Mapeando gostos e narrativas

artigos

Mapeando gostos e narrativas: Cartografia da alimentação em A hora da estrela, de Clarice Lispector

SANTOS, Márcia Meira dos. Mapeando gostos e narrativas: Cartografia da alimentação em A hora da estrela, de Clarice Lispector. In: Aguarrás, vol. 12, n. 39. ISSN 1980-7767. São Paulo: Uva Limão, JUL/DEZ 2025. Disponível em: <https://aguarras.com.br/mapeando-gostos-e-narrativas/>. Acesso em: [current_date format=d/m/Y].

 

Resumo

Este artigo é parte de uma pesquisa de mestrado que explora as relações entre alimentação e Literatura, tendo como foco o último trabalho de Clarice Lispector, A hora da estrela. O estudo analisa relação da protagonista com a alimentação e a forma como ela é representada na novela. O objetivo é apresentar um breve panorama do projeto de mestrado, utilizando a cartografia de Deleuze e Guattari, como metodologia de investigação para compreender as nuances dessa relação no contexto literário.

Palavras-chave: Alimentação. Literatura. História Cultural. Método cartográfico. Representação.

 

Introdução

Por meio da Literatura é possível captar a atmosfera e o pensamento de uma época, permitindo o acesso a registros sobre comportamentos, normas sociais, modos de vestir e de se alimentar. No campo da História Cultural, a Literatura torna-se uma valiosa fonte de estudo. Segundo Sandra Pesavento (2003:83), “a Literatura é fonte de si mesma”, pois não trata necessariamente, de personagens que existiram e nem se preocupa com a verdade histórica, mas fornece pistas sobre o tempo e a sociedade que a produziu, revelando aspectos muitas vezes ocultos em fontes históricas convencionais.

Ela não fala de coisas ocorridas, não traz nenhuma verdade do acontecido, seus personagens não existiram, nem mesmo os fatos narrados tiveram existência real. A Literatura é testemunho de si própria, portanto o que conta para o historiador não é o tempo da narrativa, mas sim o da escrita. Ela é tomada a partir do autor e sua época, o que dá pistas sobre a escolha do tema e de seu enredo, tal como sobre o horizonte de expectativas de uma época. (Pesavento, 2003:83)

Portanto, cabe ao autor a escolha do tema e ao leitor a interpretação das pistas literárias que apontam para questões sobre arquitetura, política, economia, clima social, patrimônio imaterial, como é o caso da alimentação. Dentre muitas outras perspectivas possíveis de serem abordadas, a alimentação na Literatura surge de diversas formas: por meio da descrição e da produção de alimentos, do preparo de receitas, da comensalidade ou hábitos alimentares, em mesas fartas ou entre pratos exíguos, da alimentação dentro e fora de casa, que levam à descrição de locais frequentados pela sociedade de uma determinada época.

No estudo da alimentação na Literatura, em geral, é comum pensar nos grandes banquetes satíricos de Gargântua e Pantagruel, de François Rabelais; nos jantares inesquecíveis de Alexandre Dumas, em Memórias gastronômicas; ou ainda, no icônico episódio das madeleines, na obra Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust.  Na Literatura Brasileira, Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado, celebra a culinária baiana e os prazeres da mesa e a sensualidade da boa mesa.

Este artigo é parte de uma pesquisa de mestrado – realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001 –, ainda em desenvolvimento, sobre alimentação e Literatura, a partir do último trabalho de Clarice Lispector, A hora da estrela, publicado em 1977, meses antes da sua morte. A novela aborda a desigualdade social, o êxodo rural e o analfabetismo a partir da história da ingênua Macabéa, jovem nordestina pobre, datilógrafa, semianalfabeta, sozinha no mundo, que come cachorro-quente e bebe Coca-Cola. Macabéa migra de Alagoas para lutar pela sobrevivência, mas não dispõe dos mecanismos para enfrentar o mundo capitalista em uma grande cidade como o Rio de Janeiro. A relação da protagonista do romance com a alimentação e a forma como ela é caracterizada é o tema do projeto de mestrado e deste artigo. Segundo DaMatta (1986:56), comida é também um modo de se alimentar, que define não só a comida, como quem a ingere.

O objetivo geral deste artigo é apresentar um breve panorama do projeto de mestrado por meio da cartografia de Deleuze e Guattari, que será aplicada como metodologia de pesquisa.

