Trajetórias de Luís Gama

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Trajetórias de Luís Gama: cartografia do legado literário e político

SILVA, Jéssica Anne Machado da. Trajetórias de Luís Gama: cartografia do legado literário e político. In: Aguarrás, vol. 12, n. 39. ISSN 1980-7767. São Paulo: Uva Limão, JUL/DEZ 2025. Disponível em: <https://aguarras.com.br/trajetorias-de-luis-gama/>. Acesso em: [current_date format=d/m/Y].

 

Resumo

A proposta deste artigo é realizar uma pesquisa cartográfica sobre Luís Gama, figura histórica cujo legado é de suma importância para a história política e social do Brasil. Trata-se de um homem negro que, inserido no movimento abolicionista, atuou como advogado, jornalista e poeta. O percurso metodológico investigativo centra-se tanto na produção autoral de Luís Gama quanto no que foi produzido sobre ele, buscando construir uma narrativa histórica que evidencie sua relevância. O objetivo é promover o acesso aos processos culturais, sociais e políticos intrínsecos à trajetória desse protagonista, além de catalogar produções científicas e culturais que valorizam sua obra e historicidade. A cartografia artística é adotada como metodologia investigativa, permitindo a construção de sua trajetória histórica por meio de levantamento bibliográfico, análise de documentos históricos, produções artísticas e obras literárias, explorando a relação entre tempo e espaço.

Palavras-chave: Luís Gama; Cartografia Artística; Legado histórico.

 

INTRODUÇÃO

A escravidão deixou marcas profundas na socidedade brasileira, pois a construção histórico e cultural referente a formação do povo brasileiro indica para o silenciamento historico das populações originarias da América e da população afro-descendente. Na atualidade, a perspectiva colonial abarca as produções culturais que não só no campo acadêmico, mas também político e social. Haja vista que tem sido mais frequente a elaboração de legislações e políticas que visam diminuir as diferenças e preconceitos nas relações étnico-raciais na educação, no mundo do trabalho e nas relações sociais. Esse movimento progressivo da sociedade em direção a transformação social, ainda que em pequenos passos, se estabelece a partir do reconhecimento e da valorização da diversidade racial e cultural que compõem o povo brasileiro.

A negritude no Brasil tem origem no advento da escravidão, marcada por um processo violento de sujulgação dos negros. Entre a imposição desse sistema e a abolição da escravatura, surgiram diversos grupos etnico-raciais, resultantes miscigenação que, ao mesmo tempo, perpetuou a manutenção do sistema de produção e reforçou a exclusão social destas populações.

No século XIX, o contexto social miscigenado e assimetricamente assimilado, começou a abrir caminho para o fim da escravidão no ambito politico-juridico. Paralelamente, movimento abolicionista criou condições para que pessoas negras se destacassem na sociedade, , inclusive na na produção intelectual especialmente por meios da literatura, do jornalismo e até mesmo do campo jurídico. Essas áreas de atuação, tornaram-se ferramentas de luta pela liberdade para Luís Gama: advogado, jornalista e poeta, homem negro e ex-escravizado.

Assim, esta pesquisa científica, por meio de metodologia cartográfica artística investigará as formas de reconhecimento desse personagem histórico, levando em conta a sua atuação social, sua produção intelectual, seu legado e também buscará abranger as produções sobre Luís Gama, no campo acadêmico, cultural, social e político.

É importante destacar que o impacto da obra e do legado de Luís Gama não se restringe apenas aos descendentes afro-brasileiros,mas para toda a sociedade brasileira. É impressindivel pontuar que o resgate da produção intelectual de pessoas negras que atuaram durante o período abolicionista e que indicaram com suas ações a resitencia à escravidão, contribuem para a construção da identidade negra, o acesso à história e às conquistas negras são essencial para uma sociedade democrática e antirracista.

O objetivo desta pesquisa é reunir e assim catalogar as produções autorais de Luís Gama e reunir documentos históricos que serviram como veículo de sua a voz que reivindicava os ideais de justiça, igualdade e liberdade e ao sistema político vigente, o Império.

