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Tag Archives: música

Recentemente, a New Yorker publicou uma lista bastante boa de discos fundamentais do jazz. Sua pretensão de abrangência, porém, é apenas isso: uma pretensão. Dos 100 discos listados ali, apenas oito foram gravados depois da década de 1970. Pareceria mais razoável, assim, constar da introdução da lista que se trata de um bom guia para quem quer conhecer um pouco mais do mundo do jazz e da forma como ele se desenvolveu nos dois primeiros terços do século passado. Mas não: o objetivo é “prover uma ampla amostra de clássicos e maravilhas do jazz ao longo de um século de história desta música”. Ou este século tem setenta anos, ou a conta não fecha.

Ocorre que a lista reflete uma concepção muito comum: a de que o jazz teve seu ápice na década de 50 e, desde então, só não acabou por conta de alguns poucos que insisitiram em manter a chama da tradição viva. O que há de problemático com esta concepção? Nada, se ela refletir apenas um gosto pessoal: dar preferência à música que foi produzida num determinado período e não em outro é não apenas previsível como totalmente esperado: afinal, é impossível gostar de tudo em igual medida. Então, nada contra quem prefere o jazz dos anos 50 e 60 – preferências são inevitáveis e bem-vindas. Seria bom, apenas, que fossem explicitadas.

Esta ideia de um “jazz-de-museu” torna-se problemática quando se impõe como a versão mais poderosa e difundida (vide o impacto cultural e político de Wynton Marsalis, Jazz at Lincoln Center, Ken Burns, etc.) da história – este é o meu período preferido, logo os demais não têm grande relevância. Wynton Marsalis já é o grande embaixador mundial do jazz, e seria de se esperar que a New Yorker não precisasse reforçar, uma vez mais, esta versão da história. Porque sim, é possível ver o jazz como, digamos, o jornalismo impresso – alguma coisa cujo auge definitivamente já passou.

Mas é também perfeitamente possível – e, na minha experiência, bem mais divertido – vê-lo como uma música viva e permanentemente em movimento, onde as tradições são condensadas, revistas e superadas na interação segundo-a-segundo entre músicos dedicados à improvisação. E, quando se assume este segundo ponto de vista, os ouvidos se abrem para coisas que, goste-se delas ou não, aconteceram nos últimos quarenta anos.

Eis algumas das ausências marcantes da lista da New Yorker, a maioria das quais certamente constaria de uma lista informada por pressupostos semelhantes aos delineados acima:

John Scofield, Pat Metheny e Bill Frisell. Sucessores de Wes Montgomery e Jim Hall, é impossível não ouvir ecos de pelo menos um dos três nos principais guitarristas de hoje em dia. Nenhum aparece na lista – nem muito menos qualquer guitarrista posterior a eles.

Weather Report. Os anos 80 caracterizaram-se pela ascendência de Wynton Marsalis – e também, em igual medida, do Weather Report.

Jaco Pastorius. Quantos baixistas discordariam de que a história do baixo elétrico divide-se em AJ e PJ (Antes de Jaco / Pós-Jaco)?

Michael Brecker. Talvez o saxofonista mais influente dentro e fora do jazz (com várias participações em discos de música pop) a surgir nos últimos quarenta anos. Mas neste campo, pelo menos, a lista teve o mérito de incluir Joshua Redman, mostrando que há vida pós-Coltrane.

Brad Mehldau. Se no caso dos saxofonistas há a acertada presença de Joshua Redman, aqui nem isso. Na categoria pianistas, encontramos Bill Charlap – que é excelente músico, mas cuja influência sobre os próprios pianistas de jazz não se compara à exercida por Mehldau.

- Por fim e acima de tudo: Herbie Hancock. Uma lista de dez grandes discos do jazz que não incluísse Herbie Hancock já despertaria suspeita. Sua ausência numa lista de cem é absolutamente incompreensível.

Felizmente, o jazz é demasiado vibrante e rico para caber numa lista de dez, cem ou mil discos. Só não custa lembrar de vez em quando que uma lista diferente – em que 92 dos 100 discos tivessem sido gravados de 1970 para cá, por exemplo – é possível. E, por que não – desejável.

A sinfonia Nº2 de Rachmaninov (Op.27) é uma obra maravilhosa, enorme, densa, amplamente reconhecida como uma das peças mais queridas do repertório pós-romântico e romântico tardio. Foi composta em Dresden entre 1906 e 1907 e é contemporânea da Sonata Nº1(Op.28) e do poema sinfônico “A Ilha dos Mortos (Op.29)”. O que viria a seguir seria nada menos que o Concerto Nº3 em ré menor (Op.30).

Desde a primeira vez que ouvi a dita sinfonia imaginei, na minha fantasia, um arranjo que a transformasse em concerto para piano e orquestra. Não acontece o tempo todo, mas existem momentos como a construção do clímax do segundo movimento e a coda do quarto, para citar poucos, que são extremamente pianísticos. É um senso adquirido, mas, conhecendo a obra do compositor é quase natural imaginar como soariam essas passagens se ele tivesse escrito para piano e orquestra. É praticamente inevitável. Talvez essa idéia seja corroborada pelo fato de a sinfonia ter sido composta tão perto da Sonata Nº1 e do Concerto Nº3, que também têm muitas semelhanças entre si. Sacrilégio ou não, talvez se possa dizer que Rachmaninov andava bastante pianístico por aqueles tempos, mesmo que em seu tempo pré-EUA ele fosse predominantemente compositor.

Tão inevitável, aparentemente, que alguém pensou nisso antes de mim – Alexander Warenberg, um (obscuro) ex-pianista, compositor e arranjador. E, como disse Fernando Pessoa em Tabacaria, “O mundo é para quem nasce para o conquistar/E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.“, Warenberg foi lá e fez o arranjo. A gravação saiu em 2008 pela Brilliant Classics, com a Orquestra Filarmônica Janácek e o pianista Wolfram Schmitt-Leonardy.

É necessário uma boa dose de ousadia para por as mãos numa sinfonia de Rachmaninov e se propor a transformá-la num concerto. Primeiro porque Rachmaninov escreveu três sinfonias maravilhosas e cinco concertos (contando a Rapsódia) ainda mais maravilhosos. Segundo porque, ao fazê-lo, Rachmaninov redefiniu o que é um concerto pra piano e orquestra romântico, levando-o às últimas consequências, tanto mecânicas quanto estruturais ou musicais. Não é à toa que não passa um único concurso internacional de piano sem que alguém toque o Concerto Nº2 ou o Nº3 (em geral, o 3) na final; (a não ser o Concurso Chopin de Varsóvia, onde só se toca Chopin).

O que Warenberg fez tinha tudo para dar errado, de diversas formas: uma sinfonia considerada um grande sucesso desde sua estréia em 1908, o título extremamente pretensioso (“Concerto para piano e orquestra Nº5 de Rachmaninov”, como se o próprio compositor tivesse escrito, numa tentativa quase antiética de integrar o concerto ao repertório tradicional), um compositor, principalmente de concertos, do porte de Rachmaninov. Não seria tão perigoso se ele tentasse transformar a Nona de Beethoven no “Concerto Nº6″.

E mesmo tendo tudo para dar errado, mesmo com tantas previsões pessimistas sendo possíveis, dificilmente alguém conseguiria prever o quão errado essa idéia daria.

Seja pelo completo desmoronamento da estrutura e coesão interna da obra original, seja pela inserção impertinente de temas de outras obras (principalmente a inserção insistente e irritante do tema da abertura do concerto Nª1), seja pela rearmonização de algumas passagens (segundo Warenberg, “para melhorar o som e o equilíbrio [entre o piano e a orquestra]“), seja simplesmente pela monumental falta de bom senso que foi ter levado essa idéia macabra adiante, seja pelo que for, o que temos nessa gravação é uma tragédia de proporções cosmológicas. O Apocalipse bíblico parece um chá das 5 com senhoras bem vestidas com chapéus vitorianos perto do arranjo do Warenberg.

É difícil precisar qual foi a pior falha. Ou onde foi a pior falha.

O primeiro movimento foi esquartejado para que fosse inserida uma cadência, pretensiosa, imensa, monumental, monstruosa. Particularmente ultrajante é, no final da dita cadência, a citação das quatro notas que concluem o terceiro movimento da sinfonia, minando o fluxo lógico e a coesão de toda a obra.

O segundo e o terceiro movimentos da sinfonia foram transformados no segundo movimento do concerto. O horror. O horror. O horror.

O segundo foi recortado no melhor estilo Leito de Procusto para se transformar na seção central do segundo movimento do concerto. Essa seção central é cercada pelos retalhos do terceiro movimento da sinfonia. A única ressalva que eu faço é que o tema do começo do terceiro movimento da sinfonia, a melodia tocada pela clarineta solo logo após a introdução das cordas, foi preservada íntegra.

Chegamos então ao terceiro movimento do concerto, quarto movimento da sinfonia. De uma forma geral não é pior do que os outros, apenas tão ruim quanto. Só é realmente impressionante como o Warenberg conseguiu estragar até mesmo a coda, que antes eu considerava extremamente pianística.

Recentemente a pianista Valentina Lisitsa gravou o dito arranjo com a filarmônica de Rotterdam. Em maio de 2010 ela deu uma entrevista na qual dizia modestamente sobre a parte do piano “eu dei uma olhada na partitura, acho que é tocável”, e sobre o arranjo em si “[a sinfonia original] é boa música, como poderia ser estragada?”.

Depois de feitas as gravações, perguntei-lhe se não gostaria de fazer mudanças no arranjo, argumentando que como se trata de um arranjo, não seria ferir o original de Rachmaninov. A resposta/desabafo que ela me deu no começo de 2011 foi a seguinte, ipsis litteris:

“Rachmaninoff thought this piece to be perfect and he was very upset when orchestras tried to make cuts in this admittedly long symphony. He said that every time it happens he feels like somebody is cutting his flesh. What Warenberg did is not just a cut in Rachmaninoff’s flesh – it is a sex change operation. I love the Symphony and now that the performance with Rotterdam is behind (it was at their request that I learned the piece) I feel ashamed have played it.”

numa tradução livre,

“Rachmaninov pensava nessa obra como perfeita e ficava bastante contrariado quando algumas orquestras faziam cortes na sinfonia, conhecida por sua longa duração. Rachmaninov dizia que cada vez que os cortes aconteciam ele podia sentir como se fosse sua própria carne sendo cortada. O que Warenberg fez não foi apenas um corte na carne de Rachmaninov – foi uma operação para mudança de sexo. Eu amo a Sinfonia, e agora que a performance com a orquestra de Rotterdam já passou(foi a pedido deles que aprendi a peça), me sinto envergonhada por tê-lo feito.”

Eu não acredito que exista metáfora mais apropriada do que a operação para mudança de sexo, e eu acho que realmente foi isso o que Warenberg fez. E digo isso sem ofensa nenhuma aos transexuais. Digo isso porque a obra original não é um concerto para piano e orquestra no corpo de uma sinfonia, nem uma sinfonia que sofria de transtorno de identidade de gênero musical. Fico feliz de observar que a mentalidade musical de hoje não tolera nem os cortes feitos à época da estreia para diminuir a duração da sinfonia(cerca de uma hora), nem mesmo o corte de uma repetição de uma seção do primeiro movimento.

Modificando a Sinfonia original – uma obra perfeita e bem acabada per se – o que Warenberg conseguiu não foi “criar” um concerto para piano e orquestra. Foi apenas distanciar a obra original de sua “verdade”, de sua idéia platônica, de forma que o resultado é caricato, grotesco e absurdo, e que em nenhum momento, nem sob nenhuma condição etílica, soa como algo que Rachmaninov teria – ele mesmo – escrito. Um híbrido artificial, sem lugar no universo, que leva à constatação de que a sinfonia deve permanecer como sempre foi: uma obra perfeita como foi concebida, e que não deve ser mexida, por respeito à sua própria perfeição e ao trabalho de Rachmaninov.


observação da editoria: Janácek possui uma grafia diferente, com um acento eslovaco no c, similar a um circunflexo espelhado verticalmente, que infelizmente não conseguimos reproduzir em nosso sistema de publicação.

Uma Flauta Mágica. Sequência natural de outros projetos de Brook no sentido de “limpar” o espetáculo operístico de seus “excessos”. O que não significa que Brook pretenda mudar as convenções da ópera. O artigo indefinido que precede o título consagrado deixa isso claro. Depois de retrabalhar a Carmen de Bizet em modo camerístico, visando possibilitar maior variação de entonações e intenções nos cantores-atores, Brook e o músico Marius Constant reduziram Pelléas et Mélisande de Debussy a um ato e dois pianos. Essa ópera era perfeita para os objetivos do encenador, pois o próprio Debussy reclamava que “cantava-se demais na ópera”, e que o canto deveria ser reservado apenas para as “grandes ocasiões”. De fato, Debussy inventou uma fala cantada, às vezes sussurrada, que dá lugar ao canto operístico como estamos acostumados, o qual ressurge apenas nas grandes e breves explosões emocionais. Os “excessos” da grande ópera já eram vistos com reserva em alguns círculos musicais.

E os excessos do teatro? Peter Brook também é da opinião que representa-se demais no teatro. Uma lição que ele aprendeu bem jovem com um produtor de ópera alemão foi que “vitalidade e agitação não são a mesma coisa”. Lembro de ler em um de seus livros, não lembro agora qual, que nos ensaios da sua companhia internacional todos os excessos e agitações eram incentivados, para depois reduzir tudo ao essencial. E, para falar a verdade, penso que hoje faz-se tudo demais: canta-se demais, toca-se demais, atua-se demais, faz-se muita arte. Tanto excesso, tanta agitação, tão pouca vitalidade que é possível vislumbrar um paraíso contemplando-se o Branco sobre branco ao som de 4′ 33”.

A simplicidade do Mozart de Brook pode parecer até constrangedora. Os gestos são mínimos. Papageno, pelas características proprias do personagem, é o que mais gesticula. As Três Damas, os Três Gênios e os Dois Sacerdotes de Sarastro são fundidos na figuras de dois atores que também preparam as mudanças cênicas. Sarastro se funde ao Orador, num golpe teatral que funciona tanto para quem conhece como para quem não conhece a ópera. A própria Flauta faz as vezes de Serpente. A escrita cênica se manifesta em poucos e precisos momentos, com destaque para as cenas em que a floresta de bambus finalmente se justifica: a da forca de Papageno e a da destruição dos poderes da Rainha da Noite. O espectador desassossegado poderia pensar: “mas é só isso?” Sim, e é muito. É o que basta. Aos 86 anos de idade, um encenador como Brook já adquiriu sabedoria suficiente para resistir a tentação de saturar suas telas de imagens. Brook deixa um espaço precioso para a imaginação do espectador. Exemplo cativante é o que, na minha opinião, foi a mais bela, simples e precisa encenação das provas iniciáticas de Tamino que já assisti. Que se inicia no estranho e solene canto dos Dois Homens Armados. Três pequenas piras são acesas. Duas mudanças de luz. Duas voltas pelo palco. Fim. Triumph! Triumph! Triunfo dos jovens príncipes, da música e do teatro.

Os cantores são todos excelentes e puderam se expressar com uma calma e uma intimidade que não são possíveis num grande teatro de ópera. E talvez o palco do Dulcina ainda seja grande demais para esse espetáculo.

Afinal, consegui assistir uma produção de Peter Brook. Longe da agitação de Marat-Sade ou de US. Plena de vitalidade.

Permito-me ainda imaginar a seguinte cena: Mozart na sala de sua casa, em seu piano, acompanhado de um grupo de cantores (um deles, autor do libreto), esboçando em modo de ensaio a sua ópera. De repente, vindo do futuro, um velhinho inglês montado no pássaro Simourg irrompe no ambiente e, para o espanto de todos, sugere sorridente: “ei, e se colocássemos uns bambus aqui no meio?”

Está em cartaz no Teatro Municipal Ziembinski, em frente à igreja de São Francisco Xavier, o espetáculo “Caminhando entre Contos, Palavras e Amores” todas as quartas e quintas feiras até 24/11/2011 às 20h.

O espetáculo é constituído por quatro contos russos: “Do Diário de uma Jovem” e “Personalidade Enigmática”, de Anton Tchekhov, “Um Tolo” de Nikolai Leskov e “Acontecimento” de Vsevolod Garshin.

A estrutura é bem espartana: apenas dois atores em cena, Flavia Tolledo e Gabriel Garcia. Os contos são cuidadosamente encadeados com interlúdios musicais tocados pelo violinista Alexei Henriques. O papel do violino é bem claro: distrair o espectador, seja entre os contos ou numa mudança de cena no mesmo conto.

É uma distração de alto nível: belos fraseados, dinâmicas interessantes e um som muito límpido e agradável, graças ao domínio do vibrato e da afinação impecável, o que de certa forma nos faz esquecer da figura tímida do violinista e prestar atenção em sua música.

A concepção estrutural, devida à diretora Elena Gaissionok, formada Academia Russa de Música Gnessin e pela Universidade Russa de Teatro (antigo Instituto Lunatcharskiy de Teatro), nos permite vislumbrar diferentes facetas dos atores, que no curto período de 80 minutos vão do realismo sarcástico de Tchekhov ao drama de Garshin, passando por um Leskov emotivo, piedoso, redentor.

Flavia Tolledo é elegante e carismática, e interpreta com igual maestria a adolescente frívola de “Do Diário de uma Jovem” e a densa prostituta de “Acontecimento”. Gabriel Garcia é charmoso e igualmente carismático, faz rir com seu personagem em “Personalidade Enigmática” e emociona com o apaixonado Ivan de “Acontecimento”.

É interessante a concepção de cenário: o mesmo para os quatro contos, e funciona muito bem. O figurino também é interessante, não surpreende mas é adequado a cada conto, harmônico. A única exceção é o sapato da atriz, que poderia ser trocado de forma a combinar com cada roupa, evitando a distração causada pela combinação de um sapato bruto preto com um vestido leve e gracioso branco em algumas partes do Garshin.

Por fim, é muito inteligente a ordem dos contos: um crescendo emocional partindo das críticas sociais e comportamentais de Tchekhov (que, aqui, teve um arrière goût de Machado de Assis), passando pelo delicioso personagem ausente de Leskov, que nos cativa sem estar no palco e culminando no clímax dramático de Garshin. Voltamos, então, para nossas casas, com aquela reminiscência de vida, amor, tragédia e morte.

Foi lugar comum na disputa pelo Oscar 2010 a afirmação de que os filmes indicados tinham algumas similitudes, dentre as mais destacadas o fato de terem sido em sua maioria adaptações de livros (medíocres) e de se tratarem de histórias de superação.

No caso do filme O Vencedor, não é difícil apontar alguns tipos de vitória pessoal, a começar pelo personagem que deveria ser principal, Mickey – boxeador interpretado pelo opaco Mark Wahlberg e que tem de aguentar centenas de socos até se tornar campeão mundial (superação verídica, já que a história é baseada em fatos reais).

Além dele, outra figura que merece ser citada como vencedora é o personagem da trama que verdadeiramente merece os holofotes: o irmão e treinador de Mickey, Dick – vivido pelo ótimo Cristian Bale. Só o fato de ter perdido 14kg para interpretar o ex-lutador já deve ser visto como uma prova de esforço físico incomum para estrelas acostumadas a ganhar cachês milionários em troca de caras e bocas.

Claro que ele não foi o primeiro a explorar os limites corpóreos para potencializar recursos cênicos. Trinta anos antes, uma outra história de boxe nos brindara com um ator genial disposto a tudo pela arte: Robert de Niro ganhando 25kg para encarnar o também pugilista Jake La Motta em decadência, no espetacular Touro Indomável (Raging Bull). Tão marcante foi o trabalho da tríade Niro/Scorsese/Pesci que a obra só não ganhou a estatueta de melhor filme por questões políticas.

Voltando a Cristian Bale e ainda sem entrar no personagem propriamente dito, vale dizer o quanto a sua carreira esteve recentemente a perigo por seus faniquitos ególatras. Ele sabia que era o momento de mostrar maturidade profissional – coisa que sua boa interpretação de Batman não pareceu garantir. Desde o momento em que decidiu filmar American Psyco (outra adaptação de obra literária) ele mostrou que estava disposto a vender a alma para o Oscar – portanto, a sua premiação como melhor ator coadjuvante concretizou-se de forma absolutamente justa. Escapou do iminente risco de ocaso e voltou para o eixo que abandonou tantas outras promessas hollywoodianas.

Outro atrativo à parte no filme é a excelente trilha sonora para fã de rock nenhum botar defeito.  Led Zeppelin, Aerosmith e Rolling Stones, entre outros, ajudam a consolidar o clima de luta – embate não apenas no ringue, mas especialmente fora dele, onde são dirimidas as questões que sustentam o enredo. Good Times Bad Times vociferada por Robert Plant serve como um fantástico sparing emocional e cada paulada na bateria de John Bohan causa o impacto de um delicioso jab no fígado dos roqueiros.

Porém, quem assistiu com um pouco mais de atenção ao ótimo trabalho do diretor David O. Russel há de ter percebido que a verdadeira superação não foi a de levar pancadas por vários rounds, nem de perder peso ou sobreviver ao próprio ego.

A grande superação se dá no momento em que o personagem supostamente principal, Mickey (impávido que nem Muhammad Ali) opta pela carreira e vida pessoal sem fazê-lo em detrimento de sua família. Seu maior knockout ocorre quando ele consegue coadunar gênios difíceis e explosivos que se odeiam e têm apenas nele algo em comum. Ao conseguir lidar com as dificuldades impostas por aqueles que deveriam facilitar sua vida e sobrevivendo ao que fizeram dele, Mickey vence sua derradeira batalha e supera o fardo de ser melhor do que aqueles em cujo meio nascemos e vivemos.

Publicado em 1959, o pequeno ensaio chamado “Idéias para a sociologia da música” é um dos principais textos sobre a análise sociológica da arte [a música no caso] escritos no século XX, momento no qual essas análises passam a ter valor discursivo científico como resultado de modificações paradigmáticas nas ciências sociais ocorridas no período. Segundo a leitura do autor, a sociologia da música seria uma especialidade da sociologia geral, como a sociologia urbana e como, também, as variadas leituras historiográficas. Porém, esta nova modalidade de análise sociológica deve fundar e manter um método próprio vinculado diretamente a determinadas teorias. Assim sendo, segundo o autor, a sociologia da música não pode separar o método do objeto analisado.

Característica em toda, ou, ao menos, grande parte da obra de Adorno, existe a possibilidade da análise social da música passar pelas características de produção, logo, a função desta nova modalidade sociológica é, também, pensar o relacionamento entre produto, no caso, a música, e a sociedade que a produz, que está ligada diretamente à conceituação de sociedade de consumo e indústria cultural. Dessa forma, percebemos, também, a necessidade de pensarmos a música e suas características ideológicas através de sua formalidade.

Porém, Adorno não se classifica como iniciador do pensamento social da música, demonstrando que Weber já iniciara esta especialidade sociológica, em seu livro Os fundamentos racionais e sociológicos da música, através da caracterização de racionalidade na música. Percebemos, em sua leitura, que a História da Música é uma busca direta por racionalização.

Análise interessante que o frankfurtiano faz, como demonstração de sua indagação, é a relação da música do compositor polonês radicado na França Frederic Chopin com a sociedade burguesa da época: de acordo com Adorno, a aristocracia musical de Chopin é o que gera a sua popularidade, burguesa em grande parte. O burguês se transforma em nobre ao se reconhecer naquelas melodias melancólicas. Vale lembrarmos que além de Chopin, Adorno cita compositores como Tchaikovsky e a necessidade de problematização de sua forma composicional, Wagner e sua busca racionalizante, Mendellsohn e Richard Strauss e seus padrões de composição característicos da burguesia industrial alemã. Ressaltemos que, além da menção ao sociólogo alemão Max Weber, Adorno demonstra conhecimento da problemática em torno do tema citando musicólogos como Erwin Ratz [muitas vezes aparece a grafia Retz], um dos fundadores desta matriz disciplinar.

Percebemos, portanto, com a leitura deste pequeno ensaio que o texto é denso e suas indicações devem ser problematizadas e questionadas. O texto como um todo se demonstra como uma fonte de aprofundamentos plurais na área sociológica e histórica – lembremos que a História da Música ainda é uma disciplina que necessita destas formulações teóricas.

Resenha de:  ADORNO, Theodor W. Idéias para a sociologia da música. In: Textos escolhidos de Benjamin, Adorno, Horkheim e Habermas (Coleção: Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural, 1980, p.259-268.

Fui ver o balé Ikiru, de Tadashi Endo, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. O que me atraiu foi o subtítulo: “um réquiem para Pina Bausch”. Vi Pina Bausch, mas vi, sobretudo, uma marca muito japonesa, de despojamento e precisão. Claro, o que também remete à Pina e à sua “limpeza” de expressão. Este o ponto de encontro: o dramático ampliado ao extremo justamente por ser tão simples.

São quatro movimentos no palco escuro. No primeiro, o bailarino-coreógrafo está sentado em uma cadeira. Há uma placa de alumínio. Há uma luz que o alumínio reflete. A placa está pendurada em pêndulo. À medida em que oscila e gira a luz refletida se espalha pela plateia e palco. É o sol que vem e vai e são dias, portanto, que se sucedem. É a vida daquele personagem, que passa.

Ikiru: um réquiem para Pina BauschNo segundo movimento, Endo não mais sofre a ação do tempo, mas se abraça a ele. Ambos giram, dançarino e alumínio. Cada vez mais rápido. Ele está com suas vestes largas e soltas. Se transforma em um dínamo. Ele, abraçado ao tempo, energizado pela fonte do tempo. Há uma transcendência aqui. A cadeira, tão contingente, sumiu. E o ruído surdo e contínuo nos faz pensar em energia despegada do mundinho de cá.

A partir desta energia obtida na fonte do tempo, Endo começa a dançar. É o terceiro movimento do espetáculo e ele dança a Bachiana número cinco, de Villa-Lobos. Ainda está vestido. Esta sua dança-coreografia é com encontrões abruptos, movimentos repetidos e repetidos. Pequenos pedaços de movimentos que se repetem, violentamente. É a dança dos tropeções e encontrões de um cego, que se bate contra a placa-tempo, que chega a ficar com marcas. Ele também, provavelmente. É o movimento que mais me remeteu à Pina Bausch. Pina fez o papel da princesa cega no filme O navio (1983), de Fellini. E repetiu esses movimentos repetidos e supostamente incoerentes em suas coreografias, como em O Café Müller, mais de vinte anos depois.

O quarto e último movimento do espetáculo é o de um tango, a música dos cabarés. Mais um contato com Pina Bausch – que também gostava do clima de bar e danças eróticas. Ele está nu. Esta babaquice é minha, Endo é inocente: a dança que acaba o espetáculo parece dizer que a única forma de vencer o tempo é viver. Ao expor seu corpo a sexos e prazeres, e a morrer por isso, vence-se o tempo e a morte. O movimento termina com a “morte” do dançarino, deitado em cima do tempo/placa de alumínio. Antes, no início desta dança, ele retira a placa de alumínio do gancho, ganha controle sobre ela, faz dela o que quer.

Depois de terminado o espetáculo, ele volta, outra vez vestido, e lê um pequeno texto. No fundo do palco, uma imagem de Pina está projetada, enorme, contra o fundo preto. Mas o que ele lê é uma homenagem não só à Pina Bausch, mas a seu velho mestre Kazuo Ohno, e também a Michael Jackson.

“Isto é amedrontador. A morte está se aproximando. É triste perceber que os artistas que influenciaram meu trabalho, de repente se foram para sempre. Porém, isso também me faz forte. Vida e morte estão muito próximos. Se não há vida, não há morte.”

Fellini não é a única referência cinematográfica do espetáculo. O título, Ikiru, é o de um filme de Kurosawa, de 1952. Fala da explosão de beleza a partir da morte de um personagem. Este filme tem duas partes. Se considerarmos o primeiro movimento do espetáculo de Endo como uma apresentação de elementos; e o segundo movimento como uma “preparação”, uma energização, aqui também teremos duas partes. A que é dançada a partir de Villa-Lobos, e que é a da solidão, dos tropeços e da dor. E a do tango, que é a do prazer, do sexo, da vida… e da morte.

Tem um pequeno pedaço do espetáculo no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=CuXPxuxKoH4

Não sou das criaturas mais chegadas ao cinema, mas tendo uma ligação profunda com o tema do filme, uma estima pela protagonista, e, principalmente, tendo sido tão profundamente impactado por ele, tenho algo a dizer.

É um terreno delicado, esse, porque estamos falando da dualidade, que não está só presente na arte. Mas contentemo-nos com a arte.

O Ballet do Lago dos Cisnes tem, como alguns de seus personagens principais, Odette, Odile, Siegfried e Rothbard.

O esqueleto da história é o seguinte: Odette é uma princesa, transformada em cisne por Rothbard, o feiticeiro maligno. O encanto só pode ser quebrado quando Odette for alvo do amor verdadeiro. Siegfried é o príncipe, que se apaixona por Odette.

Tudo estaria bem se não fosse Odile. Odile é a filha de Rothbard e uma espécie de sósia de Odette, que seduz o príncipe Siegfried, impedindo a maldição de ser quebrada.

Sobre esse esqueleto, podemos desenhar inúmeros cenários psicológicos. Um retrato clássico seria o da auto sabotagem: sendo Odette e Odile duas faces de uma mesma pessoa, que se frustra e impede a própria felicidade ao impedir o seu salvador de quebrar a maldição.

Numa performance típica do Lago dos Cisnes, a mesma dançarina interpreta Odette e Odile.

Sem fazer juízo de valor com os personagens da história, Aronofsky se concentra na bailarina como artista performática, e, portando, necessitada de matéria prima para produzir a sua arte. Dançarinos, como musicistas, necessitam “ingerir” e digerir o belo, para então metabolizá-lo e produzir sua arte. Por vezes, segundo Nelson Freire, é necessário “fabricar”, ou melhor, “materializar” algo que efetivamente não ingerimos, mas do qual temos necessidade, e essa é talvez a maior dificuldade de ser um artista performático.

Nina, a bailarina de Aronofsky, tem toda a matéria prima psicológica e estética para produzir Odette, mas seria difícil compor uma personagem com menos meios de interpretar Odile.

Ao ser escolhida, num processo de seleção que abala seus já frágeis nervos, para protagonizar o Lago dos Cisnes, Nina se vê desesperada. Na mesma proporção em que é uma referência como bailarina disciplinada é também sem sal. E ela precisa desse sal para ser Odile.

É aí que entra sua “rival” na companhia de ballet: Lily. Sedutora, charmosa, natural, imperfeita. Lily age como catalizador do processo a partir do momento em que Nina projeta nela o seu Graal. Numa busca tantalizadora pela própria sensualidade, Nina demoniza e idolatra Lily, a repudia e deseja. Lily é seu lado proibido, que ela tanto quer e tanto rejeita.

São incontáveis os momentos do filme em que não sabemos se estamos dentro ou fora da mente de Nina, se é que em algum momento sabemos de fato.

Ao mesmo tempo que Odette está amaldiçoada e presa sob a forma de cisne pela magia de Rodbarth, Nina é infantilizada e reprimida por si mesma, pela disciplina irracional, pela mãe. Da mesma forma que só o amor verdadeiro liberta Odette, só o despertar da maturidade psicológica e artística de Nina e do interesse por si mesma pode libertá-a de sua prisão cor de rosa.

Não é um filme em tons pastéis, de forma alguma, mas da mesma forma não é de mau gosto. Antes de assistir li algumas críticas extremamente desfavoráveis.

Falta que as pessoas enxerguem um pouco mais longe. Não é um filme sobre a vida de uma bailarina, para isso existem outros. Também não é um filme sobre esquizofrenia, para isso também existem outros.

É claro que como obra de arte rica e complexa não posso ser leviano de dizer “é um filme sobre isso” ou “é um filme sobre aquilo”, mas ao retratar a bailarina que se vê sem recursos interpretativos para dar vida a seu personagem, abre-se um leque infinito de questões, e eu sinto realmente muita pena de quem enxergou apenas um “filme exagerado sobre uma bailarina obcecada” ou “uma obra de mau gosto”.

A discussão sobre o produzir arte, como produzi-la. Não basta produzir arte, é preciso que a arte seja sincera, e ao se tornar um pouco Odile para viver o Cisne Negro, Nina passa por uma jornada de suplícios, transformações e amadurecimento, e é justamente através dessa jornada, ou melhor, na reflexão sobre ela, que Aronofsky impacta o público, incutindo no fundo de sua (nossa) mente o desejo de se analisar, reconhecendo e quantificando como e quanto somos Odette e Odile.

Seguindo com o top 10 de 2010, é hora de fechar com as últimas cinco músicas da lista retrospectiva. Se você perdeu a primeira parte, no Ouvi por aí… comentarei sobre o que anda tocando na minha playlist. Podem ser músicas atuais ou antigas, brasileiras ou estrangeiras, de diferentes estilos. Esse post encerra a retrospectiva 2010 para no próximo começar a acompanhar o que está tocando em 2011. Como não ouço rádio, minha lista é composta por pesquisas na Internet, CDs que eu compro (sim, eu ainda compro), indicações de amigos, shows e links sugeridos no twitter e facebook.

Vamos então às 5 músicas que encerram o Ouvi por aí… em 2010.

06. Back it up, da Caro Emerald – Aqui no link em uma versão ao vivo com Big Band. Caro Emerald é a nova queridinha na Holanda, com um jazz atual e pop que foge das fórmulas soníferas e tem batida recorde atrás de recorde no seu país de origem. Há algo de pin-up girl no seu visual, e o som é orgânico e alto astral, lembrando vagamente Amy Winehouse nos seus dias de glória. É o tipo de música que se você gostar vai deixar tocando no repeat sem parar. Um nome para ficar de olho.

07. Papillon, do Editors – Para mim, a música do ano. Uma banda inglesa cada vez menos indie e cada vez mais pop, o Editors mistura uma pegada rock com sintetizadores igualmente pesados, trabalhando bem sua mistura sonora. Papillon é uma música eletrônica, rápida, que cai bem com uma corrida na esteira, principalmente depois de se ver o videoclipe. Os caras estão com tudo no Reino Unido e fazem um sucesso considerável na Europa.

08. Tightrope, da Janelle Monae – Som funkeado, velha escola, direto do álbum The ArchAndroid, elogiado pela crítica em todos os cantos, principalmente pela coragem de correr riscos sem pensar nas rádios. É ela quem fará a abertura dos shows de Amy Winehouse no Brasil, uma boa oportunidade de conhecer essa cantora e compositora performática que já foi indicada ao Grammy. Meu respeiro para quem conseguir repetir a dancinha do videoclipe.

09. Living Proof, do Buddy Guy – Blues, ó, blues. De todos os cantores que pesquisei, Buddy Guy foi quem me transformou em súdito fiel. Só bons cds e músicas potentes. Living Proof é de seu trabalho mais recente. Com 74 anos ele continua cantando muito e dominando a guitarra como poucos. Como não podia deixar de ser, o álbum foi indicado ao Grammy 2011 de melhor de blues contemporâneo. Quem nunca ouviu esse blueseiro de Chicago que está na estrada desde a década de 60, indico uma pesquisada.

10. The Dog Days are Over, Florence and The Machine – Mais um grupo indie inglês, dessa vez com a voz de Florence Welch sustentando misturas de soul, pop, rock e o que mais couber nesse caldeirão. Seu site diz que ela escreve suas melhores músicas quando está bêbada, e imagino que os videoclipes absorvam parte desse clima non sense. Uma das vozes mais interessantes de 2010, fiquei surpreso ao escutá-la ao vivo e descobrir que ela é afinadinha. Um hit nos iPods de adolescentes do mundo inteiro.

Fechamos então essa lista simplificada de músicas que infernizaram a vida dos meus vizinhos, dominando a playlist de 2010. Algumas delas devem reaparecer nas listas de 2011, outras sumir no tempo, mas está feito o registro. Não posso mais negar.

Para quem estranhou a falta de música nacional, estou preparando uma série de posts só de música brasileira, por isso a ausência.

Sem uma periodicidade regular, o Ouvi por aí… volta em breve.

capa do cd "Bomb In a Birdcage", do A Fine FrenzySempre tive o hábito de pesquisar bandas novas e independentes que têm uma sonoridade inovadora e, normalmente, são desconhecidas no Brasil e, às vezes, no mundo.  Em uma dessas buscas, acabei esbarrando com o CD Bomb In a Birdcage, do A Fine Frenzy. Primeiro, pensei que era uma banda. Depois de algumas leituras, percebi que é o nome artístico da americana Alison Sudol.

O codinome “A Fine Frenzy” veio da sua paixão pela literatura, retirado de um trecho do clássico Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare (Theseus, 5º ato, cena 1: “The poet’s eye, in a fine frenzy rolling, doth glance from heaven to earth, from earth to heaven”).

Bomb In a Birdcage, lançado em 2009, é o seu segundo álbum e está mais perto do pop mainstream, com uma dose menor da combinação de voz e piano ou voz e violão, e com mais uso de sintetizadores e batidas dançantes. Apesar de romper melodicamente com One Cell In The Sea (2007), o seu primeiro trabalho, o segundo álbum do A Fine Frenzy mantém o clima pop romântico do anterior, funcionando como uma evolução natural ao trazer uma sonoridade mais forte, instrumentação mais diversificada e uma atmosfera diferente.

O álbum começa com “What I Wouldn’t Do”, que deixa claro o tom mais alegre do CD e a mudança que a cantora buscou em relação a sua estréia. Com um violão marcado, palmas e assobios, a música traz uma letra que destaca o estilo pop-romântico, com os versos que deram nome ao CD.

“It was now and we were both in the same place/ didn’t know how to say the words/ With my heart ticking like a bomb in a birdcage/ I left before someone got hurt”.

Sem pretensões de ser um hit mundial, a canção integrou a trilha sonora do filme Juno, um sucesso comercial no mundo inteiro.

“New Heights” traz de volta o piano sempre presente no universo musical da cantora, porém muito diferente das baladas do seu início de carreira. Nela, a voz de Alison e o piano servem de base para uma instrumentação mais complexa, com variações sutis que a deixam viva até seu último segundo. Sabe aquelas baladas chatas e arrastadas? Não é o caso.

Bomb In a Birdcage costura bem os vários climas que o compõem. Entre a energética “Blow Away” (primeira música de trabalho deste álbum) e a lentinha Swan Song, há uma transição suave realizada pela faixa “Happier”, segundo single lançado. “Happier” é uma composição midtempo na qual piano e guitarra complementam a voz de Sudol, acrescentando uma camada após a outra (seja de instrumentação ou back vocals) até alcançar o seu clímax.

Esse trabalho em camadas parece valer também para o álbum como todo, já que a segunda metade traz composições mais ricas e ousadas. Cada faixa age como puro escapismo, com destaque para o rock progressivo “Stood Up”, de baixo acentuado, guitarras melódicas e um vocal mais forte. Mesmo que não haja nada de cair o queixo, as execuções são inteligentes e mantêm o ritmo até o final.

A guitarra elétrica também é uma marca de “Electric Twist”. Um choque para os ouvidos se você estava acostumado com o perfil acústico do CD anterior. Vale dizer que os sons elétricos não são esmagadores nem roubam a cena, e A Fine Frenzy ainda consegue manter a tradicional sensibilidade de cantora e compositora.

Outras canções que merecem atenção são “Elements” e “Bird Of The Summer”, reminiscente de seu primeiro álbum, e “The World Without”, que junta outra vez piano e voz como base para a banda e os sintetizadores.

Bomb In a Birdcage pode não se destacar de imediato, mas traz um novo prazer a cada audição, sem se prender a conceitos e chamarizes. Uma prova de que a boa música por si só ainda é suficiente.

Desde novembro de 2009 que não escrevo nada sobre música. Esse ano ensaiarei uma reaproximação, com algumas ideias já na manga, uma delas a seção Ouvi por aí… aqui do site. São comentários informais sobre o que ando ouvindo nos momentos de curtição ou por pesquisa para algum trabalho, sem nenhum filtro, só o mp3player nu e cru como aparelho estatístico. Como me é impossível lembrar de tudo o que escutei durante o ano, resolvi fazer uma lista simplificada, listando o que me vier primeiro em mente. Sempre lembrando que as músicas não precisam ser necessariamente do ano corrente e que podem se repetir de uma lista para a próxima.

Sendo, assim, para estrear o Ouvi por aí, as 10 músicas que marcaram meu 2010, primeira parte:

01. Gimme Sympathy, do Metric – Uma bandinha indie lá do Canadá, com os vocais femininos de Emily Haines. Descobri o Metric nem me lembro como, provavelmente em uma das programações obscuras do VH1 ou em um desses sites deslocados que sempre sabem qual o novo single daquele grupo de beira de estrada de Nova Guiné. Vinda do Fantasies, um álbum de pegada mais alternativa, Gimme Sympathy é a música mais pop do grupo e fez um tremendo sucesso no meu mp3player lá na academia. Para quem gosta da mistura de guitarras e sintetizadores.

02. Night by Night, do Chromeo – Mais uma vez o Canadá marca presença, dessa vez numa pegada mais dance e retrô que parece um encontro de batidas funkeadas com o a era disco. Night by night é dançante, pontuada por guitarras muito bem colocadas e teclados que me lembraram os momentos mais aloprados dos Pet Shop Boys. O duo é composto por P-Thugg e Dave 1 e, segundo a Wikipedia, um é árabe e o outro judeu. Se tudo na vida seguisse a lógica da música, o mundo seria um lugar melhor. Gracinhas à parte, no link você vê um ao vivo no David Letterman.

03. Hard Times, do Patrick Wolf – O hino dos workaholics, hum? Para ser sincero, gosto de coisas muito pontuais do Patrick Wolf, e acho que ele é melhor em criar singles do que álbuns (o futuro?). Faltava um mínimo de direção no que ele estava fazendo, por mais que se visse o talento presente. Em The Bachelor esse cantor inglês encontrou seu caminho entre o pop e o underground e ofereceu pérolas como Hard Times, que entra na lista de melhores de 2010 na minha vitrola supersônica.

04. Slide Master, do Bernard Allison – Filho de ninguém menos que Luther Allison, um dos monstros do blues, Bernard Allison faz um som mais puxado para o rock, com experimentalismos que não precisam se pautar pelo comercial, mas que tocariam fácil nas rádios. Geralmente destruidor na guitarra, o cantor segue em Slide Master um som mais calmo, puxado para a black music.

05. Prescilla, do Bat for Lashes – Não sei como definir o som e não acho que Natasha Khan se preocupe muito com isso. Multi-instrumentista, ela toca cítara de cordas, piano, guitarra e mais uns instrumentos que não sei o nome. Descobri esse grupo de uma mulher só recentemente, mas ele está na estrada já faz um tempo. Prescilla tem uma levada hipnótica, parente do trip-hop, e seu grande atrativo é a voz melódica de Natasha.

Na semana que vem, a segunda parte do Ouvi por aí…, mais 5 músicas que marcaram 2010.

César Meneghetti - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO vídeo de sete minutos Les terra’s di nadie, de César Meneghetti, ora em exibição do MIS-SP, se apresenta como obra política, com suas imagens históricas, de arquivo, referentes aos golpes militares do Brasil e Chile.

A presentificação de eventos passados – sejam eles acontecimentos, objetos ou pessoas – pode se tornar um ato político de duas formas.

A primeira será inserindo na narrativa recorrente e ininterrupta da atualidade um inventário – em si desprovido de sentido, listas de coisas sem nome – que esta narrativa excluiu. A escolha dessas coisas e não de outras, sua justaposição e sua reapresentação ordenada, dão a elas o sentido ou o nome que o tempo lhes negou.

A segunda maneira é tentando modificar o sentido da narrativa atual ao trazer para ela outro sentido – o sentido parcial, construído e individualista de um determinado inventário elegido. Em geral a partir de um claro partido tomado (parti pris).

Na primeira,  o foco é no que está sendo trazido. O que mais é ressaltado é a existência-não existência das coisas elegidas. Na segunda, o foco fica na narrativa atual, que é solicitada a acolher o que está sendo trazido.

No primeiro grupo, por exemplo, há a Rosângela Rennó e a persistência dos vencidos. São os restos das pessoas que não existiram, em forma de fotos velhas, lencinhos usados, cacarequinhos que até há bem pouco estavam no lixo. Ou são os objetos, até mesmo eles, que poderiam ter sido usados para representar esse lixo da história e que se tornaram lixo, eles também. Falo das máquinas fotográficas velhas, enormes, incluídas por Rennó em algumas de suas exibições.

O segundo grupo é o que mais recebe a alcunha de arte política. Antonio Dias, para dar também aqui um exemplo. Chega perto do libelo.

Meneghetti é mais duro que Rennó e mais sutil que Dias. E faz lembrar os dois.

O que ele recupera não é bem os golpes militares citados. É uma parte muito específica desses eventos. São os anônimos que neles foram vencidos. E os recupera através de imagens sem nitidez, monocromáticas ou quase, repetitivas. Repetitivas em concomitância, pois ele divide sua tela em várias projeções simultâneas que, em alguns momentos, chega à pulverização, com a imagem reduzida a quadradinhos, um ao lado do outro. São luzes que passam no teto de um túnel escuro. Paradas militares. O chão seco das terras abandonadas. Sobre isso, o texto que se repete, escrito na tela, ele também repetido, em várias línguas.  Você sabe o que é. Você reconhece a silhueta do corpo sendo jogado de um avião. Você só não sabe quem foi.

O texto é uma poesia de Antonio Arévalo e é sussurado, quase inaudível, por duas mulheres que se sucedem, elas também pouco identificáveis. As vozes são quase iguais. Os nomes tem a existência breve de um release para a imprensa. São os de Carolina Manica e Patricia Rivadeneira.

Quase ao final, a frase que, ao meu ver, mais representa o projeto:

“Nunca se souberam as causas de sua vida.”

À vista de cadáveres, o que o artista diz, na voz desse outro artista-poeta, é o espanto da narrativa em que nos inseremos todos hoje, quando confrontada com essas vidas para as quais havia motivações. E tão fortes. É um golpe. Mais, muito mais do que baionetas e corpos, eventos passados e (des)conhecidos ou (des)esquecidos, Meneghetti nos põe frente a frente com o que não temos e já tivemos. Ou melhor, com o que temos hoje na forma de ausência (ou presente ao extremo no fundamentalismo religioso de alguns, e, ainda bem, não de todos). Motivação.

É esta a ação política desta obra. Mais do que escolher este ou aquele inventário. Ter esta ou aquela escolha política, Meneghetti confronta uma ferida da atualidade. No individualismo em que estamos todos, aqueles corpos, recuperados como indivíduos, trazem, neles, o que o individualismo atual nos nega, um pertencimento.

Quando digo este ou aquele inventário me refiro a algo que raramente é abordado quando se fala de arte política. Os vencedores também a fizeram. Através da censura ou desta outra censura disfarçada, que é a distribuição criteriosa das benesses oficiais, os vencedores também poderiam se arvorar o título de artistas políticos.

É por isso que considerar o conteúdo da arte como suficiente não é suficiente. Baionetas e corpos servem a qualquer coisa. Uma prática de desestabilização de procedimentos artísticos, isso só quem faz são os vencidos ou os que com eles se alinham.

Ah, o som é muito bom. E é de autoria de Fabio Pagotto e Silvia Moraes.





Adendo.

Poucos dias após a exibição de Les terra’s di nadie outro filme de Meneghetti foi exibido em São Paulo, desta vez no cinema do MuBE (programa O homem e a cidade). O vídeo de 29 minutos Terrorista é o depoimento de Percy Sampaio Camargo, preso pela ditadura militar brasileira em 1969. Me preparei para um filme pesado. E ri. Primeiro com o episódio de sua fuga do Brasil. Em um Cessna em dia de tempestade, ele, o piloto e a noiva do piloto iam para o Uruguai. Pane no motor, falta de gasolina. O piloto – que não sabia que ele era procurado – quer descer num campo de pouso militar. “Nããão!!!! Pelamordedeus!!” Resolvem ir para Punta del Leste. Lá, basta dizer que se trata de um ricaço que quer jogar nos cassinos para obter permissão de pouso. Depois, já no Chile, a comunidade brasileira desconfia que Camargo é agente infiltrado. Mas, em um jornal, sai seu nome como terrorista, ladrão de banco, assassino perigoso. Não era. Era professor de biologia da UNESP. Mas graças aos militares, vence desconfianças e pode iniciar sua vida de exilado. E mais: ele berrando um discurso político aos ouvidos dos recrutas que o empurram, de saco cheio, para dentro de um camburão. Você ri. E aí também chora. Camargo, no vídeo com sua barba branca, chora ao falar. E você ao escutar. Bom filme. Serve de exemplo para o filme anterior. Camargo poderia ser um dos anônimos mortos e despejados no mar, ou vivos e despejados no esquecimento. Meneghetti o reinsere.

Arthur Nogueira - Foto de Daniel Pereira - gentilmente cedida pelo músico para publicação no Aguarrás

Quando cheguei à casa de Arthur Nogueira, que gentilmente me recebeu em um domingo à tarde, às 14 horas, hora morta em qualquer lugar de Belém graças ao Sol, ele estava terminando de se arrumar. Troca camisa (branca pela cinza), procura os sapatos (All Star todo preto), escova os dentes, serve água para o repórter. Quando terminou, disse: “Então, vamos?!”. E a entrevista? “Fazemos caminhando”. A pressa era justificável, às 16h deveria estar na Associação Fotoativa, no Largo das Mercês, para passar o som do show que faria no encerramento da exposição Sentidos da Imagem. Assim, fomos andando até o ponto de ônibus, sol a pino, rua deserta e aquele gravador na mão.

