Kafka
O espetáculo Kafka, da Cia. Borelli de Dança, foi um dos eventos que a Livraria Cultura ofereceu em sua Virada/2009.
Não pensei nisso antes. Mas nada como Kafka. Digo, em todas as artes passamos pela mesma indagação sobre o próprio processo de fazer arte. A pintura discutiu a superfície da tela, a tinta e o gesto. A literatura apresenta metalinguagens até hoje.O fazer artístico voltada para ele mesmo, suas questões e processos, em uma época de perda de referências, de estabilidades, foi um fenômeno meio que universal e atingiu todas as linguagens. A situação kafkiana de descobrir-se na forma de uma barata, nesse contexto, não podia ser melhor. A necessária indagação sobre o próprio corpo é, de fato, ideal para uma dança voltada, não para uma narrativa, mas para as próprias possibilidades do corpo como meio de expressão.
O espetáculo abre com quatro bailarinos que se espelham uns nos outros em seus movimentos, formando um corpo único. Eles se analisam. Já começa muito bom, no espanto perante braços e pernas que lhes (nos) parecem novos.
Às vezes tal corpo único é 3/4 barata e 1/4 resistência. Outras vezes tenta conter, todo ele, a baratice galopante. São tentativas de um andar ereto, tentativas de dignidade. Mas sempre algo – um pé que se torce incontrolável, uma perna a tremer ou os dedos da mão, nervosos – vence e retoma os movimentos frenéticos de antenas e patas. Em outras vezes a barata quatrinca explora seus novos limites – os físicos, de seu novo corpo, e os geográficos, do palco fechado.
O coreógrafo Sandro Borelli traz, nessa obra, uma tonalidade nova e interessante para o drama kafkiano da perda da liberdade. Uma interpretação sexual. É um dos momentos, aliás, de que mais gostei. Os bailarinos, exaustos da luta contra a baratice, estão inermes no palco. Mas, pouco a pouco, vêem o movimento baratal renascer de suas mãos, postas em concha sobre o sexo. Um por um, dedos começam a se agitar qual patinhas, qual antenas. Uma hipótese que assim é lançada: aprisionado por limites sociais, econômicos e geográficos, o corpo busca a si mesmo. Uma condição de fechamento, de não alteridade, que inclui o sexo. A claustrofobia, a não-saída do corpo para além de si mesmo é o auto-erotismo. Que é, necessariamente, um homoerotismo. Nesse momento, os bailarinos se dividem, os dois homens ficam, as duas mulheres somem. Depois, isso vai se inverter. Ficam as duas mulheres, somem os dois homens. E entra uma sutileza também bonita. Os dois homens tem, a acompanhá-los, sons animais. As duas mulheres, uma espécie de canto/lamento. Na sequência, fica no palco uma das mulheres e voltam os dois homens. Eles tentam interagir com ela. São ações brutas, mas não intencionalmente brutas. Uma brutalidade de quem não se sabe bruto – ou não acha isso relevante. A brutalidade inclui tentativas canhestras de uma sexualidade desinformada. Mas não resulta. No final, a bailarina, “morta”, tem seu corpo analisado e cutucado pelos dois homens. Eles tentam deixá-la em várias posições, nenhuma satisfatória. Eles se entreolham a cada uma dessas tentativas. São eles os cúmplices, ela a estranha. Eles se unem sobre ela, cai uma saliva/esperma sobre seu rosto. É uma saliva/esperma comunal dos dois.
E depois ela é abandonada, inútil.
Há alguns pouquíssimos momentos de quase-humor no espetáculo. Sempre que vejo uma obra que parta de Kafka sinto falta de humor. Aqui, pelo menos, o humor não está ausente, em que pese a roupa preta e séria dos bailarinos, o palco minimalista, também preto. E a ausência quase total de sons ou música. Kafka, você deve saber disso, achava que estava escrevendo textos de humor. É raro alguém sacar sua enorme ironia. O personagem Gregor, depois de carregar a família inteira nas costas, trabalhando para sustentá-la, acaba virando uma barata. Mas as coisas vão se arranjando mesmo assim. A irmã leva comida. O resto das pessoas o ignora como sempre fez. O pai acaba conseguindo um novo trabalho. A vida segue. Ele continua lá. Ter se tornado, fisicamente, a barata que sempre foi não faz lá muita diferença.
Os Difamantes
Os Difamantes, texto de Martha Mendonça e Nelito Fernandes, com direção de Ernesto Piccolo, traz o problema da qualidade dos programas televisivos e questiona os atributos das celebridades instantâneas.
Beatriz e Maurício, representados por Maria Clara Gueiros e Emílio Orciollo Netto, nos mostram como o tédio de um casamento pode torna-se inspiração. O Pillow Talk Show: mais um programa ruim na televisão que tem sucesso garantido.
Maurício fica obcecado pela chance de ficar famoso. Bia ainda consegue ser mais resistente. No fim, decidem não entrar para esse mundo e percebem que não há aventura mais louca do que o próprio casamento.
A peça não trata apenas de questões ligadas às celebridades, são narradas também histórias de relacionamentos e detalhes do comportamento de homens e mulheres, apontando a graça do cotidiano. O público se identifica com o texto e ri não somente dos atores, mas de si mesmo.
Ver as reclamações do casal é realmente cômico. A TPM de Beatriz é absurdamente engraçada, por exemplo. Ou a leitura comentada da revista Caras, com suas manchetes que nada dizem.
Os atores parecem se divertir muito durante o espetáculo. A troca entre os dois é ótima. Eles, mesmo depois de algum tempo em cartaz, ainda conseguem rir das piadas e deles próprios.
Maria Clara Gueiros é hilária. Capaz de contar a piada sobre português mais antiga e nos fazer rir. Já sabia que ela tinha habilidade para comédia, mas é mais do que isso. Eu poderia falar muito sobre ela, porém, reconheço que para a peça ser tão boa contou com o talento de todos os envolvidos.
Atores habilidosos e um texto agradável geraram um ótimo resultado. Receita simples, mas que, devido aos múltiplos acertos, conseguiu construir uma peça de qualidade.
Texto: Martha Mendonça e Nelito Fernandes
Direção: Ernesto Piccolo
Elenco: Maria Clara Gueiros e Emilio Orciollo Netto
Temporada: Até 20 de dezembro.
Teatro dos Grandes Atores. Shopping Barra Square. Rio de Janeiro.
A Geração Trianon
A peça A Geração Trianon estreou no dia 22 de outubro de 2009, no Teatro Laura Alvim, em Ipanema (RJ). Com direção de Luiz Antonio Pilar e Cristina Bethencourt, a produção é uma remontagem do texto de Anamaria Nunes, premiado em 1988, ano de sua primeira montagem, dirigida por Eduardo Wotzik e representada pelo Grupo Tapa.
A remontagem atual conta com 14 atores – Licurgo, Marília Medina, Marta Paret, Marcio Vito, Rogério Barros, Rubens Camelo, Tracy Segal, Marcos Damigo, Rodolfo Mesquita, Rael Barja, Julia Deccache, Antonio Alves, Alex Reis, André Rocha e o pianista Christian Bizotto – que dão vida às histórias dos bastidores de uma companhia teatral da década de 20, no tradicional Teatro Trianon, no Rio de Janeiro.
Por ser patrocinada pela Eletrobrás, a peça foi apresentada na Casa de Cultura Laura Alvim, imóvel doado (por Laura Alvim) ao Governo do Estado em meados de 1980. Como grande parte dos bens públicos é precária, gostaria de ressaltar o desconforto do balcão do teatro, cujos assentos são tão altos que deixam a pessoa mais saudável do mundo com gangrena nas pernas. Além disso, um dos ilustres espectadores da estréia era um morcego. (Isso mesmo, o mamífero voador). Outro ponto desagradável foi o atraso de 40 minutos para a abertura das portas do teatro. Sendo assim, só pude me encontrar com o morcego às 21:40, e não às 21h, como combinado. Espero que ele não tenha se chateado.