A produção intelectual de Luís Gama transcende seu tempo e e continua a inspirar diversas produções e estudos na atualidade, que tomam sua trajetória como referência. Para alcançar os objetivos propostos, a pesquisa adota a metodologia bibliográfica como suporte para a investigação e a pesquisa cartográfica como norteadora dos direcionamentos técnico-científicos para a finalidade de coleta e análise de dados. Esse processo inclui o levantamento das as produções de Luís Gama, como livros, teses e dissertações. Além disso, utiliza-se uma abordagem historiográfica e interdisciplinar, que abrange produções culturais e artísticas-como cinema, teatro e ilustrações com o intuito de elucidar as questões étnicas, raciais, sociais e educacionais na construção da narrativa histórica de Luís Gama.

Tendo em vista que a escrita cartográfica, inspirada na imagem rizomática, possibilita a construção de um mapa multidimensional que organiza e articula múltiplos aspectos do objeto de estudo. O legado autoral de Gama reúne registros memoráveis que continuam a inspirar gerações, resultando em produções acadêmicas e artísticas na contemporaneidade. Sua centralidade nesta pesquisa se deve ao fato de ter sido um homem negro, ex-escravizado, cuja atuação incansável em prol da liberdade, gerou importantes projeções de luta negra. Gama articulou suas ações de forma política, social e cultural, deixando uma marca significativa em sua época e para além dela.

Assim, o artigo conta com diversidade de referências documentais, acadêmicas e artísticas que podem ser visualizadas no mural criado na plataforma “Padlet”, título Cartografia Artística – Luís Gama, um material que reúne referências artísticas, imagens, vídeos, filmes, livros e produções acadêmicas indicadas para os pesquisadores interessados. No link que segue: https://padlet.com/jessimac/cartografia-art-stica-lu-s-gama-j4zbjj02knitf9l2 o leitor poderá observar o material que foi cartografado cuidadosamente com a finalidade de futuras pesquisas.

 

Luís Gama: Uma perspectiva Cartográfica

Nas últimas décadas, a partir das discussões referentes às questões étnicos raciais como o preconceito, a violência a desigualdade entre classes sociais, personagens históricos como Luís Gama têm ganhado espaço nas discussões e nos movimentos sociais com o intuito de manter sua memória viva. Segundo Ferreira (2011), não foi sempre assim, pois durante o período histórico pós abolição e proclamação da República, houve uma tentativa de silenciamento histórico de Luiz Gama, de seus feitos e obras.

Também deve ser considerado que nas ultima decadas a crescente busca por tematicas que se relacionam com a perspectiva historiograifcca sobre a escravidão e seus processos durante a colonização do Brasil e invetigações sobre a formação do pobovo brasileiros, em grande parte afro-descnedentes e buscando compreennder como se estabelecem as relações com a Africa. Todas essas temáticas são de interesse de pessoas pretas que cada vez mais ingressam nas universidades, assim os estudos de temáticas relacionados a história de pessoas pretas têm sido produzidos em todo o país. (Movimento educador).

Tendo em vista a importância histórica de Luiz Gama é possível identificar a crescente procura por parte de pesquisadores de áreas distintas do conhecimento como o Direito, Jornalismo, Letras, História, Ciências Sociais, entre outras. Sendo assim, para a finalidade de realizar Revisão de Literatura referente às produções acadêmicas que contemplem Luís Gama, sua obra e legado, foi realizada busca na base de dados por teses e dissertações, na BDTD – Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, foram encontrados dezenas de trabalhos encontrados quando verificado o resultado de busca pelo nome “Luís Gama”, ou “Luiz Gama”. Outras publicações como HQ e produções interessantes também merecem ser destacados e comentados. Por isso, serão alguns exemplos de obras que investigaram a trajetória de Gama, servirão de exemplos nas reflexões que seguem.

Entre as dissertações que tenham a ver com o tema: a obra literária do poeta, e ainda versar sobre as com temáticas etico-raciais, outras teses e dissertações catalogadas podem ser verificadas no mural paddled. A seguir estão catalogadas entre três dissertações que foram selecionadas para exemplificar as diversas formas nas quais Luís Gama pode e sua obra podem ser centralizadas na perspectiva científica e acadêmica.