No show, Arthur apresentaria algumas canções novas e outras antigas, mas tudo com novos arranjos, seria uma espécie de pré-lançamento de um EP virtual que sai em novembro. “Na verdade, esse pré-lançamento é um pretexto pra poder tocar as músicas novas. O show de lançamento, provavelmente, não vai ter nada a ver com essa apresentação de hoje. A de hoje é mais intimista, não é um ambiente de show, vai ser no meio de uma exposição. Mas, como estou gravando as músicas do EP, estou envolvido com elas, não faria sentido apresentar outra coisa”.

Mas, a essa altura, alguém deve estar se perguntando, que personagem é esse? Com 22 anos, Arthur faz parte de uma nova geração de cantores paraenses. O debut foi aos 13, na sala de sua casa, perante família e amigos; voz e violão, tocado pelo tio Antônio Maria. Com 15 já cantava na noite belenense, às sextas, no Studio C (pub que ficava na frente do Colégio Santa Rosa). Menor de idade, seus pais tinham que acompanhá-lo em todos os shows, “meus pais tinham que ir, sempre estavam lá. Não agüentavam mais o repertório, o lugar, não agüentavam mais! [risos]“.

Culpa o pai por amar a música. “Meu pai nunca tocou, nem canta, mas sempre gostou muito de música, sempre comprou LP’s, CD’s, então eu cresci naquilo. Desde cedo comecei a gostar daquilo, então minha primeira memória artística é musical”.

Sinatra, Jobim, bossa, jazz, faziam parte dos primeiros repertórios. Acompanhado de pianista (Tinoco Costa), baixista (Wilson Veloso) e baterista (Newton Barreira), todos com mais de 50 anos, chamava atenção por cantar coisas destoantes para sua idade. Mas, para ele, tudo acontecia naturalmente. Natural e instintivo. Por acaso, começou a cantar. Por acaso, começou a cantar em bares. Por acaso, gravou um disco.

Feito em 2007, Arthur Nogueira, o disco, surgiu graças ao incentivo de Márcia Freitas, jornalista e produtora. O trabalho reúne um repertório de autores daqui do Pará. “A Márcia ‘meteu pilha’ para fazer o disco. Fez o projeto, captou o recurso, então eu fui pro estúdio gravar. Ela fez tudo. O Floriano fez a direção musical, fez todos os arranjos. Acho um trabalho bonito, mas não era o momento de ter gravado”.

Não era o momento porque, como Arthur diz, “há zero de autoria minha. Tem uma música que o Leandro Dias [músico, amigo do cantor] fez pra um texto que eu escrevi, mas tem mais a cara do Leandro do que minha. Não considero por isso, acho que não me traduz”.

No início, a música era um hobbie. Depois, descobriu que era a maneira como melhor se expressava. Mas, na cabeça dele, tudo só veio a “virar arte” quando começou a compor. A palavra sempre lhe rodeou. Quando criança, nunca pensou em ser músico, aliás, achava que não tinha talento pra isso, queria ser escritor. “A música estava ali em casa, só que eu não achava que tinha talento pra isso. Comecei a estudar teatro um tempo, fiquei apaixonado por alguns textos, então comecei a querer escrever. Escrevi umas coisas terríveis, até lançaram dois contos que eu escrevi na Feira do Livro, pirralho ainda. Eu tinha 13 anos, mas minha família sempre me estimulou”.

O amor pela palavra nunca o abandonou. Canta, mas acha sua relação com a música menos musical que poética. Às vezes, faz músicas em cima de poemas mais para aquele poema está perto dele de alguma maneira do que, necessariamente, para ter uma música. “A música é uma forma que eu consigo melhor trazer a palavra pra perto de mim. Então, geralmente as minhas músicas são simples, com poucos acordes. No EP isso vai estar mais claro porque a base musical vai ser bem simples, no caso, só um instrumento de harmonia, que é só o violão ou a guitarra, e por cima vai ter minha voz, o poema e sons aleatórios, ruídos, e coisas que não necessariamente são música”.

Entre Arthur Nogueira e o EP que sai em novembro, há Mundano. No dicionário, mundano é aquilo que se refere ao mundo, considerando-o material e transitório; aquilo que é dado a gozos ou prazeres materiais. Para Arthur Nogueira é seu primeiro trabalho. “No Mundano eu fiz muita coisa. Primeiro eu fiz as músicas, comecei a compor e pensei que as músicas poderiam virar alguma coisa. Chamei profissionais que eu admiro pra tirar o disco do papel, mas toda a concepção do disco, poética, sonora, visual, tudo foram idéias que eu joguei na mesa e chamei pessoas que eu admiro pra tirar do papel, mas tudo por trás é um disco inteiramente meu”.

Se o disco é inteiramente dele, Arthur mostra que suas referências são muito consistentes. Em Mundano, disco e show, há Antônio Cícero, Marina Lima, Jards Macalé, Waly Salomão, Dand M., Portishead, poesia, Tropicália, geléia geral. “O disco é um trabalho que tem muito de mim, retrata muito bem um momento da minha vida, ali sou eu, de peito aberto, frustrações e desilusões”.

“Mundano surgiu de um livro do Foucault, sobre autoria, a velha história de que o autor não detém o controle sobre sua obra, porque a música que eu fiz significa algo pra mim, mas a partir do momento que alguém ouve, vão interpretar de outra forma, que não a minha, e a música vai fazer sentido na vida da pessoa que eu não sei qual, assim a música passa a ser do mundo e não minha. Fora isso, tem uma música do Vital Lima, chamada Mundano, que tem um verso que eu gosto muito que diz: ‘a felicidade pode ser que tenha a ver com algo a dois, mas há algo em mim que quer ficar sozinho, mundano’. Aquela coisa de você ser só no mundo e ser de ninguém. Como o disco fala de desilusão amorosa, tem muito a ver com isso. Eu falo que sou o avesso de mundano, porque eu não sei lidar bem com isso, com o ficar sozinho, com a desilusão, a espera, a idealização, e o disco fala sobre esse universo”.

A entrevista se estendeu pelos lugares mais inusitados: dentro do ônibus, no caminho a pé até o Largo das Mercês (descemos no Ver-o-Peso e seguimos andando), no casarão antigo que abriga a Fotoativa, que ainda estava fechado e com palco desarrumado quando chegamos. Arthur respondeu pacientemente a minhas intermináveis perguntas. Lá pelas 16 horas, terminamos o bate-papo. Era hora de começar a passar o som.

O show começou às 19 horas. Cerca de 30 pessoas, espalhadas pelo salão, entre fotos dependuradas e caixotes improvisados, puderam conferir, como eu, o que está por vir: ruídos, intervenções eletrônicas, instrumentos programados, mas sem abandonar o setentismo, a bateria de Arthur Kunz, a guitarra de Renato Torres e, claro, a literatura, Arthur leu trechos de Carlos Drummond de Andrade e Zé Miguel Wisnik.

Wisnik, aliás, que está influenciando profundamente o novo trabalho. “Eu estava lendo o livro do Wisnik, O Som e o Sentido, e num capítulo que chama Antropologia do Ruído, ele fala que o som do mundo, na verdade, são os ruídos e a música é meio que a negação disso, porque a música organiza os sons de uma maneira harmônica, então a gente exclui o ruído. Nesse mesmo capítulo, o Zé Miguel fala sobre a ‘quase música’, que é uma música que não é harmonicamente lógica, em cima das sete notas. Eu achei essa concepção muito interessante, por isso pensei em fazer uma música a partir de ruídos”.

O EP, que chamará Mundano+, sai em novembro e em formato virtual. Não é um trabalho “novo”, está mais para um prolongamento do disco de 2009, uma espécie de fase de transição na carreira deste artista que, depois destas horas que pude acompanhar de seu trabalho (só fui voltar para casa mais de 23h), pareceu muito consistente e consciente de seu papel de artista. Vejamos o que vem a seguir.

“No mundo das notícias, aos 75 anos de idade Picasso havia casado recentemente com sua modelo de 35 anos, Uau. Picasso não estava apenas perambulando pelas calçadas lotadas. A vida ainda não o deixara para trás, Picasso tinha fraturado, quebrado e escancarado o mundo da arte. Ele era revolucionário. Eu queria ser assim.”

– Bob Dylan (in: Crônicas – Volume Um. Trad. Lúcia Brito, Ed. Planeta, 2005, p. 68.)


Quando primeiro pensei em escrever este ensaio, planejei escrevê-lo como um artigo carregado nas tintas acadêmicas. Porém, como tenho poucas pretensões acadêmicas na área de estudo, passei, no meu segundo rascunho a escrever um “ensaio de escritor”, ou seja, uma organização de notas mentais sobre Bob Dylan, figura que vem me fascinando, de forma a aproveitar alguma reflexão na minha maneira de pensar arte.

Dylan sabe o peso das palavras que ele escreve. Nenhuma palavra é gratuita, quando em sua autobiografia ele declara um modelo de mimetização em Picasso, isso passa a ser importante para entender sua concepção da Persona do Artista. Tentando traçar um paralelo, é possível ver em ambos artistas o constante movimento de transformação na forma de sua arte sem perder a sua essência.

Reza a lenda que quando Picasso resolveu aprender a fazer esculturas com porcelana, ele convidou os dois maiores mestres na arte para ensiná-lo, ao fim de um curto período de aprendizagem, ele não apenas executava todas as técnicas com perfeição, como ele havia aperfeiçoado as tecnicas de seus mestres. Assim é a obra de Dylan, ele reproduziu e aperfeiçoou o folk de Woody Guthie, o country-rock de Johnny Cash, o Blues, o Rock, o Gospel.

Em 1966, Dylan desembarca na Europa com um violão e uma guitarra na bagagem. Dylan se veste de forma diferente, sua postura com os seus entrevistadores é de desafio. Não é mais o rapaz das músicas de protestos que subia ao palco sozinho com seu violão e sua harmônica. Dylan agora tem uma banda, trocou seu rifle, sua arma de matar fascistas parece ter a mira mais ampla, agora Dylan toca guitarra. Não é mais o rapaz de Norfolk festival. É um traidor do folk. O traidor do povo.

A cena que acabo de descrever pode ser vista em três filmes: “Don’t Look Back” (Dir. D. A. Pennybaker) “No Direction Home” (Dir. Martin Scorcese) e “I’m Not There” (Dir. Todd Haynes). Dois documentários e uma suposta biografia. Cada um trata o momento de uma forma diferente esse momento que é considerado o auge do artista e o nascimento do mito.

Em “No Direction Home”existe uma cena marcante. Dylan em frente a uma loja lê os cartazes que anunciam produtos e serviços oferecidos e, como uma criança começa a rearranjar as palavras e, a cada rearranjo, arranca um novo sentido. Em frenesi, faz verso atrás de verso com aquelas palavras. Naquele momento o frenesi é a criatividade e seu enigma.

Mas, eu estaria sendo obtuso com minhas próprias crenças se não desmistificasse a palavra enigma. Gosto da ideia de alumbramento de Manuel Bandeira. De forma simplificada, posso dizer que o alumbramento, motor da criatividade, é a semente e o seu terreno é a técnica. Quanto mais trabalhada e aperfeiçoada a técnica, melhor será o produto de sua criação. Mas também é necessário ter boas sementes. Boas ideias.

Dylan, mais uma vez é como Picasso, domina todas as técnicas de sua arte. Suas obras podem ser tomadas por execuções simples, mas, em geral as tentativas de mimetização dessa simplicidade são acometidas da mediocridade.

Por outro lado, Todd Haynes aposta na multiplicidade e na fragmentação da persona de Bob Dylan, procuramos quadro a quadro o artistas que achamos conhecer de “Don’t Look Back” e “No direction Home”. Mas como o título diz, ele não está lá. Nem mesmo tenho certeza, após ver o filme algumas vezes que Bob Dylan ao menos exista. Dylan “matou Zimermman”. Será? Outra hipótese que me surge é que Dylan ao ser todos esses personagens criados, acaba por não ser nenhum. Se o modernismo nos trouxe, entre tantas questões a crise da identidade, Dylan é o resumo da impossibilidade de encontrá-la e, criativamente, a exploração de seu potencial.

Assim como Machado de Assis, Dylan é um artista sem passado. A infância e a juventude pouco, ou nada, explica o artista que ele se tornou. Na realidade, o mesmo acontece nas mudanças de estilo, musicalidade a cada fase do artista. Talvez seja isso que Pennybaker tenha percebido em 1966 ao acompanhar sua turnê europeia. De qualquer modo, a história de Dylan começa no exato momento que ele desembarca em Nova York com o objetivo de imergir na música folk. Mas você entende o processo pelo qual Dylan passa a se comportar, mas cerca de cerca anos depois ele abandona a música folk para se tornar um músico próximo ao Blues e ao Rock. Depois da turnê europeia sofre um sério acidente de moto e torna-se recluso, em seguida, volta-se para temas mais próximos do country em “Nashvile Skyline” e “John Wesley Harding”, mas uma coisa explica a outra? Da mesma maneira me pergunto se sua separação explicaria “Blood on the tracks”. Tendo a achar que não. São todos discos muito diferentes e os críticos tentaram durante toda sua obra espelhar as constantes mudanças de abordagem de Dylan em sua biografia, mas me parece mais correto sustentar suas metamorfoses sonoras na inquietação de um artista que não busca produzir obras de entretenimento, mas de explorar a técnica de forma plena com o objetivo de criar obras de arte únicas.

Cada disco de Dylan me soa como a brincadeira de palavras que ele faz em frente da loja. Cada disco ele rearranja a sonoridade, e explora uma forma que já está lá adormecida, produzindo algo inteiramente novo. Mas a cada transformação Dylan me parece soar ainda mais como Dylan, como se todas suas transformações apenas representassem uma fidelidade ao rapaz que escreveu, logo de cara, que os tempos estão mudando.

Mas, alguns acreditam que o artista se perdeu nesse tortuoso caminho que ele se propôs. Outros acreditam ser seus últimos discos tão geniais quanto os anteriores. Mais uma vez recorro à comparação com Picasso, cujas as obras finais ainda causam impressões bastante divididas aos críticos. Certo que nenhum dos dois, assim que a idade avançou, manteve a explosão criativa e inovadora do início de suas carreiras. E talvez esse seja exatamente o fardo dos grandes artistas que viveram seu auge e puderam envelhecer: serão comparados com seu passado. Dylan sobreviveu ao mito do jovem artista revolucionário, como não aconteceu, por exemplo a Rimbaud e Jimi Hendrix. Dylan, ainda, não deixou de produzir (ou, ao menos, não deixou de publicar) como fizeram Salinger e Raduan Nassar.

Encontrou, ainda, uma maneira de permanecer produzindo, mesmo tendo atingindo seu auge tão cedo, sem se tornar uma caricatura de si mesmo ou um retrato envelhecido que um dia foi. Nesse aspecto, talvez seja o artista de longa carreira que se apresenta com mais dignidade ao longo dos anos. Sem executar repetidamente as mesmas músicas e arranjos ao longo dos anos, pode não agradar totalmente o seu público, mas é inegável sua posição como artista único.

Nascido em Breslau em 1897, Norbert Elias ficou conhecido como um dos sociólogos mais importantes do século XX, tendo também estudado medicina, filosofia e psicologia. Saído da Alemanha nazista em 1933 – era judeu – morou na França e Inglaterra, onde lecionou na Universidade de Leicester (1945-62). Sua família não teve a mesma sorte em conseguir se retirar da Alemanha; sua mãe morreu em 1941 em Auschwitz e seu pai em 1940, em Breslau. Elias foi um dos precursores da chamada sociologia figuracional, ramo da sociologia que estuda as relações humanas como um processo, examinando o aparecimento de configurações sociais como um não esperado resultado da interação social.

A obra mais conhecida de Elias, O processo civilizador, foi publicada em 1939, mas acabou ficando mundialmente conhecida apenas na década de 1970. Em tal texto, Elias analisa os efeitos da formação do Estado moderno sobre os costumes e a moral individual, desta forma, relaciona como o viver em sociedade transforma a coação externa em coação interna ao longo de determinado tempo. Em Sobre o tempo, o autor afirma que o tempo não existe em si, porém é uma criação do processo civilizador, sendo transformado, portanto, em um símbolo social. Estudando a história alemã desde o século XVII até a segunda guerra, e como o regime nazista chegou ao poder, Elias pensa a personalidade, o comportamento e a estrutura social da população da Alemanha, estudo este que daria origem a seu livro Os alemães. Por último, vale ressaltarmos o texto Os estabelecidos e os outsiders, no qual o sociólogo pensa nas estruturas de relações de poder através de uma pequena comunidade. Fizemos um apanhado muito superficial de alguns textos de Norbert Elias, todavia vale ainda ressaltar os seguintes: A peregrinação de Watteau à Ilha do Amor, A sociedade de corte, A sociedade dos indivíduos e A solidão dos moribundos, além, é claro, de Norbert Elias por ele mesmo.

ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1995. Em Mozart, sociologia de um gênio, Elias analisa a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart e a relação desta vida e produção artística com o contexto social vivido, ou seja, a Áustria do século XVIII. Elias faleceu em 1990 e não pode conferir a preparação do livro, mas concordou com a possibilidade de reunir os seus escritos acerca do compositor. E mais, sugeriu o título, reconhecendo o possível livro como seu, desta forma, a obra que resenhamos foi organizada por Michael Schröter e publicada no ano de 1991, o que não tem a menor ligação com as comemorações do bicentenário de  Mozart, que ocorreria também em 1991.

Selecionamos trechos importantes para a resenha, começando com o capítulo nomeado Músicos burgueses na sociedade de corte. Logo no início Elias faz uma afirmação importante: “Mozart só emerge claramente como um ser humano quando seus desejos são considerados no contexto de seu tempo” (p. 15), tal afirmação é interessante, uma vez que Elias analisa diretamente o desejo humano – criador de obras artísticas – com a contextualização histórica e mais, insere as grandes produções do espírito humano no contexto de crise (conflito) social. Mas qual seria o resultado alcançado por Elias ao analisar a vida de Mozart? O autor percebe a produção mozartiana dentro do gosto da corte, dessa forma, pensa o destino de um burguês, como Mozart, a serviço da aristocracia. Portanto é impossível compreender a formação de Mozart sem pensarmos na forma que o político e o social tinham na época, analisando, assim, todas as pressões que o indivíduo sofre da rede de sociabilidade, o que identifica o subtítulo do livro.

O autor sugere que a maior parte das pessoas que trabalhavam com música eram de origem não-nobre (ou burguesa como chama Elias, mesmo não agradando a tal autor utilizar conceituações gerais), porém, obrigados economicamente a trabalhar com a corte para desenvolverem suas produções. Desta forma, a distância social entre burgueses e aristocratas era grande, mas a espacial muito pequena, e os compositores, como Mozart, eram obrigados a seguir o gosto dominante, não apenas musical mas também todas as suas caracterizações enquanto pessoas: hábitos, costumes, vestimentas, entre outros, logo, não existia apenas uma nobreza de corte mas também uma burguesia de corte. Portanto, é analisada, comparativamente, a prática composicional mozartiana com os antigos ofícios artesanais, mantendo-se a “agudíssima desigualdade social entre produtor da arte e patrono” (p. 26). O último ponto importante do trecho Músicos burgueses na sociedade de corte é a análise que Elias faz das formas que os Estados possuíam na Europa: a Alemanha e a Itália estavam divididas em vários pequenos territórios, cada qual com seu círculo nobre próprio, diferentemente da Inglaterra e da França que possuíam suas nobrezas “unificadas”. Estar no núcleo germânico, portanto, possibilitava aos compositores a tentativa de troca de região visando melhores condições de trabalhos e maior reconhecimento. Da mesma forma, na Inglaterra e na França existia uma maior aproximação entre a burguesia e a nobreza historicamente adaptadas entre si, diferentemente dos Estados germânicos e italianos.

A relação entre o núcleo nobre estabelecido e um burguês compositor como Mozart (Outsider) gera uma necessidade de adaptabilidade das formas composicionais. Assim sendo, Elias pensará as duas possibilidades de formas artísticas: a arte de artesão e a arte de artista.

Elias identifica a arte de artista com aquela que é feita de uma forma autônoma e voltada para um público anônimo, porém, no geral, de mesma classe sócio-econômica de seu produtor, como é o caso dos românticos em geral. Já a arte de artesão (ou de corte) é aquela feita por uma classe subalterna ao molde da nomeada classe dominante, como é o caso de Mozart e de grande parte do Classicismo. Elias vai além, identificando Ludwig van Beethoven como um possível compositor que estava presente nos dois campos composicionais. Logo, a forma com que Mozart escreve, segundo Elias, tende ao gosto dominante, cortês e aristocrático, mesmo com os conflitos do compositor com as famílias nobres e com as formas eclesiásticas e, dessa forma, pensa-se na perda de autonomia sofrida.

Outro ponto de análise importante é o capítulo nomeado O artista no ser humano. Neste capítulo, Elias faz uma análise psico-social, demonstrando que tradicionalmente se separa o indivíduo artista do indivíduo homem, o que se constitui numa separação enganadora. Contudo, o autor admite a dificuldade de se demonstrar onde começa o artista e onde termina o homem ou mesmo onde os dois interagem ou se afastam, mas se convence da necessidade de não se separar as duas qualidades no indivíduo, sendo necessário, portanto, a análise do gênio juntamente com a da sociedade, transformando a genialidade em fato social. Analisando a idéia de talento inato, Elias chega a Leopold Mozart, pai de Wolfgang e passa a compreender como o núcleo social deste influenciou na sua própria formação intelectual, cultural e, principalmente, composicional. Essas análises psico-sociais a que Elias se propõe devem-se também aos pioneiros estudos que Freud empreendeu na primeira metade do século XX, influenciando toda uma geração de autores, principalmente historiadores e sociólogos, bem como antropólogos.

Continuamente ao estudo psico-social, Elias começa a mesclar análises psicológicas com culturais no capítulo A juventude de Mozart e logo passa a perceber as singularidades humorísticas da época. O sociólogo cita uma série de piadas feitas por Mozart a seus pares que passaram a ser tratadas como tabus após o processo de civilização. Essas chacotas, no geral, eram relacionadas a temas sexuais, mais especificamente temas relacionados a várias áreas sexuais do corpo humano. Tais piadas eram, na leitura de Elias, uma estrutura de personalidade contra a ordem estabelecida. Todavia, Mozart sabia exatamente onde eram permitidas e onde não eram, uma vez que circulava nos dois mundos sociais – o círculo aristocrático da corte e o não-cortesão de sua origem. Logo, essa divisão de formas de tratamento acaba se transformando em estrutura de personalidade ao longo do tempo e passa a se reproduzir automaticamente. O humor de Mozart então passa a ser considerado um exemplo do humor “pequeno-burguês” do período. Vale a pena lembrarmos que Norbert Elias não gosta de conceituações como “pequeno-burguês”, porém utiliza tais recursos conceituais para exemplificações.

Compreendendo as análises feitas por Elias, percebemos que a obra apresenta desencontros entre a teoria sociológica utilizada e a cronologia da personagem estudada. Os capítulos vão se mesclando entre teoria e prática, o que pode dificultar o entendimento daqueles que desconhecem a vida e/ou o contexto social, político, cultural e econômico de Mozart. Porém, mesmo com essa dificuldade de leitura, de fácil resolução vale ressaltar, a obra aqui resenhada é uma das mais originais do autor. Nela, ocorre nitidamente uma junção de teoria social e análise da prática artística no século XVIII. Pensando Mozart socialmente e identificando nesta personagem um posicionamento sócio-político, o sociólogo alemão percebeu uma dinâmica social no campo artístico não percebida anteriormente, desta forma, consideramos o texto como fundante da teoria sociológica figurativa no estudo artístico.

Não vi o show no Rio de Janeiro, apenas li sobre e vi as fotos. Descobri que os cariocas tiveram meia hora a mais que os paulistas. O local também não favoreceu São Paulo, e nem foi porque choveu, trazendo o frio e a lama, mas porque era um espaço grande demais, com um público diverso demais, para um som minucioso demais.  A iluminação também não ajudou, os vídeos que ficavam ao fundo eram lindos, mas as luzes foram posicionadas de tal forma que não se via a banda, só a silhueta dos músicos. Ainda assim, eles encantaram!

[Duas ressalvas importantes: não posso esconder que sou um admirador exaltado dos caras; outra, eu estive no show deles na Chácara do Jóquei, no entanto, vocês não podem confiar na minha visão turva e extremamente comprometida sobre os fatos, afinal, só estar lá já foi tão incrível, que a maioria dos comentários é de fã perante o ídolo].

Trata-se do Air, uma grande banda de dois caras (Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin), que só agora em outubro, com quinze anos de estrada e nove discos, vieram ao Brasil pela primeira vez. Não que não se houvesse tentado antes, segundo matéria publicada no Estadão: “Por mais de 10 anos, uma dezena de festivais nacionais tentou trazer o grupo ao Brasil”.

Se você ainda não sabe de quem se trata, vai a melhor dica: nos anos noventa, eles apareceram com o aclamado Moon Safari – disco clássico, que sempre figura na lista de álbuns essenciais –, cujo maior sucesso, sem dúvida, foi uma música que repetia , num tom robótico e, ainda assim, sensual, a frase: “Sexyyyyy Boyyyyyyyyyyyyy”.

Inicialmente, eles fariam três shows, dia 14 no Circo Voador, no Rio; dia 15, no Chevrolet Hall, em Belo Horizonte; e, por fim, dia 16, no Festival Natura Nós, na Chácara do Jóquei, em São Paulo. Os mineiros acabaram não vendo, na internet, diz-se que foi por conta da baixa venda de ingressos.

Certo, mas voltemos para parte que eu sei: São Paulo. Eles estavam programados para as 19 horas. Assim, vieram antes: o Marcelo Jeneci com a Tulipa Ruiz; o Cidadão Instigado; a Karina Buhr (a qual não conhecia, mas fez um show muito interessante. Gostaria de vê-la de novo); e a Vanessa da Mata.

Quando a “musa da floresta” entrou, havia pouca gente, menos, inclusive, que a quantidade de nuvens negras no céu. Dito e feito. No meio do show, veio a água. Muita água. Capas de chuva pra que te quero – lucrou quem as estava vendendo por dez reais. Vanessa não resistiu, alterou o set e cantou Joãozinho, seguida de Ai, Ai, Ai, ambas que tudo têm a ver com chuva. Ela rodava com o vestido molhado, batia os pés nas poças formadas no palco, o cabelo murchava e ela não estava nem ligando. Nem o público, que já estava encharcado e prestes a ficar todo sujo de lama, arredou o pé.

Vanessa saiu e no outro palco veio Céu. Sensual como sempre, trouxe canções do disco novo, cantou Mora na Filosofia e se dizia encantada pelo público ensopado que não parava de cantar seus sucessos. Bem, só na metade da apresentação dela, parou de chover. Quando já sinalizava que ia encerrar o show, em algum lugar entre Cangote e Nascente, veio a dica: hora de se posicionar para ver o Air!

Em ponto, começaram com Do The Joy, do disco de 2009, Love 2. Em seguida, as cálidas Love, Remember e Venus. Estava bem na frente, na verdade, no limite colocado entre quem comprou os ingressos mais baratos (eu, por exemplo) e quem estava na área VIP (o elenco de Passione, que tinha ido gravar umas cenas durante o show da Vanessa da Mata, por exemplo), e, ainda assim, não tinha visto os caras direito, só no telão. Tudo isso, por causa das luzes que falei lá no início.

Então, veio Tropical Disease, música que, segundo li numa entrevista que o duo concedeu pro G1, foi inspirada no Brasil. Essa, seguida pela incrível versão de Don’t Be Light, deu outro ritmo ao show, saindo do intimismo das primeiras melodias e indo para o lisérgico, reforçado pelas luzes e cores utilizadas nos vídeos de fundo.

Depois, momento de se emocionar com Cherry Blossom Girl, uma das poucas músicas apresentadas que possuíam letra. As outras, em sua maioria, encantavam pelos barulhinhos e repetições de palavras.

Vieram: a agitada (em clima de espionagem) Be a Bee; o hit (meio balada) How Does It Make You Feel?; e a assobiante Alpha, Beta, Gaga. Pronto, foi aí que tocaram o que todos, ou quase todos, estavam esperando: Kelly Watch The Stars e Sexy Boy.

Nessas duas, gregos, troianos, fãs de Gaga ou AC/DC, mesmo que com um discreto movimento nos pés ou nos ombros, acompanhavam o ritmo onírico-hipnótico. Certo, eu confesso, viajei muito quando, em Kelly Watch The Stars, colocaram o vídeo de um céu totalmente estrelado.

Nessa hora, a última música já se anunciava, La femme d’argent. Foi aí que caiu do céu, ou melhor, do pescoço de minha amiga, uma credencial de imprensa que me levou diretamente para perto do palco. Olhos grudados, consegui ver bem o estilo da banda – os dois vestidos de branco, com camisas e calças sociais. Mas nessa hora, já estava tão extasiado, que já não reparava em nada específico, além do que, a versão de La femme d’argent ficou tão boa, numa levada tão psicodélica (e pesada), que o lance era embarcar.

Tudo acabou em muito aplauso. Ouvi pessoas dizerem que tinha valido muito a pena; que tinha sido incrível; que eles arrasaram; que eram muito bons; na área VIP, alguns berravam para Jean-Benoît e Nicolas toda a felicidade por presenciar àquele espetáculo.

Não tocaram Talisman; Surfing On A Rocket; nem Le Soleil Est Près de Moi; músicas que eu realmente queria ouvir.  A platéia, em sua maioria e, na maior parte do tempo, ficou blasé. Não teve bis. Mesmo assim, o show acabou e eu ainda estava eufórico. E, pelo visto, os jornalistas também. Findos a chuva, o frio e a ressaca, mas ainda em São Paulo, corri às notícias para saber como tinha sido a passagem do Air pelo Brasil, avaliavam bem.

Resumo da Ópera: ao todo, o Air tocou, nesses quinze anos de banda, apenas duas horas e meia em solo brasileiro. Trouxe uma apresentação que misturou canções de diversos discos, felizmente (ia ser um tiro no pé apresentar canções só do Love 2, disco que é apenas interessante). Encantou, com a beleza e cuidado no som, com suas vozes robóticas e seu estilo peculiar, um retrô-futurista. No mais, desculpe aos que detestaram, eu amei a noite de amor, imaginação e sonho, mesmo reconhecendo que o Jamiroquai, que encerrou o primeiro dia do festival, literalmente arrasou!

Sintomas do sujeito pós-moderno (parte 2 de 2).

O filósofo e ensaísta brasileiro Sérgio Paulo Rouanet aponta em seu estudo As Razões do Iluminismo (1987), que o prefixo pós tem muito mais o sentido de exorcizar o velho (neste contexto, a modernidade) do que de articular o novo, o vindouro (o pós-moderno). Ou seja, o que há de fato é uma “consciência de ruptura”, que o autor não considera uma “ruptura real”.

Segundo ele, “depois da experiência de duas guerras mundiais, depois de Auschwitz e Hiroshima, vivendo num mundo ameaçado pela aniquilação atômica, pela ressurreição dos velhos fanatismos políticos e religiosos e pela degradação dos ecossistemas, o homem contemporâneo se cansou da modernidade” (ROUANET, 1987). Todos esses males, ainda segundo o filósofo, são atribuídos ao mundo moderno e a sua avassaladora necessidade de reinvenção. Essa atitude de rejeição se traduz na convicção de que o mundo está transitando para um novo paradigma. O desejo de ruptura leva à convicção de que essa ruptura efetivamente já ocorreu, ou está em vias de ocorrer. O pós-moderno, assim, se afigura muito mais como o cansaço tardio de uma época que pareceu extinguir-se sem ter alcançado seu apogeu do que o despontar de um novo começo que prima pela inclinação ao ineditismo. A consciência pós-moderna não corresponde, portanto, a uma realidade pós-moderna. Nesse sentido, ela é caracterizada como um simples mal-estar da modernidade, um sonho da modernidade.

Ao analisar os sintomas desta pós-modernidade imperfeita, Rouanet se arrisca em fazer uma psicopatologização ao considerar, em primeiro lugar, o moderno como essencialmente contraditório. Em segundo lugar, ao apontar que a sociedade contemporânea, em seu cerne, favorece o surgimento de um hedonismo característico, (todos passam a buscar o prazer pelo prazer, num incessante círculo de repetições, pois tudo o que conta é a satisfação pessoal) socializado pela mídia e, de certa forma, respondido por esta mesma coletividade como sintoma da chamada “sociedade do espetáculo”.

Nesta sociedade de valores massificados, especialmente no que respeita à cultura ocidental, a visibilidade dos aspectos particulares assumiu um caráter obsceno quando passou a excluir quase que completamente a dimensão da subjetividade e da privacidade das pessoas. Ou seja, com o alastramento dos meios de comunicação, anulou-se a dimensão do privado, tornando “tudo e todos” público, desde o cotidiano dos ansiosos por fama e ex-anônimos de programas midiáticos similares ao Big Brother, aos já famosos que figuram em revistas de frivolidades, como a Caras. Também se incluiu nesta categorização os rituais histéricos e cada vez mais midiáticos de evangélicos, carismáticos católicos e islâmicos, que se vendem para a televisão usando como desculpa a pregação de “causas justas” aos miseráveis, igualmente noticiados e fotografados por decorrência de algum fato merecedor da atenção jornalística.

Dada esta extrapolação da privacidade e de sua utilização como moeda de troca, os sintomas do hedonismo na sociedade pós-moderna passaram a operar através de mecanismos de promoção da visibilidade do que era privado, como se decretando o fim do segredo ou o fim da intimidade.

Durante a era moderna a “doença do século” era a histeria. Uma vez incapaz de suportar tanta repressão, o sujeito moderno teatralizava-se, representava-se enquanto ser contextualizado para escapar do embate endopsíquico. Graças a este sintoma, Sigmund Freud fundamentou sua psicanálise. Na era pós-moderna, entretanto, este mal-estar se apresenta de forma mais complexa, uma vez que os anseios individuais se diluem no caldo do disfarce coletivo, criando uma falsa sensação de que “tudo está bem”. O mal-estar pós-moderno é, portanto, visível e banal, expressado através da linguagem do cotidiano e do trabalho compulsivo, excessivo, quase sempre vendido como se fosse “lazer” ou “ócio criativo”. E, uma vez incorporado, este processo leva a uma série de problemas que acaba se tornando inerente ao sujeito pós-moderno, como o estresse, a perversão, a depressão, o sedentarismo e o tédio.

Colocando a questão em termos de patologia social, a pós-modernidade fez surgir, com seu neoliberalismo desenfreado, coisas contraditórias, como as indústrias e a crise de empregabilidade ou a abertura econômica e a escassez monetária; se por um lado temos a ciência mercadológica e a alta tecnologia, por outro, temos a multiplicação da população pobre e as guerras racionais. Na contemporaneidade, a perversão ganha ares de grandeza e se vê livre para manifestar-se em diversas formas, seja travestida de violência urbana, seja no terrorismo, nas guerras ideologicamente consideradas “justas” e “limpas” ou nas guerras “cirúrgicas”. A razão cínica é cada vez mais instrumentalizada. Não basta ser transgressivo, ou perverso ou mesmo imoral; é preciso se construir uma justificativa “moral” e, portanto, passível de aceitação, para atos de imoralidade e perversão.

Assim, na contemporaneidade pós-moderna, a perversão e o estresse tornaram-se sintomas resultantes da falta de lei, da falta de tempo e da falta de perspectiva de futuro, contraditoriamente refletido no sistemático abandono do passado.

Citando novamente Jameson, “a sociedade contemporânea é regida, mais do que tudo, pela ânsia e necessidade de “espetáculo”; ela exige o prazer imediato a qualquer preço, mesmo que para isso tenha que se valer de praticamente tudo, até mesmo abdicar de sua individualidade” (JAMESON, 1991). Enquanto inseridos socialmente, todos se sentem na obrigação de se divertir, de aproveitar cada momento e de trabalhar muito para ter dinheiro ou prestígio social, não importando os limites de si próprio ou dos outros.

Para Jameson, a lógica cultural do capitalismo tardio frente à sociedade do consumo está organizada sobre a tríade “pastiche — nostalgia — morte do sujeito”, que permite ao homem pós-moderno “sentir a especificidade da experiência pós-modernista do espaço e do tempo”. Neste contexto, o “pastiche” (mescla que vários gêneros artísticos para a criação de um novo conceito, cujas características são distintas dos originais) assume-se como a representação alegórica da pós-modernidade, uma vez que adota as qualidades de uma máscara estilística de reiteração – como reprodução e sobreposição de estilos, mas esvaziada de conteúdo – condizente com o segundo pilar da tríade, a “nostalgia”, essa tomada como resgate de um passado nada ameaçador, embora instigante, que ofusca a relação humana com o seu presente histórico. Dessa forma, o homem contemporâneo se vê mutilado de sua autonomia, liberdade criativa e potência revolucionária, passando a mover-se no mundo sem procurar extrair dele a mais ínfima mudança sequer. Este último sintoma pós-modernista Jameson denomina como a “morte do sujeito”.

A arte pós-moderna.

De modo geral, a arte contemporânea se apresenta como um produto de concepção multifacetada e abrangente, representação do homem moderno e de sua dissolubilidade em meio aos múltiplos canais de comunicação de massa. Numa sociedade em que o impulso e a espontaneidade superam a razão e a necessidade de sociabilização é direcionada para o consumo, os objetos de mercado se revelam personalizados e estetizados, convertendo numa espécie de simulacro o mundo real, mundo este que agora se encontra desmaterializado. O comportamento dos grupos sociais, em consequência, passou a ser orientado pelos mecanismos de comunicação de massa, que vieram substituir em grande medida os contatos sociais. Mesmo entre o grupo familial ou de convívio próximo, a massificação da comunicação já se faz enormemente presente — quem nunca se utilizou de programas de mensagens, como o MSN, torpedos ou fez uso do celular para falar com um vizinho, amigo ou com um parente que se encontra no cômodo contíguo?

A partir dessa homogeneização dos sentimentos individuais, foram criados fatos, valores e necessidades que serviram de alimento para a estrutura econômica de uma sociedade agora globalizada. O desenvolvimento tecnológico e seus tentáculos que a tudo alcança e enlaça só acrescentou novos elementos à transformação do homem e de sua convivência em sociedade.

Como característica desta arte pós-moderna, tem-se a reificação ou coisificação (conceito marxista que prega a transformação do homem ou da arte em mercadoria, em simples objeto de consumo) da condição criativa, a apresentação da arte descontinuada, alusiva à negação da historicidade, a quebra da sequência estrutural, uma vez que ela não se fia mais na linearidade, nem busca no passado sua base de sustentação, e sua pasteurização, ao se utilizar de todas as formas de linguagens, incorporando num mesmo contexto fragmentos de diversos artistas, estilos e épocas. Neste aspecto, a literatura passou a utilizar o que se convencionou chamar de intertextualidade, ou seja, num mesmo texto há a simultaneidade de cenas, desde a imitação de procedimentos próprios do cinema moderno inseridos na leitura à introdução, na prosa, de técnicas de construção de poemas e a inclusão de posicionamentos autocríticos na composição do texto. Enfim, pastiche!

Um traço tipicamente pós-moderno presente em todas as modalidades artísticas contemporâneas é a tendência a eliminar as fronteiras entre a arte erudita e a arte popular como forma de valorização desta última e seu direcionamento para o consumo da cultura de massa. Diluem-se também os critérios tradicionais de definição da estética.

Na obra Pós-Modernismo e literatura, de 1988, Domício Proença Filho aponta algumas daquelas que considera como as características mais significativas das literaturas pós-modernistas, entre as quais figuram a intensificação do lúdico, do experimentalismo e do pastiche; a utilização deliberada da intertextualidade; a mistura de estilos; o exercício da metalinguagem (a linguagem falando de si mesma); o alegórico, o hiper-real e o metonímico; o texto fragmentado; o centramento na linguagem; a exaltação do prazer e a presença do humor. Assim, a pós-modernidade literária tem seu arcabouço centrado na visão cética do mundo, da arte, da vida, do sentimento e da própria ciência teórica, que foi levada a cabo pelo advento das ciências experimentais objetivas. Torna-se, portanto, uma espécie de anti-ideologia por encarar o fim do processo histórico, o fim das lutas de classe, o fim de um ponto em si mesma. É, em suma, a ausência de motivos. Ela buscou no advento da comunicação de massa novas formas de mídia e veiculação, aproximando-se da arte de cunho mais popular. Neste momento, existe uma adequação aos padrões da “Indústria Cultural”, onde a literatura essencialmente deixa de possuir alteridade; neste cruzamento de intencionalidades, a literatura no Brasil passou a ser vinculada ao mercado editorial, deixando de lado a premissa do estado como mentor e provedor.

A proximidade com outros meios de comunicação social criou no mundo midiático a possibilidade de os gêneros mesclarem-se e darem vazão a um novo produto-arte, porém descaracterizados da sua conceitualização antiga. A palavra passa a dialogar com a imagem, com o som, com o movimento e este com conceitos de outras naturezas, como a Internet, a televisão e a revista cultural. Todas estas variações formam uma única e grande colcha de retalhos, representativa do mass media globalizado. Ao analisar esta rede global massificada, Frederic Jamesom argumenta que o homem contemporâneo “vive em um período de fetichismo visual”.

Essa necessidade de observação-contemplação criou no sujeito moderno uma nova gama de sentimentos, como a valorização da subjetividade pessoal e o não comprometimento com o item universal ou com a causa estética. O prazer passou a ter significado através do ato de se expor, na função expressionista do indivíduo enquanto objeto passível de observação, extremamente autobiográfico, particular e egocêntrico. Agora comprometido com a identidade e com a satisfação do seu próprio eu, o artista pós-moderno fez com que todo um universo de significados sofresse uma inversão de valores, mudasse de lado: antes habitante do texto, tais significações passaram a se incorporar ao autor. A obra literária, então, ganhou ares de portal para a possibilidade de o autor travar contato com o leitor, criar um diálogo bidirecional, uma proximidade.

Para tanto, a literatura pós-moderna abdicou de todos os conceitos das correntes que a precederam, tornando-se desfragmentada quanto ao gênero narrativo. Também aboliu o núcleo do enredo e da estrutura clássica romanesca, distanciando-se do cânone clássico e passando a se utilizar do narrador multifocal. Da concepção romantizada (da estética romântica) ou idealista (oriunda do modernismo), a personagem pós-moderna tornou-se intrusa e ausente, desprovida de passado e história, situada unicamente no presente que lhe condiciona o tema. Falta, ainda, a definição do código e da mensagem da obra e a criação literária passou a celebrar a prática da “bricolagem” (trabalho de colagem de textos ou extratextos dentro do processo criativo, algo que se aproxima, em certa medida, da ideia de hipertexto. Na prática pós-modernista, é a transformação ou estilização de materiais preexistentes em novos trabalhos (não necessariamente originais)) e do diário como forma de realocação do ser dentro do amplo espaço da cultura global de massa.

As faces da pós-modernidade literária no Brasil.

O Pós-Modernismo no Brasil assumiu várias facetas dentro da produção literária, notadamente em relação à prosa.  Enquanto o Concretismo (movimento vanguardista surgido nos idos de 1950, inicialmente na música e depois na poesia e nas artes plásticas, que defendia a racionalidade e rejeitava o expressionismo, o acaso, a abstração lírica e aleatória do fazer artístico) consolidava suas características na poesia, a prosa pós-modernista seguia por diferentes estilos, marcada por tendências diversas, como a regionalista, a urbana, a intimista, a política e realista-fantástica, além de crônicas e contos.

Na poesia, o maior destaque brasileiro deste movimento é o pernambucano João Cabral de Melo Neto. O autor, sempre perseguindo o viés da razão em suas obras, acabou inaugurando um novo jeito de fazer poesia. A essência de sua criação literária mostra uma tentativa de desvendar os elementos concretos da realidade, que se afiguram desafiadores para o poeta. Sempre guiado pelo raciocínio lógico, seus poemas evitam o subjetivismo poético e se voltam para a realidade do mundo, para a verificação dos objetos, das paisagens, dos fatos sociais e suas consequências, sem jamais cair na senda do sentimentalismo.

Já na prosa, o Brasil produziu uma quantidade considerável de grandes obras, abordando estilos e temas os mais diferentes. A literatura regionalista pós-modernista, uma das correntes mais notórias, deu ênfase ao âmbito rural, trazendo para a ficção a exposição de costumes locais e a crítica político-social. Autores como Mário Palmério, Ariano Suassuna, José Cândido de Carvalho e Josué Montello apresentaram ao Brasil urbano o homem do campo, aprofundando-se na psicologia da roça, na riqueza cultural sertaneja e na sua multiplicidade de crenças. Como mais destacado representante desta corrente, tem-se o escritor João Guimarães Rosa. Embora de caráter regionalista, a obra rosiana supera o chamado regionalismo tradicional, uma vez que ora idealiza o sertanejo, ora se compraz com seus aspectos meramente pitorescos, com o realismo documental ou com a transcrição da linguagem popular e coloquial. A obra rosiana apresenta-se dona de uma riqueza de linguagem que a tornam única, além de seu caráter universal no que respeita às questões morais e metafísicas. Criador de uma prosa única, Guimarães Rosa estilizou o linguajar do sertanejo, recriou ou inventou novos vocábulos, mesclou arcaísmos com a fala erudita, conceitualizou o popular e o moderno tecendo, a partir daí, uma nova linguagem na qual estão inseridas as indagações universais do homem: o sentido de vida e morte, a existência-inexistência do bem e do mal, o significado do amor, do ódio e de muitas outras dúvidas que afligem tanto o homem cosmopolita quanto o sertanejo.

Na prosa intimista, outra vertente da ficção pós-modernista nacional, os autores se voltaram para a exploração psicológica das personagens, e, dentre os maiores destaques, tem-se nomes como Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Nélida Piñon, Ivan Ângelo e Raduan Nassar.

A prosa urbana traz em sua denominação muito do que ela representa, ou seja, é uma narrativa direcionada à denúncia dos problemas das grandes cidades, notadamente nos aspectos social e político. Retrata a chegada do progresso e suas influências nocivas nas relações humanas, posto que, junto a ele, chegaram atreladas a solidão, a marginalidade e a violência. Dentre os autores que exploraram esta vertente da criação literária, tem-se Rubem Fonseca, João Antônio, Luiz Vilela, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão.

A prosa política, dentro da concepção pós-moderna, é uma literatura que mostra os fatos sociais diante da censura aos meios de comunicação de massa iniciada, aqui no Brasil, no começo de 1964, com a repressão militar. O que o jornal não podia mostrar, a literatura narrava através do romance-reportagem (obras de denúncia dos abusos de poder disfarçada em linguagem jornalística) e do realismo fantástico (obras de denúncia baseadas em situações fictícias, absurdas, como meio de satirizar a situação do país).  Entre os autores da prosa política, vale destacar Antonio Callado, Roberto Drummond, José Louzeiro, Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro, Ivan Ângelo, Murilo Rubião, José J. Veiga e Moacyr Scliar.

Murilo Rubião foi, inclusive, o primeiro autor brasileiro a trabalhar a temática do fantástico na literatura, ainda nos idos de 1940. Sua ficção, eminentemente contista, perpassa os problemas do homem moderno colocando-o sob a ótima do lúdico. Na prosa rubiana, o cotidiano banal ganha ares de fantástico para denunciar e, a cima de tudo, evidenciar, a incapacidade do homem de se situar enquanto ser social.

A partir da década de 1980, outros estilos literários, como a ficção especulativa (a ficção científica, a fantasia e o horror) e a literatura de entretenimento (romances considerados rasos, geralmente escritos para o grande público), ganharam fôlego e corpo — além das prateleiras das livrarias e os meios de comunicação — evidenciando mais uma etapa do longo processo de desdobramento da contemporaneidade artístico-cultural.

E, seja na poesia, na prosa ou nas artes visuais, o pós-modernismo encontrou na figura do homem moderno sua razão de ser. Através da arte-questionadora ou da arte-espetáculo, cada artista procura, à sua maneira, traçar um panorama dos rumos que a cultura tomou — e ainda está tomando — nestes dias de aldeia global, onde o individual, o particular e o autóctone passaram a ter um significado bastante relativo.

Para saber mais (artigo – parte 02):

* JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (trad. Maria Elisa Cevasco). São Paulo: Editora Ática, 2004.

* ROUANET, Sérgio Paulo. As Razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

* FILHO, Domício Proença. Pós-Modernismo e literatura. São Paulo: Ática, 1988.

A Pós-modernidade (parte 1 de 2).

Sempre que se fala em inquietações artísticas e/ou movimentos de vanguarda, a primeira lembrança que nos vem à mente é a Europa — notadamente países como França, Itália, Alemanha e Grã-Bretanha, ou, mais recentemente, os Estados Unidos — como berço de tais manifestações. Porém, nem todas elas se originaram no velho continente ou na eminente potência econômica do outro lado do Atlântico. O Pós-Modernismo, movimento atualmente em voga, foi um deles. Surgido pela primeira vez na década de 1930, o conceito de pós-modernidade teve seu lugar de origem no mundo hispânico, uma geração antes de seu aparecimento na Inglaterra ou nos EUA. Na obra As Origens da Pós-Modernidade (1999), Perry Anderson, historiador e professor de História e Sociologia da Universidade da Califórnia, cujo trabalho se destaca pelo estudo dos fenômenos culturais e políticos contemporâneos, relata que foi Frederico de Onís, um amigo dos poetas e pensadores espanhóis Miguel de Unamuno e José Ortega, quem imprimiu o termo pela primeira vez, embora como meio de descrever um refluxo conservador dentro da própria corrente modernista então vigente. E, uma vez apresentado o termo e sua ideia geral, coube ao filósofo francês Jean-François Lyotard, em sua publicação A Condição Pós-Moderna, de 1979, a expansão do uso do conceito.