Voltando à peça… Foi boa. Uma peça que aborda a produção de uma peça, e a peça em si (para quem curte nomenclaturas, metateatro), é sempre interessante, ainda mais quando se trata de um texto já premiado. Horrível não poderia ser. Contudo, não passa de uma peça boa. Como pontos altos, o jingle da sapataria Mota (e todas as partes que o dono da sapataria Mota aparece), que merece boas risadas; e o vôo do morcego que, já impaciente, resolveu dar uma voltinha quase no final do espetáculo… Momento de muita tensão!
Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim
Av. Vieira Souto, 176, Ipanema/RJ
Tel: 21 2332-2015
Horários: 5ª, 6ª e sábado às 21h; domingo às 20h
Temporada: até 20 de dezembro
O Bem do Mar
Estreou no Teatro do Leblon, sala Fernanda Montenegro, Rio de Janeiro, neste último dia 15, o musical “O Bem do Mar”, com direção de Antonio De Bonis. São 14 atores em cena e 7 músicos interpretando 68 músicas de Dorival Caymmi.
Em “O Bem do Mar”, procura-se levar ao palco elementos das letras de Caymmi, compondo cenas tipicamente baianas e mostrando com competência a cultura brasileira cantada por Dorival, em que o cotidiano servia de inspiração para as suas composições, retratando tudo com simplicidade e talento bem peculiares.
São 120 minutos de espetáculo, com 10 minutos de intervalo. Ao que deram a denominação de Bloco I – Lembranças, se comparado aos demais blocos, não é muito convidativo. Porém, nas outras partes (Bloco II – Copacabana By Night, Anos 50 e Bloco III – Histórias de Pescadores), o espetáculo melhora consideravelmente.
As músicas, muitas vezes compondo um pout-pourri, são bem interpretadas, a movimentação no palco também é interessante e, tranqüilamente, nos transportam para a Bahia de Dorival Caymmi. Destaco o bom jogo de luzes e os probleminhas no áudio, que, provavelmente, serão corrigidos para as próximas apresentações.
Os atores cantam e dançam bem. Algumas vozes, inclusive, são graciosas e há partes muito boas do musical que, com certeza, se destacam. De modo geral, não é um espetáculo impecável, mas realiza bem a proposta.
Bom. Um bom espetáculo. Tudo dentro do esperado, mas nada de surpreendente.
Músicas: Dorival Caymmi
Concepção e Direção: Antonio De Bonis
Roteiro: Antonio De Bonis e Douglas Dwight
Direção Musical e Arranjos Vocais: Ricardo Rente
Elenco: Ana Velloso; Dandara Mariana; Daúde; Dério Chagas; Fábio Ventura; Fael Mondego; Flavia Santana; Gabriel Tavares; Izabella Bicalho; Lilian Valeska; Marcelo Capobiango; Marcelo Vianna; Patrícia Costa e Thiago Thomé.
Músicos: Alfredo Machado, violão; Rodrigo Villa, contrabaixo; Fernando Pereira, bateria; Firmino, percussão; Flávia Chagas, violoncelo; Luiz Flavio Alcofra, violão e Ricardo Rente, sopros.
Temporada: até 20 de dezembro.
O Milagre do Santinho Desconfiado (nota)
A diretora Lucia Coelho comemora 40 anos dedicados ao teatro infantil com a estreia do premiado texto “O Milagre do Santinho Desconfiado” de Marília Gama Monteiro.
ESTREIA: dia 24 de outubro (sábado), às 16h30
LOCAL: CENTRO DE REFERÊNCIA CULTURA INFÂNCIA/TEATRO MUNICIPAL DO JOCKEY
Rua Mário Ribeiro, 410 / Gávea – entrada de automóveis (estacionamento gratuito)
Rua Bartolomeu Mitre, 1110 / Gávea – entrada de pedestres
Tel: 21 2540.9853
HORÁRIOS: sábado e domingo, às 16h30
DURAÇÃO: 55 min
INGRESSOS: R$ 30,00 inteira e R$ 15,00 (meia entrada)
CAPACIDADE: 150 espectadores
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: livre, indicada para a partir de 05 anos
TEMPORADA: até 29 de novembro
O Milagre do Santinho Desconfiado, espetáculo infantil com texto de Marília Gama Monteiro, estréia dia 24 de outubro próximo no Teatro Municipal do Jockey. A direção é da “mestra” Lucia Coelho (comemorando 40 anos dedicados ao teatro infantil), que estará também em cena, ao lado de Marcelo Dias (Prêmio Zilka Salaberry de Melhor Ator de teatro para crianças em 2007 com O Ovo de Colombo, encenado também por Lúcia Coelho), Severa de Brito, André Costa e Pedro Maia.
Este texto foi vencedor do Concurso Nacional de Dramaturgia do então Serviço Nacional de Teatro / SNT (atual Funarte) em 1970. Com uma dramaturgia construída em versos, O Milagre do Santinho Desconfiado revive um momento marcante da história do Brasil: a abolição da escravatura.
SINOPSE
A peça fala da escravidão e dos anseios abolicionistas através do encontro de dois personagens: um menino negro, escravo, e um menino branco, o abolicionista Euzébio de Queiroz quando criança.
Quem conta a história é Pai João, preto velho, narrador/testemunha do período da escravidão no Brasil. Ele é uma alegoria do negro sofredor e humilde, o “escravo que não é gente, mas que espera a sua redenção como se fosse um milagre do seu santo de fé”.
A história é contada em flashback, com texto enxuto e narração rítmica – sua dramaturgia é construída em versos. A história é contada através de esquetes, como uma história em quadrinhos. O quadro final, com a presença da princesa Isabel, que decreta a lei Áurea, representa o milagre maior de pai João: a princesa, como um rei medieval, o nomeia “gente”.
A MONTAGEM – ENCONTRO DE LINGUAGENS
A peça começa com uma brincadeira proposta às crianças da platéia, quando todas são convidados a confeccionar barquinhos de papel – estes barquinhos serão direcionados para um agitado mar azul de pano, representando as centenas de navios negreiros que traziam os escravos para o Brasil.
Além do trabalho dos atores e da música especialmente composta por Marcelo Alonso Neves, a diretora lança mão de diferentes linguagens para contar esta história – o teatro de sombras, o teatro de bonecos e o teatro de brinquedo. O primeiro entra em cena mostrando os mistérios da floresta e seus animais, e os navios em travessia pelo mar. O teatro de brinquedo, montado diante do público, é formado por personagens de papel que, manipulados pelos atores, tomam o seu lugar durante parte da narrativa.
E a peça segue envolvendo a plateia numa onírica viagem de luzes, cores e muita música. Os quadros de Debret foram inspiração para a escolha das cores e criação das cenas da peça.
A preparação vocal dos atores é de Jorge Maia, os bonecos são de Michel Sousa e Juliana Werneck, a luz é de Jorginho de Carvalho, e cenário e figurino são de Carlos Alberto Nunes.