O método cartográfico de Deleuze e Guattari, apresentado em sua obra “Mil Platôs”, se destaca por sua inovação, pois rompe narrativas lineares oferecendo uma alternativa ao pensamento contemporâneo. Ao invés de fazer uma representação estática da realidade, o método cartográfico proposto pelos filósofos franceses vai além da representação geográfica e busca mapear as relações e fluxos que compõem a realidade. Deleuze e Guattari enfatizam que esse método deve ser dinâmico e flexível, permitindo uma leitura das multiplicidades, dos conflitos e das conexões que caracterizam as relações do conteúdo estudado.

[…] somos atravessados por linhas, meridianos, geodésicas, trópicos, fusos, que não seguem o mesmo ritmo e não têm a mesma natureza. […] E constantemente as linhas se cruzam, se superpõem a uma linha costumeira, se seguem por um certo tempo. […] É uma questão de cartografia. Elas nos compõem, assim como compõem nosso mapa. Elas se transformam e podem penetrar uma na outra. Rizoma. (Deleuze e Guattari, 1996:77-76)

O processo de mapeamento teve início a partir do levantamento do estado da arte sobre a temática da alimentação em A hora da estrela. A partir de pesquisas realizadas no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, observou-se que a temática “alimentação e literatura” ainda é pouco explorada. Por isso, este estado da arte busca mapear e sintetizar as pesquisas já existentes que discutem o papel da alimentação na literatura, com especial atenção para as obras que abordam A hora da estrela sob essa perspectiva.

Mapeando sabores e narrativas

Apenas duas dissertações de mestrado (Quadro 1)  foram identificadas a partir do descritor de busca “alimentação e literatura”, entre 2014 e 2023: Entre realidade e ficção: a alimentação na obra naturalista de Aluísio de Azevedo (Clarissa Gomes Pesente, Mestrado em História, Universidade Federal Fluminense, 24/04/2018) e A construção social dos personagens no romance Candunga: literatura e alimentação em Bruno de Menezes (Marília Costa de Oliveira, Mestrado em Linguagens e Saberes na Amazônia, Universidade Federal do Pará, 30/07/2023).

Levantamento semelhante, a partir do descritor de busca “a hora da estrela”, identificou 50 teses e dissertações, entre 2014 e 2023, no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. Após análise qualitativa do resultado obtido, por meio dos resumos de todos os trabalhos, concluiu-se que a alimentação não é tema principal de nenhum dos trabalhos identificados sob esse descritor. No entanto, a partir dessas 50 pesquisas identificadas sobre o descritor “a hora da estrela”, cinco trabalhos (Quadro 2) estão associados a temas correlatos a alimentação como social, migração, cidade, pobreza, nordestinos.

 

Quadro 1

Trabalhos sobre associados alimentação e literatura
IID Tipo de trabalho/ instituição/ ano Título Autor Palavras-chave
1 Dissertação, UFF, 2018 Entre realidade e ficção: a alimentação na obra naturalista de Aluísio de Azevedo PESENTE, Clarissa Gomes Aluísio Azevedo, alimentação, naturalismo, literatura
2 Dissertação, UFPA, 2023 A construção social dos personagens no romance Candunga: literatura e alimentação em Bruno de Menezes OLIVEIRA, Marília Gomes de alimentação, comida, literatura, linguagem, construção social

Fonte: produção autoral

 

Quadro 2

Trabalhos sobre A hora da estrela associados a temas correlatos a alimentação
ID Tipo de trabalho/ instituição/ ano Título Autor Palavras-chave
1 Dissertação, USP, 2014 “A culpa é minha” ou “A hora da estrela”?: uma análise do romance A hora da estrela de Clarice Lispector BORGES, Tânia Cristina Souza social
2 Dissertação, UFSC, 2001 Processos de subjetivação no contexto urbano significados a partir do texto literário: A hora da estrela, de Clarice Lispector STUCCHI, Denise da Silva cidade; migração
3 Dissertação, UFPR, 2020 O narrador, o autor-implícito e a essência da pobreza de Macabéa LIMA, Patrícia Ferreira Alexandre de pobreza
4 Dissertação, USP, 2020 Fabiano e Macabéa: a reinvenção dos sertanejos nordestinos em Vidas Secas e A hora da estrela ALENCAR, Adilma Secundo nordestinos
5 Dissertação, UFRRJ, 2022 Lugaridades topofóbicas na trajetória de Macabéa FREITAS, Rafael Alves de migração; social