Em sua origem, o pós-modernismo trouxe uma série de novos conceitos que englobavam desde a perda da historicidade ao fim das metanarrativas (obra que assume o sentido de uma grande narrativa, de nível superior, capaz de explicar todo o conhecimento existente ou de representar uma verdade absoluta sobre o universo. Livros sagrados, como a Bíblia e o Alcorão, ou obras como “Ulysses”, de James Joyce e “O Capital”, de Karl Marx, são exemplos de metanarrativas), o que, no campo estético, significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da fronteira entre alta cultura e cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado, comumente praticada nas correntes literárias anteriores.

Como fatores determinantes de seu surgimento, podem ser apontadas algumas das características predominantemente surgidas no decorrer do século XX, tais como o boom dos meios de comunicação e a propensão do homem pós-moderno em se deixar dominar por seus inúmeros tentáculos; a colonização do nosso universo, até então particular, pelos mercados, seja ele econômico, político, cultural ou social; a celebração exacerbada do consumo como modo de expressão pessoal; a pluralidade e pouco aprofundamento cultural; a polarização social e a falência das grandes narrativas como fomentadora da consciência e do aprofundamento individual.

A Pós-modernidade, em contraponto à corrente literária que a precedeu, a Modernidade, recobre todos esses fenômenos conduzindo, em um único e mesmo movimento, a uma lógica cultural que valoriza o relativismo e a indiferença, a um conjunto de processos intelectuais flutuantes e indeterminados, a uma configuração de traços sociais que significaria a erupção de um movimento de descontinuidade da condição moderna, ou seja, mudanças dos sistemas produtivos e crise do trabalho, eclipse da historicidade, crise do individualismo e onipresença da cultura narcisista de massa. Em outras palavras, a pós-modernidade primou pelo predomínio do instantâneo, da perda de fronteiras, gerando a ideia de que o mundo está cada vez menor através do avanço da tecnologia, deixando-nos diante de um mundo virtual, onde imagem, som e texto são produzidos em velocidade instantânea.

A Ruptura com o Passado.

Na obra A Condição Pós-moderna, de 1979, além de anunciar o eclipse de todas as narrativas grandiosas, Lyotard procura garantir também e principalmente a morte daquilo que, para ele, representava um passado que não tinha mais razão de ser, notadamente correntes como o socialismo clássico e o marxismo. A esta “lista de negações de modelos arcaicos”, o filósofo francês também incluiu outras tantas, como a redenção cristã, o progresso iluminista, o espírito hegeliano, a unidade romântica, o racismo nazista e o equilíbrio econômico. Assim, o discurso pós-moderno lyotardiano passou a rejeitar não apenas a teoria totalizante do socialismo clássico e do marxismo, mas também a de qualquer outra filosofia da história baseada em noções de causalidade, em soluções absolutas que a tudo englobavam a respeito do destino humano — surgindo daí, a necessidade de abandono das metanarrativas. Essa rejeição das noções de totalidade e das narrativas mestras significou também a rejeição dos fundamentos do princípio do ser, da ontologia que elas pressupõem.

Segundo esta linha de pensamento, não existe, portanto, um único e extenso fio condutor capaz de dar inteligibilidade à história, nenhuma ligação intrínseca entre os acontecimentos, posto que não há uma história apenas, indissociável, mas uma série de pequenas histórias fragmentadas, particulares. Para Lyotard, ao invés da narrativa grandiloquente, o que se tem é uma pluralidade de narrativas não passíveis de serem apreendidas sob uma única lógica, um único prisma. Não há uma história somente, porque não há nenhum sujeito — seja ele individual ou coletivo, teórico ou prático — que a atravesse totalmente e que tenha uma condição primordial a realizar neste percurso, como uma espécie de narrador onisciente. Dada esta condição, não é possível observar, consequentemente, uma continuidade na história.

A obra Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (1991), do norte-americano Fredric Jameson, um dos mais reconhecidos debatedores deste movimento, assinala que a superposição entre as teorias do pós-modernismo e as generalizações sociológicas tem por meta o anúncio de um tipo novo de sociedade, mais conhecida pela alcunha de “sociedade pós-industrial”. Ele argumenta que “qualquer ponto de vista a respeito do pós-modernismo na cultura é, ao mesmo tempo, necessariamente, uma posição política, implícita ou explícita, com respeito à natureza do capitalismo multinacional em nossos dias” (JAMESON, 1991). Observa, ainda, que o ceticismo com relação às metanarrativas é um “modo de experiência” que se originou das condições do trabalho intelectual imposto pelo capitalismo tardio.

O crítico literário americano enumera como ícones desse movimento em direção à chamada cultura de massa (ou indústria cultural, termo criado pelos filósofos alemães Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), membros da prestigiosa Escola de Frankfurt, para exemplificar a massificação dos meios de comunicação) uma série de artistas que se utilizaram dos conceitos pós-modernistas — em detrimento dos antigos modelos até então empregados — para criar obras reconhecidamente mercadológicas, mas nem por isso carentes de qualidades artísticas memoráveis, nomes como Andy Warhol, conhecido como o “pai” da pop art, cujas tendências mais importantes foram o fotorrealismo e o neoexpressionismo; John Cage e a síntese dos estilos clássico e “popular” que posteriormente se viu representada em composições de artistas como Philip Glass e Terry Riley e, também, o punk rock e a “new wave“; Jean-Luc Godard, cineasta francês que transpôs os conceitos pós-modernos para o cinema, e William Burroughs, Thomas Pynchon e Ishmael Reed, como exemplos da literatura de um lado, e o “novo romance francês” e sua sucessão, do outro.

No que respeita à literatura, Fredric Jameson argumenta que, a partir da planificação da cultura, o indivíduo perdeu sua identidade e tornou-se impessoal. A pós-modernidade, para ele, contém características progressistas e reacionárias cuja expressão cultural está intimamente ligada aos aspectos mercadológicos, transformando a arte em simples mercadoria. A sociedade contemporânea é, portanto, marcada pela falta de profundidade e pelo excesso de superficialidade. Segundo ele, “nós nos pensamos enquanto mercadoria e esta é, talvez, a mais importante característica formal de todos os pós-modernismos” (JAMESON, 1991).

Neste contexto, a literatura nos chega como a sublimação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo, onde apenas o momento presente tem importância; seu precedente não acrescenta nada e, portanto, deve ser banalizado. Mudam-se valores; a partir de então é o novo, o fugidio, o efêmero e o individual que devem prevalecer.

O historiador britânico Perry Anderson, ao ser convidado a fazer a apresentação do livro de Jameson, terminou escrevendo o seu próprio, As origens da pós-modernidade, em 1998, constituindo assim uma espécie de “introdução” ao conceito. Nele, Anderson diz que a modernidade foi marcada pela excessiva confiança na razão, pelas grandes narrativas utópicas de transformação social e pelo desejo de aplicação mecânica de teorias abstratas à realidade. Tal representação se deu através de imagens de máquinas (as indústrias), enquanto o pós-modernismo é usualmente imaginado através das “máquinas de imagens”, sejam elas oriundas da televisão, do computador, da Internet ou através das vitrines dos grandes templos de consumo contemporâneos, os shoppings centers. Anderson observa, ainda, que essas máquinas inovadoras podem se distinguir dos velhos ícones futuristas de duas formas interligadas: todas são fontes de reprodução e não de “produção” e já não são sólidos esculturais no espaço. Segundo ele, “o gabinete de um computador dificilmente incorpora ou manifesta suas energias específicas da mesma maneira que a forma de uma asa ou de uma chaminé” (ANDERSON, 1998).

Para o autor, esse novo mundo pós-moderno neoliberal disseminou conflitos em várias camadas da sociedade. Criou-se um novo perfil de coletividade, bem diferente daquele existente nos anos 60; agora, o mundo encontra-se em um momento de crise de transcendência, pois assim como na virada do século XIX para o século XX, vivemos um período onde as mudanças tecnológicas são tão rápidas e avassaladoras que perdemos o nosso espírito de transcendência, tão discutido por intelectuais do século XX. Vivemos novamente em uma era de racionalidade, onde o que se afigura como mais importante é a técnica e o seu tecnicismo; o que agora conta como fator determinante é a competição entre os homens, perpassada por uma ética narcisista onde o mercado, caracterizado aqui como uma espécie de entidade sobrenatural, regula todas as ações.

A era pós-moderna suscitou várias crises vindas da crise original de transcendência. Uma grande crise ideológica, política e de valores se criou e, seguindo-se a esta, gerou-se uma crise de sociabilidade. Os homens perderam, principalmente nos grandes centros urbanos, o sentido de ser um animal social; eles não mais se socializam, ou o fazem de uma forma minimamente possível. Pode-se, inclusive, dizer que não existe mais alteridade. Os homens e as massas se tornaram indiferentes uns aos outros, gerando uma espécie de niilismo pós-moderno.

O Brasil e a pós-modernidade.

Os aspectos que caracterizaram a pós-modernidade se depararam, no Brasil, com uma barreira de aceitação que encontrou eco em vários pensadores contemporâneos. Entre as muitas vozes contrárias a esta nova corrente de pensamento, em especial as da esquerda tradicionalista brasileira, duas podem ser destacadas aqui como contestadoras contumazes deste movimento.

Ao discorrer sobre o assunto, o historiador Ciro Flamarion Cardoso diz que o “paradigma pós-moderno” é fundamentado no antirracionalismo subjetivista, “desconstrutivista” e na denúncia dos excessos da ciência. Cardoso desconfia da retórica dos pós-modernistas, por vezes apolítica, e das afirmações apresentadas como se fossem verdades absolutas e autoevidentes. Reclama, ainda, do desleixo teórico e das características metodológicas de seus argumentos. Segundo ele, “as ciências sociais, entre elas a história, não estão condenadas a escolher entre teorias deterministas da estrutura e teorias voluntaristas da consciência, nem a passar de uma ciência frequentemente mal conduzida – comprometida com teorias defeituosas da causalidade e da determinação e com uma análise estrutural unilateral – às evanescências (sic) da “desconstrução” e ao império exclusivo do relativismo e da microanálise” (CARDOSO, 1997).

Em sua pedagogia histórico-crítica, Dermeval Saviani, um dos expoentes da filosofia da educação brasileira, cuja linha de pensamento resvala na fundamentação marxista, também reconhece na contextualização pós-moderna tão somente os efeitos de uma época de fragmentação e superficialidade, um período de decadência da cultura e de esvaziamento do trabalho pedagógico nas instituições formativas. A pós-modernidade seria, assim, apenas mais um meio ardiloso da produção ideológica “pós-capitalista” para encobrir a percepção dos homens a respeito do desenvolvimento histórico.

Numa análise mais aprofundada, o filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Jr. percebeu existir, nos argumentos de ambos os pensadores, uma espécie de ciúme ou receio de que “a pós-modernidade seria um suposto período onde a burguesia deixaria de ser classe revolucionária e passaria a ser classe dominante, e, assim sendo, se voltaria contra a própria cultura, pois, agora, teria que se perpetuar no poder através, embora não exclusivamente, de mecanismos ideológicos” (in Educação e razão histórica. São Paulo: 1994).

Excluídas, obviamente, as generalizações, o que mais parece depor contra a pós-modernidade, a ponto de praticamente torná-la ofensiva para alguns políticos e pensadores brasileiros, sejam eles da esquerda tradicional ou da direita reacionária, é sua visão política pouco engajada, a atitude desinteressada e, até certo ponto, despolitizada. Os pós-modernos aparentemente baseiam suas ações em conceitos que nada tem a ver com o peso da chamada “angústia de influência”. Também se mostram avessos aos extremismos clássicos, do tipo “esquerda-progressista” e “direita-conservadora”, uma vez que acreditam que tais definições estão absolutamente superadas. Os pós-modernistas, assim, descartam a ideia de revolução como passaporte necessário para uma nova sociedade, um novo homem e uma nova felicidade realista sem classes e sem desigualdade.

Na pós-modernidade, o fazer político — e, por consequência, todos os outros fazeres que dele deriva —, além de desacreditar o tradicionalismo reinante, representado até então pelos partidos, sindicatos e eleições representativas, geralmente é disseminado através de ações voluntárias de organizações não governamentais, assim como em colaborações espontâneas de grupos e/ou de pessoas físicas que investem na melhoria das condições de alguns setores, como a saúde ou a educação, pilares indispensáveis à sociedade. E é exatamente aqui, na tomada de decisão e na efetiva ação descentralizada e despolitizada, que talvez esteja o cerne da não-aceitação pós-moderna por parte deste conservadorismo tardio.

Situando historicamente, o pós-modernismo surgiu no Brasil em dois momentos distintos e, especialmente no campo das artes e das letras, os últimos anos da década de 60 foram marcados por um primeiro ensaio de imersão nesse movimento, ambas as vertentes combinando elementos das estéticas anteriores, vanguardistas e pós-vanguardistas. Este primeiro momento representa a mudança, ainda que tímida, de um modelo arcaico, modernista em sua concepção e, portanto, ultrapassado, para um novo conceito de produção artística, agora mais caracterizada pela redefinição e massificação das artes como um todo, pelo pragmatismo em relação aos ideais políticos do século e pela criação de um novo viés de produção cultural que engloba a criação local inserida na — e influenciada pela — produção global.

A década de 1980 se configurou como o segundo e mais importante momento pós-modernista nacional, onde os conceitos de massificação e contracultura se tornaram mais fortes e a superação de diversos aspectos do estruturalismo e do marxismo vigentes até então foram abandonados ou revistos. Neste cenário de mudanças radicais, especialmente nos setores político-sociais, notadamente marcados pelo movimento das Diretas Já e pelo processo de redemocratização nacional, a produção cultural começou a ganhar força através da estruturação técnica e da massificação. Na literatura, na música e no cinema houve uma reestruturação de valores; hits internacionais passaram a ser frequentemente consumidos pelos brasileiros, especialmente a música norte-americana e a poesia franco-inglesa, a própria música nacional, como a MPB e o samba, transformou-se, ganhando ares e batidas pop e os valores da contracultura e da planificação cultural revalorizou o saber, agora pensado como produto de consumo cultural.

No meio dessa mistura entre os universos das culturas de massa e erudita, nasceu um revigoramento da tradição dos grandes clássicos, do prazer de ler romances, das exposições de arte europeia, antigas ou modernas, sob a forma de imponentes espetáculos que apresentavam o novo saber em escala global. Semelhante ao ocorrido nos demais campos do pensamento pós-moderno, tanto no plano nacional quanto no internacional, a década de 1980 foi marcada pela normatização da cultura como um todo, ou seja, a arte deixou de lado seu apelo transgressor em favor de uma renovada e crescente preocupação com o caráter funcional e pedagógico das manifestações artísticas. A cultura, enfim, tornou-se produto para consumo das massas.

Para saber mais (artigo – parte 01):

JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio (trad. Maria Elisa Cevasco). São Paulo: Editora Ática, 2004.

ANDERSON, Perry. As Origens da Pós-Modernidade (trad. Marcus Penchel). São Paulo: Jorge Zahar Editor, 1998.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo (trad. Júlio Assis Simões). São Paulo: Editora Studio Nobel, 2007.


O espetáculo começou antes do espetáculo, é claro. Antes de se entrar no Theatro propriamente dito. Na fachada, muito do que antes era verde agora é ouro. As águias, as inscrições.

No foyer, novamente, todos os bordados das colunas, folheados a ouro. Os mármores limpos, os estofados restaurados, enfim, o Municipal do jeito que tem que ser. Não vou dizer que é a oitava maravilha do mundo e que a administração pública do Rio de Janeiro presta pra alguma coisa. Eu não tenho essa péssima mania de me desfazer em elogios só porque alguém cumpriu uma obrigação. Ainda mais porque não cumpriu – a reforma não teria sido nem tão cara nem tão demorada se o Theatro tivesse sido melhor conservado.

Passando a parte do deslumbramento com a decoração do Theatro, que sempre esteve ali mas agora chama mais a atenção, vamos ao que interessa: a música.

O programa do concerto de encerramento da Rio Folle Journée 2010, como em toda a Folle Journée 2010 e tudo o que se faz esse ano, foi em homenagem a Chopin. Tivemos a Orquestra Petrobrás Sinfônica sob regência do Isaac Karabtchevsky, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

O concerto começou com uma peça chamada «Episódio Sinfônico», de Francisco Braga. Uma outra obra dele foi tocada na inauguração do Theatro, um poema sinfônico chamado «Insônia». A peça foi agradável, embora parada. Gostei dos timbres, das combinações, dos pianissimos, da valorização da harpa. Mas a estrela da noite não era essa.

Entra o resto da orquestra e o pianista: Arthur Moreira Lima.

Sem muita demora, o Concerto Nº1 em mi menor, Op.11, de Chopin começa.

Aqui eu comecei a ouvir o que todos falam sobre a acústica do Theatro depois da reforma: a orquestra parece abafada. Não tem muito o que dizer, e não é tanto assim, mas a orquestra parece, sim, um pouco abafada, ponto final.

Curiosamente, só a orquestra. Desde a entrada do piano, era nítido o balanço e o equilíbrio do som entre piano e orquestra.

Agora vamos ao ponto que interessa: a performance. Ouviram-se alguns esbarrões no primeiro movimento, principalmente em passagens de acordes. Algumas terminações falhadas, alguns ralentandos. Tive a séria impressão de que o Arthur não estava em forma, ou qualquer coisa parecida. Não gostei de alguns fraseados, corridas demais, principalmente nas seções líricas.

Pipocaram aqui e ali bons momentos, de verdadeira inspiração. Termina o primeiro movimento, e o público aplaude. Não cabe aqui reclamar e ofender o público, simplesmente porque não se pode exigir de alguém que saiba algo que não lhe foi ensinado.

O segundo movimento começa, e desde a entrada do piano, o clima era outro. O balanço entre o solista e a orquestra encontrou, finalmente, harmonia perfeita. Os timbres criados pelo piano foram lindíssimos, o discurso poético, as frases, fez-se música.

Nesse ponto, o concerto já tinha deixado de ser um mau concerto com bons momentos para ser um bom concerto com maus momentos. No fim do segundo movimento, estávamos todos tão emocionalmente envolvidos que o próprio ato de respirar estava sincronizado com a música.

Começa o terceiro movimento, entra o piano, num andamento um pouco baixo, meio cauteloso. O movimento se desenvolve, e dos scherzandos brota um humor característico de Chopin, elegante, polido. Quando volta o tema dançante, o piano entra num andamento mais apropriado. Os fraseados foram impecáveis, inventivos e belíssimos.

A agógica foi magestralmente moldada, junto com os rubatos, e, de súbito, o que ouvíamos não era mais um bom concerto com alguns deslizes. O que ouvíamos agora era o Arthur dos velhos tempos. Não só um finalista do Chopin de Varsóvia, não só um estudante de Moscou, não só um pianista com imensa habilidade técnica e uma musicalidade exuberante. A experiência, a vivência e a carga emocional de setenta anos de vida contribuíam à música.

A coda foi tocada num andamento vertiginoso (embora a orquestra tenha soado como se estivesse no outro quarteirão), e o público explodiu em aplausos. A pessoas mal podiam se conter em seus assentos.

De bis, tivemos Chopin: Scherzo Nº2 Op.31 e Valsa Brilhante Op.18. No scherzo, a mesma impressão do concerto: a qualidade foi crescendo, exponencialmente, ao longo da obra.

Defendo o pianista: é preciso ter uma competência e uma solidez imensas pra sentar, frio, e começar a noite com o Concerto Nº1 de Chopin.

Eu, que queria de qualquer jeito um noturno pra terminar a noite bem, aplaudi com todas as minhas forças, e assim o fez todo o Theatro, de forma que o pianista ainda voltou duas vezes e deu mais duas peças de bis. Nazareth.

Tirando raros instantes, o concerto do dia 6 de junho de 2010 foi absolutamente inesquecível.

Ricardo CariobaSendo idioticamente didática: música eletrônica ressensibiliza as pessoas de dois modos.

1) Pela recuperação de sons urbanos, apresentados em nova contextualização. Você pega ruídos cotidianos que nem são mais escutados e os exibe, obrigando o fruidor a se perceber meio surdo na sua vida diária.

2) Pelo aumento em decibéis de todos os sons que seu sintetizador seja capaz de fazer, obrigando o fruidor a ficar surdo e, com isso, perceber que tem orelhas.

A divisão é idiota porque em geral vemos as duas coisas juntas. O grupo Hapax, que eu adoro, e suas geniais latarias e restos de carros. Ou o Chelpa Ferro e os ambientes domésticos ampliados até você ouvir, o quê?, o liquidificador ligado, o rrrr de um ventilador.

John Cage com suas estações de rádio e com seu silêncio zen. Bruce Nauman e o uso do campo diegético em vídeos mudos.

Então era isso mais ou menos o que eu esperava: uma coisa ou outra. E provavelmente as duas juntas. Mas Ricardo Carioba me apresentou outra estratégia no seu concerto do MIS-SP.

Por uns oito minutos ouvi um som surdo e contínuo, com pequenas mudanças de frequência, uma espécide de  modulação em um mesmo pitch, bem monotônico. Depois uma pausa. E depois então a entrada, aos poucos, de um ritmo quebrado, ternário. Aí umas analogias de solos metálicos, de cordas. Uns ecos de trovoadas, tempestades, maremotos, gritos, vento. Ondas, em suma, fossem elas de qualquer tipo de energia. Tudo em uma alternância de compassos em números ímpares, sem possibilidade de descanso, sem repetições sincopadas, sem cadência.

Agora, o engraçado. Não sei se foi só eu, mas acho que não. Enquanto se escutava o som contínuo e baixo, estável, do início da apresentação, foi me dando um desconforto, uma desestabilização. À medida que entrava a desestabilização dos harmônicos ternários e altíssimos, fui me sentindo em casa. Eu já sabia isso de mim, que quando entra o previsível me vem uma claustrofobia danada. Mas foi engraçado reafirmar isso, assim, fenomenologicamente, por assim dizer.

Em outro espaço do MIS, o artista apresentou uma instalação, a Escape para outra estática, em que aquele mesmo eu do concerto vira cores, e sente a mesma coisa: a instabilidade é minha casa.

Café Espacial 6É sempre uma felicidade receber a Café Espacial. A revista está apenas no número 6 mas eu já separo um bom chá, tempo e uma rede a jeito para curtir.

A número 6, fica aqui o puxão de orelha, tem um deslize horrível nas páginas 18 e 19, com uma imagem que deveria estar com o branco transparente cobrindo parte da entrevista com a banda VitrolaVil. Fiquei adivinhando pelo contexto o restante das palavras encobertas mas eu tenho certeza de que já amarraram o diagramador no tronco e que você pode assinar a publicação sem susto.

A Café Espacial é, para mim, fonte de grande prazer porque descubro nela novos assuntos e interesses. Nesta edição fiquei com vontade – e vou ceder a ela – de procurar os livros da autora Carol Bensimon, de conhecer melhor o trabalho da fotógrafa Laura Gattaz e de ouvir o som do VitrolaVil. As bandas, não sei se por ignorância minha ou vanguardismo da revista, são sempre uma descoberta. E eu adoro descobrir coisas novas.

Agora, preciso falar para vocês, comovente mesmo foi a matéria Na sala de projeção, o coração do cinema. Tomo a liberdade de transcrever alguns trechos:

Senhor Carlito explicou que antes os filmes eram exibidos em celulóide, o que acarretava grande risco de queimar. Hoje, em poliéster, os filmes chegam à sala de projeção em diversas partes e são bem resistentes, diferentes de uma época em que a máquina de projeção era a carvão.

(…)

E então que senhor Carlito nos conta que é aposentado na função de “operador cinematográfico”, com carteira assinada e tudo. “Pode ver, eu trouxe para você conferir”, mostra orgulhoso.

(…)

E o saudosismo? Existe? O senhor Carlito garante que não.

“Os tempos mudam e precisamos acompanhar o que tem acontecido na nossa era. Foi uma época muito boa enquanto trabalhei com isso, mas temos que entender que o cinema sempre será cinema e os projecionistas, pode perceber, continuam solitários levando luz à tela e ao coração das pessoas”.

Lindo, não?

01. Você comentou no último pocket show que trabalhava de manhã, estava ocupado a tarde e só de noite conseguia parar para compor. Como foi o processo? Você criou um cantinho à parte de tudo para trabalhar suas músicas ou a adrenalina do dia ajudava de alguma forma?

Em 2007, quando estava compondo o disco que viria a ser o “A KIND OF BOSSA”, a minha vida estava virada de ponta-cabeça. Tinha perdido meu pai inesperadamente e tive que arrumar um trabalho fixo rápido para poder ajudar em casa. Não foi nada fácil, e realmente trabalhei demais naquele ano, incluindo folgas e feriados em que eu arrumava uns comerciais de TV para fazer. Lembro que no ano não trabalhei apenas 7 dias, sendo que em um destes dias eu fiquei bastante doente. Foi uma situação nada agradável para mim, pois, além de tudo, eu queria dedicar todo o meu tempo para a música e não podia. O tempo livre que sobrava para a música era quase sempre no período da noite.

Eu, na verdade, acho difícil separar um cantinho à parte do dia para compor, porque na maioria das vezes as ideias vem quando paro um minuto para descansar. Então foram incontáveis madrugadas em que eu ficava acordado junto com os meus parceiros, Edu e Nick, para compor, arranjar e produzir as músicas. Quando a inspiração não vinha, a gente dava uma volta no centrão de São Paulo. A gente falava de arte, conversava, tomava um café (e quantos cafés a gente tomou!), muitas idéias surgiam assim, no meio de uma conversa, daí a gente pegava o violão e corria para o computador para gravar tudo!

02. E como foi encontrar brasilidade nessa mistura de sonoridades que é o A Kind of Bossa? Você sentou já sabendo o que queria fazer ou foi definindo o som aos poucos?

A sonoridade do disco foi se definindo aos poucos, não estava preocupado em ficar preso a um único estilo, ou a “estilo” algum. Acho que a brasilidade vem das minhas influências e dos ritmos brasileiros que me fascinam. O Brasil tá no swing e na “malandragem”, no bom sentido da palavra, é claro. No começo até estranhava algumas misturas, depois fui acostumando e acreditando cada vez mais no que estava fazendo. Isso foi se definindo pela emoção, o termômetro era o simples fato de eu estar curtindo ou não. Acho que música pode ser feita assim; a sua emoção é o que determina o que vai ficar e o que não vai ficar numa música.

03. Ouvi da minha irmã no Rio a máxima que “Ao vivo o Del Arc faz todo o sentido”. Aqui em São Paulo tive uma impressão parecida, de que o som do cd, os vídeos no youtube, as tuitadas com os fãs, tudo isso se soma num crescente ao vivo, numa energia diferente. Como você vê essa relação do som do artista apresentado no cd e do som feito ao vivo?

Eu realmente me emociono muito cantando. Quando estou no palco, quando eu canto, eu estou tentando dizer alguma coisa, quero passar uma mensagem e sentir cada palavra da letra. Quero estar integrado na música, junto com ela, vivendo ela.

No CD “A Kind of Bossa”, procurei deixar tudo do melhor jeito possível para que todos os elementos na gravação conversassem entre si, que fizessem um sentido. Junto com os meus produtores Nick Gutierrez e Edu Maranhão, sem pressa, cuidamos dos mínimos detalhes, até por isso trabalhamos por quase 2 anos até finalizar o disco. Esse tempo é muito especial e precioso, um privilégio. Agora, por mais que o CD seja feito com muito carinho e cuidado com os detalhes, nada se compara com a emoção de viver as musicas ao vivo. No show, eu consigo olhar para a plateia e sentir a reação das pessoas. As energias se somam com as de quem está assistindo, a interação é maior. O mais legal de um show é que um nunca será igual ao outro.

04. Tem conseguido abertura que esperava? Ou o fato de cantar em inglês exige uma etapa extra de convencimento das pessoas?

Acredito que estou tendo uma abertura até maior do que esperava, principalmente no Brasil. Às vezes o inglês exige sim uma etapa extra. As pessoas precisam sentir mais do que nunca as palavras. Eu vejo isso como um incentivo para me entregar cada vez mais.

05. Fale um pouquinho do contrato no Japão. Quais são as expectativas em torno?

Fui muito bem recebido no Japão, e estou sendo bem divulgado pelo mesmo selo que trabalha com Milton Nascimento, Seu Jorge, entre outros grandes nomes da MPB. Graças a essa boa exposição, chamei a atenção de outro selo forte na Coréia do Sul. Vou lançar o disco por lá também entre abril e maio com 3 faixas extras: uma releitura do clássico “The Look Of Love”, do grande compositor Burt Bacharach (letra de Hal David), e duas versões da faixa 5 – “Trip”, remixadas pelo YUBABA que é uma dupla mineira de DJs que está crescendo cada vez mais no cenário eletrônico internacional. Estamos na expectativa de ficar mais conhecido por lá, e futuramente levar o nosso show para a Ásia toda, representar o Brasil e a nossa música. Acho que muitas coisas boas devem acontecer este ano por lá.

06. Como você usa ferramentas como Mypsace e mídias sociais para divulgar o seu trabalho? Elas realmente fazem a diferença?

As mídias sociais, como o MySpace, já são ferramentas básicas para o artista de hoje. Eu quero ficar perto dos meus ouvintes, e as pessoas também querem ficar cada vez mais próximas dos artistas. Ninguém quer mais aquele artista enlatado que só se via na televisão. As pessoas querem mais interatividade, querem participar da carreira, querem fazer parte. E de fato, fazem parte. A conexão que existe entre o público e artista hoje é muito mais próxima do que era há 15 anos. Graças à internet esse contato ficou direto, e eu quero ficar por dentro de tudo isso.

07. Para fechar, que música você sugere como primeiro passo para quem quer conhecer o seu trabalho? Por quê?

Pergunta difícil para mim… Acho que os sambas “Slip Into Precision” e “The Question Song”. A primeira porque ela abre o disco com uma mensagem: “As coisas boas e as coisas ruins da vida são passageiras; viva seus sonhos hoje e acredite no amanhã”. A segunda porque ela aponta o dedo pra você e te diz: “Se você fugir dos seus sonhos hoje, amanhã eles voltam para te pegar”. Não adianta ter medo e fugir, seus sonhos são o que você é.

WE SHINE INSIDE THE LIGHT

Você pode gostar ou não do Chico Science. Mas tem de saber que ele coloca uma pergunta interessante: quem é o fracote? Ao juntar maracatu e rock (e ciranda e coco e funk e hip-hop), ele não teve medo.

O medo, por exemplo, de Ariano Suassuna, seu conterrâneo, para quem Chico deveria se chamar Ciência, e desistir de vez de chegar perto do grande horror, o diabo em pessoa, a influência estrangeira.

Não foi o que Chico fez. Fez o contrário. O grande horror, o diabo em pessoa, parece dizer ele, é o tambor do maracatu – e o ritmo estrangeiro que se proteja dessa influência desagregadora, capaz mesmo de modificá-lo irremediavelmente. Modificar o rock, o hip hop. Não o contrário. Ou pelo menos, está bem, em partes iguais, ambos se modificando mutuamente e sem parar.

Parar. A ocupação Chico Science do Itaú Cultural acertou ao pôr o velho Ford do artista na abertura. E fazer desse veículo o suporte para a principal atração, um documentário com depoimentos e shows de Chico Science e das bandas a quem influenciou. É isso mesmo. A ideia é que o hibridismo não para.

    

Pois se não tem começo, como haverá de ter fim.

Maracatu, por exemplo, são dois. Um é o de nação, outro é o rural. O primeiro vem da mistura de várias tradições afro-brasileiras (pois é, meu branquelo leitor, a África não é uma coisa só) misturadas com o portuga arabizado que aportou por aqui. O segundo tem tudo isso e mais uns chocalhos bem indígenas.

Quer dizer, esquece começo.

Ah, e tem mais, alguns instrumentos, como a alfaia, trazem um caráter nitidamente religioso (não me pergunte qual religião porque aí complica ainda mais). O instrumento precisa passar por um ritual de sagração antes de ser usado, e alguns toques só podem ser dados por quem de direito.

E agora vamos às músicas. Umas são muito claras: falam do híbrido, do mestiço. Outras, as melhores, são isso, em vez de falar disso. Por exemplo:

Peguei o balaio, fui na feira roubar tomate e cebola.

Ia passando uma véia e pegou minha cenoura.

Ai minha véia, deixa a cenoura aqui.

Nada mais caipiramente maroto. Só que acompanhado de guitarra elétrica. E com aquela gravação distorcida, típica do reggae jamaicano. Fica uma coisa assim meio de hoje e daqui, com vários ontens, todos aparentes. O início do grupo Nação Zumbi foi um encontro com o Lamento Negro, uns músicos de comunidade carente da periferia de Recife. Esse foi o principal “ontem”. E não sumiu.

Na época (anos 1990) falou-se também em herança Tropicalista. Mas o Tropicalismo tinha uma aderência à indústria de massa e o Mangue aderia às pernas das pessoas. Usava a indústria e seus canais de divulgação, mas sempre com um “não” embutido. Por exemplo, não era bonitinho. Mas o Tropicalismo também está lá.

Híbrido, segundo Herom Vargas, doutor em semiótica da PUC-SP e autor de tese sobre Chico Science, é o que vai incorporando o que pinta sem anular os estágios anteriores. Não para para fazer síntese. Segue em frente.

Recebi a revista Café Espacial números 4 e 5 junto com o informativo Quarto Mundo número 3. As duas publicações formam uma combinação interessante, quase um diálogo proposital.

A Café Espacial é uma publicação de quadrinhos, arte, ilustração, literatura, fotografia e, acredito, qualquer coisa desde que ousada e interessante o suficiente.

O conto Contramão do Sergio Chaves, por exemplo, nos mostra que apesar dos blockbusters atuais, o fim do mundo pode sim ser um tema interessante. A revista ainda tem uma seção com resenhas musicais que, de uma vez só, conseguiu fomentar a minha curiosidade para conhecer umas 10 bandas das quais nunca tinha ouvido falar (culpa minha, sem dúvida).

Dos quadrinhos, o que mais gostei foi o F for Knife, de Biu e Shiko. “Entre sua janela e a do quinto andar ocorreu-lhe que Hulks são de Marte e Smurfs são de Vênus” é daquelas frases para virar tagline ou, um sendo pouco mais atual, um twitt. HQs, aliás, são o grande forte da revista. Propostas inteligentes e traços fantásticos.

Para não dizer que não falei de espinhos, achei as resenhas de cinema jornalísticas demais, muito didáticas. Acabam conflitando com o resto da revista. Não que tenha algo de errado em ser didático, apenas não me pareceu fazer parte da linguagem da publicação.

O informativo Quarto Mundo, também muito voltado para HQs, tem no número 3 uma que mistura fotografia com traço. É uma proposta interessante e um exercício importante de linguagem mas confesso que me causou a mesma estranheza que senti quando vi Waking Life, uma animação que usa a técnica de rotoscopia, ou seja, desenhada em cima de uma referência filmada.

A Café Espacial número 5 traz o ensaio O olhar cansado, de Luc de Sampaio, sobre o qual comento no podcast em que entrevistei o fotógrafo, de quem sou grande fã.

De vez em quando me vem em mente uma noite de Natal com a família na mesa, uma garrafa de vinho vazia e a outra pela metade, todo mundo papeando naquele clima de final de festa em que os assuntos mudam numa piscada. Eu não me lembro do contexto da conversa em que meu tio comentou que “os CDs hoje em dia só tem duas músicas boas e o resto não presta”. Isso no final da década de noventa. Nossos gostos musicais eram bem diferentes e, consequentemente, a qualidade do que ouvíamos, mas não pude deixar de dar certa razão. Alguns artistas pareciam preparar duas ou três músicas para tocar na rádio e encher o CD com o que sobrou do tempo de aluguel do estúdio. Se você olhar para a sua coleção na estante certamente vai achar um par de exemplos assim. Isso se ainda não tiver transformado as boas em mp3 e vendido os CDs no sebo.

Hoje com o mercado de músicas digitais, a situação tinha tudo para caminhar nessa direção que não sei se é a melhor escolha, então fico feliz de perceber que, pelo contrário, o pessoal tem se esforçado para entregar um cd redondo aos fãs, com várias músicas com potencial para tocar na rádio, mas sem cair na pasteurização.

A Kind of Bossa, do Rodrigo del ArcEsse é o caso de A Kind of Bossa, do Rodrigo del Arc, mais um nome da nova geração da música brasileira que conheci através da minha irmã. O Rodrigo flerta com a sonoridade brasileira da bossa e do samba, acrescentando seu flavor pessoal às composições. Pensei em usar aqui o clichê do “olhar para o passado tendo um pé no futuro”, mas parando para pensar, ninguém diz que o rock está velho, que o rap está velho, que o pop está velho, então não quero prender a bossa nessa amarra temporal, ainda mais resenhando um CD que aposta na contemporaneidade.

Slip to precision é um sambinha de percussão bem trabalhada que poderia estar em um cd da Roberta Sá. Gosto porque foi feita para seguir num crescente até o clímax e é uma boa apresentação do CD. Estou curioso para ouvi-la ao vivo. Sometimes me lembra muito dos áureos tempos do George Michael, uma das minhas prediletas. Se em Slip to precision Rodrigo del Arc usa o fraseado sílaba a sílaba para destacar o ritmo, em Sometimes as palavras são pronunciadas mais lentamente, permitindo que ele explore ao máximo a sua voz, casando direitinho com a melancolia da letra. Essa melancolia também vale uma escutada em Under the sea, a mais atmosférica do cd. A letra traz uma alegoria de despedidas e solidão muito bem sacada, com direito a um “whatever” no final no maior clima de “apesar disso tudo, dane-se”. Ironia poética. “Some time ago we used to say, and you said it will last forever, But forever had an end” The question song ganhou videoclipe, toca na rádio e você consegue em download gratuito no myspace do cantor. É letra de fim de relacionamento, cheia de perguntas jogadas ao ar. “Why did you fake, why did you take that from me and then brake all the rules?” Apesar de ser a canção de trabalho, gosto só do final estilo Jorge Ben. Prefiro a levada de Trip, que me remete a surf music, um clima de praia, de viajar por aí caindo na estrada que me deixa saudosista. “Posh Motels, fancy cars / A blue bird stroke in my guitar / While everyone keeps knocking on my door.” Pena que acabe tão rápido. Para fechar, uma que não poderia faltar nessa lista resumida é A place to remind, um dos grandes acertos do CD. Tem um quê de ritmos nordestinos (não, o resenhista não está louco. Escuta lá com atenção) e um instrumental que vale ouvir uma segunda, terceira, quarta vez.

Intimista sem ser reducionista.

“We are the newest vision, we are a brand new start
We are the deepest secret lost in mysterious heart
We are a single phrase, we are that same old song,
We are what we fight for, for right or wrong.
We are under the sun, we shine inside the light
We are the darkest night, the quietness of the stars,
We are our own deception, we are what we believe,
We are the one who’s thinking, we’ll go where we want” – A place to remind.

Me lembro até hoje de ver o clipe de A Miragem na MTV quando lá ainda passavam videoclipes e não programas de humor de baixo orçamento e me perguntar quem era esse cara. Eu ainda moleque, devia ter por volta de 20 anos, pensava cá comigo se ainda veria mais algum trabalho dele pela frente. É engraçado olhar para trás e perceber que não era tão simples ter as informações na mão, com uma clicada no Google (ou era fácil e o problema era meu?), e por esse vácuo informativo, Jay Vaquer foi por muito tempo o cara que cantava A Miragem e Aponta de um iceberg e só, imortalizado em mp3s que consegui nos primórdios da era dos downloads, depois de muito procurar.

Queria ter datas mais precisas na cabeça, mas raciocino de modo atemporal e meus marcadores são outros, pequenas lembranças e contextos. Foi numa dessas que o nome Jay Vaquer voltou aos meus ouvidos. Uma pessoa muito querida virou para mim, jornal na mão, e falou “olha, não é aquele cantor que você curte?” E eu pensando, claro que não, depois de tantos anos, só pode ser outra pessoa. Mas era ele. Dei uma volta rápida pelo shopping para comprar o Vendo a Mim Mesmo, seu segundo cd, com porcos de headfone e o Jay cheio de fios vermelhos na capa. Achei de quebra o Nem Tão São e aquele cara do clipe e da mp3 passou a ser um artista contextualizado na minha estante de CDs. Meu micro system estava quebrado, eu sem grana para pensar no conserto, então colocava para tocar num discman ligado às caixas de som. E foi assim que curti o recomeço, o clipe louco de Pode Agradecer rolando na MTV para lembrar que ele ainda estava na área, anunciado pelo alterego Applewhite. Talvez seja o cd dele que mais tenha escutado. Sou péssimo para decorar letras, mas sou bom de improviso, e era no improviso que cantarolava Assim de repente, Abismo e Aquela música, essa última na minha lista de clássicos particulares.

Foi nessa época também que minha irmã passou a ouvir Jay Vaquer para valer. Sempre tive a música como um intercâmbio. Não digo só da energia que se sente em shows, mas do prazer de apresentar a alguém o que se gosta e se permitir gostar de novidades que cheguem até você. Quando isso se dá com alguém próximo o prazer é dobrado. Pela diferença de idade entre nós dois, tínhamos gostos distintos e, ao mesmo tempo, cheios de pontos em comum. Eu apresentando The Smiths, The Cure, The Police, Depeche Mode, um vínculo com o passado ainda presente, e ela me mantendo em contato com o boom da música pop adolescente, com sons de pegada mais rock como o Garbage, e hoje com toda uma nova geração da música brasileira.

Como o Jay se tornou um dos pontos de convergência, era agora ela quem me mantinha informado. E foi por ela que soube que ele tinha assinado contrato com a EMI e que iria lançar o terceiro CD: Você não me conhece. Cotidiano de um casal feliz gerou um clipe, tocou nas rádios. Mais uma música de letra bem sacada e outra recordação. Depois veio A falta que a falta faz, que a galerinha costuma acompanhar do início ao fim nos shows. Como o mundo gira rápido, nessa época eu já tinha uma vida bem diferente daquela lá de trás, tinha lançado dois livros, me formado na escola de cinema e me distanciava de vez da vida de farmacêutico bioquímico. O Aguarrás estava começando e, além de escrever sobre cinema e literatura, resolvi me arriscar nos textos de música, só precisava escolher as cobaias. Escolhi meus cantores italianos preferidos, uns pingados do momento e o Você não me conhece. O texto ficou ruim, mas tão ruim que foi vetado. Repensei o modelo e escrevi um texto curto, dez linhas de Word com um trecho de letra e só, e foi assim que falei de música por um tempo. Me lembro também dele comentar as resenhas que saíam com um “só falam das letras, mas e as melodias?” E era verdade. Eu fui um desses. Talvez por ser escritor, me divertia com elas sem pudor, mesmo que na música o todo sempre fale mais alto que as partes.

Mais um pouco e finalmente vi o cara ao vivo, com a Cássia (minha irmã) e o David (a pessoa querida mencionada lá em cima), fechando um ciclo e começando outro. Foi um show no Teatro Odisséia, uma casa na Lapa, no Rio de Janeiro, num palco apertado que contrariava as leis da física e me deixava angustiado pelos grupos que ali se apresentavam. Mas valeu a pena. Minha irmã voltou no seguinte e eu no seguinte com ela. É interessante comparar a identidade de um artista ao vivo com o som produzido no CD. Tem gente que ganha, tem gente que perde. Tem gente que esbanja, tem gente que minimaliza. Foi naquele show bem intimista que me toquei de como esse cara cantava para valer.

Um ano depois, veio o Formidável Mundo Cão. Minha irmã havia assumido o posto de fã oficial e eu ficava ali orbitando, aproveitando a música dos CDS e as histórias que ela me contava. Infelizmente, dessa vez não teve videoclipe. O mundo que gira rápido gira assim para todo mundo. Mas teve ótimas canções como Longe Aqui, Estrela de um Céu Nublado e Preciso Poder, com as letras bem sacadas, às vezes irônicas, que então já eram marca registrada. Foi esse cd que originou o primeiro DVD ao vivo, Alive in Brazil, contribuindo com um terço do set list.

E aquele cara do show do Odisséia agora voa em correntes, canta em plataformas móveis (não os saltos, por favor) e usa projeções no telão, sendo a última delas impagável, dialogando com a letra e brincando com os músicos que acompanham o cantor. Não é que os elementos cênicos falem mais alto do que a música, eles se complementam de forma harmoniosa, como deve ser. No mercado internacional, mau gosto à parte, todo mundo sabe disso, aqui dentro uma meia dúzia. Olhando de fora, dimensionando por meus próprios sufocos, só posso imaginar o trabalho ($) que é erguer um show assim. Mas não vou cair no debate financeiro. O que quero observar aqui é a existência de um artista que sabe que concepção é mais do que escolher o set list e pôde, enfim, mostrar isso para valer na prática, com direito ao registro em DVD. Eu que não vi a gravação fiquei surpreso com a edição, com os novos arranjos e com esse visual bem pensado.

Se você já curte Jay Vaquer, o DVD é diversão garantida. Se não conhece, esse é um bom lugar para começar. Pela alegria dos rostos na platéia, acho que a maioria concorda comigo.

Estreou no Teatro do Leblon, sala Fernanda Montenegro, Rio de Janeiro, neste último dia 15, o musical “O Bem do Mar”, com direção de Antonio De Bonis. São 14 atores em cena e 7 músicos interpretando 68 músicas de Dorival Caymmi.

Em “O Bem do Mar”, procura-se levar ao palco elementos das letras de Caymmi, compondo cenas tipicamente baianas e mostrando com competência a cultura brasileira cantada por Dorival, em que o cotidiano servia de inspiração para as suas composições, retratando tudo com simplicidade e talento bem peculiares.

São 120 minutos de espetáculo, com 10 minutos de intervalo. Ao que deram a denominação de Bloco I – Lembranças, se comparado aos demais blocos, não é muito convidativo. Porém, nas outras partes (Bloco II – Copacabana By Night, Anos 50 e Bloco III – Histórias de Pescadores), o espetáculo melhora consideravelmente.

As músicas, muitas vezes compondo um pout-pourri, são bem interpretadas, a movimentação no palco também é interessante e, tranqüilamente, nos transportam para a Bahia de Dorival Caymmi. Destaco o bom jogo de luzes e os probleminhas no áudio, que, provavelmente, serão corrigidos para as próximas apresentações.

Os atores cantam e dançam bem. Algumas vozes, inclusive, são graciosas e há partes muito boas do musical que, com certeza, se destacam. De modo geral, não é um espetáculo impecável, mas realiza bem a proposta.  

Bom. Um bom espetáculo. Tudo dentro do esperado, mas nada de surpreendente.



Músicas: Dorival Caymmi                                 

Concepção e Direção: Antonio De Bonis

Roteiro: Antonio De Bonis e Douglas Dwight

Direção Musical e Arranjos Vocais: Ricardo Rente 

Elenco: Ana Velloso; Dandara Mariana; Daúde; Dério Chagas; Fábio Ventura; Fael Mondego; Flavia Santana; Gabriel Tavares; Izabella Bicalho; Lilian Valeska; Marcelo Capobiango; Marcelo Vianna; Patrícia Costa e Thiago Thomé. 

Músicos: Alfredo Machado, violão; Rodrigo Villa, contrabaixo; Fernando Pereira, bateria; Firmino, percussão; Flávia Chagas, violoncelo; Luiz Flavio Alcofra, violão e Ricardo Rente, sopros.

Temporada: até 20 de dezembro.

Faleceu dia 26/09/2009 uma das maiores artistas de todos os tempos, Alicia de Larrocha, sobre quem já escrevi aqui.

Alicia foi uma das maiores artistas do século XX e começo do século XXI, seu repertório se entendia desde Scarlatti até Rachmaninov, embora sua mãozinha não se estendesse por mais do que uma oitava. Dona de um timbre único e inconfundível, agudos brilhantes e baixos poderosos, Alicia tinha pleno domínio do instrumento e uma personalidade musical que, embora fosse inventiva e rica, nunca perdia o senso de estilo ou a diferenciação das escolas estéticas. Scarlatti é Scarlatti, Mozart é Mozart, Chopin é Chopin e Rachmaninov é Rachmaninov.

Arrau, Horowitz & de Larrocha
Arrau, Horowitz & de Larrocha

Ao mesmo tempo era uma pessoa humilde, discreta e amável. Em uma entrevista de 1995, o repórter do New York Times conta que ela abafou o piano para não incomodar os vizinhos:

“Several thick rolls have been hidden beneath the sounding board of her Steinway grand — out of sight, but they do the job. I do not want to disturb the neighbors,” she said midway through a recent interview. Inspecting the old-fashioned coarse-hair material, she added: “I didn’t want them to complain. The very first day, a friend of mine put the stuff under the piano. I can practice very comfortably.”

Não há palavras para expressar essa perda. Tudo o que podemos é ouvir e nos maravilhar com o imenso legado que a Alicia nos deixou.

