZ 2025. Disponível em: <https://aguarras.com.br/cartografias-gastronomicas/>. Acesso em: [current_date format=d/m/Y].
RESUMO
Este artigo investiga como a gastronomia dos imigrantes sírios na cidade de São Paulo contribui para a preservação e transformação cultural, atuando como uma ferramenta essencial para a construção da identidade cultural e integração social. O objetivo principal é compreender as dinâmicas entre alimentação, cultura e identidade, explorando como as práticas alimentares funcionam como veículos de memória, pertencimento e resistência em contextos migratórios. A metodologia adotada é qualitativa, com base em uma revisão teórica que abrange as contribuições de Poulain sobre sociologia da alimentação, Stuart Hall Sandra Pesavento acerca da construção de identidades culturais e representação e Peter Burke sobre hibridismo cultural. Também são incorporadas as contribuições de Al Noulfal e Rustomgy sobre a integração da comunidade síria através da culinária e de Paiva e Khouri sobre os territórios da migração em São Paulo. Os resultados indicam que a gastronomia desempenha um papel importante na manutenção da identidade cultural dos imigrantes sírios, ao mesmo tempo em que facilita sua adaptação e integração na sociedade brasileira revelando uma complexa rede de significados que conecta os sabores ao sentimento de pertencimento.
Palavras-chave: Imigrantes Sírios; Gastronomia; Identidade Cultural; Hibridismo Cultural; Cartografias Gastronômicas.
ABSTRACT
This article investigates how the gastronomy of Syrian immigrants in the city of São Paulo contributes to cultural preservation and transformation, acting as an essential tool for the construction of cultural identity and social integration. The main objective is to understand the dynamics between food, culture and identity, exploring how eating practices function as vehicles of memory, belonging and resistance in migratory contexts. The methodology adopted is qualitative, based on a theoretical review that covers the contributions of Poulain on the sociology of food, Stuart Hall, Sandra Pesavento on the construction of cultural identities and representation and Peter Burke on cultural hybridity. The contributions of Al Noulfal and Rustomgy on the integration of the Syrian community through cuisine and of Paiva and Khouri on the migration territories in São Paulo are also incorporated. The results indicate that gastronomy plays an important role in maintaining the cultural identity of Syrian immigrants, while it facilitates their adaptation and integration into Brazilian society, revealing a complex network of meanings that connects flavors to the feeling of belonging.
Keywords: Syrian Immigrants; Gastronomy; Cultural Identity; Cultural Hybridity; Gastronomic Cartographies.
INTRODUÇÃO
A alimentação como é um elemento central na história cultural e na construção identitária, pois práticas gastronômicas refletem não apenas hábitos alimentares, mas também valores e significados profundos de cada grupo social (PESAVENTO, 2003). Segundo Pesavento, a história cultural revela como os indivíduos e as comunidades expressam suas identidades através de rituais cotidianos, como a alimentação, que, carregados de simbolismos, refletem as dinâmicas culturais de uma sociedade.
A gastronomia transcende sua função básica de sustento biológico, emergindo como uma expressão cultural profunda, especialmente entre comunidades de imigrantes. Na cidade de São Paulo, imigrantes sírios utilizam a culinária não apenas como meio de sobrevivência econômica, mas também como uma ponte para manter viva sua identidade cultural e facilitar sua integração na sociedade brasileira. Um exemplo disso é o Restaurante Syria, onde pratos como kebab, falafel e tabule, funcionam como símbolos de uma tradição resistente, ao mesmo tempo em que promovem o intercâmbio cultural com o público paulistano.
Este fenômeno evidencia o hibridismo cultural descrito por Burke (2010), onde tradições alimentares são preservadas e adaptadas em novos contextos, transformando-se em campo de negociação cultural. A alimentação, assim, se torna um reflexo da complexidade das identidades modernas, continuamente moldadas e reformadas em resposta às mudanças sociais e econômicas (BURKE, 2010; HALL, 2016).