FICHA TÉCNICA
TEXTO: Marília Gama Monteiro
DIREÇAO: Lucia Coelho
ELENCO: GRUPO NAVEGANDO
Lúcia Coelho (Mãe preta)
Marcelo Dias (Pai João – o ator foi eleito o Melhor Ator e ganhou o Prêmio Zilka Salaberry de teatro para crianças em 2007 com O Ovo de Colombo, encenado por
Lúcia Coelho)
Severa de Brito (Mãe Branca)
André Costa (Zezé)
apresentando Pedro Maia (João/Tição)
CENÁRIO E FIGURINO: Carlos Alberto Nunes
ADEREÇOS E PINTURA DE ARTE: Nilton Katayama e Thieny Katayama
ASSESSORIA TEATRO DE SOMBRAS: Magda Modesto
MÚSICA: Marcelo Alonso Neves
BONECOS: Michel Sousa e Juliana Werneck
ILUMINAÇÃO: Jorginho de Carvalho
ASSESSORIA DE BONECOS: Magda Modesto
PREPARAÇÃO DE VOZ: Jorge Maia
PREPARAÇÃO DE CORPO: Marcelo Dias
FOTOGRAFIA: Mário Grisolli
PRODUÇÃO: Lucia Coelho, Marcelo Dias e Heloiza Quaresma
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Lena Brasil
ASSESSORIA DE IMPRENSA: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
Gestualidade na Cena Contemporânea
Companhia do Gesto realiza ciclo sobre a Gestualidade na Cena Contemporânea
Em sua passagem por São Paulo, após 15 anos, a Companhia do Gesto – em temporada com o espetáculo A MARGEM – realiza, de 5 a 26 de setembro, na UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA um Ciclo gratuito de quatro encontros sobre a Gestualidade na Cena Contemporânea.
O primeiro encontro, realizado dia 5 de setembro, contou com a presença de Álvaro Assad, diretor do espetáculo A Noite dos Palhaços Mudos, que falou sobre a tríade Teatro-Mímica-Humor ao lado de Luís Igreja, diretor da Companhia do Gesto. O bate-papo abordou os meios de pesquisa de cada diretor com foco no gesto em cena e as opções de usar ou não a palavra. Já Luís Igreja defendeu a ideia de que teatro gestual é teatro do ator vivo, com presença plena em cena, todo em alerta, pronto para o jogo do presente e para a resposta da plateia.
Dia 12 de setembro aconteceu o segundo encontro com a presença de Tiche Vianna e Ésio Magalhães, do Barracão de Teatro, de Campinas (SP). A atriz e diretora falou um pouco da história dela e de como chegou às máscaras (comédia dell’arte) e do processo como diretora e de criação do Barracão Teatro. Tiche também abordou de como um tema é suficiente para a constituição de uma dramaturgia que parte do encontro do corpo com o espaço e como a ação pode ser composta pelo diálogo entre movimento e pausa, som e silêncio. Para ela, o gesto na cena contemporânea tem seu lugar no espaço de encontro com o público.
Ésio, palhaço e ator, complementou falando que a máscara – e entenda-se também o nariz do palhaço como a menor de todas as máscaras – traz como técnica e ferramenta a cumplicidade com o público, puxa ele para dentro da cena, exige sua participação para comunicar. E falou da cena que se constrói a partir dessa relação, que exige do ator agir e reagir no presente, no instante em que a cena se faz.
Os próximos encontros acontecem nos dias 19 e 26 de setembro, sempre aos sábados, às 19 horas, na UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA. Antônio Januzelli e Henrique Schafer, da Universidade de São Paulo (USP) são os convidados do dia 19 de setembro e Ana Achcar, do Rio de Janeiro e Kil Abreu, de São Paulo falam com o público no dia 26.
PROGRAMAÇÃO
19 de setembro, sábado, às 19 horas
Antônio Januzelli e Henrique Schafer – Universidade de São Paulo/ SP
Como tocar aquele que vê? Com esse mote o diretor Antônio Januzelli e o ator Henrique Schafer falam sobre o trabalho para atingir a presença cênica através de uma escuta delicada e contínua da respiração, dos poros, dos músculos e dos órgãos.
Antonio Januzelli é ator, diretor, professor e pesquisador. Doutor em Teatro pela Universidade de São Paulo e coordenador do Lince – Laboratório do Ator do Departamento de Artes Cênicas, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e representante do Depto. de Artes Cênicas da ECA na AIEST – Asociación Iberoamericana de Escuelas Superiores de Teatro.
Henrique Schafer é graduado em Licenciatura em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo. Em São Paulo, há mais de 15 anos, coordena projetos pedagógicos de teatro em instituições diversas, inclusive como professor e diretor. Foi indicado em 2005 para o Prêmio Shell, como ator, por sua atuação no monólogo O Porco.
26 de setembro, sábado, às 19 horas
Ana Achcar – Rio de Janeiro/ RJ e Kil Abreu – São Paulo/ SP
Doutora em Teatro com tese que trata da formação do palhaço de hospital e professora de Interpretação da Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, onde ministra cursos de jogo da máscara e jogo do palhaço, Ana Achcar é também coordenadora do Programa Enfermaria do Riso, que forma estudantes de Teatro para atuarem como palhaços em hospitais.
No encontro, Ana aborda o exercício da relação entre riso e corpo na formação do ator/palhaço hoje. A ação, espaço e tempo, o objeto, a palavra, e como se constroem na perspectiva do jogo da máscara do palhaço e do lugar que o corpo do ator assume na experiência do risível e no deslocamento de limites da cena contemporânea.
Jornalista e crítico, Kil Abreu é pesquisador de teatro e pós-graduado em Artes pela Universidade de São Paulo (USP). Foi curador do Festival de Teatro de Curitiba, crítico do jornal Folha de São Paulo e Diretor do Departamento de Teatros da Secretaria Municipal de Cultura/SP. Atualmente compõe o júri do Prêmio Shell de São Paulo. No Ciclo , Kil aborda a especialização da mão de obra e os redimensionamentos que a criação artística está passando pautados no rigor dos meios expressivos.
Para Roteiro:
GESTUALIDADE NA CENA CONTEMPORÂNEA – Dias 5, 12, 19 e 26 de setembro, sábados, às 19 horas, no Espaço Décimo Primeiro andar da UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA. Direção Geral – Luís Igreja. Direção de Produção e Coordenação do Ciclo– Ana Carina. Convidados – Álvaro Assad, Tiche Vianna, Ésio Magalhães, Antonio Januzelli, Henrique Schafer, Ana Achcar e Kil Abreu. Duração – 90 minutos. Recomendável para maiores de 14 anos. GRÁTIS. Retirada de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria.
UNIDADE PROVISÓRIA SESC AVENIDA PAULISTA – Avenida Paulista, 119 – Estação Brigadeiro – Fone: (11) 3179-3700. Acesso para deficientes físicos. Bilheteria – De terça a sexta das 9 às 22 horas e sábados, domingos e feriados das 10 às 19 horas (ingressos à venda em todas as unidades do SESC). Capacidade do Espaço Décimo Primeiro Andar – 50 lugares. www.sescsp.org.br
Sutura
Até outubro de 2009 fica em cartaz no Oi Futuro do Rio de Janeiro a peça Sutura, texto do escocês Anthony Neilson, dirigido por Felipe Vidal e interpretado por Cristina Flores e Lucas Gouvêa.
Em princípio, a peça aborda o transtornado relacionamento de um casal jovem, com dificuldades de comunicação, problemas com o passado e dúvidas em relação ao futuro. Num teatro diferente, em que são duas as platéias, e que ficam uma de frente para a outra, podendo o palco ser um mero obstáculo para a comunicação entre os espectadores, os primeiros momentos são de expectativa, uma vez que o tema e o ambiente são incompatíveis: uma história batida num espaço novo.
No decorrer da peça, contudo, o tema ganha novos contornos, a começar pelo jogo temporal, que requer muita atenção e certa familiaridade com esse tipo de recurso, já que o vaivém abrange não só presente e passado, mas também um possível futuro.
A partir daí, o texto torna-se surpreendente e o palco (que na verdade são dois, já que uma cortina semitransparente o divide em duas metades) transfigura-se em parte essencial da peça. Tudo vai bem, então, rumo ao ponto alto do texto, que em muito se assemelha aos Contos de terror, mistério e morte, de Edgar Allan Poe.