A primeira dissertação “Luiz Gama como Perseu romântico: engajamento literário em Primeiras trovas burlescas de Getulino” de autoria de Arthur Katrein Mora (2020) foi desenvolvida durante o curso de Pós Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Tendo como tema central a dualidade da poesia de Luís Gama a sátira e lírica. O objetivo identifica através das referências mitológicas como Perseu o método de análise literária e por fim a o resultado o mundo moderno e o impulso estético que Luiz Gama faz uso em seus poemas, com leveza.

Com uma perspectiva metodológica e estrutural diferente, logo, a dissertação “O direito à poesia: A força brasileira de As primeiras trovas burlescas, de Luiz Gama de autoria de Magnólia Ferreira Cruz da Paixão (2019), foi desenvolvida durante o curso de mestrado em Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana, tem como tema central discord as questões sociopolíticas como o preconceito racial e a valorização da identidade abordadas nas poesias deste poeta no século XIX já o objetivo de expulsar a poesia como instrumento de luta e denúncia.

A dissertação “A estética do ser/estar no ‘entre lugares’: Imagens do negro, do mestiço, do mulato e do branco em Primeiras trovas burlescas de Getulino, de Luiz Gama” de autoria Mara Regina Paulino (2010). Foi desenvolvida durante o curso de mestrado em Letras da instituição Universidade São Paulo. Tem como tema central as questões etnicas-raciais presentes nos poemas de Luís Gama partindo do obejtvo de identificar nos poemas como ocorriam a atuação do autor em realação as distinções raciais, assim, por meio do “eu lirico” revela a essencia do negro. O método de análise dessa pesquisa está relacionado às estruturas literárias em primeira instância e depois realiza-se a análise das questões raciais e sociais.

Após realizar atenta leitura, é possível verificar que as três dissertações destacadas se referem a produção literária de Luís Gama, publicada em duas edições, “Primeiras Trovas Burlesca de Getulino” em São Paulo no ano de 1859 e “Trovas Burlescas de Getulino Revistas e Corrigidas” em 1861, no Rio de Janeiro. A maior parte desses textos literários que compoe esta obra, se caracterizam como o estilo de satira, uma forma de evidenciar criticas a socieade de seu tempo, através do humor como estratégia de confronto e denúncia, anunciava a escravidão e o preconceito em relação ao negro. (Frederico, 2021, p.16 )

A temática da Produção Literaria de Luis Gama está diretamente relacionada a pesquisa em curso, mas para realizar o objetivo de pesquisa interdisiplinar entre a hitoria e a literatura, é necessaio compreender não apenas a obra literai, mas toda a produção intelectual de Luís Gama, além de investigar suas relações, de suas estrategias e posiciomentos politicos e sociais, pois todos esses fatos viabilizam a compreensao de seu pensamento, desse modo é essencial que sejam investigadas as outras frentes das quais esse ativista negro atuou.

Além das poesias, Luis Gama, se expressou através da imprensa com apoio de muitos abolicionistas e republicanos que desejam se dedicavam a luta por liberdade, estes não se exime de confrontos e de realizar provocações através das publicações de jornais paulistanos e também da capital do Império, na época o Rio de Janeiro. Luís Gama também foi um exímio advogado (rábula), que defendeu escravizados nos tribunais conquistando a liberdade.

Atualmente, o Espetaculo “Luiz Gama: uma voz pela liberdade” apresenta a vida, a obra e as ações deste poeta, jornalista e advogado negro que viveu entre 1830 e 1882. Um ex-escravizado que buscou educar-se, de forma autônoma, para então alcançar notoriedade entre a sociedade paulistana. A peça propõe a intertextualidade entre as poesias de Luís Gama que tomam vida através da interpretação do ator Déo Garcez e da atriz Soraia Arnoni, que juntos declamam os versos e expressam a voz da resistência com entusiasmo. Outro fato interessante é que entre as publicações acadêmicas que mencionam os feitos de Luís Gama, seja nas áreas de ciência sociais, história, letras, jornalismo, direito, entre outras temáticas e discussões que surgem de acordo com as necessidade de debates e reflexões de cada época, o levantamento bibliográfico apontam para diversas pesquisas que se tornaram livros publicados e agora servem como referencial para novas pesquisa e boas leituras para quem se interessa pela temática.

