Representações cartográficas e identidade religiosa

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Representações cartográficas e identidade religiosa: A utilização das TDICs para mapear a influência e a expansão da Igreja Presbiteriana do Brasil.

DURAN, Bruno de Andrade. Representações cartográficas e identidade religiosa: A utilização das TDICs para mapear a influência e a expansão da Igreja Presbiteriana do Brasil. In: Aguarrás, vol. 12, n. 39. ISSN 1980-7767. São Paulo: Uva Limão, JUL/DEZ 2025. Disponível em: <https://aguarras.com.br/representacoes-cartograficas-e-identidade-religiosa/>. Acesso em: [current_date format=d/m/Y].

 

Resumo

O uso de representações cartográficas, especialmente impulsionado pelas Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs), revela-se uma ferramenta valiosa para mapear identidades, presenças e influências culturais e religiosas. Este artigo explora as relações entre cartografia, identidade religiosa e Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) no contexto brasileiro. Focalizando a Igreja Presbiteriana do Brasil, busca-se compreender como as representações cartográficas, mediadas pelas TDICs, podem revelar a influência e a expansão dessa denominação religiosa. A análise articula fundamentos teóricos da cartografia religiosa, estudos sobre as TDICs e suas aplicações no mapeamento geográfico e cultural. Além de identificar desafios e oportunidades, o artigo propõe uma reflexão sobre como os mapas religiosos, em sua dimensão técnica e simbólica, podem se tornar ferramentas poderosas de análise cultural e histórica.

Palavras-chave: Cartografia Digital; Identidade Religiosa; Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs); Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB); América Latina

 

INTRODUÇÃO

Desde suas origens, a cartografia tem desempenhado um papel fundamental  não apenas na representação de territórios, mas também como uma poderosa ferramenta para a construção de identidades e a expressão de influências culturais, sociais e religiosas. No contexto brasileiro, caracterizado por uma rica diversidade cultural e religiosa, a cartografia religiosa emerge como uma prática que vai além da localização de espaços sagrados, oferecendo um meio de compreender como as crenças e tradições se manifestam no território e moldam identidades coletivas. Mais do que mapas geográficos, a cartografia religiosa cria narrativas visuais que traduzem valores espirituais, dinâmicas sociais e interações culturais.

As TDICs transformaram o campo da cartografia, permitindo a criação de mapas interativos e colaborativos que não apenas documentam a expansão geográfica de uma denominação religiosa, mas também refletem seu impacto cultural e social. No caso da IPB, essas tecnologias possibilitam a construção de uma narrativa contínua que une passado, presente e futuro, fortalecendo os laços entre seus membros e afirmando sua presença em um território marcado por múltiplas expressões religiosas.

Este estudo busca responder à seguinte questão: de que maneira as representações cartográficas digitais da IPB, mediadas pelas TDICs, podem fortalecer a identidade religiosa e cultural de seus membros no contexto brasileiro? Para tanto, o objetivo deste artigo é investigar como a IPB pode utilizar as TDICs para criar mapas digitais que não apenas registrem sua expansão territorial, mas também promovam conexões significativas entre suas congregações, consolidando uma identidade coletiva de fé visível e acessível.

O artigo está estruturado nas seguintes seções principais. A primeira, explora a importância da religião e seu papel na expressão da identidade coletiva, especialmente na construção da identidade brasileira. Em seguida, em TDICs no Mapeamento da Igreja Presbiteriana do Brasil, discute-se as práticas da IPB na utilização de mapas digitais. A terceira seção, Desafios e Oportunidades, analisa questões éticas, culturais e tecnológicas. Por fim, nas Considerações Finais, sintetizam-se as descobertas e apresentam-se propostas para futuras pesquisas.

Ao investigar as interseções entre cartografia, religião e tecnologia, este estudo pretende contribuir para o entendimento de como as representações cartográficas podem se tornar ferramentas poderosas para a análise histórica, cultural e religiosa da identidade presbiteriana num contexto plural com o Brasil.

 

CARTOGRAFIA E RELIGIÃO

A cartografia assumiu papéis que transcenderam a geografia descritiva. E os mapas antigos, que frequentemente apresentavam centros religiosos como Jerusalém e Meca, refletindo a centralidade do sagrado no imaginário coletivo, juntamente com as TDICs contribuem significativamente para a identidade e expansão da IPB.