Em determinado ponto, para mim o auge, momento em que há uma tensa discussão entre o casal, que culmina numa cena grotesca (que não é possível descrever!), um misto de choque, terror e contentamento tomam conta do teatro. Eis a hora mais indicada para o encerramento do texto. Como ficar melhor que isso, ou como manter tal nível de euforia perturbada que domina a platéia? Impossível! Se fosse um dos contos de terror, mistério e morte teria terminado por aí, com uma platéia de espectadores muito surpresos.
Mas… A peça continua e acaba voltando para a calmaria inicial, para a discussão do relacionamento amoroso e toda aquela história. De todo modo, quem gosta dos contos de Poe vai, seguramente, aproveitar a experiência, ainda que os enfraquecidos minutos finais causem certo desânimo.
Sutura
Texto: Anthony Neilson
Direção: Felipe Vidal
Elenco: Cristina Flores e Lucas Gouvea
Até outubro de 2009.
Teatro do OI Futuro
(Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo/RJ)
Por um fio
Assisti ontem, dia 23 de julho, no Teatro SESC Ginástico, a estréia no Rio de Janeiro de “Por um fio”, peça baseada no livro, com o mesmo título, do médico Drauzio Varella. Os atores Rodolfo Vaz e Regina Braga, esposa de Drauzio, narraram, como é explicado previamente na sinopse, onze das histórias contadas no livro pelo médico, com a direção de Moacir Chaves. (more…)
O Língua Solta
Apresentado sob forma de item através de livros didáticos do ensino médio, Bento Teixeira passa despercebido quando o assunto é literatura. Apontado por alguns estudiosos como o poeta que tentou copiar Os Lusíadas, sua obra, geralmente reduzida à poesia Prosopopéia, costuma ser desvalorizada sendo, portanto, apenas citada superficialmente nos livros escolares. (more…)
O Brasil na África, a África no Brasil
Há algum tempo, desde o ano passado pelo menos, venho observando que, tanto nos jornais e revistas quanto na televisão, muitas notícias sobre a África vêm sendo veiculadas. São artigos e reportagens que procuram ressaltar os laços que unem o Brasil ao continente africano, especificamente aos países africanos de língua portuguesa, e especialmente a Angola e Moçambique. E isso é ótimo porque contribui para a dissolução daquela terrível e antiga idéia de que a África é feita de elefantes, leões e tribos primitivas. (more…)
Cortiços
O Brasil foi muito bem representado no FESTLIP 2009 pela Cia de Teatro Luna Lunera (Brasil – Belo Horizonte). O espetáculo “Cortiços”, baseado na obra O Cortiço de Aluísio Azevedo, é uma ótima leitura feita pela Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro, com a direção do mesmo Tuca Pinheiro, responsável também pela maravilhosa trilha sonora. (more…)
O Homem Ideal
O espetáculo “O Homem Ideal” trazido ao FESTLIP 2009 pelo Grupo M’Bêu (Moçambique – Maputo), tem texto e direção de Evaristo Abreu e as atuações de Yolanda Fumo, Isabel Jorge e Eliot Alex. (more…)
Lindos Dias
A Cia Teatral Primeiros Sintomas (Portugal – Lisboa) trouxe para a segunda edição do FESTLIP, sob a direção de Bruno Bravo, “Lindos Dias” (Happy Days), um texto de Samuel Beckett reconhecido pela dificuldade de leitura teatral e foi isso mesmo que aconteceu: vimos a dificuldade da montagem desse texto. Aparentemente a Companhia caiu na própria armadilha. Uma pena. (more…)
Mar me quer
A Cia TIJAC (Moçambique, Maputo / Ilha da Reunião), está se apresentando no FESTLIP 2ª Edição com um texto do Mia Couto. O espetáculo chama-se “Mar me quer” e conta com a direção Mickael Fontaine e as ótimas interpretações de Branquinho Adelino, Graça Silva, Leonardo Nhavoto e Zango Candido Salomão. (more…)
Psycho
O espetáculo “Psycho“, em cartaz no FESTLIP 2009, é interpretado pelas atrizes Lucilene Mota e Milanka Vera Cruz, da Companhia de Teatro Solaris (Cabo Verde – Cidade de Mindelo). (more…)
Sobreviver em Tarrafal
Este ano, o Grupo de Teatro Horizonte Nzinga Bandi (Angola- Luanda), participa do FESTLIP com a peça “Sobreviver em Tarrafal“. Um texto de Antônio Jacinto, com direção de David Enoque Caracol e Adelino Caracol. (more…)
Por que você não disse que me amava?
Estreou no Rio, neste dia 5 de junho, a peça “Por que você não disse que me amava?”, texto de Vera Karam, com atuações de Cristina Pereira e Rafael Ponzi e direção de Paulo Betti.
Uma mesa, duas cadeiras, um pôster com a imagem dos noivos no casamento, galhos e troncos secos, assim como o relacionamento do casal que terá sua história contada – ou será a falta de história? – é o cenário que ambienta a peça. (more…)
De corpo presente
A Fagundes Produções Culturais apresentou nessa quarta-feira, 3 de junho de 2009, a peça De corpo presente, com texto e direção de Mara Carvallio e atuações de Cristina Prochaska, Blota Filho, Carlos Martin, Patricia Batitucci, Alexandra Martins, Murilo Salles e Mariana Bassoul (stand in) e da própria diretora. O espetáculo fica em cartaz até o dia 30 de agosto, no Teatro Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro.
Na ocasião da estréia, Cristina Prochaska foi substituída por Mara Carvallio, que por sua vez teve seu papel entregue a Mariana Bassoul… que, diga-se de passagem, foi o ponto alto da peça. (more…)
O sonho de uma noite de verão
A Cia do Giro apresenta até o próximo domingo, 10 de maio, no Teatro Nelson Rodrigues da Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, o espetáculo O sonho de uma noite de verão, montagem do clássico de Shakespeare, que conta as histórias que antecedem o casamento de Hipólita e Teseu, numa floresta de fadas e elfos.
Prometendo manter 90% do texto original, a Cia do Giro se supera. (more…)
Rock’n’roll
A peça “Rock’n'roll”, do premiado Tom Stoppard, começou uma nova temporada no Teatro Villa Lobos, no Rio de Janeiro, até 26 de julho. A montagem é dirigida por Felipe Vidal e Tato Consorti e no elenco estão Otávio Augusto, Thiago Fragoso, Gisele Fróes e Bianca Comparato, entre outros.
Nesse espetáculo temos o recurso do vídeo, apropriado e muito utilizado ultimamente, a combinação de sombras e a sobreposição de imagens. O cenário, de Sergio Marimba, é muito prático, mas não muito atraente. As cenas são intercaladas pelos vídeos e ganham muito com a iluminação de Tomás Ribas. (more…)
Clownssicos
“Clownssicos”, em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues até 3 de maio, é um espetáculo da Cia do Giro e tem a direção e roteiro de Daniela Carmona. São seis atores em cena, num cenário simples, mas funcional, composto basicamente por três cortinas e dois painéis. Várias peças de roupas, uma sobre as outras, compõem o figurino e, claro, narizes de palhaço. (more…)
Sempre Vale a Pena
Cada vez que vou ao teatro me dou conta do infinito número de atores e atrizes que procura mostrar seu talento pelos palcos da cidade. São milhares de peças simultaneamente em cartaz no Rio de Janeiro, compostas por artistas que, na maior parte das vezes, ainda não conheço. Quero dizer que poucas vezes conheço o trabalho anterior desses artistas. O que não é mau… Para tudo há uma primeira vez, e o bom da primeira vez é que as comparações perdem espaço para a neutralidade, para a imparcialidade. (more…)
Cidades Furtivas
O Centro LABAN-Rio e a Casa da Glória apresentaram nos dias 03 e 04 de abril de 2009 o Ateliê Coreográfico no espetáculo Cidades Furtivas, uma idealização de Regina Miranda, que conta com a direção da mesma e com a colaboração de Adriana Bonfatti, Ana Bevilaqua, Camila Fersi, Elisabete Reis, Lourival Prudêncio e Marina Salomon para a realização do projeto. (more…)
O filho da mãe
Uma peça que trata do relacionamento entre uma mãe divorciada e seu filho, que aborda a influência da figura materna no processo de transição da adolescência para a fase adulta, pode enveredar por vários caminhos, isto é certo. Mas se o gênero eleito para a representação for a comédia, o cuidado deve ser redobrado. (more…)
Maria Stuart
Texto de Friedrich Schiller, tradução de Manuel Bandeira e direção de Antonio Gilberto, a peça Maria Stuart fica em cartaz no teatro do CCBB do Rio de Janeiro até 17 de maio de 2009. Com Clarice Niskier como Rainha Elizabeth I e Julia Lemmertz como Maria Stuart, a montagem inspirada no drama de Schiller, explora o embate dramático entre as duas rainhas, denuncia a corrupção moral e ressalta os valores de uma época. Finalizada em 1800, a peça, que tem como substrato a rivalidade entre a igreja católica e o protestantismo, traz à tona a forte ligação entre Estado e Igreja, as relações de poder aí inseridas e os conflitos provocados pela sede de poder.