Fonte: produção autoral

 

Contudo, apesar de dezenas de trabalhos acadêmicos dedicados a questões tão diversas como direitos humanos, distinção de gênero, feminismo, cinema, literatura comparada e psicanálise, a partir da obra A hora da estrela, não foi possível identificar, até o momento, nenhum trabalho que se debruce sobre essa novela a partir da perspectiva dos Estudos da Alimentação, o que justificaria a relevância deste projeto, pois possibilitará a discussão sobre aspectos que envolvem cultura e paradoxos da alimentação. Também a pesquisa A construção social dos personagens no romance Candunga: literatura e alimentação em Bruno de Menezes, de Marília Costa de Oliveira, identificada a partir do descritor de busca “alimentação e literatura”, auxiliará no percurso desta pesquisa.

Entre as dezenas de artigos que discutem a pobreza em A hora da estrela, dois trabalhos se destacam por sua abordagem sobre alimentação: A grande fome em A hora da estrela, que se refere à fome de uma parcela imensa da população brasileira, “não só Macabéa, que seria mais uma espécie de metonímia” (Souto, 2023, s.p.), e “Decifra-me ou devoro-te: dimensões de gastronomia ou do gustativo em Clarice Lispector” (Williams, 1999), que trata da importância da alimentação nas obras de Clarice, entre elas, A hora da estrela.

Geografia da Fome (1946), de Josué de Castro – mencionado por Souto – deu impulso ao debate do tema que classificou como “delicado e perigoso” e que era considerado “um dos tabus da nossa civilização” (1980:29). No ano anterior, havia terminado a Segunda Guerra Mundial, após anos de fome aguda que se abateu sobre o a Europa, surgira o conceito de segurança alimentar, utilizado para se referir à “necessidade de garantir o acesso a determinada população aos recursos alimentares suficientes para assegurar sua sobrevivência, sua reprodução e seu bem-estar” (Contreras e Gracia, 2011:334).

[…] foram necessárias duas terríveis guerras mundiais e uma tremenda revolução social – a revolução russa – nas quais pereceram dezessete milhões de criaturas, dos quais doze milhões de fome, para que a civilização ocidental acordasse do seu cômodo sonho e se apercebesse de que a fome é uma realidade demasiado gritante e extensa, para ser tapada com uma peneira aos olhos do mundo (Castro, 1980:31).

Assim, diante a enorme preocupação mundial com o problema da fome, sua pesquisa sobre alimentação desenvolvida a partir de 1932, foi organizada em Geografia da fome. Apesar de se limitar ao contexto da alimentação no Brasil, teve grande repercussão fora do país e inspirou seu trabalho seguinte, Geopolítica da Fome (1951), que apresenta um panorama internacional sobre o assunto a partir do método geográfico empregado para interpretar a fome como questão político-social. Seu olhar social fez com que sua preocupação fosse além da alimentação, sob as perspectivas biológica e fisiológica, e esbarrasse na fome, com ênfase nas origens socioeconômicas, nas condições de vida da população e nas doenças por ela causadas.

O sucesso e a repercussão obtidos, fez com que as duas obras fossem traduzidas em mais de 25 idiomas. Por Geografia da fome e Geopolítica da fome, Josué de Castro recebeu, respectivamente, o Prêmio Érico Veríssimo, concedido pela Academia Brasileira de Letras (1947) e o Prêmio Franklin Roosevelt, concedido pela Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos (1952). Internacionalmente reconhecido por sua obra e luta no combate à fome, foi eleito presidente do Conselho da Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO), para o mandato de 1952 a 1956. Em 1954, recebeu o Prêmio Internacional da Paz, conferido pelo Conselho Mundial da Paz. Personalidade de relevância internacional, foi indicado ao prêmio Nobel de Medicina, em 1954, e ao Nobel da Paz, nos anos de 1963 e 1970.

Josué de Castro denunciou as explicações deterministas que naturalizavam as desigualdades. […] Posicionou-se contra as interpretações demográficas que entendiam a fome como consequência de excesso populacional e prescreviam um controle de natalidade de massa. Desnaturalizou a fome apresentando fatores biológicos, geográficos, culturais e políticos, que compreendia serem responsáveis pelo fenômeno (Grupo de Pesquisa Josué de Castro/PUC -RIO).

