Do presencial ao virtual

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Do presencial ao virtual: reflexões sobre a memória e identidade na festa judaica em Recife

NARUSE, Thiago Atsushi. Do presencial ao virtual: reflexões sobre a memória e identidade na festa judaica em Recife. In: Aguarrás, vol. 12, n. 39. ISSN 1980-7767. São Paulo: Uva Limão, JUL/DEZ 2025. Disponível em: <https://aguarras.com.br/do-presencial-ao-virtual/>. Acesso em: [current_date format=d/m/Y].

 

RESUMO

Este artigo propõe-se a investigar os possíveis impactos que a futura transição da Festividade Judaica em Recife, tradicionalmente realizada de forma presencial, para um formato virtual poderá ter na comunidade judaica local. Planejada para ocorrer pela primeira vez em dezembro de 2024, essa mudança é motivada por questões de segurança e polarização política. Analisando essa transição à luz da teoria da memória coletiva e individual de Maurice Halbwachs, investigamos como o ambiente digital poderá afetar a preservação e a vivência da memória coletiva e individual. A perspectiva de Pierre Lévy sobre inteligência coletiva é também considerada, oferecendo insights sobre o potencial do virtual para manter a coesão comunitária e o sentimento de pertencimento. A pesquisa reflete sobre os desafios e inovações envolvidos na adaptação de uma tradição cultural ao espaço digital, discutindo as limitações e oportunidades para a preservação da identidade cultural em tempos de incerteza e transformação.

Palavras-chave: festa judaica, memória coletiva, Maurice Halbwachs, celebração virtual, identidade cultural, Pierre Lévy, inteligência coletiva.

 

ABSTRACT

 

This article aims to investigate the possible impacts that the future transition of the Jewish Festival in Recife, traditionally held in person, to a virtual format could have on the local Jewish community. Planned to take place for the first time in December 2024, this change is motivated by security concerns and political polarization. Analyzing this transition in light of Maurice Halbwachs’ theory of collective and individual memory, we investigate how the digital environment may affect the preservation and experience of collective and individual memory. Pierre Lévy’s perspective on collective intelligence is also considered, offering insights into the potential of the virtual to maintain community cohesion and a sense of belonging. The research reflects on the challenges and innovations involved in adapting a cultural tradition to the digital space, discussing the limitations and opportunities for preserving cultural identity in times of uncertainty and transformation.

 

Keywords: Jewish festival, collective memory, Maurice Halbwachs, virtual celebration, cultural identity, Pierre Lévy, collective intelligence.

 

 

INTRODUÇÃO

 

A celebração de festas religiosas e comunitárias desempenham um papel fundamental na preservação da identidade e na coesão das comunidades culturais ao redor do mundo. Na comunidade judaica de Recife, as festividades tradicionais se configuram como momentos de renovação da memória coletiva e individual, promovendo uma conexão profunda com a história e os valores herdados. Entre as principais festividades celebradas pela comunidade, destaca-se a Festa Judaica de Recife.

Criada em 1989, com o intuito de fortalecer ainda mais a identidade judaica local e promover o sentimento de pertencimento entre os membros da comunidade, essa celebração comunitária integra elementos culturais e religiosos, reunindo diversas tradições judaicas em um só evento.

A festa conta com atividades para todas as idades, incluindo música, dança, gastronomia típica, artesanato e apresentações que retratam a história, as crenças e os valores do judaísmo. A iniciativa busca não apenas preservar a herança cultural, mas também aproximar os membros da comunidade e fomentar o diálogo com a sociedade local, destacando a contribuição judaica para a diversidade cultural de Recife.

