Considerações históricas sobre a cartografia
DURAN, Bruno de Andrade. Considerações históricas sobre a cartografia. In: Aguarrás, vol. 12, n. 39. ISSN 1980-7767. São Paulo: Uva Limão, JUL/DEZ 2025. Disponível em: <https://aguarras.com.br/consideracoes-historicas-sobre-a-cartografia/>. Acesso em: [current_date format=d/m/Y].
Introdução
A cartografia, enquanto prática e ciência, tem desempenhado um papel crucial na construção do conhecimento humano sobre o espaço e o território. Desde as primeiras representações geográficas, feitas por civilizações antigas, até os avanços tecnológicos contemporâneos, os mapas refletem não apenas o progresso técnico, mas também a visão de mundo e as relações de poder de cada época.
Este texto propõe uma reflexão sobre os principais marcos históricos da cartografia, explorando como suas transformações acompanharam mudanças culturais, científicas e políticas ao longo do tempo. Ao compreender esse percurso, é possível reconhecer a cartografia como uma ferramenta essencial para interpretar o passado e moldar o futuro.
Breves considerações
A cartografia é a ciência, arte e técnica de representar o espaço geográfico por meio de mapas, abrangendo desde métodos tradicionais até tecnologias avançadas. Além de mapear territórios físicos, ela também atua como ferramenta interpretativa em áreas como ciências humanas e sociais, permitindo a representação de ideias, fenômenos e processos. Etimologicamente, “A cartografia é uma palavra derivada do grego “graphien”, significando escrita ou descrita, e do latim “charta”, com o significado de papel, mostra, portanto, uma estreita ligação com a apresentação gráfica da informação, com sua descrição em papel” (MENEZES; FERNANDES, 2013, p. 18). E segundo Joly (2013, p. 7), “A cartografia é a arte de conceber, levantar, de redigir e de divulgar os mapas”.
Os mapas refletem o desejo humano de compreender e balizar o espaço, presente desde os primórdios da humanidade. Desde os primeiros rabiscos em cavernas até os mapas modernos, a humanidade sempre buscou representar o espaço, mesmo que nem sempre em formas reconhecidas pela cartografia contemporânea (SEEMANN, Jorn, 2013). Os vestígios do passado, como uma placa de barro cozido (e quebrado) do tamanho da palma de uma mão, encontrada em 1930 nas escavações das ruínas de Ga-Sur (Figura 1) na Babilônia, hoje Iraque, data de 4500 anos.

O mapa de Ga-Sur apresenta um rio cercado por montanhas e cidades esculpidas em círculos rudimentares e também. Com quase três metros de largura, foi encontrado nas escavações de Çatal Hüyük na região da Anatólia na Turquia, uma suposta planta urbana diante de um vulcão, com cerca de 8200 anos. Tais artefatos descrevem narrativas visuais ligadas ao cotidiano e à natureza e testemunham essa conexão ancestral do ser humano com com a expressão espacial (SEEMANN, Jorn, 2013).
Seemann, no seu livro “Carto-Crônicas: uma viagem pelo mundo da cartografia”, escreveu que:
O mito das origens da cartografia e a busca pelo mapa mais antigo da humanidade disfarçam o simples fato de que os seres humanos sempre tiveram uma preocupação com a percepção e representação do espaço, embora nem sempre eles tenham chegado a expressar suas ideias em forma gráfica, ainda menos com escala e legenda! (SEEMANN, Jorn, 2013, p. 34).
A cartografia antiga transcendeu a mera localização geográfica. Exemplos como o mapa “T no O” (Figura 2), elaborado na Idade Média, no sec. VII pelo cardeal Isidoro de Sevilha (O disco de Isidoro), mostram como o espaço era imbuído de simbolismo religioso. Eles não eram ferramentas de navegação, mas representações visuais de mistérios espirituais, acontecimentos históricos e ricos em significado (SEEMANN, Jorn, 2013).

A interpretação moderna, muitas vezes, julgou os mapas mais “antigos”, “primitivos” e “indígenas” de acordo com as normas e convenções do modelo moderno da ciência, ignorando compreender esses mapas e desenhos no contexto sociocultural, econômico e político da época e do lugar em que eles foram criados (SEEMANN, Jorn, 2013). Portanto, isso revela que a cartografia, mais do que ciência, é arte e narrativa. Enquanto o rigor técnico moderno é indispensável para o planejamento urbano e ambiental, os mapas antigos nos lembram que o espaço humano não se limita a linhas retas ou escalas exatas. Eles convidam a uma leitura “entre as linhas”, onde o significado transcende a geografia, conectando-se à imaginação e à espiritualidade (SEEMANN, Jorn, 2013).