A religião e sua influência

Segundo Émile Durkheim, no seu livro “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, a religião consiste num “sistema unificado de crenças e práticas ligadas ao sagrado que congrega as pessoas que as seguem em uma comunidade” (DURKHEIM, 1996). Já Anthony Giddens em seu livro “Sociologia”, definiu religião como “um conjunto de símbolos que invocam sentimentos de reverência ou de temor, ligados a rituais ou cerimónias (como os serviços religiosos) realizados por uma comunidade de crentes (GIDDENS, 2008). E falando sobre a importância da religião para os seres humanos, Giddens disse:

Ao longo de milhares de anos a religião tem tido um importante papel na vida dos seres humanos. Sob uma forma ou outra, a religião existe em todas as sociedades humanas conhecidas. As sociedades mais antigas, de que apenas temos conhecimento através dos vestígios arqueológicos, mostram traços claros de símbolos e cerimónias religiosas. Ao longo da história subsequente, a religião continuou a ser um elemento central da experiência humana, influenciando o modo como vemos e reagimos ao meio que nos rodeia (GIDDENS, 2008, p. 534).

O sagrado foi fundamental para a organização espacial e social das cidades, atuando como elemento central na construção de identidades coletivas. As primeiras cidades, centradas em templos ou santuários, não apenas serviram como locais de prática religiosa, mas também como polos de poder político e redistribuição econômica. Os templos e centros cerimoniais representavam a ligação entre o divino e o humano, justificando a autoridade das elites e influenciando a estruturação social e territorial das primeiras civilizações. Mesmo nas cidades contemporâneas, a herança do sagrado continua visível em marcos culturais e arquitetônicos (ROSENDAHL, 2018).

O campo religioso brasileiro é bem diverso e complexo A rica diversidade cultural e religiosa brasileira é o resultado da junção das de vários grupos distintos. Os principais grupos foram os colonizadores portugueses, os povos nativos já presentes na terra invadida, os povos africanos escravizados pelos portugueses e os imigrantes europeus. A religião desses grupos foi fundamental para a organização espacial e social do Brasil.

O catolicismo português e os nativos no Brasil

A imposição do catolicismo pelas coroas de Portugal e Espanha foi um dos aspectos centrais do projeto colonial, sustentado pela política do padroado, que concedia às monarquias o direito de administrar os assuntos eclesiásticos em seus territórios coloniais. No Brasil colônia, deparamo-nos com o choque cultural entre os cristãos portugueses e as muitas etnias nativas. A conversão dos povos “indígenas” foi tanto um esforço missionário quanto um mecanismo de controle social, frequentemente marcado por práticas violentas, como o trabalho forçado nas encomendas e reduções jesuíticas.

A espiritualidade dos povos nativos brasileiros era diversa e profundamente conectada à natureza. O Padre Fernão Cardim, um missionário jesuíta português que viveu no Brasil colonial entre o final do século XVI e início do XVII, conhecido por seus relatos minuciosos sobre o cotidiano dos “indígenas” e a natureza brasileira, além de suas observações sobre a interação entre os europeus e os povos nativos, escreveu sobre a sua primeira impressão da religiosidade dos povos nativos:

[…] não têm adoração nenhuma, nem cerimônias, ou culto divino, mas sabem que têm alma e que esta não morre […] e têm grande medo do demônio, ao qual chamam de Curupira, Taguaigba, Macachera, Anhangá […] Não têm nome próprio com que expliquem a Deus, mas dizem que Tupá é o que faz os trovões e relâmpagos, e que este é o que lhes deu as enxadas e mantimentos, e por não terem outro nome mais próprio e natural, chamam a Deus Tupã (CARDIM, 1978, p. 102).