 

Figura 1. Sinagoga Kahal Zur Israel. Fonte: https://www.folhape.com.br/especiais/guia-recife/localizado-no-bairro-do-recife-sinagoga-kahal-zur-israel-e-o-primeiro/266624/
Figura 1. Sinagoga Kahal Zur Israel. Fonte: https://www.folhape.com.br/especiais/guia-recife/localizado-no-bairro-do-recife-sinagoga-kahal-zur-israel-e-o-primeiro/266624/

 

Figura 2. Festa Judaica em Recife em frente a Sinagoga Kahal Zur Israel. Fonte: https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2017/10/festival-de-cultura-judaica-do-recife-e-ampliado.html
Figura 2. Festa Judaica em Recife em frente a Sinagoga Kahal Zur Israel. Fonte: https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2017/10/festival-de-cultura-judaica-do-recife-e-ampliado.html

 

A Festa Judaica em Recife representa um espaço de integração e intercâmbio cultural, envolvendo não apenas a comunidade judaica local, mas também participantes de diversas origens e tradições religiosas, evidenciando a pluralidade cultural da cidade. Esse evento se configura como um importante instrumento de preservação da identidade cultural judaica, promovendo o fortalecimento do sentimento de pertencimento entre os seus membros e a transmissão de valores fundamentais.

Ao abrir-se à participação de diferentes grupos, a festividade permite que valores como respeito, solidariedade e diversidade sejam vivenciados e compartilhados, contribuindo para o enriquecimento cultural da sociedade recifense. Dessa forma, a Festa Judaica transcende o âmbito religioso e comunitário, consolidando-se como um momento de diálogo e aproximação, reafirmando a relevância da tradição judaica não apenas para a própria comunidade, mas também para a construção de uma convivência social plural e inclusiva.

Em 2024, no entanto, devido a preocupações com segurança e à crescente polarização política, a festa judaica em Recife ocorrerá pela primeira vez em um formato virtual, rompendo com a tradição anual de encontro presencial. Até a presente data, segundo  Jader Tachlitsky[1], um dos organizadores do evento, ainda não há definições concretas sobre como o encontro virtual será estruturado. Esse novo cenário levanta questionamentos não só sobre o impacto do ambiente digital na vivência e preservação da memória coletiva e individual dessa comunidade, mas também sobre a manutenção dessa interação multicultural.

Para compreender os efeitos dessa transição, este estudo fundamenta-se na teoria da memória coletiva de Maurice Halbwachs (1990), que argumenta que as lembranças de um grupo são reforçadas por meio de interações sociais e práticas culturais compartilhadas. Complementarmente, consideramos a perspectiva de Pierre Lévy (1999), que vê o ambiente digital como um espaço de inteligência coletiva, onde as interações virtuais podem também contribuir para o fortalecimento das memórias compartilhadas e para a coesão comunitária.

Este artigo propõe uma reflexão sobre como a celebração virtual poderá impactar a construção da memória coletiva e o senso de pertencimento individual no contexto da comunidade judaica de Recife. A análise apresentada explora os desafios e inovações que surgem ao tentar manter viva uma tradição cultural em um ambiente digital, considerando tanto as limitações quanto as potencialidades de preservação da identidade cultural em tempos de transformação e restrições sociais.

 

 

Judeus Holandeses em Recife: Isaac Aboab da Fonseca e a Sinagoga Kahal Zur Israel em Recife

 

A história da comunidade judaica em Recife remonta a um período distante, marcado por perseguições religiosas e migrações forçadas. Após serem perseguidos  e expulsos da Península Ibérica devido à Inquisição[2], muitos judeus sefarditas encontraram abrigo e refúgio na Holanda, onde puderam encontrar a paz e praticar a sua fé com certa liberdade.

Com a expansão colonial holandesa e a ocupação do Nordeste brasileiro no século XVII, um número significativo de judeus, atraídos pelas oportunidades econômicas e pela relativa tolerância religiosa em solo brasileiro, migrou para a cidade de Recife, onde estabeleceram uma comunidade religiosa próspera e também coesa. Recife, nesse período, tornou-se um dos principais centros de acolhimento judaico nas Américas. Dentre os nomes que se destacaram nesse contexto encontra-se Isaac Aboab da Fonseca.