Estudos anteriores indicam que a migração leva a mudanças nos hábitos alimentares dos imigrantes, que tendem a adaptar-se ao novo ambiente, enquanto tentam preservar a culinária tradicional (BASTOS et al., 2023; PAIVA, 2015; DÁVILA, 2005). No entanto, há uma lacuna na literatura acadêmica sobre a gastronomia dos imigrantes sírios em São Paulo como forma de expressão cultural, conforme apontado por Torres et al. (2022). Essa falta de investigação aprofundada torna-se significativa, considerando a importância das práticas alimentares na construção identitária e na integração desses indivíduos na sociedade brasileira.
Diante desse contexto, o presente artigo busca compreender como a gastronomia dos imigrantes sírios na cidade de São Paulo atua na preservação e transformação cultural desse grupo. Especificamente, o estudo explora como as práticas alimentares servem como veículo de transformação cultural, favorecendo a integração social e econômica dos imigrantes, ao mesmo tempo em que mantêm vivas as raízes culturais dos imigrantes sírios.
Adotando uma abordagem qualitativa, fundamentada em revisão teórica e análise documental, este trabalho pretende elucidar as dinâmicas entre alimentação, cultura e identidade no contexto da imigração síria na cidade.
Alimentação como Marca Identitária
Segundo Poulain (2004), a alimentação é um dos principais marcadores da identidade cultural, funcionando como uma forma de expressão das tradições, valores e práticas sociais de um grupo. Hall (2015, 2016) complementa essa perspectiva ao enfatizar que a identidade cultural é formada e reformada através de práticas culturais que carregam significados profundos, como a alimentação. Assim, os hábitos alimentares tornam-se formas potentes de manifestação cultural, especialmente em contextos de deslocamento humanos.
Nessa linha, Pesavento (2003) enfatiza que a cultura se materializa em elementos simbólicos e cotidianos, como a alimentação, que atuam como veículos de memória e identidade. A autora ressalta que os hábitos alimentares são parte integrante da construção da identidade cultural, servindo como referência para a afirmação de pertencimento a um determinado grupo social.
No contexto dos imigrantes sírios na cidade de São Paulo, a pesquisa de Al Noulfal (2021) aprofunda essa discussão ao evidenciar como a culinária serve como um refúgio identitário e um meio de integração. A autora destaca que a cozinha é um espaço de preservação cultural, onde os imigrantes sírios mantêm vivas suas tradições culinárias, reproduzindo receitas ancestrais e técnicas de preparo transmitidas entre gerações. Pequenos estabelecimentos gastronômicos, carinhosamente chamados de “saborosas portinhas”, servem como pontos de encontro para a comunidade síria e espaços de resistência cultural, permitindo-lhes expressar sua identidade e compartilhar sua herança com a população local.
Esses espaços alimentares facilitam a interação intercultural, e, ao oferecer pratos típicos como o kebab, falafel e manakish, os imigrantes sírios não apenas satisfazem uma demanda por sabores exóticos, mas também criam pontes culturais que promovem o reconhecimento e a valorização de sua identidade. Essas práticas alimentares tornam-se símbolos tangíveis de pertencimento e diferenciação, permitindo que os imigrantes reafirmem sua identidade em um ambiente estrangeiro.
Poulain (2004) sugere que o espaço social alimentar é moldado pelas interações e significados que as pessoas atribuem ao ato de comer, influenciados por fatores culturais, econômicos e sociais. Entre os imigrantes sírios na cidade de São Paulo, esse espaço social alimentar é recriado possibilitando tanto a preservação de práticas tradicionais, quanto a criação de novas formas de expressão cultural. A alimentação torna-se, então, um elo entre o passado e o presente, conectando a terra natal ao país anfitrião e funcionando como um símbolo identitário.
Essas práticas culinárias desempenham, portanto, um papel fundamental na resistência cultural, permitindo aos imigrantes preservar suas tradições em um novo ambiente social. Assim, a recriação de espaços como restaurantes, cafés e mercados especializados serve como pontos de encontro e socialização, fortalecendo laços comunitários. Esses espaços também facilitam a interação com a sociedade brasileira, promovendo a troca cultural e o entendimento mútuo.