Na chegada dos portugueses ao Brasil, o xamanismo, conhecido localmente como pajelança, desempenhava um papel central na religião dos nativos. “Havia ao menos um pajé para cada aldeia” que realizava curas, comunicavam-se com espíritos da natureza e guiavam a comunidade em rituais religiosos. “Quando um espírito entrava no corpo de alguém, só podia ser retirado por cura xamanística”. “Os pajés foram vistos como demônios perigosos pelos missionários e colonizadores em geral, que os combateram”. A antropofagia, ato de consumir carne humana, que tinha um significado sagrado e simbólico nas cerimônias e rituais dos pajés era vista como “pura violência e barbárie e foram reprimidas com violência” (DOMEZI, 2012, p. 22).

Os portugueses trouxeram uma perspectiva diferente e um conflito de visões de mundo, interpretando as práticas espirituais “indígenas” como ausência de fé ou idolatria. Missionários e colonizadores, motivados pela cristianização, frequentemente desconsideravam a complexidade religiosa dos nativos. Os portugueses impuseram a religião cristã como instrumento de controle cultural, desestruturando o xamanismo e outras práticas espirituais. A festa antropofágica (rito de iniciação do jovem guerreiro), por exemplo, era interpretada como barbárie (DOMEZI, 2012).

As religiões africanas no novo mundo

Portugal foi o maior dos impérios negreiros, durante os quase quatro séculos em que vigorou o escravismo colonial no continente “americano”. Calculam-se perto de quatro milhões de africanos traficados para o Brasil. O tráfico de escravos resultou na migração forçada de milhões de africanos para as “Américas”, incluindo o Brasil. Esses escravizados, originários de diversas regiões da África, trouxeram consigo suas crenças religiosas, formando um mosaico cultural único que resistiu à tentativa de apagamento por parte dos colonizadores. Pierre Edouard Léopold Verger (1902-1996), fotógrafo, etnólogo, antropólogo e pesquisador francês, escreveu em seu livro “Orixás. os deuses Iorubás na África e no novo mundo”:

Disso resultou, no Novo Mundo, uma multidão de cativos que não falava a mesma língua, possuindo hábitos de vida diferentes e religiões distintas. Em comum, não tinham senão a infelicidade de estar, todos eles, reduzidos à escravidão, longe das suas terras de origem (VERGER, 2005, p. 8).

Esses grupos trouxeram línguas, práticas culturais e, principalmente, sistemas religiosos que moldaram a espiritualidade e a cultura local. Os escravizados adaptaram suas práticas religiosas às condições impostas, muitas vezes misturando elementos africanos e cristãos, resultando em tradições sincréticas, como o candomblé. Navios negreiros eram batizados com nomes de santos, como “Nossa Senhora da Conceição” e “Santo Antônio”, e protegidos por devoções católicas. A presença das religiões africanas no Brasil é um testemunho de resistência cultural e religiosa. Apesar da violência e da repressão, os africanos escravizados mantiveram vivas suas crenças, adaptando-as e moldando profundamente a identidade brasileira. O impacto dessas religiões, especialmente no sincretismo religioso e nas manifestações culturais, continua a ser um elemento vital da história e da cultura do Brasil (VERGER, 2005).

Os cristãos protestantes

Ao longo do período colonial, o catolicismo dominou o cenário político e religioso no Brasil. No entanto, as contradições dessa hegemonia, como a resistência indígena e os movimentos emancipatórios do século XIX, abriram espaço para novas expressões religiosas, entre elas o protestantismo.

Durante o período colonial brasileiro, cristãos protestantes de nações europeias onde o protestantismo predominava tentaram estabelecer presença no país. Uma das primeiras iniciativas foi liderada pelos huguenotes, calvinistas franceses, que chegaram ao Brasil com a fundação da França Antártica, em 1555, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, sob o comando do vice-almirante Nicolau Durand de Villegaignon. Atendendo ao pedido de Villegaignon, João Calvino e a Igreja Reformada de Genebra enviaram doze colonos reformados, incluindo os pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier. Em 10 de março de 1557, esses huguenotes realizaram o primeiro culto protestante fora da Europa. No entanto, divergências teológicas entre Villegaignon e os calvinistas geraram conflitos. Cinco huguenotes foram pressionados a declarar sua fé, o que deu origem à Confissão de Fé da Guanabara. Três deles (Jean de Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon) foram executados, enquanto André Lafon teve sua vida poupada e Jacques Le Balleur fugiu, mas acabou preso e enforcado. Entre os que retornaram à França estava Jean de Léry, autor do livro História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil (1578), que relata essa experiência. Essa tentativa pioneira marcou o início do protestantismo nas Américas (DOMEZI, 2012, p. 44, 45).