Entre eles, o livro “Luiz Gama – Antologia” de Frederico (2021), apresentam um recorte de artigos, cartas e poemas de Luís Gama, realizando uma breve narrativa de sua vida de obra, um recorte de poemas e artigos possibilita a verificação de suas ações abolicionistas e de seu ativismo na causa negra, aos 18 anos conseguiu provar sua própria liberdade, e depois de muita dedicação ao estudo ingressou na polícia, no direito, sem a formação acadêmica, defendeu a liberdade de mais de 500 escravos.

Estes são relatos autobiográficos de Luís Gama, apresentados na carta direcionada ao amigo Lúcio de Mendonça (1854-1909), e publicada pelo mesmo em São Paulo, na data de 25 de julho de 1880. Luís Gama revelou sua origem ao amigo e também advogado, jornalista, magistrado, e escritor, pois atendendo a um pedido do amigo, descreve em seus últimos anos de vida fatos sobre sua filiação, trajetória entre a infância e a fase adulta, e, também descreve como deixou de ser “escravo” para se tornar um advogado (Frederico, 2021, p. 21).

Luís Gama nasceu, na Rua Bangalô, cidade de Salvador, Bahia, no dia 21 de junho de 1830. Luiz Gama foi vendido pelo pai em 10 de novembro de 1840 e embarcou de Salvador para o Rio de Janeiro no Navio “Saraiva”. Vendido ao cerieiro Vieira, ficou por alguns dias com a família, mas foi vendido, viajando rumo a São Paulo.

Aos 10 anos Luiz Gama foi vendido para o Alferes Antonio Pereira Cardoso, que tentou vendê-lo entre Campinas e Jundiaí, mas não obteve sucesso devido a origem baiana de Gama, a Bahia era referência de insurreições e rebeliões nesse período. Desse modo, o jovem Luís Gama ficou como escravo de ganho na casa dos Alferes Cardoso em São Paulo até os 18 anos, onde aprendeu os ofícios de copeiro, sapateiro, lavar, engomar e costurar roupas.

Para ilustrar os possíveis desafios enfrentados por Luís Gama em sua infância, os quadrinhos “Província Negra – Luiz Gama: Infância”, apresentam uma ficcionalização da narrativa da travessia de Luiz Gama entre Salvador na Bahia até São Paulo em um navio negreiro. O volume 2 dos quadrinhos em tiras buscam elementos ilustrativos para descrever como correu o processo de escravização do pequeno Luiz Gama.

De forma que os quadrinhos em HQ de autoria de Khaled Kanbour como roteirista e Kris Zullo responsável pela arte, fazem parte de uma coleção de dois exemplares, que tem Luiz Gama como protagonista. O primeiro volume dos quadrinhos em HQ “Província Negra” também por meio da ficção relatam as situações de conflitos que Luís Gama encontrou em sua vida adulta, expressando resistência para atuar como advogado e libertando escravizados.

Referente às suas origens afro-descendentes, no documento biográfico, Luiz Gama fala pouco sobre o pai, apenas que era um fidalgo de família importante na Bahia, por tanto era um homem branco, mas Luís Gama não o identifica. Sobre a mãe, Luís Gama discorre identificando-a como mulher negra natural da África, Luiza Mahin, que era quitandeira e o deixou aos cuidados do pai aos 8 anos, para participar dessa luta negra por liberdade. Logo foi presa por suspeita de participação na insurreição baiana e em 1837, os dois nunca mais se encontraram (Frederico, 2021, p. 22).