01. Para quem ainda não conhece Tiago Iorc, por qual música(s) você sugeriria começar? Que música(s) do Let Yourself In passa(m) melhor o recado?

‘No One There’ e ‘When All Hope is Gone’ são minhas favoritas do disco. Ambas representam bem o que eu queria expressar com a minha música.

02. O pontapé inicial do seu trabalho veio com uma mp3. Qual é a sua relação com novas mídias tais como myspace, youtube e twitter? Dá para fazer uma boa divulgação só com elas?

A internet ajuda bastante e procuro aproveitar as facilidades que ela possibilita, sempre de forma coerente com o restante do trabalho. A utilização dessas novas mídias é essencial, sem dúvida, e contribui bastante com todo o trabalho que acontece paralelamente, fora do mundo virtual.

03. É comum no mundo da música ouvir a frase “para esse álbum tivemos tempo de…” como algo que influencia na qualidade do resultado final. Você gostaria de ter tido mais tempo para gravar o Let Yourself In ou a pressão de ter um prazo acabou ajudando no resultado?

Quando recebi o convite para assinar o contrato com a gravadora tive que fazer uma escolha. Aproveitar a oportunidade de gravar o disco era aceitar trabalhar com um prazo curto. Optei em abraçar a oportunidade, extrair o máximo possível daquela experiência e me esforçar para gravar um bom disco. Acho que trabalhar sob a pressão do prazo de entrega foi bom para aquele momento. Aprendi bastante. Algumas coisas boas, inesperadas, podem surgir quando trabalho sob pressão, mas prefiro trabalhar com calma. Ter tempo para compor, para absorver, para testar, para mudar. Gosto de ter esse cuidado com a minha música.

04. Como é regravar um clássico dos Beatles e arriscar uma roupagem 100% nova? Não dá um frio na barriga fazer algo assim?

Na época da gravação não senti essa pressão. Eu estava tão envolvido com tudo o que estava acontecendo que fiquei “anestesiado”, apenas mantendo o foco em terminar o trabalho. Mas, sem dúvida, é uma responsabilidade enorme regravar uma música dos Beatles. Me deu frio na barriga agora, só de pensar.

05. Geralmente pergunto o papel do circuito underground de shows na divulgação de novas bandas. Com contrato em gravadora, música em trilha de novela e filme, qual a importância dos shows como seu cartão de visitas? Você parece ter uma relação bem próxima com os fãs.

Eu gosto muito de tocar ao vivo, de trocar energia com o público. Para mim, é a melhor recompensa por todo o trabalho que vem sendo feito. O show é um momento muito especial. Acredito que todas as pessoas, assim como eu, continuam sendo muito carentes de experiências que possam saciar seus sentidos. Ouvir, ver, tocar, cheirar… O show é o momento onde tudo isso acontece, onde as pessoas podem interagir fisicamente entre si e com a música, e ter uma noção concreta de quem é o artista.

06. Talvez seja cedo para perguntar, mas, já faz idéias de que caminhos musicais pretende explorar mais adiante? Manter-se firme no soft rock, explorar uma pegada mais pesada, trabalhar os flertes com jazz…

O primeiro CD foi uma grande bagunça na minha cabeça. A composição ainda era uma coisa muito nova pra mim e acabei passeando por todas essas influências por falta de experiência mesmo. O que não acho ruim. O disco tem uma inocência, uma honestidade daquele momento, que valorizo bastante. Me preocupo em estar constantemente aprendendo e evoluindo como músico e como artista, e ‘Let Yourself In’ foi um importante primeiro passo. Hoje já me sinto mais seguro. Minhas letras e minha musicalidade já estão começando a ter uma coerência maior com o que busco na música. O próximo disco será menos soft.

Retomando as resenhas musicais, resolvi começar por um nome que tem marcado presença constante no meu twitter. Vira e mexe vejo um fã elogiando Tiago Iorc, com a movimentação mais recente motivada pelo lançamento do clipe de No one there no youtube. Curioso incorrigível, é claro que fui conhecer o trabalho dele. Irmã mais nova também serve para isso. Pelo que senti, seu público principal é a galera mais jovem – mostrando que o cenário musical não anda estagnado como alardeiam de vez em quando – mas com potencial para audiências mais amplas.

Tiago IorcTodo em inglês, Let yourself in chama a atenção pela boa produção e pelo som já direcionado, apontando para horizontes definidos. Parece que funcionou bem o susto de gravar tudo em uma semana pós-sucesso repentino. Uma rápida pesquisa revela que Tiago Iorc já foi trilha de três novelas (inclusive Malhação) e do filme Se eu fosse você 2, tendo uma visibilidade considerável para quem está no primeiro cd.

No mercado americano é muito comum um novo artista se ver atado às fórmulas dos produtores, conseguindo aos poucos a liberdade para arriscar, de acordo com o ritmo do sucesso. Não sei como é a pressão no mercado nacional, mas acredito que haja um processo parecido em grandes gravadoras. Mesmo considerando essas possíveis amarras imaginárias, Let yourself in se sai bem e soa como um cd autoral, apostando em letras mais intimistas e correndo riscos pontuais muito bem-vindos para temperá-lo.

Em uma primeira audição, fica claro o diálogo com o soft rock. Como o estilo é atualmente associado ao clima corta os pulsos de James Blunt, vale dizer que Tiago Iorc vai na direção inversa e explora uma atmosfera mais otimista, mesmo nas baladas, o que é um acerto. Confesso que curti mais a pegada rock de Blame, um dos singles lançados, mas é fácil apontar outros pontos altos. Ticket to ride, releitura dos Beatles, poderia estar facilmente no cd do Peter Cincotti, um dos grandes destaques do jazz contemporâneo americano. No one there também soa redonda, com uma melodia tocante e uma das letras mais bacanas do CD. Uma música que visualizo tranquilamente no mercado do Reino Unido. Outra que tem se repetido no player é It’s not time. No início parece que vai cair na monotonia, mas acha seu caminho entre solinhos climáticos e jogos de segunda voz que devem se potencializar ao vivo.

É claro que Let yourself in não é um cd perfeito (eu já falei que tem uma versão de My Girl?), mas exigir perfeição de um primeiro trabalho eu deixo para os chatos de plantão. O importante é que o cd coleciona mais pontos altos do que baixos e traz embriões de idéias que devem dar bons frutos mais adiante. Certamente um nome para se prestar atenção, tenha você a idade que for.

“They’ll try to fix you up, try to fit you in
Try to make you proud, of what you’ve been
Who’s to say what’s good enough
Or when it’s safe to try?
When truth lies inside
When truth lies inside” – No one there.

Em tempo: além de ter composto todas as músicas originais do cd, Iorc também se arrisca na roteirização e produção de seus videoclipes.

Se eu fosse o Dr. Hannibal Lecter, pedaços do trombonista da Orquestra Petrobrás Sinfônica seriam servidos em um banquete, acompanhado de boas garrafas de Pétrus.

O programa foi um pouco estranho. Ravel, Bartók, Stravinsky, Ripper. Um contemporâneo, um impressionista, um moderno e um moderníssimo. O que esperávamos ouvir? Música moderna, é claro!

Todo o programa foi constituído de pequenas suítes: “Le Tombeau de Couperin“, “Danças Romenas”, “Suíte Pulcinella” e “O Rio São Francisco – Imagem Sinfônica”. Só que nada aqui é realmente “moderno”.

O Ravel é uma suíte delicada, com timbres sutilmente construídos e sistematicamente assassinados pelo péssimo naipe de metais da OPES. O Tombeau de Couperin é uma obra originalmente pra piano, composta entre 1914 e 1917 e orquestrada em 1919. São seis peças menores, cada uma dedicada a um amigo falecido de Ravel (por isso “Le Tombeau“) e brincando com o estilo barroco francês (por isso “de Couperin“). A orquestração é para pequena orquestra e exclui duas peças do original, a Fuga e a Toccata. Foram feitas orquestrações posteriores (não de Ravel) para a Fuga e a Toccata, mas exigem uma orquestra maior. A execução foi competente, a menos dos metais assassinos. Passável – os esforços do excelente solista Carlos Prazeres para salvar a obra não foram totalmente em vão.

O Bartók é uma obra mais romântica do que qualquer outra coisa, salvo a última dança, marcadamente modal. Não há muito a se dizer, foi bem tocada, foi bonita, e pronto. Nada de menos, nada de mais.

O Stravinsky foi uma tragédia total. A Suíte Pulcinella é da fase neoclássica de Stravinsky, e é necessária uma grande competência artística e técnica para que ela seja o que de fato é: uma obra maravilhosa. Não sei se foi incompetência do maestro ou do naipe de metais, mas aquilo me pareceu antes um Handel alcoolizado do que um Stravinsky de respeito. Aqui deveríamos ter percebido todo o conhecimento que Stravinsky tinha da música do passado, aliado a uma técnica de composição primorosa, com sutis, sutilíssimos, toques modernos: uma terminação que se repete, um timbre percutido, uma intenção exótica. Sugiro aos metais da OPES que estudem escalas. Não vou falar da afinação nem de precisão rítmica porque isso é higiene pessoal, e teoricamente uma orquestra que tem a cara de se apresentar e cobrar ingresso por isso tem que ser, no mínimo, afinada e saber, no mínimo, contar os tempos. Que Stravinsky é difícil eu sei, mas se alguém se aventura a tocá-lo, não pode fazê-lo pela metade.

O Ripper é uma bela obra, afinal. Foi a única obra dignamente moderna da noite, o que não pode ter sido por acaso, mas um programa bem escolhido e posto na ordem certa é metade da graça de um concerto. O declínio do hábito de ouvir música ao vivo, em salas de concerto, não se deve somente à técnica de gravação que já é quase satisfatória, com seu som cristalino, seus engenheiros de som geniais e a possibilidade de apagar qualquer erro. Parte desse hábito se perdeu devido à incompetência de quem escolhe os programas e a ordem em que são executados. Mas desse problema esse concerto passou longe.

“O Rio São Francisco” é um belo poema sinfônico, moderno e brasileiro, de constituição rítmica robusta e sofisticada. Tem belas melodias e é realmente envolvente e profundo. Gostaria que fosse uma obra mais tocada. Gostaria ainda mais que fosse incluída a música contemporânea nos programas de concerto com maior freqüência. Ano passado eu assisti QUATRO VEZES o Concerto Nº1 de Tchaikovsky, no mesmo lugar. Nada contra esse concerto, que é uma obra maravilhosa, mas porque não tocar coisas diferentes, de vez em quando? Eu tenho a nítida impressão de que as pessoas não tem a mínima idéia da quantidade de obras maravilhosas, tão maravilhosas quanto as obras mais ‘populares’, que são pouquíssimo tocadas.

Falta que as pessoas percam o ‘medo’ de música moderna e contemporânea e apreciem sem preconceito.

Existe, sim, música contemporânea audível e digerível, e, melhor ainda, brasileira, como Ripper, Krieger, Ronaldo Miranda.

Agradeço ao Ripper pela experiência.




Para ver no youtube: Ravel – Le Tombeau de Couperin – Pamela Ross, piano (parte 1 e parte 2)

Alicia de Larrocha [img] é uma das últimas representantes da Arte pura, com A maiúsculo. Dona de uma gama de timbres impressionante, de uma dynamic range gigantesca e de uma personalidade artística inebriante, Alicia é um dos ícones de nosso tempo. Seu discurso nunca tende ao hipersentimental, pelo contrário. Seu ataque é preciso e quase ‘seco’. Mas não é seco, claro.

Intérprete celebrada dos românticos como Chopin, Liszt e Schumann, é também conhecida por suas interpretações dos barrocos e dos clássicos. Gravou todas as sonatas, rondós e fantasias de Mozart. E, claro, gravou tudo de música espanhola que se possa imaginar.

Mas esse artigo é sobre três gravações em específico: as sonatas K.283, K.331(a da Alla Turca) e K.284 de Mozart.

A clareza do discurso e a noção orquestral são evidentes. Noção orquestral não no sentido polifônico do barroco – embora Mozart tenha, sim, sua polifonia simples – mas no melhor do período clássico. Como não pensar em colunas de mármore, simples, retas, brancas e estonteantemente belas? Como não pensar numa escultura grega, em que cada mínimo detalhe é carregado de significado?

O discurso de Mozart não é nada pobre. E é absolutamente errado dizer que Mozart, pelo período estético, é ‘preso’ à forma. Preso nada! Mozart se utiliza da forma como recurso expressivo, e exige algozmente do intérprete que cada repetição, com exatamente as mesmas notas, seja carregada de um significado diferente. Aí vocês pensam: “Fácil! Temos a agógica! Rubatos! Dinâmica”.

Nada disso. O tempo é estrito, as dinâmicas estão TODAS marcadas. E agora, o que sobrou?

Sobrou a intenção.

O Barenboim conta, das longínquas memórias de sua infância, que foi fazer um masterclass com o Horowitz. Ou então foi simplesmente tocar pro Horowitz na casa dele. Mas pouco importa a platéia, ninguém na platéia é o Horowitz mesmo. Ele não estava muito feliz, porque era um grande fã do Rubinstein, que além de seguir uma corrente interpretativa diferente, tinha lá suas rixa com o Horowitz. Depois de desfeito o gelo inicial e a conexão ter sido estabelecida, o Barenboim se lembrou de perguntar uma coisa, que sempre o tinha intrigado no toque do Horowitz: Como ele conseguia fazer aqueles crescendos? Como ele conseguia dar o efeito de crescendo, mesmo que fosse uma só nota? Como fazer o som de uma só nota crescer, num instrumento percussivo, onde fisicamente o som decai com a exponencial do tempo?

E o Horowitz respondeu: “Você tem que querer.”

E isso, em parte, justifica a primeira frase desse texto. Rubinstein diz que “você toca o que você é”, e isso é tão inexorável quanto as leis da natureza, não se pode escapar jamais. Para tocar piano, e além disso, para fazer música, de verdade, no sentido mais profundo e puro que isso pode ter, é preciso se desfazer de tudo, se despir de todas as máscaras e encarar a própria alma, nua, diante do espelho da música e da performance. É preciso, além disso, querer. É mais, muito mais, do que “essa passagem está marcada “piano”, então eu devo diminuir a intensidade sonora”. Não. Se a passagem está marcada “piano”, você deve querer diminuir a intensidade sonora.

A música é a única arte que se utiliza de um único meio físico para atingir a platéia. Ela nem existe, materialmente. A música é a única arte que não existe! Se utiliza de um único sentido também. E o que separa, então, a Arte absoluta de ondas sonoras ordenadamente distrubuídas segundo propriedades físicas bem conhecidas que provocam sensação agradável no ouvinte?

A vontade, acima de tudo. Como na sonata de Mozart, o que faz toda a diferença entre duas passagens que seriam idênticas, se analisadas do ponto de vista meramente maquinal, é a vontade.

O intérprete deve querer que elas soem diferentes.

No caso da Alicia, isso acontece. E como.

De todos os climas diferentes utilizados em cada uma das variações do primeiro movimento da K.331, de toda a veemência do discurso das oitavas da Marcha Turca, de toda a intrincada superposição de detalhes da K.284(que poderia ser orquestrada por um semileigo sem o mínimo esforço, de tão bem acabada), de tudo isso emana, mais forte do que quaisquer dificuldades físicas, anatômicas(sua mão alcança pouco mais de uma oitava, o que não a impediu de tocar e gravar o Concerto Nº3 de Rachmaninov ou qualquer outra coisa que desejasse), mecânicas, musicais ou de qualquer natureza, a vontade, a vontade de fazer música e fazer viver a música.

Alicia é uma das grandes lendas do piano, que têm a capacidade de estabelecer um canal direto com o âmago do ouvinte nas primeiras notas, e através dele fazer correr o seu discurso. Raros artistas, como ela, conseguiram ser tão originais, no sentido de ter uma personalidade artística inconfundível, mas ainda absolutamente fiéis ao estilo, a estética e ás ‘restrições’ de cada período. Alicia, como Mozart, sabe usar as regras a seu favor.

recomendado: La Campanella, no youtube.

É uma pena que a velocidade de geração de conhecimento e propagação da informação seja infinitamente superior à viabilização das mudanças que deveriam causar. A sociedade tende a inércia, uma frase clichê, infelizmente. De que outra maneira explicar que dez anos depois do Napster abalar a estrutura da indústria fonográfica, ainda não há um mercado consolidado de mp3s no Brasil? Enquanto o iTunes se torna um grande império, impulsionando inclusive a venda de audiobooks, aqui no Brasil os sites de vendas de música online geralmente não funcionam com outro navegador que não seja o Internet Explorer. E digo música online porque alguns não vendem mp3, e sim wma em qualidade de 160kbps, metade do que seria comparável à qualidade do cd. A tentativa das gravadoras de estancar o sangramento inevitável ainda deve perdurar. Nesse meio tempo, desperdiça-se o potencial das rádios digitais como canais de venda, e quiosques de mp3 parecem elementos de ficção-científica. Isso sem falarmos em e-books, por exemplo. Uma movimentação grande lá fora, e por aqui nenhum interesse em entender o formato, o que dirá comercializá-lo.

Além de uma inevitável migração do mundo físico para o virtual, e-books e mp3s sinalizam claramente que existe uma demanda não atendida pela indústria. O consumidor quer agora, quer escolher de dentro de casa, ouvir primeiro, levar música e livro no celular. O consumidor quer ver seus seriados no horário que decidir e não no horário estipulado pela operadora de TV a cabo. Uma palavra que talvez capture não o mecanismo mas a essência é interatividade.

Depois de estratégias diferenciadas de Beck, Radiohead e Prince, o nome da vez a arriscar é o Smashing Pumpkins. Ao invés de mirar no canal de venda, o grupo pretende atualizar o conceito de fã-clube e oferecer música e mídias para os fãs durante o processo de composição do novo álbum. A idéia é que os interessados paguem uma assinatura e durante doze semanas possam acompanhar as gravações e acessar fotos e entrevistas em vídeo, sabendo de antemão como será o novo som da banda.
Segundo Bill Coargan, o objetivo é criar um modelo de trabalho não lucrativo motivado por acesso e informação. A experiência de imersão virtual no estúdio servirá de inspiração para as músicas, influenciando diretamente no trabalho final.

O mais curioso é que o projeto só dará certo se os fãs tiverem interesse nos bastidores, por isso o grupo criará um mailing para analisar o potencial de procura. Se a demanda animar o vocalista, o preço cobrado será de $40 pelas doze semanas, com a promessa de pelo menos cinco atualizações por semana, de modo que o preço cubra por baixo 60 atualizações. O conceito de “tempo real” ainda não é certo, e o material deve entrar no ar até vinte e quatro horas depois de gravado, o que deve desagradar a alguns. A duração mínima de cada vídeo será de cinco minutos, o que levanta um aspecto relevante: interatividade não é sinônimo de espontaneidade. Se você vai cobrar pelo produto, é bom especificar tudo nos mínimos detalhes.

Apesar de não acompanhar de perto o trabalho do Smashing Pumpkins, espero que dê certo e siga a tendência de criação de conteúdo mais do que reality show. Acompanhar bastidores de gravação é uma ótima forma de minimizar a ansiedade entre um trabalho e outro, qualquer fã sabe disso, e se interatividade ainda é um conceito muito flexível dependendo do pacote, a sede por novidade parece não ter fim.

Linda Bustani e Ligia Amadio formam uma dupla perfeita.

No segundo concerto de comemoração de seu jubileu de ouro de carreira, Linda tocou, com a Orquestra Sinfônica Nacional (OSN) e a Ligia, o concerto em Sol, de Ravel, um concerto deveras estranho, pela sua formação Russa. Os russos, conhecidamente, não são muito fãs da música francesa.

Mas Linda não tem disso: é brasileira, plural, multifacetada e, sobretudo, é macho.

Explico-me: macho no sentido de Horowitz, de Martha Argerich, de Cziffra, de Sviatoslav Richter. Não tem medo de nada, encara qualquer obra, de qualquer autor, de qualquer período, com a mesma competência e o mesmo fogo.

Para quem esperava confirmar os boatos de que a pianista não tinha a mesma forma física de antes, foi uma tremenda decepção. Linda foi uma metralhadora, com seus andamentos argerichianos e sua técnica impecável. A maestrina, igualmente maravilhosa, incutiu na orquestra uma energia tremenda.

O concerto de Ravel tem vários elementos de humor, de drama, de lirismo e uma alegria, quase mozartiana, que são muito difíceis de balancear. Técnicamente, não é uma das obras mais complexas para o instrumento, mas musicalmente é um grande desafio.

Não há muito o que dizer sobre a performance: foi fantástica. Tudo estava lá, tudo saiu bem, nada melhor que um Ravel para domingo de manhã.

Depois de um brevíssimo intervalo para a retirada do piano, a orquestra tocou a Suíte Estancia, de Ginastera. Bela obra de Ginastera, extremamente rítmica e grande importância da percussão.

A segunda parte foi toda de música brasileira: Bachianas Nº7 de Villa Lobos e Três Dansas de Camargo Guarnieri.

Gostei mais do Ginastera do que do Villa Lobos, mas… como dizer isso? Talvez pela presença marcante da pianista Cristina Nascimento, que fez o piano da orquestra, muito mais audível e bem escrito que o piano das Bachianas.

De bis, a orquestra deu um arranjo, talvez da própria Ligia, de músicas populares brasileiras. Coisas como Tico Tico no Fubá, Aquarela do Brasil e algo que eu identifiquei como uma marchinha de carnaval.

Esse concerto foi uma prévia para o concerto da OSN em Buenos Aires, que aconteceu ontem. Aposto que los hermanos adoraram…

Quando eu conheci Pietro de Maria em 2006, tocando o terceiro de Prokofiev, no Theatro Municipal, ele me impressionou bastante. Naquela época, e ainda hoje, eu tinha o concerto bem nítido na minha cabeça, e foi engraçado, porque concordei com absolutamente tudo o que ele fez.

Embora tenha achado seu toque por vezes delicado demais para Prokofiev, sua visão da obra era perfeita. Naquela ocasião, pude reparar outra característica dele: a qualidade, muitíssimo rara, de achar as vozes secundárias escondidas sem se sobrepor às vozes primárias. Lembro que ele tocou, de bis, o estudo Op.10 Nº3 de Chopin, e que fez saltar, do meio do acompanhamento ‘monótono’ da mão esquerda, bem no finalzinho, uma frase maravilhosa e comovente, daquelas que gruda na cabeça e não sai mais.

Dia 20, no Municipal, Pietro tocou os 4 Scherzi de Chopin, o concerto 21 de Mozart, o Concerto de Dvořák (no worries, just say “Dvôrjac”) e, de bis, um noturno de Chopin e a Polonaise Heróica.

Dos scherzos(*), gostei especialmente do 2 e do 4, principalmente do 2: a delicadeza típica do Pietro estava lá, claro, mas veio junto com um tamanho de som e uma ferocidade que são completamente necessários à obra. No 4, novamente, toda a sutileza foi aproveitada em prol do lirismo e do bel canto. As seções corridas feitas num maravilhoso jeu de perlé, a seção lírica central de enorme profundidade, e a coda absolutamente arrasadora, catártica. “Arrasadora” não no sentido comum das codas de Chopin. Não foi aquela coisa tipo furacão, como a coda dos outros 3 scherzos. A obra que é representada pelo conjunto dos 4 scherzos denota claramente a evolução de Chopin no seu próprio estilo. Eles vão ficando menos e menos agressivos, até chegar no 4, onde não há, absolutamente, nenhuma agressividade. As seções intensas e de grande massa sonora não são, como nos outros, seções altamente virtuosísticas ou de efeito, mas são seções em que todas as notas e intenções tem um sentido explícito, na direção exata do emocional do ouvinte. No scherzo 4, cujas melodias não são óbvias nem previsíveis, cuja harmonia é mais complexa do que nos outros, e, notoriamente, o mais difícil, Chopin põe pra fora toda a sua intensidade e densidade emocional. Uma coisa difícil de explicar, já que vai de encontro aos parâmetros que temos. As catarses musicais em geral (com raras e belas exceções) são violentas, aliás, não só as musicais. Eu acho incrível a beleza das catarses violentas e avassaladoras. Mas, talvez por isso, e por isso ser tão inerente à minha própria personalidade, quando eu me deparo com uma catarse puramente emocional, sem os elementos paroxísticos aos quais eu estou acostumado, eu sou pego desprevenido, indefeso, e isso tudo bate bem no fundo da alma.

Os pianistas – aliás, os músicos em geral – têm que fazer algo com a platéia: emocionar ou impressionar. Há, claro platéias mais ou menos difíceis de se emocionar ou impressionar. Mas, em geral, nós pianistas nos preparamos para icebergs.

Pietro emociona e impressiona, pois ao mesmo tempo é sutil e intenso. Seus fortíssimos são como uma marretada, só que a marreta sutilmente revestida de veludo.

Ocorreram alguns problemas no intervalo (e após o primeiro Scherzo também), problemas com o piano. São problemas inerentes a todo pianista, você nunca sabe o que te aguarda em cima do palco. Não sei ao certo qual a magnitude do problema, mas, se existiu alguma diferença entre o que o Pietro quis fazer e o que efetivamente ele fez, não fui eu, nem ninguém na platéia, quem percebeu.

O concerto 21 de Mozart é também conhecido pelo apelido “Elvira Madigan”, um filme sueco de 1967. É um dos concertos preferidos da platéia. Não tenho muito o que comentar, foi um bom Mozart. Não aquele que te levanta do chão, mas foi suficiente pra prender a atenção da platéia por uma boa meia hora, o que já é um feito e tanto.

A orquestra fez bem o que uma orquestra deve fazer: não atrapalhou nem fez nenhuma barbaridade, então tudo bem.

Depois, um concerto pouquíssimo ouvido, o concerto de Dvořák. O Richter cita esse concerto na sua biografia, como sendo uma obra pela qual ele quis tocar desde a primeira vez que ouviu. Cita também que alguns pianistas da União Soviética naquele tempo tinham um certo preconceito com Dvořák, que não fazia parte do repertório tradicional. Pouco depois, ele diz que é uma das obras mais difíceis que ele já tocou, junto com a quinta sonata de Scriabin, as Variações Paganini de Brahms e a Valsa Mephisto de Liszt.

O concerto é muito bonito, aliás. Não segue o padrão a que estamos acostumados de desenvolvimento de um concerto. Os movimentos, embora sigam a tradicional divisão de rápido – lento – rápido, se estruturam separadamente de uma forma diferente. Começam com um tema, em modo menor, que é desenvolvido, em crescimento de intensidade emocional, musical e virtuosística, até chegarem numa reexposição dos temas, em modo maior.

Mais uma vez, as catarses poéticas.

Frente aos incessantes aplausos, Pietro nos deu de bis um noturno maravilhoso de Chopin, Op.27 Nº2, um mar de calma. Eu acho interessantíssimo a construção dos noturnos de Chopin: é como sentar pra tomar um chá, calmamente, num barquinho que vai afundar, no meio de uma tempestade.

Pietro, como Horowitz, “nos fez dormir”, não literalmente, é claro. Entraram todos num estado intimista e letárgico. Esse próprio noturno contém uma pequena catarse, também.

Aplaudimos, ainda, com as forças que nos restavam. Pietro compreendeu que estávamos cansados, mas só os braços. Os ouvidos queriam mais.

O coup de grace veio, então: a Polonaise Heróica. Tocada num andamento insano, com fortíssimos retumbantes. Não tinha o que reclamar, foi, literalmente, “Heróica”.

Chamo atenção para a genialidade da construção do programa. Os 4 Scherzos, um conjunto catártico. O Mozart funciona como um sorbet, para chegarmos no Dvořák, outra catarse. Temos então, os aplausos, que são o segundo sorbet. E, por fim, a última catarse, preparada com o noturno e externada com a Polonaise.

Nas palavras de uma senhora da platéia: “Depois de Pietro, sabe o que eu quero? Mais Pietro!”.

(*) nota do autor: sabemos que o plural correto é scherzi, entretanto optamos por uma grafia mais natural ao nosso idioma, para uma melhor compreensão do texto.

Misha Dacic é pianista, nascido na Sérvia em 1978. Foi aluno do excelente pianista Kemal Gekic na Universidade de Novi Sad em Belgrado. Ganhou destaque internacional depois de participar do Progetto Lugano em 2003. Tocou sábado passado (dia 9) no Theatro Municipal do Rio.

É dono de um belo timbre, mas não de grande potência sonora. A escolha do programa foi bem feita, mas a distibuição não. Pedimos bis, mas ele não deu.

O que faltou em Misha Dacic?

Misha – parêntesis: Misha é apelido de Michael em russo. Já bastou a velhinha do meu lado que adorou o concerto dessa menina -  é uma figura draculina: muito branco, de gestos fluidos, cabelos longos caindo no rosto. É o arquétipo ultra-romântico. Como tal, tem uma certa aparência doentia, e não me pareceu ter grande força física.

As peças líricas pouquíssimo tocadas de Rachmaninov foram absolutamente maravilhosas. Foram elas a “Melodia” (sem número e sem opus, no programa), o Romance Op.10 Nº6, o Prelúdio Op.32 Nº3 e a Valsa Op.10 Nº2. Duas sonatas de Scarlatti, também muitíssimo bem acabadas e bem equilibradas.

Fechando a parte solo, uma transcrição hipervirtuosística do Volodos. Se tivesse terminado aí, o recital seria algo estupendo, de primeira linha, raramente visto por aqui (veja bem, eu quis dizer TÃO estupendo e TÃO de primeira linha), mesmo que tenha faltado um quê de bombástico nos fortíssimos do Volodos.  Mas aí, sem intervalo nem nada, tivemos um concerto de Mozart. E um bem chato, por sinal, o Nº25, em sol maior. Não gostei da orquestra, uns metais e sopros desritmados, desencontrados, desequilibrados, e às vezes, simplesmente tocando notas erradas. Mais uma vez, a enorme dificuldade de tocar Mozart: não chega a ser difícil, só que não pode sair NADA errado. Alguém escreveu que tocar Mozart é como “carminhar nu pela quinta avenida: tem que se estar em boa forma para fazê-lo”.

Misha tocou muito melhor que a orquestra, me parece que as cadências foram compostas por ele. Se foram, parabéns novamente, absolutamente deliciosas. Tomou algumas liberdades, é verdade, mas foram muito bem vindas em meus ouvidos.

Daí um intervalo (mal posicionado!), e a Burleske. Talvez por já estar cansado da primeira parte tão longa, mas a Burleske foi chata. A despeito do andamento supra-Argerichiano que foi imprimido à peça (andamento com o qual eu concordo, visto que se tocar mais lento parece um cortejo fúnebre), não empolgou. E não havia nada de errado! Tudo muitíssimo bem acabado, muito criativo, muito bem tocado, muito bem equilibrado. Mas faltou alguma coisa. O quê?

Faltou um não sei o que de irracional, de visceral, de desmensurado, de impulsivo, de agressivo, de avassalador, e, em última análise, talvez de sincero e de puro. A um dado momento meus ouvidos e meu cérebro se cansaram de todo aquele toucher pensado, calculado, medido e bem acabado, e começaram a clamar por algo mais, que não veio. Não sei porquê, mas eu ansiava desesperadamente por algo simples e sincero, que também não veio. Não veio porque não existe (será? Prefiro acreditar que foi um mau momento!). Excelente pianista, de uma competência imensa, mas só isso.

Só isso.

Na entrada da Oca, para quem olha para baixo, há uma praia de Copacabana de pó de mármore, e o campo semântico da palavra mármore é uma justa justaposição. Trata-se de apor a um ícone espacial um algo mais de classe, de chique. A exposição é sobre Bossa Nova e a sinuosidade das pedrinhas portuguesas estão lá em uma outra justaposição, essa agora de contigüidade e não mais de valor: Copacabana fica ao lado de Ipanema, real berço da Bossa Nova, mas carente de símbolo visual tão forte quanto. Vai então a calçada vizinha, somada ao mármore e, mais ou menos, chegamos ao destino, cujo aspecto principal é justamente esse, de ser um destino. Porque a Bossa Nova pode ser entendida como uma espécie de regionalismo – algo mais ligado a um espaço do que ao seu tempo.

O espaço, já dizíamos, é Ipanema. E o tempo é o imediatamente anterior e o imediatamente posterior ao golpe militar brasileiro. Registros temporais? Vergonhosamente ausentes, tanto do tema quanto da sua apresentação hi-tech. Estamos fora do tempo aqui. Estavam. Quanto a isso, eis uma curadoria condizente.

Há duas maneiras de se entender o regionalismo, as duas ruins. A primeira é o regionalismo de quem vem. Por exemplo: enfiar, em uma mesma visão, artistas que vêm de uma mesma região. Raramente dá certo, diferenças individuais precisando ser chutadas para baixo do mandacaru mais próximo. A segunda é o regionalismo de quem vai. Por exemplo, achar que são iguais todos os filmes sobre a periferia de São Paulo. Aí, os cineastas podem vir de qualquer lugar, mas vão todos ao mesmo boteco barra pesada onde todo mundo morre baleado. Os dois regionalismos são ruins, mas há uma diferença entre eles.

Ambos servem ao mesmo idealismo retrógrado de promoção de identidades nacionais. Se tal “região” é assim ou assado, por contraste ou similitude, inferimos que “nós” (os que não somos da “região”) somos assado ou assim. Não que as identidades, grupais ou individuais, não sejam formadas, sempre, por uma contaminação que muito tem de espelhação e esfregação. Mas ao determinar que tal grupo de tal região (origem ou destino) é, simplesmente interrompemos o processo. Quem é, é. E fica sendo. E isso vale para os assim engessados e para os que dos engessados se valem para formar, por comparação, o seu ser  igualmente estático.

A diferença é que o regionalismo de quem vem estabelece a identidade positiva dos que não pertencem ao grupo por similitude: somos (todos) antes de tudo uns fortes. E o regionalismo de quem vai firma a identidade positiva por contraste: eles são uns bandidões, nossa, que horror, vamos logo para nosso apartamento seguro.

Na circunstância específica da Bossa Nova, somos todos uns fortes da elite e, portanto, o que outros membros da elite fazem não pode estar de todo errado (sendo que os outros membros da elite, ou a ela prestando serviço, eram os generais militares).

É esse o problema com o grupo da Bossa Nova. Firmaram-se a partir de um modo de vida da zona sul carioca. Contrapunham-se a outro grupo também baseado no espaço e não no tempo, os músicos de samba dos morros cariocas. Deles tiraram uma gênese, mas, peraí, ei, a gente é chique paca, legal paca, e até convida vocês a participar aqui do palco do Teatro Opinião. Samba não é mais esfregação, é espelhação, e de alturas-valores hierarquizados. Somos todos muito legais mas a gente é mais legal. Na exposição, sem querer, isso fica muito claro em uma das frases pintadas pelas paredes: “A Bossa Nova, em sua essência, é rítmica, é o samba.”

Uma bicadinha de estruturalismo aqui: 1) bossa nova tem maiúsculas – registro de importância – negadas ao samba; 2) ahn, o que é essência, hein?, há essências? com a palavra Platão e o mundo das aparências.

Continuando com mais uma bicadinha de estruturalismo. Há outras frases na Oca. No balcão da iconografia, que vai de 1955 a 1965, aprende-se muito, muito mais do que está lá. As frases: “Eclode o movimento militar em Minas Gerais, sob o comando do general Mourão Filho”; “É editado o AI-1 que depõe o presidente e inicia as cassações”; “O marechal Castelo Branco é empossado presidente”.

Essas, as frases da curadoria. Essa, uma explicação da lingüista Eni Pulcinelli Orlandi, sobre o encobrimento do autoritarismo no discurso conivente: diz a eminente doutora da Unicamp que pode haver uso ideológico da falta de sujeito e também da voz passiva. Quem é o responsável pela ação descrita fica protegido por esse artifício. Orlandi complementa observando que a nominação e a frase básica do verbo “ser” são marcas desse endosso que se envergonha de si mesmo.

Essa a informação que não era para estar lá mas está. A que está lá de propósito segue pelo mesmo caminho: no dia 6 de maio de 1964 (um mês depois da Gloriosa) Tom Jobim foi a Nova York tratar de assuntos relacionados a sua editora, a Corcovado Music; no dia 29 de maio de 1964, a revista Life dedica texto elogiando o álbum Getz/Gilberto. Uau. Tudo a ver com a época, não?

E aí vem a melhor frase de todas. A de Lorenzo Mammi. Diz ele: ” Você imagina o ritmo, mas o ritmo nunca está lá exatamente, o violão fez uma pequena coisa com o ritmo, que é uma pequena variação, e a voz fez outra coisa com outra variação. O ritmo está no meio, mas não tem ninguém que marque o ritmo exatamente.”

Não tem mesmo. O ritmo, o tempo, ninguém marcou. Ficou essa tentativa de passar por cima dele, mas ninguém passa. Acabou que, veja só, na atemporalidade da Oca, há essa ausência que grita – mesmo que seja no silêncio de João Gilberto ou no da curadoria.

Nota: Não pudemos fotografar. Sem saber da proibição, fomos ameaçadas de processo, mesmo nos dispondo a deletar a única foto tirada – a da “praia” de Copacabana no subsolo. Mas não tem importância. Você consegue fácil imaginar: aquilo mesmo que você já conhece, só que de mármore.

O livro Notas. Atos. Gestos. traz compositores do eixo Rio – São Paulo falando de modo peculiar sobre o processo composicional. Peculiar porque aborda tanto o que há de Dionisíaco quanto o que há de Apolíneo, o instinto e a razão, na criação musical, desmistificando a idéia do dom divino sem para tal precisar tocar no assunto. Sim, há o sopro das musas, mas também há o talento, a dedicação e zilhões de pequenas peças que se encaixam de maneira distinta até que se forme a música, essa engenhosa (curiosamente) matemática que interpretamos como arte.

O organizador Sílvio Ferraz reuniu textos – relatos composicionais – de Marisa Rezende, Denise Garcia, Rodolfo Caesar, Fernando Iazzetta, Marcos Lacerda e Rogério Costa, conseguindo manter a individualidade de estilos e a variabilidade do tema. Uma característica comum ao grupo? Todos são pesquisadores-educadores que trabalham em grandes universidades públicas, pensando a música além de seus critérios mercadológicos (que se mostram cada vez mais falidos e ultrapassados) e tendo a ética como norte de seus pensamentos.

Rogério Costa, por exemplo, aborda a arte do improviso. O subtítulo do texto fala por si só: na livre improvisação não se deve nada. Sua idéia é que a composição seja resultado de um fluxo vital musical produtivo estimulado pela criação de um lugar (espaço e tempo) que possa gerar os elementos necessários para essa fluidez. Mudando o foco do resultado para o processo, Rogério propõe a ação musical no lugar da exibição de obras primas. É um ponto para começar a leitura.

“Deve ficar evidente também que não se trata de composição de obras, pois nada se fixa e nada se repete. Também não se trata de exibição, pois o público – se houver – deve construir e criar junto com os performers. O público que acompanha uma performance de livre improvisação deve atuar como cúmplice (…) e compartilhar dos riscos que acompanham o processo”.

Já Marisa Rezende burila o pensamento por trás do tema. O que é composição?

“Compor significa, entre outras coisas, fazer escolhas (…) e poder fazer escolhas”. Como ela aponta, são duas estruturas semelhantes, mas com uma diferença básica de intenção entre elas. No primeiro caso, quem está em foco é o compositor no momento de compor, decidindo com que material irá trabalhar e que forma dará a esse material. Entram aí os códigos e o processo. O segundo caso, o do “poder fazer escolhas” traz para o centro do debate o compositor cidadão de algum tempo e lugar, que faz escolhas de alguma forma relacionada à sua condição tempo-espacial. Durante o texto, Marisa tratará do material escolhido para o pontapé inicial em uma composição – a linha melódica, talvez – e da importância do conhecimento para embasar o que temos de intuitivo. O interessante é fazer isso não só por referências, como também através de memórias.

A ênfase de Denise Garcia será a composição por metáforas, trabalhando a idéia de que as palavras criam imagens ou sensações chegando ao conceito de imagem sonora. Denise trabalha o tema de forma prática, usando metáforas e imagens postas em pé de igualdade com a teoria textual. É curioso perceber ao longo do relato que a proposta realmente funciona em sua exposição de partituras (e de seu alfabeto próprio), o que de certo modo se relaciona com a idéia de Silvio Ferraz e sua tatuagem musical, também muito visual, explorando os rascunhos escritos pelo compositor em seu período de formação.

“O propósito desse texto é uma visita a si mesmo. Talvez uma visita a outro si mesmo. Um si mesmo que não conheço mais, e que tem mais cara de um estranho do que de um mim mesmo”.

Você pode pensar: certo, mas o que há de componente visual composicional em um rascunho de uma composição além de sua quase metalinguagem? Há a inspiração. Silvio se remete a experimentações realizadas por ele entre 79 e 80 que tinham por imagem poética as poesias-imagens de Edgard Braga, especificamente Tatuagens e Algo, permitindo que o leitor conheça as imagens e acompanhe o desenvolvimento da idéia até a criação da peça final.

“Como transformar aquelas nuvens de sinais em música, isto tanto parecia difícil quanto óbvio. E a segunda opção aqui estava justamente em deixar de lado alguns dos eixos tradicionais do que se entende por música: as estruturas rítmicas estriadas e os jogos melódicos. Estavam ali no poema diversos sinais que poderiam converter-se facilmente em fonemas (…)”.

O livro traz ainda a abordagem tecnológica de Fernando Iazzetta relacionando composição e performance interativa; Rodolfo Caesar falando do frutífero território entre a teoria e a prática e Marcos Lacerda em um relato sobre etnomusicologia e o surgimento da música popular.

Notas. Atos. Gestos. tem um público certo: os iniciados em música, e que fique claro que não estou me referindo a quantidade de mp3 no seu iPod. Se você tem interesse no processo composicional, em seu aspecto mais tradicional ou na liberdade intrínseca do improviso seja por lazer, estudo ou por trabalho (inclusive como compositor-educador), você é o público alvo.

Notas. Atos. Gestos.
Editora 7 letras
Coleção Trinca-ferro
177 páginas

É uma transformação caótica, como todas devem ser. Morte decretada do formato atual de cd, mp3 ainda nos limites entre o download gratuito e o respeito ao trabalho do artista, Internet a todo vapor e rádios se mantendo firme como medida de sucesso. Sorte nossa (minha pelo menos) que no meio do caos haja espaço para o surgimento de novas bandas no cenário brasileiro. De show em show, aumentando aos poucos a base de fãs, estão grupos como Cof Damu e Columbia, cada um na sua área fazendo um som de primeira.
Ainda não conhece? Hora de calibrar seu mp3 player.

O Columbia marca presença no circuito independente há 4 anos. Quem é fã de festivais alternativos provavelmente já esbarrou com o som de Fernanda, Bruno, Fred e Durão por aí. O quarteto aposta no rock puro e simples. A idéia é misturar os vocais femininos de Fernanda com as guitarras distorcidas do Bruno de forma harmônica, deixando de lado a barulheira e os berros repentinos.

Durante o tempo que tiveram para arredondar o som, o Columbia gravou um EP caseiro e com ele ganhou prêmios e se apresentou em palcos importantes do país, como o Circo Voador. Talvez por ter a estrada no currículo, o grupo conseguiu manter a energia dos shows em seu CD de estréia. O que você não quis dizer traz 10 canções que mostram uma identidade bem definida sem cair na homogeneidade. Os destaques ficam por conta de Amanhã, que merecidamente ganhou clip na Internet e status de single de divulgação; Marcela e Fernanda, um hit entre os fãs desde os primórdios do grupo, uma espécie de Eduardo e Mônica da nova geração; e Antes que eu fuja, típico hit instantâneo com letra leve e batida chiclete.

“Feche os olhos antes que eu fuja / Espere o refrão para me beijar / Então deixe sua pressa em casa / Ninguém vai nos separar” – Antes que eu fuja.

Definir o som do Cof Damu já é um pouco mais complicado. Para entendê-lo é essencial começar pelo nome. O grupo (que é de salvador) dizia que não conseguiria fazer um som diferenciado na terra do axé nem que a vaca tossisse. Mas fez. E assim a vaca tossiu (“cof” da “muuuú”, para quem ainda não entendeu). Pode não ser uma tossida bovina, mas é um sopro de frescor na música brasileira, e isso vale para norte, sul e sudeste.

Depois de 3 anos na estrada, Véu (a vocalista), Peu (teclado), Cláudio Lima (bateria), Karranka (guitarra), Dudare (baixo) e Fábio Abu (percussão) assinaram contrato com a Som Livre para o lançamento do cd homônimo. Nas 12 faixas eles mostram grande entrosamento e fazem um rock muito maduro, com levadas de MPB e grandes influências de rock progressivo.

Os destaques são Caprichos, altamente psicodélica com instrumental perfeito (ia falar só do solo de guitarra, mas seria injustiça grave) e letra levemente social; Nua, uma das mais redondas, um dos grandes símbolos do que o Cof Damu representa como banda, como coletivo, trazendo ainda bons jogos vocais e solo de flauta da Véu; e Grãos, de levada mais pop e letra alto astral feita na medida para as rádios.

“Tantas mãos
Ecoam a dor
De quem as têm
Quantos olhos se apagaram
Órfãos que não choram mais

Não exagere em seus caprichos
Se não conhece quem os faz
Você quem reduziu e cifrou a inocência

Transformaram a cicuta
Em água fresca
O que é real que não é fatal?

Não exagere em seus caprichos
Se não conhece quem os faz
Você quem reduziu e cifrou a inocência

Não há voz,
Não há chão,
Não há sol,
O ego já se espalhou” – Caprichos.

“However difficult it may be, there isn’t a passage that doesn’t become easy if practised a hundred times. (…) Purely repetitive work of this kind may appear stupid, and I admit that it comes close to being so;“
Sviatoslav Richter em Mosaingeon, Bruno – “Sviatoslar Richter, Notebooks and Conversations”

Não falar de si mesmo, mas falar de algo, é dar a conhecer de si mesmo. Pela visão das coisas apresentadas pode-se conhecer a personalidade de cada um. Quanto mais esforço se faz para suprimir tudo o que há de si mesmo nessa leitura, mais se tem o efeito reverso. Quanto mais esforço se faz para remover tudo o que há de si mesmo de uma leitura, mais solidifica-se a sua essência, aquilo que ninguém pode tirar de si mesmo, aquilo que nos é tão natural que escapa até da nossa própria consciência.

São duas teorias de interpretação diferentes: fazer o máximo para “purificar” a música de si mesmo ou, simplesmente deixar que o inconsciente libere seus mistérios, estudando criteriosamente e cuidadosamente e tocando livremente.

Duas formas diferentes e opostas de encarar a música, vistas por dois gigantes, respectivamente, Sviatoslav Richter e Martha Argerich, mas que conduzem, paradoxalmente, ao mesmo resultado: a imagem pura da essência do intérprete, seja por aquilo que ele não consegue remover ou por aquilo que ele, simplesmente, deixa fluir de uma fonte que nem ele mesmo conhece.

O estudo da técnica é indissociável do estudo da música, visto que cada peça apresenta sua dificuldade, única e singular, que, de certa forma, é sua marca de individualidade de cada obra. Para apresentar desse jeito, os aspectos técnicos são a arquitetura e os musicais a decoração. Ambas não têm valor sozinhas, nem em proporções erradas. Achar essa proporção é algo que perturba os intérpretes, os compositores, os ouvintes, os críticos e a humanidade toda, de uma forma geral.

Evgeni Ugorski mostrou que tem domínio magistral de ambas, de forma natural. Seus harmônicos afinadíssimos e seu senso de fraseado ao mesmo tempo rígido e poético transparecem uma personalidade musical que, embora em formação, é profunda. Sua essência é bela e suas bases são sólidas.

O concerto de Tchaikovsky, conhecido por sua profundidade, intensidade, dificuldade e por não desgrudar da cabeça de quem tem a felicidade de ouvi-lo bem tocado, é uma obra perfeita para demonstrar tais qualidades.

A cadência do primeiro movimento foi absolutamente emocionante. Não se ouvia um ruído, ínfimo que fosse, no Theatro. A platéia, a orquestra, os mosquitos, todos pararam e ouviram. Ninguém ousava esboçar reação, diante de tal maravilha. Exceto os violinistas da orquestra, ao mesmo tempo maravilhados, e, justificadamente, com uma tromba de inveja.

Não tenho muito a dizer, mas o mais importante é o seguinte: aquela interpretação, tocada por qualquer violinista, de qualquer idade, seria absolutamente fantástica, foi absolutamente fantástica. Não vamos usar a palavra violinista, digamos, simplesmente, músico, tal foi o entendimento da obra, a qualidade sonora e a sinceridade, que, ao meu ver, é a qualidade principal de um músico.

Pudemos então ter uma rara visão do casamento perfeito de técnica e musicalidade, tão raro e tão delicioso. Pude, então, não apenas ficar fascinado pelo incrível domínio técnico do instrumentista, mas também por sua enorme compreensão musical.

Sozinho, de pé, diante do Municipal lotado, Evgene Ugorski fez com que todos ali presentes sentissem uma pontada no coração. Através do violino e das mãos dele, Tchaikovsky falou e, com sua própria mão, tocou nossos corações.

Um último comentário: ele tem dezoito anos.

01. Sendo direto: Espacial é uma pequena obra de arte. Como foi o caminho da concepção da identidade musical do CD até o resultado final? Diria que o refinamento presente é uma evolução natural dos CDs anteriores?