Hall (2016), descreve a cultura como um sistema de representações pelo qual indivíduos e grupos constroem significados e expressam suas identidades. No caso dos imigrantes sírios, a alimentação torna-se uma narrativa viva que comunica histórias de origem, tradição e pertencimento ao manterem suas receitas e modos de preparo, os imigrantes afirmam sua identidade cultural e resistem às pressões de assimilação.
No entanto, a interação com o “outro” molda essa identidade de forma dinâmica. Hall (2015, 2016) destaca ainda que a identidade cultural é formada nesse contato, tornando-se, muitas vezes, híbrida. No caso dos imigrantes sírios, as adaptações que fazem para se integrar ao novo contexto social brasileiro – como a incorporação de ingredientes locais – resulta em uma culinária que é simultaneamente síria e brasileira.
A alimentação, portanto, emerge como um espaço de negociação e construção de identidades múltiplas. Conforme Hall (2016), representar a cultura através da gastronomia permite que os imigrantes expressem quem são, ao mesmo tempo em que interagem com a cultura do país anfitrião. Esse processo evidencia a identidade cultural como algo fluido e em constante processo de formação e renegociação.
Integrando essas perspectivas, compreende-se que a alimentação é central na construção identitária dos imigrantes sírios na cidade de São Paulo. Práticas alimentares carregadas de significados culturais tornam-se fundamentais para a representação e a negociação de identidades em contextos migratórios. Dessa forma, a alimentação como marca identitária não apenas fortalece o senso de pertencimento à comunidade de origem, mas também facilita a integração e a criação de novas identidades culturais. A culinária torna-se, assim, um meio pelo qual os imigrantes sírios navegam entre culturas, preservando sua herança enquanto adotam aspectos da sociedade brasileira, enriquecendo a diversidade cultural da cidade de São Paulo.
Hibridismo e Adaptação Culinária
Poulain (2004) destaca que a alimentação está em constante evolução, moldado por trocas culturais e influências externas. Os imigrantes sírios incorporam ingredientes locais em suas receitas, resultando em uma culinária híbrida. Essa adaptação não implica na perda da identidade, mas na expansão e enriquecimento das práticas alimentares, refletindo um processo dinâmico de construção identitária.
Além disso, a escolha dos alimentos e a forma de consumo estão relacionadas à estrutura social e às condições econômicas dos indivíduos. Os imigrantes sírios podem enfrentar desafios na reprodução de suas práticas alimentares em contextos migratórios, devido a fatores como a disponibilidade de ingredientes ou restrições financeiras, que podem dificultar a reprodução fiel das práticas culinárias de origem. Ainda assim, manter esses costumes alimentares é essencial para preservar laços sociais e familiares, contribuindo para a coesão da comunidade.
O que hoje é reconhecido como comida típica passou por diversos processos de adaptação ao longo da história. A manutenção ou desaparecimento de determinadas receitas, iguarias e sabores está diretamente relacionado ao acesso aos produtos disponíveis.
[…] um processo complexo que abarca várias etapas: eleição dos produtos (código de aceitação, rejeição e tabus), classificação, acesso aos ingredientes, técnicas e processos de preparo […] a códigos econômicos (produção e consumo), o favorecimento de certos produtos, mudanças e permanências de hábitos familiares, diferentes paladares, hábitos de comer frio ou quente, mais ou menos salgado, apimentado, pastoso ou solido, […] (MENEZES & MATOS, 2017).
Esse trecho destaca que o que hoje entendemos como comida típica é resultado de diversos processos de adaptação ao longo da história. A manutenção ou o desaparecimento de determinadas receitas, iguarias e sabores estão diretamente relacionados ao acesso aos produtos disponíveis em cada contexto.
Essas adaptações refletem o processo complexo descrito por Menezes e Matos (2017), onde fatores como códigos econômicos, preferências culturais e acesso aos ingredientes influenciam diretamente as práticas alimentares. A eleição dos produtos passa a ser não apenas uma questão de preferência cultural, mas também de viabilidade econômica e logística. Os imigrantes negociam entre manter a autenticidade de suas receitas e ajustar-se às realidades do novo ambiente, resultando em uma culinária híbrida que mescla elementos da cultura de origem com influências locais.