Josué de Castro destacou a necessidade de confessar que a “terra da promissão”, onde em se plantando, tudo dá e que atraiu milhões de imigrantes europeus que fugiam da miséria em sua terra natal, “também é uma terra onde se passa fome, onde se vive lutando contra a fome, onde milhões de indivíduos morrem de fome” (Castro,1980:56).

Em 1985, a história da datilógrafa foi adaptada para o cinema pela diretora Suzana Amaral (1928-2020) e o filme é considerado um dos clássicos do cinema nacional. Esse foi o primeiro longa-metragem de Suzana Amaral, comercializado em diversos países. Diferente do livro, o processo de criação do narrador Rodrigo S. M. está ausente no longa-metragem. No entanto, o longa-metragem emprega artifícios que reproduzem a relação de impaciência ou de preconceito com a protagonista, bem como o espectador se reconhece nas falas negativas a respeito de Macabéa.

A produção recebeu a maioria dos prêmios no Festival de Brasília (1985) como os de melhor filme, direção, ator, atriz, fotografia e montagem. No Festival de Berlim (1986) recebeu o prêmio Urso de Prata de melhor atriz. No elenco: Marcélia Cartaxo (Macabéa), José Dumont (Olímpico), Glória Tamara Taxman (Glória) e Fernanda Montenegro (Madama Carlota). Em 2024 voltou aos cinemas em versão digitalizada em 4K. Segundo Vidal (2017:34), é possível que a personagem de um livro fique gravado, para sempre, na memória, com “o rosto de sua adaptação cinematográfica. Como talvez Maca tenha, para muitos, o rosto de Marcélia Cartaxo”.

Fã de Clarice Lispector desde a juventude, em 1984, a cantora Maria Bethânia estreou o show A hora da estrela, baseado na obra da escritora, com direção de Naum Alves de Souza. Caetano Veloso compôs para ela a música A hora da estrela de cinema.

Em 2020, ano do centenário de Clarice Lispector (1920-1977), a novela ganhou uma versão musical para o teatro O canto de Macabéa ou A hora da estrela, com letras do compositor Chico César. No palco, Laila Garin interpreta Macabéa, Cláudia Ventura é Glória e o namorado Olímpico de Jesus é vivido por Cláudio Gabriel. André Paes Leme assina a direção e adaptação, e Marcelo Caldi, a direção musical. Complementando o projeto, em 2022, Chico César e Laila Garin gravaram 16 das 32 músicas da trilha sonora para as plataformas streaming.

Em 2003, o programa Cena Aberta, da TV Globo, de Guel Arraes e Jorge Furtado, recriou A hora da estrela. Regina Casé faz o papel do narrador, Glória e cartomante, Wagner Moura, interpreta Olímpico, e Ana Paula Bouzas é Macabéa. O programa é controverso, pois faz alterações em alguns acontecimentos narrados da obra, inclusive no final da história, para tornar o roteiro palatável ao público da TV aberta, acostumado a clichês pouco usuais na literatura clariceana.

Entre as dezenas de obras que se debruçam sobre vida e obra da criadora de Macabéa, duas merecem destaque: Clarice: Uma Vida que se Conta (Gotlib, 2013), que une dados de caráter biográfico e considerações críticas sobre a obra literária, estimulando as relações entre literatura e biografia, entre história e ficção; e Clarice Lispector: pinturas (Sousa: 2013), que revela a profunda relação da escritora com as artes plásticas, ao que reunir os quadros de Clarice, presenteados por amigos, e as suaspinturas, a maior parte delas produzidas em 1975. Na edição comemorativa dos 100 anos de Clarice, os seus 18 livros livros receberam capas criadas a partir dessas pinturas.

 

Contexto histórico político-social

Publicada durante o governo militar instaurado durante o golpe de 1964, A hora da estrela foi escrita depois que Clarice Lispector deixa o periódico o Jornal do Brasil, em janeiro de 1974: “[…] esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês” (Lispector, 2017:47).

Nas décadas de 1940 e 1950, Clarice ficou marcada pelas críticas publicadas sobre os seus primeiros trabalhos, que destacavam características da sua literatura como o lirismo, o universo feminino e a solidão. Essa imagem perdurou e outros aspectos, como as questões sociais abordadas na sua obra, nas décadas de 1960 e 1970, são ignorados.