Durante o século XVII, sob o comando do príncipe João Maurício de Nassau-Siegen (1637-1644), a Igreja Reformada da Holanda estabeleceu uma significativa presença no Brasil. Os reformados se destacaram pelo trabalho missionário e social, especialmente entre os indígenas. O governo de Nassau também ficou conhecido por promover ampla liberdade religiosa, o que beneficiou inclusive os judeus. O período de ocupação holandesa terminou em 1654, com a expulsão dos invasores. Ainda assim, os holandeses deixaram marcas          importantes na região[1]

No restante do período colonial, o Brasil permaneceu em um profundo isolamento, com o catolicismo português mantendo sua hegemonia religiosa por mais de dois séculos e meio. Contudo, no século XIX, o cenário começou a mudar, o protestantismo começou a se estabelecer no Brasil, inicialmente trazido por imigrantes europeus. Os primeiros protestantes a chegarem foram os ingleses, beneficiados pelo Tratado de Comércio e Navegação firmado com o Brasil em 1810. Os metodistas dos Estados Unidos chegaram ao país em 1819. Pouco depois, em 1824, foi a vez dos luteranos alemães, que se estabeleceram com a vinda de imigrantes. A primeira missão protestante direcionada aos brasileiros foi da Igreja Metodista do Sul dos Estados Unidos, com os pastores Justin Spaulding e Daniel P. Kidder, entre 1836 e 1841. Em seguida, o casal Robert R. Kalley e Sarah P. Kalley desempenhou um papel significativo no desenvolvimento do protestantismo no Brasil, fundando a primeira escola dominical em 1855 e a Igreja Evangélica Congregacional Fluminense em 1858. Essas iniciativas foram fundamentais para consolidar as bases do protestantismo no país (DOMEZI, 2012, p. 44, 45).

A chegada da Igreja Presbiteriana no Brasil e sua expansão

“Em novembro de 1858, um jovem seminarista presbiteriano “manifestou formalmente o desejo de assumir a obra missionária no exterior, e mencionou o Brasil como o campo possivel (Jubran e Silveira, 2015). Silveira em seu livro:  “Ashbel Green Simonton. Uma vida de fé”, escreveu:

Simonton foi ordenado ao ministério presbiteriano em 14 de abril de 1859”. Viajou em um barco à vela com destino ao Brasil, em 18 de Junho. Chegou a Baia de Guanabara, Rio de Janeiro, no dia 12 de agosto, 55 dias depois. Embora sua chegada ao Brasil em 1859 tivesse sido precedida por algumas gerações de protestantes, Simonton foi um pioneiro no sentido de implantar o presbiterianismo em solo brasileiro (JUBRAN; SILVEIRA, 2015, p. 9).

Os missionários pioneiros da IPB foram Ashbel Green Simonton (1859), Alexander Latimer Blackford (1860) e Francis Joseph Christopher Schneider (1861). As primeiras igrejas organizadas foram as do Rio de Janeiro (1862), São Paulo (1865) e Brotas (1865). Duas importantes realizações iniciais foram o jornal Imprensa Evangélica (1864-1892) e o Seminário do Rio de Janeiro (1867- 1870). O primeiro pastor evangélico brasileiro foi o ex-sacerdote católico José Manoel da Conceição, ordenado em 17 de dezembro de 1865. “A IPB é uma federação de igrejas que têm em comum uma história, uma forma de governo, uma teologia, bem como um padrão de culto e de vida comunitária”. Suas origens mais remotas encontram-se nas reformas protestantes suíça e escocesa, no século XVI, lideradas por personagens como Ulrico Zuínglio, João Calvino e John Knox. Em 2024, a IPB tinha aproximadamente 6.360 igrejas locais, congregações e pontos de pregação, 4.915 pastores, 702.947 membros, estando presente em todos os estados da federação[2].