Obrigada pelo elogio! Acho que a cada disco trabalho com a idéia de aprofundar a relação com as músicas e com o uso dos equipamentos como forma de manipular e criar texturas sonoras. Sempre começo pelas composições e depois penso bastante que cara quero dar ao disco, pra onde quero levar as músicas. Surgem então os produtores, figuras fundamentais pra dar forma ao que eu imagino. Penso que o refinamento pode ser a relação com a delicadeza, com a sutileza, por causa disso fica refinado.

02. Você provavelmente é conhecedora do cenário de música eletrônica mundial. Como acha que Espacial dialoga com esse cenário? Há influências do trip-hop de Massive Attack, um viés de tango talvez de Bajofondo ou Gotan Project, etc.?

Essas referências musicais são profundamente inspiradoras pra mim. Meus discos despertaram sim um interesse fora do Brasil. Na Inlgaterra meu segundo disco – Só Deixo Meu Coração ma Mão de Quem Pode recebeu uma crítica muito elogiosa no The Guardian e o cd foi lançado em diversos países. Acho que habito um lugar sutil que é o que mistura a eletrônica com a sonoridade brasileira. Isso é resultado da pesquisa das texturas sonoras combinadas com as canções que valorizam a melodia.

03. No seu site há a frase “nada é casual, no entanto, tudo é sincero” para se referir à ambientação e repertório dos shows. Olhando para a caixa, as fotos, o desenho no CD, a impressão que se tem é que tudo foi feito com muito cuidado, muito carinho. Qual foi o seu envolvimento na concepção visual do CD?

O envolvimento é total, em todas as etapas, não tem como separar. Chamei somente mulheres pra trabalhar na concepção visual. Eu queria me revelar mais, sempre acentuando o feminino, a sutileza, o mistério, a delicadeza, coisas que eu sempre vou enfatizar. Não a mulher frágil, mas a mulher de verdade. Falando a verdade nunca acho que cheguei aonde eu queria, mas acho que tudo é uma busca eterna. Talvez eu nunca chegue num lugar ideal.

04. Um cd como Espacial mostra que, ainda bem, MPB é um termo flexível que inclui sonoridades diversas. O que você acha do cenário musical brasileiro atualmente? Está faltando renovação ou quem não encontra novidades está olhando para o lugar errado?

Tem muita gente fazendo muita coisa legal. O que falta é o acesso a isso. Acho que falta tocar no rádio, na TV, falta lugar legal pra tocar. O que não falta é som.

05. A mp3 e ferramentas como MySpace e Youtube facilitam a vida do artista de alguma forma ou os grandes beneficiados são mesmo os fãs, com acesso irrestrito a quase tudo?

Facilitam a vida do artista, pois facilitam a troca de informação de uma forma absurda. Eu suo e abuso de todas essas ferramentas.

06. Qual o próximo passo?

Fazer um videoclipe de Cais pra colocar no Youtube, montar um show mais acústico pra fazer em lugares com piano.

Peter Cincotti aparece comumente em listas de nomes do jazz contemporâneo, mas seu estilo vem evoluindo de CD para CD e engloba cada vez mais ritmos musicais. O pianista foi o artista mais jovem a entrar na parada de jazz da Billboard e está aos poucos conquistando espaço no cenário internacional, aparecendo com força na Itália, França, Bélgica e Suíça, países mais abertos ao mix musical que Cincotti decidiu explorar. O músico de 23 anos acaba de lançar East of Angel Town pela Warner, garantindo uma ampla distribuição ao redor do globo. Por aqui, nenhuma divulgação, mas se considerarmos o panorama de lançamentos em território tupiniquim, já é sorte ver o CD nas prateleiras (procure antes no setor de cantores de jazz), mesmo que com preço salgado e superior ao de alguns títulos importados.

Peter CincottiSe no primeiro cd Peter Cincotti apostou no território seguro dos clássicos de jazz, em On the Moon (lançado pela Universal) músicas de Carole King, Cole Porter, William Handy e Cindy Walker começaram a dividir espaço com composições próprias do pianista. Seguindo um caminho natural, Cincotti decidiu explorar mais o lado compositor e em East of Angel Town, seu terceiro trabalho, conduziu uma mudança estratégica: mudou para a Warner, contratou para contato de mídia Liz Rosenberg (que trabalha com Madonna) e gravou um CD totalmente autoral, escolhendo como produtores ninguém menos que David Foster (14 Grammys no currículo, com 42 indicações) e Humberto Gatica.

“Eu acredito que toda expressão artística é autobiográfica, seja literal ou simbolicamente. Não acho possível criar algo que não seja assim”. – Peter Cincotti.

O acerto de Peter Cincotti em East of the moon é usar o jazz como uma inspiração e não como uma camisa de força. O próprio cantor diz que foi um verdadeiro duelo convencer David Foster de algumas de suas idéias, mas o esforço foi válido. Exceto por alguns exageros em uma faixa ou outra (típicos de quem quer usar todas as idéias ao mesmo tempo e esquece que menos é mais), East of Angel Town funciona muito bem ao equilibrar o lado clássico e contemporâneo do jazz, fórmula que Cincotti vem aprimorando desde o início da carreira. Outro acerto provavelmente guiado por David Foster é usar como ponto de partida para a evolução melódica a voz singular de Cincotti e sua habilidade ao piano, o que dá personalidade ao trabalho e ajuda o músico a atrair públicos variados. Mesmo não sendo nova, também não deixa de ser interessante a idéia de fazer de cada música uma pequena história, deixando as letras do CD com um caráter mais dinâmico.

Os destaques de East of Angel Town ficam por conta de Make it All Alive, Goodbye Philadelphia e Man On a Mission.

Single Goodbye Philadelphia no Youtube

Não tenho palavras para descrever e analisar o concerto de ontem (27/03/08) no Municipal. Dito isto, mesmo sem as palavras que seriam justas, aqui vou eu.

Maria João Pires é portuguesa de nascimento e brasileira de coração. Dentre as inúmeras gravações para o selo Deutsche Grammophon, destaco a integral das sonatas de Mozart e a dos noturnos de Chopin. As sonatas de Mozart tenho no meu mp3 e levo pra tudo quanto é lugar (nunca se sabe quando uma delas pode começar a pipocar na sua cabeça, e vc precisa ouvir, então, pra manter a sua sanidade mental), os noturnos eu tenho só em casa, porque pra mim não funciona ouvi-los em qualquer clima, em qualquer lugar.

Pedro Taam e Maria João PiresAmbas são um atestado da excelência técnica e musical da pianista. As sonatas de Mozart são obras de grande simplicidade e beleza, e são intrínsecas uma à outra. A beleza vem da simplicidade. A dificuldade de se analisar uma obra, estudá-la, pensar em cada aspecto, pensar cada frase, cada ligadura, cada acento, pensar a articulação, a agógica, as dinâmicas, ter tudo absolutamente pensado e definido na sua cabeça e, ainda assim, tocar ”simples” e com naturalidade é enorme.

Os Noturnos têm uma dificuldade semelhante, mas além da naturalidade e da ”simplicidade”, eles exigem um quê de espontaneidade e intimismo. A questão dos planos sonoros é um caso à parte. Além de tudo o que eu já citei, saber colocar os temas e as frases em planos sonoros diferentes, mas, mesmo assim, sem perder a unidade da obra e sem perder a linha expressiva é essencial.

Dito e posto isso, eu agora afirmo: Maria João Pires é o que há de mais sincero, poético e bem acabado.

Seu grande volume sonoro é dividido, cuidadosamente, em diversos infinitos planos sonoros. Ela tem uma coisa, indescritível, mas tão familiar a nós, uma espécia de sinceridade, de generosidade de coração. Ela não tem medo de se doar na música. Ela não quer impressionar, não quer ”enfeitar o pavão”, tudo o que ela toca é resultado da mais pura e singela reflexão, é sincero, é ela.

Não ter medo de expor a própria alma, a própria essência, ao Municipal lotado, faz dela uma musicista singular. Porque perdendo o medo ela se liberta de todas as amarras e faz, então, música pura.

O programa – todo Chopin, exceto pelo bis – favorece essa qualidade da artista.

Pavel Gomziakov, de 32 anos, nascido em Tchaikovsky (é, eu também não sabia que tinha uma cidade com esse nome) é também um musicista fantástico, resumindo: prêmio especial do júri no concurso Tchaikovsky de 2002, masterclasses com Natalia Gutman, participante do festival de Verbier, e, curiosidade: é o cellista da trilha sonora original de “Má educação”, de Pedro Almodóvar.

No palco uma simpática disposição: uma mesinha, com partituras (e um abajur, tinha um abajur?), uma jarra d’água, e três cadeiras, alem da estante do cello, e, claro, o piano e respectivo banco.
Abriram o concerto com o arranjo maravilhoso de Glazunov sobre o estudo Op.25 N.7 em Dó sustenido menor. Pavel mostrou seu virtuosismo, seu som enorme e sua musicalidade refinada.

Mesmo com o caos que estava a cidade (o Rio de Janeiro está um caos desde ontem: o trânsito vindo do Centro e indo pro Centro simplesmente não anda), atrasaram o concerto só quinze minutos. Muito embora o Theatro tenha que fechar e os artistas tenham que dormir, acho que teria sido de bom tom se tivesse atrasado trinta ou quarenta minutos. O tempo dos trajetos foi, no mínimo, dobrado.

Voltando ao concerto: depois do breve ”aquecimento”, Pavel se sentou numa das cadeirinhas, e Maria João tocou o noturno Op.9 N.3, Si maior.

Uma das experiências mais emocionantes da minha vida. O controle do tempo, do rubato, da dinâmica, da agógica, dos planos sonoros, a articulação, o fraseado perfeito, tudo. Chamo atenção para o seguinte: Chopin, principalmente nos Noturnos (e nos concertos), desenvolve uma harmonia hipercomplexa, capaz de criar ”climas”. Poucos são os pianistas que conseguem se valer desse artifício do compositor (alguns diriam “realizar esta intenção do compositor”) e, de fato, criar climas, tensões, que por meio de associações subconscientes inexplicáveis, se transformam em emoções, apertos no peitoe lágrimas nos olhos. A maior impressão que eu tive da Maria foi que ela é sincera. Eu não conseguia pensar em nada, a não ser no quão sincero era tudo o que aquela mulher estava nos ”dizendo”, por meio de sua música.

Alguns acham que o intérprete deve ser o canal para a música, alguns que a música deve ser o canal para o intérprete se expressar. Sugiro aos dois grupos que se calem e escutem Maria João Pires.

Sem muitos rodeios, Sonata 3. Bem mais otimista que a Sonata 2, e igualmente difícil e maravilhosa, a Sonata 3 é uma das maiores obras de Chopin, em complexidade e em intensidade. Maria João não fez firula: sentou ao piano e, simplesmente, tocou.

Diana Kacso narra que, ao chegar na Juilliard School, sua primeira aula foi apenas sobre as cinco primeiras notas dessa sonata. Não os primeiros cinco minutos, as primeiras cinco páginas, nem os primeiros cinco compassos. Apenas as primeiras cinco notas. Seu professor dizia que é necessário prender a atenção do ouvinte desde essas primeiras cinco notas.

Maria João prendeu, não só desde as primeiras cinco notas, como até o fim. Sua criatividade como intéprete é excepcional, ela deu nova forma e uma concepção fresca de uma obra tão tocada e tão estudada. O público teve um momento de descontrole, e aplaudiu ao fim do primeiro movimento.

Tem intérprete que gosta (tolera?) tem intérprete que não. Maria João não gostou, fez que não com a cabeça, e atacou o segundo movimento, Scherzo. Impecável, maravilhoso, límpido, cristalino.

O terceiro movimento, Largo, acumulou toda a tensão musical e emocional, como uma confidência, até que, enfim, chegamos ao catártico quarto movimento. O quarto movimento é uma catarse progressiva, que culmina numa coda onde os temas são resolvidos e a sonata, de Si Menor, passa a Si Maior. um ”final feliz”, por assim dizer. Eu acho interessante esse otimismo: mesmo com todos os momentos difíceis, tristes, a confiança de Chopin de que no fim, tudo se resolve e que a vida termina com um sonoro acorde de si maior.

Aplausos, aplausos e mais aplausos. A pausa, então, mais do que merecida, e a segunda parte: Sonata pra Cello e Piano. Composta em 1845, foi a última obra do compositor publicada em vida. Não é uma obra fácil de entender, de ouvir nem de tocar. Maria João conta que estava há trinta anos querendo estudar essa sonata, e que ela e Pavel aprenderam juntos.

De toda a monumental obra, eu destaco o curto e singelo terceiro movimento, quase todo em pianíssimo. Mas só se sussurra aquilo que é muito importante.

Maria João, além de tudo, é extremamente atenciosa e simpática. Agradeceu a forma com que os brasileiros a acolheram, de coração, e contou que está esperando sair a sua nacionalidade brasileira, que para ela é muito importante. Assim, todos nós temos de nos orgulhar, afinal, Maria João Pires é brasileira, de coração e de papel.

Olga Kern é uma mulher encantadora, simpática e fantástica pianista. Como qualquer um, não posso deixar de mencionar que venceu o concurso Van Cliburn em 2001.

O concerto Nº1 de Tchaikovsky talvez seja o concerto mais popular pra piano e orquestra, o concerto que qualquer leigo sabe um trechinho de cor. À parte disso, uma obra belíssima, profunda. Dramática e de fácil acesso e entendimento, razões pelas quais é um dos concertos mais queridos também pelo público, digamos, ‘iniciado’.

A OSESP é uma das melhores orquestras (porque, como carioca, não estou em posição de dizer *A* melhor) do Brasil, com um dos maiores orçamentos, uma das melhores temporadas de concertos, ecomenta-se, os melhores salários.

John Neschling é um dos maiores regentes brasileiros, seu currículo e seu parentesco com Schöenberg falam por si só.

Meu ponto é: o concerto de ontem (23/03/2008) tinha TUDO pra ser, não apenas um dos melhores concertos em que já estive presente (e de fato foi), mas também um concerto perfeito. Daqueles que você sai de alma lavada, dez quilos mais leve.

E não foi.

Vou me propor a fazer uma humilde análise ras razões pelas quais isso não aconteceu.

O programa foi muito bem escolhido. A alvorada na Floresta Tropical de Villa Lobos é uma peça descritiva, belíssima, super interessante. E, aliás, foi a melhor peça do programa, como um todo. O Tchaikovsky, como eu já disse e todos sabem, também é uma peça fantástica e belíssima, mas é uma obra grande e densa, que exige sincronia do intérprete com a orquestra e um profundo envolvimento. Aí começaram os problemas.

O primeiro problema, que eu apontaria logo de cara, é o seguinte: ninguém pode subir no palco, sentar no piano e simplesmente tocar uma obra tão grande, densa, complexa, etc. É necessário um ”aquecimento”, não apenas físico e muscular, mas mental. O tempo do intérprete ”se acostumar”, digamos assim, com a situação, a platéia, o piano, a música, consigo mesmo, enfim, com o ambiente externo e interno.

As razões pelas quais isso não foi feito eu desconheço. Sei que a Olga é uma pianista do mais alto calibre, uma das top concertistas internacionais e que é profundamente versada no que nós brasileiros chamaríamos de mumunha, tarimba ou cancha da coisa, mas os americanos (e alguns pseudos) preferem chamar de know-how (antes fosse savoir-faire, pelo menos é um estrangeirismo latino).

Não basta um mero aquecimento antes do concerto. A simples caminhada do camarim pro palco e a visão do Municipal quase lotado é suficiente pra esfriar os dedos e a cabeça de qualquer um.

Tudo bem, mas eu estava falando da pianista. Razões que justificariam o que houve. Mas não justificam. O problema não era da pianista.

Não considerando o show à parte da luta do spalla e do concertino contra o ventinho que tirava a partitura do lugar e os horrendos mugidos e pigarros guturais e grotescos do Neschling, devo dizer que a orquestra não estava à altura da solista.

Por várias vezes viu-se a pianista esperando a orquestra, Neschling fazendo que não era com ele, o spalla segurando a partitura com a voluta e o concertino com o arco, a orquestra um tanto quanto perdida.

Sinceramente não entendo qual seja a dificuldade de se arrumar um par de pregadores para as partituras e um regente que efetivamente esteja regendo algo, mas a solista merecia uma orquestra mais compenetrada, mais séria, melhor, naquele dia, naquela hora.

É claro que a OSESP – ou melhor, os *músicos* da OSESP – são de competência inquestionável, mas de qualquer jeito não é isso que eu estou questionando, estou questionando o momento.

O primeiro movimento teve grandes momentos, GRANDES momentos. Não foi constante, mas em algumas partes a Olga superou as dificuldades (hahaha, não musicais nem mecânicas, essas não são difíceis para ela) e fez música, pura, nua, desprovida de vaidades, exibicionismos e floreios, mas com uma virtuosidade e uma sinceridade fantásticas. Curiosamente isso aconteceu durante os grandes solos do piano, em que a orquestra não podia atrapalhar.

No segundo movimento (graças!) eles se acharam. O Neschling parou de pensar na morte da bezerra, deu um tempo nos balidos e grunhidos, o ar condicionado diminuiu a ventilação e a solista e a orquestra começaram a se entender.

Nesse espírito, Neschling deu o ataque súbito (nem todo mundo faz súbito, mas eu gosto dele súbito) do terceiro movimento, esse sim, absolutamente perfeito e irrepreensível.

Olga Kern e Pedro Taam Ovacionada pelo Municipal de pé, Olga foi e voltou três vezes, recusou o aperto de mãos do Maravilha (o que rendeu boas gargalhadas) e falou – pasmem – algumas frases em português. Aquilo foi tão emocionante e eloqüente quanto o seu tocar em si. Eu achei um gesto de carinho, de atenção com o público. Ela dise que era a primeira vez dela no Brasil, que estava feliz e nos desejou Feliz Páscoa. Depois disso, sem rodeios, sentou e tocou um Mussorgsky/Rachmaninov enlouquecido. Ovacionada novamente, Maravilha não ia ficar quieto parado, muito menos o resto do Theatro, Olga fez um gesto com o polegar e o indicador dizendo só um pouquinho, e deu então, de bis, o Vôo do Besouro, de Korsakov em transcrição de Rachmaninov.

O Concerto acabou ali.

O Beethoven depois (terceira sinfonia, Heroica) foi um tanto quanto xoxo, desencontrado e sem energia. Mais uma vez as onomatopéias do Neschling e os ventos que levavam a partitura. O que houve de mais Heroico ali foi a luta do spalla e do concertino contra a partitura, todo o senso de tensão, expectativa, júbilo e redenção que esperávamos ouvir na música acabamos por assistir nessa luta épica.

Fico grato à Olga que, depois do concerto, no camarim, se mostrou ainda mais simpática, gentil e bem humorada que eu imaginava. Grato também por sua interpretação do concerto e dos bis, que foram, por assim dizer, de lavar a alma. Antes o concerto tivesse acabado ali e a alma tivesse ficado limpa.

01. Um Grammy (Spellemannsprisen), turnê bem-sucedida, sucesso de público de crítica. Candy Store foi um jeito de fechar um ciclo e comemorar os bons ventos? Já dá pra imaginar o próximo passo?

Até agora lançamos cinco discos e temos vivido de música e com a música por oito anos. Candy Store foi um jeito agradável de dizer que precisamos de, senão umas férias, pelo menos um ano de ensaios para que possamos preparar um disco que seja de alguma forma diferente dos anteriores. Chega um certo momento em que é fácil ficar cansado do seu próprio som, e nesse ponto faz sentido fazer uma coletânea, porque força você a olhar para frente. Espero que possamos surpreender um pouco os nossos fãs da próxima vez.

Minor Majority (press photo)

02. O que mudou musicalmente de “Walking Home” para “Candy Store”?

O grupo passou por várias mudanças ao longo dos anos. Mas creio que a composição das músicas conecta tudo isso. “Walking home from Nicole’s” foi uma espécie de álbum solo para mim. Eu toquei a maioria dos instrumentos e compus todas as músicas e arranjos. “If I Told You, You Were Beautiful” foi o álbum em dupla, no qual Jon (o guitarrista) me ajudou com os arranjos das músicas. Sua guitarra foi absolutamente essencial naquele álbum e, na minha opinião, foi sua melhor performance. No nosso terceiro álbum Jon e eu decidimos que precisávamos de uma banda para tocar nossas músicas do modo que gostaríamos de ouvi-las. E embora “Up For You & I” possa ser um pouco mais dramático e melancólico do que “Reasons to Hang Around”, eles são na essência dois álbuns baseados nas mesmas idéias musicais. Eu realmente não sei como vai ser o som do próximo, mas ele só será lançado quando estiver soando bom.

03. Vi que você está escrevendo artigos sobre música para um jornal e começou fazendo um apanhado geral da música mundial no ano de 2007. No mercado nórdico, quem são os nomes despontando no momento?

Eu gosto bastante de uma banda de rock chamada El Cuero. Eles têm essa mistura realmente interessante de Neil Young e The Band. E tem um novo cantor e compositor chamado Ingrid Olava, que faz músicas muito boas e tem uma voz à altura.

Minor Majority (press photo)

04. Internet é, sem dúvida, uma ferramenta importante para os fãs. Sites como Myspace, Youtube e o próprio site da banda facilitaram a vida do Minor Majority de algum modo, ou a tríade rádio/show/cd ainda está no papel principal?

Tanto Myspace quanto Youtube são ótimos sites para espalhar música. Adoro quando as pessoas colocam músicas de apresentações diferentes por toda a Europa. É como um álbum de foto, só que não é nosso. Mas embora a internet tenha se mostrado útil, ainda dependemos das rádios, turnês e vendas de cds.

05. Escolher as músicas da coletânea não deve ter sido trabalho fácil. Vocês têm músicas que são hits obrigatórios nos shows? Que na hora de montar o setlist vocês sabem que não pode faltar?

É difícil deixar de fora músicas como “She Gave Me Away”, “(In That) Premature Way”, ” Come Back To Me” e “Supergirl”, mesmo que estejamos um pouco cansados de tocá-las. E também tem as nossas próprias favoritas, como “Smile At Everyone” e “Think I’m Up For You & I”. Essas são músicas que tocamos em quase qualquer apresentação.

06. Se vocês tivessem que se apresentar para os fãs brasileiros, que música escolheriam?

“(Think I’m) Up For You & I”


Exclusive Interview with Minor Majority

Minor Majority (press photo)

01. One Spellemannsprisen, a successful tour, recognition from audiences and critics. Candy Store was a way to end a cycle and celebrate good winds? Can you imagine the next step already?

We’ve now released five albums and lived with and of music for eight years, Candy Store was a nice way of saying we need, if not a break, then at least a year in the rehearsal room so that we can do an album which is somehow different from the previous ones. At one point it’s really easy to get tired of your own sound, and at that point it makes sense to do a compilation, because it forces you to look ahead. Hopefully we’ll be able to surprise our fans a little the next time around.

02. What changed musically between “Walking Home” and Candy Store?

There has been quite a few changes in the band over the years. But I suppose the songwriting is binding it all together. “Walking home from Nicole’s” was sort of a solo-album for me. I played most of the instruments myself and made all the songs and arrangements. “If I Told You, You Were Beautiful” was the duo album, where Jon (the guitarist) helped out with arranging the songs. His guitar playing is absolutely essential on that album, and in my opinion his best performance ever. On our third album Jon and I decided that we needed a band to perform our songs as we wished to hear them. And although “Up For You & I” might be a bit more dramatic and melancholic than “Reasons To Hang Around” it’s in essence two albums based on the same musical ideas. I really don’t know what the next album will sound like, but it’s not to be put out before it sounds good.

03. I read in the website you are writing music articles for a newspaper and that you started by doing an overview of world music in the year of 2007. In the Nordic market, who are the rising stars?

I really like a rock’n'roll band called El Cuero, they have this really nice blend of Neil Young and the Band. And there’s a new singer songwriter called Ingrid Olava who makes really good songs, and who has the voice to go with it.

Minor Majority (press photo)

04. The Internet is certainly an important tool for fans. Sites like MySpace, YouTube and the band’s own Web site made Minor Majority’s life easier somehow, or is the radio/show/cd triad still in the main role?

Both Myspace and Youtube are great sites for spreading the music. I love it when people put out songs from different concerts all over Europe, it’s like a photo album, only it’s not just yours. But even though the internet has proven useful for us, we’re still dependant on airplay, touring and cd sales.

05. Choosing the music for the greatest hits was probably not easy work. Do you have some songs that are mandatory hits at the shows? The ones that when you sit down to prepare the setlist you know they must be included?

It’s hard to leave out songs like “She Gave Me Away”, “(In That) Premature Way”, “Come Back To Me” and “Supergirl”, even though we might be a bit tired of playing them ourselves. And then we have our own favourites like “Smile At Everyone” and “Think I’m Up For You & I”. These are songs we play at almost any gig.

06. If you had to present yourselves to Brazilian fans, which track would you pick?

“(Think I’m) Up For You & I”


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Espero rever, em 2008, numa temporada mais longa, o show Três Meninas do Brasil, o delicioso encontro entre as cantoras Jussara Silveira, Rita Ribeiro e Teresa Cristina, que no fim do ano passado rendeu apenas duas apresentações no Rio e outras duas em Brasília. Numa época em que os encontros da MPB, são cada vez menos marcantes e mais comerciais (vendem CD e DVD, mas acrescentam pouco à percepção do público, às carreiras dos artistas, ou às canções do repertório), esse show merece destaque, pois recupera e agrupa canções que levam a repensar a tradicional relação entre música popular e identidade cultural no Brasil. Esse tema, que me parece longe de estar bem resolvido em muitas de nossas produções culturais mais recentes, merece ser refletido à luz do que as três meninas cantaram, sob direção musical de Jaime Alem e artística de Jean Wyllys.

A música de Moraes Moreira e Fausto Nilo, que abre e dá título ao show, é o ponto de partida para a reflexão. A canção “Meninas do Brasil” (1980), desde o seu título não deixa de, com algum gracejo, fazer contraponto ao romance Meninos do Brasil (1976), de Ira Levin, que virou filme em 1979. O livro alude ficcionalmente ao médico nazista Josef Mengele, que, após o fm da Guerra, teria se escondido entre os trópicos para dar continuidade a suas experiências genéticas e produzir os tais meninos bem de acordo com os princípios da eugenia nazista. A canção, sem deixar de recorrer aos clichês do nacionalismo, faz o contraponto político tanto com a inversão do gênero, meninos viram meninas (“mulher brasileira em primeiro lugar”, já cantava Benito di Paula), quanto com a insistência na utópica democracia racial:

Três meninas do Brasil, três corações democratas
Têm moderna arquitetura ou simpatia mulata
Como cinco fosse um trio, como um traço um fino fio
No espaço seresteiro da elétrica cultura
Deus me faça brasileiro, criador e criatura
Um documento da raça pela graça da mistura
Do meu corpo em movimento, as três graças do Brasil
Têm a cor da formosura

Essa concepção de identidade orienta o show e se explicita já no cenário: ao fundo três flores amorosas, obviamente remetendo à delicadeza das meninas, e sobre o palco um mosaico de pétalas de crepom que desenham a bandeira do Brasil, cujas cores vão se misturando na medida as cantoras dançam e passeiam sobre ela, enquanto alternam belíssimos trios, duetos e solos. Mas a idéia se manifesta principalmente no repertório que, de referenciais múltiplos, vai do bolero ao forró, passando pelo samba e pela “tecnomacumba”; de “Ludo Real” de Chico Buarque e Vinícius Cantuária a “Impossível acreditar que perdi você”, de Márcio Greyck, passando por “Isso aqui tá bom demais”, de Dominguinhos, “Poxa”, de Gilson de Souza, ou “Minha tribo sou eu”, de Zeca Baleiro. Enfim, procurando abarcar várias faces da música brasileira, o show quer ser macunaímico, ou seja, produzir unidade a partir da diversidade.

É sobre essa concepção de identidade, talvez no que ela possa ter de ingênua ou inatual, que se deve repensar a música brasileira. Nos dias de hoje, em que os discursos identitários estão mais intolerantes do que nunca (e às vezes neonazistas) e pretendem ou realçar a diferença, ou simplesmente tirar algum lucro da condição marginal ou periférica, uma proposta como a das três meninas é Pharmakon, veneno e remédio, que devemos provar.

Depois de ouvir Caetano Veloso, em canção recente (“O herói”, Cê, 2006), explicitar as contradições da heroicização do discurso rancoroso (o que mereceria reflexão em outro texto), ou assistir à “turma do deixa disso” promovendo duetos entre sambistas e rappers, há que se chamar atenção para um dos pontos mais altos do show Três meninas do Brasil. Refiro-me ao momento em que Tereza Cristina recupera, também de Caetano Veloso, “Nu com minha música”. Segue-se um trecho:

Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor
Vertigem visionária que não carece de seguidor
Nu com a minha música, afora isso somente amor
Vislumbro certas coisas de onde estou

Há nessa escolha responsabilidade e compromisso, indicação de que o cantor, ao trazer na voz a flor amorosa das três raças (nem tão tristes quanto queria Bilac), ou ao gravar na superfície das mídias releituras de nossa aquarela, não pode prescindir dessa difícil lição: vislumbrar certas coisas que não estão necessariamente nem centro nem na periferia, nem na casa grande nem na favela, nem no condomínio fechado nem na senzala, mas que são fundamentais para se produzir algum entendimento do Brasil, e para as quais vai se tornando coragem grande poder dizer sim, como quer a canção.

E já que estamos em Caetano, termino com mais um de seus versos: em 2008, o show Três meninas do Brasil é “para lançar depois do carnaval”.

Se você consultar antigas paradas de sucesso notará que havia ciclos musicais bem-definidos, sempre com um gênero de maior destaque. Um exemplo que vem fácil à mente é o império da disco music, que dominou pistas, conseguiu chegar às rádios e ditou moda e comportamento. Numa evolução natural de influências, os anos 80 foram simbólicos para o pop e suas vertentes. Nomes como Human League, Pet Shop Boys, Depeche Mode, A-ha, Duran Duran, Cyndi Lauper, Alphaville, New Kids on the block e Madonna, entre outros, apareciam com freqüência na lista de mais executados. Nessa época surgiu o tecnopop na Europa, embalado por uma nova geração de sintetizadores, e o rockpop no Brasil, que perdura até hoje.

O pop foi tocado intensamente até o início da década de 90. Já no ano de 91, começou a época de transição em que o grunge, alavancado pelo ícone Nirvana e pela força do Soundgarden, assumiu o posto oficial de queridinho e desbancou o pop de seu trono. O grunge era hit nas rádios e reforçava o coro da rebeldia depressiva, enquanto Michael Jackson afundava a carreira e Madonna experimentava vendas baixas com o Erotica. Seguindo a regra da indústria fonográfica, quando os astros caem, os satélites desaparecem. Pelo que parecia, os adolescentes estavam interessados no grunge e o pop estava de molho na lista de prioridade das gravadoras.

Feliz ou infelizmente, o gênero tinha tons escuros demais para o mundo dos videoclipes e uma nova mudança de programação movida a suicídio e brigas nas bandas recolocou o pop no posto central. A Inglaterra, onde o pop e a dance music são realmente populares (como o sertanejo e o pagode aqui no Brasil), alimentou as vendas de uma boyband em início de carreira – o quinteto Backstreet Boys – e serviu de plataforma para o restante da Europa. Na mesma época, estourava o fenômeno mundial Spice Girls (1994), que rompeu barreiras em todo o planeta. Say you’ll be there, Wannabe e Stop eram canções de fácil assimilação, com videoclipes saídos de desfiles prêt-à-porter. A música e a moda caminhavam novamente de mãos dadas, e meninas de idades variadas não se separavam dos seus saltos plataforma. O R’n’B, que seguia forte nos Estados Unidos, não ameaçava o equilíbrio nas programações. Pelo mundo, o rap ainda era material para programas específicos de fim de noite e rádios alternativas.

Com essa abertura inesperada no mercado americano (geralmente avesso a dance music), o produtor Max Martin virou o motor da nova onda pop, lançando Britney Spears, N’Sync, Robyn e Five (esse mais badalado no mercado europeu e no Brasil). Um grupo parecia alimentar o sucesso do outro, funcionando como uma campanha contínua de marketing viral. Todos alcançaram sucesso de vendas e foram uma verdadeira febre adolescente. Michael Jackson, sempre um nome de peso mesmo nos piores momentos, aproveitou para lançar uma coletânea e um cd de inéditas, contando com a irmã Janet Jackson e uma pesada campanha na TV. Roxette, que estava na estrada desde 86, lançou Tourism e logo depois Crash! Boom! Bang!, dois grandes álbuns de música pop com força mundial. Bryan Adams, também em boa fase com seu rockpop farofa, revisitou seus sucessos em um acústico MTV.

Da Austrália, veio o Savage Garden, que conquistou o mundo com uma mistura de rock, dance e pop regada a baladas de refrão fácil, encerrando a tradição de grupos como Midnight Oil e Spy vs. Spy.

Nos EUA, Janet Jackson, depois de uma coletânea elogiada, virou febre com The Velvet Rope, conseguindo boa execução pelo mundo e repetiu a dose com All for you, três anos depois.

Outro ingrediente importante nessa salada pop foi o retorno de Ricky Martin ao cenário musical. Sua música tema para a Copa do Mundo chamou a atenção de nomes importantes como Madonna, que voltava com força total com o álbum Ray of Light (mais puxado para a eletrônica e para o rock), além de abrir portas para o seu cd em inglês com a onipresente Livin’ La Vida Loca. No rastro da moda latina, Shakira, que já havia se consolidado na América do Sul, lançou um acústico MTV e o álbum inglês/espanhol Laundry Service, que emplacou os hits Whenever Wherever e Underneath your clothes. Também importante nessa fusão de estilos e no início de uma nova transição estava Santana com o álbum Supernatural. A dobradinha Smooth com Rob Thomas foi a segunda música mais executada nos Estados Unidos no ano 2000. Em terceiro lugar, Santana aparece de novo com Maria Maria, dueto com o raper Wyclef Jam.

O pop parecia restabelecido. A dance tinha novamente saído das pistas para as rádios e Cher como garota-propaganda (com Believe e Strong Enough). TLC lançava o álbum mais pop da carreira, emplacando No Scrubs e Unpretty, e Britney conquistava o mundo com Hit me baby… one more time e Oops! I did it again.

Chegava a hora de novas mudanças. O império Max Martin começou a demonstrar o desgaste inato à fórmula das boybands, com grupos se desmantelando. A ícone adolescente Britney Spears vendia menos a cada cd (acima dos 10 milhões de cópias, é verdade) e os artistas satélites não queriam mais ficar à sombra dos originais, buscando formatos mais alternativos e novos produtores para seus trabalhos.

As rádios precisavam de renovação e os produtores e gravadoras viram no Hip hop a solução ideal. Sempre forte nos EUA, mas ainda visto como música de gueto, o hip hop encontrou uma arma nas fusões de estilos, que ainda eram exclusividade de produtores vanguardistas. Mariah Carey já se arriscava na mistura em 1995 com Fantasy (a cantora sempre promoveu o hip hop em seus remixes). Outra artista que alimentou a combinação de estilos foi Jennifer Lopez. Com influências latinas, beats de dance music, pop e um toque de r’n’b, seu primeiro álbum On the 6 conseguiu vendagens expressivas e firmou a cantora no cenário internacional, sendo um representante legítimo da transição.

Em outra frente de ataque, Puff Daddy/P.Diddy trabalhava para tornar o hip-hop… pop. Ele produziu N’Sync, Mary J. Blige, Aretha Franklin e TLC. Em seu cd No Way Out, transformou Every Breathe You Take do The Police no hit instantâneo I’ll be missing you, dueto com Faith Evans. Babyface, outro importante produtor, também vinha experimentando fusões trabalhando com o megatrio TLC, Madonna e até mesmo Eric Clapton.

Whitney Houston também levou às rádios o seu mix de estilos com My Love is Your love, que tinha duetos com Faith Evans, Wycleaf Jean e Missy Elliot. It’s not right, but is okay dominou as rádios com uma infinidade de remixes, atacando tanto na área dance quanto no r’n'b.

A fórmula mágica tinha funcionado. Atrás de boas vendas, todos começavam a se render ao hip-pop. Jennifer Lopez decidiu emendar a divulgação do álbum J.Lo no cd de remixes hip-hop, destacando-se com I’m real, testando diferentes proporções da mistura. Madonna, ícone do pop, usou as batidas do produtor francês Mirwais em Music, também aproveitando o som urbano.

O hip-hop, como quem não quer nada, deixou de ser mania americana e dominou o mundo. Se em 2000 e 2001 N’sync, Britney e Backstreet boys eram os destaques nas listas dos mais vendidos, nos anos seguintes foram Eminem, Nelly, 50 Cent os donos das primeiras posições.

Um pouco depois, Usher obteve enorme sucesso com Yeah! e My Boo e Alicia Keys se firmou como um nome forte do R’n’B. Beyonce, pós sucesso com o grupo Destiny Child, saiu em carreia solo com o single Crazy in Love. Gwen Stefani, também solo, largou o rock e apostou no hip-pop enjoativo de Hollaback girl. Aproveitando o bom momento para o tipo de sonoridade que dominava, Mariah Carey ressurgiu com força e lançou We Belong Together e uma enxurrada de músicas vindas de The Emancipation of Mimi. O mais puro hip-pop.

As frentes de resistência vinham com Maroon 5 e o rock de Green Day, mas o desequilíbrio de estilos na execução das rádios já era evidente. Aos poucos, o gênero dominou as paradas, só encontrando um contraponto nas inúmeras bandas EMO. O ciclo parecia interminável.

Para encerrar o massacre, o pop resolveu adotar a mesma estratégia de fusão. Com produtores como Timbaland e Will.i.am ganhando status de midas e Max Martin reconquistando força no cenário musical, uma nova fase começou.

Black Eyes Peas, grupo de Will.i.am, foi o responsável por hits com Where is the love? Shut up, Don’t phunk with my hear e Pump it. Discretamente, a quantidade do ingrediente pop aumentava de uma música para outra, rendendo enfim o álbum solo da cantora Fergie, que trouxe London Bridge, Big girls don’t cry e Fergalicious, um flerte com a sonoridade dos anos 80.

Sumida desde 2003, outro nome a ressurgir com força foi Nelly Furtado, na mesma linha pop com pitadas de hip-hop e sonoridades dos anos 80. Justin Timberlake, ex-integrante do N’Sync e agora um fenômeno de vendas, marcou presença com Sexy Back e LoveStoned, usando ingredientes similares. Madonna, na direção contrária à onda hip-pop americana, lançou um cd de dance, dando nova voz ao gênero. A cantora Pink, livre das amarras do início de carreira, foi presença constante na Europa e na Austrália com seu pop-rock de batidas hip-hop. Com uma boa estratégia de marketing da gravadora, retornou às paradas americanas com Stupid Girls, U+Ur Hand e Who Knew.

Shakira, depois do desempenho fraco de Don’t Bother conseguiu ótima execução com La tortura e Hips don’t lie (dueto com Wycleaf, um rapper). Timbaland lançou cd solo flertando com baladas, hip-hop e dance music. Jennifer Lopez retomou seu lado pop com o álbum Brave depois de um álbum em espanhol. Duran Duran reapareceu com Fallin Down, que apesar da pouca execução nos EUA está indo bem em alguns países europeus. Britney Spears ressurgiu das trevas com o sucesso instantâneo Gimme More, dando mais uma força ao lado dance. Kylie Minogue voltou com 2 Hearts, Kent lançou Ingeting, Eros Ramazzotti se uniu a Ricky Martin no dueto Non siamo soli. Seal lançou um cd orientado à dance music, e por aí vai.

Importante de lembrar é o nome de Rihanna e seu single Umbrella, certamente a música mais executada de 2007 e um representante de peso do hip-pop.

A lista de frutos dessa simbiose é extensa. Sem prejudicar nenhum dos lados, talvez permita maior variedade musical para os ouvintes e abra portas para o pop mais puro (alguém aí falou no retorno das Spice Girls ou no fenômeno adolescente High School Musical?) e o rock legítimo das antigas (eu ouvi alguém citar The Police?).

Como em alguns países a execução na rádio ainda é fator determinante de sucesso e de geração de renda com propaganda, qualquer dúvida sobre um artista pode colocá-lo fora da programação. De qualquer modo, os sinais indicam que um novo ciclo está para começar. Falta saber qual será o estilo ou artista dominante.

Há 25 anos Michael Jackson revolucionou o cenário musical com o lançamento de Thriller.

O álbum vendeu mais de cinqüenta milhões de cópias, ficou mais de trinta semanas no primeiro lugar da parada de vendas e um ano no top 10, um marco insuperável. Muitos acham que o sucesso solo de Michael começou aí. Na verdade, seu cd anterior, Off the wall, foi muito bem recebido pela critica e pelo público, deixando quatro singles de sucesso, como Don’t Stop to get enough e She’s out of my life. Michael mostrou nesse disco seu talento para fusões, acrescentando à música disco elementos do soul.

Thriller, entretanto, merece ser o centro das atenções da carreira do cantor. Dele vieram os singles Thriller, Beat it, Billie Jean, The girl is mine, Wanna be start something e Human Nature, todos alcançando o top 10. Se esses nomes não dizem nada para você, vale relembrar alguns detalhes:

The girl is mine foi um dueto com Paul McCartney. A dobradinha se repetiu depois em Say say say.

Foi com a apresentação de Billie Jean no especial Motown 25 que Michael Jackson fez pela primeira vez o passo clássico Moonwalk, deslizando para trás (Moonwalk na verdade é o nome de outro passo feito nas apresentações de Stranger in Moscow).

Com Beat it, Michael Jackson foi o primeiro a romper as fronteiras entre o pop e o rock. As guitarras na música são de ninguém menos que Eddie Van Halen e o clipe foi uma superprodução.

Thriller deixou claro que o videoclipe não era um mero acompanhamento da música e que tinha imenso potencial de divulgação da carreira de um artista. No vídeo, Michael se transforma em lobisomem ao passear com a namorada. Quando passa em frente a um cemitério, dezenas de dançarinos vestidos de mortos se levantavam para fazer a coreografia junto com o cantor. Quem dirigiu o clipe (que tinha uma versão de 15 minutos) foi John Landis, que encantou Michael com o cult Lobisomem Americano em Londres. A música tem ainda a participação de Vincent Price, ator ícone de filmes de terror.

A versão comemorativa de Thriller conta com algumas participações especiais. Wanna Be Startin’ Somethin’ traz Akon e Will.i.am, The girl is mine tem Will.i.am (talvez substituindo Paul McCartney que não gostou nada de Michael ter comprado os direitos sobre o catálogo dos Beatles) e Billie Jean conta com Kanye West, um dos rappers mais inspirados do momento e ótimo nas misturas de estilo que Michael Jackson gosta de explorar.

Ninguém sabe ainda se os trabalhos de Michael no estúdio foram apenas para a gravação da edição especial de Thriller ou se vem material novo por aí (com direito a retorno dos Jackson 5). Como o pop anda precisando de uma força, todo trabalho de qualidade é bem vindo. De preferência, sem freak life e playback como acompanhamento.

Eu não gosto de Brahms. Mas hoje, ao sair do concerto da Joyce Yang, passei a gostar, pelo menos das baladas. Uma amiga me disse esses dias que alguns compositores são muito sujeitos às mãos que os tocam. E concordo. Acho que Brahms é um deles. Talvez eu não tenha ouvido as obras certas, ou quem sabe os intérpretes certos.

A Joyce é uma simpatia: sul-coreana, tem 21 anos, acabou de tirar segundo lugar em um dos concursos mais prestigiados do mundo, o Van Cliburn.

Depois do Brahms lindíssimo, tivemos um concerto de Mozart. Um concerto dramático, denso, que a Joyce resolveu muito bem.

E então, a estrela da tarde: o nº1 de Tchaikovsky. Tinha tudo pra ser um mau concerto, analisando friamente: uma pianista oriental e jovem e um concerto extremamente conhecido. Pianistas orientais: nada contra, mas, justamente pelo imenso número de pianistas orientais que vem surgindo, vem também os maus pianistas. Pianistas jovens e prodígios muitas vezes são imaturos. E é sempre um risco tocar uma obra tão conhecida, tão gravada, por nomes como Martha Argerich e Vladimir Horowitz.

Mas nada disso teve importância. O que eu vi e ouvi foi uma concepção sólida de um concerto lindíssimo, tocado por uma musicista de primeira categoria.

O primeiro movimento foi imensamente trabalhado e bem acabado. A Joyce não se deixou levar simplesmente pelo virtuosismo das passagens, e não caiu em lugares-comuns. Não seguiu o óbvio, e não foi (por falta de uma palavra melhor) “esquisita”. Escalas fluentes, límpidas, ora brilhantes ora leggeras, oitavas atléticas, cantabiles maravilhosos, tudo isso recheado de muita música.

O segundo movimento com uma rara beleza. Vamos combinar: é muito fácil fazer aquilo tudo cair na chatice. Mas a Joyce não foi chata, em momento nenhum. Muito pelo contrário: através de uma clara diferenciação de planos sonoros, a obra foi costurada e polida, cada seção claríssima, mas sem perder a visão do todo. O clima casual e despretensioso estava lá, a música falava por si só.

O andamento do terceiro movimento foi puxado: andamento de Gilels, de Martha. Mais uma vez pudemos todos admirar a clareza e a beleza das escalas e arpejos da Joyce, e sua concepção musical peculiar.

O Municipal estava praticamente lotado, e é difícil isso acontecer. Não costumo ver as salas de concertos lotadas por aqui, a não ser em concertos de pianistas ‘da moda’, onde as pessoas pagam mais pelo status de ir ao concerto do fulano de tal do que para propriamente ouvir. Até porque, é um dinheiro que não vale a pena.

Pedro Taam e Joyce YangO público era claramente conhecedor das obras, aqui e ali pipocavam comentários pertinentes sobre as baladas, sobre o Mozart. E por isso mesmo, houve aplausos e mais aplausos ao final do primeiro movimento. Só se aplaude entre os movimentos de uma obra em duas hipóteses: quando o público não é acostumado com a música de concerto e a divisão das obras em movimentos ou, como foi o caso hoje, quando o público conhece, sim, a obra e reconhece o quão bem foi tocada. Fato que foi reforçado por um acontecimento que eu adoro, mas é raro: na última nota do concerto de Tchaikovsky já estavam todos se levantando e aplaudindo. Acho que isso, mais que tudo, sintetiza a qualidade da pianista.

Depois de voltar cinco vezes pra agradecer, o bis: o Andante Spianato Op.22 de Chopin. Mais uma vez, maravilhoso (sem trocadilhos – Mariano Gonçalves não estava presente). Lembrou um pouco a Valentina Lisitsa, pela leveza, pelo toque angelical. Aliás, lembrou tudo o que há de bom pianisticamente e musicalmente. Depois de um warhorse como o Tchaikovsky, nada como um Chopin inebriante desses, como um fixador, um toque final de requinte, sofisticação e musicalidade.

Que Diana Kacso é capaz de feitos pianísticos incríveis todos nós já sabíamos. Mas tocar os Doze Estudos de Execução Transcendental de Liszt sem levantar do banco, logo após um 1º round de Estudos Sinfônicos de Schumann, não é pra qualquer um.

Mas Diana não é qualquer uma. Premiada em alguns dos mais importantes concursos internacionais do mundo (como o Chopin, o Leeds, o Arthur Rubinstein e outros), Diana fez uma carreira fantástica nas décadas de 70 e 80. Por uma conjunção de motivos, abandonou os palcos. Se mudou para Nova York, onde casou e teve dois filhos

Em 2006 Diana voltou ao Brasil para ficar (70% do tempo, como ela mesma disse), e está retomando a sua carreira. Seu filho Gabriel é cellista, e se apresenta regularmente com a mãe.

Pois bem, dia 8 foi o primeiro recital ‘importante’ de Diana no Rio em muito tempo. Não apenas por ser na Sala Cecília Meireles, uma das melhores salas de concerto do Rio, mas pelo programa cabeludo que ela tocou.

Foram os belíssimos e dificílimos Estudos Sinfônicos de Schumann, seguidos pelos também belíssimos e ainda mais difíceis Estudos Transcendentais de Liszt.

Quando Liszt deu nome a seus estudos (a publicação final, de 1836, vem com o título Études d’Exécution Transcendante) não foi por acaso. São absolutamente transcendentais, tanto pelas enormes (e, por vezes, inacreditáveis) dificuldades técnicas quanto pelo seu caráter quase espiritual. A obra não é de forma nenhuma homogênea, e uma das grandes dificuldades de se executar os doze em seqüência é justamente tocar peças de caráter adverso sem pausas, sem tempo pra esfriar a cabeça. E Diana tocou os doze, sem levantar do piano, sem pausa. A platéia estava hipnotizada o suficiente para controlar a ânsia de aplaudir

Tive uma visão absolutamente privilegiada de tudo, pouco antes do concerto fui chamado a camarim e tive uma suspresa: Diana resolveu tocar com a partitura e me pediu para virar as páginas para ela.

Pedro Taam e Diana Kacso

Ver, ouvir e, o mais impressionante, ler esses estudos enquanto ela tocava foi uma experiência fantástica. Confesso que em determinados momentos tive dificuldade de me concentrar na partitura e não nas mãos da Diana. Pude testemunhar as imensas dificuldades desses estudos sendo resolvidas com simplicidade pela maravilhosa pianista, que ainda encontrou espaço para dar vida à obra, expor toda a sua musicalidade e sua personalidade fortíssima. E, mais do que ninguém, a sua fidelidade ao texto e, paradoxalmente, a forma com que ela se projeta na música.