Dessa forma, a culinária típica dos imigrantes sírios em São Paulo é um exemplo vivo de como as tradições gastronômicas são dinâmicas e se transformam ao longo do tempo, influenciadas por diversos fatores sociais, culturais e econômicos. Esse processo de adaptação e hibridismo culinário enriquece a diversidade cultural da cidade e evidencia a resiliência e criatividade dos imigrantes em preservar sua identidade cultural enquanto se inserem em um novo contexto.
De acordo com Rustomgy (2020), além da necessidade de adaptar os condimentos ao paladar brasileiro, o custo dos ingredientes em São Paulo é um fator significativo que afeta a culinária árabe. Para tornar a comercialização dos pratos viável, a substituição de certos insumos torna-se essencial; caso contrário, os consumidores podem considerar os preços elevados. Um exemplo disso é o alto custo de ingredientes como pistache e pinoli. Além de serem mais caros do que na Síria e em outros países, o acesso a especiarias específicas, como o sumac, é limitado, não sendo facilmente encontradas em supermercados comuns.
A autora também destaca que a qualidade de algumas especiarias disponíveis não corresponde àquela a que os imigrantes estão acostumados, seja por serem de categorias diferentes ou por não terem preços compatíveis com suas características. Essa situação evidencia a necessidade de os imigrantes sírios ajustarem suas práticas culinárias, seja pela dificuldade de encontrar ingredientes específicos, pelo alto custo ou pela diferença na qualidade dos produtos disponíveis no Brasil. Essas adaptações ilustram o processo de hibridismo cultural, no qual tradições culinárias são modificadas e reinventadas no novo contexto, resultando em uma gastronomia que mescla elementos da cultura de origem com influências locais.
Complementando essa perspectiva, Burke (2010), explora o hibridismo cultural como um processo contínuo em que culturas distintas interagem e se transformam mutuamente, gerando novas formas culturais. O autor argumenta que o hibridismo é um processo contínuo no qual elementos culturais são combinados, reinterpretados e adaptados, criando expressões culturais inovadoras.
No contexto dos imigrantes sírios, o hibridismo culinário manifesta-se na fusão de técnicas, ingredientes e práticas alimentares sírias com as brasileiras, como na adaptação de receitas tradicionais para incluir ingredientes disponíveis localmente ou a criação de novos pratos que combinam sabores das duas culturas.
Essa prática não apenas facilita a integração dos imigrantes na sociedade brasileira, mas também enriquece a cultura gastronômica local. Dessa forma o hibridismo cultural não implica na perda da identidade original, mas sim na sua transformação e expansão. Os imigrantes sírios, ao adaptarem suas práticas culinárias, estão simultaneamente preservando aspectos de sua herança cultural e participando ativamente da construção de uma nova identidade híbrida. Essa identidade é moldada pelas interações cotidianas, pelas necessidades práticas e pelas oportunidades oferecidas pelo novo ambiente.
A adaptação culinária, portanto, é uma expressão tangível do hibridismo cultural. Ela reflete a capacidade dos indivíduos de negociar e reconciliar diferentes influências culturais, criando algo novo e significativo. Conforme Burke (2010), esse processo é fundamental para compreender as dinâmicas culturais em contextos de migração e globalização. Diante desse contexto a alimentação funciona como um meio pelo qual os imigrantes sírios constroem pontes entre culturas, negociam suas identidades e contribuem para a diversidade cultural da sociedade anfitriã. Assim, o hibridismo e a adaptação culinária não são apenas respostas às circunstâncias práticas, mas também escolhas conscientes que refletem o desejo de conexão, pertencimento e expressão cultural.
Cartografias Gastronômicas como Ferramenta Analítica
A utilização de cartografias gastronômicas como ferramenta analítica permite compreender não apenas a distribuição espacial dos imigrantes sírios na cidade de São Paulo, mas também como suas práticas alimentares influenciam e são influenciadas pelo ambiente urbano. Segundo Paiva (2011), os territórios da migração são construídos através de processos de afirmação, negação e ocultamentos, que moldam a forma como os grupos imigrantes se inserem e interagem com a cidade.