Figura 1: Estatística 2024. Fonte: Site Secretaria Executiva IPB
Figura 1: Estatística 2024. Fonte: Site Secretaria Executiva IPB.[3]
A IPB desempenhou um papel significativo no contexto urbano brasileiro. Templos presbiterianos foram estabelecidos em centros urbanos estratégicos, muitas vezes acompanhados por escolas e projetos comunitários que ofereciam alternativas educacionais e sociais. Essa estratégia alinhava-se à ética reformada, que associa fé e ação prática, promovendo mudanças concretas nas comunidades[4].

As cidades, com suas características de pluralidade cultural e desafios sociais, proporcionaram um terreno fértil para a atuação presbiteriana. A urbanização acelerada durante o século XX intensificou as demandas por serviços comunitários, e a Igreja respondeu com uma abordagem centrada na educação e na justiça social. No Brasil, por exemplo, colégios e Universidades como o Mackenzie tornaram-se referências em qualidade educacional, refletindo o compromisso presbiteriano com a transformação cultural.

Figuras 2 a 5
Figuras 2 a 5

Figuras 2: Catedral IPB Rio de Janeiro.[5]    Figuras 3: Catedral IPB Rio (imagens de satélite).[6]

Figuras 4: Universidade Mackenzie[7]   Figuras 5: Universidade Mackenzie (imagens de satélite).[8]

A estratégia missionária da Igreja Presbiteriana não se limitou ao Brasil, mas se expandiu para outros países da América Latina, como Argentina, Colômbia, México e Venezuela. A igreja buscou adaptar sua mensagem ao contexto cultural, enquanto preservava os princípios da teologia reformada. Este equilíbrio entre tradição e inovação permitiu que a Igreja Presbiteriana se estabelecesse em uma região marcada por profundas raízes católicas e por um crescente pluralismo religioso. No espaço urbano, os templos presbiterianos se destacam como centros de influência religiosa e social. Estes espaços não são apenas locais de culto, mas também centros comunitários que promovem atividades culturais, educacionais e sociais. Assim, a Igreja Presbiteriana contribui para a construção de uma urbanidade que integra valores espirituais e soluções práticas para os desafios da vida urbana.

 

TDICS NO MAPEAMENTO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

No cenário contemporâneo, caracterizado por uma intensa globalização tecnológica, a sociedade atual está profundamente interconectada e em constante desenvolvimento, um processo impulsionado significativamente pelos avanços digitais que permeiam e fundamentam os aspectos mais comuns e fundamentais da existência humana. A adoção de tecnologias digitais em todas as esferas da vida humana provocou uma transformação profunda na forma como nos comunicamos, trocamos conhecimento, exercemos nossas profissões e, mais importante, na maneira como adquirimos novas aprendizagens.

No final do século XX, o Escritor, professor e filósofo francês, Pierre Levy, pesquisador em ciência da informação e da comunicação, escreveu que o mundo experimentou a abertura de um novo espaço de comunicação, e cabe- nos apenas explorar as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural e humano (LÉVY, 1999). Ele utiliza os termos “ciberespaço” e “cibercultura”. Veja a definição para tais termos:

O ciberespaço (que também chamarei de “rede”) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo” . (LÉVY, 1999, p. 17).

No período marcado pela popularização do computador e da liberação do acesso à internet, além do termo “tecnologias informáticas” e “tecnologias computacionais”, expressões como “tecnologias da informação” e “tecnologias digitais de informação e comunicação” passaram a ser utilizadas para se referir a internet e às tecnologias que aliavam a informação e a comunicação (Borba; Silva; Gadanidis, 2020).

Para Corrêa e Brandemberg (2021, p. 38):

A utilização do termo Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) se refere aos dispositivos eletrônicos e tecnológicos mais antigos, em que se incluem o rádio, a televisão, o jornal, mimeógrafo, e até as mais atuais como o computador, a internet, o tablet e smartphone os quais tem a finalidade de informar e comunicar E Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) para designar os dispositivos mais atuais como o computador, o tablet, o smartphone e qualquer outro dispositivo que permita a navegação na internet que funcionam por meio digital e não mais analógico.