Foram instantes únicos, Diana não apenas tocou piano, a música foi feita ali, nua, exposta, na sua forma mais pura e essencial. Um rapaz, após o concerto, sintetizou tudo, dizendo que não sabia mais onde era Liszt e onde era Diana.

Esse comentário pode ser dúbio, se feito a outros pianistas, mas estando ali, e acompanhando a partitura e a Diana de perto, posso dizer: de fato, não se sabia mais onde começava Liszt e onde começava Diana, mas, mesmo assim, ela foi absolutamente fiel à partitura.

Antes do concerto, Diana não se mostrou nervosa ou sequer preocupada com a tarefa que a aguardava. “Tenho que tocar mesmo, não é?”, ela disse. E depois do concerto, sempre modesta, não ficou nem ao menos surpresa pelas maravilhas que fez.

O interessante é que nada disso estava planejado. O intervalo estava programado para ser após os quatro primeiros estudos de Liszt. No entando, após os estudos de Schumann, a platéia se levantou e se dirigiu ao foyer, pensando que haveria intervalo. Diana consentiu, e disse que faria novo intervalo, após o quinto estudo transcendental.

Soou o sinal, voltamos ao palco. Lá mesmo, em cima do palco, Diana virou-se para mim e disse que não ia fazer pausa. E tocou os doze, perfeitamente, em seqüência.

Só me resta expressar meu respeito e admiração por essa mulher capaz de tais façanhas, e esperar ansiosamente o próximo concerto. E agradecer pela volta inesperada dessa jóia rara.

Acontece no Rio de Janeiro e em São Paulo o Piano Solo. Sob a direção artística do pianista Eduardo Monteiro, o projeto – pode-se assim chamar – traz ao público carioca e paulistano quatro apresentações da mais alta classe – pode-se assim certamente chamar. A programação está distribuída de forma vairada, eclética de estilos e de compositores, o que sugere uma liberdade íntima dos intérpretes para com seus programas, o que coloca, sem dúvida, um valioso canal através do qual o artista expõe ao público figuras de sua estirpe: o momento de suas carreiras, seus trabalhos, os compositores ou estilos de maior dedicação, seus focos. Não é, portanto, um evento segmentado a este ou a aquele estilo ou compositor, como é muito comum nos grandes eventos e séries. Há os títulos menos conhecidos e os consagrados pelo público.

O Piano Solo se faz em quatro apresentações, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, no Theatro Municipal de São Paulo e no Espaço Promon, ambos os últimos na capital paulista. A primeira apresentação se deu em outubro trazendo Nelson Freire, um gigante que definitivamente já está na História, e no Panteão, dos grandes músicos deste país.

Como é da característica do evento, abrindo a apresentação do artista principal, será dado ao público a oportunidade de conhecer jovens talentos, destaques preciosos da cena musical emergente. Bela iniciativa.

Ainda haverá três apresentações até dezembro. A próxima, será nos dias 8 e 9 de novembro, respectivamente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tocará nestes dias a brilhante Diana Kacso, pianista brasileira, radicada nos EUA, há algum tempo ausente dos palcos locais, e talvez menos conhecida por isso. Diana tem se apresentado em palcos brasileiros há qualquer coisa em torno de um ano e meio. O sucesso tem sido espetacular. Mais que aclamada, Diana tem sido comentada pelo público (efeito sempre difícil de conseguir: é sempre mais fácil arrancar as palmas do que os ecos da platéia, é sempre uma característica dos grandes).

Restam, depois, duas apresentações. A terceira caberá a Cristina Oriz, num programa instigante dedicado a Ravel e Rachmaninoff. A última apresentação ficará a cargo de Eduardo Monteiro, em mais uma de suas imperdíveis apresentações, sempre com um repertório bastante variado, sem jamais perder unidade, num programa verdadeiramente internacional, não apenas estrangeiro.

O projeto é muito positivo, e espera-se confiantemente que não seja apenas pontual. E não falo apenas deste projeto específico falo do público, que deve prestigiar, dos grande artistas que podem se apresentar e de empresários que acertam em apostar em iniciativas de sucesso, em todos os sentidos. Vale registrar que a série Piano Solo faz sinais de que esta possa ser apenas a primeira temporada de muitas. Oxalá.

Há muitos eventos de resgate – como é comum dizer nos círculos culturais – de compositores e estilos. Mas aqui está a oportunidade de fazer um resgate de algo que está no fim e no princípio. É recolocar o público no território fértil das grandes apresentações, à volta dos virtuoses e da excelência musical constante. É, no fundo, resgatar o próprio público. Já não é de hoje que bato nesta tecla. Todos têm a ganhar com isso.

Mais informações sobre o Piano Solo (datas, bilheteria, pianistas, patrocinadores) em: http://www.pianosolo.com.br

Há mais ou menos um ano Jay Vaquer lançou o cd Você não me conhece e emplacou nas rádios e na MTV o hit Cotidiano de um casal feliz. O tempo voou e o cantor divulga agora seu quarto cd, Formidável Mundo Cão, que merece um lugar em todas as listas de melhores do ano.

Jay VaquerO cd se divide de forma equilibrada entre letras e melodias leves e pesadas. Para sorte dos fãs, Jay Vaquer segue apostando na qualidade e faz questão de fugir das velhas fórmulas desgastadas que vêm assombrando grupos mais antigos. Dos momentos românticos (sim, ainda é possível usar esse termo no Brasil sem se referir a músicas vazias que se apropriaram do verbete para usá-lo como gênero musical), um dos pontos altos é a faixa Por um pouco de paz, que traz alguma paridade melódica com o primeiro cd. “Cumpro a sentença / e compenso o que a cela limita / Peço licença de meu senso / e me faço visita / Me conto como está um antigo amigo inventado / Confesso a saudade de estar comigo ao meu lado / e tento cavar um túnel / que me leve de volta / a tudo que me prendeu”. Outro destaque é Nera, que merece atenção não só pelos bons arranjos (o cd é produzido por um time de primeira), mas também por metaforizar no amor a história de Nero, o imperador que supostamente incendiou Roma.

Quando o foco é o fogo verbal, as críticas vêm na forma de pequenas histórias, beirando os limites entre música e conto.

Jay VaquerLonge Aqui, o primeiro single divulgado nas rádios e no myspace, conta a história de uma menina pressionada pela família a abandonar a namorada, abdicar de si mesma e encarnar personagens mais aceitáveis pela sociedade. “Tinha que engravidar, criar, envelhecer, morrer como todos esperavam/ Tinha que renunciar, agradar, obedecer, vencer, como todos desejavam/ Até que ela partiu/ Ela partiu pra bem longe/ Pra distante o bastante pra suportar”.

Breve conto de um velho babão é um dos grandes momentos rock do cd e explora ao máximo a potência vocal de Vaquer. “Chorava o leite derramado/tudo que havia conquistado / e no discurso decorado/tinha orgulho do passado / um passado que esquecia/toda vez que enlouquecia / se esfregando pelas raves doido de “E”.

Jay VaquerVale lembrar que as 12 faixas são assinadas pelo próprio Vaquer, que parece ser um dos poucos artistas do momento a refletir em sua música a realidade massacrante do país, estagnado diante das próprias mazelas. Tudo isso regado a muita ironia e rock’n’roll.

Para encerrar, a letra de Estrela de um Céu Nublado, provavelmente um dos hits de 2008. A música é um dueto com Meg Stock, vocalista do Luxúria (uma ótima banda da nova geração rock).

Decidiu que precisava ser alguém no mundo e não mais um na multidão
resolveu investir fundo nas aulas de interpretação
Foi morar no Rio de Janeiro, tiro certeiro pra tentar a sorte em Projacland
alugou um conjugado no catete
arrumou uma vaga de barman num bar descolado pra cacete
atores, modeletes, formadores de opinião
…wannabes de plantão
foi lá no balcão, que um assistente de direção da novela das 6 (6,6) lhe prometeu uma figuração talvez.
aí ele se animou, se empolgou, nem dormia mais! pobre rapaz
logo descobriu que o sujeito não era quem dizia ser
mas na verdade um ator desempregado, frustrado que tinha um blog pouco freqüentado…
e se sentia “só E mal acompanhado”

Nasceu pra ser uma estrela , era tudo que ele mais queria
mas o céu tava sempre nublado
Estrela que ninguém via e quando o dia amanhecia,
seu tempo já tinha passado

Conheceu Dora enquanto trabalhava no bar, servindo bebidas, ela soltando fumaça no ar
Perua desquitada que vivia da pensão do ex-marido, empresário falido que sofria de Síndrome de Dow Jones
E não é que a madame realmente tinha bons contatos em Projacland, isso foi levado em consideração
encarar a vovó podia ser a solução,
resolveu segurar o rojão
investiu naquela estranha relação
na tentação de ser famoso..
Dora resolveu que iria ajudar o garotão
Mais um que queria ser artista de televisão, ok então
Numa tarde no salão, enquanto jogava sudoku e depilava a virilha
ligou do celular da filha
para um amigo diretor picudo e lhe solicitou: receba o garoto. Quando é quem tem teste?
…enfia ele num teste!
O picudo respondeu:
agora não tem teste, mas uma festa com show do Jota Quest
…leva seu bonitinho, Dora! Confio no seu faro, conheço o rapaz lá na hora e se eu for com a cara dele, enfio num teste, eu enfio, enfio, é claro.

Nasceu pra ser uma estrela , era tudo que ele mais queria
mas o céu tava sempre nublado …
Estrela que ninguém via e quando o dia amanhecia,
seu tempo já tinha passado…

Na festa badalada, foi cantado pelo poderoso diretor
que lhe ofereceu trabalho e amor
lhe deu dicas de comportamento e recomendou :
Saia logo do armário!
Ele respondeu que não estava em nenhum armário, muito pelo contrário
Não tinha nada contra gays, só não era um
O coitado perdeu a vez.
Depois de tal afirmação, foi excluído, rejeitado, difamado

Nasceu pra ser uma estrela, era tudo que ele mais queria
mas o céu tava sempre nublado
Estrela que ninguém via e quando o dia amanhecia,
seu tempo já tinha passado

Passou a beber até cair
sacou que não teria uma chance
seu desejo distante de seu alcance
Na deprê engordou mais de 20 kg em um ano
seu maior erro foi nunca perceber o engano
jogou a toalha na vida
entregou os pontos e aos prantos/chorando pelos cantos

escreveu uma carta de despedida :
“Dora, querida, quero meu corpo cremado, para que ele seja espalhado por toda cidade cenográfica em Projacland.”

A OSB Jovem é um projeto da fundação OSB composta por jovens de até 25 anos. É um dos mais importantes investimentos nos jovens talentos musicais. Domingo passado, dia 21, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro assisti o Concerto para Flauta e Orquestra em Sol Maior de Mozart K.313, com a orquestra OSB Jovem e a solista Roseli Ribeiro Moutinho.

Roseli Ribeiro Moutinho, no camarim do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 21 de outubro de 2007Em 2006, eu, Roseli e Paula Martins, também flautista, apresentamos algumas vezes o Trio para Piano e duas Flautas Op.119 de Kuhlau. Naquela época conheci o talento fantástico e a rara musicalidade das duas.

Mozart nunca é fácil. É música nua e pura, desprovida de disfarces ou distrações. É onde o intérprete mais se expõe, uma verdadeira prova de fogo para qualquer musicista.

O que aconteceu no Municipal foi maravilhoso: Roseli mostrou toda sua palheta de timbres, toda a sua gama de dinâmicas, além de musicalidade e fraseado refinados. O acabamento foi perfeito, não havia nada de bruto, impulsivo ou impensado. Ao contrário, tudo foi cuidadosamente polido e lapidado, e o resultado foi assombroso. A cadência do primeiro movimento foi um resumo de tudo: ali Roseli mostrou que não é mais uma estudante, mas sim uma profissional competente. Todos puderam contemplar a dimensão do seu talento incomum.

A orquestra, sob a firme batuta de Marcos Arakaki, esteve a todo momento pronta para acompanhar perfeitamente a solista. A harmonia entre as duas foi essencial para o resultado sonoro obtido. Ficou evidente a concepção clássica de um concerto para solista e orquestra.

A comoção na platéia foi geral: havia os que riam de felicidade, havia os que choravam de emoção, mas uma coisa em especial me chamou a atenção: à minha frente, um senhor de meia idade não se conteve e disse a todos os presentes para que guardassem aquele momento na memória. Aquele momento, para mim, mais do que a realização que vem em reconhecimento a todo o esforço e a dedicação de Roseli, foi o passo inicial de uma carreira brilhante.

Lembrei-me da história de Nelson Freire quando após apresentar-se em um colégio, ainda criança, uma religiosa disse às alunas para guardarem bem aquele momento em suas memórias, pois aquele menino seria amplamente reconhecido no futuro.

Aproveitando o exemplo de Nelson Freire, digo, então, a todos os que foram ao concerto (tendo certeza de que minhas palavras carregam um vaticínio): guardem com carinho a lembrança daquele momento. Roseli é um talento raro, uma imensa promessa. Para ela, desejo sorte e reconhecimento.

O grande Lamartine Babo não perdia uma. Piadista de primeira, dá o clima de como eram recebidas as novidades estéticas popularizadas pelos modernistas. A histórica marcha A. B. Surdo, de 1930, demonstra o marco divisório entre duas concepções estéticas e permite que se veja que, longe da tranqüila aceitação dos modernistas, vicejou durante muito tempo a predileção pela palavra cheia, retórica, que dominava tanto a poesia romântica quanto a poesia parnasiana.

Em uma outra marcha – História do Brasil, de 1934 – o grande Babo vai mostrar a aclimatação do ideário modernista. A diferença entre as duas composições é patente. Se A. B. Surdo utiliza a técnica modernista para ironizá-la; História do Brasil cai no mais puro deboche e busca o gosto modernista da paródia. Se na primeira marcha a paródia se volta contra a estética que a inaugura como forma de escrever o país e sua tradição bacharelesca; na segunda, a paródia apresenta o foco de sua ironia na própria série literária, musical e histórica, como havia proposto Oswald, no seu exemplar livro de poesias Pau Brasil.

O non-sense é em um e outro caso a intenção. O non-sense se caracteriza pela negação do sentido usual e pela criação de outro, surpreendente, desconcertante. Tomem a estrofe que fecha a música: “Seu Dromedário é um poeta de juízo, é uma coisa louca, / pois só faz versos quando a lua vem saindo / lá no céu da boca, lá no céu da boca.”. A lua, figura romântica, de poetas e sonhadores, tem seu sentido deslocado. Ao sair do céu da boca, serve como deixa para a construção de uma imagem ironicamente surrealista, na qual a ausência de sentido aponta tanto para o absurdo modernista quanto para a falência da percepção romântica. Ademais, pode-se perceber, na negação que dela faz, o correlato da negação modernista. O fato de “isto não ser marcha nem aqui nem lá na China” significa duplamente que o futurismo não é poesia nem aqui nem lá na Itália. Mas curiosamente a intuição do compositor nega com uma marcha a marcha que tecnicamente é uma marcha que se nega como marcha, numa progressão de sentido infinita. Não seria também possível ler na negação que se faz da poesia futurista sua afirmação?

A falência romântica que vai se acentuar na hilária História do Brasil. Lamartine, com seu espírito galhofeiro, acerta a mão, em cheio. As referências ao romantismo tornam-se mais claras, mais destrutivas, já que o ícone romântico aqui se transforma em pura burla. As citações de José de Alencar e Carlos Gomes, colocando lado a lado a cultura letrada e a popular, permitem perceber a aproximação que o modernismo intenta em relação a uma língua brasileira.

Curioso de se notar é a inversão que fazem modernistas e compositores populares. Se o Modernismo busca popularizar a língua literária; a música popular, por seu turno, busca difundir uma competência lingüística que se aproxima do falar culto – não esqueça o leitor que tanto Cartola quanto Ismael vão falar quase sempre em segunda pessoa – este cruzamento babélico predominará em todo o período de instalação e estabilização do projeto de uma língua brasileira. Será na verdade o nosso padrão.

Se Oswald e Mário fizeram a ponte entre a língua culta e a popular, Lamartine e Noel Rosa refizeram a ponte em sentido contrário da língua popular à culta. Neste sentido à rejeição inicial de A.B. Surdo, de Lamartine e Noel, só poderia seguir-se a confluência da História do Brasil.

A fundação da língua brasileira nasceria, portanto, da busca invertida de dois processos, que se rejeitaram e se aproximaram, quando descobriram que as possibilidades de expressão do nacionalismo, da aura brasileira, só podia nascer ao se parodiar a própria língua e a si mesma.

HIM é um dos grupos de love metal mais famosos do mundo. Criado na Finlândia, existe desde 1991 e teve diversas encarnações, um amontoado de nomes e estilos. Depois de alguns anos gravando demos, EPs e fazendo covers de Depeche Mode, Type o’Negative e até Backstreet Boys, o HIM gravou seu primeiro álbum oficial.

HIMGreatest Love Songs vol.666 saiu em 1997, com sete músicas inéditas e duas regravações: Don’t Fear de Reaper, cover do clássico do Blue Oyster Cult, e Wicked Games, a música mais conhecida de Chris Isaak. Foi o suficiente para chamar atenção do público finlandês, abrir algumas portas na Europa e até tocar nas rádios brasileiras.

Razorblade Romance veio em seguida com um som mais trabalhado e a clara intenção de aumentar a base de fãs. Os quatro singles escolhidos tinham sonoridades e públicos-alvo distintos. Poison girl, o de menor sucesso, é uma música introspectiva padrão. Right here in my arms é um rock clássico, com guitarras e vocais em equilíbrio e paradinha no refrão para a platéia acompanhar ao vivo. Em Join in me in death o destaque é o teclado, uma das marcas do HIM, acompanhando o ritmo mais calmo da bateria e a voz melódica do vocalista Ville Valo. Gone with the sin é uma balada que aposta nos tons graves de Ville, ganhando ao vivo um solo de guitarra e o coral do público.

Depois de uma parada para um trabalho paralelo sem repercussão, veio Deep shadows and Brilliant Highlights, o trabalho mais pop do HIM. Presença constante nas rádios da Finlândia e Alemanha (com presença esporádica na Itália, Suíça e Áustria), o álbum aposta mais em baladas e o lado rock é amenizado. Dos singles, In joy and sorrow e Heartache every moment são os que mais se aproximam da identidade musical construída até então.

Love Metal, o quarto cd, retoma as origens e é um dos marcos da carreira. The funeral of the hearts, uma das melhores faixas do HIM, conquistou novos mercados e chegou a 15a posição no Reino Unido, consequentemente abrindo portas nos Estados Unidos. Os singles The Sacrament e Buried alive by love repetiram o feito, com menor intensidade, apesar da boa qualidade.

Estratégia comum no mundo da música, quando novos mercados se abrem, velhas canções passam a ser desconhecidas, e nada melhor do que uma coletânea para fazer a reapresentação. And Love Said No: The Greatest Hits 1997-2004 trouxe duas inéditas e um punhado de hits. Além da faixa-título, há um excelente cover the Solitary Man, música de Neil Diamond regravada também por Johnny Cash.

A HimMania parecia se espalhar. Dark Light, o quinto de inéditas, foi lançado nos Estados Unidos, acompanhado de extensa turnê e dois singles de sucesso: Wings of a Butterfly e Killing Loneliness. Não é um trabalho superior a Love Metal e interrompe a ascensão musical que havia desde o primeiro cd, mas serviu para chamar atenção dos americanos e dar ao HIM o título de primeiro grupo finlandês a vender 500.000 cópias (disco de ouro) nos Estados Unidos.

No novo trabalho, Venus Doom (2007), o grupo decidiu que era hora de mudar. O cd tem influência direta do Metallica e do Black Sabbath. Ville Valo já admitiu que o grupo aproveitou tudo o que podia do estilo melódico e que não valia a pena se repetir, o que levou a um som mais pesado, focado totalmente nas guitarras e distante dos teclados. Não por acaso, é produzido por Tim Palmer, que já trabalhou com Ozzy, Pearl Jam, U2, The Cure e o próprio HIM.

Venus Doom tem apenas nove faixas. Passion’s Killing for está na trilha sonora de Transformers e The Kiss of a Dawn foi lançado como o primeiro single. Ainda é cedo para dizer se a mudança dará bons resultados, mas pelo menos o fantasma da estagnação parece ter ido embora.

O HIM possui vários clipes interessantes espalhados pela rede.

Ville Valo já trabalhou com um número incontável de pessoas. Vale procurar a regravação de Summer Wine (com Natalia Avelon, a música original é de 1967, com Nancy Sinatra) e a colaboração com o Apocalyptica em Bittersweet, que também conta com Lauri Ylönen, do Rasmus.

Terminou na última terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, o ciclo “Um Painel da Música de Câmara de Camargo Guarnieri”. O evento, em quatro apresentações, teve como principal iniciativa apresentar de forma abrangente, sem distribuir peças a esmo pelo programa, sem perder o sentido de cada forma musical trabalhada, explorada ou mesmo criada pelo grande mestre, parte da obra camerística do compositor.

No primeiro encontro, o ouvinte atento, o estudante alerta, o espectador curioso, teve a oportunidade deliciosa de ouvir canções com poemas de alguns grandes escritores brasileiros, entre eles Mário de Andrade, mentor intelectual de Camargo. Talvez, de todos os encontros, tenha sido o mais oportuno, tanto para os mais entusiasmados – paradoxalmente, haja visto as obras de maior envergadura nos outros três encontros seguintes – quanto para os mais desavisados da obra de Guarnieri. Não é fácil encontrar por aí gravações dessas peças. Elas nos fazem lembrar um outro Brasil, onde a conquista da brasilidade era algo no ar, onde a apuração erudita do regionalismo não era antropológica nem caipira.

O segundo encontro, com a dedicada violinista Tânia Camargo Guarnieri, filha do compositor, e Lais de Souza Brasil, pianista experiente. Foram exploradas as sonatas para violino e piano. A Sonata nº 2 (1933), a Sonata nº 3 (1950) e a  Sonata nº 4 (1956), esta última sem dúvida o ponto alto, altíssimo, do encontro. Complexa, moderna, original, uma obra grande, verdadeira, atual.

O encontro seguinte deu lugar aos falados Ponteios. São prelúdios, mas o modernista preferiu um nome mais brasileiro, não apenas por fachada, mas, segundo o próprio, “para expressar esse caráter brasileiro”. A pianista russa radicada no Brasil, Olga Kiun, foi mais que competente. O 5º caderno (os ponteios são divididos em cadernos), último a ser exibido, foi esclarecedor. O nº 49 e nº 50 deixaram todos com a melodia na cabeça após o espetáculo, para o desespero dos que, no âmbito da música de vanguarda, odeiam melodias.

O encerramento se deu na última terça-feira, perdoando-me pelo chavão, “com chave de ouro”. Uma apresentação camerística clássica: o quarteto. Composto por um violoncelo, dois violinos (cada um fazendo uma linha, há os primeiros e os segundos violinos mesmo em orquestras sinfônicas) e uma viola. Sobre a forma de quarteto, convidam-nos à imaginação algumas histórias, não necessariamente no sentido da ciência história. A mais conhecida é de que o grande compositor clássico Haydn, um dos precursores desta forma camerística, queria compor uma sinfonia (para uma orquestra), mas o local onde haveria o espetáculo musical não tinha mais do que meia dúzia de músicos, compor para um pequeno grupo foi, então, inevitável: cada instrumento do quarteto é como se fosse um naipe de uma orquestra. Não que a formatação fosse invenção dele, mas coferir-lhe caráter autoral, e logo de um Haydn, foi coisa nova. O quarteto em questão, o Quarteto Glazunov, composto por Yuriy Rakevich, Inna Meltser, Vladmir Klementiev e Watson Clis, não prestígio à nobilíssima áurea de tradição que o formato encerra. O eslavismo exarcebado do grupo, que salta aos olhos nos nomes dos integrantes, e no nome do próprio grupo – Glazunov –, é coisa que faria o Mozart Camargo notar. Entrentanto, aos olhos de um espectador cosmopolita de um CCBB do Rio de Janeiro, talvez não tenha significado nada. Atentos, focados (parar usar um termo da moda), o grupo Glazunov, do mais alto padrão técnico, de elevada concepção artística, apresentou deslumbrante música. Como todas as obras de Guarnieri, os quartetos têm harmonia complexa, ritmo ousado, proposta avançada. As dissonâncias sempre incomodam os mais fracos, os menos interessados e os desavisados. Mas, no caso de Guarnieri, a proposta desagrada mesmo a grandes ouvintes, há que se admitir. E aqui vai a opinião do escriba, que não vale mais do que a de qualquer leitor: gosto mais das obras da maturidade de Guarnieri. Evito expor as razões para não influenciar, e nesse contexto fica difícil escolher um quarteto, dos três apresentados, senão o nº 3 (1962). Os outros, o nº 1 (1932) e o nº 2 (1944) são obras, sem dúvida, de nível elevadíssimo. O nº 2 foi premiado nos EUA, em Washington, levando o primeiro prêmio do Concurso Internacional para Quartetos.

Parabéns aos organizadores, patrocinadores e produtores. Quando escrevi, num texto este ano, sobre o centenário de Nascimento Guarnieri (1907-2007), “Viva Camargo!”, não imaginava que a vivacidade seria tanta. O último movimento apresentado no painel, o do Quarteto nº 3, chama-se “vivo e ritmado”, assim seja, Guarnieri!

Sirimusa é uma montanha localizada no norte do Marrocos. Pode ser vista do outro extremo do Estreito de Gibraltar, o sul da Espanha. José Manuel León, guitarrista flamenco, inspirou-se nessa montanha para produzir seu álbum “Sirimusa”, que pode ser considerado o seu début.

Primeiro há de se esclarecer uma coisa: León não é um guitarrista, mas múltiplos. Dono de uma riqueza de timbres e dinâmicas formidável (eu confesso que não conhecia as plenas capacidades do instrumento), aliados a um senso de polifonia e uma inteligência musical incomuns, cativa o público com sua música vasta, abrangente e expressiva. León tem também uma técnica muito bem desenvolvida, o que lhe proporciona meios para exprimir suas idéias musicais – e que idéias.

Sobre a inteligência musical: é aquilo que diferencia um artista de um grande artista, e, em alguns casos, um grande artista de um gênio. É o conjunto de escolhas musicais que o artista faz, aliado à sua concepção, seu fraseado e agógica próprios, junto com o senso polifônico. Traduzindo: é a qualidade de transformar todos esses nomes em música da mais alta qualidade.

O(s) estilo(s) de León é autêntico e interessante. Não pode se negar que é um guitarrista flamenco. Mas cada peça, mesmo que composta na mesma linguagem (têm todas o mesmo traço – o traço de León) diz, claramente, uma coisa diferente. O cerne, sim, é flamenco. Mas há jazz ali no meio. E funk. E música árabe, há tanta coisa, há até Debussy!

León incorpora uma vasta gama de estilos a fim de formar o seu próprio. Posto dessa forma, tenho que ressaltar que o resultado é coerente, coeso e maravilhoso. Pela fusão de vários estilos, o artista ressalta seus gostos pessoais, transformando sua música na expressão plena de sua personalidade musical. Somos aquilo que gostamos, não é mesmo?

As improvisações (aquelas peças eram improvisações?) que ouvi essa noite me fascinaram profundamente. Acho que, nós, pianistas, pensamos que polifonia, cantabile, variação de timbres, dinâmica e agógica são exclusividade nossa. Não poderíamos estar mais enganados. Hoje eu vi que um violão não é um violão, mas vários. Ao mesmo tempo pode ser uma harpa delicada ou um berimbau ríspido, um instrumento angelical ou um instrumento percussivo e frenético.

A sensualidade da música flamenca e a dramaticidade são expressos por meio de harmonias complexas e intrincadas (acabo de entender a influência da música flamenca em Ravel), que, com a devida boa vontade do ouvinte, é capaz de transportar para longe, para as distantes terras de Marrocos e sua bela gente.

Enfim, minha concepção de música (e arte) é: expressão. O artista usou seus incomuns recursos para exprimir, projetar ao público, suas impressões a respeito de sua terra. Em dados momentos me vi numa cabana, no deserto, à luz de uma fogueira, ouvindo uma história ou conto narrada ou cantada por um trovador nômade, um menestrel marroquino. Em termos de comunicação e expressividade León é nota dez e mostrou ser um jovem artista que sabe muito bem o que quer, uma personalidade musical sólida e madura.

assista online:

Apesar de a Noruega ser mais conhecida pelos grupos de black metal, é impossível negar a força do pop no país. O cenário se renova constantemente, apresentando todo ano artistas que fogem dos padrões americanizados da música e seguem dispostos a conquistar seu lugar ao sol (pouco sol, é verdade).

Morten Abel - fotografia de Per HeimlyQuem faz história por lá há mais de vinte anos é Morten Abel. Ícone do rockpop, Morten liderou por 8 anos o The September When, que atingiu um grande sucesso no país, com 6 álbuns lançados. Depois de encerrar oficialmente a trajetória do grupo com a coletânea Prestige de la Norvége 89-96, ele tentou a sorte formando o Peltz. Seu único cd, Coma, chegou às lojas junto com a coletânea do antigo grupo e não conseguiu emplacar nenhum sucesso.

Para exorcizar os fantasmas, Morten iniciou a carreira solo no ano seguinte (97) e desde então não saiu do topo. Do primeiro cd, Snowboy, ele lançou Lydia e All or Nothing, dois soft rocks com violão acústico e instrumentos de sopro. Correndo por fora, veio Helicopter, com batida funkeada, elementos eletrônicos e um tom totalmente depressivo. “I came from the city made of sulfer / My breath smells of vinegar / No respect, I forgot the gallipot”, diz a letra.

No cd seguinte, Here We Go Then, You and I, Morten Abel mostrou que estava disposto a ampliar fronteiras artísticas. O carro-chefe foi Tulipz, totalmente dançante, sucesso imediato. De novo com o rock, Hard to stay awake também virou um hit de arena com refrão sing-along, por falar de madrugadas viradas com amigos em festas. O cd se transformou num dos melhores momentos da carreira.

A fórmula soft rock e música dançante se repetiu em I’ll come back and love you forever, mas sem a mesma eficiência. O que antes era uma mistura dessa vez partiu o cd em dois. O ponto alto ficou por conta de Welcome Home, que não foi lançada como single oficial.

Morten AbelVirada de século e de sintetizadores superada, Being Everything, Knowing Nothing restaurou o padrão de qualidade. As músicas Trendsetter e The Birmingham Ho colocaram Morten Abel de novo no topo, figurando entre os maiores sucessos do cantor. Não é nenhuma surpresa dizer que as duas possuem estilos completamente diferentes. A primeira, pura poesia, fala das mudanças inevitáveis da vida, construída sobre melodia delicada. “What will you say if the lights went out / And all hearts stopped beating your way / What will you say if your best friend / Wouldn’t have anything to do with you anymore”. A segunda conta a história de um cantor e uma garota que ele conhece no táxi, e que lá pelas tantas ele descobre se chamar Fred, com direito a voz grossa e tudo mais.

Quatro álbuns lançados e um punhado de hits no currículo, Morten Abel lançou sua primeira coletânea como artista solo. Ela mistura os singles, grandes momentos, lados b e versões ao vivo, com destaque para Gravedigging e a inédita Our Love is Deep, bem recebida pelas rádios.

Depois de um intervalo de dois anos, Morten Abel voltou no final de 2006 com o cd Some of us Will Make it. A música Big Brother entrou para a lista de hits instantâneos, e como não sai da lista das mais tocadas acabou ofuscando a segunda música de trabalho, Stars, e atrasando os outros singles.

Atualmente, Morten está em turnê pela Noruega, se aproximando de 50 apresentações.

Sua página apresenta um bom apanhado de vídeos do cantor, espalhados pelo youtube, myspace e outros sites mais.

Aconteceu na terça-feira passada (4/7) no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro o primeiro recital do ciclo Um painel da Música de Camargo Guarnieri.  Num total de quatro recitais e oito sessões, o evento relembra aquilo que já foi uma tradição em nossa cidade: os pequenos recitais e operetas da hora do almoço.

Apresentando-se às 12h30, e para o público vespertino às 18h30, com o mesmo programa, a proposta do painel é mostrar, ao longo de quatro apresentações, diferentes espectros da produção camerística de Guarnieri: das chamadas pecinhas às obras de maior envergadura, como as sonatas e os quartetos, passando inevitavelmente pelos Ponteios. Apresentaram-se neste primeiro encontro do Painel Carlos Eduardo Vieira, barítono, muito culto da obra que se propunha apresentar, Márcia Guimarães, soprano, delicadíssima, e o competente Miroslav Georgiev, piano. No programa, canções, cantigas, e excertos de operetas e outras obras para canto.

Cabe destacar, de início, que Miroslav é pianista búlgaro e mesmo com um currículo que inclui um mestrado nos E. U. A. não seria de se esperar que fosse o mais brasileiro dos pianos. Mas foi. Muito competente nos contrapontos e arranjos sofisticados de Guarnieri, foi também gracioso, teve molejo, quando a interpretação assim o guiou, sem cair em confusões culturais rítmicas, sem entrar num pagode ou numa marcha rancho a perder de vista, fenômeno compreensivelmente comum a alguns intérpretes estrangeiros (e até brasileiros, é bom que se diga), e algo notadamente fora daquilo que o trabalho exige. Carlos Eduardo Vieira foi o mestre de cerimônias ideal. Sem sugerir ou engessar interpretações, falou à platéia, ora mencionando o contexto histórico, ora dizendo alguma curiosidade. Colocou fortemente sua respeitável opinião em sua fala, mas sempre deixando a valiosíssima brecha para que o espectador exercesse o seu papel ativo. A simpatia com o público sempre amacia o ouvido e favorece a dedicação prévia do ouvinte. Vieira foi também um barítono profundo, com interpretações apegadas apesar da leveza de algumas canções, mas ficou tudo de muito bom gosto, e essa é a frase do encontro: bom gosto. Márcia Guimarães é uma soprano experiente, e não precisa que se tenha lido seu currículo para se dar conta disto. Transborda tranqüilidade em seu desempenho, mesmo para um repertório menos vultuoso, pode-se observar claramente seu domínio expressivo, mesmo ao leigo em canto, executando passagens de piano para forte que davam gosto de ouvir. Destacaram-se no programa Dengues da Mulata Desinteressada, com texto de Ribeira Couto, realmente cativante, Ronco do Eco e do Desencorajado de 1949, com texto do mentor intelectual de Camargo, Mário de Andrade. Chamou a atenção não apenas pela interpretação, bonita, mas pela belíssima composição que, confesso, foi minha primeira audição (bem como de algumas outras canções também fora minha primeira audição – atire a primeira pedra quem possui todas aquelas canções de Guarnieri na discoteca – triste realidade). A sinistra e surpreendente Seca, sob poema de Sylvia de Campos, de 1958, retrata as mazelas do povo nordestino, sem deixar de reconhecer sua força imanente num final maestoso, curiosamente heróico – a despeito do que pensam os modernistas sobre este romântico conceito. Fruto de uma redução de orquestra, o arranjo é de arregalar os olhos.Mozart Camargo Guarnieri é um dos maiores compositores do Brasil, de todos os tempos, ou como diriam os mais entusiasmados, o segundo maior nome de toda a nossa música – atrás apenas de Villa-Lobos, sendo que para alguns chega mesmo a superar o mestre –, sendo Camargo, para estes, um dos maiores de todo continente americano. A Organização dos Estados Americanos, chegou a conceder-lhe o prêmio de “Maior Compositor das Três Américas”. Exagero monumental, de aficcionados? Nem tanto, talvez. De fato, o paulista Guarnieri, como poucos músicos, como raros artistas, conseguiu condensar em sua produção a essência da Semana de 22. Mais que isso, foi capaz de fazê-lo em sua própria biografia, gerando um uníssono agradável e paradoxalmente dissonante, vivendo ele próprio no coração do modernismo, inchado de ideais, mas completo do nacionalismo autêntico, consciente e erudito, que, comparado às acepções mais correntes e atuais do conceito, para não mencionar aspectos políticos, faz-nos rir, se antes não nos apavora; é trágico, sinistro, cômico. Facetas, aliás, de boa parte da obra de Guarnieri que naquele instante, jamais poderiam saber, aludiam profeticamente à falência cultural, tão rápida, dos maiores brasileiros do século XX, todos reunidos em uma, no máximo duas gerações, todos atuantes, e cujo imprescindível legado não demorou mais que isso para ser lançado aos fundos de baú. Não vamos propor, mais uma vez, resgatar o Camargo, bem como qualquer outro. Não me recordo que esteja seqüestrado o pobre Camargo ou algo que mereça o tal resgate – palavrinha já muito desgastada em meios culturais. Proponho algo simples, direto, e sem rodeios: vamos ouvir.

A oportunidade, para os cariocas, bate à porta com insistência, serão mais três encontros. Aos estudantes de música, a presença é no mínimo obrigatória, goste-se ou não de Guarnieri. A oportunidade, infelizmente, é rara. Aos outros, fortes recomendações de Camargo.

1. You’re a singer who moves easily between dance and rock, using something from folk. You feel at ease with funny lyrics and at the same time create poetry in the form of music. Is that the Morten Abel style?

Ive always had interest in many forms of music, jazz and classical, but since Im not an schooled musician I ended up doing what I do, and that gives me the freedom of have some fun, make noice and be a part of production and arrangements in the studio, wich I enjoy very much. One shall be careful to use humor in contemporary pop music. Ive done it (The Birmingham Ho), but some people get put off by it.

2. What do you think about this interconnected world that enables interviews like this one to be conducted? You have clips on your site and youtube… Is the world really getting smaller?

It’s great, get friends from other parts of the world. And I prefer doing interviews in writing.

3. Is there some heritage from your time at The September When in your solo career?

Yes, I think so. I tried to make my solo albums sound very different from TSW, and I think they do. But Im a melody man, and I think a strong melody links the two projects.

4. You’re now on a tour to show your new album. The public here in Brazil is known for its warmth. (and that comes from before the popularization of global warming!) The audience screams, jumps, sings along. What about in Norway? How is that vibe on the stage?

Well, I think the audience up here is a little different, but they like to drink, and the later it gets the more jumping up and down….

5a. Are there European countries more open to music from other countries?

I think people are the same everywhere. If they hear something they like, something original and true, they will listen to it no matter where it comes from. The problem is to let people know your material, but again, Youtube and the sorts has loosened that up a bit.

5b. Is there some kind of captive audience for music from Norway?

I know the italians buys a lot of norwegian music…

6. Sorry for this question, but did you really catch malaria in the Amazon? Those must have been tough times. I’m already down when I catch a cold.

I did, but I was only down for couple of days. Im fine now. Thanks, Eric


1. Você é um cantor que se move fácil entre as batidas dançantes e o rock, usando um pouco de folk. Você se sente confortável com letras divertidas e ao mesmo tempo cria poesia em forma de música. Esse é o estilo Morten Abel?

Eu sempre tive interesse em muitas formas de música, fosse clássica ou jazz, mas como eu não sou músico por formação eu acabei fazendo esse tipo de trabalho, o que me dá a liberdade de me divertir, fazer barulho e participar da produção e dos arranjos no estúdio, que é algo que eu gosto muito. Deve-se tomar cuidado ao usar humor na música pop contemporânea. É algo que já fiz (The Birmingham Ho), mas isso incomodou algumas pessoas.

2. O que você acha desse mundo interconectado que permite entrevistas como essa? Você tem clipes em seu site, youtube… O mundo está mesmo ficando pequeno?

Isso é ótimo, fazer amigos de outras partes do mundo. E eu prefiro responder entrevistas por escrito.

3. Sua carreira solo herdou algo dos tempos no The September When?

Sim, eu acho que sim. Eu tentei fazer meus álbuns solo soarem muito diferentes do TSW, e acho que consegui. Mas eu sou um homem de melodia, e acho que uma melodia forte conecta os dois projetos.

4. Você está em turnê agora. O público aqui no Brasil é conhecido pela animação. As pessoas gritam, pulam, cantam junto. E na Noruega? Como é a energia no show?

Bem, eu acho que o público aqui é um pouco diferente, mas eles gostam de beber… e quanto mais tarde fica mais eles pulam para cima e para baixo.

5. Os países europeus são mais abertos a músicas de outros países?

Eu acho que as pessoas são as mesmas em qualquer lugar. Se elas ouvem algo de que elas gostam, algo verdadeiro e original, então elas vão escutar, não importa da onde venha a música. O problema é fazer o material chegar até as pessoas. Mas, novamente, Youtube e similares facilitaram isso um pouco.

Existe um público mais aberto à música da Noruega?

Eu sei que os italianos compram bastante música norueguesa.

6. Desculpe a pergunta, mas você pegou mesmo malária na Amazônia? Devem ter sido dias difíceis. Eu já fico mal com um resfriado.

Sim, mas eu só fiquei mal alguns dias. Estou bem agora.

Foi surpresa boa. Não pelo talento dos cantores, que isso eu já sabia. Mas pela fila enorme na porta (que me fez perder o início do show) e pela casa lotada. Muita gente jovem. Outro dia li alguém que se questionava por que os jovens cantores do Brasil não fazem músicas acéfalas para o público mais novo (como os artistas americanos), e querem sempre parecer novos eternos da MPB.

O Canecão respondeu bem a isso, unindo Rodrigo Maranhão e Roberta Sá no mesmo palco. A música, acima de tudo, precisa ser boa, ser legítima, ter essência, precisa ser, enfim, música, e qualquer idade saberá apreciá-la. É triste que alguns críticos ainda vejam a MPB como algo sofisticado para seletos senhores de vida ganha com aposentadoria chegando gorda na conta. Fico feliz de saber que é um conceito que passa longe da realidade. Seja no rock, pop ou choro (e tudo isso é música popular brasileira), existem diversos nomes da nova geração despontando, e ontem a frase “Nesta casa se escreve a história da música popular brasileira” superou o bordão e tornou-se real.

Quem abriu o show foi Rodrigo Maranhão. Ele e o violão em um banquinho, pernas cruzadas estilo Caetano, cheio de conversa entre as canções. Tudo tem uma história que precisa ser contada, bem antes das biografias. Servem para avisar que a canção seguinte foi composta aos quinze anos de idade, que há muito nas letras que não querem dizer nada. “Mas querem”. A banda vai aparecendo aos poucos. Amigos de peso que ajudam a dar forma à musicalidade do compositor. Entre uma conversa e outra, Rodrigo Maranhão apresentou as faixas de seu cd Bordado, lançado pela Universal. Apesar de ser o primeiro, suas canções já estão por aí, na boca de cantores como Pedro Luis, Maria Rita, Fernanda Abreu e Roberta Sá. No show, se destacam as músicas Noites no Irã, Pra tocar na rádio e Bordado.

“A barca segue seu rumo, lenta
como quem já não quer mais chegar
como quem se acostumou no canto das águas
como quem já não quer mais voltar” – Caminho das águas.

Roberta Sá lembra um tempo em que o interprete fazia mais do que ensaio de videokê. Ela presenteia o público com sua voz, corpo e alma. Assim como Rodrigo, ela pisava pela primeira vez no Canecão. Econômica nas palavras, não cansava de agradecer a presença de todos. Modéstia de quem já mostra intimidade com o palco e grande entrosamento com os músicos, num show muito bem produzido desde a apresentação. Tanto nas mais animadas quanto nas mais lentas, a cantora se saía bem. Eu Sambo mesmo e Pelas Tabelas foram tiveram ótima receptividade. Ah, se eu vou por pouco não levantou o público (de suas cadeiras desconfortáveis) para mexer as cadeiras de pé. Foi bom ver que os arranjos das versões de estúdio já amadurecera e ganharam nova vida ao vivo. Braseiro foi uma delas, explorando toda a reação do público para crescer de forma contagiante. É o tipo de evolução que gera expectativas. O show também teve Alô, fevereiro, uma prévia do novo cd que sai em Agosto (desse ano, se tudo correr bem), e Casa Pré-fabricada, lentinha cantada em coro pelos presentes.

Fim do show individual, hora de ver os dois novos talentos cantando juntos, com direito a participação de Pedro Luís. A terceira parte foi curta, mas valeu pela diversão dos três em cima do palco. Cortinas fechadas, muitos aplaudiram e tentaram um bis do bis, mas o show tinha terminado.

“Há quem não gosta do samba
Não dá valor
Não sabe compreender
Que um samba quente, harmonioso e buliçoso
Mexe com a gente dá vontade de viver
A minoria diz que não gosta mas gosta
E sofre muito quando vê alguém sambar
Faz força, se domina, finge não estar
Tomadinha pelo samba, louca pra sambar” – Roberta Sá.

Sónós de Paula Toller e sua festa de sonoridades é um álbum redondo. É cool e pop no que os termos possuem de concreto, fugindo do caricato. Ao longo das 14 músicas fica a sensação orgânica, de que tudo pode ser repetido ao vivo, de que estamos participando do registro de um show, onde os músicos tocam entrosados na troca de olhares. O cd está além do mero empilhamento de instrumentos e programações digitais, o que faz, paradoxalmente, que o cool seja um lugar aquecido e aconchegante.

“O legal de esperar entre um cd e outro é que você tem uma outra vida para contar. Nesse eu olhei para dentro de mim. Gosto de falar do que é universal, do que dá trabalho. Como diz Fausto Fawcett, falar do básico”.

Músicas como O que é que eu sou e Você me ganhou de presente são bons exemplos da opção pela simplicidade que dispensa malabarismos. Paula Toller segue o estilo de letras do Kid Abelha, tomando um cuidado especial com a poesia, pequenos recitais musicados, que se encaixam na voz melódica da cantora.

Em Sónós, ela se une a diversos compositores nacionais e internacionais. Tudo graças a essa ferramenta mágica chamada internet. Estão na caixinha musical Kevin Johansen, Jesse Harris e Nenung (compositor de Meu amor se mudou pra lua, primeiro single).

“O cd tem uma proposta diferente da mp3, é um trabalho artístico. As vendas vão diminuir, mas ele não vai sumir. Imagina você dar de presente um link. A música, como toda forma de arte, reflete e a ponta. Ela reflete a sua época, mas deve estar à frente”.

Tudo se perdeu é uma versão de Vicious World do cantor Rufus Wainwright, tido como um dos grandes nomes da música contemporânea. O casamento funciona na feminilidade e melancolia das letras, mas falta algo do delírio de Rufus. “Caiu com Maysa na fossa”, diz a letra mais triste do cd.

Erasmo Carlos assina O que é que eu sou, canção filosófica e reflexiva. Em Pane de Maravilha Paula Toller assume-se Rio de Janeiro e canta um tempo ainda agradável da cidade (maravilhosa e coração do Brasil). A letra também tem a mão de Fausto Fawcett, dando ao Rio um toque de fênix, mas distante do purgatório de Fernanda Abreu. A melodia de Dado Villa-Lobos deixa de lado o agito carioca e estica os pés na beira da praia. Boa por sacadas como “Michê do meu cartão postal / Desipanemeço total”. Só faltou a água de coco.

Outros bons momentos são All Over, um dueto com Donavon Frankenreiter que beira a surf music e À noite sonhei contigo, versão de Anoche soñe contigo de K.Johansen. Essa, boa pela letra e pela melodia para cima. “Que lindo que é sonhar, e não te custa nada mais que tempo”.

O grande destaque é Barcelona 16, feita para o filho da cantora, que começa a sair de casa para viajar e estudar fora.

Solta da minha mão
leva o seu violão
dentro do mochilão
leva também o meu coração
Eu não sabia que existia
esse outro parto de partir
de me deixar na beira do cais
filho sempre meu não mais
– Barcelona 16.

Sónós é um cd que mira o mundo. Como dito no release, as fronteiras se quebraram como vidro, os países não mais nos explicam. Quando termina a primeira audição, fica a impressão de que no bis do show vamos ouvir Pintura Íntima e Fixação, para animar a festa.

“A turnê começa com shows pequenos em lugares intimistas. A estréia oficial é em agosto em Porto Alegre. Fazer show sem o Kid Abelha é a possibilidade de ter uma nova estréia depois de 25 anos de carreira”.

Paula Toller - fotografia de Christian Gaul Paula Toller - fotografia de Christian Gaul Paula Toller - fotografia de Christian Gaul Paula Toller - fotografia de Christian Gaul

fotografias de Christian Gaul

O Erasure é uma das instituições do tecnopop, ritmo consagrado nos anos 90 (que nasceu em meados de 80). Em sua história, Vince Clark e Andy Bell acumularam um punhado de hits como: Blue Savannah, A little respect, Star, Oh L’amour, I love to hate you, Always, Freedom.

No Brasil, são mais lembrados pelas faixas de melodias alegres, que seguem o pop eletrônico de fácil digestão. Suas músicas introspectivas e lentas ficaram mais restritas ao circuito europeu, sem deixar, entretanto de se destacar por lá.

Após experimentar programações de teclado mais complexas no álbum Erasure, o grupo voltou ao formato tradicional em Cowboy, que não teve muito impacto apesar das boas faixas. Um ano depois, Andy Bell descobriu ser portador de HIV. A notícia (obviamente) impactou sua relação com a arte, e a melancolia ficou evidente em Loveboat, desviando o grupo do estilo original.

Para a retomada, Vincent e Andy resolveram gravar um cd de covers e reencontrar a identidade musical do Erasure através de músicas de outros artistas. A idéia deu certo e o Erasure voltou ao top 10. O grupo lançou Nightbird e logo em seguida o cd acústico Union Street, excursionando pela primeira vez com uma banda completa e revisitando seus clássicos e lados b.