Em São Paulo, os imigrantes sírios concentram-se no Brás, Pari, Bom Retiro e no centro da cidade. Essas áreas, historicamente conhecidas por abrigar comunidades de imigrantes, tornaram-se pontos estratégicos para a instalação de restaurantes, mercados e estabelecimentos comerciais que oferecem produtos e serviços típicos da cultura síria.
De acordo com Khouri (2013):
“Os sírios e libaneses que chegavam, principalmente, a partir de 1940, começaram a se fixar também no Brás, devido aos preços mais baratos dos imóveis e à proximidade desta área com a 25 de Março e entorno.”
[…]
“Além disso, eles desenvolveram uma sociabilidade própria nessas áreas comerciais e estas regiões se transformaram em lugares de identidade para o grupo. “Próximo às lojas da 25 de Março e arredores, começaram a surgir restaurantes árabes, além da Igreja Ortodoxa da Anunciação a Nossa Senhora, na qual surgiram muitas das instituições culturais e esportivas da comunidade. Ainda hoje é comum, tanto na 25 de Março quanto no Brás, os imigrantes e descendentes tomarem café e almoçarem juntos. Muitas lojas recebem nomes de família ou alguma outra denominação que faça referência ao local de origem, elas também exibem imagens de santos cristãos e trechos do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos. Mesmo quem não mora mais ali, costuma ir às igrejas e mesquitas, e fazer compras de produtos árabes nestas áreas, uma forma de se reconhecerem e de se sentirem em casa”, diz. As mesquitas muçulmanas, mais comuns no Brás e no Pari, também abrigam sociedades beneficentes. “Na região do Paraíso, as igrejas, restaurantes, clubes e as ruas com nomes de personalidades da colônia fazem com que o bairro, assim como o Brás e a área da 25 de Março, seja um lugar de identidade para as famílias de imigrantes”.
O trecho acima oferece insights valiosos sobre como os imigrantes sírios e libaneses estabeleceram-se em determinados bairros de São Paulo, como o Brás, a 25 de Março e o Pari, criando espaços que refletem sua identidade cultural e social. A partir da década de 1940, esses grupos escolheram essas áreas devido aos preços mais acessíveis dos imóveis e à proximidade com centros comerciais importantes.
A concentração de imigrantes nessas regiões levou ao desenvolvimento de uma sociabilidade própria, transformando esses bairros em verdadeiros lugares de identidade para a comunidade árabe. A emergência de restaurantes, lojas com nomes de família ou referências ao local de origem, igrejas e mesquitas, além de clubes e instituições culturais, consolidou esses espaços como pontos de encontro e preservação cultural.
Assim, podemos evidenciar como a gastronomia atua como um elemento central na construção desses mapas culturais. Os restaurantes árabes que surgiram próximos às lojas da 25 de Março e arredores não são apenas estabelecimentos comerciais, mas também espaços de reafirmação identitária e de manutenção das tradições culinárias. Eles funcionam como pontos de conexão entre os imigrantes e descendentes, que se reúnem para tomar café, almoçar e compartilhar experiências.
Esses locais se tornam marcos significativos nas cartografias gastronômicas da cidade, representando a materialização física da cultura árabe no ambiente urbano paulistano. A presença de símbolos religiosos, como imagens de santos cristãos e trechos do Alcorão, em combinação com a oferta de produtos típicos, reforça a identidade cultural desses espaços e promove um sentimento de pertencimento entre os membros da comunidade.
Ao mapear esses espaços gastronômicos e culturais, é possível visualizar como os imigrantes sírios e libaneses se apropriaram de determinadas áreas da cidade, criando territórios simbólicos que refletem sua identidade e história. Essas cartografias gastronômicas funcionam como ferramentas analíticas que nos permitem entender as dinâmicas de migração, adaptação e integração cultural na cidade de São Paulo.