Luiza Mahin também deixou um legado de luta e resistência, pois os relatos históricos indicam que ela serviu a insurreição escrava ocorrida na Bahia na década de 1830. Sua narrativa foi inspiração para o livro em que é relatada a trajetória de uma mulher africana sequestrada na África, na obra ficcional “Um defeito de Cor” de Ana MAria Gonçalves por sua vez serviu como referência para a exposição “Um defeito de Cor” no SESC Pinheiros entre a data e 25 de abril de 2024 e 26 de fevereiro de 2025. Além do samba enredo da Portela no carnaval de 2024 que tratou da saga de uma mãe, mulher negra à procura de seus filhos em meio a escravidão na América.

Fica evidente nesta obra que há possibilidade de adaptação dos conteúdos construídos através de investigação histórica. Em relação aos relatos de Luís Gama em sua carta e dos estudos sobre sua produção intelectual, ocorreu a adaptação para o cinema, assim como há referências artísticas e literárias na área cinematográfica, o filme “Doutor Gama” (2021), dirigido por Jeferson De, possui enredo muito próximo aos relatos autobiográficos de Luís Gama. A Produção audiovisual ainda retrata as questões de Luis Gama com sua mãe, e, apresentando Luís Gama como homem negro que atuou como advogado e abolicionsita no seculo XIX em periodo de luta pela liberdade coopera para evidenciar a representatividade da obra e da pessoa de Luís Gama, além de retratar as dificuldade sofridas pelos negros durane a escravidão. (Aires, 2021).

Retomando as obras acadêmicas publicadas, Lígia Fonseca Ferreira, doutora em Estudos portugueses e brasileiros pela Université Sorbonne Nouvelle – Paris, dedica seus estudos há décadas na construção de aporte teórico e documental que possa revelar a história de Luís Gama e a importância de sua atuação. Dentre publicações acadêmicas há publicações de artigos científicos, dissertação e tese, além das palestras que realizada sobre a temática.

Duas obras devem ser destacadas, o livro “Com a Voz Luiz Gama: poemas, artigos, cartas, máximas” (Ferreira, 2011), se configura como produção antológica, reunindo documentos autores de Luís Gama e a construção de uma cronologia, a fim de compreender a trajetória e ilustrá-la para melhor compreensão de fatos importantes de sua época, tal como a promulgação de leis importantes durante o percurso jurista e também publicações de Luís Gama na imprensa. E também a obra “Lições de resistência: Artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro”, a obra se refere a análise das obras autorias de Luís Gama, o indicando como “Patrono da Abolição”, nesta obra Ligia Fonseca elaborar uma cronologia ainda mais completa.

A cronologia da vida e obra de Luís Gama, é de suma importância, pois além de apresentar de forma visual a narrativa, também anuncia os marcos históricos que servem como aporte para os estudos temáticos sobre Luís Gama, se alistou no serviço militar, serviu até 1854, mas teve baixa do serviço após responder ao conselho por insubordinação, Gama narra que quando foi praça, nas horas vagas era copista. Foi apadrinhado pelo Conselheiro Francisco Maria de Sousa Furtado de Mendonça, administrador de altos cargos da polícia e judicatura, também catedrático da Faculdade de Direito. Descreve que com auxílio de seu protetor teve acesso à educação, a uma formação mais refinada (Frederico, 2021, p. 27).

Outro autor que se debruça sobre as obras de Luís Gama é Bruno Rodrigues de Lima, pesquisador de Luís Gama na área do Direito e da História, doutor em História do Direito pela Johann Wolfgang Goethe-Universität Frankfurt am Main. Após ter elaborado uma coletania chamada “Luiz Gama: Obras completas” pela editora Hedra, onde cada volume apresenta um objetivo de analise, o livro “Liberdade” por exemplo apresenta uma serie de artigos de jornais onde Luis Gama denunciava a violencia da escravidão e as arbitrariedades que as autoridades cometiam para mantes os negros escravizados ou prisioneroso, negligenciando as leis e criando um sistema de favores entres os “donos” de escravizados.

Em 2024, Bruno Rodrigues de Lima, publicou o livro “Luiz Gama contra o Império”, fruto de sua pesquisa de doutorado, o principal objetivo desta obra é apresentar as ações abolicionistas e republicanas de Luís Gama que se articulam através da história do direito e também de questões essencialmente políticas do século XIX. .