Esse imenso histórico de vivências, impactos, altos e baixos e flertes musicais fez o Erasure expandir seu universo de sonoridades e criar o competente Light at the end of the world. Todos os caminhos trilhados até aqui se refletem nas 10 faixas do cd.

Storm in a teacup e suas lembranças conturbadas de infância mostram que a melancolia não precisa vir aprisionada a uma balada sufocante, a melhor música do álbum. Sunday girl, tecnicamente apurada e voltada para as pistas de dança, retoma as letras simples e para cima, fazendo sucesso nas versões remixadas. Para quem curte dor de cotovelo, há Fly away, algo no estilo meu amor se foi, sem nenhum grande diferencial. I could fall in love with you segue o caminho inverso, é complexa sonoramente e cheia de mensagens positivas. Tem sido muito elogiada pela crítica americana por atualizar o som do grupo e não dever nada aos antigos hits. Vale a pena conhecer.

Zippies que não querem esperar pelas rádios podem passar no MySpace para ouvir os singles lançados e a antiga Breath (de Nightbird). Na janela do youtube, a versão acústica de Sunday Girl e um clip de I could fall in love with you com vários casais se beijando.

“Blinded by the vision
I turn and face my back to the wall
‘Cause I’m locked up in a rhythm
The prism of a big glitter ball

She loves the night
And all that glitters
Her name in lights
Around the city
Don’t you mess your life up Sunday girl”
– Sunday Girl

Depeche Mode, U2 e Michael Jackson já beberam na fonte. Agora é a vez do Garbage aderir ao formato 18-hits e lançar sua primeira coletânea – Absolutely Garbage. O grupo liderado por Shirley Manson surgiu com força total em 1995, com um rock ligeiramente puxado pro punk e com influências de trip-hop. Only happy when it rains foi sucesso imediato, inclusive no Brasil, a começar pelo título engraçadinho. A ruiva dissimulada de sombra negra transitava bem pelo visual pop e o glam, cantando muito. Foi fácil conquistar o público em uma época em que o punk rock havia varrido o pop das rádios. Composto por produtores musicais, o Garbage tinha qualidade, fugindo do som clichê dos anos 90 com criatividade. Stupid Girl, que explorava o cenário alternativo, foi mais um hit de fãs do que rádio, mas ajudou a compor a identidade musical do grupo. “You pretend youre high / You pretend youre bored / You pretend youre anything / Just to be adored”, dizia a letra. Nos extremos dos estilos vieram Queer, de essência mais pesada, e Milk, o lado eletrônico viajante, ambas bem recebidas.

GarbageNessa época, Portishead começava a brilhar e Massive Attack (o maior símbolo do trip-hop) já tinha um cd incrível, chamado Protection, sucesso na Inglaterra. Houve então uma pressão silenciosa para que o grupo abrandasse o lado rock e assumisse a verve trip-hop com que flertava. Repentinamente, todos tinham virados fãs da sonoridade. Só que o Garbage fez exatamente o inverso. Version 2.0 saiu três anos depois muito mais pop, querendo ganhar espaço. O Garbage mostrou serviço com Push it, deixando claro que a eletrônica e o rock conviveriam em harmonia no seu trabalho. Foi o maior hit do cd e o clipe concorreu a vários prêmios na MTV. Dessa época, se destacam Special, dançante com clipe estilo videogame, e You look so fine, refinando o mix de estilos do grupo. Para coroar a boa fase, o Garbage foi chamado para fazer o tema de James Bond, talvez um dos melhores. A música explorava com louvor a potência vocal de Shirley Manson e a capacidade de Vig, Erikson e Marker construírem um clima apoteótico para os acordes. The world is not enough era indiscutivelmente um hit, do tipo que agrada gregos e troianos.

GarbageDisposto a fugir da fórmula, o Garbage mudou radicalmente em Beautiful Garbage, mas a jogada não deu certo. O cd foi um equívoco total. Esse sim, no ano de 2001, parecia preso à sonoridade da década de 90. O maior impacto, porém, veio do visual de Shirley Manson, que abandonou os cabelos ruivos longos e adotou um loiro curtinho, estilo Madonna e Paula Toller nos anos oitenta. Nem os fãs nem os críticos apoiaram a guinada. Androgyny (o primeiro single) foi um fracasso. Por sorte, o grupo tinha boas cartas na manga e se recuperou com Cherry Lips, um resumo de tudo o que o grupo tinha experimentado até o momento e um dos grandes sucessos da sua história. As músicas seguintes foram tradicionais, daquelas que não arriscam. Shut Your Mouth (excelente) e Breaking up the girl quase fizeram a mídia esquecer o restante pitoresco do cd.

GarbageQuase. Bleed Like Me, o trabalho seguinte, foi um cd cantado como um retorno às origens rock. Bem melhor que o anterior, não decolou em vendas, mas trouxe boas músicas e alívio. Why do you love e Bleed like me eram tudo que um fã do grupo podia querer. A primeira, rock rápido e eficiente. A segunda, o estilo de balada sombria que só o Garbage sabe fazer.

Absolutely Garbage vem com a inédita Tell Me Where It Hurts, que será lançada dia 9 de julho. Agora é esperar seu efeito para saber se Absolutely é a primeira coletânea do Garbage ou se será a última.

GarbageO cd terá também uma versão dupla, com 14 remixes. Androgyny e Breaking up the girl só aparecem por lá, retrabalhadas por Neptunes e Timo Mass, respectivamente. Ele conta ainda com a música Bad Boyfriend.

Se você não é fã de coletânea mais ficou interessado, confira Garbage (1995) e Bleed Like me (2005), e compre a inédita no e-musica.

Talvez você ainda não tenha ouvido falar dela. Apesar de ter surgido na onda de Britney Spears e Christina Aguilera, a cantora conseguiu mudar os rumos da carreira e impor um estilo próprio que não gerou imitações. De Can’t take me home em 2000 até I’m not dead em 2006 muitas coisas mudaram. A venda expressiva de Can’t take me home ajudou Pink a escapar do R&B imposto para a mistura soul pop rock funkeada que marca o seu trabalho. O estilo do primeiro cd, tido por muitos como uma jogada de marketing, pode ser explicado pela participação de Babyface, um dos maiores produtores de R&B dos Estados Unidos, que traz no currículo parceiras com Madonna, entre outros. Mesmo com bons resultados, Pink acertou ao mudar e fugir das fórmulas. Sua parceria com Linda Perry, ex-vocalista do 4 Non Blondes (lembra da música chiclete What’s going on?) deu um caráter mais global às suas músicas e rendeu boas vendas no mundo inteiro.

Pink – I’m Not Dead Com admiração declarada por Janis Joplin, Pink tem uma voz forte que não cai no exagero, trabalha bem graves e agudos e sabe que gritos raramente são a melhor solução para uma canção. Seu cd mais expressivo nos Estados Unidos foi M!ssundaztood, que trouxe os hits Get the Party Started, Family Portrait, Don’t let me get me e Just Like a Pill (produzido por outro grande nome – Dallas Austin). Essa última aumentou a força de Pink nas paradas européias, onde conquistou sua maior base de fãs.

Em 2003, Pink apostou em Try This, com produção e sons mais alternativos, que teve receptividade aquém da esperada. O maior sucesso foi Trouble, uma espécie de canção ame-a ou deixe-a com atitude rock e clipe cômico. Pink aproveitou para lançar o dvd Live in Europe (não por acaso, já que por lá as vendas foram melhores do que no mercado americano) e sumir da mídia.

Quando todos davam sua carreira por encerrada, ela voltou com seu melhor cd. Pink assumiu de vez sua atitude bem-humorada e debochada, a começar pelo título: I’m not dead. Seu primeiro single Stupid Girls foi muito bem recebido e rendeu um clip-sátira ao pop americano e a falta de noção de Paris Hilton com a letra:

What happened to the dreams of a girl president
She’s dancing in the video next to 50 Cent
They travel in packs of two or three
With their itsy bitsy doggies and their teeny-weeny tees
Where, oh where, have the smart people gone?

I’m not dead traz parceiras com diversos produtores, incluindo Max Martin (o homogeneizador do pop dos anos 90) e Josh Abraham (Velvet Revolver). Pink conseguiu emplacar na Europa e na Austrália os singles Stupid Girls, a excelente balada Who Knew e U + Ur Hand, que alavancou as vendas americanas. Para acompanhar o dvd Live From Wembley Arena, Pink lançou Leave me Alone, single de vendas digitais que está se saindo bem.

Pink também cantou Lady Marmalade para a trilha de Moulin Rouge e trabalhou com Beck em Feel Good Time, trilha de As Panteras Detonando.

Apresentaram-se na Fundação Eva Klabin, sob o selo da série “5as com música”, na última quinta-feira (19/4), Constanza Almeida Prado, violino, e Sarah Higino, piano. No repertório compositores brasileiros, com destaque para Almeida Prado e Guarnieri.

É incrível como mesmo em ano de efemérides favoráveis, como o centenário de nascimento de Guarnieri, este ano, ainda não haja espaço suficiente para a música nacional. Eduardo Monteiro, notável pianista, distinto docente e pesquisador da Universidade de São Paulo, em recente entrevista a esta publicação assinalava exatamente o que se viu na quinta-feira: músicos muitíssimo bem dispostos a dar espaço à música erudita brasileira, o que é louvável, e cada vez mais comum, mas sem dar o devido valor a esse gênero. Dizia-me Eduardo, em sua entrevista, que isso se deve a inúmeros fatores: falta de gravações suficientes e variadas, medo de alguma resistência do público, hábito ou cultura de montagem de repertório, entre outros outros. De fato, sempre que vou a um concerto com repertório brasileiro, admiro-me muito se a peça tiver mais de 15 minutos. São sempre sonatinas, cantos, prelúdios, estudos, peças de menor envergadura, muito pouco fôlego para parear uma sonata de Beethoven, um noturno de Chopin ou um Hydn ou Liszt. Claro que são pecinhas, muitas vezes, lindíssimas, de forte inspiração ou grande representatividade de um subgênero brasileiro, mas nunca é a toa que peças estrangeiras sempre ocupem lugar de destaque: são, via de regra, peças mais densas, mais profundas, de maior magnitude ou maturidade. Sempre um duelo de um coelho contra um leopardo. Mesmo em Villa-Lobos, onde se tem maior variedade de gêneros de composição, a aposta é quase sempre no standart, no comum, no grande “hit”. Se vão tocar Ernesto Nazareth, é quase sempre Odeon e quase nunca um “Estudos para Concerto” (NAZARETH, E. IMPROVISO. Estudo para concerto. 1ª Ed. p.v. 1922.). Isso só para dar um exemplo generoso.

Não é coincidência, Constanza Almeida Prado é filha do compositor José Antonio de Almeida Prado. Sua “Sonatina”, em cinco partes (allegro, andante, colorido, cantiga e finale) tem um frescor muito agradável, mesmo para ouvidos pouco habituados. Foi executada com bastante competência, sobretudo por Sarah, e aliás isso vale para todo o concerto, discreta e envolvente, deu conta de ritmos quebrados e de leituras atentas com o violino na sua cola. O Guarnieri, que abrira o espetáculo, pôde ficar ainda algum tempo nas sensações dos espectadores, a melodia sem sobressaltos ou reviravoltas envolve-nos em sua estreiteza. A apresentação se seguiu com Chiquinha Gonzaga, uma pecinha, como daquelas que descrevi no parágrafo acima, que sempre agradam. “Polka”, bem como outros tangos, e polkas, sempre com aquela harmonia conhecida, despertando sempre a mesma e deliciosa graça. Foi muito graciosa a interpretação e elegante como deve ser. De todo modo foi uma bela oportunidade para o público ouvir um ritmo diferente nas cordas de um violino astuto para o estilo. De Mário Ficarelli, compositor contemporâneo, apresentaram “Constantia” que, como o nome sugere aos mais atentos, foi dedicada à instrumentista em cena, como ela mesma anunciou. A grande obra da noite, por motivos que dariam uma monografia, foi a quinta sonata para violino e piano de Beethoven, a “Sonata opus 24 em fá maior” conhecida como sonata “Primavera”. O allegro começou muito bem, aquela melodia nos encanta, como um feitiço, como uma mágica. Jamais desperdiçaria um momento tão sublime com comentários técnicos com atenção nisto ou naquilo que não está perfeito. Afinal, o que é a perfeição, nos pergunta a vida, nos instiga a filosofia, nos ensina a história e nos mostra a arte. A não ser, evidentemente, por algo gritante. E foi. No meio da apresentação Constanza cala seu violino e cessa, junto com Sarah, completamente a execução da sonata. Diz ao público que ocorreu um “probleminha”. O público comportou-se como se o auditório fosse uma “House of Lords”, não houve o menor “frisson”. Nem por silêncio profundo nem por chiados malcriados. No entanto, devo protestar à artista que o motivo que ela alegou, a justificativa, para a súbita interrupção não é verdadeiro, nem de longe. Não se alega leviandade ou desonestidade aqui, nem de longe, a conclusão é de ordem puramente lógica (ver nota). Entende-se a inexperiência ou nervosismo da profissional em cena. Sem aqui (jamais!) exigir purismos tolos. Que Constanza (já uma bela instrumentista e ainda de um potencial tremendo, diga-se de passagem) tenha tido dificuldade para afinar seu instrumento antes da sonata que, com algumas notas longas, exigia uma afinação mais rigorosa do que na “Polka” talvez, tudo bem. Já assisti alguns grandes violinistas “apanharem” do violino para colocá-los no tom de concerto. Mas ter alegado que “as cordas estão sentindo um pouco o ar-condicionado” foi uma das explicações mais distantes da realidade que se poderia dar. O recomeço foi vacilante, estéril, pequeno, tanto por parte das musicistas com por parte dos espectadores, principalmente. A inspiração, de ambos os lados, recuperou-se muito a tempo, ainda no primeiro movimento. Menção honrosa ao competente Scherzo e aplausos muito merecidos ao fim do Rondo e do allegro final. Como bis fizeram um tocante Piazzolla, lindíssimo, surpreendente. Qual é a atração fatal que há entre Piazzolla e duos de violino e piano? O tango parece mesmo dar um sentido, um propósito especial, a pares, sejam de dançarinos ou de instrumentos, realiza-se melhor assim. E realizou-se muito bem, não é sempre que ouvimos tango depois de Beethoven sem quase notar o salto e sentir o tranco. Isso poderia ser uma enorme crítica, mas é um imenso elogio!

Assim como muitas vezes é pertinente falarmos de química em artes plásticas é fundamental conhecermos a física da música e dos instrumentos musicais, é interessante saber como eles funcionam pois vão sempre obedecer primeiro às leis da natureza e depois aos comandos do músico. Sabemos que a nota musical, em sua freqüência única, se deve, nos instrumentos de corda e no piano, à densidade da corda, ao comprimento da corda e à tensão a que está submetida. Ao variar a temperatura de um sólido (e de alguns fluidos) verificamos também variação no seu volume: a dilatação. A ascenção da coluna de mercúrio num termômetro exemplifica o fenômeno da dilatação térmica. Então, se a temperatura da corda do violino variar, devido a mudanças na temperatura ambiente, por exemplo, seu volume se modifica, mudando sua densidade e a tensão a que está submetida. O efeito imediato é a alteração na freqüência produzida pela corda e, portanto, na nota musical gerada, revelando-se a desafinação. Não importa se está muito frio ou muito quente, à temperatura ambiente constante uma corda jamais sofrerá qualquer alteração, oriunda do ambiente, que gere a desafinação. A temperatura na sala de concerto, no recital do qual este artigo trata, estava baixa e totalmente constante.

Comemorando cinco anos e já se tornando tradição no interior do Brasil, é um evento esperado por quem conhece e gosta da música de viola, no último dia 16 de abril foram abertas as inscrições para o a quinta edição do Festival Viola de Todos os Cantos. Até 18 de maio podem ser feitas as inscrições e, em 1º de junho, serão anunciadas as 60 músicas classificadas.

Esta edição do festival acontecerá em seis etapas, sendo cinco eliminatórias e uma final. As etapas serão realizadas nos dias 14 de julho em Poços de Caldas, 21 de julho em Araraquara, dia 28 de julho em Varginha, 4 de agosto em Ribeirão Preto, 11 de agosto em Limeira. A final acontece 18 de agosto, em São Carlos. Cada uma das etapas mobiliza toda a região e toda a área artística musical nas categorias raiz e regional brasileira.

Os especialistas em cultura caipira dizem que já não se faz mais necessário o resgate da mesma, mas sim seu cultivo, como valor nacional verdadeiro de manifestação e identidade coisas que o festival se propõe a realizar. O som da viola faz parte da vida cotidiana dos interiores do Brasil e, assim, o Viola de todos os Cantos trás, a cada edição, uma parte dessas culturas e dessas vidas do povo brasileiro para as cidades. O festival é dividido nas categorias Música Sertaneja de Raiz e Música Regional Brasileira, tomando como conceito de Regional Brasileira a música típica de cada região do Brasil, como toadas, canções, emboladas, baiões, xotes, xaxados, guarânias, frevos, rancheiras, chulas, fandangos, etc.

Os festivais de música, no Brasil, surgiram através da extinta TV Excelsior paulista e prosseguiram com a produção da TV Record em seu período de grande audiência. Nas décadas seguintes, com especial destaque para os anos 60, a Música Popular Brasileira revelou grandes compositores e intérpretes através de festivais de música. Mesmo tendo enfrentado uma queda (em número e qualidade) nos anos 80 os festivais permanecem vivos na cultura brasileira. O Festival da Canção de Boa Esperança/MG, por exemplo, é um dos maiores festivais de música do Brasil, há 35 anos e o Festival de Música de Londrina, na sua 27ª edição em 2007, apresenta uma tradição de valorização da educação musical. Durante o festival acontecem mais de 80 concertos e 70 cursos, em diversas categorias. O site Festivais do Brasil, especializado no tema, ressalta a importância dos festivais de música para a cultura nacional como espaços de “da boa música popular brasileira e a divulgação de novos talentos” além de mobilizarem o interior do país em torno de manifestações culturais.

Segundo a EPTV, emissora regional, afiliada da Rede Globo e, com apoio das Prefeituras Municipais de Ribeirão Preto, São Carlos, Limeira, Varginha, Poços de Caldas e Araraquara, patrocinadora do evento, o festival leva a música regional brasileira, também chamada “caipira de raiz” a 299 municípios paulistas e mineiros, através da cobertura do evento.

As etapas do 5º Festival Viola de Todos os Cantos são as seguintes. De 16 de abril a 18 de maio – período de inscrição; 01 de junho – anúncio das 60 músicas classificadas e de 14 de julho (abertura) a 18 de agosto (final), acontecem as seis etapas.

Anteontem, 03 de abril de 2007, certamente entrará para a história musical da cidade de São Paulo. Radicada há décadas nos Estados Unidos, a pianista Diana Kacso fez um retorno triunfal aos palcos brasileiros. A grande surpresa foi o fato de estar dividindo a noite do recital, na Faculdade de Artes Santa Marcelina, com seu filho Gabriel Panny, jovem violoncelista de 14 anos.

Diana é a pianista brasileira detentora de maior número de prêmios em Concursos Internacionais de Piano. Destacam-se os primeiros prêmios dos Concursos Tereza Careño e Viña del Mar (Venezuela e Chile), os segundos prêmios nos Concursos de Leeds e Gina Bachauer (Inglaterra e Estados Unidos), assim como o 2º lugar e prêmio medalha de ouro do Concurso Arthur Rubinstein de Israel, sendo que a medalha lhe foi conferida pelo próprio Rubinstein.

Já Gabriel, com a pouca idade que tem, não é mais uma promessa, e sim um fato. Membro do Spectrum Quartet e da Sinfônica Jovem de Nova York, apresenta-se no Carnegie Hall.

Na noite desta terça-feira o duo abriu o programa interpretando a Ária das Bachianas Brasileiras nº 2 de Villa-Lobos. Esta obra serviu como um aquecimento para o que ainda estava por vir. Em seguida Gabriel interpretou a Suite II de Bach, violoncelo solo. As Suites para violoncelo de Bach são uma das obras mais importantes e difíceis para este instrumento. É raro escutar um Bach interpretado com tamanha autoridade, mais raro ainda é acreditar que o belíssimo e robusto som vem de um rapaz, ainda menino.

A esta altura, a platéia já começava a entender o altíssimo nivel musical com que seria brindada na noite.

Na sequência foi a vez de Diana tocar solo. Há mais 20 anos ela protagonizou um fato inédito: tocou os 12 Estudos Transcendentais de Liszt em um único recital. Haja energia.

Diana Kacso & Gabriel PannyDesta vez, ela interpretou os 4 últimos da série. “Ricordanza” soou com uma plasticidade rara, uma imensa riqueza de toques. “Allegro Molto Agitato” elevou a platéia às alturas, tamanha energia e disposição técnica. “Harmonies du Soir” encontrou na intérprete uma artista à altura. Com seu início que, talvez, soe como um “avant première” do impressionismo, artista – compositor – instrumento pareciam estar em perfeita comunhão. É um estudo especial, de beleza ímpar, e logo o ar impressionista foi dando espaço aos virtuosismos lisztianos, um dos habitats da artista. Para finalizar, “Chasse Neige”, onde a pianista não poupou o uso de todos seus recursos técnicos e sonoros. Resultado: foi ovacionada por uma platéia quase incrédula com o que estava assistindo. A intensidade de Diana é rara, e, se como o próprio título da obra sugere, o fato foi que Diana realmente transcendeu. E como transcendeu…

Retornando após breve intervalo, mãe e filho interpretaram o “Contemplativo” de Villani-Côrtes, belíssima obra, uma pequena jóia musical.

Para terminar a apresentação, mais uma obra de fôlego para o repertório violoncelo/piano: a Sonata em sol menor, op. 19, de Rachmaninoff. Comentar cada movimento seria extenso, mas com a maturidade e garra de Diana, aliadas à juventude e virtuosismo de Gabriel, o recital fechou com chave de ouro.

Merece nota especial a postura de Gabriel que, por sua pouca idade, ainda tem muito chão pela frente. Entretanto, sua juventude não fica em primeiro plano, uma vez que, ao pegar o arco, aos primeiros sons percebemos que é um artista de raro quilate, já enfrentando os palcos com a mesma magia e eficiência dos grandes violoncelistas.

Aos que não puderam comparecer, guardem esses nomes. Ambos ainda reservam grandes surpresas!

Aguarrás: O Sunrise Avenue é considerado um grupo que vai do hard rock às músicas acústicas. A versatilidade é um objetivo ou uma busca por seu próprio estilo?

Sunrise Avenue: Bem, claro que todas as bandas devem manter os olhos abertos para coisas novas e tal, mas eu acho que a principal razão de ir do leve ao pesado é que gostamos de tocar nossas músicas de diferentes modos. Mas o “conceito” é um concerto tradicional de rock ao vivo, tocado bem alto no palco.

Aguarrás: A banda ganhou impulso se apresentando ao vivo, antes de gravar On the way to Wonderland. Você acha que o grupo conseguiu trazer toda essa energia para o estúdio?

Sunrise Avenue: O processo de gravação foi bastante tranqüilo nesse estúdio próximo a Helsinki, montado em uma antiga escola com sauna e tudo. Nós realmente não tínhamos nenhum plano em relação à produção ou os arranjos. Simplesmente apertamos o botão e fizemos o que tivemos vontade. Muitos dos riffs e das coisas do álbum vieram das apresentações ao vivo, o que é bom.

Aguarrás: Existe algum tipo de caminho-padrão para as bandas da região nórdica? Alguns mercados da Europa, como a Alemanha, são mais abertos do que os demais à música estrangeira ou isso depende do estilo musical?

Sunrise Avenue: Os alemães parecem gostar de rock finlandês, e geralmente a Alemanha é o primeiro grande passo que todas as bandas nórdicas tentam dar. Os países escandinavos, de onde viemos, são bem pequenos e eu acho que as bandas precisam ganhar mais status para convencer outros territórios, e a Alemanha parece ser a primeira escolha para a maioria delas.

Aguarrás: O que você acha desse mundo interconectado que permite entrevistas como essa? Qual o papel da Web no desenvolvimento do Sunrise Avenue?

Sunrise Avenue: Eu acho muito legal. Teria sido bem engraçado fazer isso 20 anos atrás enviando uma carta ao Brasil. A Internet é uma grande ferramenta, especialmente para bancas novas promoverem seu trabalho e compartilharem algum material especial, como vídeos de backstage, entre outros. Nós mesmos administramos nosso Myspace e Web site, até hoje, o que é uma ótima forma de obter retorno dos fãs.

Aguarrás: Se vocês tivessem que se apresentar para os fãs brasileiros, que hit escolheriam?

Sunrise Avenue: “Fairytale gone bad” parece ser a música que vem abrindo mais portas em outros países até agora, e por isso seria nossa escolha para o Brasil também. Seguida de “Forever Yours”, provavelmente…

Aguarrás: Qual o próximo passo do Sunrise Avenue? O céu é o limite?

Sunrise Avenue: O céu é o único limite, vamos ver até onde chegamos. O próximo passo é tocar em centenas de palcos e conhecer várias novas cidades e pessoas. Acho que temos muita sorte em ter o trabalho mais divertido do mundo.


Sunrise Avenue


Aguarrás: Sunrise Avenue is considered a group that can go from hard-rock to acoustic songs. Is the group’s versatility the ultimate goal or a search for its own unique style?

Sunrise Avenue: Well sure all bands should keep eyes open for new stuff and all, but I guess the main reason for being from soft to harder stuff is only because the fact that we like to perform our stuff in different ways. Still the “concept” is traditional open live rock played live & loud on stage.

Aguarrás: The band gained momentum performing live, before recording On the Way to Wonderland. Do you think that the group managed to instill all that energy in its recordings?

Sunrise Avenue: The recording process was pretty relaxed in this studio near Helsinki built in an old school with sauna and all. We really had no plan with regards to the production or arrangement and we just pressed record and did what felt good. Many of the riffs and stuff on the album are from the past live shows and that’s good.

Aguarrás: Is there some kind of “standard” path for bands in your area? Are certain markets in Europe, like Germany, more open than others to foreign music, or does that depend more on musical style?

Sunrise Avenue: The Germans seem to like Finnish rock and usually Germany is the first bigger step all Nordic bands try to take. Scandinavian countries, where we are from, are pretty small and I guess bands need to get a bigger head-skin to convince other territories and Germany seems to be the first choice for most of them.

Aguarrás: What do you think about this interconnected world that enables interviews like this one to be conducted? What is the Web’s role in the band’s development?

Sunrise Avenue: I think it’s really cool. Would have been pretty funny to do this 20 years ago sending a letter to Brazil. The internet is a great tool for especially for upcoming bands to promote their stuff and specially share some special stuff like backstage videos and stuff. We actually operate our own Myspace & website ourselves, even now, and it’s a great way to get feedback from fans.

Aguarrás: If you had to present yourselves to Brazilian fans, which hit would you choose?

Sunrise Avenue: “Fairytale gone bad” seems to be a good door opener in most of the countries so far and therefore that would be the thing for Brazil too. Followed by “Forever Yours” probably…

Aguarrás: What is Sunrise Avenue’s next step? Is the sky the limit?

Sunrise Avenue: The sky is the only limit, we’ll just have to see how high we get. The next step is to get to play on hundreds of stages and to see many new cities and folks. We feel very fortunate having the coolest job in the world.

Eles acabam de conquistar disco de ouro na Suécia, e se a EMI Brasil estiver atenta às atividades de seus braços internacionais trará em breve para o Brasil o Sunrise Avenue, trilha sonora de nível, compatível com o rock adolescente que faz sucesso nos episódios de Malhação e nas rádios daqui.

Sunrise Avenue

O grupo finlandês foi criado pelo vocalista Samu Haber e o guitarrista Janne Kärkkäinen em 2002. Depois de um tempo tocando juntos, o duo incorporou Raul Ruutu no baixo e Sami Osala na bateria. O Sunrise Avenue ganhou força e público fiel com as apresentações ao vivo, sendo muito elogiados por onde passavam, mas tiveram dificuldade em encontrar gravadora. Depois de muita procura, o produtor Jukka Backlund assistiu um dos shows e resolveu apostar no quarteto, levando-os para o estúdio. Assim surgiram os singles All Because of you (fevereiro de 2006) e Romeo (abril de 2006), que abriram caminho para o cd On the Way To Wonderland. A trilha de tijolos de ouro é mais ou menos a mesma de outros grupos da região nórdica. Depois de emplacar o hit Fairytale Gone Bad nas rádios finlandesas, portas se abriram para uma turnê por Suíça, Suécia, Áustria e Alemanha, onde os ingressos esgotaram.

On the Way To Wonderland tem 14 faixas que transitam entre o rock de peso nas guitarras e as baladas eletroacústicas. Os destaques são Diamond, que une os dois extremos, Fairytale gone bad, feita na medida para as rádios e para o repeat do som, e a balada Heal me, onde Samu Haber mostra um estilo semelhante ao de Ed Kowalczyk, vocalista do Live.

Para os zippies, basta passar no MySpace para ouvir as músicas e assistir os clipes disponíveis. Na wikipedia você encontra links para apresentações ao vivo.

Reabrindo a temporada do já tradicional 5as com Música, a Fundação Eva Klabin trouxe ao palco de seu aconchegante e diferente auditório em forma de capela o Duo Gilson Peranzzetta e Mauro Senise. Itinerário imperdível aos interessados em música de arte no circuito cultural carioca, o 5as com Música é tiro certo para aqueles à procura de lugares e momentos que realmente valham a pena no ritmo prestíssimo dos dias de semana em grandes cidades, como o Rio de Janeiro.

A proposta não é simples, tampouco complicada. Aos mais iniciados no mundo da música, enunciá-la é o suficiente para dar o tom de sua polêmica, embora o termo polêmica exprima pouco o embrolho que se apresenta: reler obras clássicas, consagradas no repertório erudito, com novos arranjos, nova instrumentação, transposições, etc. É o tipo de projeto que pode dar em qualquer coisa. Do luxo ao lixo. Isso sem falar da recusa que sucitam nos espaços mais eruditos. Não fruto de conservadorismo pois uma releitura, mesmo ousada, paradoxalmente, pode ser conservadora. O que se pretende com as obras, a meu ver, legitimamente, é descobrir aquilo que pulsa em seu interior, que dá brecha e margens à criatividade, ao descobrimento, ao relapidamento. Extrair sonoridades contemporâneas, aspectos frescos de uma obra tricentenária, por exemplo, pode ser muito mais potente à sua conservação histórica e cultural do que interpretações clássicas, tradicionais, pouco inspiradas. Essa parece ser a principal característica do duo, sem preocupações de implementar melhorias nas obras ou de promover a exaltação do que quer que sejam suas essências primordiais. Criar a partir de um dado nada bruto é, sem dúvida, um grande desafio. Nesse sentido, a recusa ao novo não é fruto de conservadorismo conceitual, é da ordem da estreiteza de horizonte cultural e musical, do preconceito, fundamentalmente, e do fechamento interior àquilo que há de primordial na história da arte musical, seu mobilismo formal e estilístico centrado na cultura.

E cá estamos falando de um arranjador que é, de fato, um nome em seu tempo. O simpático, gracioso e oralmente sucinto ao palco, Gilson Peranzzeta é um artista cujo currículo me força a escrever aquele chavão que não posso evitar: fala por si só. Pianista, arranjador, maestro, músico completo enfim, possui uma verdadeira folha corrida, em bom sentido, e em tamanho, de vigência internacional. Seu parceiro ao palco, Mauro Senise, flautista, saxofonista e clarinetista, possui a verve do que há de melhor nos sopros (alegórica e literalmente falando) da MPB.

Duo Peranzzetta e Senise

Apresentaram-se abrindo o espetáculo com a conhecidíssima Sonata K 545 de Mozart, em Dó maior. Ao ouvir os primeiros arpejos e as primeiras notas, tomando consciência, subitamente, de que obra se tratava, o espectador logo se deu conta de que estava diante de uma apresentação que jamais poderia ser acusada de algo como pouco corajosa. A flauta, instrumento melódico por natureza e harmônico por vocação, fez logo saltar aos ouvidos a melodia mozariana: uma escala diatônica óbvia que sublima-se em deliciosa e instigante melodia. O segundo movimento, muito melódico, cantabile, romântico, ora gracioso ora misterioso, foi o que todos mereciam ouvir, um presente. O prelúdio n. 4 de Chopin, em Si menor, pregou uma peça em todos, ao introduzir-se com algo que nem de longe lembra a insistente melodia que marca esta peça. As melodias ao piano intercalando-se sutilmente com a flauta foi delicioso. A sobreposição do prelúdio com Insensatez, de Tom Jobim, declaradamente inspirada nesta peça de Chopin, em dado momento, foi imperdível, afinal quem nunca se lembrou de Tom Jobim ao olhar atenta e abertamente os acordes daquele prelúdio? O prelúdio XX do Cravo Bem Temperado, esse de Bach, foi irretocável, a ressaltar a concentração de Mauro Senise, impecável no que, aos ouvidos de um leigo nas flautas, parece ter sido seu maior desafio. O prelúdio das Bachianas Brasileiras n. 4, de Villa-Lobos, foi muito inspirado, com improvisos competentes das duas partes, piano e flauta, mas infelizmente perdeu sua caracterísitca Bachiana, isto é, relativo a Bach, quando ignorou, ou pelo menos deu pouca importância, ao mesclado de vozes, silenciando prematuramente ou não enfatizando corretamente algumas notas mais longas, cuja função é ligar vozes, trazer à luz o bailado de temas em estilo fortemente inspirado em Bach. Não fossem dois imensos instrumentistas no palco, a roubar a própria cena, eu diria que a tônica do espetáculo foram os arranjos, desafio que está no cerne e na alma de proposta nada trivial.

Coloquei, em minha introdução, que o encontro destinava-se, principalmente, a pessoas interessadas em boa música. Erudita, popular, clássica? Não interessou precisar claramente tais fronteiras. A ver um clarinetista improvisar num prelúdio de Chopin, um pianista improvisar numa peça de Villa-Lobos, vemos que o duo se não é simples, também não é complicado, um trabalho digno do conceito de pensamento complexo do sociólogo e pensador francês Edgar Morrin: “É o pensamento apto a reunir, contextualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo reconhecer o singular, o individual, o concreto.”

Geralmente pensamos em novas tecnologias de forma excludente. Todo ano surgem câmeras digitais que tornam os modelos anteriores obsoletos, celulares estão continuamente inovando e computadores envelhecem num piscar de olhos. Entretanto, quando falamos de música e do mercado fonográfico, o parâmetro da exclusão é insuficiente e simplista para analisar as diversas camadas em jogo. Afinal, é possível chegar a uma coexistência pacífica, lucrativa para todos os lados.

É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) A primeira análise cabível é a do fim da era do vinil. As bolachas perderam espaço e tiveram seu fim decretado com o surgimento do cd. Nada mais de vinil duplo. Todas as faixas cabiam em um disco compacto, durável, fácil de carregar e guardar. Seus avançados tocadores vinham integrados ao som esbanjando modernidade. Para melhorar, mini e micro systems tornaram-se PowER Plus, Super Surround e outros exageros. O futuro estava logo ali, era a mensagem. Graças ao esforço de colecionadores e da preferência dos DJs, a morte do vinil foi adiada. Um exemplo recente (2005) foi o álbum Confessions on a dance floor, da cantora Madonna, lançado também em Vinil triplo rosa, edição limitada. Graças ao status cult, o vinil sobreviveu, mas perdeu o mais importante para a indústria – a representatividade em vendas.

Não é preciso falar do impacto da mp3 – uma tecnologia que inverteu o caminho tradicional de disseminação pela pirâmide de consumo e permitiu a troca digital em massa, entre outros dados que já nos acostumamos a ler com freqüência em jornais. Por muito tempo ela foi considerada a grande vilã que levaria as gravadoras à falência. O mesmo barateamento de tecnologia que havia popularizado o cd player chegou ao gravador de cd, facilitando a pirataria de mídia física e libertando a mp3 do computador. Gravar cds não era mais um recurso para poucos (que o diga o gravador de dvds).

Com alguma inteligência comercial e programação logística, as gravadoras perceberam que a resposta para os problemas estava na suposta vilã – essa tal mp3 – e a transformaram em ferramenta de venda de acesso universal, ajudando a reverter o quadro de queda do consumo de música e começando a recuperar o público que tinha migrado para o download ilegal.

Apesar de ser um processo embrionário no Brasil, a venda legalizada de música digital cresce a olhos vistos. Warner e Biscoito Fino já possuem sites de downloads similares ao iMusica, e a Warner acaba de anunciar parceria com a Vivo para vender seu catálogo como toque de celular. A tendência é que o repertório disponível digitalmente cresça ano a ano, e o número de clientes acompanhe a taxa. A renovação de mp3 players também continuará. Os tocadores portáteis estão cada vez mais baratos e celulares e relógios de tecnologia bluetooth já disputam o mercado. Em breve será possível baixar amostras grátis de música que durarão 3 dias no player, só ficando novamente disponíveis após a compra. Provavelmente as lojas de cd terão mesas wireless de onde o cliente aproximará seu aparelho para escolher, copiar e comprar as músicas. Um repertório infinito disponível em espaço digital, com painéis que alteram o foco da propaganda a cada instante e de acordo com o gosto do cliente. Lembre-se que hoje já é possível pagar contas pelo celular.

As rádios, que hoje ganham dinheiro com anúncios e comerciais (finja que não existe o jabá, por favor), também se transformarão em lojas de mp3. Com auxílio da tecnologia digital para exibir o nome da música e do cantor no display, bastará ao ouvinte escolher a faixa, consultar o preço e fazer o pagamento. Novamente a dobra espacial se abre e o futuro fica mais próximo.

Diante de tantas inovações, analistas e palpiteiros resolveram antecipar o fim do cd, com a mp3 (ou seja lá qual for o nome do próximo arquivo compacto revolucionário) assumindo o seu lugar. Mas você quer mesmo trocar o conjunto cd + encarte + informações + arte por um blábláblá.mp3 na tela do computador?

Talvez seja hora de mudanças. É mudando a mentalidade do consumidor e oferecendo produtos de qualidade que os sites de venda digital lucrarão cada vez mais. O mercado de singles no Brasil é inexistente e os interessados sempre dependeram de importadoras para conseguir o que queriam a preços exorbitantes. A mp3, ao invés de competir em venda com os cds, pode ocupar o espaço deixado pelos singles, esses sim verdadeiramente ameaçados pela era digital. Versões acústicas, remixes, novas roupagens, faixas exclusivas. Temos produtores e DJs de excelente qualidade no Brasil, plenamente capazes de tornar o mp3-single um produto interessante e, por que não?, diferenciado daquele disponível no cd, transformando a concorrência entre produtos em maior oferta de músicas. Uma nova demanda plenamente aproveitável, capaz de manter o sucesso de músicos consagrados e ajudar a divulgar novas bandas no espaço digital. Você é capaz de imaginar um programa de rádio anunciado assim: “e agora, as 10 músicas mais compradas durante o dia”.

O cd deve realmente virar item de colecionador o mais rápido possível, mas no bom sentido. Outra vez, se faz necessário a mudança de mentalidade e quebra de paradigmas. Ela deve partir das gravadoras em suas políticas internas, para alimentar um crescente público potencial. Vale parar e pensar. O que é o cd afinal? É realmente um transporte de mp3 da loja para a casa do consumidor? Ou ele pode ser mais do que isso? Para se manter vivo, o cd precisa se tornar um produto único, expor mais o lado arte, trazer um conteúdo exclusivo e personalizado que desperte o interesse do fã, não só pelo ouvido, mas pela visão e pelo tato, e quem sabe, o olfato. Deve ser vendido e anunciado como tal.

Exemplos não faltam. Veja a primeira coletânea de Michael Jackson, chamada History vol 1.. O álbum era duplo, vinha com um cd de coletânea e um cd de inéditas e tinha a caixa ampla para abrigar um encarte de 50 páginas com fotos, registros de shows, notícias sobre vendas e declarações de amigos. A capa tinha a foto da famosa estátua gigante que circulou em alguns lagos da Europa e os cds eram dourados, com a imagem da estátua gravada, um verdadeiro item de colecionador. Não há arquivo.mp3 que se compare. Em 1992, o grupo sueco Roxette teve a idéia de gravar um cd inédito enquanto fazia turnê. O resultado foi Tourism, que mistura versões ao vivo, gravações em estúdios diversos e até em nightclubs. O encarte ficou à altura e trouxe além das letras, declarações e fotos compondo um diário de viagens. Otto, de outra perspectiva, fez algo semelhante em Sem Gravidade, montando um álbum de fotos de viagem com encarte caprichado e arte gráfica no próprio cd, ajuda certa na ambientação audiovisual. Também pela Trama, Jair de Oliveira lançou o cd virtual 3.2, com as músicas que não entraram na seleção final de 3.1, o cd físico.

Em 2002 foi a vez de Christina Aguilera ter um surto de bom gosto e unir às músicas de Stripped um encarte prata cuidadosamente planejado que valorizou o pacote. O trabalho fotográfico foi tão bom, que rendeu a capa de 3 dos 4 singles que saíram dele. Dos artistas nacionais, Fernanda Abreu entende como ninguém o conceito da completude do cd como objeto de consumo. Sempre caprichou na produção dos encartes, com destaque para as montagens de Entidade Urbana – um verdadeiro quebra-cabeça de roupas e estilos – e o colorido de Na Paz, uma inversão da estética da guerra explorada por Madonna em American Life.. Toda cura para todo mal, do Pato Fu, fez do encarte um grande rascunho de desenhos, letras e cifras, aproveitando o conceito também para a ilustração do cd. Já o Nenhum de Nós aproveitou Pequeno Universo para montar um encarte miniatura, com um quarto do tamanho original, puxando a força da imagem para a arte gráfica do cd. Talvez, o exemplo mais clássico de cd conceitual brasileiro seja Barulhinho bom de Marisa Monte, quase um gibi erótico baseado nos desenhos de Carlos Zéfiro, aproveitando inclusive a textura do papel.

O cd-produto de consumo como espaço criativo não possui limites. Tem quem vá além do encarte e veja a caixa como parte da obra, fugindo da mesmice do acrílico no plástico preto. O cd Mutantes ao vivo recém-lançado optou por um design sóbrio e contemporâneo, mudando também a caixa do dvd. Parece ser uma tendência de refinamento dos pequenos detalhes. Mais elaborado foi o projeto do grupo oitentista Oingo Boingo, que uniu a embalagem totalmente trabalhada a um livro com fotos, desenhos e letras, gerando uma atmosfera sombria que casa perfeitamente com a sonoridade proposta no álbum de despedida (em seguida veio o ao vivo Farewell). O fã se deleita não só com a música, mas com o material do livreto. Um cd que raramente iria para um sebo. A parceria entre Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede, também mostrou bom gosto e criatividade de sobra na criação de arte de Vagabundo, um ótimo repertório com um conceito gráfico acima da média do mercado.

Inovações com a caixa também foram feitas em 1993 pelo duo Pet Shop Boys, que lançou Very com capa laranja de borracha e em 1996, Bilingual, que tinha a tampa de acrílico pintada de branco vazada com o nome do cd. Possivelmente, o exemplo mais diferenciado da caixa tradicional seja a embalagem do acústico do 10.000 Maniacs feita artesanalmente na forma de envelopes de papel nepalês fechados com um palito de bambu.

Você deve ter alguma noção da quantidade de material deixado por Raul Seixas após sua morte, vide o mítico Baú do Raul. Como pensar então em um cd do ídolo do rock que não tem nada além da capa e o nome das músicas, com o interior do encarte em branco? Você tenderia a comprar esse produto – aqui sim, um mero transporte das músicas – ou diretamente a mp3 de seu interesse? E se o encarte viesse recheado de fotos, contando a história das músicas, comentando o impacto de Raul no mercado fonográfico, imagens de letras manuscritas e outras curiosidades que cercam o artista?

A interatividade pode integrar o processo, com os fãs votando nas fotos, informações e artes gráficas que gostariam de ver no produto antes do seu lançamento (uma das músicas na coletânea dos Cranberries foi escolhida pelos fãs do grupo), ou mesmo encartes virtuais, montados de acordo com a preferência do comprador.

O conteúdo de cd traria como adicional clipes, entrevistas, explicações sobre músicas, bastidores de composições e gravações, ou mesmo papéis de parede para o computador. Os dvds, a exemplo do trabalho de Jean Michale-Jarre, podem oferecer mixagens 5.1. dos cds originais, atraindo os consumidores que já contam com home theater e elevando a experiência audiovisual.

A tecnologia só será uma ameaça a artistas que lançam cds burocráticos que servem de veículo para uma ou duas músicas de trabalho. Serão reconhecidos como criadores de singles e não de álbuns. Talvez vendam somente quatro músicas lançadas por ano em lojas virtuais, existindo fisicamente apenas em coletâneas. O que não deixa de ser um produto lucrativo voltado para esse novo público em constante formação, que monta a sua própria programação de rádio e vê a música de trabalho como uma sugestão e não uma imposição. Cabe à indústria perceber a demanda e explorar o nicho por meio de produtos inteligentes pensados para um público de sentidos mais apurados, mudando assim as tendências da queda de vendas de cds.

É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br)

Não se deixe enganar pela pouca idade de Paolo Nutini. Com 19 anos, o cantor é considerado um dos grandes talentos da nova geração, ganhou elogios da Uncut Magazine, vendeu 640.000 cópias na Inglaterra, conquistou disco de ouro na França e mundialmente já passa de 1 milhão de cópias. Isso tudo com o seu primeiro cd, These Streets.

Se você é um dos traumatizados pela geração boyband, fique tranqüilo. Paolo Nutini não tem nada a ver com o dirty pop. Ele é um ótimo cantor que mistura soul com levadas de rock, tudo bem dosado, e sua jovialidade só tem a contribuir com o resultado. Uma possível referência contemporânea seria a poesia musical de Rob Thomas, vocalista do Matchbox 20, mas com o lado jazz sobressaindo ao pop rock.

“O álbum é basicamente uma viagem autobiográfica sobre meus últimos três anos”, diz Paolo Nutini.

Apesar do nome italiano, Paolo nasceu na Escócia. Cresceu ao som dos vocalistas do The Drifters e bebeu na fonte de John Martyn e Van Morrison. Sua voz rasgada é um dos grandes atrativos em These Streets. Muito carismático, o cantor também tem se destacado nas apresentações ao vivo, que já conquistaram Ben E. King como fã. Várias delas estão disponíveis no site do cantor, junto com os videoclipes oficiais.

These Streets mantém o aspecto orgânico das canções, quase um show na beira do bar, característica extremamente positiva numa era de vocalistas fakes e excessos de produção. Parte do mérito se deve a Ken Nelson, produtor inglês que traz no currículo Echo & The Bunnymen, Badly Drawn Boy e Coldplay, e soube captar a essência soul de Paolo Nutini.

O álbum conta com 3 singles lançados: Last Request, Rewind e Jenny Don’t be Hasty. Se você já é adepto da compra de mp3s, vale começar por elas. Eu fico com These streets e o hino New shoes, no melhor estilo carpe diem de ser.

“Hey, I put some new shoes on and suddenly everything’s right
I said hey, I put some new shoes on and everything’s smiling, it’s so invinting
oh, short on money but long on time
slowly strolling in the sweet sunshine
and I’m running late and I don’t need an excuse
‘cause I’m wearing my brand new shoes”

Paolo Nutini – These Streets Paolo Nutini – These Streets Paolo Nutini – These Streets Paolo Nutini – These Streets

Na noite de quinta-feira (25/01) apresentou-se na Livraria Armazém Digital do Leblon, no Rio Design Center, a cantora Lica Cecato. Radicada na Europa há mais de vinte anos, a cantora exibe ao longo de sua carreira um repertório delicioso, num caminho de influências já fortemente explorado, a MPB de forte cunho jazzístico, receita que tem sucesso garantido em praças européias não é de hoje. Tal é a consolidação desse estilo que já poderíamos evitar o “jazzístico” e adotar a sigla, MPB, que, não obstante, ainda sucita fortes e pertinentes debates conceituais, sobretudo por sua enorme abragência de significado. Então, que se inclua mais um.

Não é novidade ao público de cultura dos grandes centros ouvir falar de artistas brasileiros bem sucedidos no exterior e absolutamente anônimos aqui, sobretudo na seara da MPB.  Lica não foge à regra, mas foge ao estigma. Está longe daquela imagem de artista medíocre que faz fama e dinheiro à custa da ignorância estrangeira à cultura brasileira (comum  em todos os lugares, inclusive no Brasil), da tradição e do sucesso de nossa cultura em outros mares, esses sim frutos do alcance oportuno de grandes artistas de nosso país. O grupo mais detestável de pagode, que nem uma esquina ou um botequim vazio conseguem aturar, vira primeira página cultural em Tóquio ou Paris, sobretudo em tempos de moda brasilis, como o que acontece hoje na França.  Muitas vezes ficamos espantados com o sucesso de um artista na Europa e a total ausência de conhecimento a seu respeito no Brasil. Muitos chegam a desconfiar, pensam logo nesse retrato que tentei pincelar aqui. Não se deixem enganar, Lica está em outra categoria. Está no crescente rol dos artistas sérios, dedicados, talentosos, que expõe nossa música, não apenas em gênero, em estilo, mas em talento. Mostrar o valor da música popular brasileira não apenas em seus versos e melodias, mas em seu material humano, seus instrumentistas e compositores. Lica trouxe ao público do Armazém Digital uma apresentação autoral, seu prestígio. Seria simples convencer o público com composições de Chico, Tom, Carlinhos Lyra, entre outros. Simples e muitíssimo agradável, devo dizer, como ouvinte. Trouxe à cena o velho desafio de um show com composições próprias e agradou.  Mostrou a personalidade que se espera de uma artista madura, consciente de que seu trabalho, por bem feito que é, vai agradar àqueles que pagam pra ver. O desafio não soou como aposta. Lica e seus músicos deram a impressão de saber muito bem o que estavam fazendo e esta certeza estava naquela tríplice fronteira, delicadíssima, entre a arrogância, o auto reconhecimento e a tentativa de conquistar seu público.  Lica saiu-se muito bem.