O avanço das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) tem desempenhado um papel crucial na evolução da cartografia religiosa, especialmente no contexto urbano contemporâneo. As TDICs ampliaram as possibilidades de representação e análise do fenômeno religioso, permitindo não apenas localizar templos e espaços sagrados, mas também compreender as dinâmicas sociais e culturais associadas a eles.

Mapas interativos oferecem uma abordagem mais dinâmica para a análise de dados religiosos. Eles permitem que pesquisadores, planejadores urbanos e líderes religiosos entendam melhor a distribuição e a influência das práticas religiosas.

A IPB tem em seu site oficial (https://ipb.org.br/), disponível aos seus membros e ao público em geral, mapas e informações sobre a localização de cada congregação e sua presença em todo o território brasileiro. 

Figura 6: Busca Igrejas / Mapa IPB.
Figura 6: Busca Igrejas / Mapa IPB.[9]

A capacidade de associar dados geográficos com outras informações, como censos demográficos ou indicadores socioeconômicos, também possibilita uma compreensão mais ampla das interações entre religião e sociedade. Este tipo de análise revela como as religiões não apenas ocupam, mas também transformam o espaço, legitimando e reconfigurando as dinâmicas sociais e culturais.

No caso de denominações como a IPB, as TDICs são utilizadas estrategicamente para mapear áreas de atuação missionária e planejar a instalação de novos templos. A análise de dados geoespaciais auxilia na identificação de regiões com maior necessidade de atuação social ou com grande potencial para expansão religiosa. Por exemplo, o mapeamento da Igreja Presbiteriana no contexto brasileiro pode revelar como sua presença reflete tanto a continuidade histórica quanto as adaptações às demandas locais, incluindo a expansão para áreas urbanas e rurais. Abaixo, vemos mapas interativos do site da IPB com informações das cidades com sua presença em azul e as cidades em vermelho que ainda não tem a sua presença.

Figuras 7 a 10
Figuras 7 a 10

Figuras 7 e 8: Mapa de São Paulo e informações de Cidades com presença da IPB.[10]

Figuras 9 e 10: Mapa de Sergipe e informações de Cidades com presença da IPB.[11]

A cartografia religiosa, ao incorporar essas ferramentas, torna-se não apenas um registro, mas também um meio de planejamento e estratégia para as

comunidades religiosas, fortalecendo sua presença e relevância em contextos urbanos.

A utilização de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) possibilitou o mapeamento detalhado da expansão da Igreja, identificando áreas com maior necessidade de atuação missionária e social. Essa abordagem tecnológica refletiu a capacidade da Igreja Presbiteriana de combinar tradição teológica com inovação, adaptando-se às exigências de um mundo globalizado e interconectado. Ferramentas como mídias sociais, plataformas de ensino online e aplicativos de mapeamento têm sido utilizadas para ampliar o alcance da mensagem presbiteriana. Estas tecnologias permitem que a igreja conecte comunidades dispersas geograficamente e alcance novos públicos.

A atuação da IPB nas missões nacionais se dá por meio de suas igrejas locais e agências missionárias. A Junta de Missões Nacionais da IPB atua hoje em mais de 183 campos missionários nas diversas cidades do território brasileiro, de norte a sul, de leste a oeste, tanto na zona urbana, quanto na zona rural. 

Figura 11: Quadro Missionário da Junta de Missões Nacionais IPB
Figura 11: Quadro Missionário da Junta de Missões Nacionais IPB[12]
A atuação da IPB nas missões estrangeiras se dá por meio da APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais) que conta hoje com mais de 275 missionários, presentes em mais de 40 países. Os desafios são muitos e a necessidade de enviar missionários é cada vez maior. Para continuar o avanço missionário da IPB em campos transculturais, a APMT tem atuado dentro de um projeto de “Ação Global”.