Ainda entre produções academicas, Angela Alonos (2015) autora do Livro “Flores, votos e balas: movimento abolicionista (1868-1888)”, explicando como foi a ação de cinco abolicionistas importantes, entre eles destaca Luis Gama que atuava como jurista, a autora declara que havia o “estilo Gama”, para se referencia a forma especifica na qual Luis Gama legislava, compreendeno a lei e fazendo uso dela para confrontar o sistema social e jutrico que insistia em manter a escravidão. Esse trabalho também foi fruto de um doutorado na USP na área de ciências sociais.

Nelson Câmara, fez doutorado de Jornalismo no Mackenzie, publicando então o livro “Advogado dos Escravos”, explicando cada etapa da atuação específica de Luís Gama nos tribunais. No encerramento do Livro, Câmara apresenta um recorte das homenagens póstumas, em que os amigos de Luiz Gama, homens de notoriedade da sociedade, jornalistas, juristas, poetas, entre outros intelectuais, prestaram homenagens através da imprensa ou manifestações públicas para evidenciar a grandeza de Luiz Gama. Também apresenta as localizações das ruas e logradouros que possuem o nome Luis Gama, além das estações de trem e os bustos erguidos com seu rosto, como no Largo do Arouche. Um fato peculiar abordado pelo autor é que Luiz Gama só foi reconhecido como advogado pela OAB em 2015, quando recebeu a homenagem, além de ter sido inspiração para medalha da instituição.

Como fato importante que marca a trajetória de Luiz Gama e todos os autores mencionados contextualizam, é o pertencimento de Luís Gama à uma Sociedade Secreta, a Loja Maçônica América em São Paulo. É relevante a associação de Luís Gama nesta instituição pela qual se estabeleciam as redes de apoio aos grupos abolicionistas e republicanos radicais, e, foi por meio da Loja America que Luís Gama conseguiu recurso para comprar alforria de escravizados e conseguiu criar projetos de educação na Cidade de São Paulo, direcionados aos filhos dos escravizados que nasceram livres por causa da lei do ventre livre, estes eram chamados de ingênuos.

Também deve-se considerar que Luís Gama pertenceu à Loja América até sua morte, e muitos membros da Loja, também atuavam com ele na imprensa, estes realizaram diversas homenagens após sua morte. Gama, declarou que participava ativamente da luta por alforrias de escravos, detestava senhores de escravos, suas ações já teriam nessa altura influenciado na libertação de cerca de quinhentos escravos. Sua luta contínua estava ligada à liberação dos escravos, fazendo desse seu propósito de vida (Frederico, 2021, p. 28).

Luís Gama faleceu em 26 de agosto de 1882, a causa da morte teria sido o comprometimento da saúde causado pela diabetes. Deixou esposa, um filho, e o legado de uma vida dedicada à justiça, à liberdade. As mudanças posteriores envolveram um grande cortejo fúnebre que percorreu a cidade de São Paulo terminando no Cemitério da Consolação onde está enterrado até os dias de hoje.

Na atualidade, essa homenagem foi ressiginificada, o Cortejo tem sido realizado pelo Movimento Negro em São Paulo. Este ano, 2024, o evento contou com alguns dias de celebração no mês de agosto em associação com o SESC Consolação. No dia 24 de agosto foi realizada pela manhã uma palestra com Ligia Fonseca Ferreira e Bruno Rodrigues de Lima que abordaram temas essenciais para o entendimento do ativismo abolicionista de Luís Gama, sua vida e obra.

Ainda durante o evento, no período da tarde, foi realizada uma caminhada “Pegadas de Luiz Gama” em um ato simbólico, conduzida por Abílio Ferreira, foram visitados alguns pontos históricos de São Paulo a partir da contextualização da atuação de Luís Gama por meio de instituições da cidade. Como exemplo, uma das paradas foi realizada no Monumento Luis Gala localizado no Largo do Arouche, no bairro da República em São Paulo. Já no dia 25 de agosto foi realizado todo o trajeto do Cortejo Fúnebre, sem paradas entre o Brás e o Cemitério da Consolação.