Portanto, o trecho em questão ilustra de forma clara a relação entre os espaços físicos ocupados pelos imigrantes e a manifestação de sua cultura através da gastronomia e outros elementos identitários, reforçando a compreensão de como a culinária não apenas satisfaz necessidades alimentares, mas também desempenha um papel crucial na formação de mapas culturais e na preservação da identidade em contextos migratórios.
Paiva (2011) destaca ainda que os territórios migratórios são marcados pela dinâmica das relações sociais e pelo fluxo constante de pessoas, produtos e ideias. No caso dos imigrantes sírios, a gastronomia serve como uma forma de territorialização simbólica, onde os sabores e aromas da culinária tradicional criam conexões afetivas com a terra natal e estabelecem novos vínculos no contexto urbano paulistano.
A análise dos mapas gastronômicos permite identificar padrões de concentração e dispersão dos imigrantes sírios, evidenciando como esses grupos utilizam a cidade para reproduzir e reinventar suas práticas culturais. A cartografia gastronômica torna-se, assim, uma ferramenta essencial para visualizar as trajetórias migratórias, entender os processos de construção identitária e analisar as interações socioculturais no espaço urbano.
Além disso, esses mapas revelam áreas de maior densidade de estabelecimentos gastronômicos sírios, que muitas vezes se sobrepõem a outros territórios étnicos, criando zonas de hibridismo cultural. Essa sobreposição espacial facilita o intercâmbio entre diferentes comunidades imigrantes e a população local, promovendo a integração social e enriquecendo o tecido cultural da cidade.
A cartografia gastronômica também evidencia os desafios enfrentados pelos imigrantes sírios, como a necessidade de adaptar receitas tradicionais devido à disponibilidade de ingredientes ou às preferências do público brasileiro. Esse processo de adaptação reflete a negociação contínua entre preservação cultural e integração econômica, destacando o papel da gastronomia como mediadora dessas dinâmicas.
Assim, a utilização das cartografias gastronômicas como ferramenta analítica permite aprofundar a compreensão sobre onde e como os imigrantes sírios se estabelecem em São Paulo, revelando a importância da gastronomia na construção de territórios culturais, na manutenção da identidade e na promoção do hibridismo cultural. Essa abordagem contribui para uma análise mais rica das experiências migratórias e das interações sociais no contexto urbano contemporâneo.
Considerações finais
Este artigo explorou a complexa interseção entre gastronomia, identidade cultural e integração social dos imigrantes sírios na cidade de São Paulo. Através de uma abordagem qualitativa fundamentada em revisão teórica evidenciou-se que a alimentação transcende sua função biológica básica, tornando-se um elemento central na construção e representação da identidade cultural em contextos migratórios.
As práticas alimentares dos imigrantes sírios emergem como poderosas ferramentas de preservação cultural e adaptação, refletindo um processo de hibridismo cultural conforme discutido por Burke (2010). A manutenção de receitas tradicionais e a adaptação de ingredientes locais demonstram a resiliência e a criatividade desses indivíduos na reconstrução de seu espaço social alimentar, conceito elaborado por Poulain (2004). A cozinha torna-se um espaço de refúgio e afirmação identitária, onde os sabores e saberes ancestrais são preservados e compartilhados. Assim, conforme apontado por Pesavento (2003), a alimentação torna-se um espaço onde se manifestam as dinâmicas de resistência cultural e negociação identitária, refletindo a complexidade das experiências dos imigrantes em contextos de diáspora.
A inclusão das perspectivas de Hall (2015, 2016) aprofundou a compreensão de que a identidade cultural é um processo dinâmico, moldado pelas práticas representacionais e pelas interações com o “outro”. A alimentação, nesse contexto, funciona como uma linguagem universal que facilita a comunicação intercultural, promovendo a integração social e enriquecendo o tecido cultural da cidade de São Paulo. As “saborosas portinhas” mencionadas por Al Noulfal (2021) exemplificam como os espaços gastronômicos sírios atuam como pontos de encontro e troca cultural, contribuindo para a construção de cartografias gastronômicas que mapeiam a presença e a influência síria na cidade.