Figura 12: Mapa de países com presença de missionários da APMT (Outubro 2023).
Figura 12: Mapa de países com presença de missionários da APMT (Outubro 2023).[13]
Figura 13: Mapa de países com presença de missionários APMT (Junho 2024).
Figura 13: Mapa de países com presença de missionários APMT (Junho 2024).[14]
 

Cartografia Digital

A Cartografia Digital revolucionou a forma como compreendemos e navegamos pelo mundo, integrando tecnologias como Sistemas de Informações Geográficas (GIS), GPS e imagens de satélite. Desde sua origem nos anos 1960, essa tecnologia tornou os mapas mais acessíveis, precisos e adaptáveis, com recursos como atualizações em tempo real e personalização de dados. Suas aplicações abrangem áreas como planejamento urbano, gestão ambiental e transporte, permitindo uma análise detalhada de padrões populacionais, uso do solo e infraestrutura. Algumas ferramentas importantes para mapeamento, o Google Earth: ferramenta para criar visualizações detalhadas em 3D, incluindo edifícios, paisagens e áreas urbanas. Ideal para apresentações visuais e análises de localização em igrejas ou congregações. O OpenStreetMap (OSM- 3D): plataforma gratuita e colaborativa, ideal para mapear comunidades remotas ou menos documentadas. Facilita o registro de áreas rurais e comunidades carentes. O ArcGIS: software robusto com interface intuitiva, ferramentas de personalização, análise avançada de dados geoespaciais e integração com outros sistemas. Amplamente utilizado para criar e analisar mapas complexos. O Google Maps: simples e acessível, facilita o mapeamento básico de igrejas e eventos. Inclui criação de roteiros, uso offline e APIs para personalização, sendo uma ferramenta útil para visitas pastorais e missões. O MapBox: permite criar mapas personalizados com design atrativo. Oferece integração de informações de mídia e construção de mapas interativos, ideais para comunicação interna e eventos. O CartoDB: excelente para criar mapas colaborativos e interativos, possibilitando o compartilhamento de projetos de mapeamento entre lideranças. Útil para coordenação e análise conjunta de dados. O OpenStreetMap (OSM): ferramenta gratuita e colaborativa que mapeia áreas remotas e menos documentadas. Integra dados coletados via GPS para auxiliar no registro de novas igrejas em locais de difícil acesso[15].

As iniciativas digitais da IPB são variadas e abrangem diferentes estratégias para registrar e comunicar sua expansão missionária. Um outro exemplo importante é o uso das redes sociais para divulgar atividades missionárias e eventos comunitários, como missões em áreas rurais, apoio a comunidades em situação de vulnerabilidade e projetos educacionais em regiões de difícil acesso. Redes como Facebook, Instagram e YouTube permitem que a IPB compartilhe atualizações frequentes sobre seus projetos, tornando o trabalho missionário visível e acessível para um público amplo, inclusive para aqueles que não têm acesso físico às igrejas.

 

DESAFIOS E CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Igreja Presbiteriana continua a demonstrar resiliência e capacidade de adaptação. Sua combinação de tradição reformada, compromisso com a educação e uso estratégico de tecnologias a posiciona como um agente relevante no campo religioso brasileiro. As perspectivas futuras sugerem uma expansão contínua, especialmente em contextos urbanos, onde sua abordagem integradora pode atender às necessidades espirituais e sociais da população. As representações cartográficas da IPB, além de servirem como uma “geografia da fé” que reflete a expansão e o impacto missionário da igreja, lidam com questões éticas, de acessibilidade e de mobilização comunitária.

A privacidade e a segurança de dados são aspectos fundamentais em qualquer projeto digital, especialmente quando envolve comunidades religiosas, que podem conter informações sensíveis sobre seus membros. Outro desafio importante na criação de uma cartografia religiosa digital é a exclusão digital, que limita o acesso de algumas pessoas aos recursos digitais. No Brasil, muitas regiões ainda carecem de infraestrutura adequada para internet, o que significa que parte da comunidade da IPB pode não ter acesso aos mapas digitais ou às informações compartilhadas nas plataformas online da igreja. Apesar dos desafios, as cartografias digitais oferecem uma série de oportunidades significativas para a mobilização comunitária e a educação religiosa. A IPB pode utilizar mapas interativos e plataformas digitais para educar seus membros sobre a história e os valores da igreja, promovendo uma identidade coletiva e um sentimento de pertencimento. Esses mapas digitais podem incorporar camadas informativas sobre eventos históricos, locais de importância espiritual e atividades missionárias, criando uma ferramenta educativa que reforça a memória e a identidade presbiteriana.