Durante os 15 minutos de intervalo (o espetáculo tem 3 horas de duração), inevitavelmente, pude ouvir muitas opiniões ao meu redor. Houve quem questionasse o figurino. Houve quem dissesse “xii, tá tudo errado”. Houve ainda quem pensasse que o texto perdia muito com a linguagem rebuscada. (more…)
Óidipous, filho de Laios – A história de Édipo Rei pelo avesso
Muitas vezes, um texto insosso vira um espetáculo quando encenado. Outras vezes, o contrário acontece.
Quem não conhece a história do Rei Édipo, por exemplo? Não digo que seja popular, mas uma vez ou outra na vida alguém já fez referência ao complexo de Édipo, seja na faculdade, seja na mesa do bar. Afinal, trata-se de uma história intrigante, que inspira reflexões sobre a natureza e as relações humanas. Dentre as sensações despertadas por esse texto figuram a ojeriza, decorrente da possibilidade de relacionamento sexual entre pai e filho; a identificação por parte de alguns, nunca se sabe; mas, principalmente, a sensação de que não se pode controlar tudo nessa vida. Basta o menor dos imprevistos para que o controle que o homem pensa ter sobre si vá por água abaixo. (more…)
O Santo e a Porca
Que a cultura brasileira é bastante diversificada, todos sabemos. São costumes da região sul que diferem dos da região nordeste. Tradições nortistas pouco conhecidas no sudeste. E por aí vai… Mas o que há de comum a todas essas regiões culturais do Brasil é a língua. Todos falamos português e conseguimos nos entender muito bem!
Aí entra, então, a aplicação dessa língua. São vários os tipos de linguagem e inúmeros os meios de comunicação. Assim, o norte se aproxima do sul, o sudeste do nordeste e do centro-oeste. Mesmo sem nunca ter estado no sertão nordestino, conheço o clima, as dificuldades, as pessoas, os costumes. Graças aos jornais, à literatura, ao teatro, ao cinema, já estive lá sem nunca ter saído de casa.
Meu Caro Amigo
Não é preciso estar morto para ser homenageado.
Partindo deste princípio, Felipe Barenco, responsável pelo texto do musical Meu Caro Amigo e, diga-se de passagem, estreante na profissão (e muito talentoso), presenteia o público do Rio de Janeiro com um clima nostálgico e emocionante que pode ser sentido até por objetos inanimados. (more…)
Cabaret Melinda
As terças-feiras do mês de janeiro poderão ser mais divertidas para aqueles que comparecerem ao Canequinho Café, em Botafogo, espaço tipo cool anexo ao Canecão, que abriga em seu palco o musical Cabaret Melinda. Após elogiada temporada em 2008, o espetáculo dirigido e adaptado pela Azilíaca Cia. de Arte reestreou ontem, 13 de janeiro de 2009, e garantiu uma noite diferente e animada para o público carioca. (more…)
Renato Russo, o musical
Está em cartaz no Teatro Miguel Falabella, no Norte Shopping, até 1º de março, o musical Renato Russo. Se eu não me engano, essa peça estreou aqui no Rio em 2006, entrou em turnê nacional e tem sido um grande sucesso desde então. Bom que tenha vindo para a Zona Norte do Rio. É uma ótima oportunidade para quem está procurando momentos de entretenimento com qualidade.
O musical-monólogo, que tem direção de Mauro Mendonça Filho – prêmio Shell de Melhor Direção -, é uma adaptação do livro Renato Russo, o trovador solitário, do jornalista Arthur Dapieve, feita por Daniela Pereira de Carvalho.
A interpretação fica por conta do ator Bruce Gomlevsky, que tem uma impressionante presença de palco, atua e canta muitíssimo bem. Acompanhado da banda Arte Profana, Bruce executa ao vivo as belas canções de Renato Russo e nos faz relembrar, com um bom texto, os momentos marcantes da trajetória artística e pessoal do cantor.
A figura marcante de Renato é habilmente recomposta pelo ator. Para mim, que não tive a sorte de assistir a um show da Legião Urbana, foi um ótimo momento. Só as músicas já valeriam a pena, mas somadas àquela bela atuação resultou num espetáculo absolutamente perfeito.
O cenário retrata o palco de um show e em segundo plano vemos uma espécie de estúdio onde fica a banda ou são projetas imagens diversas que ajudam a compor as cenas. Isso somado a um excelente jogo de luzes.
Tudo é muito articulado. Um show começa, mas um problema no som impede seu andamento, fazendo Renato tomar a iniciativa de entreter o público falando da sua vida. Seus gostos, suas preocupações, seus sonhos, são narrados e intercalados com as músicas. E nada melhor do que a letra de suas músicas para demonstrar suas inquietações.
Várias fases da sua vida são encenadas. A fase da adolescência em que conviveu com uma rara doença óssea, a epifisiólise, que o manteve preso à cadeira de rodas. O álbum dos Beatles que mudou sua vida – aliás, ele teve ótimos ídolos que o inspiraram e seu gosto literário é impressionante. A fase mais metaleira que viveu em Brasília. A escolha do nome da primeira banda – Aborto Elétrico. As drogas. A rebeldia adolescente. Sua sexualidade. Seus problemas com a bebida. O fim do Aborto Elétrico, por ser um músico incompreendido. A opção de seguir carreira solo. A escolha de seu nome artístico. O momento em que sentiu falta de uma banda. E a partir daí já sabemos o resultado: o início da Legião Urbana.
A convivência com o sucesso, a solidão, a falta de um amor, sua posição política, o problema num show que o leva a perceber a vontade de sair do país, a viagem a Nova York, o encontro de um grande amor, as drogas injetáveis, o Renato apaixonado que canta em italiano, a volta ao Brasil. O episódio em que assume a paternidade de Juliano, após a morte da mãe do bebê, que despertou também sua vontade de assumir publicamente a homossexualidade. Sua relação com os pais, a ida para o hospital, a descoberta da doença que o levou a morte e, por tratar-se de uma doença terminal, o tempo que teve para se despedir. Mas essa despedida não é dramática, é poética. Tudo muito bem realizado.
Enfim, muitas fases foram representadas. As letras das músicas se encaixaram perfeitamente no texto. Foram seu complemento e direção também. Renato Russo fez dos momentos de dor inspiração para belas músicas e de suas preocupações conteúdo para outras tantas. Uma pena que não esteja mais por aqui. Ele poderia não resolver nossos problemas, mas com certeza continuaria a fazer ótimas músicas sobre a nossa caótica situação.
Não posso deixar de comentar também a participação da platéia em vários momentos. É uma peça convidativa, todos ficam à vontade para participar, cantar, bater palmas. Muito bom mesmo.