Nascido em Castro Daire, Portugal, Aboab da Fonseca foi obrigado a deixar sua terra natal devido à perseguição da Inquisição. Em Amsterdã, recebeu sólida formação rabínica, destacando-se rapidamente por seu conhecimento e liderança. Em 1642, ele foi enviado para Recife pela Companhia Holandesa das Indias Ocidentais para servir a comunidade judaica que florescia sob o domínio holandês no Brasil.

Liderando a Sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga das Américas, Aboab da Fonseca tornou-se uma figura central na vida religiosa e cultural da comunidade judaica recifense. Inicialmente instalada na residência de David Senior Coronel[3], outro importante personagem sefardita neste período, a sinagoga foi estabelecida na Rua dos Judeus (atual Rua do Bom Jesus), onde permanece até hoje, simbolizando a liberdade religiosa que os judeus encontraram em solo brasileiro sob domínio holandês, em contraste com a intolerância religiosa imposta pela Inquisição portuguesa na maior parte da Europa naquela época.

Com a preservação de suas práticas e tradições, a comunidade judaica de Recife não só floresceu, mas também se consolidou como um marco significativo na história do judaísmo nas Américas. Este processo de continuidade e ressignificação cultural foi fortalecido por um evento de grande importância, que, embora tenha origem mais recente, desempenhou um papel crucial na manutenção e no fortalecimento da identidade judaica local: a Festividade Judaica em Recife, também conhecida como Festival Judaico de Recife ou Festival de Cultura Judaica.

 

Figura 3. Festa Judaica em Recife em frente a Sinagoga Kahal Zur Israel. Fonte: https://jc.ne10.uol.com.br/canal/cidades/noticia/2018/12/02/festival-da-cultura-judaica-movimenta-o-bairro-do-recife-364039.php
Figura 3. Festa Judaica em Recife em frente a Sinagoga Kahal Zur Israel. Fonte: https://jc.ne10.uol.com.br/canal/cidades/noticia/2018/12/02/festival-da-cultura-judaica-movimenta-o-bairro-do-recife-364039.php

A realização desse evento tem sido fundamental, não apenas para a preservação da herança cultural judaica, mas também para o resgate e revitalização de suas tradições, proporcionando um espaço de renovação, reafirmação dos valores e fortalecimento da memória coletiva da comunidade. Embora inicialmente de origem popular, o Festival ganhou maior visibilidade e apoio ao contar com o respaldo institucional da Sinagoga Kahal Zur Israel, o que permitiu um crescimento significativo em sua popularidade. Sua primeira edição ocorreu em 1989, tendo passado por algumas interrupções ao longo dos anos, especialmente devido a questões logísticas e financeiras, dificuldades comuns a eventos culturais dessa magnitude. A última interrupção ocorreu durante a pandemia de COVID-19, em 2020 e 2021, quando o festival foi suspenso por dois anos consecutivos.

Após esse período de inatividade e espera, o festival encontrou um novo desafio: a guerra entre Israel e o Hamas. Mais uma vez, o evento se viu obrigado a cancelar suas atividades, conforme destacado na citação abaixo:

 

O Festival da Cultura Judaica, como o próprio nome já identifica, é um momento de confraternização e alegria. Vivenciamos nossa arte e cultura, com júbilo, por meio da música e da dança. Nos últimos dias, todo o mundo judaico foi surpreendido com os atos de barbárie a que foi submetida a população em Israel. (…) Estamos de luto. Um luto de uma intensidade que se compara aos piores episódios já sofridos por nosso povo. Somos reconhecidos por nossa resiliência, por nossa capacidade de sentir o amargor da dor e nos reerguermos fortes, unidos e pujantes. (…) Jamais esqueceremos, mas seguiremos em frente. Chegará o momento em que a situação na pátria judaica de alguma forma se estabilizará. E abrandaremos nossa dor, reanimaremos nossos espíritos e realizaremos o mais belo Festival (que estava previsto para acontecer no dia 29 de outubro, na Rua do Bom Jesus) de todos os tempos. (FIPE, 2023).