Entre 1967 e 1973, Clarice Lispector contribuiu com crônicas semanais, publicadas aos sábados, no suplemento cultural do diário carioca Jornal do Brasil, espaço em que tratava de temas variados. A temática social que sempre lhe causara indignação estava presente desde a primeira crônica, As crianças chatas, em 19 de agosto de 1967:

Não posso pensar na cena que visualizei e que é real. O filho está de noite com dor de fome e diz para a mãe: estou com fome, mamãe. Ela responde com doçura: dorme. Ele diz: mas estou com fome. Ela insiste: durma. Ele insiste. Ela grita com dor: durma, seu chato! Os dois ficam em silêncio no escuro, imóveis. Será que ele está dormindo? – pensa ela toda acordada. E ele está amedrontado demais para se queixar. Na noite negra os dois estão despertos. Até que, de dor e cansaço, ambos cochilam, no ninho da resignação. E eu não aguento a resignação. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta. (Lispector, 1999:23)

Quase um mês após a estreia, na crônica de 16 de setembro 1967, Daqui a vinte e cinco anos, a escritora declarou seu desejo de uma situação econômica mais digna para o povo brasileiro e demonstrou preocupação com o problema da fome e da miséria:

Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muitíssimo mais depressa, porém, do que em vinte e cinco anos, porque não há mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crianças são verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal é a miséria, que se justificaria ser decretado estado de prontidão, como diante de calamidade pública. Só que é pior: a fome é a nossa endemia, já está fazendo parte orgânica do corpo e da alma. E, na maioria das vezes, quando se descrevem as características físicas, morais e mentais de um brasileiro, não se nota que na verdade se estão descrevendo os sintomas físicos, morais e mentais da fome. Os líderes que tiverem como meta a solução econômica do problema da comida serão tão abençoados por nós como, em comparação, o mundo abençoará os que descobrirem a cura do câncer. (Lispector, 1999:33)

Na crônica Fartura e carência, publicada em 14 de setembro de 1968, ela expressa sua revolta com uma notícia sobre o número de mortes infantis provocadas pela fome no país: “Como suportaria eu a manchete que saiu um dia no jornal dizendo que cem crianças morrem no Brasil diariamente de fome? A raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? Ser gente me cansa” (Lispector, 1999:135).

Em 26 de junho de 1968, “[…] ali está, no meio da multidão: participando ativamente de um ato de protesto político, imiscuída até a medula na contingência histórica” (Garramuño, 2017:172), da Passeata dos Cem Mil, ao lado do ator Paulo Autran, do cineasta Glauber Rocha, do cartunista Ziraldo, do cantor Milton Nascimento, do psicanalista Hélio Pellegrino, do desenhista Carlos Scliar e do arquiteto Oscar Niemeyer. Assim como os cantores Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, ela se junta a outros intelectuais, artistas, religiosos, políticos e estudantes na avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, para protestar contra a censura, a prisão de estudantes e a repressão às liberdades pelo governo militar.

Entretanto, aos olhos do cartunista Henfil, Clarice era vista como “alienada” e chegou a integrar O Cemitério dos Mortos-Vivos, em sua página de humor no jornal O Pasquim: local destinado a “personalidades que, em sua opinião, simpatizavam com o regime militar ou, ficavam em cima do muro pela ditadura militar ou se omitiam politicamente” (Moraes, 1999, p.16). Na edição 138 – da semana de 22 a 28 de fevereiro de 1972 – de O Pasquim, Clarice foi “enterrada” simbolicamente para fazer companhia aos escritores Rachel de Queiroz, Nelson Rodrigues, entre outros nomes que já se encontravam a “sete palmos de desacato e desprezo” (Moraes, 1999, p.16).

A história de Macabéa acolhe a preocupação social como traço identitário em um aceno à “patrulha ideológica”, “de maneira que parece pôr em primeiro plano uma sorte de referência social que desconcertava os críticos de Clarice” (Garramuño, 2017:180).

Mas, se Clarice recusou toda e qualquer ordem de cartilha político-literária, a consciência da função social da literatura emerge em A hora da estrela com uma força até então inédita na obra da autora. Surgindo em um momento especial de sua trajetória literária, esse romance é o resultado final da angústia criativa que acompanhou Clarice do início da década de 70 até a sua morte, em 1977. (Paganine, 2000:86)

 

Representação na Literatura

Stuart Hall (2016) destaca a importância da representação na construção de significados. Em “A Hora da Estrela”, a alimentação é um elemento central que não apenas sustenta e caracteriza a personagem Macabéa, mas também revela identidades e posições sociais. A forma precária como Macabéa se alimenta reflete sua condição de vida e a invisibilidade a que está submetida. Hall argumenta que a representação é um processo complexo, onde o significado não é fixo, mas construído através de discursos e práticas culturais.