Trata-se simplesmente de uma peça impecável que vale a pena ser assistida.
Texto: Daniela Pereira de Carvalho
Direção: Mauro Mendonça Filho
Encenação: Bruce Gomlevsky
Direção musical: Marcelo Afonso Neves
Participação: Banda Arte Profana
Teatro Miguel Falabella – Norte Shopping
Av. Dom Helder Câmara, 5332 – loja 3805
De quinta à sábado às 21h e domingos às 20h
Tel: 2595-8245 / 2597-4452
Hotel Lancaster
Está em cartaz, até 27 de novembro, na Sala Multiuso do Espaço Sesc, em Copacabana, Hotel Lancaster, que não é apenas uma peça sobre drogas, usuários e traficantes, mas um texto sobre o drama dos dependentes químicos, capazes de tudo para sustentar seus vícios, de quem lucra com esse vício e sobre as relações humanas, tão modificadas por esse drama. (more…)
Os Estonianos
A Cia. Casa de Jorge, formada por Ana Kutner, Julia Spadaccini e Jorge Caetano, estréia seu segundo espetáculo, Os Estonianos, no Teatro de Arena do Espaço SESC, em Copacabana, e fica em cartaz até nove de novembro. O texto é de Julia Spadaccini e a direção de Jorge Caetano. No elenco estão Ana Kutner (Marília), Jorge Caetano (Pedro), Thais Tedesco (Lívia), Pedro Henrique Monteiro (Fred) e Ana Baird (Suely). (more…)
Cordélia Brasil
A peça ‘Cordélia Brasil’ (re)estreou ontem no Espaço SESC Arena, em Copacabana, onde ficará em cartaz até 12 de outubro. Trata-se de um texto de Antônio Bivar, escrito no final dos anos 1960. Essa montagem tem a direção de Gilberto Gawronski e o elenco é composto por Maria Padilha, Cadu Fávero e George Sauma. (more…)
Contando Machado de Assis
O título já diz: “contando”. Sou muito suspeita para falar de contação de histórias porque guardo péssimas lembranças dessa modalidade narrativa. Contação de história para crianças, por exemplo, normalmente é feita de forma bem afetada, até mesmo pra chamar a atenção dos pequenos ouvintes, que se desconcentram por qualquer motivo. Toda a afetação me tira do sério… E aposto como o contador fica tão preocupado em fazer caras e caretas e modalizar a voz que nem presta atenção no que está falando. Por outro lado, descartando-se essa maneira efusiva de se contar a história, podemos cair na monotonia. Um perigo também. (more…)
Ele Precisa Começar
Assisti a estréia de ‘Ele Precisa Começar’, com o ator Felipe Rocha, que está começando como autor e dividindo a direção com Alex Cassal. Já vi alguns espetáculos na sala Multiuso do Espaço SESC, mas nunca a tinha visto tão bem aproveitada. Dividiram a platéia em quatro blocos de cadeiras, sendo que a segunda fileira foi posta em um tablado possibilitando uma visibilidade perfeita de qualquer lugar escolhido. O cenário foi composto de forma que algumas cadeiras da platéia ficassem dispostas entre os objetos cenográficos. O ambiente é basicamente formado por mesinhas, abajures, luminárias que pediam do teto, uma secretária com um laptop, peças de roupas pelo chão e várias xícaras de café espalhadas. O som – a trilha sonora é do próprio Felipe – e as luzes – a iluminação é de Tomas Ribas – são controlados pelo ator enquanto encena. Tudo bem articulando já insinuando o tom da peça. (more…)
A Soma de Nós
A Soma de Nós, em cartaz até cinco de outubro no Teatro Vannucci, é uma adaptação, feita por Flávio Marinho, do texto “The sum of us“, do autor australiano David Stevens.
Num cenário que imita uma casa antiga precisando de reformas é representada a história que gira em torno da personagem Henrique. Viúvo desde que o filho era pequeno, Henrique é um pai amoroso e compreensivo, que tem prazer em dividir o lar com seu filho, Jeff, um jovem assumidamente gay. O dia-a-dia de pai e filho é retratado com a máxima normalidade, é uma rotina comum. O pai logo no início nos explica que o filho é gay, os dois aceitaram isso de forma natural e continuaram vivendo juntos, que seria puro preconceito se agisse de outra forma, pois Jeff é um ótimo rapaz, trabalhador e seu melhor amigo. O diálogo entre os dois é inacreditavelmente aberto. Falam de tudo. Como amigos da mesma idade. Não há cobranças, não há barreiras. São confidentes um do outro.
TPM – Terapia Para Mulheres
Está em cartaz até 2 de novembro, no Teatro Cândido Mendes, a nova comédia da Palco Cia de Teatro, “TPM – Terapia Para Mulheres”, que faz parte da trilogia de Paula Giannini, junto com as peças “Casal TPM”, em cartaz em São Paulo, e “Tratamento para Machos”, ainda inédito. (more…)
Ensina-me a viver
Essa adaptação do texto de Colin Higgins não tinha como dar errado. Texto bom, equipe boa: peça boa. Glória Menezes dispensa comentários. E não concordo que seja um texto sobre uma história de amor improvável. Qualquer um se apaixonaria por Maude. Improvável é ver algo provável ser tão bem explorado. O bom é ver uma montagem com qualidade, que, além do esperado, ainda arruma tempo para surpreender.
Aquarelas do Ary
Está em cartaz no teatro Maison de France o musical Aquarelas do Ary, sobre a vida e obra de Ary Barroso. O texto de Marcos França, com direção de Joana Lebreiro, é estrelado pelo próprio Marcos, pela graciosa Claudia Ventura e por Alexandre Dantas.
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As centenárias
Humor de qualidade! Essa é uma das formas como posso definir a peça “As centenárias”, representada pelas simpaticíssimas e maravilhosas Andréa Beltrão e Marieta Severo, com direção de Aderbal Freire-Filho. O texto, de Newton Moreno, escrito especialmente para a dupla, além de muito bem bolado é mesmo uma celebração da amizade que as duas mantêm desde finais dos anos 80.
Marieta e Andréa são Socorro e Zaninha, duas carpideiras que levam a vida a prantear os mortos e a contar histórias no interior do nordeste. Amigas de longa data, as mulheres, entre histórias e cantorias (as “incelenças”, cantos fúnebres das carpideiras), acabam por enganar a Morte, representada por Sávio Moll, adiando o inevitável.
A peça conta com uma narrativa não-linear, que volta ao passado e retorna ao presente constantemente. Mas tudo acontece de forma muito clara, de modo que é possível compreender o jogo temporal bastando o mínimo de atenção. Diferentemente do cinema, que conta com mil recursos para marcar o tempo, o teatro depende de pequenos detalhes, como, por exemplo, a suave tremedeira de Andréa Beltrão, que em determinados momentos marca a velhice da personagem em contraponto com a não-tremedeira, que aponta para uma idade menos avançada, quando a personagem acaba de dar à luz um menino.
O cenário é como um picadeiro de circo, tendo como peça central um caixão. As atrizes, além de interpretarem as carpideiras, utilizam-se de marionetes, ou seja, por vezes Marieta interpreta paralelamente Lampião e Socorro, através de um fantoche com a cara da personagem. Diz o diretor: “O duelo com a morte é um clássico da cultura popular, muitas vezes cantado na literatura de cordel. Daí até as feiras é um passo. E das feiras ao circo. Fazendo esse percurso naturalmente entramos na tradição popular da paródia, da bufonaria, do palhaço. Enfim, do riso que não se intimida mesmo com a morte”.