 

O trecho citado é de uma matéria publicada no portal Folha de Pernambuco, que aborda a suspensão da Festa Judaica em Recife no ano de 2023, motivada pelos intensos conflitos em Israel. A informação foi divulgada pela Federação Israelita de Pernambuco (Fipe)[4], que emitiu um comunicado oficial anunciando a interrupção do evento. O comunicado não apenas expressa a tristeza e o luto por parte da comunidade diante dos trágicos acontecimentos, mas também revela a intensa expectativa por parte de seus organizadores de que as atividades e festividades presenciais seriam retornadas em 2024, destacando a importância dessa festividade não apenas para o fortalecimento da identidade cultural, mas também para a coesão da comunidade judaica de Recife.

Agora, em 2024, após aproximadamente três anos de espera e expectativa, o festival enfrenta mais um grande desafio. Devido à continuidade do conflito entre Israel e o Hamas, às tensões raciais e à crescente polarização política, o sentimento de insegurança entre os organizadores e a comunidade se acentuou, o que os levou a uma difícil decisão: adiar ou não novamente a festividade?

Em resposta a esse cenário de insegurança local e ao clima de conflito internacional, a comunidade judaica de Recife optou por não adiar, mas por adaptar o evento. Com o objetivo de preservar e manter viva a memória coletiva da comunidade, os organizadores decidiram realizar o festival em formato virtual, sem a participação presencial de seus membros, como forma de garantir a continuidade da tradição mesmo diante das dificuldades presentes.

Essa adaptação, no entanto, levanta uma questão crucial: A transição da festividade judaica para o ambiente digital representa um desafio ou uma inovação na preservação da memória coletiva e da identidade cultural da comunidade judaica em Recife?

Para explorar essa questão, recorreremos à teoria da memória coletiva de Maurice Halbwachs (1990), que enfatiza o papel das interações sociais na formação e manutenção das memórias de um grupo, e à perspectiva de Pierre Lévy (1999) sobre inteligência coletiva, que vê o ambiente digital como um espaço para a construção e o compartilhamento de significados. Com essas bases teóricas, analisaremos de que forma o formato virtual pode influenciar tanto a coesão comunitária quanto a identidade cultural em tempos de transformação.

 

 

A Festividade Judaica em Recife e a memoria coletiva e individual a luz de Maurice Halbwachs

 

Maurice Halbwachs (1877-1945) foi um sociólogo francês, renomado por suas contribuições ao estudo da memória coletiva. Nascido em Reims, França, em uma família universitária, Halbwachs estudou na prestigiada École Normale Supérieure, onde teve contato com figuras importantes do pensamento sociológico, como Émile Durkheim. Ao longo de sua carreira, Halbwachs desenvolveu a ideia de que a memória individual é fortemente influenciada pelas interações sociais e coletivas e que as recordações individuais são moldadas pelos grupos aos quais o indivíduo pertence.

Sua obra mais conhecida, A Memória Coletiva, lançou as bases para o entendimento de como os grupos, por meio de práticas, tradições e instituições, constroem e preservam suas identidades ao longo do tempo. No primeiro capítulo dessa obra, Halbwachs defende que a memória individual é constantemente reforçada e, muitas vezes, influenciada pela memória coletiva dos outros. Ele argumenta que, na maioria das vezes, a memória coletiva legitima nossa própria consciência e recordação. Segundo Halbwachs, a memória individual nunca é completamente independente, pois sempre recorremos “aos testemunhos para fortalecer ou debilitar, mas também para completar, o que sabemos de um evento do qual já estamos informados de alguma forma” (Halbwachs, 1990, p. 25). Estamos, portanto, em constante busca de legitimação do passado, especialmente por meio de uma afirmação coletiva que pode ser expressa e compartilhada de forma verbal, simbólica e institucional. “Assim, para confirmar ou recordar uma lembrança, as testemunhas, no sentido comum do termo, isto é, indivíduos presentes sob uma forma material e sensível, não são necessárias” (Halbwachs, 1990, p. 27), basta que busquemos essa legitimação em algo que já foi coletivamente legitimado, como é o caso não só da Sinagoga Kahal Zur Israel, mas também da Festividade Judaica em Recife.