A cartografia surge como a concretização desse impulso, transformando abstrações em representações concretas por meio de mapas desenhados nos primeiros suportes disponíveis. Ao substituir o espaço real por um espaço analógico, a cartografia proporcionou um domínio intelectual do universo, com profundas implicações para a humanidade. Embora os mapas tenham precedido a escrita e a notação matemática em diversas sociedades, foi somente no século XIX que a cartografia se consolidou como um conjunto disciplinar moderno. Ainda assim, os mapas mais antigos continuam a remeter às raízes culturais e históricas da humanidade.
John Brian Harley, um dos historiadores da cartografia mais bem sucedidos do século XX, que desenvolveu uma nova forma de se ler os mapas, escreveu no seu livro: “A nova história da Cartografia”: “O mapa autêntico mais antigo foi elaborado a cerca de 6000 a.C. Descoberto em 1963, durante uma escavação arqueológica em Çatal Höyük, na região centro-ocidental da Turquia, representa o povoado neolítico do mesmo nome. O traçado das ruas e casas, conforme os vestígios resgatados, tinha ao fundo o vulcão Hasan Dag em erupção. Esse mapa primitivo guarda alguma semelhança com as plantas das cidades modernas, mas sua finalidade era totalmente distinta. O sítio em que foi encontrado era um santuário ou local sagrado, e ele foi criado como parte de um ato ritual, como um “produto de momento”, sem a intenção de ser preservado após o cumprimento do rito” (HARLEY, 1991, p. 5).
A criação das bases científicas, técnicas e artísticas da Cartografia teve a contribuição de diferentes sociedades. Em sua vida nômade, criaram mapas rudimentares em superfícies rupestres, partindo dos princípios da observação e da necessidade de localização dos domínios, registravam fatos geográficos, locais de caça, de aldeias, de povos, rotas de viagens, de guerras, entre outros elementos. Desta forma, a Cartografia já se caracterizava como um instrumento de organização e poder (CAMPOS, 2012).
Na China, a partir do século IV a.C., os mapas destacaram-se por sua precisão e multifuncionalidade, servindo tanto à administração estatal, ao delimitar fronteiras e viabilizar a cobrança de impostos, quanto à estratégia militar, ao fornecer informações cruciais para o planejamento de conflitos. No Egito, o avanço técnico foi marcado pelo desenvolvimento da triangulação e instrumentos como o nível, em forma de “A” com um pêndulo, empregados para medições de terras, essenciais à arrecadação tributária que sustentava a autoridade dos faraós e sacerdotes (CAMPOS, 2012).
Na Grécia Antiga, as bases da ciência cartográfica começaram a ser delineadas por pensadores como Anaximandro (610 a 546 a. C.) e Hecataeus (c. 550 a 475 a.C), ambos de Mileto, que inicialmente representaram a Terra como um disco flutuante, e através das influências de Pitágoras e Aristóteles sobre a esfericidade da Terra (LUCÍRIO E HEYMANN, 1992). Todo o conhecimento geográfico e cartográfico da Grécia Antiga se encontra na obra monumental na obra do cartógrafo grego Claudius Ptolomeu de Alexandria, o “Tratado de Geografia”, que se preocupava menos com o caráter científico, voltando-se mais para as aplicações práticas da Cartografia (CAMPOS, 2012).
Os romanos utilizaram a cartografia como uma ferramenta estratégica, produzindo mapas voltados para fins administrativos e militares. Essas representações eram fundamentais para a cobrança de impostos e a expansão territorial. Já na Idade Média, dominada pela perspectiva cristã e espiritual, a cartografia assumiu uma conotação simbólica, refletindo a visão religiosa da época. No entanto, o século XIII marcou uma mudança significativa com o surgimento das Cartas Portulanas, mapas voltados para a navegação, que foram essenciais para as frotas expedicionárias europeias (CAMPOS, 2012). No Renascimento (séc. XIV ao séc. XVI) foi um período marcado pela redescoberta dos clássicos pelos europeus. Os estudos de Ptolomeu vieram à luz, fornecendo informação e inspiração aos que começavam a se aventurar em mares mais distantes. O mapa-múndi de Juan de La Cosa (1460 a 1510), membro da expedição de Cristóvão Colombo, é o primeiro a representar o descobrimento da América. Também nesta linha de raciocínio, Diego Ribeiro elaborou, em 1527, o primeiro planisfério, e Martim Behaim (1459 a 1507) construiu o primeiro globo terrestre (CAMPOS, 2012). Neste período de grandes viagens e descobertas, viveu Gerardus Mercator (1512 – 1594), cartógrafo que recolheu em suas viagens todos os materiais existentes sobre a representação terrestre: mapas antigos, crônicas de navegantes e descrições matemáticas e filosóficas. Considerado o pai da Cartografia moderna, criou, em 1569, o mapa-múndi Mercator, corrigindo as distorções produzidas anteriormente (LUCÍRIO E HEYMANN, 1992).