A análise das cartografias gastronômicas, fundamentada nos estudos de Paiva (2011), revelou que os imigrantes sírios utilizam a cidade para reproduzir e reinventar suas práticas culturais, estabelecendo territórios simbólicos através da culinária. Esses territórios refletem processos de afirmação, negação e ocultamento que caracterizam a experiência migratória e a negociação identitária em ambientes urbanos complexos.
O estudo também destacou os desafios enfrentados pelos imigrantes sírios, como a necessidade de adaptar receitas devido à disponibilidade de ingredientes e às preferências do público local. Essa adaptação não implica em perda da identidade, mas sim em sua transformação e expansão, resultando em identidades híbridas que enriquecem a diversidade cultural da sociedade brasileira.
Conclui-se assim que a gastronomia desempenha um papel fundamental na manutenção da identidade cultural dos imigrantes sírios em São Paulo, ao mesmo tempo em que facilita sua integração social e econômica. As práticas alimentares servem como veículos de memória, pertencimento e resistência, permitindo que esses indivíduos naveguem pelas complexas dinâmicas de migração e globalização.
Este estudo contribui para preencher as lacunas identificadas na literatura, especialmente em relação à falta de investigações sobre a gastronomia síria como expressão cultural na cidade de São Paulo (Torres et al., 2022). Além disso, oferece uma nova perspectiva sobre a integração e transformação cultural mediada pela alimentação, sugerindo que as práticas gastronômicas dos imigrantes e refugiados são simultaneamente estratégicas para a adaptação econômica e essenciais para a manutenção da identidade cultural.
Recomenda-se que pesquisas futuras aprofundem a análise das cartografias gastronômicas em outras comunidades imigrantes, explorando como a alimentação pode servir como ferramenta para promover a inclusão social e a valorização da diversidade cultural. Além disso, estudos etnográficos que incorporem entrevistas e observações de campo poderiam enriquecer a compreensão das experiências individuais e coletivas dos imigrantes, contribuindo para políticas públicas mais eficazes de acolhimento e integração.
Em suma, a alimentação revela-se um elemento-chave na compreensão das dinâmicas culturais em contextos migratórios, evidenciando a capacidade humana de preservar tradições, adaptar-se a novos ambientes e construir identidades multifacetadas que refletem a riqueza da experiência humana em um mundo em constante movimento.
Caso o leitor tenha mais interesse sobre o tema, segue o link para aprofundamento:
https://padlet.com/23vivianvivi23/clonagem-do-padlet-cartografias-gastron-micas-s-rios-em-s-o–zu2e8zz2fktdydt6.
REFERÊNCIAS
Al NOULFAL, L. R. O refúgio na cozinha: como a integração da comunidade síria contemporânea configura uma São Paulo de saborasas portinhas. São Paulo, 2021.
BURKE, Peter. Hibridismo Cultural. Editora Unisinos, 2010.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Lamparina, 2015.
HALL, S. Cultura e representação. Editora Puc, 2016.
KHOURI, J. M. Pelos caminhos de São Paulo: a trajetória dos sírios e libaneses na cidade. 2013. São Paulo, 2013.
MENEZES, L. M., & MATOS, M. I. (2017). Gênero e imigração: mulheres portuguesas em foco. São Paulo: e-Manuscrito.
PAIVA, O. D. C. Territórios da migração na cidade de São Paulo: afirmação, negação e ocultamentos. Rivista dell’Istituto di Storia deell´Europa Mediterranea, 6., 2011.
PESAVENTO, S. J. História & História Cultural. Autêntica, 2003.
POULAIN, J. Sociologias da Alimentação – os comedores e o espaço social alimentar. Trad. Rossana Pacheco da Costa Proença, Carmen Silvia Rial e Jaimir Conte. Florianópolis: Editora da UFSC, 2004.
RUSTOMGY, V. L. S. Comida étnica e hospitalidade nas trajetórias de refugiados na cidade de São Paulo. São Paulo, 2020.
Estefania Medeiros Castro é formada em Gastronomia e atualmente, Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.