Nesse sentido, a realização da Festividade em Recife apresenta um desafio fundamental para a teoria de Halbwachs. Se, como ele sugere, a memória individual é reforçada e legitimada pelo testemunho direto de outros membros do grupo ou instituições reais ou simbólicas, a ausência de uma interação física – especialmente no contexto da Festividade Judaica  em Recife, que constitui uma instituição simbólica fundamental para a memória coletiva e individual judaica em Recife – pode enfraquecer a eficácia desse processo. A festividade é um evento essencial que proporciona um cenário material e sensível, onde as memórias e tradições da comunidade são reafirmadas de geração em geração. Sem a presença física nesse espaço, que serve como um dos pilares da legitimação coletiva, a experiência da festividade corre o risco de perder parte de seu valor simbólico e de sua capacidade de reforçar as identidades individuais em relação ao grupo. A memória da festividade, portanto, corre o risco de se tornar menos “viva” ou “autêntica” na experiência individual dos participantes, pois a falta de contato direto pode enfraquecer os laços e diminuir a força simbólica da celebração.

Essa questão coloca em debate a própria natureza da memória coletiva no ambiente digital. Ao virtualizar um evento que tradicionalmente depende da presença sensível para reforçar a coesão comunitária, a comunidade judaica de Recife se depara com o dilema de preservar suas tradições em um espaço que desafia as bases da memória coletiva estabelecidas por Halbwachs, mas abre precedente para a tese de um outro grande pensador: Pierre Lévy.

 

 

Pierry Lévy e a inteligência coletiva

 

Pierre Lévy (1956-) é um filósofo e teórico da informação franco-tunisiano, conhecido por suas contribuições ao estudo da cibercultura e das transformações da sociedade na era digital. Nascido em Túnis, na Tunísia, Lévy se destacou por explorar o impacto da tecnologia e do ambiente virtual na comunicação e na construção do conhecimento. Seu conceito de “inteligência coletiva” tornou-se central para entender como as pessoas podem colaborar e criar conhecimento em rede, compartilhando e construindo informações de forma coletiva. Entre suas obras mais influentes estão Cibercultura e O que é o Virtual?, nas quais examina como o digital está reformulando as interações sociais e o aprendizado. O trabalho de Lévy tem sido fundamental para entender as novas dinâmicas culturais e de memória coletiva no contexto digital.

Em sua obra O que é o Virtual? (1995), Lévy defende que o virtual não é o oposto do real, mas uma dimensão da realidade que é latente e potencial, pronta para ser atualizada em diferentes contextos. Para Lévy, o ambiente virtual — ou ciberespaço — é um novo território simbólico que possibilita o compartilhamento de significados e a criação de laços e identidades culturais. Em suas palavras:

 

Contrariamente ao possível, estado e já constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanham uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização. (LÉVY, 1996, p. 16.)

 

 

Lévy nos oferece uma compreensão fundamental sobre o conceito de virtualidade, que vai além da simples ausência física. Essa ideia se aplica diretamente ao contexto da festividade judaica de Recife em seu novo formato virtual. A memória coletiva da comunidade judaica, com todos os seus valores, tradições e símbolos, está agora “virtualmente” presente, ou seja, mantém-se latente no ambiente digital.

Em seu outro livro, Cibercultura (1997), ele apresenta o conceito de inteligência coletiva, onde descreve que o conhecimento pode ser produzido e ampliado por meio da colaboração entre pessoas conectadas em rede. Esse ambiente digital, para Lévy, pode permitir que a memória coletiva e as tradições culturais sejam preservadas e reinventadas, mesmo sem a presença física. Assim, Lévy vê o ciberespaço como uma extensão da realidade social e cultural, onde novas formas de interação, conhecimento e memória podem ser construídas de maneira coletiva e dinâmica. Em suas palavras: “A cibercultura faz emergir uma nova forma e maneira de agir” (Lévy, 1999, p. 150).