Conclui-se que a cartografia, mediada pelas TDICs, não apenas documenta a presença da Igreja Presbiteriana do Brasil, mas também oferece um ferramental poderoso para interpretar as dinâmicas de pertencimento, identidade e transformação no espaço urbano. O presente trabalho espera contribuir para contribuir para o entendimento de como as representações cartográficas podem se tornar ferramentas poderosas para a análise histórica, cultural e religiosa da identidade presbiteriana num contexto plural com o Brasil.

 

REFERÊNCIAS 

CAMPOS, Antônio Carlos. Uma breve evolução da cartografia na história da sociedade,  2012.  Disponível em: <https://cesad.ufs.br/ORBI/public/uploadCatalago/11185004042012Cartografia_ Basica_Aula_2.pdf> em 14 nov. 2024, 18h30.

CORRÊA, João Nazareno Pantoja; BRANDEMBERG, João Cláudio. Tecnologias digitais da informação e comunicação no ensino de matemática em tempos de pandemia: desafios e possibilidades. Boletim Cearense de Educação e História da Matemática, v. 8, n. 22, p. 38, 2021. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/BOCEHM/article/view/4176/3798 Acesso em: 04 de jun. 2024.

DURKHEIM, Émile, 1858-1917. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália / Émile Durkheim ; tradução Paulo Neves. – São Paulo: Martins Fontes, 1996. – (Coleção Tópicos).

GIDDENS, Anthony. Sociologia. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa, 2008, 6ª Edição

HARLEY, John Brian. A Nova História da Cartografia. O Correio da UNESCO, São Paulo, ano 19, p. 4-9, ago. 1991.

JOLY, F. A cartografia. 15. ed. Campinas, SP: Papirus, 2013.

JUBRAN, Alexandre; SILVEIRA, Isabel Orestes. Ashbel Green Simonton. Uma vida de fé. São Paulo: Mackenzie, 2015.

Lévy, P. (1999). Cibercultura. São Paulo: Editora 34.

LUCÍRIO, Ivonete de e HEYMANN, Gisela. O mundo na palma das mãos. Superinteressante.  São Paulo, v. 56, mai, 1992.  Disponível  em <https://super.abril.com.br/tecnologia/o-mundo-na-palma-das-maos>. Atualizado em 31 out 2016, 18h30 – Publicado em 30 abr 1992, 22h00

MENEZES, P. M. L.; FERNANDES, M. do C. Roteiro de cartografia. São Paulo: Oficina de Textos, 2013.

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Notas

[1] Fonte: IPB:História e Identidade   Curadoria dos Museus da IPB. Disponível em: https://www.ipbhistoriaeidentidade.com.br/ . Acesso em: 22 de nov. 2024.

[2] Fonte: https://www.executivaipb.com.br/estatisticas. Acessado em: 22 de nov. 2024.

[3] https://ipb.org.br/

[4][4] (Fonte:          IPB:      História e          Identidade Curadoria dos Museus da IPB. https://www.ipbhistoriaeidentidade.com.br/) Acesso em: 22 de nov. 2024.

[5] https://comunhao.com.br/160-anos-igreja-presbiteriana-do-brasil/

[6] https://earth.google.com/web

[7] https://comunhao.com.br/160-anos-igreja-presbiteriana-do-brasil/

[8] https://earth.google.com/web

[9] https://ipb.org.br/

[10] https://www.icalvinus.app/mapa.php

[11] https://www.icalvinus.app/mapa.php

[12] https://jmnipb.org.br/quadro-de-missionarios-2024/

[13] https://apmt.org.br/missionarios

[14] https://apmt.org.br/missionarios

[15] Fonte: https://geosemfronteiras.org/pesquisa/mapeamento.

 

Bruno de Andrade Duran é pastor presbiteriano e professor de Teologia. Mestrando do programa de pós-graduação em Educação, Artes e História da Cultura (PPGEAHC), da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Pós-graduado em Teologia Filosófica pelo Seminário Teológico Jonathan Edwards (STJE); bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (SPN); graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Cidade Verde (UNICV); licenciado em Informática pela Universidade Tiradentes (UNIT).

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