Considerações finais

Luís Gama e sua colaboração para a libertação, pela cidadania e pela educação do negro no Brasil, se tornou um grande exemplo pois transformou o conhecimento adquirido com muito esforço em instrumento de luta. Outra contribuição de Gama, está em suas narrativas, fatos reais que ocorreram com outros escravos, com outros abolicionistas, com associações, com as redações de jornais, propiciando um esclarecimento das posições políticas e sociais que permeavam a continuidade da escravidão e a prorrogação do rompimento desse sistema cruel de trabalho. Gama transparece o tempo todo em sua escrita, a indignação, a urgência de se fazer uma revolução, romper com a escravização e com a monarquia, seria a democracia o caminho para justiça e igualdade.

Os registros deixados pelo autor compoe a sua história e contribuem para compreensão da realidade do negro no Brasil, a vulnerável mediante a cor de sua pele, era a condição de vida do escravizado no Brasil do século XIX. No sentido em que a cartografia é realizada em movimento coletivo, é imprescindível identificar que as colaborações dos pesquisadores e produtores de arte e cultura fornecem diversas fontes e conteúdos que enriquecem a investigação científica. A cartografia prevê a vivência, a experiência no campo dos sentidos para construção de arranjos de pesquisa de intervenção, embora descreva os contornos formais dos objetos e do mundo, sua construção permite o movimento dos objetos durante o processo de construção. (Passos, 2009, p. 92)

Assim, todos os conteúdos destacados neste artigo, formam um grande rizoma, mas só pode ser construído a partir da vivência, da experiência da pesquisa historiográfica e cartográfica.

 

REFERÊNCIAS

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ALONSO, Ângela. Flores, votos e balas: O movimento abolicionista brasileiro (1868-88). 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

ANTIRRACISTA. 2020. Disponível em: https://www.sescsp.org.br/editorial/heroi-da-liberdade/. Acesso em 10/11/2024.

CÂMARA, Nelson. O advogado dos escravos: Luiz Gama. 3. ed. Campos dos Goytacazes RJ: Brasil Multicultural, 2016.

Espetáculo Luiz Gama: uma voz pela liberdade. Centro Cultural da Justiça Federal. Disponível em: https://ccjf.trf2.jus.br/programacao/luiz-gama-uma-voz-pela-liberdade. Acesso em: 10/11/2024.

FERREIRA, Ligia Fonseca. Com a Palavra Luiz Gama: Poemas, Artigos, Cartas, Máximas. São Paulo: Imprensa Oficial, 2011.

FERREIRA, Lígia Fonseca. Lições de Resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.

FREDERICO, Enid Yatsuda; CAMPOS, Claudia de Arruda (org.). Antologia/Luiz Gama. 1.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2021.

Heroi pela Liberdade. COMUNICADOR E POPULAR, O ABOLICIONISTA LUIZ GAMA TEVE VIDA E OBRA ANCORADAS NA CONSCIÊNCIA POLÍTICA E NA LUTA

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LIMA, Bruno Rodrigues de (org.). Liberdade 1880-1882 – Luiz Gama. 1º ed. São Paulo: Hedra, 2021.

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Um defeito de cor: conheça o livro homenageado em samba-enredo da Portela. Nayara Fernandes. 13/02/2024. Disponível  em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2024/noticia/2024/02/13/um-defeito-de-co r-conheca-livro-homenageado-em-samba-enredo-da-portela.ghtml. Acesso em: 10/11/2024.

Universo HQ. Conversa com os autores de Província Negra em Tiras, em São Paulo. Marcelo Naranjo. Publicado em 28 de novembro de 2023. Disponível em: https://universohq.com/noticias/conversa-com-os-autores-de-provincia-negra-em-tiras-e m-sao-paulo/. Acesso em: 10/11/2024.

 

Jéssica Anne Machado da Silva é mestranda no programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura ofertado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2023/2024). E-mail: jessi-mac@hotmail.com

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