No entanto, segundo ele, para que essa memória coletiva se torne efetiva e significativa para os participantes, ela precisa ser “atualizada” no ambiente virtual. Isso implica em um processo ativo de adaptação, onde elementos como as interações sociais, os rituais e as práticas compartilhadas — que tradicionalmente reforçam a coesão e a identidade comunitária — necessitam de novas formas de expressão e envolvimento. Essa necessidade de atualização no ambiente virtual nos leva a refletir sobre como a essência da festividade judaica em Recife pode ser mantida em um contexto onde os elementos tradicionais de interação estão ausentes.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A realização virtual da festa judaica em Recife representa um caso emblemático dos desafios contemporâneos para a preservação da memória coletiva em tempos de transformação digital. A transição para o formato virtual, impulsionada por fatores externos como ameaças e insegurança, exige uma reflexão aprofundada sobre como as novas tecnologias impactam a construção e a continuidade das tradições culturais.

Maurice Halbwachs, em sua teoria da memória coletiva, enfatiza que as lembranças de um grupo são mantidas por meio de interações presenciais e práticas culturais partilhadas em um espaço físico comum. Para ele, os rituais e as celebrações presenciais reforçam o sentido de pertencimento e a identidade coletiva, pois a proximidade física facilita a transmissão de significados e emoções. No entanto, a virtualização dos encontros rompe com essa configuração tradicional e coloca a memória coletiva diante de novos desafios.

É nesse contexto que a teoria de Pierre Lévy sobre a virtualidade e a inteligência coletiva oferece uma perspectiva complementar e inovadora. Lévy vê o ciberespaço como um novo “território simbólico” que permite a continuidade das práticas culturais, ainda que em um formato adaptado. Para ele, o ambiente digital não é um substituto do físico, mas uma extensão onde a memória coletiva e as tradições podem ser recriadas e compartilhadas, possibilitando que as identidades culturais se mantenham mesmo em tempos de crise. A virtualidade, segundo Lévy, expande as possibilidades de conexão e colaboração, formando uma “inteligência coletiva” que se adapta às necessidades e desafios do mundo contemporâneo.

No entanto, apesar dessas possibilidades, o formato virtual apresenta desafios consideráveis. A ausência de encontros físicos pode enfraquecer o sentido de comunidade e diminuir o impacto emocional das celebrações, elementos fundamentais para a construção da memória coletiva, conforme Halbwachs. O ciberespaço oferece um suporte à continuidade, mas não consegue replicar por completo a profundidade dos laços sociais e emocionais que surgem em encontros presenciais. Esse distanciamento pode levar a um risco de superficialidade na transmissão das tradições e valores culturais, especialmente para as gerações mais jovens.

Nesse sentido, a transição para o formato digital exige que a comunidade se reinvente, criando formas de interação que, mesmo mediadas pela tecnologia, possam evocar o senso de pertencimento e continuidade. Como uma celebração que contribui diretamente para a legitimação e o fortalecimento da memória individual e coletiva, a festividade judaica em Recife precisa encontrar soluções para que esse “complexo problemático” seja resolvido de forma a preservar e atualizar seu significado, garantindo que, mesmo em um ambiente digital, a memória coletiva permaneça viva e relevante.

Portanto, a festa judaica virtual em Recife revela uma tensão entre a necessidade de adaptação e a preservação da autenticidade cultural. Se, por um lado, o ciberespaço proporciona um meio de superação das barreiras físicas, ele também impõe o desafio de encontrar maneiras eficazes de recriar o sentido de pertencimento e identidade coletiva em um formato distante da vivência física tradicional.

Para o futuro, o desafio será equilibrar essas duas dimensões: utilizar a inovação tecnológica para garantir a continuidade das práticas culturais, sem comprometer a profundidade e a autenticidade da memória coletiva. Nesse cenário, a teoria de Lévy sugere que a inteligência coletiva do ciberespaço pode ser mobilizada para encontrar soluções criativas, fortalecendo a resiliência cultural da comunidade. Ao mesmo tempo, é essencial que a comunidade judaica recifense continue cultivando espaços de encontro físico sempre que possível, garantindo que a memória coletiva e a identidade cultural se mantenham vivas em sua forma mais completa.