Naquela quinta-feira, faria anos Antônio Carlos Jobim. Lica nos brindou com uma bela “Dindi”. Confesso que, se eu pudesse escolher, preferiria outra eloqüente apresentação de uma música de Tom Jobim à magra interpretação de “Georgia on My Mind”, executadas, ambas, nos raros momentos em que o show fez concessões não autorais. Aproveitar o aniversário de Tom Jobim seria mais do que o ensejo de uma saudação justa, necessária e merecida. Seria o argumento perfeito de uma cantora que conhece Tom.

Ney Matogrosso é uma espécie de Fauno da música brasileira. Vê-lo ao vivo é teleportar-se para um reino dito mitológico, mas que está ali adiante, em cima do palco dominado por suas danças, corpo teatral e voz. Canto em qualquer canto contribui em muito para que a fronteira do lá e do cá fique mais fluida. Lembra um tempo em que era possível abstrair o cotidiano de problemas infindáveis nos momentos de diversão, fosse ouvindo um cd no egoísmo do earphone ou tomando um chope com os amigos em uma casa de show.

Canto em qualquer canto foi definido como quatro violões acompanhados por uma voz. Não foi à toa. Pedro Jóia (alaúde e violão), Ricardo Silveira (guitarra e violão), Marcello Gonçalves (violão de 7 cordas) e Zé Paulo Becker (viola e violão) desconstroem a noção arcaica do instrumento como base musical. A inversão conceitual que coloca os músicos em paridade com o cantor faz da música o átomo elemental do microcosmo de Ney Matogrosso. Ela emana de diversas fontes, às vezes em conjunto, às vezes individualmente, mas alimenta o mesmo universo.

Parte do sucesso da empreitada está no acerto do repertório preciso, que foge da mesmice e repesca sucessos como Amendoim torradinho e Bambolêo, encontra Chico Buarque em Tanto amar, os Tribalistas em Já te falei, e ainda traz versões tocantes de Bandolero e Duas Nuvens. No show, o espectador ainda ganha de presente Sangue latino, Rosa de Hiroshima e a genial Último desejo, de Noel Rosa.

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não,
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação.
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim

Destaque para a participação de Pedro Jóia, que já tem 3 cds solo lançados.

É Ney Matogrosso encarnando Pã e Pedro Jóia fazendo do alaúde a sua sirinx.

Quando Jair de Oliveira lançou o álbum Simples, a palavra de ordem foi menos é mais. Fiquei desconfiado com o joguete verbal de imprensa inspirada, pois a musicalidade de Jairzinho se faz exatamente no experimentalismo, na vontade de extrair algo além e no jeito de colocar a voz a serviço dos instrumentos, integrando tudo na mesma batucada. É uma concepção Nietzschiana. A música, como o humano e o personagem da tragédia, existe em um ponto entre Apolo e Dionísio, e Jair opta pelo dionisíaco.

Jair de OliveiraEsse mix de sonoridades já havia sido testado em dis’ritmia, seu primeiro cd, e aprimorado em 3.1, que uniu saxofones, rhodes, trombones e trompetes em faixas como A ladeira leva e Todo mundo famoso. Felizmente, Simples, não é uma versão rasa de trabalhos anteriores, pelo contrário, continua complexo e demonstra evolução. A base instrumental, agora de cordas e percussão, mostra resultado já em Braços de Iemanjá, que recria o som do berimbau numa roda de capoeira multisciente. Outro ponto alto é Casa da Dor. Com direito a cavaquinho e violão de 7 cordas, Jair de Oliveira canta uma tristeza típica de Cartola nos versos:

“O tanto tempo que o amor demora
Para reabrir um coração ferido
O tanto tempo que é tempo sofrido
Onde cada segundo parece hora”

Apesar de ser divulgado como um cd de samba, nem sempre a ginga malandra combina com o visual nova-iorquino de Jair, que se sai melhor ao despir-se de títulos. Como foi tema de novela, Tiro onda é a faixa mais conhecida até o momento, mas ainda há muito o que se garimpar em Simples.

Destaque para a música que dá nome ao cd (a letra fala que amar é simples como escrever um best-seller e fazer gols iguais aos do Pelé) e para Au Niveau du Bar, parceria com Otto, que brinca com palavras francesas e traz o clichê bem-vindo do musette.

Das composições de Paulinho Moska sempre senti uma claustrofobia, aquele processo de criação que não extravasa virando borboleta, ao invés, se mantém amarrado mesmo pós-metamorfose não querendo abandonar a poesia do casulo. Nesse apetrecho de seda autoral, sufocante e deliberativo como deve ser, nasceu o trabalho Tudo Novo de Novo. Moska, que já está no sétimo cd, apresenta um repertório no limiar do precipício. É interessante, pois o símbolo metafórico do suicídio e do mais nada a fazer aqui se assume como uma bela vista panorâmica alimentada por sensibilidades diversas. Tudo Novo de Novo é um cd calmo e de letras simples, com melodias que não tentam reinventar a roda e são eficientes dentro do caminho escolhido. Diferente dos jogos fonéticos de trabalhos anteriores, a carga emocional agora tem a voz como força principal e transforma o restante em acompanhamento. Quem é fã do cantor verá que é uma obra coerente com suas propostas artísticas, sendo ou não uma retomada do otimismo como diz o release. É uma pena que não seja tarefa fácil encontrar todos os álbuns de Paulinho Moska por aí e que a coletânea dupla da coleção BIS tenha canibalizado parte do seu repertório.

Pra quem curte Jorge Drexler, Tudo Novo de Novo traz um dueto com Moska na música Dos colores: blanco y negro e assina a versão em espanhol de Pensando em você.

Destaque para a faixa-título e para a balada pop Reflexos e Reflexões.

“Diga aí amigo
Como vai você?
Estou aqui contigo
Você também me vê
Às vezes sou seu clone
E você é o meu
Não temos o mesmo nome
Mas nossa vida se perdeu”.

Paulinho Moska também é apresentador de Zoombido, no Canal Brasil. Lá, Moska discute com outros compositores detalhes do processo de criação e de suas carreiras, toda quinta-feira às 10 da noite.

Moska Moska Moska Moska Moska Moska

O ano de 2006 foi marcado, sem dúvida, no cenário musical erudito, e não apenas, pelas festividades dos duzentos e cinqüenta anos do nascimento de Mozart. Somos dados, de certa forma, a privilegiar certos números quando escolhemos o momento de comemorar com mais apego a idade de alguém ou de algo. Não cabe aqui tentar averiguar as questões “histórico-numerológicas” que nos impedem, com efeito, de comemorar um aniversário de número não múltiplo de cinco ou dez com mais ênfase do que estes terminados por cinco ou zero. É o êxito do sistema de base dez, decimal, e nesse terreno a antropologia, de um modo geral, nos fornece grandes respostas. Temos dez dedos, aprendemos — digo a humanidade — a contar assim. A fascinante história da matemática é assunto vastíssimo e fundamental, inclusive, e principalmente — a meu ver –, em espaços dedicados à história da arte. A emergência da Ciência Moderna ocorre na efervescente Europa Renascentista, e essas atividades, juntamente com outras, não podem ser facilmente desvinculadas. Mesmo que fora de uma perspectiva histórica, não podemos negar que a Ciência possui um forte teor estético, bem como a arte, muitas vezes, goza de conceitos científicos.

Digo isto, de Mozart e dos números “exatos”, pois temos em 2007 uma conjunção, à primeira vista, quase idêntica: um centenário de Mozart. Mas não do Mozart, o Wolfgang Amadeus. Nesse ano comemora-se o centenário de nascimento de Mozart Carmago Guarnieri (1907-1993). Imortalizado por seus dois últimos nomes, em razão de sua obra, evidentemente, e também de seu primeiro nome, evitado pro razões óbvias de abigüidade, Camargo Guarnieri é sem dúvida um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Seu pai, imigrante italiano que batizava os filhos como nomes de grandes compositores, não podia imaginar que as referências musicais a seu filho iriam para anos-luz além da simpática homenagem de batismo. Guarnieri produziu o segundo maior montante de obras de toda história musical brasileira, ficando atrás, nesse quesito, apenas de Villa-Lobos. Ainda jovem teve o privilégio de contar com os aplausos e, principalmente, os ensinamentos de Mário de Andrade o tendo reconhecido posteriormente como uma das figuras mais importantes, não apenas de sua carreira, mas de sua vida. De fato, Mário de Andrade foi o grande orientador intelectual do jovem Camargo, seu amigo, e seu parceiro de trabalho, tendo escrito vários libretos para Camargo. Disse o velho Guarnieri: “Devo a minha vida a três homens: meu pai, Miguel Guarnieri, o Mário de Andrade e o Baldi. O Mário me deu cultura geral; o Baldi, a cultura musica; e meu pai, que me fez nascer”. A influência de Mário de Andrade o levou para o caminho da música de arte de inspiração folclórica. Por isso, apesar da origem italiana, sua música não tinha nada de Itália. Era muitíssimo brasileira. Mas não como uma sombra de um Villa-Lobos, que teve sua notável produção focada na origem folcórica brasileira como um todo, ou ainda como um Nazareth cujas tentativas de produzir música francesa desencadeavam em polcas, tangos, valsas e choros dos mais brasileiros, essencialmente cariocas. Guarnieri não produzia música “brasileira” de uma forma geral, sua obra é especificamente paulista, salienta Otto Maria Carpeaux. Compôs quartetos, sinfonias (com destaque para a segunda e a terceira), música de ópera. Inúmeros Lieds, diversas cantatas — muitas sobre poemas de Mário de Andrade. Para piano compôs a aclamada Tocata, possivelmente, nos dias de hoje, uma de suas peças mais famosas, não sei se com justiça, e os Ponteios, muitos deles gozando de pleno vigor em salas de concerto e em recitais. Para piano foi também foi seu primeiro sucesso, a 1a. Sonatina. Ainda compôs muitas obras isoladas para canto, piano, orquestra e câmara. Guarnieri obteve largo reconhecimento internacional, tendo tirado o segundo lugar, em Detroit (EUA) no concurso que elegeria a “Sinfonia das Américas”. Para boa parte da sociedade brasileira é isso o que importa: ser reconhecido na Europa e nos Estados Unidos. Com Villa-Lobos não foi diferente. Não creio que seja muito diferente ainda hoje. Portanto, não vou elencar seus títulos internacionais no intuito de enaltecê-lo, como sempre se faz. Não vou fazer, aqui, esta confusão de causa e efeito.

Vejamos e ouçamos em que compasso vão acontecer as comemorações do ano do centenário de Guarnieri, um nome imenso da arte brasileira. Não esperemos, contudo, que sejam as comemorações como as de Mozart, ironicamente aqui “o outro”. Como a biografia do Mozart de Tietê (SP), que o festejo seja surpreendente, intenso e vigoroso. E viva Camargo Guarnieri!

Desde o primeiro cd, Nelly Furtado decidiu explorar o caráter mais global de sua música. Com Whoa, Nelly! conquistou um Grammy e respeito internacional, mas quase caiu na armadilha da crítica americana, que tentou marcá-la com um único single e estilo. Felizmente, Nelly Furtado soube passar por cima, explorando músicas como Legend, e incorporando novas influências ao seu estilo hip-pop. Apesar do segundo cd não ter vendido tão bem, Folklore foi um trabalho diferenciado e positivo, trazendo um dueto com Caetano Veloso – Island of Wonder, e a belíssima balada Try. Aqui, chama atenção o lado mais soul, flertes com a bossa nova e novamente com a música portuguesa.

Com Loose, a mudança foi radical. Nelly chamou o produtor Timbaland para dar ares mais pops ao cd e aproveitou a onda hip-hop de baixa qualidade que assola os EUA. O resultado foi um álbum que mistura canções pop marcantes como Say it Right e Maneater, descartáveis como o sucesso Promiscuous e sonoridades latinas (produzidas por Juanes). Superando expectativas, Nelly manteve o caráter mundial da sua música. Lançou Te busque e No hay igual na Espanha e na América Latina que fala espanhol, e divulga Say it right nos EUA e All good things na Europa, com versões diferentes para Inglaterra, Alemanha e Itália, onde fez dueto com o Zero Assoluto. Com essas guinadas de estilo, a expectativa para o próximo cd é grande, mas Loose ainda deve render alguns singles. Que a pluralidade supere o americanismo.

Destaque para Somebody to love, incluída apenas em algumas versões do cd.

Nelly Furtado Nelly Furtado Nelly Furtado Nelly Furtado Nelly Furtado

“Sempre haverá um reduto para os esnobes se expressarem”, diz Caetano Veloso, ao versar sobre sua repetida tese de que, aos olhos da cultura dos anos sessenta, roqueiro ser arrogante é paradoxo. Caetano argumenta que o Rock, assim como surgiu nos grandes centros culturais brasileiros na década de sessenta, era “lixo cultural”. Entenda-se, não que Caetano necessariamente assim considerasse o som das pedras rolantes, mas que sobre este, sem dúvida, não pairava a mais fina camada de legitimidade social geral na época.

Não era odiado, mas entre entendedores e amantes da música, popular ou erudita, e no senso comum geral, o estilo americano era digno do mais risível desprezo, atitude compulsória de quem postulasse uma intelectualidade, ou mera maturidade, superior a de um garoto de 14 ou 15 anos de idade. O objeto dessa curiosa análise é o fato de, nos dias de hoje, roqueiros – principalmente os roqueiros – outorgarem ao seu gênero, o rock, da maneira como foi cunhado e lapidado pelos grandes mestres do rock ‘n roll do século XX, o selo da pureza musical. Ou mais “grave” o fato de considerarem-se, uns aos outros, os donos-da-verdade, do bom gosto, quando se fala de música e, principalmente, de tudo que se relaciona ao Rock. Destróem com seus pseudo-ácidos comentários movimentos artísticos inteiros ou estilos seculares sem sequer pestanejar. Em razão de recentes lançamentos em sua discografia (Cê, 2006.A Foreign Sound, 2004.) contendo faixas com muitos elementos de rock, incluindo títulos consagrados do gênero roqueiro como “Come As You Are”, do Nirvana, Caetano argumenta que não se pode esperar maior reação, indignação mesmo, às ousadias e às liberdades tomadas do que as que vêm do “pessoal do rock”. Em síntese, o que Caetano assinala é o fato de um gênero outrora digno do mais legítimo descrédito constar hoje na topo da lista das “tribos” – conceito complicado – de maior teor crítico e/ou purista, distribuindo “isto vale” e “isto não vale” por toda parte na cena musical de hoje, de ontem e de sempre. A dizer pela frase que inicia este artigo, essa postura esnobe é antiga, e é apenas curioso, e paradoxal ao olhar de uma época, que esteja operando hoje, principalmente, no reduto do rock ‘n roll. Mas não apenas.

Em tempo vale dizer que esta análise atual, oportuna e original, tende a um reducionismo perigoso, afinal quem são os roqueiros ou o que é o rock hoje? Do mesmo modo podemos perguntar, quem é o público de música erudita hoje? Se os esnobes e arrogantes encontram um espaço agradável no rock, isso é porque não conhecem o mundo da música erudita. Se uma releitura muito ousada de um clássico do rock coloca o intérprete numa posição de ataques e de críticas do “pessoal do rock”, na música erudita um detalhe dos mais frágeis, dos mais imperceptíveis, coloca o artista numa arena. Não estou falando de atravessadas monumentais, de “bumbadas” na pausa, como se diz. Um vacilo de pedal, um dedo milimetricamente descolocado em uma corda, uma entrada invisivelmente insegura de um naipe para profissionais sérios e dedicados serem sumariamente atirados à fogueira. E os inquisitores, em geral, são os mesmos que no dia seguinte aplaudem as mais “belas” atrocidades da música, só por terem nome e sobrenome no palco do municipal. A comida dos leões e as brasas das fogueiras são, via de regra, belos, competentes e desconhecidos profissionais, tentando viver honestamente da boa arte que fazem. O principal instrumento deste tipo de público é o “dois pesos duas medidas”, conceito que leva, em geral, no embalo da obviedade. Um leve esbarrar de teclas numa interessante e competente (às vezes brilhante) execução de uma sonata e logo dizem para as poltronas à sua volta: “É… Liszt não é pra qualquer um!”. Uma barbaridade sendo executada e: “Ahh… que beleza, fulano é fulano!”.

Claro que abordagens sociológicas ou psicológicas dariam belos ensaios. Este também não é um texto contra a arrogância, é apenas um ponto de vista a ela no cenário do público de música. Afinal, de certo modo, afirmam alguns, podemos visualizar a história intelectual do ocidente como uma história da arrogância, com cada filosofia declarando possuir a verdade, colocando as outras, às vezes, quase em posição de ridículo. Essa postura esnobe não está ligada ao nível de “iniciação” que se tenha neste ou naquele gênero e é democrática como poucas coisas. Podemos olhar para aquele público de música clássica não contabilizado por não ser um espectador “qualificado”, tradicional. A pessoa que vai às salas de concerto, compra CDs, baixa mp3 (principalmente) sem saber direito o que é uma sonata, se Liszt foi contemporâneo de Chopin, quem é Horowitz ou Shlomo Mintz. Não especialistas, de muito bom gosto. Ora, neste quadro, estes apreciadores de arte são muito próximos, extremamente ligados, aos melômanos, aficcionados, especialistas em música que, ao contrário de muitos de seus pares, dispensam a arrogância gratuita e preferem deixá-la para momentos mais selecionados e para audiências mais apropriadas. Olhar o publico dividido por sua postura diante da música, da arte, não pelo grau de “iniciação” ou conhecimento na e da mesma. Será que poderíamos fazer o mesmo com os críticos de arte? “Sempre haverá um reduto para os esnobes se expressarem

“Eu sou o solitário e nunca minto
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto”
– Sophia Breyner em Catilina.

As cortinas vermelhas se abrem e a mini-orquestra anuncia Maria Bethânia. A cantora surge como um orixá entre os mortais, revestida de força juvenil. Iansã personificada, Bethânia é humilde perante a música e expressa uma alegria incontestável. Basta estar, mesmo calada, para contagiar o público ainda se ajeitando nas cadeiras do VivoRio.

Maria Bethânia

O palco é bem projetado, com pontes, caixas e um painel de nuvens carregadas que casa perfeitamente com a voz trovejante da cantora e o tema das águas. O repertório do show Dentro do mar tem rio é baseado nos dois cds que a intérprete lançou esse ano: Mar de Sophia e Pirata. O primeiro é inspirado na obra de Sophia Breyner, o segundo lembra um tratado de memórias sobre as águas. O show é dividido em duas partes. Entre uma troca de roupa e outra, o público se deleita com a orquestra, que não deixa a música parar. As poesias que Bethânia recita integradas às músicas são uma emoção especial. Não é todo dia que belas melodias tocam (e mesmo se roçam) na poesia de Álvaro de Campos e Fernando Pessoa. No bis, quando a Iemanjá prateada se despede com um pot-pourri de marchas de carnaval, a vontade é sentar e começar tudo de novo.

Maria Bethânia

“Navegar é preciso, viver não é preciso”
– Fernando Pessoa.

O norueguês Thomas Dybdahl aos poucos encontrou o seu caminho. Depois de uma rápida passagem pelo grupo Quadraphonic como guitarrista, lançou o cd That great october sound, arrancando elogios dos críticos e conseguindo boas vendas. O single From grace (excelente) dava sinais do futuro experimentalismo do cantor, misturando ao folk melancólico outras sonoridades. Stray dogs, o trabalho seguinte, repetiu a fórmula sem novidades, mas valeu um contrato nos Estados Unidos. Seu primeiro álbum por lá se chamou One day you’ll dance for me, New York City, um título irônico já que as músicas eram lentas ao extremo.

Thomas Dybdahl

Em 2004 Dybdahl uniu força com os músicos do BigBang e do Jaga Jazzist e formou o projeto National Bank, um grupo bem estruturado e talentoso, com músicas hipnóticas que uniam bases eletrônicas, rock e pop. A experiência enriqueceu o trabalho do cantor, e as mudanças podem ser sentidas em Science, seu melhor até agora. Science flerta com múltiplas referências, acrescenta bateria e piano ao velho folk e dá ritmo ao que antes eram apenas boas idéias. Imaginar uma mistura de Nick Drake e Nick Cave é uma boa referência.

A cantora norueguesa Lene Marlin alcançou um estrondoso sucesso logo no primeiro cd, produzido inteiro por ela aos 18 anos de idade. Playing my game atravessou fronteiras movido pelo single Unforgivable Sinner e ficou conhecido também na Alemanha, Itália, França e Suécia, conquistando mais tarde o ávido mercado japonês.

Lene Marlin

Lene chama atenção por compor canções com qualidade bem acima da média que o público jovem está acostumado, vide as boybands que dominaram os anos 90. Lost in a moment, o terceiro cd, é uma evolução natural do seu estilo pop. Sua voz continua lindíssima, as canções estão mais sensuais e as letras brincam de forma inteligente com compassos e palavras. O cd já teve duas músicas de trabalho: What if e How would it be. Outros bons momentos são Never to know e All I can say. Atualmente, Lene Marlin está divulgando o single Avalon, gravado com o grupo de rock-pop suiço Lovebugs.

Lene Marlin

I want to run but I can’t hide
The feelings grow inside
Love will always find its way
I want to turn but it’s too late
Love will always conquer hate
Just one kiss and I’m okayI want you to be my Avalon
The sweet unknown
Come on over and take on me
I want you to see my Avalon
The love has grown
From here to eternity

Assista o clipe Avalon no Youtube

Houve uma época em que Moby era sinônimo de underground. Os fãs não beiravam os milhões, mas tinham admiração legítima pelo artista que gravava no estúdio de fundo de quintal, lançava encartes defendendo a natureza e aparecia o mínimo possível. Quem não gostava muito da história era o Moby, que queria ser ouvido por mais do que um grupo de amigos e uns doidos que compravam cd importado nos outros continentes.

Moby Go

No cd Play, Moby realizou o seu sonho. Disponibilizou todas as músicas para comerciais e era impossível mudar de canal sem esbarrar em um “porcelain” aqui, “why does my heart feel so bad” ali. É claro que o artista foi criticado, mas conquistou o público que queria. Depois, foi só fazer a manutenção, repetir a fórmula em 18 e fazer um trabalho entediante em Hotel. Com 15 anos de carreira, estava mesmo na hora de uma coletânea (ou para os mais sarcásticos: época de Natal, época de coletânea caça-níquel). O problema de GO: The Very Best of Moby é a seleção de faixas. Praticamente um double pack de Play e 18, ignorando cds inteiros do músico, um terço da carreira. Ausências como a de “That’s when I reach for my revolver”, “into the blue”, “hymn” e o remix de “voodoo child” apagam parte importante dessa existência, e fazem Moby parecer um criador de jingles de comercial.

Diz um velho e conhecido dito popular que os melhores perfumes vêm nos menores frascos. Pode-se contrapor que o mesmo ocorre com os piores venenos. Na noite da última quinta-feira esse dito me esteve em evidência. Dando seqüência à série “Quintas com Música“, a Fundação Eva Klabin – um distinto museu, ainda que alguns teóricos possam discordar desta ou daquela definição de “museu” –, notável espaço cultural, tanto por suas iniciativas e propostas quanto por seu espaço em si, trouxe à sua sala de música o pianista Eduardo Monteiro. Àqueles que se deixam intimidar pelo “reservas pelo telefone” ao folhear a programação musical do mês, devem, com urgência, rever suas atitudes. O que a Fundação Eva Klabin oferece ao seu público musical, a medir pelo que pôde ser visto neste evento, é algo digno de nota. Uma recepção simpática, quase intimista, num espaço mais que agradável. Tudo ocorre com a tranqüilidade de um museu, a exclusividade de uma mansão e com a simpatia de quem sabe receber pessoas.

Eva Klabin

Infelizmente Eduardo Monteiro ainda não dispensa apresentações ao grande público, mas a valer por sua carreira e seu currículo, essa demanda já deveria ter-se encerrado há tempos. É daqueles profissionais com quem não podemos fugir da seguinte construção: sua trajetória fala por si. Só para pincelar parte de seu espectro musical, vale dizer que estudou no Rio de Janeiro, na França, na Itália e nos Estados Unidos. Primeiro lugar do Concurso Internacional de Colônia (Alemanha) e Prêmio Carlos Gomes “Pianista do Ano” duas vezes, em 2004 e 2005. Não se pode negar atenção a um artista desse quilate.

O programa, graficamente muito charmoso por sinal, exibia uma larga distribuição de obras. Villa-Lobos, Leopoldo Miguez, Lorenzo Fernandez e Beethoven. A sala de música, quase em “formato de capela”, no sentido arquitetônico, é um espaço dos mais aconchegantes, contemplativo até. Eduardo Monteiro fez uma ousada e simpática apresentação oral de suas obras, apropriadíssimo para o espaço, sem ser piegas e sem proclamar “verdades supremas” sobre como interpretar esta ou aquela obra, conversando com o público, exibindo os pontos de vista de um estudioso que vai além das teclas, que suja-se com a poeira de documentos antigos e equilibra-se em escadas de biblioteca. Com forte verve historiográfica em sua “aula”, remontou ao público a imagem do que pode ser um pianista para além de sua técnica. Deixou claro que para ele não vale a máxima de Bernard Shaw de que “ensina aquele que não sabe fazer mais nada” (“He who can teaches. He who can not does.“). Evidenciou-se esta recusa, sobretudo, quando as primeiras notas puderam ser ouvidas.

Eduardo Monteiro

Em Impressões Seresteiras, seu Villa-Lobos soou rítmico, enérgico. Digo isto pois é uma peça, ou melhor, um autor, em que a questão rítmica está longe de ser simples. Esta é uma obra singular, que caracteriza um dos maiores compositores de nosso tempo. Monteiro deu esta tônica. Igualmente pode-se dizer de Homage à Chopin, do mesmo autor, magnífica, sobretudo depois de sua breve explanação sobre a obra, rara oportunidade teve o público daquele noite. A seguir o programa brindou-nos com o inspiradíssimo Noturno op. 10 de Leopoldo Miguez. Pode-se dizer o mesmo do intérprete, inspiradíssimo. Depois ouvimos os deliciosos Três estudos em forma de sonatina, que para mim é uma sonatina que nada deve a uma peça de Clementi, bem como, e Eduardo Monteiro tem razão ao dizer, o noturno de Miguez é digno de um Chopin. Pena estas obras ficarem tão afastadas das salas de concerto. Mais pesaroso é a obra de Fernandez estar afastada das salas de aula. Talvez o Miguez e o Fernandes tenham sido o ponto alto da noite, sobretudo pela originalidade de apresentá-los daquela forma. Mas este é um pensamento de quem ainda não havia ouvido a Sonata em lá maior, op. 57, a «Apassionata». É uma obra sombria, desesperada. Mostra um Beethoven atormentado, porém lírico. É uma obra de um subjetivismo imenso, um desafio para qualquer pianista e para todo espectador. Inicia-se com um grito de desespero e derrama-se, depois, em variações quase esperançosas, reflexivas, intuitivas. Seu moto perpétuo final, sobretudo no prestíssimo desfecho, é um tremendo desafio para qualquer virtuose. Os gritos de “bravo!” no final não foram gratuitos, nem frutos de cordialidade. Foram merecidos e falam, como a apresentação, por si só.

Num lugar pequeno, onde a entrada é quase exclusiva e a proximidade com o artista e o público é enorme, qualquer adição ruim, seja de um artista medíocre e/ou de um público desagradável, pode transformar-se em uma cilada infernal, incontornável, para alguém cujo único desejo é ouvir boa música e estar num lugar gostoso. Mas também nos pequenos frascos vêm os grandes perfumes. E para quem esteve na Fundação Eva Klabin na última quinta-feira, a noite foi de sândalos, e do mais ativo olor.

Muito se discute a pouca popularidade da música clássica, sobretudo entre jovens. Diante do que parece ser uma bela sacudidela cultural em nossa sociedade de consumo, onde o cinema teve papel central e marcante, sem dúvida, com belas produções nacionais há quase uma década e festivais cada vez mais consolidados, assistimos ao efervescer de livrarias (ainda que muitas vezes se contemple mais o espaço mezanino das lojas e o livro apenas como objeto cênico), cafés literários, uma inesperada renovação de espaços como a Lapa (RJ), uma cena musical – de verve tradicional e popular – como há muito não se via pela cidade em que na década de 80 o chorinho, o bandolim e o samba de raiz foram largados ao mar em nome sabe-se lá do quê.

No compasso dessa dinâmica, estão também as agendas de música clássica. Cada vez mais lotadas, com uma boa variedade de apresentações, senão para todos os gostos pelo menos para todos os bolsos. Muitas revelações, sobretudo no reduto dos instrumentos de corda cujos níveis de competitividade parecem ter superado, por ora, os padrões das acirradíssimas disputas de último nível ao piano de outrora. E não que sua majestade em preto e branco – o piano – tenha perdido a cor, ou sequer a coroa. Nelson Freire, que cada vez mais dispensa apresentações nos mais variados meios, é um incontestável sucesso internacional de público. O piano voltou à cena, e às salas de cinema, em grande estilo, no brilhante e surpreendente documentário de João Moreira Salles, “Nelson Freire”. É daqueles artistas que, sem dúvida, inspiram gerações.

No entanto, mesmo com todo esse vento a favor, assistimos a uma triste realidade: as pessoas não se aproximam da música clássica. Alguns, com razão, argumentam que as pessoas têm medo de música erudita. Que se deixam intimidar pelo eruditismo do meio, pela pompa das salas de concerto. Outros preferem aludir à chamada crise da pós-modernidade, onde o regime da alta velocidade em que ocorrem as transformações culturais impede a vigência de uma identidade contemporânea menos fluídica, mais sólida. Sob essa ótica, não seria encorajador, a partir do que se propaga na atualidade, por exemplo, perder 45 minutos para ouvir uma sonata de Beethoven ou uma sinfonia de Brahms. Outros diriam que nunca fomos tão modernos ou ainda que nunca fomos modernos. A zarpar desse emaranhado conceitual e superficial, proponho quase uma provocação: os jovens adoram música clássica, mas não sabem. Claro, os jovens é uma generalização caduca e muitas vezes desagradável, mas analisem com algum cuidado a estrutura melódica, rítmica e harmônica das mais variadas bandas de heavy-metal, ignorando, por alguns instantes, sua estética ácida e seu visual pesado. Muitos chegam, em letrinhas miúdas, a estampar no rol dos special thanks dos encartes dos álbuns nomes como Mozart, Bach, e Beethoven. Bebem nessas fontes, mesmo. Também não é raro para o rato de sala de concerto, habituado ao isolamento que tal prática às vezes o reserva, surpreender-se com um comentário entusiasmando de alguém que jamais havia ouvido Beethoven ou Chopin e que o acompanhara naquele dia. Quantas vezes me deparo com pessoas que, a despeito da boa educação que receberam em escolas e universidades prestigiadas, mal sabem o nome dos instrumentos mais óbvios.

Contam-se nos dedos as escolas ou universidades que oferecem mais que um grupinho de flautas doces ou um coral bem intencionado. Na Internet, o que se vê é um festival de raridades e de faixas fantásticas e imperdíveis diluídas num oceano de arquivos fragmentados e de origem e rótulos duvidosos, invisíveis aos menos habituados às buscas.

A inserção da música erudita no embalo desse cenário cultural atual, favorável, não se faz apenas pela boa localização de algumas salas de concerto de grandes cidades, nem com a tentativa de apresentar esta arte como a mãe suprema das outras músicas, nem com atitudes da moda como uma sinfonia no “piscinão de Ramos” ou uma presença no Municipal para ver o Nelson Freire e sair na coluna social. Assim como a música é mais que uma melodia, sua inserção na dinâmica cultural vai além de salas lotadas aos gritos de “bravo!”. Nesse sentido, interagir, de algum modo, com a obra de arte torna-se condição fundamental para que, enfim, como em outras atividades, o espectador torne-se ator, intérprete do que vê e ouve. A arte se fazer no espectador. Se Nelson Freire, e outros artistas, inspiram gerações, que sejam inspirados também gerações de espectadores. Está claro o papel desafiador da Educação que se constrói aqui. Não quero popularizar Mozart, Beethoven ou Chopin mais do que suas obras já o fazem. Mas mostrar que eles são música de hoje e não de ontem, já é um bom começo.

Patti Smith é a fusão do rock com a poesia. Seu trabalho é fortemente influenciado por Arthur Rimbaud. Com um carisma e simplicidade inegáveis, a cantora de 60 anos se apresentou no Tim Festival com a mesma energia e determinação do começo da carreira. Bastou por os pés no palco e cantar a primeira música para ganhar o público. O show é impressionante do início ao fim. É incrível ver que Patti Smith não bebe uma gota de água e alterna com facilidade a voz de trovão e o seu canto melodioso. É a técnica aliada à música e à ideologia.

Patti Smith

Patti Smith falou de igualdade, disse que não é preciso uma igreja para unir as pessoas. Dedicou músicas aos que sofrem na mão da polícia e de soldados que invadem seus países. Lembrou que a única arma que alguém precisa é uma guitarra. Comentou as eleições para presidente no Brasil e disparou o clássico “People don’t serve the government. The government serves the people”. Patti Smith é a versão original e orgânica de V for Vendetta, sem máscara, sem bombas, somente coma música.

A cantora está na estrada desde 1975. É uma artista à altura de Jim Morrison e David Bowie, nada menos que uma lenda viva. Tem mais de 10 álbuns no currículo, entre eles LAND, uma mistura de coletânea, raridades e inéditas. Ao lado de Lenny Kaye (guitarrista, uma atração a parte), a poetisa não economizou sucessos, cantando Gloria, People have the power, Free money, Say you want to be e Because the Night, entre outras. Um dos melhores shows da história do Tim Festival / antigo Free Jazz Festival).

O Mombojó mostrou no Tim Festival porque é considerado um grupo altamente criativo. Os sete integrantes misturam ritmos diversos, conseguindo uma harmonia que desafia a lógica. Uma música que começa como um rap vira um rock e ganha a flauta do chorinho. Se você  acha que está diante de um rock, de repente ouve um synthpop que logo se transforma num samba. Felipe S adapta bem a sua voz a todos os estilos. Tem potência vocal para o grunge e para o soul. Ao vivo, a sua performance e a interação do baixista Samuel são armas extras para entreter a platéia. Só pesou contra o palco armado para Patti Smith e Yeah Yeah Yeahs, o que deu uma potência exagerada às músicas, desviando um pouco da identidade musical do grupo.

Mombojó

O Mombojó já lançou dois discos, Nada de novo e Homem-espuma. Como são defensores da troca livre de arquivos pela rede, todas as faixas dos cds estão disponíveis para download no site do grupo.

Jay Vaquer está fazendo uma mini-turnê no Teatro Odisséia, no Rio de Janeiro. Apesar dos problemas técnicos inerentes ao lugar, o cantor conseguiu exibir o potencial pop-rock do seu trabalho, lotou a casa e deixou boas impressões.

Jay Vaquer é performático, canta de verdade (o que hoje em dia é um diferencial) e é acompanhado por músicos de primeira. O repertório inclui todas as músicas de trabalho até o momento – A miragem, Aponta de um iceberg, Pode agradecer, Cotidiano de um casal feliz e A falta que a falta faz – passeando pelos 3 cds do cantor.

Jay Vaquer

De bônus, há a projeção dos videoclipes, um cover de Condição (Lulu Santos), e o coro dos fãs desde a primeira até a última música.

Destaque também para a versão reformulada de Mais um dia.

Imagine se Mulher Maravilha trabalhasse no Cirque du Soleil e berrasse como o Marilyn Manson uma espécie de recital dos Teletubbies. Assim é o Yeah Yeah Yeahs, atração EMO do Tim Festival. Muito se fala da performance da vocalista Karen O e muito pouco sobre o seu talento como cantora. Isso não é por acaso. Cobrir a cabeça com panos e cuspir pro alto talvez seja mesmo uma apresentação visceral, já que parte de suas vísceras devem estar no palco até agora. Karen O está muito além da banda. É seu “talento” que move o sucesso do grupo, com dois CDs lançados, Fever to tell e Show your bones. Não é raro que durante a apresentação, apesar do barulho ensurdecedor, nenhum dos integrantes esteja tocando os instrumentos. A voz de Karen O também é inaudível, até que ela resolva berrar desesperadamente ou interagir com seu público de réplicas mirins falando “Fiesta Tonight”.

O rock EMO divide atualmente as rádios americanas com os rappers. Aqui no Brasil, tem fãs incontestáveis que usam os cortes de cabelo e roupas idênticos e se comportam de forma similar, sem muito interesse no que acontece no restante do mundo.

YYY

O Yeah Yeah Yeahs é considerado a grande promessa do futuro. Talvez seja como o Brasil, o país do futuro que nunca chega. Se o grupo já encontrou seu perfil de atitude, é hora de entender que a música deve ser mais importante que o penteado, e evitar correr o risco de virar uma Britney Spears de gel e piercing. Pensando bem, o piercing a Britney já tem. Só falta o gel.

YYY

Por fim, uma injustiça deve ser corrigida. Grupos como o Yeah Yeah Yeahs não têm nada de atitude punk. O punk rock ganha em ideologia, atitude e qualidade musical desse estilo EMO de ser, um subgênero do hardcore, ligeiramente alterado para ser palatável às rádios e às massas.

Robbie Williams fez parte da insuportável boy band Take That. Contrariando expectativas, firmou-se em carreira solo como o grande nome da música pop inglesa. Apesar de toda a atitude no palco, o cantor está mais para um criador de bons singles do que um músico de bons álbuns. Seu Greatest Hits tem diversos pontos altos, mas infelizmente sobra pouco para se garimpar nos cds que o originaram. Em Rudebox, o segundo após a coletânea, Robbie Williams aproxima seu pop da dance music, homenageia (ao seu modo) Madonna e Pet Shop Boys e grava covers do Human League e do Manu Chao.

Robbie Williams

Seguindo a regra dos álbuns anteriores, Rudebox não consegue se sustentar durante as 16 faixas. As músicas interessantes surgem quando o cantor se dilui diante das influências. Bons exemplos são Summertime, um mergulho na sonoridade do Erasure, Lovelight, que se apropria das batidas do Prince, e The Actor, um híbrido de Pet Shop Boys e Kraftwerk.

Muito se fala dos eixos musicais do Cidade Negra e do estilo perdido. O fato é que o grupo que se encontrou na base do reggae decidiu ir além, domou o pop, conheceu a eletrônica, buscou o peso das guitarras e expandiu seus horizontes. Nesse território de fronteiras amplas (para alguns conhecido como mpb), o Cidade Negra esculpe boas canções. Sem viver do passado ou renegar as raízes, o grupo resolveu comemorar 20 anos de carreira lançando o DVD e CD ao vivo, Direto. Faixas como “A sombra da maldade” e a “A Estrada” se encaixam no contexto do DVD, mas é impossível não perguntar se o registro em CD não se tornou repetitivo (é a quarta vez que as músicas entram em cds do grupo).

Cidade Negra

Direto está repleto de antigos sucessos e novidades, contando com um medley com os Paralamas do Sucesso e duetos com Lulu Santos, duas grandes referências do Cidade Negra. É uma boa oportunidade de conferir se o grupo realmente se perdeu ou se encontrou no meio de sua trajetória. Destaque para “Hoje” e “O paraíso tem um tempo bom”.

Sarah Brightman é uma máquina de coletâneas. Com um repertório extenso, vive recuperando antigos registros musicais. A cantora que ficou conhecia como a voz de Fantasma da ópera acaba de lançar Diva: The Singles Collection. O CD inclui fases diversas da sua carreira, unindo Phantom of the opera e Music of the Night (ambas do musical de Andrew Lloyd Webber) a músicas de todos os demais cds. Estão lá Deliver me, Time to say goodbye e Who Wants to Live Forever, entre outros. Como uma das características mais interessantes de Sarah Brightman é misturar clássicos com sonoridades modernas, você pode conferir a Question of Honor que mistura rock com a aria La Wally de Alfredo Catalani, e It’s a beautiful day que une Un Bel di de Puccini a beats eletrônicos do Oriente Médio.

Sarah Brightman

Se você já tem a coletânea Classics (teoricamente exclusiva para a Europa), dispense Diva. Como o repertório ficou enxuto demais e os preços dos CDS estão cada vez mais altos, talvez valha a pena juntar mais um pouco e comprar o extravagante (às vezes brega) DVD ao vivo de Harem. Uma coletânea muito mais fiel à carreira da cantora.

Giovanni Pellino, mais conhecido como Neffa, se confunde com a história dos gêneros musicais na Itália. Depois de estourar na cena hip-hop com o grupo Sangue Misto, no cd SXM, e seguir carreira solo no rap até 2001, Neffa decidiu explorar outros ritmos e firmar uma nova identidade.

Misturou o soul com o reggae, deu uma batida funky à bossa nova, pegou carona na lounge music e assim trilhou um caminho realmente criativo. Seu álbum atual, Alla fine della notte, é mais uma prova dessa múltipla sonoridade e já rendeu duas músicas de trabalho – a dançante Il mondo nuovo e o pop orgânico de Cambierà, que ganhou o reforço de um simpático clip 3D. Um grande destaque de seu currículo é o cd I molteplici mondi, que traz a bossa nova Quando finisce così (imperdível) e o soul-retrô Vieni com me.

Neffa

Quando Finisce Così – NeffaTu che sei lontana ormai
io che dormo poco e percio’
stasera faccio tardi
e penso che ti scrivero’…

Solamente chi non ha luce
per vedere non puo’
Ma in fondo tu lo sai
tutto puo cambiare pero’…

Quando finisce cosi’
non finisce cosi’
Quando finisce cosi’
rimane tutto cosi’

Vorrei scriverti
forse addio per sempre
o forse torna presto qui

Una notte se ne va
Lenta quando ha perso la via

E bevo il mio rimpianto
e fumo la mia nostalgia
E potrei uscire un po’
tanto va a finire che poi
mi sento piu’ solo e parlo sempre di noi…

Quando finisce cosi’
non finisce cosi’
Quando finisce cosi’
rimane tutto cosi’

Vorrei scriverti
forse addio per sempre
o fose torna presto qui

E mi chiedo ancora se tu
resti fuori con la luna
o ti senti sola se finisce cosi…

Vorrei scriverti
forse addio per sempre
o forse torna presto qui…

Quando finisce cosi….

Diferente do que o nome pode sugerir, dEUS não é um grupo de música gospel. O quinteto belga de rock alternativo está no cenário musical desde 1994 e faz um dos melhores sons da atualidade. Com uma criatividade acima do comum, Tom Baarman, Klaas Janzoons, Stéphane Misseghers, Mauro Pawlowsky e Alan Gevaert arrancam dos vocais, violino, bateria, guitarra e baixo uma sonoridade própria que faz as bandas EMO americanas soarem como o lixo industrial que realmente são.

dEUS
Às vezes com um som mais orgânico, às vezes mais distorcido, Pocket revolution, seu quinto álbum, é uma caixa de surpresas com diversos bons momentos. Os destaques ficam por conta de Cold sun of circumstance, a hipnótica Stop-Start Nature e a lenta 7 days, 7 weeks. Se achar a primeira faixa cansativa, não desanime, siga em frente. dEUS tem uma coletânea de 2001 chamada No more loud music.

7 days, 7 weeks
Here comes the sun smiling
How long have you been blue?
There’d ever be a time for us to recapture
All the time we lose (I want to give that to you)

dEUS
dEUS – Roses @ Youtube
dEUS – Via @ Youtube
Carmen Consoli

Carmen Consoli nasceu em 1974 e ganhou espaço no cenário italiano em 1995 gravando a canção “L’animale” num tributo a Franco Battiato. Com essa participação, chamou a atenção da gravadora Cyclope e no ano seguinte lançou o álbum Due Parole. Desde então, seu timbre melancólico inconfundível é uma das referências do rock italiano contemporâneo. Seu atual trabalho é Eva contro Eva, que traz 10 canções inéditas e mostra forte influência do álbum anterior, o acústico MTV Um Sorso in Più. Dois grandes momentos de “Eva” são as canções Madre Terra, com participação da cantora beninense Angelique Kidjo, e Maria Catena, que atualiza a sonoridade clássica italiana. Carmen Consoli tem 9 álbuns no currículo, entre eles o ao vivo L’anfiteatro e La bambina impertinente (cd e dvd) gravado no antigo teatro grego de Taormina (Sicília), uma boa opção para quem ainda não conhece a cantora.

Carmen Consoli

Primo fra tutti il ricorso sfrenato
al pettegolezzo imburrato infornato e mangiato
quale prelibatezza e meschina delizia per palati volgari
larghe bocche d’amianto fetide come acque stagnanti“   (Maria Catena)

Você conhece Moda de Viola? Não? Deveria.

O som da viola caipira é muito bonito e a própria tradição dos violeiros é um aspecto da cultura brasileira que deve ser preservado. A tradição da viola caipira precisa ser cultivada, contada, recontada, exaltada, cantada e tocada. Tradição e cultura nunca saem de moda. Ou não deveriam sair.

Diferente dessa música comercial horrível, chamada popularmente de “breganejo”, a música “de raiz” é reflexo da cultura popular e riquíssima. Nomes como o da matogrossense Helena Meirelles, são conhecidos e reverenciados pelos músicos sérios de todo o mundo. Em 1993 a revista norte-americana Guitar Player escolheu-a como uma das “100 mais” por sua atuação nas violas de 6, 8, 10 e 12 cordas. Vale a pena conhecer o documentário sobre sua vida: Helena Meirelles, A Dama Da Viola (75 min, 2004, direção: Francisco De Paula. Fotografia: José Guerra. Edição: Marcos Kacherian, Clayton Viana e Ana Claudia Streva.).

A quatro anos, pelo interior de São Paulo, há um festival chamado “Viola de Todos os Cantos”, que exibe e premia músicos de todas as categorias de violeiros, de todas as regiões do Brasil. A quarta edição do festival, agora em 2006, já teve algumas etapas eliminatórias e a grande final, que acontece em 22 de agosto, na cidade de Limeira, apresentará ainda shows de Mazinho Quevedo e Kleiton & Kledir.

Não é possível supor um ensino de arte sem o conhecimento e valorização das tradições culturais de um povo.

Fernanda PortoFernanda Porto, além de flertar com programações de música eletrônica, também é multi-instrumentista. Durante os shows é comum vê-la tocando piano, guitarra, violão, maracatu e o tradicional saxofone. Esse drum’n’bass orgânico que se rende a sonoridades variadas é a marca do primeiro registro ao vivo da cantora. Das 19 canções, 10 são inéditas. Estão lá suas leituras de Só tinha que ser com você e Roda Viva, e o remix de Sampa (aquela em que Caetano Veloso canta “alguma coisa acontece no meu coração”), presente nos shows, mas até então ausentes em CD. Um dueto inusitado e deveras agradável traz Daniela Mercury em Desde que o samba é samba (outra de Caetano Veloso) e na clássica Tudo de bom. Da enxurrada de novidades, os pontos altos são Coco sem água e Samba a dois, com letras e melodias feitas sob medida. Certamente merecerão uma segunda ouvida, ao final do DVD.

Jay Vaquer

Do primeiro álbum, um grande teste de gêneros, Jay Vaquer trabalhou duas músicas. A miragem e Aponta de um iceberg tiveram direito a clipes na MTV e certa divulgação nas rádios. No segundo cd, Vendo a mim mesmo, Jay Vaquer explorou sonoridades experimentais, lançou o clipe de Pode agradecer e cumpriu a promessa do título, fechando contrato com a EMI. Desde então, divulga Você não me conhece, uma evolução natural do seu estilo pop/rock. O cd já teve direito a um hit nas rádios (Cotidiano de um casal feliz), com letra sarcástica sobre um casal símbolo da cultura hipermodernista degenerada. A força do álbum são as músicas mais rápidas, que expressam melhor o fogo verbal do cantor. Além da atual música de trabalho, A falta que a falta faz, outras faixas de destaque são Mondo Muderno (D Mierda) e a pérola poética Quando Fui Fred Astaire.

Você não me conhece (trecho)

na sua ironia burra, dou cabo
meu bem, nem tô passando pires, nem babo
enfie sua vida cor-de-rosa no rabo
pro diabo…você não me conhece
mas me ama pra sempre pq te convém
desaparece
se pinta outro atalho
não sou mais ninguém

Já estava na hora. Brilhante iniciativa do Concurso Internacional de piano Arthur Rubinstein de Israel: fazendo o uso de uma câmera fixa, agora podemos assistir aos seis laureados via computador. Claro, algumas coisas ainda podem ser aprimoradas. Esta novidade acontece agora na 11ª edição do certame. Os vídeos só podem ser vistos on-line. Segue o link: http://www.arims.org.il/video/index.html