Na novela, a alimentação de Macabéa é marcada pela simplicidade e pela escassez visto que a personagem recebe menos que um salário-mínimo. Sua dieta alimentar em consiste em cachorro-quente e Coca-Cola. Macabéa tinha pouquíssimos luxos: tomava um gole de café frio antes de dormir e, às vezes, comia um ovo duro num botequim. “Às vezes antes de dormir sentia fome e ficava meio alucinada pensando em coxa de vaca. O remédio então era mastigar papel bem mastigadinho e engolir” (Lispector, 2017:64).

A escolha de apresentar sua protagonista dessa forma sugere uma crítica à sociedade que marginaliza e ignora uma grande parcela da população, e evidencia a exclusão de Macabéa àquele sistema.

Macabéa evocava sua identidade nordestina nas poucas conversas que fluíam com o Olímpico sobre as comidas do Nordeste: farinha, carne de sol, carne seca, rapadura, melado. E quando Macabéa e Olímpico relembram as comidas do Nordeste, o jeito de preparar e de comer que os aproxima de sua identidade cultural e social como nordestinos.

De acordo com os conceitos fundamentados por Bourdieu, nas relações sociais que estabelece, Macabéa não dispõe de capital econômico (ex: salário; recebe menos que a colega pois não possui qualificação profissional), capital cultural (ex: conhecimento; não compreende o título do livro Humilhados e Ofendidos sobre a mesa do chefe nem o que ouve na Rádio Relógio), capital simbólico (ex: prestígio e honra; os quais Macabéa não tinha acesso) e capital social (ex: relações sociais; “Glória era agora a sua conexão com o mundo. Este mundo fora composto pela tia, Glória, o Seu Raimundo e Olímpico — e de muito longe as moças com as quais repartia o quarto” (Lispector, 2017:64). Macabéa não se vê como uma protagonista em sua própria história, é uma figura que orbita em torno de outros personagens. A invisibilidade da nordestina é uma das questões apresentadas na novela.

Foucault (2014) argumenta que as relações em que o poder é exercido se dão através da repressão, mas também por meio do silenciamento e da marginalização de certas vozes. Sua voz e suas necessidades são frequentemente ignoradas.

Nesse contexto, a alimentação pode ser vista como uma forma de capital simbólico. Ao possuir melhores condições sociais, Glória desfruta de uma diversidade de alimentos e experiências gastronômicas que não apenas nutrem o corpo e, por isso, a tornam mais desejável, reforçando sua posição na hierarquia social. A comida, portanto, torna-se uma metáfora da luta por status e identidade. Macabéa, ao se alimentar de forma precária, não apenas demonstra sua condição socioeconômica, mas também a invisibilidade que a cerca.

Querendo compensar o roubo do namorado, Glória convida Macabéa para um lanche da tarde na sua casa. No local, a nordestina fica atônita diante da quantidade e da variedade de comida, que não fazia parte da sua dura realidade. (Lispector, 2017:93)

Nessa ocasião, a farta comilança evidencia o não-pertencimento da protagonista àquele grupo e cumpre “uma função social de legitimação das diferenças sociais”, de acordo com Bourdieu (2011:14), quando discorre sobre “a arte e o consumo artístico que estão predispostos a desempenhar, [essa função] independentemente de nossa vontade e de nosso saber”, que pode ser comparada à alimentação, nesse caso.

Macabéa arregalou os olhos. É que na suja desordem de uma terceira classe de burguesia havia no entanto o morno conforto de quem gasta todo o dinheiro em comida, no subúrbio comia-se muito. […] Foi talvez essa uma das poucas vezes em que Macabéa viu que não havia lugar no mundo e exatamente porque Glória tanto lhe dava. Isto é, um farto copo de grosso chocolate de verdade misturado com leite e muitas espécies de roscas açucaradas, sem falar num pequeno bolo. […] Macabéa, enquanto Glória saía da sala – roubou escondido um biscoito. No dia seguinte, segunda-feira, não sei se por causa do fígado atingido pelo chocolate ou por causa de nervosismo de beber coisa de rico, passou mal. Mas teimosa não vomitou para não desperdiçar o luxo do chocolate. (Lispector, 2017:93)

A forma como a alimentação é discutida e representada na novela revela as dinâmicas de poder, pela perspectiva de Michel Foucault (2014). A relação entre comida, corpo e discurso é fundamental para entender como a sociedade exerce controle sobre os indivíduos, especialmente aqueles que estão em situações vulneráveis. A alimentação em “A Hora da Estrela” também pode ser interpretada como expressão de luta pela sobrevivência e forma de resistência.