Em última análise, a experiência da festa judaica virtual destaca tanto os desafios quanto as oportunidades oferecidas pelo ambiente digital. Cabe à comunidade explorar essas ferramentas digitais como uma extensão de sua realidade cultural, sempre com a consciência de que a memória coletiva é uma construção dinâmica que precisa se adaptar para sobreviver, mas que deve preservar seus elementos fundamentais para manter-se significativa ao longo do tempo.

 

 

REFERENCIAIS BIBLIOGRÁFICOS

FEDERAÇÃO ISRAELITA DE PERNAMBUCO. Comunicado sobre a suspensão do Festival da Cultura Judaica. Folha de Pernambuco, 2023. Disponível em: https://www.folhape.com.br/. Acesso em: 9 nov. 2024.

HALBWACHS, Maurice. A memória Coletiva. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais Ltda. 1990.

LÉVY, Pierre. O que é o Virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.çµz

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.​

LEVY, Daniela Tonello. Judeus e marranos no Brasil Holandês: pioneiros na colonização de Nova York. 2008. Tese (Mestrado em Ciências Humanas) –  Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

WEITMAN, Y. David.  Bandeirantes Espirituais do Brasil, São Paulo: Editora Mayaanot, 2003.

 

[1] Economista e professor especializado em Cultura e História Judaica, atua como coordenador de comunicação da Federação Israelita de Pernambuco (FIPE), contribuindo para a divulgação e preservação da cultura judaica na região. É autor de diversos artigos sobre o conflito Israel-Palestina e temas relacionados ao Oriente Médio.

[2] A Inquisição foi um conjunto de tribunais religiosos estabelecidos pela Igreja Católica no século XIII, com o objetivo de combater práticas religiosas consideradas inadequadas ou não conformes ao cristianismo. Embora tenha ocorrido em diversas partes da Europa, a Inquisição mais conhecida foi a Inquisição espanhola, iniciada em 1478, que visava principalmente os judeus conversos (judeus que se converteram ao cristianismo) e os muçulmanos, além de outros grupos considerados desviantes da fé oficial. A Inquisição portuguesa, também intensa, foi responsável pela perseguição e repressão de judeus, muçulmanos e outros indivíduos acusados de práticas religiosas “erradas”, especialmente durante os séculos XV e XVI. Essa repressão levou muitos judeus a fugir para outras partes do mundo, incluindo as colônias portuguesas, como o Brasil.

[3] David Senior Coronel foi uma importante figura sefardita na comunidade judaica de Recife durante o período colonial. Ele é frequentemente associado à liderança religiosa e à preservação das tradições judaicas na cidade, especialmente em relação à Sinagoga Kahal Zur Israel. Sua residência foi o local inicial onde a sinagoga foi instalada antes de ser transferida para a Rua dos Judeus, um dos primeiros centros de culto judaico nas Américas. Sua contribuição foi crucial para a formação e o fortalecimento da identidade judaica local.

[4] Organização comunitária representativa da comunidade judaica em Pernambuco, responsável por promover e preservar a cultura, a religião e os valores judaicos na região, além de atuar em diversas iniciativas sociais e culturais, incluindo eventos como o Festival da Cultura Judaica.

 

Thiago Atsushi Naruse é mestre em Teologia (Magister Divinitatis) pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper (Instituto Presbiteriano Mackenzie). Mestrando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, sob orientação do Prof. Dr. Sérgio Ribeiro e em Teologia (Sacrae Theologiae Magister) pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper. Bolsista da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Bolsa Institucional). Possui pós-graduação em Teologia e Interpretação Bíblica pela Faculdade Batista do Paraná (2020), em Teologia Sistemática, Teologia Bíblica e Exposição Bíblica pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper, em História do Cristianismo e do Pensamento Cristão pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro e em História Antiga, Medieval e Moderna e História do Brasil pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo. Atualmente está cursando licenciatura em Pedagogia pelo Centro Universitário Sumaré e é Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2019). http://lattes.cnpq.br/5304580542908166

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