Assistir Marieta Severo e Andréa Beltrão no teatro foi umas das melhores experiências que já tive. Acostumadas a vê-las apenas em novelas ou no cinema, nunca tive acesso ao verdadeiro potencial das duas. E como se dão bem no palco… Incrível! Além de atuações fantásticas, cantam bem! Afinadíssimas! E o sotaque de nordestina da Andréa Beltrão é de fazer até defunto rir. É o tipo de atuação que não precisa de piada para ser engraçada. As duas, caladas, paradas, no meio do picadeiro já são uma comédia.
Tudo contribui para o sucesso do espetáculo. As atuações, o cenário, o figurino e até mesmo a disposição das cadeiras do teatro. É como uma semi-arena, o que faz com que todos os lugares sejam bons! Isso é um ponto essencial para quem assiste. A menos que se sente um armário ou um poste na cadeira da frente, tudo é muito confortável. A sensação é de que se está em casa, assistindo a duas amigas brincando de teatro, tamanha é a naturalidade da dupla.
A peça está em cartaz no Teatro Poeira, espaço das sócias Marieta Severo e Andréa Beltrão, inaugurado há três anos num casarão tombado, na Rua São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. No site do teatro (www.teatropoeira.com.br) é possível acompanhar toda a história da casa de espetáculos, desde a idéia de ter um espaço reservado para as artes, passando pelas obras que o casarão sofreu, até as peças que já passaram por lá.
“As centenárias”
Com Marieta Severo, Andréa Beltrão e Sávio Moll
Direção: Aderbal Freire-Filho
Horários: sextas e sábados às 21 horas e domingos às 20 horas
Duração: 1h30
Local: Teatro Poeira
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Tel: 21 2537-8053
Sonhos de uma noite de São João
O espetáculo, a céu aberto, Sonhos de uma noite de São João, inspirado na peça Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare, foi uma boa surpresa. Adaptado e dirigido por Anderson Cunha, e com supervisão de Paulo Betti, a peça simplesmente pegou a essência da história de Shakespeare e a transportou para a nossa cultura das Festas Juninas – nisso incluo todas as festinhas caipiras, julhinas, agostinas etc. Sabe aquela historinha interpretada numa boa quadrilha junina? Só que, desta vez, foi uma história baseada na de William que foi encenada. Simples, mas inacreditavelmente bem feito. (more…)
Cine-Teatro Limite
Assisti, no Teatro Glória, à comédia Cine-Teatro Limite, de Pedro Brício. A história é ambientada no ano de 1944, portanto, durante a Segunda Guerra Mundial, na cidade do Rio de Janeiro. A peça começa, com as cortinas ainda cerradas, com a fala de uma espécie de narrador ou apresentador. Ele se apresenta e diz que é o protagonista de sua própria história. E, a partir, de um questionamento – “O que acontece com nossas memórias quando a gente morre?” – inicia-se o desenrolar da trama.
O que eu gostaria de dizer
Fui ao ensaio aberto do espetáculo “O que eu gostaria de dizer”, dirigido por Márcio Abreu e com Luis Melo, Bianca Ramoneda e Márcio Vito no elenco. Por se tratar de um ensaio, poderia haver interrupções por qualquer motivo, principalmente para a adaptação dos movimentos dos atores num espaço diferente, como é o caso do Sesc Arena, em Copacabana.
Contudo, não houve interrupções, de modo que a peça fluiu normalmente, com o cenário, acredito eu, pronto, assim como o figurino, sonoplastia e iluminação. Tudo, aparentemente, correu como num dia normal de apresentação. Bom para os atores, melhor pra mim e para os demais expectadores, que não eram muitos, mas considerando-se a ocasião, era de bom tamanho.
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As Filhas De Nora
O grupo moçambicano Mutumbela Gogo trouxe ao Festlip o espetáculo As Filhas da Nora, uma adaptação do texto “Casa de Bonecas”, do norueguês Henrik Ibsen, feita pelo sueco Henning Mankell – “que faz uma leitura a partir da experiência moçambicana. No texto original, a protagonista Nora abandona o marido e suas três filhas ao descobrir que sempre fora tratada como uma boneca, e não como uma mulher. É um escândalo para a sociedade. A versão de Mutumbela Gogo trata das filhas que foram deixadas pela mãe. O que terá acontecido com elas? A partir desta questão, são debatidas as contradições e relações de afeto entre os indivíduos.”
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Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada
O grupo Etu-Lene apresentou-se no Festlip com o espetáculo “Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada”, no Espaço Sesc Sala Multiuso – apenas com um pano branco ao fundo compondo o cenário. Trata-se da história de um ancião que persuadiu seu filho, Caetano, a não se casar com Celina, e sim com Madó, uma menina que lhe parece a nora ideal, porque o trata muito bem. Katy-Ngotè investiu tudo na formação do único filho e, como uma espécie de gratidão por esse ato, se vê no direito de interferir na vida afetiva de Caetano – “Me orgulha ter um filho que toma as decisões conforme a minha vontade”.
Caetano mantém um relacionamento com as duas moças concomitantemente e seu pai acompanha os romances de perto, faz interferências, comentários – como quando Celina vira as costas e ele a insulta de várias formas. É gentil em sua presença, mas na ausência é bem crítico. Dando, com isso, um tom cômico à peça.
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Capitu Memória Editada
Escrita e dirigida por Edson Bueno, a peça Capitu Memória Editada esteve em cartaz nos dias 6 e 14 de junho de 2008 no Espaço Sesc Arena, em Copacabana. Representada por um grupo de cinco artistas paranaenses, entre eles o próprio diretor do espetáculo, e a convite do evento cultural FESTLIP – Festival do Teatro da Língua Portuguesa, a peça, como o título já sugere, aborda a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Num ano de comemoração dos 100 anos da morte de Machado, muitos eventos culturais vêm sido promovidos pela cidade. Este espetáculo, coincidência ou não, veio visitar o Rio de Janeiro em uma data bastante representativa para a literatura nacional.
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Mulheres com H maiúsculo
Na Sala Multiuso do Espaço SESC, o grupo de teatro moçambicano Gungu, apresentou o espetáculo Mulheres com H maiúsculo, que se propõe a abordar a discussão dos papéis do homem e da mulher na sociedade.
Realmente trata-se um espaço multiuso. No início, senti falta do palco, ou, pelo menos um tablado removível. Para ter a certeza que se tratava apenas de uma primeira impressão, não quis me sentar na primeira fileira de cadeiras. Quis ter a real noção de que a ausência de um palco não seria um problema para uma humilde espectadora de 1,63 cm de altura. Não foi. Umas chegadinhas para os lados deram conta desse problema de visualização e a sala se revelou um ótimo espaço.
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Luto Clandestino
A peça Luto Clandestino, de Jacinto Lucas Pires, representada no calçadão de Copacabana pelo grupo português O Bando, é uma experiência teatral inesquecível.
Adquirimos os ingressos na bilheteria do SESC da Domingos Ferreira e nos juntamos ao grupo da Festlip, reunido na calçada, junto aos prédios, entre a Santa Clara e a Figueiredo Magalhães. Trocamos nossos documentos de identidade por MP3 Playeres e começamos a entender como iremos participar do espetáculo.
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A hora do arco-íris
Tive o prazer de assistir à peça “A hora do arco-íris”, do Grupo português Teatro da Garagem, no Sesc Arena. Embora sinônimas, acredito que a palavra “espetáculo”, em vez de peça teatral, seja mais adequada ao que pude presenciar essa noite.
O Teatro Garagem que define seu trabalho como de “pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para o teatro e de novas formas cênicas que a acompanham”, tem como diretor artístico Carlos J. Pessoa e, nesse espetáculo, conta com texto do próprio, direção de produção e interpretação por Maria João Vicente, e um elenco composto por uma atriz, Ana Palma, que iniciou seu trabalho no grupo em 2001.