Considerações finais

A alimentação oferece uma lente poderosa através da qual podemos explorar a representação social, o capital simbólico e as dinâmicas de poder que permeiam a vida da personagem Macabéa.  Por intermédio da análise da literatura e da alimentação, como também da alimentação de uma personagem, de uma época em um determinado contexto, percebe-se os conceitos fundamentados por Hall, Chartier, Bourdieu e Foucault podem iluminar a complexa teia das relações sociais, mostrando como a comida vai muito além de um ato físico, mas expressam identidade cultural, resistência, luta por reconhecimento. Aspectos que poderão ser aprofundados durante a pesquisa para a dissertação de mestrado.

Por isso, deixo ao leitor interessado o convite para acessar o link que segue. Nele será possível verificar a amplitude da cartografia resumida nesse curto espaço:  https://padlet.com/marciameirasp/cartografia_da_alimentacao_em_a_hora_da_estrela

Clarice faz uma contundente crítica às estruturas sociais do Brasil da década de 1970, mas que passadas quase cinco décadas, e pequenos ajustes históricos, nunca esteve tão atual.

Referências 

A HORA da estrela. Direção Suzana Amaral e Alfredo Oroz. São Paulo: Rais Filmes. Embrafilme, 1985. Filme completo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MBxAMJvSip0

BOURDIEU, Pierre. A distinção. Porto Alegre: Zouk, 2011.

BRASIL. Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES.

CASTRO, Josué de. Geografia da fome. O dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro: Antares, 1980.

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador – conversações com Jean Lebrun. São Paulo: Unesp, 1998.

CONTRERAS, Jesús & GRACIA, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2011.

DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995a. V. 1.

______. Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. V.3.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2014.

GARRAMUÑO, Florencia. Uma leitura histórica de Clarice Lispector. In: LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela: edição com manuscritos e ensaios inéditos. Rio de Janeiro: Rocco, 2017:171-182.

GOTLIB, Nádia Battella. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Edusp, 2013.

GRUPO de Pesquisa Josué de Castro. In: PUC-RIO Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Grupo de Pesquisa Josué de Castro. Disponível em: <https://gpjosuedecastro.usuarios.rdc.puc-rio.br/josue-de-castro/>. Acesso em: 01/09/2024.

HALL, Stuart. Cultura e representação. PUC-Rio: Apicuri, 2016.

LISPECTOR, Clarice. Uma descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

______. A hora da estrela: edição com manuscritos e ensaios inéditos. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

MORAES, Dênis. Humor de combate: Henfil e os 30 anos do Pasquim. Rio de Janeiro: UFF/ Revista Ciberlegenda, n.2, 1999. Disponível em: <https://periodicos.uff.br/ciberlegenda/ issue/view/1924>. Acesso em: 15/10/2024.

PAGANINE, Joseana. O engajamento poético: linguagem e resistência (A hora da estrela, de Clarice Lispector, e a literatura engajada brasileira pós-64). 2000. [10], 144 f., il. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Universidade de Brasília, Brasília, 2000.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

SOUSA, Carlos Mendes de. Clarice Lispector: pinturas. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

SOUTO, Susana. A grande fome em A hora da estrela. In: SEDLMAYER, Sabrina, CLIMENT-ESPINO, Rafael e ANDRADE, Luiz Eduardo (orgs.). Comer com os olhos: comida cultura cinema. Autêntica, 2023.

VIDAL, Paloma. E agora – uma crônica do encontro com os manuscritos de A hora da estrela.. In: LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela: edição com manuscritos e ensaios inéditos. Rio de Janeiro: Rocco, 2017:9-42.

WILLIAMS, Claire. Decifra-me ou devoro-te: dimensões de gastronomia ou do gustativo em Clarice Lispector. In: Terceira Margem, n. 2. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1999: 29-35. Disponível em: <http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/7380.pdf>. Acesso em: 01/10

 

Márcia Meira dos Santos é mestranda do Programa de pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Scroll to top