Entre a Reforma Protestante e o Iluminismo, a Cartografia vivenciou um período de avanços significativos, impulsionado pelo desenvolvimento das escolas de navegação e pela incorporação de novas tecnologias. A medição do arco do meridiano do Peru, realizada em 1728, foi um marco na precisão geográfica, permitindo a elaboração de mapas mais detalhados e cientificamente rigorosos (CAMPOS, 2012). Depois no século XIX, vale a pena destacar um momento crucial na Cartografia náutica brasileira com o início dos levantamentos hidrográficos do litoral. Já no século XX, a introdução de balões, a invenção do avião e a fotografia aérea ampliou a precisão e a abrangência das representações espaciais. Com os avanços tecnológicos, o uso do papel tem sido substituído pelo armazenamento das imagens em computadores (CAMPOS, 2012).
Maurício Rizzate, em seu livro: “Breve história da cartografia: dos povos primitivos ao Google Earth”, disse que: a evolução da Cartografia, com a utilização de imagens aéreas e orbitais promoveram uma maior agilidade no mapeamento. No entanto, o desenvolvimento da informática foi fundamental para o tratamento de imagens e levantamentos por Sistemas de Navegação Global por Satélite (GNSS). Surgiram os Projetos Assistidos por Computador (CADD), que utilizavam programas para a confecção de desenhos em meios digitais, alavancou o desenvolvimento da Cartografia. A Cartografia Assistida por Computador (CAC) ou Mapeamento Assistido por Computador (CAM), além do Mapeamento Automatizado e Gerenciamento Facilitado (AM/FM), que se baseiam na utilização da computação (hardware e software) para a geração de mapas (RIZZATTI, 2022, p. 54).
Os avanços das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), a partir do final do século XX, transformaram a cartografia ao democratizar o acesso aos recursos tecnológicos, como celulares e microcomputadores. Esse fato permitiu a popularização de mapas digitais, amplamente acessados por meio de aplicativos como Google Maps, Waze e Maps.me. Esses sistemas utilizam constelações de satélites artificiais, como o GPS e o GLONASS, integrados a mapas base, permitindo aos usuários navegarem e se deslocarem com precisão no espaço. Historicamente, Cartografia e Geografia sempre andaram juntas, desde os primórdios da existência humana na Terra (RIZZATTI, 2022).
Nos tempos atuais, o Sistema de Informação Geográfica (SIG), no inglês, Geographical Information System (GIS), destaca-se como uma das principais ferramentas para tratar e analisar informações espaciais, combinando recursos computacionais especializados para processar dados geográficos com alta precisão (Leão Neto, 1998). Outra ferramenta é o software “Google Earth”, a qual oferece um modelo tridimensional do globo terrestre, construído a partir de um mosaico de imagens de satélite e aéreas em diversas escalas. Essa ferramenta permite estimar áreas e distâncias, capturar coordenadas e criar representações como pontos, linhas e polígonos, sendo amplamente utilizada em mapeamentos devido à sua agilidade e qualidade. O Google Earth também desempenha um papel significativo na educação, proporcionando aos estudantes uma experiência única com a visão vertical do espaço, distinta da perspectiva cotidiana (RIZZATTI, 2022).
Com base na evolução das ferramentas cartográficas e na importância de explorar diferentes perspectivas e representações do espaço, os trabalhos que seguem nesse dossiê adota uma abordagem contemporânea para cartografar a produção acadêmica dos autores participantes. Por meio da plataforma Padlet, cada texto foi associado a um link específico, permitindo o acesso direto às pesquisas individuais. Essa estratégia não apenas organiza e compartilha as informações de forma dinâmica, mas também promove a interação e a visualização coletiva dos estudos realizados. Assim como o Google Earth transforma a compreensão espacial através da tecnologia, o uso do Padlet potencializa a acessibilidade e a interatividade no mapeamento de ideias e conhecimentos, conectando as práticas acadêmicas às ferramentas digitais do presente.
Consideraçõe finais
Conclui-se que a história da cartografia reflete não apenas avanços técnicos e científicos, mas também a evolução das sociedades humanas em sua relação com o espaço e o território. Desde as primeiras representações simbólicas até os mapas digitais contemporâneos, a cartografia demonstra como o conhecimento geográfico está intrinsecamente ligado aos contextos culturais, políticos e econômicos de cada época. Ao olhar para o futuro, é imprescindível reconhecer a importância desse legado histórico para compreender os desafios e potencialidades das tecnologias cartográficas no mundo atual. Assim, o estudo histórico da cartografia não apenas ilumina o passado, mas também oferece valiosas lições para o presente e para as gerações futuras.
Bruno de Andrade Duran é pastor presbiteriano e professor de Teologia. Mestrando do programa de pós-graduação em Educação, Artes e História da Cultura (PPGEAHC), da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Pós-graduado em Teologia Filosófica pelo Seminário Teológico Jonathan Edwards (STJE); bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (SPN); graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Cidade Verde (UNICV); licenciado em Informática pela Universidade Tiradentes (UNIT).