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O doido e a morte
Infelizmente não conheço esse texto de Raul Brandão, mas, pelo menos, posso afirmar que a peça cumpre o que propõe na sinopse: “o texto trata de dois personagens: um político poderoso e um homem que adentra seu gabinete com uma bomba de grande impacto embaixo do braço. Uma representação da revolta de um indivíduo perante a crueldade, a incongruência e a degradação do mundo moderno.”
Diante de um cenário simples, mas que ganha vida com o jogo de luzes, uma platéia bem agitada, composta por vários adolescentes, acredito que em excursão escolar, assistiu a segunda apresentação, no Festlip, do espetáculo O doido e a morte, no confortável, e desta vez barulhento, Teatro SESC Ginástico.
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Côncavo e Convexo
Representada por um casal do grupo teatral angolano Henrique Artes, a peça Côncavo e Convexo emociona. São 50 minutos que comovem. Impossível não partilhar do drama das personagens e da cidade de Luanda.
De forma surpreendente o texto aborda a situação política, econômica e social da capital de Angola. Como nos revela a sinopse, trata-se de “uma obra recheada de drama, pois, a reflexão e a nota dominante do espetáculo é a utilização de signos através de velas, latas vazias de cervejas, baldes coloridos, mobílias velhas e cansadas. Os signos estão à espera do público que se propõe a ser a vítima desse espetáculo.” Boa sinopse, pois sabemos exatamente o que nos espera: seremos vítima de um drama. Quem passou os olhos nela, não entrou desavisado.
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Dom Quixote das Ilhas & Duas Sem Três
No Espaço SESC Arena, assisti duas performances consecutivas do dramaturgo e músico caboverdiano Mário Lúcio Sousa, executadas por integrantes da Companhia de Teatro e Dança Contemporânea Raiz di Polon, também de Cabo Verde.
A peça Dom Quixote das Ilhas se propõe a uma leitura do original de Miguel de Cervantes sob uma perspectiva regional. O Dom Quixote em questão surge, com muito barulho, da sucata de uma espécie de carrinho de algum brinquedo de parque de diversão. Ao bater na lataria ele parece estar rompendo a casca de um ovo e nascer diante a platéia, ou despertar de um sono que só vai embora após a lavagem do rosto.
Unindo balé, uma dança bem expressiva, uma sonoplastia chamativa, um belo jogo de luzes e música, o bailarino move-se pela arena, rasga textos que se encontram espalhados pelo chão e cobre as costas com um livro, agasalhando-se com a palavra, elemento que ganha destaque no espetáculo. (more…)
Copi
Três peças de Copi (Buenos Aires, 1939 – Paris, 1987), recentemente traduzidas na coleção Dramaturgias, da editora 7Letras, trazem para o público brasileiro uma excelente amostra do teatro desse desenhista, escritor, dramaturgo, desde 1962 exilado na França. Eva Perón (1969), Loretta Strong (1974) e A geladeira (1983). As datas são importantes, pois destacam a preocupação das organizadoras e tradutoras em permitir uma panorâmica na produção de Copi, selecionando um texto por década de produção do argentino.
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Cia. Étnica de Dança
A Cia. Étnica de Dança é uma das mais importantes companhias de dança do Brasil. Sob a batuta da coreógrafa Carmem Luz, apresenta no SESC Copacabana o espetáculo “Danças do Coração”.
O espetáculo em si não é simples, e isso é refletido na estrutura: além da coreógrafa, outras doze pessoas na equipe de pesquisa e criação de movimento. Onze bailarinos. Mais doze pessoas entre construção e criação do cenário, figurino e dos objetos utilizados.
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O Jardim das Cerejeiras
O Teatro do Planetário tem uma disposição fantástica. Não aquela coisa tradicional de platéia e palco. É um teatro semi-arena, onde a platéia faz um semicírculo, rodeando o palco. Isso devia ser modelo também para salas de concerto, tipo o La Roque d’Anthéron.
Desde o início fiquei fascinado pela disposição dos tapetes e dos bancos. Os tapetes eram de dois tipos: doze tapetes orientais de comprimentos variados e seis pequenos tapetes de grama sintética (que qualquer um juraria ser natural), dispostos em formato retangular. Os tapetes de grama sintética cobriam as pequenas áreas vazias entre os tapetes orientais, que não se encaixavam perfeitamente, mas de forma tão harmoniosa e simples que do conjunto emanava uma beleza exótica. Os quatro bancos estavam, e como eu gostei disso, dispostos simetricamente, de forma que dois bancos lado a lado compunham, aproximadamente, as arestas maiores do retângulo. A simplicidade do cenário e todo esse senso de organização me transmitiram uma sensação agradabilíssima de calma e segurança, um clima quase familiar. Aquela sensação de “quentinho” e de conforto, um ambiente aconchegante ao olhar, como se o cenário se estendesse até a platéia, e nós também fizéssemos parte do cenário. (more…)
Mire Veja
A Companhia do Feijão reencenou o espetáculo Mire Veja, baseado no livro Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato. Quis ver o espetáculo porque o livro de Ruffato já me atrai por isso mesmo: uma transposição de semiologias, uma ida – perfeita – de um código lingüístico a outro.
Falo de Jackson Pollock.
Pintava com as telas, grandes, no chão. Jogava as tintas. As tintas caíam sobre a tela e sobre tudo mais em volta. Ele retirava as telas do chão. Pronto. Era aquilo o que ele separava para nos mostrar. No chão, o vazio onde antes estava a tela. A pintura não organizada dentro de seus quatro limites, os quatro lados de um quadro. A pintura como uma fatia de bolo que se retira de um conjunto muito maior. Eles eram muitos cavalos é uma fatia de São Paulo. Você não tem personagens ou situações ou cenários limitados pelo começo e fim de um fio narrativo, por mais fragmentado que seja. Não. Você tem uma fatia. O que te é oferecido é um pedaço. Há muito mais que não te é oferecido, que você, querendo, terá de catar. A pé ou com a cabeça. (more…)
Lorca
Era uma época de grandes coisas, essa. Grandes guerras, grandes frases. E eu já vi mesmo declamarem Lorca com grandes gestos, o peito estufado, o olhar em um ponto qualquer acima da cabeça de todos nós, quando então o verde que te quero verde adquiria envergonhados tons de azul infinito.
O bom do Zé Mauro é que ele é baixinho, gordinho e fala Lorca olhando nos olhos de todos nós e da maneira como falaria a respeito de como foi seu encontro com um mendigo da rua.
E é isso, Lorca.
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Entropia
Teatro é pacto, é jogo. Ao sair de casa para assistir Entropia (no CCBB, até dia 16 de março), não esqueça esse preceito básico. O diretor Marcelo Mello concebeu com seu elenco exatamente isso: um jogo cerebral intenso e ágil, que convida sua platéia a manter-se presente, ativa, para acompanhar o raciocínio rápido e a ironia fina do texto de Rodrigo Nogueira. As palavras como moléculas que se agitam e se chocam, subindo a temperatura, liberando calor e energia. (more…)
Havana Café
“Nós, filhos da era da mercadoria lidamos com as coisas na condição de produtor ou na de consumidor, e em geral somos irresistivelmente mais propensos ao processo de consumo. – Bertolt Brecht”
Foi uma ousadia do Marcelo de Alvarenga me convidar para Havana Café, considerando que ele sabia de antemão que detestei todas as montagens brasileiras de musicais que vi até hoje. Mentira, não queria parecer chata, mas a verdade é que detesto musicais. Ponto. Mesmo sabendo disso, o confiante pianista insistiu. Fui. Vi. Amei.
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Comédia em pé
O gênero stand-up comedy dos americanos se apóia em uma situação muito simples: quanto pior a sociedade, mais papéis o indivíduo tem de desempenhar para viver dentro dela. Desmascarar esses papéis nos faz rir. Rimos quando somos pegos. Tem a ver com constrangimento (nós) ou desfaçatez (as fotos dos jornais).
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